História e Geografia na leitura do mundo
Profundas mutações sociais e culturais caracterizam o final do século XX e início
do século XXI, particularmente no mundo ocidental. O fim do `mundo bipolar' e o
capitalismo globalizado trouxeram consigo a reorganização dos sistemas de produção e a
maximização dos lucros como os pilares básicos e estruturantes de uma sociedade
"eficiente". Estas transformações atingiram a todas as esferas das sociedades
contemporâneas desconstruindo padrões e têm afetado as funções de agências
tradicionais de socialização dos membros das novas gerações, como, por exemplo, a
família e a escola, dentre outras. A forma como a escola e o ensino são concebidos
acompanharam algumas destas mudanças.
Há mais ou menos 30 anos atrás o ensino de História e Geografia ­ na maioria
das escolas brasileiras - era reconhecido por práticas muito mecânicas e na maioria das
vezes, sem sentido prático. As provas de História solicitavam aos alunos que soubessem
as datas corretas dos principais fatos brasileiros e mundiais e as provas de Geografia, por
sua vez, exigiam que os alunos soubessem as capitais dos estados brasileiros, os
afluentes do rio Amazonas do lado direito e do lado esquerdo, e assim por diante.
Hoje continua sendo necessário saber onde fica o rio Amazonas ou a localização
dos países, o dia em que Getúlio Vargas se suicidou, etc... porém essas informações
devem estar articuladas com outros saberes para adquirir o status de conhecimento. É
preciso que as janelas das narrativas da história se abram para paisagens, espetáculos e
processos vividos pelos homens e que o tempo seja reconhecido, sem sombra para
confusão! Um aluno de história não pode confundir o atacante Neimar com a República
de Weimar! Quanto à Geografia, as capitais ou países devem ser situados em um
contexto mais amplo e que sirva, por exemplo, para construir um texto discursivo. Quem
não se lembra do ex - presidente Lula dizendo que na Bolívia tinha litoral?! Ou, ainda,
quantas vezes ouvimos as pessoas dizerem, erroneamente, que a Jamaica fica na
América Central?! Ademais, a capital do Brasil NÃO É Buenos Aires!!
Podemos sintetizar as ciências humanas como a área do conhecimento que tem
como objetivo compreender as sociedades humanas no tempo, na produção do espaço,
de sua cultura material, oral e artística. O processo de aprendizado é longo e a escola
tem a função de propiciar o interesse pelo saber, levantar questões e inspirar os
estudantes a aprender mais em qualquer mídia ou formato possível. Saber manipular as
páginas de um jornal, um livro ou desliar o dedo em um e-book de um tablet procurando
em suas linhas informações curiosas e elucidativas é uma das chaves da formação de
uma consciência crítica e participativa da geração de um novo mundo.
O ano de 2011 marca uma década de um dos acontecimentos mais chocantes na
História Contemporânea: os ataques de 11/9/2001. Na ocasião, inúmeros especialistas
(geógrafos, sociólogos, historiadores etc.) foram convocados por programas de
entrevistas televisivos para explicarem sobre as conjunturas que poderiam ter levado a tal
ocorrido. Assim como recentemente notamos mais uma avalanche de manifestações
sociais e políticas no Oriente Médio (e uma crise de proporções desastrosas na Grécia),
há exatos dez anos também percebíamos a curiosidade do público geral em compreender
as raízes e significados de fatos fulcrais para a contemporaneidade.

E porque estudar História e Geografia? Para compreender a sociedade em que
vivemos, as mudanças do mundo, refletir sobre as formas de vida e hábitos que
adotamos. Para ser capaz de interpretar o simbolismo por trás da queima pública de um
Alcorão ou da bandeira dos EUA. Porque não vivemos mais sem as redes sociais?
Porque as pessoas se interessam muito mais pela vida particular dos outros do que pelos
espaços públicos? Porque os nossos espaços públicos estão tão restritos?! Perguntas
que podem ser respondidas com o auxílio dos saberes histórico ­ geográficos. E,
certamente, este conhecimento também formará pessoas mais capazes de intervir no
mundo, transformar eticamente as relações sociais, laborais e com a natureza, trabalhar
nesta sociedade que tornou-se escrava de tantas necessidades que criou, como dizia Karl
Marx.
As disciplinas de humanas passam, por isso, por uma crescente valorização,
depois de percebermos que não basta assistir a telejornais ou ler revistas semanais para
compreender o mundo em que vivemos. A avalanche de audiovisuais pode nos dar a
sensação de que estamos informados. No entanto, o mundo não é tão simples assim e as
informações são superficiais. O conhecimento técnico não pode substituir (e sim auxiliar)
a compreensão do homem. Por isso o ensino e a aprendizagem das disciplinas de
geografia e história devem passar por tentativas de reconstituição do passado, pesquisa,
leitura e muitos questionamentos. Aliás, no caminho do conhecimento as perguntas são
muito mais importantes do que as respostas. O educando que tem perguntas é porque
tem inquietações e contribui para que o saber não se reduza à repetição.

Professores CERP
Professoras: Rosana da Silva Cuba (Geografia) e Danilo Ribeiro Gallucci (História)