UNIR - UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA
NÚCLEO DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA
DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO EM GEOGRAFIA

CIDADE E ENSINO DE GEOGRAFIA:
Contribuição a uma Educação Geográfica da e para a cidade

PORTO VELHO - RO
2008

SANDRA GALLO

CIDADE E ENSINO DE GEOGRAFIA:
Contribuição a uma Educação Geográfica da e para a cidade

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de
Pós Graduação em Geografia ­ UNIR, área de
concentração - A Amazônia e Políticas de Gestão
Ambiental. Linha de pesquisa: Estado e políticas de
Desenvolvimento, sob a orientação do Prof. Dr. Nilson
Santos.

PORTO VELHO - RO
2008
I

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP
91:37
G172c

Gallo, Sandra.

Cidade e ensino de geografia: contribuição a uma educação da e para a
cidade / Sandra Gallo. -- Porto Velho, 2008.
213p.
Dissertação (Mestrado). ­ Fundação Universidade Federal de
Rondônia, 2008.
Orientação Prof. Dr. Nilson Santos, Núcleo de Ciência e
Tecnologia, Departamento de Geografia.

1. Geografia ­ Estudo e Ensino 2. Educação Geográfica I. Título II. Santos,
Nilson.

Ficha Catalográfica elaborada pela Bibliotecária Leandra Perdigão CRB 11/415

II

III

"Se pensarmos que a criança aprende só quando é submetida a um
ensino sistemático, e que a sua ignorância está garantida até que
receba tal tipo de ensino, nada podemos enxergar. Mas se pensarmos
que as crianças são seres que ignoram que devem pedir permissão
para começar a aprender, talvez comecemos a aceitar que podem
saber, embora não tenha sido dada a elas a autorização institucional
para tanto".
Emilia Ferreiro
IV

DEDICATÓRIA

Dedico esta conquista a minha família:
Ao meu esposo Carlos, pelo apoio incondicional e pela
grandeza que sempre conduziu as dificuldades enfrentadas pela
minha ausência e distância.
Ao meu filho Saymon, ao mesmo tempo, desculpando-me pelo
tempo que não compartilhei, pelos programas que não fiz, pela
irritação exigindo silêncio para ler, pensar e escrever.
Aos meus pais Rosalino e Lurdes pela forte presença em minha
vida e pelas vibrações, orações, preocupações com minhas
viagens semanais a Porto Velho, por cuidarem de meu filho.
As minhas maninhas Sônia e Sheila por me receberem em sua
casa durante o período do curso, pelas palavras de estímulo em
momentos difíceis e pelas muitas risadas e brincadeiras que
tivemos. Ao meu cunhado Robson pela sempre companhia em
saborear uma picanha na chapa e pela sincera torcida.
Aos meus amados avós Tereza e Gualdemar
acompanharam parte deste sonho (in memorian).

que

V

AGRADECIMENTOS

A realização deste trabalho envolveu um número expressivo de pessoas, portanto, faço
questão de dizer, lembrar, agradecer e registrar:
A todos os alunos e alunas que durante a minha prática docente contribuíram direta e
indiretamente para a construção deste trabalho. Quero que saibam que foram e são minha fonte de
inspiração e motivo pelo qual procuro evoluir e dar o melhor de mim na compreensão geográfica do
mundo. Aos alunos das séries 5ª B e 6ª A da Escola Tancredo e os alunos das séries 6ª C e 7ª A da
Escola Eurídice, por participarem diretamente neste trabalho (2007).
Ao professor Dr. Josué da Costa Silva, que através do seu empenho trouxe o Mestrado em
Geografia para Rondônia, tornando possível a realização do meu sonho centrado na busca de uma
Geografia Escolar Educadora.
Ao professor Dr. Sérgio Rivero (1º orientador) minha imensa gratidão por ter acreditado no
meu trabalho e na minha competência.
Ao professor Dr. Nilson Santos. Um orientador confiante o que me proporcionou certa
tranqüilidade na construção e, sobretudo conclusão desse trabalho.
Agradeço aos professores (as): Carlos Santos (pelas disciplinas Teoria da Geografia e
Geografia Urbana), Maria das Graças e Ivonete Tamboril (disciplina de Gênero e Gestão de
Políticas Sociais para a Amazônia), Sérgio Rivero (disciplina Métodos Quantitativos e Modelagem),
Josué da Costa Silva (disciplina Espaço Rural), Sandra Keli e Maria Madalena Ferreira,
(disciplina Educação Ambiental para a Amazônia) pelas discussões enriquecedoras e pelo
comprometimento e dedicação ao Mestrado. Agradeço também as professoras Ivonete Tamboril e
Maria Madalena Ferreira que participaram da banca de qualificação e fizeram apontamentos
preciosos para a concretização desta pesquisa.
Ao professor Ricardo Gilson, pelo incentivo aos estudos desde a graduação em Geografia e
com o qual pude compartilhar muita das dúvidas sobre o processo de pesquisa, ajudando a refletir a
respeito de alguns pontos teórico e metodológico em muitos dos nossos diálogos geográficos, e pelos
muitos livros indicados e emprestados na área de Ensino de Geografia.
Aos professores Èrica e Amarildo por ter aberto as portas das aulas de Geografia
permitindo a observação de seus alunos e de suas práticas, aos professores Antônia, Antônio e
Andréia pela colaboração partilhando a experiência de sua vida profissional que tornaram possível
este estudo.
A todos das Escolas Eurídice e Tancredo, na pessoa: Dinalva (Diretora), Fátima (Vicediretora), Elly (Diretora) e João (Vice-diretor) e Joziany (Supervisora), Sueli (Orientadora) e Jane -

VI

in memorian (Supervisora), pelo apoio durante a coleta de dados, e por ter me acolhido de braços
abertos.
Não poderia deixar de agradecer a todos os funcionários da REN-Representação de Ensino
de Alta Floresta D'Oeste que direta e indiretamente contribuíram com este estudo. A professora Ireni
(Chefe da REN Representação de Ensino de Alta Floresta D'Oeste até meados de 2008) pelo sincero
apoio durante o processo de liberação do afastamento remunerado para cursar este mestrado. Ao
professor José Jaques, (atual Representante de Ensino) pela ajuda irrestrita durante este percurso. A
professora Tereza Inês pela força junto à representante para a minha liberação . A Adriana (Chefe do
Setor Administrativo) pela atenção, esforço e apoio com a minha freqüência mensal. Ao Nei (Auxiliar
administrativo) pelas sempre fortes palavras de incentivo: "boa sorte professora, e tome cuidado viu
menina, com a sua saúde". A professora Marilza (Coordenadora do Ensino Médio do Campo) e
Valéria (Chefe do setor Pedagógico) pela paciência e entendimento no empréstimo dos livros, não
exigindo prazo para devolução.
Os colegas da turma do mestrado 2006 pelos momentos compartilhados no caminho e pelos
debates de sala de aula que com a diversidade de formações contribuíram com diferentes olhares a
cerca do objeto de estudo da Geografia, em especial as amigas Leonilda, Madalena Cavalcanti e
Jeanne que se fizeram, de fato, amigas do coração.
A Daise pelas observações criticas e revisão metodológica do texto, sobretudo, pela amizade
construída.
A Sueli muito mais que uma secretária do lar, amiga por todos os momentos dessa
caminhada, cuidando do Saymon quando da minha ausência e "presença ausente".

VII

RESUMO

Esta dissertação apresenta como foco central de interesse: a cidade como objeto pedagógico
para o ensino de geografia nas 5ª e 6ª séries do ensino fundamental. O interesse principal é
saber em que medida o ensino de geografia pode contribuir na formação da cidadania,
dialogando a partir dos significados e as representações sociais que os alunos atribuem a
determinados conceitos geográficos em relação à cidade onde se encontram inseridos. A
pesquisa é um estudo de abordagem qualitativa que tem como objetivo analisar as dimensões
educativas da cidade a partir das interpretações dos alunos e entender de que forma a escola e
o professor podem transpô-las no processo educativo. Para buscar estes objetivos fiz
observações em quatro salas de aulas de Geografia em duas escolas na cidade de Alta Floresta
D'Oeste, questionário com 59 alunos, entrevistas com quatro alunos e cinco professores e três
seqüência didática envolvendo todos os alunos das quatro turmas. As representações sociais
foi o suporte teórico e metodológico para a compreensão e análise acerca da construção do
conhecimento geográfico pelos alunos. Os resultados da análise apontam a contribuição da
cidade para o ensino de geografia vez que os alunos vivenciam este espaço de diferentes
formas e esta apresenta-se educativa a partir de três dimensões - aprender a cidade, aprender
na cidade e aprender da cidade. Assim, a aprendizagem escolar ancora-se na percepção da
realidade concreta e vivida das relações entre os diversos elementos que compõem o espaço
geográfico, buscando soluções para os problemas, atuando ativamente, constituindo-se em
cidadãos no meio em que vivem. Uma educação geográfica a partir do espaço vivido.

Palavras chave: Ensino de Geografia; Cidade; Educação; Cidadania.

VIII

ABSTRACT

This present work paper aims direct to the main focus of interest: the tow as the teaching
object to the Geography teaching at 5th and 5th grades in the fundamental teaching. My main
objective is to know in what measure the Geography teaching can contribute to the foundation
of citizenship, dialoging from the meaning and the social representations the students attribute
to determined Geography concepts relating to the town where they live in. The research in a
study of a qualifying approaching that aims to analyzing the educational dimensions of the
town starting of the interpretations of students and understand how come the school and the
teacher can eventually coming over them in the educational process. To search these
objectives, I have done some observations in four school class of Geography teaching at two
schools in the city of Alta Floresta D'Oeste, questionnaire with 59 students, interview with
four students and five teachers and three didactic followings involving all the students of the
four streams. The social representation was the technical theory support and methodological
to the comprehension and the analysis about the construction of the geographic acknowledge
of the students. The analyses results affirms the contribution of the town to the Geography
teaching, once the students living in this space in different aspects and presents educational
from three dimensions ­ learning the town, learning the town, learning the town. In such a
way, the school learning rests in the perception of the concrete reality and lived and the
relations of several elements that make part of the geographic space, look for solutions to
problems, actively acting, playing the role of citizen in the world where they live. A
geographic education from the lived space.

Key words: Geography teaching; Town; Education; Citizenships.

IX

LISTA DE FIGURA, TABELA, SIGLA E ABREVIATURA

Lista de figuras

01: Roteiro de observações

14

02: Número e período das observações

14

03: Dados sociais, econômico e geográfico das escolas pesquisadas

48

04: Área urbana do município de Alta Floresta D'Oeste: localização das escolas

49

05: Projeto Amigos da Vida

52

06: Projeto Uma Leitura Puxa a Outra

53

07: Projeto Noite Cultural

57

08: Projeto Tom da Amazônia.

58

09: Formação da área urbana do município de Alta Floresta d'Oeste/RO 1980-2000

61

10: População rural e urbana Alta Floresta d'Oeste- 1996 -2007

63

11: Diferenciação espacial dos bairros de Alta Floresta d'Oeste

66

12: Festa do Peão de Boiadeiro -EXPOALTA - Exposição Agropecuária Industrial e
Comercial de Alta Floresta d'Oeste.

68

13: Festa da Cidade de Alta Floresta D'Oeste.

70

14: Festa da Lingüiça na Linha 65 no município de Alta Floresta D'Oeste

71

15: Festa do Divino Espírito Santo no Vale do Guaporé- Rolim de Moura do Guaporé -1999

73

16: Quadro geral dos professores participantes da pesquisa

77

17: Livros didáticos utilizados pelos professores

97

18: Sala de aula das escolas pesquisadas

116

19: Idade dos participantes da pesquisa em 2007

121

20: Índice de reprovação nas escolas

122

21: Tempo que os alunos moram em alta floresta D'oeste

123

22: Localização geográfica dos alunos da pesquisa

124

23: Número de pessoas por domicílio

125

X

24: Renda mensal das famílias dos alunos participantes da pesquisa

126

25: Gosto pelo estudo

129

26: Atividades de lazer preferidas

130

27: Gosto pela cidade

147

28: Planta baixa da área urbana de Alta Floresta d'Oeste

152

29: Dinâmica completando frases

153

30: Dinâmica dança da cadeira: ninguém pode ficar de pé

159

31: Dinâmica passe o repolho

165

32: Representação da Escola Tancredo

168

33: Representação da Praça do centro da cidade

169

34: Representação do bairro Princesa Izabel

170

35: Representação de problemas sociais urbanos

171

36: Representação do centro comercial da cidade

172

37: Representação espacial do espaço urbano

174

38: Representação da poluição ambiental urbana

175

39: Representação dos problemas ambientais

176

40: Representação virtualizada da cidade

177

41: Dimensões educativas da cidade

184

42: A cidade como objeto pedagógico

188

43: Processo Educativo-Ensino da Geografia

189

XI

Lista de tabelas

01: Amostra dos alunos participantes da pesquisa

11

02: Amostra dos professores participantes da pesquisa

11

03: População Alta Floresta D'Oeste/RO 1996-2000-2007

63

04: Responsáveis pelos alunos participantes da pesquisa

83

05: Distribuição dos alunos segundo a cidade natal

123

06: Ocorrência de respostas quando perguntado sobre os equipamentos
eletrônicos e de informação que tem em casa

126

07: Ocupação dos responsáveis pelos alunos participantes da pesquisa

127

08: Ocorrência de respostas quando perguntado sobre a leitura fora das atividades
escolares

128

09: Ocorrência de respostas quando perguntado sobre quais as disciplinas que mais
gostam de estudar

136

10: Ocorrência de respostas quando perguntado sobre quais as disciplinas que menos gosta

136

11: Ocorrência de respostas dadas pelos alunos quando perguntado sobre os lugares que
mais gosta na cidade.

145

12: Ocorrência de respostas dadas pelos alunos quando perguntado sobre os lugares
que mais freqüenta na cidade

145

13: Ocorrência de respostas dadas pelos alunos quando perguntado sobre o que não gostam
na cidade

146

14: Ocorrência de respostas dadas pelos alunos quando perguntado sobre o que esta faltando
na cidade

149

15: Atividade encontrando e se encontrando na área urbana

154

16: A cidade no olhar dos alunos

160

17: A cidade de Alta Floresta D'Oeste daqui a dez anos na perspectiva dos alunos

166

XII

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

01

1 TRAJETÓRIA METODOLÓGICA

08

1.1 A construção da problemática: os motivos

08

1.2. A escolha dos sujeitos e o contexto

10

1.3 Os procedimentos da pesquisa

12

2 CIDADE E ENSINO DE GEOGRAFIA: INTERFACES A UMA
EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA DA E PARA A CIDADE

18

2.1 Ensino de geografia e sua importância social no presente histórico

18

2.2 Contribuições teórico-metodológicas para a Geografia na sala de aula

26

2.3 Cidade e ensino de geografia: a construção da cidadania

29

2.4 Ensinar e aprender Geografia

37

3 O CONTEXTO DA PESQUISA

48

3.1. Perfil das escolas

50

3.1.1 Escola Tancredo de Almeida Neves

50

3.1.2 Escola Eurídice Lopes Pedroso

54

4 OS PROFESSORES E A CIDADE

60

4.1 A Geografia do lugar

60

4.2 Os professores e sua relação com o lugar

75

4.3 O ensino da cidade na docência geográfica

89

5 OS ALUNOS E SUAS EXPERIÊNCIAS GEOGRÁFICAS

106

5.1 Representações Sociais e ensino de geografia

106

5.2 Dados observacionais do cotidiano da sala de aula

111

5.3 Conhecendo os alunos

120

5.4 Conhecimento geográfico escolar

134

5.5 Os alunos e a cidade

140

5.6 Experiências geográficas da cidade

151

5.6.1 Encontrando e se encontrando na área urbana

151
XIII

5.6.2 A minha cidade

159

5.6.3 A cidade de Alta Floresta d'Oeste daqui a dez anos

164

6- DIMENSÕES EDUCATIVAS DA CIDADE: CONSIDERAÇÕES FINAIS

179

6.1 Por uma educação geográfica

179

6.2 Ensino de geografia na perspectiva da cidade educadora

181

Referências

192

Bibliografias consultadas

201

Apêndice

204

XIV

INTRODUÇÃO

A relevância do saber geográfico para a formação cidadã e a vivência em sociedade já
é consenso entre os teóricos do ensino de geografia. Assim sendo, o presente trabalho propõese a refletir sobre um problema que diz respeito diretamente ao processo de ensino e
aprendizagem de Geografia em sala de aula, onde pode-se formular a seguinte questão: como
o ensino de geografia pode contribuir para formação de cidadãos, dialogando, interagindo a
partir da leitura que os alunos-sujeitos fazem da cidade, ou seja, suas experiências e
conhecimentos de seu espaço vivido? Questionamento este, que certamente também faz parte
do cotidiano de muitos professores de Geografia. Para buscar a resposta foi imprescindível
adentrar no espaço intraescolar.
Entretanto, pesquisas envolvendo a cidade enquanto espaço pedagógico de
aprendizagem e sua relação com o ensino de geografia, ainda são pouco exploradas, de modo
que andar por este caminho incidiu no desafio teórico e metodológico, como também na
análise da multiplicidade de imagens, idéias, opiniões, sugestões, valores. Por vezes o ato de
observar, buscar, conhecer, compreender, sentir e dizer sobre situações que envolvem o
indivíduo é algo inerente ao ser humano. Nesse sentido, a cidade como espaço vivido por
sujeitos-alunos não deve ser negligenciada como objeto pedagógico, uma vez que é formada
neste espaço uma de teia de relações sociais que conformam os sujeitos e sua idéia de lugar.
Para operacionalizar o desenvolvimento da proposta, a investigação inseriu-se no
contexto intraescolar, em salas de aula de Geografia, buscando identificar as representações
sociais dos alunos e professores acerca da escola, do espaço vivido e da cidade. Para
Moscovici (2003, p. 49) as representações sociais são fenômenos "que estão relacionados com
um modo particular de compreender e de se comunicar ­ um modo que cria tanto a realidade
como o senso comum". Os indivíduos e grupos criam as representações no percurso da vida
coletiva, do convívio por meio da comunicação e da cooperação, esse teórico (p.55) afirma
que elas são criadas para "tornar familiar algo não-familiar". Os indivíduos buscam (re)criar a
realidade para constituir as associações com as quais se relacionam uns com os outros e na
compreensão do desconhecido. Desta forma, as representações sociais resultam de um firme
esforço em tornar comum e concreto, o que proporciona um sentimento de não familiaridade.

1

O trabalho com as representações dos alunos possibilitou-me conhecer sua realidade,
suas concepções e seu processo de construção de conhecimento, considerando as relações
possíveis entre o conhecimento da ciência geográfica e os saberes construídos por eles nas
relações cotidianas da cidade. A entrevista com os professores permitiu-me conhecer o saber
fazer e sua concepção de lugar e cidade, na intenção de compreender como é construída a
prática pedagógica do ensino de geografia e, neste, a geografia da cidade, uma vez que vem
sendo largamente debatida em pesquisas acadêmicas e inquietações de alguns atores
pedagógicos que se dedicam diretamente com o ensinar e aprender geografia, que o estudo da
cidade é bastante complacente para o desenvolvimento dos alunos tendo em vista sua
cidadania.
Essa perspectiva de pesquisa dialoga com Cavalcanti (2002, p. 16-17) quando afirma
que:

Os temas da cidade e do urbano são conteúdos educativos que propiciam aos alunos
possibilidades de confronto entre as diferentes imagens da cidade, as cotidianas e as
cientificas. O tratamento desses temas permite ao professor explorar concepções,
valores, comportamentos dos alunos em relação ao espaço vivido, além de permitir
também analisar a gestão da cidade a partir da experiência dos alunos; permite ainda
trabalhar com o objetivo de se garantir o direito à cidade.

Nesta perspectiva a cidade tem um componente importante na constituição dos
indivíduos/sujeitos que produzem o espaço urbano, pois a mesma é uma produção social e
histórica apresentando características peculiares e complexas do mundo global do presente
histórico. Dessa forma é imperativo aprimorar métodos de ensinar e aprender geografia
mediante conceitos geográficos basilares ao entendimento do mundo.
Assim, a investigação centrou-se na busca da cidade como objeto pedagógico no
Ensino de Geografia, onde avanço e procuro consolidar a simbiose: cidade ­ ensino de
geografia ­ alunos ­ cidadania voltada para a formação de alunos cidadãos. Mormente porque
é a qualidade no ensino de geografia que tem orientado nossa vida profissional, vez que ainda
impera uma concepção de que o ensino de geografia é descontextualizado, distante da
realidade do aluno e das mudanças da sociedade em geral.
***

2

Diante a nova ordem política, cultural e econômica com intensificação do fenômeno
da globalização e a propagação da informação, tendo em vista as relativizações do espaço e
do tempo, resultantes da dinamicidade proporcionada pelos fluxos em redes cada vez mais
rápidos, afetando a vida de todos os indivíduos e, em todos os lugares, faz-se imperativo
compreender os lugares nas suas inserções e interações com a totalidade-mundo.
Essas mudanças têm provocado certo descompasso entre a geografia escolar e as
mudanças ocorridas na sociedade, desencadeando novas propostas para o ensino de
Geografia, o que acarretou uma série de desafios para o universo dos envolvidos no processo
de ensino-aprendizagem da referida disciplina, sendo hoje, objeto de inúmeras pesquisas, que
por sua vez, seguem diferentes orientações teóricas. Todavia, os estudos e pesquisas em sua
maioria, apontam que o ensino de geografia, assim como as demais disciplinas consideram o
aluno um agente ativo no processo de aprendizagem, no caso a geografia do aluno, que
considera como ponto de partida o seu conhecimento e suas práticas cotidianas, pois, dada à
gama de informações que circulam, as pessoas buscam significar e compreender as situações
do seu cotidiano, para interpretar e se inserir no mundo.
Partindo do pressuposto de que as transformações que ocorrem em velocidades antes
inimagináveis chegam a alterar a idéia de movimento, de instante, de lugar, e que o espaço da
experiência, do cotidiano, tem sua geografia alterada por fluxos, imagens, idéias, mensagens e
outras formas de expressão, que subvertem certas lógicas localizadas e que, na atualidade é
ampla de seu contexto local e que os alunos estão inseridos na sociedade e, que por sua vez
está sujeita a estas mudanças, torna-se relevante a articulação da cidade e escola na formação
educacional. Os alunos são dotados de história, cultura e experiências que são valiosas
contribuições para o ensino de Geografia, e quando na prática pedagógica, negamos o espaço
histórico do aluno e sua vivência/experiência, as suas representações. Marginalizamos o aluno
enquanto sujeito do processo do conhecimento. Os conteúdos ensinados em sala de aula por
vezes ignoram o saber do aluno, o que impede a interação entre sujeito e o objeto a ser
estudado.
Emerge das ponderações apresentadas à cidade e esta apresenta-se importante no
trabalho escolar para aprendizagem do aluno, pois, permite que haja um relacionamento entre
teoria e prática com o conhecimento da realidade circundante. A cidade é uma manifestação
histórica da sociedade, é uma construção social sobre a natureza com o objetivo de garantir à
sociedade seu domínio sobre um determinado território, onde as construções são feitas de
3

acordo com a necessidade e a história de um povo. Assim, a imagem da cidade é composta
por inúmeros traços, linhas, cores, sinais gráficos, sons, sotaques, letras, roupas, números,
cheiros, frases, massas, volumes, movimentos, é uma geografia da ação (SANTOS, 1996).
As relações sociedade e espaço concretizam-se no dia-a-dia dos lugares e são
promovidas por interesses econômicos, políticos, culturais, sociais, e que a escola é um
espaço privilegiado para a construção da cidadania, é um lugar onde a busca da superação da
realidade e a criatividade podem ser estimuladas, proporcionando saberes que possibilitam a
mudança de atitudes na transformação do espaço vivido, faz-se necessário acionar
mecanismos e soluções que possibilitem uma discussão social dessas relações no âmbito
escolar, e em particular pelo ensino de geografia. Assim, o trabalho com as representações
sociais dos alunos permite que a realidade com o outro lado do muro escolar adentre a sala de
aula, ultrapassando as relações do ensino decorativo das informações, para dar subsídio a
opiniões e análises que submetam o mundo a um interrogatório geográfico pelo aluno.
O aluno deve ser motivado a considerar suas percepções de mundo, interpretando seu
universo de vivência, sua importância local, regional e até mesmo em escala mundial, a fim
de superar o senso comum em um claro reconhecimento de que o meio em que se vive é
também objeto e tema da reflexão escolar. Dado ao desafio que diz respeito à geografia que se
ensina na escola, somando às poucas pesquisas voltadas a estudos sobre aprendizagem dos
alunos, investir na pesquisa sobre o ensino em Geografia é realmente indispensável, tendo em
vista que ainda há muito a se fazer e percorrer para avanços na formação de um cidadão com
vista à compreensão do seu espaço geográfico enquanto totalidade.
A perspectiva de estudo que proponho se confunde com minha atuação profissional e
certas inquietações pedagógicas. Ao trabalhar a disciplina de Geografia no Ensino
Fundamental nos últimos dez anos, minha experiência, sobretudo, após a conclusão do curso
de graduação em Geografia1, me permitiu constatar o quanto é diferente e mesmo distante a
geografia produzida na universidade, da geografia ensinada na escola, temática essa já
abordada por Lacoste (2006) e ainda bastante atual.
No contexto das problemáticas elencadas, o presente trabalho também dialogou com a
prática docente. O diálogo com a realidade do "além muro da escola" não é suficientemente
discutido e problematizado no contexto escolar, pois, reside ainda a idéia da disciplina de
Geografia como simples memorização (KAERCHER, 2001). Muitas vezes a escola e o
1

PROHACAP-Rolim de Moura

4

professor comportam-se como centro do saber no diálogo com os alunos, sendo a relação
muito instrumental e pouco didática, o que tende a distanciar o sujeito-aluno do sujeitoprofessor e da instituição escolar, portanto, realidade e escola.
A pesquisa nesta ótica trouxe dimensões significativas para o ensino de geografia.
Primeiro, porque o grande desafio do século XXI, sobretudo para os países subdesenvolvidos,
é investir na educação dos indivíduos, de maneira que este seja cada vez mais capaz de
exprimir, afirmar e desenvolver o seu próprio potencial humano, este feito de individualidade,
construtividade, criatividade e sentido de responsabilidade, assim como, de um sentido de
comunidade, capacidade de diálogo, de confrontação e de solidariedade (GADOTTI, 2004).
Se considerarmos que a tendência da humanidade é se urbanizar, esse conjunto de relações
tem no espaço urbano sua realização.
O desafio do ensino de geografia em interpretar e re-elaborar essas dinâmicas
conflitantes e contemporaneamente complexas do espaço urbano, no sentido de propor uma
transposição didática para construir, com os alunos, uma compreensão coerente da sua cidade
(construção de conhecimento), tornou-se outra dimensão importante desta pesquisa. A
contribuição ao ensino da geografia, em termos de pesquisa acadêmica que atinge a escola e o
professor de Geografia, tem sido muito limitada se comparada ao volume de publicações em
outros campos de ensino. O interessante é que essa escassez é contraditória, quando se
constata que o ensino e metodologia de geografia nas séries iniciais compõem o quadro de
disciplinas acadêmicas nos cursos de Pedagogia, formação de professores, vez que também
compõe o conjunto de disciplinas obrigatórias no primeiro e segundo ciclo do Ensino
Fundamental.
Da análise dos dados no tocante aos professores, conclui-se que as lacunas teóricas e
metodológicas no ensino de geografia são muitas: a escassez de estudos na orientação da
prática docente; a formação continuada que muitas vezes é tangenciada da realidade
pedagógica da escola; a limitação de material didático que discuta, por exemplo, a Geografia
de Rondônia e adicionalmente de Alta Floresta D'Oeste numa perspectiva didático-crítica;
torna, dentre outras problemáticas, o exercício da prática pedagógica do professor, uma
constante muralha, que de acordo com Callai (1999) não se avança se não houver uma
abordagem teórico-metodológica que discuta a realidade escolar.
Da análise dos dados atinentes aos alunos, os resultados apontam que se trabalhada
essa relação - realidade e escola - têm-se novas possibilidades para o conhecimento, e no caso,
5

novas interpretações sobre a cidade enquanto elemento educativo. A escola necessita
aproveitar todo conhecimento trazido pelos alunos, precisa escorrer para a rua, para o bairro,
e, por sua vez, deve permitir a entrada dos "espaços" da cidade em seu espaço escolar.
Entender juntamente com e a partir dos alunos os processos pelos quais os diferentes espaços
da cidade formam-se e transformam-se, bem como, sua relação com os mesmos, deve ser o
ponto de partida para a aprendizagem e para o exercício da cidadania.
Entretanto, esse rompimento de barreiras com vistas a permitir a interpenetração educação, escola e cidade - parece ser o grande desafio para os que acreditam na educação
como uma das possibilidades de transformação social.
A pesquisa encontra-se organizada em seis capítulos: o Capítulo 1 apresenta o
caminho metodológico escolhido para a pesquisa.
O Capítulo 2 faz uma discussão acerca dos debates teórico metodológico buscados
para explicar como e quando o ensino de geografia pode contribuir para uma geografia
educadora. O texto apresenta alguns elementos para pensar a cidade enquanto conteúdo
educativo e sua ligação com o ensino de geografia e a cidadania. Assim, a discussão teórica
firma-se em torno do ensino de geografia, professores, alunos, cidade e cidadania,
desenvolvendo-se por meio da base conceitual de cidades educadoras e da categoria
geográfica de lugar a partir da perspectiva de Geografia Crítica e da linha sócioconstrutivista.
O Capítulo 3 adentra o contexto escolar e faz uma caracterização do perfil das escolas
pesquisadas, descrevendo suas necessidades e limites no trabalho com os discentes e na
própria pratica pedagógica, dentro e fora da sala de aula.
O capitulo 4 dialoga com a Geografia de Alta Floresta D'Oeste e com cinco
professores acerca do saber fazer Geografia no Ensino Fundamental, tendo por objetivo
identificar como os professores entendem, percebem e vivenciam a geografia da cidade,
buscando as aproximações da sua transposição didática no ensino de geografia na sala de aula.
A literatura geográfica da cidade no início do capítulo, justifica-se por subsidiar o trabalho
teórico-metodológico do professor em exercício docente para um ensino geográfico que
valorize a realidade dos alunos e da sociedade em geral.
O capitulo 5 embrenhou-se no contexto da sala de aula na busca das representações
sociais dos alunos, ou seja, a apreender as relações/experiências/confrontos, informações,
6

opiniões, percepções e valores que os alunos vão construindo sobre seu espaço de vivência,
onde a Geografia "inconscientemente" é construída. O texto visa identificar as lacunas,
dificuldades, limites e aproximações entre o saber do aluno e o que ele discute na escola sobre
a cidade, como também construir conhecimento geográfico, identificando novas
possibilidades didáticas e metodológicas para o processo de ensino e aprendizagem em
geografia, tendo a cidade e o conceito de lugar como eixo estruturador para a 5ª e 6ª séries do
Ensino Fundamental.
No capitulo V faço algumas possíveis considerações acerca das dimensões educativas
da cidade e sua relação com o ensino de geografia, no sentido de refletir práticas
metodológicas para uma educação geográfica da e para a cidade dos alunos.

7

1 TRAJETÓRIA METODOLÓGICA

1.1 A construção da problemática: os motivos

Esta pesquisa advém de certa insatisfação e inquietação referentes a conceitos,
procedimentos e atitudes relacionadas à Geografia. Em 2001 com o início do curso de
Geografia no âmbito do Programa do PROHACAP2 e desde então, participando do universo
escolar como professora de Ensino da Geografia, com alunos do Ensino Fundamental em
escolas públicas, vivenciei certas dificuldades como desinteresse dos alunos pelas aulas de
Geografia; dificuldades na aprendizagem; desvalorização da disciplina no contexto intra e
extra-escolar; limitações quanto ao suporte didático e pedagógico; pouca aproximação com a
realidade dos alunos.
Sem exageros utilizo a expressão "dramática" para referir-me a realidade e as lacunas
das aulas de ensino de Geografia. A inadequação do processo de ensino e aprendizagem
realizado na escola tem provocado uma consolidação precária de conhecimentos geográficos,
o que foi claramente identificado e analisado por Cavalcanti (2003) ao entrevistar alunos das
5ª e 6ª séries do Ensino Fundamental de escolas públicas, onde a autora utilizou conteúdos já
trabalhados e os alunos sentiram enormes dificuldades, ou não conseguiram responder aos
questionamentos, o que confirma a incoerência na formação de professores, dos conteúdos e a
transposição didática com a realidade, engessados quanto a técnicas pedagógicas, que não
contemplam de maneira satisfatória o entendimento, a reflexão e nem despertam a criticidade
do aluno. As experiências vividas ao longo do tempo levaram-me ao entendimento de que o
espaço escolar e os conteúdos trabalhados em sala de aula, salvo exceções, estão bem
distantes do mundo real e vivido pelos alunos, pois, "a vida fora da escola é cheia de
mistérios, emoções, desejos, fantasias, [...]. A escola parece ser homogênea, transparente e
sem brilho no que se refere a tais características" (CASTROGIOVANNI, 2000, p.13).
Conseqüentemente o aluno não compreende a importância dos conteúdos geográficos
em suas atividades corriqueiras, o que corrobora com o entendimento de ser a Geografia uma

2

Programa de Habilitação e Capacitação do Professor Leigo

8

matéria decorativa sem vínculos com a realidade, ou seja, não se aprofunda a discussão social
do ensino.
Estariam outros professores vivendo está inquietação e descontentamento com o
ensino dessa disciplina? E quantos de nós, conseguimos articular uma situação que ofereça
aos alunos a oportunidade de se verem no processo de ensino e aprendizagem, explorando no
cotidiano da sala de aula, conteúdos que tenham significado na/para suas vidas?
As atividades desenvolvidas pelos alunos em sala de aula, em sua maioria,
desconsideram a rua, o bairro, a periferia, o centro, sua história de origem, ou seja, a cidade,
espaços transbordados de conteúdos a serem trabalhados pela Geografia e sentidos pelos
alunos que periodicamente circulam pelos diferentes lugares, brincando, trabalhando ou
passeando, e estabelecida a Escola, como um dos mais próprios espaços que objetivam formar
ou ao menos, tem por finalidade a formação de cidadãos, ao considerar o espaço do aluno,
contribui para um conhecimento empírico e crítico da realidade.
Ao longo da docência estas inquietações ajudaram-me a construir caminhos na busca
de novas dimensões para o trabalho, pois, como se encontra hoje, afirmo que o aluno é
penalizado com o mundo teórico apresentado. Destarte, na tentativa de fazer o mundo teórico
transcender os limites da abstração para se materializar na concretude da prática do cotidiano,
busca-se unir experiências/conhecimentos dos alunos com os conteúdos estudados nas aulas
de Geografia, conforme Gallo (2007).
Nesta perspectiva, a problemática do presente estudo centra-se em investigar em
duas escolas públicas da cidade de Alta Floresta D'Oeste, como o ensino de geografia pode
contribuir para formação de cidadãos, dialogando a partir da leitura que os alunos-sujeitos
fazem da cidade, de suas experiências e conhecimentos do seu espaço vivido?
O aluno não é uma folha em branco e não chega à escola vazio (FREIRE, 2003).
Portanto, traz consigo uma bagagem de conhecimentos, de formação que precedem aos
conhecimentos que ele venha adquirir no espaço escolar, conhecimentos que vão se formando
na sua relação cotidiana cultural, social e geográfica. Obviamente que a transposição didática
dessas relações/experiências/confrontos, como conteúdo do ensino de geografia oportuniza a
construção de ligações de bases concretas para encaminhar a compreensão das relações
sociais, da construção de conhecimentos geográficos e da prática da cidadania.
A Geografia tem como objeto de estudo o espaço geográfico, e ao tematizar e
problematizar a realidade local, a cidade, o espaço vivenciado e visível do aluno, esta, não de
9

forma estanque e linear, conforme debatem (Callai, 1999, 2000, 2005; Straforini 2001, 2004,
2006), mas, numa compreensão de relação com as demais escalas, contribui-se com a
compreensão das categorias geográficas dessa disciplina, como também, para a descoberta e
valorização do espaço local. Essa questão traz uma dimensão importante para o exercício da
cidadania, da busca da identidade, e da situação do aluno no mundo social contemporâneo,
quando confronta na escola, a vivência do aluno, sua experiência cotidiana, com as diferentes
formas de concepção e de prática social urbana.
A problemática envolvida neste tema consiste em abordar a cidade enquanto espaços
de aprendizagens, buscando ampliar as possibilidades didáticas para abordar conteúdos
curriculares de Geografia nas séries do terceiro ciclo do Ensino Fundamental. Assim, desejo
empreender uma análise das abordagens da cidade nas representações sociais dos alunos,
buscando identificar elementos que contribuam para o delineamento teórico-metodológico de
uma abordagem didática, que permita ampliar os conteúdos do ensino de Geografia tratados
pela e na atividade das experiências vivenciadas pelos alunos a respeito da cidade, articulados
pelo conceito geográfico de lugar na perspectiva de uma Geografia Escolar Crítica.
Desse modo, tem-se como objetivo geral analisar as dimensões educativas da cidade
a partir das interpretações dos alunos e entender como a escola e o professor podem transpôlas no processo educativo para a construção cidadã do aluno e delineados como objetivos
específicos (I) abordar como as questões da cidade se concretizam na escola e qual a
possibilidades destas se tornarem temas de estudos no ensino de geografia; (II) analisar a
cidade como uma complexa malha de espaços pedagógicos formais e informais; (III) verificar
como o aluno expressa o seu saber e quais suas representações sociais sobre cidade de Alta
Floresta D' Oeste e (IV) averiguar como os professores entendem a geografia da cidade e sua
transposição didática no Ensino Fundamental.

1.2 A escolha dos sujeitos e contexto

A pesquisa em ensino de Geografia deu-se pelo desejo centrado em uma educação
geográfica que leve o aluno a compreender a realidade local, a cidade, integrando o
conhecimento geográfico a sua experiência de vida, de modo a promover a transposição do
senso comum ao conhecimento científico.
10

A pesquisa foi realizada com alunos e alunas da 5ª e 6ª séries (6º e 7º ano) do Ensino
Fundamental, e cinco professores, sendo dois professores das referidas séries e três
professores das séries iniciais do Ensino Fundamental. A pesquisa desenvolveu-se em duas
escolas públicas estaduais: E.E.E.F.Tancredo de Almeida Neves e E.E.E.F.Eurídice Lopes
Pedroso. A escolha das escolas deu-se em função de suas localizações. A primeira está situada
em um bairro periférico, onde a maior parte dos alunos é proveniente de um contexto
socioeconômico menos privilegiado, enquanto que, a segunda escola localiza-se no bairro
central, em que a maioria dos alunos desfruta de boa renda e qualidade de vida. Os alunos
estudam no mesmo espaço geográfico, porém, com ambiências e subjetividades muito
diferenciadas, que influenciam diretamente na sua relação com a cidade e consequentemente
na leitura e compreensão do mundo.
A coleta de dados foi feita com 101 alunos, ou seja, 28,13% dos alunos matriculados
nas 5ª e 6ª séries. A E.E.E.F. Tancredo de Almeida Neves no ano de 2007. Havia três turmas
de 5ª séries e duas turmas de 6ª séries e na E.E.E.F.Eurídice Lopes Pedroso, quatro turmas do
6º ano e três turmas do 7º ano perfazendo um total de 359 alunos. Sendo uma turma de 5ª
série e uma turma de 6ª série de cada escola (Tabela 01).

TABELA 01: AMOSTRA DOS ALUNOS PARTICIPANTES DA PESQUISA

Alunos
5ª série/6º ano
6ª série/6º ano
TOTAL

Eurídice
n
%
22
43,13
29
56,87
51
100

Tancredo
n
%
27
54
23
46
50
100

Total
n
49
52
101

%
48,51
51,49
100

Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

A coleta de dados também foi feita com cinco professores, sendo dois professores de
Geografia das séries mencionadas na pesquisa e três professores das séries iniciais do Ensino
Fundamental (Tabela 02).

TABELA 02: AMOSTRA DOS PROFESSORES PARTICIPANTES DA PESQUISA

Professores
Professor séries iniciais
Professor de Geografia (6º e
7ºano)
TOTAL

Eurídice
n
%
2
66,67
1
33,33

Tancredo
N
%
1
50
1
50

3

2

100,00

100

Total
n
3
2

%
60
40

5

100

Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

11

1.3 Os procedimentos da pesquisa

A geografia deve ter um posto central na renovação de ensino, pois ela proporciona
um espaço específico na preparação dos alunos para o respeito às diferenças e para o que
chamamos de "cidadania planetária". Subjacente a este entendimento, a análise deste estudo
parte da compreensão de concepções, idéias, imagens e conceitos que os alunos vão formando
na sua vida cotidiana, privilegiando o espaço urbano - a vida na cidade - como elemento
representado. Destarte, as representações são um caminho para melhor conhecer o mundo
vivido dos alunos, suas concepções e seu processo de construção de conhecimento. O estudo
se apresenta tanto nas ciências sociais, quanto nas humanas como um largo campo de
pesquisas, tal enfoque foi desenvolvido em pesquisa acadêmica no ensino de geografia por
Cavalcanti (2003), e também discutido pela mesma autora Cavalcanti (2002) no campo de
formação de professores e didática em geografia. São contribuições teórico-metodológicas em
estudos referentes aos processos envolvidos na construção de conhecimentos geográficos por
adolescentes, considerando as relações possíveis entre o conhecimento científico da ciência
geográfica e os saberes construídos por eles, no seu cotidiano.
A opção metodológica remete-me a uma pesquisa de natureza qualitativa,
desenvolvida por Cavalcanti (2001), e discutida também em Ludke e André (1986) em
Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. Ambos foram de expressiva importância
para construção da trajetória metodológica e para percorrer os objetivos. Esta abordagem
permite-me envolver a subjetividade dos atores, pois cada indivíduo é único e permeado de
significados, motivações, crenças, valores e atitudes. No desenvolvimento da pesquisa, fiz uso
dos seguintes procedimentos: bibliográfico, observação, questionários, entrevista e atividades
didáticas.
Leituras bibliográficas: Compilei em sites universitários, bibliotecas e livrarias,
literatura referente às discussões atuais em volta do ensino de geografia, na busca dos
processos que envolvem o ensino e aprendizagem em Geografia e seus desafios no presente
histórico.

12

Observação: Acompanhei e observei as atividades no ambiente escolar3: escola, sala
de aula, atividade de integração e atividades extraclasse. A observação é técnica para
"conseguir informações onde se utiliza os sentidos na obtenção de determinados aspectos da
realidade. Não consiste apenas em ver e ouvir, mas também em examinar fatos que se
desejam estudar" (MARCONI e LAKATOS, 2003, p.190). No campo educacional Vianna
(2003) oferece uma relevante estrutura metodológica com recomendações, possibilidades,
limites e advertências no uso deste recurso, esta autora chama a atenção para a problemática
do observador e seu papel, focalizando questões do que observar e as vantagens e
desvantagens da observação. Para a autora, nesse tipo de observação a presença do observador
pode modificar o contexto e mesmo a situação a ser observada:

Os comportamentos passam a ser diferentes do que se poderia esperar em uma
situação habitual, havendo, em muitos casos, o que se poderia dizer como sendo uma
melhoria da imagem, um make-up ou uma maquilagem, que desfigura a situação, ou
os observados se sentirem constrangidos por se acharem numa situação que foge ao
normal do seu dia-a-dia. (VIANNA, 2003, p.19).

Vianna ressalta que antes da coleta de dados o observador precisa se fazer presente na
escola, na sala de aula para que os alunos e os professores habituem-se à sua presença e
possam agir com maior naturalidade durante o processo efetivo de realização da observação.
Vianna (2003) afirma ainda que por meio desta metodologia, estamos sujeitos a negligenciar
os resultados da pesquisa caso não controlemos as interferências pessoais e culturais. Assim,
para diminuir estas interferências, segui suas recomendações: (I) definir os objetivos do
estudo; (II) decidir sobre o grupo de sujeitos a observar; (III) legitimar sua presença junto ao
grupo a observar; (IV) obter a confiança dos sujeitos a observar; (V) observar e registrar notas
de campo; (VI) gerenciar possíveis crises que possam ocorrer entre os sujeitos e o observador;
(VII) saber retirar-se do campo de observação; (VIII) analisar os dados; (IX) elaborar um
relatório sobre os elementos obtidos. Tendo em vista as idéias da autora, elaborei um roteiro
do que observaria em campo (Figura 01) e os dados coletados durante todas as observações
foram anotados em caderno de campo, pois de acordo com Veiga (1994) os mesmos
possibilitam diversas análises posteriores.

3

Na Escola Tancredo a pesquisa desenvolveu-se com a 5ª B e 6ª A. Na escola Eurídice, com a 7ª A e a 6ª C. A
escolha por uma sala em detrimento de outra deu-se em função do horário entre as escolas, sendo que as demais
turmas coincidiam os horários.

13

SÉRIE _________DATA: ___ / ___ / 2007. PERÍODO: ______
Tema da aula:
Metodologia:
Desenvolvimento da aula:
Relações professor-aluno:
Conceitos geográficos usados e como foram trabalhados?
A cidade, o espaço vivido trabalhado na sala de aula: O que? Como? Intensidade? Envolvimento
dos alunos.
Aproximações das temáticas com as experiências e vivencias dos alunos
No desenvolvimento da aula teve participação e interação com os alunos? Intensidade?
Perguntas feitas aos alunos?
Atenção dos alunos para as aulas, eles estão gostando? Estão entendendo?
Uso do livro didático pelo professor:
Atividades sobre o conteúdo:
Recursos utilizados e ânimo da turma
Avaliação:
Figura 01: Roteiro de observações
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste, 2007.

Durante o período de observação, coletei documentos escolares, cópias (digitais e
impressas) de diferentes documentos como: Projeto Político Pedagógico, Projetos que seriam
desenvolvidos durante o ano letivo nas escolas, grade curricular de Ensino de Geografia no
Ensino Fundamental, e os livros didáticos utilizados nas aulas de Geografia e fotos.
A observação se desenvolveu no período de abril a novembro, conforme figura 02.
Ressalto que o número de observações na escola Tancredo foi menor devido alguns
contratempos com o professor de Geografia das turmas 5ª B e 6ª A, assim por vezes não pode
se fazer presente na sala de aula, ficando os alunos com aula vaga.

Turmas
5ª B
6ª A
7ª A

Escola
Tancredo
Tancredo
Eurídice

Tempo de observação
Junho a Setembro
Junho a Setembro
Abril a Novembro

Hora/aula observada
13
14
16

14

6ª C

Eurídice

Abril a Novembro

17

Figura 02: Número e período das observações
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste, 2007.

Questionários: 59 alunos perfazendo um total de 60% dos alunos entre as quatro salas
pesquisadas, responderam um questionário individualmente, contendo 23 questões (abertas,
fechadas e de múltipla escolha) concernentes ao seu universo social, econômico e geográfico
(APÊNDICE C). Os questionários foram aplicados segundo Marconi e Lakatos (2003:204),
questões fechadas ou dicotômicas, para obtenção dos dados sociais, econômicos e
geográficos; abertas e de múltipla escolha para informações correspondentes ao universo
social e subjetivo dos alunos em relação à cidade e a escola, conforme propõe (op. cit: 203).
Antes, porém, aplicamos um pré-teste em uma pequena população4 antes da aplicação
definitiva, para verificar a validade e a operacionalidade do mesmo.
Entrevistas: Este recurso foi utilizado com professores e alunos. Sendo um aluno da
5ª série e um da 6ª série das escolas pesquisadas, e cinco professores. Um professor de ensino
de geografia do terceiro ciclo da Escola Tancredo e um da Escola Eurídice, um professor das
séries iniciais (CBAII) da Escola Tancredo e dois professores da Escola Eurídice, um
professor do (CBAI) e um professor do 5º ano (antiga 4ª série) do Ensino Fundamental. A
participação dos professores das séries iniciais do Ensino Fundamental deu-se por meio de
sorteio, com exceção do professor do 5º ano, que foi uma escolha proposital, uma vez que seu
trabalho foge ao protótipo dessas séries, pelo menos em nosso município, onde normalmente
tem-se um único professor pedagogo lecionando todas as disciplinas. No caso deste, trabalha
em parceria com outra professora, assim, leciona as disciplinas de geografia, Ciências e
História em duas salas.
De acordo com o propósito deste trabalho escolhi entre os diferentes tipos de
entrevista, a não- estruturada e não- padronizada conforme Ludke e André (1986), pois
apresenta uma ampla liberdade de percurso em que o roteiro não é rígido, o que nos permite
explorar melhor uma questão, e no decorrer das conversas me possibilitaria fazer alguns
desdobramentos considerados importantes. Esta forma de entrevista, conforme Marconi e
Lakatos (2003) apresentam três tipos de modalidades, entrevista focalizada, clínica e não
dirigida. Assim, de acordo com a problemática, o presente trabalho encaixou-se na entrevista
não dirigida, pois, "há liberdade total por parte do entrevistado, que poderá expressar suas
4

Foi aplicado o pré-teste com 2 (dois) alunos de cada escola participante da pesquisa, um aluno de cada turma, e
nas duas escolas os alunos utilizaram cerca de 20 minutos para completarem o questionário com 25 questões.

15

opiniões e sentimentos" (MARCONI E LAKATOS, 2003, p.197). As entrevistas foram feitas
individualmente. Ao entrar em contato com os professores e alunos, expliquei os objetivos e a
necessidade do uso de um aparelho gravador MP4, bem como o anonimato em relação ao
conteúdo da entrevista. Prontamente aceitaram participar como atores desse estudo, e em
momento algum houve qualquer restrição por parte deles.
Para que o resultado da entrevista fosse proveitoso foram previamente marcados
horários e locais, de acordo com a disponibilidade dos entrevistados. As entrevistas foram
feitas nas escolas, com duração de aproximadamente uma hora. E foram transcritas e
entregues aos entrevistados para obtenção de autorização para publicação e utilização das
gravações para uso na presente e futuras pesquisas. A carta de autorização para uso das
entrevistas foi adaptada conforme modelo elaborado por Meihy e Holanda (2007)
(APÊNDICE E).
As entrevistas foram realizadas sem o conhecimento do roteiro pelos entrevistados,
aludindo-se apenas as palavras eixos que seriam exploradas, sem, no entanto, aprofundar o
que destas seria discutido. As entrevistas com os alunos deram-se através das palavras-eixos:
escola, ensino de Geografia e cidade. Para facilitar o entrosamento entre o entrevistadorentrevistado e conhecê-los melhor, iniciei com perguntas como: série, idade, tempo que mora
nesta cidade, desenvolve trabalho fora de casa, mora com quem, profissão do seu responsável
(APÊNDICE B). Com os professores iniciei com a palavra eixo docência: profissão,
formação acadêmica, escola em que trabalha, carga horária, séries em que trabalha,
atividade fora da docência, escola e aluno. Também no intuito de criar um entrosamento
entre entrevistador e entrevistado, adicionalmente com as palavras eixo: ensino de Geografia,
cidade e dificuldades docentes (APÊNDICE A).
A transcrição teve uma primeira versão, com a transcrição fiel à fala de cada
entrevistado, tal como ela se deu. Entretanto, em alguns casos, por vontade dos entrevistados
fez-se um ajuste nas expressões muito usuais como os vícios de linguagem.
Para garantir o anonimato e preservação dos entrevistados, conforme apontam
Marconi e Lakatos (2003), os entrevistados foram identificados por pseudônimo e de acordo
com a seqüência das entrevistas, para os alunos ficou: A1, A2, A3, A4; e para os professores:
P1, P2, P3, P4 e P5.
Seqüência Didática: esta etapa foi desenvolvida através de três atividades didáticas,
(I) - Encontrando e se encontrando na área urbana; (II) A minha cidade; (III) A cidade de
16

Alta Floresta D'Oeste daqui a dez anos. As atividades tiveram como finalidade a construção
do conhecimento em Geografia, partindo do conhecimento prévio dos alunos sobre a sua
cidade, verificando suas dificuldades e/ou facilidades de aprendizagens com desígnio de
propor prática metodológica para as aprendizagens geográficas.
Minha permanência nas escolas deu-se num total de 133 horas aula : 60 horas aula de
observação nas escolas (aulas de Geografia, atividades extra-classe das turmas e da escola
como um todo), 20 horas para coleta de documentos, 7 horas para aplicação dos questionários
e pré-testes, 18 horas para entrevistas com alunos e professores, 24 horas para realização das
atividades e 4 horas de confraternização com os participantes da pesquisa.
De posse dos dados, um desafio que perpassaria à organização, a análise e a
apresentação no corpo do trabalho de modo a alcançar os objetivos. Desafios condicionados
ao volume de informações coletadas junto aos alunos e professores e de documentos
escolares, notadamente, pelo universo de informações que permeiam os dados.
O trabalho foi complementado com informações extraídas dos documentos
disponibilizados pelas escolas. A metodologia utilizada possibilitou de acordo com Veiga
(1994, p.37) "a apreciação crítica, a interpretação e a formulação de indicações básicas, a fim
de atender a preocupação central, objeto deste estudo", que teve como alvo, averiguar e
refletir as potencialidades do ensino de Geografia e sua contribuição para formação de
cidadãos, sendo possível sugerir, por meio das análises, proposições didáticas e
metodológicas para o ensino de geografia.

17

2 CIDADE E ENSINO DE GEOGRAFIA: INTERFACES A UMA EDUCAÇÂO
GEOGRÁFICA DA E PARA A CIDADE

2.1. Ensino de geografia e sua importância social no presente histórico

Antes de teorizar a cidade no ensino de geografia, faz-se necessário esclarecer minha
visão acerca do contexto vigente em que se encontra o ensino de geografia, que direta e/ou
indiretamente norteia o delineamento do processo de ensino e aprendizagem nesta disciplina
não condizente com as exigências da atualidade face as implicações que resultam de um
mundo globalizado.
As características das últimas décadas do século XX, foram marcadas por um processo
intenso e veloz, contando com um sistema técnico poderoso, percebido na área da informação
onde tudo se interliga denotando espaço e tempo em significados não tradicionais. No
presente histórico, vivenciamos momentos de mudanças que permeiam todos os campos da
vida em sociedade. São muitas as controvérsias na instituição de conceitos e termos que
expliquem a sociedade, afinal, estamos sob o signo do progresso tecnológico, com uma rápida
transmissão de informação. Essa peculiaridade precisa ser decodificada para além da
observação e descrição empírica da realidade, desafios esses que se apresentam tanto para a
instituição escolar quanto para o ensino de geografia, e, ao professor de Geografia.
Busco essa reflexão por meio dos referenciais propostos por Santos (2008) onde este
geógrafo discute a realidade que vivemos, considerando as três metáforas da globalização e
neste sentido, o autor discorre sobre a possibilidade de vir a existir outro mundo,
considerando as singularidades dos lugares.
Para Milton Santos a definição de globalização dissocia-se da idéia de homogeneidade
e linearidade. Para esse geógrafo: "Quando tudo permite imaginar que se tornou possível a
criação de um mundo veraz, o que é imposto aos espíritos é um mundo de fabulações, que se
aproveita do alargamento de todos os contextos para consagrar um discurso único"
(SANTOS, 2008, p.17-18). É neste sentido que afirma estarmos vivendo um mundo confuso e
confusamente percebido, realidade firmada no contexto da informação, e esta, porém,
alicerçada na produção de imagens e do imaginário, cria-se slogans, por exemplo, de que
18

vivemos um mundo "sem fronteiras", ao "alcance das mãos". Essa idéia da globalização é
mantida sob o domínio do dinheiro e do poder. Entrementes, a globalização não está ao
alcance de todos, e a convergência ao tecnicismo e mecanização leva a uma desumanização e
a um progressivo domínio do capital perante a vida social ou pessoal.
Para escapar dessa visão de mundo de fabulações, Santos (2008) sugere três vias de
globalização para uma visão crítica desta, com o objetivo de revisá-la e reconstruí-la. Neste
sentido, nos convida a admitir que estamos imersos em três mundos distintos em um só: a
globalização como fábula; a globalização como perversidade e a globalização como
possibilidade.
Para o autor, a globalização como "fábula" (p. 18-19) é o mundo que nos fazem crer.
Tentando mostrar os conceitos e ideologias da globalização atual no sentido de legitimar a si
mesma, é que se constrói um mundo de fantasias com objetivos de validar as construções
imaginárias que configuram, sustentam e eternizam o sistema. Estas verdades se concretizam
a partir das constatações e do uso eficaz das repetições. Neste sentido, faz uma crítica às
idéias difundidas mundialmente: aldeia global ­ que nos faz crer que a difusão instantânea das
noticias faz todos terem as informações; encurtamento das distâncias ­ que nos fazem crer
que todos podem viajar; tempo e espaço contraídos, que nos faz acreditar que o mundo todo
está ao alcance de todos, são entre outros, exemplos da "máquina ideológica que sustenta as
ações preponderantes da atualidade [...] e põe em movimento os elementos essenciais à
continuidade do sistema" (p.18).
O segundo mundo considerado por Santos é o da globalização como "perversidade"
(19-20). É o mundo como se apresenta de fato, onde as conseqüências para a maior parte da
população tem sido adversas, se estabelecendo como uma "fábrica de perversidades",
caracterizadas por males sociais, morais e espirituais: crescente desemprego, pobreza
crescente; desvalorização salarial, fome, desabrigo, novas doenças e o reaparecimento de
velhas doenças; permanência da mortalidade infantil; aumento do egoísmo, cinismo e
corrupção, e a educação de qualidade se tornando cada vez mais inacessível. Essas são as
inúmeras e progressivas desigualdades e perversidades criadas pela globalização que se diz
integradora e homogeneizadora forçando ou impondo regras e comportamento às pessoas.
Para o autor essa perversidade está ligada aos comportamentos competitivos das "ações
hegemônicas".

19

A globalização como "possibilidade" (20-21) é o mundo como ele realmente pode vir
a ser. Aqui, Santos nos leva a pensar na edificação de um mundo novo, mediante uma
globalização mais humana, assentada nas bases materiais que fornecem a arquitetura da
globalização na atualidade, que pode ser caracterizado pela "unicidade técnica, a
convergência dos momentos, a cognoscibilidade do planeta e a existência de um motor único"
(p.24). A unicidade da técnica é um conjunto de sistemas técnicos que tem como
representante a informação em toda parte do mundo, permeando objetos e ações na sociedade,
não havendo lugares isolados, os acontecimentos locais tornam-se indissociáveis dos globais,
ainda que com diferentes intensidades. A convergência dos momentos é a capacidade de ação
e do conhecimento nos mais diversos lugares, sendo possível saber e conhecer quase que
instantaneamente os acontecimentos mundiais. Essa possibilidade do tempo real, oferecida
nos dias de hoje é apontada por Santos como uma ideologia. O uso do tempo real só ocorre
para uma minoria da sociedade, "por enquanto não é generalizada e veraz porque atualmente
intermediada pelas grandes empresas da informação" (p.28). A cognoscibilidade do planeta é
a possibilidade de conhecer densamente o planeta, abordando o todo e as peculiaridades no
âmbito físico e sócio-cultural, o que torna possível a elaboração de uma concepção de mundo
mais íntegra e detalhada. Essa possibilidade deu-se em função da aliança dos progressos da
técnica com os progressos da ciência. O homem não apenas utiliza o que encontra na
natureza, mas produz novos materiais em laboratório. O motor único é o progressivo processo
de globalização que "dispõe de um sistema unificado de técnicas, instalado sobre um planeta
informando e permitindo ações igualmente globais," (p.29). O motor único é a mais valia
global, alcançada por um sistema capitalista calcado em empresas mundiais, onde a
concorrência se configura cada vez mais voraz e violenta, envolvendo o mundo como um
todo.
O conhecimento do mundo é base para a atuação de empresas globais que demonstram
diferentes interesses por cada área do globo, sendo que o domínio do espaço é uma fonte
fundamental de poder social, o domínio dos espaços e do tempo é um elemento essencial na
busca do lucro (HARVEY,1993). Estas possibilidades técnicas constituem um dado essencial
à produção do sistema capitalista atual, em que o capital se sustenta para edificar a
globalização perversa, entretanto o geógrafo Milton Santos afirma que essas mesmas técnicas
poderão construir um mundo novo, um mundo de negação e superação. Alguns fatores são
considerados pelo geógrafo como indícios do nascimento de uma nova história. No plano
empírico, há existência de uma nova sociodiversidade e a manifestação de uma cultura
20

popular que se apresenta com força. No plano teórico pode-se observar a possibilidade da
produção de um novo discurso, a universalidade passa de um discurso filosófico, para ser o
resultante da experiência ordinária da vida e histórias concretas, "permitindo assim conhecer
as possibilidades existentes e escrever uma outra história" (p.21). Santos traz à tona um
conceito novo de globalização, onde o centro é integração real, social e humanitária, em que
as desigualdades diminuiriam. Deste modo, o ser humano teria a tecnologia e o capital
trabalhando em seu benefício, e não da forma que favorece uma minoria. Nesta conjuntura, o
ponto é discutir uma educação, no caso aqui, uma educação geográfica que leve os indivíduos
à construção dessa nova história e da sua própria história.
Se para Santos (2008) e Straforini (2006) esse período atual da globalização é desigual
e perverso devido ao uso político das técnicas, o que significa dizer que outra globalização é
possível, pois, "técnica e desigualdade não fazem parte, necessariamente, da mesma face da
moeda" (STRAFORINI, 2006, p.43), daí o papel da Geografia em desconstruir essa ideologia
na compreensão do espaço geográfico em sua totalidade, na busca de soluções.
Tendo por base os três mundos acima apresentados, o dilema é como trabalhar
geografia em sala de aula num momento de "aceleração contemporânea" Santos (1994, p.15),
em que os acontecimentos ocorrem em escala global a local. No nível geográfico, essas
acelerações permitem que os lugares sejam permeados por escalas geográficas maiores,
inserindo novos elementos que modificam a organização do espaço geográfico, transformando
as relações entre o homem e a natureza, entre a natureza e o homem e entre o próprio homem.
Apesar da similaridade dos lugares, produzida pela lógica do capital Castrogiovani
(1999) vê essa nova realidade como um período que provoca, entre outros, a perca da
identidade, da identificação com os lugares, das relações entre as pessoas, pois crescem as
relações mediadas pela tecnologia, o que tende a corroborar com o não compartilhamento
entre as pessoas no mundo. Com isso, as especificidades perdem sua identidade
desaparecendo frente aos objetivos do mercado, que é a capitalização universal de tudo e de
todos, com efeito, Harvey (1993, p. 270-271) alude:

Por meio da experiência de tudo: comida, hábitos culinários, música, televisão,
espetáculos e cinema, hoje é possível vivenciar a geografia do mundo vicariamente,
como um simulacro. O entrelaçamento de simulacros da vida diária reúne no mesmo
espaço e no mesmo tempo diferentes mundos. Mas ele o faz de tal modo que oculta
de maneira quase perfeita quaisquer vestígios de origem, dos processos de trabalhos
que os produziram ou das relações sociais implicadas em sua produção.

21

Mediante esta afirmação e como já afirmara acima o geógrafo Milton Santos, é
relevante questionar o trabalho da geografia em sala de aula na busca da identidade do aluno
na sua formação cidadã, num contexto caracterizado pelo encurtamento das distâncias, das
novas e experiências com o tempo e com o espaço, com os novos significados do que é
próximo e distante, momento em que as informações se propagam rapidamente, e na maioria,
carregadas de ideologias e em que lugar não se dissocia do global e vice-versa, em que a vida
se constrói na dinâmica de um mundo globalizado.
Afirmo que este cenário impõe uma implicação diante da educação nos dias atuais. As
crianças já não brincam ao gosto da imaginação, mas, com o que a televisão lhes sugere, com
jogos de computador, entre outros. Em face a essas transformações, faz-se necessário refletir a
respeito das suas conseqüências no ensino de Geografia não apenas em relação aos métodos
de abordagens, mas acerca da importância educativa dos conteúdos e temas a serem
trabalhados.
O mundo está cada vez mais complexo e compreender suas contradições, imposições,
possibilidades e perversidades têm sido um dos grandes desafios aos professores que
trabalham com esta disciplina. A compreensão do novo cenário de fartura informacional que
submerge, motiva e ensinam os indivíduos vem sendo um dos maiores desafios dos
professores e do ensino dessa disciplina. Esse desafio dialoga com Castrogiovanni (1999,
p.82), como trabalhar com o aluno questões relacionadas ao "como ser cidadão, lutar por
direitos, interpretar os deveres, se não forem construídas as representações espaço-temporais
do mundo referencial, onde está inserido mais concretamente o indivíduo?" O desafio também
perpassa no uso de linguagens e tecnologias utilizadas para a análise geográfica, entre elas,
destaco a importância da cartografia na compreensão do mundo.
Neste sentido, corroboram autores como Almeida e Passini (2002, p.15) quando
afirmam que o mapa "é uma representação codificada de um determinado espaço real.
Podemos até chamá-lo de um modelo de comunicação, que se vale de um sistema semiótico
complexo. A informação é transmitida por meio de uma linguagem cartográfica [...]". Para
Castrogiovanni (2000) é uma representação espacial feita de forma social e calcada na
organização dos elementos que compõem o espaço representado. Para Callai (2000) é uma
representação meio mágica de um determinado espaço, sendo até de certa forma
incompreensível, embora seja utilizado pelas pessoas em diversas situações e tarefas.

22

Portanto, o mapa orienta, localiza e informa no sentido de servir como meio de se
obter conhecimentos acerca de diversos espaços geográficos. As representações cartográficas
possibilitam pensar significativamente o conhecimento do espaço geográfico, fornecendo não
apenas para que os alunos compreendam os mapas e aprendam a se deslocar cotidianamente,
mas para pensar os espaços que fogem ao seu espaço vivido e percebido, desenvolvendo tanto
a compreensão sócio-espacial como a realização eficaz de diversas tarefas cotidianas pelos
indivíduos. Para o desenvolvimento da noção espacial dos alunos, autores como Almeida
(2004, 2007) e Almeida e Passini (2002) discutem a importância do estudo da linguagem
cartográfica desde o início da escolaridade, num compromisso de desenvolver uma educação
onde o aluno é sujeito ativo na construção do conhecimento. Nesta direção Nogueira (2002)
defende o trabalho com mapas mentais, de acordo com a autora é um excelente recurso
didático para introdução aos alunos do que é um mapa e das primeiras noções de cartografia.
Assim, partindo das representações sobre o espaço dos alunos, para depois ajudá-los a
entender outras representações sobre o seu e outros espaços. É possível pensarmos o mapas
como um instrumento para um melhor cotidiano, capaz de contribuir para uma nova
sociedade, pois à formação cidadã perpassa o domínio da linguagem cartográfica (ALMEIDA
e PASSINI, 2004).
Outro desafio é a premência de se fazer a seleção dos conteúdos significativos para a
vida dos alunos, o que exige priorizar a "coexistência dramática de tempos dispares 5"
(FREIRE, 2006, p.26), pois o homogêneo não existe, e sim as singularidades dos lugares, são
elas que nos fazem exercer a cidadania.
Esta é a nova espacialidade em que os alunos estão inseridos, portanto, precisa ser
analisada sob a perspectiva da totalidade-mundo e da complexidade inerente a essa
organização espacial e é nesta compreensão que a disciplina de ensino de geografia se insere,
na busca de sua apreensão e explicação, daí a necessidade de trabalhar o local, o mundo dos
alunos, pois há em cada lugar uma peculiaridade, uma identidade que só é possível de ser
compreendida por uma visão dialética do espaço geográfico, capaz de desvendar as
contradições, permitindo a emancipação do sujeito-aluno e o exercício de sua cidadania.
O desafio reside em superar o repasse dos conhecimentos e ensinar a pensar, a buscar
e a construir, dando condições aos alunos de desenvolver sua capacidade crítica, a capacidade
5

Paulo Freire (2006) chama de coexistência de tempos díspares o atraso, miséria, pobreza, fome,
tradicionalismo, consciência mágica, autoritarismo, democracia, modernidade, e pós-modernidade que fazem
parte do mesmo espaço geográfico.

23

de raciocínio, compreendendo a realidade social na qual está inserido, por meio de um método
que analisa a produção do espaço geográfico numa perspectiva crítica, pois, esta busca através
da "observação e da análise do espaço geográfico e da sociedade, compreender os conflitos
sociais, étnicos, culturais, as lutas pelo poder, os problemas econômicos e o caos ecológico do
planeta" (SPEGIORIN, 2007, p.22-23).
A importância social do ensino de geografia está implícita em: Callai (1999a) os
principais motivos para se ensinar geografia está na compreensão do mundo para obter
informações a seu respeito, conhecer o espaço produzido pelo homem e a sua relação com a
natureza, fornecer condições aos alunos para sua formação cidadã. Cavalcanti (2003) o papel
da Geografia na escola é o de formar raciocínios e concepções espaciais, possibilitando a
prática de pensar fatos e acontecimentos constituídos de vários determinantes e de pensá-los
mediante várias explicações, dependendo da conjugação desses determinantes. Straforini
(2006) está na compreensão do presente, mas não como algo parado, estático, mas em
movimento, numa realidade construída pelo homem e numa realidade inserida num todo, na
totalidade, levando a uma transformação social.
Por ser a disciplina que explica o espaço geográfico construído e organizado pela
sociedade seu estudo é fundamental na formação de um aluno cidadão, na medida em que
permite a apropriação desse conhecimento não negligenciando "as particularidades dos
diferentes lugares" (CASTROGIOVANNI, 1999, p. 82), é a partir dessa compreensão crítica
da realidade que surge a possibilidade de uma outra globalização.
Sua importância é indiscutível. Todavia, a geografia aplicada na sala de aula não
corresponde à dinâmica da sociedade. Não possibilita ao aluno usar/aplicar o que aprende na
sua vida prática e por não fazer as mediações entre o científico e o cotidiano é vista por
muitos como "uma disciplina maçante, mas antes de tudo simplória, pois, como qualquer um
sabe, "em geografia nada há para entender, mas é preciso ter memória" (LACOSTE, 2006,
p.21). Não conseguindo formar um entendimento geográfico necessário à sua participação
ativa na sociedade, "após alguns anos, os alunos não querem mais ouvir falar dessas aulas que
enumeram, para cada região ou para cada país, o relevo-clima-vegetação-população [...]" (op.
cit.. p.21), um ensino nestas características, causa distração e formalismo, levando o aluno a
pensar que "Geografia é coisa de professor de... Geografia! Geografia é coisa (só) de
escola!"(KAERCHER, 2000, p.136).

24

Para desfazer esta "cicatriz", estudiosos como Cavalcanti, Pontuschka, Castrogiovani,
Callai, Kaercher, Antunes, Straforini, Castellar, Vlach entre outros se esforçam imensamente
em buscar alternativas de renovação e inovação do ensino de geografia e de alternativas
pedagógicas, conforme apontam muitos artigos, dissertações e teses recentes, mas que ainda
se restringe ás discussões acadêmicas, pouco permeando a sala de aula.
Demonstra-se óbvia, desta forma que o espaço enquanto categoria analítica central da
geografia e lugar, paisagem, região e território como as categorias essenciais na análise
geográfica deve ser apresentada aos alunos do Ensino Fundamental como um arranjo
procedente da complexidade histórica de transformações derivadas das várias atividades
sociais, pois o mesmo desenvolve-se ininterruptamente em nosso cotidiano. A leitura do
espaço pode ser feita por meio desses conceitos, entretanto, há que se considerar as dimensões
de todos os conceitos. Dentro do conceito de lugar contém paisagens, territórios, região e
vice-versa, esta a partir de um enfoque dialético, que põe o homem e sua existência concreta,
no foco da interpretação da sociedade globalizada, buscando uma proposta mais concreta de
construção da cidadania e justiça social. Nesta ótica, comungamos com Spegiorin (2007,
p.23) quando alude que a geografia escolar apoiada na Geografia Critica "é capaz de
promover o diálogo reflexivo com a realidade, desde que, o professor se conscientize do seu
papel de mediador do conhecimento e da importância do espaço geográfico na constituição da
identidade e da cidadania". O que explica a necessidade de metodologia que proporcione ao
aluno tecer análises criticas, relações e interpretações das relações que os rodeiam para refletir
e apreender essa realidade. Esse entendimento também é perpassado pelos PCNs de Geografia
(2001).
Num ensino crítico, "a aprendizagem é um processo do aluno, e as ações que se
sucedem devem necessariamente ser dirigidas à construção do conhecimento por esse sujeito
ativo" (CAVALCANTI, 2000, p.92-93). Nessa perspectiva, o ensino de geografia se preocupa
na compreensão das relações sociedade-espaço, levando os alunos a adquirirem
conhecimentos para compreenderem melhor à realidade, possibilitando a compreensão de sua
posição nas relações da sociedade e com a natureza e as diversas relações que são formadas
na constituição do espaço geográfico no qual faz parte. Cavalcanti (2006, p.34) contribui
dizendo que "o desenvolvimento do pensamento conceitual, que permite uma mudança na
relação do sujeito com o mundo, é papel da escola e das aulas de Geografia".

25

2.2 Contribuições teórico-metodológicas para a geografia na sala de aula

Como afirma Kaercher (2007, p.28) "não existe A Geografia, ou Uma Geografia!",
são muitas as geografias trabalhadas em sala de aula, uma vez que as abordagens atuais
referentes ao conhecimento geográfico no que se refere ao Brasil, advêm de diversas correntes
de pensamento, seja as influenciadas por Vidal de la Blache, seja as contemporâneas.
A Geografia escolar, em sua forma de descrição e com exigência da memorização
foi a mais presente em toda a sua história. Com base em Vesentini (1992, 2004); Guimarães
(2007), Carvalho (1998), Straforini (2006) e nos próprios Parâmetros Curriculares Nacionais
de Geografia (2001) é possível afirmar que na Geografia Tradicional, os estudos referentes
aos aspectos sociais eram "deixados de lado", em detrimento dos aspectos físicos do espaço,
como também a localização de capitais, países, aspectos naturais, o estudo era feito de forma
dissociada dos sentimentos dos indivíduos pelo espaço, pois, o conhecimento do espaço físico
é importante para o aluno conhecer as potencialidades do seu território, o que afasta as
explicações das questões sociais e políticas.
O livro didático era o único recurso de conhecimento, havendo uma desarticulação
dos conteúdos geográficos com a vida dos alunos, assim, o ensino geográfico era descritivo e
enciclopédico. Um ensino que particularizou a realidade, reduzindo-se a descrições dos
lugares, com uso de metodologia fragmentada de observação, descrição e memorização. Não
permite ao aluno a compreensão do mundo em sua totalidade, nem sua participação no
mesmo. Observa-se ainda hoje, resquícios desta prática em sala de aula, no entanto, hoje, as
discussões pautam-se teórica e metodologicamente em abordagens diversas, o que faz
subsistir ao mesmo tempo, formas diferenciadas de ensino, decorrentes da opção teóricometodológica, assim, o ensino de geografia convive com outras tendências geográficas, que
de acordo com Moraes (2005) podem ser classificadas em Geografia Pragmática ou Nova
Geografia e Geografia Crítica.
A minha visão de mundo, explicada com base em Santos (2008) me permite escolher
a corrente teórico-metodológica para o presente trabalho na tendência da Geografia Crítica.
De acordo com Straforini (2006) a palavra crítica diz respeito a uma postura frente à
realidade, frente à ordem constituída, propondo uma transformação da realidade social por
intermédio do saber. A Geografia Crítica concebe o espaço geográfico como espaço social.
26

Com leitura em Pontuschka (1999) e Vesentini (1994) é possível perceber a existência
de diferentes propostas teórico-metodológicas reunidas em torno dessa tendência. Chamamos
de Geografia Crítica a postura crítica "frente à Geografia existente (seja a Tradicional ou a
Pragmática), a qual será levada ao nível de ruptura com o pensamento anterior. [...] uma
postura frente à realidade, frente à ordem constituída". Para Moraes (2005, p.119) a Geografia
Crítica propõe uma análise geográfica que compreenda a realidade espacial na sua essência,
indo além dos aspectos visíveis, e que seja "instrumento de libertação do homem". (op. Cit.,
p.119).
De fato, o conceito de Geografia Crítica apresenta-se pertinente às Geografias que se
contrapõem a Geografia Tradicional enquanto Ciência e ensino. Possuem inúmeras
correntes/tendências, entretanto, convergem para a construção de uma ciência preocupada
com a justiça social e a transformação do mundo atual. Podemos dizer que a Geografia Crítica
corresponde a objetivos e princípios comuns, mas com propostas diversas. Essa unidade
manifesta-se de acordo com Moraes (2005, p.131):

(...) na postura de oposição a uma realidade social e espacial contraditória e
injusta, fazendo-se do conhecimento geográfico uma arma de combate a situação
existente. É uma unidade de propósitos dada pelo posicionamento social, pela
concepção de ciência como momento de práxis, por uma aceitação plena e
explicita do conteúdo político do discurso geográfico. Enfim, é uma unidade ética.
Entretanto, estes objetivos unitários objetivam-se através de fundamentos
metodológicos diversificados.

Percebe-se que a Geografia Crítica mantém uma unidade ética, mas orienta-se
metodologicamente em propostas diferenciadas: "estruturalistas, existencialistas, analíticos,
marxistas (em suas várias nuances), ecléticos, etc." (op. cit., p.131), são orientações teóricometodológicas que orientam as atuais abordagens da Geografia Crítica. Esta diversidade
estimula as discussões, fazendo avançar o debate geográfico e, com efeito, a Ciência
Geográfica e o Ensino de Geografia na atualidade acolhem trabalhos construídos a partir de
diferentes perspectivas.
A Geografia Crítica enquanto denominação que designa todas as atuais tendências
teórico-metodológicas presentes na Ciência Geográfica e na geografia escolar pode ser
classificada a partir de duas grandes perspectivas que de acordo com Braga (2006, p.49-50)
são elas: a Geografia Crítica Marxista e a Geografia Crítica Humanista:

27

Apesar dos vários desdobramentos que sabemos serem ramificações dessas matrizes,
pode-se afirmar que foram elas, as Geografias Críticas Marxistas e Humanistas que,
nas décadas de 80 e 90 do século passado, impulsionaram o que ficou conhecido
como movimento de renovação da Geografia. Em comum, as mesmas possuem o
posicionamento teórico permanentemente crítico em relação as correntes
Tradicionais, consideradas obsoletas quando se pensa nas necessidades dos novos
tempos.

O autor apresenta de forma bastante nítida e sintética, as propostas que melhor
caracterizam essas tendências, desta forma, afirma que a Geografia Crítica Marxista é
constituída por todas as propostas que se valem da Teoria de Karl Marx como referencial
teórico, tendo como destaque na produção desta tendência, autores como Milton Santos, José
William Vesentini, Ariovaldo Umbelino de Oliveira entre outros. A Geografia Crítica
Humanística é composta por tendências com visões mais voltadas à fenomenologia, que
procura apreender o espaço geográfico a partir da própria manifestação do sujeito, tendo o
espaço vivido ou o lugar como referência principal de análise.
Uma característica em comum entre as duas tendências são as "possibilidades da
Geografia e da prática de ensino de cumprirem papéis politicamente voltados aos interesses
das classes populares" (CAVALCANTI, 2003, p.20), como também a crítica contra um
ensino e aprendizagem onde os conteúdos são apenas repassados e a memorização bastante
valorizada. Nas duas tendências, é valorizado um ensino de caráter construtivista, em que o
aluno é o ator principal do processo ensino e aprendizagem. Nessa concepção há uma
valorização do saber do aluno, "esse conhecimento que o professor deve ter da criança é
fundamental para que qualquer tipo de processo educacional possa se desenvolver"
(Rockenbach, 198-?:43) e do seu lugar no processo de construção do conhecimento.
Para Cavalcanti (2006, p.34): "os alunos que estudam essa disciplina já possuem
conhecimentos nessa área, oriundos de sua relação direta e cotidiana com o espaço vivido",
Vlach (2006) e Castrogiovanni (1999) corroboram com esta questão quando afirmam que o
ensino de geografia em sala de aula deve dialogar a partir da realidade de cada aluno e do
espaço vivido, respeitando suas representações e experiências. Dessa forma, o aluno não
apenas constrói os conceitos, como (re) significa-os "a partir da compreensão do particular, do
poder ser diferente nas suas interpretações e mesmo assim fazendo parte do contexto"
(CASTROGIOVANNI, 1999, p. 83).
As discussões teóricas sobre questões pedagógicas em ensino de geografia têm
demorado a "chegar" às escolas, embora já seja possível observar mudanças no processo de
28

ensino e aprendizagem o que representam certo esforço dos professores em adequar a nova
realidade. No tocante às séries iniciais, somente a partir de 1997 com os PCN's é que o ensino
de geografia recebeu espaço tornando-se reconhecida no currículo oficial. Contudo, a
preocupação, na atualidade, perpassa pela sua valorização, que acredito estar relacionada à
prática dos professores que trabalham nessas séries. (essa discussão será mais bem
particularizada no Capitulo IV).
Quanto à pluralidade de propostas epistemológicas que inicialmente começam a se
manifestar com maior vigor nas universidades, o livro publicado recentemente por
Pontuschka (2007) "Para Ensinar e Aprender Geografia" nos brinda com uma coletânea de
textos para subsidiar os professores no exercício docente. Os textos aproximam a produção
acadêmica com o ensino escolar, enfim, são textos que perpassam as atuais abordagens no
âmbito do ensino e aprendizagem em diferentes contextos socioculturais.

2.3 Cidade e ensino da geografia: a construção da cidadania

Recentemente tem-se alastrado em vários países um movimento que busca instituir
uma relação mais intensa na tríade-sociedade, educação e cidade. Esse liame se apóia no
reconhecimento da educação como um processo ininterrupto no decorrer da vida e na
referência a um território onde acontece a aprendizagem. Essa idéia faz alusão de que a vida
nas cidades constitui uma experiência social que tem na criação de valores modernos o seu
ponto crucial. A individualidade, a cidadania, a qualidade de vida, as infra-estruturas (malha
urbana) e o cotidiano se apresentam com novas dimensões sócio-culturais do espaço urbano,
podendo ser esse conjunto uma condição pedagógica para educação da sociedade
(CABEZUDO, p.2004).
A cidade e o espaço urbano apresentam um amplo leque de materialidade e ações que
os tornam elementos educativos, mas não necessariamente educadoras (BRARDA e RIOS,
p.2004). A cidade pode tornar-se educadora quando:

(...) as cidades devem ser consideradas como verdadeiros espaços de aprendizagem,
organizando, sistematizando e aprofundando o conhecimento informal que
adquirimos dela espontaneamente na vida cotidiana (...) Trata-se de aprender a ler a

29

cidade, aprender que ela constitui um sistema dinâmico em continua evolução. Para
isso é necessário ultrapassar a parcela da cidade que constitui o habitat concreto de
cada um. Também significa aprender a lê-la criticamente, a utilizá-la e a participar
de sua construção. (...) A educação tem que assumir a difícil tarefa de compreender e
aceitar a diversidade, já que esta potencializa o enriquecimento entre indivíduos e os
grupos humanos, e evitar que esta se converta em fator de exclusão social. (...)
Dizemos que o cidadão deve aprender as habilidades mínimas para circular pela
cidade, para utilizar plenamente seus meios de transporte e comunicação, para
encurtar os caminhos e localizar-se na intricada complexidade de nossas urbes.

A cidade educadora contém uma trama de espaços pedagógicos formais e informais,
que promovem o estímulo e a concretização da verdadeira cidadania. Vintró (2003), Brarda e
Rios (2004) ao exporem suas concepções acerca da cidade educadora aludem que "a cidade
precisa deixar de ser um simples cenário da ação educativa" (BRARDA e RIOS, 2004, p.30),
para se transformar em uma "cidade como pedagogia" (VINTRÓ, 2003, p.45). Assim sendo, a
incumbência educadora será de todos os agentes que fazem parte da cidade.
A cidade contém uma força educadora devido às trocas e contatos sociais, que
ocorrem intensa e permanentemente, além das relações concretas e simbólicas que se
desenvolvem nela. Essa relação entre o viver na cidade e o constante aprendizado do ser
humano é teorizada profundamente por Bernet (1997) e Brarda e Rios (2004). Os autores
afirmam que o meio urbano se relaciona com a educação e vice-versa por meio de três
dimensões: aprender na cidade, aprender da cidade e aprender a cidade.
O aprender na cidade versa suas instituições, experiências, relações e recursos como
um contexto/meio educativo:

Uma estructura pedagógica estable formada por instituciones especificamente
educativas (formales e não formales). 2. Uma malla de equipamientos y recursos,
médios e instituciones ciudadanas también estables pero no especificamente
educativos. 3. Um conjunto de acontecimientos educativos efímeros u ocasionales. 4.
Uma masa difusa pero continua y permanente de espacios, encuntros y vivencias
educativas no planeadas pedagógicamente (BERNET, 1997, p.17).

Por meio de inúmeras instituições formais e não formais de educação e cultura
existentes na cidade torna-se possível aprender na cidade, assim, ela constitui um
contexto/meio educativo, ou seja, "dotada de recursos educativos" (BRARDA e RÍOS, 2004,
p.42).
O aprender da cidade credita ao meio urbano a posição de agente educador: "Lãs
ciudades ensenan directamente: Elementos de cultura; Formas de vida, normas y actitudes
30

sociales; Valores y contavalores; tradiciones, costumbres, expectativas..." (BERNET, 1997,
p.17). Nesta dimensão, a partir das informações, da cultura, formas de vida, tradições,
costumes e expectativas entrelaçadas no meio urbano a cidade é uma transmissora, uma
agente informal de educação, gerando a aprendizagem a partir do seu uso.
O aprender a cidade é considerar a própria cidade como conteúdo educativo: "La
ciudade se enseña a sí misma de forma: superficial; parcial; desordenada; estática" (BERNET,
1997, p.17). Esta terceira relação se refere à cidade como um conjunto de conteúdos
educativos "que operam materialmente produzindo acontecimentos educativos diversificados
e ricos em experiências de construção coletiva" (BRARDA e RÍOS, 2004, p.41), estas, no diaa-dia ensinam a si mesmo sobre si mesmo.
Em que pese esse aprendizado acontecer de forma natural ele é limitado, pois acontece
de forma parcial e superficial, pois a cidade é complexa e mantém um emaranhado de
relações e interações, o que torna impossível compreendê-la em sua totalidade. Neste sentido,
Bernet (1997) recomenda que a escola interfira na compreensão sobre a cidade por meio de
abordagens criticas. É aqui que ressalto a importância do ensino de Geografia em considerar a
cidade enquanto conteúdo educativo, ajudando os alunos a entenderem a sua cidade, esta
enquanto uma totalidade complexa, uma realidade mutável, onde atuam diversos e diferentes
agentes, lugar de contato entre as diferentes pessoas, por isso assinalado por conflitos. Deste
modo, promoveria uma cidade mais educadora.
Está pesquisa encaminha-se nesta direção, pois discuto questões sobre a cidade que
são de relevante importância para a constituição da cidadania e, no entanto poucas vezes são
trabalhados pela geografia em sala de aula.
A cidade tem e vem despertando interesse de cantores, poetas, pesquisadores e
intelectuais das diferentes áreas do conhecimento científico. É certo que o interesse dá-se por
ser a cidade um espaço privilegiado de produção e reprodução do trabalho, do capital, da
cultura e outras dinâmicas desencadeadas em seu espaço.
A palavra cidade deriva da palavra civis, de origem latina que quer dizer cidadão,
pessoa livre que se apropriou de um espaço, de um lugar, de uma cidade, destarte, é uma
comunidade política onde os cidadãos se autogovernam, e nesta, o cidadão participa do direito
de cidade, em sentido amplo (GADOTTI e PADILHA, 2004). Entretanto esse conceito de
cidadão da cidade era limitado a poucos, notadamente em Roma onde a cidadania não era um

31

direito dos escravos, e ainda o é em pleno século XXI, onde há um aumento da pobreza e
diversas privações sociais.
Os dicionários e os livros didáticos em sua maioria a definem de forma bastante
simples, basicamente como lócus de centralização de pessoas, não enfatizando a sua dinâmica
e seus processos históricos. É inegável que é espaço de centralização da força de trabalho,
contudo, o que define a cidade é primeiramente a existência de uma divisão social e territorial
do trabalho. A cidade é a forma, é a materialização das relações sociais (SANTOS, 1997;
CAVALCANTI,

2002;

LEFEBVRE

2001).

A

Cidade

e

urbano

formam

uma

interdependência, o que não significa dizer que são sinônimos, no entanto, com leitura em
Santos (1994, p.69) "o urbano é frequentemente o abstrato, o geral, o externo. A cidade é o
particular, o concreto, o interno".
Assim, cidade é um conjunto de edifício e habitação, é o lugar geográfico onde se
abriga a estrutura político-administrativa da sociedade. O urbano é o processo de
uniformização do estilo de vida da sociedade, generalizando um modo de viver, do trabalho,
da cultura e relações políticas, estas, ligadas a um pensar, sentir e agir na lógica capitalista. O
fenômeno urbano não se restringe à dimensão física da cidade, mas articula fatores
econômicos, culturais, sociais que se manifestam na forma da cidade. Pode-se inferir, a partir
desta distinção que a vida urbana apresenta as relações sociais que extrapolam fisicamente a
cidade é o conteúdo, e a cidade é um espaço de materializações de modos de vida, formador
de sentidos e de identidade, é a forma.
A cidade é um espaço geográfico que expressa as relações sociais, culturais e
econômicas, por isso, seus objetos/elementos, suas ações, modos, formas/configurações e
funções são diferenciados, na medida em que, os indivíduos que compõem a sociedade são
heterogêneos. Mas ao mesmo tempo "é o espaço do cidadão, de suas idéias, emoções, lutas e
contradições" (CAVALCANTI, 2001, p.136). Para Granell e Vila (2003) e para Cavalcanti
(2001) a cidade tem sido historicamente um espaço de encontro e de civilização, estando
ligada desde seu surgimento ao conceito de cidadania, que vem de cidadão que deriva do
latim "civitas", que se denota cidade.
Considerando as principais características das tendências geográficas denominadas de
Tradicional, Crítica e Humanista-Cultural, a cidade é assim entendida:

32

Na Geografia Tradicional por seu método positivista, o espaço é trabalhado na
perspectiva naturalista, privilegiando a observação, assim, essa tendência de acordo com
Souza (2007, p.3):

Não privilegiou a produção e reprodução do espaço urbano num movimento
dialético pela sociedade. Com isso, ocorreu um abandono por parte dos geógrafos
sobre a questão social da produção do espaço urbano, somente privilegiando o
aspecto visível da cidade, ou mesmo, a questão física deste, não buscando a essência
da formação do espaço geográfico.

Na tendência crítica, nos estudos marxistas, a cidade aparece como espaço onde as
desigualdades sociais se apresentam com maior evidência, e onde a cidade como construção
humana nos revela todo o processo de formação/reprodução da vida. A cidade é, portanto,
construção social, produto da história dos homens, onde a partir da paisagem, esta nos
revelará todo o processo de materialidade do trabalho humano, acumulado na história da
humanidade durante diversas gerações (SOUZA, 2007). Na geografia crítica é possível, a
partir da cidade, a análise das contradições das relações de classe. Neste sentido Carlos (2001,
p.78) afirma que "Essa contradição se manifesta pelo contraste entre a riqueza e a pobreza. É
no urbano que se manifestam mais claramente as relações de produção capitalistas e onde a
violência se faz maior. [...]".
Na perspectiva da Geografia Humanística, a cidade é valorizada em suas relações
sociais a partir do lugar e do cotidiano do indivíduo, onde partindo das relações que ele tem
com seu espaço de vivência, com seu lugar de pertencimento, de espaço concebido, passa a
ter este espaço como lócus da produção/reprodução da vida em sociedade.
No tocante a cidadania, seu conceito encontra-se na Grécia antiga, em que consistia
no direito da pessoa compartilhar decisões nos destinos da cidade. Entretanto, apenas parte da
população decidia os destinos de toda a cidade, restringindo aos homens livres e adultos e
proprietários de terras, sendo excluídos os escravos, mulheres e artesãos, crianças e
estrangeiros, ou seja, estes não eram considerados cidadãos, o que enfraquecia a idéia de
cidadania.
Atualmente, a idéia de cidadania é a existência em sociedade, que respeita os
direitos e efetiva os deveres de todos. Ser cidadão é, grosso modo, aquele que exerce seus
direitos e cumpre com seus deveres. Os direitos podem ser divididos em civis referentes à
liberdade de ir e vir, de imprensa, de pensamento, de religião, entre outros; o direito político é
33

aquele de votar e ser votado, e também o direito social, aquele de acesso à educação, à saúde
e habitação. Já os deveres são aqueles para com o Estado e os outros cidadãos; ou seja, pagar
seus impostos, não depredar os espaços públicos e respeitar o espaço das outras pessoas
(FREITAS, 2007).
A cidadania só pode ser exercida se o indivíduo "(...) usufruir os bens materiais
necessários para a sustentação de sua existência física, dos bens simbólicos necessários para a
sustentação de sua existência subjetiva e dos bens políticos necessários para a sustentação de
sua existência social" (SEVERINO, 1994, p.98). Precisamos atentar para o fato de que a
cidade capitalista reproduz o capital e a divisão social do trabalho, e neste contexto, uma
grande massa de indivíduos fica excluída ou não exercem plenamente a cidadania, por outro
lado, o capitalismo se sustenta da penúria, da necessidade, da miséria, e das desigualdades,
ficando os mais pobres á margem do direito à cidade. Complacente à argumentação são as
ponderações de Canclini (1995, p.22), explorando a idéia de cidadania também como
processo cultural:

Ser cidadão não tem a ver apenas com os direitos reconhecidos pelos aparelhos
estatais para os que nasceram em um território, mas também com as práticas sociais
e culturais que dão sentido de pertencimento, e fazem com que se sintam diferentes
os que possuem uma mesma língua, formas semelhantes de organização e de
satisfação das necessidades.

A questão da Cidadania não traz à baila apenas a satisfação dos direitos que levam à
igualdade, mas aqueles que se reportam à diferença como componentes também da
democracia, incluindo direitos à igualdade e à diferença, sendo que na primeira, os indivíduos
devem desfrutar dos mesmos direitos, prerrogativas, condições e perspectivas, pois, a nosso
ver, a correta e justa equidade, presenteia as mesmas oportunidades a todos, pois a igualdade
convive com diferenças e não desigualdades, o que supõe considerarmos as pessoas diferentes
como iguais independentemente do gênero, opção sexual, nacionalidade, etnia, raça, crença
religiosa, como também na forma de pensar, sentir e agir.
A idéia de cidadania desde sua gênese fez e faz um convite a uma vida mais
eqüitativa e democrática, longe da fome, guerra, violência, ignorância, preconceito e
discriminação e mais próximo à educação, moradia, saúde, qualidade de vida e meio ambiente
e do respeito aos diferentes povos e culturas.

34

Em síntese, cidadania é o direito de ter uma vida digna, de ser homem e mulher
plenamente. É ter direitos civis, políticos e sociais, no seu sentido mais amplo, cidadania
versa desde o ato mais próximo ao indivíduo6 ao mais complexo, como compartilhar das
decisões que dizem respeito ao lugar ao qual pertencemos. Enquanto pessoas estão alheias às
necessidades básicas de sobrevivência "teremos que conviver com um espaço sem cidadãos"
(SANTOS, 1996, p.44), assim, não se pode falar em cidadania.
Nos dias contemporâneos a cidadania é um elemento essencial de análise. Muitos
autores defendem-na como a única forma de intervenção social. Seria a partir dela que se
chegaria há uma reformulação social. Assim para entender e intervir em determinados espaços
somente uma conscientização do indivíduo e a sua prática como cidadão ativo da sociedade.
Neste sentido Cavalcanti (2001, p.23) entende que:

A prática da cidadania inclui a competência para se fazer a leitura da cidade. Ser
cidadão é exercer o direito de morar, de produzir e de circular na idade; e exercer o
direito a criar seu direito à cidade é cumprir o dever de garantir o direito coletivo à
cidade. A idéia de cidadania ativa esta ligada ao pensamento crítico sobre os tipos de
direitos mais convencionais ao pensamento que busca a incorporação de direitos
ligados mais a grupos humanos que indivíduos

O conceito de cidadania parece prático e revolucionário, mas na realidade é limitado.
Quem de fato exerce os direitos do cidadão, o civil, o político e o social? Quem é livre para ir
e vir e possui liberdade? Quem possui direito à boa educação, saúde e habitação? É óbvio que
são aqueles que podem pagar por eles, ou seja, um pequeno grupo social. Porém, todos nós
temos o dever, sobretudo, de pagar os impostos. Destarte, concluiu-se que não há cidadania
para todos. Mesmo com essa limitação a cidadania é o termo que mais está na moda
atualmente. Mas a grande propagação desse conceito parte da educação e de algumas
disciplinas da escola, como a geografia. Assim, valho-me da colocação de Santos (1996, p.7)
"a cidadania, sem dúvida, se aprende", para o autor, um componente fundamental da
cidadania é a conquista. É preciso que os indivíduos excluídos, negados, esquecidos das áreas
periféricas, homens lentos das áreas opacas, (SANTOS, 1996) e que existem para as leis do
mercado, do mundo globalizado, e apesar de carente das condições basilar para o
desenvolvimento da cidadania, visem à mobilização política. A luta emerge da consciência
6

Não jogar lixo na rua, não pintar muros, respeitar os sinais e placas, respeitar as diferenças entres os indivíduos,
não destruir bens públicos, usar muito obrigado, perdão, desculpe, por favor, entre outras, saber lidar com o
repúdio e a exclusão dos desprovidos, entre inúmeras dificuldades que afrontamos em nosso cotidiano.

35

pelo direito a cidade e a cidadania e os caminhos para tal está intrinsico a educação.
Obviamente que não estamos afirmando que essas transformações são responsabilidades da
escola, é certo que não cabe apenas à escola realizar a transformação da sociedade, no
entanto, sem que a educação escolar seja praticada de forma democrática, a sociedade
demorará muito mais para mudar.
É neste caminho que o ensino de Geografia ganha relevância, conhecer o espaço
geográfico, é conhecer o emaranhado de relações existentes no mesmo, como nossa própria
relação com o mundo, com a cidade, com o bairro, com a casa, fazendo com que o indivíduo
se reconheça enquanto ser social.
Tal perspectiva abre um campo de possibilidades para que o ensino de geografia possa
ser desenvolvido com melhor criticidade teórico-metodológica. O ensino de geografia vem
passando por um movimento de renovação, buscando avançar, desvendar e (re) elaborar seus
pressupostos e fundamentos. Não se trata de abandonar uma alternativa em favor de outra,
mas de manter e atualizar valores clássicos e ao mesmo tempo criar novos conceitos, num
momento histórico que exige novas formas de abordagem e compreensão do mundo. Assim, o
que o ensino de geografia "procura garantir, hoje, como objeto de estudo, é a análise da forma
pela qual o homem se apropria, produz e organiza seu espaço" (NUNES, 1997, p.19), sendo a
cidade como expressão concreta desse misto de transformações estruturais e sociais.
Um ensino renovado e crítico não consiste apenas num novo conteúdo, mas numa
mudança de estratégias pedagógicas, em que o aluno encontre utilidade na vida prática, na
reflexão sobre o mundo, permitindo que "se perceba como participante do espaço que estuda,
onde os fenômenos que ali ocorrem são resultados da vida e do trabalho dos homens e estão
inseridos num processo de desenvolvimento" (CALLAI, 1999a, p.8).
Paulo Freire (2006) afirma que ao chegar à escola já tinha uma rica experiência do
seu mundo imediato, estas pela sombra da mangueira do seu quintal, o qual não foi rompido
após a sua entrada na escola. Se é no ambiente familiar que a criança inicia a sua leitura de
mundo, é também nas relações cotidianas da sua rua, do bairro, da cidade, das informações
midiáticas que esse indivíduo vai se moldando, é na escola que o aluno encontra as bases para
a interpretação das relações sociais de forma metodológica e organizada. Essa leitura do
mundo, que em Paulo Freire (2006) antecede a leitura da palavra, tem no ensino de geografia,
e no estudo da cidade, do lugar, do espaço vivido, o foco inicial para o sujeito se vê no
mundo, enquanto sujeito consciente e produtor, também, de parte de sua vida, de sua história,
36

como se houvesse um misto de objeto e sujeito. Entender a geografia do cotidiano pode
permitir o diálogo entre a ciência e o senso comum, o compreendido e o vivido.
Certeau (apud GIL E GIL JUNIOR, p.2008), considera que a geografia do cotidiano é
a geografia do modo de ser, fazer, representar, numa visão do olhar das pessoas que vivem,
passam ou habitam um bairro de uma cidade. Pelo fato do seu uso habitual, o bairro pode ser
considerado como a privatização progressiva do espaço público. Ou seja, é o estudo do
mundo vivido.
Cotidiano é relativo a aquilo que é habitual ao ser humano, que está presente na
vivência do dia-a-dia. A Geografia do cotidiano é o estudo do mundo vivido pelo indivíduo
ou um pequeno grupo, no meio urbano é nos bairros o lugar onde ocorrem as relações entre as
pessoas, de formas distintas entre os grupos sociais. Cada indivíduo vivência o "seu
cotidiano" de modo específico e com uma diversidade de visões pré-elaboradas que são
representadas através de ações cotidianas. "A prática de um bairro favorece a ocupação do
espaço urbano, o público acaba se tornando o privado devido à trivialidade cotidiana
partilhada pelos usuários (GIL e GIL JUNIOR, 2008).
Na prática da sala de aula, essas colocações aqui apresentadas se materializam na
problematização de temas que envolvem a realidade dos alunos, exemplo a população que
vive na cidade (Quem são? O que fazem? De onde vem?); organização das classes sociais que
vivem na cidade; lugar (meio). O que não significa um estudo estanque, linear e fragmentário,
uma vez que o mundo globalizado, não supõe um espaço linear e contínuo, mas um espaço de
relações, ao contrário, ao estudar a cidade deve-se considerar o espaço local e a sua posição
nas demais escalas, ou ainda, a cidade não precisa ser sempre o ponto de partida, mas sim,
como afirma Callai7, "devemos ter o lugar como referência para o estudo em geografia".

2.4 Ensinar e aprender Geografia

Para Libâneo (2008, p.81) "Ensino e aprendizagem são duas facetas de um mesmo
processo", o que não significa dizer que são a mesma coisa. Apesar de serem diferentes na
prática educativa, tem-se a ideia de que são a mesma coisa.
7

Citação fornecida por Helena Copetti Callai na mesa redonda sobre: Educação com o tema "As políticas no
campo curricular e o ensino de Geografia no XV Encontro Nacional de Geógrafos-ENG em São Paulo.

37

De fato pode haver ensino sem aprendizagem e aprendizagem sem ensino. Na sala de
aula, pode ocorrer de o professor ensinar, por exemplo, sobre as eras geológicas e os alunos
não aprenderem o que ele ensina, como também uma criança pode aprender sobre os impactos
do lixo urbano e das queimadas, sem que alguém tenha a ensinado.
Ensinar e aprender são processos diferentes e que envolvem sujeitos também
diferentes: aluno e professor.

O ensino visa estimular, dirigir, incentivar, impulsionar o processo de aprendizagem
dos alunos. [...] o ensino tem tarefa principal de assegurar a difusão e o domínio dos
conhecimentos sistematizados legados pela humanidade. [...] A aprendizagem é a
assimilação ativa de conhecimentos e de operações mentais, para compreendê-los e
aplicá-los consciente e autonomamente (LIBANEO, 2008, p.90-91).

Deste modo, por envolver processos e sujeitos diferentes, requer igualmente métodos
diferentes. As estratégias que o professor vale-se para trabalhar os conteúdos são diferentes do
que o aluno usa para aprendê-los. O professor preocupa-se em reconstituir os autores
consultados, buscar uma relação entre os acontecimentos, encontrar exemplos, entre outros
recursos disponíveis. O aluno busca fazer associações com nomes ou acontecimentos
conhecidos ou busca estabelecer relações mentais entre o exposto e seu conhecimento prévio.
No sistema educacional é trivial acontecer o ensinar sem que se manifeste em
aprendizagem. Os professores ensinam, mas os alunos não aprendem. O problema é que há
uma lacuna entre a informação que se ensina nas escolas e a informação que é efetivamente
registrada, processada e aprendida pelos estudantes. No processo educativo a insuficiência de
motivação, interesse, atenção, concentração, compreensão, adicionada ao fato de que nem
tudo interessa a todos da mesma maneira, alguns motivos pelos quais cada indivíduo
seleciona, prioriza, registra e fixa a informação que recebe.
Tradicionalmente a educação tem centrado em torno dos métodos de ensino e não
de aprendizagem, entretanto, as discussões atuais estão finalmente fixando sua atenção na
aprendizagem, ou seja, no ponto de vista do aluno, pois este possui uma história de vida que
deve ser levada em conta no processo de aprendizagem. Nesta perspectiva, um ensino de
geografia que leve o aluno a participar ativamente da construção do espaço como propõem
Kozel e Filizola (1996), demanda uma preocupação pedagógica que leve o aluno a formar os
conceitos, e não recebê-los prontos, o que tem levado muitos estudiosos investigar como
ocorre a aprendizagem. Nas tendências da educação atual podemos destacar a corrente
38

piagetiana e a abordagem histórico-cultural, baseada nas idéias de Vygotsky. Ambas as
teorias vêm contribuindo para que o ensino de Geografia se renove, alcançando outras
nuances.
A busca por um apoio teórico no que tange o como ensinar e aprender geografia
levou-me a priori, a certos conflitos entre Piaget e Vygostky. Entretanto, algumas leituras
mais aprofundadas a cerca desses dois teóricos trouxeram-me a percepção de que este último
desempenha um papel relevante ao processo de aprendizagem geográfica, notadamente aos
objetivos propostos por este trabalho.
Piaget desenvolveu a teoria Epistemologia Genética. À luz desta teoria o
conhecimento vai se construindo, na medida em que, as estruturas mentais e cognitivas se
organizam. A aprendizagem nessa concepção só ocorre mediante a consolidação das
estruturas de pensamento, portanto a aprendizagem sempre se dá após a consolidação do
esquema que a suporta, da mesma forma a passagem de um estágio a outro estaria dependente
da consolidação e superação da anterior.
Para Piaget, o desenvolvimento mental se dá por meio de uma seqüência de fases que
acontecem sempre na mesma ordem, cada fase pressupondo sua anterior, dessa forma, não é
possível pular etapas, assim, subordina a aprendizagem ao desenvolvimento, pois, considera
que cada fase obedece a uma determinada estrutura do pensamento e um conhecimento novo
só é assimilado a uma estrutura existente. Aplicando esta teoria ao ensino e aprendizagem
escolar, significa dizer que o ensino deve amoldar-se ao estágio de desenvolvimento atual do
aluno.
Neste sentido, Miranda (2005) afirma que os professores, muitas vezes, amparados na
teoria piagetiana, ficam esperando os alunos passarem de um nível ao outro, pressupondo que
o desenvolvimento intelectual se dá "espontaneamente", tecendo uma crítica a concepção de
desenvolvimento da criança proposto por Piaget. Leontiev afirma que:

É o conteúdo da atividade principal orientadora do desenvolvimento da criança que
define os seus estágios e não as idades. E o conteúdo da atividade orientadora do
desenvolvimento é social, cultural, histórico e definido pelo lugar da criança nas
relações humanas; esse lugar depende das condições concretas, sócio-históricas, em
que se dá o desenvolvimento da criança (LEONTIEV apud MIRANDA, 2005).

39

Com base neste entendimento, e com a realidade visível da sociedade em que vivemos
com crianças cercadas de toda infra-estrutura e lazer, shopping-center, livros, cinemas, teatro,
escolas particulares e que passam a trabalhar somente após a formação superior, e no outro
extremo, crianças que são obrigadas a trabalhar antes mesmo de entrarem na escola, Miranda
afirma que é difícil aceitar a tese de que as crianças se desenvolvam com o mesmo ritmo e
sucessão de estágios. "Temos aí condições concretas diferentes e desiguais de
desenvolvimento infantil determinadas pelas condições históricas e sociais e pelo lugar que a
criança real, concreta, e não abstrata, ocupa nas relações humanas em que está inserida em seu
meio sócio-histórico" (MIRANDA, 2005).
Isso leva-me à reflexão, pois o cotidiano da sala de aula é marcado pela complexidade
dos processos de ensino/aprendizagem e pelo intercâmbio entre os diversos sujeitos que
conhecem, produzem, reproduzem e compartilham conhecimentos mediados pela cultura.
Straforini (2006, p.105) afirma que um dos "pontos de discordância de Vygotsky
(1999) referente à obra de Piaget reside na hipervalorização que este último dá ao indivíduo
em detrimento do social, ou ainda, nessa necessidade de o indivíduo atingir determinado
estágio autístico (inato) para a construção de conceitos mais abstratos". Para Vygotsky o
desenvolvimento é desencadeado numa dialética das interações com o outro e com o meio.
Daí as pesquisas em ensino de geografia diretamente voltadas ao contexto intra-escolar, em
contato direto com os alunos, como de Straforini (2002, 2006), Paulo (2006), Miranda (2005),
Cavalcanti (2003), entre outros, que fundamentam-se teórica e metodologicamente nas
abordagens socioconstrutivistas, rompendo com as abordagens piagetiana.
Neste sentido, Pinheiro (2003, p.174-175) pesquisou sobre a trajetória da pesquisa
acadêmica sobre o ensino de Geografia nos programas de pós-graduação no Brasil no período
de 1972 a 2000, e verificou que "na década de 90, os estudos sobre formação de conceitos,
apóiam-se em bases teórico metodológicas educativas, como o socioconstrutivismo de
Vygotsky".
A teoria de Vygostky é construída tendo por base o desenvolvimento do indivíduo
como resultado de um processo sócio-histórico, destacando o papel da linguagem e da
aprendizagem nesse desenvolvimento, sendo essa teoria considerada histórico-social. Esta
teoria concede o desenvolvimento humano a partir das relações sociais que a pessoa
estabelece no decorrer da vida. Nesse referencial, o processo de ensino e aprendizagem
também se constitui dentro de interações que vão se dando nos diversos contextos sociais.
40

Aqui, desenvolvimento e aprendizagem não são independentes nem seguem caminhos
paralelos, mas sim, "estão inter-relacionados desde o primeiro dia de vida da criança"
Vygostky (1998, p.110). É o aprendizado que possibilita e movimenta o processo de
desenvolvimento, sendo também, de acordo com Cavalcanti (2005, p.194) "importante
elemento mediador da relação do homem com o mundo, interferindo no desenvolvimento
humano". O pensador russo atribuía à escola e ao professor um relevante papel no
desenvolvimento da criança.
Vygotsky (1998) compreende o desenvolvimento da criança por meio do nível do
desenvolvimento real e a zona de desenvolvimento proximal. O nível do desenvolvimento
real é o "nível de desenvolvimento das funções mentais da criança que se estabeleceram
como resultados de certos ciclos de desenvolvimento já completados" (p.111), ou seja, as
tarefas que a criança já é capaz de realizar sozinha; e a ZDP-zona de desenvolvimento
proximal que corresponde "à distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma
determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento
potencial, determinado através da solução independente de problemas sob a orientação ou em
colaboração com companheiros mais capazes" (op. cit., p.112), são as funções em processo de
formação, as tarefas que a criança ainda não domina, contudo pode realizá-las com ajuda de
outra pessoa. De forma bastante simples o autor compara o nível de desenvolvimento real de
uma criança, com funções que já amadureceram, e a ZDP define as funções que estão em
estágio embrionário, mas que estão em processo de maturação.
Em Vygostky a aprendizagem acontece no intervalo entre o conhecimento real que é a
distância existente entre o que o sujeito já sabe e o conhecimento proximal, que é aquilo que a
criança tem potencialidade de aprender. O autor com base em estudos de crianças em idade
pré-escolar desenvolvido por McCarthy, afirma que "aquilo que é a zona de desenvolvimento
proximal hoje, será o nível de desenvolvimento real amanhã" (op. cit., p.113), no futuro
imediato a criança será capaz de realizar sozinha o que antes realizava com ajuda de outros.
Partindo dessa teoria entendo que o processo de ensino e aprendizagem escolar cria
ZDP e põe em movimento processos internos de desenvolvimento que não seriam acionados
espontaneamente. O ensino, atuando na ZDP, proporciona novas aprendizagens, transforma o
desenvolvimento imediato ou potencial em desenvolvimento real e cria nova ZDP,
provocando o desenvolvimento.

41

O desenvolvimento cognitivo e o processo de ensino e aprendizagem são concebidos
por Vygostky como processos que se formam nas e pelas relações sociais produzidas pelos
homens. Para o autor, o indivíduo aprende, desenvolve o pensamento e se humaniza
apropriando-se das formas culturais de comportamento do seu meio social, entendendo o
desenvolvimento cognitivo como parte do desenvolvimento cultural da criança. Neste sentido,
o trabalho escolar com a ZDP está diretamente relacionado com o entendimento do caráter
social do desenvolvimento humano, levando em conta as mediações histórico-culturais neste
contexto. Vygostky destaca a importância do ensino e da aprendizagem escolar orientar-se
pelo que ainda está em processo de formação no desenvolvimento intelectual dos alunos.
Assim, o ensino promove o desenvolvimento intelectual quando exige capacidades que ainda
não desenvolveram, mas que estão desenvolvendo.
O referencial teórico apresentado até o momento me leva a confirmar o que há muito
venho questionando, partir do que o aluno já sabe, do conhecimento que ele traz do seu
cotidiano, suas idéias sobre o mundo na construção do conhecimento. Com base em
Vygostky, no processo de construção dos conceitos (conhecimentos) geográficos requer
considerar que o aluno ao formar seus conceitos, "vai fazê-lo operando com os conceitos do
cotidiano e os conceitos científicos" (CALLAI, 2000, p.103). Os alunos não são uma "lousa
limpa" na qual o professor pode escrever o que quer que o aluno aprenda. É neste sentido que
ganha relevância a concepção sociointeracionista de Vygostky no ensino de geografia,
notadamente na questão da formação de conceitos, que me permite compreender que essa
formação não é realizada a partir de coisa nenhuma, do nada, mas apoiado nos significados já
construídos na mente. Esta base é para Miras (1996) o que possibilita a construção de novos
significados e conhecimentos.
É interessante ressaltar que os experimentos realizados por Vygotsky revelaram que os
"conceitos começam a ser formados desde a infância, mas só aos 11, 12 anos que a criança é
capaz de realizar abstrações que vão além dos significados ligados às suas práticas imediatas"
(CAVALCANTI, 2005, p.196). A autora afirma que neste processo tem importância a
experiência do aluno com seu conjunto histórico e cultural, é esse contexto que "vai
colocando as circunstâncias em que, "pela atividade intersubjetiva do sujeito, [...] ocorre a
apropriação de significados da linguagem que, por sua vez, forma conceitos desse sujeito".
(op. cit., p..196). Assim, a assimilação de significados depende da atividade e da participação
dos indivíduos no contexto.
42

A formação de conceitos passa por um longo caminho, percorrendo três estágios
diferentes: a dos conglomerados vagos e sincréticos de objetos isolados, pensamento por
complexos e a formação dos conceitos. Neste processo a construção dos conceitos acontece
de fora (inter-pessoal) para dentro (intrapessoal), ou seja, são construções culturais
internalizadas no alongado processo de desenvolvimento dos indivíduos. Os conhecimentos
construídos na experiência pessoal, concreta e cotidiana das pessoas, Vygostky chamou
conceitos cotidianos ou espontâneos e os elaborados na sala de aulas, conseguidos através do
ensino sistemático, ele chamou conceitos científicos. Não obstante diferentes, ambos estão
relacionados e se influenciam reciprocamente, uma vez que fazem parte, de fato, de um só
processo: o desenvolvimento de formação de conceitos, que são para Vygostky (1993, p.50):

[...] resultado de uma atividade complexa em que todas as funções intelectuais
básicas tomam parte. No entanto, o processo não pode ser reduzido à associação, à
atenção, à formação de imagens, à inferência ou às tendências determinantes. Todas
são indispensáveis, porém insuficientes sem o uso do signo, ou palavra, como o meio
pelo qual conduzimos as nossas operações mentais, controlamos o seu curso e as
canalizamos em direção à solução do problema que enfrentamos.

De acordo com o autor os conceitos são indispensáveis para que o indivíduo conheça o
mundo, como também uma "habilidade fundamental para a vida cotidiana. [...] porque ajudam
as pessoas a categorizarem o real, a classificá-lo, a fazer generalizações" (CAVALCANTI,
2002, p.36). Portanto, que ele permite uma modificação na relação cognitiva do indivíduo
com o mundo. Neste processo a escola tem papel relevante. Deste modo, um conceito não é
aprendido através de um exercício mecânico, e obviamente, também não pode ser uma
simples transmissão: professor/aluno. Nesse ponto de vista, o ensino escolar exerce um papel
significante na formação dos conceitos científicos.
Perante o exposto, é preciso repensar o processo ensino e aprendizagem com intensa
valorização dos conteúdos, e da secundarização do papel do aluno em detrimento ao papel do
professor neste processo, com conteúdos pouco articulados com a realidade do educando,
além do que, a memorização é vista como uma das estratégias mais dinâmicas de
aprendizagem. Os experimentos de Vygotsky me levam a considerar o papel ativo do aluno,
atribuindo uma expressiva importância a seus conhecimentos, e o seu cotidiano, tomando-o
como ponto de partida para as novas aprendizagens, formação de conceitos geográficos, uma
vez que "os alunos que estudam essa disciplina já possuem conhecimentos geográficos
oriundos de sua relação direta e cotidiana com o espaço vivido" Cavalcanti (2005, p.198),
43

pois, diariamente circulam e brincam no entorno de sua casa, bairro, trabalham pela cidade,
constroem seus lugares, produzem seu espaço e demarcam seus territórios de identidade, com
isso, estão produzindo geografia.
Tais considerações sobre o ensino de Geografia exigem um professor mediador entre
os alunos e os conteúdos, por meio de intervenções pedagógicas intencionais, provocadoras e
desafiadoras. O que demanda do professor um trabalho sistemático e constante de confronto
com os conhecimentos cientificamente elaborados com os conhecimentos prévios dos alunos.
Buscamos em Kaercher (2000) alguns caminhos metodológicos nas atividades de sala
de aula para um ensino conforme apontado acima:
Ouvir os alunos - sem diálogo há apenas repasse da informação, não havendo ato
educativo. Ninguém aprendeu a escrever ou andar de bicicleta apenas ouvindo ou vendo,
aprendemos com os erros.
Sistematizar as discussões e idéias levantadas - ouvir e induzir as discussões
fazendo provocações e propondo novos temas indo além de assuntos imediatistas, todavia, é
preciso organizar e sistematizar a fala dos alunos, registrando para a mesma não se perca, o
professor tem o papel de aprofundar as discussões trazidas pelos alunos, evitando-se a frase,
hoje não tivemos aula, só conversamos.
Provocar dúvidas ­ sistematizar é condição primeira para a provocação. Registrar no
caderno ou no quadro a fala e as perguntas dos alunos, estas também são conteúdos. Um
exemplo, por influências sociais, é trivial que nossos alunos digam que os "desempregados
são vagabundos", então provocamo-los perguntando: todos são vagabundos? Por que não
querem trabalhar? É importante incitar a dúvida e fazer com que o aluno elabore sempre
novas hipóteses e faça relações.
Sistematizar as dúvidas e descobertas ­ sistematizar as discussões que surgem a
partir das provocações. Novas leituras são necessárias para evitar a reprodução do que já
sabem. A partir da análise crítica e do registro, a argumentação e o raciocínio vão ganhando
maior consistência.
Produzir surpresas ­ torná-los ansiosos para a aula seguinte, seja através de bons
temas e pela utilização de novos recursos pedagógicos.
Com efeito, nessas perspectivas, o professor faz as mediações no processo de
formação do aluno, ao ajudá-lo a ver, compreender, expressar e descobrir, levar os alunos a
44

uma consciente leitura do mundo, contribuindo com sua formação cidadã. Estas intervenções
pedagógicas dialogam com Lerner (1995, p.120) quando afirma que ensinar é "promover a
discussão sobre os problemas colocados, é oferecer a oportunidade de coordenar diferentes
pontos de vista, é orientar para a resolução cooperativa das situações problemáticas. [...] fazer
com que as crianças coloquem novos problemas que não teriam levantado fora da escola".
Para que isso de fato possa ocorrer, o professor tem que ter recursos metodológicos
adequados, saber como ocorre a aprendizagem, quais os fatores que podem facilitar ou
dificultar esta atividade e verificar a aprendizagem de seus alunos.
O ensino "é um processo composto por objetivos, conteúdos e métodos e esses
componentes articulam-se numa proposta de ensino" Cavalcanti (2002, p. 22). Assim, não
basta dominar a matéria, os conteúdos, é preciso situar-se frente os objetivos da educação
geográfica, o que exige reflexão sobre os conteúdos e os procedimentos a serem trabalhados
no desenvolvimento desse processo, o qual requer um desejável perfil de professor, que de
acordo com Pontuschka (2007, p. 27-28) precisa:


Dominar o conhecimento historicamente produzido no âmbito da ciência de
referência e da disciplina a ser ensinada, reconhecendo o significado social que a sua
profissão possui e o papel que a geografia cumpre na formação dos alunos;

Saber atuar, individualmente ou em grupo, com criatividade, flexibilidade e
cooperação com seus alunos e companheiros de profissão;

Comprometer-se com a construção de seu conhecimento mediante a
preocupação contínua de articular teoria e pratica, sabendo que sua formação como
profissional professor não se esgota com os conhecimentos adquiridos nos cursos de
licenciatura;

Ter como princípio a interação entre pesquisa e ensino e permitir que o
processo investigativo esteja sempre presente, articulado aos conhecimentos já
produzidos historicamente e a realidade do aluno.

Nota-se que, o professor precisa conhecer e saber lidar com as diferentes linguagens e
incorporá-la ao seu saber fazer, estar atento às dinâmicas sociais, transpondo-as didaticamente
no âmbito escolar, o que se revela imprescindível, o contato do professor com a pesquisa, pois
os conteúdos por ele trabalhados, são construções fundamentais na pesquisa científica. A
autora ressalta ainda que para uma boa atuação o professor deve ir além do domínio
geográfico, precisa ter conhecimento de psicologia da aprendizagem, psicologia social,
história da educação, história da disciplina geográfica, linguagens e métodos a serem

45

empregados em sala (PONTUSCHKA, 2005). Seu papel é mediar e problematizar o processo
educativo na construção de aprendizagens significativas.
O conceito de aprendizagens significativas foi proposto pelo teórico David Ausubel8.
A teoria se baseia no conhecimento prévio do aluno, dialogando com a perspectiva de ensino
e aprendizagem na concepção vygotskyana. Para o psicólogo o conteúdo escolar precisa
interagir com os conceitos existentes na estrutura cognitiva do aluno, pois ao contrário ocorre
a aprendizagem mecânica. A seguir apresento um exemplo de aprendizagem significativa,
segundo Ausubel extraído do livro Antunes (2001, p.29):

- Renata, repita, agora que a aula está chegando ao fim, quais as 12 palavras que eu
disse logo após entrar em sala. Lembre-se de que eu solicitei que você procurasse
guardá-las na memória, portanto, sem anotar.
- Esqueci, professor. Eram palavras muito difíceis. Sei apenas que uma delas era a
palavra "cravoritru" ou algo parecido...
- Vamos agora tentar com o Ricardo. Repita, agora que a aula está chegando ao fim,
as 12 palavras que eu disse logo após a aula se iniciar. Você também não poderia
anotá-las.
- Isso é fácil, professor. O senhor falou: "hoje é um dia de Sol e eu gostaria de estar
pescando".
- Parabéns! Você deu um "banho de memória" na Renata. Decorou e aprendeu
facilmente suas 12 palavras, ao passo que sua colega não conseguiu.

Este exemplo deixa claro o que vem a ser uma aprendizagem significativa,
"processo pelo qual uma nova informação se relaciona de maneira não arbitraria e substantiva
à estrutura cognitiva do aprendiz" (ANTUNES, 2001, p.30), significa dizer que o
conhecimento a ser aprendido, precisa fazer algum sentido para o aluno, o que acontece
quando a nova informação "ancora-se" nos conceitos já existentes na estrutura cognitiva do
indivíduo. Neste processo, a nova informação interage com uma estrutura de conhecimentos
específica, a qual Ausubel define como conceitos subsunçores, existentes na estrutura
cognitiva9 do indivíduo.
Antunes explica que quando o aluno não aprende de forma significativa, como no
exemplo da aluna Renata, há aprendizagem mecânica ou automática, e que essa
aprendizagem não leva à construção do conhecimento, destarte, aluno não pode valer-se de
tais ensinamentos como instrumentos de conhecer, fazer, viver e ser.

8
9

Estrutura cognitiva significa uma estrutura hierárquica de conceitos na mente do indivíduo.

46

É inegável e notória a importância dessas referências para o ensino e aprendizagem da
geografia escolar, notadamente nas séries do Ensino Fundamental onde o universo vocabular
do aluno no tocante a determinados conceitos ainda é bastante reduzido, portanto, sem muitas
relações com o mundo real do aluno, os conteúdos, a explicação do professor torna-se
bastante abstrata e sem coerência para o aluno, levando a uma aprendizagem mecânica.
O estudante de Geografia, infelizmente ainda vê o conhecimento geográfico como
algo pouco significativo nas suas necessidades cotidianas, daí a relevância de Ausubel, ao
apresentar uma aprendizagem que tenha como ambiente uma comunicação eficaz, conduzindo
o aluno a imaginar-se como parte integrante desse novo conhecimento através de elos, de
termos familiares a ele. Neste sentido, para que haja aprendizagem significativa o professor
necessita trabalhar na sala de aula, no sentido de fazer associações e contextualizações
(ANTUNES, 2001).
Dependendo da série em que o aluno se encontre ainda não terá formado determinados
conceitos, e ao apresentar a definição de clima, como no exemplo de Antunes, não saberá o
significado de "conjunto", "fenômeno", "meteorológico", etc., tornando-se tão confusas
quanto as impostas a Renata. Daí o papel das associações. No ensino de um conceito, o
mesmo poderá ser substituído por outro mais explícito ou decodificado e traduzido para os
alunos "com base nos saberes presentes na estrutura cognitiva e no universo vocabular do
aluno" (op. cit., p. 2001, p.32). Também tem papel importante a contextualização dos temas,
fazendo o aluno "sentir-se no espaço e no tempo que analisa, promove significações que
permitem uma construção mais sólida do conhecimento". (op. cit., p.33).
Toda essa questão abre para uma agenda de pesquisa, em que a interface - cidade,
sujeitos e educação - convergem no ensino de geografia. Esse campo de investigação
apresenta-se extremamente fecundo às elaborações, podendo compor novas agendas de
intervenção pedagógica. Nesta direção e embalada pelo entendimento de Vygostky de que o
indivíduo aprende porque ele se desenvolve, é que insisto na tese de que é no
encontro/confronto da geografia da cidade, da dimensão do espaço vivido por eles, com a
dimensão da geografia científica, que se constrói o conhecimento geográfico - formação de
conceitos - e que se tem a possibilidade de uma geografia educadora com vistas à
transformação do cotidiano vivido. Esta confrontação será os fios com os quais os alunos
tecerão a teia do conhecimento.

47

3 O CONTEXTO DA PESQUISA

A presente pesquisa se desenvolveu na cidade de Alta Floresta D'Oeste no estado de
Rondônia, em duas Escolas Públicas Estaduais: E.E.E.F.Tancredo de Almeida Neves e
E.E.E.F. Eurídice Lopes Pedroso. Localização geográfica Figura 04.
A partir de observações semanais nas escolas e de documentos oficiais e
pedagógicos foi possível conhecer o cotidiano das instituições pesquisadas, bem como, seus
limites e dificuldades, no intuito de ser um dos subsídios para um melhor entendimento da
geografia que se ensina e se aprende nessas escolas (Figura 03).
Dados comparativos
Localização
Início das atividades
Número de Salas
Número de turmas
Modalidades de ensino
Alunos
Corpo docente
Idade-série dos alunos
Renda familiar até 1 salário
Renda familiar entre 1 e 4 salários
Renda familiar acima de 5 salários
Biblioteca
Quadra
Oficina de artes
Sala de Coordenação Pedagógica
Cantina
Sala de TV escola
Computador uso burocrático
Computador uso professores e alunos
Refrigerador de ar
Aparelho de DVD
Aparelho de Som
Filmadora
Aparelho de TV
Ventilador
Data show
Retro projetor
Acervo literário
Projetos desenvolvidos em 2007

Escola Tancredo
Princesa Isabel
1985
11
19
CBA II a 8ª série
446
22
7 a 30 anos
33%
52%
1%
Inadequada
Sem cobertura
Inadequada
3
2
1
1
2
36
1
Parco
"Amigos do trânsito", "Uma
leitura puxa a outra"

Escola Eurídice
Centro
1983
11
21
CBA I a 9ª série
583
29
6 a 17 anos
13,50%
81,20%
5,30%
Inadequada
Com cobertura
1
Inadequada
1
1
3
3
9
1
4
1
2
70
1
1
Bom
"Noite cultural", "Tom da
Amazônia"

Figura 03: Dados sociais, econômico e geográfico das escolas pesquisadas.
Fonte: Trabalho de campo nas escolas Tancredo e Eurídice. Alta Floresta D'Oeste, 2007.

48

Figura 04: Localização geográfica das escolas.

49

3.1 Perfil das escolas

3.1.1 Escola Tancredo de Almeida Neves

A Escola está localizada no bairro Princesa Izabel na Avenida Alta Floresta, nº. 2978,
fundada em 1985, como extensão da Escola Estadual de Ensino Fundamental Eurídice Lopes
Pedroso.
A grande maioria dos alunos desta escola reside nas contigüidades da mesma. Neste
ano de 2007 possui 446 alunos matriculados entre os turnos matutino e vespertino, com
modalidades de ensino de CBA II a 8ª série do Ensino Fundamental. O espaço físico da escola
passou por uma reforma no ano de 200610, contudo, a "falta de espaço" constitui hoje o maior
empecilho para o desenvolvimento do trabalho escolar. A estrutura do prédio comporta os
alunos, entretanto, não há salas para biblioteca, vídeo, orientação, coordenação pedagógica,
laboratório de informática e de aprendizagem, cantina.
Biblioteca, orientação, supervisão e sala de leitura dividem o mesmo espaço. Dado
ao importante papel do bibliotecário num ambiente escolar, esta não conta com pessoa
especializada para atender aos alunos11 e o espaço também é utilizado como pequeno
laboratório de pesquisa para uso dos alunos. A biblioteca conta com um parco acervo literário,
que excluindo o livro didático, são poucas as bibliografias que servem para apoio pedagógico
de professores e nas pesquisas dos alunos. No que tange o ensino de Geografia, os livros
didáticos são insuficientes ao número de alunos, com poucos mapas, sendo a grande maioria
desatualizados, com apenas um globo e um Atlas.
As palestras, reuniões e apresentações didáticas acontecem no refeitório da escola,
uma vez que a mesma não tem auditório. A escola possui uma ampla e confortável sala dos
professores, adequada ao desenvolvimento de suas atividades. Como recursos didáticos a
10

Destaco que no período de formulação do projeto para a presente pesquisa, esta escola, era a única que ainda
não havia recebido reforma, queremos chamar atenção aqui, para o fato de que todas as outras Escolas da Rede
Estadual de Ensino receberam reformas ainda no governo do José Bianco, porém a escola Tancredo situada em
"bairro periférico" foi contemplada somente no ano de 2006, e esta com algumas limitações, pois a mesma não
contemplou a cobertura da quadra de esportes.
11
O trabalho bibliotecário é realizado por duas funcionárias de apoio, pois a mesmas encontram-se
impossibilitadas de realizarem serviços de acordo com o seu contrato. Essa troca de serviços é uma constante nos
serviços públicos, pois os mesmos após anos de trabalho pesado acabam perdendo sua saúde, e acabam
realizando outras atividades que nem sempre lhe são compatíveis com suas habilidades e formação, o que acaba
refletindo na qualidade de uma boa escola.

50

escola conta com aparelhos de vídeo, DVD, televisão, som, mas, não há espaço físico
adequado para os mesmos, também possui retro-projetor, entretanto, este não é utilizado por
falta de espaço e operacionalidade.
As aulas de complementação pedagógica são ministradas no pátio, no refeitório, à
sombra das árvores, causando transtornos ao processo de ensino e aprendizagem, pois são
nesses mesmos ambientes que acontecem as aulas de Educação Física em razão da falta de
uma quadra poliesportiva coberta.
O quadro de professores no momento está completo, contudo, Artes, Educação
Religiosa e Ciências são disciplinas ministradas por profissionais de outras áreas. O número
de funcionários é satisfatório, no entanto, a escola enfrenta dificuldades devido a alguns
funcionários apresentarem limitações de saúde, obrigando-os a ficarem readaptados em outras
funções.
De acordo com o projeto pedagógico da escola, 33% dos alunos são provenientes de
famílias que recebem até um salário mínimo, e 52% recebem menos que quatro salários
mínimos, e apenas 1% recebem salário maior ou igual a cinco salários mínimos. Pode-se dizer
que este é um fator gerador das grandes dificuldades presentes nesta escola, pois em sua
maioria não pode contar com o apoio da família para compra de materiais escolares, os pais
recebem alguns auxílios, mas os mesmos são insuficientes para atender às necessidades reais
dos educandos, existe ainda, casos de famílias que não gastam os auxílios recebidos para
comprarem materiais escolares para a criança, atribuindo à escola a obrigação de fornecer
todo material necessário ao aluno, neste sentido, muitos alunos deixam os estudos e dedicamse ao trabalho para ajudar nas despesas basilares da casa.
Mais um obstáculo enfrentado pela instituição é o baixo nível de escolaridade dos pais,
dificultando o ingresso no mercado de trabalho, onde muitos procuram serviços na zona rural,
e boa parte leva seus filhos sem comunicar à escola, outros deixam com parentes ou terceiros,
o que acaba interferindo na aprendizagem dos alunos (Projeto Político Pedagógico, 2007).
Esse processo sazonal ocorre, sobretudo, em função das colheitas de café e feijão,
acentuando-se entre os meses de maio a julho.
A escola desenvolveu dois projetos no ano de 2007: Amigos da Vida, e Uma leitura
puxa a outra. Os dois trabalhos foram desenvolvidos envolvendo todos os alunos da escola.
O projeto Amigos da Vida desenvolveu um trabalho em defesa da sociedade e ao
cidadão alto florestense. A temática foi perpassada por todas as disciplinas da grade curricular
51

no decorrer de uma semana, de acordo com o projeto, os conteúdos deveriam contemplar a
realidade cotidiana de Alta Floresta D'Oeste. Encontramos um ponto bastante positivo na
metodologia aplicada em sala de aula para o desenvolvimento desta temática, como: (I)
pesquisa bibliográfica em revistas, jornais, internet, etc.; (II) produção de trabalhos escritos,
pesquisa de campo; (III) confecção de mural e de desenhos; (IV) palestras educativas com
alunos e comunidade; (V) blitz no trânsito com os alunos, equipe gestora e professores; (VI)
desenhos e pintura no muro da escola referente ao trânsito; (VII) confecção de maquetes;
(VIII) caminhada com os educandos e educadores, ressaltando a importância do trânsito; (IX)
exposição de meios de transporte e sua evolução; (X) dramatização de músicas; (XI) teatros.
É possível verificar que o projeto foi desenvolvido com participação direta dos
alunos, a figura 05 mostra o envolvimento dos mesmos nas mais diversas atividades, sendo
uma semana onde os assuntos relacionados ao trânsito foram trabalhados de forma
interdisciplinar.

Figura 05: Projeto Amigos da Vida
Fonte: Trabalho de campo, Alta Floresta D'Oeste em 2007.
Foto: Acervo da Escola Tancredo de Almeida Neves.

52

Uma leitura puxa a outra foi outro projeto desenvolvido no ano de 2007, tendo como
atores principais os alunos de 7ª a 8ª séries, entretanto, o projeto envolveu indiretamente todos
os alunos de CBA II a 8ª série do Ensino Fundamental, sob a direção da professora Maria
Lucia. O projeto justifica-se por ser a prática da leitura um fator de extrema importância na
vida do ser humano, sendo a grande mola propulsora, capaz de proporcionar ao indivíduo a
sua ascensão; tanto do ponto de vista social, cultural, educacional e profissional. Diante disso,
o objetivo geral do projeto foi despertar no aluno o interesse pela prática da leitura, a
descoberta do prazer ao praticá-la e, futuramente, reconhecer na mesma, a sua importância
como elemento de transformação social. A metodologia para o desenvolvimento do projeto
consistia em trabalhar de forma interdisciplinar, envolvendo as disciplinas de Artes,
Literatura, Português e História. A Figura 06 mostra algumas das atividades desenvolvidas.

Figura 06: Projeto Uma Leitura Puxa a Outra.
Fonte: Trabalho de campo na escola Tancredo. Alta Floresta D'Oeste, 2007.
Foto: Acervo escola Tancredo de Almeida Neves.

De acordo com o projeto, os procedimentos seriam para as aulas de Língua
Portuguesa: visita à biblioteca municipal com objetivos de colher dados de autores e obras
para seleção de livros para serem adquiridos pela escola; exposição dos gêneros literários;
seleção de leituras a serem realizadas; visita às turmas de CBA a 6ª séries para realização de
leituras; roda de leitura monitorada por professores e alunos da 7ª e 8ª séries (uma hora em
cada turma); hora da leitura (duas horas), vídeos (reprodução de obras literárias); leitura de
jornais e revistas; pesquisas na internet; roda de leitura; leitura compartilhada; reprodução
53

pelos alunos da 3ª à 6ª séries referente aos textos lidos e ouvidos; leitura de contos, fábulas e
poesias semanalmente na rádio local da cidade feita pelos alunos.
Na disciplina de TLR ­ Técnicas de Leitura e Redação, as atividades foram: audição
de vários gêneros textuais para sensibilização e debate; leitura de textos da Literatura
brasileira (poema, contos, crônicas, romances e outros); leitura de revistas e jornais; pesquisas
na Internet; roda de leitura; leitura de jornais e revistas; leitura compartilhada.
Disciplina de História: comparação cronológica das narrativas, abordando o
contexto histórico dos períodos literários; dramatização dos diversos gêneros textuais; jornal
falado (mudança e permanência no contexto histórico relacionado à leitura); apresentação do
jornal falado para outras séries; produção de texto informativo sobre a revolução da leitura no
contexto histórico; mural informativo (curiosidades sobre o contexto histórico da leitura).
Artes: pesquisas em livros, revistas e internet; roda de leitura; leitura compartilhada;
ilustração textual; dramatização dos diversos gêneros textuais; audição de canções de
"músicas popular brasileira".
Após o trabalho desenvolvido perpassando as disciplinas acima citadas, houve
apresentação do produto final por meio de uma tarde cultural oferecida à comunidade escolar,
com apresentação dos trabalhos, teatros e dramatizações extraídos da coletânea literária e
distribuição dos textos informativos sobre a evolução da leitura no contexto histórico para a
comunidade escolar.

3.1.1 Escola Eurídice Lopes Pedroso

A escola localiza-se no bairro Centro na Avenida Mato Grosso, foi fundada no ano de
1983. Atualmente possui uma estrutura física, diria até suficiente ao número de alunos. A
passarela de entrada e saída no ambiente escolar é rodeada com jardim, este cuidado pelos
alunos. Pelo projeto político pedagógico o maior percentual dos alunos desta escola mora em
suas imediações.
Neste ano de 2007 a escola comporta 583 alunos que estão distribuídos de acordo com
a implementação do Ensino Fundamental de 9 anos, conforme o disposto no Artigo 7º da
Resolução. 131/06, CEE/RO de 14/12/2006 a 9ª série, o que trouxe um reordenamento do
54

curso em cada série. Assim, quando nesta escola nos referirmos ao 6º e 7º ano, estamos nos
referindo às antigas 5ª e 6ª séries, o qual por falta de espaço físico e de alunos, ainda não foi
implementado pela Escola Tancredo.
A biblioteca, a sala de leitura e a coordenação pedagógica dividem o mesmo espaço,
porém, a biblioteca é "bem sortida, mas nada relevante às literaturas geográficas. Os livros
que compõem os armários da biblioteca são adquiridos em sua maioria pela própria
instituição, através de eventos e projetos (estes realizados com grande apoio direto e indireto
da comunidade escolar) e com os recursos da cantina.
Apesar da boa estrutura, a escola não possui sala de informática. Mas possui dois
computadores para uso dos professores na preparação de suas aulas, e também divididos com
a coordenação pedagógica e com os alunos, mas de acordo com a vice-diretora são poucos os
alunos que usam o computador da escola, uma vez que um grande número de alunos dispõe
de computador em casa ou se reúnem em grupos na casa dos que possuem esse recurso para a
realização das atividades escolares.
Por emprestar suas instalações para a Escola Luiz Vaz de Camões ­ Supletivo no
período noturno, a sala dos professores torna-se pequena, uma vez que comporta armários
para uso dos professores das duas instituições, tornando-a inadequada a um bom planejamento
dos professores. A sala do diretor é mais um depósito de objetos, que uma sala para receber e
desenvolver as atividades que lhe cabe. A escola possui uma videoteca com aparelhos como
TV, vídeo, aparelho de som e aparelho de DVD, também possui retro-projetor e oferece
algumas salas com climatizador de ar.
O quadro de professores está completo, porém, constatei que nas duas escolas há um
paradoxo entre a grade curricular e a formação acadêmica dos profissionais, pois, não há
profissionais formados na área de Artes e Educação religiosa, entretanto, de acordo com a
Legislação vigente, estas disciplinas compõem o currículo escolar da 6ª a 9ª séries. Cada uma
com suas especificidades teóricas. Artes é mais que pintar e desenhar e Educação Religiosa
não é uma religião, como habitualmente presencio no meio escolar12, ambas visam a educação
plena do aluno, no caso específico desta última, trabalha com formação de valores
fundamentais da existência humana, respeitando a liberdade de cada um. Nesta escola

12

No que tange as disciplinas em comento, como também, Ciências e Geografia, é uma constante nos deparamos
nas Escolas Públicas desta cidade, tais disciplinas serem trabalhadas por outros profissionais, em sua maioria
Pedagogos, o que vem ocorrendo, devido a escassez de profissionais nas áreas acima citadas.

55

também faltam pessoas para os serviços de apoio, como merendeira, zeladora, orientadora e
supervisora, estas últimas, atendem a todos os 584 alunos da escola, de CBA I a 9ª série.
Por falta de um local adequado às atividades extra classes, como as apresentações,
palestras ou oficinas, estas acontecem no pátio escolar, na quadra esportiva, quando esta não é
ocupada pelos alunos da Educação Física, o que se torna cansativo para os alunos ficarem em
pé, quando as cadeiras são levadas ao local, perde-se um bom tempo e a agitação é total.
Quanto ao quadro socioeconômico das famílias dos alunos desta escola, percebe-se
que 13,5% da família dos alunos vivem com menos de um salário mínimo, ao passo que
81,2% vivem com um a quatro salários mínimos. E 5,3% das famílias vivem com mais de
cinco salários mínimos
Merece destaque também o projeto Noite Cultural13, desenvolvido pela segunda vez
nesta escola, cuja temática trabalhada neste ano de 2007 foram às cinco regiões Brasileiras. O
projeto consistia em trabalhar as diferentes culturas regionais do estado brasileiro. Com este
propósito, cada professor ficou responsável juntamente com uma turma de alunos a trazer de
diferentes formas as especificidades e identidade das cinco regiões do Brasil, podendo ser
alimentação, veste, dialeto, dança, clima, fauna, flora, cultura, relevo, entre outros.
O projeto levou cerca de dois meses para ser pesquisado e desenvolvido pelos
alunos juntamente com o professor responsável. As pesquisas deram-se em internet, revistas,
livros didáticos e no diálogo com as pessoas oriundas de determinadas regiões. O produto
final consistiu em apresentações culturais desenvolvidas pelos alunos para a comunidade
escolar. (Ver Figura 07).
Nesta busca das especificidades regionais a cidade de Alta Floresta D'Oeste ganhou
destaque através do resgate da formação e a história do município que por meio de
compilação de fotografias antigas e atuais, cartazes, maquetes e fotos, destacando os
principais elementos culturais que compõem o município, foi possível, tanto por parte dos
alunos das séries iniciais, responsáveis pelo trabalho como pela comunidade escolar, conhecer
melhor a história do município da qual fazem parte, sendo possível pensar nas transformações
sócio-espacial que o espaço geográfico de Alta Floresta vem sofrendo.

13

Convém destacar que este trabalho foi desenvolvido sem um projeto escrito, entretanto, a organização, a
metodologia e as atividades desenvolvidas não ficaram comprometidas sem o mesmo, desenvolvendo-se de
forma clara e com a participação de todos os alunos e professores.

56

Figura 07: Projeto Noite Cultural
Fonte: Trabalho de campo na escola Eurídice. Alta Floresta D'Oeste, dezembro de 2007.
Foto: Acervo da Escola Eurídice Lopes Pedroso.

O projeto Tom da Amazônia desenvolvido pela professora Érika no ano de 2007
envolveu alunos de CBA I a 9ª série, tendo como objetivo educar para o Desenvolvimento
Sustentável e Valorização da Cultura Indígena da Região. O trabalho justifica-se na
contribuição de uma maior reflexão dos alunos na busca de formar cidadãos conscientes,
aptos a decidir e atuar na realidade sócioambiental, desenvolvendo a consciência critica e
mais comprometida com o bem estar de cada um e da sociedade local e global, contribuindo
para reflexão sobre os problemas que afetam a vida do aluno e de sua comunidade, além das
diferentes escalas, além do resgate da cultura indígena e sua preservação futura.
O projeto tinha por finalidade o desenvolvimento de atividades teóricas e práticas de
forma interdisciplinar com alunos do Ensino Fundamental. A metodologia para o
desenvolvimento da proposta referente às séries iniciais consistia em retomar o projeto
57

Guardiões do Meio Ambiente no espaço escolar14, passeios de observação e atividades que
possibilitem mudanças de atitudes com o meio ambiente, leitura escrita e rescrita de textos
envolvendo o tema, principalmente em relação à água. Para os alunos de 6ª a 9ª séries. A
metodologia consistia em: atividades referentes ao tema Amazônia, abordando aspectos sócioambiental do ecossistema, dando ênfase ao desenvolvimento sustentável e a cultura indígena
local da região Amazônica; Água, Ecologia dos Ecossistemas, Histórias de Ocupação,
Amazônia Urbana, áreas protegidas, economia local e regional.
Convém destacar que o projeto não pode ser realizado na íntegra, uma vez que a
professora ­ autora do projeto passou por certas dificuldades em relação à saúde, não podendo
envolver-se plenamente conforme os procedimentos propostos, entretanto, algumas atividades
foram realizadas (Figura 08).

Figura 08: Projeto Tom da Amazônia.
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste, 2007.
Foto: Acervo da escola Eurídice Lopes Pedroso.

14

Projeto desenvolvido em anos anteriores, com os alunos das séries iniciais, onde toda semana um pequeno
grupo vestia um jaleco verde tendo por finalidade cuidar do pátio escolar durante o recreio, no sentido da não
depredação do espaço escolar.

58

As atividades desenvolvidas foram: (I) Conhecendo uma indústria de cerâmica; (II)
palestras na escola referente ao desmatamento, queimadas, reciclagem de lixo, uso de
agrotóxicos; (III) receita de sabão para o aproveitamento do óleo saturado de origem
doméstica; (IV) viveiros de mudas de árvores como cibipiruna, ipê roxo e amarelo, onde as
primeiras mudas foram plantadas pelos alunos da escola em ruas não arborizadas no bairro
Redondo e o restante foi distribuído entre os alunos para plantar em suas residências.
A estrutura física, materiais didáticos e pedagógicos estão mais disponíveis e acessíveis
na escola Eurídice, proporcionando maiores condições ao desenvolvimento do processo
ensino e aprendizagem. Na escola Tancredo o contexto geográfico, social, econômico e
político interfere no trabalho do professor e no processo de aprendizagem dos alunos. As
verbas destinadas à compra de materiais didáticos, para uso do professor e dos alunos são
poucas, pois a escola não conta com ajuda financeira de cantina, uma vez que abre e fecha
comercialmente por não dar lucro, então, os professores criam seus materiais, métodos e
estratégias, tornando-se verdadeiros "heróis", e muitas vezes comemoram suas "vitórias",
porém, às vezes, se entristecem aos fracassos provocados ou não pela instituição escolar,
suscitando sentimentos de frustração, descontentamento e aflição, pois não conseguem por em
prática o que planejam, além de enfrentar circunstâncias imprevistas que desestruturam o
trabalho de sala de aula, entre outras coisas.
Esse quadro complexo abordando a realidade das duas escolas, revela a desigualdade
social na cidade, cuja presença de sujeitos dá-se também na apropriação e/ou na reserva de
melhores lugares para a sua afirmação social. Diante destes dados afirmo que mesmo
interligadas no âmbito da rede estadual de ensino, num município, digo, até pequeno, há
diferentes políticas públicas, ou ausências de investimentos que se tem para a educação em
relação às escolas.

59

4 OS PROFESSORES E A CIDADE

4.1 A Geografia do lugar

Alta Floresta D'Oeste tem sua origem na década de 80, a partir de um pequeno
povoado na região onde hoje se localiza a sede do município, mais precisamente no ano 1982,
com a chegada de migrantes da região Sul e Sudeste do país. A formação do município
acompanhou a dinâmica migratória da região e faz parte da terceira geração urbana de
Rondônia. A migração para Rondônia, é decorrente das políticas oficiais de incentivo à
ocupação e às empresas colonizadoras encarregados de divulgar e organizar o processo de
ocupação. Vale salientar que o fluxo migratório para a região amazônica não foi de caráter
espontâneo, mas resultado de uma política oficial do governo militar como estratégia para a
solução dos problemas sociais das regiões Sul e Sudeste e parte da política de integração
nacional de ocupação das regiões de fronteiras (SANTOS, C. 2001).
Inicialmente uma pequena comunidade rural, constituída basicamente de meeiros,
arrendatários ou pequenos proprietários que em busca de uma vida melhor, atraídos pelos
programas governamentais de colonização, escolhem a região em razão das riquezas naturais,
especialmente madeira de lei, da fertilidade do solo e pelos baixos preços das terras. As
famílias pioneiras são: Da Mata, Vieira, Marques, Piovezan, Zequinha, Tomazini entre outras.
Em razão do grande fluxo migratório o distrito preenche rapidamente os requisitos
legais, e é emancipado do município de Costa Marques em 20 de maio de 1986 pela Lei 104,
de 20/05/86 sancionada pelo governador Ângelo Angelim, cujo território foi desmembrado do
município de Costa Marques (ATLAS SEDAM, 2003).
Atualmente Alta Floresta D'Oeste é uma cidade em construção, em pleno
desenvolvimento. Pela Figura 09 é possível perceber as transformações que o espaço
geográfico da cidade vem sofrendo, e num ritmo acelerado se levarmos em consideração que
a cidade foi fundada em 1982.

60

Área urbana início da década de 80
Foto: Hotel Decolores

Área urbana final da década de 90
Foto: Rudinei Sbalchiero

Área urbana meados da década de 80
Foto: Hotel Decolores

Área urbana início de 2000
Foto: Rudinei Sbalchiero

Figura 09: Formação da área urbana do município de Alta Floresta d'Oeste/RO 1980-2000.
Fonte: Trabalho de Campo. Alta Floresta D'Oeste, 2007.

61

O relevo do município faz parte da Chapada dos Parecis, que apresenta um relevo
acidentado, com altitudes médias de 350 metros, possui matas altas e densas, características
que lhe conferem o nome de Alta Floresta D'Oeste. O município localiza-se na região Sul do
Estado de Rondônia, entre as coordenadas geográficas -11° 58' 05" de latitude ao Sul e -61°
57' 05" de longitude ao Oeste e encontra-se a 350 metros de altitude. Apresenta um território
extenso no sentido Sul/Norte. A área do município é de 7.084,5 Km² e encontra-se localizado
a 415 quilômetros da cidade de Porto Velho, capital do estado. Limitando-se ao Norte com o
município de Rolim de Moura e Novo Horizonte D'Oeste e São Miguel do Guaporé ao Sul
com a Bolívia; a leste com o município de Alto Alegre dos Parecis e Santa Luzia e a Oeste
com os municípios de São Miguel do Guaporé e São Francisco do Guaporé.
O clima predominante é o equatorial quente e úmido com temperatura média de 24° C
indo até 38º C a 40º C para as máximas e 18º C para as mínimas. Entre os meses de maio a
setembro a região contempla precipitações médias anuais entre 1400 a 1800 mm, sendo que
na região onde está situada a sede do município a precipitação média anual é de 1700 a 1800
diminuindo no sentido sul.
São distritos pertencentes à Alta Floresta D' Oeste: Nova Geaze D'Oeste, Izidolândia,
Rolim de Moura do Guaporé e Filadélfia regulamentados pela Lei n° 687/04 e Santo Antonio
pela Lei n° 352. O município conta ainda com dois territórios indígenas: Rio Branco
localizado na região noroeste e Massaco localizada na região oeste do município. Às margens
do Rio Guaporé localiza-se o Distrito de Rolim de Moura do Guaporé e também a Unidade de
Conservação - Resex ­ Reserva Extrativista.
A base da economia do município inicialmente foi a extração madeireira, e à medida
que a floresta foi extinta, inicia-se atividades de agricultura e pecuária. O solo de Alta Floresta
D'Oeste apresenta manchas com terras muito produtivas, o que propiciou ao homem se fixar
no campo, o que lhe confere o status de município de base agrícola, com pequenas
propriedades rurais. O período de maio a julho, conhecido como época da safra é a base de
cálculo para mensurar os picos de grande movimentação financeira, concentrando-se
principalmente no café, feijão, milho, mandioca, guaraná, arroz, banana, amendoim, tomate,
inclusive tímida tentativa de plantio de soja. Parte da produção é usada no consumo local e, a
outra para o comércio nacional.
Em que pese a vocação agrícola o móvel da economia do município atualmente é o
setor pecuário, com pequenos e grandes pecuaristas envolvidos na criação de gado de corte e
62

leiteiro, onde parte da produção é destinada ao consumo local e, a outra, apesar de ser
encaminhadas aos frigoríficos da região, o dinheiro retorna promovendo a circulação
monetária no próprio município.
De acordo com o último censo em 2007 a população do município é de 23.857
habitantes, sendo 10.484 habitantes rurais e 13.373 urbanos. Desde sua emancipação o
município foi majoritariamente rural, conforme se pode observar pela Tabela 03, no ano de
1996 a população rural era de 21.675 habitantes para 11.796 na área urbana, ou seja, 64,8 %
da população era residente da zona rural e no ano de 2000 a população rural compunha apenas
53,5 % da população, decrescendo para 43,9 % no senso de 2007.
TABELA 03: POPULAÇÃO ALTA FLORESTA D'OESTE/RO 1996-2000-2007

POPULAÇÃO
Urbana
Rural
Total

1996
11.796
21.675
33.471

2000
12.341
14.192
26.533

2007
13.373
10.484
23.857

Fonte: IBGE, Banco de dados: SIDRA.

Da Contagem da População de 1996 para o Censo Demográfico de 2000 a população
total diminuiu em 6.938 habitantes, e do ano de 2000 para a Contagem da População de 2007
a queda foi de 2.676 pessoas, ou seja, a variação de 1996-2007 foi de -20,73% (Figura 10).

Figura 10: População rural e urbana Alta Floresta d'Oeste- 1996 -2007.
Fonte: IBGE, Banco de dados: SIDRA.

63

Com a diminuição significativa da madeira e o aumento da fiscalização ambiental,
ocorrem mudanças na dinâmica social do município. A diminuição da população é reflexo das
dificuldades econômicas, da insatisfação de pequenos proprietários com seus sonhos
frustrados, que na década de 1980 atraídos pela propaganda oficial migraram para Rondônia,
se deparam com outra realidade, terras improdutivas, os projetos de colonização que existiam
na teoria a grande maioria não foram colocados em prática (LIMA, 2001).
E uma parcela significativa da população de Alta Floresta D'Oeste mais uma vez
migra em busca de vida melhor e terras férteis, em direção principalmente de Buritis - RO,
Bandeirantes - RO e Apui no AM.
A sede do município está localizada na região Norte do município entre as
coordenadas geográficas -11.92° latitude e 61.99° longitude e está dividida em sete bairros:
Centro, Princesa Isabel, Santa Felicidade, Cidade Alta, Tucano, Redondo e Liberdade, todos
criados pela Lei nº 386/98
Uma cidade é construída de acordo com a organização da sociedade e do processo
produtivo, assim, a cidade pode ser entendida como um "conjunto indissociável de sistema de
objetos e de sistemas de ações" (SANTOS, M., 2005, p.166), e esse conjunto de objetos prédios, ruas, redes e as ações - relações, produção, consumo, circulação, revelam as
desigualdades e diferenças que existem neste espaço, sejam elas sociais, culturais, econômicas
ou geográficas. Para Cavalcanti (2001, p.133):

A cidade no capitalismo, é um espaço de reprodução do capital e da divisão social e
técnica do trabalho. É nesse espaço que se revelam as diferenciações de renda e de
classes sociais da população e de grupos, onde o acesso diferenciado aos bens de
consumo coletivo acentuam ainda mais os contrastes entre os ricos e os pobres.

Desta forma, a cidade não foge à regra, é construída de acordo com a organização da
sociedade e do processo produtivo, seu espaço geográfico reflete especialmente essas
diferenças, uma delas está estampada nas moradias, pois as pessoas que tem condições
financeiras procuram morar em lugares tranqüilos, seja ele no centro ou próximo ao centro da
cidade. No caso da cidade em questão, é nos bairros Centro e Santa Felicidade que se
encontram as melhores moradias, são habitações mais caras, pois é o ponto de concentração
tanto das oportunidades quanto de negócio segundo Gottdiener (1997), porém, as pessoas
mais pobres não têm escolha, moram onde suas condições lhe permitirem, no caso, nos

64

bairros periféricos Princesa Isabel e Cidade Alta, conforme Figura 11. É a categoria de
emprego que determinará o tipo de sua moradia (HARVEY, 1980).
Conforme pode-se observar na Figura 11 (ver localização geográfica na figura 04)
as áreas periféricas são desprovidas de infra-estrutura, e apresentam altos índices de violência,
onde os serviços básicos de saneamento, de transporte e onde os espaços de lazer são
geralmente improvisados. Assim, acabam sendo subtraída de boas condições de habitação,
saúde, saneamento, lazer, entre outros (CARLOS, 2005).
Com raras exceções o poder público costuma atuar de forma discriminatória em
favor das áreas "nobres" ou centrais das cidades, não se priorizam as necessidades da
população de baixa renda. Conseqüentemente, a luta pela sobrevivência leva os grupos sociais
menos favorecidos a buscarem saídas improvisadas para atender as necessidades básicas, tais
como habitação e alimentação, conseqüentemente constroem-se espaços fortemente
impactados, especialmente na dimensão sócio-ambiental como mostra a realidade do Bairro
Princesa Isabel (Figura 11).
Corrêa (2002, p.29-31) trata com muita propriedade essa produção do espaço, onde
os grupos sociais excluídos do campo ou de áreas urbanas submetidas à operação de
renovação estabelecem-se em regiões periféricas, sendo esta, uma forma de resistência, e ao
mesmo tempo uma forma de sobrevivência. Os investimentos públicos, geralmente, visam a
garantir a reprodução do capital, seja garantindo infra-estrutura para tal, seja conduzindo o
uso e ocupação do solo urbano. O poder público atua como mediador entre a sociedade e o
capital, gerenciando conflitos que possam interferir na realização do ciclo do capital.
A cidade é um lugar de existência do ser humano com seus díspares modos de vida,
direitos, valores, tradições, crenças, a língua, o modo de se vestir, hábitos alimentares,
religião, ou seja, a cidade é mais que um espaço formado por objetos, é o lugar de existência
das culturas, dando ao homem a capacidade de refletir sobre si mesmo.

65

Figura 11: Diferenciação espacial dos bairros de Alta Floresta d'Oeste
Fonte: Trabalho de campo em Alta Floresta D'Oeste.
Foto: Daise Mazzaroto (Bairro Princesa Izabel), 2006; Sandra Gallo, 2007.

66

Neste município a valorização da cultura ganha corpo através de acontecimentos
consagrados tradicionalmente pela população que aqui reside. A seguir apresento as principais
festas da região.
Festa do Peão Boiadeiro ­ EXPOALTA - Exposição Agropecuária Industrial e
Comercial de Alta Floresta D'Oeste15. Esta é a maior festa do município, conseguindo
reunir a maior amostragem populacional, aglomerando cerca de 8 mil pessoas, vestidos de
cowboys e cowgirls. As pessoas vêm de todos os cantos do município, e dos municípios
vizinhos: Alto Alegre, Santa Luzia, Novo Horizonte D'Oeste, Rolim de Moura, São Felipe,
Nova Brazilândia D'Oeste, Cacoal, entre outros municípios do estado de Rondônia, além de
outros estados Brasileiros.
A festa teve início em setembro de 1988 por iniciativa dos senhores José da Vaca,
Argimiro, Paulinho da Musamar, Celau, Primo do Bamerindos e Paulo Vitorasse, moradores
do município que sentiram a necessidade de momentos de diversão à população que era
bastante "pacata" na época. A primeira festa do peão foi realizada em terreno emprestado pela
prefeitura por meio do prefeito José Pereira de Assis e sem nenhuma estrutura e experiência
por parte da comissão organizadora. Mas contando com a colaboração financeira dos
fazendeiros e comerciantes locais a festa foi um sucesso, com a presença de cerca de 2.500
pessoas. Com o lucro foi possível à aquisição de um terreno próprio para as futuras festas,
embora pequeno, mas que com o tempo se ampliaria até chegar à estrutura atual, conforme
pode-se observar pela Figura 12.

15

Dados obtidos juntamente com o senhor Argimiro Caldeira da Siva, morador há 22 anos na cidade e fundador
da festa.

67

Figura 12: Festa do Peão de Boiadeiro -EXPOALTA - Exposição Agropecuária Industrial e Comercial de Alta
Floresta d'Oeste.
Fonte: Trabalho de campo, Alta Floresta D'Oeste em 2008.
Foto: RS Eventos, disponível em www.radio104fm.net

Até a segunda festa, a mesma acontecia no mês de setembro, mês que se inicia o
período das chuvas, precisando ser reorganizado pela comissão, passando para o mês de
agosto e atualmente no mês de julho.
Após a 13ª festa do Peão houve a necessidade de firmar convênio com a prefeitura,
com o governo federal e estadual, no sentido de conseguir ajuda financeira, o que levou a
necessidade da criação de uma Exposição Agropecuária Industrial e Comercial, assim, neste
ano de 2008 a cidade comemorou a 20ª Festa do Peão de Boiadeiro e a 7ª Expoalta.
Vale mencionar que até a 5ª festa tinha a duração de três dias, passando para quatro e
após a criação da exposição à festa passou a ter a duração de cinco dias. Atualmente a festa
conta com diversas atrações: montarias em touros, montaria em burros, montaria infantil em
carneiros, concurso leiteiro, prova dos três tambores, bailão, parque de diversão, queima de
fogos, conta ainda com o baile "Garota Expoalta"- evento anterior à festa onde escolhe-se por
meio de desfile a rainha do rodeio, a primeira e segunda princesa, além da cavalgada-desfile
de cavalos, carros, motos, bicicleta ou mesmo a pé pelas avenidas principais da cidade
anunciando a abertura da festa.
68

A estrutura do rodeio comporta uma pista de dança ao ar livre com 800 metros
quadrados e todas as noites após apresentação do rodeio com suas montarias e atrações
humorísticas, acontece show dançante, o mais comum é o baile country e forrozeiro. O
propósito dessa pista dançante é proporcionar momentos de descontração a todos, uma vez
que o show é gratuito.
A exposição traz algumas vantagens para o agro-negócio, como por exemplo, o
financiamento fomentado pelo Banco BASA ­ Banco da Amazônia e Banco do Brasil, que no
período da exposição montam Standard, facilitando a aquisição do financiamento para o
cidadão alto florestense. Das vendas financiadas durante a exposição é repassado 1% para a
Associação dos Agropecuaristas, associação responsável pela realização do evento, sendo que
todo dinheiro arrecadado pela mesma é retornado para investimento da própria estrutura do
parque de exposições. Outro fator interessante é o número de pessoas empregadas para a
realização da festa, cerca de três meses anterior à mesma, ela emprega diretamente e
indiretamente cerca de 80 pessoas. Está é a maior festa do município.
Festa do dia das Mães ­ realizada no mês de maio na Igreja Católica Nossa Senhora
da Penha, Igreja Matriz do município desde o ano de 1986, a festa é uma comemoração ao dia
das mães. A festa tem duração de dois dias, começando no sábado à noite com festival de
calouros nas modalidades: infantil e adulto, e após, show forrozeiro com banda local.
No domingo começa com a Missa em homenagem a todas as mães seguida do almoço
com churrasco. O período da tarde com o tradicional bingo aglomeram-se cerca de três mil
pessoas, estas advindas de todo o município, contando com um grande percentual da
comunidade católica da área rural do município.
A festa é realizada com doações: vaca para churrasco, vaca e/ou novilha para leilão,
alimentos para o almoço, pratos prontos de salgados, doces e bolos e todo o dinheiro
arrecadado é investido dentro da própria comunidade.
Festa da cidade ­ Há 26 anos no mês de junho é realizada a festa em comemoração
ao aniversário do Município, a festa, tem duração de quatro dias, com início na quinta-feira à
noite tendo como abertura o Culto Ecumênico, discurso político com os administradores do
município e em seguida festival de músicas, sendo que cada noite apresentam-se calouros de
iguais modalidades: Sertaneja, Popular/ Gospel e Regional, encerrando-se no domingo a noite
com divulgação e premiação das primeiras colocações e fechamento com show ao vivo com
bandas locais e/ou regionais. (Figura 13)
69

Figura 13: Festa da Cidade de Alta Floresta D'Oeste.
Fonte: Trabalho de campo, Alta Floresta D'Oeste em 2008.
Foto: RS Eventos, disponível em www.radio104fm.net

Festa da Lingüiça16 - a festa acontece há 17 anos na linha 65 a 23 quilômetros da
área urbana do município. A festa é realizada pela Igreja Luterana, 85% das famílias são de
origem pomerana17. Muitos membros vieram do Espírito Santo. Sendo assim, trouxeram sua
cultura, a língua e o modo de viver a fé em Deus, é neste contexto que a festa da Lingüiça cultura pomerana originaria da Alemanha e presente na tradição do Espírito Santo é inserida
no município de Alta Floresta D'Oeste.
A festa da Lingüiça (figura 14) é organizada atualmente por 13 comunidades
luteranas. Para a realização da festa são feitos cerca de dois mil metros de lingüiças, a festa
reúne aproximadamente cinco mil pessoas, sendo que o maior percentual de participantes
advém da área urbana, a festa começa no sábado à noite com jantar onde o prato principal são
16

Dados obtidos por meio de conversa informal com o senhor Alfredo Egert morador há 13 anos da linha 65 no
município de Alta Floresta d'Oeste e participante de todas as Festas da Lingüiça.
17
A designação Pomerana é dada as pessoas que moravam na Pomerânia. Atualmente parte do território
Pomerâno pertence a Polônia e uma pequena parte pertence a Alemanha.

70

as lingüiças, baile dançante e no domingo almoço com variedades de lingüiças, desfile da
rainha da lingüiça, jogo da roleta, Standard de produtos agrícolas e eletro-eletrônicos da área
urbana.

Figura14: Festa da Lingüiça na Linha 65 no município de Alta Floresta D'Oeste.
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste, 2008.
Foto: Igreja Luterana de Alta Floresta D'Oeste

A festa conta com diferentes patrocínios advindos tanto da zona urbana por meio
patrocínio do comercio local como da zona rural e o dinheiro arrecadado durante a festa fica
com a Paróquia da Igreja Luterana ajudando a manter o seu patrimônio, onde envia uma
porcentagem à Igreja Central no Rio Grande do Sul, uma porcentagem vai para o Sínodo do
Amazonas e uma porcentagem destina-se a filantropia de projetos sociais, como por exemplo
a APAE ­ Associação de Pais e Alunos Especiais.
Festa do café18 ­ festa realizada entre os meses de junho-julho, a 25 km da sede do
município na Linha 148 no Distrito de Santo Antônio, uma vez que o município está entre os
maiores produtores de café da região.
Por iniciativa de seis Associações dos agricultores com objetivos de criar uma central
de associações para seu fortalecimento e organização e para subsidiar o pequeno agricultor
que não possui uma estrutura estável própria criou-se no ano de 1998 a Festa do café,
tornando-se tradição no município, atraindo, todos os anos, cerca de três mil pessoas, sendo
que o maior percentual de participantes é da zona urbana da cidade. A tradicional festa tem
18

Dados obtidos junto ao senhor Alfredo Egert tesoureiro da 1ª, 2ª e 3ª Festa do Café e morador há 13 anos da
linha 65 no município de Alta Floresta d'Oeste.

71

início no sábado à noite com churrasco e banda ao vivo, no domingo a festa dá-se o dia todo
com torneio de futebol, churrasco, desfile da rainha do café, gincana relacionada à cultura do
café, exposição de produtos agrícolas, exposição de mudas de café, Standard de móveis e
eletrodomésticos, jogo de bingo e forró.
Festa do Feijão ­ também tradicional, a festa ocorre, todos os anos, após a colheita
do feijão. A festa acontece na pequena comunidade das Três Garrafas na Linha P.50 e tem o
mesmo estilo da festa do café e da lingüiça. A realização da festa dá-se em comemoração por
ter o município uma boa produção de feijão.
Festival do Estudante - acontece desde o ano de 1987, realizado no mês de agosto na
escola Padre Ezequiel Ramin em comemoração ao dia do estudante. O festival tem duração de
dois dias, geralmente de sexta-feira a sábado, sendo que no primeiro dia todos os candidatos a
calouros se apresentam, ficando para o sábado apenas os dez alunos-calouros classificados em
sua categoria. O festival é realizado com a participação dos alunos de todas as escolas do
município, sendo premiadas as categorias como: séries iniciais, 5ª a 8ª série do Ensino
Fundamental e Ensino Médio. Convém mencionar que é dado a todos os alunos o direito de
participarem do festival, independente de suas condições vocais, o que oportuniza espaço de
descoberta e a valorização da expressão musical dos alunos além de proporcionar diversão e
entretenimento.
Festa do Divino Espírito Santo19 ­ Localizada na Amazônia Ocidental a festa do
Divino Espírito Santo de origem portuguesa é realizada por via fluvial, é tradição há 114 anos
no Vale do Guaporé e foi introduzida na região ainda em 1894 por Manuel Fernandes Coelho.
A festa é uma verdadeira ação de fé e religiosidade, mobilizando centenas de pessoas entre
fiéis, pagadores de promessas e visitantes provenientes de diversas regiões brasileiras.
Inicialmente a festa era comemorada somente na Ilha das Flores, mas a Festa do
Divino começou a expandir, chegando primeiro na comunidade de Rolim de Moura do
Guaporé distrito do Município de Alta Floresta D'Oeste e Pedras Negras, em seguida
alcançando outras comunidades do Vale do Guaporé. Atualmente a devoção abarca oito
comunidades que têm suas sedes em: Surpresa, Costa Marques, Pedras Negras, Rolim de
Moura do Guaporé, Pimenteiras, na Bolívia - Versalhes, Remanso e Piso Firme.
O que caracteriza a maior tradição religiosa da Amazônia Ocidental é a Coroa do
Divino, o Cetro e a Bandeira que são transportados numa romaria fluvial com início no
19

Dados obtidos junto a senhora Barbarita Celestino.

72

domingo da Páscoa, entretanto, a romaria realiza 49 paradas em diferentes vilas, onde
arrecada diversos tipos de doações inclusive alimentação para a realização da festa, chegando
ao local na quarta-feira anterior ao dia de Pentecostes. Com a chegada do barco do Divino,
pela Figura 15, é possível observar um grande número de fiéis com seus corpos introduzidos
na água até a altura dos ombros e muitos segurando velas acesas, rezando ou chorando.

Figura 15: Festa do Divino Espírito Santo no Vale do Guaporé- Rolim de Moura do Guaporé -1999.
Fonte: Trabalho de campo, Alta Floresta D'Oeste em setembro de 2008.
Foto: Barbarita Celestino.

A tradição religioso-cultural fornece alimentação e abrigo aos visitantes, sendo
proibido qualquer venda no local do festejo, a realização da festa dá-se a cada ano em lugares
diferentes. Esta é uma das mais fortes tradições do município de Alta Floresta D'Oeste,
entretanto, sediada a 190 km da sede do município é pouco conhecida pela própria população
o que deveria ser explorada, divulgada e reconhecida com maior empenho pelo poder público
uma vez que possui uma grande manifestação da cultura popular reunindo principalmente as
comunidades ribeirinhas como também é um grande atrativo turístico podendo contribuir com
o desenvolvimento da região.

73

Como pode-se observar na materialização histórica das festas já tradicionais do
município, a cultura expressa a história de um determinado grupo social, seu modo de ser,
sentir e agir, expressando-se em regras de comportamento, objetos artísticos, saberes
transmitidos, constituem a materialização da cultura. Sua função basilar é cultivar a coesão do
grupo, lutando contra as mudanças causadas pelos processos econômicos e políticos, internos
e externos, elas são cenários de luta pelo poder e reconhecimento.
No tocante a pontos turísticos, o município apresenta: o Distrito de Rolim de Moura
do Guaporé a 190 km da sede do município, possuindo cerca de 300 habitantes, sediando
praias, pescas, objetos indígenas e a Ilha das Flores, local histórico localizada a 20 km do
distrito e, na área urbana do município, o Balneário Refúgio Ecológico, espaço turístico em
que as famílias vão aos domingos para almoçar e tomar banho.
Em que pese a forte presença de festas o município quase não contempla áreas
públicas destinadas aos momentos de lazer e diversão para a população. Pode-se afirmar que
os espaços públicos destinados à diversão e lazer são basicamente as Praças Castelo Branco
situada no bairro Centro, e Isidoro Stédili no bairro Redondo, este bairro também é
contemplado com uma pista de skate que fora construída recentemente, e alguns rios dentro e
próximo da área urbana da cidade, também possui vários lugares para o desenvolvimento de
atividades esportivas relacionadas ao futebol como o estádio municipal Eufrásio Carlos da
Silva, Ginásio de esportes Expedito Gonçalves Ferreira e uma quadra esportiva, além de

alguns campinhos localizados em diferentes lugares da cidade.
No tocante a espaços privados de lazer e diversão têm-se as lan houses, clubes com
piscinas, campo para vôlei, futebol e jogos de sinuca. Têm-se ainda as lanchonetes situadas
em torno da Praça Castelo Branco - centro, ponto de encontro entre pessoas de diferentes
idades, além das festas que acontecem nos finais de semanas em clubes e ou danceterias.
A cidade é um espaço social, por isso, fragmentado e densamente desigual. Assim
sendo, a forma do espaço, as representações estabelecidas sobre os lugares, as disputas
materiais e simbólicas dos díspares agentes sociais mostram, para o olhar crítico, uma cidade
produtora

de

sujeitos,

comportamentos,

estratégias;

enfim,

resistências.

É

nesta

heterogeneidade sócio-espacial que os alunos estão inseridos, assim, é mister levar em conta
que a cidade é mais que um espaço visível e concreto, é o espaço em que as relações sociais
se materializam. Desta forma, o que é diferente e complexo, é também pedagógico, e nesse

74

aspecto, pode-se compreender a partir dos sujeitos, suas interpretações sobre essa realidade
urbana, uma educação geográfica da e para a cidade.

4.2 Os professores e sua relação com o lugar

A geografia escolar pode vir a contribuir com a cidadania, desde que a mesma
encaminhe um trabalho pedagógico que não feche os olhos aos problemas da sociedade da
qual pertence, permitindo aos alunos assumirem posições ante estas realidades, crescendo o
grau de sua consciência e por conseqüência, de seus direitos sociais. Pensar numa educação
assim, implica considerar a cidade e considerar o que os alunos conhecem do espaço
geográfico. Utilizando as contribuições de Cavalcanti (2005), a cidade deve ser considerada
como portadora de conteúdos a serem estudados por seus habitantes, como um espaço
educativo.
Em relação a este aspecto, os saberes dos professores de Geografia no que se refere à
cidade constituem-se como um caminho para detectar as reais possibilidades da Geografia
assumir este papel, ajudando os alunos a conhecerem melhor sua cidade, seu bairro, seu
espaço de lazer e de trabalho, para que eles possam analisar de forma crítica seus problemas e
terem a capacidade de encontrar soluções. Para que o professor considere em seu trabalho
com os alunos um estudo articulado e eficiente com temas da cidade, tem-se que levar em
conta o saber individual e coletivo desse professor sobre a cidade.
Teóricos do ensino de Geografia como Cavalcanti (2002), têm enfatizado que os
professores, possuem saberes diversos, procedentes de sua formação acadêmica e mesmo de
suas experiências de vida. Este saber, o conhecimento do professor, constitui toda a sua
prática, sendo a base para a sistematização de qualquer conhecimento efetivado em sala de
aula. Nesta perspectiva, torna-se clara a importância de uma análise acerca dos saberes que
constituem a prática dos que estão contribuindo com o desenvolvimento do aluno, a partir de
uma transposição didática da cidade, uma temática imprescindível para o desenvolvimento de
qualquer cidadão. Com base nesse entendimento é que visamos buscar os saberes que os
professores de Geografia, do Ensino Fundamental, possuem sobre a geografia da cidade e
utilizam, efetivamente, em sua prática pedagógica nas salas de aulas para a formação da
cidadania.
75

A princípio, a entrevista seria apenas com os professores formados em Geografia,
porém, no decorrer do trabalho, senti a necessidade de entender também a visão e o fazer
Geografia dos professores que trabalham com as séries iniciais, uma vez que a disciplina de
Geografia faz parte do currículo escolar destas modalidades. Nos PCNs das séries iniciais
tem-se que:

Desde o primeiro ciclo é importante que os alunos conheçam alguns procedimentos
que fazem parte dos métodos de operar da Geografia. Observar, descrever,
representar e construir explicações são procedimentos que podem aprender a utilizar,
mesmo que ainda o façam com pouca autonomia, necessitando da presença e
orientação do professor. [...] "Vale lembrar que esse ciclo é, na maioria das vezes, o
momento de ingresso da criança na escola. Ensinar os alunos a ler uma imagem, a
observar uma paisagem ou ainda a ler um texto mesmo que a leitura não seja
realizada diretamente por eles para pesquisar e obter informações faz parte do
trabalho do professor desse ciclo. (BRASIL, 1997, p. 87-88).

Eis o desafio dos professores que não tiveram na sua formação pedagógica a
preparação adequada, o tratamento da especificidade geográfica (CALLAI, 2006) 20.
Entretanto, o esforço nesse sentido advém da influência que os mesmos possuem em relação
aos conhecimentos geográficos pelos alunos, uma vez que os alunos ao chegarem a 5ª e 6ª
série do Ensino Fundamental já têm contato com uma série de conteúdos geográficos, sendo
que estes, de acordo com a proposta curricular nacional para as séries iniciais são, ou pelo
menos devem ser trabalhados, a partir das categorias de análise da própria Geografia: espaço
geográfico, paisagem, território e lugar, pois estas categorias são consideradas essenciais
para a compreensão da organização sócio-espacial, além de subsidiar a compreensão dos
fenômenos que a formam em diferentes e distantes tempos e espaços. Busquei também o
"saber fazer" do professor em aulas de geografia, no intuito de problematizar o processo de
ensino/aprendizagem, uma vez que é neste período que se inicia a alfabetização geográfica do
aluno. Com exceção da P4, todos se graduaram através do Programa de Habilitação e
Capacitação de Professores Leigos ­ PROHACAP21, desenvolvido pela Universidade Federal
de Rondônia, com início no ano de 2000. Ver Figura 16.

20

Helena Copetti Callai. Prefácio do Livro Ensinar Geografia: O desafio da totalidade mundo nas séries iniciais.
PROHACAP- Programa de Habilitação e Capacitação para os professores leigos. O programa foi
desenvolvido pela Universidade Federal de Rondônia ­ UNIR em parceria com a Fundação Rio Madeira ­
RIOMAR, com objetivos de possibilitar aos docentes da rede pública federal, estadual e municipal de ensino o
acesso a cursos de licenciatura. Os cursos aconteceram em diversas cidades do estado e ministrados pelo corpo
docente da UNIR de forma modular em período de férias letivas das escolas da rede pública e da UNIR. Os
cursos do PROHACAP foram regidos pela mesma legislação que regulamenta os cursos diários da UNIR.
21

76

P1
Eurídice
40 horas
6ª e 7ª

P3
P4
Tancredo
Eurídice
40 horas
40 horas
CBA II
CBA I
Contabilidade
Formação
Geografia
Geografia
Magistério
Pedagogia
Instituição
PROHACAP PROHACAP
PROHACAP
Especialização
Gestão
Educação
Psico-pedagogia
Escolar
Ambiental
da Aprendizagem
Tempo de
trabalho
26 anos
19 anos
20 anos
12 anos
Escola
Contrato
Séries

P2
Tancredo
60 horas
5ª a 8ª

P5
Eurídice
40 horas

Pedagogia
PROHACAP
Psico-pedagogia
da Aprendizagem
21 anos

Figura 16: Quadro geral dos professores participantes da pesquisa
Fonte: Trabalho de campo, Alta Floresta D'Oeste em 2007.

P1 - Trabalha na Escola Eurídice como professora de Geografia de 6ª e 7ª série do
Ensino Fundamental, graduada em Geografia e Pós-Graduada em Gestão Escolar. Exerce a
docência há 26 anos, ingressou como professora do ex-território, com contrato de 40 horas,
leiga, com apenas a 6ª série do Ensino Fundamental, o que era normal naquele período devido
à necessidade de professores, no entanto, diz ter sido bastante difícil: "porque nós entramos,
eu e os demais, quase todos entramos sem teoria e sem prática, então precisamos
desempenhar um trabalho praticamente sem as duas coisas". Segundo a professora o que
a ajudava bastante eram os cursos oferecidos pela Secretaria de Educação do Município antes
de iniciar o ano letivo. No ano seguinte deu continuidade aos estudos, cursando o Magistério.
Sua experiência docente deu-se até o ano de 2000 com alunos das séries iniciais. Em 2002,
um ano após iniciar a Licenciatura em Geografia, foi sua primeira experiência com essa
disciplina nas turmas de 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental, sendo um desafio conforme se
identifica em:
"Eu senti muito medo porque eu nunca tinha trabalhado com a Geografia, e no meu
ponto de vista, foi a melhor opção que eu fiz, porque estava aprendendo no curso, na
graduação, mas com os alunos em sala de aula, você aprende você esta ensinando e
automaticamente você esta aprendendo".

Demonstra preocupação com o ensino da geografia no sentido de que ela é vista como
uma disciplina que pode ser trabalhada de qualquer forma, ou por qualquer professor e com
poucos recursos: "acho que se todos os educadores, direção, supervisão, tivesse um
conhecimento bem mais a fundo do que é Geografia, passariam a pensar diferente".
P2 ­ É um professor com contrato emergencial de 20 horas trabalhando com todas
as turmas do 3ª e 4ª ciclo do Ensino Fundamental na escola Tancredo e 40 horas de contrato
municipal e na zona rural de 5ª ao 3ª ano do Ensino Médio com as disciplinas de Geografia,
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História, e Sociologia. É graduado em Geografia e Pós-Graduado em Educação Ambiental,
exerce a profissão há 19 anos. Devido à falta de professores e por haver certa experiência com
grupos de adolescentes na Igreja, foi convidado a trabalhar como professor nas séries iniciais
nesta cidade, com apenas a 8ª série do Ensino Fundamental de estudo. Posteriormente,
concluiu o Ensino Médio através do Magistério e em 2001 iniciou a Licenciatura em
Geografia, sendo que em 2002, dado a escassez de profissionais na área, adentra as salas de
aula como professor desta disciplina. A escolha pelo curso deu-se por uma questão de
afinidade ao trabalhar com as séries iniciais, como podemos observar neste relato: "a matéria
de geografia era a que eu mais gostava, porque sai fora da sala, então eu escolhi por
isso". Demonstra satisfação:

"Eu gosto do que faço, eu gosto ficar no meio das pessoas ensinando aquilo que você
aprende. Eu gosto muito de trabalhar e acho que a saída é a educação, é preparar o
cidadão para a vida, e a gente tem que tá preparado também para ensinar a realidade
lá fora, também para o aluno".

Entretanto afirma que a profissão exige preparação no sentido de manter-se informado
quanto aos acontecimentos do mundo, além de que ensinar exige fazer pontes entre o que se
ensina e o que os alunos vivem: "trazendo de longe pra perto, fazendo comparações, você
tem que saber o que ta falando realmente, pra não..., [...]". O professor alude que e às
vezes frustra-se pelo fato de a escola não dar suporte para desenvolver um bom trabalho
geográfico com os alunos.
P3 ­ Trabalha na escola Tancredo com CBA II, com contrato estadual de 40 horas.
Trabalha nesta Escola há 12 anos como professora das séries iniciais do Ensino Fundamental.
Ao concluir, o na época denominado, o ginásio desejava cursar o Magistério, curso oferecido
no período diurno, assim, teve de optar por estudar Contabilidade que era oferecido no
período noturno. Após concluir o curso de Contabilidade decide por em prática seu sonho,
dando início ao curso do Magistério, entretanto, após seis meses de estudos precisa dar um
tempo aos estudos, pois estava grávida, retornando ao Magistério quando as suas duas filhas
já estavam maiores. A professora afirma que queria terminar o magistério e vir trabalhar no
estado de Rondônia, mas a família e amigos desencorajavam-na: "Não, lá em Rondônia com
essas crianças pequenas, lá dá muita malária!", "lá as coisas são difíceis, não é fácil
assim que nem você tá ideando, não é fácil de encontrar casa pra alugar"!
Permanecendo por mais três anos no Paraná até que decide enfrentar Rondônia, pois precisava
78

trabalhar e Rondônia na época - 1989 estava oferecendo concurso para professor, começando
as atividades como professora da Pré-Escola em 1990.
Quanto à faculdade seu sonho era cursar História, teve algumas oportunidades,
entretanto, no decorrer destes anos, teve que fazer algumas escolhas, priorizando a família, e
adiando seus sonhos profissionais. Afirma que gosta de sua profissão, entretanto, diz estar
muito cansada, demonstrando certa insatisfação:

"Eu queria chegar nessa época que eu to, uns 20 anos de serviço, e não estar tão
desgastada fisicamente, didaticamente, queria que o mundo, principalmente o Brasil,
porque a educação em outros países a gente sabe que tem diferença; fala assim da
remodelação da educação, e a remodelação da educação inclui muito pouco o
professor, porque hoje em dia o bom profissional, ele cansou de ser bom [...] A
juventude, elas gostam de ser professora, e o incentivo dela é muito pouco, ela não ta
fazendo isso por dinheiro, ela gosta de criança ela se sente bem no meio de criança
[...]".

P4 ­ Trabalha na escola Eurídice com CBA I, graduada em Pedagogia e PósGraduada em Psico-Pedagogia da Aprendizagem. É professora há 12 anos. Em 1991 termina
o Magistério e começa a trabalhar com alfabetização através de contrato emergencial, neste
mesmo ano se casa e deixa a cidade, retornando no ano de 1995 e volta a dedicar-se a
profissão na escola Eurídice e no ano seguinte sua experiência se daria com os alunos da PréEscola Floresta Encantada. Em 1997 ao ser aprovada no Concurso Estadual, retorna para a
escola Eurídice onde passa a atuar de 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental, com as disciplinas
de Português e Literatura, devido à falta de professores. Entretanto, apesar de gostar da nova
experiência, era "outra realidade totalmente diferente, eram adolescentes e tal", assim,
em 2000, inicia o curso de Pedagogia e solicita à representante de Ensino retornar às séries
iniciais, pois sua paixão pela profissão está no trabalho com os pequenos:

"Amo! Adoro trabalhar com os pequenos! Você começa o ano e a maioria dos
alunos não sabem ler, alguns é que entra e sabe alguma coisa, alguns têm muita
dificuldade até pra pegar no lápis, pra escrever, e como você fica dois anos com a
mesma turma você cria um laço afetivo muito grande, e você termina um ano e no
outro ano você já sabe onde ele parou, como é que ele ta, daí você da continuidade a
seu trabalho, todo final de ano que é pra mim entregar a turma eu começo a ficar
muito ansiosa, não durmo a noite me dá desinteira, me dá ânsia de vômito, porque o
laço afetivo fica muito grande [...]".

P5 - Professor da escola Eurídice, Pedagogo, e Pós-Graduado em Psico-Pedagogia da
Aprendizagem, trabalha com 4ª série (atual 5ª série) do Ensino Fundamental. Chega nesta
79

cidade em 1983 para trabalhar em um mercado. Por ser formado em magistério na cidade de
Itaquiraí, no Mato Grosso do Sul, e pela falta de professores, foi convidado a exercer a
profissão, a qual fez pelo bom salário que era pago na época. Em 1987 inicia seu trabalho na
educação nesta escola, com contrato de 40 horas, onde trabalha até hoje. Começou a trabalhar
com a 3ª série do Ensino Fundamental, e por falta de afinidade com a disciplina de Português
e devido algumas dificuldades, sugere à professora Vera, que também iria trabalhar na 3ª
série, a divisão das disciplinas a serem trabalhadas ao longo do ano nas turmas, e assim vem
trabalhando até hoje. No ano de 2000 inicia a graduação através do projeto PROHACAP. O
curso de Pedagogia foi desenvolvido na escola Eurídice, onde os professores da UNIR
ministravam as disciplinas todo final de semestre, a graduação foi algo marcante em sua vida,
nas suas palavras:

"A gente fazia uma carga horária de às vezes seis semanas, e foi muito interessante
esse curso pra gente, mesmo sendo através desse projeto eu aprendi bastante,
contribuiu muito para a minha vida profissional e pessoal também [...] para o meu
trabalho também foi importante eu modifiquei bastante a minha maneira de
trabalhar, eu trabalhava de uma forma com os alunos, eu me comportava diferente na
escola, e a faculdade contribuiu bastante para que eu pudesse mudar a minha
maneira de trabalhar, a minha forma de se comportar como professor na escola, e
sabe, como diz um professor na faculdade: a gente não precisa ter vergonha de dizer
que você cometeu erros na vida, na vida profissional também a gente comete erros,
as vezes a gente faz alguma coisa que não deveria, que não era daquela forma,
colocar o aluno de castigo, cobrar algo que você não deveria ter levado de tal forma,
não era daquele jeito, e com a faculdade com o curso de Pedagogia, falando de mim
mesmo, eu consegui dar a volta por cima e mudar.

Atualmente o professor faz trabalhos extras, para complementação do salário, vez que
também precisa manter seu filho na faculdade. Visando melhorar a situação financeira, afastase da escola e vai trabalhar na Europa que com dois anos de trabalho intensivo afirma:

Consegui! Graças a Deus comprar algumas coisas que eu queria comprar,
computador, câmara digital pra foto e pra filmagem, play station pra minha filha,
então, valeu a pena, a gente conseguiu também guardar um pouco de dinheiro pros
estudos da minha filha né...

Após dois anos de afastamento retorna à escola. Neste ano, trabalha com
Matemática, História, Geografia e Artes com a 5ª série do Ensino Fundamental. O professor
diz que esta forma de trabalhar permite um melhor resultado no processo ensino e
aprendizagem com os conteúdos: "eu vejo que a gente consegue ensinar melhor". De
acordo com o professor, consegue ensinar melhor também em razão de que: "quando você
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começa a cansar de uma sala, você já começa com outra, sabe é gostoso pra você e para
o aluno também!" Uma de suas inquietações está no sentido de valorizar mais a educação e
não vê-la como:

"Uma maneira de gratificar alguém, um cabo eleitoral, o político acha que deve um
favor e paga com cargo de diretor, de secretário... Falta olhar a educação com mais
seriedade". Em que pese tais insatisfações, para o professor: "mesmo com o salário
baixo vale a pena você trabalhar na educação, é muito gratificante".

Os professores atribuem importância significativa ao seu papel e o da escola na
formação do indivíduo, podendo ser claramente percebido em:
"Eu vejo eles muito desinformados, a maioria deles tem muita desinformação, numa
sala de 30 alunos pode contar que é 3 ou 4 que é bem informado, que discuti uma
questão com você, os outros às vezes ficam "boiando" porque não tão entendendo, e
você tem que fazer um trabalho aí pra buscar essas pessoas e mostrar a eles a
importância de aprender... Hoje a televisão tira muito a atenção, a novela, e o
noticiário mesmo eles não dão muita importância, então chegam na sala e não tão
entendendo o que a gente ta falando, e na linha 38 onde eu trabalho, os alunos não
tem nada de informação, nem a televisão, então, é você que tem que levar a
informação, o portador de informação é você".

Contudo, destacam alguns problemas e lacunas que envolvem o fazer docente como
alunos indisciplinados, desinteressados, faltosos, pouca participação familiar no processo
educativo e a falta de apoio pedagógico e didático da instituição escolar conforme cita o P2:

[...] nós precisamos ainda modificar muito a escola, porque a escola tem que te dá
sustentação pra que você de uma aula bacana [...] metade da sua vida você fica ali
dentro então eu acho que tem que te da suporte para você ensinar aquilo que tem
dentro de você e você quer botar pra fora, quer jogar pros alunos, quer ensinar pros
alunos e tal... Porque carros pra gente sair pra visitar usinas, visitar solo, fazer vistas
pra ver relevo, a gente não tem as vezes, e você sair com um grupo de alunos a pé
fica meio difícil, pois não tem sustentação, e tem escola que a gente trabalha que só
tem o giz, não tem mapa não tem globo, não tem nada, e o professor tem que ta ali
dando um jeitinho.

Notou-se certa insatisfação com a gestão escolar, no sentido que os funcionários da
escola perderam a autonomia na escolha dos diretores, sendo um dos "privilégios" das escolas
estaduais no município. Conforme a fala de um professor:

"A gente recebeu alguém que caiu de pára-quedas, foi indicado por político, e nem
sempre dá certo, porque eu sinto a escola como um segundo lar, e às vezes para uma
pessoa que vem de fora, ele chega como um visitante, não conhece a realidade" (P5).

81

É fato que quando a pessoa conhece e vivência a realidade escolar, as possibilidades
de desenvolver um bom trabalho são bem maiores, como também as relações diretorprofessor-aluno, as quais são essenciais no âmbito escolar. Em relação à escola e os alunos, a
fala de uma professora merece destaque:

"Eu acho a escola muito triste, criança que sai da creche e vai pra escola, tem a
ilusão que a escola é bonita, que a escola é perfeita e a escola não é assim, a escola
estadual é feia, é triste. Como que a criança vai gostar de uma escola feia? Aquela
cor está pesada. Teria que ser bem alegre, chamativa. Ela é chamativa para aquela
criança que não tem outro espaço. O computador e a televisão estão chamando mais
atenção. E a escola não tem nada disso! Tem computador, mas só para uso
burocrático da própria instituição! Aquela sala assim de computador que as crianças
vêem no imaginário deles ou que tem em algumas escolas, a nossa escola não tem
[...] eu ideava que a escola tinha que ter uma sala onde as crianças pudessem jogar
todo tipo de jogos, seria um período de aula e um período de aprendizagem e
diversão. [...] Hoje em dia eles estão mais longe, eu me sinto mais longe dos alunos.
Longe de carinho! A criança ela está muito adiantada, hoje a gente vê a evolução em
todos os sentidos, tem aspectos do mundo que está deixando a parte carinhosa um
pouco vaga, entende? A criança esta sabida demais, desde pequenininha, ela sempre
foi inteligente, mas hoje em dia está mais aguçada! Isso ocorre pelo fato da
facilidade com que a informação circula no cotidiano da criança. Quando ela chega à
escola ela tem conhecimento às vezes até do que você não tem" (P3).

Para a professora, as escolas deixam a desejar no quesito "atrativa, alegre, bonita."
Talvez este descontentamento esteja ligado com a sua entrada na docência como professora da
pré-escola, onde o espaço físico conta com variedades de recursos, salas amplas, coloridas e
decoradas para melhor estimulação, recursos pedagógicos variados, o que inexistem na
maioria das escolas públicas que não oferecem essa modalidade de ensino.
A fala da professora afirma que o mundo mudou, os alunos mudaram e a escola não se
adequou às novas realidades, ficou obsoleta, pois o mundo fora da escola tem muito mais a
oferecer às crianças do que a escola. Mesmo considerando que a educação não acontece
exclusivamente na escola, a família, a igreja, o trabalho, associações e os meios de
comunicação entre outros, tem sua contribuição, a escola é o lugar específico de formação das
pessoas, onde o conhecimento do saber científico é trabalhado de forma sistematizada, o que
infere uma profunda reflexão a respeito do seu papel no mundo atual. Seria esse o motor do
desinteresse? Da indisciplina? E do desgosto de alguns alunos pela escola? Como foram
apontados pela P1: "Eles estão na escola, porque são obrigados, na verdade não era ali
que eles gostariam de estar! Eu não sei o porquê, mas tem uns alunos que não gostam da
escola!".

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Outra problemática apontada é a ausência da família na escola e na educação dos
filhos, o que se consolida numa problemática cada vez mais presente nas escolas,
constituindo-se em uma "ferida aberta" no docente do presente histórico, conforme observouse:
"Às vezes eu penso assim que a indisciplina atrapalha, tipo assim, você tá na sala e
os alunos não têm muita concentração. Mas não é por parte de todos é de alguns,
mas por serem pequenos dá pra gente controlar, mas eu vejo meus colegas dizendo
que tá difícil trabalhar, que a indisciplina tá muito grande, que eles não levam nada a
sério, que quando eles vão ficando maiores eles vão perdendo o interesse. Eu acho
que esse é um ponto de dificuldade, eu acho que os pais estão deixando muito
compromisso de educar pra escola, e educar tem que começar em casa, a escola é pra
ensinar com conteúdos não é pra educar filho de ninguém , aí eu acho que os pais
nessa correria do dia-a-dia estão deixando muito a desejar, estão deixando a
responsabilidade todinha pra escola, aí os professores sofrem porque além de ter que
ensinar de ter que orientar os conteúdos na aprendizagem, ele tem que ta educando
as crianças, coisas que eles deviam trazer lá de casa, perde muito tempo as vezes
tentando levar um pouco de bons modos, seria um resgate de..., as crianças serem
mais tranqüilas, mais concentradas na sala, serem menos rebeldes, porque parece que
uns anos atrás as crianças eram mais tímidas, elas chegavam na escola com um
pouquinho mais de receio, elas se controlavam mais" (P4).

De fato, a família vem passando por profundas transformações, fruto da sociedade
contemporânea e conforme se observa na Tabela 04, a família formada pelo casal pai e mãe,
já não é o modelo único, pois, há um grande percentual de alunos que moram apenas com a
mãe ou pai; ou ainda com os avós. O que reflete as conseqüências da nova posição da mulher
na sociedade moderna, cada vez mais inserida no mercado de trabalho. Os filhos ficam em sua
maioria apenas na companhia da televisão, videogame, ou de terceiros, assim, a família acaba
delegando a outros agentes a função de educar.
TABELA 04: RESPONSÁVEIS PELOS ALUNOS PARTICIPANTES DA PESQUISA

RESPONSÁVEIS
Pai e Mãe
Pai
Mãe
Avós
TOTAL

Escola Tancredo (%)

Escola Eurídice (%)
49
14
31
6
100

67
7
20
6
100

Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste, 2007.

Em outra fala:
"Passou a ter um outro problema na educação, que até então não tinha, que são, eu
chamo os "filhos dos estrangeiros". Tem criança na sala que tem a mãe na Europa e
a outra nos Estados Unidos, que tem muita dificuldade, tem menino que chega e
abraça você, ta precisando de carinho e outros ficam mais distantes, ficam
revoltados, e qualquer coisa ele fica nervoso" (P5).

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A problemática apontada acima é de fato uma preocupação para o município, pois,
há um elevado número de homens e mulheres que deixam suas famílias, procurando melhorar
a sua condição financeira no estrangeiro, o que corrobora a fala da P1: "dentro de uma sala
de aula, quem não tem pai ou mãe, tem um tio, um irmão, tem um amigo no exterior",
adicionalmente têm-se inúmeras famílias desestruturadas, com pai, filho ou mãe trabalhando
no exterior, contribuindo direta e/ou indiretamente com a questão da aprendizagem escolar.
Diante desse novo cenário a escola sozinha não dá conta de enfrentar os desafios
impostos pela nova sociedade Granell e Vila (2003), o que a põe em situação de crise, pois, as
questões são tão complexas que envolvem o docente num emaranhado de indecisões, dúvidas,
incertezas, desespero e solidão, muitas vezes agravando o sentimento de culpa, conforme o
comentário que se segue:

"Outra coisa que me incomoda é que passam, três, quatro anos e você ouve falar que
seu aluno virou marginal. Você volta, analisa e diz: Puxa vida! Será que eu não
poderia ter feito alguma coisa?" (P3).

A rapidez com que a sociedade vem se transformando aumentou as exigências práticas
da formação humana. Os padrões tradicionais de educação de crianças, adolescentes e jovens
já não se apresentam satisfatórias para atender as atuais necessidades. O processo de
globalização e de desenvolvimento das novas tecnologias exige um preparo continuado da
instituição escolar. O professor tem papel constitucional neste fenômeno de transformações,
contudo os mesmos vivem tempos difíceis, convivendo com tensões no contexto educacional
assinaladas por fenômenos de desinteresse por parte de alguns alunos, a indisciplina, a
agressividade, desvalorização da profissão docente, necessidade de dobrar a jornada de
trabalho, falta de material de apoio, entre outros.
Os desafios da escola e dos profissionais em educação estão implícitos em suas falas.
Posso afirmar que os professores andam perplexos com essa profunda mudança na relação
escola - sociedade e afirmo ainda que estes atores não estão preparados para tal. As condições
do trabalho educativo pedem transformação com urgência.
Todos os professores entrevistados migraram para Rondônia na expectativa de
melhorar a sua condição financeira e aqui se fixaram e passaram a vivenciar a cidade e seus
problemas. Diretamente ou indiretamente contribuíram para seu crescimento em todos os

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aspectos, sociais, políticos, econômicos e culturais, verificado no sentimento de identidade e
de pertencimento apresentados pelos professores em relação à cidade.
No intuito de buscar os saberes e as imagens que os professores têm da cidade para
discutir essa relação com o ensino de geografia, solicitei aos professores que falassem sobre a
cidade. A seguir o olhar dos professores em relação à cidade:

"A nossa cidade é muito bonita! Bem organizada! Ela cresceu demais, da época em
que eu cheguei até hoje. Quando a gente chegou pra poder vir do bairro Redondo pro
bairro Princesa Isabel, tinha essa rua principal aqui, a gente tinha que atravessar
sempre na lama, de 92 pra 93, às vezes a gente não passava [...] E hoje em dia a
gente vê que tem lugar que tinha brejo, saiu construção, escola, lugar de
divertimento. Cresceu demais, nossa! Construiu muito, muita casa em alvenaria, as
primeiras casinhas eram pequenas, e hoje em dia as casas são bem vistosas, cobertas
de telhas [...]" (P3).
"Eu gosto de Alta Floresta, a gente veio pra cá sem muitas perspectivas, mas eu
gostei do local, conheci muitas pessoas. Já tem mais de 15 anos que eu moro nesta
cidade. [...] eu vim aqui para ficar mesmo. [...] No começo eu me amarrei porque era
um local que tava em desenvolvimento, começando ainda, aquela mistura de povos
que tava aqui em vários locais, eu conheci muitas pessoas" (P2).
"Eu acho que está cidade tem desenvolvido bastante, eu cheguei aqui em 86 e não
tinha energia, água, asfalto nem nada e eu vejo agora o quanto evoluiu, quanta coisa
boa já tem, às vezes você pensa que não tá desenvolvendo, mas como foi feito agora
esse resgate da história de AFO, você começa a olhar aquelas fotografias de 86 e 87
e você vê que não tinha nada, só aquelas casas de tabuas, poucos comércios, um
poeirão, terra pura, e agora você vê quanta construção, a cidade melhorou bastante"
(P4).
"A vida aqui é tranqüila, uma cidadezinha que tá se desenvolvendo lentamente, mas
sempre tá crescendo. A amizade, a convivência com as pessoas, com minha família...
Com a escola [...] Quando eu estava lá na Espanha eu falava "ah, no Brasil, na
minha escola..." não tem como não falar "minha escola". [...] Quando eu estava em
Portugal eu sentia uma falta muito grande das crianças. [...]" (P5).

Um dos pontos ressaltados pelos professores é de uma cidade acolhedora, e,
sobretudo, lugar de amigos, da solidariedade, o que é próprio das pequenas cidades, e lugar
onde as heterogeneidades culturais estão bastante presentes, principalmente, paranaenses,
gaúchos e nordestinos, o que é resultante do processo de colonização do estado de Rondônia.
Os elementos acima apresentados estão entrelaçados nas relações do espaço urbano o que
contribui para um olhar positivo e muitas vezes carente de uma criticidade para com a cidade.

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Todos os professores moram na cidade há mais de duas décadas, acompanhando
assim as dinâmicas desencadeadas em seu espaço urbano, obviamente, criando laços afetivos
em relação à cidade, pois, direta ou indiretamente fazem parte dessas construções.
Por ser uma cidade de pequeno porte, é tranqüila, e há uma maior solidariedade
entre as pessoas, pois todos se conhecem, afirma uma das professoras:

"Quando você vai a uma outra cidade maior, você fica lá trinta dias, você vê que os
vizinhos quase não se falam, e aqui ainda tem muito isso, do vizinho ir tomar um
chimarrão no final da tarde, de bater papo, todo mundo se conhece, principalmente
as famílias mais tradicionais da cidade, ainda cultivam isso, de no final de tarde
tomar um chimarrão no vizinho, às vezes no domingo estourar pipoca na casa de
alguém e eu acho isso muito legal" (P4).

A cidade também convive com inúmeros problemas sociais, econômicos, políticos e
ambientais, a saber:
"Eu vejo que os nossos administradores não têm contribuído, incentivado a se trazer
melhoria em relação a trabalho, não tem trazido nada para cá, por exemplo, parece
me que havia uma possibilidade de se trazer um frigorífico para cá, e parece que [...]
O prefeito não deu muito apoio, acho que seria muito importante, porque se viesse
uma indústria, alguma coisa para o município, melhoraria a condição de vida, porque
ela não oferece nada em termos de trabalho, lazer a mesma coisa, não tem nada. É
um dos fatores que o número da população diminuiu drasticamente, aqui já chegou a
ter aproximadamente 40 mil pessoas, e eu vi no censo deste ano, está 23.857 mil
habitantes, há uns oito anos atrás, dez talvez, estava chegando a 40 mil, acho que da
para se considerar que diminuiu a população cerca de 30 %, a população está
diminuindo devido a falta de emprego; a falta de incentivo à agricultura também tem
contribuído muito, porque nós tínhamos mais habitantes rurais do que urbano, quem
tem migrado para outras regiões são mais os moradores rurais do que urbano,
procurando outros meios de vida, onde tem mais indústrias, porque todo mundo está
à procura de trabalho [...] as pessoas como não tem trabalho e não tem condições de
estudar, elas vão em busca de recursos financeiros fora do nosso país, ou do nosso
município" (P1).
"O que eu não gosto aqui são as corrupções dos políticos, eles ficam contra, deviam
levar mais a sério... Não gosto dessa maneira, e às vezes a má administração, que eu
falo que está travando o andamento da cidade; aqui tem tudo pra ser uma grande
cidade, terra boa, fértil, madeira, tudo que você plantar aqui produz, e o que trava um
pouco aqui é a má administração que passaram" (P5).
"[...] na parte da saúde, é muito difícil, as pessoas que sofrem um acidente... É muito
longe... Aqui as cidades estão longe uma da outra. Aí pra gente procurar uma UTI,
uma incubadora as pessoas vão pra Porto Velho. Se a gente tá localizado num lugar
que é o último, a gente teria que ter o melhor da saúde na nossa cidade, ou pelo
menos numa região mais próxima. Eu quase não uso o hospital municipal, também
não tenho nada que reclamar, toda vez que eu precisei a gente foi regularmente
atendida, só que se você tiver alguma coisa mais séria, não adianta nem você ir ali, o
hospital particular também não tem uma sala com equipamentos de acordo com o
que precisa" (P3).

86

"Tá destruindo muito, o Rio Branco mesmo já está bastante desmatado e isso acaba
prejudicando até a cidade, porque a água mesmo falta, o povo joga tanto lixo que
tem horas que não dá pra mandar água pra abastecer a cidade; tá faltando um
pouquinho de conscientização da população para poder preservar mais; mas Alta
Floresta D'Oeste tem desenvolvido bastante" (P4).

O problema citado pela P1 e P5 é um problema político, o que conseqüentemente,
resulta em problemas sociais e econômicos. No caso da cidade em questão resulta em um
enorme déficit social para com a população, resultando em um leque de situações
problemáticas referentes à: habitação, violência, desemprego, exclusão, encontradas por
pessoas que moram em condições inaceitáveis e dramáticas, na medida em que não dispõem
dos fixos sociais, por outro lado, migração para outras regiões dentro do estado, na busca de
terra de boa qualidade a baixo preço, muitos também procuram melhorar sua condição
financeira fora do país, principalmente em países como a Espanha e os Estados Unidos. A P3
demonstra certo descontentamento relacionados às questões da saúde, uma vez que os
hospitais do município não possuem equipamentos médicos mais sofisticados para atender a
população nas suas necessidades, conforme aponta a P3, tendo que se deslocar até a capital a
415 km da cidade, ou ainda, em alguns casos, nas cidades vizinhas, tornando uma
problemática para o município. A P4 se reporta à questão ambiental do município,
demonstrando certa preocupação com os recursos naturais, bem como a relação da população
com o mesmo.
Os professores afirmam que a cidade é mais do que um espaço para morar,
utilizando-se das palavras de Cavalcanti (2002: 57) "é morar bem, é freqüentar a cidade,
morar com dignidade, ter acesso aos bens da cidade, poder exercer seu modo de vida, ter
direito de produzir cultura, construir identidades". As imagens que os professores vão
desenvolvendo a respeito da cidade são produzidas nas suas relações sociais e espaciais,
enquanto sujeitos produtores de idéias, sonhos, cultura, valores, lutas, projetos, enfim, de um
modo d vida. E principalmente buscam um espaço que compreende a multiplicidade da vida
humana. A cidade para os professores é:

"Lugar aonde as pessoas sempre se sentem bem, se não for um lugar onde as pessoas
se sintam bem, não é um lugar bom pra elas. [...] Da minha casa eu vejo o parque de
"exposição", tudo, bonito, iluminado! Eu vejo assim, "ah eu moro em tal lugar, mas
eu não gosto de lá!"Aí se você não gosta do lugar tudo é ruim pra você, a escola, a
igreja, o mercado" (P3).

87

"Aglomeração de pessoas, umas perto das outras, uma sociedade mais ampla,
convivendo perto ou sobre as outras, onde há comércios, moradias, indústrias" (P2).
"É onde as coisas acontecem, um local onde as pessoas vivem, trocam experiência,
um local que você aprende muito, que você ensina muito" (P5).

A concepção de cidade para o P3 e o P5 perpassa as características da tendência
geográfica denominada Humanista-Cultural, definindo a cidade como o espaço vivido, lugar
de convivência, das relações que se desencadeiam neste espaço. A concepção de cidade na
visão do P2 se aproxima da tendência Geográfica Tradicional, não apresentando a dimensão
sócio-espacial e a relação homem-natureza.
Todavia, todos os olhares direcionam ao bem comum da sociedade, como nas palavras
de Freire (1997) na busca de espaços mais amplos, centrados no amor, no sonho, na
esperança, conforme afirma o P2:

"[...] a cidade tem que ser acolhedora, acolher as pessoas, servir bem ali,
solidariedade, acho que as pessoas têm que dar bom dia para os vizinhos, acho que
as pessoas têm que conhecer melhor as pessoas, deixar essa correria e procurar se
adaptar às mudanças da nossa cidade do mesmo jeito que você estivesse em sua casa,
a cidade é sua casa, uma casa maior [...] Uma cidade que você seja bem acolhido,
que você ande pela rua despreocupado, que você tenha segurança, que você tenha o
seu emprego, que você possa andar à noite, que tenha lazer, que você possa dormir
tranqüilo, sem ficar preocupado, sem ficar colocando grade na janela, no portão,
despreocupados! E às vezes isso não acontece.

Dentro da temática cidade pedimos aos professores que pensassem na cidade como um
todo e que nos falassem apenas um lugar. O P2 aponta o Bairro Cidade Alta, afirmando que
este bairro é um local que precisa de tudo, principalmente área de lazer para as crianças, onde
os mesmos improvisam suas brincadeiras, nas suas palavras: é um local cru, ainda que a
gente vai tentar fazer, não somos o Juvenal Antena, mas vamos tentar ajudar né, e a
gente tá ali cobrando das autoridades.
A P1 aponta a Praça Castelo Branco, afirmando ser o único lugar que a cidade tem de
mais bonito e atraente na cidade. Mas também traz para essa questão: "a falta de trabalho
que não oferece nada aos jovens, nada, não oferece nada a não ser trabalhar de
balconista numa loja e num supermercado e que é o mínimo".
A P3 responde a esta pergunta dizendo:

88

Eu gosto de alguns lugares, eu gosto, por exemplo, de ir num lugar bonito, num
mercado, nas lojas, no dentista (risos), do hospital... O hospital é um lugar bom,
acolhedor, não é só pra pessoa doente, (risos) ultimamente o hospital ta bem alegre,
o pessoal deu uma reformadinha, mudou a cor, e as pessoas que atende são pessoas
que acolhe a gente bem. A gente vai, depois que abriu o supermercado América, é
um lugar bom de você ir, as pessoas tratam você bem, os mercados mais antigos que
a gente ia, eles são uma lugar bom da gente ir, eu gosto desses lugares... E gosto da
escola, independente da escola não ser o lugar bonito, colorido, acho que faz parte do
meu dia-a-dia, eu gosto de ir pra escola.

A percepção de lugar no ponto de vista dos professores está relacionada a sua
experiência vivida, apresenta-se como algo experenciado na perspectiva da geografia
humanista, em que cada indivíduo possui uma visão de mundo que se expressa nas suas
atitudes e valores para com o lugar. As falas acima demonstram que o lugar é mais que uma
simples localização, tem sentido afetivo, ou seja, derivam do contexto econômico, social,
cultural e emotivo experimentadas pelos indivíduos.

4.3 O ensino da cidade na docência geográfica

Diariamente fazemos Geografia, na edificação de uma casa, na produção de uma
lavoura, nas decisões do governo, no percurso diário e nas relações estabelecidas pela cidade,
Kaercher (1999). O que infere dizer que o aluno sabe e vivencia a Geografia no seu cotidiano,
"mas muitas vezes não tem consciência desses espaços e de suas contradições"
(PONTUSCHKA, 2005, p. 6).
Autores como Pontuschka (2005) e Cavalcanti (2002, 2003) afirmam que essas
relações devem ser consideradas no componente curricular, não podendo haver um vácuo
neste processo, a Geografia escolar deve considerar as suas experiências construídas ao longo
de sua existência, que para Vygotsky (1998) são chamados de conceito cotidiano.
Sabe-se que é papel da instituição escolar a transmissão da cultura e do saber
estabelecido, entretanto, o que é produzido e entendido como saber científico é diferente do
que é ensinado na sala de aula, neste sentido, discute-se a transposição didática, e esta para
Perrenoud (1999, p.73):

É a sucessão de transformações que fazem passar da cultura vigente em uma
sociedade (conhecimentos, práticas, valores, etc.) ao que dela se conserva nos
objetivos e programas da escola e, a seguir, ao que dela resta nos conteúdos efetivos

89

do ensino e do trabalho escolar e, finalmente no melhor dos casos, ao que se constrói
na mente de parte dos alunos.

A transposição didática é o processo em que transforma o saber científico (objetos do
conhecimento), sem perder suas propriedades e características em conteúdo curricular (objeto
de ensino) para que os alunos possam aprendê-los. Portanto, na escola, o ensino do saber
científico se apresenta em conteúdo curricular ou conhecimento científico escolar, após esse
processo, o saber científico, passa a constituir o saber a ensinar, este, entendido como
conteúdo escolar.
É com este entendimento que visamos buscar o saber fazer dos professores sobre
esta disciplina e como a transposição em sala de aula acontece. Para os professores com
formação na área a Geografia é:

"Estudo de toda a terra em todos os seus aspectos! Econômico! Social! Político! É
tudo!" (P1).
(risos) Olha a geografia são "N" coisas! Geografia é a busca incessante de
conhecimento, é se adaptar às mudanças, as questões climáticas hoje, os problemas
hoje, Geografia é tudo, é o nosso dia-a-dia eu acho que todas as disciplinas deveriam
estudar um pouco de Geografia e você faz geografia em casa, na rua, em qualquer
lugar que você está ela ta trazendo alguma coisa pra você, na realidade ela é tudo
(P2).

Denota-se respostas abrangentes, como aponta a P1, dizendo que a Geografia é o
estudo do planeta em todas as esferas, dando a Geografia um caráter generalizado. O segundo
professor apresenta mais elementos de especificidade, aproximando a geografia ao dia-a-dia
das pessoas, e do presente histórico, mas não clarifica suas especificidades.
Para os professores formados em Pedagogia e em Magistério:

"Geografia? É difícil, né? Porque pra ser trabalhado certos conteúdos de geografia
tem que está muito perto, muito concreto, e fica difícil, né? Pro aluno e pra gente!
Para fazer experiência... [...] porque tem que fazer experiência, mostrar pra eles, tem
que explicar o clima, pico, esse tipo de coisa, não é? É muito difícil...!" (P3).
"Eu acho que é o estudo do meio, do convívio, no caso do CBA a gente trabalha
mais o convívio deles, do meio que ele vive, da cidade, da escola" (P4).
"É uma disciplina que estuda o planeta Terra, a pessoa através da geografia dá a
volta ao mundo. Eu não gostava de geografia, o professor me colocava pra desenhar
mapas [...] Eu me apaixonei por geografia! Depois de ter ficado um tempo na
Europa. Através da geografia você conhece o mundo" (P5).

90

Os fragmentos acima expressam uma dificuldade em conceituar esta Ciência, ligando
timidamente a uma descrição física, matemática e humana do espaço. Levando em
consideração que esses professores têm uma formação profissional na pedagogia e no
magistério, vale ressaltar que a P3 tem um tempo de docência que se aproxima de duas
décadas e sem nenhum curso de capacitação, o que nos remete a pensar que eles tenham, por
um lado, construído suas representações sobre a ciência geográfica, por meio das informações
midiáticas, como também, pelos conhecimentos adquiridos nos cursos do Ensino
Fundamental e Médio.
Os docentes têm uma idéia limitada da Geografia, pois a figura do espaço reproduzido
socialmente é negligenciada, e as palavras expressam idéias que simbolizam um espaço
representado e não vivido assim como um espaço físico (natureza) sem práticas sociais.
A fala da P3 nos chama bastante atenção, quando afirma sentir uma necessidade em
trazer para perto do aluno o que se discute em sala de aula, tornando muito difícil transpô-la
para os alunos, talvez seja por isso que afirma: "A gente costuma deixar muito a geografia
de lado, a gente debate mais em cima da história, não sei por que a gente não é muito
geografia."
Cumpre destacar que todas as questões do mundo podem ser analisadas no ponto de
vista geográfico, notadamente porque o espaço deve ser compreendido como dimensão da vida
social, entretanto, os professores, a grosso modo, definiram o que vem de fato ser Geografia

de forma vaga e simples, como um estudo de praticamente tudo o que há na terra abeirando-se
a uma enciclopédia das coisas, são respostas românticas e "pouco fica como sendo o central
para as aulas de Geografia" (KAERCHER, 2007, p.31).
Na busca destas especificidades geográficas, indagamos aos professores como
percebem a contribuição da Geografia escolar para a vida do aluno:

"Na locomoção, localização, na questão ambiental, eu tenho trabalhado buscando
trazer para a nossa realidade os cuidados quanto a preservar o nosso meio, os nossos
recursos naturais: solo, vegetação, recursos hídricos, rios, a situação que se
encontram, o que nós devemos fazer, e como que cada um deve contribuir, porque
essa é uma responsabilidade de cada um, é uma questão que você vai aprendendo
desde criança, a ter cuidado com a sua casa, o seu quintal, a sua rua, o seu bairro"
(P1).

A professora afirma que a Geografia trabalhada na sala de aula tem grande
contribuição para o cotidiano do aluno, porque dependendo dos conteúdos estudados, permite
91

a abertura para melhor vivência dos mesmos dentro e fora da escola. Aponta como exemplo o
projeto Guardiões do Meio Ambiente, (Projeto desenvolvido com as séries iniciais) alunos
que atuam dentro da escola no sentido de cuidar da organização e limpeza do pátio escolar e
segundo a professora tem surtido um bom resultado:
"Antes a gente via lixo no pátio pra tudo quanto é lado após o recreio, os vasilhames
como colheres, pratos, copos, e depois deste projeto, tem estes alunos que adoram
participar e ficar cobrando dos colegas e a gente percebeu que deu uma melhorada"
(P1).

O P2 percebe a contribuição da geografia escolar na formação da cidadania do
aluno, em suas palavras:
"Ele poderia ser um cidadão hoje capaz de estar na rua tranqüilo e fazer cobranças, e
também a questão ambiental, eu acho que ele sai uma pessoa capaz, de que se ele ver
alguém agredir o meio ambiente chamar a atenção, de jogar o lixo no lixeiro, pelo
menos essa é a esperança minha, acho que ele é capaz disso, e até criticar alguns
políticos por algumas falhas... [...] a Geografia ela também tá ali, quando ela trata do
cidadão, quando ela ensina o aluno a ser crítico, daí o aluno tem a capacidade de
perceber e criticar, eu acho que a geografia faz esse papel quando ensina o real,
porque sabendo o que realmente acontece, você tem direito de cobrar, você pode ter
mudanças" (P2).

O professor diz trabalhar bastante em cima desta questão, trazendo os problemas
políticos para sala de aula para o aluno entender os problemas que os cercam, estimulando a
cobrança. No entanto, afirma que os alunos principalmente os moradores do bairro Princesa
Isabel (bairro periférico) já têm um conceito formado que político é ladrão, embora procura
desfazer essa concepção diz ser difícil:

"A gente vê que eles ficam indignados com certas coisas que acontecem... [...] eles
reclamam muito que eles chegam num postinho não tem remédio, não tem dentista, e
eles escutam nos noticiários os políticos com milhões guardados em contas né. E a
partir do momento que você é cidadão para compreender isso e tiver capacidade de
cobrar, você deve fazer isso, porque é dinheiro público né. [...] todos eles buscam um
lugar melhor para viver. Eu vejo que eles se envolvem, quando acontece, por
exemplo, o homem que tira areia ali do riozinho, eles ficam indignados, acham que a
draga ta estragando, como vai ser a nossa cidade daqui uns dias, eu vejo eles
preocupados com o futuro, acham que deveria fazer uma equipe e ir lá e proibir, só
que isso é muito complicado porque ele vai alegar que o local é dele e ele pode fazer
o que ele bem entender..." (P2).

O professor entende que a Geografia dá suporte para entender e mesmo desmascarar
certas realidades, contudo, a intervenção é complexa, envolve um leque de situações:
políticas, sociais e econômicas, como no exemplo a seguir:
92

"A gente teria que verificar, fotografar, e não agir diretamente, mas acionar o poder
público, porque temos o caso do esgoto dos banheiros e fossas que é jogado lá no
rio, então os meninos que usam o rio pra tomar banho, pra brincar, pro lazer,
reclamam muito, eles nem vão mais nesse rio, então, são coisas que já foram
notificadas, só que chegou lá e a senhora disse que não tinha condições de furar uma
fossa, jogava no rio mesmo, então você vê, tem que acionar o poder público, senão
você só vai arrumar encrenca grande. Mas eu vejo assim, que eles querem o que, a
esperança de uma cidade melhor, uma vida melhor, e eles acham que tem como..."

No tocante a questão em voga a P3 diz:
"A gente não calcula que o que a gente passa pra ele... um texto por exemplo, e a
gente trabalha em cima daquele texto, Geografia, História, Português e até
Matemática, e daí você leva pra ele conceitos que ele vai observar, e às vezes você
não sabe que ele observou aquilo e ele vai observar aquilo ali, essa semana eu
trabalhei um texto aonde a gente falou das regiões, daí a gente trabalhou primavera,
as estações do ano, aí entrou clima, regiões frias. Daí o menino falou assim:
"Professora onde é a região mais fria que eles falam na televisão? Aparece lá quando
ela fala do tempo..." Aí responderam "pólo norte professora"... Então mostra no
mapa... Então esse texto levou ele a observar a hora que fala do tempo na televisão
"ah, a minha professora falou isso!" (P3).

Quanto à importância dessa disciplina na vida dos alunos, percebe-se um ponto
positivo na fala dos professores, quando demonstram que a Geografia escolar tem papel de
fornecer subsídios que permitem aos alunos à compreensão da realidade que os cerca em sua
dimensão sócio-espacial. Seria este sinal de enfraquecimento das concepções de Lacoste
(2006, p.33) "de todas as disciplinas ensinadas na escola (...), a Geografia é a única a parecer
um saber sem aplicação prática fora do sistema de ensino", e tão na moda atualmente? No
entanto, diria uma compreensão mais física, que humana no entendimento da P1 e da P3, e
para o P2 a contribuição centra-se em dar suporte para um mundo melhor, um mundo onde as
mudanças são possíveis, a partir das dimensões físicas e humanas, entretanto fragmentadas.
A priorização de conteúdos para trabalhar com o ensino dessa disciplina, os
professores formados em Geografia dizem priorizar a realidade dos alunos com temas
voltados ao meio ambiente, como desmatamento, a questão das águas, afirmando que:
"apesar da Amazônia ser rica neste aspecto, precisa-se passar trabalhos a respeito,
passar as noções de preservação, pois sabemos que esses recursos não são para sempre".
(P2).
A P1 diz priorizar a realidade do município:

"São Paulo, por exemplo, é muito distante, a maioria dos meus alunos eles nasceram
aqui, e mal conhecem os municípios vizinhos, então como eu vou estar falando

93

somente de uma cidade tão distante pra quem mal conhece o município? Então eu
acho que o mais importante é você primeiro conhecer a sua realidade!"

Não obstante os professores relatarem à priorização da realidade local, da cidade do
aluno, da realidade amazônica, percebo um vazio de conteúdos, pois não deixam muito claro
"o que" dentro destas "realidades" é priorizado, nem o modo como a sistematização destes
conteúdos acontece. Nota-se também, forte sensibilização/preocupação dos professores pelas
questões ambientais, uma vez que inseridos na Amazônia, e a forte influência de preservação
e conservação propagada em torno dessa região acaba refletindo no fazer geografia em aula,
onde muitas vezes o professor inconscientemente, debate muito mais a respeito de uma
educação ambiental que em torno dos próprios conceitos básicos do ensino de geografia, e só
a partir destes, que será possível levar os alunos a saber pensar e agir no espaço de forma
consciente.
Outro passo foi buscar as metodologias utilizadas pelos professores na transposição
dos conteúdos de ensino em Geografia. Os professores mostraram preocupação em trabalhar
uma metodologia que aproxime o sujeito do objeto estudado:

"Quando o assunto é bem colocado o envolvimento é quase 100%. Eles adoram
discutir os assuntos da realidade deles. Quando não chama atenção à gente não tem o
envolvimento deles. Quando ta chamando a atenção deles, eles se envolvem, por
exemplo, se você for explicar o Japão e não trazer os efeitos pra realidade deles, eles
acabam não entendendo nada, não tem aquela curiosidade né, ah, isso tá acontecendo
por causa disso, ou daquilo. E o desmatamento que hoje é uma realidade nossa, eles
tem que entender o porque das coisas. Temos que saber falar, daí eles acabam
entrando na conversa e fica muito bom..." (P2)

Nesta preocupação o professor diz utilizar-se de revistas e jornais para o
desenvolvimento de suas aulas, como também: "eu tenho alguns DVDs sobre o Sistema
Solar, Vulcões, eu uso muito isso, mas geralmente tem que usar o quadro e o giz né!". A
P1 procura quebrar a rotina da sala de aula com vídeos e trabalho de campo. No caso,
levando-os a uma visita ao centro de Captação de água da cidade, e numa indústria de
cerâmica. A temática água e indústria faziam parte dos conteúdos do livro didático.
O P5 mostra-se preocupado em desenvolver o raciocínio crítico dos alunos,
oportunizando as discussões, colocando-os enquanto agentes do saber:

"Olha, na sala de aula a gente trabalha com grupos e faz fora da sala, fora daquela
rotina, ao ar livre, e estuda em grupo o conteúdo, eles debatem lá fora entre eles e

94

depois voltam pra sala pra apresentar sobre o que eles entenderam. [...] No começo,
nossa! Ninguém queria falar, eram tímidos, começava a tremer, e agora no final, eu
percebo que todos querem falar, eles estão perdendo a timidez, e agora com certeza
no 6º ano eles vão estar mais desinibidos para fazer trabalhos em grupos e apresentar
na frente. [...] fora da rotina os alunos aprendem de forma descontraída, e em forma
de cartazes também, é um incentivo pra que eles possam ler cada vez mais, pra que
eles possam conhecer melhor o nosso mundo" (P5).

De acordo com o professor essa metodologia de trabalho faz com que os alunos
gostem de estudar Geografia, nas suas palavras:
"Se eu peço pros meus alunos desenhar mapas, mapas e mapas, vamos desenhar
mapa da região norte, mapa da região tal... Sabe, assim, Geografia é muito cedo na 4ª
série, no 5º ano agora... É muito cedo pra estar pedindo pra desenhar mapa, eles vão
como aconteceu comigo, ficando com raiva da disciplina por isso, por ter que
desenhar o contorno de todos esses mapas, agora mais pra frente, aos poucos nos
vamos introduzindo essa parte aí. A forma de eles lerem, discutirem, ir à frente, os
grupos pra apresentar, isso é o máximo pra eles, cada um quer falar mais, e quer
saber qual é a nota "ah eu tenho que ter nota melhor porque eu falei mais, fulano
falou tudo a mesma coisa..." (risos)

É interessante notar o paradoxo existente na fala acima, ao mesmo tempo em que se
utiliza uma metodologia nova, não fica claro se o gosto é pela oportunidade de falar ou se é
pela nota, o que pode ser uma obrigação por parte do aluno, quando esta é bastante valorizada,
conforme aponta uma aluna quando questionada sobre o que mais gosta nas aulas de
Geografia: "eu ia falar aqui mas acho que não tem nada a ver, (risos) eu gosto dos dez
que eu tiro (risos)"!
A P4 também demonstra-se preocupada em desenvolver um trabalho mais concreto
para o aluno através de passeios, desenhos, cartazes, músicas, maquetes: "eu procuro muito
trabalhar esse lado do teatro, das apresentações, dramatizações porque eu acho que eles
se soltam...". Assegura que essa maneira de trabalhar faz com que todos os alunos participem
das aulas, mesmo que timidamente.
"Eu sempre coloco alguma coisa que vão participar todos, ano passado eu preparei
um teatrinho sobre as frutas, todos entraram, cada um era uma frutinha, cada um
tinha uma fala, mesmo que é uma frase, mas tem que falar [...]".

A professora diz que não segue um método único, não é nem tradicional nem
construtivista, mas vai adaptando conforme necessidade da sala de aula e de acordo com o
desenvolvimento dos alunos, gosta de lançar desafios aos alunos e na medida em que os
mesmos vão vencendo, vai propondo novas atividades desafiadoras.

95

A P3 diz que no dia-a-dia da sala de aula o que mais usa são textos, não usa muito o
livro didático, afirmando que os alunos gostam muito de Artes, e sempre que leva uma
atividade relacionada a Artes no sentido de desafiar os alunos a produzirem as coisas, as aulas
ganham outras nuances, tornando-se bem mais atrativas
Os professores mostram certa preocupação com alternativas metodológicas de
ensino, principalmente, porque percebem maior envolvimento e entusiasmo por parte dos
alunos no desenvolvimento das atividades desencadeadas nas salas de aulas, talvez a mola
propulsora para a renovação da Geografia escolar esteja na dinamicidade das aulas
apresentadas pelos professores acima.
Em relação ao livro didático utilizado pelos professores da pesquisa (Figura 17),
afirmam:

"Dá para fazer um bom trabalho. É crítico, conteúdos interessantes, e às vezes bem
pesados, mas você acaba dando uma quebrada e explicando da sua forma. Ele traz
bastante atividades, ele leva você a refletir, e ele pede bastante para você ir no local,
seria interessante se cada conteúdo você pudesse sair fora da sala, ele pede muito pra
você fazer dessa forma, e depois eu faço os questionamentos, passo questionários
que levam os alunos a pensar, a raciocinar, às vezes eu vejo que os alunos têm muita
dificuldade, sentem vergonha de expressar, então se você fizer desde o início um
trabalho assim com ele, os alunos vão perder esse medo de dar opinião. (P2)

"Muito fraco em termos de dinâmica, de atividades, os conteúdos até que não são
ruins, mas em termos de sugestões práticas ele não é muito bom, e em geral, outros
livros didáticos de Geografia não são diferentes, seria muito bom se eles trouxessem
sugestões de como trabalhar, tem algumas que eu acabo aproveitando, mas são bem
poucas" (P1).
"A gente vai pulando, tira uma coisa aqui, outra ali, não é entregar um livro pro
aluno e usar aquele, então a gente não entrega. [...] O livro tá muito... A gente tá
deixando de usar muito o livro. O livro está vindo ultrapassado da realidade da
criança! Uma aluna perguntou: "Professora eu quero ver um livro que tenha as
bandeiras!" Então pedi: "onde você viu esse livro?" A criança respondeu: "eu vi as
bandeiras no computador, e eu quero conhecer a bandeira de tal país, de tal país, de
tal país!" E antigamente os livros tinham a bandeira do Brasil atrás, nas últimas
folhas, tinha bandeira dos estados. Geralmente era bem especificado pro aluno
conhecer. E hoje em dia não tem mais, é difícil o livro que tem! E outra coisa, o
hino! Os livros tinham o hino no meio e no final do livro e hoje não é todo livro que
tem" (P3).

O P2 afirma que o livro do Boligian et. al (2001) traz conteúdos críticos e que o autor
faz mediações com o lugar do aluno. Vale notar que essas mediações são feitas por meio de
atividades e não de conteúdos. Entretanto, é relevante afirmar que se assim fossem realizadas,
96

levariam o aluno a refletir geograficamente a partir de determinadas situações do seu
cotidiano. Muitos são os empecilhos encontrados para se trabalhar desta forma, entre eles
estão a dificuldade de sair da escola com os alunos e a falta de materiais. A P1 diz apenas não
gostar das atividades trazidas pelos mesmos, sem entrar em maiores detalhes.
Escola Tancredo
Série






Livro

Autor (a)

Editora

Geografia Espaço e Vivência: Introdução a Levon Boligian (et. al.)
Ciência Geográfica
Geografia Espaço e Vivência: A organização do Levon Boligian (et. al.)
espaço brasileiro: as grandes regiões
Escola Eurídice

Atual

Geografia: Homem e Espaço: A natureza, o
homem e a organização do espaço
Geografia: Homem e Espaço: A organização do
espaço brasileiro

Saraiva

Elian Alabi Lucci
Anselmo Lazaro Branco
Elian Alabi Lucci
Anselmo Lazaro Branco

Atual

Saraiva

Figura 17: Livros didáticos utilizados pelos professores
Fonte: Trabalho de campo, Alta Floresta D'Oeste em 2007.

Buscando a relação do ensino de geografia com o espaço geográfico da cidade
indagei à freqüência com que a Alta Floresta D'Oeste é discutida na sala de aula, e o que da
mesma foi trabalhado nas aulas de Geografia, e as respostas foram:
"Dependendo do conteúdo ele dá esta abertura e eu tenho trazido para a realidade do
aluno. Bom, eu tive a oportunidade de levar só uma turma até agora lá na Cerâmica
Santa Bárbara e eles gostaram demais, participaram, ficaram bem atentos de todo
processo, até mesmo porque eles não conheciam nem um tipo de indústria. A
maioria deles nasceu aqui, então não tem conhecimento e quando você fala de
qualquer tipo de indústria, eles não tinham conhecimento, só teórico. Eles gostaram
muito, foi importante para eles" (P1).

Essas mediações são feitas por meio do diálogo estabelecido em aula:
"Dando abertura para eles estarem falando do seu bairro, da sua rua, do que eles
conhecem, do que eles sabem, do que eles vivem no seu cotidiano", todavia, afirma
que é difícil envolver as questões da cidade nas aulas: "pra conseguir o mapa do
município urbano, nossa! Foi difícil, não tem! Você não consegue! [...] Eu pedi para
a Supervisão, daí eu consegui um da área urbana, eu trabalhei o município dentro do
mapa do estado, porque têm no mapa do estado todos os municípios com seus
limites, então foi o que eu trabalhei, mas só o mapa do município eu não consegui!
[...] Eu levei para sala de aula (o mapa do município) e trabalhei a localização, pedi
que localizassem o seu bairro, o trajeto deles desde a sua residência até na escola, a
rua, esse tipo de atividades que eu trabalhei".

97

As dificuldades apresentadas pela professora estão em torno da não disponibilidade
e ou inexistência de mapas do município como um todo (área rural e urbana), como também
de materiais bibliográficos da região, o que dificulta um trabalho voltado à realidade do lugar.

O P2, afirma que discute com freqüência a cidade:
"Toda vez que eu trato de um assunto, eu trago o local que a gente mora como
exemplo, a gente vai sempre citando, falando a respeito, quando é acidente,
problema relacionado ao clima, poluição das águas, a gente traz alguma coisa pra
tratar daqui, a gente fala muito. A questão da pesca predatória, pra você ter uma
idéia tem muitos rios que davam muitos peixes e hoje é muito difícil você pegar um
peixe ali, então a gente trata dessa questão".

Para os professores das séries iniciais do Ensino Fundamental a temática cidade é
assim utilizada:
"A gente comenta muito, por exemplo, foi aberto essas novas ruas, foi feito ponte,
então a gente saiu uma vez, eu sai com os alunos pra visitar uma aluna que tava
doente, e a gente passou por essas ruas novas que foram feitas ali, e daí a gente viu
que foi feito pontes de concreto, foi muito bem feita, ficaram assim, bonitas. Aí a
gente utiliza nas aulas, nome de rua [...]" P3.
"Já fomos até a praça aqui da cidade, sentamos embaixo daquela palmeira e a gente
falou um pouco da história da cidade, uma história memorizada, porque nós não
temos uma história escrita e eu, por exemplo, tenho uma história pra contar de AFO,
contei desde o começo, como era, o que tinha na praça, um campo de futebol, que o
pessoal jogava bola ali. Poderia ter levado mais, como outros anos atrás que levei
nos correios, na prefeitura, na câmara. Ano que vem quero poder levá-los em outros
lugares mais, na época certa, trabalhando o conteúdo... [...] E também falo da
importância da família, eu tento passar o melhor pra eles, os exemplos bons que eu
tive aqui pra que eles possam acatar as coisas boas e não as coisas ruins, [...] Não
compensa brigar, não compensa fazer inimizades, o que compensa é plantar coisas
boas, amizades, harmonia, solidariedade, sempre que puder fazer uma boa ação. [...]"
(P5).

Quando inicia o ano a gente leva os alunos lá na praça, porque é o local mais curto
pra eles lerem um livro lá. A gente sempre leva no Parque de Exposição para
conhecerem. Todo ano a gente pede o ônibus para a SEMED pra gente dá uma volta
na cidade, mostrando o centro da cidade, os bairros, o motorista vai passando em
todos os bairros, mostrando os pontos principais da cidade. Nós já fizemos vários
passeios e também tem a caminhada da Paz que daí sai a escola toda né" (P4).

No tocante a esta questão a P4 faz alusão à produção de maquetes da cidade e dos
bairros feita pelos seus alunos como também a produção de cartazes reproduzindo o percurso
casa-escola, no entanto, é preciso ressaltar que as maquetes foram produzidas pelos alunos em
sala e com ajuda de terceiros:
98

"A maquete foi uma tia que ajudou uma menina a fazer uma das maquetes a outra foi
a mãe que ajudou, então assim, foi feito com ajuda né, parceria com a família, com a
minha ajuda, mas foi construção com a participação deles".

Quanto a freqüência que saiam da sala de aula com os alunos:

"Muito pouco, o máximo que a gente sai é no pátio, não tem como a gente sair. No
começo do ano a gente saiu todo mundo no projeto do trânsito e daí a gente já
aproveitou o embalo para ensinar alguma coisa para dar uma aula de Geografia. Mas
foi só isso, mas é muito pouco, devido às dificuldades que a gente tem" (P2).
"Ah, eu não saio muito da sala com eles não, só em volta da escola, pertinho da
escola, uma atividade que eles façam fora da sala como ditado, que a gente pede pra
escrever, tal grupo fica com essa parte, e tal grupo fica com essa outra, mas sempre
dentro do pátio da escola, às vezes a gente trabalha o trânsito! A gente saiu mais
vezes foi quando a gente trabalhou o projeto trânsito, a gente saiu com eles na rua,
foi mostrar pra eles as placas a sinalização, mas não é muito (P3).

[...] A gente não sai mais por falta de transporte, a gente tem medo de sair com as
crianças na rua, pra ir à Câmara Municipal, por exemplo, pra fazer um trabalho, e na
delegacia, na força militar, no correio. A gente tem medo que aconteça alguma coisa
e acaba complicando a minha vida profissional. [...] ano que vem quero poder leválos em outros lugares mais, na época certa, trabalhando o conteúdo, no correio, na
polícia ou traz um policial na sala pra dar entrevista para os alunos" (P5).

Em que pese o "valor pedagógico que têm as saídas a campo para o estudo da
paisagem, da natureza, de espaços específicos como fábricas, parques, equipamentos urbanos,
e do espaço geográfico em geral" (CAVALCANTI, 2002, p.91), pelas falas acima a cidade
aparece na sala de aula apenas como algo comentado. As atividades de campo
complementam, com a prática, os conteúdos vistos em sala de aula além de potencializar a
motivação para o aprendizado. O trabalho de campo é imperativo os estudos geográficos,
instituindo-se não raro, os momentos mais prazerosos dos alunos em tempo escolar. É o
momento de observar in loco as questões apresentadas no material didático. É uma
transposição da teoria para a prática vivida e sentida, em campo, aparecem oportunidades
pedagógicas que dificilmente apareceria em sala de aula, deste modo, a escola e os
professores devem explorá-las largamente.
Os professores acrescentam que há certa dificuldade em tratar de assuntos específicos
do município, pois faltam recursos, bibliografias, e transporte para trabalhos de campo, essas
dificuldades também perpassam os professores P1 e P4. A falta de material que discuta a
realidade próxima ao aluno tem sido uma constante muralha no exercício docente, e
99

principalmente quando o professor não dispõe de tempo e condições para no caso, buscar,
criar, recriar seu material.
Com efeito, fica bastante claro que os professores ainda estão muito "presos" ao livro
didático, enquanto metodologia e recurso utilizado em sala de aula. O que se torna
preocupante, pois uma análise nos livros didáticos das turmas participantes da pesquisa é
possível afirmar que a cidade do livro didático é a metrópole. As pequenas e médias cidades,
"malgrado as impressões dessas terminologias, ficam quase sempre relegados" (ARAÚJO e
SANTANA, 2005, p.36).
E sabendo que os professores se prendem muito a este recurso, fica difícil a análise
do espaço urbano dos alunos de Alta Floresta D'Oeste, que ultrapasse as descrições físicas
desse espaço. É uma cidade que se destaca do restante do país, localiza-se numa área
geográfica bastante favorável à ocupação humana: água, recursos naturais abundantes e
variados, lugar em que pulsam modos de vida que diferem significativamente do padrão
caracterizado como urbano e predominante em outras regiões do Brasil e geralmente, a
imagem da Amazônia para o mundo está associada ao desmatamento, conflitos sócioterritoriais e a uma natureza bruta, que deve ser preservada ou conservada. Nessa
representação geográfica, raramente sua diversidade populacional é abordada, escondendo sua
heterogeneidade social enquanto componente crucial nas transformações do espaço
geográfico. Essa discussão da representação geográfica inclui as formas de produção do meio
social em que se desenvolvem o agir e o pensar da sociedade. Ademais, é uma cidade que
recebeu um número significativo de pessoas a partir da década de 1980, aglomerando-se na
zona rural, no entanto, atualmente há um forte êxodo rural, contudo, a população não está se
aglomerando na área urbana e sim migrando para outras regiões.
Em que pese sua peculiaridade, pouco se estuda sobre a cidade, justificando-se pela
falta de material, conforme apontado pelos professores. Assim, as particularidades ficam à
margem das discussões, e detendo-se apenas nas metrópoles, o livro didático não contribui
para que o professor traga a realidade da sua cidade para a sala de aula, analisando, por
exemplo, o papel do lugar em que moram dentro do mundo atual globalizado, para o direito à
cidade, onde todos possam desenvolver-se enquanto habitante, usufruindo direitos e
cumprindo seus deveres, contudo, é possível verificar que os professores são conscientes de
que o ensino dessa disciplina é fundamental na condução do exercício da cidadania. Fica

100

nítida a preocupação de oferecer aos alunos condições de realizarem a sua formação,
desenvolver seu senso crítico e aumentar as suas visões de mundo.
Merece destaque a questão do ensino de Geografia do 1º e 2º ciclo do Ensino
Fundamental, pois, o mesmo é desenvolvido por professores pedagogos ou com formação em
Magistério, cuja formação teórico-metodológica dessa disciplina nesse curso não é muito
aprofundada o que dificulta o fazer geografia na sala de aula. Alguns fragmentos da pesquisa
com três professores do 1º e 2º Ciclo, reforçam esta questão:
"Eu vejo em Matemática a prioridade principal da escola! Matemática e Português!
Falando do que eu trabalho, eu trabalho mais acirrado com a Matemática, porque na
sua vida profissional, no dia-a-dia, você necessita muito da Matemática, Matemática
desenvolve muito o raciocínio, claro, Matemática e leitura" (P5).

"[...] Ciências duas aulas na semana, de História uma, Geografia..., até porque dentro
do Português trabalha muito com Geografia e História, às vezes trabalha Ciências e
tá a Geografia incluída ali. De 3ª a 4ª série do Ensino Fundamental pra frente já dá
pra separar, aqui não tem como, estuda a família, o município, então tudo é mais ou
menos junto, a escola, não tem como separar a História, a Geografia e a Ciência...".
(P4)
"[...] Todo o dia Português e Matemática, agora as outras disciplinas a gente coloca
dentro do texto, às vezes de um texto de Português você tira a aula de Ciências (P3).

É interessante afirmar que durante a conversa buscava-se de forma indireta, saber do
ensino de Geografia, mas dificilmente aparecia algo mais específico. Deste modo, indagamos:
além da Matemática e Português, qual a freqüência que você trabalha as disciplinas como
Educação Religiosa, Artes, Geografia, História e Ciências? Ainda assim, a Geografia não
aparece, vindo a aparecer somente quando a pergunta ocorre de forma estimulada. E a
Geografia?

"A Geografia é muito ligada à História! Às vezes você acaba tendo um texto de
História e trabalha Geografia com História. E a gente trabalha muito pouco o
município, teria que ter mais coisas na 2ª série, os meninos conhecem muito pouco,
se a gente apresentar um mapa do município, é muito difícil dele entender, teria que
ter um jeito bem..., dividir por bairro, bem grande! Que a gente pudesse usar na
parede pra mostrar do bairro, não é? [...] não sei por que a gente não é muito
Geografia...".

P - Por que "a gente"?

101

"Não, os meus colegas também. Porque a Geografia, pra ser trabalhado certos
conteúdos tem que está muito perto, concreto, e fica difícil, né? Para fazer
experiência...".

P - Difícil pra você ou pro aluno?

"Pro aluno e pra gente! [...] É muito difícil..."

De acordo com a professora o CBA II trabalha com temas sobre o bairro, no
entanto, desenvolvê-lo em sala de aula traz algumas dificuldades, pois localizar os bairros no
mapa da cidade é um pouco complicado e mesmo difícil para os alunos. Nas suas palavras:

"Porque tem ali onde a gente mostrou, ali onde é a praça do redondo, que é
redondinho no mapa, é difícil de menino entender aquilo ali! Porque é uma coisa
pequena, aí eles perguntam: "o que é esse redondo?" a gente explica tudo, mas é
muito difícil porque eu acho que fica longe deles! Aí se você jogasse no computador
ou num telão pra eles verem seria bem mais chamativo e eu acredito que marcaria
mais pra eles que aquele mapa" (P3).

A professora afirma que deixa muito a desejar quanto ao ensino da Geografia: "é
muito pouquinho, eu acho muito pouco, o que a gente mostra do que era preciso mostrar
da Geografia pros meninos... [...]" Ademais, a fala da professora no decorrer da entrevista
apresenta forte influência do ensino dessa disciplina enquanto um misto de História e
Geografia, que em favor dos Estudos Sociais durante o período da ditadura militar
confundiam estas disciplinas a temas relacionados ao nacionalismo Novaes (2007). A
professora afirma que se a Geografia estivesse no mesmo livro que a História seria mais fácil
trabalhá-la.
À primeira vista, percebe-se que os currículos das séries iniciais configuram-se em
disciplinas auto-suficientes, Matemática e Português. Uma das características dominantes
nesse grau de escolaridade é a preocupação com a alfabetização dos alunos, valorizando
excessivamente as disciplinas de Português e Matemática, o que leva a crer que o mais
importante nestas séries é aprender a ler e a contar. Acredito que principalmente nas escolas
públicas, dada a heterogeneidade social e econômica, os alunos das séries iniciais terminam
por demandar do professor um processo de alfabetização, o que é muito e nem sempre os
professores estão preparados para isso. Assim, como trabalhar certas temáticas em Geografia,
História, Ciências se o aluno não tem ainda domínio das aquisições de leitura.
102

O ensino da Geografia nas séries iniciais e demais disciplinas, com exceção do
ensino de Matemática e da Língua Portuguesa, não é trabalhado com freqüência, relegando a
pequenas e insignificantes discussões, o que se pode dizer que são dispensáveis na visão dos
professores. Infelizmente, é trivial no contexto escolar entre os professores das séries iniciais,
manifestações como: "o desenvolvimento da leitura, da escrita, da tabuada e de contas, são
essenciais", conforme alude o P5: "Eu vejo matemática a prioridade principal da escola!
Matemática e Português!" Essa visão cristaliza um dos sérios problemas dos dois primeiros

ciclos do Ensino Fundamental, pois, em razão dessa ótica educacional, as outras áreas do
saber são relegadas a segundo plano.
Esta visão secundária da Geografia na prática dos professores estaria relacionada a
fatores como contato que esses professores tiveram com o saber geográfico em seu processo
de escolarização, limitação de discussões teóricas, metodológicas e epistemológicas na
formação inicial, falta da formação continuada, talvez seja o grande entrave na desvalorização
dessas áreas em detrimento da leitura, da escrita e das "contas" e "tabuada".
Pelos dados apresentados, posso inferir que o ensino de geografia, foco desta
pesquisa, vem sendo trabalhado, tanto nas séries iniciais quanto no terceiro ciclo do Ensino
Fundamental com grandes lacunas em seu processo de ensino e aprendizagem. Em que pese
os professores apontar sensível preocupação em abordar questões críticas, em organizar
situações que promova um ensino baseado nas descobertas do cotidiano dos alunos, estas, por
meio de um diálogo desencadeado no decorrer das aulas entre aluno-professor e da
valorização do cotidiano do aluno, salvo exceções, a metodologia da sala de aula está muito
presa ao livro didático, não havendo projetos e pesquisas que encadeiam estas discussões
demonstradas. No Ensino Fundamental como um todo, se percebe uma não contribuição da
Geografia nas relações entre as dinâmicas físicas/naturais e humanas/sociais, torna relevante
marcar que nenhum conteúdo, seja ele da Geografia física ou da humana, tem sentido por si
só, mas apenas se houver relações estabelecidas entre outros ramos do saber, pode-se
estabelecer condições para o conhecimento, destarte, para analisar a realidade da
complexidade do mundo, não é possível trabalhar os conteúdos da dinâmica físico/natural de
forma isolada e mecânica, pois os mesmos são vistos como parte constituinte do espaço
produzido pela sociedade. Nas séries iniciais vem sendo desenvolvida como algo sem grande
importância para o aluno, notou-se ainda que, o professor, mesmo quando tem uma atitude
questionadora e crítica em relação ao conteúdo que desenvolve, não compreende o valor da
103

Geografia nestas séries, disciplina que pode fornecer ao aluno uma interpretação do contexto
social onde vive, dando bases para a construção de uma postura cidadã.
Fazer a transposição didática geográfica requer algumas competências, como o
conhecimento da ciência, reconhecimento da área de ensino, saber organizar situações de
aprendizagens, entre outras, competências que deverão estar contempladas no plano de
educação continuada, e esta praticamente inexiste. Neste sentido, os professores revelaram
preocupação com a qualidade da educação, manifestando inquietação com o processo de
trabalho no tocante a formação continuada, sendo esta, uma das queixas da P1, que aponta a
falta de encontros como ponto negativo à sua prática, afirmando que as discussões
desencadeadas entre os profissionais da área contribuem para dar maior suporte ao saber fazer
em sala de aula. Ao falar do início de sua carreira, ressalta com certo entusiasmo:

"[...] nós tínhamos na sexta-feira, um encontro, onde nos trocávamos dinâmicas,
experiências. Com os 26 anos de trabalho que eu já estou, foi o ano que mais marcou
a minha vida profissional. Eu tive um resultado com esses alunos no final do ano que
nem eu mesma acreditava que eu tinha conseguido. Então foi assim, marcante
mesmo e eu atribuo esse sucesso a esses encontros, por que não me faltavam
dinâmicas! Idéias! Não me faltavam!" (P1).

A professora afirma que hoje a educação deixou muito a desejar nesse sentido, nas
suas palavras:
"A gente está assim, isolado mesmo, se você quiser alguma coisa diferente você tem
que procurar o colega de outra escola individualmente, e isso também, só finais de
semanas, porque durante a semana no seu horário de trabalho e dos outros colegas é
muito difícil, porque a hora que você tem tempo o outro professor está em sala, então
nunca...." (P1).

Esse descontentamento com a educação também está presente na fala da P3 quando
afirma:
Em 1996 a gente teve um encontro em Porto Velho, e foi bastante professor [...]
aonde foi trabalho bastante parte de oficina. Em Rolim de Moura teve uma vez, e
depois de lá pra cá não teve mais, eu acho que a parte de projeto tomou conta, aonde
o dinheiro, eu acredito que investido nessa parte foi feito em cima de projetos,
projetos não sei de que, projetos de leitura, projetos não sei de que... Foi colocando e
você teve que se virar sozinho com essa parte de fazer essa parte recreativa e lúdica.
Não teve mais... não foi modelando essa parte. [...] Um encontro, eu acredito de
professores no sentido humano [...] não acredito que vai ter mais não, dentro do
próprio município não tem isso aí [...]. Teria que ter mais companheirismo, teria que
ter mais parceria e encontros [...] (P3).

104

São muitas as lacunas que envolvem o saber fazer dos atores pedagógicos que
trabalham com esse campo do saber. Inexistência de material didático e pedagógico
regionalizado, mapas, livros, folhetos entre outros, em que pese esse referencial regionalizado
ser produzido pelas faculdades da região, sobretudo e principalmente pelos pesquisadores da
Universidade Federal de Rondônia - UNIR não há uma aproximação entre academia e escola
do Ensino Fundamental e Médio. Assim, a realidade dos alunos, conforme apontam os
professores, não são frutos de uma pesquisa sobre a Geografia do lugar que a escola ou
mesmo os professores poderiam fazer a partir de projetos de pesquisa, sendo apenas
discussões pontuais e fragmentadas da cidade, não havendo uma coerência com o todo.
Também é mister reconhecer que nos cursos de graduação em Geografia ligado a
licenciatura, o ensino da Geografia nas séries iniciais também é negligenciado mesmo
considerando não ser o objeto de atuação do professor de Geografia, todavia, não
problematizar essa importância da Geografia das séries iniciais, a universidade não contribui
com a superação de certas lacunas inerentes ao ensino de Geografia nas séries iniciais do
Ensino Fundamental.

105

5 OS ALUNOS E SUAS EXPERIÊNCIAS GEOGRÁFICAS

5.1 Representações Sociais e ensino de geografia

O conceito de representações sociais é uma transformação psicossocial do conceito de
representações coletivas de Durkheim. Entretanto, ainda que procedente da sociologia de
Durkheim, é na psicologia social que passa a auferir uma teorização. A teoria foi marcada
com a publicação de Serge Moscivici sobre La Psycanalyse: Son image et son public
publicado em 1961. A Teoria das Representações Sociais nasce como uma alternativa de
explicar a realidade, o campo do simbólico, aparecendo como um novo modo de explanar o
comportamento das pessoas e dos grupos sociais, no sentido de entender como são
construídos os saberes sobre o mundo. Assim, a teoria de Moscovici centra-se em estudar
como e por que os indivíduos compartilham o conhecimento e como os transformam em
práticas (Duveen, 2003).
O conceito de representação social teve grande avanço a partir dos resultados de sua
pesquisa realizada na França. Ancorando-se no conceito de representações coletivas de
Durkhein, Moscovici realizou um estudo sobre como diferentes grupos sociais da cidade de
Paris vinham se apropriando das formulações teóricas ­ em seu caso, da psicanálise - e como
era consumida e usada por eles em suas práticas cotidianas. A análise possibilitou o teórico a
perceber a coexistência de várias representações de um mesmo elemento dentro do mesmo
grupo social, entendendo que elas são desenvolvidas de acordo com as práticas de cada grupo
social, como também dos seus valores e são essas práticas de cada grupo social que recebem o
"poder ilimitado dos objetos" e conformam o pensamento e determina sua evolução e
interiorização pela mente, mas, Jovchelovitch (2008) diz que há várias interpretações ou
representações dos acontecimentos sociais, pois depende da visão de quem as analisa e que as
representações não são conceitos prontos, cada indivíduo interpreta à sua maneira mas para
Moscovici, as diferentes representações do mesmo elemento estão relacionadas às práticas do
grupo social.
O estudo entende que as representações sociais não se sustentam somente das teorias
científicas, mas das culturas, ideologias, experiências e comunicações cotidianas de cada
grupo, neste sentido Reigota (1995) baseado em Moscovici (1976) afirma que nas
106

representações sociais também inclui os preconceitos e as características específicas das
atividades cotidianas, sociais e profissionais das pessoas.
Assim, o estudo intelectual de Moscovici rompe com os modelos vigentes da época,
onde Durkheim possuía uma concepção estática e fixa das representações que apenas
explicava como a sociedade se conserva. Moscovici com uma visão diferente do autor acima,
das representações sociais, começa a interrogar sobre a dinâmica e transformação das
mesmas. O teórico quer entender e explicar como as coisas mudam na sociedade, e nas suas
palavras as representações coletivas se constituem em um instrumento explanatório e se
referem a uma classe geral de idéias e crenças que precisam de descrição e explicação pois
estão relacionados a um modo particular de compreender e de se comunicar, o que se infere
uma compreensão e comunicação de cada um dos vários grupos sociais, então esta dinâmica
interativa age de um modo que cria tanto a realidade como o senso comum, para cada grupo
social.
Portanto, diferentemente de Durkheim, que parte das representações coletivas para
explicar a sociedade, Moscovici se vê obrigado a explicar o processo de construção das
representações sociais. Duveen (2003, p.15) comenta que enquanto Durkheim:

Vê as representações coletivas como formas estáveis de compreensão coletiva, com
o poder de obrigar que pode servir para integrar a sociedade como um todo,
Moscovici esteve mais interessado em explorar a variação e a diversidade das idéias
coletivas nas sociedades modernas, em que as diferenças refletem uma distribuição
desigual de poder e geram uma heterogeneidade de representações .

A diferença aparece no entendimento de que as pessoas não são somente
processadoras e/ou portadores de informações e ideologias. Moscovici entende que os
indivíduos não se restringem a esperar pela informação e a processá-la, constroem
significados e teorizam a realidade social. Para Cavalcanti (2003) as representações sociais
são mais que reflexos de informações, mas criações dos indivíduos que agem e reagem ante
representações já produzidas, "são sistemas de pensar e conhecer o mundo" Jovchelovitch
(2008, p.80). Assim, entendo que as representações são as formas pelas quais os indivíduos
desenvolvem e expressam suas idéias, conceitos e valores acerca de um dado objeto,
apreendendo também os conceitos, idéias e valores da sociedade na qual pertence.
Em Cavalcanti (2006) as representações compreendem formas de conhecimento do
senso comum, ou seja, organizadas e partilhadas socialmente, que servem para tornar
107

compreensível e comum a realidade na quais os indivíduos de um grupo estão inseridos como
sujeitos. Constituem-se de um conjunto organizado de conceitos, de proposições e de
explicações criadas na vida cotidiana durante as comunicações interpessoais dos grupos,
servindo para guiar os comportamentos e as práticas sociais de modo a traduzir a posição e a
escala de valores de um indivíduo ou de uma coletividade.
A questão do partilhamento é outro ponto a ser considerado no entendimento das
representações sociais. Este aspecto está claramente explícito na parte introdutória do livro
Representações Sociais: investigações em psicologia social de Moscovici (2003), onde.
Duveen faz uma ilustração do poder do sistema de comunicação. Nesse partilhamento,
indagando sobre a localização das cidades de Praga e Budapeste no mapa da Europa, apenas
com a indicação da cidade de Viena e a seu norte a cidade de Berlim, o pensador demonstra
que a nossa imagem da geografia da Europa foi reconstruída após a II Guerra Mundial ­
período da Guerra Fria ­ que as pessoas que nasceram no pós ­ guerra tem sua geografia
construída por definições ideológicas. Não sendo uma definição geográfica demonstra o papel
das comunicações influenciando a uma imagem específica, uma representação social deste
continente, ilustrando também como as representações se tornam senso comum.
As representações sociais também são geradas através de dois processos: a objetivação
e a ancoragem (Moscovici, 2003, p.60-78). O autor afirma que ao contrário do que se
acreditava no século passado, as ciências geram as representações, assegurando que o mundo
reificado (senso-comum) aumentam com o desenvolvimento das ciências, pois ao passo que
multiplicam-se as teorias e as informações os indivíduos procuram reproduzi-las "a um nível
mais imediato e acessível, através da aquisição de uma forma e energias próprias" (op., cit., p.
60). Entretanto, afirma ainda: "não é fácil transformar palavras não-familiares, idéias ou seres,
em palavras usuais, próximas e atuais" (op., cit., p. 60).
Neste processo de tornar familiar o não-familiar o pensamento baseia-se na memória e
em conclusões passadas por meio da ancoragem e da objetivação. A ancoragem promove a
integração cognitiva do objeto representado no sistema de pensamento pré-existente do
indivíduo, transformando o não-familiar, ou nas palavras do autor "estranho e perturbador"
em categorias e imagens conhecidas, dando sentido ao novo objeto da representação. Neste
processo a objetivação age no sentido de transformar a idéia e a imagem em coisas concretas
e materiais que constituem a realidade, o senso comum, "transformar algo abstrato em algo
quase concreto, transferir o que está na mente em algo que exista em mundo físico" (op., cit.,
108

p. 61). Assim, por meio deste processo o indivíduo pode tornar seu mundo uma realidade para
ele próprio, criando sua própria relação com o objeto, dando forma às significações do seu
ambiente. "As representações, indivíduos e objetos, nossa predisposição genética herdada, as
imagens e hábitos que nós aprendemos, as suas recordações que nós preservamos e nossas
categorias culturais, tudo isso se junta para fazê-las tal como vemos" (MOSCOVICI 2003,
p.33).
Esse processo ajuda as pessoas a conceituar e/ou compreender certos fenômenos que
compõem o espaço no qual está inserido, propiciando integração entre indivíduos e o mundo
social. Assim, quando se trabalha a geografia na sala de aula, as representações sociais são
muito importantes, uma vez que a abordagem e a efetivação de pesquisas referentes às
representações sociais, podem ser consideradas para a melhor compreensão dessa disciplina
na questão da aprendizagem. Moscovici (2003) negar as convenções e preconceitos não dão
condição a uma estratégia que crie possibilidade de reconhecer o que as representações
constituem para nós e isolando quais representações são inerentes nas pessoas e objetos que
nós encontramos e descobrirmos o que representam exatamente.
Sendo assim ela é uma nova prática pedagógica, uma excelente metodologia para se
trabalhar com as interpretações dos alunos acerca da realidade que os rodeia. As
representações sociais nas últimas duas décadas vêm ganhando espaço entre as pesquisas na
área de ensino de geografia, enquanto concepção teórica e metodológica para o trabalho em
sala de aula.
Estes aspectos da teoria das representações observados até o momento, me possibilitou
entender que se as representações sociais são conseqüências da interpretação de significados
que o sujeito usa para compreender o mundo; construídas por meio da comunicação, no
contexto social, abarcando múltiplos elementos da totalidade social e cultural, que são frutos
de experimentos acumulados, formando os sistemas cognitivos dos sujeitos, e sendo o espaço
geográfico objeto de estudo na geografia escolar, este, social, concreto e em movimento,
portanto, remete afirmar que tal suporte teórico e metodológico se mostra como uma
ferramenta didática, onde apreender as representações dos alunos podem proporcionar ao
ensino de geografia novas alternativas e possibilidades para trabalhar com a complexidade e
heterogeneidade de indivíduos no âmbito escolar, na medida em que, a partir delas pode-se
diagnosticar o conhecimento anterior dos alunos como também o conhecimento escolar
geográfico. Sua importância está na apreensão da formação e materialização de conceitos
109

socialmente construídos e conduzidos pelos sujeitos/alunos relacionados à vida e o cotidiano
na cidade.
Os alunos convivem num espaço que eles utilizam e praticam empiricamente e
constroem suas representações sociais em torno deles e muitas vezes não têm consciência
desse espaço e das contradições vivenciadas por eles (PONTUSCHKA, 2005). Valorizar o
sentido que os alunos dão ao seu espaço de vida, aproveitando seu conhecimento como ponto
de partida para as novas aprendizagens me parece essencial na geografia escolar, e para a
pesquisa em questão, uma vez que a mesma tem por finalidade fazer com que os alunos
instruam-se, manipulem-se e compreendam a complexidade sócio-espacial e sua utilidade na
vida pratica social.
As Representações Sociais são elementos simbólicos expressos por palavras ou gestos
em que os indivíduos explicitam conhecimentos, idéia, sentimentos, emoções, crenças,
valores, pensamentos que são construídos socialmente, portanto, as representações estão
necessariamente ancoradas no âmbito da situação concreta dos indivíduos que as emitem, por
isso conhecer as representações sociais dos alunos requer "conhecer as condições de contexto
em que os indivíduos estão inseridos mediante a realização de uma cuidadosa análise
contextual" (FRANCO, 2004, p.2). Esse cuidado é imprescindível vez que conforme estudo
de Moscovici as representações sociais sempre refletem as condições contextuais dos sujeitos
que as elaboram, ou seja, suas condições socioeconômicas e culturais, pois uma vez difundido
e aceito este conteúdo, ele se constitui em uma parte integrante dos alunos, de suas interrelações com outros, e nossa maneira de julgá-los e de nos relacionarmos com eles. São
nossas inter-relações e nosso pensamento coletivo que estão implicados nisso e
transformados. O que torna o enfoque da análise e individualização das representações dos
alunos em extrema importância para o ensino da geografia (MOSCOVICI, 2003, p.39).
Com efeito, o estudo das representações sociais dos alunos referentes ao ensino de
geografia e a cidade enquanto espaço vivido e sentido é um caminho para conhecer as
dimensões educativas que a cidade oferece na construção do conhecimento geográfico pelo
aluno. Essa questão traz uma dimensão importante para o exercício da cidadania, quando
confrontam na escola a vivência/experiência do aluno com as diferentes formas de concepção
e de prática social urbana. Eis a importância de conhecer os alunos, o que pensam e sentem,
no sentido de compreender o aluno enquanto ser histórico, inserido numa dada realidade
familiar, com expectativas, experiências e dificuldades vividas de maneira individualizadas,
110

refletindo-se na apreensão crítica da realidade e entender suas ações e reações. Neste sentido,
Paulo (2006, p.57) afirma que um:
Processo de ensino-aprendizado que desconsidera uma determinada representação
social pode não apenas fracassar na sua tentativa de ensinar, como também colaborar
para a manutenção de conceitos e definições que construídos socialmente guardam
em si a lógica da dominação e das imposições de diferentes poderes.

Deste modo, a teoria das representações sociais com as possibilidades de considerar
as imagens, as informações e atitudes dos alunos acerca do que se quer analisar
(CAVALCANTI, 2006), vem ser o caminho metodológico na análise das interpretações dos
dados que foram buscados, por meio de observação, questionários, entrevistas e atividades
didáticas. Estes são caminhos para conhecer o mundo vivido pelos alunos, suas concepções e
seu processo de construção de conhecimento (CAVALCANTI, 2003).

5.2 Dados observacionais do cotidiano da sala de aula

A observação buscou conhecer as práticas cotidianas das salas de aulas e compreender
o saber fazer da geografia escolar pelos professores, além de perceber se a Geografia da
cidade é operacionalizada nas aulas de Geografia e quais seus limites, dificuldades ou não em
trabalhá-la com os alunos e como estes se envolvem com a disciplina.
Neste eixo apresento algumas das mais fortes impressões que tive durante 60
horas/aula de observação nas aulas de ensino de Geografia da 5ª série B, 6ª série A da escola
Tancredo e 6ª série C e 7ª série A da escola Eurídice. Ressalto que ao adentrar as salas de
aulas já tinha em mãos um guia sobre o que queria observar, elaborado a partir dos objetivos
propostos por este trabalho.
Na escola Eurídice observei aula expositiva, aulas de atividades passadas no quadro de
giz, aulas de correções, ida a campo, trabalho em grupos, aula de apresentação de trabalhos,
aula de vídeo, entrega de trabalhos e avaliações. Na escola Tancredo observei aula expositiva,
aula de entrega de avaliações, aula de avaliação e aula com palestra. No que se segue,
apresento alguns registros das observações que sintetizam o exposto acima, falando por si só
do cotidiano das aulas de ensino de Geografia:
111

Escola Tancredo de Almeida Neves
A aula se inícia com entrega de três provas feitas em dias diferentes com atividades
extraídas do livro didático. Os alunos demonstravam-se ansiosos a espera da nota. Ao
receber a prova, uma aluna imediatamente grita: "eu acertei tudo e tirei só 1,4? Isso não é
justo!". Na medida em que o professor ia chamando os alunos e entregando as provas,
alguns pulavam, outros brigavam, outros queriam saber o que estava errado com tal
resposta, outros ainda, mostravam-se tristes, mergulhados no silêncio. Quando todas as
provas foram entregues, o professor solicita que os alunos peguem o livro didático na
página 63, onde dariam continuidade ao capítulo referente "O trabalho e a terra no espaço
rural brasileiro". Cada aluno lia um parágrafo e explicava o que do texto havia entendido
e o professor ia anotando no quadro os conceitos que iam surgindo no decorrer das
leituras como: erosão, técnica de queimada, voçorocas, ravinas, compactação dos solos.
Alguns alunos se preocupam em escrever tudo o que é passado no quadro, na maioria das
vezes esquecendo de prestar atenção às explicações. O professor indaga a turma: por que
é importante conservar as matas ciliares na beira do rio? Próximo à escola, ou melhor, no
bairro em que a escola e a maioria dos alunos vivem há um rio totalmente poluído e sem
matas ciliares, contudo, o mesmo nem chega a ser citado em aula. Ressalto que a
empolgação maior para participar das discussões está entre as meninas, dos dez meninos
que estavam presentes em aula apenas um se envolve no debate (6ª A, 04 de junho de
2007).
O professor começa a aula dizendo: na aula passada falamos do campo e hoje vamos falar
da cidade. Assim, solicita a uma aluna que inicie a leitura do texto do livro didático
referente a "urbanização do espaço urbano". Os alunos corriqueiramente vão lendo, um a
um o texto do livro didático e explicando o que entenderam sobre o parágrafo após sua
leitura. Assim, formalmente, seguia a leitura, com anotações no quadro-de-giz sempre que
aparecia um conceito novo. Percebe-se uma preocupação com o repasse dos conteúdos. A
conceituação de periferia aparece no quadro como local longe do centro das cidades em
que pese um aluno gritar: "o nosso bairro é uma periferia!"As explicações prosseguem: é
a renda que determina a moradia de uma cidade. Outro aluno continua a leitura e o
professor espera a explicação, quando o aluno diz: "quando eu leio eu não consigo
guardar na cabeça!" Então, o professor faz uma brincadeira: se você ver escrito em uma
cadeira "cadeira quebrada" você vai sentar? O aluno rapidamente diz: Eu não! Então você
sabe ler! Afirma o professor. E prossegue suas explicações, e alguns alunos vão falando o
que eles conhecem, das suas experiências dentro da cidade, entretanto, as aproximações
com a cidade do aluno não são suficientemente discutidas. Cabe destacar que o item
"cidades brasileiras e suas funções" inicia-se com a seguinte questão: qual a atividade
econômica que mais se destaca na cidade ou na sede do município onde você mora? A
que setor da economia essa atividade pertence? A discussão centra-se em poucos
segundos enquanto o professor afirma ser a função comercial. No término da aula o
quadro está cheio de conceitos como: dinâmica, mutável, função, cidades turísticas,
indústriais, portuárias, comerciais e portadoras de serviços (6ª A, 13 de agosto de 2007).
Após leitura, uma aluna comenta que está acontecendo muito desemprego e violência
"lá". Então, me pergunto: Lá? Não fazemos parte do todo?" O trabalho se segue agora na
leitura sobre "a infância perdida", e muito superficialmente o professor pergunta se aqui
na nossa cidade tem desses casos. Ele mesmo responde que não, um aluno dormiu
praticamente a aula toda. Quero lembrar aqui, que a maioria dos alunos dessa escola
trabalha vendendo picolé, salgadinhos, engraxando, inclusive em finais de semana, em
festas. No final da discussão o professor indaga: O que fazer quanto a isso? Se vocês

112

fossem o governo o que fariam? Mas não pára para ouvir os alunos! (6ª A, 23 de agosto
de 2007).
Início de aula, um aluno pergunta: Professor, você assistiu o filme de sábado? O professor
disse que não. O aluno insiste: era bem legal, era sobre o vulcão, e o professor não lhe dá
atenção, sua preocupação estava em iniciar sua aula, mas os alunos que assistiram,
empolgados voltam-se ao colega e começam a falar sobre o filme. Este não seria o
momento de dialogar mais a fundo, saindo do abstraimento e trazer para perto da
realidade dos alunos, uma vez que é conteúdo curricular para esta série? O professor
começa a copiar no quadro umas questões elaboradas por ele, referentes ao conteúdo do
livro didático (5ª B, 19 de julho de 2007).
Nas aulas de copiar do quadro-de-giz as perguntas de uma cruzadinha referente à aula
anterior, alguns reclamam, outros desistem, poucos os que copiaram até o final. Durante o
processo de escrita do professor, um aluno diz: "não é só dez perguntas, não é?", outro
diz: "é 9?", outro: "só até aí professor!". Nesse embalo, bate o sinal para irem embora, e
os alunos gritam de felicidade, alguns se preocupam com a cópia da cruzadinha até o
final, outros simplesmente guardam o material e saem correndo, nesse embalo uma aluna
diz ao um menino: você não vai copiar? Olha depois eu não vou te emprestar o meu
caderno não! (5ª B, 06 de agosto de 2007).
O professor começa a aula dizendo: a gente vai fazer um trabalho de leitura e discussão
sobre o relevo. Após os alunos abrirem seus livros na página do novo capítulo: "O relevo
e suas formas". O professor começa a escrever os principais conceitos utilizados no
decorrer do texto e uma aluna grita: ah professor já passando esse "negocinho" aí?
Enquanto o professor procura conceituar para os alunos o vulcanismo e placas tectônicas,
um menino fala: professor se uma cidade for localizada perto de uma placa tectônica ela
vai derreter no vulcão, outro aluno diz: ah, lá no quintal de casa tem um vulcão, eu e o
meu pai já entramos lá! O professor diz que o aluno deve estar enganado porque no Brasil
não há vulcões. A aula vai se desenvolvendo formalmente, nada de surpreendente, poucos
participam enquanto outros conversam sobre diversos assuntos com os colegas ao lado,
outros nada falaram parecendo nem ali estarem. É interessante que 15 minutos antes de
bater o sinal os alunos estavam eufóricos e não queria mais estudar, a concentração havia
acabado. Diante do desânimo da turma, dois minutos antes de encerrar a aula, o professor
procura ameaçá-los, colocando no quadro uma avaliação: quais as formas do relevo
submarino? Quais são os fatores modificadores do relevo terrestre? Etc.. Os alunos
entram em desespero dizendo que não dará tempo para copiá-las, mas todos acabam
copiando. O sinal bate, os alunos gritam de felicidade, mas o professor continua a
escrever as questões, finalizando na décima questão (5ª B, 30 de agosto 2007).
Abertura do projeto "uma leitura puxa outra". Todos os alunos do período matutino foram
até ao refeitório da escola para assistir a abertura do projeto de leituras. A professora de
Língua Portuguesa dá início, palestrando sobre os diferentes tipos de leituras. Apenas
duas fileiras de alunos prestam atenção, os demais cochichavam com os colegas ao lado,
quando a professora fala: "tem menino aí que não está prestando atenção eu vou dar uma
prova sobre isso depois." O silencio total aparece quando alguns alunos apresentam uma
peça de teatro, e nos pequenos filmes do Chico Bento apresentado pelo uso de data show,
sem exceção, a atenção é geral. (Ensino Fundamental, 03 de setembro de 2007).

113

Escola Eurídice Lopes Pedroso
A aula se inicia com a apresentação dos alunos da 8ª série sobre "a violência da mulher",
apresentação resultante do Projeto Semana da Cidadania. Após 15 minutos de
apresentação de cartazes sobre as diferentes formas de violência e discriminação contra as
mulheres, bruscamente, a professora diz para os alunos ficarem calmos e se comportarem
para fazer uma atividade, e uma aluna diz: "ah, prova!", outro diz: "é só pra pintar os
mapas!". Os alunos recebem uma folha mimeografada com o mapa do Brasil, com
exercícios sobre escalas. A atividade consistia em observar a escala do mapa e calcular as
distâncias entre algumas capitais brasileiras, antes, porém, a professora mostra um
exemplo no quadro, calculando a distância entre Belém e Brasília. Aparentemente poucos
se importaram com a atividade proposta, diziam não terem entendido nada e poucos
fizeram as atividades, alguns riam, jogavam objetos nos colegas, desenhavam, outros
ainda, só observando sem se quer pegar na atividade, outros só responderam sobre
pressão. A aula foi bastante agitada, do início ao fim, o pedido da professora para que
ficassem em silêncio e fizessem a atividade foi uma constante no decorrer da aula. Os que
fizeram, o fizeram mais por uma obrigação a cumprir que pela vontade de aprender.
Interessante é que minutos antes de bater o sinal, alguns alunos já estavam guardando a
mochila e imitando o nada suave som do sinal e dizendo: bateu o sinal professora! (6ª C,
15 de agosto de 2007).
Atividades no quadro de giz. A aula começa em atraso devido a professora ter sido
convocada pela representação de ensino para uma reunião. A professora inicia a aula
passando atividades no quadro condizentes com os conteúdos do livro didático sobre "os
climas e as formações vegetais da terra". A atividade consistia em enumerar a segunda
coluna de acordo com a primeira, e algumas perguntas também sobre os diferentes tipos
de climas. Enquanto a professora ia passando no quadro, ia dizendo o número de páginas
a serem puladas. A aula desenvolveu-se sobre os climas nas regiões do globo, entretanto,
nenhum mapa estava à disposição dos alunos, apenas o livro didático (6ª C, 03 de
setembro de 2007).
Aula de correções de atividades referentes ao livro didático que "deveriam" ser resolvida
em casa. Cinco alunos responderam, os demais argumentaram com desculpas das mais
variadas possíveis: "hoje eu esqueci o meu caderno em casa", "eu não vim na aula
passada", "troquei de caderno", "não deu tempo de copiar a professora apagou",
"esqueci a folha do meu fichário em casa", "eu não me lembro, atividade de que
dia?", "eu não tive tempo de fazer", "mas não tinha atividade". Então a professora
tenta fazer a correção oral, e poucos são os que arriscam uma resposta. A professora
afirma: o exercício é para a gente aprender, senão não precisa fazer! É importante dizer
que nesta sala há um aluno que havia desistido de estudar, entretanto, o Conselho Tutelar
foi buscá-lo, obrigando-o a freqüentar as aulas. A professora foi obrigada a abonar as
faltas desse aluno, pois o mesmo já estava reprovado em faltas. O aluno continua não
fazendo nada em aula e acha graça de tudo o que os professores fazem, inclusive rindo
dos mesmos. (6ª C, 22 de agosto de 2007).
Aula de vídeo na videoteca da escola demora a ser iniciada, uma vez que os alunos não
param quietos, empolgados e agitados conversam sem parar. A temática do vídeo era
sobre as reservas e parques do estado do Espírito Santo, árvores da borracha,
ecossistemas: zona da mata mineira. A aula tinha por objetivo sistematizar os conteúdos
já vistos em aula. Os alunos conversam agitadamente sobre o que estão assistindo,
fazendo ligações com o que já viram ou ouviram. No vídeo sobre caatinga a professora
vai falando: "vocês lembram que nós já estudamos sobre essa vegetação?" Ainda assim,
há os que não prestam atenção e não fazem silêncio. Durante o filme a professora fala:

114

depois eu vou fazer uma perguntinha para o Anderson para ver se ele sabe responder, já
que não faz silêncio. Até que a professora diz que se não houver silêncio, voltariam à sala
de aula, grita um menino: "e vai passar matéria no quadro? Ah, não!. Fizeram silêncio
total no filme sobre os peixes Pirarucu (7ª A, 09 de abril de 2007).
Na aula sobre a Amazônia é discutido a respeito da sua organização e colonização. A
professora senta na sua mesa abre o livro e diz aos alunos que cada um terá o direito de
ler um pouquinho. A leitura começa por um aluno, e a professora vai acompanhando a
leitura e vai dialogando com perguntas do tipo: por que a Amazônia não despertou
interesse logo no início da colonização? Enquanto isso, quatro alunas no fundo da sala
trocavam bilhete. Novamente a professora diz: vamos tentar entender o texto e assim,
desenha no quadro o mapa-mundi e localiza o Brasil. A localização dá-se sem fazer
conexão com ela e com os alunos, como se não fizéssemos parte dessa região. Diz aos
alunos que aqui onde moramos há gente oriunda de todas as diferentes regiões brasileiras,
enquanto alunos escrevem e repassam bilhetes, chupam pirulito, fazem aviões, lêem
revistas dessas de horóscopo, passam batom. Os alunos vivem a Amazônia, não caberia
aqui ouvir os alunos, saber de onde vieram seus pais, para verificarem que somos fruto
dessa colonização, para daí compreenderem o que vem a ser a colonização da Amazônia?
Uma aluna passou toda a aula mexendo em seu celular, um menino preenchia rifas. Algo
me chamou atenção durante a aula: a maioria dos alunos não prestava atenção nas
explicações da professora, mas queriam participar da leitura, será que pensam que a
atividade de ler é desconexa de seu entendimento? 10 minutos antes do final da aula a
professora diz: quem prestou atenção entendeu tudo, assim, quero que elaborem uma
questão para cada item estudado e a respondam (7ª A, 16 de maio de 2007).
Os alunos iniciam a aula na videoteca para assistir a um filme referente aos indígenas da
Amazônia e a história de ocupação da Amazônia, vídeo para sintetizar o conteúdo visto
em sala de aula, entretanto, a professora não consegue fazer com que o aparelho de vídeo
funcione, ela procura a diretora, a supervisora, mas ninguém consegue arrumá-lo. Assim,
os alunos retornam a sala, mas já no finalzinho da aula. Conseqüência da falta de um
profissional neste espaço (7ª A, 28 de outubro de 2007).
Após uma visita à Estação de Água da cidade, a professora explica: "vocês irão fazer um
trabalho, formem quatro grupos. Vamos trabalhar com paródias, poesias, desenho e
relatório, sobre a Estação de Água. O entusiasmo com a metodologia foi geral,
adicionalmente, dado ao sorteio para delegar o que fariam cada grupo, uma frustração:
"Ah, eu não gosto de desenhar"! "Eu não quero ficar neste grupo, só tem menino
preguiçoso"! "Aqui não quero, só tem gente burra". "Eu queria era fazer poesia, não
relatório" (6ª C, 29 de agosto de 2007).
Aula de apresentação de trabalhos sobre a aula de campo no Centro de Capacitação de
água da cidade. Os primeiros quinze minutos são para os alunos acalmarem-se, por ser a
primeira aula, muitos alunos chegam atrasados. Começam as apresentações, o primeiro
grupo apresenta um relatório e o mesmo está muito bem escrito, porém não há, nem
houve o envolvimento dos quatro membros do grupo. O grupo do desenho resolveu fazer
uma maquete do local visitado, ressaltamos que na aula anterior, aula da preparação da
mesma, todos do grupo estavam empenhados na sua construção, mas o trabalho precisou
ser terminado fora do horário de aula, assim não houve um envolvimento para a
conclusão e na hora da apresentação o trabalho não estava completo e dois alunos
faltaram. O grupo da poesia não apresentou, pois na aula anterior uma aluna do grupo
estava ensaiando uma dança para a noite cultural e os demais alunos a esperavam, não

115

encaminhando o trabalho, portanto não apresentaram. O grupo da paródia também não
pode apresentar, pois não haviam ensaiado, porque cada um ficou responsável por
escrever sobre o trabalho de campo encima de três refrãos da música planeta água, um
aluno não pode fazer, pois mudou de casa no final de semana, não havendo tempo para se
dedicar à tarefa, assim, a professora solicita que as alunas o tirem do grupo, e dá um
tempo para que os outros três membros do grupo ensaiem para apresentar na aula seguinte
(6ª C, 08 de novembro de 2007).

A observação mostrou que as salas de aulas pesquisadas (Figura 18) fogem do
protótipo usual de carteiras enfileiradas voltadas ao quadro-de-giz e a mesa do professor. É
comum os alunos sentarem-se em pequenos grupos ou dupla, na maioria, essa separação é por
gênero.

Figura 18: Sala de aula das escolas pesquisadas
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste, 2007
Foto: Sandra Gallo.

Também observei uma postura menos formal nas questões interpessoais professor ­
alunos, foi possível observar laços de afetividade entre os mesmos. Em relação ao P2, a
relação não é tensa e nem autoritária, é amigável e o professor tem total domínio da turma. A
P1 também é tranqüila e amigável. Entretanto, há uma diferença entre a 7ª série A e 6ª série C
nas quais a professora trabalha. A primeira turma é mais tranqüila e são poucos os alunos
indisciplinados. Na 6ª série C a professora sente bastante dificuldade em trabalhar os
conteúdos, pois o desinteresse e a indisciplina de boa parte da turma é grande, onde o barulho
causado pelas conversas paralelas atrapalha a aula, perde-se muito tempo com negociações.
Referente a essa turma, a professora comenta durante a entrevista que esse desinteresse não é
apenas para com a disciplina de Geografia e sim, de uma formal geral: "na realidade eles
estão na escola, porque são obrigados a vir, porque os pais têm compromisso também
116

agora, então eles vêm na escola porque são obrigados a virem" (P1). Sobre essa questão
diz ainda que:
"Todo ano parece que é feito proposital, eu sei que não é, mas parece que selecionam
os alunos. Todo ano tem uma turma formada com um monte de alunos que não
querem nada com nada! E um vai puxando o outro, por desinteresse, por
desmotivação e assim vai indo, por exemplo: Essa turma que você está fazendo o seu
trabalho de pesquisa, parece ter sido selecionada na hora da matrícula, mas não foi!
É incrível, e todo ano acontece isso, todos os anos a gente tem uma turma,
principalmente na 5ª série, e eu não consigo entender o porquê isso ocorre".

Nesta sala de aula há um aluno que não participa das atividades, tão pouco as
transpõem do quadro negro para seu caderno, geralmente no final da aula a sua mochila ainda
está fechada. Durante o período de observação, presenciei o aluno copiando do quadro apenas
uma vez, mas ressalto que o fez na obrigação, uma vez que a supervisora da escola estava
sentada a seu lado. Este aluno mora somente com o pai, pois sua mãe trabalha na Espanha. O
aluno apresenta problemas de saúde, tendo que tomar remédio controlado.
Com efeito, os pedidos (calmos) de silêncio são constantes e não são eficazes.
Entretanto, a relação entre professor e aluno no que se refere às questões didáticometodológicas, os professores ainda mantêm uma posição principal no processo de ensino e
aprendizagem.
Metodologia e recurso ­ A metodologia utilizada nas aulas do P2 pauta-se no uso de
quadro e giz com aula expositiva, sendo mais um monólogo que um diálogo, uma vez que são
poucos os alunos que participam do debate. O professor anota os principais conceitos do
assunto em pauta no quadro-de-giz. A escola dispõe de vídeo, som, data show e um
computador para uso dos alunos, entretanto, estes aparelhos não são usados. O uso do mapa
foi inexistente, o uso do mapa também não aparece na prática da P2, mesmo quando
necessário, mas a professora desenha no quadro o mapa-múndi e localiza o Brasil e neste a
Amazônia, na introdução do conteúdo sobre a Amazônia. O uso do livro didático é freqüente
em ambas as escolas, havendo uma dependência total do mesmo na construção de
conhecimentos geográficos pelos alunos. O quadro de giz é bastante usado na prática da P1
para atividades e avaliações, a professora costuma levar os alunos à videoteca da escola
sempre no final dos capítulos ­ como uma forma de fixação dos conteúdos trabalhados, pois
os filmes são sempre voltados ao conteúdo trabalhado em aula.
O que me chamou a atenção é o pouco uso de imagens, mapas e globo nas aulas de
Geografia. O uso desses recursos conforme pontuam Schäffer et. al. (2005) são
117

imprescindíveis no desenvolvimento da aprendizagem geográfica. A Geografia tem como
estudo o espaço e os recursos supracitados possibilitam o acesso aos diferentes espaços ,
entretanto, as imagens não estão presentes nas aulas. Fotografias, especialmente de jornais e
revistas, ou fotos próximo da vida cotidiana possibilita uma discussão mais familiar aos
alunos. O uso de mapas em aulas, digo ser imprescindível, notadamente no início de um novo
conteúdo, por exemplo: Amazônia, Europa, regiões, ou até em assuntos de escalas, ou nos
lugares que o professor vai citando no decorrer da aula. É importante no sentido de situar o
aluno. O professor está situado, pois já leu, já estudou, portanto conhece o assunto que está
abordando, mas o aluno muitas ou na maioria das vezes, não consegue se situar e pensar
espacialmente, sendo assim, este é um recurso fundamental para a compreensão espacial de
que se está falando com uma linguagem rica em significados.
Conceitos ­ As temáticas abordadas em aula são todas extraídas do livro didático, são
assuntos bastante interessantes e importantes, mas ficam abstratos para os alunos: falta
colocar as discussões no nível dos mesmos. A abordagem dos conceitos aparece em ambas as
práticas como algo falado, lido e descrito no quadro, entretanto, pouco sistematizado e
explicado no sentido de fazer relações práticas, não há processos para levar os alunos entendêlos, portanto há uma baixa exigência cognitiva. Percebe-se a quase ausência das reflexões
espaciais, ou seja, das categorias que permitem a leitura do espaço geográfico, no sentido de
faltar conexão entre os temas abordados e a relação com as categorias geográficas. Dessa
forma, utilizo as idéias de Nestor Kaercher, a geografia como um "pastel de vento", pois há
pouca densidade na reflexão.
Atividades ­ Questionários com respostas do livro didático, mecânicos, e levam
bastante tempo para copiar do quadro. As aulas se desenvolvem no diálogo com os alunos,
mas a excessiva rapidez com que são efetivados dificulta o seu entendimento. O P1 e P2
poderiam sistematizar mais, e, pausadamente, relacionar os temas à cidade de Alta Floresta
D'Oeste. O P2 geralmente faz questionamentos aos alunos, mas ele mesmo responde. A
lógica das atividades é do conteudismo. Afirmo que há um desrespeito aos conhecimentos
prévios dos alunos e suas experiências cotidianas, pois o conhecimento produzido na sala de
aula é o conhecimento pronto e acabado dos livros didáticos.
Avaliações ­ Prova objetiva e cópia de exercícios do livro didático. Para o P1 - marcar
X ou V e F. Para o P2 ­ Cruzadinha. Não há o que pensar basta memorizar os conceitos. A

118

memorização parece básica enquanto habilidade exigida, havendo grande ausência de tensão
cognitiva.
Os alunos - O cotidiano das salas de aulas é um micro espaço com um universo de
heterogeneidades, não falo apenas de alunos com diferentes níveis de condição
socioeconômica, mas, sobretudo, de "inteligências múltiplas" (ANTUNES, 2001). É notório
alunos com grande capacidade para aprender e outros com dificuldade imensa para
compreender os conteúdos da disciplina, o que não significa capacidade para tal, e sim,
diferentes aprendizagens. Todavia, a acedência de que o saber se expressa de múltiplas
maneiras, afirma Antunes (2001, p. 22), ainda está distante das escolas "que apenas exaltam o
saber lingüístico e o saber matemático".
A título de exemplo, a P1 leva outras linguagens para trabalhar em aula, entretanto,
a princípio a empolgação entre os alunos, pois dificilmente surge algo diferente, em seguida a
frustração, esta por dois motivos: falta coletividade nas salas de aula, no sentido de trabalhos
em grupos, em que pese sentarem em grupos, estão acostumados a trabalhar individualmente,
não há reciprocidade, e a forma como são conduzidos os saberes dos alunos, quem sabe, esse
problema seria amenizado se a escolha das linguagens para apresentação do tema fosse feita
por eles, conforme o exemplo apresentado em Antunes (2001, p. 21):

"Quero que falem de suas férias. Os que preferirem falar com textos, manchetes,
trovas, frases ou sentenças reúnam-se aqui neste canto. Os que preferirem expor com
equações, médias, proporções, grandezas e gráficos, por favor, reúnam-se ali. Os que
preferirem falar de suas férias com musicas, sons, ou parodias formem um terceiro
grupo. E um quarto se formará com os que se sentem mais a vontade contando as
férias com desenhos, pinturas, fotos e muitas cores. Reúnam-se e combinem a
apresentação com um outro grupo que prefira expressar-se com gestos, danças,
mímicas e movimento e ainda outros que resolvam montar uma teatralização. O
importante é que falem das férias com animo e entusiasmo e que escolham as
linguagens preferidas. Sou sua professora e gosto de ler seus saberes não importa a
linguagem em que sejam expressos". (ANTUNES, 2001, p.21-22)

O exemplo apresentado por Antunes demonstra as possibilidades de práticas
educacionais, envolto num ambiente educacional mais vasto e variado, que vá além do
desenvolvimento da lógica e da linguagem. O autor baseado na teoria de Gardner defende que
os indivíduos aprendem de maneiras diferentes e apresentam diferentes configurações e
inclinações intelectuais, alertando para o fato de que, a vida não se limita apenas a raciocínios
lógicos e verbais, dando abertura a construção de uma sociedade mais humana, aprendendo a
conviver com as diferenças. No processo de ensino e aprendizagem, o professor precisa
119

identificar as inteligências que mais se destacam em cada aluno no sentido de explorá-las para
a aprendizagem dos conteúdos.
Percebi que a grande maioria dos alunos raramente emite sua opinião, além de que
os que opinam são sempre os mesmos. Muitos alunos ouvem tudo, sem emoção, sem
participação, alguns parecem estar muito distantes da sala de aula, em outro tempo e espaço.
Saliento que na prática da P1 aparece uma maior diversificação quanto à
metodologia trabalhada no desenvolvimento das aulas de Geografia se comparado com a
prática do P2, contudo, acredito que a dificuldade do P2 no tocante a uso de outros recursos
metodológicos que não o tradicional, esteja na própria estrutura da escola que apesar possuir
aparelhos como TV, DVD, vídeo e som não comporta um espaço adequado para seu uso, nem
conta com diversidade de vídeos e Dvds com temáticas geográficas conforme a escola
Eurídice.

5.3 Conhecendo os alunos

Dados do questionário

Os sujeitos da pesquisa são alunos e alunas do terceiro ciclo do Ensino Fundamental
com idade entre 10 e 15 anos (Figura 19) sendo que o maior percentual dos alunos têm 12
anos, idade considerada "normal" para séries que freqüentam. Constatei que 33,3% dos alunos
na escola Eurídice e 31,03% dos alunos da escola Tancredo estão fora dos padrões idadesérie.

120

IDADE DOS PARTICIPANTES DA PESQUISA EM 2007
100
90
80
70
60

40
%

50

3,

33
3,

0%

10

%
,79
13
%

%
6,9

%
,79
3
1

33
%

16

20

10
%

%
,14
24

,6

30

7%

26
,

67
%

40

%
,93
7
3

0%

5
3,4

%

0
10 anos

11 anos

12 anos

13 anos

Escola Eurídice

14 anos

15 anos

em branco

TOTAL

Escola Tancredo

Figura 19: Idade dos participantes da pesquisa em 2007
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste, 2007.

A idade destes alunos que estão fora dos padrões idade-série pode ter relação com o
alto índice de reprovação conforme mostra a Figura 20. Observa-se um percentual bastante
elevado de reprovações 31,03% dos alunos na escola Tancredo e 33,33% dos alunos da escola
Eurídice já reprovou.

121

JÁ REPROVOU?

100
90
80

66,76% 65,52%

70
60
50
33,33%
40

31,03%

30
20
3,45%

10

0%

0
sim

não
Escola Eurídice

em branco
Escola Tancredo

Figura 20: Índice de reprovação nas escolas
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

Um fator que contribui com a reprovação nestas escolas é o elevado número de
transferências e matrículas durante o ano escolar, devido uma forte migração destas famílias
no sentido urbano-rural e rural-urbano dentro do município e até mesmo para outras regiões,
acabando em muitos casos em reprovação ou até desistência por parte dos alunos que não
conseguem acompanhar a nova realidade escolar.
Referente à questão: há quanto tempo mora nesta cidade? Identifiquei que a maioria
dos alunos, 65,52% da escola Tancredo e 73,33 % da escola Eurídice moram em Alta Floresta
há mais de nove anos (Figura 21).

122

HÁ QUANTO TEMPO RESIDE EM ALTA FLORESTA D'OESTE-RO

100
90
73,33%

80

65,52%
70
60
50
40
30
20
10

13,33%
6,9%

10,34%
3,33%

13,79%
6,67%

3,33%3,45%

0
de 1 a 3 anos

de 3 a 6 anos

de 6 a 9 anos

Escola Eurídice

mais de 9 anos

em branco

Escola Tancredo

Figura 21: Tempo que os alunos moram em alta floresta D'oeste
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

Dos 59 alunos que responderam o questionário 31 nasceram em Alta Floresta
D'Oeste (52,54%). Destes, três alunos nasceram fora do estado de Rondônia (5,1%) e os
demais alunos nasceram em cidades vizinhas, como Rolim de Moura, Santa Luzia e Nova
Brasilândia (Tabela 05).
TABELA 05: DISTRIBUIÇÃO DOS ALUNOS SEGUNDO A CIDADE NATAL.

Cidade natal
Alta Floresta D'Oeste
Rolim de Moura
Nova Brasilândia D'Oeste
Vilhena
Santa Luzia D'Oeste
Campo Grande
Cerejeiras
Novo Horizonte
Alto Alegre dos Parecis
Paconé
Itabirinha de Mantena
Ouro Preto
Em branco
Resposta incorreta
TOTAL

Escola Eurídice

Escola Tancredo
17
2
2
1
0
1
0
1
0
0
0
0
5
1
30

14
2
0
0
2
0
1
1
1
1
1
1
3
2
29

Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

123

Quanto à situação de moradia o percentual maior está na escola Tancredo (90%) dos
alunos possuem casa própria, e apenas 7% vivem em casa alugada e 3% em casa emprestada.
Na escola Eurídice 87% possui casa própria, 10% vivem em casa alugada e 3% em outros.
Na Escola Tancredo 79,31% dos alunos pesquisados residem em suas mediações ­
bairro Princesa Isabel e destes, 17,24% vem da zona rural por meio de transporte escolar. Na
escola Eurídice, dentre os alunos pesquisados 33,33% moram no bairro Santa Felicidade e
30% no bairro Centro (estes são considerados bairros "nobres" da cidade, casas de aparência e
servidos de certas infra-estrutura). Figura 22.

EM QUE BAIRRO VOCÊ MORA?
100
90
79,31%
80
70
60
50
40

33,33%

30%

30
17,24%

20

10%

10

0%

10%

3,45%

10%
0%

6,67%
0%

0%

0%

0
Centro

Santa
Felicidade

Princesa
Isabel

Cidade Alta

Escola Eurídice

Redondo

Dados
incompletos

Zona rural

Escola Tancredo

Figura 22: Localização geográfica dos alunos da pesquisa
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

Quanto ao número de pessoas que moram na mesma casa, observei que as famílias dos
alunos são formadas entre duas a oito pessoas, sendo que o maior percentual está nas famílias
formadas por três e cinco pessoas. Na Escola Tancredo 68,97% dos alunos tem suas famílias
124

formadas entre três e cinco pessoas e na escola Eurídice esse número é de 70%. Encontra-se
ainda famílias com até dez pessoas. Na escola Tancredo 17,24% dos alunos têm suas famílias
formadas entre seis a dez pessoas e na escola Eurídice esse percentual é maior (20%), ver
Figura 23.

Figura 23: Número de pessoas por domicílio.
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

Por meio da Figura 24 é possível observar que é na escola Eurídice que se encontram
os alunos pertencentes à família com maior poder aquisitivo, onde 30% dos alunos recebem
mais de quatro salários mínimos e apenas 16,67% dos alunos convivem com menos de um
salário mínimo, ao passo que na escola Tancredo, entre os alunos pesquisados 34,48% são
oriundos de famílias que recebem menos de um salário mínimo, e dos alunos pesquisados
nenhuma família recebe mais do que quatro salários mínimos.
125

Figura 24: Renda mensal das famílias dos alunos participantes da pesquisa.
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

Pela Tabela 06, no tocante a aparelhos eletrônicos e de informação disponíveis em
casa como: DVD, Vídeo cassete, televisão, internet e computador, jornais e revistas, com
exceção da televisão e de jornal/revistas, os demais aparelhos estão mais presentes na casa dos
alunos da escola Eurídice.
TABELA 06: OCORRÊNCIA DE RESPOSTAS QUANDO PERGUNTADO
EQUIPAMENTOS ELETRÔNICOS E DE INFORMAÇÃO QUE TEM EM CASA.

DVD
Vídeo cassete
Televisão
Internet
Computador
Jornal e revista

Escola Eurídice
22
6
29
14
16
13

SOBRE

OS

Escola Tancredo
11
2
27
2
2
16

Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

126

Das respostas dadas pelos alunos quanto a desenvolverem atividades fora dos afazeres
de casa, 24% dos alunos da escola Tancredo afirmam que desenvolvem trabalho fora das
tarefas domésticas, enquanto na escola Eurídice esse número é maior (33%). Pelo contato
direto estabelecido com os alunos durante a pesquisa pode-se levantar a hipótese de que um
grande número de alunos da escola Eurídice que dizem trabalhar fora de casa, o fazem no
sentido de ajudar os pais em seu próprio negócio, no trabalho com a padaria, restaurante,
supermercado, lanchonete, entre outros.
Pela Tabela 07 se observa que 28% dos alunos da escola Tancredo são filhos de
domésticas, 28% de vaqueiros, 17% de auxiliar de serviços, ao passo que, na escola Eurídice
o maior percentual de ocupação dos pais está em 23% comerciante, seguido de 20%
comerciário e 16% doméstica.

TABELA 07: OCUPAÇÃO DOS RESPONSÁVEIS PELOS ALUNOS PARTICIPANTES DA PESQUISA

Ocupação
Auxiliar de serviços
Comerciário
Comerciante
Doméstica
Funcionário público
Pedreiro
Vaqueiro
Aposentado
Outros
Desempregado
Em branco
TOTAL

Escola Tancredo
n
%
5
17
8
28
2
7
2
7
8
28
1
3
3
10
29
100

Escola Eurídice
n
%
3
10
6
20
7
23
5
16
2
7
3
10
2
7
2
7
30
100

n
8
6
7
13
2
4
8
3
2
1
5
59

Total
%
14
10
12
22
4
7
14
6
4
2
5
100

Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

No intuito de saber se os alunos têm algum tipo de contato com a leitura fora do
ambiente escolar, pedi que assinalassem as leituras que realizavam fora da escola e por meio
da Tabela 08 é possível observar que na escola Tancredo a maioria dos alunos, (13) lêem
gibis, (10) Bíblia e (9) livro didático e revistas. Na escola Eurídice a maioria dos alunos (17)
utilizam-se da internet, (16) lêem revistas e livros didáticos e (15) lêem gibis.

127

TABELA 08: OCORRÊNCIA DE RESPOSTAS QUANDO PERGUNTADO SOBRE A LEITURA FORA
DAS ATIVIDADES ESCOLARES.

Leituras
Revistas
Gibis
Bíblia
Jornal
Internet
Livros didáticos
Nenhum
Outros

Escola Eurídice

Escola Tancredo
16
15
11
4
17
16
2
8

9
13
10
3
7
9
1
6

Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

A escola foi vista até há pouco tempo como singular fonte de saber. Atualmente, ainda
que continue a ter uma função importante ela já não monopoliza o saber, ou seja, hoje há
muitas outras fontes de informação. Nestas, as novas tecnologias são excelentes meios para a
construção do conhecimento. A internet é, atualmente, o meio de comunicação que alarga os
relacionamentos para além das tradicionais fronteiras sociais e geográficas, e novamente
percebe-se que este recurso está mais presente para os alunos da escola Eurídice (17) e só está
disponível na casa de (7) dos alunos da escola Tancredo.
Dos alunos que responderam aos questionários 91% gostam de estudar. Na escola
Tancredo o percentual de alunos que gostam de estudar é maior (96,55%) e na escola Eurídice
é 83,33% (Figura 25). Os alunos das duas escolas que disseram gostar de estudar
argumentaram: estudar é legal, a gente aprende muitas coisas novas, é importante para
garantir nosso futuro, vai me ajudar a arrumar um bom emprego. Estas duas últimas
afirmações, de acordo Cavalcanti (2003: 35) "indica uma compreensão incorporada (ou pelo
menos "reproduzida") da relação dos estudos com o futuro que é feita comumente pelos
adultos", outros disseram que gostam porque tiram boas notas. Os que não gostam de estudar
argumentaram, dizendo que estudar é chato e difícil. Talvez o percentual de alunos que
gostam de estudar, seja maior na escola Tancredo pelo fato de as crianças com menor poder
aquisitivo, encontrarem na escola uma possibilidade de um futuro melhor, pois a escola em
que pese insuficiente, oferece um maior contato com o mundo: televisão, filmes, diálogos,
livros, revistas, interação, jogos, brincadeiras, entre outros e que na maioria das vezes
inexistem no cotidiano desses alunos, ou uma possibilidade de vida melhor ou ainda a
"merenda", como menciona a A4.

128

GOSTA DE ESTUDAR?
96,55%
100
90

83,33%

80
70
60
50
40
30
12,5%

20

3,45%

10

4,17%

0%

0
Sim

Não
Escola Eurídice

Mais ou menos
Escola Tancredo

Figura 25: Gosto pelo estudo
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

No tocante ao que os alunos fazem para se divertirem as respostas foram diversas
(Figura 26) sendo as mais citadas entre os alunos da escola Tancredo: jogar futebol e vôlei
(31%), passear e brincar (27%), sair para festas e tomar banho de rio (8%). Na escola
Eurídice: jogar bola (29%), passear e brincar com os amigos (18%) internet e computador
(10%).

129

Figura 26: Atividades de lazer preferidas
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007

As diversões não são muito diferenciadas entre os alunos das duas escolas. Por ser
uma cidade pequena não há muitas opções de divertimento, na maioria os alunos improvisam
suas brincadeiras ficando a cargo da imaginação, uma vez que a cidade não oferece espaços
para tal.
De uma forma em geral é inegável ressaltar que quando relacionados os objetos de
posse e uso dos sujeitos pesquisados com as leituras realizadas fora do ambiente escolar e
com as atividades de lazer de suas preferências, identifica-se que não há outra manifestação
possível que caracterize a produção de seus conhecimentos e interações sociais, apenas se
percebe que o livro didático, os gibis, jornais e revistas, além da mídia televisiva e da internet,
incidem fortemente na maneira como os alunos sentem, pensam, comunicam e se relacionam
com o mundo.

130

Dados da entrevista

A A4 tem 13 anos e estuda na 5ª série B na escola Tancredo. Nasceu nesta cidade, não
realiza trabalho além dos serviços domésticos, mora com a mãe, três irmãs e uma sobrinha
numa casa emprestada no bairro Princesa Isabel. Sua mãe trabalhava de doméstica e por
sofrer de trombose não pode mais trabalhar. As necessidades mínimas de alimentação e
vestuário são obtidas por doações. A escola é o lugar mais freqüentado pela aluna e a mesma
diz que as escolas são o que a cidade tem de melhor, pois, através delas as pessoas aprendem
bastante: "para as pessoas estudar para ser alguma coisa". Seu sonho é fazer uma
faculdade para ser professora de História ou Geografia.
A A2 tem 14 anos e estuda na 6ª série A na escola Tancredo. Mora nesta cidade há
sete anos. Seu sonho é formar-se Jogadora de Futebol ou em Polícia Federal da Inteligência.
Trabalha em casa ajudando com as tarefas domésticas, vive com a mãe, esta do lar, e com
padrasto aposentado, e dois irmãos pequenos. Seu pai biológico mora e trabalha no Paraná
gerenciando um Porto de Areia, por isso, nas férias prolongadas viaja para passar com o seu
pai. Mora no bairro Santa Felicidade e estuda no bairro Princesa Isabel por ser a única escola
que ofereceria treino de futebol de salão para meninas.
A A3 tem 11 anos e estuda na 6ª C na escola Eurídice. Nasceu nesta cidade. A aluna
gosta de estudar e pretende cursar faculdade para veterinária ou enfermagem. Trabalha no
sentido de ajudar seus pais nos afazeres do mercado e lanchonete nos dias de bastante
movimento, mora com pai e mãe, e duas irmãs no bairro Centro da cidade, lugar bastante
movimentado e barulhento.
O A1 tem 12 anos e estuda na 7ª A na escola Eurídice. Mora nesta cidade há sete anos
e atualmente reside no Bairro Princesa Isabel com o seu pai que no momento da pesquisa
trabalha como motorista de uma loja de móveis. Não desenvolve trabalho além dos serviços
da sua casa. A escola é o que o aluno mais gosta na cidade por ser um lugar aonde se vai para
aprender, depositando na escola a confiança de um futuro e uma vida melhor, tanto para si
quanto para seus filhos que virão, mas não tem planos para estudar além do Ensino Médio.
Para os alunos entrevistados a escola é muito importante para a vida das pessoas,
argumentando:
"Podemos ter no futuro, uma vida melhor, um serviço mais melhor, ter oportunidade
de dar pros filhos uma vida melhor" (A1).

131

"É muito importante para o futuro da gente né, quem já estuda já é difícil arrumar
emprego, imagine quem não estudar, então quem estuda tem tudo pra dar certo na
vida" (A2).
"A escola é fundamental para as pessoas estudar para ser alguma coisa" (A4).
"Pra gente fazer a faculdade" (A3).

Conforme fragmentos das falas dos alunos a escola se dá, de forma geral, como sendo
o suporte para um bom futuro. Entretanto, na primeira fala o aluno deposita na escola a
responsabilidade de dar aos filhos que ainda virão uma vida (certamente) melhor do que a
dele, já a última aluna vê a escola como uma passagem que a conduzirá até a faculdade,
provavelmente essa discussão já está embutida na própria família, discussão esta, inexistente
na família do A1, já que o mesmo mora apenas com o pai em uma casa simples, com uma
rotina de sobrevivência muito limitada, talvez, querer estudar até o Ensino Médio sem
expectativas para uma faculdade seja algo interiorizado pela própria sociedade, pois, as
perspectivas de cursar uma faculdade são maiores para os alunos com maiores condições
financeiras.
Os alunos apontaram alguns elementos positivos e negativos na ambiência escolar. O
A1 aponta o pátio, a sala de aula, os colegas e alguns professores, entre as coisas que gosta na
escola, alunos que se acham superiores, indisciplinados, bagunceiros e a pouca interação e
compreensão professor-aluno e escrever muito, são elementos negativos da escola, levantando
um fator importante a respeito dos professores, "alguns nem falam nada e já vão passando
tarefa, e isso é muito ruim". Ora, se a construção do conhecimento é algo realizado pelo
próprio aluno, mediado pelo professor, sem o diálogo só há repasse de informações.
A aluna A2 afirma que no cotidiano da escola há várias coisas de que não gosta e
entre elas aponta a diretora, afirmando que: "Ela só é diretora porque é "paga pau do
governador", porque por eficiência ela não estaria ali. [...] e eu sei de tudo o que tá acontecendo
ao meu redor, às vezes eu fico quieta, mas eu sei de tudo o que tá acontecendo". Também
apresenta certo descontentamento com as leis e organização escolar, uma vez que a escola dispõe de
um computador para uso dos alunos e os mesmos foram proibidos de acessar sites do "ORKUT" e
"MSN", no entanto, funcionários o utilizam com esta finalidade: "a gente sempre reclamava porque
a gente queria entrar lá e tinha que marcar horário e falar pra que a gente ia usar né, e elas não,
elas só chegavam lá sentavam e começavam mexer e entravam em "MSN e ORKUT". Aponta "as

salas sujas" como outro fator de insatisfação com a escola, afirma que os alunos têm direito de
estudar em um ambiente limpo, portanto, se alguns funcionários "não podem trabalhar,
132

então porque ainda tá contratada, tem jeito de vocês contratar outra mulher ai pra
limpar as outras salas que tá sujas".
A aluna A4 gosta dos professores, de alguns colegas e dos livros da biblioteca e da
merenda, mas não gosta da quadra descoberta e do mato entorno da quadra, também não gosta
de alunos indisciplinados que depredam a escola e sala de aula.
A aluna A3 diz:
"Gosto de tudo, ah tem algumas coisas assim que acontece na aula, alunos chato fica
atrapalhando, mas fora disso não tem nada. Ah tem uns lá que eu não gosto nem de
ver de tanta raiva que eu tenho deles. Porque a gente não tá fazendo bagunça e a
professora começa brigar com a gente também, a gente ta lá fazendo a tarefa e por
causa dos outros ela fica ignorante com todo mundo. [...] E porque a diretora é muito
boazinha ela chama os alunos lá e não faz nada com eles, ela só conversa e no outro
dia a mesma coisa".

Os professores foram apontados como elemento positivo e também negativo no
ambiente escolar, sendo um dos fatores por gostar em maior ou menor grau da escola:
"Eu gosto de todos, são muito legais, tem sim a hora certa de brigar com os alunos,
todos dão aulas bem e dá até chance pra gente ainda. Eu gosto da Elaine. Ela explica
matemática, é a matéria que eu mais gosto, ela explica tudinho. [...] A professora
Eliane me deu 10 em portugueis e 9,5 em ciências, (risos). Quem não gosta de tirar
um dez né!? O professor de geografia explica, o professor Inácio é super legal, eu
queria que o professor Inácio fosse o diretor da escola. [...] Ele é muito criativo, ele
vai dar idéias pra escola pra ser mais legal, mais atrativa, mais alegre entendeu? E se
ele fosse diretor eu acho que a escola ia mais pra frente" (A2).
"Tem uns professores que são bacanas pra caramba. Tem umas três professoras só
que conversam" (A1).
"Eles são atenciosos se os alunos pedem explicações eles dão uma ou duas vezes até
aprenderem e eu acho eles legais" (A4).
"Têm alguns que são mais calmos alguns são mais agitados, mais bravos" (A3).

Quanto à metodologia trabalhada nas aulas de uma forma geral, os alunos apontam
algumas sugestões:
"Nem sempre é só escrever, só escrever! Algumas vezes tem que mudar né!
Trazendo algumas coisas que os alunos gostam... [...] Brincar com os alunos" (A1).
"A escola não tem condições que nem as escolas de fora, e se a escola pudesse
providenciar seria melhor, porque os alunos estão um pouco desligado do mundo sei
lá eles só vem o que esta ali na sua frente, não vê o que tá acontecendo, o que
realmente é a vida" (A2).

133

"Com mais músicas, brincadeiras, e não encher o quadro pra gente copiar. Acho que
é brincando né, porque as professoras chegam lá bravas e começam a brigar com
todo mundo e nem culpa nossa é, às vezes é assunto da família. Uma vez ela recebeu
um telefonema e ficou brava e não sei o que era, mas ela chegou lá na sala uma fera,
daí tem uns alunos que não gosta de fazer nada e tipo assim, brinca com pergunta né,
assim é melhor do que chegar lá brava daí ninguém que presta atenção (risos). [...]
"Eu queria que eles trabalhava mais sobre o nosso município, o modo assim que a
gente vive aqui na cidade [...] fazendo maquetes".

Os alunos apontam um leque de elementos que contribuem com a motivação para
aprendizagem, como exemplo, diversificar a rotina das aulas com brincadeiras, computadores
e apresentam sugestões de conteúdos. Os alunos querem sair da condição de passivos para
serem protagonistas nesse processo da aprendizagem.
Pelos dados apresentados até o momento, é possível inferir que há uma
heterogeneidade sócio - espacial entre os alunos das escolas. A escola do centro da cidade
apresenta um maior número de alunos com maiores condições financeiras, portanto, conforme
constatado, com acesso a diferentes tipos de informações e maiores oportunidades. A escola
Tancredo ordinalmente, por situar-se em um bairro periférico, onde a comunidade convive
lado a lado com a violência, desemprego e drogas, é muito discriminada pela sociedade e
conseqüentemente os alunos também.

5.4 Conhecimento geográfico escolar

As questões fundamentais para a realização deste item diz respeito à busca de
lacunas ou aproximações entre o saber do aluno e o que ele discute na escola sobre a sua
cidade. Neste sentido, pedi aos alunos: o que é geografia para você? E as respostas foram:
"Geografia é... o estudo... o estudo do espaço..., ah eu esqueci" (A1).
"É o conhecimento, como as pessoas vivem! As pessoas pobres as pessoas ricas! De
classe mais alta de classe mais baixa! As favelas, as grandes empresas, prédios, as
cidades pequenas e as cidades grandes!" (A4).
"É um espaço geográfico onde que a gente estuda o Brasil, o mundo, estuda uma
paisagem, tipo um espaço geográfico. A gente estuda o que acontece, relevo, estuda
o que esta acontecendo" (A2).
"Hum, geografia... é... Assim que da mais... que fala mais sobre a natureza né, o
planeta, as pesquisas que fala do que tá acontecendo, acho que é isso" (A3).

134

Nos termos citados pelos alunos, aparece o objeto de estudo da Geografia, o espaço
geográfico, mas este aparece de forma fragmentada, um espaço geográfico distante da sua
vida concreta e de uma geografia bastante descritiva.
Em seguida, pedi o que estavam estudando em Geografia:
"Da Amazônia, do Brasil, muitas coisas da terra" (A1).
"Do espaço [...] tantos quilômetros tem não sei o que..., o Brasil tem tantos
quilômetros quadrados, tem até um pouquinho de matemática por dentro" (A2).
"A gente está estudando que tá poluindo muito e que precisa melhorar isso. [...] fala
em animais, das coisas assim que tem que preservar, da fumaça, e até em TLR ­
Técnica de Leitura e Redação) a gente tá fazendo uns projetos assim, a gente tá
plantando árvore né, e daí o que a gente tá estudando em Geografia você já sabe
algumas coisas. Tipo assim, você não sabia que aquele negócio [óleo de cozinha]
que você colocou ali podia estragar lá, o óleo né, daí você aprende, não pode (A3).
"As pessoas pobres, as pessoas ricas! As favelas, as grandes empresas, prédios, as
cidades pequenas e as cidades grandes! A pecuária, o campo" (A4).

Os alunos apontam os assuntos abordados pelo livro didático como a Amazônia, o
Brasil, as grandes e pequenas cidades e o campo, estes são conteúdos da 6ª série. A A3 faz
referência a assuntos voltados à questão ambiental com a cidade, temática apresentada como
prioridade entre os professores entrevistados. Percebe-se que embora a Geografia tenha
passado por uma mudança acadêmica nas últimas décadas, na fala dos alunos ela aparece mais
como uma referência que uma apropriação conceitual, apresentando um caráter descritivo e
sem um propósito, um objeto de estudo.
Os alunos demonstram gostar da Geografia, a saber:

"Não sei se é por causa da professora, ou da matéria, ela começa lá a mostrar como
que era a terra antes e como que é a terra hoje e assim por diante" (A1).
"Eu gosto é de ler. Tem vez que eu falo só abobrinha, (risos). Às vezes eu falo tudo
errado, não é nada do que o professor tá falando. Eu gosto" (A4)!
"É que eu tirei dez, dez, dez né, (risos) [...] Porque assim, tem aluno que fala que
gosta mais de uma matéria e gosta menos de outra, mas pra mim, tem sempre as
preferidas, mas não tem aquela que eu não gosto. Então é assim, geografia pra mim é
uma matéria que a gente sabe do espaço, a gente fica por dentro".
"Ah, é porque tipo eu gosto de animais, daí fala em animais, das coisa que tem que
preservar, da fumaça, eu gosto... sobre as árvores a gente faz maquetes lá da caixa
D'água".

135

As razões apontadas pelos alunos por gostarem da disciplina têm a ver com as boas
notas e pelo diálogo desencadeado com o professor em sala de aula e ainda pela identificação
com a disciplina.
Das respostas ao questionário referente a esta questão (14%) dos alunos
responderam que tem a geografia entre as disciplinas que mais gostam de estudar, sendo que a
disciplina de Artes foi a mais citada entre os alunos, acredito que a afinidade maior com esta
disciplina tem a ver com a diversificação do contexto dessas aulas.
TABELA 09: OCORRÊNCIA DE RESPOSTAS QUANDO PERGUNTADO SOBRE QUAIS AS
DISCIPLINAS QUE MAIS GOSTAM DE ESTUDAR.

Disciplinas que mais gostam de estudar
Matemática
Língua Portuguesa
Geografia
História
Inglês
Artes
Ciências
Ed. Religiosa
Total

N

%
35
13
37
35
31
43
35
34
263

13
5
14
13
12
17
13
13
100

Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste, 2007.

Dos 14% dos alunos que afirmam gostar da Geografia, estão entre suas
argumentações à simpatia com a professora (o) e por conhecer o mundo. E entre as disciplinas
que os alunos menos gostam, a Geografia ocupa (7%), suas argüições por não gostarem são de
uma disciplina chata, sem graça, ou nas palavras de Lacoste (2006, p.21) "maçante e
enfadonha", e, sobretudo afirmam ser difícil de entender e aprender. (Tabela 10).
TABELA 10: OCORRÊNCIA DE RESPOSTAS QUANDO PERGUNTADO SOBRE QUAIS AS
DISCIPLINAS QUE MENOS GOSTA.

Disciplinas que menos gostam de estudar
Matemática
Língua Portuguesa
Geografia
História
Inglês
Artes
Ciências
Ed. Religiosa
Resposta Incompleta
Em branco
Total

N

%
19
38
9
9
17
4
14
9
1
1
121

16
32
7
7
14
3
12
7
1
1
100

Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste, 2007.

136

Conclui-se que 86% dos alunos das escolas pesquisadas não têm a Geografia entre
as disciplinas que mais gostam de estudar, e mesmo esse percentual que diz gostar, pode ser
questionado uma vez que estavam respondendo ao questionário para uma professora de
Geografia.
No tocante ao assunto em voga, no decorrer da entrevista com os alunos A1, A2 e
A3 a Geografia aparece entre as disciplinas que gostam de estudar, entretanto, dizem que não
gostam de escrever muito, principalmente quando o quadro fica cheio, afirmando que demora
muito para copiar as atividades no caderno. A A3 aponta outros motivos:
"Eu não gosto assim, eu respondo tudo e eu tenho certeza que tá certo aquela coisa
que eu respondi daí eu vou lá e a professora fala que não é, mas é aquilo lá! E ela
fala que não é, mas eu tenho certeza que é aquilo lá!".

A fala acima indica que o saber do aluno ainda é pouco explorado nas atividades da
sala de aula. Dá a entender que o conhecimento que está no livro didático ou no saber do
professor é mais valorizada em detrimento do que pensa o aluno, o que causa frustração e
descontentamento com a disciplina, conforme bem pontua a A3.
Ainda na pretensão de aprofundar as questões sobre a Geografia escolar solicitei que
os alunos apontassem o que gostariam de estudar nas aulas de Geografia, e a A3 afirma que:

"Gostaria que a professora levasse a gente lá na floresta e a gente ia vendo, e ela ia
explicando isso aqui é a árvore tal, é porque a gente fala as coisas e daí eles não
entendem algumas coisas que são muito difícil, e daí se a gente tiver mostrando eles
já sabem o que é, e daí aprende melhor".

A aluna traz um fato que tem causado certas inquietações em minha prática docente, a
questão da abstração. O mundo teórico da sala de aula é bastante abstrato para os alunos, ele
não se materializa na concretude da prática do cotidiano dos mesmos. A fala da aluna
concretiza a necessidade de refletir sobre o fazer pedagógico em sala de aula, cujo foco
central é proporcionar ao discente a compreensão do conhecimento escolar, de forma não
somente abstrata e sistematizada. Os conteúdos não condizem com a realidade, motivos que
inviabilizam qualquer estratégia que vise uma aprendizagem significativa.
Os A1 e A4 afirmam que gostariam de estudar mais sobre a realidade do nosso
estado e dos estados vizinhos: "isso a gente estuda muito pouco na sala de aula".
Os alunos que responderam ao questionário trazem outros elementos importantes
para o trabalho do professor em aula. Os mais citados são os referentes ao meio ambiente e
137

modo de vida, seguido de temas como: drogas, políticos e prefeitura, laticínio, saúde,
racismo e descriminação, bairros pobres, computador e formação da cidade.
Com intuito de conhecer conteúdos trabalhados pela Geografia que discuta a
realidade dos alunos, busquei saber o que já haviam estudado sobre a cidade de Alta Floresta
D'Oeste, e as respostas foram similares nas duas escolas. Na escola Tancredo as respostas das
entrevistas foram bastante negativas. "Não! Sobre a nossa cidade não, mas sobre as outras
cidades sim" (A4). "A gente fala algumas coisas, mas não por dentro, nada concreto"
(A2).
No questionário respondido pelos alunos desta escola, aparecem alguns assuntos
relacionados à cidade: praça, água, lixo, poluição, um pouco de tudo, rios, poluição dos rios,
desmatamento e trânsito.
Percebe-se que timidamente o lugar que o aluno mora e realiza suas atividades
cotidianas aparecem dentro da sala de aula. A temática água foi trabalhada nas duas escolas
através de trabalho de campo, os alunos foram com seus professores até o Serviço Autônomo
de Água e Esgoto ­ SAAE da cidade, onde lhes foram ensinado o processo de tratamento até
a água tornar-se própria para consumo, como também a forma que a mesma chega até as
residências da cidade. Os alunos também apontam o trânsito entre os temas trabalhados em
aula, temática desenvolvida por meio do projeto "Amigos da Vida" em parceria com uma
Escola de Trânsito.
Quanto às temáticas apontadas pelos alunos: lixo, poluição, rios, e desmatamento,
observa-se através das falas dos professores e das observações em aula que são discussões
veiculadas aos conteúdos do livro didático, não desenvolvidas individualmente. Ainda no
assunto em voga, 9% dos alunos dizem que já foi trabalhado em sala de aula "um pouco de
tudo", o que de fato não deixa de ser verdadeiro, uma vez que percebemos a preocupação dos
professores em fazer as pontes entre o que discutem no livro didático com a vida prática do
aluno, entretanto, são discussões pouco sólidas e soltas, como pode ser observado nos
fragmentos da observação em aula.
Na escola Eurídice os alunos entrevistados afirmam que estudaram sobre:

"Como era a cidade há uns vinte anos atrás... Só!" (A1).
"As capitais, os rios mais importantes, ah também a gente lá no tratamento de água,
onde os rios que tá muito poluído que a gente tá pensando até em plantar umas

138

árvores lá no rio. [...] Também estudamos sobre as condições da cidade tipo, porque
tem que coloca o asfalto, tem que melhorar tudo" (A3).

Nas respostas ao questionário referente a esta questão os alunos apontam ter
estudado sobre: número da população; SAAE - Serviço Autônomo de Água e Esgoto;
reflorestamento; porque a cidade tem esse nome; formação da cidade. As respostas dos
alunos apresentam certas relações com a fala do P5 que comenta ter levado os alunos em anos
anteriores para a praça do centro e dialogado sobre a história memorizada que ele possui
acerca da cidade desde o início de sua formação.
Perguntei ainda se os alunos percebiam a utilidade dos conteúdos estudados pela
Geografia no dia-a-dia. Eis as respostas:

"Não! Eu acho que não" (A1)!
"No meu cotidiano eu não falo, mas quando vou viajar pra fora daí tem geografia no
meio, nóis fala da cidade, e eu falo ah pai já falamos sobre isso. Olha, igual o Rio
Paranasão que o professor falou assim, que lá tira o maior número de areia e agora
meu pai ta lá no porto de areia tirando, (risos) comandando lá e nós já tinha falado
que o Rio Paranasão que tirava o maior número de areia lá pra fazer construções
(A2).
"Já. Antes eu jogava óleo que sobrava no terreiro daí a professora disse que não
podia, porque machucava o lençol freático. Ah, tem bastante coisa só que na hora
assim eu não me lembro, o negócio de água também, tinha no livro que lavar a louça
com a torneira aberta gastava não sei quantos litros de água e agora tampando
gastava menos. Tomar banho também eu só tomava banho de chuveiro aberto, eu
não desligava nem um pouco, e agora eu desligo, mas quando eu estou com muita
pressa eu não faço muito isso, só quando eu tenho tempo, quando eu tomo devagar o
banho, daí eu faço" (A3)!
"Sim, não jogar lixo, só! Na beira da estrada" (A4).

Apesar dos alunos apontarem o que estão estudando e o que já estudaram sobre o lugar
que moram, não conseguem explicar a importância da Geografia para a vida das pessoas ou
mesmo em seu cotidiano. O A1 responde que ele não vê relação entre a Geografia com sua
vida. Na resposta do A2, percebe-se que o mesmo não faz a relação, mas mostra o
distanciamento da Geografia, evidenciando a Geografia teórica sem vínculos com a
sociedade. Os alunos A3 e A4 em suas respostas fazem a relação, porém, percebe-se a forte
influência da massificação relacionado a degradação ambiental. Como já afirmara Cavalcanti
"existe ainda pouca aproximação da escola com a vida, com o cotidiano dos alunos"
(CAVALCANTI, 2000, p.13).
139

Em que pese mudanças terem acompanhado a geografia escolar nas últimas três
décadas, mais ainda necessita ser alcançado para que esta tenha uma função esclarecedora,
atuante e formativa no sentido de construir uma consciência crítica no mundo globalizado do
qual vivenciamos. Contudo, esse despertar não ocorrerá enquanto os conteúdos trabalhados
estiverem presos ao decorar, descrever e longe da realidade social, cultural e geográfica dos
educandos. Assim, é importante repensar sobre a abordagem teórico-metodológica do ensino
geográfico que direcione os alunos para o conhecimento crítico-social, rompendo as barreiras
físicas/humanas para compreendê-las em suas relações mais complexas, e principalmente o
aluno precisa compreender que ele é e faz parte do espaço geográfico, a partir das categorias
que lhe são próprias.

5.5 Os alunos e a cidade

A cidade é uma geografia da ação nos modos propostos por Santos (1996) com suas
ruas, praças, edifícios, símbolos e cores, é a materialização da sociedade. E como afirma
DaMatta (1997) é neste espaço que os indivíduos vivem, brincam, passeiam, trabalham e
percorrem, alguns em maior e outros em menor dimensão. Por isso, acredito que seu saber
está entrelaçado nessas experiências cotidianas, e juntá-las tecendo cada fio desse saber, sem
deixar que se percam no decurso do Ensino Fundamental me parece dar novos sentidos ao
aprender para além das notas e dos muros escolares.
Na busca de identificar esses saberes geográficos na trama de suas experiências
vividas na cidade pedi aos alunos que falassem a cerca do lugar onde moram.
O lugar para a A4 é: "A rua é ruim, tem muito lixo jogado na rua",
demonstrando não gostar do lugar que mora em razão da falta de educação das pessoas que
poluem jogando lixo nas ruas e no rio do bairro. Comenta ainda que essa falta de cuidado, não
faz bem à saúde das pessoas, principalmente, porque há crianças desinformadas que vão
tomar banho neste rio. Quase não sai de casa e o que mais gosta de fazer é ir à escola, na casa
da amiga, no ginásio jogar bola e passear pela cidade, olhando as coisas. Apesar de não poder
comprar o que gostaria se diverte ao andar nas ruas apreciando as lojas e suas roupas bonitas,
as cores, os produtos que os mercados oferecem e também jogar futebol no Ginásio de
Esportes. A Praça do Centro é o lugar que mais gosta: "Eles cuidam bem cuidado das
140

plantas", contudo, não aprecia a Praça do bairro Redondo por ser bastante pichada e suja.
Para a aluna, entre todos os lugares, a escola é o que a cidade tem de melhor: "ensina
bastante e todos os alunos podem estudar", sendo também o lugar que mais freqüenta.
O bairro Centro com suas belas casas, lojas e mercados é o que mais lhe chama
atenção, todavia, apesar de apreciar afirma que só entra para comprar quando dispõe de
dinheiro: "acho que faz uns três anos que a gente não entra num mercado, assim para
fazer uma compra". Expressa desejo por conhecer uma piscina e uma loja de móveis, pois
nunca entrou em uma, sendo esta a resposta quando indagada sobre um lugar na cidade que
gostaria de conhecer melhor. Talvez esse é um dos motivos pelo qual afirma que gostaria de
morar no bairro Centro, além de afirmar que o bairro em que mora: "tem muito mosquito da
dengue, esses brejos, as pessoas poluem mais esse bairro, tem bairro lá em cima que joga
bastante lixo porque o rio vem de lá, daí os lixos vêm pra cá".
A A2 trás outros elementos que contribuem de forma positiva ou negativa ao falar do
lugar onde mora. Afirma que gosta do bairro em que mora, neste, o que mais gosta de fazer é
jogar futebol no campo perto de sua casa, entretanto, não gosta do "achismo" de alguns e do
preconceito que apresentam para com as pessoas de baixo poder aquisitivo. A aluna expressa
gostar muito do bairro da "Vila", bairro onde estuda, pela amizade e simplicidade das
pessoas:

"Para mim se é pobre ou se é rico, pra mim é gente e ninguém é melhor do que
ninguém [...] eu já falei: eu não saio da vila, eu gosto mais das pessoas pobres do que
das ricas! Eu me dou bem com todo mundo é claro, a minha amizade é a mesma,
mas as pessoas que eu mais gosto são de lá porque as pessoas são simples entendeu?
[...] Quando eu to com meus amigos assim, eu não sei eu fico numa alegria assim
que sei lá, eu passo alegria pros meus amigos, sabe quando você se sente bem e não
quer sair dali? Parece que a hora passa mais rápido, sabe quando você ta no bom ali,
então, é contagiante, com meus amigos eu me sinto bem."

Dada a esse sentimento a aluna afirma que gostaria que sua casa estivesse localizada
na "vila", ou seja, no Bairro Princesa Izabel. Mostra-se descontente com o atual prefeito da
cidade afirmando que não queria que ele fosse prefeito, e sim a ex-prefeita, pois, ela:

"Asfaltava as ruas e fazia as coisas direito entendeu? Porque o que eu queria era que
todas essas vilas, tipo a Vila Santo Antônio... [Distrito do município] eu queria tipo
assim, que eles daqui uns anos se juntassem, que eles crescessem a ponto de se juntar
com a cidade".

141

A Vila Santo Antonio é um dos distritos de Alta Floresta D'Oeste e está localizada a
aproximadamente 20 quilômetros da área urbana, então perguntei a aluna se ela achava que
esse crescimento a ponto de se tornar uma única cidade seria possível e se isso dependia do
prefeito, então alude que:
"Nada é impossível né"? [...] Mas as pessoas vem morar, constroem casas,
comércios, lojas, não é assim que se formam as cidades? Aí tem que por hospital aí
vai crescendo as cidades....".

As festas e a Praça do Centro é uma das coisas boas e bonitas que a cidade tem, ir ao
Balneário e ao Ginásio de esportes com seus amigos é o que mais gosta de fazer na cidade.
Entre as coisas que não gosta cita as brigas, as bebidas e as drogas usadas pelos seus amigos,
como também a falta de ordem e organização da cidade, atribuindo ao prefeito essa situação,
também alude a falta de oportunidade no sentido de a cidade não oferecer estudos além do
Ensino Fundamental e Médio e nem incentivos para formação em esportes, cita ainda que o
asfalto não contempla toda a cidade, falta diversão e lugares para realização de festas. A
delegacia é um dos lugares da cidade que a aluna gostaria de conhecer melhor:

"Eu queria entrar lá dentro [da delegacia] eu tenho curiosidade de conhecer melhor
como funciona lá. Numa Advocacia. Levar a gente no Fórum, na Promotoria, lugares
assim que... Prefeitura. Lugares que a gente tem uma noção assim, mas a gente não
tá por dentro de como funciona lá".

O A1 ao falar do lugar em que mora fica claro que não gosta do bairro onde reside,
contudo não sabe explicar o porquê, dizendo apenas: "é chato", "Ah, eu não gosto não!".
Afirmando que se pudesse escolheria o bairro Centro ou Santa Felicidade para morar, pois: "é
mais perto de algumas coisas, mais perto da minha escola". Talvez o aluno não goste do
bairro por estar morando ali apenas há um ano, sendo que antes morava de aluguel em uma
casa do Bairro Centro, e para fugir do aluguel adquiriram uma casa bastante simples no Bairro
Princesa Izabel, dada a isso seus amigos neste bairro são poucos como afirmara: "meus
amigos moram lá no bairro Cidade Alta".
Entre as coisas boas que esta cidade oferece cita as lojas de móveis, talvez, seja por ser
o local de trabalho de seu pai, também faz referências aos amigos, a família, e os professores.
O que mais gosta de fazer na cidade é ir de algumas vezes ao trabalho do pai e nos finais de
semana fica sempre em casa na companhia de seu pai, dificilmente quebram a rotina e quando

142

sai é para acompanhar o pai no exercício de seus afazeres, ou passar um final de semana com
a mãe no município vizinho em Santa Luzia. Quanto à diversão cita a lan hause.
O aluno faz menção à pista de skate como o lugar que menos gosta, nas suas palavras:
"é ruim de mais, é chato. [...] A pista é muito pequena, e é cheio de gente toda hora".
Convém dizer que este é um ambiente novo na cidade, no momento da pesquisa estava em
fase de inauguração, sendo um dos raros espaços de lazer que a cidade proporciona. Entre os
lugares da cidade que gostaria de conhecer aponta a "Câmara dos Vereadores. Porque é lá
onde que os vereadores trabalham, que eles planejam para a nossa cidade e depois
levam os planos pro nosso prefeito. Saber como que é lá é sempre bom".
A A3 estuda na 6ª C e ao falar do lugar em que mora se reporta ao barulho e o
movimento que envolve a sua casa:

"A minha casa é um pouco barulhenta, mas eu já me acostumei com o barulho,
quando tem festa na praça daí faz muito barulho, mas agora, se eu dormir lá no sítio
eu sinto falta do barulho. [...] é muito movimentado agora que a rodoviária veio pra
cá!" A aluna expressa que é ruim ficar sozinha, por isso gosta da movimentação do
entorno da sua casa".

Afirma que gosta de andar pelas ruas da cidade namorando as vitrines das lojas e
supermercados e gosta ainda mais de fazer compras. Gosta da cidade por ser tranqüila, pelo
clima agradável e pelas amizades que construiu. Os lugares que mais gosta de freqüentar são a
lanchonete e a Praça, e nesta, gosta de andar de patins, nas tardes de fins de semana.
O lixo jogado nas ruas é um forte elemento negativo que a cidade possui, nas suas
palavras:
"Quando chove fica um monte de lixo, né? Daí eu vou andar e não tem como passar
porque fica um negócio enorme (risos) cheio de lixo aqui e não tem como passar,
tem que pular e ainda molha meu pé, vem de lá de cima".

Neste mesmo sentido diz que a cidade necessita de uma estação de esgoto, pois o
mesmo é retirado por um caminhão e não tem um local adequado para despejá-lo, afirma
ainda que a cidade precisa de mais hospitais, asfaltos e parque de diversão.
A aluna diz que gostaria de conhecer a "Vila", ou seja, o bairro Princesa Isabel. De
acordo com sua fala:

143

"Eu quase não vou lá pra baixo eu conheço mais aqui pra cima que eu vou, lá pra
baixo eu só conheço uns lugar. Ah, por que é muito longe da minha casa, e eu vou lá
com as minhas irmãs e aqui pra cima eu vou sozinha, e lá pra baixo eu não vou
muito não e quase não tem ninguém que eu conheço lá. É lá onde a Mileide [colega
de sala] mora na "vila do sapo, né"? Eu quase não vou pra lá. Eu gostaria de
conhecer lá no Laticínio que eu nunca fui lá, eu só passo por perto e eu nunca entrei
lá dentro. Só pode entrar lá quem trabalha lá dentro eles falaram. É! Porque quase
ninguém conhece lá". Sim ela deveria levar os alunos lá nos rios, nas florestas,
porque ta acabando né de tanto poluir, daí eles podiam ir lá, tipo ficar fiscalizando as
pessoas a não jogar o lixo lá."

O lugar na dimensão exposta pelos alunos está ligado à casa, à rua, à escola, ao bairro,
às festas, à casa do amigo, à pracinha, enfim, lugar é um espaço geográfico que tem relação
próxima. Na fala dos alunos o lugar é o espaço onde desenvolvem suas relações de amizade,
relações familiares, de solidariedade, de ajuda e até de conflitos e de exclusão. Fica nítida em
suas falas que o lugar é um espaço construído na relação sociedade-espaço, aparece no
decorrer da conversa tanto lugares naturais, no caso do rio citado pela A4 quanto lugares
artificiais ou humanizados, como: casas, ruas, mercados e lojas. A concepção de lugar refere
as suas experiências e envolvimento com o mundo, daí ser visto sob díspares olhares,
dependendo do quadro socioeconômico de cada um.
Para saber dimensionalmente a relação dos alunos com a cidade, perguntei qual o
lugar na cidade que mais gostam independente de freqüentá-los. As respostas foram conforme
Tabela 11. Para os alunos da Escola Tancredo os lugares que mais gostam são: a Praça 30%,
lanchonete 13%, escola 10%, festas 8%, rio, sorveteria e casa de amigos 5% e ginásio
esportes 3%. Na escola Eurídice os lugares que mais gostam são: festas 19%, praça 11%, lan
house 10%, escola 8%, casa dos amigos, lanchonete, sorveteria e sua própria casa 6% e
ginásio esportes e biblioteca 4%. O lugar que os alunos de uma forma em geral mais gostam
dentro da cidade é a praça (20%), lugar que as pessoas se reúnem para conversar ou namorar
principalmente nos finais de semanas e feriados.

144

TABELA 11: OCORRÊNCIA DE RESPOSTAS QUANDO PERGUNTADO SOBRE OS LUGARES
QUE MAIS GOSTA NA CIDADE.

Lugar que mais gosta

Escola Eurídice
n

A minha casa
Escola
Festas
Praça
Casa de amigos
Lanchonete
Padaria/sorveteria
Biblioteca
Ginásio de esportes
Lan house
Rio
Centro da cidade
Outros
Resposta incompleta
TOTAL

%
3
4
9
5
3
3
3
2
2
5
0
0
5
5
49

6
8
19
11
6
6
6
4
4
10
0
0
10
10
100

Escola Tancredo
n
%
0
0
4
10
3
8
12
30
2
5
5
13
2
5
0
0
1
3
0
0
2
5
3
8
1
3
4
10
39
100

Total
n

%
3
8
12
17
5
8
5
2
3
5
2
3
6
9
88

3
9
14
20
6
9
6
2
3
6
2
3
7
10
100

Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

Com o mesmo propósito investiguei junto aos alunos quais os lugares que mais
freqüentam, e observei que estes são basicamente os mesmos citados como sendo os que mais
gostavam dentro da cidade. Na escola Tancredo a casa dos amigos e parentes é o lugar mais
freqüentado pelos alunos 25%, seguido de passeios na Praça 16% e 11% não saem ou saem
muito pouco de sua casa. Na escola Eurídice a casa dos amigos e parentes e a lan house são os
lugares mais apontados (17%), a Praça 15%. Observa-se que há poucas opções, a casa de
amigos e a Praça são basicamente os lugares mais freqüentados pelos alunos (Tabela 12).
TABELA 12: OCORRÊNCIA DE RESPOSTAS QUANDO PERGUNTADO SOBRE OS LUGARES
QUE MAIS FREQÜENTA NA CIDADE.

Lugar mais freqüentado
Praça
Sorveteria
Casa de amigos/parentes
Igreja
Festas
Padaria/mercados
Lan house
Ginário de esportes
Minha casa
Sítio/fazenda/rio
Outros
Resposta incompleta
Total

Escola Eurídice
n
7
3
8
2
4
3
8
0
0
2
10
1
48

%
15
6
17
4
8
6
17
0
0
4
21
2
100

Escola Tancredo
n
%
7
16
0
0
11
25
4
9
2
4
3
7
2
4
2
4
5
11
3
7
6
13
0
0
45
100

Total
n

%
14
3
19
6
6
6
10
2
5
5
16
1
93

16
3
21
6
6
6
11
2
5
5
18
1
100

Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

145

Também solicitei que apontassem o que menos gostavam na cidade e os alunos da
escola Tancredo apontam: brigas e violências (31%), o lixo e poluição (23%), e ainda 10%
afirmam não gostarem de ambientes que vendem bebidas alcoólicas ­ bares e 10% afirmam
gostar de tudo na cidade. Na escola Eurídice a maioria dos alunos afirmam não ter um lugar
ou alguma coisa na cidade que não gostam 29%, porém, 17% não gostam da escola e 7%
dizem não gostar das violências e roubos, trânsito, comércios e preconceitos.

TABELA 13: OCORRÊNCIA DE RESPOSTAS QUANDO PERGUNTADO SOBRE O QUE NÃO
GOSTAM NA CIDADE

O que não gosta na cidade
Violência/roubo
Escola
Bares
Gosta de tudo
Lixo/poluição
Preconceito
Comércios
Trânsito
Outros
Total

Escola Tancredo (%) Escola Eurídice (%)
31
7
17
10
10
29
23
7
7
7
26
26
100
100

Total (%)
20
8
5
20
11
3
3
3
27
100

Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

Os alunos de uma forma geral apontam que a violência e roubo são os fatores que
menos gostam na cidade. Nota-se que não obstante apontar coisas que não gostam na cidade,
20% dos alunos afirmam que não há nada na cidade de que não gostam. O gostar em maior ou
menor dimensão de determinados elementos na cidade tem haver com a sua relação com este
espaço (Tabela 12).
Quanto ao gostar da cidade de Alta Floresta D'Oeste, das respostas aos
questionários, 80% dos alunos da escola Tancredo e 77% na escola Eurídice afirmam gostar
da cidade. Os motivos apresentados por gostarem da cidade diz respeito a: "uma cidade
bonita e calma", "eu nasci aqui", "aqui moram meus parentes e amigos". Na escola
Eurídice 77% dos alunos afirmam gostar da cidade, argumentando: "eu nasci aqui", "é
tranqüila e não tem violência", "aqui tenho amigos". Interessante é que um grande
percentual (20%) dos alunos desta escola diz não gostar da cidade, as argumentações mais
apresentadas dos que não gostam: "é parada e pacata", "aqui falta muita coisa". (Figura
27).

146

Figura 27: Gosto pela cidade
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste em 2007.

A cidade na concepção dos alunos é:

"Um ambiente onde que as pessoas vivem, onde tem alguns comércios, onde que
trabalham pessoas, outras pessoas vão lá e compram (...)" (A1).
"(...) lugar (...) onde tem hospital, (...) delegacia, (...) nossa segurança, (...)
mercados, (...) lojas, escolas, (...) é um lugar onde tem os habitantes e que tem um
lugar tipo assim para manter as necessidades das pessoas" (A2).
"(...) é onde as pessoas moram, é onde tem, ah, uma cidade é tipo uma comunidade
de pessoas né". (A3)
"Cidade é um lugar onde que as pessoas vivem, onde tem bastante lojas e mercados,
bancos, acho que onde tem bastante pessoas" (A4).

Os alunos afirmam que uma cidade precisa ter: escola, hospitais, lazer, diversão,
bancos, mercados, farmácias e lojas. O que se pode inferir através das falas dos alunos é que
a cidade é um complexo de edifícios e pessoas, lugar onde contempla nossas necessidades
147

mais reais, entre outros. Nesse espaço complexo a pessoa tende a se encontrar ao relacionar-se
com o ambiente citadino. O que pode ser claramente percebido:
"É aqui que fica meus amigos, eu vou pros lugares que eu conheço e se eu fosse pra
outra cidade, eu ia lá pra lanchonete eu ia ficar lá só olhando as pessoas chegar, ai se
eu vou à sorveteria, eu conheço elas e ai vejo elas, agora se eu vou lá e não conheço
ninguém, daí eu fico lá sentada, daí é chato, né?" (A3).

Os alunos também apontam algumas lacunas e necessidades no espaço urbano, a
saber:
"Asfaltar as ruas", "tem que abrir mais ruas", "ta faltando solidariedade", "diversão"
(A4).
"Falta é ordem", "mais oportunidade, aqui ninguém se forma, aqui o pessoal estuda e
quem quiser se formar tem que pegar o ônibus e sair pra estudar numa faculdade pra
fora", "mais divertimento", "lugares para festas" (A2).
"Aqui poderia ter tipo o sítio do Nério, tipo um espaço aberto para ver os animais".
"Gerar mais emprego", "menos violência", "construir mais escolas", "mais uns dois
hospitais públicos, alguns centros de saúde", "mais creches", "construção de um
parque na praça" (A1).
"Estação de esgoto", "hospital" (A3).

A Tabela 14 mostra os resultados do questionário quanto às maiores necessidades da
cidade no olhar dos alunos. Para os alunos da escola Tancredo, a maior necessidade da cidade
está em melhorar a educação e asfaltar as ruas. Vale ressaltar que os alunos desta escola
moram nas mediações desta e neste bairro apenas a rua principal é contemplada com asfalto, e
o melhorar a educação talvez seja no sentido de que esta é a única escola da área urbana que
não possui quadra de esportes coberta. Interessante é que um grande percentual de alunos
afirma faltar mais solidariedade e honestidade (15%). Para os alunos da escola Eurídice as
maiores necessidades da cidade está em local de lazer, diversão/parques (32%), outros
expressam ainda desejo em viver numa cidade verticalizada (9%).

148

TABELA 14: OCORRÊNCIA DE RESPOSTAS QUANDO PERGUNTADO SOBRE O QUE ESTA
FALTANDO NA CIDADE

O que falta na cidade
Prédios
Hospital
Faculdade
Diversão/parque
Nada
Melhorar as ruas/asfalto
Empregos
Melhorar a educação
Diminuir a poluição
Prefeito
Solidariedade/honestidade
Outros
Resposta incorreta

Escola Tancredo
5%
15%
17%
18%
5%
5%
15%
15%
5%

Escola Eurídice
9%
5%
5%
32%
5%
5%
5%
7%
22%
5%

Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste, 2007.

Mesmo dentro da cidade há uma diferença grande nos referenciais dos alunos,
percebe-se uma disparidade em relação as maiores necessidades, enquanto uns querem
diversão e lazer, outros querem melhorias no quesito educação e infraestrutura. São
compreensões e dimensões diferentes enquanto necessidades para a cidade. Nesta mesma
direção pedi como seria a cidade dos seus sonhos, as respostas foram diversificadas:

"As coisas fossem mais baratas, os rios menos poluídos, tivessem mais árvores, as
ruas fossem asfaltadas esses bairros, que as pessoas não morassem nesses brejos, eu
acho que é só" (A4).
"A cidade dos meus sonhos não existe não, (risos)". Mas, continua dizendo: "Olha, o
cotidiano tipo assim, as coisas que a gente faz continuaria normal, trabalhar de
segunda a sábado, só que teria mais festas, um balneário igual ao Sitio do Nério,
lugares onde pudesse todas as sociedades, todos os tipos de gente, todos são iguais,
pobre ou rico, ou mal falado ou não, entendeu? Um lugar onde todos pudessem ser
iguais"! (A2).
"Uma cidade sem esses lugares..., esses espaços assim que não tem estrada, porque
tem que da volta muito grande" (A1).
"Pontos turísticos, tipo o Cristo Redentor, porque eu nunca fui lá, né? A estatua da
liberdade, praia, eu queria, um parque de diversão também porque não tem" (A3).

A cidade dos sonhos também recebe dimensões diferentes, dependendo do contexto
em que cada um encontra-se inserido. O A1 idealiza uma cidade em que todas as suas ruas
estejam interligadas, facilitando o acesso aos diferentes espaços da cidade, o aluno também
aponta a necessidade de meio de transporte para locomover às pessoas na rotina do seu dia-a149

dia de forma mais rápida e segura. Ele vê essa necessidade principalmente para com as
pessoas do bairro Princesa Izabel, bairro em que mora. Vale ressaltar que é deste bairro que se
desloca o maior número de pessoas para trabalhar nos demais bairros da cidade. Sonha ainda
com um espaço para a população se reunir, se encontrar. A A4 se reporta a um lugar com
menos desigualdades, ou seja, sonha com um mundo onde todos tenham direitos de ir e vir,
numa relação sem conflitos com o meio ambiente. O desejo por um mundo sem desigualdades
sociais também aparece na fala da A2. Já a A3 sonha com uma cidade que contemple as
necessidades de lazer e diversão.
De acordo com os relatos apresentados, há uma profundidade e riqueza das informações
registradas vindas do que pensam, vivem e sentem os alunos, e estas precisam ser refletidas e
discutidas para a construção do conhecimento geográfico no contexto escolar. Percebe-se a

relação de desejos e necessidades do aluno para com o espaço escolar, entretanto, alguns
fatores relevantes para a aprendizagem precisam ser mais refletidos como: o dinamismo e o
diálogo, pois, são essenciais para a aprendizagem, como também a compreensão da realidade
onde se encontram inseridos.
Os alunos não são homogêneos, ao contrário, cada aluno tem a sua história, vivem
relações diferentes em contextos diferentes, por isso, não há como abraçar uma mesma atitude, os
mesmos conteúdos para todos. Deste modo, o que acontece em uma escola é diferente do que
acontece em outra, pois cada cotidiano escolar é singular e diferenciado, já que cada aluno/sujeito
que o compõe vivencia o seu lugar, o seu espaço, as suas relações, as suas experiências de um
sentido que lhe é próprio. Essas díspares formas de viver esse espaço pelos indivíduos que o

organizam, se apresenta nas culturas, valores, opiniões, desejos e conflitos, conforme
apresentados nas falas dos alunos. Daí a necessidade de trabalhar em sala de aula para além
do livro didático, materializando os conteúdos curriculares na prática, vivência e experiência
de cada aluno que pertence e contribui com a organização de um determinado espaço
geográfico.

150

5.6 Experiências geográficas da cidade

Este item dialoga com o processo de ensino e aprendizagem. Com este objetivo
busquei as experiências e os conhecimentos dos alunos, referente à sua cidade para entender
se e como o professor pode utilizá-las na construção do conhecimento geográfico. Para fazer
esta análise, realizei três atividades didáticas com os alunos. A seqüência didática foi
realizada no mês de dezembro de 2007, durante as aulas de Geografia. Esclareci aos alunos
que estava realizando uma pesquisa no sentido de identificar possibilidades didáticas para
trabalhar com a cidade no ensino de Geografia, portanto não estava ali para avaliá-los e não
havia certo ou errado nas atividades e que a participação de todos, do mesmo modo que a
seriedade na produção das atividades que seriam desenvolvidas, era de extrema importância
para a realização deste trabalho. Todos os alunos das quatro salas colaboraram e no final desta
etapa tinha em mãos 189 produções feitas pelos alunos. Sendo 71 produções referentes à
primeira atividade, 42 atividades da segunda parte e 74 atividades da última parte.
As atividades foram elaboradas a partir do diálogo que constituí com o livro Ensino de
Geografia: práticas e textualizações no cotidiano, organizado por Castrogiovanni (2000). No
decorrer do livro, os autores fazem uma crítica sobre a memorização de dados, as fastidiosas
reproduções de mapas, apresentando discussões pertinentes à apreensão e compreensão do
espaço geográfico, tendo como referência o trabalho pedagógico e as teorias de
aprendizagem, em relação à formação de conceitos. Sugerem atividades envolventes e
significativas, tornando a apreensão e a compreensão do ensino de Geografia mais dinâmico.
O livro procura nos mostrar as várias formas de se apresentar aos alunos a definição de espaço
geográfico, entre elas, com a descoberta do cotidiano dos alunos. Para os autores o estudo do
espaço geográfico local pode ser transporte para o entendimento das escalas maiores, como o
país e o mundo.
5.6.1- Encontrando e se encontrando na área urbana
Em que consistia a atividade e como se desenvolveu
Consistiu na identificação pelos alunos de determinados lugares dentro da área urbana.
Com esta atividade quis verificar as lacunas e as aproximações em pensar e localizar
espacialmente utilizando-se de conceitos de orientação e localização, partindo dos espaços de
151

conhecimento dos alunos. (Figura 28, modelo da planta baixa da área urbana utilizado para a
atividade).

Figura 28: Planta baixa da área urbana de Alta Floresta D'Oeste
Fonte: Prefeitura Municipal de Alta Floresta D'Oeste, 2007.

Essa atividade foi desencadeada a partir das atividades desenvolvidas pela
professora durante o ano letivo ou ainda em anos anteriores à série atual, na disciplina de
Geografia, como: cartografia, legenda, escala, orientação e localização, identificação das
direções cardeais no lugar e orientação do mapa, além das próprias experiências e vivências
dos alunos. A idéia principal era dialogar com a aprendizagem, assim, precisava da
participação de todos, mas a participação não consistia em estar na sala, e sim em produzir
conhecimento geográfico, preocupação que me acompanhava desde o início da elaboração do
projeto. A questão era como despertar o interesse dos alunos para as atividades, se as mesmas
não valiam nota? Uma vez que alguns alunos vêem a escola como uma obrigação, conforme
constatado durante as observações in locu. Então, preparei as aulas de modo a fugir da rotina,
construindo dinâmicas participativas, visando o envolvimento de todos, dos mais
152

participativos aos tímidos e indisciplinados. Conforme Figura 29, a dinâmica consistia em
frases elaboradas por mim (APÊNDICE F) e que também serviram para conhecer mais o que
pensam e sentem os alunos em relação a sua cidade. Os alunos sentados em círculo próximos
uns aos outros, ao som de uma música iam passando a caixinha com as frases e na pausa da
música, quem estaria com a caixa retirava uma frase, lia, e a completava.

Figura 29: Dinâmica completando frases
Fonte: Trabalho de campo, Alta Floresta D'Oeste em dezembro de 2007.
Foto: Sandra Gallo.

Após a referida atividade, solicitei que se organizassem da forma que achassem
melhor para iniciar outra atividade. Antes de mais, entreguei duas folhas grampeadas para
cada aluno, alguns sem entender o que era, perguntavam: o que vamos fazer com isso?
Outros: é a nossa cidade, olha aqui o redondo22! Muitos nem quiseram saber de explicações,
foram logo completando as questões. Com o mapa da área urbana fixado no quadro, expliquei
em que consistiam as atividades. Durante a realização das mesmas, fiquei monitorando para
que todas as atividades fossem desenvolvidas. Por se tratar de uma atividade diferente, os
alunos ficaram agitados e empolgados, alguns ficaram reticentes, de modo que percebi suas
dificuldades no desenvolvimento da atividade, precisando de ajuda, ora de um colega, ora
minha. Alguns alunos não apresentaram dificuldades, desempenharam a tarefa com
desenvoltura e satisfação, concluindo antes do término do tempo disponível. No que se segue,
apresento os resultados das perguntas de 1 a 7 desta atividade desenvolvida por 71 alunos (5ª
B, 6ª A, 6ª C e 7ª A) conforme Tabela 15.

22

Redondo é um bairro que tem seu traçado em forma de círculo, e o centro deste bairro é uma praça redonda,
conhecida por todos como a Praça do "redondo".

153

Apresentação e discussão dos resultados
TABELA 15: ATIVIDADE ENCONTRANDO E SE ENCONTRANDO NA ÁREA URBANA
5ª B - 6ªA - 6ª C - 7ª A
3
4
n
%
n
%
n
%
n
%
Certo
63 88,8
48 67,6
22
40
28 39,5
Errado
8 11,2
23 32,4
33
60
32
45
Em branco
0
0
0
0
0
0
11 15,5
TOTAL
71 100
71 100
55 100
71 100
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste, 2007.
Pergunta

1

2

5
n
%
62 87,2
6 8,5
3 4,3
71 100

6
n
%
30 42,3
26 36,5
15 21,2
71 100

7
n
%
52 73,2
3 4,2
16 22,6
71 100

1- Pinte de cor vermelha, o lugar em que a sua escola encontra-se situada no
espaço urbano desta cidade. Explique como você conseguiu encontrar a Escola.

Dos 71 alunos que participaram desta atividade, 88,8% conseguiram localizar sua
escola, 11,2% não conseguiram localizá-la. As explicações dadas pelos alunos pela
localização da escola são pontos de referência: para os alunos da escola Tancredo, a
justificativa por ter localizado a escola está na localização do Quartel da Policia Militar uma quadra ao norte da escola, os alunos da escola Eurídice justificaram que localizaram
devido,,o Posto Tigrão ­ uma quadra ao norte da escola, a Praça ­ localizada a duas
quadras a sudeste da escola e alguns alunos, pelas avenidas, também surgiu respostas:
"localizei porque eu encontrei a rua da escola". Ressalto que os 11,2% dos alunos que
erraram pintaram uma quadra próximo à localização real e também explicaram que
haviam encontrado pelo ponto de referência.
2- Localização de determinado ponto em relação à escola. Para os alunos da
escola Tancredo: O quartel da Policia Militar encontra-se em qual direção em
relação à Escola Tancredo. Explique a sua resposta. Para os alunos da escola
Eurídice: A antiga TELERON encontra-se em qual direção em relação à escola
Eurídice. Explique a sua resposta.
Quanto a esta atividade 67,6% dos alunos localizaram corretamente. Destes, apenas
16,6% justificaram com respostas consideradas corretas ­ utilizando-se dos pontos cardeais,
64,6% não justificaram, 18,8% justificaram com respostas que não atenderam á expectativa:
"porque a escola está na frente", "a escola está atrás". E 32,4% dos alunos não acertaram
a questão.
3- Localização da escola em relação a determinado ponto de referência. Para a
Escola Tancredo: A escola Tancredo encontra-se em qual direção em relação à

154

Escola J.K. Explique a sua resposta. Para a escola Eurídice23: A Escola Eurídice
encontra-se em qual direção em relação ao Posto de Gasolina. Explique a sua
resposta.
Apenas 40% dos alunos conseguiram responder corretamente a esta questão. Das
respostas corretas 9,1% dos alunos justificaram utilizando-se dos pontos cardeais, 27,2% dos
alunos não apresentaram uma justificativa aceitável: "porque fica na avenida tal", "porque
tá atrás da escola", e 63,7% não apresentaram nenhuma justificativa. 60% dos alunos não
acertaram a resposta, sendo a resposta correta: nordeste para os alunos da escola Tancredo e
sul para a escola Eurídice.
4- Sabendo que o Banco do Brasil localiza-se na Avenida Brasil, encontre-o na
planta, pintando-o de amarelo. Explique como você conseguiu localizá-lo.
Somente 39,5% dos alunos conseguiram localizar o Banco do Brasil. E destes,
82,2% apresentaram justificativas aceitáveis: "porque é próximo a Praça do Centro", "fui
localizando as quadras a partir da Praça". 45% localizaram errado, entretanto, pintaram
próximo a quadra em que o Banco se situa. 15,5% dos alunos deixaram a questão em branco.
Os alunos que deixaram esta questão em branco, indaguei no ato da entrega das atividades:
você não vai responder a esta questão? As respostas foram: "eu não consegui achar não",
"tá muito difícil", então sentava com o aluno para ajudá-lo de modo que percebi as suas
dificuldades em pensar, espacialmente a questão norte, sul, leste e oeste.
5- Para a escola Tancredo: Imagine que você esteja saindo da sua Escola e
resolve dar um passeio pela Praça Castelo Branco. Para a escola Eurídice:
Imagine que você esteja saindo da sua Escola e resolve dar um passeio pela Praça
Aurélio Stédile. Trace com um lápis vermelho na sua planta da cidade, o caminho
para chegar até o local. E escreva o percurso, empregando a Rosa dos Ventos e
empregue também a lateralidade: direita e esquerda.
87,2% dos alunos fizeram o traçado corretamente. Destes, apenas 9,6% escreveram
o percurso utilizando-se dos pontos cardeais e da lateralidade, 12,9% não apresentaram
nenhuma resposta, 32,3% apresentaram respostas que não atenderam às expectativas: "vou
reto depois viro a direita", "ela é localizada na direita", "eu viro na esquina do Ventura
e viro e vou reto", "pela Avenida Brasil" e 45,2% apresentaram respostas consideradas
aceitáveis, utilizando ora os pontos cardeais, ora a lateralidade, 6% digo que não conseguiram

23

Esta atividade não foi desenvolvida com os alunos da 6ª C da escola Eurídice.

155

fazer o traçado, pois o fizeram por um itinerário que não condiz com o percurso, dando voltas
desnecessárias para chegar ao local solicitado e 3% deixaram em branco.
6- Sabendo que o supermercado Portus situa-se na Avenida Rondônia com a Avenida
Rio de Janeiro, localize-o no mapa pintando-o de marrom.
42,3% dos alunos localizaram corretamente o supermercado Portus, 36,5 não
localizaram corretamente e 21,2% deixaram a questão em branco. Dentre os que localizaram,
algumas localizações estavam erradas, a fizeram pintando uma quadra próxima ao
supermercado.
7- Encontre a Prefeitura Municipal da cidade e pinte-a de azul. Foi difícil
encontrá-la? Por quê?
73,2% dos alunos conseguiram localizar a Prefeitura Municipal, 4,2% não
conseguiram localizá-la e 22,6% não responderam a esta questão. A maioria dos alunos que
acertaram esta atividade afirmaram não ter sido difícil localizá-la: "é que eu sabia onde ela se
localiza", "fica perto do redondo", "em frente a Praça Aurélia Stédili", também apareceu
respostas do tipo: "sim, pois eu nunca tinha ido lá", esta resposta aparece tanto para os alunos
que conseguiram localizar a Prefeitura como para os que não conseguiram localizá-la.
As atividades apresentadas acima tem como central a noção espacial e o uso de
conceitos relacionados à cartografia. Os exercícios desenvolvidos mostram certas facilidades
e ao mesmo tempo certas dificuldades dos alunos em pensar e localizar espacialmente.
A primeira questão mostra a facilidade com que a maioria dos alunos localiza . As
escolas não estavam em destaque na planta da cidade apresentada aos alunos, contudo, havia
um ponto de referência próximo, o que os ajudou a encontrá-la com bastante tranqüilidade,
uma vez que o aluno percorre este itinerário cotidianamente.
A segunda, a terceira e a quinta questão consistiam em orientação - usar os pontos
cardeais, e no caso da quinta questão, a lateralidade, e pelas respostas apresentadas acima é
possível perceber as dificuldades dos alunos na localização dos pontos cardeais e do uso do
mesmo para fazer referência a determinados itinerários como também do uso da lateralidade
direita e esquerda.
As questões quatro, seis e sete também consistiam em localização espacial. Na
questão quatro, apenas 39,5% acertaram, entretanto, entre os que erraram, pintaram uma
quadra no sentido leste ou uma quadra no sentido oeste e entre os que conseguiram localizar e
156

os que não conseguiram a justificativa foi terem encontrado com facilidade, pois "o Banco
está próximo a Praça do Centro". Na questão seis a maioria dos alunos conseguiu localizar-se,
entre os que erraram, também houve uma pequena margem de erro quanto ao pintar a
localização do ponto solicitado, pintando uma ou duas quadras vizinhas, já a localização da
Prefeitura Municipal, questão sete, um percentual de 73,2% localizaram corretamente,
justificando ter sido fácil porque a Prefeitura fica próximo ao "redondo" ­ Praça Aurélia
Stédili.
Autores como Almeida e Passini (2002:9) me ajudam a compreender esta dificuldade
apresentada pelos alunos quando afirmam que "as crianças nem sempre compreendem os
conceitos espaciais usados pelos adultos". A autora ilustra essa afirmação com um exemplo
extraído do próprio contexto escolar quando um aluno não compreendia que uma determinada
localidade poderia estar no sentido sul e ao mesmo tempo no sentido norte. Este trabalho
confirma a forma estática em que os conceitos atinentes ao conhecimento de espaço são
trabalhados em aula.
Se considerarmos que a compreensão geográfica perpassa ao domínio espacial,
conforme afirma (Almeida e Passini, 2002; Simielli, 1999) é preocupante perceber que apesar
dos conceitos que proporcionam conhecimentos e habilidades para a análise geográfica ter
início nas séries iniciais ­ primeiro ciclo - ou pelo menos, faz parte da proposta dos PCNs e
também do conteúdo curricular para as séries iniciais, os alunos que estudam o terceiro ciclo
do Ensino Fundamental ter dificuldade com a questão espacial. Contudo, ressalto que a
dificuldade maior dos alunos nesta atividade se deu no sentido da orientação, e da localização
de determinados pontos menos conhecidos pelos mesmos dentro da cidade, o que dialoga com
a pesquisa de Cavalcanti (2003) onde a pesquisadora identifica que os alunos dessa idade
escolar descrevem lugares e caminhos com bastante dificuldade, utilizando gestos e pontos de
referência mais familiares. Esses resultados me levam a re-pensar as aulas de Geografia.
Almeida e Passini (2002) discorrem no decorrer do livro "O espaço geográfico: ensino
e representação" no sentido de desenvolver o domínio e o pensar espacial pelos alunos no
sentido da reversibilidade, colocando em pauta três aspectos fundamentais a serem
considerados: "o desenvolvimento da concepção da noção de espaço inicia-se antes do
período de escolarização da criança" (p. 11), ou seja, o conhecimento espacial vai sendo
adquirido ao longo do desenvolvimento da criança. O segundo ponto refere-se ao
conhecimento do espaço relacionado à situação sociocultural da sociedade, pois, a
157

organização social do espaço dá-se "através do trabalho que, por ser um ato social, leva a
transformações territoriais para a construção de espaços diferenciados conforme os interesses
de produção [...]" (p.12) assim, exige uma visão crítica e consciente do seu espaço social,
além do deslocamento e ambientação das pessoas, e, o terceiro ponto diz respeito à relevância
da escola no domínio e aprendizado desses espaços.
Com base nestas autoras, quero destacar que o indivíduo vai desenvolvendo sua
concepção de espaço nas suas relações cotidianas desde seu nascimento, conforme estudos de
Piaget, pois as pessoas desde a tenra idade se deslocam para múltiplos lugares dentro do seu
cotidiano, seja para ir a escola, ao supermercado, a sorveteria, ao trabalho, entre outros, assim,
ao iniciar seus estudos escolares o aluno já possui conhecimentos sobre os referenciais
espaciais. Estas questões são importantes na preparação pela escolha de alternativas para
dinamizar a compreensão e aprendizado dos alunos, proporcionando-lhes meios de
compreensão espacial por conceitos geográficos. É extremamente conveniente a discussão das
autoras no reconhecimento da necessidade de compreensão a partir dos espaços próximos
para os mais longínquos. Consequentemente, o aluno entenderá de modo mais claro a
localização dos espaços estudados e suas formas de representação, bem como a localização
sócio-espacial do mundo em que mora.
Os livros didáticos não apresentam figuras, mapas e ilustrações sobre a cidade ou o
bairro que os alunos estudam, o que dificulta a compreensão do próprio espaço/lugar em que
os alunos encontram-se inseridos, pois, a realidade estudada é na maioria das vezes referente a
outro lugar, às vezes, desconhecido para muitos, ou, sem importância alguma. Esses
conhecimentos preliminares ­ senso comum, conforme as localizações dos espaços
conhecidos pelos alunos: Escola, Banco, Prefeitura, Supermercado e Praça devem ser
aproveitados na elaboração sistemática do conhecimento científico, pois de acordo com
Almeida e Passini (2004:18) "geralmente, o aluno não tem domínio do todo espacial e usa
pontos de referência elementares para a localização e orientação". As atividades
desenvolvidas pelos alunos, por estarem relacionados com os espaços de sua experiência,
apresentaram bons resultados para a maioria dos alunos, os que apresentaram dificuldades na
localização de determinados pontos dentro da planta da área urbana, pode ser concluído que
se deu em função do desconhecimento do local: "foi difícil porque eu nunca fui lá!". Os
resultados demonstram que, a cidade, enquanto lugar de vivência dos alunos é ponto de
partida para compreensão geográfica, no sentido de construção das noções de lateralidade,
referência e orientação espacial.
158

A partir da descoberta do seu cotidiano o estudo do espaço geográfico local pode ser
transporte para o entendimento das escalas maiores, como o país e o mundo, como discute
Castrogiovanni (2000) e Silva (2006), pois pensar e compreender o real é imperativo na
leitura e compreensão do espaço em que vivemos como para a formação da cidadania do
aluno.

5.6.2 A minha cidade
Em que consistia e como se desenvolveu
Consistiu basicamente em apreender as imagens, as concepções, o olhar do aluno em
relação à cidade, abordando como o conceito de cidade é elaborado pelos mesmos, nas quais
se verificaria se e como emergiriam possibilidades da cidade enquanto objeto pedagógico para
o ensino.
A aula iniciou com a dinâmica "Dança da cadeira: ninguém pode ficar de pé"
(APÊNDICE G). Nesta, todos os alunos dançam ao redor das cadeiras e quando

pausa

música todos devem sentar, e assim, continuamente até sobrar uma cadeira, em que pretendia
desenvolver a descontração além de solidariedade e união entre os alunos (figura 30).

Figura 30: Dinâmica dança da cadeira: ninguém pode ficar de pé
Fonte: Trabalho de campo, Alta Floresta D'Oeste em dezembro de 2007.
Foto: Sandra Gallo.

Após, pedi que retornassem as carteiras da forma que achassem mais conveniente
para desenvolver a atividade, antes, porém, deixei que comentassem a respeito da brincadeira.
Perguntei o que tornou possível chegar ao final da brincadeira sem que ninguém saísse e nem
159

ficasse em pé, e todos começaram a falar ao mesmo tempo: "a união", "ajuda", "apoio".
Assim, com um clima de alegria e descontração entreguei a atividade (APÊNDICE D.1) para
cada dois alunos, entretanto, talvez pela falta de costume em pensar com o outro, alguns
preferiram fazer atividade individualmente.
Na folha entregue aos alunos, havia uma foto aérea de parte da área urbana. A
atividade consistia em escrever sobre "a minha cidade", era preciso dizer aos alunos "a minha
cidade" e não "a cidade", pois suspeitei que "a cidade" poderia sugerir o lugar "dos outros" e
não "o seu lugar".
É preciso ressaltar a dificuldade que muitos alunos tiveram em escrever: uns
queriam saber quantas linhas precisavam ser escritas, outros não sabiam o que era para
escrever, então pedi que pensassem na cidade em que moram, dos lugares que freqüentam,
das coisas que gostam e das coisas que não gostam e porque gostam ou deixam de gostar, e
depois disso, que colocassem no papel e que não havia certo ou errado, nem havia uma
quantidade de linhas para escrever.

Apresentação e discussão dos resultados
Os elementos que compõem os textos produzidos pelos alunos mostram que os mesmos
percebem que a cidade é muito mais que um espaço físico, emaranhado de construções. A
cidade é uma arena de relações sociais, portanto, contém materialização de modos de vida,
compreendendo cada indivíduo peça inclusa de sua paisagem. A cidade aparece nos textos
escritos pelos alunos com características diversificadas, sendo possível separá-los em: cidade
em transformação, cidade como lugar-cotidiano e cidade e o espaço social (Tabela 16).
TABELA 16: A CIDADE NO OLHAR DOS ALUNOS
Cidade vista pelos alunos
Cidade em transformação
Cidade como lugar-cotidiano
Cidade e o espaço social
Total
Fonte: Trabalho de campo. Alta Floresta D'Oeste, 2007.

%
24
52
24
100

A cidade como lugar-cotidiano: Para a maioria dos alunos (52%), a cidade está
relacionada aos lugares mais próximos de seu dia-a-dia, das relações cotidianas: trabalho;
estudo; lazer, espaços simbólicos; espaço das relações; construção da afetividade,
identidade, desigualdade, diferenças. São as relações pessoais, as experiências que dão
160

significados a esses lugares, seja ele, positivo ou não. A cidade vista como lugar-cotidiano
está implícita na maioria dos textos, vejamos:
"Essa cidade não é só minha, é de todos. Na nossa cidade existe 2 praças uma se
chama praça castelo branco e a outra se chama Aurélia stédili. E também está
inaugurando uma pista de skate tem três gramado, tem duas quadra de futebol. E
também existe um colégio tão bonito e legal como o colégio Eurídice [...]" (7ª A).
"Eu acho que se a cidade fosse mais grande seria cheia de ladrões bandidos aqui é
bom eu tenho amigos é divertido aqui eu conheço" (6ª A).
"Estão construindo uma pista de skate livre para todos brincar livremente" (6ª A).
"É legal tem muitas coisas bonitas principalmente as escolas nossas casas e nosso
bairro, nos gosta muito da nossa cidade. [...] A praça é o lugar mais bonito dessa
cidade, dia de natal eles enfeitam bem bonita" (5ª B).
"É uma cidade calma sem violência mais algumas vezes dão alguma briga, a minha
cidade é pequena e melhor do que aquelas metrópoles grandes como São Paulo, rio
de Janeiro, etc." (7ª A).
"A minha cidade é um lugar bom para se crescer sem muita violência no transito. É
um lugar calmo, tranqüilo a onde pode brincar na rua apesar de ter pouco lazer eu
ainda me divirto muito porque foi aqui que eu nasci [...] é gostoso morar aqui perto
dos meus amigos e da minha família" (7ª A).
"A tranqüilidade daqui é muita, a hospitalidade do povo daqui supera a de muitas
cidades, fazendo essa ser a cidade ideal para quem quer descansar" (7ª A).

A cidade em transformação: 24% dos alunos ao escrever sobre a cidade o fizeram
destacando sua dinâmica espacial. A cidade em transformação mostra uma organização social
dinâmica e mutável, englobando diferentes campos de atuação humana: econômica, política e
social, conforme se pode observar nos fragmentos abaixo:
"Quando minha mãe e meu pai chegaram não tinha estrada era só mato quase não
tinha casas a escola era tipo uma casa tinha só três salas que estudavam 1ª, 2ª, 3ª
série, e os rios não eram poluídos e agora tem poluição e não tinha desmatamento
agora os animais estão morrendo com a poluição" (5ª B).
"A cidade de Alta Floresta está sempre linda e cada vez mais mudanças, como as
mudanças do colégio daqui o eurídice era um colégio feio não tinha quadra tanpada
não tinha escola bonita" ((6ª A).

161

"Como a nossa cidade foi aumentando os problemas também aumentaram, a nossa
cidade precisa de união para ter um futuro melhor" (6ª C).
"A cidade tem bastante comércio e é bom porque dá um monte de emprego nela. [...]
a amigos que conhece e ajuda a deixar a cidade sempre limpa e o prefeito esta
fazendo asfalto nas ruas de terra e tem que ajudar para ser todo mundo feliz" (7ª A).
"Esta cidade começou de repente por causa das eleições quando o Vantuil se elegeu
para prefeito mudou um pouco nas eleições ele disse que iria renovar as escolas iria
fazer quadra tampada iria fazer asfaltos pontes e que ajudaria com os problemas
bocais com a visão das pessoas, começou a fazer igrejas novas até uma pista de skate
fizeram informática de computadores. Fizeram "saiber" cafés, mas só que tem que
pagar para fazer algumas coisas" (6ª A).
"A cidade mudou muito depois que o Lula assumiu na presidência como a pista de
skate o supermercado América e as ruas asfaltadas reformaram as escolas
construíram o ginásio esporte, construíram o posto Brasil, plantaram mais árvores na
praça, construíram pontes nas linhas e estão abrindo estradas na linha 42, 5, puxaram
energia para as casas" (6ª A).
"Minha cidade é bonita e cada vez mais grande tão construindo prédios e mais casas
e lojas bonitas" (5ª B).

Os alunos mostram uma cidade com predominância das paisagens geográficas, como
casas, ruas, praça, comércios, na perspectiva de Milton Santos "despindo a roupa da Natureza
e vestindo a roupa da Técnica. A Cidade, é objeto inteiramente histórico, impondo a idéia de
um tempo humano, um tempo fabricado pelo homem, tornando-se possível tratá-la de forma
empírica, contábil, concreta" (SANTOS, 1994).
A cidade e o espaço social: 24% dos alunos ao se reportar a cidade em seu texto
destacaram com maior ênfase, elementos sociais da cidade, como exemplo, desemprego,
violência e criminalidade, poluição, saúde, educação, desigualdade social, corrupção e lazer,
a saber:

"[...] aqui na nossa cidade só falta algumas coisas como: asfalto mais remédios,
hospitais mais melhor, mais lugares para se divertir com a família e também falta
solidariedade compreensão e atendimento ao próximo" (7ª A).
"Se eu fosse a prefeita eu deixaria os pobres trabalhar. Essa cidade precisa ter mais
casas noturnas, empregos, aumentar a bolsa família, ter lojas com objetos da serviço"
(7ª A).
"Falta prédio no redondo, na biblioteca ta faltando livro, as pontes da linha esta
quebrada, tem arrumar e fazer mais ponte na onde tem enchente" (6ª C).
"Nós achamos injusto o que o Carlão de Oliveira fez com o povo de Alta Floresta,
roubou 70 milhões dos cofres públicos. Muitas pessoas falam que ele consertou

162

braço de um perna de outro pessoa, soque ele fez tudo isso foi com o dinheiro do
povo, nós achamos injusto" (6ª A).
"A nossa cidade não tem muitos lugares para se divertir, o parquinho da nossa cidade
o prefeito mandou tirar e só roubam o dinheiro da nossa cidade" (6ª C).
"A nossa cidade precisa mudar a saúde, a educação que esta péssima, precisa mudar
por que senão o que vai virar Alta Floresta uma porcaria. A nossa cidade de
educação esta péssima precisa mudar e para mudar precisamos da ajuda do prefeito,
dos policiais para ponhar as crianças para andar certo porque tem menores de 18
anos que está fumando drogas, brigando, se for possível até matam os coitados as
policias e o próprio ladrão que roba que matam e fuma droga por isso precisamos de
ajuda de alguém que quer que Alta Floresta cresça e melhora e para melhorar
precisamos de ajuda" (5ª B).
"A nossa cidade é bonita, mas nós não sabe cuida do nosso meio ambiente, nós
precisamos de colaborar, mas se não colaborar, vai virar uma cidade poluída" (5ª B).

Percebo uma forte relação na percepção do aluno para com a cidade com os
depoimentos dos professores, mas também há forte relação com o livro didático, onde todos
os conteúdos parecem ter sido elaborados a partir da realidade das grandes cidades, como
aponta um aluno acima: "a minha cidade é pequena e melhor do que aquelas metrópoles
grandes como São Paulo, Rio de Janeiro", ou talvez aqui pudesse afirmar também a
influência dos meios midiáticos e pelos fragmentos dos alunos, a violência nestas cidades
parece ser a informação que mais circula em seu cotidiano.
Outro ponto a destacar é que alguns alunos demonstraram surpresa ao ver parte da
representação do espaço urbano da cidade numa visão oblíqua: "mas essa foto não é da
nossa cidade", "mas eu não imaginava que era tão grande assim", "ela é linda". Não
pretendo tecer maiores comentários sobre este assunto, no entanto, ele nos trás uma idéia de
que a cidade enquanto todo não é trabalhado em aula.
Os alunos percebem a cidade como totalidade na perspectiva de Santos (1996). Para
este autor o espaço geográfico é o "espaço banal", espaço de todos os indivíduos, de todas as
empresas, instituições, enfim, ele só entende o mundo como elemento maior, o espaço como
uma totalidade, ou seja, é um espaço que acolhe a todos os indivíduos, não importando as
suas classes, ele acolhe a todas as empresas, das maiores as menores; esse é o espaço banal na
concepção de Milton Santos. E os alunos dentro das suas representações focam aquilo que é
significativo para ele, os alunos partem da sua vivência, da cidade se transformando e também
dos problemas sociais. Os alunos que vêem a cidade a partir dos problemas sociais
provavelmente vivenciam algum problema na sua família ou ainda nas relações do grupo ao
qual pertence.
163

Os alunos não são "tábuas rasas", ou "lousa limpa" nas quais os professores vão
preencher lacunas, eles trazem conhecimentos de fora da escola, são inúmeras as informações
que os alunos e alunas estão sujeitos na atualidade e a cidade na sala de aula é vista como
outsider ao aluno. Não é vista e nem trabalhada como algo pedagógico no processo de ensinar
e aprender. O ensino de Geografia tem de aproveitar esse saber do aluno, para tanto é preciso
que os professores interfiram na zona de desenvolvimento proximal de seus alunos, fazendo
com que eles passem dos conglomerados vagos e sincréticos a formação dos conceitos.

5.6.3 A cidade de Alta Floresta D'Oeste daqui a dez anos
Em que consistia e como se desenvolveu
Aqui o objetivo também consistiu em dialogar com a aprendizagem, portanto, a
atividade pautou-se em provocar os alunos a representarem a cidade daqui a dez anos,
identificando o "como" este espaço estaria organizado, provocando manifestações, análises e
interpretações da formação do espaço e da construção de conceitos geográficos. A atividade
parte da compreensão de que os estudos geográficos devem ir além do visível, para despertar
o gosto e emoção dos alunos, considerando que a fala e a escrita não são os únicos meios de
comunicação.
A aula iniciou com a dinâmica "passe o repolho" (APÊNDICE H). Elaborei
algumas questões relacionadas às temáticas já estudadas por eles em aula: problemas urbanos,
localização, paisagem. Sentados em círculo ao som musical o repolho ia sendo passado de
mão-em-mão, e na pausa da música quem estivesse com o repolho tirava uma folha e
respondia a questão24 figura 31.

24

Em todas as turmas sempre tem um ou dois alunos que se recusam a participar das atividades lúdicas. No
início desta brincadeira, nas quatro turmas esse número foi bem maior, porém não insisti que participassem, mas
escolhi entre eles, o que percebi mais tímido e o coloquei para cuidar do som. Ressaltamos que em meio à
brincadeira os que não queriam participar entraram para o círculo, e ainda os que ajudaram com o som, no final
pediram que também queriam pegar no repolho. Penso que essa dificuldade de entrosamento com o que é
diferente advenha do pouco uso da mesma em sala, o aluno está acostumado a repetir sempre as mesmas coisas.

164

FIGURA 31: DINÂMICA PASSE O REPOLHO
Fonte: Trabalho de campo, Alta Floresta D'Oeste em dezembro de 2007.
Foto: Sandra Gallo.

A dinâmica consistiu em despertar nos alunos o prazer por estudar, por estar na
escola e em aula de Geografia, além de conhecê-los nas dificuldades de estudar e aprender.
Ao término da brincadeira, apresentei aos alunos um álbum de fotografias, contendo fotos
antigas do início da formação da cidade e fotos atuais que mostram as transformações do
espaço urbano.
Após momentos de diálogos sobre a dinâmica do espaço urbano disponibilizei aos
alunos folhas em branco, réguas, borrachas e lápis de cor, no centro da sala. Orientados que a
atividade consistia em usar da criatividade e imaginação, deveriam desenhar a cidade de Alta
Floresta D'Oeste daqui a dez anos, sendo preciso pensar nas transformações e os possíveis
problemas que a cidade poderá apresentar no ano de 2017, se achassem pertinente poderiam
escrever frases nos desenhos.
De posse destes desenhos, o desafio foi analisá-los enquanto linguagem, portanto,
rico em representações sociais pelos alunos, de modo que pudesse trazer contribuições ao
processo de ensino e aprendizagem, tendo a cidade enquanto objeto pedagógico em ensino de
geografia. O uso desta linguagem permite expressar o que se vê, sente e pensa sobre
determinadas representações, agregando mensagens valorativas, afetivas e pessoais em
relação à representação do mundo (BRASIL, 2001).

165

Apresentação e discussão dos resultados
Trabalhar com desenho em aula permitiu resgatar uma das características no processo
de ensino e de aprendizagem que é o aspecto do prazer e da ludicidade bem como a
criatividade e o desafio, mostrando-se como uma importante força para fecundação do
trabalho geográfico, detectando a compreensão e imagens que os alunos têm do espaço e do
lugar onde moram.
As falas desenhadas dos alunos, assim como na escrita, assumiram uma integração
dialógica, referenciando a uma cidade da utopia, da imaginação, das dinâmicas, das
necessidades e das possibilidades humanas (Tabela 17). Nas linhas que se seguem apresento
as atividades de uma formal geral, porém, alguns desenhos foram selecionados para melhor
entendimento.
TABELA 17: ALTA FLORESTA D'OESTE DAQUI A DEZ ANOS NA PERSPECTIVA DOS ALUNOS

A cidade daqui a dez anos
Lugar e o cotidiano
Problemas sociais - violência e segurança
Organização sócio-espacial
Meio ambiente
Cidade virtual-imaginária
Total

46%
5%
26%
5%
18%
100%

Fonte: Trabalho de campo, Alta Floresta D'Oeste em dezembro de 2007.

Lugar e o cotidiano-

Nos desenhos dos alunos, o lugar-cotidiano ganha significações de espaço físico
produzido ao longo do tempo - pela natureza e pelo homem, como também de uma construção
singular, impregnada de simbolismo, idéias e sentidos produzidos por aqueles que o habitam,
como palco de concretização das experiências e vivências que unem o indivíduo ao mundo,
despertando sentimentos de identidade e de pertencimento no indivíduo. O lugar apresentado
nos desenhos dos alunos mostra-se claramente como produto da construção de uma ligação
afetuosa: sujeito-meio em que vive.
A Praça Castelo Branco, a escola, a igreja, o bairro, a casa e centro de lazer ganharam
destaque nos desenhos. A Praça aparece enquanto lugar favorável à convivência, de lazer e
interação social e afetiva, esta aparece com mais freqüência nos desenhos dos alunos da
escola Eurídice. A escola, notadamente entre os alunos da periferia, aparece contemplada em
166

suas necessidades de infra-estrutura para atender os alunos em suas necessidades escolares. O
desenho da Igreja aparece com frases: "espero que no futuro nóis tenha uma igreja melhor",
ou "a igreja era pequena e meio velha agora é nova e grande". O bairro aparece organizado
para atender a comunidade que ali vive, este é destacado com mais frequência entre os alunos
moradores do bairro Princesa Isabel, principalmente com suas ruas asfaltadas, com
sinalização e maior número de construções, o interessante é que em uma das representações,
aparece o desenho de um helicóptero e no verso da folha o seguinte texto:

"É a mudança daqui do bairro Princesa Izabel quando já construiram um shop center
e as ruas asfaltadas com sinalização. E com um avião da prefeitura que leva todas as
pessoas que precisam sair para outras cidades em estado de emergência" (6ª a).

Na simplicidade de seu desenho, o aluno clama por infra-estrutura e saúde para toda a
população. A casa também é representada pelos alunos do bairro Princesa Isabel, aparecendo

sobre o desenho o seguinte comentário: "a minha casa era pequena e não tinha muitas
janelas agora é grande e tem bastante janela", em outro desenho aparece as casas da
COAB, o desenho chama atenção pelas cores fortes de canetinha em volta do traçado das
casas, o colorido representa talvez mais alegria para com o espaço privado que é a casa,
apresenta-se também bastante arborizada. Um fato me chamou atenção quanto à
representação da cidade a partir dessa análise, em um desenho aparece representado um
prédio de três andares, simbolizando um "presídio" e sobre o desenho aparece a frase;
"presídio para meninos que não obedece os pais".

167

Figura 32: Representação da escola Tancredo
Fonte: G. 13 anos e F. 11 anos, alunos da 5ª série B

O desenho dos alunos G. e F. da escola Tancredo, representa a escola onde estudam, o
desenho contempla um número maior de salas de aulas do que possui de fato, porém percebi
uma quadra esportiva descoberta e no centro do desenho um helicóptero e a seguinte frase:
"governador chegando pra mandar dinheiro". Provavelmente os alunos tentam retratar a
escola que eles sonham e gostariam de construir. Certamente que o aluno está sentindo certas
necessidades no ambiente escolar. Afirmo que essas necessidades são sentidas por todos os
alunos desta escola, uma vez que ela aparece com bastante frequência em outros desenhos. O
maior número de salas de aula reflete o desejo que a escola atenda a um maior número de
alunos, no sentido de sentirem a necessidade e importância do estudo, como também uma
quadra com cobertura, possibilitando o seu uso nos dias chuvosos e horários com
temperaturas altas.
168

A partir de uma imagem aérea da cidade o desenho de W. e J. apresenta propostas
para a melhoria da Praça do Centro. Também demonstram a vontade de ver este espaço
implementado de parques e áreas de lazer. Algo que chama atenção dentro do desenho destes
alunos é a questão da segurança, representada por uma casinha onde está escrito "guarda". O
valor atribuído à praça pelos alunos vai além da condição de um ambiente arborizado com
jardim, sendo vista como espaço destinado ao lazer e diversão da população como um todo,
pois no seu entorno nota-se um lugar reservado a estacionamento.

Figura 33: Representação da Praça do centro da cidade
Fonte: W. 12 anos e J. 14 anos, alunos da 7ª série A.

No desenho de D. da 5ª série B, na sua naturalidade, reivindica algo tão requerido pela
população em geral do bairro Princesa Isabel: ruas asfaltadas, bairro este que possui apenas a
sua avenida principal contemplada com asfalto. Por meio do desenho o aluno revela a
169

necessidade do asfalto para a comunidade, e talvez, queira reforçar através do seu desenho a
importância dos sinais de trânsito na cidade, já que a mesma não possui, o que demonstra
também preocupação com a segurança naquele cruzamento de ruas, pois neste espaço
encontra-se a sua escola.

Figura 34: Representação do bairro Princesa Isabel.
Fonte: Aluno D. 12 anos, aluno da 5ª B.

Problemas sociais - violência e segurança
Dos alunos que participaram dessa atividade (5%) reproduziram a cidade enquanto um
espaço com problemas sociais. Os desenhos representam um espaço urbano bem
desenvolvido economicamente, com um centro comercial aparentemente bem estruturado,
portanto, pelos desenhos os alunos mostram que os problemas sociais são oriundos da relação
conflitante que se estabelece no espaço geográfico, que se cristalizam na apropriação e
dominação, originando um sistema social em que uma classe produz e a outra domina,
ocasionando deste modo, as desigualdades que são frutos das relações sociais, políticas e
culturais de um determinado espaço.
170

Essas questões aparecem explícitas na figura do policial, seja em segurança área ou
térrea, a imagem dos policiais talvez representa o desejo de maior segurança aos que vivem na
cidade. No desenho de S. e D. da 6ª série C da escola Eurídice, se percebe uma cidade
verticalizada. A imagem do aeroporto talvez seja o desejo de interligar o município aos
demais de forma mais rápida, uma vez a cidade localiza-se distante da capital. Os alunos
atacam diretamente um aspecto caro à nossa atual sociedade: o aumento crescente da
violência, retratada em seu desenho com a presença de policiais.

Figura 35: Representação de problemas sociais urbanos
Fonte: S. 14 anos e D. 13 anos, alunos da 6ª C.

Os alunos A. e F. da 6ª série A demonstram em seu desenho o crescimento urbano
da cidade. Percebem que o espaço se modifica para atender as necessidades da população,
eternizado através de hotéis, motéis, indústria, lugar para distração e ponto de encontro de
pessoas representado por elas como "balada".
171

No verso do desenho as alunas escrevem que serão muitas as conseqüências
consequências da cidade em desenvolvimento. Imaginam a existência de maiores elementos
poluidores; oportunidades de empregos e ocorrência de desempregos. No verso da folha
escrevem que a vida é melhor para pessoas com maior poder aquisitivo, talvez por estas
alunas conviverem com preocupações, limitações financeiras ou observando que a vida de
pessoas de baixa renda é árdua. Os alunos reforçam o entendimento de que junto com o
crescimento urbano de uma cidade cresce também a insegurança. A questão da violência no
desenho aparece tanto na figura do helicóptero policial como no enorme prédio representando
à a funerária.
Os alunos percebem que a cidade é um local articulado e estruturado intencionalmente
para atender a dinâmica social, e que a violência cresce linearmente a esse crescimento e,
portanto a segurança se faz necessária. Eles compreendem que tais problemas sociais não são
ocasionais, e sim produzidas por um conjunto de relações que abraçam o campo da vida
social, existindo relações que levam a concentração da riqueza para uns e uma série de
dificuldades de sobrevivência para outros.

Figura 36: Representação do centro comercial da cidade
Fonte: A. 12 anos e F. 14 anos, alunos da 6ª série A.

172

Organização sócio-espacial

26% dos desenhos destacaram a cidade enquanto um espaço organizado para o
desenvolvimento da vida em sociedade. A partir desta imagem da cidade, os alunos
reproduziram um espaço urbano caracterizado com uma aglomeração de edificações e
atividades. A cidade aparece caracterizada como espaço que se desenvolvem as atividades do
setor terciário, dotada de comércios e serviços, aparecendo poucas indústrias, mostrando que a
cidade é um espaço mutável e dinâmico, modificado ininterruptamente para atender a
sociedade.
Os desenhos vistos nessa perspectiva foram feitos em maior percentual pelos alunos da
escola Eurídice, onde a maioria dos desenhos destaca o centro da cidade, talvez seja pelo fato
de ser a área que concentra, predominantemente a maior quantidade das atividades terciárias
além de ser o local que as pessoas mais circulam, pois é ponto de encontro do de trabalho, do
de consumo, do de lazer, entre outros, ou talvez, por ser o espaço que está mais próximo do
seu cotidiano.
Os desenhos mostram elementos de uma paisagem geográfica, no entanto,
arborizados, o que demonstra necessidade da relação homem-natureza. O interessante é que o
espaço sócio-espacial contempla aeroportos, shopping centers, prédios verticalizados. Alguns
destacam ainda a necessidade de avenidas com maior segurança no trânsito, representado pela
forte presença de semáforos ou faixas de sinalização com a palavra "pare" entre os
cruzamentos.
O aluno A. representa o espaço urbano da cidade organizado socialmente. Em seu
desenho aparece uma escola de inglês com o seguinte comentário: "devem ter mais escolas
para que mais pessoas tenham mais aprendizagem em outras línguas". E bem no centro
da cidade representada, desenha um posto policial, e escreve que "é preciso estalar mais
policia porque estas não estão dando conta". Em seu desenho está implícito o movimento
da sociedade.

173

Figura 37: representação espacial do espaço urbano.
Fonte: A. 11 anos, aluno da 7ª ª.

Meio ambiente
Assim como os problemas sociais, os problemas ambientais urbanos não ocorrem
somente nas grandes cidades, apesar de não ter a mesma dimensão que nas regiões com forte
concentração de pessoas, nas cidades de pequeno porte como Alta Floresta d'Oeste D'Oeste
eles também se fazem presentes. Alguns alunos (5%) representaram a cidade a partir da
influência do homem sobre o meio ambiente urbano. Os desenhos expressam forte
preocupação com o meio ambiente, trazendo à tona problemas ambientais relacionado à falta
de água, poluição das águas dos rios e desmatamento.
Essa preocupação aparece extremamente clara no desejo do aluno M. da 6ª série C que
demonstra sua preocupação com a destruição dos recursos naturais nos espaços urbanos. O
córrego servindo de esgoto, totalmente poluído com dejetos da rede de esgoto doméstico e

174

industrial, registra a violência e a falta de civilidade em relação ao meio ambiente. Este aluno
expressa com objetividade seus ideais: proteção e preservação do meio ambiente.

Figura 38: Representação da poluição ambiental urbana
Fonte: M. 11 anos 6ª série C.

Este sentimento também é expresso no desenho de J. da 5ª série B. O aluno usa a
cor verde e azul para representar a natureza e usa a cor vermelha para mostrar a ação da
sociedade sobre os recursos naturais. E escreve: "se eu fosse o prefeito da cidade eu parava
a poluição e o desmatamento", afirmando ainda: "eu espero que não tem lixo no rio, eu
queria que para de jogar cachorro no rio". Acredito que esse desenho representa o rio
localizado no bairro Princesa IzabelIsabel, uma vez que o aluno é residente deste bairro, e o
mesmo é bastante poluído com dejetos humanos, de animais, lixos domésticos e bastante
assoreado, sem matas ciliares, o que justifica o desenho do desmatamento.

175

Figura 39: Representação dos problemas ambientais
Fonte: J. 11 anos, aluno da 5ª série B.

Cidade virtual ­ imaginária
18% dos desenhos imaginam uma cidade verticalizada, com naves e carros espaciais.
Acredito que a cidade nesta perspectiva tem a ver com os filmes do futuro e jogos eletrônicos.
É uma cidade construída no imaginário, com novos espaços e novas velocidades.
Em um desenho sem identificação a cidade aparece extremamente verticalizada,
repleta de prédios, contendo ainda um trem bala, interessante é que esse meio de transporte
inexiste na realidade brasileira. Ao olhar a cidade imaginada e criada pelo aluno transparece
uma cidade grande e desenvolvida, outro tempo e espaço. É possível perceber a rapidez do
movimento da sociedade, pois está não aparece no seu desenho o que nos remete pensar em
Santos (1996), quando afirma que a velocidade e a mobilidade das pessoas faz com as
mesmas não parem para ver a cidade e o mundo.
176

Figura 40: representação virtualizada da cidade.
Fonte: Sem identificação.

Para Sahr (2007, p.57) "[...] qualquer tipo de espaço geográfico é embutido em
representações e interpretações". Assim, o desenho feito pelos alunos apareceu como "uma
interpretação do real, feita pela criança, em linguagem gráfica" (ALMEIDA, 2004, p.27). O
desenho é um recurso pedagógico que permite aos alunos "dizer algo", através da
representação dos elementos da realidade que observam, por isso, é a expressão de uma
linguagem que torna visível suas concepções, opiniões, sonhos, idéias e imagens.
O desenho e a escrita sobre a cidade apresentaram-se dentro de um espaço de relações
que são estabelecidas e construídas, nas quais os diferentes grupos sociais se expressam,
transmitem valores, percepção de vida, por fim, é conseqüência de múltiplas e díspares
experiências, formando os costumes dos sujeitos homens, mulheres e crianças, logo, forma e
conteúdo de uma cidade apresentam-se como uma realidade sígnica significativa, que informa
sobre seu próprio objeto de estudo da Geografia: o espaço geográfico.
Uma análise geral das experiências geográficas pelos alunos na cidade, possibilita
que suas experiências, sonhos, desejos e valores sejam codificados. Para eles a cidade deverá
177

ter uma organização urbana que contemple a necessidade de toda a população. O desejo por
uma cidade ordenada, engajada com as questões sociais e ambientais é expresso em muitos
desenhos. Os alunos desejam um espaço mais humano e criativo. Demonstram que o espaço é
(re) criado através da ação do homem dialeticamente em contato com o meio natural. Nessa
criação, na maioria das vezes o homem constrói uma série de problemas ambientais que
acabam retornando para si sob diversas formas, estas problemáticas também foram bastante
apontadas durante a entrevista e nas respostas dos questionários.
Diante deste rico material percebo que os alunos têm conhecimentos do que
acontece ao seu redor, seja por influência da mídia, ou das relações sociais, e elas devem ser o
ponto de partida para o trabalho em Geografia. A cidade facilita a compreensão do espaço
geográfico e seus conceitos básicos, possibilitando ao aluno formular as próprias questões,
compreender a realidade social, além disso, pode propiciar ao professor a oportunidade à
inclusão, de forma gradativa dos conceitos geográficos nas suas ações de sala de aula, a partir
das oportunidades pedagógicas que se apresentarem.

178

6 DIMENSÕES EDUCATIVAS DA CIDADE: CONSIDERAÇÕES FINAIS

6.1 Por uma Geografia educadora

Ao analisar a Educação geográfica nota-se que há um distanciamento entre o ensino de
geografia e geografia educadora, evidenciando o que há muito tempo vem se discutindo no
meio acadêmico, diria até que tenha se iniciado com o movimento de renovação da geografia,
e presente também nas inquietações de alguns professores engajados em uma educação
crítica. A diferença está num ensino geográfico para além da avaliação de conteúdos
invariáveis e pré estabelecidos para os alunos. Para Rego (2007, p.9) a geografia educativa
constitui-se na "possibilidade de transformar temas da vida em veículos para a compreensão
do mundo, entendido não como conjunto de coisas, mas como obra de criadores". Em outras
palavras, uma educação geográfica voltada para a compreensão e construção do mundo por
meio de reflexões, discussões, soluções e práticas.
Visto por este prisma, o ensino de geografia pouco dialoga com uma geografia
educadora, mas se considerar nos estudos da sala de aula o espaço geográfico, enquanto
produto histórico, que mostra as práticas sociais dos mais diversos grupos que nele interatuam, constroem, reconstroem, sonham, vivem, moram, resistem, lutam, portanto, em
constante transformação, ela deixa de ser uma "simples" programação de conteúdos
"irremovíveis e abstratos" para converter-se em possibilidades de transformação.
Não significa abandonar os conteúdos programados do currículo escolar, mas, (re)
descobri-los, levando os alunos a compreender o seu espaço, (casa, escola, bairro, cidade)
para que ele consiga entender a lógica do mundo em que vive e transformar-se em sujeitos de
uma história concreta, pois é sabido que o mundo globalizado permite-nos uma aproximação
com os mais diferentes fluxos informacionais, e que estes circulam nas grandes e pequenas
cidades, pois, nem um lugar é isolado de outro, mesmo movimentando intercâmbios
precários.
A cidade é uma produção sócio-histórica da humanidade contendo ações, objetos,
materializações do movimento da sociedade (SANTOS, 1996), o que se pode admitir, que
esse conjunto, por exemplo, têm um misto de cultura, formas, lazer, tensões, que constitui o
179

conteúdo do espaço vivido do aluno. Então essas materializações são vividas e
experimentadas por esses sujeitos, o que me remete pensar que a cidade, em si, contém
conteúdos educativos, porque é uma constituição histórico-geográfica da sociedade, ou seja,
essa produção do mundo, cheia de complexidade, também pode ser lida como uma
experiência pedagógica.
A casa e a rua são os primeiros espaços geográficos que os alunos vivenciam e para
Da Matta (1997, p.15) estes espaços são muito mais do que meros espaços geográficos:

[...] estas palavras não designam simplesmente espaços geográficos ou coisas físicas
comensuráveis, mas acima de tudo entidades morais, esferas de ação social,
províncias éticas dotadas de possibilidade, domínios culturais institucionalizados e,
por causa disso, capazes de despertar emoções, reações, leis, orações, músicas e
imagens esteticamente emolduradas e inspiradas.

Para o autor, a casa e a rua são espaços carregados de sentido, ou melhor, duas
"categorias sociológicas" que revelam como a nossa sociedade pensa, vive e se organiza
enquanto sociedade, através do tempo. O Mundo da Casa (Espaço Privado) pode ser definido
como espaço dos bons costumes e da moral, é o espaço do privado e do íntimo, o local da
moradia, da calma e da tranqüilidade. É o refúgio, em casa somos únicos e insubstituíveis. Em
contrapartida, o Mundo da Rua é o espaço reservado ao movimento, a fluidez, ao perigo, à
tentação, do encontro entre os diferentes indivíduos da massa humana. É o lugar da luta, da
batalha, onde a dureza da vida pode ser mais bem percebida ou sentida (DA MATTA, 2001).
Esses dois espaços se integram num ciclo que é desempenhado cotidianamente por
indivíduos, homens e mulheres de díspares idades: crianças, adolescentes, jovens, adultos e
idosos, neste ciclo há os que trabalham os que passeiam os que estudam os que ganham bem,
os que ganham muito bem, os que ganham "mais ou menos" e ainda os que pouco ou nada
ganham. Alguns completam esse ciclo a pé; de bicicleta, ônibus e há os que fazem esse
percurso de carro próprio, entretanto, todos completam essa viagem que compõe nossa rotina
diária.
Nestes espaços, com intrincada rede de relações formam-se as primeiras relações de
educação geográfica que a criança e o adolescente experimentam. As lojas, ruas, bairros,
hospitais, centro comercial, periferias, praças, escola, dentre outras estruturas, formam um
conjunto de possibilidades para se (re) interpretar a cidade, espaço vivido do aluno, ajudando
a compreender seus nexos, vez que essas materialidades não se dissociam de seu conteúdo
180

social, na perspectiva que Milton Santos (1996) denominou de forma-conteúdo. Os cidadãos
consomem esse espaço, pois, sua existência individual e social é inerente à relação com seu
meio vivido.

6.2 Ensino de geografia na perspectiva da cidade educadora

A Geografia tem como objeto de estudo o espaço geográfico, fruto do intercâmbio
entre o homem e a natureza. A partir deste entendimento, este estudo centrou seu interesse na
dimensão educativa da área urbana do espaço geográfico, a cidade, produto da ação e relação
do homem, portanto, espaço dinâmico, mutável e segregado, pois a sociedade é fragmentada
em classes, assim, ela é reflexo das contradições e das desigualdades sociais materializadas
nos espaços diferenciados e segregados no meio urbano. Com base nisso, busquei junto aos
professores e alunos refletir sobre as potencialidades do estudo da cidade na sala de aula,
numa relação com o desenvolvimento da cidadania, para a apreensão crítica dos alunos em
relação ao espaço geográfico vivido e experienciado por eles.
Inicialmente me ative ao trabalho de observação nas aulas de Geografia e entrevistas
com professores que atuam diretamente com essa disciplina, onde constatei que os atores
pedagógicos que atuam com a geografia escolar, há muito estão imersos em discussões, que
envolvem este espaço e seu saber fazer a ponto de serem firmadas como "problemas". Estes,
ganhando novos matizes diante das emergentes exigências e dos desafios do presente
histórico, os quais destaco: distância entre a escola e a família, esta, por vezes, acusada de
ausentar-se das demandas da escola e as necessidades dos alunos; indisciplina que sem
demasia, acredito estar relacionada ao não interesse do aluno pelo que a escola ensina; não
aprendizagem do aluno, uma vez que estes raramente são avaliados pelo que já construíram e
já sabem, o que impede a livre expressão de idéias, comprometendo o desenvolvimento da
democracia, logo, avanço na convivência social.
Durante a graduação em Geografia e, sobretudo na minha prática docente e
adicionalmente com o Mestrado em Geografia, tenho procurado me inteirar dos vários debates
que vem sendo travado acerca da Geografia e seu ensino na sala de aula. A primeira vem
avançando largamente em diferentes conhecimentos geográficos sob diversas perspectivas
181

teóricas, tanto na ciência quanto no ensino de geografia na academia, já o seu ensino na sala
de aula tem sido assinalado por certas problemáticas, que acredito estar relacionado ao nível
em que a mesma é ensinada, o que passa por uma questão mais ampla: a formação inicial e
continuada dos atores pedagógicos da geografia escolar além de um cogente alicerce para dar
suporte a essas mediações pedagógicas desencadeadas entre professor-aluno-conteúdo.
A pesquisa desvendou que os professores portam-se nas mediações entre os alunos e o
objeto a ser estudado de maneira bastante tradicional, aprisionado ao livro didático, e como
discutido no capítulo quatro, estes não tratam do espaço geográfico dos alunos, resultando em
dificuldades para raciocinar e atuar enquanto ator na sociedade e no espaço geográfico em que
vivem. É exatamente aqui que reside o ponto central da questão: a falta de conexão entre
conteúdos e cotidiano provoca nos alunos uma atitude formal unicamente para "tirar boas
notas", "passar de ano", "levar a faculdade" e "se dar bem na vida", conforme afirmam os
alunos durante a entrevista, evidenciando uma educação para o mercado de trabalho e não
para a transformação social e a construção da sua cidadania no entorno que ele habita.
Em função dessa constelação de problemas que envolvem a educação formal em seu
processo de ensino e aprendizagem, vários pesquisadores vêm propondo novos métodos e
materiais pedagógicos na tentativa de resolver ou ao menos minimizar esses problemas
vividos na escola. Assim, surgem diferentes iniciativas que buscam desfazer a organização
rígida que a tem marcado desde sua formação na construção de um ambiente que ultrapasse os
tempos e os espaços escolares para além dos limites físicos.
Nesta direção, considerando as novas características da sociedade atual e a realidade

em que estamos vivendo, com novos ritmos tanto no deslocamento de pessoas, como das
idéias e informações, onde cada lugar do mundo está cada vez mais inserido na totalidademundo, e está cada vez mais presente nas partes, ou seja, nos lugares, e acrescido ao fato de o
Brasil ser um país com dimensões continentais, com diferenças regionais peculiares advindas
das condições naturais, das formas de trabalho, do desenvolvimento econômico, que
apresentam formas sociais de organização e que tem acentuadas diferenças culturais,
econômicas e sociais, é imperativo enfocar propostas que visem modificar a configuração do
ensinar e aprender geografia, conectando a escola ao tecido social do espaço urbano,
construindo assim, novos itinerários educativos, conforme vem discutindo a pesquisadora
Jaqueline Moll.

182

Em presença, o mar de informações que circunda os indivíduos na atualidade o ensino
geográfico não pode ficar limitado aos livros didáticos, ao saber dos professores e dos muros
escolares, estendendo-se ao saber dos alunos, das relações sociais do bairro e da cidade a que
pertence. Sem negar suas especificidades como instituição responsável pela educação,
entendo que a escola deve estar em contato direto com seu entorno. Portanto, o conceito de
cidade educadora torna-se relevante, este é um sistema complexo, em constante evoluir, que
prioriza o investimento cultural e a formação permanente de sua população. Ela será
educadora quando reconhecer, exercitar e desenvolver, além de suas funções tradicionais,
uma função educadora, e assumir a intenção e a responsabilidade de formação, promoção e
desenvolvimento de todas as pessoas que habitam a cidade (GADOTTI, 2004, p.145-146).
Tendo por referência os princípios constituintes de uma cidade educadora (op. cit., 147-151)
acredito que romper os limites físicos dos muros escolares é um caminho para uma educação
em valores éticos e democráticos que visam à cidadania e o ensino de Geografia contribui na
articulação entre sujeito/sociedade/cidadania, e de relações mais eqüitativas e solidárias.
Portanto, o ensino de Geografia necessita de uma reorganização pedagógica.
O diálogo com os alunos, capítulo cinco, mostrou que os mesmos sentem a
necessidade de inovação neste espaço onde acontece a sistematização dos conhecimentos
produzidos pela humanidade. Está explícito em suas falas o desejo de uma relação dialógica
com o professor, em que sua visão de mundo seja respeitada, como afirma uma aluna quando
perguntado sobre o que não gostava nas aulas de Geografia, apontando ser o não respeito a
suas opiniões. Isso causa descontentamento, pois o aluno não tem seu ponto de vista
respeitado no desenvolvimento de suas atividades, como também, de estudar sobre a sua
realidade circundante, no caso a Geografia de Alta Floresta D'Oeste e do estado de Rondônia,
como aponta a A4. Outro ponto a considerar é a questão da abstração dos conteúdos
estudados, como no depoimento da A3: "é porque a gente fala as coisas e daí eles não
entendem algumas coisas que são muito difícil, e daí se a gente tiver mostrando eles já sabem
o que é, e daí aprende melhor".
O trabalho desenvolvido por meio da seqüência didática levou-me a perceber que o
desenvolvimento dos alunos no sentido da construção do conhecimento dá-se não somente na
escola, mas também em espaços de brincar, dançar, cantar, jogar, correr, pular, festejar, além
dos espaços religiosos, entre outros. O que corrobora a tese de que a escola não é o único
espaço a desenvolver o conhecimento dos indivíduos. Neste processo, a cidade se apresenta
como espaço educativo a partir de espaços não-formais, informais e formais de educação, ou
183

nas palavras de Bernet (1997) e Filmus (1997) a cidade apresenta-se educativa em três
dimensões: aprender na cidade, aprender da cidade e aprender a cidade (Figura 41).

DIMENSÕES EDUCATIVAS DA CIDADE

APRENDER NA CIDADE

APRENDER A CIDADE

Instituições
Experiências

APRENDER DA CIDADE

Recursos

Relações

Costumes

Cultura

Tradições

Valores e contravalores

Espaço urbano

Formas de vida

Normas e atitudes
sociais

CONTEXTO
EDUCATIVO

OBJETO
EDUCATIVO

AGENTE
EDUCATIVO
Figura 41: As dimensões educativas da cidade
Fonte: BERNET, 2007. Elaborado por Sandra Gallo

Aprender na cidade - A cidade nesta perspectiva contém uma educação múltipla e
diversa por meio de espaços de educação não-formal e formal. A primeira são as ONGs Organizações Não-Governamentais, as igrejas, os sindicatos, os partidos, a mídia, as
associações de bairros, museus, espaços de exposições, entre outros. Estas são mais difusas,
menos hierárquicas e menos burocráticas como as formais, não precisam necessariamente
conceder certificados de aprendizagem (GADOTTI, 2005). Os espaços formais de educação
são as instituições escolares com objetivos e intenções definidos de forma consciente.
Por meio de inúmeras instituições formais e informais de educação é possível dizer
que a cidade é um espaço que contém educação, é um contexto educativo, um exemplo dessa
aprendizagem é a construída na escola, nas diferentes disciplinas. É um conhecimento formal,
conforme exemplo abaixo quando perguntado aos alunos entrevistados sobre o que estavam
estudando nas aulas de Geografia:
184

"É o conhecimento, como as pessoas vivem! As pessoas pobres as pessoas ricas! De
classe mais alta de classe mais baixa! As favelas, as grandes empresas, prédios, as
cidades pequenas e as cidades grandes!" (A4).
"A gente esta estudando que tá poluindo muito e que precisa melhorar isso. [...] fala
em animais, das coisas assim que tem que preservar, da fumaça, e até em TLR ­
Técnicas de Leitura e Redação a gente tá fazendo uns projetos assim, a gente tá
plantando árvore né, e daí o que a gente ta estudando em Geografia você já sabe
algumas coisas tipo assim você não sabia que aquele negócio que você colocou ali
podia estragar lá, o óleo né, daí você aprende, não pode (A3).
"[...] tinha no livro que lavar a louça com a torneira aberta gastava não sei quantos
litros de água e agora tampando gastava menos. Tomar banho também eu só tomava
banho de chuveiro aberto eu não desligava nem um pouco, e agora eu desligo, mas
quando eu estou com muita pressa eu não faço muito isso, só quando eu tenho
tempo, quando eu tomo devagar o banho, daí eu faço" (A3)!

Aprender da cidade - Espaços informais de educação são as ruas, as praças, o
trabalho, a casa, as lanchonetes, as relações na comunidade, entre outros. São espaços que não
tem a intenção de promover a educação, entretanto, influenciam e produzem conhecimentos,
experiências, idéias, práticas, valores, ou seja, são experiências eventuais e espontâneas que
influenciam na formação humana.
Aqui o aprendizado se dá de forma direta. Nas palavras de Bernet (1997) a cidade
como um agente educativo possui um "currículo oculto" formado pelos modelos de
comportamento presente na cidade e das relações sociais que a própria cidade modela. Essa
dimensão educativa da cidade está implícita em:

"Quando minha mãe e meu pai chegaram não tinha estrada era só mato quase não
tinha casas a escola era tipo uma casa tinha só três salas que estudavam 1ª, 2ª, 3ª
série, e os rios não eram poluídos e agora tem poluição e não tinha desmatamento
agora os animais estão morrendo com a poluição" (5ª B).
"Esta cidade começou de repente por causa das eleições quando o Vantuil se elegeu
para prefeito mudou um pouco nas eleições ele disse que iria renovar as escolas iria
fazer quadra tampada iria fazer asfaltos pontes e que ajudaria com os problemas
bocais com a visão das pessoas, começou a fazer igrejas novas até uma pista de skate
fizeram informática de computadores. Fizeram "saiber" cafés, mas só que tem que
pagar para fazer algumas coisas" (6ª A).
"A cidade mudou muito depois que o Lula assumiu na presidência como a pista de
skate o supermercado América e as ruas asfaltadas reformaram as escolas
construíram o ginásio esporte, construíram o posto Brasil, plantaram mais árvores na
praça, construíram pontes nas linhas e estão abrindo estradas na linha 42, 5, puxaram
energia para as casas" (6ª A).

185

"Nós achamos injusto o que o Carlão de Oliveira fez com o povo de Alta Floresta,
roubou 70 milhões dos cofres públicos. Muitas pessoas falam que ele consertou
braço de um perna de outro pessoa, soque ele fez tudo isso foi com o dinheiro do
povo, nós achamos injusto" (6ª A).

Aprender a cidade ­ Essa dimensão educativa que se estabelece na cidade por meio
de cenários educativos como escolas, museus, bibliotecas, instituições públicas e privadas,
entre outros, se refere à conformação do espaço urbano como um conteúdo educativo que no
dia-a-dia informa seus cidadãos. Porém, não significa dizer que os informa em sua
complexidade e totalidade. Esse aprendizado também aparece nos dados coletados junto aos
alunos quando perguntados se na cidade havia algum lugar ou alguma coisa que gostariam de
conhecer melhor, a saber:
"Eu queria entrar lá dentro [da delegacia] eu tenho curiosidade de conhecer melhor
como funciona lá. Numa advocacia, levar a gente no Fórum, na Promotoria, lugares
assim que... prefeitura, lugares que a gente tem uma noção assim, mas a gente não tá
por dentro de como funciona lá".
"Câmara dos Vereadores. Porque é lá onde que os vereadores trabalham que eles
planejam para a nossa cidade e depois levam os planos pro nosso prefeito, saber
como que é lá é sempre bom".

Bernet (1997, p.30) afirma ser exatamente "aquí sí que tienen um papel
importante a realizar lãs instituciones o intervenciones expresamente educativas: escolas y
universidades [...]25". A fala dos alunos demonstram que o meio urbano com sua forma
organizativa informa seus cidadãos, entretanto, o aprendizado pode se dar de forma
superficial, desordenada, estática e parcial.
Devo fazer uma ressalva crucial nessa questão - a cidade, no emaranhado de suas
formas e tramas, não se explica por si mesma. Embora contenha elementos educativos,
experimentados na relação social, sua significação passa pela mediação entre esses elementos
(processo social) e uma compreensão epistemológica (geográfico-pedagógica). Compreendo
que a interface cidade, sujeitos e educação, convergem no ensino de geografia e a escola,
entendida como ambiente da formação e o ensino de geografia, como uma leitura particular
dessa realidade, são convergentes nessa perspectiva, que chamo de educação geográfica

25

É aqui que se tem um papel importante a realizar as instituições ou intervenções expressamente educativas:
escola e universidade.

186

Com base nas três dimensões acima apresentadas é possível perceber a relação do
viver na cidade e o constante aprendizado do ser humano. O conteúdo da malha urbana da
cidade constitui-se em elementos importantes para que o ensino de geografia interprete e reelabore as dinâmicas conflitantes e contemporaneamente complexas do espaço urbano, ou
seja, uma transposição didática para uma compreensão coerente dos espaços cotidianamente
vivenciados pelos alunos na sua cidade.
Assim, a cidade é um espaço de educação contínua, onde o indivíduo vai aprendendo
na, da e a cidade desde seu nascimento e continuamente por toda a vida. A formação da
cidadania perpassa o entendimento pelo aluno da cidade como espaço de trocas culturais,
sociais e políticas, conhecendo o município como resultantes de processos sócio-culturais. As
crianças e os jovens vivenciam suas cidades a partir de suas inserções culturais e sociais no
âmbito da cidade e, conseqüentemente, do lugar que ocupam na sociedade em que vivem.
As representações sociais dos alunos me permitiu captar que o seu olhar sobre a cidade
refletem questões sociais, políticas, culturais e econômicas, assim, ao invés de "passar" os
conceitos, ou as leituras do livro didático, pode-se realizar a leitura do espaço real e concreto,
para trabalhar com os conceitos envolvidos, como exemplo, córrego, lixo, desmatamento, rio,
poluição,

violência,

segregação

espacial,

dinâmica

urbana,

pobreza,

desemprego,

criminalidade, conforme conceitos presentes nas falas dos alunos, as mesmas assumem uma
dimensão significativa para os conceitos geográficos de lugar, espaço e paisagem.
Porém, os alunos por viverem este espaço acabam por naturalizar as relações sociais e
as transformações ocorridas, apresentando dificuldades para pensar este espaço enquanto uma
totalidade. Esta questão dialoga com Nogueira (2002, p.129) "[...] a Geografia poderia, antes
de trazer uma caracterização acabada do lugar, procurar investigar e interpretar o saber que
cada um traz e que é adquirido na relação da vida com o lugar". Alargando o debate, incluo a
conceitualização de paisagem, natureza, território, região, entre outros, considerando a priori,
as representações dadas pelos alunos a respeito das mesmas, pois afirma Nogueira (2002)
embalada nas ideias de Merleau-Ponty, o homem não se separa do mundo para melhor
explicá-lo, ao contrário, ele apreende por estar nele, envolto nele e viver nele. O mundo é
aquilo que o indivíduo vive e não aquilo que ele pensa, daí a relevância do estudo do lugar.
O espaço geográfico pode ser apreendido de diferentes formas, com o uso de
diferentes conceitos chave da Geografia, todavia, a importância maior está em buscar um
processo de ensino e aprendizagem que desenvolva nos alunos o raciocínio crítico. Com
187

efeito, o cotidiano dos alunos, suas representações sobre a cidade, o vivido, discutido na
escola, surge como uma oportunidade pedagógica para o estudo das categorias geográficas na
compreensão da dinâmica social e espacial, extrapolando as visões fragmentadas e
naturalizadas dos problemas urbanos, contribuindo para a formação de alunos que passe a
viver e compreender a cidade de forma crítica. Esquematizado abaixo (Figura 42) para melhor
entendimento.

Figura 42: A cidade como objeto pedagógico
Fonte: Cavalcanti, 2006, adaptado por Gallo, 2008.

Conforme pontua Bernet (1997) e Filmus (1997) o viver na cidade não significa a
apreensão crítica sobre a cidade. É papel do professor por meio das mediações pedagógicas a
condução para esse novo olhar, promover ampliação sobre os conceitos pré-concebidos, a
perceberem o invisível, o não evidente, o desconhecido ou ainda, dar coesão nas suas préconcepções que são formadas pelo senso comum (capitulo 5) a tornarem-se conhecimento
científico. Precisamente aqui se situa a potencialidade da dimensão educativa da cidade.
188

Instituem-se assim, quatro novos sujeitos no processo educativo do ensino de geografia: os
alunos, a escola, o professor e a cidade.

ALUNOS (AS)

CIDADE

ENSINO DE

PROFESSOR

GEOGRAFIA

SUJEITO
SOCIAL

VALORES
SONHOS
PERCEPÇÃO
CONCEITOS
INFORMAÇÃO
EXPERIÊNCIAS

LABORATÓRIO DE
APRENDIZAGENS

ESPAÇO
GEOGRÁFICO

ESPAÇO FORMAL,
INFORMALE NÃOFORMAL

SOCIEDADE-ESPAÇO

MEDIADOR
PEDAGÓGICO

SUJEITO-OBJETO

CIDADANIA

EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA
DA CIDADE

Figura 43: Processo educativo-Ensino da Geografia
Fonte: Organização Sandra Gallo, 2008.

Os alunos vivem a cidade de forma diferenciada, uns moram em bairros longes do
centro e de infra-estrutura, outros em bairros centralizados, servidos de infra-estrutura, alguns
trabalham para sobreviver, outros apenas estudam, etc., portanto, suas representações sociais
não são as mesmas, cada aluno possui uma história de vida, valores, experiências, sonhos,
desejos e percepções que lhe são próprias. Assim, a Geografia precisa ir além do livro
didático e dos recursos didático-pedagógicos existentes em seu ambiente escolar. De uma
forma geral os livros didáticos e os currículos de ensino de geografia retratam um espaço
geográfico que pouco tem a ver com a realidade social, econômica, geográfica e cultural dos
alunos, dificultando a compreensão da Geografia vivida no espaço cotidiano do aluno e
certamente necessária para uma melhor relação homem-natureza e homem-homem.
A presente investigação detectou que os professores entendem que a geografia é
imprescindível na formação crítica de um aluno, transparecendo-se preocupados com o fazer
189

em sala de aula que atinja este nível de criticidade por parte dos alunos, portanto mostraramse preocupados com a geografia do cotidiano dos alunos no desenvolvimento da cidadania e
um melhor viver na cidade. Porém, para eles, a questão do cotidiano nas aulas de geografia se
resolve incluindo nos conteúdos em voga, a globalização, os problemas ambientais, conflitos
no Iraque, na Palestina, terremotos, entre outros, e relacionando-os com o cotidiano. O estudo
da cidade na sala de aula tem sido muito limitado, sem muita conexão da escola com a
realidade urbana circundante e sem relacionar a inserção dos indivíduos na vida citadina,
sendo apenas visitas pontuais e descritivas, não há um encadeamento que leve à compreensão
dos processos e quando é discutida na sala de aula também não é compreendida enquanto um
lugar de relações sociais. De modo bastante superficial, percebo que não estão claras aos
professores dessa disciplina, as possibilidades reais do uso da cidade em aula.
Parto do pressuposto que o fazer Geografia em sala de aula está diretamente
relacionado a uma questão muito mais complicada do que a simples seleção de conteúdos, da
contextualização dos mesmos, ou do mero conhecimento da realidade dos alunos. A questão é
complexa. A cidadania não é construída em sala de aula. Acreditar nessa afirmativa é não
considerar a teia de relações sociais que existe no cotidiano. Não obstante, em nossa prática
busca-se firmemente robustecer a democracia na escola, os limites e o alcance da sua
constituição se localizam ao externo dos muros da escola.
Quero destacar aqui, como uma orientação às práticas pedagógicas dos professores
que ultrapasse aos métodos geográficos descritivos e conteúdos abstratos para os alunos, a
valorização das suas concepções de educação e da geografia da cidade que estão atreladas em
seu saber oriundas da sua formação, das suas práticas cotidianas e das relações que estabelece
neste espaço. É exatamente aqui que reside a diferença. É a interlocução dos saberes dos
professores e dos alunos que pode surgir um avanço no ensino de geografia, abrindo-se a uma
educação geográfica que permita os professores e os alunos a construírem a sua história,
"compreender seu contexto social e geográfico, ensejando a formação de cidadãos
conscientes, identificados com o lugar em que vivem, prontos para assumir papéis ativos"
(DORFMAN apud SCHAFFER, 1998, p.107).
Embora os alunos sentirem dificuldades em expressar as suas compreensões acerca do
que era Geografia e como percebiam a existência da mesma no seu dia-a-dia, demonstraram
tanto no trabalho de entrevista, quanto na seqüência didática que possuem conceitos, opiniões,
visões, enfim, das questões que os envolvem, seja elas relacionadas à sala de aula, à escola, ou
190

ao seu bairro e aos lugares que frequenta ou mesmo que percebe na sua vivência diária pela
cidade, que são os chamados por Vygostky de conceitos espontâneos ou cotidianos, assim,
pretendo com este trabalho aflorar o debate na construção dos conceitos geográficos pelos
alunos numa relação entre a cidade-ensino de geografia, facilitando a assimilação dos
conceitos.
É por esse motivo que surgiu este trabalho, como forma de auxiliar os professores num
ensino que transcenda os limites das abstrações geográficas na compreensão do objeto de
estudo da Geografia, não somente trazendo para as salas esta temática, mas promovendo uma
reflexão sobre os sentimentos e ideologias de populações que habitam um espaço geográfico e
nele se inter-relacionam. Assim, o ensino de geografia contribuirá com alternativas de
propostas que aborde o estudo da cidade como conhecimento escolar, elaborando propostas
não só a partir de trabalhos científicos, mas também das concepções e percepções dos alunos.
Logo, este trabalho pode ter uma contribuição na ampliação do conhecimento, na busca de
novos caminhos na direção das mudanças para que as aulas de Geografia venham a ser um
espaço de criação, recriação e participação, contribuindo com a formação educativa e cidadã a
partir do momento que o aluno compreenda que faz parte do contexto geográfico, pois como
já afirmara Paulo Freire: "Antes de tornar-me um cidadão do mundo, fui e sou um cidadão do
Recife, a que cheguei a partir do meu quintal (...). Eu não sou antes brasileiro para depois ser
recifense. Sou primeiro recifense, pernambucano, nordestino. Depois, brasileiro, latinoamericano, gente do mundo".
Esta é uma proposta aos professores de Geografia do Ensino Fundamental, das séries
iniciais a 9ª série, mas também para as Representações de ensino e cursos de Graduação, estas
duas últimas, no sentido de fornecer subsídios para o professor que esteja engajado em buscar
novas alternativas no trabalho da Geografia escolar em que os espaços cotidianamente
experimentados pelos alunos, torne fonte de conhecimento e de exercício de uma experiência
social em que suas desigualdades, suas instituições e sua complexidade possam ser
contextualizadas como a trama de um saber popular a um saber geográfico, pois é na
problematização dessa "coexistência dramática de tempos dispares" (FREIRE, 2006, p.26)
que podemos construir uma educação geográfica da cidade, ou em outras palavras uma
geografia educadora.

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203

APENDICE

204

APENDICE A: Entrevista com os professores
1- Docência









Profissão
Formação acadêmica
Escola em que trabalha
Carga horária
Séries em que trabalha
Atividade fora da docência
Escola
Alunos

2- Ensino de Geografia.






Pratica pedagógica, metodologia.
Freqüência que sai da sala de aula
Seleção de conteúdos para o ano letivo
Livro didático (como são os conteúdos e propostas de atividades)
PCNs

3- Cidade







O que gosta de fazer nesta cidade
O que você gosta na cidade
O que você não gosta na cidade
O que é uma cidade
O que é cidadania
A freqüência que a cidade de Alta Floresta D'Oeste é discutida na sala de aula

4- Dificuldades docentes



Alternativas buscadas
Fases e momentos marcantes

205

APENDICE B: Entrevista com alunos
Perfil







Série
Idade
Tempo que mora nesta cidade
Trabalha
Mora com quem
Profissão do seu responsável

1- Escola








Importância da escola
O que gosta na escola
O que não gosta na escola
O que gostaria que mudasse na sua escola
Fale dos professores
Gosta da forma como eles trabalham
Como gostaria que eles trabalhassem na sala de aula

2- Ensino de Geografia
O que é geografia
O que você estuda em geografia
Você gosta de geografia (O que gosta, e o que não gosta)
O que gostaria de estudar em geografia
O que estudou sobre está cidade nas aulas de geografia
Já usou algum dos conteúdos que tenha estudado nas aulas de geografia no teu dia a dia
3- Cidade














Bairro
Em que direção à escola se encontra da sua casa
O que gosta e o que não gosta nesta cidade
O que mais chama a sua atenção nesta cidade
Um lugar que você gostaria de conhecer
O que mais gosta de fazer nesta cidade
Lugar que você mais gosta
Lugar que mais freqüenta
Mudanças no espaço urbano desta cidade
O que é uma cidade
O que falta nesta cidade
Algum lugar nesta cidade que a escola deveria estudar
A cidade dos seus sonhos

206

APENDICE C: Questionário socioeconômico e geográfico dos alunos de 5ª e 6ª série do ensino
fundamental

UNIR - UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA
NÚCLEO DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA
DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EXTENSÃO MESTRADO EM GEOGRAFIA

Prezado estudante, solicitamos o preenchimento deste questionário que visa o desenvolvimento de uma pesquisa
sobre o ensino de Geografia.
Atenciosamente
Pesquisadora: Sandra Gallo
Orientador: Prof. Dr. Nilson Santos

Série_________ Idade__________

1) Há quanto tempo você mora nesta cidade:
( ) de 1 a 3 anos ( ) de 6 a 9 anos
( ) de 3 a 6 anos ( ) mais de 9 anos
2) Em que município você nasceu?
_________________________________________
3) A casa em que você mora é:
( ) alugada
( ) própria
( ) emprestada
( ) outra
4) Em qual bairro você mora?
_________________________________________
5) Quantas pessoas moram na sua casa?

6) Você mora com:
( ) pai
(
( ) mãe
(
( ) avó
(
( ) avô
(

) irmã(o)
) tio(a)
) primo(a)
) outros

7) Qual o tipo de trabalho que a pessoa
responsável por você faz?
_________________________________________
_________________________________________
8) Qual é a renda mensal da sua família?
( ) menos de R$ 380,00
( ) de R$ 380,00 a R$ 760,00

( ) de R$ 760,00 a R$ 1.520,00
( ) mais de R$ 1.520,00
9) Assinale com um X os objetos disponíveis em
sua casa.
( ) DVD
( ) internet
( )vídeo cassete ( ) computador
( )televisão
( ) jornal e revista
10) Você trabalha?
( ) sim
( ) não
Se você trabalha, o que você faz?
_________________________________________
_________________________________________
11) O que você costuma fazer para se divertir?
_________________________________________
_________________________________________
12) Você gosta de estudar?
( ) sim
( ) não
Por quê?
_________________________________________
_________________________________________
13) Você já reprovou?
( ) sim
( ) não
14) Assinale com um X o que você costuma ler
fora das atividades da escola:
( ) revistas
( ) jornais
( ) gibis
( ) internet
( ) Bíblia
( ) outros
( ) nenhum
( ) livros didáticos da escola

207

15) Assinale com um X as disciplinas que você
gosta de estudar:
( ) matemática
( ) inglês
( ) língua portuguesa ( ) artes
( ) geografia
( ) ciências
( ) história
( ) ed. religiosa
Por que você gosta desta(s) disciplina(s)
_________________________________________
_________________________________________
16) Assinale com um X as disciplinas que você
menos gosta de estudar:
( ) matemática ( ) inglês
( ) língua portuguesa
( ) artes
( ) geografia
( ) ciências
( ) história
( ) ed. religiosa

19) Nesta cidade quais são os lugares que você
mais gosta independente de freqüentá-los? Por
quê?
_________________________________________
_________________________________________
20) Tem alguma coisa que você não gosta nesta
cidade? O que?
_________________________________________
_________________________________________
21) O que você já estudou sobre a cidade de Alta
Floresta D'Oeste na escola?
_________________________________________
_________________________________________
_________________________________________
22) O que você acha que tem de importante na

Por que você não gosta desta(s) disciplina(s)
_________________________________________
_________________________________________
17) Você gosta desta cidade? Por quê?
_________________________________________
_________________________________________
_________________________________________

cidade que a escola deveria estudar?
_________________________________________
_________________________________________
________________________________________
23) Além da escola quais os lugares que você
mais freqüenta nesta cidade?

18) O que falta nesta cidade?
_________________________________________
_________________________________________

208

APÊNDICE D: Seqüência didática de três atividades desenvolvida nas 5ª e 6ª séries das escolas estaduais
públicas Tancredo de Almeida neves e Eurídice Lopes pedroso de Alta Floresta d'Oeste/RO.

Série----------Idade---------

D. 1 A MINHA CIDADE

__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________

D 2: CIDADE DE ALTA FLORESTA D'OESTE DAQUI A DEZ ANOS

Empregue a tua imaginação e desenhe a sua Cidade daqui a dez anos. Pense nas transformações
que poderá vir a ocorrer e os possíveis problemas que ela poderá apresentar no ano de 2017. Se quiser,
você pode escrever frases sobre os desenhos.

209

APENDICE E: Carta de autorização dos sujeitos da pesquisa

Alta Floresta D'Oeste/RO, 24 de janeiro de 2008.

Eu,______________________________________________________________________________
_______________________________________portador (a) do RG número_________________, declaro para
os devidos fins que cedo os direitos de minha entrevista, gravada no dia ____ de_____________de 2007, para
Sandra Gallo da Silva, discente do curso de Mestrado em Geografia pela Universidade Federal de Rondônia,
utilizá-la integralmente ou em partes, sem restrições de prazos e limites de citações, desde a presente data.
Abdicando direitos meus e de meus descendentes, subscrevo a presente, que terá minha firma
reconhecida em cartório.

210

APÊNDICE F: Dinâmica completando frases







































Na escola o que eu mais gosto é...
Na rua da minha casa...
Se eu pudesse fazer algo pela minha cidade eu faria...
Na hora do recreio eu...
O que me chama atenção na hora do recreio é...
O lugar nesta escola que eu mais gosto é...
Eu me divirto muito nos finais de semana com...
A cidade de Alta Floresta d'Oeste é...
O que eu mais gosto nas aulas de Geografia é...
O que eu não gosto nas aulas de Geografia é...
Se eu fosse a professora de Geografia eu...
Se eu fosse o prefeito da cidade...
Caminho pelas ruas da cidade, olho em volto e percebo que...
Hoje eu queria apenas...
Depois de um dia de aula gosto de...
Ah, como gostaria que esta cidade...
Meu dia fica completo quando eu acabo meus afazeres e...
Quando eu estou triste gosto de...
Como eu gostaria que voltasse o dia que ...
Dias felizes são aqueles em que eu acordo e...
O meu maior sonho é...
A minha felicidade eu gostaria de dividir com...
Na escola minha maior alegria é...
Dias perfeitos são aqueles que...
Quando estou cansado e quero sair da rotina eu...
Nos finais de semana eu e minha família...
No bairro onde moro eu me sinto completamente feliz quando...
Hoje quando entrei nesta sala o detalhe que mais me chamou atenção...
Nesta cidade a gente passa, a gente olha, a gente...
Quando abro a janela do meu quarto vejo...
Fico triste quando...
Todos os dias eu...
Eu me divirto bastante quando...
A paisagem mais bonita da cidade é...
O maior problema desta escola é...
Agora neste exato momento gostaria de...
No minha de casa para escola...
Ser cidadão é...

211

APÊNDICE G: Dinâmica passe o repolho







































Alta Floresta d'Oeste pertence a que estado?
RO é a sigla de qual estado?
Que mudanças você tem presenciado nesta cidade?
O estado de Rondônia pertence a que região brasileira?
O desperdício de água pode ser evitado por todos no dia-a-dia. Cite alguns
exemplos de atitudes que evitam os gastos desnecessários da água.
Diferencie paisagem natural e humanizada.
Que elementos predominam na paisagem natural?
Que elementos predominam na paisagem urbana?
Alta Floresta conta com cinco Distritos, quais são?
Quais são os bairros pertencentes a essa cidade?
Qual é o país visinho que se localiza ao sul do nosso município?
Qual é o clima do município?
Cite algumas indústrias existentes no município.
O que a Geografia estuda?
Se você estiver saindo da escola e quiser ir até a igreja católica qual a direção você
tomaria?
O que é necessário para nos orientar e nos localizar na superfície terrestre?
O Sol aparece todas as manhas no... e desaparece todas as tardes no...?
Você já reparou em que direção a sombra está voltada no período da manha?
Qual é o município em que você mora?
Em que estado você nasceu?
Para que servem mapas e plantas?
O meu colega da direita esta em qual direção em relação a mim?
A porta da sala de aula esta em que direção em relação ao lugar que estou sentada
neste momento?
Qual é a capital do nosso estado?
Você nasceu no estado em que mora?
Quais motivos levam as pessoas do espaço rural a deixarem os lugares onde vivem?
Quais os principais problemas desta cidade?
A maioria da população do nosso município mora na área urbana ou rural?
O que é trabalho? E qual a importância do trabalho para as pessoas?
Você conhece alguém que tenha ficado desempregado?qual as dificuldades que a
pessoa enfrentou?
O que é um padrão de vida digno?
O que é lugar?
O que é sociedade?
No percurso entre a sua escola e a sua casa tem algo que precisa ser modificado?
O que é paisagem?
Quais os espaços públicos mais importantes da sua cidade?
Quem é o prefeito da sua cidade? O que acha da sua administração?
O relevo terrestre esta em constante transformação. Como isso acontece?

212

APÊNDICE H: Dinâmica dança da cadeira: ninguém pode ficar de pé

Ao som musical todos os alunos dançam em volta das cadeiras e na pausa da música todos
devem sentar. Cada rodada tira-se uma cadeira e o detalhe é que ninguém pode deixar a brincadeira
nem podem ficar de pé, assim, continuamente até sobrar uma única cadeira.
Objetivo: desenvolver a solidariedade, união e laços afetivos entre a turma.

213