O professor e o ensino de Geografia: contribuições para a reflexão sobre a prática de
ensino
Prof.ª Drª. Maria José da Silva Fernandes (FC/UNESP/Bauru)
Professores e Professoras de Geografia das Escolas Municipais de Bauru

Não, não tenho caminho novo. O que tenho de novo é o jeito de caminhar
(Thiago de Mello)

Ser professor de Geografia é desempenhar uma tarefa importante na promoção
da aprendizagem e no desenvolvimento de alunos críticos e comprometidos com a
transformação do mundo em que vivem. Não é uma tarefa fácil. Abordar os conceitos
próprios da disciplina ­ lugar, paisagem, território, natureza, sociedade, região (Cavalcanti,
1998) - e preparar os alunos para a interpretação e análise crítica da sociedade exigem
grande comprometimento do professor. Exigem um compromisso com a aprendizagem
significativa e com a responsabilidade social em relação ao papel histórico da escola.
A Geografia ocupa um lugar privilegiado no currículo escolar e na formação da
cidadania participativa e crítica. A partir dos objetivos estabelecidos e do desenvolvimento
dos conteúdos podemos auxiliar os alunos a interpretar a realidade do mundo atual e nela
atuar sobre o ponto de vista da espacialidade. Trabalhar com Geografia é criar situações
favoráveis para a apreensão de conceitos geográficos e desenvolver competências que
possam auxiliar na contextualização espacial dos fenômenos, das estruturas e dos
processos, no conhecimento mais profundo do mundo em que vivem, e na atuação mais
consciente como cidadãos em escalas local, regional, nacional e global (CAVALCANTI,
1998).
Com o objetivo de superar a visão fragmentada e descritiva da Geografia
tradicional, propomos junto aos professores da rede municipal de Bauru, um trabalho que
privilegiou a utilização de diferentes recursos e procedimentos didáticos. A seleção dos
conteúdos, definidos a partir das discussões com os pares, procuraram superar a visão
fragmentada e mecânica da disciplina calcada no empirismo e na descrição acrítica dos
fenômenos. Começando, nos anos iniciais, com os espaços próximos e vivenciados pelos
alunos, propomos uma organização por escala, sendo o próximo e o distante abordados

numa perspectiva dialética e articulada, visando suplantar o trabalho estanque em
unidades de conteúdos. Além disso, procurou-se dar ênfase, em todos os anos, à
cartografia escolar. Tomando como ponto de referência os estudos realizados por Almeida
(2003 e 2011), buscamos tirar da cartografia o caráter de unidade fragmentada trabalhada
tradicionalmente em apenas um ou outro momento do ensino de Geografia.
Considerando que a cartografia é espinha dorsal na aprendizagem dos conteúdos
geográficos, atribuímos às atividades de leitura e análise de mapas uma importância
fundamental desde o primeiro ano, não devendo ser esta abordada em momentos
específicos e fragmentados, mas, sim, articulada aos diferentes conteúdos abordados.
Os procedimentos que foram sugeridos e discutidos privilegiam diferentes
recursos e linguagens - mapas antigos e atuais, letras de músicas, gráficos, tabelas,
pinturas, textos literários e jornalísticos, charges, histórias de vida, entre outros recursos com o objetivo de promover a aquisição do conhecimento e a participação dos alunos.
As atividades que poderão ser realizadas, em grupo ou individualmente, são
propostas importantes para o desenvolvimento de conceitos nesta etapa da escolaridade.
A articulação dos conteúdos desenvolvidos ao longo do Ensino Fundamental com a
realidade vivenciada pelos alunos foi outra preocupação que tivemos durante a definição
curricular. Os conteúdos selecionados a partir das discussões com os professores e da
realidade apresentada pelas escolas, tiveram o espaço de vivência dos alunos como ponto
de partida, porém, este espaço articulou-se com outros diferentes e distantes, espacial e
temporalmente, por meio da seleção adotada pelos professores.
Nesse sentido, o currículo que ora se apresenta é uma linha mestra, não uma
camisa de força. Respeitamos o papel ativo do professor no processo ensinoaprendizagem que, assim como seus alunos, pode desenvolver atividade fundamental na
seleção dos conteúdos, na definição de procedimentos e no desenvolvimento de um
trabalho fundamentado nas necessidades específicas da escola e de seus sujeitos. O
currículo que ora apresentamos, fruto de um trabalho coletivo, é, portanto, um apoio para
a prática docente, o qual espero ser útil e enriquecedor na prática pedagógica.

Referências
ALMEIDA, R. D. (Org.) Novos rumos da cartografia escolar: currículo, linguagem e
tecnologia. São Paulo: Contexto, 2011.

ALMEIDA, R. D. Do desenho ao mapa: iniciação cartográfica na escola. 3. ed. São Paulo:
Contexto, 2003.
CAVALCANTI, L. S. Geografia, escola e construção de conhecimentos. Campinas: Papirus,
1998.