UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE ­ UNESC
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO EM
GEOGRAFIA COM ÊNFASE EM ESTUDOS REGIONAIS

MARIA GORETE DA SILVEIRA

O PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM DE GEOGRAFIA E A
PRÁTICA PEDAGÓGICA NAS SÉRIES INICIAIS: UMA INVESTIGAÇÃO
NA ESCOLA DE EDUCAÇÃO BÁSICA PRINCESA ISABEL ­ MORRO
DA FUMAÇA/SC

CRICIÚMA, DEZEMBRO 2007.

MARIA GORETE DA SILVEIRA

O PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM DE GEOGRAFIA E A
PRÁTICA PEDAGÓGICA NAS SÉRIES INICIAIS: UMA INVESTIGAÇÃO
NA ESCOLA DE EDUCAÇÃO BÁSICA PRINCESA ISABEL - MORRO DA
FUMAÇA/SC

Monografia apresentada à Diretoria de Pósgraduação da Universidade do Extremo Sul
Catarinense ­ UNESC, para a obtenção do título
de especialista em Geografia com Ênfase em
Estudos Regionais.
Orientador: Profº. Msc. Mauricio Ruiz Câmara.

CRICIÚMA, DEZEMBRO 2007.

Aos amores de minha vida, meus anjos, meus
companheiros,

maiores

incentivadores,

conselheiros, amigos. Meus filhos Fábio e Júlia,
por toda compreensão, preocupação, todo auxílio,
dedico este trabalho com todo meu amor,
admiração e gratidão. Francamente, eu estaria
perdida sem vocês, filhos. Eu só queria poder
recompensá-los por tudo que vocês representam
na minha vida.

AGRADECIMENTOS

Primeiro a Deus, minha fonte inspiradora, meu protetor.
Aos meus filhos Fábio e Júlia, pelo amor, compreensão e incentivo.
Aos meus pais, por terem me ensinado que é necessário lutarmos por nossos
ideais.
Ao professor Maurício Ruiz Câmara, pela orientação, paciência, incentivo e
amizade.
Á minha irmã Vilma e seu esposo Enoir, pelo amor dedicado à minha filha Júlia.
Á minha irmã Kênia, meu referencial de educadora.
Á minha irmã Tereza, pelo apoio constante.
Á todos os demais familiares, importantes incentivadores.
Á escola, aos professores e aos alunos que colaboraram com a pesquisa.
Sem a ajuda de vocês, este trabalho não teria sido concluído.

"Professores,



aos

milhares,

mas

professor é profissão, não é algo que se
define por dentro, por amor. Educador, ao
contrário, não é profissão, é vocação. E
toda vocação nasce de um

grande

amor,de uma grande esperança."
Rubem Alves.

RESUMO
Neste trabalho, discuto a prática pedagógica dos professores do ensino de Geografia
nas séries iniciais. Encontro no estudo feito dos PCN de Geografia, na Proposta
Curricular de Santa Catarina e em autores que direcionam seus estudos à Geografia
para as séries iniciais os subsídios para afirmar que é no ensino fundamental que as
crianças começam a sistematizar seus conhecimentos. As crianças de sete a nove anos
buscam, no conhecimento científico, diferentes meios de interpretar o mundo, para
compreendê-lo. Entra aí a importância da Geografia como ciência que estuda a
sociedade e suas contradições usando o espaço como categoria para tal entendimento.
A pesquisa feita com as professoras e as turmas das séries iniciais na Escola de
Educação Básica Princesa Isabel mostrou que as professoras da Instituição
demonstram comprometimento com o ensino da Geografia. Há, no entanto, muito a ser
feito, pois, tentar entender a Geografia e viver experiências de aprendizagem na escola,
ainda é um desafio que precisa ser superado.
Palavras ­ chave: Geografia, Ensino de Geografia, Series Iniciais, EnsinoAprendizagem.

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...............................................................................................................8
2 O ENSINO DA GEOGRAFIA E SEU PLANEJAMENTO............................................12
2.1 O valor educativo da geografia nas series inicias.............................................12
2.2 O planejamento e a pratica pedagógica do professor das series
iniciais............................................................................................................................16
3 A GEOGRAFIA CONTEMPLADA NO PARÂMETRO CURRICULAR NACIONAL DE
GEOGRAFIA E NA PROPOSTA CURRICULAR DE SANTA CATARINA....................21
3.1 Reflexões sobre a Proposta Curricular de Santa Catarina ...............................21
3.2 Acerca do Parâmetro Curricular Nacional de Geografia...................................23
3.3 Pontos e contrapontos do Parâmetro Curricular Nacional de geografia........28
4 ETAPA DE ANÁLISE...................................................................................................33
4.1 As Professoras das Séries Iniciais e a Geografia...............................................33
4.2 Os Caminhos do Planejamento da Disciplina de Geografia..............................37
4.3 O Percurso das Aulas de Geografia.....................................................................41
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.........................................................................................58
REFERÊNCIAS...............................................................................................................61
APÊNDICE......................................................................................................................63
ANEXOS.........................................................................................................................64

8

1 INTRODUÇÃO

O interesse pelo tema da pesquisa, faz parte de questionamentos que se
tem feito já há alguns anos. Ainda na época da graduação, trabalhando com
professoras de pré-escola, onde muitas das profissionais ainda estavam cursando
pedagogia ou faziam curso de magistério, e sempre que alguma atividade do curso era
voltada à disciplina de Geografia, solicitava a ajuda de uma professora de geografia
para a execução do trabalho, neste caso a autora desta monografia.
Nesses momentos ficava claro suas angustias por sentirem dificuldades em
desenvolver o ensino da geografia ou lidarem com o conteúdo proposto. Mais tarde, já
formada, trabalhando a disciplina de Geografia com uma turma do curso de magistério,
percebeu-se que a insegurança das futuras professoras era a mesma, ou seja: como
repassar os conteúdos para as crianças de uma forma didática e criativa.
Trabalhando

no

meio

educacional,

tem-se

percebido

que

muitos

profissionais da educação sentem dificuldades ao elaborar seus planejamentos e
desconhecem a fonte que determina (ou não) a seqüência dos conteúdos a serem
trabalhados. Desta forma, entram inseguros em sala de aula tornando deficiente o
processo ensino-aprendizagem.
Essa abordagem vai ao encontro das idéias de Azambuja, quando fala que:
Os pressupostos teórico-metodológicos definidos pela área de conhecimento
serão também definidores dos procedimentos didáticos pedagógicos a serem
efetivados no ensino escolar, incluindo-se, nestes procedimentos, a seleção e
organização dos conteúdos. (AZAMBUJA, 1990, p.13)

É na sala de aula, no entanto, que o saber se faz, momento em que,
professor e alunos se completam como elementos de um mesmo processo de ensino
aprendizagem. É o momento de o saber elaborado assumir forma de conteúdo escolar,
ou seja, "torna-se recurso para formação intelectual do ser humano, dentro dos
parâmetros em que se define a especificidade da prática social educativa ai realizada."
(AZAMBUJA, 1990, p.17)

9

Partindo deste pressuposto, surge então, o problema desta pesquisa: a) em
que está sendo norteado o ensino da Geografia nas séries iniciais (1º a 4º Série) do
ensino fundamental?

b) Onde o professor tem buscado orientações para ensinar

Geografia nas séries iniciais? c) Que referenciais estão sendo utilizados para a prática
pedagógica? d) Há uma preocupação em selecionar recursos pedagógicos como:
livros, revistas, recortes, mapas, fotos, etc. ou estes são ignorados?
Sendo as questões acima temas constantes de discussões e preocupações
reais que permeiam o ensino, acha-se relevante a proposta de pesquisa aqui levantada.
Procurar-se-á responder os questionamentos levantados analisando a
prática pedagógica dos profissionais das séries iniciais da Escola de Educação Básicas
Princesa Isabel.
A opção pela pesquisa na escola acima citada, partiu do fato de trabalhar
na instituição e, dessa forma, o tempo de observação e de pesquisa com os
profissionais será de maior relevância.
A Escola de Educação Básica Princesa Isabel, situa-se no município de
Morro da Fumaça, sul do Estado de Santa Catarina, É considerada a maior escola
estadual da região, atende em média 1.100 alunos do município e região com ensino
fundamental e médio, funcionando nos períodos matutino, vespertino e noturno. Por ter
o município várias escolas municipais que atendem crianças na educação infantil e
ensino fundamental, a escola Princesa Isabel no ano de 2007, conta com 85 crianças
das séries iniciais, distribuídas em 1ª, 2ª, 3ª e 4ª séries nos períodos matutino e
vespertino.
Ao trabalhar esta pesquisa tem-se como principal objetivo, compreender
como se dá o processo de ensino-aprendizagem de Geografia na prática pedagógica
dos professores das séries iniciais de 1ª a 4ª série. Inerentes a isso, objetivam-se
também: caracterizar o objeto de estudo da Geografia; analisar as diretrizes dos PCNS
e da Proposta Curricular de Santa Catarina para o ensino da Geografia de 1ª a 4ª série;
verificar a prática pedagógica desenvolvida pelos profissionais da escola e contribuir se
necessário, para possíveis melhorias na prática pedagógica do ensino da Geografia das
séries iniciais de 1ª a 4ª série.

10

O trabalho será desenvolvido a partir da elaboração e aplicação de
questionários com os profissionais da escola que trabalham com as séries iniciais.
Análise dos planejamentos de aulas dos professores e dos materiais didáticos
utilizados, também será feito breve estudo dos Parâmetros Curriculares Nacionais e da
Proposta Curricular de Santa Catarina.
Os autores contemplados são profissionais da área da Geografia com
ampla experiência em estudos sobre as séries iniciais. A saber: Nestor André Kaercher;
Helena Copetti Callai; Castrogiovanni; Lana de Souza Cavalcanti e Pontuschuka.
Para estes autores, a Geografia das séries iniciais pode e deve auxiliar para
que o aluno se reconheça como cidadão atuante na construção do espaço em que vive.
Concordam também que é importante que o educando participe do processo de
produção do conhecimento a partir de sua vivência,no qual o papel do professor passa
de transmissor para mediador na construção do conhecimento.
Callai aborda que o processo de construção do conhecimento, é tarefa que o
educando deve realizar, ao professor cabe oportunizar as condições para que o
conhecimento aconteça. "Uma educação que tem como objetivo a autonomia do sujeito
passa por municiar o aluno de instrumentos que lhe permitam pensar, ser criativo e ter
informações a respeito do mundo em que vive". (CALLAI, 2003, p.101)
A mesma autora quando fala sobre o estudo da Geografia nas séries
iniciais, salienta que:
O período das séries iniciais é o de construir os conceitos básicos da área, e
que são básicos para a vida. São os conceitos de grupo-espaço-tempo que
permitem responder: Quem sou eu? Onde vivo? Como vivo? Com quem? Ao
dar conta dessas perguntas, estamos definindo a nossa identidade,
reconhecendo a nossa história, identificando o espaço e o pertencimento ao
mundo. (CALLAI 1999; p.75)

Para

Cavalcanti

(1998,

p.11),

"o

conhecimento

geográfico é,

pois

indispensável à formação de indivíduos participantes da vida social à medida que
propicia o entendimento do espaço geográfico e do papel desse espaço nas práticas
sociais".

11

Essa abordagem aproxima do que diz Kaercher (2004, p.82), " entender
como o espaço influi em nossa vida e como nós o modificamos é o principal papel das
aulas de Geografia".
O presente trabalho está dividido em três capítulos distintos: No capitulo I
será discutido o ensino da geografia nas séries iniciais; analisando o papel do professor
no processo ensino-aprendizagem e a importância do planejamento para se ter um
ensino eficaz.
No segundo capitulo, pretende-se fazer uma análise crítica dos Parâmetros
Curriculares Nacionais e Proposta Curricular de Santa Catarina.
Finalmente, no terceiro e ultimo capitulo, será analisada a pesquisa feita
com as professoras das séries iniciais, através dos questionários aplicados,
levantamento dos planejamentos e observação das aulas. Ou seja: A pesquisa em si e
seus resultados.

12

2 O ENSINO DA GEOGRAFIA E SEU PLANEJAMENTO

O capítulo trata da importância do ensino da Geografia nas séries iniciais,
estaremos dialogando com autores como Pontuschuka 1998, Callai 2003/1991,
Castrogiovanni 2003, Kaercher 2003 e Lana Cavalcanti 1998. Os autores estarão
trazendo os subsídios necessários para a afirmação de que o ensino da Geografia nas
séries iniciais tem seu valor educativo indispensável e insubstituível na formação do
cidadão.
Analisaremos também, a importância do papel do professor no processo
ensino-aprendizagem, bem como a importância do planejamento para um trabalho
eficaz. A pesquisa foi baseada nas idéias de autores que vem contribuindo para a
melhor qualidade e aperfeiçoamento de profissionais da educação, a saber;
(VASCONCELOS 2002, CASTROGIOVANNI 2003, KAERCHER 2004, MASSETO 2003
E GADOTTI).
2.1 O Valor Educativo da Geografia nas Series Iniciais
Para falar do valor

educativo da

Geografia,

recomenda-se citar,

primeiramente, que o seu ensino tem a função de dialogar estabelecendo a relação
entre certos campos de conhecimento das ciências naturais, tais como: a geologia, a
antropologia, a demografia e outros. Sem esquecer aqueles saberes que não foram
transformados em disciplina escolar.
Vários autores têm se dedicado a pensar no significado da Geografia no
ensino. Para alguns, o conteúdo da Geografia é o mundo, o espaço e a sua dinâmica
contínua, nos quais as mudanças ganham cada vez mais velocidade.
Nesse contexto, é preciso dar condições aos alunos de pensar
globalmente, isto é, pensar e agir, buscando elementos que permitam compreender e
explicar o mundo em permanente reinvenção.

13

Pontuschuka (1998, p.63), por exemplo, resgata a "importância da
Geografia na formação intelectual, e ética dos jovens, na construção da sua cidadania e
na consciência de sua dignidade humana".
Importante ressaltar que a formação dos jovens é resultado de um processo
contínuo. Iniciando-se já nos primeiros anos de vida da criança, as séries iniciais
estarão trazendo os subsídios necessários para essa formação. Indo de encontro
assim, com as idéias Callai (1991, p.37), quando fala sobre a importância do ensino da
Geografia nas séries iniciais, "os anos das séries iniciais são um período em que a
criança está aprendendo a socializar-se".
Esta socialização se dá através das relações que se estabelecem dentro
da sala de aula, na interação entre: aluno/aluno, aluno/professor e aluno/conteúdos ­
momento de alfabetização, processo de conhecer a si mesmo dentro de um tempo e
espaço determinados.
Nesta fase (entre os 6 a 9 anos), o aluno passa a perceber o convívio nos
grupos, na escola, em casa, no bairro onde mora, enfim, todo o contexto social. A
criança das séries iniciais está se munindo de instrumentos necessários para a vida.
É nesse contexto, que Callai nos fala sobre a importância dos Estudos
Sociais no lugar do ensino de História e Geografia:
As séries iniciais, período em que se dá a alfabetização, são o início da vivência
socializadora em um grupo formal, organizado fora da criança e por motivos
externos a ela. Se o aluno tem que vivenciar a sua vida dentro desse grupo,
formalmente desenvolvendo a aprendizagem de certos aspectos da vida, não se
pode deixar de lado a vivência que ele tem fora da escola, e aquela dos anos de
vida que precederam a alfabetização (dentro e especialmente fora da escola). Aí
que é importante o papel dos Estudos Sociais dentro do currículo por atividades.
Aquilo que chamamos de Estudos Sociais perpassa todo o trabalho da sala de
aula, seja nas atividades especiais da matemática, da linguagem ou das ciências
naturais (CALLAI, 1991, p.39).

A autora ressalta, ainda, que o ponto básico dos Estudos Sociais nas
séries iniciais, é fazer com que o aluno compreenda seu "viver", desta forma, o estudo
deve possibilitar ao aluno: vivenciar o espaço em que vive; reconhecer o mundo que o
rodeia entender as relações sociais em que está envolvido, compreender porque as
coisas acontecem compreender a história e os processos que a desenvolveram. O
trabalho deve sempre ser desenvolvido a partir da realidade do aluno, pois o homem

14

não pode ser visto desligado da realidade em que vive, mas inserido em seu meio,
como cidadão de direitos e de deveres em relação à própria sociedade.
É importante ressaltar que, de acordo com a autora supracitada, as
disciplinas de História e Geografia devem estar nos currículos com o nome de Estudos
Sociais apenas nas séries iniciais. Nos anos seguintes, as disciplinas de História e
Geografia devem estar assim, definidas na grade curricular.
Se nos anos iniciais o objetivo principal é a alfabetização, a contribuição
da Geografia é exatamente oferecer ao aluno a possibilidade de ler e escrever o mundo
em que vive. A educação geográfica, desde os anos iniciais, introduz sua linguagem e
conceitos específicos, para Castrogiovanni (1991, p.37), "a construção da noção de
espaço requer longa preparação e está associada à liberação progressiva e gradual do
egocentrismo".
A construção da noção de espaço pelas crianças vai do espaço ­ da
ação/espaço vivido ­ passando pela construção do espaço representativo, chegando às
relações espaciais topológicas, que são: vizinhança, separação, ordem, sucessão,
envolvimento e continuidade; às relações projetivas: noção de direito-esquerda,
frente/atrás, em cima/embaixo e ao lado; e, por fim, às relações euclidianas: distância,
comprimento, superfície.
Conforme o autor é importante que a Geografia trabalhe buscando liberar
o egocentrismo da criança, desenvolvendo trabalhos a partir de seu próprio corpo. Pois
o espaço construído a partir da reflexão só se dá após a criança ter passado pelo
conhecimento espacial corporal.
Assim sendo, a evolução da forma de conceber o espaço seguido pelas
crianças e que vão do: espaço vivido, o espaço percebido e o espaço concebido, são
fundamentais para que a criança conceba a vida e o espaço que o cerca,
compreendendo-se como ser único, porém social e que faz parte de uma sociedade.
Indo assim também, de encontro com Kaercher, quando nos fala que:
A tarefa do educador seria a de "trazer" o dia a dia para a sala de aula, pois
precisamos deixar de mascarar a realidade e contribuir com nossa prática para
a criação de um espaço que seja o da liberdade dos homens e não o espaço
da simples reprodução. (KAERCHER, 2003, p.79)

15

Indo ao encontro das idéias do autor quando fala que a prática do educador
deve ser o de educar para a liberdade dos homens, pode-se afirmar que é possível
faze-lo, já a partir dos primeiros anos das séries iniciais. Pois quando educamos
acreditando que temos em nossa sala de aula, cidadãos individuais, únicos, quando
entendemos que os seres humanos fazem sua própria história e que ao mesmo tempo
são determinados por ela, estamos sim, contribuindo na formação de seres pensantes e
críticos.
Sobre essa forma de ver a Geografia Lana Cavalcanti (1998, p.11) contribui
nos falando que o ponto de partida para se refletir sobre a construção de
conhecimentos geográficos na escola deve ser "o papel e a importância da Geografia
para a vida dos alunos". Ou seja, prover bases e meios para o desenvolvimento da
capacidade de os alunos compreenderem o papel do espaço nas práticas sociais e
destas na configuração do espaço.
O que se acredita é que, ao longo da História, os seres humanos organizam-se
em sociedade e vão produzindo sua subsistência, produzindo com isso seu
espaço, que vai se configurando conforme os modos culturais e materiais de
organização dessa sociedade. Há,dessa forma, um caráter de espacialidade
em toda prática social, assim como há um caráter social da espacialidade.
Além disso, o pensar geográfico contribui para a contextualização do próprio
aluno como cidadão do mundo, ao contextualizar espacialmente os
fenômenos, ao conhecer o mundo em que vive, desde a escala local à
regional, nacional e mundial. O conhecimento geográfico é, pois, indispensável
à formação de indivíduos participantes da vida social a media que propicia o
entendimento do espaço geográfico e do papel desse espaço nas práticas
sociais. (CAVALCANTI, 1998, p.11)

Desta forma, conforme os estudos mencionados podemos afirmar que o
valor educativo da Geografia nas séries iniciais pode ser identificado, a princípio, pelo
simples fato de que todos nós ocupamos um determinado lugar no espaço. Neste
espaço, cada um tem seus limites e as características que são suas marcas
específicas. Movimentar-se nele, passa a ser o desafio para o aluno e, para tanto, ele
precisa conhecer, identificar e compreender os objetos e as relações entre os mesmos.

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2.2 O Planejamento e a Pratica Pedagógica do Professor das Series Iniciais
Para que o ensino da Geografia nas séries iniciais, possa ser eficaz,
exige-se o exercício de uma prática pedagógica na qual é importante o papel do
professor, da escola, do aluno e do contexto em que este está inserido.
O professor precisa superar a postura receptiva e reprodutiva. Há que se
imprimir uma visão investigativa e de pesquisa, ou seja: o professor deve estar sempre
aberto a novas informações, ser curioso, atuante e principalmente manter-se em
constante estágio de formação continuada. Porém, para que se possa sistematizar e
selecionar os conhecimentos adquiridos através da investigação e pesquisa faz-se
necessário planejar suas ações.
A pesquisa se coloca como base para o estudo na educação geográfica
considerando que o mundo está em constante (e cada vez mais acelerada)
transformação. O desafio é colocar essas informações num contexto de um quadro de
análise com referenciais teóricos que permitam organizar o conhecimento. No entanto,
não se pode deixar de considerar a velocidade das transformações comparada com a
lentidão da estrutura de ensino, seja do ponto de vista material (mapas, revistas,
globos,...), seja do ponto de vista dos recursos humanos (formação continuada dos
professores, por exemplo).
O mundo fora da escola está repleto de informações e conhecimentos, os
quais deverão ser trazidos para o ambiente escolar para que possam ser discutidos e
refletidos.
Sobre essa dicotomia Castrogiovanni ressalta que:
Existe ainda pouca aproximação da escola com a vida, com o cotidiano dos
alunos. A escola não se manifesta atraente frente ao mundo contemporâneo,
pois não dá conta de explicar e textualizar as novas leituras da vida. A vida fora
da escola é cheia de mistérios, emoções, desejos e fantasias, como tendem a
ser as ciências. A escola parece ser homogênea, transparente e sem brilho no
que se refere a tais características. É urgente teorizar a vida, para que o aluno
possa compreendê-la e representá-la melhor e, portanto, viver em busca de
seus interesses (CASTROGIOVANNI, 2003, p.13).

Considerando o contexto atual, a concepção de Geografia adotada e o valor
educativo,

cabe

ao

professor

estabelecer

as

linhas

do

processo

de

17

ensino/aprendizagem, uma vez que ele possui a dimensão técnica e pedagógica do ser
e fazer profissional. Portanto uma metodologia pontuada apenas na transmissão ou
repasse de conteúdos não é mais suficiente para trabalhar a educação geográfica.
Kaercher nos diz que é fundamental que o educador saiba ouvir, induza as
discussões, faça provações e proponha novos temas a partir das informações
proporcionadas pela mídia.
[...] questionar o que a mídia apresenta é fundamental, pois, sem dúvida,
qualquer criança ou adolescente passa horas em frente à televisão. Mas
também é fundamental que se organize o que eles dizem, isto é, nossa tarefa
não é apenas provoca-los a falar sobre as coisas. É preciso organizar,
sistematizar o que se fala, (...) O papel essencial do professor nesses
momentos é o de aprofundar as discussões. Isso implica trazer material, novos
textos, esclarecer dúvidas, pedir para o aluno repetir ou explicar melhor uma
determinada fala, etc (KAERCHER, 2003, p.140).

Assim sendo, é por meio da pesquisa que o professor juntamente com
seus alunos poderá problematizar a realidade a partir da análise do espaço construído.
As informações que chegam através de diversos meios de comunicação exigem um
profissional constantemente atualizado, capaz de re-significar cientificamente as
informações adquiridas por meio dos diversos veículos.
Contudo, a eficácia do trabalho desenvolvido pelo professor não
dependerá apenas de seu conhecimento científico. Grande parte dos resultados
dependerá de um bom planejamento.
Desta forma, podemos afirmar que para ser um bom profissional faz-se
necessário, além de ter postura investigativa e de pesquisa, que o professor saiba
planejar suas ações.
Não basta apenas ter conhecimento de um amontoado de assuntos, é
necessário saber o que, para que e para quem se vai ensinar. Daí a necessidade da
organização e seleção dos conteúdos a serem trabalhados. Tal ação só se faz possível
com planejamento por parte do professor.
Planejar no campo educacional significa elaborar um plano de intervenção,
num processo contínuo, dinâmico e permanente de reflexão e tomada de decisão para
posterior prática e elaboração do plano.

18

Planejar é antecipar mentalmente uma ou um conjunto de ações a serem
realizadas e agir de acordo com o previsto. Portanto, o planejamento é uma mediação
teórico-metodológica para a ação, consciente e intencional.
Tem por finalidade procurar fazer algo vir à tona, fazer acontecer, concretizar,
e, para isto, é necessário amarrar, condicionar, estabelecer as condiçõesobjetivas ­ prevendo o que vêm da ação no tempo (o que vem primeiro, o que
vem em seguida) no espaço (onde vai ser feita), as condições materiais e
equipamentos que serão necessários) e políticas (relações de poder,
negociações, estruturais), bem como a disposição interior (desejo, mobilização)
para que aconteça. (VASCONCELOS, 2002, p.79)

É, portanto, o planejamento, uma possibilidade de intervenção. Deve ser um
documento elaborado a partir de processo que envolva a prática docente no cotidiano
escolar, durante todo o ano letivo. Assim sendo, o planejamento deve ser pensado
antes do início das aulas, e seu uso deve ter o objetivo de pensar e repensar a prática
do cotidiano escolar.
De acordo com Masetto, no planejamento realizado pelo professor, algumas
premissas são fundamentais:
A necessidade de conhecer a disciplina em seus aspectos teóricometodológicos, tendo o domínio conceitual; 2) a dimensão pedagógica de o
seu fazer profissional; 3) a referência da Diretriz Curricular da disciplina; 4) a
necessidade de conhecer os documentos oficiais, dentre os quais destacamos
o Plano Político Pedagógico da escola e 5) o contexto em que esta se insere.
Nesse sentido, deve o professor incorporar o cotidiano de seus alunos no
planejamento escolar. (MASETTO, 2003, p.43)

O que é importante haver sempre em um planejamento é a possibilidade
de inserção do inesperado, isto é, de inserir temas não previstos que ganhem
importância a partir de algum fato inusitado, muitas vezes motivadores do aprendizado
em função da massificação dos meios de comunicação.
O planejamento de uma disciplina não pode ser considerado uma camisa-deforça, que retira a liberdade de ação do professor. Ao contrário, um
planejamento traz consigo a característica da flexibilidade. Qualquer plano para
ser eficiente precisa ser flexível e adaptável a situações novas ou imprevistas.
(MASETTO, 2003, p.176)

19

Para o desenvolvimento do raciocínio geográfico, é necessário selecionar e
organizar os conteúdos mais significativos e relevantes. A leitura do mundo, do ponto
de vista de sua espacialidade, demanda a apropriação pelos alunos de um conjunto de
instrumentos conceituais de interpretação e questionamento da realidade sócioespacial. Não adianta transmitir os conceitos previamente definidos, mas sim propiciar
as condições para que o aluno possa formá-los. Isso pode ocorrer através dos saberes
e experiências que os alunos já trazem para a sala de aula a partir de seus cotidianos.
O professor deve munir-se de diferentes linguagens tecnológicas e
recursos pedagógicos como projetores, mapas, televisores, maquetes, entre outros, a
fim de proporcionar aulas atraentes e criativas de acordo com a realidade da escola e
da comunidade. Trabalhar o lúdico e desenvolver atividades criativas que favoreçam o
raciocínio espacial pode garantir um maior dinamismo e interação durante as aulas.
Kaercher nos fala que há possibilidades e alternativas diversas, basta
sermos criativos e amarmos o que fazemos.
[...] sei que a maioria de nós professores trabalha em escolas pobres, com
poucos recursos materiais, mas como disse, podemos pegar o material de
jornais e revistas, ir montando um banco de imagens. Pés no chão, tão
importante quanto o material é a criatividade. Sim, isso não exclui a luta que
devemos fazer para que nossas escolas sejam mais bem equipadas e nós
professores melhor tratados. Mas, não é a foto ou o material que vai garantir a
aula e sim as questões que você propuser para a garotada. O negócio é pôr
fogo na turma. (KAERCHER, 2004, p.87)

Tais atividades exigem profissionais comprometidos com o ensino e que
buscam respostas, mesmo que parciais que contribuam para a compreensão das
transformações que ocorrem no mundo em toda sua complexidade.
A nova formação do professor deve basear-se no diálogo e visar à redefinição
de suas funções e papéis, à redefinição do sistema de ensino e à construção
continuada do projeto político-pedagógico da escola. O próprio professor
precisa construir também seu projeto político-pedagógico. (...) Antes de se
perguntar o que deve saber para ensinar, a professora deve perguntar por que
ensinar e como deve ser para ensinar. (GADOTTI, 2003, p.32).

A partir dos estudos feitos pode-se afirmar que a função do planejamento é
tornar a ação clara, direcionada e, especificamente no ensino da Geografia deve ser

20

transformadora. Visto que o objeto do estudo da Geografia hoje, é a analise de como o
homem apropria-se do espaço em que vive e de como produz e o organiza.
Sendo assim, o planejamento do trabalho deve possibilitar ao educando
intervir na sociedade, alterando e reescrevendo o rumo da história.
Dessa forma, o professor está exercendo bem seu ofício quando leva em
conta que os alunos, principalmente os das séries iniciais, estão passando por uma
fase de transição onde começam a deixar a vida privada familiar para ganhar o mundo
e tornar-se cidadão pleno, indivíduos criativos e independentes que pensam por si
mesmos, capazes de identificar e responder as perguntas com que o futuro imprevisível
os desafiar.

21

3 A GEOGRAFIA CONTEMPLADA NO PARÂMETRO CURRICULAR NACIONAL DE
GEOGRAFIA E NA PROPOSTA CURRICULAR DE SANTA CATARINA

Neste capítulo, pretende-se fazer uma análise do ensino da Geografia na
Proposta Curricular de Santa Catarina - PCSC, especificamente como foi elaborada,
quem foram seus idealizadores e qual a concepção de Geografia e educação adotada.
O mesmo pretende-se com o estudo do Parâmetro Curricular Nacional - PCN de
Geografia. Em seguida, realizaremos uma discussão sobre o PCN de Geografia,
partindo da análise do parâmetro e dialogando com autores da área que fazem uma
crítica e avaliam o documento, destacamos Pontuschka 1999, Cacete 1999 e Sposito
1999. No capítulo anterior, vimos que para que o professor das séries iniciais possa
desenvolver

com eficácia

o ensino da Geografia, é necessário que se faça um

planejamento prévio, tenha clareza do conteúdo a ser aplicado, e que se pergunte,
porque e como deve ser para ensinar. Os conteúdos dos documentos são referenciais
realmente utilizados pelos professores? Há uma concordância entre a forma de ver a
Geografia pelos estudiosos da área e o que traz os documentos? São questões que
pretendemos estar respondendo no desenvolvimento do trabalho.
3.1 Reflexões sobre a Proposta Curricular de Santa Catarina
A proposta curricular de Santa Catarina, de 1998, teve como idealizadores
um Grupo Multidisciplinar, formado por educadores de comprovada formação e
destacada ação pedagógica e do auxílio de consultores buscados na Universidade.
Esta versão foi amplamente discutida durante o seu período de construção, em dois
anos, pelos professores da Rede Estadual de Ensino, sendo resultado de um trabalho
democrático.
Discute sobre ensino-aprendizagem e o eixo norteador da proposta está
baseado na concepção histórico-cultural ou sociointeracionista, que parte do
pressuposto que os seres são agentes históricos, e ao mesmo tempo são resultados da
história. Discorre que o conhecimento produzido no decorrer do tempo é um patrimônio

22

coletivo e por isso deve ser socializado, havendo uma interação entre sujeito e objeto.
Expressa preocupação com a compreensão de como as interações sociais agem na
formação das funções psicológicas superiores do educando, indicando que estas
funções são processos histórico e social.
Esta proposta não se preocupa em constituir um ementário de conteúdo
por disciplina, embora apresente diversos exemplos de conteúdos atualizados. "O tema
pode ser selecionado a partir da vivência do aluno, sendo escolhido aquele que fica
mais perto dele. Perto, no sentido de interesses, e não de lugar/espaço em si". (PCSC,
1998, p184)
Na área da Geografia, a discussão do ensino-aprendizagem leva a uma
tendência pedagógica utilizando-se dos recursos da Geografia Crítica.
A Geografia a ser ensinada hoje é uma ciência que estuda aquilo que é
marcado no território, que expressa o espaço como resultado das lutas, das
disputas, do jogo de interesses e de poder dos povos, das sociedades, e dos
homens. Homens concretos, historicamente situados no espaço e no tempo,
não apenas na dimensão de uma extensão (horizontalidade), mas na sua
condição de posicionamento social (verticalidade) numa sociedade
hierarquizada, compreendendo sua identidade de classe. (PCSC, 1998, p.176)

A proposta é voltada para a realidade do educando, possibilitando reflexões
e visa superar a dicotomia entre a Geografia Física e Geografia Humana. Propõe como
inovações construir conceitos a partir de discussões e análises realizadas com os
alunos, nunca tiradas do livro ou ditados para memorizar.
O acima exposto, mostra que ao estudar a Geografia apenas com uma
descrição do espaço, está se limitando o ensino a apenas um momento de análise
geográfica, está se dando ênfase apenas ao aspecto físico sem levar em conta a
atuação humana, sem considerar o homem como parte do processo. Dessa forma,
como sujere a Proposta.
Ao estudar uma área em suas características naturais com a base física do
processo de ocupação e as transformações ocasionadas pelo uso social do
espaço estar-se-á oportunizando o tratamento e a compreensão dos vários
conceitos específicos da tradicional parte física da Geografia. O aluno
compreenderá o que é um rio, um riacho, uma área de inundação, um planalto,
uma planície, uma vertente íngreme, a formação rochosa, etc... a partir da
realidade concreta e não a partir de conceitos prontos, idealizados e distantes
da sua vivência cotidiana.(PCSC,1998, p.180)

23

Ainda de acordo com a abordagem acima, e conforme a Proposta, os
conceitos básicos da Geografia física e Geografia humana devem sustentar as análises
na medida em que forem tornando-se significativas devem ser aprofundados e levados a
uma análise globalizada.Visa dessa forma, a superação da dicotomia física humana.
A superação da dicotomia físico/humano da Geografia é urgente e se faz
necessária por dois motivos pelo menos: a) não é possível fazer uma análise
geográfica desconsiderando a dimensão da natureza na produção do espaço;
b) não é mais possível fazer-se a fragmentação do espaço em físico e humano,
com o risco de não compreendê-lo; e por outro lado, a análise não será
geográfica. (PCSC; p.180)

Os temas sugeridos são abertos e podem ser relacionados ou ampliados
na medida do conhecimento da realidade do aluno, da comunidade escolar e do Projeto
Político Pedagógico - PPP da Escola. Apresenta os conteúdos sob forma de temas e
um estudo coerente sobre a realidade do mundo atual. Diz que não é possível fazer
uma análise geográfica desconsiderando a dimensão da natureza na produção do
espaço e não é mais possível fazer a fragmentação do espaço físico e humano.
No processo de escolha de temas e de construção de conceitos, há uma
preocupação em partir da menor parcela do espaço (Município) para a maior (Mundo),
sempre contextualizando nos níveis da escala de análise e estabelecendo relações
nacionais, internacionais ou locais, conforme a necessidade. Parte do mais simples
para o mais complexo, aumentando a complexidade e profundidade à medida que
avança para as séries finais do Ensino Fundamental e para o Ensino Médio.
3.2 Acerca do Parâmetro Curricular Nacional de Geografia
Os PCNs- Parâmetros Curriculares Nacionais editados pelo MEC/SEF, em
1997, foram consolidados como instrumentos de apoio para a concretização das ações
pedagógicas em todo país. Os documentos foram elaborados por um grupo de
educadores e especialistas reunidos pela Secretaria de Educação Fundamental do
Ministério da Educação e Cultura e encaminhados a alguns especialistas de algumas
universidades e às Secretarias Estaduais e Municipais para a crítica do trabalho
desenvolvido.

24

Quanto às concepções pedagógicas adotadas, não há definição por uma,
tornando o texto eclético, sem mostrar uma escolha.
O critério de seleção fundamenta-se na importância social e formação
intelectual do aluno. Os eixos temáticos, temas e itens nasceram de uma visão
fundamentada no princípio da unidade, em que geografia física e humana interage
reciprocamente. Eles representam subsídios teóricos que devem ser entendidos como
ponto de partida e não de chegada, para o professor trabalhar os conteúdos de
Geografia:
A orientação proposta nos Parâmetros Curriculares Nacionais reconhece a
importância da participação construtivista do aluno e ao mesmo tempo, da
intervenção do professor para a aprendizagem de conteúdos específicos que
favoreçam o desenvolvimento das capacidades necessárias à formação do
indivíduo. Ao contrário de uma concepção de ensino e aprendizagem como um
processo que se desenvolve por etapas, em que a cada uma delas o
conhecimento é "acabado", o que se propõe é uma visão da complexidade e
da provisoriedade do conhecimento. (PCN INTRODUÇÃO, 1997, p 44)

Conforme o PCN, A Geografia tradicional tinha enfoque descritivo,
enfatizando paisagens e os lugares que eram apenas descritos em seu aspecto visível.
Priorizava, assim, a memorização. O ensino estava totalmente desvinculado da
produção social do espaço. Acreditava-se que as condições naturais determinavam as
características culturais do homem e, por isso, a Geografia possuía uma postura
decisiva.
A Geografia tinha, portanto, uma visão linear das atividades. O conteúdo
era trabalhado de forma fragmentada (primeiro se estudava o extrativismo e depois a
agricultura, passando pela pecuária, a indústria e por fim o comércio). Essas atividades
ocorreriam numa ordem seqüencial, fragmentada: o homem era um elemento a mais na
paisagem. Não havia o tratamento de inter-relação entre a historicidade e a totalidade e
nem entre as relações que os homens estabeleciam entre si e com a natureza.
A partir dos anos 60, sob a influência das teorias marxistas, surge uma
tendência crítica à Geografia Tradicional, em que o centro de preocupação
passa a ser as relações entre sociedade, trabalho e a natureza na produção do
espaço geográfico. (PCN, p.104).

25

As

mudanças

continuaram

acontecendo,

pois

tanto a

Geografia

Tradicional como a Marxista tratavam a relação do homem com a sociedade e com a
natureza, desconsiderando, no entanto, a visão de totalidade.
No ensino da Geografia, nessa fase, a preocupação maior eram os
conteúdos conceituais, desvalorizando os conteúdos procedimentais. Com isso, o
ensino ficava restrito à aprendizagem de fenômenos e conceitos, desconsiderando a
aprendizagem de procedimentos fundamentais à formação do indivíduo.
Segundo o PCN as aulas de Geografia têm o objetivo de tornar o mundo
compreensível, explicável ao entendimento dos educandos, buscando um ensino para a
conquista da cidadania. Assim as temáticas com as quais a Geografia trabalha
encontram-se permeadas por essa preocupação.
Ao ensino de Geografia precisava ser dado um encaminhamento
pedagógico de caráter interdisciplinar.
Nessa perspectiva, enfoca-se a historicidade, ou seja, situar o homem
como sujeito construtor do espaço geográfico. Um homem social e cultural que produz e
organiza o seu espaço e o modo como se apropria dele.
O PCN destaca a possibilidade de se trabalhar com projetos, pois os
projetos permitem tanto o aprofundamento de determinadas temáticas, conforme as
realidades de cada lugar, como maior flexibilidade no planejamento do professor.
Os temas transversais devem interagir de forma articulada com os
objetivos e conteúdos. Sendo assim, a organização de projetos pedagógicos,
interdisciplinaridade e transversalidade são estratégias que permitem a articulação das
questões sociais com a Geografia.
Especificamente na disciplina de Geografia para o Ensino Fundamental o
volume está dividido em Ciclos ­ 1º Ciclo (1ª e 2ª séries) ­ 2º Ciclo (3ª e 4ª séries) ­
3ºCiclo (5ª e 6ª séries) ­ 4º Ciclo (7ª e 8ª séries).
Abordaremos aqui, apenas o ensino-aprendizagem dos 1º e 2º Ciclos,
visto que são os que têm as séries inseridas, e, portanto, os pertinentes à nossa
pesquisa.
No primeiro ciclo, o estudo da Geografia deve abordar principalmente
questões relativas à presença e ao papel da natureza e sua relação com a ação dos

26

indivíduos, dos grupos sociais e, de forma geral, da sociedade na construção do espaço
geográfico. Para tanto, a paisagem local e o espaço vivido são referências para o
professor organizar seu trabalho.
O segundo ciclo deve abordar principalmente as diferentes relações entre
as cidades e o campo em suas dimensões sociais, culturais e ambientais, considerando
o papel do trabalho, das tecnologias, da informação, da comunicação e do transporte. O
objetivo central é que os alunos construam conhecimentos a respeito das categorias de
paisagem urbana e paisagem rural, como foram construídas ao longo do tempo e ainda
o são, e como sintetizam múltiplos espaços geográficos.
O PCN traz ainda, os objetivos, os conteúdos e os critérios de avaliações
a serem utilizados pelos professores de cada ciclo e ou série.
Quanto às orientações metodológicas e didáticas, cada aula deverá se um
novo desafio, pois a dinâmica do cotidiano escolar é enriquecedora.
Deve-se fugir das atividades padronizadas, que congelam as multiplicidades
de situações em que a relação professor aluno e área tornam-se um grande desafio.
Exigindo do professor uma atitude de mediador nas interações educativas, criando
desafios perante os conteúdos apresentados havendo momentos em que o professor
deverá assumir a direção dessa interação no processo educativo, tendo a clareza dos
limites de sua interação para não anular a criatividade e a iniciativa dos alunos.
Para o ensino fundamental, o PCN coloca que embora o espaço
geográfico deva ser o objeto central de estudo, as categorias paisagem, território, e
lugar devem também ser abordados, principalmente nos ciclos iniciais.
Apresentaremos assim, os conceitos de território, paisagem e lugar
segundo o PCN de Geografia:
Território:
para estudar essa categoria é necessário que os alunos compreendam que os
limites territoriais são variáveis e dependem do fenômeno geográfico
considerado". Hoje, por exemplo, quando se estudam os blocos econômicos, o
que se entende por território vai muito além do Estado-nacional. Além disso,
compreender o que é território implica também compreender a complexidade
da convivência em um mesmo espaço, nem sempre harmônica, da diversidade
de tendências, idéias, crenças, sistemas do pensamento e tradições de

27

diferentes povos e etnias. É reconhecer que, apesar de uma convivência
comum, múltiplas identidades coexistentes e por vezes se influenciam
reciprocamente, definido e redefinido aquilo que poderia ser chamado de uma
identidade nacional. No caso específico do Brasil, o sentimento de pertinência
ao território nacional envolve a compreensão da diversidade de culturas que
aqui convivem e, mais do que nunca, buscam o reconhecimento de suas
especificidades, daquilo que lhes é próprio. (PCN, 1997, p.111)

Paisagem:
é definida como sendo uma unidade visível, que possui uma identidade visual,
caracterizada por fatores de ordem social, cultural e natural, contendo espaços
e tempos distintos; o passado e o presente. A paisagem é o velho no novo e o
novo no velho. Assim, por exemplo, quando se fala da paisagem de uma
cidade, dela fazem parte seu relevo, a orientação dos rios e córregos da
região, sobre os quais se implantam suas vias expressas, o conjunto de
construções humanas, a distribuição da população que nela vive, o registro das
tensões, sucessos e fracassos da história dos indivíduos e grupos que nela se
encontram. É nela que estão expressas as marcas da história de uma
sociedade, fazendo, assim, da paisagem uma soma de tempos desiguais, uma
combinação de espaços geográficos. (PCN, p.112)

Lugar:
nesse contexto, a categoria lugar traduz os espaços com os quais as pessoas
têm vínculos mais afetivos e subjetivos que nacionais e objetivos: uma praça,
onde se brinca desde menino, a janela de onde se vê a rua, o alto de uma
colina, de onde se avista a cidade. O lugar é onde estão às referências
pessoais e o sistema de valores que se direcionam as diferentes formas de
perceber e construir a paisagem e o espaço geográfico. (PCN, p.112)

O estudo dessas categorias e suas relações possibilitarão aos alunos uma
maior compreensão do espaço geográfico na qual estão inseridos tanto no nível local
como mundial.

28

A Geografia deve fornecer condições e subsídios para que o indivíduo
possa conhecer a realidade e fazer parte dela como agente transformador do espaço,
que está em constante movimento. Por meio de situações de aprendizagem em que
possa compreender o presente, a produção e organização do espaço geográfico, o
aluno terá condições de analisar e interpretar os conteúdos estudados e o mundo que o
rodeia.
3.3 Pontos e Contrapontos do PCN de Geografia
De acordo com Pontuschuka (1999), quanto aos conceitos e metodologias o
PCN apresenta aspectos positivos quando retoma os conceitos básicos como
paisagem,

lugar,

interdisciplinaridade,

território
auxiliando

e

região,
o

processo

Inovaram

quando

propuseram

ensino-aprendizagem.

a

Proporcionou

inovações, quando destacou a necessidade de se trabalhar os temas transversais como
facilitador da formação integral do educando. Apresenta aspectos negativos quando
retoma os conceitos básicos, porém não conseguem articular com os objetivos gerais e
com os procedimentos metodológicos.
Os textos contidos no PCN são teóricos demais. Tem por objetivo abranger
professores de todo Brasil, no entanto, usam uma linguagem pra professores de
primeiro mundo.
O texto por vezes repetitivo torna-se eclético ao incluir autores e assessores
com pensamentos geográficos diferenciados. Os PCNs destinam-se a minoria
dos professores bem formados, que com maior ou menor intensidade já
conhecem a bibliografia geográfica mais atualizada e acompanham a trajetória
percorrida pela ciência geográfica em suas diferentes vertentes e também seu
ensino como disciplina escolar nas últimas décadas. O texto é teórico demais
para o professor que ainda utiliza o livro didático como a sua única ou principal
bibliografia. Desse modo, ao lado dos PCNs, muitas outras ações precisam ser
efetivadas para que o público ­alvo possa elevar a qualidade de seu trabalho
de acordo com os objetivos gerais previstos pelo MEC.(PONTUSCHUKA,
1999, p.16)

É dada pouca importância ao estudo da geopolítica e não conseguem
resolver a dicotomia entre a Geografia física e a Geografia humana nos exemplos
concretos, embora façam críticas a essa dicotomia.

29

As pedagogias inovadoras estão sendo impostas aos professores de forma
autoritária e sem o preparo prévio dos mesmos.

Mexe-se no currículo, mas não se pensa das ações que ofereçam aos
professores, distribuídos por todo o território brasileiro, momentos de reflexão,
no sentido de valorizar a interdisciplinaridade e os trabalhos coletivos em uma
sociedade e em uma organização escolar em que prevalece o individual, para
não dizer o individualismo, em que as disciplinas estão extremamente
compartimentadas, não considerando as fronteiras indeléveis existentes entre
elas. Idéias boas são destruídas pela forma autoritária de sua implementação.
(PONTUSCHUSKA, 1999, p.17).

Quanto ao processo de elaboração e os traços de sua filosofia, Sposito
(1999), destaca como aspectos positivos, as proposições curriculares para a disciplina
de Geografia, pois colocam em cena novos paradigmas teórico-metodológico, que
podem indicar possibilidade de superação de outras propostas curriculares. Podendo
instaurar um movimento de renovação do processo ensino-aprendizagem capaz de
acompanhar o ritmo das transformações sociais, políticas, econômicas, culturais,
ideológicas e étnicas em curso.
O processo de elaboração das diretrizes por disciplina foi antecedido por
reflexões amplas que levou à definição da filosofia geral do projeto, e de sua estrutura.
Enfim as linhas gerais foram formuladas por diferentes equipes de trabalho.
A existência de um referencial geral para a orientação do trabalho de
formulação do PCN permitiu a valorização da transversalidade como possibilidade do
estabelecimento de relações entre o conhecimento sistematizado e a realidade, através
de um trabalho interdisciplinar.
No caso dessa proposta, a interdisciplinaridade poderá sair do plano do papel
para a ação concreta, no processo de ensino aprendizagem, se os professores
do ensino fundamental assumir o desafio de colocar em prática o
desenvolvimento de um trabalho a partir do que foi definido como "temas
transversais". (SPOSITO, 1999, p.24)

Um aspecto bastante positivo no PCN, é o da valorização do uso de
diferentes linguagens. Dentre as linguagens passiveis de utilização para o ensino de
Geografia, há destaque para a cartografia.

30

Sem dúvida, é importante a recuperação da cartografia como instrumental de
grande valia para o ensino em Geografia, sobretudo porque a aproximação
com o paradigma do materialismo histórico e dialético, ou o surgimento do que
se denominou de forma não adequada como "Geografia crítica", no decorrer da
década de 80, significou, na prática, o afastamento de procedimentos
metodológicos, que foram identificados de forma simplista com a Geografia
positivista. (SPOSITO, 1999, p.33)

São considerados por Sposito como aspectos negativos: A falta de clareza
na concepção teórico-metodológica assumida.

A escolha de uma tendência conceitual oscila no decorrer do PCN, pois, por
muitas vezes a concepção apresentada para os conceitos e categorias centrais do PCN
e/ou a terminologia utilizada nos blocos temáticos identificam-se com diferentes
correntes teórico-metodológicas.
A forma como foi conduzido o processo de elaboração do documento que,
restritos pelas dificuldades de acesso às informações ou pela rapidez com que foram
realizadas as avaliações dificultaram o acesso dos principais agentes educacionais, ou
seja, o professor do ensino fundamental.
Os PCNs chegaram à sua edição passando por um processo de avaliação, que
se conduziu através do envio de sua primeira versão a "assessores" e
"pareceristas professores de universidades e especialista de todo país", que
remeteram suas críticas e sugestões à equipe de elaboração, sem que um
debate tenha efetivamente se estabelecido, na forma como, apenas, uma
interlocução ao vivo permite ocorrer. (SPOSITO, 1999, p.29)

Conforme Cacete, desde 1996, através de seus seminários, Associação dos
Geógrafos do Brasil-AGB, questionava o processo de elaboração dos PCN, que
"dispensou" a participação dos professores e da sociedade civil organizada através de
suas entidades representativas.
Questionava também a determinação de currículos centralizadores e
hegemônicos que desrespeitavam o professor na medida em que se desconsideravam
suas experiências, os seus saberes acumulados na vivência cotidiana.
O que se tem presenciado é que o incremento dessas políticas tem excluído
de qualquer participação os principais interessados nas questões educacionais:
professores, alunos, e comunidades.
Na verdade, o que vem ocorrendo é um processo em que cada vez mais os
professores vêm sendo eclipsados, vêm sendo colocados à sombra com os currículos

31

prescritos. Os sujeitos, hoje, do processo educativo é o PCN. A não existência de um
tom de diálogo nos documentos anuncia essa intenção.
Cacete salienta ainda, que, a determinação por parte do governo federal de
estabelecer o PCN insere-se, no contexto de iniciativas neoliberais no campo da
educação financiadas pelo Banco Mundial.
A partir das análises anteriores, observamos que o PCN representa
importante avanço para a educação geográfica no Brasil. Porém, concordamos com
Pontuschuska, quando fala que o texto do documento é teórico demais. Acrescenta-se
ainda, concordando com Cacete, que o documento tem caráter centralizador, desta
forma, dificultando sua implantação em um território político e geográfico com as
características do Brasil, cuja realidade é de escolas precárias sem estrutura física, e de
profissionais que trazem consigo experiências e saberes acumulados na sua vivência.
O que se percebe é que as escolas brasileiras primam pela diversidade étnica cultural.
Ainda nessa abordagem, observamos que o PCN deveria apoiar a
elaboração ou a revisão curricular dos estados e municípios contextualizando-a em
cada realidade social. Neste sentido, entra a Proposta Curricular do Estado que procura
superar essa deficiência quando propõe construir conceitos a partir de análises
realizadas com os alunos, acatando a realidade de cada um e o projeto político
pedagógico da escola. Respeitando assim, as diferenças regionais, culturais e étnicas.
Destacamos como positivo, o fato de no ensino fundamental, o PCN
favorecer a compreensão da realidade e da participação social de cada um na
sociedade, e por trazer como eixo central da educação escolar o exercício da
cidadania.
Concordamos com Sposito, que a proposta de interdisciplinaridade, é um
avanço que deve ser acatado por todos os professores de ensino fundamental.
Necessário, porém que os professores sejam incentivados a estarem em constante
formação continuada. O que se percebe, no entanto, é que os baixos salários e o pouco
incentivo por parte dos órgãos governamentais têm dificultado aos professores da rede
pública o acesso à capacitação. Caracterizando assim um distanciamento entre a teoria
proposta pelo documento e a prática aplicada pelo professor.

32

Indo ao encontro as idéias de Sposito, quando destaca como negativa a
falta de clareza na concepção pedagógica adotada. Parte-se do pressuposto que ao
elaborar seu planejamento e ao entrar em sala de aula, o professor tenha claro a linha
pedagógica a ser adotada e o tipo de Geografia quer ensinar para seus alunos. Desta
forma, a proposta não atinge o objetivo esperado ao nortear o processo ensinoaprendizagem.
Vale lembrar que o exposto acima, mostra a importância de ter-se no
Estado de Santa Catarina uma proposta que vá ao encontro das necessidades de cada
realidade educacional, onde as diferenças regionais e culturais são respeitadas. Uma
proposta que define o tipo de geografia que deve ser ensinada. Deixando também
espaço para que o professor possa desenvolver sua criatividade e conhecimentos
adquiridos com o estudo científico, com o meio e com o próprio aluno.
As abordagens acima, não tiram, no entanto, a importância do documento
para o ensino no Brasil. Questiona-se, porém sua eficácia na aplicabilidade no cotidiano
escolar. Principalmente em regiões do Brasil que diferente de nosso estado, é o único
referencial teórico conhecido dos professores.

33

4 ETAPA DE ANÁLISE

Neste capítulo relata a investigação na EEB Princesa Isabel, no município de
Morro da Fumaça/SC. A pesquisa em campo ocorreu através de entrevista e aplicação
de um questionário com perguntas fechadas e respondido pelas quatro professoras
das séries iniciais.
Foi efetuada também a análise do planejamento anual

de outras

professoras nos últimos cinco anos, além da observação das aulas em turmas das
séries iniciais. Respectivamente, 1ª série nos dias 11 e 13 de junho; 2ª série no dia 14
de junho; 3ª série dia 20 de junho e 4ª série nos dias 04 e 07 de julho. As observações
não foram apenas com horários e dias marcados, mas o fato de, ser profissional da
educação e efetiva na instituição, possibilitou um contato diário com crianças e
professoras, fato que trouxe maior liberdade e oportunidades para uma investigação
mais completa.
4.1 As Professoras das Series Iniciais e a Geografia
A partir do questionário aplicado com as professoras das séries iniciais
pudemos constatar que, das quatro professoras entrevistadas, três concluíram sua
graduação na UDESC - Universidade do Estado de Santa Catarina e especialização na
AUPEX - Assessoria Pedagógica de Extensão; uma fez a graduação na UNESC Universidade do Extremo Sul Catarinense

e sua especialização na FUCAPI -

Faculdade de Capivari. Apenas uma das professoras tem vínculo efetivo com a
Instituição, as demais são contratadas em caráter temporário. Quanto a experiência
profissional, constatou-se que todas as professoras possuem bastante experiência,
sendo relatada concomitantemente aqui, de forma crescente: doze anos, vinte e dois
anos, vinte e quatro anos e vinte e seis anos.
Apenas a professora de vínculo efetivo trabalha os dois períodos ( 40 horas
semanais) na escola em questão, onde além de ser professora das séries iniciais
desenvolve um trabalho com alunos que possuem deficiência auditiva. As demais

34

professoras trabalham apenas um período na escola (20 horas semanais); no outro
período, exercem também a função de professora das séries iniciais na rede de ensino
municipal do município de Morro da Fumaça.
Quanto ao planejamento das aulas, ficou constatado

que há um

planejamento anual a ser seguido e que o mesmo é elaborado de forma conjunta.
Porém a autonomia do professor em sala de aula é

respeitada e o mesmo pode

desenvolver seu trabalho da forma que achar mais adequada.
De acordo com Marilza1, "O planejamento é feito anualmente , no qual,
professores de 1ª a 4ª série do ensino fundamental reúnem-se para descrever objetivos
e conteúdos das disciplinas para cada uma das séries. Silvana2, relata que "as
atividades

são

planejadas

através

da

interdisciplinaridade,

os

temas

são

contextualizados e intencionais ,criativos e pesquisados".
Conforme Maria da Glória3, "há um rol de conteúdos para cada série, neste
rol, há alguns temas que são discutidos em grande grupo, onde serão realizadas
atividades de aprendizagem que envolvem toda a escola. As aulas no entanto, são
planejadas individual. O professor poder articular os conteúdos nas mais diversas
metodologias, que melhor contribuir para a construção do conhecimento dos
educandos."
Com relação ao ensino da Geografia, todas argumentaram que o ensino
tem relação com os conteúdos obrigatórios a seguir e que os mesmos são baseados
no planejamento anual, conforme grade curricular, sendo permeados pelos PCNS e
PPP da escola. Conforme professora Marilza, " o ensino da Geografia tem a função
de proporcionar uma educação com maior qualidade no estudo do espaço construído
pelos homens em relação natureza, estimulando o pensamento crítico, reflexivo sobre
o mundo em que vive o aluno."
Quanto

ao

horário

das

aulas

de

Geografia,

duas

professoras

especificaram que "as vezes" trabalham com horário determinado, uma professora
estipula um período de oito horas semanais para a disciplina, uma procura trabalhar de
1

Marilza Cavagndi, professora da 1ª serie. Entrevista concedida em maio de 2007.
Silvana Carvalho Mendes, professora da 2ª serie. Entrevista concedida em maio de 2007.
3
Maria da Gloria Formentim, professora da 3ª serie. Entrevista concedida em maio de 2007.
2

35

forma contextualizada com as demais disciplinas. Maria da Gloria diz que procura
"trabalhar os conteúdos contextualizados com as demais áreas, por isso todo dia é dia
de Geografia, História, Português e Matemática". Para Silvana, "além das aulas serem
planejadas, são também intencionais, ou seja, vai de interesse e necessidade do
aluno."
Os materiais didáticos utilizados

são bem diversificados tais como: livro

didático, mapas, plantas, desenhos vídeos, sucatas, argilas, cartolinas. As atividades
com maquetes, desenhos, músicas visitas, relatórios e experimentos também fazem
parte do cotidiano das aulas de Geografia.
Quando questionadas se havia alguma dificuldade para realizar as práticas
no ensino da Geografia, uma professora colocou que às vezes sente dificuldades,
porém não especificou quais são. Uma professora salientou que a dificuldade
encontrada está na falta de material didático.
Duas das professoras já encontraram muita dificuldade, porém hoje, segundo
as professoras, trabalhando com as disciplinas de forma contextualizada fica bem mais
fácil. De acordo com a professora Alciliete4, "Uma vez tinha muita dificuldade , quando
se trabalhava a disciplina de forma isolada, hoje as aulas são diferentes, prazerosas,
onde encontra-se vários recursos para se ter mais aulas significativas". A professora
Maria da Gloria ainda acrescenta que hoje o aluno interage mais. Partindo da realidade
do educando, torna-se mais atrativo pois o mesmo participa e se integra mais nas
aulas.
Sobre como foi para as professoras o estudo da geografia no ensino
fundamental, duas responderam que gostaram. Uma delas acrescenta que teve como
profissionais da Geografia, professores que proporcionaram aulas prazerosas. Duas
das professoras definiram as aulas como tradicionais: muita teoria e pouca prática . De
acordo com professora Maria da Gloria, as aulas eram apenas decoreba, não havia
entendimento e internalização dos conteúdos com a realidade.
Questionadas quanto a forma que as crianças vêem a disciplina de
Geografia nos dias atuais, a professora Marilza justifica-se dizendo que é difícil
diagnosticar, uma vez que os alunos de 1ª série, ainda desconhecem o estudo da
4

Alciliete de Souza Bortolin, professora da 4ª. Entrevista concedida em maio de 2007.

36

Geografia. Todas as demais ressaltaram que hoje, os alunos das séries iniciais gostam
da disciplina, são participativos e criativos.
Com relação ao conhecimento que as professoras têm sobre o PCN, todas
afirmaram que conhecem o material e que o mesmo representa um instrumento útil no
apoio das discussões pedagógicas na escola. Maria da Gloria ressalta que dentro do
PCN irá encontrar "pressupostos teóricos, objetivos, acompanhados por orientações
didáticas. Não se trata de um modelo a ser copiado mas de sugestões que a escola e o
professor poderão aos poucos adaptar a sua realidade."
Todas foram unânimes ao afirmarem que os conteúdos trabalhados em sala
de aula tem relação com os conteúdos indicados pelo PCN.
Como exemplo desta relação, foi citado pela professora Silvana o trabalho
com vários tipos de textos, atividades contextualizadas e criativas. A professora Alciliete
acrescenta que os conteúdos indicados pelo PCN, "São conteúdos que fazem com que
as crianças dominem os conhecimentos de que necessitam para crescerem como
cidadãos conscientes de seu papel em nossa sociedade."
A professora Maria da Gloria salienta que procura criar condições para que
o educando desenvolva suas capacidades, sua identidade pessoal, acontecendo com
isso a socialização, ressalta que valoriza o conhecimento que o educando adquire no
seu meio e procura fazer com que os mesmos tenham acesso a outros conhecimentos,
para que possam ampliar sua visão de mundo, tornando-os ativos no seu processo de
desenvolvimento.
Quanto ao uso do livro didático, duas das professoras responderam que
sempre o utilizam em suas aulas; duas responderam que utilizam eventualmente.
Como contribuição para o ensino da geografia duas das professoras
entrevistadas deixaram seu parecer:
A professora Silvana diz que, "é de extrema importância, nós educadores,
trabalharmos com atividades diversificadas, que envolvam orientação, espaço,
lateralidade, entre outros.
Maria da Gloria relata, "como educadora, vivo buscando sempre mais,
procuro me adaptar as novas tecnologias e os diversos avanços que há neste mundo
em que vivemos. Vejo que mesmo tendo 26 ( vinte e seis) anos de profissão, ainda não

37

se sabe quase nada. Agradeço a Deus por ter esta visão. Mas ao mesmo tempo fico
triste com certos profissionais que se acomodam neste imenso mundo de mudança e o
culpado sempre é o aluno. Precisa-se fazer uma auto-avaliação. Portanto, vale a pena
investir em conhecimento, em idéias novas, devemos acreditar no potencial dos nossos
educandos. Se caminharmos assim (parados) iremos ficar no mesmo ponto. A leitura
tem que fazer parte do nosso dia-a-dia".
De acordo com o exposto acima, as professoras buscam referenciais no PCN
de Geografia para nortear seus trabalhos e, como citado, trabalham de forma
interdisciplinar, o que vai ao encontro da proposta do PCN de Geografia. Conforme
Sposito quando discute o PCN.
No caso dessa proposta, a interdisciplinaridade poderá sair do plano do papel
para a ação concreta, no processo de ensino aprendizagem, se os professores
do ensino fundamental assumir o desafio de colocar em prática o
desenvolvimento de um trabalho a partir do que foi definido como "temas
transversais". (SPOSITO, 1999, p.24)

É importante salientar que o Estado de Santa Catarina dispõe de uma
Proposta Curricular própria, e que, conforme a assistente de direção da escola em
questão, Sibele Mílaki5, esta é a base para subsidiar os profissionais da educação.
Conforme análise da Proposta Curricular apresentada no capítulo 1, o
direcionamento da proposta leva a opção por uma linha pedagógica que incentiva o
trabalho interdisciplinar, pois o mesmo possibilita a interação do conhecimento
sistematizado com a realidade.
Pode-se afirmar dessa forma que as professoras supracitadas trabalham
voltadas a orientações trazidas pelo PCN e Proposta Curricular do Estado, são
habilitadas para tal função, buscam aperfeiçoar-se e possuem bastante experiência
profissional.
4.2 Os Caminhos do Planejamento da Disciplina de Geografia
Foi analisado o planejamento anual das 1ª; 2ª, 3ª e 4ª séries da Escola de
Educação Básica Princesa Isabel, dos últimos 5 anos.A partir da leitura dos mesmos,
5

Sibele Milak, assistente de direção. Entrevista concedida em maio de 2007.

38

concluímos que é elaborado apenas um planejamento para as quatro séries.
Percebemos também que não houve alterações no plano entre os períodos analisados.
Segundo informações da assistente de direção da escola, Sibele Mílaki, em
uma conversa informal, tal fato justifica-se por ser o planejamento anual, material que
norteará os conteúdos a serem trabalhados e a linha pedagógica a ser seguida. No
caso da escola em questão o estudo tem sido subsidiado pela Proposta Curricular do
Estado de Santa Catarina e respaldado nas orientações do PCN,

sendo assim,

desnecessário estar alterando todos os anos o planejamento. As outras formas de
planejar fica a critério de cada profissional, pois o mesmo tem autonomia para trabalhar
conforme achar conveniente (porém dentro da proposta de educação seguida pela
Instituição). Na medida do possível, encontros bimestrais são proporcionados para que
sejam socializados os trabalhos e elaboradas as atividades de aprendizagens. Estas
sim, constantemente atualizadas e adaptadas à realidade do educando.
A seguir, o objetivo, conceitos essenciais e conteúdos a serem trabalhados
elencados no planejamento, segundo as professoras das series iniciais da referida
escola.

39

OBJETIVO
Proporcionar uma educação com maior qualidade no estudo do espaço construído pelos homens em
relação à natureza,estimulando o pensamento crítico, reflexivo sobre o meio em que vive o aluno.

CONCEITOS
·

Espaço; Espaço/tempo; Espaço representado;

·

Localização;

·

Orientação;

·

Paisagem;

·

Região;

·

Meio-ambiente;

·

População;

·

Relação social/global;

·

Relação sócio/cultural;

·

Sociedade;

·

Espaço geográfico;

·

Lugar;

·

Ambiente.

CONTEÚDOS
·

Bairro,município,estado, país (espaço vivido);

·

Meios de transporte e comunicação;

·

Estações do ano ;

·

Comercio indústria e turismo;

·

Pontos cardeais;

·

Plantas e mapas (local,municipal, estadual, global e universal) ;

·

Paisagens (natural e cultural);

·

Meio ambiente (recursos renováveis e recursos não-renováveis; degradação, preservação e

desenvolvimento sustentável);
·
6

6

Região (micro e macro).

FONTE: Planejamento das series iniciais da EEBPI. 2007.

FONTE: Planejamento das series iniciais da EEBPI. 2007.

40

De acordo com estudo da Proposta Curricular de Santa Catarina na área da
Geografia, feita no capitulo 1, a discussão do ensino-aprendizagem leva a uma
tendência pedagógica utilizando-se dos recursos da Geografia Crítica. As propostas
são voltadas para a realidade do educando, possibilitando reflexões.
Conforme análise do PCN,

apresentada no capítulo 1, nos dias atuais é

fundamental que se trabalhe com uma Geografia concreta, que estude a relação entre o
homem e a natureza.
Nessa perspectiva ,enfoca-se a historicidade,ou seja, situar o homem como
sujeito construtor do espaço geográfico. Um homem social e cultural que produz e
organiza o seu espaço e o modo como se apropria dele.
Sendo assim, acredita-se que a proposta apresentada pelas professoras
através do objetivo, conceitos e conteúdos sejam inspirados tanto na Proposta
Curricular do Estado como no PCN de Geografia.
De acordo com estudo da Proposta Curricular de Santa Catarina na área da
Geografia, feita no capitulo 1, a discussão do ensino-aprendizagem leva a uma
tendência pedagógica utilizando-se dos recursos da Geografia Crítica. As propostas
são voltadas para a realidade do educando, possibilitando reflexões.
Conforme análise do PCN,

apresentada no capítulo 1, nos dias atuais é

fundamental que se trabalhe com uma Geografia concreta, que estude a relação entre o
homem e a natureza.
Nessa perspectiva ,enfoca-se a historicidade,ou seja, situar o homem como
sujeito construtor do espaço geográfico. Um homem social e cultural que produz e
organiza o seu espaço e o modo como se apropria dele.
Sendo assim, acredita-se que a proposta apresentada através do objetivo
proposto no planejamento seja inspirada tanto na Proposta Curricular do Estado como
no PCN de Geografia.
Os conceitos essenciais e os conteúdos selecionados para se trabalhar nas
séries iniciais nos levam a uma proposta também direcionada pelo PCN. Conforme
estudo do PCN, o objeto do estudo da Geografia hoje é a análise de como o homem se
apropria do espaço em que vive e de como produz e o organiza. Nesse estudo estão
implícitas as categorias de paisagem, território e lugar.

41

O estudo dessas categorias e suas relações possibilitará aos alunos uma
maior compreensão do espaço geográfico na qual estão inseridos tanto em nível local
como mundial. Pode-se observar pelos conteúdos elencados a possibilidade de se
trabalhar com os conceitos citados de forma a desenvolver uma visão crítica e
transformadora, conforme salienta o PCN e a Proposta Curricular do Estado.
4.3 O Percurso das aulas de Geografia
A observação dos trabalhos das professoras em sala de aula se deu de
maneira diferenciada, pois como profissional da escola, tinha livre acesso a sala de aula
e um contato direto com professores e alunos .
Desta forma, a observação não se deu apenas nos dias específicos
marcados para as atividades de Geografia. Várias foram as vezes que, ao passar pelas
salas de aula, deparava-me com alguma turma trabalhando atividades voltadas à
geografia. Minha satisfação nesses momentos ficava clara, principalmente pelo fato de
perceber que a preocupação, por parte das professoras, ao desenvolverem uma aula
criativa não se dava apenas nos momentos que estavam sendo observadas. Muitos
momentos significativos no entanto, não foram registrados, visto que

nem sempre

estava munida de máquina fotográfica, e, como estava em horário de trabalho, não
deveria estar desenvolvendo função de pesquisadora diretamente. Diante desses fatos,
alguns de meus relatos são registros de momentos diários que passava pelas salas e
ficava a observar 15 a 20 minutos das aulas, não fazendo parte das observações que
foram agendadas com as turmas.
As crianças das séries iniciais do Princesa Isabel, tem por prática aguardarem
suas professoras para juntas, dirigirem-se a sala de aula. Uma medida de segurança
tomada, visto que as salas destinadas ás séries iniciais ficam no último bloco. Tornouse, no entanto, um momento muito agradável, pois é um momento onde podem
expressar a afetividade e cumplicidade, importantes para um bom relacionamento.
Momento de caminharem juntos, disputarem a mão da professora, compartilharem com
colegas e professora algumas brincadeiras, enfim, momento de socialização e
aproximação.

42

A observação das 1ª e 2ª séries se deu de forma conjunta, ou seja, entre os
dias 11 e 15 de junho de 2007, ora estava em uma sala, ora estava em outra. Houve
momentos em que as duas turmas estavam juntas, pois o objetivo do trabalho
desenvolvido pelas professoras nesses dias era a socialização de conhecimento e
troca de idéias entre as turmas.
De acordo com as professoras Marilza e Silvana, o objetivo do trabalho
desenvolvido era o de fazer com que os alunos percebessem o espaço geográfico do
seu município através do processo histórico da mesma e como o processo de
desenvolvimento contribuiu com a imensa quantidade de lixo na natureza. A discussão
ia um pouco além com os alunos da 2ª série, pois estes deveriam, também, conhecer
os bairros que estão inseridos e como estes, estão inseridos dentro do município.
Para Callai:
O processo de ensino aprendizagem requer determinado conteúdo e certos
métodos considerando que a aprendizagem é um processo do aluno, dessa
forma,as ações devem ser dirigidas para que se construa o conhecimento pelo
sujeito ativo. O processo acontece através de uma relação de diálogo entre
professor e aluno. Sem esquecer que o professor continua sendo professor,
desta forma, o responsável pelo planejamento e desenvolvimento das aulas.
Callai ainda afirma que sem um consistente planejamento é impossível dar
conta da tarefa. "o professor precisa ter clareza tanto do processo pedagógico
como conhecer bem os conteúdos a serem trabalhados. (CALLAI, 2003, p.93)

Concordando com a autora supracitada, e a partir das observações, pode-se
afirmar que as professoras mantêm uma boa relação de diálogo com os alunos, têm
objetivos significativos e planejam suas ações, o que vai, também, ao encontro da
discussão de Callai.
A observação da

1ª série ocorreu nos dias 11 e 12 de junho de 2007,

conforme ficha de observação em anexo. No dia 11 de junho, a observação aconteceu
após o recreio. A professora Marilza iniciou o trabalho levando os alunos a explorarem
o espaço da escola, visitaram todos os ambientes conversaram com os funcionários e
exploraram os espaços externos.
Falas como:"Eu nunca tinha visto que tinha casinha de passarinho na
parede."A aluna Cristiane7, referindo-se a uma casinha de passarinho que foi construída
7

Cristiane, aluna da 1ª serie. Comentário feito durante a pesquisa maio de 2007.

43

pelo zelador da escola e que não havíamos percebido ainda. Filipe observando a frente
da escola fala: "Na escola tem bandeira também" "A parte que eu mais gosto é o
recreio" Brenda8, referindo-se ao parque. Luiz Antônio observa que " na escola tem
bastante espaço para brincar, mas atrás é mais grande que na frente".
Como nos mostra a FIGURA 1, logo após em sala de aula fizeram desenhos
representando o que tinham vivenciado.

FIGURA 1 - Alunos da 1ª serie em sala de aula.
FONTE: Da autora.

Para se construir a noção de espaço, é necessário que se faça uma
preparação para que a criança possa assimilar o conhecimento. Situações de
aprendizagem que valorizem as referências dos alunos são fundamentais. A criança
entre seis e sete anos, ao percorrer e conhecer o espaço vivido, e logo após
representá-lo em forma de desenho, estará fazendo uma construção mental do objeto,
sistematizando, dessa forma, seu conhecimento. Estará também, dando os primeiros
passos para a sua Alfabetização Cartográfica9.
No dia 12 de junho, as professoras das 1ª e 2ª séries levaram os alunos a
passearem pelas redondezas da escola, conhecendo ruas e visitando os locais mais
significativos do lugar, como igreja, lojas e pracinha.
8

Brenda, aluna da 1ª serie. Comentário feito durante a pesquisa maio de 2007
Alfabetização Cartográfica: Domínio do sistema semiótico da linguagem cartográfica. Saber
decodificar transformando suas informações para o uso do cotidiano ; representar mentalmente.
9

44

A rua é lugar de trânsito, de circulação, de paisagem para se chegar a outros
lugares.(...)"As ruas revelam o passado, o presente e permitem, inclusive, que se
vislumbre o futuro". (CALLAI, 2003, p.125 -126)
Ainda durante o passeio, entrevistaram o Senhor Jorge Silva10, um dos
primeiros moradores da cidade, o mesmo contou histórias sobre como era o município
no tempo em que era criança e como se deu seu desenvolvimento. Infelizmente, não há
registros sobre os fatos citados, pois não foi fotografado e a entrevista com o Senhor
Jorge foi apenas uma conversa informal.
É Importante salientar que estas

não foram aulas de observação, senão

registros feitos a partir de relatos dos alunos, professoras e das observações informais,
que, como já citado, trabalhando na instituição, tornou-se possível acompanhar todo
esse movimento.
No dia 13 de junho de 2007, a observação durante todo período matutino. A
aula iniciou-se com a professora saudando os alunos e dando as boas vindas. A seguir,
foi feita socialização do passeio ocorrido no dia anterior. Foi muito interessante observar
o entusiasmo das crianças ao relatarem o passeio. Os comentários foram:." Tem que ir
em um monte de ruas até chegar na igreja". Seu Jorge falou que antes não tinha
estrada assim, com cimento. A professora ia explorando os assuntos. Falou que para
que o município fosse colonizado, teve que haver desmatamento, modificando assim a
natureza, desapareceram muitos tipos de animais e os índios foram extintos. Salientou
que foram os primeiros habitantes que iniciaram a destruição da natureza, mas que o
homem continua explorando e destruindo o ambiente.
Vale mencionar o conhecimento da professora ao resgatar o passado, pois
em Geografia, para se entender o presente é necessário conhecer o processo que o
formou ou seja: sua história, seu passado. Geograficamente, o espaço é considerado
como território e lugar e é historicamente produzido pela sociedade, portanto
extremamente dinâmico. A criança, ao começar a perceber esta interação entre espaço
e sociedade estará formando os primeiros conceitos de território e lugar.
A seguir, as crianças, sob a orientação da professora iniciaram, um trabalho
de confecção de maquetes, como mostra a FIGURA 2. Uma aparente bagunça!
10

Jorge da Silva: um dos primeiros moradores do município.

45

Todos queriam mostrar as sucatas que trouxeram para a confecção do
trabalho. A `bagunça' começou a transformar-se em trabalho com a orientação da
professora, a partir da qual as maquetes começaram a tomar forma. Uma maquete
representava o município antes da colonização, como podemos ver na FIGURA 3 e a
FIGURA 4, representava o município atual. Por duas tardes as crianças dedicaram-se a
confeccionar as maquetes. Valeu a pena, pois o resultado foi excelente.

FIGURA 2 - Alunos da 1ª serie confeccionando maquetes
FONTE: Da autora ­ Junho/2007

FIGURA 3 ­ Maquete confeccionada pelos alunos da 1ª serie
FONTE: Da autora ­ Jun./2007

46

FIGURA 4 ­ Maquete confeccionada pelos alunos da 1ª serie
FONTE: Arquivo da autora ­ Jun./2007

A construção de maquetes com o grupo de alunos, além de proporcionar
uma aula dinâmica e agradável, funciona como um "laboratório geográfico" no qual as
crianças representam seu dia-a dia.
De acordo com Castrogiovanni:
A construção da maquete é um dos primeiros passos para um trabalho mais
sistemático das representações geográficas." Momento de interagir sujeito e
objeto, momento de contextualizações- "Por quê? Para quê, Para quem?
Como? Quando? Onde?". (CASTROGIOVANNI, 2003, p. 74 - 75),

Conforme Castrogiovanni:
[...]nos primeiros anos das séries iniciais, a criança está saindo da fase do
espaço "vivido" para o espaço "percebido"; fase que começa a descobrir o
espaço não mais apenas como o "aqui" mas o "ali" e o "lá"; começa a perceber
o espaço através da observação, momento de aprender a fazer a leitura das
paisagens e preparar-se para lidar como espaço "concebido" (conhecimento
espacial construído pela reflexão) por volta dos 12 anos. (CASTROGIOVANNI,
2003, p.22)

Castrogiovanni (2003, p.63), ainda nos fala que a "leitura da organização do
espaço deve ser iniciada pelos espaços conhecidos dos alunos".
Desta forma indo de encontro com os métodos de ensino adotados pelas
professoras.
Vale lembrar que o papel do professor no processo de construção do
conhecimento é fundamental. Se não houver interação, intervenção, se o professor não

47

fizer o papel de mediador não haverá aprendizagem. Desta forma, é importante que o
professor fique atento e perceba se, com as aulas, o aluno está desenvolvendo sensocrítico, sofrendo novas reflexões e sendo capaz de fazer novas representações.
A 2ª série foi observada no dia 14 de junho de 2007. Uma turma pequena
com doze alunos apenas ­

perfil ideal para se trabalhar com as turmas de séries

iniciais, pelo fato de serem ainda muito dependentes e exigirem da professora uma
atenção muito especial e individual. Sabe-se que nem sempre isto é possível, pois
muitas vezes a realidade de salas lotadas dificulta tal desempenho dos profissionais da
educação.
Contando com o privilégio de trabalhar com poucas crianças em sala, a
professora estendeu-se mais na atenção dispensada a cada criança no início das aulas:
cada um pode relatar como passou seu dia e socializar o que para eles era importante
naquele momento. Segundo a professora, a socialização do passeio nas redondezas da
escola e a entrevista feita com o Senhor Jorge Silva já havia sido feita no dia anterior.
Em seguida, iniciou-se o assunto proposto para a aula, aproveitando a fala de uma
aluna que relatava suas brincadeiras com as crianças que moravam perto de sua casa.
Inicia perguntando: Perto como? Na mesma rua? Qual bairro você mora? E a aula
continuou com várias perguntas e respostas sobre seus bairros . Quem morava mais
perto da escola, quem morava mais longe, se o bairro fazia parte do espaço rural ou
urbano.
A investigação intencional por parte da professora vai ao encontro que
Castrogiovanni sugere quando fala que a observação do espaço deve ter significados e
despertar emoções. Todo trabalho espacial deve conter o sentimento da provocação do
"porquê?" , "para que?", "para quem?", o "quando" e o "como" são indispensáveis no
entendimento do processo.
Ao Instigar as crianças para responderem

as perguntas, a professora

conduziu-as a fazerem um mapa mental do objeto observado; fator fundamental para
apropriação de conhecimento e preparação para posterior leitura e confecção de
mapas.

48

Lana Cavalcanti, nos fala que o trabalho com mapas mentais construídos
pelos alunos, na escola, tem por finalidade conhecer o nível de sua consciência
espacial, ou seja, entender como os alunos percebem o lugar em que vivem.
Na seqüência da aula, a professora abriu o mapa do município e junto com as
crianças começaram a procurar os bairros que as crianças moravam. A conversa
continuou, falou-se das potencialidades dos bairros , ou seja qual dos bairros citados
havia farmácia , comercio e outros.
A seguir, a professora pediu que as crianças fizessem um desenho
representando seu bairro e colocassem nele as informações que consideravam
importantes e necessárias.
Continuando relato sobre a observação, as crianças terminaram a aula com
a tarefa de observarem melhor os arredores de suas residências e entrevistar alguns
adultos perguntando o que eles achavam que era necessário melhorar no bairro.
Concordando com Lana Cavalcanti, quando ressalta que o mapa é uma
forma de expressão característica da geografia e precisa ser aprendida pelos alunos,
acrescento ainda que o contato e manuseio de mapas e a elaboração de desenhos
representando o objeto observado,

é importante para que a criança aprenda a

interpretar os sinais, legendas, sair do real (concreto) para a interpretação cartográfica
do mesmo. Acordando desta forma também com o método de ensino adotado. Senti,
no entanto, por parte da professora, a falta de observações acerca dos conceitos
científicos da Geografia.
Atentemos nessa questão, para o fato de que muitos professores que atuam
nas séries iniciais não foram Alfabetizados em Geografia11.
Acreditamos no entanto, que nas 1ª e 2ª séries o mais importante é que as
professoras consigam levar as crianças a interpretarem criticamente o mundo, a terem
noções de frente, atrás, perto, longe, em cima, em baixo, esquerda, direita. Formando
assim, as noções básicas de alfabetização em geografia, tão importante como ensinar a
ler e escrever. Pela observação das aulas pode-se afirmar que as professoras das
séries citadas tem se preocupado com métodos que levam a essa alfabetização.
11

Alfabetização Geográfica: Capacidade de observar, conhecer explicar, comparar, analisar e
representar diferentes paisagens e espaços geográficos.

49

Retornando a exposição sobre a observação das aulas, no decorrer da
semana, um gráfico foi elaborado com os alunos, cujos dados foram extraídos das
pesquisas que os alunos fizeram com os moradores do bairro). Foram feitas também
pequenas maquetes com caixas, como nos mostra a FIGURA 5. Nelas foram
representadas as potencialidades do bairro que os alunos consideraram importantes.

FIGURA 5 - maquetes confeccionadas pelos alunos da 2ª serie.
FONTE: Da autora ­ Jun./2007.

A confecção de gráficos a partir de dados coletados pelas crianças mostrouse uma atividade riquíssima, pois oportunizou a aprendizagem de diversos aspectos:
confeccionar legendas, realizar leituras cartográficas, fazer a ligação com a matemática,
o português, a artes, a história, etc.
A maquete, representa a recodificação da realidade estudada. O trabalho
com gráficos e maquetes são passos para a elaboração de trabalhos mais sistemáticos
das representações geográficas.
Durante a semana, por várias vezes, foi visto as duas turmas trocando
informações sobre suas descobertas. Quando os trabalhos ficaram prontos foi feita
exposição no pátio da escola. Os alunos ficaram muito orgulhosos ao verem suas obras
sendo observadas pelos colegas. Todos queriam mostrar seus bairros, seus lugares,
falar da transformação que sofreu o município ao longo dos anos até ter a aparência
atual, enfim, os alunos pareciam bastante envolvidos com a proposta.

50

A troca de informações e conhecimentos observados nas crianças durante a
semana reflete a abordagem da Proposta Curricular de Santa Catarina (1998, p.134),
quando cita que não é a atividade em si que ensina, mas a possibilidade de interagir, de
trocar experiências e trocar significados, o que garante a produção de novos
conhecimentos, de novas relações dentro e fora da sala de aula.
O trabalho desenvolvido pelas crianças e professoras teve também espaço
de destaque no jornal local conforme comprova o (anexo) .
Fato que se considera de fundamental importância para a valorização do
ensino e principalmente da importância do ensino da Geografia nas séries iniciais.
No dia 20/06/07, foi feita a observação das aulas na turma de 3ª série nos
períodos entre 13:00 e 17:00 horas, conforme ficha de observação em anexo
A professora organiza a turma com muita facilidade. Fazem, um momento
espiritual respeitando todas as religiões que há na sala. Na seqüência, a professora
passa

a corrigir

as tarefas , uma cruzadinha (em anexo) baseada no texto

Industrialização e alimentação (anexo).
Pudemos

perceber

que

as

questões

foram

elaboradas

de

forma

interdisciplinar. A professora iniciou lendo o texto que falava do desenvolvimento da
industrialização em Santa Cataria. Com a leitura e correção da atividade, outras
questões foram surgindo. Segundo a professora, como seu trabalho é contextualizado,
não tem hora e data para trabalhar a disciplina já que optou por seguir a linha
pedagógica histórico-cultural no seu trabalho como educadora.
Concordando com o método da professora, acreditamos em uma educação
que dispense as "gavetinhas" das disciplinas. A inter-relação entre a Geografia e as
outras ciências é fundamental para que os objetivos propostos possam ser realmente
alcançados . Ensinar Geografia,

principalmente nas séries iniciais, significa

instrumentalizar os alunos para que desenvolvam suas capacidades de observar,
conhecer, explicar, comparar, e representar os lugares onde vivem e também diferentes
paisagens e espaços geográficos.
Para essa visão de ensino da Geografia, não há mais lugar para

uma

proposta pedagógica que considere as disciplinas e temas em compartimentos
estanques.

51

Na compreensão do texto, em Ciências a professora trabalhou os tipos de
alimentos (industrializados e naturais), sempre trazendo para a realidade e falando dos
hábitos alimentares.
Em Geografia e História encaminhou a discussão para o início da
colonização, quando os primeiros homens chegaram a Santa Catarina: como viviam,
seus hábitos, seus trabalhos. Trouxe o assunto para o local, falou da necessidade de
expansão, do trabalho artesanal e da industrialização. Demonstravam curiosidade ao
constatarem que

as ruas nem sempre existiram do jeito que conhecem e que os

alimentos nem sempre foram comprados em supermercados.
Os relatos e as comparações das crianças foram riquíssimos, pois muitas
delas ainda convivem com realidades rurais, tais como tirar o leite da vaca, comer o ovo
que a galinha põe e não os comprados em caixinhas no supermercado. Porém,
perceber que no tempo de seus avós e até antes, os costumes e a paisagem eram
bem diferentes despertou muita curiosidade na criançada. Com a curiosidade aguçada,
hora de falar em expansão, industrialização e desenvolvimento.
Aprovando a troca de informações e os questionamentos provocados
pela professora, aliados aos textos que trazem o conhecimento científico, podemos
afirmar que tal procedimento vai também ao encontro as idéia de Callai, quando fala
que no processo de construção do conhecimento, o aluno formula seus conceitos
operando com os conceitos do seu cotidiano e os conceitos científicos.
Parte do pressuposto que todos temos conceitos já formulados a respeito
das coisas e o papel da escola é favorecer a reelaboração dos conceitos a partir do
senso comum para conceitos científicos.
A construção dos conceitos vai depender do acesso a informações, da
prática diária de observações, troca de experiências e pelo fazer. É na verdade, um
processo de interação do sujeito com o meio social, mediado pelos conceitos
possibilitado pela professora.

52

De um modo geral, muitos conceitos estão presentes no dia-a-dia de nossas
vidas. Os alunos têm as suas próprias concepções a respeito de muitas coisas.
Porém o trabalho de superação do senso comum como verdade e a busca das
explicações que permitem entender os fenômenos como verdades universais,
exige que se faça reflexões sobre o lugar como o espaço de vivência,
analisando a configuração histórica destes lugares para além de suas
aparências.(...) Assim, o professor e aluno estarão envolvidos em situações de
aprendizagem que consideram o empírico, o reconhecimento do que existe no
lugar, os conhecimentos que o aluno traz consigo a partir de suas vivências, e
as buscas de teorização destas verdades (....) Ao entender a dinâmica da
formação da territorialidade vivida no cotidiano, pode-se fazer as abstrações
necessárias para compreender a realidade como um todo, no sentido da
globalização. (CALLAI, 2003, p. 104 - 105)

Retornando a observação das aulas,

as questões e os relatos foram

surgindo durante a correção da cruzadinha.
Após a correção desta atividade, foi dedicado um tempo para a confecção
de cartazes

com o tema: Alimentos Naturais e Alimentos Industriais. Grupos se

organizando, disputa de revistas e jornais para a pesquisa, mas o trabalho ficou pronto.
Durante a confecção do trabalho, a professora instigava a curiosidade das crianças pois
tinha como objetivo nas próximas aulas trabalhar os tipos de relevos especificamente
relevos de Santa Catarina .
Porém, segundo a professora Maria da Gloria, seu maior objetivo era o de
fazer o aluno entender que a aparência atual do ambiente é conseqüência de
transformações provocadas pelo homem no decorrer da história. Questões como:
Porque surgiram as indústrias? E as cidades como fizeram? Tinha muita gente morando
aqui antes?

Morro da Fumaça já existia? E os índios, eles moravam onde? A

professora respondia a todos de forma a instigar mais suas curiosidades, prometendo
que no decorrer dos dias estaria falando sobre o assunto e fazendo atividades que eles
entenderiam com mais clareza aquilo que estavam conversando no momento.
De acordo com estudos feitos, é possível afirmar que os conteúdos e
métodos adotados pela professora, vão ao encontro com o que propõe o PCN. A
exemplo, será citado alguns dos objetivos a serem alcançados no final do primeiro ciclo.
Conhecer e comparar a presença da natureza, expressa na paisagem local,
com as manifestações da natureza presentes em outras paisagens.
Reconhecer a importância de uma atitude responsável de cuidado com o meio
em que vivem, evitando o desperdício e percebendo os cuidados que se deve
ter na preservação e na manutenção da natureza.(PCN GEOGRAFIA, p.131)

53

O trabalho da professora vai ao encontro também com a

Proposta

Curricular do Estado de Santa Catarina, pois de acordo com a proposta, a análise deve
estar centrada num tema e não num espaço circunscrito, ou melhor, deve partir de
problemáticas.
A tarde passou de forma muito agradável, a presença de uma pessoa a
mais na turma não causou nenhum constrangimento, visto que as crianças já estavam
habituadas com a minha presença na escola.
Os trabalhos que se seguiram, foram acompanhados diariamente, todas as
tardes, por uma semana, alguns minutos eram dedicados a observar a turma. Foi
percebido que todas as atividades propostas eram desenvolvidas a partir de textos
trabalhados.
O último dia se observação exigiu um pouco mais de tempo com a turma,
pois este foi destinado confecção de três maquetes: Uma para representar as formas
de relevo, outra para representar como era o ambiente no início da história de Santa
Catarina e outro para demonstrar o ambiente transformado.
Questionando-os sobre a diferença entre as

maquetes,

todos queriam

explicar que: "No início era tudo mato e bicho, tinha índio e as águas dos rios era limpa,
depois veio gente morar aqui e foi aumentando a população daí tinha que ter indústria
para fazer alimentos para todos e para construir as coisas, pois já não dava para
plantar para todo mundo e as pessoas tinham que trabalhar na fábrica." Questionados
se achavam bom esta transformação uma aluna respondeu:"Tudo aumentou, mas
prejudicou a natureza." O grande grupo conclui com suas falas que: "Construir cidades,
indústrias é necessário, mas o homem não deve só querer destruir, deve pensar no
meio ambiente também."
Para Lana Cavalcanti:
[...] a escola tem a função de "trazer" o cotidiano para seu interior com o intuito
de fazer uma reflexão sobre ele a partir de uma confrontação com o
conhecimento científico. Nesse sentido, deve estar estreitamente ligada ao
cotidiano. (...) A Geografia na escola deve estar, então, voltada para o estudo
de conhecimentos cotidianos trazidos pelos alunos e para seu confronto para o
saber sistematizado que estrutura o raciocínio geográfico. (CAVALCANTI,
1998, p.129).

54

Concordando com a autora, acrescentamos que a sistematização do saber
geográfico e a reelaboração dos conceitos estão intrinsecamente ligados ao fato de o
aluno sentir-se integrado ao processo de ensino-aprendizagem. O aluno só aprende
aquilo que gosta e lhe é significativo.
Essa abordagem aproxima-se do que diz Gadotti (2003, p. 47) " o aluno só
aprende quando quer aprender e só quer aprender quando vê na aprendizagem algum
sentido". Dessa forma, de acordo com as observações, podemos dizer que os alunos
da 3ª série têm encontrado significância na pratica do cotidiano escolar.
A turma da 4ª série foi observada nos dias 04 e 07 de junho de 2007, nos
períodos entre 13h00minh e 15h00min, conforme ficha de observação em anexo. Como
de costume, professora e alunos chegam juntos a sala de aula, uma turma de mais ou
menos 20 crianças alegres e educadas. A professora Alciliete, com seu jeito calmo e
amável, logo organiza a sala, as crianças que já sabem qual seus lugares, sentam-se
nas carteiras que estão organizadas. Após momento de oração as crianças contam
algumas novidades do dia.
Gadotti nos fala que:
[...] nossas vidas precisam ser guiadas por novos valores: simplicidade,
austeridade. Quietude, paz, saber escutar, saber viver juntos, compartir,
descobrir e fazer juntos. A quietude é uma virtude, conquistada com a paz
interior e não pelo silêncio imposto. (GADOTTI, 2004, p.61)

O que se percebeu na sala de aula foi uma tranqüilidade e harmonia
provindas não de uma imposição ou repressão, mas sim desses novos valores citados
por Gadotti, fator importante para se conseguir um bom desempenho no processo de
ensino aprendizagem. Assim sendo, o professor, principalmente o professor das séries
iniciais, está educando para a vida, para a formação de um cidadão crítico quando
promovem o conhecimento científico alicerçados no amor, na paciência e na dedicação.
Voltando ao relato da aula assistida, a professora inicia o assunto proposto
para a aula, lembrando-os que haviam combinado iniciarem a aula do dia falando do
Planeta em Transformação.
De acordo com a professora, na aula anterior já haviam introduzido o assunto
fazendo alguns questionamentos e falando um pouco de como está formado o nosso

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planeta. Um texto com o título: "O Planeta em Transformação", é distribuído à turma. A
medida que vão lendo o texto, a professora vai explicando com a ajuda de um mapa mundi afixado à parede. Mostra aos alunos as divisas das placas tectônicas, ressalta
que fenômenos considerados externos como chuvas, ventos, tornados e outros são
considerados

fenômenos

normais,

porém,

desenvolvimento e progresso tem interferido.

o

homem

com

seu

desejo

de

Hoje muitos destes fenômenos não

acontecem só pelo seu ciclo natural, mas sim por um ciclo alterado e de
responsabilidade do homem.
Conforme o exposto acima, os alunos estão fazendo estudos em uma escala
que vai do local ao global. Concordando assim, com a idéia de que ao final das séries
iniciais, e após terem vivenciado diferentes situações nos anos de estudos anteriores,
os alunos estejam preparados para construírem conhecimentos em uma escala local,
regional, global. Fator que deve ser observado com cuidado pela professora ao
trabalhar nessas escalas. Procurando sempre partir do local até chegar ao global, pois
o processo de alfabetização se dá durante todo o período escolar.
De acordo com o PCN (1997, p.116), na 4ª série, "o ensino da Geografia
deve intensificar ainda mais a compreensão, por parte dos alunos, dos processos
envolvidos na construção do espaço geográfico". A territorialidade e a temporalidade
dos fenômenos estudados devem ser abordados de forma mais aprofundada, pois os
alunos já podem construir compreensões e explicações mais

complexas sobre as

relações que existem entre aquilo que acontece no dia - a - dia, no lugar no qual se
encontram inseridos, e o que acontece em outros lugares do mundo.
Após o recreio, as crianças dirigiram-se até a biblioteca da escola para
pesquisarem sobre as influências dos homens nas ações da natureza.
O papel do professor nestes momentos de pesquisas é o de aprofundar as
discussões, possibilitar materiais de pesquisa, esclarecer dúvidas, organizar o que eles
falam enfim, sistematizar os conteúdos pesquisados e os conhecimentos trazidos com
os alunos a partir de suas vivências.
No dia 07 de julho, próximo dia de observação, as crianças estavam muito
eufóricas pois iriam montar uma maquete representando um vulcão.

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O material utilizado para a confecção do trabalho foi a argila extraída da
região, fato que a professora Alciliete utilizou-se para salientar as crianças que o interior
da terra é muito rico e dele nós extraímos várias riquezas, uma delas é a argila tão
abundante na região.
Foi uma festa, todos queriam participar da montagem, na medida que iam
confeccionando várias perguntas foram surgindo: " O buraco fica sempre aberto? Dá
para subir no morro do vulcão? Tem gente que mora perto?
Quando indagados sobre como acontecia o vulcão, responderam que era um
fogo que vinha de dentro da terra. Para simbolizar as lavras do vulcão a professora
utilizou-se de água misturada com guache vermelho e bicarbonato de sódio. Foi uma
festa ver a "lavra" fervilhando e saindo para fora do vulcão, como está representado na
FIGURA 6.

FIGURA 6 ­ Alunos da 4ª serie, EEBPI.
FONTE: Da autora

A construção de maquetes como já citado, funciona como um "laboratório
geográfico", por isso, sua construção pelo simples fato de se fazer uma aula diferente
não tem razão de ser, torna-se apenas uma aula mais descontraída e não caracteriza
aprendizagem.

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O objetivo da construção de maquetes é misturar o real com o possível, o
imaginário. Através da interação do sujeito com o objeto o aluno passa a sofrer novas
reflexões e novas representações

caracterizando assim, aprendizagem. Cabe aí

salientar o importante papel do professor como mediador
característica observada na professora da série observada.

de conhecimento,

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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta pesquisa o interesse primordial foi analisar a prática do ensino da
Geografia nas séries iniciais. Para tanto, foi realizado uma pesquisa empírica, tendo
como fonte de investigação as séries iniciais da Escola de Educação Básica Princesa
Isabel no município de Morro da Fumaça.
Vimos no capítulo um, que para a Geografia, pensar o ser humano, implica
pensar nos espaços que habitamos e transformamos permanentemente para que nossa
existência possa acontecer, continuar.
Existir implica necessariamente fazer Geografia. Pontuschuka, Callai,
Castrogiovanni, kaercher e Cavalcanti, concordam em vários aspectos no que diz
respeito à forma de ensinar Geografia para as séries iniciais. Para esses autores, a
Geografia das séries iniciais pode e deve auxiliar para que o aluno se reconheça como
cidadão atuante na construção do espaço em que vive.
Concordam também que é importante que o educando participe do processo
de produção do conhecimento a partir de sua vivência, no qual o papel do professor
passa de transmissor para mediador na construção do conhecimento. Apresentamos
também no capítulo um, a importância de se planejar as aulas de Geografia
selecionando previamente os recursos a serem utilizados.
É necessário que os professores das séries iniciais interajam na construção
de um processo ensino-aprendizagem mais lógico, dinâmico, crítico e criativo. Neste
sentido, uma das tarefas mais importantes para garantir o sucesso de qualquer
iniciativa é planejar. Masseto, Gadotti, e kaercher, concordam que, o planejamento não
deve ter uma forma estanque, não deve retirar a liberdade do professor. O professor
hoje, deve ser criativo, estar aberto a mudanças e ao diálogo. Destarte, concluímos que
para o ensino da Geografia, pedagogicamente além do conhecimento científico, é
fundamental manter o exercício contínuo do diálogo ­ com o outro e com o espaço.
No segundo capítulo, vimos

que os PCNs (Parâmetros Curriculares

Nacionais) e a Proposta Curricular do Estado de Santa Catarina são referenciais que
dão subsídios aos profissionais da educação no processo ensino ­ aprendizagem. Para

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a Geografia, os documentos são referenciais que norteiam o que, como e para quem
deve - se ensinar. Bem como, que tipo de Geografia pretende-se ensinar.
Os PCNs são referenciais que foram elaborados por um grupo de educadores
e especialistas reunidos pela Secretaria de Educação Fundamental do MEC (Ministério
de Educação e Cultura) e consolidados no ano de 1997, como instrumento de apoio
para a concretização das ações pedagógicas de todo país.
A Proposta Curricular do Estado de Santa Catarina do ano de 1998, teve
como idealizadores um grupo multidisciplinar formado por educadores e discutida pelos
professores da rede estadual. Enquanto o PCN de Geografia, não deixa claro a
concepção pedagógica adotada sobre o processo ensino-aprendizagem, mantendo um
texto eclético sem mostrar uma escolha, a Proposta Curricular opta pela concepção
histórico-cultural ou sócio - interacionista, levando a uma tendência da Geografia crítica.
Para o PCN, o critério de seleção dos conteúdos fundamenta-se na
importância social e formação intelectual do aluno. Os eixos temáticos dão a idéia de
que Geografia física e humana interagem reciprocamente. Indo assim ao encontro da
Proposta Curricular do Estado quando diz que não é mais possível fazer a
fragmentação do espaço físico e humano, seus temas sugeridos são abertos e podem
ser relacionados ou ampliados na medida do conhecimento e da realidade do aluno.
Analisando o PCN, Pontuschuka 1999, e Sposito 1999, concordam com o
documento quando propõe a interdisciplinaridade como auxiliar do processo ensino ­
aprendizagem estão de acordo também quando consideram os textos do documento
teóricos demais. Cacete 1999, e Sposito 1999, consideram negativa a forma como foi
conduzido o processo de elaboração do documento que, "dificultou" a participação dos
professores do ensino fundamental e da sociedade civil.
Concluímos que, por ter dificultado o acesso dos principais agentes
educacionais na sua elaboração, o PCN é um documento que tem caráter impositivo,
contudo, não se exclui sua importância para nortear o processo de ensino ­
aprendizagem nas escolas.
A Proposta Curricular do Estado teve sua elaboração de forma mais
democrática, permitindo a participação dos agentes educacionais do ensino
fundamental. Tem uma proposta pedagógica clara, seu conteúdo demonstra

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preocupação com as diversidades regionais do Estado, da liberdade para a escolha dos
temas a serem trabalhados, diz concordando assim com o PCN, que é importante
seguir uma escala que vai do menor ao maior, ou seja: do município, estado, país,
mundo.
No ultimo capítulo, a partir da investigação feita com as séries iniciais da
Escola de Educação Básica Princesa Isabel, verificamos que as profissionais da escola
são atuantes e comprometidas com a educação. Buscam subsídios para auxiliar o
processo de ensino aprendizagem no PCN de Geografia, na Proposta Curricular de
Santa Catarina e mantém atualizados os referenciais bibliográficos.
Deste modo, por meio de investigação empírica, observamos que de forma
geral, as professoras trabalham o ensino da Geografia tendo como base a realidade do
aluno, concordando assim, com o ensino que é proposto pelos autores estudados sobre
a forma de se fazer Geografia nas séries iniciais.
Por meio da Geografia, nas séries iniciais do ensino fundamental, podemos
encontrar uma maneira interessante de conhecer o mundo, de nos conhecermos como
cidadãos e de sermos agentes atuantes na construção do espaço em que vivemos.
Os nossos alunos precisam aprender a fazer as análises geográficas. E o
fazem conhecendo o seu mundo, o lugar em que vivem. Só a partir do local, poderão
compreender a seletividade do espaço.
Esperamos que a apresentação dessas questões sirva aos interessados
como suporte para uma melhor orientação na organização e seleção dos conteúdos
bem como para a prática aplicada nas aulas de Geografia. Este trabalho não teve o
interesse de se ensinar Geografia para as séries iniciais, senão ser um ponto de partida
para que professores discutam e questionem os seus referenciais para o ensino da
Geografia.
Desejamos também que esta pesquisa inspire novas investigações sobre a
importância do ensino da Geografia nas séries iniciais.

61

REFERÊNCIAS

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geografia para o ensino de 1º grau. Espaços da Escola. Ijuí. Nº3. p.12-17.
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integrada nas series iniciais. Ijuí: UNIJUÌ. 1987. 207 p.
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MASETTO, Marcos Tarciso. Competência pedagógica do professor universitário.
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62

OLIVEIRA, Rosangela D. de, PASSINI, Elza Y. Coleção repensando o ensino. 9ª ed.
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Curricular de Santa Catarina: Educação Infantil, Ensino Fundamental e
Médio:
Disciplinas Curriculares. Florianópolis: COGEN. 1998. 244 p.
_____ . Proposta Curricular de Santa Catarina:Formação Docente para Educação
Infantil e Series Iniciais. Florianópolis: COGEN. 1998. 160 p.

ENTREVISTAS

BERTOLIN, Alciliete de Souza. Professora da 4ª serie do ensino fundamental da
E.E.B.P.I. Entrevista concedida. Morro da Fumaça. Maio. 2007.
CAVAGNOLI, Marilza. . Professora da 1ª serie do ensino fundamental da E.E.B.P.I.
Entrevista concedida. Morro da Fumaça. Maio. 2007.
FORMENTIN, Maria da Gloria. . Professora da 3ª serie do ensino fundamental da
E.E.B.P.I. Entrevista concedida. Morro da Fumaça. Maio. 2007.
MENDES, Silvana Carvalho, . Professora da 2ª serie do ensino fundamental da
E.E.B.P.I. Entrevista concedida. Morro da Fumaça. Maio. 2007.

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APÊNDICE A ­ Questionário aplicado às professoras.

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ANEXOS