GEOGRAFIA E POESIA: UM DIÁLOGO POSSÍVEL NA CONSTRUÇÃO DE
NOVAS METODOLOGIAS DE ENSINO DA GEOGRAFIA ESCOLAR

Maria Francisca Silva de Oliveira
Universidade Federal do Piauí ­ UFPI
[email protected]
Carlos Sait Pereira de Andrade
Universidade Federal do Piauí, Orientador, Doutor em Geografia
[email protected]

RESUMO:
O artigo versa sobre a consolidação do diálogo interdisciplinar da Geografia com diversos saberes,
linguagens e recursos de outras ciências, evidenciado de forma expressiva na contemporaneidade,
como um dos novos campos de discussão dessa ciência. Nessa perspectiva coloca em discussãoo
diálogo da Geografia com a literatura, em especial com o gênero poético, mediante desenvolvimento
de um projeto de pesquisa de mestrado, que tem o intuito de analisar práticas pedagógicas mediadas
pelo uso da poesia como um recurso didático não convencional aplicado à Geografia escolar. Destaca
o referencial teórico que norteiaa pesquisa no que se concerne o diálogo geográfico interdisciplinar e
a incorporação de textos poéticos na pratica de ensino de Geografia, bem como proposições sobre a
importância da poesia na construção de metodologias que propiciem trabalhar os conteúdos
geográficos de forma dinâmica e atrativa.

Palavras chave: Ensino. Geografia Escolar. Interdisciplinaridade. Poesia

INTRODUÇÃO

A Geografia nas últimas décadas vem recorrendo a diferentes mecanismos
metodológicos na tentativa de aproximar os conteúdos e temas do currículo da realidade do
educando e assim fazer com que os mesmos sintam-se inseridos na produção do
conhecimento e naorganização do espaço geográfico. Na busca por tal aproximação, o ensino
da Geografia Escolar deve por sua vez possibilitar uma aprendizagem significativa, e nessa
direção deve utilizarmetodologias e recursos alternativos, como a utilização da arte, da
música, do cinema, e a literatura poética para trabalhar conteúdos da disciplina de forma
dinâmica e atrativa.
Nesse contexto, o projeto: Geografia e Poesia: Um Diálogo Possível na
Construção de Novas Metodologias de Ensino da Geografia Escolar, assume relevância por
tratar-se de um estudo que coloca em pauta de discussão as reflexões sobre o ensino de

Geografia no que se refere ao diálogo e a aproximação comoutras áreas do conhecimento,
bem como as metodologias utilizadas em sala de aula para tornar os conteúdos, conceitos e
temas da disciplina mais compreensíveis aos alunos visto que , a procura de novos métodos e
novas recursos para ensinar a ciência geográfica constitui-se numa preocupação dos
profissionais da área que procuram contribuir para a desvinculação da Geografia de uma
disciplina cansativa, desnecessária que promove apenas a memorização de conteúdos.
O interesse pessoal em desenvolver a pesquisa emerge da experiência profissional
e a preocupação em investigar novas metodologias que possam contribuir para tornar a o
ensino de Geografia mais dinâmico e instigante para o educando e queao mesmo tempo
possibilitem novas formas de análises e compreensão da realidade. Dessemesmo modo a
escolha do gênero textual poesia justifica-se por reconhecer, mediante a experiência com
trabalhos em sala de aula nessa abordagem, que a poesia é um importante recurso de ensino
que pode funcionar com instrumento de difusão de ideias e concepções de mundo de
diferentes contextos históricos que podem contribuir para o estudo e análise de conteúdos
geográficos.
Nesse sentido, a pesquisa que se propõe realizar, tem como objetivo geral analisar
as práticas pedagógicas mediadas pelo uso da poesia como um recurso didático aplicado a
Geografia Escolar no Ensino Médio. E no intuito de alcançar tal objetivo, elenca-se como
objetivos específicos, conhecer a importância da poesia na construção de novas metodologias
no ensino aprendizagem de Geografia; discutir o diálogo interdisciplinar da ciência geográfica
com o gênero poético e por fim,construir atividades pedagógicas a partir do gênero poético
em sala de aula, para promover a aprendizagem dos conteúdos geográficos.
Partindo de tais pressupostos pode-se elencar indagações a serem respondidas no
desenvolvimento da pesquisa: Como a poesia pode contribuir para compreensão e análises de
conteúdos de Geografia? A poesia pode funcionar como recurso facilitador e motivador na
aprendizagem de conceitos e categorias geográficas? A leitura, análise e produção de textos
poéticos desenvolvem habilidades criativas e tornam a aprendizagem mais prazerosa? A
poesia aliada a recursos específicos da Geografia pode levar o educando a percepção das
diferentes visões de mundo e ainda levar à percepção espacial? Que conteúdos da disciplina
Geografia podem ser analisados, construídos e reconstruídos utilizando o discurso do gênero
poético?
A princípio e na tentativa de responder aos questionamentos inerentes ao tema
proposto, observa-se que a gêneros textuais, entre eles a poesia, sãoutilizados em todas as

áreas do conhecimento em algumas situações específicas e podem ser trabalhados como
recurso no ensino da Geografia escolar numa abordagem interdisciplinar.
A metodologia a ser empregada se constituirá numa pesquisa ação colaborativa,
na qual pesquisador e sujeitos interlocutores estarão envolvidos de modo cooperativo e
participativo, Conforme Thiollent (2003, p.1 4). O embasamento teórico dar-se-á mediante
pesquisa bibliográfica referentea Geografia escolar, centrar-se-á nas contribuições teóricas de
autores que discutem a interdisciplinaridade e a relação da Geografia com literatura poética.
Esse processo envolve um diagnóstico da realidade pesquisada, formulação elaboração de um
plano de trabalho para o desenvolvimento de atividades didático-pedagógicas com as turmas
da 1ª, 2ª e 3ª séries do Ensino Médio, com a colaboração dos professores, representando fatos,
situações e fenômenos geográficos a partir de textos poéticos, bem como a análise e reflexões
sobre os resultados obtidos.

A GEOGRAFIA E O DIÁLOGO COM OUTROS SABERES

O ensino e aprendizagem de Geografia e pressupõe a existência de conteúdos,

metodologias, de sujeitos que ensinam e sujeitos que aprendem, sendo necessário definir as
bases metodológicas para nortear a prática pedagógica, onde o professor torna-se mediador do
saber, na produção e reprodução do conhecimento cientifico, buscando novas linguagens que
facilitem a compreensão dos conteúdos ensinados. Desse modo existe a constante necessidade
de dialogar com saberes de outras ciências, o que de certa forma consiste numa mudança de
postura do professorfrente a situações a que se depara no contexto contemporâneo.Nessa
direção, Castrogiovanni (2007, p. 22) destaca:
Ensinar exige coragem de ousar em atitudes que valorizem o educando como
sujeito repleto de experiências de vida, com curiosidades sobre o mundo em
que vive, capacidade criativa e com potencial para despertar um olhar
inquieto sobre a vida. Esta coragem está na postura coerente com a prática,
na busca de novas metodologias, que não considerem o educando como
mero receptor de verdades absolutas, mas como sujeito que cria, que pode
transformar e tecer dúvida.

Assim cada vez mais, a Geografia que se ensina caminha para a consolidação do
diálogo geográfico interdisciplinar na perspectiva de propiciar maior eficiência na assimilação
de conteúdos trabalhados em sala de aula. Não obstante, cabe ressaltar que a ideia
interdisciplinar surge com maior expressividade na década de 60 na Europa, impulsionada

pelo movimento de alunos e professores do ensino superior contra a fragmentação do
conhecimento. As principais proposições e a propostapedagógica nela contida são reveladas
por Georges Gusdorf no final dessa mesma década, que por sua vez influenciou, os trabalhos
de Hilton Japiassu e Ivani Fazenda, os dois maiores teóricos brasileiros que mais
fundamentam a produção bibliográfica sobre o assunto no país. O primeiro trabalha o
conceito no que podemos denominar de campo epistemológico, enquanto a segunda produziu
uma obra extensa no campo pedagógico.
Nesse contexto é válido considerar as ideias, do primeiro pesquisador brasileiro a
escrever sobre o assunto, onde este destaca a importância do diálogo na prática educativa e
faz questionamentos e reflexões sobre estratégias interdisciplinares, defendendo que a
interdisciplinaridade surge como uma necessidade de estabelecer ligações entre as disciplinas
que são dependentes, algumas vezes possuem o mesmo objeto de estudo, variando apenas as
suas análises, portanto esta deve ser entendia com uma categoria de ação, de atitude, onde não
basta o simples contato dos cientistas das disciplinas, sendo ponto fundamental ações práticas
de caráter colaborativo por parte dos envolvidos no processo. Nesse sentidosobre a situação
epistemológica das ciências, em relação a interdisciplinaridade, Japiassu desde a década de
70 já a caracterizava como estado de desmembrament o:
Várias famílias epistemológicas partilham entre si as disciplinas. Elas se
separam uma das outras por compartimentos estanques, por fronteiras
rígidas, cada disciplina convertendo-se num pequeno feudo intelectual, cujo
proprietário está vigilante contra toda intromissão em seu terreno cercadoe
metodologicamente protegido contra os " inimigos" de fora. E não somente
entre as disciplinas, mas até no interior do domínio de estudo, existe cisões
metodológicas rígidas, que frequentemente tornam impossível a
compreensão recíproca dos especialistas e sua eventual colaboração
(JAPIASSU, 1976, p. 58).

De acordo com Fazenda (1994) a interdisciplinaridade chegou ao Brasil e logo
exerceu influência na elaboração da Lei de Diretrizes e Bases Nº 5,692/71 marcando presença
no cenário educacional brasileiro e numa época mais recente, intensificou-se com a nova LDB
e com os Parâmetros Curriculares, ganhando força nas escolas, no discurso e prática de
professores de diferentes níveis de ensino. A referida autora (2003) defende que a
interdisciplinaridade é uma exigência do mundo contemporâneoe possui uma dimensão
antropológica, no sentido de influenciar ações pedagógicas transcendendo o campo
epistemológico e incorporando os valores e atitudes humanos que compõem o perfil do

professor que adota práticas interdisciplinares e nesse sentido, também propõe uma maneira
de enxergar a Geografia na sala de aula. Para ela:

Ela nos auxilia na compreensão do movimento de abertura frente ao
problema do conhecimento e das transformações contínuas da
contemporaneidade, mas busca dar sentido, principalmente nas instituições
de ensino, ao trabalho do professor, para que ambos, professor e aluno,
delineiem o caminhoque idealizarem, elaborem o traçado de novas atitudes,
novos caminhos, novas pesquisas, novos saberes, novos projeto [...] A
Geografia, vista interdisciplinarmente, ao lado das habilidades de descrever,
observar e localizar pode contribuir também para um processo de
comparação que conduza a novas explicações. (FAZENDA, 2003, p.62).

Nessa direção, inclui-se o diálogo da Geografia com outros saberes, posto que
esta, já é considerada por muitos autores, comuma ciência interdisciplinar por natureza,a
medida em que no espaço globalizado é constante a recorrência aos conceitos básicos da
Geografia para compreender as diferentes concepções de mundo, fato este que oferece ao
professor um leque de oportunidades para trabalhar conteúdos que estão interligados com a
realidade em que vivem.
Assim, manter um diálogo geográfico interdisciplinar no ensino da Geografia
escolar, utilizando recursos de outras áreas do conhecimento, representa descartar visões
cristalizadas no tradicional e buscar novas metodologias, no intuito de propiciar a eficiência
na assimilação de conteúdos de maneira dinâmica e contextualizada com a realidade sócioeconômica e cultural do aluno, haja visto que tal questão tornou-se foco de discussões para
pesquisadores e educadores, a medida em que reconhecem que conhecimentos
compartimentados não dão conta de explicar problemas que exigem saberes específicos de
outras disciplinas sobre um objetivo comum. Confirmando, Pontuschka (2007, p.145)
ressalta:

A interdisciplinaridade pode criar novos saberes e favorecer uma
aproximação maior com a realidade social mediante leituras diversificadas
do espaço geográfico e de temas de grande interesse e necessidade para o
Brasil e o mundo. [...] O professor de uma disciplina específica com uma
atitude interdisciplinar abre possibilidade de ser professor-pesquisador
porque deve selecionar os conteúdos, métodos trabalhados em sua disciplina
e disponibilizá-los para contribuir com um objeto de estudo em interação
com outras disciplinas.

A Geografia é uma das disciplinas que mais apresenta predisposição relacionada a
práticas interdisciplinares, percorrendo um leque de possibilidades na área de educação, posto

que no mundo contemporâneo, não há como entender as múltiplas concepções de mundo e as
metamorfoses da sociedade, sem recorre aos conceitos básicos da Geografia, como lugar,
paisagem região e território, o que nos remete as palavras de Milton Santos (1986, p.182),
que já pregava esse desafio. "na verdade, o princípio da interdisciplinaridade é geral a todas as
ciências." Esse mesmo autor (p.111) ressalta ainda que paraa proposta obter êxito, "é antes de
tudo preciso partir do próprio objeto de nossa disciplina, o espaço, tal como ele se apresenta,
como produto histórico, e não das disciplinas julgadas capazes de apresentar elementos para
sua interpretação".
Nessa perspectiva é fundamental compreender que a Geografia aplica-se a vários
ramos do conhecimento, portanto permite o exercício da interdisciplinaridade. Entretanto é
importante reconhecer nesse processo, que para o professor de Geografia desenvolver um
trabalho numa ótica interdisciplinar deve ter o domínio do conhecimento parcelar da ciência
geográfica, posto que é necessário o conhecimento sobre sua disciplina, seus métodos,
conceitos econteúdos para que possa dialogar com outras áreas do conhecimento e saber como
desenvolver de forma adequada projetos disciplinares e interdisciplinares na escola.

GEOGRAFIA E POESIA: UM DIÁLOGO POSSÍVEL

Sabe-se que a Geografia é uma ciência oriunda da modernidade, sistematizada e
institucionalizada de acordo com os preceitos modernos. Tal fato constituiu-se durante muito
tempo como resistência em admitir a relação entre conhecimento científico e conhecimento
artístico. Porém, no período contemporâneo coloca-se em evidência a necessidade do
entrelaçamento de saberes e propõe-se uma reflexão no tocante a aproximação entre a ciência
e a arte. Desse modo valida-se as palavras de Hissa (2002, p. 131).
A criação artística não é desprovida de roteiros e de procedimentos
referenciados por contextos históricos e culturais. Do mesmo modo que na
ciência, as técnicas e os procedimentos adotados para criação artística são
também elaborados de acordo com processos e paradigmas de contexto,
organizados e referenciados pela harmonia, pela estética, por balizas
culturais.

Atualmente a Geografia tem demonstrado interesse pela arte, em especial a
literatura. Vários geógrafostem buscado em textos literários subsídios para compreensão de
temas geográficos e essa aproximação remete a um novo ramo do conhecimento geográfico, a
geosofia, proposta por John K. Wright em 1947, que propõe aos geógrafos ir além da

Geografia da academia por acreditar que o conhecimento informal deveria ser objeto de
estudo do geógrafo e que a imaginação diferencia o geógrafo de outros cientistas sociais.
Segundo Wright (1947) "o conhecimento geográfico não está nos livros de Geografia, está no
mundo."
De acordo com Marandola JR (2010, p. 11) "nessa ampla área difusa, as fronteiras
dos conhecimentos se confundem numa promiscuidade fecunda. Ali se encontram Geografia e
Literatura, buscando assunto para conversar." Concordando comtal aproximação, encontra-se
os Parâmetros Curriculares Nacionais de Geografia que no seu texto ressalta a necessidade de
um trabalho interdisciplinar, lançando mão de outras fontes de informação, além daquelas
específicas da disciplina e destaca que a relação da Geografia com a Literatura e com as artes
tem sido redescoberta em tempos pós-modernos, proporcionando um trabalho que aguça o
interesse e curiosidade a sobre a leitura do espaço e da paisagem.
Essa tendência da Geografia em estabelecer diálogo com outros saberes, é uma
característica que ganha maior expressividade com o pós-modernismo, todavia é um caminho
que já vem sendo trilhado a algum tempo por alguns geógrafos que defendem maior abertura
no tocante a dimensão da sensibilidade e da subjetividade, rompendo com o racionalismo e o
estruturalismo

dominantes na ciência geográfica. Nessa visão mais aberta do discurso

científico inclui-se Eric Dardel ao afirmar que a linguagem do geógrafo é também a
linguagem do poeta e assim ressalta:

[...] O rigor da ciência nada perde ao confiar sua mensagem a um observador
que sabe admirar, escolher a imagem justa, luminosa [...]. Uma visão
puramente científica do mundo poderia muito bem designar, como nos
indica Paul Ricceur, um "refúgio quando estou cansado de desejar e que a
audácia e o perigo de ser livre me pesam." (DARDEL, 1952,apud,
Haesbaert, 2002,p,143)

Comungando das ideias do autor citado, inscreve-se Haesbaert (2002) que desde
década de 1990 demonstra interesse em mesclar o poético com o geográfico, chegando a
formar um dossiê intitulado: Pela liberdade criadora: Geografia e linguagem poética e desde
então tem discutido o assunto na tentativa de evidenciar aproximação da ciência e da arte,
afirmando ainda que acredita na ampla prosperidade do tema no Brasil. Nesse sentido cabe
ressaltar suas palavras que confirmam o seu interesse e adesão ao grupo de geógrafos que são
adeptos da relação científica e artística.

É justamente quando não ignoramos a natureza política da cultura e
trabalhamos o elo ciência-arte, ou seja, enfatizando aquilo que a criatividade
e o imaginário têm a contribuir para um pensamento "científico", é que
superamos esta leitura simplista da cultura em Geografia. [...] este é um dos
campos em que a Geografia mais tem avançado no Brasil, e onde tem, no
futuro, um de seus mais amplos campos de exploração: [...] Aí é a nossa
própria concepção de espaço que se amplia, não ficando restrito à visão
funcional-materialista que dominou durante um certo tempo.
(HAESBAERT, 2009).

A literatura tem sido requisitada para ampliação de conhecimentos, especialmente
no âmbito das ciências humanas. Na Geografia, a partir de estudos das representações sociais
e da Geografia Cultural a muito tempo está posta essa discussão sobre a análise literária como
recurso para estudos geográficos e como objeto de análise de escritos acadêmicos. Autores
como Yi-Fu Tuan (1978), Ana Fani (2001), Horácio Capel (2001), Carlos augusto de
Figueiredo Monteiro (2002), Maria Auxiliadora Silva (2004, 2007), reconhecem mediante
suas produções bibliográficas que trata-se de um importante requisito metodológico para o
ensino de Geografia.
Assim entende-se, que os romances, as poesias e os contos além de descreverem
situações vivenciadas pelos autores em variados tempos históricos, dos pretéritos aos
contemporâneos, estes revelam a leitura do espaço vivido e suas diferentes paisagens, e
considerando que a descrição é imprescindível para a Geografia, a leitura e análises de tais
gêneros literários constitui-se em práticas valiosas para o aprender a descrever, bem como ,
para compreender sentimentos, ideias e as relações espaciais em determinado momento a que
se referem os escritos narrativos.
Segundo Gratão (2010, p.312), para que se processe as aproximações
interdisciplinares é necessário que o geógrafo esteja disposto a percorrer outros horizontes de
saberes, culminando no que denomina de "exploração geográfica", isto é uma maneira de
fazera Geografia e a imaginação acessarem e dialogarem com outros saberes, utilizando
diferentes abordagens de investigação, entre estas a linguagem poética, como nos revela no
ensaio: Por entre becos &versos ­ A poética da Cidade Vi(vi)da de Cora Coralina:
Beco da poesia! Este é "um beco de saída" (à) luz da imaginação geográfica
pela literatura poética! Por entre becos caminhando, contemplando,
dialogando com atores/autores artistas/poetas, caminhantes... exploradores...
geografadores! possível, prazeroso e saboroso pelo mundo da arte, da
fantasia, da criação! Dos versos! (GRATÂO, p, 312-313).

Considerando as proposições de Marandola JR (2009) cabe destacar que a
aproximação entre Geografia, Literatura e em particular a poesia, tem despertado o interesse
por parte dos geógrafos humanistas no intuito de resgatar o valor humano da ciência
geográfica nas produções literárias, na escrita e na produção do conhecimento. Em se tratando
da poesia, esta tem a capacidade de despertar interesses e desenvolver habilidades de
expressão oral, escrita, de interpretação, facilitar correlações espaciais, e promover
assimilação de conteúdos de forma dinâmica e prazerosa.
Esta nova aproximação quer mais do que identificar elementos "reais" na
descrição das paisagens e dos lugares. Quer estabelecer um entrelaçamento
de saberes que se tecem também pelos fios do entendimento da espacialidade
e da geograficidade, enquanto elementos indissociáveis de qualquer narrativa
ou manifestação cultural. (MARANDOLA JR. E OLIVEIRA 2009, p. 09).

Nesse sentido cabe comentar as ideias de Monteiro (2002) ao ressaltar que a
relação Geografia e Literatura a princípio pode parecer estranha para alguns críticos, mas
defende que é necessário refletir e esclarecer que não se trata de substituir a análise
científica pela criação artística e sim retirar da linguagem literária aspectos de interpretação de
conceitos da Geografia. Nesse contexto é possível afirmar que através da poesia, da prosa, da
música, do texto de um romance, pode-seestabelecer relações que resultam da produção do
espaço geográfico, entender os saberes e fazeres dos homens em diferentes espaços-tempo. O
aluno pode, através da literatura poética questionar a realidade, compreendê-la e estabelecer
comparações entre diferentes formas e fenômenos e como os espaços estão relacionados entre
si. Portanto é válido e necessário considerar as possibilidades de integração e
complementação entre as mesmas no âmbito da Geografia Escolar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É certo que a concretização do uso da poesia na aula de Geografia como um
recurso didático não convencional, é algo que gera variações de acordo com a leitura que cada
professor faz da própria poesia, de seu tempo, da sua sociedade e da própria ciência
geográfica. No entanto não se pode negar que é tipicamente humano a capacidade de se
emocionar, portanto o componente afetivo, isto é, o discurso poético, constrói e é parte
constitutiva de todas as manifestações da convivência interpessoal, do pensamento e da
cognição.Reconhecer sua importância teórica e prática, é indispensável ao processo educativo,

á abertura da singularidade,ás lógicas do concreto, aos componentes do conhecimento, como
pré-requisito para a construção de saberes e de um cidadão crítico, sem comprometer a
cientificidade da Geografia.
Tais indícios, confirmam a necessidade dessa ciência na atualidade, de avançar na
direção dos diálogos interdisciplinares, utilizando recursos de outras áreas, aliados aos
recursos específicos da disciplina, refutando desse modo concepções reducionistas do
conhecimento numa constante busca por novas metodologias, no intuito de propiciar a
eficiência na produção de saberes geográficos de maneira dinâmica e contextualizada.
É nesse contexto que a literatura poética pode dialogar com o conhecimento
geográfico, no intuito de possibilitar a aprendizagem de Geografia a partir da leitura de textos
de nossa literatura, em seus diferentes gêneros. Posto que a produção literária brasileira é rica
em autores que retratam em suas obras diversas paisagens, regiões e aspectos sociais e
culturais da sociedade brasileira em diferentes temporalidades. Do mesmo modo, de posse dos
conhecimentos geográficos, é possível praticar a produção textual geográfica, poetizando
conteúdos assimilados como o objetivo de aproximá-los da realidade do aluno de forma
criativa e prazerosa.
Por fim e considerando que o referido estudo, objeto de dissertação de mestrado
em Geografia, encontra-se em pleno período de construção, espera-se que esta pesquisa possa
contribuir para fomentar a discussão a cerca da necessidade de se pensar práticas pedagógicas
que possam tornar o ensino de Geografia mais dinâmico e instigante, posto que entende-se, a
utilização da poesia na sala de aula e no ensino de Geografia Escolar como importante
contribuição para o desenvolvimento do educando, no sentido do despertar de interesses,
apreensão de conteúdos e para a construção de saberes, sem comprometer a cientificidade da
disciplina.E que essa pesquisa possaainda contribuir para odesenvolvimento e publicação de
futuros trabalhos que abordem a relevante temática posta no âmbito da Geografia. Escolar.

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