Como citar esse artigo: MORAES, Bruna B. dos Santos; SANTOS, Lucas dos. Geografia e a formação da
cidadania. In: FERRETTI, Orlando; CUSTÓDIO, Gabriela A. (orgs). Artigos da disciplina estágio curricular
supervisionado em geografia II: segundo semestre de 2013. Florianópolis: NEPEGeo; UFSC, 2014.
Disponível em http://nepegeo.ufsc.br/files/2014/06/Artigo-Bruna-e-Lucas.pdf

GEOGRAFIA E A FORMAÇÃO DA CIDADANIA
Bruna Braviano dos Santos de Moraes [email protected]
Lucas dos Santos [email protected]
Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC

RESUMO

Ao lecionar, notamos inúmeras dificuldades em ser educador, crítico o que leva o estudante à
pensar na sua postura enquanto cidadão, enquanto ser `pensante'. Para tanto, é necessário que o
professor tenha uma formação de qualidade. Contudo, a postura do profissional da educação,
em sala de aula, ultrapassa a questão da formação, fazendo-se necessário uma didática que
desperte o interesse dos estudantes. Em nosso Estágio Curricular Supervisionado de
Licenciatura em Geografia, realizado no Colégio de Aplicação ­ UFSC durante o ano de 2013,
com a turma de 6° ano B, composta por 25 estudantes, sendo um deles, portador de paralisia
cerebral, nos mostrou que as teorias educacionais ainda estão distantes da realidade escolar.
Contudo, as melhorias para a educação, devem começar por nós, enquanto professores,
assumindo a postura, não de um mero transmissor de conteúdo, mas sim de um formador de
cidadãos. A geografia, por longo tempo, foi tratada como matéria de "memorização", visto que
sofreu um `engessamento', principalmente nos anos cujo militarismo dominou o Brasil e grande
parte do mundo. Neste período, os `seres pensantes' (pensadores ou intelectuais) geravam medo
aos governantes, que por sua vez, trataram de tornar o papel da geografia, não mais como
`ciência formadora', mas sim como uma matéria de `função patriótica'. Sendo assim, mesmo os
professores com didática que despertasse interesse nos estudantes, tiveram de mudar sua postura
em sala, para não `afetar' o sistema de governo instituído, resultando então, na reprodução pura
e simples dos manuais, conduzindo assim à insatisfação e descomprometimento dos alunos
frente à disciplina. A luta pela melhora no ensino da geografia nos níveis superior e
fundamental iniciou na década de 1970, tomando força anos mais tarde, principalmente com os
movimentos populares, que obrigaram as pessoas pensarem, culminando, inclusive, com a troca
de governo do nosso país. A geografia, enquanto ciência e enquanto matéria escolar, já passou
por mudanças significativas, todavia, tem um longo caminho a seguir.
Palavras-chave: Professor; Cidadão, Geografia

1. Introdução
Atualmente, a formação docente tem sido foco de debates e pesquisas em
encontros acadêmicos em que se inserem os professores de Geografia. Atribui-se a isso
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o fato de que o ensino da Geografia na escola básica deve ser melhorado, tendo como
objetivo, a formação do cidadão, e não somente, a reprodução de conteúdos.
A Geografia escolar, que possui papel fundamental na formação do cidadão,
deve fazer com que os indivíduos se tornem "seres pensantes", capazes de construir
competências que permitam a análise do real, a partir da exposição das causas e efeitos,
a intensidade, a heterogeneidade e entender o contexto espacial dos fenômenos que
configuram cada sociedade (BRASIL, 1998), assim como, exercerem a cidadania.
Então, para que haja essa melhora do ensino nas escolas, as atenções devem se
voltar para a própria formação do professor de Geografia, que será responsável em
trazer a seus educandos na educação básica, os conceitos geográficos, fazendo com que
eles consigam interpretar o mundo a sua volta como seres atuantes e críticos.
O tema escolhido parte da própria experiência durante nossa formação e os
estágios obrigatórios, onde percebemos a desvinculação que existe entre as próprias
disciplinas pedagógicas do curso de licenciatura, as específicas e as atividades de
estágio, como coloca Isabel de Almeida apud Pontuschka, 2010, desvinculação essa que
desfavorece a apropriação da formação docente, a construção de
observações sólidas bem fundamentadas, e a reflexão das
práticas de que o estagiário participou na escola de ensino
fundamental e médio. Isso pode resultar em deficiência na
interação entre a teoria e a prática, pela compartimentação
processada
no
ensino
superior
(ALMEIDA
apud
PONTUSCHKA, 2010, p. 39).
Pudemos perceber isso durante os estágios, onde tivemos que buscar meios para
transmitir os conteúdos de cartografia e climatologia (trabalhados durante o estagio
docência) para os alunos do sexto ano, de uma forma mais simples e de fácil
compreensão.
Sabemos que uma prática pedagógica voltada para a valorização do aluno, e por
essa entende-se ações desenvolvidas por profissionais da educação nas escolas, com o
propósito educativo e/ou formativo, que depende de vários condicionantes, como o
salário, a infra-estrutura do ambiente de trabalho do professor, sua carga horária, entre
outros, porém, uma boa formação aos futuros professores já é um passo para a melhora
do ensino da Geografia no ensino básico (SAVIANI, 2009).
2. A formação profissional
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Temos assistido, no decorrer dos anos, que a Universidade vem cedendo e
atendendo a demanda do mercado, cultivando sua lógica de funcionamento e
organização (MENDONÇA, 2013). Para que o objetivo do novo modelo de escola
adotado no Brasil seja alcançado, as Universidades também tiveram que passar por
mudanças, no que diz respeito à formação do futuro docente. Mendonça (2013) afirma
que essa reforma muda a condição das universidades, despojando-a de sua razão de ser
para assim qualificar a formação docente à sua nova função: a de criar mão-de-obra ao
invés de seres `pensantes'.
Considerando a influência que o mercado tem exercido na formação dos
professores de Geografia, o trabalho e o ensino da Geografia acabam ficando
marginalizados, visto que esses deveriam orientar a mediação pedagógica e a formação
(MENDONÇA, 2013). Mesmo que a maioria dos professores formadores considerem
que contemplam em suas aulas as bases necessárias de ambas as habilidades (Bacharel e
Licenciatura), Souza (2011) diz que há uma falta de compromisso dos professores de
ensino superior com a docência, afetando na formação do profissional tanto licenciado
quanto bacharel em Geografia.
No caso do professor especialista, o conhecimento do conteúdo não toma como
referência sua relevância para o ensino em escola básica, e as situações de
aprendizagem que o futuro professor vive durante sua formação não propiciam a
articulação do conteúdo aprendido com a transposição didática (MELLO, 2000).
Vemos que os cursos de licenciatura sofrem por não serem devidamente
valorizados e bem estruturados nas universidades públicas que dão maior preferência a
formação de bacharel, e que nas universidades privadas são cursos de baixa qualidade
por seguirem o modelo das "pequenas" licenciaturas (PONTUSCHKA et al, 2009).
Além desses motivos, a formação docente também pode ser comprometida quando
falamos de instituições não universitárias criando cursos de licenciatura, bem como os
cursos à distância.
As universidades públicas, tanto federais quanto as estaduais, nas quais o custo
aluno é alto, dedicaram-se muito mais, proporcionalmente, aos cursos superiores ditos
"nobres" como medicina, engenharia, direito, arquitetura. Entre essas carreiras, nunca
foi incluída a formação de professores para a educação. Devido a isso, há várias décadas
os futuros professores, geralmente vindos de classes médias e médias baixas, arcam com
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os custos da própria formação em instituições privadas ou recorrem ao ensino superior
estadual, quase sempre de custo e qualidade inferiores ao federal ou aos estaduais
"nobres" (MELLO, 2000).
Ainda segundo Mello (2000), os alunos ingressam no ensino superior de
formação de professores com a expectativa de serem biólogos, geógrafos, matemáticos,
lingüistas, historiadores ou literatos, ou seja, bacharéis para atuação na área técnica,
dificilmente pensando em serem professores de biologia, de geografia, de línguas ou de
literatura. Ele afirma que os professores formadores que atuam nesses cursos, quando
estão em instituições de qualidade, estão mais preocupados com suas pesquisas do que
com o ensino em geral, e menos interessados ainda no ensino da educação básica.
Vemos que as Universidades e as Escolas Básicas estão diretamente ligadas no
que diz respeito à formação docente, pois aqueles que ingressam em um curso de
licenciatura vêm anteriormente de uma formação de escola básica, trazendo consigo já
uma carga de experiências de "o que é ser professor" e "o que é ensinar" em sua
concepção. Assim, um erro recorrente das licenciaturas é desconsiderar essas
experiências, ou seja, tratar os alunos de forma crua, como uma tabula rasa, sem
conhecimento, não considerando as vivências relacionadas à trajetória escolar
desenvolvida antes da entrada em um programa de formação.
A licenciatura da Geografia também enfrenta outra dificuldade: a não
participação dos profissionais da área da educação na elaboração do currículo, sendo
este elaborado por especialistas reconhecidos em suas áreas de conteúdos específicos de
conhecimento dentro da Geografia. Um indicador disso é que vemos a escassa
valorização dos cursos de licenciatura, sem uma distinção clara entre as duas
habilitações, o que faz da licenciatura assim um mero apêndice à formação dos
bacharéis (PONTUSCHKA, 2010).
Neste contexto, se inclui também o incentivo à pesquisa, partindo da antiga ideia
de que professor de escola básica não precisa pesquisar, pois seu papel é o de
transmissor ou repassador do conhecimento científico. Porém, cabe ao professor
despertar nos alunos uma atitude investigativa, em que a pesquisa acaba sendo um
instrumento de ensino e conteúdo de aprendizagem. (PONTUSCHKA et al, 2009).

Para se

alcançar esse objetivo, portanto, é necessário que o próprio docente tenha aprendido e
tenha a capacidade de produzir pesquisas para poder ensinar, além de dominar
conteúdos e saber utilizá-los na aprendizagem (PONTUSCHKA et al, 2009). Um dos
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grandes desafios dos cursos de licenciatura é o de ensinar a ensinar, a pesquisa também
é um instrumento que auxilia o futuro professor a encontrar novas metodologias,
conteúdos, bem como a elaborar a própria didática para ensinar a disciplina de
geografia, além de ser um estimulo a curiosidade e a criatividade do aluno.

3. Do ensino superior à atuação no ensino fundamental e médio
A formação da cidadania inicia-se com a prévia formação profissional daqueles
que mediam o conhecimento (SANTOS et al, 2013), assim como, faz-se estritamente
necessário que haja comprometimento por parte desse profissional em formação. Neste
contexto, Mendonça (2013, p. 21) afirma que "trabalhar com educação implica acreditar
em um projeto que enxergue as carências sociais e, ao mesmo tempo, proponha um
futuro melhor para a maioria da população." Ao mesmo tempo, Mendonça (2013)
critica a imagem que atravessou décadas e ainda perdura na sociedade, de que qualquer
pessoa pode tornar-se professor. Segundo FLODEN e BUCHMAN apud MARCELO
(1999), ensinar é algo que qualquer pessoa pode fazer. Todavia, isto não é o mesmo que
ser professor. Nós, enquanto formadores, em especial, de geografia, "devemos ter como
ponto de partida as representações e os saberes que nós, formadores, trazemos para o
espaço escolar", levando os estudantes à consciência do espaço e de suas contradições,
despertando o interesse pelo estudo. Este interesse pode ser despertado de diversas
maneiras, como por exemplo, através de brincadeiras, jogos, entre outros.
Também, faz-se necessário, que tenhamos presente que a aprendizagem envolve
compreensão, pois aquilo que se aprende, sem que haja compreensão, não é verdadeiro.
Estudar os lugares sem entender os que o envolve, não terá sentido. Ouvir o aluno nos
permite conhecer sua posição perante a sociedade, auxiliando-o na construção do
respeito com o mundo (PONTUSCHKA, 2000).
Neste sentido, a Geografia Escolar tem papel fundamental na formação do
cidadão, visto que deve potencializar a criticidade dos indivíduos, de modo a torná-los
`seres pensantes', com capacidade de construir competências que lhe permitam uma
análise do real, tornando evidentes as causas e os efeitos, a intensidade, a
heterogeneidade e, entender o contexto espacial dos fenômenos que configuram a
sociedade assim como, exercerem a cidadania (BRABANT, 1986 e BRASIL, 1998).
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Contudo, construir a cidadania é algo difícil de ser realizado, visto que a escola é um
ambiente diversificado e que a cada dia deve enfrentar preconceitos e ideologias
dominantes, mas que podem ser superadas com muito trabalho, por parte do conjunto de
professores (PONTUSCHKA, 2000).
No Brasil, segundo Pontuschka (2000), a ditadura militar teve importante papel
na desvalorização das escolas. Segundo Santos et. al (2013), os anos de governo com
regime autoritarista, ou seja, pós 1964 tornaram suspeitas as ciências humanas, uma vez
que elas poderiam causar `problemas' ao governo, como por exemplo, uma
efervescência social, e a baniram do ensino, `diluindo' em uma outra matéria, chamada
de Estudos Sociais. Desta forma, o ensino da geografia tornou-se precário por não
ofertar uma base sólida aos estudantes, em que a geografia sobreviveu não mais com
caráter formativo, entretanto, como "função patriótica".
Segundo Brasil (1998) e Brabant (1986), naquele momento, o estudante não
tinha mais autonomia para pensar, havia, por parte de governo, certo receio em que esta
ciência fizesse dos aprendizes, seres revoltados (revolucionários). De acordo com
Brabant (1986), "o enciclopedismo na geografia, contribuiu para a abstração crescente
no discurso geográfico", concomitante, "alimentou o tédio das gerações" (BRABANT,
1986) de estudantes que passaram a classificar a geografia como matéria de
memorização. O modelo de escola adotado no Brasil, cuja organização é a mesma das
fábricas, faz com que estejamos preparando cidadão, somente para servir como mão de
obra. Certamente não é tarefa fácil e isolada; é, sobretudo, uma tarefa coletiva, a criação
de novos significados e conceitos para a escola e para o ensino de geografia
(PONTUSCHKA, 2000).
De certa forma, a crise enfrentada pela geografia, ajudou a enriquecer o
conhecimento geográfico, pois foi por meio dela que se começou a pensar em uma nova
relação entre a teoria e a prática da geografia, deixando para trás o "saber neutro", o
ensino focado nas paisagens como espetáculo e no conteudísmo A prática da geografia
buscou basear-se na análise crítica da construção do conhecimento e da metodologia,
em que os instrumentos adotados fossem capazes de responder às questões postas por
esta ciência para a formação do cidadão, não permitindo que ele submergisse à
voracidade das transformações ocorridas no Brasil e no Mundo (BRASIL, 1998)
A geografia passa ter um novo significado frente à revolução técnicocientífica, pela globalização da economia (novos conflitos, novas tensões, crise de
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estados nação, formação de novos blocos econômicos, desterritorialização...) e pelos
problemas ambientais (SANTOS, 2013). A geografia agora passa a ser vista como
ciência social, pensando e estabelecendo uma conexão de fenômenos, na ligação entre o
sujeito humano e os objetos de seu interesse, em que se faz necessário uma
contextualização (BRASIL, 1996).
A Geografia, enquanto ciência, teve um grande avanço em seus diversos ramos
do conhecimento, entretanto, o neoliberalismo se expandiu e vem tomando conta do
cotidiano e, inclusive das escolas, resultando na apatia de despolitização dos jovens.
Mas isto pode ser revertido, caso o professor trabalhar a geografia interagindoção com
os demais campos do conhecimento e, principalmente, com o domínio o conteúdo
(conceitos, métodos, aplicações, entre outros) (PONTUSCHKA, 2000).
Conforme Santos (2013), a partir da constituição desse novo olhar geográfico,
foi imprescindível para abandonar a geografia puramente descritiva e de memorização
da "terra e o homem", que dava importância somente às informações sobrepostas do
relevo, clima e; desconsiderava a vertente humanística da geografia. Na busca pela
compreensão das relações econômicas, políticas, sociais e suas práticas nas escalas
local, regional e global, a geografia concentra-se e contribui para com a realidade, para
pensar o espaço enquanto uma totalidade na qual se passam todas as relações cotidianas
e se estabelecem as redes sociais nas escalas supracitadas. A antiga ideia da terra
enquanto espaço absoluto, cartesiano, muito aceito e praticado em sala de aula ainda
hoje, precisa ser renovado a cada dia, dando total abertura à ideia do espaço relacional,
onde um objeto somente pode existir na medida em que ele contém e representa, dentro
de si, relações com outros objetos (BRASIL, 1996).
Os professores, sobretudo, devem ter entendimento sobre as questões políticas.
Ela precisa ser analisada, de modo que não percamos em um cotidiano marcado por um
"mar de reclamações", perdendo-se a noção de que é preciso refletir que isso faz parte
de um contexto amplo que precisa ser entendido teoricamente. Segundo Brasil (1998), o
professor de Geografia e seus colegas precisam realizar tentativas no sentido do
desmonte e superação dessa representação social antes que ela se torne realidade. A
Geografia, enquanto matéria escolar deve ser transmitida de forma com que o estudante
a entenda, ou seja, reestruturada, se comparado ao que estudamos na universidade
(SANTOS, 2013).

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A proposta do Parâmetro Curricular Nacional (PCN), no Brasil, para a Geografia
no ensino fundamental, por exemplo, é a "alfabetização geográfica" do estudante,
capacitando-o de modo que seja apto a manipular e interpretar os assuntos referentes a
este nível. Já, no ensino médio, o estudante deve construir competências que permitam a
análise do real, mostrando suas causas e efeitos, intensidade, heterogeneidade e o
contexto espacial dos fenômenos que configuram cada sociedade. O ensino médio deve
servir para a ampliação das possibilidades de um conhecimento estruturado e mediado
pela unidade de ensino, a escola, e que conduza à autonomia do cidadão.
Para que isto se concretize, o PCN orienta que sejam seguidos três princípios
filosóficos da concepção curricular: princípios estéticos, políticos e éticos; a Geografia
contribui nesta formação, proporcionando ao estudante orientações ligadas ao espaço,
reconhecendo não somente sociedade-natureza, mas as inter-relações existentes;
reconhecendo as contradições e conflitos econômicos, sociais e culturais, avaliando a
qualidade de vida da população e a exploração de recursos; tornando-os sujeitos no
processo do ensino e aprendizagem na compreensão das escalas local, regional, nacional
e global. Assim como, favorecendo a identidade do cidadão e esclarecendo sobre sua
responsabilidade através da sua identidade cultural (BRASIL, 1998).
Por este motivo, se caso levarmos o conteúdo tal qual aprendemos, sem adaptálo, reestruturá-lo e produzi-lo de acordo com a faixa etária, classe social e cultural,
certamente nosso trabalho será em vão. O professor deve levar em consideração todos
os pontos que envolvem a educação, permitindo a compreensão do espaço geográfico
dentro de um processo que transite por diferentes escalas de análise interdisciplinar,
propiciando aos estudantes a vivência de um método de trabalho que possa ser usado em
situações diversificadas, adquirido autonomia no processo de produção do
conhecimento (PONTUSCHKA, 2000).
Acreditamos que Geografia em si, já nasceu como um saber interdisciplinar, e
abandonou há algumas décadas a posição de construir uma ciência sintética, que
almejava explicar o mundo sozinha. Faz-se necessário ir além dos limites conceituais,
buscando interatividade com outras ciências, sem perder sua identidade. Sendo assim, o
ideal é que a geografia articule de forma interdisciplinar com as demais ciências e
incorporando conhecimentos quando necessário.

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4. Considerações finais
A Geografia é uma ciência popular, visto que está presente no cotidiano. O que
pode estar por trás de tamanha popularidade é o fato de fazer parte da vida humana, uma
vez que os temas geográficos nos acompanham, estão intrínsecos no cotidiano das
pessoas. Não é necessário ir a uma instituição de ensino para comungar geografia, nós a
aprendemos por força do nosso próprio cotidiano.
Moreira (1982) usa um exemplo ao falar que todos nós moramos em um lugar;
nossos parentes e amigos moram em outro lugar. Estes diferentes locais estão ligados
por ruas, estradas, avenidas; onde existem pessoas, objetos e ideias que fluem entre
estes locais, "entrecruzando-se através das artérias que os põe em comunicação"
(MOREIRA, 1982),
Dos diferentes locais, podemos extrair diferente recursos, intercambiados por
diferentes homens, que tem necessidades diferentes. Esta combinação de lugares e suas
necessidades, resulta em uma unidade de espaço. A inter-relação de outras unidades de
espaço, resulta uma grande rede, uma rede mundial. Sendo assim, podemos dizer que a
geografia é um discurso global, devido a gama de temas que ela trabalha/estuda e, um
saber vivido e aprendido pela própria vivência e é por este motivo que ela é tão nítida
no cotidiano e, também por este motivo, que devemos torná-la em sala ainda mais
prazerosa para que os estudantes tornem-se ainda mais ligados a ela, através dos temas
abordados e sintam-se pertencentes ela, seja em âmbito de ensino superior ou básico.
A partir do momento em que os todos (ou a maior parte dos) estudantes
entenderem o importante papel da geografia no seu cotidiano, se apropriarão ainda mais
dos conhecimentos elaborados em sala e colocarão em prática. Portanto, o ideal é que a
geografia torne-se cada vez mais popular. E para isso, consideramos fundamental que os
cursos tenham como prática refletir permanentemente sobre a relação dos profissionais
que formam com a realidade desejada na atividade profissional.
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Departamento de Geografia, Florianópolis, v. 1, n. 2, p.103-111, jul. 1986.

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