XIX ENCONTRO NACIONAL DE GEOGRAFIA AGRÁRIA, São Paulo, 2009, pp. 1-20

O ENSINO DE GEOGRAFIA AGRÁRIA: PARA ALÉM DA SALA DE AULA

LA ENSEÑANZA DE LA GEOGRAFÍA AGRÁRIA: MÁS ALLÁ DE LA SALA DE
CLASE

Gustavo Henrique Cepolini Ferreira
CEUCLAR e Secretaria da Educação de SP.
[email protected]

Resumo: As discussões apresentadas nesse visam estruturar os trabalhos
desenvolvidos em duas escolas públicas em Campinas-SP; Como se trata de um
trabalho em andamento, apresentaremos os primeiros resultados, tendo em vista a
própria dimensão da pesquisa alternativa proposta por Freire (1999), cuja construção
está sempre em movimento. Dessa maneira, construímos e analisamos alguns
questionários semi-estrurado, em que os alunos puderam expor suas opiniões e
indagações sobre a questão agrária; esses questionários nos dão sustentação para as
discussões frente ao campo brasileiro, e como a mídia exerce um "papel" mistificador
com relação aos Camponeses, Sem Terras e Agronegócio. Nesse sentido, nos
debruçamos nas reflexões apontadas pelos alunos a fim de contextualizá-las frente às
conceituações de agricultura camponesa, do agronegócio, de quem produz alimentos
neste país, assim como dos dilemas vivenciados pelos movimentos socioterritoriais em
especial o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em função da
"visibilidade" na mídia e conseqüentemente por sua constante deslegitimação; para
desenvolvermos essas mediações utilizamos os estudos de Oliveira (2001, 2003 e
2008) e Fernandes (2001, 2004 e 2008). Como proposição final, tecendo a reflexão de
qual "Campo" estamos falando na possibilidade de realizarmos trabalhos de campo na
Região Metropolitana de Campinas (RMC) estabelecendo, assim um diálogo para além
da sala de aula.
Palavras- chave: Geografia Agrária ­ Trabalho de Campo ­ Mídia;

Resumen: Las discusiones se presentan ese objetivo de estructurar nuestro trabajo, en
dos escuelas públicas en Campinas-SP, como es un trabajo en progreso, vamos a
presentar los primeros resultados, con miras a la magnitud de la búsqueda alternativa
propuesta por Freire (1999), cuya construcción está siempre en movimiento. Por lo
tanto, construir y analizar algunos cuestionarios medio estrurado-en la cual los

2

XIX ENGA, São Paulo, 2009

FERREIRA, G. H. C.

estudiantes pudieron exponer sus opiniones y preguntas sobre la cuestión agraria.
Estos cuestionarios nos dan apoyo a las discusiones delante de los campos brasileños,
incluso teniendo en cuenta el "papel" de los medios de comunicación en la construcción
de la ideología de los campesinos, los Sin Tierras y Agronegocio. En ese sentido,
tecemos algunas consideraciones acerca de la agricultura campesina, la agroindustria,
desde los que producen alimentos en este país, así como los dilemas experimentados
por los movimientos socioterritoriais en particular el Movimiento de los Trabajadores
Rurales Sin Tierra (MST), de acuerdo con la "visibilidad" en los medios de
comunicación y, en consecuencia, en su constante deslegitimação; mediaciones
utilizadas para desarrollar estos estudios de Oliveira (2001, 2003 y 2008) y Fernandes
(2001, 2004 y 2008). Como una propuesta final, la creación de un reflejo de lo que
"Campo" estamos hablando de la posibilidad de realizar trabajo de campo en la Región
Metropolitana de Campinas (RMC), estableciendo un diálogo más allá del aula.
Palabras clave: Geografía Agraria - Trabajos de Campo - Medios de comunicación;

O campo brasileiro em movimento

A bandeira vermelha se moveu/ É um povo tomando posição/ Deixe o
medo de tudo pra depois/ Puxe a faca, desarme sua mão/ Fique muito
tranqüilo pra lutar/ Desamarre a linha da invasão/ A reforma está vindo
devagar/ Desembocar no rio da razão/ Disparada de vacas e de bois/ É
o povo tomando posição/ É o povo tomando direção. Sem Terra - Zé
Ramalho

O campo brasileiro é repleto de conflitualidade, visto a contradição e
desigualdades do capitalismo (FERNANDES, 2004). Dessa maneira, a música de Zé
Ramalho expressa a condição que para os Sem Terras ou camponeses1 é de suma
relevância, tendo em vista a tomada de consciência da luta pela terra por parte desta
classe social (OLIVEIRA, 2001), onde muitos vivenciam as expulsões, expropriações e,
1

Entende-o como aquele que "[...] vivendo na terra e do que ela produz, plantando colhendo o alimento que vai para
sua mesa e para a do príncipe, do tecelão e do soldado, o camponês é o trabalhador que se envolve mais diretamente
com os segredos da natureza." (MOURA, 1988, p. 09) Embora o contexto retratado na obra, demonstre ainda, que o
trabalho camponês é definido como "[...] cultivador de pequenas extensões de terras, às quais controla diretamente
com sua família." (Idem, p. 12) estamos utilizando também como sendo o pequeno proprietário de terras.

O ensino de Geografia Agrária: para além da sala de aula, pp. 1-20

3

sobretudo a deslegitimação ao utilizarem da ocupação de terras as quais não cumprem
a função social, e por isso reivindicam a reforma agrária.
A luta pela terra, "[...] por um pedaço de chão e contra as múltiplas formas de
exploração de seu trabalho amplia-se por todo canto e lugar, multiplica-se como uma
guerra civil sem reconhecimento." (OLIVEIRA, 2003, p. 114) Demonstrando ainda, que
além de histórica, é a cada dia agravada com o advento da "modernidade" que
industrializa e mundializa a economia fazendo com que se agrave a exclusão nas
cidades e no campo (OLIVEIRA, 2003).
Dessa maneira, entendemos conforme os vários os estudos (MARTINS, 1981;
BASTOS, 1984; OLIVEIRA, 1996) as lutas pela terra no país como históricas, em que
emergem os movimentos de resistência perante a constituição do campesinato; neste
trabalho iremos apenas mencionar alguns desses movimentos que antecederam a
gestação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e dos demais
movimentos socioterritoriais2.
Uma primeira "divisão" da luta pela terra pode-se dizer que emergiu com o
Quilombo Zumbi dos Palmares (1600 -1695), localizado no interior da atual Alagoas,
sendo a Serra da Barriga sua capital, era um território livre, liberto, formado de
africanos e brasileiros escravos (OLIVEIRA, 1996).

Outra parte da luta também

abordada por Martins (1981) se refere à: Canudos (1896-1897) no sertão na Bahia,
Contestado (1912-1917) na região do Paraná e Santa Catarina, Trombas e Formoso
(inicia-se em 1948) em Goiás e as Ligas Camponesas (nas décadas de 50 e 60)
organizados no nordeste brasileiro3.
Através desse breve retorno a luta pela posse, uso e resistência na terra de
trabalho, é que entendemos que deva ser o trabalho em sala de aula no Ensino
Fundamental e Médio; uma vez que pressupõe que os educandos devam ao final
desses dois períodos terem uma perspectiva crítica, no sentido de reconhecer a
realidade e poder discuti-la a partir dos distintos projetos existentes, entendendo ainda
o contexto "cotidiano" e sua inserção mundial. (BRASIL, 1998 e 1999)

2

"[...]... a cada assentamento que o MST conquista, ele se territorializa. E é exatamente isto que diferencia o MST
dos outros movimentos sociais. Quando a luta acaba na terra, não existe territorialização. É o que acontece com a
maior parte dos movimentos que lutam pela terra. A estes chamamos de movimentos isolados, porque começam a
luta pela terra e param a luta na conquista da terra. Os sem-terra organizados pelo MST, ao conquistarem a terra,
vislumbram uma nova conquista e por essa razão o MST é um movimento socioterritorial. (STÉDILE e
FERNANDES, 2005, p. 78)
3
Entre as Ligas Camponesas a mais famosa é a do Engenho Galiléia, cujo nome era: Sociedade Agrícola de
Plantadores e Pecuaristas de Pernambuco (SAPPP) fundada "[...] quanto o proprietário do engenho do mesmo
nome quis expulsar os foreiros que ali trabalhavam, há vários decênios." (ANDRADE, 1989, p. 27)

4

XIX ENGA, São Paulo, 2009

FERREIRA, G. H. C.

O Ensino de Geografia Agrária no Ensino Fundamental e Médio

Uma das primeiras discussões ao trabalhar a Geografia Agrária na sala de aula,
gira em torno do Movimento Sem Terra ­ Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra, conhecido ainda como: MST, essa sigla surge de imediato em grande parte dos
alunos4, quando nos referimos ao campo; embora os "signos e simbologias" presente
na sigla do Movimento não seja contextualizado, tendo em vista a própria dimensão
deslegitimadora explorada pelos meios de comunicações de massa.

[...] a principal limitação do jornalismo comercial deve-se ao fato de
estar subordinado ao interesse das elites, além de um motivo ainda
mais óbvio: o próprio monopólio dos meios de comunicações. Sendo
assim, é claro que a representação dos sem-terra ­ assim como de
todos aqueles que não participam da sociedade de consumo será
tendenciosa. (MENDOÇA apud MORISSAWA, 2001. p. 218 e 220.)

A proposta desse trabalho vai de encontro com algumas indagações realizadas
por um grupo de alunos, ao questionarem os porquês do MST estar sempre na mídia e
o que estava acontecendo com o preço dos alimentos? A partir dessas indagações,
dentre as tantas questões, angústias e vivencias na sala de aula, propomos realizar
esse trabalho no qual visa apresentar de uma maneira esquemática parte dos
resultados, baseando-se nas reflexões sobre o campo brasileiro e como essa pode ser
estudada na Região Metropolitana de Campinas (RMC) através de Trabalho de
Campos.
Uma primeira questão abordada se refere ao Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra, e como os alunos tiveram contato com o Movimento. Nos gráficos 1
e 2, podemos analisar que a maioria dos alunos participantes já tinham ouvido falar do
MST.

4

O presente trabalho vem sendo realizado com os alunos das escolas: EE Prof. Carlos Lencastre (EF) e EE Prof.
Sebastião Ramos Nogueira (EM) ambas localizadas em Campinas-SP.

O ensino de Geografia Agrária: para além da sala de aula, pp. 1-20

Gráfico 1: Quem já ouvi falar do MST
Ensino Médio

5

Gráfico 2: Quem já ouvi falar do MST
Ensino Fundamental

26%

Sim

45%
Sim

Não
55%

Não

74%

Alunos %
99
74,4
34
25,6

Alunos
62
51

%
55
45

Nos gráficos 3 e 4 complementares aos anteriores (gráficos 1 e 2), nos mostram
os meios de comunicações em que os alunos tiveram acesso ao MST. Nesse contexto,
pode-se entender o papel da televisão no que tange a organização do Movimento;
tendo em vista a designação que o Movimento recebe ao ocupar áreas que não
cumprem sua função social e ou devolutas, portanto passíveis de reforma agrária5.
Alguns relatos dos alunos representam o MST sob outra perspectiva, mesmo
quando a fonte continua sendo a televisão.

Foi fácil de responder, porque o único conhecimento que tenho sobre
este assunto é o da televisão, que percebi que ela camufla a verdade e
nos faz pensar como invasores ao invés de pessoas que lutam pela
terra. P. D. K., aluna do 3ºB.

O tema é fácil, pois é muito abordado pela mídia, até certo ponto (a
mídia sempre ou na maioria das vezes) fica do lado do governo,
portanto destaca o lado negativo dessa situação, não mostrando o lado
dos ocupantes apenas a dos donos de terras. N. C. C aluna 3º C.

5

Embora, enfatizamos o contexto do MST, existem outros 85 movimentos socioterritoriais no Brasil segundo o
Boletim do DATALUTA ­ Banco de Dados da Luta pela Terra, divulgado em fevereiro de 2008.

6

XIX ENGA, São Paulo, 2009

FERREIRA, G. H. C.

A partir dessas duas falas podemos perceber a leitura "os filtros", que devemos
ter para entender a realidade; na segunda fala a palavra governo remete ao poder
mostrando a conivência que esses têm com os latifundiários, que por sua vez
compõem o governo. "[...] a história do Brasil é a história das suas classes dominantes,
é uma história de senhores e generais, não é uma história dos trabalhadores e
rebeldes." (MARTINS, 1981, p. 26)

Gráfico 3: Meios de Comunicação
Ensino Médio

Gráfico 4: Meios de Comunicação que
Ensino Fundamental

0%
4%

4% 4%

11%
revista

7%

6%

6%

tv

livro

livro

filme

filme

internet

internet
40%
26%

aula

aula

amigo

amigo
outro

jornal
tv

jornal
4%

revista
28%

60%

outro

A luta do MST e dos demais movimentos socioterritoriais, não se restringe à luta
pela terra e a sua conquista, essa é uma parte no processo de territorialização
(FERNANDES, 2001). A reforma agrária proposta pelos movimentos socioterritoriais
visa derrubar as cercas da terra, da educação e do capital. Desta forma, é que o MST
concebe a educação, que compartilhe o ideário do campo.
A Educação do Campo vêm de encontro com esse processo, em que as escolas
afirmam a

[...] necessidade de duas lutas combinadas: a da efetivação pelo direito
à educação e à escolarização e "[...] pela construção de uma escola que
esteja no campo, mas que também seja do campo: uma escola ligada
na história, na cultura e às causas sociais e humanas dos que vivem no
campo." (VIA CAMPESINA, 2006, p. 28; grifo nosso)

O ensino de Geografia Agrária: para além da sala de aula, pp. 1-20

7

Sobre o contexto da Educação do Campo, a Pesquisa Nacional da Educação na
Reforma Agrária (PNERA) apresenta um extenso levantamento sobre as escolas em
áreas da reforma agrária; no mapa 1, podemos ler a distribuição das escolas por
regiões6.

Mapa 1. Número de Escolas por Regiões no âmbito do PNERA

A partir do entendimento da Educação do Campo, e dos demais contextos
apresentados pelo MST em 20077, em que possuía 2.000 escolas de Ensino
Fundamental, com aproximadamente 160 mil crianças e adolescentes, com 3.900
educadores, 250 educadores que trabalham com as Cirandas Infantis, além dos 3 mil
educadores de Jovens e Adultos, responsáveis por cerca de 17.500 adultos em
processo de alfabetização, assim como cursos de ensino médio e técnico,
perguntamos ao alunos de ambas as escolas, se conheciam tal realidade, foi uma das
questões onde tivemos a maior discrepância entre os que conheciam e os que não
conheciam, conforme os gráficos 5 e 6.
6

O levantamento realizado para o PNERA se refere aos assentamentos criados pelo INCRA a partir de 1985. Dessa
maneira, incluem os projetos e as escolas do MST, assim com de outros movimentos socioterritoriais, estando
jurisdicionados às redes estaduais e municipais de educação. Uma leitura, na qual os dados permitem se refere à
distribuição dos Assentamentos do INCRA nas regiões, a partir do seguinte quadro: Norte: 1.082; Nordeste: 2.546;
Sudeste: 496; Sul: 680; Centro-Oeste: 791;
7
Informações disponíveis no portal do Movimento na internet.

8

XIX ENGA, São Paulo, 2009

FERREIRA, G. H. C.

O trabalho de Caldart (2004) ao refletir a Pedagogia do Movimento,
contextualiza amplamente o que o MST vem construindo historicamente, o que propicia
essa troca de saberes frente à realidade do campo brasileiro; onde muitos tinham que ir
para as cidades para estudar, ou mesmo, para trabalhar na construção dos grandes
"arranha céus", são as contradições de um país migrantes, em que as contradições
estão postas. É o que em partes aconteceu na década de 60, tendo em vista que 60%
da população brasileira segundo o IBGE passou a viver nas áreas urbanas.

Gráfico 5: Conheciam ou ouviram falar
das Escolas do MST - Ensino Médio

Gráfico 6: Conheciam ou ouviram
falar das Escolas do MST - Ensino
Fundamental
10%

6%

Sim

Sim

Não

Não

90%

94%

Alunos
125
8

%
94
6

Alunos
102
11

%
90
10

A partir dessas respostas propusemos a seguinte pergunta: quem produz mais
alimentos no país?

A maioria das respostas indicaram o agronegócio como sendo o

grande "negócio" no que tange a produção, conforme os gráficos 7 e 8.

O ensino de Geografia Agrária: para além da sala de aula, pp. 1-20

Gráfico 7: Quem mais produz no campo
brasileiro? - Ensino Médio
8%

9

Gráfico 8: Quem mais produz no
campo brasileiro? - Ensino
Fundamental
21%
47%

15%

Agronegócio

Agronegócio

Camponesa

Camponesa

Outro

Outro

32%
77%

Alunos
102
20
11

%
77
15
8

Alunos
50
36

%
47
32

Após analisarmos as respostas, apresentamos alguns reflexões de Oliveira
(2003 e 2008), e o texto "Cadê o agronegócio? Cadê os alimentos? de Fernandes
(2008). Entre elas, a de que:

O agronegócio produz apenas uma parte dos alimentos. A outra parte é
produzida pela agricultura camponesa ou familiar, ou ainda por
pequenos produtores e sitiantes, como possam ser chamados os
produtores não capitalistas. Essa parte, no geral, significa metade; no
particular significa mais ou menos da metade. O agronegócio pode
produzir mais cana, mas são os camponeses que produzem mais café e
leite. O agronegócio pode produzir mais soja, mas são os camponeses
que produzem mais feijão, mandioca, cebola e banana. [...] O

agronegócio controla hoje no Brasil 300 milhões de hectares,
todavia utiliza apenas 120 milhões. Restam 180 milhões de
hectares para serem utilizados na reforma agrária voltada para a
produção de alimentos. (FERNADES, 2008, p. 01; grifo nosso)

Nos gráficos 9 e 10 podemos complementar os entendimentos vistos nas
questões anteriores; embora traduzam a própria contradição disseminada pela mídia e
por teóricos da União Democrática Ruralistas (UDR) ao afirmarem que o Brasil não
precisa de reforma agrária; todavia, o que vemos é a reforma agrária como o caminho

10

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FERREIRA, G. H. C.

"[..] pois as pequenas unidades são também, as poderão gerar mais empregos."
(OLIVEIRA, 2003, p. 153)

Gráfico 9: O Brasil necessita de
Reforma Agrária? - Ensino Médio

3%

Gráfico 10: O Brasil necessita de
Reforma Agrária? - Ensino
Fundamental
14%

14%

Sim

Sim

Não

Não

Branco

86%

83%

Alunos
110
19
4

%
83
14
3

Alunos
97
16

%
86
14

Assim como visto nas respostas anteriores, a reforma agrária carrega consigo
várias dimensões; uma delas gira em torno dos "verbos" em que os camponeses
envolvidos na luta pela terra são nomeados pela mídia, e também pelos latifundiários.
Nos gráficos 11 e 12, podemos analisar a respostas dos alunos, e, sobretudo pensar
nas possibilidades para dialogar tal questão em sala de aula8; o que perpassa pela
diferenciação entre invadir e ocupar.

Na maioria das vezes, a impressa usa a palavra invasão, em vez de
ocupação, para designar a entrada e o acampamento dos sem-terra
dentro de uma fazenda. É preciso que fique claro que a área ocupada
pelos sem-terra é sempre, por princípio, terra grilada, latifúndio por
exploração ou área devoluta. [...] Ocupar significa, simplesmente,
preencher um espaço vazio - no caso em questão, terras que não
cumprem sua função social ­ e fazer pressão social coletiva para a
aplicação da lei e a desapropriação. (MORISSAWA, 2001, p.132; grifo
do autor)
8 Como atividade complementar aos debates, assistimos ao documentário: O Pontal do Paranapanema de Chico
Guariba (2005).

O ensino de Geografia Agrária: para além da sala de aula, pp. 1-20

11

A possibilidade na qual nos referimos também se deve as afirmações por parte
de alguns alunos, os quais atribuíram a televisão como fonte principal:

Porque os participantes do MST ocupam terras que não lhes
pertencem, ao invés de trabalhar e financiar um terreno ou um imóvel.
Sendo também que muitos possuem carros próprios. S. S. C. P. aluna
do 2º E

Por que o MST invadem ou ocupam terras que não são deles? C. A, M.
aluna do 2º E

Na questão 5 (sobre o uso do verbo invadir ou ocupar) eu usaria o
verbo INVADIR, porque é isso mesmo que o MST faz, pois entram de
forma violenta numa propriedade particular, ou seja, que tem dono. Se
essas terras são improdutivas, com trabalho ilegal e etc., alguma
autoridade tem que tomar partido e doar essas terras a quem realmente
saberá cuidar dela, e o MST não pode tomar atitude drástica assim!!!
S.F aluna do 3º A

As pessoas do movimento vivem em assentamentos ocupados e
quando eles perdem a briga e são despejados das terras para onde
vão? Moram nas ruas , sem abrigo? J. C. S aluna do 3ºA

Essas passagens nos revelam muitos dos "nós" dos trabalhos e práticas em sala
de aula e de pesquisas envolvendo a mídia e a reprodução do modo capitalista de
pensar como abordado por Martins (1982). As falas são de fundamental relevância,
uma vez que mostram as perspectivas do capital sobre a terra; o que propicia a
superação dessa lógica seja na reflexão de que,

Meu pai pode se transformar em um operário, mas um operário não
pode se transformar em um camponês. Isso é ideológico. Da mesma
forma que nós tivemos uma migração do campo para a cidade, para
construir o parque industrial brasileiro, hoje, que temos tantos
desempregados urbanos, por que não podem voltar para a terra e lá
viver sua vida dignamente? Mas essa visão urbanóide acha que é
retrocesso as pessoas voltarem para o campo, enquanto não é
retrocesso, é desenvolvimento. (FERNANDES, 2000, p. 23)

12

XIX ENGA, São Paulo, 2009

FERREIRA, G. H. C.

Ou mesmo, o entendimento de que o MST reivindica para além da terra; e que o
governo, não cumpre algumas funções que competem a si; daí os problemas vividos
nas cidades, que os exclui, seja na condição de Sem Terra, Sem Teto, entre tantos
adjetivos, que envolvem os "sujeitos sociais", portadores de uma história indissociável
no que tange a formação territorial do país.

Gráfico 11: Quais verbos usariam para
identificar as ações do MST?
Ensino Médio

Gráfico 12: Quais verbos usariam para
identificar as ações do MST?
Ensino Fundamental

32%

36%
Invadir

Invadir

Ocupar

Ocupar

64%
68%

Alunos
90
43

%
68
32

Alunos
51
29

%
64
36

Na penúltima questão proposta no questionário se refere aos produtos
orgânicos, agroecológicos ou naturais encontrados nas gôndolas dos supermercados.
Nos gráficos 12 e 13 podemos tecer o paralelo de que tais produtos estão presentes no
cotidiano dos alunos; todavia não exemplificaram se confiam ou não na origem dos
alimentos. Para nossa proposição, através da elaboração e execução dos trabalhos de
campos, essa lacuna se torna de grande relevância para aprofundarmos nessas idas e
vindas.

O ensino de Geografia Agrária: para além da sala de aula, pp. 1-20

Gráfico 12: Produtos orgânicos,
agroecológicos ou natural nos
supermercados?
Ensino Médio

13

Gráfico 13: Produtos orgânicos,
agroecológicos ou natural nos
supermercados?
Ensino Fundamental

37%
Sim

48%
52%

Sim

Não

Não
63%

Alunos
69
64

%
52
48

Alunos
71
41

%
74
26

Para analisarmos os gráficos 14 e 15, em que questionamos se os alunos
conheciam alguns movimentos socioterritoriais, além do próprio MST, apenas 34 % do
total (Ensino Médio e Fundamental) afirmaram que conheciam. Dessa maneira,
levamos para a sala de aula algumas tabelas organizadas a partir dos dados fornecidos
pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre o número de assassinatos no campo
entre 1997 a 2007 em que 412 mortes forma registradas. Em 2006, deparamos com a
seguinte situação:

[...]1.212 ocorrências relacionadas com a posse, uso, resistência e luta
pela terra, com um total de 39 assassinatos no ano de 2006,
evidenciando os conflitos com os que estão no campo e também com
relação aqueles que lutam pela reforma agrária. (FERREIRA, 2008, p.
10)

14

XIX ENGA, São Paulo, 2009

FERREIRA, G. H. C.

Gráfico 14: Movimentos
socioterritoriais conhecidos?
Ensino Médio

Gráfico 15: Movimentos
socioterritoriais conhecidos?
Ensino Fundamental
15%

19%

Sim

Sim

Não

Não

85%

81%

Alunos
108
25

No mapa 2,

%
81
19

Alunos
97
17

%
74
26

podemos ler a espacialização e territorialização dos principais

movimentos socioterritoriais pelo Brasil; o que nos ajudou a repensar nas
possibilidades do trabalhos de campo na RMC.

O ensino de Geografia Agrária: para além da sala de aula, pp. 1-20

15

Mapa 2. Brasil: Geografia dos Movimentos Socioterritoriais 2000 ­ 2007
Número de famílias em ocupações ­ Por municípios

MASSARETTO, 2008, p. 03.
A percepção apresentada nos gráficos e através de alguns relatos dos alunos, é
uma tentativa para que as reflexões em sala de aula possam ser lidas também na
realidade, até porque essas dimensões não podem ser entendidas separadamente, é a
dialética da vida e dos territórios.

16

XIX ENGA, São Paulo, 2009

FERREIRA, G. H. C.

Que "Campo" estamos tratando? agronegócio ou agricultura camponesa:
algumas conclusões

A apologia ao agronegócio, realizada pela mídia, pelas empresas e pelo
Estado, é uma forma de criar uma espécie de blindagem desse modelo,
procurando inviabilizar sua conflitualidade. O agronegócio procura
representar a imagem da produtividade, da geração de riquezas para o
país. (FERNANDES, 2004, p. 39; grifo do autor)

O campo do agronegócio - do capital vê a terra como negócio, enquanto a
agricultura camponesa ao se apossar da terra transforma-a em terra de trabalho, de
cultura, imersa numa outra ordem, a ordem moral camponesa; de vida e, sobretudo de
visão de mundo, não concebendo-o como mercadoria.
Oliveira (1991) analisando os elementos da produção camponesa, diz sobre dois
conjuntos. "Um primeiro ligado à presença e qualificação da força de trabalho e outro
ligado aos meios de produção, sobretudo à propriedade da terra." (OLIVEIRA, 1991, p.
54) ressaltando assim o trabalho familiar.
Nesse emaranhado, onde os projetos conflitantes estão em cena, juntamente ao
discurso das elites detentoras de grande parte dos meios de comunicações, nos
deparamos com insurreições pela conquista da terra, seja no campo ou nas cidades,
ela está presente para todos.
O Ensino de Geografia, em especial de Agrária, possibilita reflexões,
conceituações, desconceituações desse cotidiano camponês, assim como sua inserção
no capitalismo monopolista mundial. No mapa 3, propomos alguns trabalho de campo
na Região Metropolitana de Campinas (RMC), entendendo as contradições e os
diálogos com as demais disciplinas para realização dessas atividades.

O ensino de Geografia Agrária: para além da sala de aula, pp. 1-20

17

Mapa 3. Trabalho de Campo de Geografia Agrária na RMC

Como se trata de um trabalho em construção, estruturamos as atividades nos
pautando nesse encontro dos saberes, das realidades; em que a condição do outro,
também traduz na sua vivência cotidiana.

Sempre ouvi, nos acampamentos de Sem-Terra, os camponeses
acampados dizendo frases como eu prefiro morrer lutando por um
pedaço de terra, morrer dignamente, do que morrer como indigente nas
periferias da cidade. Portanto, a chegada à cidadania de grande parte
destes pobres passa pela Reforma Agrária. Mas, passa também por
uma proposta de Reforma Agrária que tem de ser assumida como
proposta de transformação desta sociedade, em busca de justiça,
dignidade e solidariedade. (OLIVEIRA, 2001, p. 205)

São dessas canções, enfrentamentos e conquistas que o campo brasileiro
continua sendo escrito e revisto; assim como nossas ações e práticas nas salas de
aulas, não distanciando tais dimensões na formação de educadores e educando ao
desvendar o mundo, como os pés na terra, extrapolando as "fronteiras" da sala de aula.

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FERREIRA, G. H. C.

Mais um desafio lançado, o pensar para além das cercas e privações. A música
composta por Zé Pinto relata os caminhos alternativos existentes nessa longa marcha.

Quando se envenena a terra
A chuva leva pro rio
Nossa poesia chora
Se a vida ta por um fio
E ela é pra ser vivida
Com o sonho arte e beleza
Caminhos alternativos
E alimentação na mesa

Caminhos Alternativos - Zé Pinto

O ensino de Geografia Agrária: para além da sala de aula, pp. 1-20

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