UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO ­ UFES
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS ­ CCHN
DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA ­ DEPGEO

THALISMAR MATIAS GONÇALVES

A DINÂMICA DO ESPAÇO URBANO: UM ESTUDO SOBRE
O BAIRRO PARQUE RESIDENCIAL LARANJEIRAS,
SERRA-ES

VITÓRIA
2007

THALISMAR MATIAS GONÇALVES

A DINÂMICA DO ESPAÇO URBANO: UM ESTUDO SOBRE
O BAIRRO PARQUE RESIDENCIAL LARANJEIRAS,
SERRA-ES

Monografia
apresentada
ao
Departamento de Geografia, Centro de
Ciências Humanas e Naturais, da
Universidade Federal do Espírito
Santo, como requisito para a obtenção
do grau de Bacharel em Geografia.
Orientador: Prof Dr Carlos Teixeira
de Campos Jr.

VITÓRIA
2007


[email protected]

THALISMAR MATIAS GONÇALVES

A DINÂMICA DO ESPAÇO URBANO: UM ESTUDO SOBRE
O BAIRRO PARQUE RESIDENCIAL LARANJEIRAS,
SERRA-ES

Monografia apresentada ao Departamento de Geografia, Centro de Ciências
Humanas e Naturais, da Universidade Federal do Espírito Santo, como
requisito para a obtenção do grau de Bacharel em Geografia.

Aprovada em 05 de julho de 2007

BANCA EXAMINADORA

Profº Drº Carlos Teixeira Campos Júnior
Universidade Federal do Espírito Santo
Orientador

Profª Drª Gisele Girardi
Universidade Federal do Espírito Santo

Profº Ms Maurício Sogame
Universidade Federal do Espírito Santo

AGRADECIMENTOS
Reservo este espaço para agradecer as pessoas e as instituições que
certamente contribuíram de alguma forma não só para essa pesquisa, mas
também para a minha graduação. Neste sentido, agradeço:
aos professores do Departamento de Geografia e aos professores do Centro
de Educação que deram aulas para mim;
ao Prof Dr Carlos Teixeira Campos Júnior pelas sugestões e discussões no
decorrer da orientação desse trabalho;
à Profª Drª Gisele Girardi por sua amizade e por ter me proporcionado um
pouco de conhecimento em cartografia;
à turma de Geografia 2002/2 por ter me proporcionado momentos de alegria e
amigos para a vida toda: Diogo, Emerson, Fernando Caus, Paulo César,
Rodrigo Lamas, Marliusson, Ana Maria, Laura, Ronaldo etc
à Laura Quarentei, mais uma vez, pela ajuda na revisão da redação da
monografia;
aos meus irmãos Theles e Thalita que me ajudaram, inclusive, na coleta de
dados de campo;
à Patrícia, minha namorada, que ouviu, com toda paciência, as minhas idéias
no decorrer desta pesquisa, e também pelo incentivo incondicional em relação
aos meus desafios;
às pessoas que responderam a pesquisa de campo;
à secretaria de Desenvolvimento Urbano da Prefeitura Municipal da Serra pelos
dados referentes a situação fundiária do município;
ao Departamento de Trânsito da Serra por importantes informações históricas
sobre as vias municipais e também por ter concedido as bases cartográficas
digitais de Serra;
ao IPES pelo importante acervo de dados e informações sobre a Grande Vitória
e Serra, pelo excelente tratamento dispensado pelas funcionárias da Biblioteca
e também pelo material cartográfico cedido;
à CETURB-GV pelas informações sobre as linhas de ônibus de Serra;
à Biblioteca Comunitária de Laranjeiras por importantes dados e informações
históricas, e atuais, sobre o bairro;
e, por fim, aos meus queridos pais, Tales do Nascimento Gonçalves e Maria
José Matias Gonçalves, por terem sempre me incentivado a estudar, além do
respeito que tiveram por mim, na maioria das vezes, em relação as minhas
escolhas na vida.

"[...] eu vejo o futuro repetir o passado,
eu vejo museu de grandes novidades, o
tempo não pára, não pára, não, não
pára [...]."
Cazuza

RESUMO
Esta pesquisa objetiva contribuir, em um contexto geral, com a compreensão
da dinâmica atual do espaço urbano de Serra. Nesse sentido, a investigação
voltou-se para o bairro Parque Residencial Laranjeiras, Serra-ES. Esse bairro
originou-se de um conjunto habitacional do INOCOOP-ES, em 1978, e
constitui-se, atualmente, em um dos lugares da RMGV que concentram, de
forma significativa, atividades terciárias, o que o caracteriza como um
subcentro terciário. Deste modo, procurou-se entender o processo de
transformação de Laranjeiras no decorrer do tempo, no que tange as suas
formas e a sua função no espaço urbano de Serra. Para tanto, recorreu-se a
análise da produção do espaço urbano de Serra, contextualizando com o
espaço metropolitano de Vitória, por meio de bibliografias, dados estatísticos e
materiais cartográficos. Além disso, utilizou-se dados primários a partir de
pesquisa de campo. Tal análise foi subsidiada por uma concepção de espaço
urbano enquanto produto histórico e social. Com isso, pôde-se constatar que a
emergência de Laranjeiras como subcentro terciário está associada, em um
primeiro momento, a acessibilidade diferenciada que esse bairro ganhou no
inicio da década de 90, em função de intervenções do poder público na malha
viária de Serra e na estruturação do transporte público metropolitano (Sistema
Transcol). No transcorrer dos anos, as atividades terciárias sofreram uma
expansão qualitativa e quantitativa em Laranjeiras, especialmente, após 2000,
tornando esse lugar cada vez mais atrativo para o capital comercial (varejista) e
imobiliário. Esse último, recentemente, vem se manifestando, de forma
marcante, no entorno do bairro em questão, evidenciando desdobramentos do
processo em tela.

Palavras-Chaves:

Espaço

Urbano;

Residencial Laranjeiras; Serra-ES.

Descentralização

Espacial;

Parque

LISTA DE FIGURAS E TABELAS
RELAÇÃO DE FIGURAS
Figura 1 ­ Trecho da Avenida Central, Laranjeiras, agosto de 2006............... 14
Figura 2 ­ Vista parcial do Shopping do Povo, 2007........................................ 66
Figura 3 ­ Vista parcial do Laranjeiras Shopping, 2007.....................................80
Figura 4 ­ Vista parcial de trecho da Avenida Central, 2006.............................83
Figura 5 ­ Vista parcial de trecho da Rodovia Norte-Sul que passa por
Laranjeiras, 2006...............................................................................................84
RELAÇÃO DE TABELAS
Tabela 1 ­ Evolução da população dos municípios da Grande
Vitória: 1950 -1960.............................................................................................30
Tabela 2 ­ Evolução demográfica da Grande Vitória: 1970 a 2000................. 35
Tabela 3 ­ Taxa de crescimento da população dos municípios da
Grande Vitória: 1970 a 2000..............................................................................41
Tabela 4 ­ Conjuntos Habitacionais implementados na Grande Vitória............51
Tabela 5 ­ Evolução da população dos municípios da Grande Vitória:
1991 a 2000.......................................................................................................74
Tabela 6 ­ Evolução do número de linhas alimentadoras do Terminal de
Laranjeiras.........................................................................................................75

RELAÇÃO DE QUADROS
Quadro 1 ­ Números sobre as atividades terciárias na Avenida Central,
em Laranjeiras...................................................................................................13
Quadro 2 ­ Importantes eventos industriais no território de Serra
até meados de 1980..........................................................................................41
Quadro 3 ­ Registros de áreas destinadas à habitação....................................53
Quadro 4 ­ Terminais de integração do Transcol..............................................65
Quadro 5 ­ Relação de estabelecimentos presentes na Av. Central
em meados de 1990..........................................................................................72
Quadro 6 ­ Tempo médio de atuação dos estabelecimentos do
comércio varejista em Laranjeiras.....................................................................73
Quadro 7 ­ Fluxo diário de passageiros nos terminais do Transcol
em 1998.............................................................................................................75
Quadro 8 ­ Relação com a data de inauguração de alguns
importantes estabelecimentos de eletrodomésticos, roupas e tecidos.............76
Quadro 9 ­ Relação com a data de inauguração de algumas lojas
de calçados e óticas..........................................................................................77
Quadro 10 ­ Relação dos principais estabelecimentos de serviços
financeiros em Laranjeiras -2006.......................................................................78
Quadro 11 ­ Relação com as datas de inauguração de filiais de escolas de
línguas estrangeiras e escolas profissionalizantes............................................78

LISTA DE MAPAS
Mapa 1 ­ Localização do bairro P. R. Laranjeiras.............................................12
Mapa 2 ­ Evolução demográfica dos municípios da GV, entre 1950 e
1970, e a taxa de urbanização da população em 1970.....................................33
Mapa 3 ­ Evolução demográfica dos municípios da GV, entre
1970 e 2000, e a taxa de urbanização da população em 2000.........................37
Mapa 4 ­ Delimitação atual dos Distritos do município de Serra.......................39
Mapa 5 ­ Expansão do espaço urbano de Serra...............................................44
Mapa 6 ­ Modelo Digital do Terreno de uma porção do território de Serra.......47
Mapa 7 ­ A mancha urbana e as vias rodoviárias de Serra em 1977...............49
Mapa 8 ­ Localização e evolução temporal da implantação
de conjuntos habitacionais em Serra.................................................................52
Mapa 9 ­ Evolução da estrutura viária de Serra................................................58
Mapa 10 ­ Posição do bairro P. R. Laranjeiras na malha rodoviária
de Serra no final dos anos 80............................................................................59
Mapa 11 ­ Configuração das linhas de ônibus intermunicipais da
Grande Vitória na da década de 1980...............................................................61
Mapa 12 ­ Esquema tronco-alimentador das linhas de ônibus do Transcol...64
Mapa 13 ­ Contextualização espacial do terminal de Laranjeiras,
shopping do Povo e Avenida Central.................................................................68
Mapa 14 ­ Mapa com a distribuição e intensidade do uso do
solo pelas atividades terciárias em Laranjeiras.................................................82
Mapa 15 ­ As novas linhas diametrais que passam por Laranjeiras................88
Mapa 16 ­ Distribuição espacial dos empreendimentos imobiliário
de médio padrão no final de 2006.....................................................................90

LISTA DE SIGLAS

CETURB-GV - Companhia de Transportes Urbanos da Grande Vitória
CIVIT - Centro Industrial da Grande Vitória
COHAB-ES - Companhia de Habitação do Espírito Santo
CST - Companhia Siderúrgica de Tubarão
CVRD - Companhia Vale do Rio Doce
DIT - Divisão Internacional do Trabalho
DTT - Divisão Territorial do Trabalho
INOCOOP- ES - Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais do
Espírito Santo
IPES ­ Instituto de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento Jones Santos
Neves
PDTU-GV - Plano Diretor Transporte Urbano da Grande Vitória
RMGV - Região Metropolitana da Grande Vitória
SUPPIN - Superintendência dos Projetos de Polarização Industrial

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 11
1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ............................................................................. 18
1.1 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES ACERCA DA REDE URBANA E DO
PROCESSO DE URBANIZAÇÃO .......................................................................... 18
1.2 ESPAÇO URBANO ......................................................................................... 22
1.3 PROCESSOS NA CIDADE E A LOCALIZAÇÃO DAS ATIVIDADES
TERCIÁRIAS NO ESPAÇO URBANO ................................................................... 24
2.1 PRIMEIRA FASE DA URBANIZAÇÃO DA GRANDE VITÓRIA ....................... 29
2.2 A URBANIZAÇÃO COMANDADA PELA INDUSTRIALIZAÇÃO ....................... 34
3 SERRA: A INSERÇÃO DE SEU TERRITÓRIO NA LÓGICA DO ESPAÇO
METROPOLITANO ................................................................................................... 39
3.1 SERRA, UM ESPAÇO URBANO MARCADO PELA DESCONTINUIDADE .... 45
3.1.1 O sítio natural ............................................................................................ 45
Mapa 6 ­ Modelo Digital do Terreno (MDT) de parte do território de Serra ....... 47
3.1.2 O sistema viário e os bairros de Serra, até a primeira metade da década
de 80 .................................................................................................................. 48
4 INTERVENÇÕES NA MALHA RODOVIÁRIA DE SERRA E O SISTEMA
TRANSCOL: REDEFINIÇÃO DA ACESSIBILIDADE NO ESPAÇO URBANO ....... 55
4.1 INTERVENÇÕES NA ESTRUTURA VIÁRIA DO ESPAÇO URBANO DE
SERRA .................................................................................................................. 55
4.2 SISTEMA TRANSCOL: ANTECEDENTES E PRÓPOSITO DE
IMPLEMENTAÇÃO ................................................................................................ 60
5 LARANJEIRAS: DE CONJUNTO HABITACIONAL A EMERGENTE
SUBCENTRO TERCIÁRIO DA GRANDE VITÓRIA ................................................. 69
5.1 MAIS UM CONJUNTO HABITACIONAL, MAIS UM BAIRRO DE SERRA... ... 69
5.2 DÉCADA DE 1990: CRESCIMENTO DO COMÉRCIO VAREJISTA ............... 72
5.3 SHOPPING CENTER, BANCOS, FINANCEIRAS, LOJAS DE GRAMDES
REDES... SURGIMENTO DE UM SUBCENTRO TERCIÁRIO METROPOLITANO
............................................................................................................................... 76
5.4 O ESPAÇO URBANO E SUA DINÂMICA, LARANJEIRAS E AS
TRANSFORMAÇÕES RECENTES DO ESPAÇO DE SERRA.............................. 85
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 91
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 94
OUTRAS FONTES .................................................................................................... 95
BASE CARTOGRÁFICA DIGITAL ........................................................................... 96
ANEXOS ................................................................................................................... 97

GONÇALVES, Thalismar M. A Dinâmica do Espaço Urbano: um estudo sobre o bairro Parque
Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

INTRODUÇÃO

Um dos objetos de preocupação da geografia é a cidade, ou melhor, o seu espaço.
Em um primeiro momento de apreensão desse espaço, um padrão marcado pela
heterogeneidade se impõe. Esta constatação, por sua vez, se evidencia no próprio
cotidiano. Nos deslocamentos diários, seja a pé, de carro, de bicicleta ou de ônibus,
o que chama a atenção são as diferentes paisagens que compõem tal aspecto da
realidade urbana.
Outra característica do espaço urbano, que também pode ser constatada no dia-adia, é o seu caráter dinâmico. Não é difícil presenciar a abertura de uma via urbana,
a construção de um prédio, a demolição de uma velha habitação etc. Enfim, o
espaço da cidade está a todo o momento sendo produzido e organizado (CORRÊA,
1989).
Se não é tão difícil identificar o padrão diferencial do uso do solo urbano, bem como
o seu caráter dinâmico, o mesmo não se pode afirmar em relação aos processos
que permeiam a estruturação e a produção do espaço urbano. Neste sentido, alguns
questionamentos tornam-se elucidativos, o que faz, por exemplo, que em
determinada porção da cidade haja uma concentração de prédios com mais de 8
andares? Ou por que, geralmente, os bairros nobres possuem mais equipamentos
coletivos que os bairros populares? Por que as indústrias localizam-se na área X da
cidade e não na Y? Entre outras questões que poderiam ser elaboradas.
O presente trabalho procura estudar essa problemática da geografia urbana a partir
da compreensão do processo que promove as recentes mudanças no bairro Parque
Residencial Laranjeiras1 (Mapa 1), localizado no município de Serra/ES, que
pertence, por sua vez, a Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV).
Esse bairro, assim como outros do município, originou-se de um conjunto
habitacional promovido pelo Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais
do Espírito Santo (INOCOOP-ES), e a sua inauguração ocorreu em março de 1978.

1

Para efeito prático, no decorrer deste trabalho o bairro em questão será chamado apenas por
Laranjeiras.

11

GONÇALVES, Thalismar M. A Dinâmica do Espaço Urbano: um estudo sobre o bairro Parque
Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

Mapa 1 - Localização do bairro Laranjeiras.

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Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

Laranjeiras tem chamado atenção pela presença marcante de estabelecimentos
ligados às atividades terciárias; basicamente, comércio varejista e serviços
profissionais e financeiros. Em virtude das características 2 e da intensidade dessas
atividades (Quadro 1), pode-se afirmar, em um contexto metropolitano, que esse
local constitui-se, atualmente, em um subcentro terciário. Essa condição, ou função,
vem intensificando-se nos últimos anos, e um indicador dessa tendência, de certa
maneira, pode ser considerada a inauguração de um Shopping Center em 2002.

Ramo de atividade

Quantidade

Eletrodomésticos/Móveis

10

Financeiras

7

Bancos

5

Calçados

10

Roupa/Moda em Geral

60

Clínicas médicas ou
Odontológicas

39

Advocacia

6

Contabilidades

7

Óticas

9

Celular

6

Joalheria/relojoaria/Bijouteria

12

Quadro 1 - Números sobre as atividades
terciárias em Laranjeiras, na Avenida Central.
Fonte: Pesquisa de Campo (2006)

Ao longo da principal avenida, a Avenida Central (Figura 1), observa-se a
predominância de estabelecimentos relacionados às atividades terciárias, contudo,
nota-se também vestígios de um momento anterior como casas ainda com "estilo
arquitetônico" de conjunto habitacional. De modo específico, o que se destaca é o
processo de transformação das casas em lojas ou pequenos prédios, enfim, a
2

Segundo Duarte (1974), um centro funcional (subcentro terciário) caracteriza-se pela presença de
atividades terciárias que exerçam forte atração, em um determinado local. Neste sentido, um
subcentro terciário destaca-se pela multiplicidade de funções, isto é, pela presença de comércio
varejista de todas as ordens, serviços profissionais, serviços financeiros e serviço recreativo.
Laranjeiras, atualmente, obedece a esses critérios.

13

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Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

maneira como as velhas formas do bairro se adaptaram e se adaptam a esse novo
momento. "[...] Cada forma sobre a paisagem é criada como resposta a certas
necessidades ou funções do presente" (SANTOS, 1985, p. 54).

Figura 1 - Trecho da Avenida Central, Laranjeiras, agosto de 2006.
Fonte: foto do autor.

O principal objetivo deste trabalho é compreender o processo de transformação de
Laranjeiras em um subcentro terciário. Por que as atividades terciárias localizam-se,
de maneira mais intensa e significativa, neste bairro e não em outro bairro de Serra?
A modificação das formas e da função de Laranjeiras procurou ser apreendida,
fundamentalmente, como produto do processo de descentralização espacial 3
(CORRÊA, 1989). Esse processo espacial é o responsável pelo surgimento de
núcleos secundários na metrópole moderna, e está associado ao crescimento do
tecido urbano e ao aprimoramento do transporte, relacionados de maneira
subjacente a interesses das várias frações do capital, seja industrial, comercial ou
imobiliário.

3

A fundamentação teórica, incluindo o processo espacial de descentralização espacial, será discutida
no capítulo 1.

14

GONÇALVES, Thalismar M. A Dinâmica do Espaço Urbano: um estudo sobre o bairro Parque
Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

De modo a responder à questão central, considerou-se o espaço urbano "[...]
resultado de ações acumuladas através do tempo, e engendradas por agentes que
produzem e consomem espaço." (Ibid., p.11). Aqui, evidencia-se um importante
aspecto da metodologia desta pesquisa que é a análise histórica. No entanto,
Santos ressalva que "[...] o objeto de estudo é o presente, toda a análise histórica
sendo, apenas, o indispensável suporte à compreensão de sua produção". (1985, p.
19)
Enquanto hipótese de trabalho, acredita-se que as transformações de Laranjeiras,
decorrentes de sua função atual de centro terciário de Serra, deve-se, em um
contexto geral, à própria condição recente do espaço da RMGV. Neste sentido, em
virtude das mudanças quantitativas e qualitativas dessa metrópole (ABE,1999),
especialmente nos últimos 20 anos, a estruturação monocêntrica exercida pela Área
Central de Vitória é rompida.
De forma específica, o processo de transformação de Laranjeiras de um bairro
estritamente residencial da periferia da Grande Vitória a um subcentro terciário, está
associado, em um primeiro momento, as intervenções do poder público na
estruturação de transporte público metropolitano, o que conferiu a esse bairro uma
acessibilidade diferenciada no inicio da década de 1990. Assim, as atividades
terciárias, que eram voltadas, sobretudo, para o consumo local/cotidiano, foram
dando lugar ao comércio varejista e aos serviços mais complexos e/ou
especializados.
Com o passar do tempo, esse bairro foi se constituindo em nova centralidade intraurbana na Grande Vitória, atraindo cada vez mais investimentos e modificando,
consequentemente, suas formas. Esta centralidade intra-urbana intensificou-se,
inclusive, com o continuo aumento da população de Serra nos últimos 15 anos, o
que refletiu no incremento do público consumidor em potencial.
Outro elemento importante, neste processo, foi à ausência de outro local no
município com características que pudessem competir com este bairro os
investimentos do setor terciário.

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GONÇALVES, Thalismar M. A Dinâmica do Espaço Urbano: um estudo sobre o bairro Parque
Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

Já como conseqüência da consolidação deste bairro como centro terciário observase a valorização das áreas do entorno, atraindo as atividades imobiliárias,
evidenciando desdobramentos das transformações espaciais do lugar em questão.
Partindo da hipótese inferida, quatro objetivos específicos se impõem: apresentar,
em linhas gerais, o processo de urbanização da Grande Vitória, contextualizando o
município de Serra; caracterizar o processo de produção do espaço urbano de
Serra; procurar entender como se deu a estruturação do transporte urbano na
Grande Vitória, bem como seu impacto sobre a acessibilidade do espaço urbano de
Serra, especialmente, em Laranjeiras; levantar, de forma sistemática, a evolução
quantitativa e qualitativa das atividades terciárias no bairro em tela, no decorrer de
sua história.
Quanto aos procedimentos metodológicos, esses se subdividem, de forma sucinta,
em três etapas:
I. Discussão teórica, enquanto subsidio essencial para a compreensão da
realidade estudada. Sendo assim, recorreu-se, sobretudo, a autores que
estudam o espaço urbano por um viés dialético-marxista, com destaque
especial para o trabalho de Corrêa (1989 e 1997);
II. Levantamento bibliográfico, cartográfico4 e estatístico sobre o processo de
produção do espaço urbano da Grande Vitória e, em particular, do espaço
urbano de Serra. Incluindo, aqui, uma atenção especial para as formas de
atuação do poder público a partir da década de 1980, no que tange ao
transporte urbano;
III. Levantamentos, e análise, de dados primários e secundários acerca do bairro
de Laranjeiras, especialmente referente às atividades terciárias desenvolvidas
no passado e recentemente.
O presente trabalho estrutura-se em cinco capítulos, a saber: no capítulo 1 são
apresentados os elementos teóricos referentes à pesquisa. O processo de
urbanização da Grande Vitória, em linhas gerais, é discutido no capítulo 2. No
capítulo 3, procura-se compreender a produção do espaço urbano de Serra.
4

Nesta etapa da pesquisa, utilizou-se mapas temáticos elaborados a partir do software Arc Gis da
ESRI.

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Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

No quarto capítulo, dois aspectos são abordados: as intervenções na malha
rodoviária do município de Serra, na segunda metade dos anos 1980, e a
estruturação dos transportes coletivos da Grande Vitória entre o final da década de
1980 e o início da década de 1990. Esta abordagem, por sua vez, volta-se,
sobretudo, para a compreensão dos impactos desses acontecimentos sobre a
acessibilidade do espaço urbano de Serra. No quinto capítulo, procura-se
reconstituir o processo de transformação deste bairro, desde sua origem até o seu
papel atual no espaço urbano de Serra, e da Grande Vitória. E por fim, as
considerações finais são apresentadas.

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GONÇALVES, Thalismar M. A Dinâmica do Espaço Urbano: um estudo sobre o bairro Parque
Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A geografia urbana tem como objeto de estudo a cidade. O espaço urbano é
entendido como resultado da forma como a sociedade se organiza sobre o território.
Tradicionalmente, essa temática é analisada segundo dois enfoques: 1) rede
urbana; 2) espaço urbano, ou intra-urbano. O estudo da rede urbana tem como
objetivo compreender as relações entre um conjunto de núcleos urbanos e a própria
relação campo-cidade (SOUZA, 1988). A análise do espaço intra-urbano, por sua
vez, visa entender a dinâmica do espaço interno da cidade, isto é, como se
estrutura, por exemplo, a distribuição do uso do solo urbano (CORRÊA, 1989), entre
outras questões.
Como não poderia ser diferente, essa pesquisa se insere, enquanto temática, na
análise do espaço intra-urbano. Todavia, torna-se necessário uma discussão, ainda
que em linhas gerais, acerca da rede urbana e do processo de urbanização, uma
vez que "[...] as relações intra-urbanas e interurbanas constituem em único sistema,
interagindo entre si [...]" (SOUZA, 1988, p.37).

1.1 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES ACERCA DA REDE URBANA E DO
PROCESSO DE URBANIZAÇÃO

A cidade tem sua origem associada à evolução da divisão social do trabalho
(SPÓSITO, 1991). Assim, o espaço urbano emerge, primeiramente, como lócus do
poder, da função política. Com o passar do tempo, o comércio foi se apropriando e
transformando a cidade, como ocorreu em algumas cidades da Antiguidade e da
Baixa Idade Média, que possuíam uma localização estratégica (Ibid.). Para BeaujeuGarnier (1997) essa forma de organização sócio-espacial também surgiu em
decorrência da evolução da divisão do trabalho, essa autora, entretanto, propõe
ainda três motivações especificas para tal fato: econômica, política e defensiva.
Em meados do século XVIII, na Inglaterra, iniciou-se o processo que mudou
definitivamente a cidade, a revolução industrial. A indústria não se constituiu apenas

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Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

em uma nova técnica de produção, mas influiu diretamente na própria organização
social e espacial da sociedade (SPÓSITO, 1991). As transformações ocorridas na
cidade constituíam-se em produto e condição do modo de produção que estava se
impondo: o capitalismo, em sua fase denominada industrial ou concorrencial.
A cidade, em decorrência do processo de industrialização, cresce tanto em termos
demográficos como territorialmente. A urbanização, por sua vez, toma uma nova
forma, uma vez que além de ser palco do comércio e do poder (política), o espaço
urbano torna-se também o lócus da produção. O "inchaço" da cidade, propriamente,
está associado diretamente à necessidade de força de trabalho em excesso, sendo
essa, uma das principais condições para o acúmulo de capital a partir da indústria
(SPÓSITO, 1991).
Spósito (1991) procura explicar a relação entre industrialização e urbanização
levando-se em consideração as fases do capitalismo: industrial (século XIX até a 2ª
Guerra) e monopolista (pós-2ª guerra).
No capitalismo industrial, ou concorrencial, a industrialização limitou-se a alguns
países da Europa ocidental, EUA e Japão. Nesses países, várias cidades foram
transformadas com a chegada da indústria, principalmente as que se localizavam
nas proximidades das regiões carboníferas (carvão mineral). Uma importante
característica dessa fase do capitalismo foi a integração da economia fundamentada
em uma Divisão Internacional do Trabalho (DIT), a nível mundial, e uma Divisão
Territorial do Trabalho (DTT), em nível regional ou nacional. Esta última, teve como
resultado a constituição de redes urbanas consolidadas nos países centrais.
Na DIT do capitalismo industrial, competia aos países periféricos, como o Brasil, a
exportação de produtos primários e a importação de produtos industrializados dos
paises centrais. Isto não significou, entretanto, a ausência de cidades importantes
naqueles países, aliás, pelo contrário, houve um crescimento relativo de muitas
delas em países periféricos como resultado das atividades relacionadas ao comércio
(SANTOS, 2005).
Após a 2ª guerra, o capitalismo mundial entra em sua fase conhecida como
monopolista, caracterizada pela internacionalização do capital, o que se traduziu na
industrialização, em larga escala, de alguns países periféricos a partir da instalação
de empresas multinacionais (SPÓSITO, 1991). Por conseguinte, países, como o

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GONÇALVES, Thalismar M. A Dinâmica do Espaço Urbano: um estudo sobre o bairro Parque
Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

Brasil, conheceram um vigoroso processo de industrialização, o que refletiu, por sua
vez, sobre toda a lógica de organização das cidades, assim como do processo de
urbanização nesses países.
Em relação à urbanização brasileira, Santos (2005) considera, a grosso modo, dois
momentos. Um primeiro momento, que se estendeu praticamente até a primeira
metade do século passado, caracterizado por uma urbanização baseada em "ilhas",
isto é, vários núcleos urbanos, praticamente, independentes um do outro, mantendo
relações, sobretudo, com o exterior. No decorrer da segunda metade do século
passado, iniciou-se a promoção de uma rede urbana no Brasil, condição essa para o
desenvolvimento industrial fundamentado no "modelo" de substituição das
importações.
Até a Segunda Grande Guerra, a economia brasileira participava da DIT em função
de um modelo agro-exportador; assim sendo, os núcleos urbanos desenvolveramse, especialmente, a partir do comércio exterior. Com a implantação de ferrovias no
território brasileiro foi intensificado esse modelo de subespaços regionais (a cidade,
em sua maioria capitais, e sua zona de influência que incluía o campo e pequenos
aglomerados urbanos) (SANTOS, 2005). Deste modo, essas cidades cresceram em
função do desenvolvimento de atividades derivadas da exportação e da importação
de produtos.
No desenrolar da segunda metade do século passado, o processo de
industrialização no Brasil ganhou, definitivamente, uma nova dimensão 5. Tal fato
constituiu-se enquanto reflexo do papel do país na dinâmica do capitalismo em sua
fase monopolista (SANTOS, 2005). Neste contexto, tanto a cidade como o campo
sofreram grandes transformações com a inserção do capital nas respectivas
realidades locais ou regionais, fruto do processo de modernização do país (Ibid.).
Com a industrialização concentrada nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, e,
notadamente, São Paulo, o processo de urbanização do Brasil deixou de se
constituir em um "arquipélago". A integração do território, promovida pelo Estado
5

É importante ressaltar, no entanto, que desde o início do século XX, São Paulo já vinha conhecendo
um relativo desenvolvimento industrial em função da inversão de capitais provenientes da lavoura
cafeeira, tal fato foi importante para que esta cidade assumisse, mais a frente, a dianteira do
processo industrialização no Brasil (SANTOS, 2005). Além do mais, nas décadas de 30 e de 40, o
Estado brasileiro passou a investir "pesado" na indústria de base, contribuindo com a produção das
condições necessárias para o desenvolvimento industrial do país no pós-guerra.

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brasileiro, por meio de rodovias, tornou-se condição sine qua non para o acúmulo e
reprodução do capital industrial no país. Essa integração do território e do mercado
nacional permitiu, por sua vez, a estruturação de uma rede urbana nacional, tendo
como "epicentro" o eixo Rio - São Paulo (SANTOS, 2005).
Em 1980, a maior parte da população brasileira já vivia nos centros urbanos.
Conforme Souza (1988), essa população veio a se concentrar principalmente nas
regiões metropolitanas, evidenciando uma urbanização fundamentada no processo
de metropolização:
"No Brasil, a urbanização caracteriza-se por um processo de
metropolização, evidenciado pelo inchaço das regiões metropolitanas, ou
pela metropolização de cidades que com funções privilegiadas na rede
urbana, sejam elas capitais dos Estados, sejam elas cidades centros de
regiões geoeconômicas dinâmicas. (...)" (1988, p.16).

Para Santos (2005), a urbanização brasileira, que ele denomina de urbanização
corporativa, está ligada à consolidação de um meio técnico-científico que permite a
fluidez e o uso de um território integrado. Tal uso, por sua vez, ocorre,
especialmente, por parte dos agentes hegemônicos, as corporações transnacionais.
Esse processo tornou-se possível a partir do papel centralizador do Estado
brasileiro, exercido, fundamentalmente, durante ditadura militar (1964-1985).
Ainda que a urbanização brasileira, no período atual, esteja integrada em um mesmo
propósito, ela se manifesta de maneira diferenciada porque "[...] A modernização é o
principal

elemento

motor

dessas

mudanças,

acarretando

distorções

e

reorganizações, variáveis segundo os lugares, mas interessando a todo o território"
(Ibid., p.115, grifo nosso).
A discussão posta até o momento é relevante para se entender, especificamente, o
tecido urbano de determinada cidade, uma vez que este espaço é produto de um
processo de urbanização. No entanto, como salientou Santos (2005) este processo
se manifesta de maneira diferenciada no tempo e no espaço, ainda que seja
produto, talvez hoje, mais do que nunca, de uma lógica global do capitalismo.

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1.2 ESPAÇO URBANO

No primeiro momento de apreensão da cidade, o seu caráter heterogêneo se
destaca. Uma das características peculiares do espaço urbano, se comparado à
realidade do campo, é a significativa presença de diferentes formas espaciais,
materializadas no uso do solo urbano. Mas, como se dá a estruturação do uso do
solo urbano?
A cidade, o espaço urbano, é um espaço geográfico, e assim é um produto histórico
e social (SOUZA, 1988; CORRÊA, 1989; CARLOS, 2001). Deste modo, o espaço
urbano se constitui em reflexo e condição de uma determinada sociedade, mediada
pelas condições técnicas de determinada época histórica (CORRÊA, 1989).
Segundo Corrêa (1989 e1997), o espaço urbano é composto de fragmentos. No
entanto, estes se encontram articulados por fluxos de diversas naturezas: de
pessoas, de informações, de capitais, de mercadorias, de ideologias etc. Essa
articulação no interior do espaço urbano se dá entre os diferentes usos do solo
urbano:
"Tais usos definem áreas, como o centro da cidade, local de concentração
de atividades comerciais, de serviços e de gestão, áreas industriais, áreas
residenciais distintas em termos de forma e conteúdo social, de lazer, entre
outras, aquelas de reserva para futura expansão." (CORRÊA, 1989, p.7).

A diferenciação do uso do solo urbano, evidentemente, não é aleatória, mas sim,
reflexo e condição dos processos sociais (CORRÊA, 1989). Carlos (2001) ressalta o
aspecto contraditório das relações capitalistas sobre o espaço urbano. Para essa
autora, o espaço da cidade é apropriado de diversas maneiras, o que reflete os
interesses, ora divergentes, ora convergentes, dos segmentos que formam a
sociedade:
"São os diversos modos de apropriação do espaço que vão pressupor as
diferenciações de uso do solo e a competição que será criada pelos usos, e
no interior do mesmo uso. Como os interesses e as necessidades dos
indivíduos são contraditórios, a ocupação do espaço não se fará sem
contradição e, portanto sem luta." (Carlos, 2001, p.42).

Mas quem são esses segmentos que produzem e utilizam o espaço urbano? E como
se dão as relações entre eles? Corrêa (1989) propõe cinco agentes sociais

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produtores e consumidores do espaço urbano: 1) os proprietários dos meios de
produção, sobretudo os grandes industriais; 2) os proprietários fundiários; 3) os
promotores imobiliários; 4) o Estado; 5) os grupos sociais excluídos.
Os agentes sociais agem de maneira complexa sobre o espaço urbano e suas ações
são derivadas, de um lado, pela dinâmica da acumulação capitalista e, de outro, e
de maneira complementar e integrada, pelas necessidades de reprodução das
relações sociais (CÔRREA, 1989, SOUZA, 1988, CARLOS, 2001). As ações desses
agentes são postas no decorrer do tempo, produto histórico, e implicam uma
constante reorganização do espaço urbano:
"[...] que se faz via incorporação de novas áreas ao espaço urbano,
densificação do uso do solo, deterioração de certas áreas, renovação
urbana, relocação diferenciada da infra-estrutura e mudança, coercitiva ou
não, do conteúdo social e econômico de determinadas áreas da cidade.
[...]" (CORRÊA, 1989; p. 11, grifo nosso).

Tais ações se dão sob um marco jurídico, o Estado, que supostamente deveria se
constituir neutro, todavia, de maneira geral, sua ação expressa os interesses de
grupos dominantes (sobretudo, econômicos) em determinada época (CÔRREA,
1989, HARVEY, 1982). Neste contexto, ação do Estado torna-se um tanto quanto
contraditória, uma vez que, além de exercer o papel de "mediador" dos interesses
presentes no interior da sociedade, ele congrega outros papéis como grande
industrial ou promotor imobiliário (CORRÊA, 1989). Devido a essa particularidade, a
análise da atuação do Estado torna-se indispensável para se entender à produção
do espaço urbano.
Os três primeiros agentes sociais atuam em função de distintas estratégias sobre o
espaço urbano, o que, em muitos casos, pode levá-los a conflitos de interesses.
Contudo, esses agentes, em essência, buscam o mesmo objetivo, a obtenção de um
excedente por meio da apropriação da cidade: o primeiro visa o lucro, os
proprietários fundiários buscam a apropriação de renda sobre o uso da terra e os
promotores imobiliários visam o lucro, e fundamentalmente, a apropriação de renda
sobre o uso do espaço urbano. Quando ocorrem conflitos de interesses sobre o uso
do solo urbano, quem os resolve é o Estado (CÔRREA, 1989, HARVEY, 1982).
Em uma sociedade de classes, como é a sociedade capitalista, a distribuição de
bens e serviços se dá de maneira seletiva, isso vale também para o acesso à terra
urbana. Como reflexo dessa estrutura tem-se "[...] duas cidades. Uma de opulência,

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bem-estar e prazer, e outra de pobreza e desesperança. [...]" (CORRÊA, 1997, p.
177). A segunda cidade é produzida pelo agente social denominado de grupos
sociais excluídos. Esse agente social é fruto do processo de modernização da
economia do país, isto é, da própria lógica do capitalismo. São normalmente
migrantes, cujas formas de apropriação do espaço urbano se dão, geralmente, por
ocupações irregulares e em áreas consideradas ambientalmente frágeis, tais como
vertentes ou áreas sujeitas à inundação.

1.3 PROCESSOS NA CIDADE E A LOCALIZAÇÃO DAS ATIVIDADES
TERCIÁRIAS NO ESPAÇO URBANO

O espaço urbano é constituído de fragmentos relacionados a um uso específico do
solo urbano. Cada fragmento se constitui em uma forma espacial, e esta se encontra
associada a uma função, ou seja, uma atividade urbana (CORRÊA, 1989). As
formas espaciais, e suas funções, constituem-se expressões dos processos sociais.
Entre os processos sociais e as formas espaciais, há um elemento viabilizador, que
são os processos espaciais:
"[...] Este elemento viabilizador constitui-se em um conjunto de forças que
atuam ao longo do tempo e que permitem localizações e relocalizações e
permanência de atividades e população sobre o espaço urbano. São os
processos espaciais, responsáveis imediatos pela organização espacial
complexa que caracteriza a metrópole moderna. Tais processos são postos
em ação pelos atores que modelam a organização do espaço, proprietários
dos meios de produção, proprietários de terra, empresas imobiliárias e de
construção, associadas ou não ao grande capital, e o Estado como
conforme apontam, entre outros, Form, Harvey e Capel [...]" (CORRÊA,
1997, 122, grifo nosso).

Este geógrafo propõe seis processos espaciais e as respectivas formas espaciais:
a) centralização espacial e a Área Central;
b) descentralização espacial e os núcleos secundários;
c) coesão espacial e as áreas especializadas;
d) segregação espacial e as áreas sociais;

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e) inércia e as áreas cristalizadas.
Devido à especificidade dessa pesquisa, optou-se por uma discussão sobre os dois
primeiros processos espaciais6, por entender que serão importantes para a
compreensão da problemática posta. Tanto processo de centralização espacial
como de descentralização espacial são produtos da maneira como a sociedade
capitalista se organiza. Assim, as ações dos agentes sociais são influenciadas pela
lógica capitalista. Esses processos desenvolvem-se em função da "[...] própria
dinâmica capitalista, que, de modo ponderável, atua subjacentemente aos fatores de
repulsão e atração [...]" (CORRÊA, 1989, p. 46-47).
Em termos teóricos, a Área Central, ou centro principal da metrópole, caracteriza-se,
de maneira simplificada, pela concentração de atividades relacionadas ao comércio
varejista, aos serviços e aos estabelecimentos burocráticos do Estado. Essa forma
espacial, por sua vez, é resultado do processo de centralização espacial, e está
associado diretamente à economia de mercado, no capitalismo industrial. A
emergência da Área Central constitui-se em momento em que as relações cidademundo são intensificadas, isso ocorre, sobretudo após a revolução industrial.
A partir do século XIX, os transportes sobre trilhos passam a exercer um importante
papel na articulação regional. Nesse sentido, em um primeiro momento, a formação
da Área Central remete-se a função da cidade em contexto regional. Próximos aos
portos e às estações ferroviárias desenvolvem-se atividades derivadas do comércio
exterior, sobretudo. No decorrer do tempo, em função da evolução dessas
atividades, forma-se um mercado de trabalho considerável, justificando, por sua vez,
a instalação de estabelecimentos do comércio varejista e de prestação de serviços.
Assim, esse lugar, no decorrer dos anos, reúne as condições7 propícias para a
concentração das atividades terciárias.

6

Roberto Lobato Corrêa desenvolve seus argumentos fundamentados, especialmente, em autores
que estudaram o espaço urbano nos países desenvolvidos e, em muitos casos, em um outro período
histórico. No entanto, o mesmo autor ressalva que os processos espaciais variam, em termos
qualitativos e quantitativos, no tempo e no espaço.
7
Entre essas condições, inclui-se o processo espacial denominado coesão "[...] aquele movimento
que leva as atividades se localizarem juntas. Sinônimo de economias externas de aglomeração. [...]"
(CORRÊA, 1989, p. 56).

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Como parte do processo, a Área Central torna-se também o foco, exclusivo, do
transporte intra-urbano, o que intensifica ainda mais a centralidade dessa área no
espaço urbano.
Esse modelo de estruturação da cidade, fundamentado em único centro terciário
(monocêntrico), sofreu mudanças no decorrer do século XX, dando origens aos
chamados núcleos secundários. O surgimento de núcleos secundários, ou
subcentros, em determinado aglomerado urbano é produto do processo denominado
de descentralização espacial (CORRÊA, 1989).
Em virtude deste processo espacial, o espaço urbano torna-se mais complexo
(CORRÊA, 1989). Isso porque em vez de um centro principal, concentrando as
atividades terciárias e as viagens no espaço urbano, surge uma variedade de
núcleos secundários, desde núcleos hierarquizados como subcentros regionais, de
bairro ou de bairros, a núcleos especializados como distritos médicos, ou distrito de
diversões (BERRY 1971 e 1982 apud CORRÊA, 1989).
Dentre esses núcleos secundários, destaca-se, em termos de complexidade, o
subcentro regional, definido por CORRÊA (1989) da seguinte maneira:
[...] constitui-se em uma miniatura do núcleo central. Possui uma gama
complexa de tipos de lojas e de serviços [...]. Muitas de suas lojas são filiais
de firmas da Área Central, e, à semelhança desta, porém em menor escala,
o subcentro regional constitui-se em importante foco de linhas de
transporte intra-urbano. (p. 51).

A descentralização espacial é mais recente que o processo de centralização. E
emerge em um contexto cuja excessiva centralidade da Área Central torna-se
causadora de desecomomias de aglomeração, tais como elevado preço da terra
urbana, congestionamentos, falta de área para expansão, entre outras (CORRÊA,
1989).
Além disso, a descentralização espacial relaciona-se ao próprio crescimento da
cidade, em termos demográficos e territoriais. "[...] Esta tese está apoiada na crença
de que uma mudança quantitativa implica em um salto qualitativo. Assim, existe um
patamar crítico a partir do qual o processo de descentralização inicia-se." (Id, 1997,
p. 171).
No entanto, para efetivação deste processo sobre o espaço urbano é preciso que
outras áreas no tecido urbano exerçam certa atração no que tange as atividades

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terciárias. Nesse sentido, algumas condições são essenciais, conforme COLBY
(apud CORRÊA, 1997): terras não-ocupadas, a baixo preço e impostos; infraestrutura implantada; facilidades de transportes; qualidades atrativas do sítio, como
topografia e drenagem; amenidades físicas e sócias; threshold ou mercado mínimo
capaz de suportar a localização de uma atividade descentralizada.
Outro fator importante neste processo, e que está associado diretamente aos fluxos
do espaço urbano, é a acessibilidade8: "A descentralização implica em uma
diminuição relativa da acessibilidade da Área Central, e aumento relativo da
acessibilidade de outros locais [...]" (CORRÊA, 1997, p.126). Tanto para Corrêa
(1989,1997) como para Spósito (1998) essa nova estruturação da acessibilidade no
espaço urbano relaciona-se diretamente à difusão de meios de transportes mais
flexíveis como o carro e o ônibus.
Villaça (2001), por sua vez, também ressalta a importância do atributo acessibilidade
na estruturação do espaço urbano. Para esse pesquisador do urbano, as condições
de deslocamento das pessoas na cidade, enquanto força de trabalho ou como
consumidor, constituem-se na principal condicionante em relação ao processo de
produção desse espaço:
"A estruturação do espaço regional é dominada pelo deslocamento das
informações, da energia, do capital constante e das mercadorias em geral
­ eventualmente até a mercadoria força de trabalho. O espaço intraurbano, ao contrário, é estruturado fundamentalmente pelas condições de
deslocamento do ser humano, seja enquanto portador da mercadoria força
de trabalho ­ como no deslocamento casa/trabalho-, seja enquanto
consumidor - reprodução da força de trabalho, deslocamento casacompras, casa-lazer, escola, etc." (VILLAÇA, 2001, p. 20).

Neste sentido, a análise do sistema de transporte urbano é de extrema importância
para se entender a distribuição do uso do solo urbano, como ressalta BeaujeuGarnier (2000): "Os transportes influenciam no conjunto das atividades humanas
pelo seu traçado e equipamento. Nenhum outro elemento desempenha papel mais
determinante na cidade" (p.180-181).

8

Segundo Villaça (2001) acessibilidade pode ser entendida como a capacidade de um ponto se
relacionar com o conjunto de pontos que existem no espaço urbano. Ainda para este autor, a
acessibilidade constitui-se em um valor de uso, isto é, produzido pelo trabalho social da sociedade.
[...] A acessibilidade de um terreno ao conjunto urbano revela a quantidade de trabalho socialmente
necessário dispendido em sua produção. Quanto mais central o terreno, mais trabalho existe
dispendido na produção dessa centralidade, desse valor de uso. [...] (VILLAÇA, 2001, p. 74)

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O processo de descentralização espacial, contudo, é extremamente complexo, não
podendo ser reduzido aos níveis de acessibilidade dos lugares. A gênese de
subcentros terciários está ligada à ação dos agentes sociais que produzem o
espaço. Assim sendo, a cristalização dessa forma espacial relaciona-se de maneira
subjacente ao processo de acumulação e reprodução do capital no espaço urbano,
em suas várias vertentes (CORRÊA, 1989,1997; SPÓSITO, 1998). Ademais, as
singularidades da cidade ou da metrópole são importantes para se entender a
maneira como se desenvolvem esses processos.

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2 GRANDE VITÓRIA: CONSIDERAÇÕES SOBRE SUA URBANIZAÇÃO
9

O processo de urbanização da Grande Vitória se constituiu em uma extensão da
urbanização da capital do estado, Vitória. Devido às especificidades espaciais,
políticas e econômicas, pode-se destacar dois momentos nesse processo. No
primeiro momento, até a década de 1960, o processo de urbanização de Vitória foi
promovido, sobretudo, a partir de sua função de centro do comércio do café no
Espírito Santo. No decorrer dos anos 1970, o processo de urbanização de Vitória, e
da Grande Vitória, tomou uma nova dimensão com o processo de industrialização
capixaba, promovido, por sua vez, pelos chamados Grandes Projetos Industriais.

2.1 PRIMEIRA FASE DA URBANIZAÇÃO DA GRANDE VITÓRIA

Até meados da década de 1960, a economia do Espírito Santo fundamentava-se em
uma lógica agro-exportadora, tendo como produto de exportação o café. A
organização sócio-espacial do estado, nesse período, caracterizava-se por um
campo baseado em uma estrutura produtiva fundamentada na pequena propriedade
e no trabalho familiar. Em relação ao espaço urbano, havia uma rede urbana
formada em torno das cidades pólo (centros regionais de comércio) como Colatina e
Nova Venécia, no norte, e Cachoeiro de Itapemirim, no sul. A rede urbana
completava-se a partir das relações entre essas cidades pólo e a capital Vitória, que
exercia a função de centro do comércio de café no estado, além de sede da
burocracia do poder público (CAMPOS Jr., 2002).
A urbanização de Vitória estava associada ao seu papel de centro estadual do
comércio de café. Esta função intensificou-se, consideravelmente, no decorrer do
século passado. Conforme Campos Jr. (2002), tal fato pode ser atribuído a três

9

A Grande Vitória, atualmente, é constituída pelos municípios de Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica,
Viana, Guarapari e Fundão. Nesta parte do trabalho, no entanto, considerou-se apenas os cinco
primeiros municípios, uma vez que os outros inseriram-se na RMGV em um contexto recente (após
1999).

29

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fatores: 1) a integração por ferrovias10 de porções do território capixaba e de Minas
Gerais a Vitória, proporcionando a esta cidade uma importante centralidade; 2)
exportação de minério de ferro, pelo porto de Vitória, a partir da década de 1940,
com criação da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD); 3) a expansão do café no
interior capixaba11.
Embora os reflexos deste processo se verificassem, de maneira preponderante, no
espaço da capital, entre 1950 e 1960 observou-se um incremento considerável na
população urbana dos municípios de Vila Velha e Cariacica, ainda que neste último
em menor proporção (Tabela 1), indicando um "extravasamento" da urbanização em
direção a estes municípios.
Tabela 1
Evolução da população dos municípios da Grande Vitória: 1950-1960
1950
Municípios

1960

Cresc. Pop.

Pop.

Pop.

Pop.

Pop.

tot.

urb

tot.

urb

Urbana (%)

Vitória

50.922

50.414

83.351

82.500

63,64

Vila Velha

23.127

20.834

55.589

54.590

162,02

Cariacica

21.741

12.698

39.608

23.816

87,56

Viana

5.896

600

6.571

611

1,83

Serra

9.245

2.666

9.192

3.345

25,47

110.931

87.212

194.311

164.862

89,04

GV

Fonte: IBGE, 1950 e 1960.
Organizado pelo autor.

Apesar da expansão da cultura de café em território capixaba, o modelo de
desenvolvimento, fundamentado na lógica agroexportadora e em uma estrutura
produtiva baseada na pequena propriedade familiar, mostrou indícios de
esgotamento no decorrer da década de 1950 do século passado. Na própria
10

No inicio do século passado, Vitória, passou a ser o foco das duas principais ferrovias do Estado: A
Estrada Ferro Vitória Minas (EFVM), que liga o norte do ES e parte de MG ao porto de Vitória e a
Estrada de Ferro Sul Espírito Santo (EFSES), mais tarde denominada de Estrada de Ferro
Leopoldina Railway (EFLR), que liga o sul do Estado a Capital.
11
Segundo Morandi e Rocha (1991), devido à especificidade da estrutura produtiva do café no ES,
apesar das seguidas crises no preço internacional desse produto, a produção capixaba, de maneira
geral, não era tão impactada. Aliás, pelo contrário, observou-se uma expansão dessa atividade, na
primeira metade do século passado.

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instância política local, ainda que de forma não unânime, observou-se esforços
políticos voltados para a modernização da economia capixaba (SIQUEIRA, 2001).
O desmantelamento dessa organização sócio-econômica se efetivou com o
processo de erradicação dos cafezais. O governo federal após a crise de preços no
mercado internacional do café, no final da década de 1950, pôs em prática, entre
1962 e 1966, o programa de erradicação dos cafezais antieconômicos, visando
amenizar a superprodução deste produto no país (ROCHA e MORANDI, 1991). Este
programa federal atingiu a economia do Espírito Santo de maneira violenta,
provocando uma verdadeira reestruturação econômica e social.
Para Siqueira (2001), o processo de erradicação dos cafezais significou o inicio da
modernização da economia capixaba. Com isso, iniciou-se a transição de uma
economia agrário-mercantil para uma economia urbano-industrial:
"O processo de modernização ocorrido na economia do Espírito Santo,
configurou-se de forma brusca, tendo sido originado da desestruturação de
sua base econômica, o setor agrário, e de sua reestruturação, a partir de
uma nova ótica de acumulação do capital, a industrialização. [...]" (p. 87).

Em virtude do processo de erradicação, cerca de 240 mil pessoas saíram do campo,
e boa parte desse contingente foi parar nos municípios da Grande Vitória (ROCHA e
MORANDI, 1991). Além disso, as novas atividades econômicas que se
sobressaíram no campo capixaba, a pecuária e a indústria madeireira, contribuíram
ainda mais para o processo de êxodo rural, uma vez que essas atividades são,
tradicionalmente, pouco absorvedoras de mão-de-obra, se comparadas à produção
de café (Ibid., 1991).
A reestruturação do campo capixaba veio acompanhada de ações a nível federal e
estadual que foram importantes em relação ao processo de modernização da
economia capixaba que estava em curso. No primeiro momento, pode-se citar os
reflexos do Plano de Metas sobre o território do estado, desenvolvido durante o
governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960). Esse plano federal contemplou o
Espírito Santo com relevantes obras de infra-estrutura, notadamente, transportes e
energia. Já o governo estadual, especialmente no decorrer da década de 1960,
procurou canalizar os esforços em direção à industrialização a partir de incentivos
fiscais junto ao governo federal (SIQUEIRA, 2001).

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Apesar das mudanças estruturais no decorrer da década de 1960 e de um relativo
crescimento da participação da indústria na economia capixaba (Rocha e
Morandi,1991), a base produtiva do Espírito Santo ainda prevalecera agrária até
meados da década de 1970 do século passado (CAMPOS Jr.,2002).
De que maneira as mudanças apontadas anteriormente, fruto do inicio da
modernização da economia capixaba (SIQUEIRA, 2001), influíram sobre a
urbanização e a produção do espaço urbano da Grande Vitória? Entre 1960 e
meados

da

década

de

1970,

o

processo

de

urbanização

espalhou-se,

definitivamente, para além do território do município de Vitória. A expansão da
urbanização, e do tecido urbano consequentemente, mantém a tendência da década
de 1950, direcionando-se predominante para os municípios de Vila Velha e
Cariacica. Em termos concretos, pode-se afirmar que, nesse momento, o
aglomerado urbano da Grande Vitória12 era constituído por esses municípios e a
capital do estado.
No Mapa 2, pode-se observar como as populações de Vitória, Vila Velha e Cariacica
sofrem consideráveis incrementos entre 1950 e 1970. Esse aumento reflete, por sua
vez, na relação entre a população urbana e rural destes municípios.
Quanto a Serra e a Viana, além de serem pouco populosos, o quantitativo de suas
respectivas populações urbanas representava menos da metade da população total,
no inicio da década de1970. Já as populações dos municípios de Vitória e de Vila
Velha, em 1970, estavam localizadas, quase em sua totalidade, na zona urbana.

12

Inclusive, o primeiro plano em que o espaço urbano da Grande Vitória foi considerado de maneira
integrada, o Plano de Desenvolvimento Integrado da Micro Região de Vitória (1973), o contínuo
urbano era constituído pelas localidades de Vitória, Vila Velha e Cariacica (ABE,1999).

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Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

Mapa 2 ­ Evolução demográfica dos municípios da GV, entre 1950 e 1970, e a taxa de urbanização
da população em 1970

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2.2 A URBANIZAÇÃO COMANDADA PELA INDUSTRIALIZAÇÃO

Na segunda metade da década de 1970 do século XX, o processo de
industrialização capixaba passou a ser comandado pelo "grande capital"

13

. O

Espírito Santo tornou-se palco de uma série de grandes empreendimentos
industriais de semi-elaborados, como a fábrica da Aracruz Celulose, a Companhia
Siderúrgica de Tubarão (CST), as usinas de pelotização da Companhia Vale do Rio
Doce (CVRD) e a Samarco Mineração (ABE, 1999). Diferentemente da
industrialização dos outros estados do sudeste, a industrialização do Espírito Santo
se fundamentou na produção de bens intermediários voltados, sobretudo, para o
mercado externo. Neste sentido, nota-se que esse processo de industrialização se
estruturou em um momento em que o país iniciava um novo papel na dinâmica do
capitalismo mundial.
Os empreendimentos iniciaram suas atividades entre o final da década de 1970 e
início dos anos 1980. Além do conjunto de infra-estruturas relacionadas,
propriamente, às plantas dessas indústrias, houve também construções e reformas
de portos, além de ramais ferroviários interligando os portos às ferrovias existentes
(ABE, 1999). Aqui, pode-se notar o papel decisivo do Estado nesse processo a partir
da

construção

dos

equipamentos

de

infra-estrutura

necessários

para

a

implementação desses empreendimentos. Segundo Santos (2005), esta ação
decisiva do Estado é uma das características da urbanização corporativa14.
O processo de industrialização, que significou a transição definitiva da sociedade
capixaba de uma lógica agro-mercantil para uma lógica urbano-industrial, foi
produto, em grande parte, da política federal de ordenamento territorial da indústria
com o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) (ABE, 1999). Nessa política,
entre seus objetivos, destacava-se a tentativa de reter o crescimento concentrado no
eixo Rio - São Paulo (RIBEIRO, 1997). No entanto, houve apenas uma distribuição
de um modelo urbano-industrial, e com ele, seus problemas:
"(...) O problema urbano ganha outra amplitude quando no governo
Geisel, é incorporado ao Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento
(PND). Ganha hegemonia a concepção tecnocrática pela qual a solução
Rocha e Morandi (1991) chamam de "grande capital" os investimentos derivados de grandes
grupos econômicos e/ou de origem estatal.
14
Ver Capítulo 1.
13

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Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
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das carências urbanas seria encontrada num desenvolvimento regional
equilibrado, que desviasse o fluxo migratório para outras partes do
território nacional." (Ribeiro, 1997, p. 40).

Em função desse novo momento, da segunda fase da expansão recente da
economia capixaba (ROCHA e MORANDI, 1991), a Grande Vitória conheceu um
elevado crescimento demográfico e espacial. Em 1970, a população da Grande
Vitória era constituída por 385.998 habitantes, em 20 anos (1991), a população
saltou para mais de 1 milhão de habitantes (Tabela 2). Esse considerável acréscimo
populacional se deveu à intensificação do processo migratório em direção à Grande
Vitória, que já estava ocorrendo desde a década 1960 devido às mudanças
ocorridas no campo capixaba. Outro elemento relevante é que a industrialização em
curso no estado concentrou-se nesse aglomerado urbano.
Tabela 2
Evolução demográfica da Grande Vitória: 1970 a 2000
2000

Município

1970

1980

1991

Cariacica

101.422

189.099

274.532

324.285

Serra

17.286

82.568

222.158

321.181

Vitória

133.019

207.736

258.777

292.304

Viana

10.529

23.440

43.866

53.452

Vila Velha

123.742

203.401

265.586

345.965

GV
385.998
706.244
Fonte: IBGE, 1970,1980,1991 e 2000
Organizado pelo autor.

1.064.919

1.337.187

A Grande Vitória conheceu, guardadas as devidas proporções e particularidades, um
processo de urbanização acelerado, como ocorreu nas grandes cidades brasileiras.
Tal processo, por sua vez, fundamentado na industrialização, caracterizou-se pela
chegada em massa de trabalhadores de todas as partes, como salienta Siqueira
(2001):
"O advento dos Grandes Projetos Industriais acelerou o fluxo migratório,
aumentando rapidamente o número de trabalhadores que se fixaram na
cidade em busca de novas oportunidades de trabalho. A região da Grande
Vitória não possuía infra-estrutura para receber o grande fluxo migratório
de pessoas do interior e de outros estados que se deslocavam em sua
direção, formando um elevado contingente de mão-de-obra pouco
qualificada." (SIQUEIRA, 2001, p. 93).

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O aglomerado urbano da Grande Vitória passou exercer mais funções nesse
contexto que estava se configurando, o que teve reflexos na produção do espaço
urbano:
"O processo de industrialização veio a redefinir o espaço urbano na medida
em que, somando-se ao papel de sede da burocracia e do capital
comercial, a cidade também se constituiu no "lócus" da atividade produtiva.
A Grande Vitória, como espaço metropolitano, além do centro político e do
porto, sempre abrigou também as principais atividades regionais de caráter
industrial, comercial, de serviços públicos, privados, culturais e financeiros
[...]" (SIQUEIRA, 2001, p. 93).

Como se deu o reflexo desse momento em relação ao espaço urbano da Grande
Vitória? No momento anterior, a evolução da mancha urbana direcionou-se,
especialmente, para o sul e sudoeste, isto é, para os municípios de Cariacica e Vila
Velha. Com a intensificação da urbanização da Grande Vitória a partir dos Grandes
Projetos, a população cresceu vertiginosamente, e isso se refletiu na densificação de
algumas áreas, com o processo de verticalização (CAMPOS Jr., 2002), e na
expansão territorial da mancha urbana para o norte da Grande Vitória.
Nesse sentido, observa-se que a população de Vitória, Cariacica e Vila Velha
continuaram a crescer. Contudo, os maiores incrementos se deram em Serra. Em
pouco mais de 20 anos, este município deixou para trás uma dinâmica rural, com
uma população urbana que não chegava a 10 mil habitantes, em 1970, para se
tornar um município com mais de 220 mil pessoas vivendo na zona urbana, no início
da década de 1990, e chegando a mais de 320 mil habitantes em 2000 (IBGE). A
seguir, constata-se, no mapa 3, como as populações cresceram nesses anos, e
como as populações urbanas são representativas.

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Mapa 3 ­ Evolução demográfica dos municípios da GV, entre 1970 e 2000, e a taxa de
urbanização da população em 2000

Com a industrialização, o espaço urbano da Grande Vitória evoluiu seguindo um
processo de metropolização (ABE, 1999). Para ABE (1999), o crescimento da
Grande Vitória não se deu apenas por mudanças quantitativas, seja referente ao
aumento da população ou à extensão territorial da mancha urbana, mas também por
modificações qualitativas:

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"Além do crescimento físico, o espaço intra-urbano metropolitano passou
por modificações qualitativas significativas, diversificando-se e
compartimentando-se ao abrigar as mais diversas categorias habitacionais:
loteamentos de chácaras, loteamentos de balneários, loteamentos
regulares de alta, média e baixa renda, loteamentos populares irregulares,
conjuntos habitacionais unifamiliares e multifamiliares públicos, de baixa e
média renda, ou empresariais de alta renda, condomínios verticais e
horizontais, usos mistos de diversas categorias, bolsões de habitações
informais em áreas ocupadas sobre mangues ou morros." (ABE, 1999. p.
395)

Portanto, notou-se como o processo de urbanização da Grande Vitória se
desenvolveu a partir do processo de industrialização, iniciado na segunda metade da
década de 1970. O espaço urbano, reflexo desse processo, se estruturou em forma
de uma mancha urbana que "devorou" boa parte dos territórios dos quatro principais
municípios da Grande Vitória. Com destaque, neste contexto, para o município de
Serra, que sofreu as maiores transformações em seu território, com será visto no
próximo capítulo.

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3 SERRA: A INSERÇÃO DE SEU TERRITÓRIO NA LÓGICA DO
ESPAÇO METROPOLITANO

Até o inicio dos anos 1960, o município de Serra caracterizava-se por uma dinâmica
socioeconômica, preponderantemente, rural. Neste contexto, em um universo de 9
mil habitantes, cerca de 70% viviam no campo, no ano de 1960 (IBGE, 1960). As
principais atividades econômicas do município eram a pecuária e a produção de
banana, que representava mais de 50% do valor da produção agrícola (IBGE, 1959).
Em relação à população urbana, havia uma concentração na sede do município,
com mais de 50%. O segundo núcleo urbano, nesse período, era a sede do distrito
de Nova Almeida com cerca de 40% da população urbana do município. Os outros
núcleos urbanos eram as sedes dos distritos de Carapina, Calogi e Queimados
(Mapa 4), que, na verdade, constituíam-se em pequenas vilas.

Mapa 4 ­ Delimitação atual dos Distritos do município de Serra

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Neste

período,

boa

parte

do

território

municipal

era

constituído

por

fazendas/pastagens e também por matas. As relações com a capital se davam,
sobretudo, como fornecedor de produtos agrícolas para o mercado urbano. Embora
vizinho de Vitória, a ligação física entre essas cidades tornou-se efetiva somente no
final da década de 1960, com a pavimentação da BR 101 entre a Serra Sede e o
limite sul do município (SARTÓRIO, 1996).
Contudo, no decorrer da década de 1970 e 1980, Serra sofreu grandes
transformações a partir do processo de industrialização do Espírito Santo. Em 20
anos, muitas fazendas deram lugar a loteamentos, conjuntos habitacionais,
ocupações irregulares e distritos industriais. A população do município foi
multiplicada por 25, entre 1960 e 199115, nota-se que a maior expansão da
população ocorre a partir de 1970 (Gráfico 1).

Milhares

Popualção Absoluta

Evolução Demográfica de Serra
365
335
305
275
245
215
185
155
125
95
65
35
5
1950 1960 1970 1980 1991 1996 2000
Gráfico 1- Evolução demográfica de Serra:1950 a 1991
Fonte: IBGE, 1950, 1960, 1970,1980 e 1991.
Organizado pelo Autor.

Em relação aos outros municípios da Grande Vitória, a população de Serra foi a que
sofreu os maiores incrementos, tanto em termos relativos como absolutos (Tabela
3). Esses números estão associados à intensa chegada de migrantes provenientes,

15

Segundo o IBGE (1960 e 1991), em 1960 Serra contava com 9.000 habitantes, já em 1991 a
população do município chegou a 220.000.

40

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41

em sua grande maioria, de Minas Gerais e da Bahia, além de municípios do próprio
estado (IPES/IBGE, 1991).
Tabela 3
Taxa de crescimento da população dos municípios da Grande Vitória: 1970 a 2000
1970/1980

1980/1991

Relat.
86,44%

Abs.
87.677

Relat.
45,15%

Abs.
85.433

Serra

377,73%

65.282

168,23%

139.590

Vitória

56,18%

74.717

24,31%

55.376

Viana

122,62%

12.911

87,01%

20.426

64,38%

79.659

30,40%

62.185

GV
82,97% 320.246
50,55%
Fonte: IBGE, 1970,1980, 1991 e 2000.
Organizado pelo Autor.

363.010

Cariacica

Vila Velha

1991/2000

Relat.

Abs.

1970/2000

Relat.

Abs

18,12

49.753

220%

222.863

44,57

99.023

1758%

303.895

12,95

33.527

120%

159.285

21,85

9.586

408%

42.923

30,26

80.379

180%

222.223

25,56

272.268

246%

951.189

A "explosão" demográfica que Serra conheceu está associada diretamente ao
processo de industrialização da Grande Vitória (ABE, 1999). O território do
município, mais especificamente o distrito de Carapina, entre o final da década de
1960 e o início da década de 1980, foi palco de importantes empreendimentos
industriais (Quadro 2). Em virtude destes empreendimentos, o município tornou-se
atrativo para a população que chegava do campo e vislumbrava melhores condições
de vida na Grande Vitória.

Empreendimento/Atividade

Ano

Exportação de minério pelo Porto de Tubarão

1966

Usina de pelotização I (CVRD)

1969

Usina de pelotização II (CVRD)

1973

Inicio das obras da CST

1977

Inauguração do CIVIT I

1974

Inauguração do CIVIT II

1979

Inicio das atividades da CST
1983
Quadro 2 ­ Importantes eventos industriais no território de Serra até
meados de
1980
Fonte: ABE (1999) e SUPPIN (2006)

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Outro fator que contribuiu com este crescimento da população do município foi a
grande disponibilidade de terra urbana (IJSN, 1979). Neste período, surgiram
numerosos conjuntos habitacionais e loteamentos. Essa última forma de ocupação
caracterizava-se, via de regra, pela ausência de infra-estrutura. Além disso, os
loteamentos encontravam-se, geralmente, distantes da Área Central de Vitória. Tais
características refletiam, por sua vez, em baixos preços dos lotes, condição esta,
propícia para a grande massa de migrantes que chegavam ao município.
Em 1966, a CVRD transferiu suas instalações portuárias de exportação de minério
de ferro para o porto de Tubarão, na ponta de Tubarão em Vitória. Embora, esse
porto se localizasse na capital, a maior parte dos impactos espaciais verificou-se no
sul do distrito de Carapina, pois era onde estava localizada a estrutura logística para
o acesso ao porto, a BR 101 e o ramal ferroviário conectando a EFVM (IJSN, 1987).
As atividades da Vale exerceram um importante papel no processo de ocupação do
"Planalto" de Carapina:
"[...] Nessa área surgiram numerosos estabelecimentos de serviços e de
comércio para dar suporte às atividades industriais e de transportes que aí
se instalaram e à população que para lá correu, de inicio provisoriamente,
enquanto trabalhadores nas obras [...]". (ABE, 1999, p. 323)

O conjunto da infra-estrutura e a própria atividade da mineradora em Tubarão foram
de grande relevância no que concerne a escolha da localização da CST, um dos
principais empreendimentos dos Grandes Projetos Industriais. Dentre os fatores
logísticos, Abe (apud PEREIRA, 1998) enumera os seguintes:
"a) local de articulação de nodais ferroviário e marítimo de transporte de
minério de ferro; b) custo muito baixo desta matéria-prima, movimentada do
terminal para a usina através de correia; c) redução do custo do carvão
mineral importado ou nacional, aproveitando os graneleiros como carga de
retorno das exportações de minério" (ABE, 1994, p. 129 apud PEREIRA,
1998).

O processo de implementação desse grande empreendimento foi responsável, em
um primeiro momento, pela criação de um considerável número de empregos.
Estima-se que no decorrer das obras dessa siderúrgica foram mobilizados cerca de
20.000 trabalhadores (ABE, 1999). No entanto, com o início das atividades desta
empresa, em 1983, a grande maioria dos trabalhadores não foi absorvida (Ibid.).

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Como parte dos esforços do governo estadual com o objetivo de incentivar a
industrialização em território capixaba, em 1971 foi criada a Superintendência dos
Projetos de Polarização Industrial (SUPPIN). Esse órgão, com status de autarquia,
foi instituído com finalidade de planejar territorialmente as atividades industriais no
Espírito Santo (SUPPIN, 2006). A primeira ação deste órgão foi desenvolver e
gerenciar o primeiro distrito industrial do estado, o Centro Industrial da Grande
Vitória (CIVIT). Esse distrito foi inaugurado em 1974 em uma área de 170 ha, ao
norte do distrito de Carapina. No final da década de 1970, com a CST constituindo
uma realidade, a SUPPIN inaugurou o setor II do CIVIT em uma área de 160 ha, ao
lado do primeiro setor (Ibid. 2006).
Os distritos industriais exerceram um duplo papel, no entanto integrado, na produção
do espaço de Serra. Por um lado, com as instalações das indústrias, de porte
pequeno e médio, intensificou-se, ainda mais, a atração de população para o
município, já exercida pela expectativa dos Grandes Projetos Industriais. Por outro,
de maneira direta, a partir, principalmente, da inauguração do CIVIT II, surgiu uma
série de conjuntos habitacionais no entorno desses distritos industriais, com intuito
de proporcionar moradias para os trabalhadores das indústrias (Ibid., 2006). Aqui,
pode-se notar a ação do Estado em duas frentes que, em termos de acúmulo e
reprodução do capital, estão associadas: a política habitacional e a política industrial
(HARVEY, 1982).
Nesta conjuntura, de industrialização e crescimento econômico concentrado na
Grande Vitória, o espaço urbano de Serra foi produzido e estruturado no decorrer
dos últimos 30 anos. Uma maneira de apreender esse processo é a partir da
expansão da mancha urbana do município (Mapa 5).
Assim como ocorreu em outras cidades do Brasil, que cresceram em função de um
processo de industrialização, o espaço urbano de Serra, derivado desse processo,
não poderia deixar de ser marcado pelas desigualdades:
"[...] o município da Serra passou a ter um vertiginoso
crescimento,
implantando-se
numerosos
conjuntos
residenciais e loteamentos em Carapina, nos platôs que
ladeiam a BR 101 e a ES 010[...].
Ocorreram também no planalto [sic] algumas ocupações
irregulares em terrenos desfavoráveis à urbanização ou
situação fundiária judicialmente conflituosa, de forma que os
assentamentos sub-normais são encontrados em encostas e

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nos fundos dos vales, na orla das lagoas, nos loteamentos
não ocupados e em lotes de chácaras." (ABE, 1999, p. 384).

Mapa 5 - Expansão da mancha urbana de Serra, entre os anos de 1977 e 2000

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3.1
SERRA,
UM
DESCONTINUIDADE

ESPAÇO

URBANO

MARCADO

PELA

Neste subcapítulo, a produção do espaço urbano de Serra será discutida de maneira
mais detalhada. Para tanto, foram escolhidos dois elementos julgados de extrema
importância: o sítio natural sobre o qual o espaço urbano foi produzido; o sistema
viário e o processo de surgimento dos bairros.
É importante ressaltar que, temporalmente, a seguinte abordagem se aterá,
especialmente, até o inicio da década de 1990. Essa delimitação se faz necessária
por dois motivos: 1) as principais intervenções na infra-estrutura rodoviária, bem
como a implementação de conjuntos habitacionais, ocorrem até o final da década de
80; 2) após esse período, a dinâmica do espaço urbano de Serra toma uma nova
dimensão, incluindo neste contexto, a própria transformação do bairro de
Laranjeiras.

3.1.1 O sítio natural

O espaço urbano de Serra se desenvolveu na faixa oriental do território do
município, compreendendo boa parcela dos distritos de Carapina, Nova Almeida e
Serra. Nessa porção do território municipal predomina, em termos geomorfológicos,
a Unidade dos Tabuleiros Costeiros. Os Tabuleiros Costeiros constituem-se em
formas tabulares (topos planos), com a altimetria variando de 15 a 40 metros. Tais
formas são recortadas por vales fluviais, cujos córregos deságuam em lagoas, como
as lagoas Juara e Jacuném, e em rios como o rio Jacaraípe. A origem dos tabuleiros
costeiros remonta o período terciário, e está associada a processos deposicionais de
sedimentos de origem continental (RADAM, 1983).
Os vales que recortam os tabuleiros constituem-se em estreitas planícies, originadas
no período quaternário a partir de sedimentos fluviais, ou flúvio-marinhos (RADAM,
1983). Pode-se observar, ainda atualmente, uma presença considerável de

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vegetação, em médio a avançado estágio de regeneração, em muitos desses vales,
assim como em algumas vertentes dos tabuleiros16.
Embora o período atual seja caracterizado por elementos tecno-científicos sobre o
território (SANTOS, 2005), o que pressupõe um relativo domínio sobre o meio
natural, os aspectos fisiográficos do sítio natural tem sua influência sobre o processo
de produção do espaço urbano, notadamente no que tange a forma urbana (SERRA,
1987).
Sendo assim, a faixa oriental do município de Serra, em termos naturais apresentou
duas condições que são importantes para se pensar a forma do espaço urbano em
questão: a topografia plana e a descontinuidade natural do relevo.
De um lado, tem-se uma topografia plana e não sujeita a inundação, o que pode
facilitar, em termos técnicos, a ocupação urbana. De outro, os vales estreitos que
cortam esses tabuleiros induzem a uma descontinuidade no processo de produção
desse espaço urbano. Tal fato pode ser evidenciado na relação da ocupação urbana
com a geomorfologia do território oriental do município, pois em muitos casos os
vales dos tabuleiros constituem-se como verdadeiros limites entre os bairros (Mapa
6) 17.
Entretanto, não se pode considerar que os aspectos fisiográficos sejam os únicos
responsáveis pelo aspecto fragmentado do espaço urbano desse município, e sim,
um fator condicionante dessa forma urbana. Segundo Serra (1987), as
características do espaço natural constituem-se em fatores que podem influir na
forma do espaço urbano: "Dentre aqueles originados no espaço natural, a sua forma,
o relevo e a hidrografia continuarão marcando profundamente a forma urbana em
processo (...)" (SERRA 1987, p. 86).

16

Recentemente, essa condição, característica do território de Serra, tem sido bastante utilizada
pelos agentes do capital imobiliário como um importante atributo dos empreendimentos voltados para
camadas da população de maior renda. Ver mais sobre empreendimentos imobiliários em Serra no
capítulo 5.
17
Este mapa foi elaborado a partir de curvas de nível cuja eqüidistância é de 20 m, dessa maneira,
apenas os tabuleiros com altitude superior a 20 são representados.

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Mapa 6 ­ Modelo Digital do Terreno (MDT) de parte do território de Serra

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3.1.2 O sistema viário e os bairros de Serra, até a primeira metade da
década de 80

O espaço urbano de Serra apresenta como característica distinta, pelo menos em
relação aos outros municípios da Grande Vitória, um aspecto, consideravelmente,
disperso de sua mancha urbana. Esse espaço caracteriza-se por consideráveis
descontinuidades, entre ocupações urbanas e vazios urbanos.
A própria característica do sítio natural guarda certa influência sobre o
desenvolvimento desse padrão espacial, como foi observado. Além disso, a
estruturação urbana desenvolvida a partir de vários núcleos urbanos, como Nova
Almeida, Jacaraípe, Carapina e Serra-sede, também teve importante papel em
relação a esse padrão descontínuo do espaço urbano (IJSN, 1979).
Porém, o sistema viário, associado aos interesses fundiários especulativos, foi o
principal responsável pelo desenvolvimento desse padrão espacial (IJSN, 1980). No
decorrer das décadas de 1970 e 1980, a mancha urbana de Serra desenvolveu-se
entre os núcleos urbanos, citados a cima, estruturada, por sua vez, pelos dois
principais eixos rodoviários que cortam o município: a BR 101 e a ES 010.
Assim, por um lado, os bairros foram surgindo nas margens, ou bem próximos, à
rodovia federal, e de outro nas margens da rodovia estadual que liga a BR 101 ao
litoral (Mapa 7). É importante ressaltar que esse crescimento populacional do
município se cristalizou de maneira mais intensa no distrito de Carapina18(sul do
município).

18

Em 1960, a população urbana de Carapina era de 467 pessoas, 14% da população urbana do
município, em 1991 a população urbana desse distrito alcançou a 141.662, o que representava cerca
de 64% da população urbana de Serra (IBGE, 1960 e 1991).

48

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.

Mapa 7 - A mancha urbana e as vias rodoviárias de Serra em 1977

Em 1980, além dos eixos rodoviários citados acima, havia ainda mais duas vias
pavimentadas no município. A rodovia CIVIT que foi concebida com intuito de

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interligar o distrito industrial homônimo à BR 101 e a via de acesso à Laranjeiras e
ao CIVIT II. A primeira via, além de fazer parte da estrutura logística das indústrias,
exerceu relevante papel no estabelecimento de uma série de conjuntos habitacionais
nas proximidades do CIVIT I. Já a segunda, a atual Avenida Civit, foi construída na
segunda metade de década de 1970, primeiramente, com intuito de interligar o
conjunto habitacional Parque Residencial Laranjeiras a rodovia federal, e,
posteriormente, para dar acesso ao segundo setor do CIVIT. Em relação ainda essa
rodovia, é importante ressaltar que, no período de sua construção, já havia um
trecho projetado para estendê-la até jacaraípe19, o que veio ocorrer no final dos anos
1980.
Até a primeira metade da década de 1980, o quadro rodoviário do município era
constituído pela BR 101 e a ES 010, mais essas duas rodovias referidas acima. Não
havia rodovias exclusivamente municipais. Em virtude dessa estrutura rodoviária,
como já salientado, a tendência de uma mancha urbana descontínua e dependente
dos principais eixos foi reforçada.
Quanto às formas de moradia, a população que chegava ao município era, via de
regra, de baixa renda, assim, a origem dos bairros estava ligada a três situações
principais: conjunto habitacional, promovido pelo Estado; loteamentos regularizados,
porém, com pouca ou nenhuma infra-estrutura20; ocupações irregulares.
Em relação aos conjuntos habitacionais, Serra foi o município da Grande Vitória que
recebeu o maior número desses empreendimentos, seguido do município de Vila
Velha (Tabela 4).

19

Esta informação foi coletada junto a Revista Expediente Informe Vitrine Laranjeiras, Ano III. Edição
Especial, 2003.
20
No final da década de 70 com a Lei Nº. 6.766/79, que passou a regular o parcelamento do solo
urbano, tornou-se dificultoso o registro de loteamentos, uma vez que tal lei exigia uma série de prérequisitos para abertura de loteamentos.

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Tabela 4
Conjuntos Habitacionais implementados na Grande Vitória
COHAB-ES

21

INOCOOP-ES

TOTAL

CARIACICA

12.073

0

12.073

SERRA

15.089

13.756

28.845

VIANA

2.270

0

2.270

VILA VELHA

6.592

12.693

19.285

VITÓRIA

3.323

2531

5.854

39.347

28980

68.327

GV

Fonte: COHAB-ES, e CAMPOS Jr. e NEVES, 1998
Organizado pelo Autor.

No Espírito Santo a política habitacional foi posta em prática por dois agentes
ligados ao, então, Sistema Federal de Habitação (SFH), a Companhia de Habitação
do Espírito Santo (COHAB-ES) e INOCOOP-ES. A primeira atuava diretamente junto
ao Banco Nacional de Habitação (BNH) e às construtoras, já o INOCOOP-ES
voltava-se, primordialmente, para o apoio de natureza técnica (IJSN, 1987b), como
uma assessoria das cooperativas de habitação, que também desfrutavam do apoio
do BNH (CAMPOS Jr. e NEVES, 1998).
Os conjuntos habitacionais localizaram-se, primordialmente, no distrito de Carapina.
Os empreendimentos promovidos pelo

INOCOOP-ES concentraram-se nas

proximidades dos distritos industriais, CIVIT I e II, enquanto os promovidos pela
COHAB-ES tiveram uma distribuição mais dispersa sobre o território do município
(Mapa 8). Temporalmente, a implantação desses conjuntos concentrou-se entre
1976 e 1986, como pode ser observado no mapa a seguir.

21

Para o município de Cariacica, esses números incluem 10.105 lotes urbanizados e para o município
de Vila Velha, estão incluídos 3.393 lotes urbanizados.

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Mapa 8 - Localização e evolução temporal da implantação dos conjuntos habitacionais em Serra

Contudo, embora os conjuntos habitacionais tenham exercido um importante papel
na produção do espaço urbano de Serra, as outras formas de ocupação não ficaram

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atrás, aliás, pelo contrário. No decorrer da década de 1970, pôde-se observar uma
verdadeira explosão de loteamentos nas margens das principais rodovias (Quadro
3). Esse processo intenso de parcelamento do solo urbano foi motivado pelo
momento econômico vivido no Espírito Santo, e particularmente em Serra, devido à
expectativa de industrialização.
Década 1950

Década 1960

Década 1970

17

14

78

Década 80
12

Quadro 3 - Registros de áreas destinadas à habitação.
Fonte: PMS, Departamento de Urbanismo (Seplan), 1998.
Organizado pelo Autor.

Entre o final da década de 1960 e durante toda a década posterior, o município
conheceu um verdadeiro processo de especulação fundiária22. E uma das áreas
mais atingidas foi o litoral, e de maneira mais nítida, Jacaraípe (IJSN, 1979). Até nos
dias atuais pode-se observar os resquícios desse quadro, com loteamentos
marcados pela falta de infra-estrutura e baixa densidade de edificações. Como
ocorreu em outros lugares do país, este processo especulativo foi favorecido pela
própria legislação acerca do parcelamento do solo urbano, pois, naquele período,
não havia uma legislação que regulasse de forma rígida o parcelamento da terra
urbana. Isso ocorreu somente no final de 1979, como já observado.
Além dos loteamentos, a produção do espaço urbano de Serra foi marcada também
pelas ocupações irregulares, denominadas tradicionalmente de "invasões". Essas
ocupações se davam, sobretudo, em áreas pouco apropriadas para a urbanização,
isto é, em locais ambientalmente frágeis como as vertentes dos tabuleiros e os
estreitos vales encaixados nessas formas. As ocupações irregulares foram bastante
significativas tanto no entorno dos conjuntos habitacionais como também no entorno
dos loteamentos regularizados (SEPLAN/PMS, 1998). Neste contexto, a ação dos
agentes sociais denominados por Corrêa (1989) de Grupos Sociais Excluídos se
evidencia.
Portanto, entre os anos 1970 e 1980, nas margens dos principais eixos viários,
surgiram dezenas de bairros no espaço urbano de Serra. Estes, por sua vez, tiveram
22

Verifica-se a intensidade deste processo especulativo a partir de alguns números: em 1976 o
município já contava com cerca de 52 mil lotes vagos, 11 anos depois, esse montante elevou-se para
aproximadamente 110 mil lotes vagos (Serra 21)

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origens distintas, ora enquanto conjuntos habitacionais, ora como loteamentos
regularizados ou não, ou como ocupações irregulares etc. Em relação à Grande
Vitória, o espaço urbano de Serra constituiu-se como a expansão da periferia
metropolitana, e em virtude da maneira como foi produzido e estruturado, observase a relação de dependência frente a capital, como salienta um trecho de um estudo
do IJSN: "[...] Esta estrutura viária impossibilita o desenvolvimento de subcentros e
aumenta ainda mais a dependência em relação à Vitória" (IJSN, 1983, pp.13-14).

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4 INTERVENÇÕES NA MALHA RODOVIÁRIA DE SERRA E O
SISTEMA TRANSCOL: REDEFINIÇÃO DA ACESSIBILIDADE NO
ESPAÇO URBANO

Com o processo acelerado de expansão do espaço urbano da Grande Vitória, o
poder público estadual é "chamado" para intervir sobre esse espaço. O apelo, neste
sentido, vem da sociedade expressa por diferentes interesses, desde moradores de
bairros populares exigindo infra-estrutura mínima até empresários, pressionando por
melhores estradas ou isenção de impostos. Enfim, como se viu no capítulo 1, vários
são os agentes sociais que atuam sobre espaço da cidade.
No caso do Espírito Santo, as políticas públicas que envolviam o espaço urbano
eram subsidiadas pelos estudos do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN)23, com
apoio, especialmente financeiro, dos órgãos federais voltados para o planejamento
urbano.
A partir desses estudos, entre 1985 e 1990, houve importantes intervenções na
malha viária do município de Serra. Além disso, nesse período, foi pensado e
implementado o sistema metropolitano de transporte coletivo, o Sistema Transcol.
Em virtude desses acontecimentos, se impôs uma nova configuração da
acessibilidade dos fragmentos do espaço urbano de Serra.

4.1 INTERVENÇÕES NA ESTRUTURA VIÁRIA DO ESPAÇO URBANO
DE SERRA

O IJSN, desde sua criação, tem produzido estudos sobre o espaço urbano da
Grande Vitória, incluindo, trabalhos individualizados sobre cada município. Em seus
trabalhos sobre o município de Serra, um aspecto frequentemente destacado refere23

Em 1976, o governo estadual criou a Fundação Jones dos Santos Neves (FJSN) com a finalidade
produzir conhecimento e subsidiar políticas públicas através da elaboração e implementação de
estudos, pesquisas, planos e projetos. Em 1980, transformada em autarquia, esse órgão passou a
denominar-se Instituto Jones dos Santos (IJSN). Atualmente, esta autarquia designa-se Instituto de
Apoio a Pesquisa e ao Desenvolvimento Jones dos Santos Neves (IPES).

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se à maneira dispersa como a mancha urbana desse município se desenvolveu
(IJSN, 1979, 1980 e 1983). Neste sentido, enquanto proposta de ordenamento
urbano, pôde-se notar a importância em se construir rodovias transversais aos
principais eixos rodoviários, com intuito de se integrar a mancha urbana do
município.
Na primeira metade da década de 1980, parte desses estudos passaram a fazer
parte de projetos de Planejamento do Governo Federal, como o Programa
Aglomerados Urbanos Brasileiros (AGLURB)24 que era voltado para os problemas
das cidades de porte médio, sobretudo para as questões do transporte urbano.
Em 1983, na versão preliminar do Plano de Transportes Coletivos da Grande Vitória
(Transcol/GV), pôde-se verificar a ênfase na necessidade de se construir rodovias
transversais aos grandes eixos em Serra. Isso porque:
"A inexistência de ligações transversais repercute diretamente no
alongamento das viagens realizadas aumentando o seu tempo de percurso
e incidindo sobre o custo da tarifa" (IJSN, 1983, p.17).
Neste sentido, duas vias são programadas:
"a) A ligação que parte da BR 101, atravessando os bairros de Laranjeiras,
CIVIT II, Feu Rosa e continuando pela região praieira paralela ao corredor
ES 010"; b) A ligação que parte do bairro Serra Dourada, atravessando os
bairros de Laranjeiras, Jardim Limoeiro e rede ferroviária, continuando
paralela à BR 101 em Carapina e chegando a Jardim Camburi"(IJSN, 1983,
p.17, grifo nosso)".

A primeira via programada constitui-se nas atuais avenidas Civit e Talma Rodrigues
Ribeiro, enquanto a segunda refere-se à atual rodovia Norte-Sul. A rodovia
interligando a BR 101 ao litoral, de forma paralela a ES 010, encontrava-se
pavimentada até a altura do Bairro Feu Rosa em 198625. A pavimentação do trecho
restante, cerca de 4,4 km até Jacaraípe, ocorreu entre 1987 e 1989, enquanto obra
do Sistema Transcol (SARTÓRIO, 1996). A implantação da rodovia Norte-Sul
ocorreu entre 1985 e 1988 com recursos do governo federal e da prefeitura de

24

Esse programa do Governo Federal tinha aporte financeiro do BIRD, neste sentido, nota-se, de
maneira concreta, como os agentes hegemônicos puderam participar do processo de produção do
espaço urbano a partir de estudos que subsidiaram as políticas urbanas no país.
25
No mapa 8, página 49, pode-se observar os bairros e as rodovias pavimentadas em Serra até
meados da década de 80.

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Serra26, e com a coordenação do Governo estadual. Esta rodovia fez parte do
Programa AGLURB-GV e o seu principal intuito era integrar a mancha urbana do
município de maneira a otimizar o próprio transporte coletivo.
A rodovia Norte-Sul foi alvo de uma grande polêmica juntos aos moradores de
Laranjeiras. Na época, constituíram-se dois grupos distintos no bairro. Por um lado,
havia os moradores que eram contra a passagem da rodovia por dentro do bairro,
alegando que tal obra seria prejudicial para a população local, uma vez que poderia
acarretar no fim da "tranqüilidade" de um bairro residencial. Por outro, havia aqueles
que eram a favor da rodovia afirmando que essa via traria o "progresso" para o
bairro. Por fim, com intuito de se resolver este impasse, a Associação de Moradores
do Parque Residencial Laranjeiras (AMPRL) colocou a questão em votação em
Assembléia. A disputa foi acirrada, e o grupo a favor ganhou com 147 votos,
enquanto o grupo contrário à passagem da rodovia pelo bairro recebeu 133 votos27.
Assim, no final da década de 1980 (Mapa 9), a malha rodoviária ganhou uma nova
configuração a partir importantes intervenções do poder público. Tais intervenções
se deram não só por parte da prefeitura e do governo do estado, mas também, por
parte do governo federal através do programa AGLURB-GV. Com isso, o poder
público procurou criar as condições para implementação do sistema de transporte
coletivo metropolitano, o Sistema Transcol.

26

Essas informações foram conseguidas junto ao Departamento de Trânsito da PMS. Um fato curioso
sobre essa rodovia é que, no primeiro momento, os recursos conseguidos junto ao governo federal
eram suficientes apenas para se construir uma pista em cada sentido. No entanto, a PMS entrou com
a verba restante para a construção dessa via duplicada, segundo Engº Antônio Caus (DETRO, PMS).
27

As informações foram extraídas de documentos da AMPRL e do jornal AGAZETA.

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Mapa 9 - Evolução da estrutura viária de Serra

Com essa nova estrutura viária, a acessibilidade dos "fragmentos" do espaço urbano
do município foi redefinida. Nesse sentido, ação do poder público teve um efeito
sobre o espaço urbano como um todo, porém, de maneira diferenciada, e específica,
de acordo com a localização de cada bairro/fragmento. Laranjeiras, certamente, foi
um dos locais mais impactados nesse contexto, uma vez que a interseção das duas

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rodovias implantadas no decorrer da década de 1980 veio a se localizar neste bairro.
E a principal dessas vias, a rodovia Norte-Sul, conforme ressaltado anteriormente,
atravessou Laranjeiras (Mapa 10).

Mapa 10 ­ Posição do bairro P. R. Laranjeiras na malha rodoviária de Serra no final dos anos
80.

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Com isso, os fluxos de carros, de ônibus ou de bicicletas de importantes frações do
município passaram a convergir em Laranjeiras. Tal fato constituiu-se como
resultado da condição privilegiada deste bairro em relação à acessibilidade no
interior do espaço urbano de Serra. Essa condição, por sua vez, é essencial para
produção de uma centralidade intra-urbana (SPÓSITO, 1998) e para formação de
um subcentro por meio da descentralização espacial (CORRÊA, 1989 e 1997).
No entanto, a centralidade intra-urbana de Laranjeiras consolidou-se definitivamente
a partir da estruturação do transporte coletivo da Grande Vitória, com a
implementação do Sistema Transcol, entre o final da década de 1980 e início da
década de 1990. Devido às condições postas anteriormente, esse bairro foi
contemplado com um dos terminais de integração deste sistema. Desse modo,
Laranjeiras tornou-se um local de convergência do transporte intra-urbano, o que
veio a intensificar, e por que não, expandir, a sua centralidade intra-urbana, no
contexto do município.

4.2 SISTEMA TRANSCOL: ANTECEDENTES E PRÓPOSITO DE
IMPLEMENTAÇÃO

Na década de 1970, o aglomerado urbano da Grande Vitória já enfrentava sérios
problemas referentes ao transporte urbano. Dentre esses problemas destacavam-se
os congestionamentos de carros e ônibus no centro da cidade de Vitória. Esses
problemas, por sua vez, derivam do fato do centro de Vitória, historicamente, ter se
destacado como local de concentração as atividades centrais, exercendo, desse
modo, um papel polarizador no aglomerado urbano da Grande Vitória. Em virtude
desse papel, a Área Central de Vitória constituiu-se necessariamente no principal
foco do transporte intra-urbano da Grande Vitória, o que veio a corroborar com os
problemas citados no início deste parágrafo.
Até o final dos anos 1980, o transporte coletivo na Grande Vitória caracterizava-se
por uma configuração radial, tendo o centro de Vitória como foco (Mapa 11): "A

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grande maioria das linhas tem origem nos bairros e destino no centro do aglomerado
(Área Central de Vitória) [...]" (IJSN, 1987a).

Mapa 11 - Configuração das linhas de ônibus intermunicipais da Grande Vitória na década de
1980

À medida que o aglomerado da Grande Vitória crescia, nasciam novos bairros, e,
assim, criavam-se mais linhas de ônibus com destino ao centro. Essa estrutura radial

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da rede de transportes coletivos teve como conseqüência uma série de problemas,
além, como já mencionado, de reforçar a estrutura urbana monocêntrica do
aglomerado urbano da Grande Vitória. O diagnóstico realizado no âmbito do Plano
Diretor de Transporte Urbano da Grande Vitória (PDTU-GV) (1987) identificou as
seguintes deficiências desse modelo:
superposição de linhas;
baixo índice de rotatividade das linhas do aglomerado;
saturação do sistema viário do centro do aglomerado;
falta de integração física, operacional e tarifária;
inadequação dos terminais no centro do aglomerado
comunicação visual.
Esses problemas eram, em grande parte, responsáveis pelas chamadas
desecomomias de aglomeração, que, na prática, se cristalizam como uma "força
centrífuga" em relação às atividades econômicas localizadas no centro de Vitória.
Em 1982, os técnicos do IJSN começaram a elaborar o Plano de Transporte Coletivo
da Grande Vitória (Transcol/GV), incorporado mais tarde ao PDTU/GV. A
estruturação desse projeto contou com a participação de forma integrada das
esferas do poder público estadual e federal. O governo federal colaborou neste
processo por meio do Programa AGLURB-GV, que contou com a assessoria da
Empresa Brasileira de Transporte Urbano (EBTU)28 e da Empresa Brasileira de
Planejamento de Transporte (GEIPOT)29. O governo estadual contribuiu por meio
dos técnicos do IJSN, que ficaram encarregados do processo de elaboração da
pesquisa que subsidiou o documento do PDTU/GV.
O primeiro passo para a implementação do sistema metropolitano de transporte
coletivo se deu com a criação da Companhia de Transportes Urbanos da Grande
28

A EBTU constituiu-se em uma empresa pública cujo objetivo era promover e coordenar a
implementação da Política Nacional de Transportes Urbanos, definida pelo ministério dos transportes.
Esta entidade foi extinta, com mais outras entidades, em 1990 por meio da Lei nº. 8.029 de 12 de
abril do referido ano.
29
O GEIPOT constitui-se em um grupo, a principio interministerial, e depois ligado somente a
ministério dos transportes, cuja finalidade era prestar apoio técnico e administrativo aos órgãos do
poder executivo responsáveis pela execução da política de transportes nos diferentes modais. O
GEIPOT foi criado em 1965 (Decreto nº. 57.003, de 11/10 de 1965) como sugestão do Acordo de
Assistência técnica entre o governo Brasileiro e o BIRD.

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Vitória (CETURB-GV), por meio da lei nº. 3.693 de dezembro de 1984, que instituiu o
Sistema de Transportes Urbanos do Aglomerado Urbano da Grande Vitória. A
CETURB-GV, cujo objetivo principal é o gerenciamento do Sistema Transcol,
constituiu-se na primeira instituição de caráter exclusivamente metropolitano da
Grande Vitória, e suas atividades tiveram início efetivo em agosto de 1986.
A proposta base do Sistema Transcol consistiu na mudança de um sistema radial
para um sistema Tronco-Alimentador (Mapa 12). Dessa forma, as linhas
intermunicipais passavam, basicamente, a dar lugar a dois tipos de linhas: Trocais e
Alimentadoras. As primeiras foram concebidas para trafegarem pelos principiais
corredores, eixos viários da Grande Vitória, interligando os Terminais Urbanos de
Integração. Enquanto as linhas Alimentadoras seriam constituídas por linhas bairroterminal. Esses terminais foram propostos com a finalidade de se promover à
integração física, operacional e tarifária entre as linhas alimentadoras e troncais.

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Mapa 12 ­ Esquema tronco-alimentador das linhas de ônibus do Transcol

Segundo o PDTU/GV (1987), essa estruturação do sistema de transporte coletivo da
Grande

Vitória

objetivava,

em

termos específicos:

ampliar

os

níveis

de

acessibilidade dos usuários, minimizar os tempos de deslocamentos, melhorar os
níveis de conforto dos passageiros e reduzir os custos operacionais.

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Não obstante, além desses objetivos referentes propriamente às particularidades do
transporte urbano, o Sistema Transcol constituiu-se em uma ferramenta significativa
para o planejamento urbano da Grande Vitória. Isso porque, esse sistema visava
criar condições para a descentralização das atividades econômicas (comércio e
serviços) no aglomerado urbano da Grande Vitória: "[...] A construção dos terminais
vem fortalecer a tendência de se consolidar centros de animação dentro dos seus
respectivos municípios." (IJSN, 1987a, p. 119)
A escolha da localização dos Terminais Urbanos de Integração era de suma
importância para os objetivos expostos no parágrafo anterior. Por isso, foram
desenvolvidos estudos, exclusivamente com esse intuito, pelo Projeto AGLURB-GV.
Dentre os critérios para a localização destes terminais destacam-se: áreas
comerciais já consolidadas ou que já exibem um comércio local expressivo; áreas
com potencialidades para serem transformadas a médio ou a longo prazo em
centros de animação e disponibilidade de espaço físico (IJSN, 1984).
Dos seis terminais de integração previstos, cinco foram inaugurados entre 1989 e
1991(Quadro 4). Apenas o Terminal de Campo Grande, Cariacica, teve a sua
inauguração adiada por cerca de 10 anos.

Terminal

Município

Inauguração

Carapina

Serra

11/05/89

Itacibá

Cariacica

07/10/89

Vila Velha

Vila Velha

11/11/89

Laranjeiras

Serra

15/09/90

Ibes

Vila Velha

08/03/91

Campo Grande

Cariacica

22/06/01

Quadro 4 ­ Terminais de integração do Transcol
Fonte: Ceturb-GV

Em relação ao terminal de Laranjeiras, pôde-se notar uma intencionalidade não só
do Governo do estado, por meio do Sistema Transcol, em desenvolver condições
para o surgimento de um centro terciário nas proximidades de Laranjeiras, mas
também da própria prefeitura de Serra. O documento do Programa AGLURB-GV
(IJSN, 1984), justifica da seguinte maneira a localização deste terminal:

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"Localizado de acordo com as diretrizes de desenvolvimento urbano da
administração municipal da Serra, na vizinhança do projetado centro de
Serviços de Laranjeiras e no cruzamento de dois importantes eixos viários
(...). Sua tendência é a de assumir importância crescente com a
densificação do Centro de Serviços e dos bairros vizinhos. Sua área de
implantação permite expansão futura dada a grande disponibilidade de
terrenos vazios na vizinhança". (IJSN, 1984, p. 64)

O projetado Centro de Serviços de Laranjeiras tornou-se realidade na primeira
metade da década de 1990 com o nome de Shopping do Povo (Figura 2), uma
grande área coberta abrigando vários boxes, reservados para lojas. A iniciativa da
prefeitura de Serra foi desenvolvida seguindo os parâmetros explícitos na
implantação do Sistema Transcol, isto é, de aproveitar a economia de aglomeração
promovida pelo terminal para desenvolver um centro de animação. Contudo, este
empreendimento público voltado diretamente para o desenvolvimento do comércio
varejista no município acabou não se consolidando como o previsto. Segundo Abe
(1999), o insucesso desta iniciativa se deveu, de um lado, pela falta de
embasamento conceitual da organização do espaço interno e também devido à
ausência de integração física com o próprio terminal de Laranjeiras.

Figura 2 ­ Vista parcial do antigo Shopping do Povo, 2007
Fonte: Foto do autor

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O espaço do antigo Shopping do Povo é utilizado atualmente por órgãos públicos
como a Regional Fiscal de Laranjeiras, ligada à secretaria municipal de finanças, o
Juizado da Infância e da Juventude da Serra, o SINE, agente SEBRAE, PROCON,
Polícia Técnica, entre outros.
Enfim, apesar dessa ação direta da PMS com intuito de fomentar um centro
comercial no município, não foi no entorno do bairro de Laranjeiras que as atividades
terciárias se desenvolveram, como inclusive previa o PDTU/GV (1987). O lócus do
comércio varejista e dos serviços em geral estabeleceu-se, fundamentalmente, na
Avenida Central, que corta Laranjeiras na direção leste-oeste (Mapa 13).

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Mapa 13 ­ contextualização espacial do terminal de Laranjeiras, shopping do Povo e Avenida
Central.

Mas apenas a acessibilidade proveniente das rodovias que cortam o bairro e do
terminal de integração pode explicar a gênese deste subcentro? O próximo capítulo
se propõe fazer uma análise do processo de transformação do bairro em tela,
levando-se em consideração, evidentemente, o que se discutiu até o momento.

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Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
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5 LARANJEIRAS: DE CONJUNTO HABITACIONAL A EMERGENTE
SUBCENTRO TERCIÁRIO DA GRANDE VITÓRIA

Anteriormente, discutiu-se o processo de urbanização da Grande Vitória, a produção
do espaço urbano de Serra e a estruturação do transporte público metropolitano,
agora, levando-se em consideração os aspectos até então discutidos, procurou-se
discutir, propriamente, o bairro em questão. No primeiro momento, de maneira
breve, discute-se a gênese do bairro, isto é, em que contexto ele surgiu. A seguir,
busca-se compreender propriamente as transformações do bairro no decorrer do
tempo, no que tange a mudança das formas deste bairro a partir de uma nova
função exercida pelo mesmo no espaço urbano de Serra.
Neste sentido, para efeitos analíticos, são abordados três períodos. O primeiro
refere-se propriamente à origem deste bairro, destacando características específicas
que, possivelmente, foram importantes para se entender o presente. Esse período
estende-se, fundamentalmente, a até o inicio da década de 1990, tendo como marco
a inauguração do Terminal de Laranjeiras em 1990. A seguir, aborda-se os anos
1990, salientando o desenvolvimento e expansão do comércio local e também dos
serviços de maneira geral. Por fim, discute-se, inclusive em termos de números, a
consolidação deste bairro enquanto subcentro terciário, destacando, neste sentido,
de um lado a expansão do uso terciário, e, de outro, as novas formas do comércio,
incluindo o shopping.

5.1 MAIS UM CONJUNTO HABITACIONAL, MAIS UM BAIRRO DE
SERRA...

No dia primeiro de novembro de 1974, o BNH adquiriu uma área de um milhão de
metros quadrados, uma fazenda do, então, deputado Luiz Batista. Essa área
localizava-se ao norte do distrito de Carapina, próximo ao recém inaugurado CIVIT I.
Com a aquisição deste terreno, técnicos do INOCOOP-ES, juntamente com técnicos
do BNH, ficaram encarregados da elaboração do plano urbanístico do conjunto

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Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
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habitacional a ser implantado, que viria se constituir no Parque Residencial
Laranjeiras.
Em 28 de agosto de 1975 foi assinado o contrato entre a Cooperativa Habitacional
dos Trabalhadores Capixabas (COOPHABCAP) e o BNH, e com o Agente
Financeiro BMG Crédito Imobiliário, dando início também as obras do conjunto. O
processo de criação da cooperativa assim como os acordos da mesma com os
agentes do SFH foram acompanhados pelo INOCOOP-ES.
No final de 1977, as 1.855 casas ficaram prontas. No entanto, a inauguração oficial
deste conjunto ocorreu no início do ano seguinte. Assim, no decorrer de todo esse
ano as casas foram sendo ocupadas pelos moradores. Este bairro foi a primeira
experiência do INOCOOP-ES com conjuntos de grandes dimensões, aliás, em
termos de quantidade de unidades, apenas o conjunto Barcelona com 3.112
unidades, inaugurado em 1984, o superou.
Assim como ocorreu com outros conjuntos e loteamentos, no município de Serra, a
população deste conjunto habitacional sofreu consideráveis incrementos com as
ocupações irregulares em seu entorno, iniciadas em 197930. Essas ocupações
ocorreram nas áreas baixas dos vales dos Tabuleiros, nas denominadas áreas
"verdes".
O cotidiano ou a "vida comunitária" desse bairro desde o início foi bastante
movimentada. A associação de moradores foi fundada no mesmo ano da
inauguração do conjunto, em 1978. A primeira clínica médica particular foi
inaugurada em 1979, provavelmente, a primeira também do município. Em 1981 foi
inaugurada a biblioteca comunitária, a segunda da América Latina dessa natureza,
segundo jornais da época.
Em relação ao comércio e aos serviços desenvolvidos no bairro, verificou-se que, já
no começo da década de 1980, havia uma estrutura local considerável, como
observa um trecho de uma matéria do Jornal A Tribuna sobre o bairro:
"O bairro conta com três supermercados, três farmácias, várias mercearias,
boutiques, açougues, bares, oficinas mecânicas e eletrônicas, quitandas,
além de floriculturas e clinicas médico odontológicas. Até mesmo um cine
clube, em caráter experimental, exibe filmes em 15 em 15 dias [...]" (A
Tribuna, 06/10/1983)
30

Segundo documentos da AMPRL.

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GONÇALVES, Thalismar M. A Dinâmica do Espaço Urbano: um estudo sobre o bairro Parque
Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

Apesar

da

ausência

de

dados

sistematizados,

pode-se

inferir

algumas

considerações sobre o significado das características dessas atividades terciárias.
De maneira geral, as atividades comerciais que surgem em um bairro estão
associadas ao consumo cotidiano31 como padarias, bares, supermercados, entre
outros. Em um segundo momento, podem surgir atividades relacionadas ao
consumo freqüente tais como lojas de roupas, de calçados, etc. Tanto um como
outro se refere ao comércio local, ou a forma espacial denominada subcentro de
bairro (CORRÊA, 1989). Neste caso, a intensidade e a qualidade das atividades
terciárias estão associadas diretamente à área de influência, que se remete a área
do bairro.
Neste período, os estabelecimentos do comércio varejista e de prestação de
serviços, em Laranjeiras, relacionavam-se ao mercado local, condicionado, por sua
vez, a quantidade de moradores assim como da qualidade, em termos de renda,
destes32.
Além das atividades terciárias locais, o bairro de Laranjeiras no decorrer da década
de 1980 veio a sediar algumas entidades, que certamente extrapolava as
necessidades estritamente locais. Entre elas, destaca-se a APAE, o centro
comunitário33 e o Hospital Dório Silva.

Este último foi inaugurado em 1988,

constituindo um dos maiores hospitais público da Grande Vitória.
Neste contexto, o espaço urbano da Grande Vitória estruturava-se de forma
monocêntrica, com o centro de Vitória polarizando o comércio varejista, voltado para
o consumo freqüente e pouco freqüente, e os serviços profissionais e financeiros.
Sendo assim, o bairro de Laranjeiras, como os outros de Serra, participava dessa
estruturação como um bairro da periferia do espaço urbano da Grande Vitória, cuja
forma e função estavam associados a um bairro estritamente residencial. Embora,

31

Duarte (1974) identifica quatro tipos de comércio varejista: comércio de consumo cotidiano,
açougue, padaria etc; comércio de consumo freqüente, tecidos, roupas, calcados, drogarias etc;
comércio de consumo pouco freqüente, eletrodoméstico, óticas, relojoaria, joalheria, móveis etc;
comércio de consumo raro, material de precisão, máquinas especializadas para agricultura etc.
32
Segundo uma matéria do Jornal Atribuna, 06 out. 1983, apenas trabalhadores sindicalizados
podiam adquirir uma casa neste conjunto. Assim, pode-se deduzir que o nível de renda desta
população, de forma geral, não era tão baixo, em relação aos outros bairros, o que potencializa o
desenvolvimento de atividades terciárias locais.
33
As festas promovidas no centro comunitário não reuniam apenas moradores de Laranjeiras, mas
também de bairros adjacentes.

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as atividades terciárias já tivessem naquele período uma relativa significância, ainda
que localmente.

5.2 DÉCADA DE 1990: CRESCIMENTO DO COMÉRCIO VAREJISTA

Em contraste com o que ocorria na década de1980, no transcorrer dos anos 1990,
observa-se o surgimento de estabelecimentos voltados para o consumo freqüente
ou pouco freqüente, como óticas, lojas de confecções, calçados e joalheria.
Contudo, os estabelecimentos voltados para o consumo cotidiano, mercearias e
supermercados, por exemplo, ainda se apresentavam significativos nesse período
(Quadro 5)34.
Tipos de atividades
Óticas
Confecções/Moda

Quantidade
4
12

Calçados

2

Armarinhos, Joalherias e

5

Relojoarias
Farmácia
Supermercado, mercearia ou

5
10

alimentos em geral
Autopeças/Transporte

4

Serviços de saúde

6

Outros tipos de

20

estabelecimentos
Quadro 5 ­ Relação de estabelecimentos presentes na Av. Central em meados de 1990
Fonte: Classibairos, 1996
Organizado pelo Autor.

Em relação aos serviços, nota-se um número razoável de clínicas médicas
particulares. Dentre estas, há serviços especializados como fisioterapia e radiologia,

34

Os dados foram adquiridos em um catalogo publicitário de meados da década de 1990, por isso, é
possível que não conte com todos os estabelecimentos situados na Avenida Central.

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GONÇALVES, Thalismar M. A Dinâmica do Espaço Urbano: um estudo sobre o bairro Parque
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o que evidencia, por sua vez, já em meados de 1990, a presença de atividades mais
complexas no bairro.
Uma pesquisa desenvolvida pelo SEBRAE a respeito do comércio varejista de
Laranjeiras, realizada no início de 2004, aponta alguns direcionamentos importantes
referentes ao tempo de atuação das empresas nesse bairro, como pode ser visto a
seguir.
Tempo de atuação

Freqüência percentual

Até 1 ano

21,2

1 a 3 anos

26

4 a 6 anos

18,4

7 a 9 anos

9,8

10 ou mais anos

24,6

Quadro 6 ­ tempo médio de atuação dos estabelecimentos do comércio varejista
em Laranjeiras
Fonte: adaptado do Sebrae, 2004.

Observando o quadro, constata-se duas situações a grosso modo: quase metade
(47,2%) das empresas passou a atuar em Laranjeiras de 2000 em diante. Por outro
lado, cerca 1/4 das empresas atuam há 10 anos ou mais. Assim, levando-se em
consideração os números, é evidente o crescimento do comércio nos anos 2000.
Todavia, os mesmos números mostram que boa parte das empresas do setor atua
desde a década anterior, cerca de 50% das firmas entrevistadas atuam a pelos
menos há quatro anos no bairro. Tal fato corrobora, por sua vez, com a idéia de que
na década de 1990 o comércio varejista de Laranjeiras já apresentava uma
significância que extrapolava o caráter local, de forma exclusiva.
Apesar do crescimento da importância das atividades terciárias em Laranjeiras nos
anos 1990, não se observou, de forma significativa, a presença de grandes
estabelecimentos e de atividades ligadas aos serviços financeiros. Neste sentido,
esse crescimento do comércio varejista deve-se, fundamentalmente, a investimentos
de atores locais, seja de Laranjeiras ou do próprio município.
Enquanto processo, a descentralização espacial está associada à idéia de tempo.
As mudanças no espaço não ocorrem de uma hora para outra. Para Corrêa (1989 e
1997) o processo de descentralização espacial é extremamente complexo,

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Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
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caracterizando-se por diferentes tipos de seletividade. Entre os tipos de seletividade,
encontra-se a seletividade em termos temporais, isto é, as atividades não se
descentralizam todas de uma vez.
"[...] no caso do comércio varejista e serviços descentralizam-se
primeiramente aquelas firmas que atendem a demandas mais freqüentes, e
a seguir aquelas associadas a demandas menos freqüentes, que
necessitam de uma localização central;" (CORRÊA, 1997,p.127)

Deste modo, na segunda metade da década de 1990, Laranjeiras já apresentava
características diferentes, da década anterior, quanto às formas e à função do bairro
perante o espaço urbano de Serra. Isso a partir da expansão, sobretudo, de
pequenas lojas associadas ao comércio de consumo cotidiano e freqüente, e
também de serviços profissionais como clínicas médicas. Em termos de serviços
financeiros, havia apenas um banco, o BANESTES, inaugurado em 1994.
Como foi ressaltado no capítulo anterior, no princípio da década de 1990,
Laranjeiras ganhou uma acessibilidade diferenciada em relação a vários bairros de
Serra, com diferentes densidades e características socioeconômicas, o que lhe
conferiu uma centralidade intra-urbana no município. Tal centralidade foi reforçada
nessa década com o próprio incremento populacional, uma vez que, a área de
influência, em potencial, tornou-se mais ampla. De 1990 a 2000, como ocorreu nas
décadas anteriores, a população de Serra foi a que mais cresceu, em relação aos
municípios da Grande Vitória (Tabela 5).
Tabela 5
Evolução da população dos municípios da Grande Vitória: 1991 a 2000

1991

2000

Tx. de

Incremento populacional

Crescimento a.a.

1991-2000

Vitória

258777

292304

1,3%

33.527

Vila Velha

265586

345965

3%

80.379

Viana

43866

53452

2,2%

9.586

Serra

222158

321181

4,5%

99.023

Cariacica

274532

324285

1,8%

49.753

1064919

1337187

2,5%

272268

GV

Fonte: IBGE,1991 e 2000
Organizado pelo autor.

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Como reflexo desse aumento populacional sobre a centralidade intra-urbana de
Laranjeiras tem-se o aumento significativo do número de linhas alimentadoras do
terminal de Laranjeiras (Tabela 6). Outro fator a se considerar, em termos
quantitativos, é o número de passageiros que circula por esse terminal. Em 1998
eram cerca de 70.000 pessoas por dia (Quadro 7), o mesmo número da soma de
passageiros/dia dos Terminais de Vila Velha e de Dom Bosco, por exemplo.
Tabela 6
Evolução do número de linhas alimentadoras do Terminal de Laranjeiras

Ano
1991
1994
2000

Nº de linhas
11
22
26

Fonte: Ceturb/GV

Terminal

Passageiros/dia

Dom Bosco

30.000

Vila Velha

40.000

Ibes

40.000

Itacibá

60.000

Laranjeiras

70.000

Carapina

60.000

Quadro 7 - Fluxo diário de passageiros nos terminais do Transcol em 1998
Fonte: Ceturb/GV

Para efeito de observação, não se pretende, aqui, fazer uma associação direta, e
determinista, entre o crescimento do comércio e os dados referentes à população e
ao transporte coletivo, mas sim, pôr subsídios empíricos a esse primeiro momento
do crescimento de Laranjeiras enquanto centro terciário. Neste sentido, a redefinição
da acessibilidade do bairro em questão somada ao contínuo aumento da população
de Serra, na década de 1990, criaram as condições para que se verificasse essa
evolução significativa das atividades terciárias.

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5.3 SHOPPING CENTER, BANCOS, FINANCEIRAS, LOJAS DE
GRAMDES REDES... SURGIMENTO DE UM SUBCENTRO
TERCIÁRIO METROPOLITANO

Diferentemente do período anterior, a partir de 2000 as atividades terciárias em
Laranjeiras conhecem, por um lado, uma expansão, em termos quantitativos, e, por
outro, ocorrem mudanças qualitativas com a chegada de filiais de grandes
estabelecimentos, muitas das quais pertencentes a redes nacionais (Quadros 8 e 9).

Eletro, Móveis e

Ano de

Tecido e

Ano de

Utilidades em

Inauguração

Roupas

Inauguração

geral
Ricardo Eletro

2002 Casas Stª

1999

Terezinha
Eletrocity

2001 Distribuidora

2002

São Paulo
Casa e Vídeo

2005 Storary

1999

Dadalto

1998 Dit

2001

Lojas Mig

2004 Lojas

2004

Mercadão
Megalar

2004

Sipolatti

1994

Danúbio

2002

Casas do

2002

Brinquedo
Quadro 8 ­ Relação com a data de inauguração de alguns importantes
estabelecimentos de eletrodomésticos, roupas e tecidos.
Fonte: Pesquisa de Campo-2006

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Calçados

Ano de

Óticas

Inauguração

Ano de
Inauguração

Itapuã

2000 Ótica Diniz

2006

Elmo

2000 Óticas

1997

Cachoeiro
Los Neto

1994 Óticas

2000

Gama
Boroto

2006 Óticas do

2002

Povo
Dora

1999 Óticas

2000

Londres
Pissalle

2001

Quadro 9 ­ Relação com a data de inauguração de algumas lojas
de calçados e óticas.
Fonte: Pesquisa de Campo-2006

Assim como ocorre no processo de centralização espacial, na descentralização
também se pode verificar a ocorrência de outro processo espacial, a coesão, ou
economia de aglomeração. Segundo Corrêa (1997), esse processo espacial induz a
concentração de atividades terciárias do mesmo tipo, ou de tipos distintos, porém,
de alguma forma complementares como comércio varejista e serviços financeiros.
Neste sentido, verifica-se, de maneira paralela, o surgimento de bancos e de
financeiras em Laranjeiras (Quadro 10), como resultado do crescimento do comércio
varejista. Além disso, há também as atividades de serviços profissionais que se
aproveitam do fluxo de pessoas atraídas pelo comércio. Atividades como
consultórios odontológicos e advocacias, por exemplo, localizam-se, geralmente,
acima do térreo. Importantes filiais relacionadas à educação e à formação
profissional também chegam de maneira considerável nos últimos anos, conforme o
Quadro 11.

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Financeiras

Ano de Inauguração

Bancos

Ano de Inauguração

Dacasa

2004

Banestes

1994

Sul Financeira

2006

Banco do Brasil

2003

Concred

2004

Bradesco

2002

Credivisa

1997

Unibanco

2004

Finasa

2006

Itaú

2002

Exclusiva

2005

Satander/Banespa

2006

Real

2002

Quadro 10 - Relação dos principais estabelecimentos de serviços financeiros em Laranjeiras 2006
Fonte: Pesquisa de Campo (2006)

Escola de

Ano de

Escola

Ano de

línguas

inauguração

Profissionalizante

inauguração

CCAA

1998

Data control

2001

Wisard

2003

Microlins

2002

Uptime

2006

Winsdow

2005

Quadro 11 ­ Relação com as datas de inauguração de filiais de escolas de línguas estrangeiras
e escolas profissionalizantes.
Fonte: Pesquisa de Campo (2006)

Com a intensificação das atividades terciárias neste bairro, ainda que de maneira
pontual, observa-se a dificuldade de permanência, em alguns ramos, de lojas de
empresários locais, em virtude da chegada de empresas mais competitivas. Como
provavelmente deve ter ocorrido com as óticas de Laranjeiras. Em 1996, havia
quatro óticas: Óticas Laranjeiras, Óticas Visual, Óticas Esmeralda e Óticas Nova
York. Em 2006, apenas a primeira encontrava-se ativa. Observou-se também uma
"expulsão" de estabelecimentos dos pontos mais competitivos, como aconteceu,

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possivelmente, com alguns estabelecimentos no ramo de lanchonetes e de
pizzarias, que foram deslocados da Avenida Central para outras ruas do bairro35.
Embora se trate de situações pontuais, uma vez que não foi feito um levantamento
preciso nessa direção, o fato discutido acima demonstra como esse processo de
transformação reflete diretamente na competição pelo uso do solo urbano no bairro
em foco. Essa competição, por sua vez, está associada diretamente a formação do
preço do solo urbano (RIBEIRO, 1997), o que se constitui em um importante fator de
seleção da apropriação do espaço urbano, na sociedade capitalista. Uma outra
forma de perceber esse processo de seleção do uso do espaço urbano é através
dos anúncios de alugueis exclusivos para o uso comercial, constata-se esse fato, de
forma marcante, em casas próximas à Avenida Central.
No final do ano de 2002 foi inaugurado o Laranjeiras Shopping36 (Figura 3). A
implantação desse empreendimento constituiu em um importante indicador no que
se refere ao papel de Laranjeiras em relação ao espaço urbano de Serra. Ademais,
tal construção evidencia uma nova maneira do capital comercial e imobiliário se
reproduzir no bairro, a partir de novas formas espaciais.
É importante ressaltar que a inauguração do Shopping não diminuiu a tendência de
crescimento das atividades terciárias nas vias do bairro, aliás, como pôde ser visto
nos quadros 7, 8,9 e 10, muitos dos estabelecimentos foram inaugurados após o
ano de 2002. Por isso, acredita-se que esse empreendimento potencializou ainda
mais a centralidade intra-urbana de Laranjeiras, não só a partir de mais opções do
comércio varejista, mas também, e fundamentalmente, em função de atividades de
lazer como o cinema e a praça de alimentação.

35

Como ocorreu, possivelmente, com a Pizzaria Peperoni e com o bar Rancho do Gaúcho que se
deslocaram da Avenida Central para outras vias transversais.
36
Segunda matéria do Jornal Atribuna de 25 de agosto de 1999, a iniciativa de se investir em um
shopping em Laranjeiras foi subsidiada por uma pesquisa encomenda pela empresa Fashion Mall, na
qual identificou uma grande expansão do comércio local e também uma forte carência de espaços
para lojas e escritório no bairro.

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GONÇALVES, Thalismar M. A Dinâmica do Espaço Urbano: um estudo sobre o bairro Parque
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Espírito Santo, Vitória, 2007.

Figura 3 ­ Vista parcial do Laranjeiras Shopping, 2007
Fonte: Foto do autor.

Até presente momento, a discussão se ateve ao aspecto geral e qualitativo do
desenvolvimento das atividades terciárias. Para o foco da pesquisa torna-se
necessário uma visão da distribuição espacial deste processo, isto é, a maneira
como se distribui o uso do solo terciário em Laranjeiras. Com isso pretende-se
verificar a condição atual de transformação do uso do solo, identificar onde se
concentra esse tipo de uso, além de proporcionar inferências acerca da tendência da
expansão do uso do solo dessas atividades, e, consequentemente, das
modificações nas formas do bairro.
Para tanto, utilizou-se uma adaptação da metodologia proposta por Murphy e Vance
(apud REIS, 2001) para se delimitar CBD (Central Busines District) das cidades
norte-americanas, caracterizado pela alta concentração de atividades terciárias.
Esses autores procuraram selecionar alguns atributos que caracterizam essa fração
da cidade, visando proporcionar um caráter generalizador a essa metodologia, eles
criaram o método do índice de intensidade central (central business index method).
Este índice, por sua vez, é produto da combinação de dois outros índices: o índice

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de altura das atividades centrais (Central Business Height Index) e o índice de
intensidade das atividades centrais (Central Business Intensity Index) (REIS, 2001)
Para a presente pesquisa, optou-se pela adaptação do índice de intensidade das
atividades centrais (Central Business Intensity Index), uma vez que não se nota a
necessidade, no momento, de verificar o uso vertical das atividades terciárias no
bairro em questão. Esse índice é calculado pela divisão da área total ocupada dos
pavimentos por atividades centrais37 pela área total do quarteirão, e o resultado
encontrado é multiplicado por 100 (Ibid, 2001). Com intuito de melhor representar o
fenômeno em questão, a distribuição das atividades centrais em Laranjeiras, optouse pela utilização da face da quadra em vez de quarteirão, além disso, não se
utilizou área ocupada, mas sim o número de estabelecimentos por face. O índice em
questão é calculado da seguinte maneira:

Assim, foi elaborado um mapa representando a intensidade do uso do solo (térreo)
de Laranjeiras pelas atividades terciárias (Mapa 14).

37

Atividades centrais referem-se ao comércio varejista, serviços profissionais ou financeiros. No caso
em questão, refere-se ao uso do pavimento térreo.

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Mapa 14 ­ Mapa com a distribuição e intensidade do uso do solo pelas atividades terciárias
em Laranjeiras

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Observando o Mapa 14, pôde-se constatar três situações importantes: 1) os
principais trechos com alta intensidade do uso terciários são a Avenida Central
(Figura 4), o trecho da Rodovia Norte-Sul que corta Laranjeiras (Figura 5) e o trecho
da avenida Civit entre o limite do Bairro e a Rodovia Norte-Sul. 2) as áreas
adjacentes à avenida central apresentam uma intensidade média de uso do solo
terciário; 3) em termos espaciais, de forma absoluta, ainda predomina o uso
residencial na área do bairro em questão.

Figura 4 ­ Vista parcial de um trecho da Avenida Central, 2006.
Fonte: Foto do Autor.

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Figura 5 ­ Vista parcial do trecho da Rodovia Norte-Sul que passa por Laranjeiras, 2006
Fonte: Foto do Autor.

A concentração de atividades terciárias na Avenida Central está associada pela
própria função dessa via, que foi construída para abrigar esses tipos de
estabelecimentos, mas, a princípio, para um consumidor local. Com as mudanças
ocorridas no espaço urbano de Serra e da Grande Vitória, conforme já foi ressaltado,
essa avenida veio a se consolidar como o principal ponto de concentração das
atividades terciárias, o que reflete, por sua vez, nos maiores preços da terra urbana.
Já a concentração de atividades terciárias no trecho da Rodovia Norte-Sul bem
como no trecho da Avenida Civit, refere-se ao próprio fluxo intenso nessas rodovias
como também reflexo da expansão das atividades concentradas na Avenida Central,
uma vez que esses dois trechos encontram-se próximos a essa avenida.
Por outro lado, nota-se também predominância de uso residencial na maior parte do
bairro. No entanto, embora não se tenha informações detalhadas sobre o histórico
das transformações do uso do solo, percebe-se uma tendência de apropriação das
atividades centrais nas vias paralelas à avenida central, ou perpendiculares a ela,
tais como a primeira e a segunda avenida. O trecho da Avenida Civit, a leste da
Rodovia Norte Sul, também apresenta uma condição média de intensidade de
atividades centrais que na prática pode-se constituir em forte tendência de

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Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
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transformação dessa via, assim como das vias adjacentes. Logo, tem-se, de um
lado, partes do bairro completamente tomadas pelas atividades terciárias, outras em
transformação e ainda boa parte tomadas por residências.

5.4 O ESPAÇO URBANO E SUA DINÂMICA, LARANJEIRAS E AS
TRANSFORMAÇÕES RECENTES DO ESPAÇO DE SERRA...

No item anterior pôde-se observar que nos últimos anos, notadamente, a partir de
2000, as atividades terciárias em Laranjeiras tomaram uma nova dimensão, em
função da chegada de lojas de redes, de bancos, de financeiras e, especialmente,
do Shopping. Por que Laranjeiras nesses últimos anos tornou-se tão atrativo para
essas atividades econômicas, a ponto de transformar a paisagem deste bairro, bem
como a sua função no espaço urbano de Serra? E quais são os impactos
observáveis dessas mudanças no entorno do bairro?
Pôde-se observar, no item 5.2, que no decorrer da década de 1990, Laranjeiras
conheceu um importante impulso no que se refere ao desenvolvimento das
atividades terciárias. E também se viu que este crescimento está associado,
especialmente, a acessibilidade que este bairro ganhou no início da década de
1990, em função da estruturação do transporte coletivo na Grande Vitória e, além
disso, tal fato foi potencializado pelo crescimento da população do município no
período.
Neste sentido, este impulso inicial das atividades terciárias em Laranjeiras,
comandado, sobretudo, por agentes locais, foi extremamente importante para a
consolidação deste bairro enquanto subcentro terciário. Essa primeira fase foi
responsável pela formação do threshod ou mercado mínimo (COLBY apud
CORRÊA, 1997) que, por sua vez, atraiu para esse bairro as lojas maiores e o
shopping. Em outras palavras, Laranjeiras tornou-se atrativo para frações do capital
que extrapolam a alçada local, como resultado tem-se a produção de novas formas,
a partir da transformação da paisagem preexistente.

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Assim como aconteceu no decorrer dos anos 1990, de 2000 em diante a
centralidade intra-urbana de Laranjeiras intensificou-se em função, como um todo,
do aumento da população do município. Segundo estimativa do IBGE, a população
de Serra chegou a 394.370 habitantes em 2006, o que significa um incremento de
mais de 73 mil habitantes em relação a 2000. Ademais, de forma mais explicita em
relação à acessibilidade, houve um incremento do número de linhas alimentadoras,
passando de 26, em 2000, para 34 linhas em 2006.
Um fator relevante para consolidação de Laranjeiras, enquanto lócus do comércio
varejista e de serviços em Serra, pode ser considerada a ausência de outro lugar no
município que reunisse condições para competir com esse bairro os investimentos
referentes às atividades terciárias. Mas o que veio a diferenciar Laranjeiras? Em
primeiro lugar, a sua acessibilidade privilegiada em relação a áreas densas do
município. No entanto, não se pode desconsiderar o próprio desenvolvimento do
comércio local, antes mesmo das intervenções do poder público na malha viária, no
início da década de 1980.
Além disso, nota-se que as outras vias do município que concentram relativamente
atividades terciárias constituem-se, com a exceção da Avenida Getúlio Vargas em
Serra-Sede, em vias de tráfego constante, de passagem, tais como: Avenida
Brasília, Porto Canoa; Trecho da BR 101, Carapina; Avenida Abdo Saad, Jacaraípe;
Trecho da ES 010 entre a BR 101 e a rodovia Norte-Sul (Jardim Limoeiro). Enquanto
a Avenida Central foi pensada/planejada com o intuito de abrigar atividades
terciárias, voltadas para o consumidor local a princípio. Tal fato, por sua vez, pode
ter colaborado com este aspecto diversificado das atividades terciárias em
Laranjeiras, ao passo que as margens das vias de passagem tendem a
especialização, ou seja, a concentrarem atividades relacionadas, por exemplo, ao
setor de automóveis.
As mudanças em Laranjeiras discutidas neste trabalho, em virtude do caráter
"articulado" do espaço urbano, não se limitam ao perímetro do referido bairro.
Embora, certamente, sejam inúmeras as conseqüências do processo em tela em
relação à dinâmica do espaço urbano de Serra, aqui, optou-se por discutir dois
elementos que foram julgados importantes: as mudanças recentes de linhas do

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Sistema Transcol em função da demanda gerada por Laranjeiras e a valorização do
entorno do bairro como resultado da intensificação das atividades terciárias.
Pode-se afirmar que a estruturação das linhas de ônibus, no passado, "levou" o
comércio para Laranjeiras, e agora o movimento se inverteu. O próprio
desenvolvimento das atividades terciárias neste bairro criou demanda para que a
CETURB/GV criasse linhas diametrais passando por Laranjeiras. Em 2005 foram
criadas duas linhas: 883 Praia de Carapebus/José de Anchieta ­ via Cidade
Continental/Laranjeiras e

884

Praia

de Bicanga/José

de Anchieta

­

via

Oceania/Laranjeiras. No ano passado foi criada mais uma, a linha 889 Planalto
Serrano / Laranjeiras ­ Via setor C e A/Campinho I (Mapa 15).

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Mapa 15 ­ As novas linhas diametrais que passam por Laranjeiras.

Com a criação dessas linhas, a área de influência de Laranjeiras amplia-se
consideravelmente, uma vez que importantes bairros, no que concerne a densidade
populacional, passam a ter acesso facilitado a este bairro, tais como os bairros Novo
Horizonte e Cidade Continental. Os bairros citados possuem linhas alimentadoras
com o ponto no Terminal de Carapina, assim, caso algum morador quisesse se
locomover até Laranjeiras teria que recorrer a pelo menos dois ônibus. Portanto, a

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própria dinâmica que induziu a criação dessas linhas será "beneficiada", uma vez
que aumentando o fluxo de pessoas, maiores são as chances de aumentar as
vendas, ou os negócios de maneira geral, e, como conseqüência, "alimenta" o
processo de produção do espaço urbano.
O processo de redefinição do uso de determinada parcela do solo urbano reflete
diretamente no seu entorno (CORRÊA, 1989 e SPÓSITO, 1998). A concretização de
Laranjeiras como um importante centro terciário influiu diretamente na valorização
das áreas do entorno. Como resultado dessa valorização tem-se um "BOOM" de
lançamentos de empreendimentos imobiliários voltados para a classe média,
conforme o 10º Censo imobiliário do Sindicon (Nov.2006). De março de 2006 a
novembro desse ano, houve um incremento de quase 300% dos lançamentos no
entorno de Laranjeiras, o maior crescimento relativo de todas as regiões
pesquisadas38.
Neste sentido, observa-se a ação dos promotores imobiliários que valorizam seus
capitais transformando a paisagem do entorno de Laranjeiras, notadamente, com
condomínios exclusivos horizontais (Mapa 16). E para isso, as características atuais
de Laranjeiras são fundamentais como salienta um trecho de uma propaganda da
Construtora Morar, uma das principais investidoras nessa região:
"O Aldeia das Laranjeiras está localizado no bairro de Laranjeiras, um dos
que mais cresce na Grande Vitória. Auto-suficiente, conta com excelente
estrutura comercial e de serviços, abrigando boas escolas, hospitais,
supermercados e agências dos principais bancos. [...] Está próximo à
BR101-Norte e importantes avenidas que permitem um fácil e rápido
deslocamento para qualquer ponto da Grande Vitória." (grifo nosso)
Fonte: www.morar.com.br

O Censo Imobiliário promovido pelo Sindicon-ES abarca, atualmente, 10 "regiões" na Grande
Vitória: 1) Praia do Suá, Santa Lucia, Bento Ferreira (Vitória); 2) Praia do Canto, Barro Vermelho,
Praia de Santa Helena (Vitória); 3) Enseada do Suá (Vitória); 4) Jardim da Penha (Vitória); 5) Jardim
Camburi (Vitória); 6) Mata da Praia (Vitória); 7) Praia da Costa e Itapuã (Vila Velha); 8) Itaparica (Vila
Velha); 9) Laranjeiras (Serra); 10) Campo Grande (Cariacica).
38

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Mapa 16 ­ Distribuição espacial dos empreendimentos imobiliários de médio a alto padrão, no final de
2006.

Portanto, Laranjeiras, com o passar dos anos, transformou-se a partir da
apropriação de consideráveis parcelas do espaço por atividades terciárias,
imprimindo novas formas e uma nova função ao bairro no contexto do espaço
urbano de Serra e da RMGV. Essas mudanças estão associadas, por sua vez, a um
processo de descentralização espacial das atividades terciárias da Grande Vitória, e,
em virtude das condições já discutidas, Laranjeiras emergiu como uma das
localidades que reuniu as condições para que se materializasse este processo no
município de Serra. Além disso, viu-se também, apesar de maneira pouco
aprofundada, as conseqüências deste processo em Laranjeiras, no que tange às
novas estratégias dos produtores e consumidores do espaço urbano de Serra.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como pôde ser constatado nesta pesquisa, de forma concreta, o espaço é dinâmico.
A todo o momento as suas formas são construídas, destruídas e reconstruídas.
Ademais, de forma paralela a essas modificações na paisagem urbana, observa-se
um espaço "vivo" a partir da ação da sociedade não só na produção propriamente,
mas, no uso/apropriação deste espaço de diversas maneiras.
No decorrer do decênio de 1970, o Espírito Santo conheceu um vigoroso processo
de industrialização fundamentado nos chamados Grandes Projetos Industriais. Em
virtude deste processo, a população da Grande Vitória passou a crescer
rapidamente. Neste contexto, o território de Serra sofreu grandes transformações,
uma vez que durante 20 anos a sua população saltou de cerca de 10 mil (1970), na
zona urbana, para mais de 220 mil habitantes (1991).
Neste processo de produção do espaço urbano de Serra, os conjuntos habitacionais
promovidos pelo Estado tiveram um lugar de destaque, quase 30 mil unidades foram
entregues, entre 1968 e 1995. Um desses conjuntos habitacionais foi construído em
uma fazenda, nas proximidades do CIVIT, e inaugurado em 1978, tratava-se do
Parque Residencial Laranjeiras, com cerca de 1.855 unidades habitacionais, para a
época, um conjunto de grandes dimensões.
Esse conjunto habitacional, no transcorrer dos anos, foi mudando a sua função, e
também suas formas, no conjunto do espaço urbano de Serra e da Grande Vitória.
De um bairro estritamente residencial, com uma população de classe baixa a média
e com um razoável comércio local, este bairro transformou-se no principal centro
terciário de Serra, e um dos mais importantes da Grande Vitória.
A consolidação de Laranjeiras enquanto centro terciário se deu nos últimos 10 anos.
Na década de 1980, o comércio e os serviços, embora já apresentassem certa
relevância, eram voltados, sobretudo, para as necessidades locais. O quadro
modificou-se no desenrolar da década de 1990, tanto o comércio como os serviços
expandiram no bairro, inclusive surgiram estabelecimentos mais especializados,
voltados não apenas para um consumo cotidiano. Este primeiro surto de
crescimento das atividades terciárias em Laranjeiras está associado diretamente à
acessibilidade diferenciada que o bairro adquiriu no final dos anos 80. Essa

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acessibilidade, por sua vez, foi produzida em função de intervenções do poder
públicos

voltados,

sobretudo,

para

a

estruturação

do

transporte

urbano

metropolitano.
Com essa posição privilegiada, somada as atividades que já eram desenvolvidas no
bairro e ao contínuo aumento da população de Serra, entre 1991 e 2000, os
estabelecimentos comerciais e de serviços foram se apropriando cada vez mais do
espaço do bairro, notadamente, na Avenida Central. Este primeiro período de
crescimento das atividades terciárias caracterizou-se pela predominância empresas
locais e de um fraco desenvolvimento das atividades financeiras.
A partir de 2000 as atividades terciárias em Laranjeiras tomam um novo impulso. Em
virtude deste crescimento comentado anteriormente, o bairro tornou-se atrativo para
as filiais de grandes lojas, como também para serviços financeiros com bancos e
financeiras. Além disso, pode-se perceber novas formas desse momento com a
inauguração do Shopping, em 2002.
Em relação à transformação definitiva de Laranjeiras em subcentro terciário, duas
considerações são essenciais para se entender o processo: 1) a maneira como o
comércio varejista e os serviços passaram a se comportar a partir de 2000 deve ser
entendida como uma continuidade do que já estava ocorrendo na década de 1990,
isto é, o primeiro surto de crescimento constituiu-se em condição para a redefinição
quantitativa e qualitativa das atividades terciárias; 2) a acessibilidade de Laranjeiras
foi reforçada continuamente com o incremento de um lado de mais linhas
alimentadoras para o Terminal de Laranjeiras, e por outro lado, a partir de linhas
diametrais passando pelo bairro.
Como o espaço urbano é fragmentado e articulado, as mudanças em um
determinado fragmento influem no conjunto do espaço urbano. No caso em tela,
notou-se que com a redefinição da função de Laranjeiras, além das transformações
das formas preexistentes e da própria dinâmica cotidiana do bairro, as áreas do
entorno do bairro tem sofrido uma contínua valorização, o que potencializa a sua
apropriação/transformação pelo capital imobiliário.
Assim sendo, a marcante atuação do capital imobiliários nos últimos anos no
entorno de Laranjeiras constitui-se como um indicador da consolidação deste bairro
enquanto um local de concentração de comércio varejista e serviços diversos. Por

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essa ótica, observa-se, atualmente, de forma concomitante e articulada: a ação do
capital comercial e imobiliário transformando o espaço de Laranjeiras e o capital
imobiliário atuando na transformação do entorno do bairro buscando valorizar-se
cada vez mais.
Portanto, a formação deste subcentro terciário evidencia um novo momento, não só
da dinâmica do espaço urbano de Serra, mas, do próprio espaço da RMGV, produto
das ações, no decorrer do tempo, dos agentes sociais da sociedade capitalista.
Neste sentido, Laranjeiras vem expressando no interior do espaço urbano
metropolitano uma nova centralidade intra-urbana, esta, por sua vez, torna-se
condição para a (re)produção do espaço a partir de suas várias formas espaciais,
características da cidade moderna de países periféricos, como o Brasil.
Dentre essas formas, evidencia-se não só as lojas de comércio, mas os shoppings
centers e as novas formas de habitação voltadas para a população de maior renda.
Assim, no caso em tela, de maneira paralela as transformações porque passa
Laranjeiras e o seu entorno, vislumbra-se a consolidação de um espaço urbano
(Serra) com maior complexidade e, certamente, mais desigual.

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Serra. 1997. Este documento subsidiou a Lei nº 2148 que INSTITUI PROGRAMA
DE REGULAMENTAÇÃO DOS PARCELAMENTOS IRREGULARES [...]
SINDICON. Censos Imobiliários. Disponível em . Acesso
em: 20 de mar. 2007.

BASE CARTOGRÁFICA DIGITAL
Limites dos bairros de Serra, vias rodoviárias e as ruas dos bairros foram adquiridos
junto ao Departamento de Trânsito da Serra (DETRO/PMS);
Curvas de nível, Hidrografia e limite dos municípios Capixabas foram adquiridos
junto ao IBGE, via internet.
Dados sobre a expansão urbana de Serra foram adquiridos a partir das cartas do
IBGE, folhas de Serra (1978) e de Nova Almeida (1978), e do Mapa de Expansão
Urbana da Grande Vitória (IPES).

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ANEXOS
Anexo 1
Conjuntos habitacionais de Serra
Bairros

Nº Unidades

Promotora

SÃO DIOGO II
CHÁCARA PARREIRAL
P. R LARANJEIRAS
SÃO DIOGO I
MATA DA SERRA
SERRA DOURADA I
SERRA DOURADA II
SERRA DOURADA III
JACARAÍPE
PORTO CANOA
CALABOUÇO
JACARAÍPE II
JACARAÍPE III
BARCELONA
MAGISTRADOS
VALPARAÍSO
SERRA I
CARAPINA I
EURICO SALLES
JOSÉ DE ANCHIETA
HÉLIO FERRAZ
MARINGÁ
ANDRÉ CARLONI
PEDRO FEU ROSA
PLANALTO SERRANO
CIDADE CONTINENTAL

163
260
1.855
160
620
736
1.095
1.117
680
848
1.288
728
624
3.112
62
408
76
384
400
1117
650
400
2127
3700
3310
2865
28.845

INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
INOCOOP-ES
COHAB-ES
COHAB-ES
COHAB-ES
COHAB-ES
COHAB-ES
COHAB-ES
COHAB-ES
COHAB-ES
COHAB-ES
COHAB-ES

TOTAL
Fonte: COHAB-ES e INOCOOP-ES

Ano
de
inauguração
1975
1976
1977
1978
1979
1981
1982
1982
1982
1982
1982
1983
1983
1984
1984
1986
1968
1977
1979
1979
1980
1983
1984
1984
1986
1995

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Anexo 2
Agências Bancárias em Serra - 03/2007
Bairro
P. R. Laranjeiras
Carapina
Serra-Sede
Jacaraípe
Jardim Limoeiro
Fonte: Sítios dos bancos.

Público
2
3
3
2
1

Privado
5
2
0
0
0

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Anexo 3
LEVANTAMENTO DE CAMPO ­ LARANJEIRAS ­2007
Estabelecimentos que desenvolvem atividades terciárias
Nome:_________________________________________________________________
Atividade ou Ramo:______________________________________________________
Localização (quadra e logradouro):__________________________________________
1. Ano de instalação da empresa em Laranjeiras39: _________

_____ __________________________________________

Nome:_________________________________________________________________
Atividade ou Ramo:______________________________________________________
Localização (quadra e logradouro):__________________________________________

1. Ano de instalação da empresa em Laranjeiras: _________

__ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _

Nome:_________________________________________________________________
Atividade ou Ramo:______________________________________________________
Localização (quadra e logradouro):__________________________________________

1. Ano de instalação da empresa em Laranjeiras: _________

____ __________________________________________

39

Esse dado foi coletado junto a estabelecimentos importantes nos respectivos ramos de atuação (filiais de
grandes lojas, por exemplo).

99

GONÇALVES, Thalismar M. A Dinâmica do Espaço Urbano: um estudo sobre o bairro Parque
Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

Anexo 4
Fotos de Laranjeiras

Casa na Avenida Central: ainda preservando a arquitetura original, fluxos de carros e de pessoas,
e lojas...

Formas recentes produzidas com intuito de se obter renda na Avenida Central...

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GONÇALVES, Thalismar M. A Dinâmica do Espaço Urbano: um estudo sobre o bairro Parque
Residencial Laranjeiras. Monografia ­ Departamento de Geografia. Universidade Federal do
Espírito Santo, Vitória, 2007.

Porção de uso residencial em Laranjeiras. Nota-se, em primeiro plano, casas com as características
originais preservadas, enquanto ao fundo, observa-se casas transformadas (dois andares)...

Trecho de via perpendicular a Avenida Central. Expansão do uso do solo por atividades terciárias....

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