D I S C I P L I N A

Introdução à Ciência Geográfica

Geografia ratzeliana e seu contexto
Autores
Aldo Dantas
Tásia Hortêncio de Lima Medeiros

aula

09

Governo Federal
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Luiz Inácio Lula da Silva
Ministro da Educação
Fernando Haddad
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Apresentação

F

riedrich Ratzel (1844-1904) e sua obra foram de fundamental importância para o
processo de sistematização da Geografia moderna. Foi de sua autoria uma das pioneiras
formulações de um estudo geográfico especificamente dedicado à discussão dos
problemas humanos, o qual denominou de antropogeografia. Seu projeto teórico, com forte
caráter interdisciplinar, teve a preocupação central de entender: a difusão e distribuição dos
povos sobre a superfície da Terra; as diversas formas de circulação de pessoas e bens materiais;
a influência das condições naturais sobre o comportamento humano; as formações territoriais
e, intimamente vinculada a estas, a dimensão política da relação homem-natureza.

Objetivos
1

Entender em que contexto histórico se desenvolve o
pensamento ratzeliano.

2

Compreender a dimensão determinista da obra de Ratzel
para a sistematização da Geografia.

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Contexto histórico

A

pós o falecimento, em 1859, dos dois principais pioneiros da Geografia moderna,
Ritter e Humboldt, o desenvolvimento dos estudos geográficos acelerou-se, uma
vez que esses dois estudiosos colocaram, por assim dizer, a pedra fundamental para
a construção e evolução da Geografia como ciência. A seguir, estudaremos três aspectos
gerais do desenvolvimento dessa ciência: o contexto político-econômico; a Geografia como
ciência; e o ensino da Geografia.

Contexto político-econômico
Com o processo de expansão colonial, os conflitos entre populações nativas e o
elemento europeu são cada vez mais intensos e demandam intervenções. O domínio político
aparece como garantia de abertura real dos espaços ao comércio mundial e impõe o respeito
aos interesses ocidentais.
A independência da América espanhola e portuguesa reduz fortemente o domínio
ocidental sobre o mundo no século XIX. É nesse momento que surge o que os historiadores
chamam de novo imperialismo (diferente do colonialismo de povoamento e comércio que
floresceu entre os séculos XVI e XVIII) e que foi o resultado direto da industrialização.
Com isso, intensificam-se a atividade e a competição econômica, os europeus disputam
matérias-primas, mercados para seus produtos manufaturados e lugares onde investir seu
capital. Para tanto, os políticos e industriais vão entender que somente garantirão as suas
necessidades econômicas e de suas nações através da aquisição de territórios ultramarinos.
Mil oitocentos e sessenta é um ano que marca um novo avanço ultramarino dos europeus,
não mais apenas sob a égide de Portugal e Espanha.
Percebemos que no século XIX progride rapidamente a constituição de um espaço
econômico mundial influenciado pelo desenvolvimento da navegação a vapor, o que provoca
uma reviravolta na relação dos homens com as distâncias.


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A construção do Canal de Suez ­ ligando o mar Mediterrâneo ao mar Vermelho ­,
terminada em 1869, promove a aproximação entre a Europa, a Ásia Meridional e Oriental
e a Austrália; as estradas de ferro já haviam alterado o ordenamento espacial da Europa; a
primeira estrada de ferro transcontinental é inaugurada nos Estados Unidos em 1866. Como
já estudamos, a integração dos espaços continentais, após os oceânicos, intensificam-se no
século XIX e integram esses espaços às relações internacionais: as imensidões interiores da
Ásia e da África são finalmente integradas às redes mundiais de troca.
Em 1860, somente a Grã-Bretanha e os Países Baixos dispunham de verdadeiros
impérios colônias. Entretanto, no espaço de uma geração, França, Portugal, Bélgica e
Espanha dotam-se de colônias mais ou menos extensas. Por volta de 1900, o movimento se
alastra para outros países, como é o caso da Itália e Alemanha que procuram aumentar o seu
império ainda modesto. Um novo ator entra em cena, os Estados Unidos, e retira da Espanha
as suas possessões no Pacífico e nas Antilhas, o Japão começa sua expansão sobre Coréia
e China; e a Rússia anexa-se à Ásia Central.

A Geografia como ciência
Essas alterações provocam um re-ordenamento e uma necessidade cada vez maior
da formalização dos saberes geográficos. Veja que, inicialmente, as práticas comerciais
demandam conhecimento apenas das redes de portos, que permanecem em certa
estabilidade, relacionadas às áreas produtivas e aos mercados que encontravam de modo
geral, próximos ao litoral. As novas possibilidades de troca exigem outras formas de
organização. É nesse contexto que vamos assistir à substituição das casas de comércio
familiares por grandes firmas de exportação e importação que demandam cada vez mais
conhecimentos ligados à Geografia para a formação de seus agentes deslocados para regiões
remotas. É aí que as sociedades de Geografia comercial, marítima e colonial se multiplicam
e dão respostas a essas necessidades.
A História e a Geografia que eram as ciências que vinham abordando os fatos
humanos deixam de ser exclusivas nesse aspecto à medida que a Sociologia, a Etnologia, a
Antropologia e as Ciências Políticas vão surgindo. É o período também de desenvolvimento
da economia política.
Com o aparecimento de outras ciências no campo dos estudos humanos e sociais
os geógrafos são confrontados com o problema da delimitação face aos novos campos
científicos, os quais evidentemente não ignoram a dimensão espacial dos seus domínios.
Em 1859, Charles Darwin (1809-1882) publica o que seria o seu mais importante livro,
Origem das Espécies. Tal fato tem significado particular para a Geografia. A idéia de que os
seres vivos evoluem já estava formulada desde meados do século XVIII e início do século
XIX. Lamarck (1744-1829) será o primeiro a fazer uma sistematização dessa idéia concluindo
que o organismo se adapta ao meio onde está inserido e acaba por se modificar.
É durante a viagem de circum-navegação que realiza entre 1831 e 1836 a bordo
do famoso Beagle que Charles Darwin formula a sua teoria. Darwin se depara, nas ilhas
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Galápagos com uma flora e fauna muito ricas e que não se assemelham às dos espaços
continentais próximos. Para ele, essas diferenças explicam-se por meio da diferenciação
no lugar e a partir de uma origem comum longínqua, e o único fator que pode explicar as
diferenças das formas encontra-se no meio.
O evolucionismo darwinista leva à Geografia uma tarefa fundamental: a de identificar
a diferenciação das formas vivas. Lembre-se de que a idéia de que a Geografia deve ter
vocação explicativa e analisar os fenômenos em diversas escalas vem desde as obras de
Humboldt e Ritter. A explicação geográfica estaria na relação entre os fenômenos locais,
regionais e gerais e na relação do homem com o meio: o darwinismo é uma apelação ao
desenvolvimento de uma ciência das relações dos seres vivos com o ambiente.
Um outro nome que vai influenciar os estudos da Geografia nesse período (e continua
a influenciar ainda hoje vários ramos da ciência) é o do biólogo alemão Ernest Haeckel
(1834-1919) que propõe em 1866, em seu livro Morfologia Geral dos Organismos, o termo
ecologia para designar o novo campo de estudo: aquele que investigará as relações dos
seres vivos com o ambiente.

O ensino de Geografia
O interesse por conhecimentos geográficos úteis à vida comercial internacional nunca
havia sido tão grande como nas últimas três décadas do século XIX. Nesse mesmo período,
a engenharia política dos estados europeus apontava em direção aos nacionalismos e essa
tarefa recai, entre outros, sobre o ensino da Geografia na escola elementar, que teria a função
de dar aos cidadãos uma consciência clara sobre o espaço em que se desenvolve a sua
existência. Por outro lado, as elites tinham a necessidade de um bom conhecimento dos
mapas e das rotas do comércio.
Na França, por exemplo, após a derrota de 1870 (derrota da França frente à Prússia), é
confiado a Emile Levasseur um estudo (Relatório Levasseur) sobre as causas da inferioridade
dos oficiais franceses frente aos prussianos. Esse relatório conclui que a inferioridade
francesa recai no baixo nível dos oficias quanto ao conhecimento das línguas e da Geografia.
O relatório recomenda que seja feita uma reforma do ensino, particularmente do ensino de
Geografia. O essencial das recomendações desse relatório está presente, ainda hoje, nos
programas do ensino primário e secundário da França (nas próximas aulas vocês estudarão
como se deu o desenvolvimento da Geografia na França).
Nos outros países da Europa Ocidental ocorre o mesmo com o ensino da Geografia,
pouco tempo antes na Alemanha e um pouco mais tarde na Inglaterra.
Como estamos vendo, em todo o nosso curso, o contexto intelectual no qual se
desenvolve a Geografia modifica-se par e passo com as mudanças econômicas, políticas e
culturais. E você deve estar lembrado que à medida que o Capitalismo se desenvolve exige
mais racionalidade e respostas da ciência; é a fé na ciência e no progresso. Esse cientificismo
que vai se firmando tem também a ambição de abarcar as realidades sociais tal como fez
anteriormente com as realidades do mundo físico e biológico.


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Ratzel e a Antropogeografia

A

o longo do século XIX, a Geografia vai se desenvolver mais rapidamente na Alemanha
do que na Grã-Bretanha. Nesta, a Geografia permanece vinculada aos modelos
do século XVIII, no qual se privilegia a exploração das pesquisas históricas em
detrimento do estudo das relações que estabelecem entre os grupos humanos e os meios
em que vivem. Dessa forma, o impacto do evolucionismo de Darwin foi mais direto na
Alemanha que em sua pátria.
Friedrich Ratzel (1844-1904) é filho de uma modesta família do Sudoeste da Alemanha.
Na universidade, estuda Zoologia. Tem contato com o darwinismo através de Moritz Wagner
que introduziu as teses do cientista inglês na Alemanha e se distingue pelo papel que dava às
migrações para explicar a diferenciação das espécies. A primeira obra de Ratzel (Essência e
Destino do Mundo orgânico, 1869) é inspirada nesse mestre.
Ratzel participa ativamente, como militar, da guerra de 1870 contra a França e em
seguida a sua carreira toma novos rumos, mas sua ligação com a política e com a conquista
de território continua através das análises científicas que irá fazer criando mesmo um novo
ramo da Geografia, a Geopolítica.
Depois da guerra, Ratzel parte para os Estados Unidos, como jornalista, onde passa
vários anos. Nesse período, visita também o México. De volta à Alemanha, defende uma tese
sobre a imigração chinesa na Califórnia.
Ao doutor Ratzel é designada, em 1876, uma cátedra de Geografia na Universidade de
Munique. Em 1886, ele troca essa universidade pela Universidade de Leipzig, considerada
de maior prestígio.

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A concepção de Geografia de Ratzel tem forte influência das formulações de Humboldt
e Ritter, autores que estudou detidamente. Mas essa concepção é estruturada também sob
forte influência de Darwin.
Ratzel procura estabelecer leis gerais que rejam a influência do meio sobre os grupos
humanos, dedicando-se ao estudo das relações que se desenvolvem entre as sociedades e o
ambiente em que vivem, mas introduz uma outra idéia: o movimento é uma das características
centrais do mundo vivo, em especial do homem. Essa idéia leva-o a interessar-se pelos
fenômenos de circulação que as sociedades desenvolvem de um ponto da Terra a outro.
Veja no texto a seguir o que diz Antônio Carlos Robert de Moraes sobre a importância
da obra de Ratzel.

A obra de Friedrich Ratzel representou um papel fundamental no processo de
sistematização da geografia moderna. Ela contém a primeira proposta explícita
de um estudo geográfico especificamente dedicado à discussão dos problemas
humanos. Foi, assim, de sua autoria uma das pioneiras formulações ­ sem
dúvida a mais trabalhada ­ de uma geografia do homem. A importância de
sua obra também emerge por ela ter sido uma das originárias manifestações
do positivismo nesse campo do conhecimento científico. Ratzel foi um dos
introdutores desse método ­ que posteriormente se assentou como dominante
­ no âmbito do pensamento geográfico. O significado de sua produção para
o desenvolvimento da geografia pode ainda ser apontado no fato de ele ter
aclarado aquela que viria a ser a principal via de indagação dos geógrafos,
ou seja, a questão da relação entre a sociedade e as condições ambientais
(MORAES, 1990, p. 7).

Ratzel dividiu a Geografia em três grandes ramos: Geografia Física, Biogeografia e a
Antropogeografia. Vai dedicar seus estudos fundamentalmente a esta última.



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A Antropogeografia

P

ara Ratzel, a Antropogeografia seria dedicada a três questões básicas. A mais
fundamental seria aquela voltada para a indagação da influência que as condições
naturais exercem sobre os homens, sobre a sociedade e sobre a história. Para
ele, a diversidade das condições naturais deveria também ser considerada na explicação
para a diversidade dos povos
pois o substrato da humanidade seria a Terra, onde as sociedades se desenvolvem
em íntimo relacionamento com os elementos naturais. O estudo da ação de tais
elementos sobre a evolução das sociedades seria o objeto primordial da pesquisa
antropogeográfica. (MORAES, 1990, p. 9).

A segunda questão colocada por Ratzel para os estudos da Antropogeografia é relativa
à circulação e distribuição das sociedades humanas. Para ele, a localização dos grupos
humanos estaria relacionada à mobilidade de seu passado, assim sendo, os estudos
antropogeográficos deveriam se interessar em levantar dados sobre as áreas de origem de
cada povo e os seus itinerários. Esse procedimento de pesquisa deveria fornecer elementos
para se entender os condicionantes pretéritos, os quais migrariam com os povos.
A terceira questão de interesse da Antropogeografia deveria ser o estudo da formação
dos territórios.
Além de ser o fundador da moderna Geografia humana, ao introduzir esta terceira
questão, Ratzel será também o primeiro geógrafo a trazer para essa ciência a discussão sobre
os elementos políticos na relação entre o homem e a natureza, tratados anteriormente apenas
sob o ponto de vista técnico e econômico. Para ele, há na relação homem-natureza uma
dimensão política essencial que se expressa e se materializa na propriedade e no Estado.

Positivismo e Determinismo
na obra de Ratzel

V

ocê já deve ter lido ou ouvido alguém fazer relação entre o nome de Ratzel e o
Determinismo geográfico e/ou contrapondo este ao possibilismo de Vidal de la Blache
(assunto que estudaremos na próxima aula). Iremos, então, tentar entender o que é o
Determinismo e qual a ligação deste com a obra de Ratzel.
Como já vimos nas aulas 5 (Os tempos modernos), 6 (Espaço e modernidade), 7
(A institucionalização da Geografia) e 8 (A Geografia de Humboldt e Ritter), o período de
transição da Idade Média para a Moderna e a conseqüente consolidação do Capitalismo foi
um período de grandes transformações sociais, econômicas, políticas, espaciais, culturais
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e também de grandes mudanças nas ciências e nas formas de pensar o mundo. Vimos
ainda que as formas de pensar o mundo, originárias desse período, têm forte relação com
o desenvolvimento das Ciências Naturais, principalmente a partir dos estudos de Física de
Newton. Para este, o conhecimento deveria ser o resultado da observação, do cálculo e da
comparação dos resultados, de modo a permitir a elaboração de leis.
Essa idéia de que a ciência deveria ser positiva se espalhou para todos os ramos das
ciências, inclusive das chamadas ciências humanas e sociais, entre elas a Geografia.
Mas, é somente em meados do século XIX que surge o Positivismo. Embasado nas
elaborações de Auguste Comte (1791-1857), o Positivismo fundamenta-se no palpável,
no que é passível de comparação e de experimentação. Na concepção positivista, para se
alcançar o conhecimento, a observação é imprescindível.
O Determinismo geográfico tem suas raízes fincadas no Positivismo, principalmente em
sua fase evolucionista. Essa fase tem como base fundamental a teoria darwinista da evolução
das espécies, na qual o homem nada mais é que um ser dependente dos processos naturais.
O Determinismo considerava o homem com um produto do meio, logo, deveria adaptar-se
ao meio ambiente para que pudesse sobreviver. Para seus defensores, as condições naturais,
especialmente a climática, determinam o comportamento do homem, interferindo inclusive
na sua capacidade de progredir. Assim sendo, em áreas climáticas mais propícias (as zonas
climáticas temperadas) floresceriam povos mais desenvolvidos. Tais idéias foram adotadas
por alguns estudiosos da Geografia, e fora dela, que viam nelas a possibilidade de explicar a
sociedade através de mecanismos que ocorrem na natureza.
É comum, nos manuais e nas obras de vulgarização e/ou divulgação, a associação do
nome e da obra de Ratzel ao Determinismo geográfico. Como podemos ver nos trechos que
se seguem.
"Na geografia, no entanto, as idéias deterministas tiveram no geógrafo alemão
Frederic Ratzel seu grande organizador e divulgador, ainda que ele não tivesse
sido o expoente máximo" (CORRÊA, 1991, p. 9).
"Assim, dirá Ratzel, o homem, em todos os seus planos de existência, tanto
mental como civilizatória, é o que determina seu meio natural (teoria do
determinismo geográfico)" (MOREIRA, 1989, p. 32).
"A visão positivista de causalidade introduz um empobrecimento na formulação
ratzeliana que anula sua rica e complexa proposta de objeto. No equacionamento
da problemática das influências, frente à normatização mecanicista, as
condições naturais passam a ser vistas como lócus da determinação, como
elemento de causação a partir do qual a história humana se movimenta. A
sociedade passa a ser vista como elemento passivo, que apenas reage a uma
causalidade que lhe é exterior. O homem torna-se, assim, efeito do ambiente"
(MORAES, 1990, p.13).



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No entanto, hoje, existem vozes destoantes da idéia de que Ratzel possa ser vinculado,
de forma tão simplista e grosseira a um Positivismo cego e a um Determinismo absoluto.
Veja o texto a seguir.

Será que podem ser feitas afirmações tão peremptórias a respeito de Ratzel?
Afinal de contas, fala-se de um intelectual que, ao deparar-se com o problema
das condições geográficas e das conseqüências etnográficas das migrações,
constata: "Não podemos fugir das influências precisas de nosso ambiente,
principalmente das que atuam em nossos corpos; lembro as que se referem ao
clima e à oferta de alimentos. É sabido que também o espírito encontra-se sob
influência dos caracteres gerais do cenário que nos cerca. Mas, por outro lado,
o grau que essa influência desempenha vai depender, em grande medida, da
força da vontade que a ela resista. Podemos nos defender dela, contanto que o
queiramos. Um rio que, para um povo preguiçoso, constitui um limite para um
povo decidido pode não ser uma barreira [...] não há coação nem nenhuma lei
inflexível, mas sim amplos limites, dentro dos quais o homem consegue impor
a sua vontade e até mesmo seu despotismo. E é isto precisamente que tanto
dificulta todos os estudos sobre a relação entre história e ambiente natural,
a ponto de podermos falar apenas de gerais especificadas. Pois há um fator
nessa relação, nessa ligação, que não é precisamente calculável para cada caso
isolado, porque é livre; trata-se da vontade humana" (RATZEL, 1906, p. 36).
Citou-se apenas um exemplo, mas que deixa vislumbrar a acuidade de Ratzel
ao elaborar o problema, evitando as simplificações grosseiras que a memória
de geografia imputou-lhe. Como se vê, a sociedade, para Ratzel, não é um
elemento passivo. Dependendo das características de cada povo, a relação
homem-meio vai se dar de modo diferente; há casos em que o meio é realmente
determinante, mas há também casos em que o homem enfrenta e domina as
dificuldades que o meio lhe impõe, superando-as. Ratzel está preocupado em
entender os diversos casos, mas sabe da impossibilidade de se estabelecerem
leis gerais quando é o homem o objeto de interesse do conhecimento (MARTINS,
1992, p. 109).
Preste atenção também neste pequeno trecho de Las razas humanas, do
próprio Ratzel.
Quando um investigador, completamente encharcado pela teoria evolucionista,
encontra algum povo que, sob algumas ou muitas circunstâncias, se acha "atrás"
de seus semelhantes, converte involuntariamente este "atrás" e, "abaixo", quer
dizer em um degrau inferior da escada pela qual a humanidade subiu desde o
estado primitivo até o cume da civilização.

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Atividade 1
Releia esta aula e preste atenção aos elementos que envolvem a discussão sobre o
Determinismo geográfico; observe também o pequeno trecho que segue:

"Nós escrevemos no começo deste artigo que o determinismo estava no
coração da geografia. Estaríamos tentados agora em dizer que não pode haver
geografia sem determinismo e que isso deve estar presente constantemente no
espírito do geógrafo" (PINCHEMEL; PINCHEMEL, 1997, p. 225).

sua resposta

Agora, desenvolva as questões seguintes.

1

"Parece que o Determinismo é algo intrínseco à discussão geográfica".
Escreva algumas linhas argumentando a favor ou contra essa afirmativa.

2

Depois do exposto na aula, qual a sua avaliação sobre o Determinismo na
obra de Ratzel?

1.

2.

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Leituras complementares
CARVALHO, Marcos Bernardino de. Geografia e complexidade. In: SILVA, Aldo; GALENO,
Alex (Org.). Geografia ciência do complexus. Porto Alegre: Sulina, 2004.
Coletânea de textos inspirados no pensamento complexo de Edgard Morin e na idéia de
transdisciplinaridade, na qual a Geografia é o centro propulsor. O texto de Carvalho faz uma análise
profunda da obra de Ratzel e nos coloca frente a frente com disputas disciplinares ocorridas no
final do século XIX e começo do XX, o que, segundo ele, é um dos elementos explicativos para o
preconceito que se deu com relação à obra de Ratzel. É também desse período a pecha, imposta
ao criador da Antropogeografia, de determinista. O autor defende a tese de que, ao contrário
de determinista, Ratzel inaugura uma forma não disjuntiva de pensar o mundo. Encontraremos
ainda nesta coletânea textos sobre Vidal de la Blache, sobre Geografia e fenomenologia, Geografia
e poesia, Geografia e religião, Geografia e literatura, Geografia e cinema.
CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. São Paulo: Ática, 1991.
Neste livro, o autor discute dois conceitos fundamentais para a Geografia: região e
organização espacial. Ele o faz trazendo à tona a história da Geografia e as correntes de
pensamento que influenciaram esta ciência. No capítulo 2, faz uma boa discussão sobre a
idéia de determinismo geográfico. Livro de leitura introdutória e obrigatória para o estudante
de Geografia, pois além de trazer elementos para se compreender a história dela discute o
conceito de região a partir dessa história e introduz de maneira clara a idéia de organização
espacial, conceito fundamental para se entender a Geografia dos dias atuais.

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MARTINS, Luciana de Lima. Friedrich Ratzel hoje: a alteridade de uma geografia. Revista
Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, v. 54, n. 3, p. 105-113, jul./set. 1992.
Esse texto focaliza a obra de Ratzel a partir da uma reflexão crítica e faz uma revisão
do lugar que sua obra ocupa na memória da Geografia. Analisa a abrangência de temas
estudados por Ratzel e mostra quão redutoras são as leituras daqueles que relacionam
de forma simplista a obra desse pensador ao Determinismo geográfico e às estratégias
expansionistas da Alemanha.

Resumo
A aula contextualiza o período em que Ratzel, fundador da moderna Geografia
humana, vive, assim como a influência que sofreu do desenvolvimento das
ciências naturais, principalmente aquelas oriundas do evolucionismo darwinista.
Discute as relações entre as elaborações ratzelianas e o positivismo, bem como
a pecha de que seria ele o maior representante e elaborador do Determinismo
geográfico. Mostra ainda que não se pode de forma simplista acusar esse
pensador de se utilizar de um Determinismo absoluto.

Auto-avaliação
Leia o fragmento a seguir com bastante atenção e em seguida relacioneo ao contexto em que se desenvolveu a obra de Ratzel e a discussão sobre
o Determinismo. Após isso, elabore um pequeno texto colocando no centro
da discussão a seguinte idéia: Ratzel ­ pensador determinista. Você deverá
entender que existe uma relação entre realidade histórica social e intelectual e a
originalidade de cada pensador. No caso de Ratzel, ele é fruto de uma realidade
histórica (séculos XIV-XVIII), cultural e científico. Do ponto de vista histórico,
Ratzel assiste à consolidação do capitalismo e um novo momento de expansão
colonial econômica, além da formação dos impérios. Do ponto de vista científico,
é herdeiro de Humboldt e Ritter e de toda a tradição geográfica. Vai sofrer a
influência do evolucionismo de Darwin e do surgimento das ciências sociais.

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Os geógrafos não se contentam em estabelecer relações entre as condições
naturais e os fatos geográficos tal como o habitat. Eles procuram as influências
dos meios sobre as sociedades, seus comportamentos, seus caracteres,
seus níveis de desenvolvimento. Seguindo uma cadeia causal linear e em
curto-circuito com os relés intermediários, alguns geógrafos exprimiram
condensações deterministas confinadas ao absurdo: como a relação entre os
climas temperados e a densidade de telefones ou o clima quente e o grande
número de filhos de uma família.
A sólida formação histórica dos geógrafos franceses e seu espírito de observação
evitaram, na maior parte dos casos, a armadilha do Determinismo excessivo e
trouxe uma posição mais amena.
Paul Vidal de la Blache já havia assinalado as contingências das relações
homem-natureza. Seu mérito foi o de mostrar que não há Determinismo
absoluto, mas que a iniciativa fica com as sociedades humanas. Vidal insiste
sobre as múltiplas possibilidades de repostas dos homens às condições
impostas pelo meio. Esta insistência fez Lucien Febvre (historiador) considerá-lo
o teórico do Possibilismo.
O debate sobre o Determinismo e o Possibilismo fez a Geografia perder sua
unidade. Ele provocou a dicotomia Geografia física/ Geografia humana. Cada
um destes ramos se especializou num campo científico diferente: ciências
naturais e físico-química para a Geografia física e ciências sociais e econômicas
para a Geografia humana. Esta partição apenas reforçou as análises setoriais
dos estudos geográficos (PINCHEMEL; PINCHEMEL, 1997, p. 25-26).

Referências
CLAVAL, Paul. Histoire de la gèogaphie. Paris: PUF, 1995.
CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. São Paulo: Ática, 1991.
MARTINS, Luciana de Lima. Friedrich Ratzel hoje: a alteridade de uma geografia. Revista
Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, v. 54, n. 3, p. 105-113, jul./set. 1992.
MORAES, Antonio Carlos Robert. Geografia: pequena história crítica. São Paulo:
HUCITEC, 1983.

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13

______. Ratzel. São Paulo: Ática, 1990. (Coleção Grandes Cientistas Sociais).
MOREIRA, Ruy. O que é geografia. São Paulo: Brasiliense,1989.
PINCHEMEL, Philippe; PINCHEMEL, Geneviève. La face de la Terre. Paris: Armand Colin,
1997.
RATZEL, F. Las razas humanas. Barcelona: Montaner y Simon, 1906. v 1.

Anotações

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Anotações

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Introdução à Ciência Geográfica ­ GEOGRAFIA

Ementa
A construção do conhecimento geográfico. A institucionalização da geografia como ciência. As escolas do
pensamento geográfico. A relação sociedade/natureza na ciência geográfica. O pensamento geográfico e seu
reflexo no ensino. A geografia brasileira. Atividades práticas voltadas para a aplicação no ensino.

Autores
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Aldo Dantas

n

Tásia Hortêncio de Lima Medeiros

Aulas
01 O saber geográfico
02 A ação humana
03 A Geografia na Antiguidade
04 A Geografia na Idade Média
05 Os tempos modernos
06 Espaço e modernidade
07 A institucionalização da Geografia

09 A Geografia ratzeliana e seu contexto
10 A Geografia vidaliana e o seu contexto
11 A abordagem regional vidaliana
12 Os movimentos de renovação

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08 A Geografia de Humboldt e Ritter

14 O nascimento da Geografia científica no Brasil
15 Milton Santos: o filósofo da técnica

1º Semestre de 2008

13 A institucionalização da Geografia no Brasil