Currículo sem Fronteiras, v.6, n.1, pp.103-127, Jan/Jun 2006

GEOGRAFIA DA INFÂNCIA:
Territorialidades Infantis
Jader Janer Moreira Lopes
Universidade Federal Fluminense
Brasil

Tânia de Vasconcellos
Universidade Federal Fluminense
Brasil

Resumo
A partir de pesquisas construídas durante a nossa trajetória acadêmica, realizadas em diferentes
localidades brasileiras, atentou-se para as relações estabelecidas na interface das diferentes
infâncias, seus cotidianos e seus contextos espaciais. Nas fronteiras dessas temáticas é que tem
situado nossos trabalhos de investigação, dimensão que temos chamado de forma geral de
"Geografia da Infância". O termo se justifica, uma vez que as crianças, ao compartilharem a
realidade com as demais, irão estabelecer uma relação horizontal de identidade entre elas e criar
uma relação vertical de identificação com os adultos, constituindo concepções reais que
possibilitam a vivência da sua infância dentro da lógica de organização social do grupo. Esse texto
é um convite de dois pesquisadores para discutir sobre essa área de conhecimento intitulada
"Geografia da Infância". No presente artigo, procuramos mostrar a origem de tal tema e os
conceitos que dialogam em torno dele: de espaço, lugar, território, identidades e infância.
Palavras - Chave: infâncias, identidades, territórios.

Abstract
From the research built during our academic life, carried out in different Brazilian localities, we
have paid attention to the relations established in the interface of the distinct childhoods, their
routine and their spatial contexts. We have been situating our scholarship on the borders of these
themes, something we have been calling "Geography of Childhood". The term is justified, since
children, when sharing their reality among them, are going to establish a horizontal relation of
identity between them and they are going to build a vertical relation of identification with the
adults, constituting real conceptions that enable the experience of their childhood inside the logic
of social organization of the group. This article is an invitation of two researchers for a discussion
about the area of knowledge entitled "Geography of Childhood". In this paper we are going to
show the origin of such theme and the concepts around it: space, place, territory, identities and
childhood.
Key-Words: childhood, identities, territories.

ISSN 1645-1384 (online) www.curriculosemfronteiras.org

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JADER J. M. LOPES e TÂNIA DE VASCONCELLOS

Quem disse que eu mudei?
Mesmo que já a tinham demolido ­ o que importa?
A gente sempre continua morando na velha casa em que nasceu.

Mário Quintana

Introdução
Sentada em uma cadeira, a senhora magra, de cabelos brancos coloca um bebê no colo,
estica as duas pernas da criança e mostra para mãe as pernas desencontradas, cruza o braço
direito sobre o próprio corpo, dizendo baixo: "em nome do pai, do filho e do espírito santo,
amém", essas são as últimas palavras possíveis de serem ouvidas, as seguintes são
pronunciadas em voz muito baixa. Depois de um tempo, as pernas da criança são,
novamente, esticadas e estão do mesmo tamanho, encontrando uma com as outras, está
terminada a benzeção. A criança é devolvida à mãe que me diz: "Criança tem muito vento
virado, por isso trago para benzer, é bom toda semana". Perguntei o que era "vento virado"
e ela me respondeu: "É coisa de criança".
Essa descrição, coletada em uma comunidade da Zona da Mata de Minas Gerais, revela
o destino dessa menina que estava sendo benzida. Provavelmente, o mesmo das outras
crianças nessa localidade: viver a infância, até sua entrada no mundo adulto, a partir das
"coisas de crianças". Na proximidade da Zona da Mata mineira se encontram os municípios
do Noroeste Fluminense. Em cada uma dessas localidades esse destino se confirma ­ as
crianças atravessam a infância a partir dos limites entre as coisas de criança e o mundo
daqueles que já não mais serão assim chamados. De um universo a outro, no entanto, essas
marcas não são as mesmas. Investigando a produção da infância nessas localidades
cruzamos nossas trajetórias enquanto pesquisadores, nossas indagações e a busca por uma
demarcação teórica que pudesse reunir o que saltava de nossas observações em campo: a
estreita relação entre Infância e Lugar.
Nosso interesse estava em buscar compreender as condições sociais que produzem a
infância em cada localidade. Compreender como cada realidade elabora a sua idéia de
infância e quais são os traços e feixes que a constroem e a tornam válida. Em outras
palavras, compreender como cada grupo social, ao estabelecer relações entre seus membros
com o espaço que ocupa e com outros grupos e espaços diferenciados, estabelece um lugar
para suas crianças, construindo uma subjetividade infantil possível de ser aceita e vivida na
subjetividade coletiva do grupo, inclusive como categoria psicológica.
Esse trabalho tem, portanto, como objetivo, compreender a infância. Mas a "(...) a
infância (...) (como) um artefato social, não uma necessidade biológica (...)"1De uma
infância vivida não como se quer, mas como se pode. De uma infância "engatada" em sua
realidade, sem a qual não teria sentido, como relatou um habitante local ao falar das
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Geografia da Infância: Territorialidades Infantis

"coisas" do mundo:

Tem muitos que não compreendi o que que é o mundo, vivi nele mas não
compreendi o que qui ele é, tem muitos qui acha que i o mundo não tem
compreensão, mais tem, se acaba com o pasto, com u córrego, se muda o tempo
das águas, nois também acaba, tá tudo engatado2

Geografia da Infância: o tema emergindo do campo
Com a ajuda de um adulto, um grupo de quatro meninos acabava de amarrar o crânio
seco de uma vaca com seus grandes chifres em uma estrutura de bambu. O passo seguinte
foi de cobrir tudo com um grande pano colorido e velho, onde havia um buraco no meio,
para que uma daquelas crianças pudesse entrar.
Estava pronta a "vaca de mulambo", como é chamado esse artefato que, acompanhado
dos "palhaços" (outras crianças vestidas com roupas velhas, muitas vezes rasgadas, com
máscaras de diversos tipos, geralmente de pés descalços e com longos pedaços de madeira,
lembrando cajados, nas mãos) desfilavam pelas ruas assustando as demais crianças,
sobretudo as menores, no carnaval da comunidade. Um evento que ainda mantém traços
das típicas festas do interior mineiro, com a presença de pequenos blocos caracterizados e
que traz marcas específicas da localidade, onde a presença das crianças é algo marcante.
Localizada no sudeste de estado de Minas Gerais, a região conhecida por Zona da
Mata, apresenta características naturais já descritas por viajantes que por aqui passaram no
final do século XIX, como as palavras do geógrafo inglês Richard Burton (1998, p.26):

Prosseguindo viagem, encontramos subidas íngremes e um morro empinado,
coberto de brincos-de-princesa ostentando lindos lírios, plantas parasitas e uma
profusão de maracujás ou flores-da-paixão, nativas, um dos presente do Novo ao
Velho Mundo. Muito abaixo de nós, o Paraibuna disputava, burburindo , um
lugar ao sol em seu leito. Casas e plantações tornaram-se mais freqüentes(...)

Sua descrição apresenta não só traços da vegetação que deu nome à região, mas
também outras características de seus aspectos físicos que, no decorrer dos séculos,
sofreram grandes modificações, o que levou Valverde3, em 1958, a afirmar que "(...) uma
das características atuais da paisagem da Zona da Mata é a falta de matas. Por toda parte, o
homem substituiu o manto escuro das florestas pelo pasto claro e aveludado do capim
gordura. A floresta não serve nem mais para distinguir a Zona da Mata de qualquer das
regiões vizinhas."(1958, p.5-6)
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JADER J. M. LOPES e TÂNIA DE VASCONCELLOS

Essas alterações têm início com a abertura do chamado "Caminho Novo", rota pela
qual deveria escoar o ouro trazido das cidades do interior mineiro para a litoral. Antes de
sua abertura, o deslocamento seguia as trilhas traçadas pelos bandeirantes, o que dificultava
a viagem e a tornava longa, em média gastava-se 100 dias para a chegada até o porto. O
novo percurso reduziu o tempo do deslocamento para 25 dias e permitiu um maior fluxo de
mercadorias e de pessoas. Segundo Lessa (1985, p.16), a nova rota poderia ser assim
descrita:

(...) saindo da Borda do Campo, atravessava a Mantiqueira na garganta de João
Aires, passava em João Gomes, Chapéu D'Uvas, Juiz de Fora, Matias Barbosa,
Simão Pereira, Serraria, Entre Rios, Barra do Piraí, descia a Serra do Mar,
Macacos, Inhaúma, Penha e Rio de Janeiro.

Além de reduzir o tempo gasto no trajeto, a
abertura desse caminho trouxe grande desenvolvimento para a região da Zona da
Mata Mineira e para os locais por onde passava em Minas Gerais. Em suas
margens, surgiram pequenos povoados com hospedarias e armazéns, sustentados
pelo deslocamento das tropas, e postos de fiscalização do ouro. (Lopes &
Valente, 2000, p.19-20)

Essa origem comum fez com que a maior parte dos núcleos urbanos apresentassem um
traçado similar. E naquelas áreas onde a alteração foi pequena, a organização espacial ainda
lembra o início dos núcleos implantados pelos portugueses e que se tornaram característicos
em nossas primeiras vilas4. Esse é o caso da comunidade referenciada na abertura desse
texto.
O local é formado

(...) por poucas ruas. Uma rua principal corta toda a região e delas partem de
forma perpendicular outras, que são cortadas, por sua vez, por ruas paralelas.(...)
No centro da comunidade encontram-se a praça principal, a igreja, os botequins
(como são denominados pelos moradores as vendas onde se pode encontrar de
tudo, desde a mortadela pendurada na parede até alguns remédios mais comuns),
os maiores casarões e a escola." (Lopes, 1998, p.80-1.)

E é nessa praça que foram encontradas as crianças vivenciando diversas brincadeiras.
Entre as mais comuns destacam-se os diferentes tipos de piques: o pique-pega, pique-ajuda,
pique cola; jogar queimada, jogar "beti", jogar bola ("bater pelada"), correr na grama, andar
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Geografia da Infância: Territorialidades Infantis

de bicicleta, jogar bola de gude e outros.
Os "piques" partem todos do mesmo princípio: uma das crianças está com o "pique",
que deverá perseguir as demais que fogem, o que varia é a partir do momento em que uma
foi "pega" (tocada pelo perseguidor). No pique-pega, a que foi tocada passará a ser o
perseguidor; no pique-ajuda: a criança tocada deverá ajudar a "pegar" as demais, até atingir
todos; no pique-cola: a criança tocada deve ficar parada até ser libertada por outra, que está
livre.
A queimada é um outro jogo tradicional. As crianças riscam uma linha dividindo uma
porção do espaço ao meio, criando dois campos opostos. Distribuem-se igualmente em
números pelos dois lados. Com uma bola devem "queimar" as demais, o que significa
lançar a bola com força no adversário do outro campo para que ela bata em alguém e caia
no chão. Se a pessoa tocada consegue segurar a bola, ela não foi queimada. As crianças
queimadas são deslocadas para o final do campo do adversário, de onde só sairão se
conseguirem queimar alguém. O jogo termina quando um time consegue queimar todos os
adversários.
Um outro jogo curioso é chamado de "beti". É jogado por quatro crianças. Montam-se
duas "casinhas" (três pequenos gravetos que são colocados em forma piramidal para
ficarem em pé), uma oposta à outra, separadas por uma distância de aproximadamente 3 a 4
metros. Uma criança posiciona-se na frente da casinha com um bastão e a outra atrás, a
mesma composição ocorre no lado oposto. As crianças que estão atrás das casinhas têm por
objetivo lançar uma bola (geralmente feita de meia e um pouco maior que uma bola de
baiseball) e derrubar a "casinha" oposta a ela; a outra dupla deve protegê-las com os
bastões.
No imaginário local infantil já estão presentes marcas de personagens difundidos pela
televisão; em várias observações pode-se perceber falas ocorridas durante as brincadeiras
que faziam menções a figuras que estavam em destaque no momento, diálogos como: "Eu
sou o ...;" ou ainda "A minha força é de..."5 referindo-se a situações presentes em desenhos
ou filmes.
Não há um tempo pré-determinado para essas brincadeiras, é o cansaço ou a "hora de
entrar" (definida por um adulto) para o banho, almoço, café, jantar ou hora de dormir,
colocando fim nas brincadeiras. Além disso todas essas atividades são vividas sem marcar
diferenças econômicas, constituindo o que Fernandes (1979. p.159) denominou de
"trocinhas", que são agrupamentos condicionados pelo desejo de brincar e têm como
condição básica para sua formação a vizinhança.
Dessa forma, misturam-se na praça central meninos e meninas de diversos estratos
sociais, repetindo-se em uma escala menor uma não diferenciação que também está
presente na organização espacial da comunidade, bem distante do zoneamento típico das
áreas urbanas (cujas fatias do espaço se destinam a diferentes funções e criam zonas
implícita e explicitamente demarcadas).
A praça tem um valor significativo para os habitantes locais; é onde ocorrem os
principais eventos, entre eles a festa anual dedicada à padroeira da comunidade ­ Nossa
Senhora da Assunção-, ocorrem aí.
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JADER J. M. LOPES e TÂNIA DE VASCONCELLOS

Esse valor é compartilhado pelas crianças. Em seus desenhos a praça aparece com
grande freqüência. Essa freqüência se repete também nas suas respostas sobre qual o
melhor lugar da comunidade. E quando perguntadas por que ser a praça, a resposta é clara:
"porque é lugar de brincar".
Deve-se, entretanto, acrescentar que a vivência da infância não se restringe somente a
brincadeiras ocorridas na praça. Existem outros espaços que lhes são destinados nos
movimentos cotidianos, tais como participar da "coroação" de Nossa Senhora da Assunção,
acompanhar os "mais velhos" nas procissões, ajudar a roubar prendas para "malhar" o
Judas no domingo de Páscoa, ir buscar leite na sexta-feira da Paixão de Cristo, comer as
tradicionais quitandas preparadas geralmente no Domingo, nos fornos a lenha, entre
outros6. São ritos que iniciam os pequenos moradores locais no contexto cultural daquele
grupo, o que se pode perceber numa observação mais detalhada de cada evento.
O envolvimento das crianças em situações de religiosidade se faz presente também na
prática das benzeções. Existem várias enfermidades que as afligem e que só podem ser
curadas com as rezas emanadas de pessoas que têm um papel demarcado na comunidade: as
benzedeiras. Estudos desenvolvidos por Gomes&Pereira (1989) em Minas Gerais, sobre a
benzeção, demonstraram que essa é uma prática desenvolvida sobretudo por mulheres: "A
presença da mulher é marcante no mundo da crendice e é ela, numa maioria quase absoluta,
quem conhece o segredo das palavras e dos gestos capazes de exorcizarem o mal". (p.16)
Segundo os autores essa parece ser uma influência portuguesa, já que registros na Península
Ibérica apontam para tal: "Em algumas fórmulas de benzer estudadas na Península Ibérica
ocorria freqüentemente a presença da frase, inicial ou final: `Eu sou a mulher, a benzedeira'
­ o que denota a força do elemento feminino registrada nas palavras santas" (ibidem).
Na comunidade encontramos, além de duas senhoras que benzem, também um senhor.
Os três partilham a concepção de que o ato de benzer "é uma linguagem oro-gestual com a
qual algumas pessoas ­detentoras de poder especial - controlam as forças que contrariam a
vida harmoniosa do homem (...) é garantir o funcionamento da normalidade desejada e
conter o mal". (Ibidem, 1989, p.22 )
As situações mais comuns que atingem as crianças são o "vento virado" (ou ventre
virado) e o quebrante (ou quebranto). A primeira é reconhecida quando a criança cai muito,
quando não está comendo adequadamente, quando está com o "intestino atrapalhado"7,
Martins (1986, p.225) afirma que é uma "doença de neném, causada por susto. Manifestase em diarréia e encurtamento de uma perna". A segunda, quando está "enjoada, birrenta"
(Nota de campo 2002), com suas rotinas cotidianas alteradas, ocorre porque alguém
"colocou um olho ruim sobre a criança" (Nota de campo 2002), que pode ser uma pessoa
desconhecida ou algum parente, até mesmo os pais, quanto maior o grau de parentesco, pior
é o quebrante. Embora estejam associados na visão dos habitantes locais, Cascudo (1984,
Páginas 486-7 e 647, respectivamente) faz uma diferença entre o quebrante e o mau-olhado:

Quebranto: os velhos dicionários portugueses registraram como desfalecimento,
prostração, quebramento de corpo, mas no Brasil implica sempre a influência

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Geografia da Infância: Territorialidades Infantis

exterior maléfica do feitiço, do mau-olhado.É o feitiço por fascinação, à
distancia, sem a coisa-feita, o ebó intermediário, a muamba ou mandinga.
Mau-Olhado: Os olhos exercem essa fascinação, registrada nos livros clássicos,
de tal modo que as pessoas da Ilíeia, podiam matar, estando irritadas, olhando
fixamente. É o mau olhado, malocchio, evil eye, bose Blinck, mal de ojo,
fascínio, olho grande, etc., são outros tantos sinônimos.

A solução é levar a criança para benzer, e para que a "reza dê resultado" é necessário
"ir três vezes" (Nota de campo 2002). As palavras são pronunciadas em tom muito baixo,
de forma sussurrada, o que nos impede de compreender o que é falado8; além disso, as
rezas são acompanhadas de muitos gestos, várias vezes faz-se o nome do pai sobre a
criança, e na mão geralmente um terço católico ou folhas de alguma planta. Segundo os
moradores locais são orações destinadas ao "anjo da guarda da criança", pois cada uma ao
nascer tem um anjo que lhe protege por toda vida (nota de campo, 2002).
A planta conhecida popularmente como arruda é a mais utilizada e tem na comunidade
tanto o poder de curar das enfermidades aqui descritas, quanto o de proteção contra "mau
olhado"; para se proteger, basta colocar um pequeno ramo atrás da orelha. Essa atitude está
presente em outras regiões de Minas Gerais, como já registrado por outras pesquisas:

Arruda (Ruta graveolens). Erva da família das rutáceas, de folhas verdeacinzentadas. É originária da Europa. Exala um odor forte, principalmente
quando se maceram suas folhas. Tem alto emprego na medicina popular, através
do uso de seus ramos para exorcizar a energia negativa do meio ambiente. É
comum a sua presença nos jardins e hortas do interior mineiro, para evitar que a
desgraça atinja a casa e seus habitantes. Nas benzeções o ramo de arruda é usado
para aspergir água no benzido, purificando-o através da derrota do mal (dor de
cabeça, cisco no olho, quebranto, mau-olhado). Segundo a crença popular, as
folhas do ramos usado para benzer emurchecem porque recebem o malefício que
estava no doente. (Gomes&Pereira, 1989, p.40)

Diferentemente da benzeção, existe também a simpatia. Enquanto a primeira é restrita
a algumas pessoas escolhidas na comunidade e ocorre de forma reservada, a segunda se
carateriza por ser

qualquer recurso material que pode ser usado pelas pessoas em geral, para evitar
o mal e alcançar o bem, mudando o curso dos acontecimentos. O valor da
benzeção reside exatamente na sua privacidade e no fato de transmitir-se entre
os escolhidos, sendo pois privilégio de um pequeno número de iniciados. As
simpatias não dependem da linguagem e são procedimentos a serem adotados

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JADER J. M. LOPES e TÂNIA DE VASCONCELLOS

para atingir um objetivo. É simpatia dar de beber água a uma criança na casca do
ovo da galinha para que ela venha falar. Não há necessidade de uma pessoa
especial ­intermediária entre o doente e as forças a serem vencidas-, de palavras
sagradas ou gestos mágicos.( Gomes&Pereira, 1989, p.22)

As simpatias geralmente estão associadas ao não desenvolvimento global esperado
para cada etapa de vida das crianças, em enfermidades que se repetem ou ainda em
situações que alterem a rotina infantil. Para cada caso temos um tipo de simpatia:

Situação
bebês com soluço

Crianças que não falam no tempo
esperado (a partir de 12 meses de idade)

Simpatia
Colocar um pequeno pedaço de papel ou fiapo de coberta
molhado em saliva da própria mãe em sua testa e o soluço
passará
- Tomar a água da primeira chuva de janeiro.
- Tomar água na sineta (chamada por alguns de
campainha) da igreja.

- Pegar um ovo de uma galinha caipira, quebrar e servir
para a criança, e dar de beber, na casca do ovo água
durante três sextas-feiras seguidas.

Para criança que não anda ao primeiro
ano de vida

- Pegar uma rama de batata doce com a raiz, colocá-la no
chão e dar três pequenos cortes, repetir por três sextas-feiras
seguidas, na última plantar pela manhã ou ao meio dia,
nunca à tarde ou noite, conforme ela cresce a criança passa
a andar.

Para tirar medo de criança

Escolher três portas tomando a direção da rua, colocar a
criança em baixo do seu umbral, varrer em torno da criança
e dizer "que varre o medo da criança", repetir a mesma
situação nas duas últimas portas, até varrer o medo para a
rua.

Para acabar com coqueluche

Na sexta-feira Santa fazer um cordão com talo de mamona e
colocar no pescoço da criança; à medida que secam os talos,
acaba a coqueluche, depois deve-se enterrá-los.

Como essas observações de campo apontam, as condições materiais e simbólicas de
produção de existência das crianças são bastante diferenciadas. Não podemos falar da
existência de uma única cultura própria das crianças, mas sim de culturas infantis,
caracterizando desse modo a pluralidade que lhes é inerente. Essa pluralidade se estabelece
no entrelaçamento da produção da infância e da produção do lugar. Toda criança é criança
de um lugar. Do mesmo modo, toda criança é criança em algum lugar. Ou seja, existe na
produção das culturas infantis uma ancoragem territorial que não apenas emoldura o
contexto no qual se edifica a infância, mas, para além disso, oferece o próprio substrato
material a produção da existência. Esse processo faz emergir junto à idéia de culturas
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Geografia da Infância: Territorialidades Infantis

infantis a existência de territorialidades infantis que são a base da produção dessa cultura.
As crianças, ao compartilharem essa realidade com as demais, irão estabelecer uma
relação horizontal de identidade entre elas e criar uma relação vertical de identificação com
os adultos, constituindo concepções reais que possibilitam a vivência da sua infância não
como se quer, mas como se pode dentro da lógica de organização social do grupo.
O sentido de infância é atravessado, dessa forma, pelas dimensões do espaço e do
tempo que, ao se agregarem com o grupo social, produzem diferentes arranjos culturais e
diferentes formas de ser criança, traços simbólicos carregados por toda vida.
O tornar-se criança em um determinado grupo social faz parte do processo de
endoculturação9, e muitas vezes precede o próprio momento do nascimento, já que a
fecundação, a gestação e o parto são recobertos de simbolismo e variam de grupo para
grupo, como pode ser percebido nas colocações de Del Priori (1999) relativas a preparação
para o parto de bebês, no Brasil Colônia e Império:
Vigiada por uma imagem de Nossa Senhora do Ó ou do Bom Parto, agachada ou
sentada, a mulher esperava os sinais do parto. Familiarizadas com as manobras
para facilitá-lo, as comadres ou "aparadeiras" encarregavam-se da lubrificação
das partes genitais, untando-as com gordura animal, óleo de açucenas ou azeite.
Entre goles de cachaça e de caldos de galinha com canela, a parturiente era
confortada devendo-se mostrar "rija e varonil" para enfrentar as dores que se
seguiram. O ventre dilatado pela gravidez, cobria-se de relíquias e cordões
coloridos, capazes (...) de assegurar um parto tranqüilo. No joelho esquerdo da
parturiente era amarrada uma pedra chamada de "mombaza", encontrada em
Minas Gerais, cuja função mágico-religiosa era a de atrair a criança para fora da
barriga da mãe. Preces endereçadas a são Mamede, são Francisco e santa
Margarida eram murmuradas, baixinho, a fim de afugentar qualquer perigo que
pusesse em risco a vida do nascituro. Mastigar cebolas ou atar na coxa direita o
fígado cru de galinha récem-abatida eram gestos recomendados para combater a
dor do parto." (p.85-6)

Estendendo as palavras da autora (ibidem), podemos perceber que as variações
culturais no tratamento dado ao ser criança se singularizam também tão logo essas deixam
o útero protegido da mãe para se colocar em contato com um ambiente novo:

Os primeiros cuidados com o recém-nascido eram ancilares. Seu corpinho
molengo era banhado em líquidos espirituosos, como vinho ou cachaça, limpo
com manteiga e outras substancias oleaginosas e firmemente enfaixado. A
cabeça era moldada e o umbigo recebia óleo de rícino misturado a pimenta com
fins de cicatrização. Coroando os primeiros cuidados, era fundamental o uso da
estopada: "cataplasma confeccionado com a mistura de um ovo com vinho",
aplicado a uma estopa que por sua vez era presa por um lencinho a cabecinha do

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JADER J. M. LOPES e TÂNIA DE VASCONCELLOS

pequeno para "fortificá-la". As mães indígenas preferiam banhar-se no rio com
seus rebentos. As africanas costumavam esmagar o narizinho de seus pequenos
dando-lhes uma forma que parecia mais estética. Os descendentes de nagôs eram
enrolados em panos embebidos numa infusão de folhas, já sorvida pela
parturiente. O umbigo recebia as mesmas folhas maceradas, e num rito de
iniciação ao mundo dos vivos, imergia-se a criança três vezes na água. (p.86)

Existe, portanto, uma estreita ligação entre a vivência da infância e o local onde ela
será vivida, pois cada grupo social não só elabora dimensões culturais que tornam possível
a emergência de uma subjetividade infantil relativa ao lugar, mas também designa
existência de locais no espaço físico que materializa essa condição.

Geografia da Infância: desenhando conceitos
Para Bosi (1996) "Começar pelas palavras talvez não seja coisa vã. As relações entre
os fenômenos deixam marcas no corpo da linguagem."10 Por isso, iniciamos esse capítulo
transcrevendo um conto:
"Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e
de leite para sua avó. Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo
aproximou-se e perguntou-lhe para onde se dirigia.
- Para a casa de vovó ­ ela respondeu.
- Por que caminho você vai, o dos alfinetes ou das agulhas?
- O das agulhas.
- Então o lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa.
Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa e cortou sua carne em fatias,
colocando tudo numa travessa. Depois vestiu sua roupa de dormir e ficou na
cama, à espera.
Pam, pam.
- Entre, querida.
- Olá, vovó. Trouxe para a senhora um pouco de pão e de leite.
- Sirva-se também de alguma coisa, minha querida. Há carne e vinho na copa.
A menina comeu o que lhe era oferecido e, enqunto o fazia, um gatinho
disse: "menina perdida! Comer e beber o sangue de sua avó!"
Então o lobo disse:
- Tire a roupa e deite-se na cama comigo.
- Onde ponho o avental?
- Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.
Para cada peça de roupa ­ corpete, saia, anágua e meia - a menina fazia a
mesma pergunta. E, cada vez, o lobo respondia:
- Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela.
Quando a menina se deitou na cama, disse:

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Geografia da Infância: Territorialidades Infantis

- Ah, vovó! Como você é peluda!
- É para me manter mais aquecida, querida.
- Ah, vovó! Que ombros largos você tem!
- É para carregar melhor a lenha, querida.
- Ah, vovó! Como são compridas as suas unhas!
- É para me coçar melhor, querida.
- Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!
- É para comer melhor você, querida.
E ele a devorou.11

A história acima deve ter figurado entre os camponeses franceses no antigo regime e,
segundo Darnton (1988), é a versão original de um clássico infantil moderno:
"Chapeuzinho Vermelho".
Tais histórias nos remetem à questão da infância na sociedade ocidental. Como o
próprio conto original nos mostra, quando comparado a sua versão moderna, ocorreram
modificações que o adaptaram para uma nova época, tornando-se passível de serem
contados nos salões aristocráticos em fins do século XVII. Histórias recolhidas da tradição
popular e alteradas por alguns escritores:

"Perrault, mestre do gênero, realmente recolheu seu material da tradição oral do
povo (sua principal fonte, provavelmente, era a babá de seu filho). Mas ele
retocou tudo, para atender ao gosto dos sofisticados freqüentadores dos salões,
précieuses e cortesãos aos quais ele endereçou a primeira versão publicada de
Mamãe Ganso, seu Conte de ma mère l'oye, de 1697."12

A literatura acadêmica considera essas adaptações de Charles Perrault o início dos
modernos contos de fadas e o estabelecimento de um paradigma que servirá de base para a
literatura infantil, mais tarde ampliada por transcrições organizadas na Alemanha pelos
irmãos Grimm, pelo dinamarquês Christian Andersen e outros.
A organização dos contos infantis passa a ser uma das linhas que tecidas com outras,
passam a sistematizarem a partir do século XVII, o sentido moderno de infância.
A obra clássica de Ariès (1981) veio demonstrar que a sociedade européia ocidental só
iria iniciar um processo de reconhecimento de suas crianças a partir do século XVI/XVII.
Na Idade Média e no início dos Tempos Modernos não podemos falar ainda de uma
particularização da criança, na sociedade, apenas de em um sentimento de "paparicação",
pois, assim que podiam dispensar o cuidado da mãe ou ama, ocorria o ingresso no mundo
adulto:
"A duração da infância era reduzida a seu período mais frágil, enquanto o
filhote do homem ainda não conseguia bastar-se; a criança, então, mal adquiria

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JADER J. M. LOPES e TÂNIA DE VASCONCELLOS

um desembaraço físico, era logo misturada aos adultos, e partilhava de seus
trabalhos e jogos. De criancinha pequena, ela se transformava imediatamente em
homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude(...)"13

Não havia trajes específicos, nem diversões diferenciadas; temas hoje, considerados
"proibidos" para as crianças, como sexo, não encontravam objeção; não havia também
preocupação com a marcação da idade; e a aprendizagem ocorria no próprio cotidiano. Na
verdade, "(...) ninguém pensava nelas como criaturas inocentes, nem na própria infância
como fase diferente da vida, claramente distinta da adolescência, da juventude e da fase
adulta por estilos especiais de vestir e de se comportar". (Darnton, 1988. p.47)
As mudanças sociais, econômicas, religiosas, políticas ocorridas ao final do século
XVII começam a criar o início da particularização da infância, que emerge junto com a
organização da sociedade burguesa, pautada nos ideais do liberalismo e com ela, a
reestruturação do espaço destinado para as crianças.
A convivência social que ocorria no espaço público cede lentamente lugar para ao
privado, acompanhada da reorganização da lógica espacial, que passa a se ordenar a partir
dos pressupostos criados pela nova ordem econômica e social. A necessidade de intimidade
e privacidade encontra na reorganização da família um caminho para o distanciamento da
coletividade. A partir da construção do mito do amor materno e paterno, a família torna-se
o lugar de afeição e de aprendizado entre pais e filhos e, portanto, o lugar primeiro para a
infância, o que segundo Ariès (1981, p.12) redesenhou a importância dada as crianças: "A
família começou então a se organizar em torno da criança e a lhe dar uma tal importância,
que a criança saiu de seu antigo anonimato, que se tornou impossível perdê-la ou substituíla sem uma enorme dor, que ela não pôde mais ser reproduzida muitas vezes, e que se
tornou necessário limitar seu número para melhor cuidar dela."
A escola passa a dividir com a família as responsabilidades sobre a infância recéminventada. A educação cotidiana, local até então de aprendizagem das crianças, cede lugar à
educação escolar, onde as crianças, vistas nessa nova ótica como seres "puros" e "frágeis",
serão preparadas para a "vida", para a entrada no mundo adulto:
"A despeito de muitas reticências e retardamentos, a criança foi separada dos
adultos e mantidas a distância numa espécie de quarentena, antes de ser solta no
mundo. Essa quarentena foi a escola, o colégio. Começou então um longo
processo de enclausuramento das crianças (como dos loucos, dos pobres e das
prostitutas) que se estenderia até nossos dias, e ao qual se dá o nome de
escolarização."14

Para Postman (1999) o reforço dessa separação ocorre com o surgimento da imprensa
com caracteres móveis, que irá estabelecer uma nova concepção de adulto, que irá excluir
as crianças e, assim, "tornou-se necessário encontrar um outro mundo que elas pudessem
114

Geografia da Infância: Territorialidades Infantis

habitar. Esse outro mundo veio a ser conhecido como infância." (p.34)
Esse autor (ibidem) reforça que as mudanças tecnológicas na área de comunicação
sempre apresentam efeitos e destaca três que ocorrem invariavelmente: "alteram as
estruturas dos interesses (as coisas que pensamos), o caráter dos símbolos (as coisas com
que pensamos) e a natureza da comunidade (a área em que os pensamentos se
desenvolvem)" (p.34). E é o que parece ter ocorrido com a imprensa e o aumento da
publicação de livros: a leitura individual, isolada e em silêncio, substitui o senso de
oralidade presente até então, quando os textos eram narrados em voz alta e ouvidos
coletivamente, contribuindo para o surgimento de um sentimento de privacidade. O
individualismo começa a se tornar, assim, "uma condição normal e aceitável" (pg.41), e o
mundo adulto se confunde com o mundo da tipografia15.
A rápida proliferação dos livros constrói um novo sentido para o ser adulto; em
contrapartida, cria-se a separação da infância, que estabelecia como limiar a possibilidade
de leitura:
"(...) no mundo medieval, nem os jovens nem os velhos sabiam ler e seu
interesse era o aqui e o agora, o `imediato e o local'(...). É por isso que não havia
necessidade da idéia de infância, porque todos compartilhavam o mesmo
ambiente (...). Mas, quando a prensa tipográfica fez a sua jogada, tornou-se
evidente que uma nova espécie de idade adulta tinha sido inventada. A partir daí
a idade adulta precisa ser conquistada. (...) E para isso, teriam de aprender a ler
(...)"16

Surge o desenvolvimento de conhecimentos específicos para a infância como o livro de
pediatria de Thomas Raynald, que rendeu sete edições antes de 1600 e foi publicado até
1676. Escritos sobre "como se comportar", como "a criança aprende", como "educar" e
outros organizam um aparato simbólico que constrói uma forma de ver e perceber a criança
a partir da ótica adulta. Além disso, o aparecimento das roupas infantis, a noção de idade, o
desenvolvimento de uma linguagem típica, os jogos infantis (cantigas de rodas, jogos de
rua), os brinquedos e a literatura especializada contribuem para a formação e a manutenção
dessa noção.
Ao final do século XIX, um novo feixe passa a interagir no ser infância: o da
cientificidade; os trabalhos de Sigmund Freud, de John Dewey, associados a outros no
século XX, como de Jean Piaget, ao consolidarem as bases para a psicologia do
desenvolvimento transformam a infância num conceito científico e universal, possível de
ser apreendido e pesquisado e, ao que parece, irrefutável.
O liberalismo nascente concretiza a noção de indivíduo e de identidade, de
peculiaridade dos sujeitos, de privacidade, condições necessárias para sua organização e
manutenção17.
A obra de Àries, reuniu em torno de si, pontos de vistas convergentes e divergentes.
Autores como Pollock (1990) e Eklkind(1986) levantam suposições em relação ao próprio
115

JADER J. M. LOPES e TÂNIA DE VASCONCELLOS

modelo de infância historicamente elaborado por ele. Trabalhando com documentos de
época, a primeira autora reconhece a diferenciação das crianças em relação aos adultos
como algo presente antes mesmo do século; a mesma noção é defendida pelo segundo que
encontrou em estudos da Bíblia e em textos gregos e romanos antigas referências especiais
para suas crianças. Sarmento & Pinto (1997, p.35) chegam a afirmar que mesmo uma
ausência de um sentimento de infância em séculos passados, não corresponde ao seu
negligenciamento, pois "uma coisa é a existência da idéia de infância e outra é a afeição
pelas crianças".
Ao analisar-mos o próprio sentido de infância construído a partir do século XVII,
podemos afirmar que esta é uma idéia apropriada por alguns como verdadeira, mas não
aplicáveis a todos, ou seja, a mesma noção de infância apresenta diferentes apropriações de
acordo com os interesses de quem a utiliza, e a sua pretensa universalidade só o é quando
necessária.
O que percebemos é que os feixes que definem o sentido de infância variam de acordo
com os interesses destinados pela sociedade às suas diferentes camadas sociais,
estabelecendo diferentes caminhos para a vida adulta.
Na Inglaterra do século XIX, por exemplo, não foi uma condição estendida aos filhos e
filhas dos operários, que eram utilizados nas fábricas e indústrias como mão de obra18.
As diferenciações sociais no trato à criança são fatos presentes na história da sociedade
ocidental. Na sociedade greco-romana, após o nascimento, as crianças eram confiadas a
uma nutriz, que ficava responsável entre outras coisas pela amamentação do filho, já que
raramente as mães o faziam. A nutriz dividia com um "pedagogo" ou "nutridor" a educação
das crianças, os quais funcionavam como uma "vice-família". (Veyne in Ariès et all, 1998.
p.28)
A educação tinha o intuito de "adornar o espiríto" (Ibidem, p.33), ensinava-se a
retórica, que era a matéria mais prestigiada. A idade dos doze anos representava o limite de
estudos para as mulheres que estavam preparadas para o casamento. Somente os meninos
abastados continuariam o estudo, cuja infância finalizava em torno dos 14 anos, quando as
vestes infantis eram trocadas pelas de um homem adulto e poderiam fazer o que dava
prazer a um jovem.
Essas condições destinavam-se aos filhos da classe alta, ou seja, aos que possuíam
terras e escravos, condição básica para ser cidadão nessas sociedades. As crianças filhas de
escravos e escravas eram consideradas propriedade particular do senhor, que tinha todo o
poder de decisão sobre seu destino, inclusive de permanecerem vivas ou não.
A escravidão por nascimento, o recolhimento de crianças abandonadas e sua
conseqüente condição escrava, associada à venda de crianças pelas camadas da população
pobre que, segundo Veyne (1998), entregavam seus filhos a traficantes, "ainda
`sanguinolentos', mal saídos do ventre da mãe", eram as principais fontes de "produção" de
um número elevado de escravos. Uma realidade incontestável, e que mantinha vigente a
ordem estabelecida.
A vida das crianças camponesas na Idade Média não escapava da relação senhorial que
pesava sobre as aldeias. O trabalho pesado de cultivo da terra estendia-se do amanhecer ao
116

Geografia da Infância: Territorialidades Infantis

anoitecer. A fome estava sempre presente e a escassa comida, geralmente reduzida a uma
papa de pão e água, misturada, eventualmente, com algum vegetal de plantio doméstico,
gerava uma condição de subnutrição constante. A baixa expectativa de vida, associada a
uma alta taxa de mortalidade infantil, mantinha um equilíbrio primitivo da população
absoluta. Segundo Darnton (1988, p.43), para "a maioria dos camponeses, a vida na aldeia
era uma luta pela sobrevivência, e sobrevivência significava manter-se acima da linha que
separava os pobres dos indigentes."
Em condições tão precárias, as crianças transformavam-se rapidamente em
trabalhadores, como forma de engrossar a força produtiva, tentando romper, assim, os
limites malthusianos. Em outras situações, eram vendidas ou "soltas" pelo mundo para
buscarem sua própria sobrevivência.
Além disso, uma leitura simplificada da obra de Áries pode nos levar à conclusão de
que foi na Europa que surgiu o primeiro sentimento de infância, porém as pesquisas
etnográficas demonstram que diversas comunidades, fora desse continente, já demarcavam
um lugar diferenciado dos adultos para suas crianças. Nunes ( 2002, p.65-6) ao abordar o
tal assunto, declara:

Já é possível (...) descortinar um vasto campo de debate, que carece de mais e
mais etnografia produzida dentro e fora do contexto europeu, urbano e
globalizado, de modo que favoreceu-se a análise comparativa. Afinal não
devemos querer que se repita um erro do passado, (...) que o conhecimento
construído sobre a infância seja apenas o das sociedades dominantes e que o
entendimento de todas as outras parta da aplicação desse modelo, sem o
questionar, perpetuando-se assim a hegemonia de um padrão de criança
ocidental e etnocêntrico.

Não podemos esquecer que o sentimento de infância começa a ser construído na
Europa, quando esse continente desvelava, pelas grandes navegações, a complexidade do
mundo e ampliava o contato com outras culturas. Talvez a própria construção social de
infância na Europa tenha sido fruto de uma relação de alteridade com outros povos.
A pretensa universalidade, pressuposta no pensamento de Ariés para o ser criança no
mundo ocidental, na verdade esconde uma variedade de dimensões de infância que variam
de localidade para localidade e constituem uma diversidade de marcas sociais.
Para Claval (1999, p.15) as crianças "assimilam conhecimentos, atitudes e valores
observando o que há à sua volta e imitando-os; as lições recebidas dos adultos destacam os
símbolos dos quais são portadores os lugares. A paisagem torna-se, assim, uma das matizes
da cultura".
Dessa forma, associando-se diferentes feixes culturais que estabelecem o que é ser
criança e incorporando o espaço como um deles, os diferentes grupos elaboram lugares
onde as crianças podem viver suas infâncias e construir suas territorialidades.
117

JADER J. M. LOPES e TÂNIA DE VASCONCELLOS

A apropriação de uma condição de ser criança, a partir de "um horizonte social de uma
época e de um grupo social determinado" (Bakthin, 1995), acopla-se à possibilidade de
concretização dessa condição em espaços físicos destinados para tal. Mesmo nas condições
(e contradições) expressas por Áries, a reorganização social que promoveu o
reconhecimento da infância, promoveu também um reordenar das espacialidades
tradicionais e originou áreas típicos para a infância nascente.
Redin (2000, p.15) explicita que existiu uma íntima associação entre a reestruturação
de novos grupos socialmente estabelecidos ­ como o modelo de família burguês - e a
constituição de novos espaços. Segundo o autor, pode-se afirmar que "a família atual
começou a se formar quando a sociedade perdeu a rua." Das famílias anteriores, que eram
verdadeiros espaços abertos de circulação entre diversas pessoas, chega-se a um modelo
fechado, onde o privado e o íntimo substituem o traços do comunitário. Para ele, o
"sentimento de família não se desenvolve quando a casa está muito aberta para o exterior
(...) A sociabilidade da rua, da praça, e dos outros lugares de encontro e convivência de
pessoas era incompatível com o tipo de família monolítica dos tempos modernos".
As crianças são, portanto, retiradas das ruas. Estas se tornam lugar privilegiado de
circulação e perdem seu papel de socialização para as famílias e para as novas instituições
que irão ocupar seu lugar, como a escola.
Casa e escola são os novos espaços que se erguem em oposição ao espaço externo, e as
crianças são encerradas nesses novos locais onde ocorrerá sua preparação para entrada no
mundo adulto.
O estabelecimento de espacialidades privadas e públicas e a organização de instituições
que passam a atuar sobre a infância têm, segundo alguns autores (Redin, 2000; Pollock,
1990 e outros), duplo sentido, pois nessa nova ordem "los niños perdieron tanto como
ganaron" (Pollock, 2000, p.32). Com a abertura "do espaço para criança no século XVII,
aconteceu também sua limitação: seu confinamento em escolas e colégios, expulsando-a da
vida social adulta." (Redin, 2000, p.20). Nesse sentido, proteção muitas vezes se confunde
com controle e liberdade de movimentos em espaços abertos somente com a presença de
um adulto.
A constituição de espaços destinados a um determinado grupo social nos aproxima da
dimensão de território, pois possibilita a construção de identidades culturais, que segundo
Hall (1996) pode ser compreendida "em termos de uma cultura partilhada, uma espécie de
`ser verdadeiro e uno' coletivo, oculto sob os muitos outros `seres' mais superficiais ou
artificialmente impostos, que pessoas com ancestralidade e história em comum
compartilham".
Os sujeitos presentes nesses espaços incorporariam essas dimensões e viveriam de
acordo com as redes de significado nelas tecidas, estando, portanto, "territorializados" a um
local concreto, com fronteiras delimitadas, pertencentes a diversos grupos sociais que se
diferenciariam a partir de suas extensões e com regras a serem seguidas.
Os processos de territorialização e de identidade estariam assim definidos como
"fortemente centrad(os), (a) um ponto de estável de referência, um tipo particular de
`etnicidade', localizada num lugar, numa história". (Escosteguy, 2001, p.143).
118

Geografia da Infância: Territorialidades Infantis

Como derivações dessas colocações, poderíamos afirmar que o mesmo ocorreria com
as crianças em seus diferentes contextos, pois para "além das diferenças individuais, as
crianças distribuem-se na estrutura social segundo a classe social, a etnia a que pertencem,
o género e a cultura" (Sarmento & Pinto,1997, p.22). Isso significa demarcações de
alteridades e a organização de fronteiras, constituindo limites entre diferenças, o que torna
possível o processo de territorialização e de identificação, constituindo suas identidades
locais, criando uma estreita relação entre identidade infantil e os territórios de infância
Porém, longe de parecer algo simples e estável, diferentes territórios podem se
amalgamar, se sobrepor, se cruzar, se diferenciar, revelando muitas vezes conflitos de
diversos grupos sociais em suas espacialidades e, implicitamente, o destino esperado para
seus diferentes sujeitos.
A personagem real descrita na cena urbana abaixo, por exemplo, distorce o sentido
tradicional da concepção de território com fronteiras legalmente delimitadas ao reconstruir
de forma simbólica os limites de sua área ocupada:

Uma mendiga que ocupava a praça onde atua o projeto Se Essa Rua Fosse
Minha, no Leblon, estabelecia `precisas' paredes que delimitavam sua área
doméstica do espaço circundante em que os meninos corriam. Um dos
pesquisadores foi por ela agredido sob a acusação de `branca azeda e
maconheira', por ter transpostos os invisíveis umbrais. Nesse espaço delimitado,
eram freqüentes os atritos entre a `moradora' e os meninos do plantão, que não
raro jogavam areia e detritos em seus aposentos, desfazendo, propositadamente,
sua constante limpeza. Ela, em contrapartida, multiplicava-se em impropérios,
brandindo uma velha vassoura, ao mesmo tempo arma e instrumento de
limpeza.19

Dessa forma, as interações que se estabelecem entre sujeitos e lugares não são uma
mera relação física, mas uma relação carregada de sentido e mediada pelos demais sujeitos
que o ocupam. Nesse sentido, na apropriação e constituição do território, mescla-se uma
dimensão simbólica, por onde perpassa a tensão entre a singularidade dos indivíduos que
nele habitam e os arranjos sociais da coletividade, e não somente uma racionalidade
cartesiana em sua apropriação.
Para Santos (2002, p.10) o território não deve ser compreendido apenas como um
"conjunto dos sistemas naturais e de sistemas de coisas superpostas", mas como "território
usado", o que ele compreende como sendo o "chão mais a identidade".
A dimensão territorial passa a abarcar diferentes interrelações marcadas pelo
significado real e afetivo que cada grupo confere e delimita em seu espaço de vivência que
pode ou não, coincidir com fronteiras oficialmente estabelecidas e em muitos casos,
conflitar com as mesmas.
Bakhtin (1988, 1992) afirma que o Homem só sente sua humanidade inserido num
certo contexto social. O nosso nascimento marca mais do que um nascimento no espaço119

JADER J. M. LOPES e TÂNIA DE VASCONCELLOS

tempo do planeta, ele é também um nascimento histórico. "O nascimento físico não é
suficiente para o ingresso na história. O animal também nasce fisicamente e não entra na
história. O homem precisa de um segundo nascimento: o nascimento social."(Freitas,
1994). Para ele os fundamentos da consciência são sociais. Ela é um fato sócio-ideológico,
que leva a uma forma de representação do real.
Partindo das idéias de Bakhtin, podemos inferir que toda criança nasce num certo
momento histórico, num certo grupo social, numa certa cultura. A criança tem contato com
a mãe, com o pai, com os irmãos, com outras crianças, com outros adultos, como afirma
Sarmento et alli (1999): as "primeiras relações que as crianças estabelecem acontecem
dentro da sua família e são cada vez mais alargadas em um ambiente exterior `a casa (...)"
(p.51). Isso significa dizer que não podemos entender o desenvolvimento como uma
simples maturação, mas como sendo socialmente construído no nosso contato com o outro.
Na apropriação do espaço pelas crianças está presente a tensão entre o singular e o coletivo,
pois essas

podem desenvolver sentimentos ambivalentes por certos lugares (...) que lhe
pertencem. Por exemplo, a cadeira de bebê é seu lugar mas também lhe dão de
comer coisas de que não gosta e está presa em sua cadeira. A criança vê seu
berço com ambivalência. O berço é seu aconhchegante pequeno mundo, mas
quase todas as noite vai para ele com relutância; precisa dormir mas tem medo
do escuro e de ficar sozinha.(p.51)

A fala acima de Tuan (1983) nos remete a lugares presentes no cotidiano das crianças
em suas fases iniciais de vida, e também nos remete à presença do outro que dialeticamente
ajuda a construir significados para esses espaços. "(...)lhes dão de comer", "(...) tem medo
do escuro e de ficar sozinha" são falas que nos remetem à presença de sujeitos que, mesmo
implícitos, se fazem presentes. O próprio Tuan (ibidem) afirma que, provavelmente, o
primeiro "objeto" permanente que um bebê reconhece não é na verdade um objeto, mas um
sujeito, uma outra pessoa, em suas próprias palavras:
"Os adultos são necessários, não somente para a sobrevivência biológica da
criança, mas também para desenvolver seu sentido de mundo objetivo. Uma
criança de poucas semanas já aprendeu a prestar atenção à presença de gente.
Ela começa a adquirir o sentido de distância e direção através da necessidade de
julgar onde possa estar o adulto. Ao final do primeiro mês, é capaz de seguir
com os olhos apenas um percepto distante - o rosto do adulto. Um bebê com
fome e chorando se acalma e abre a boca ou faz o movimento de sucção quando
vê aproximar-se um adulto." (p.26)

Vygotsky (1991) compartilha dessa perspectiva ao demonstrar que os seres humanos
120

Geografia da Infância: Territorialidades Infantis

apresentam uma relação mediada com o ambiente em que vivem, a partir da internalização
de signos de seu entorno que serão gradativamente arranjados em um sistema simbólico
interno. É dessa forma que vamos estruturando uma percepção e um conhecimento do
mundo, o que torna possível a nossa operação mental sobre ele. É a elaboração de
processos psicológicos superiores, típicos da espécie humana.
É nesse sentido que o espaço lentamente se transforma em lugar, pois "o significado de
espaço freqüentemente se funde com o lugar" (Tuan, 1980), porém são dimensões
diferenciadas. " `Espaço' é mais abstrato que `lugar'. O que começa como espaço
indiferenciado transforma-se em lugar `a medida que o conhecemos melhor e dotamos de
valor."(p.6). Tuan (1980) constrói, assim, a noção de Topofilia que "é o elo afetivo entre a
pessoa e o lugar ou ambiente físico"(p.5), algo tão bem expresso nas poesia de Cora
Coralina (1997, p.47-8-9 ):
Góias, minha cidade...
eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,
curtas,
indecisas,
saindo uma das outras
eu sou aquela menina feia da
ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

A noção espacial, como parte integrante dos sujeitos, é uma noção social, é uma
construção simbólica, constituída a partir do contexto cultural no qual se está inserido20.
Assim apresenta um caráter ideológico e semiótico, sem o qual não existirá para as pessoas,
corroborando dessa forma a construção de nossas subjetividades, como expressa Frago
(1993-4):

(...) El conocimiento de sí mismo, la historia interior, la memoria, em suma, es
un depósito de imágenes. De imágenes de espacios que, para nosotros, fueron
alguna vez, durante algún tiempo. Lugares en los que algo nuestro quedó, allí, y
que por tanto nos pertencen; que son ya nuestra historia. (...) Esta toma de
posesión del espacio vivido es un elemento determinante en lá conforación de la
personalidad y mentalidad de los individuos y de los grupos. (p.19)

Nessa perspectiva, ao longo de sua história, os grupos sociais fixam em determinado
espaços e os organizam, dão-lhes forma e também são formados por eles, por isso os
fragmentos espaciais constituídos por cada agrupamento de pessoas, imbricam num
conjunto de interações que fundem sujeitos e espaços e o transformam em lugar.
A criação dos lugares possibilita a estruturação de uma identidade individual, uma vez
121

JADER J. M. LOPES e TÂNIA DE VASCONCELLOS

que os objetos que compõem o espaço, sua organização, seus atributos passam a ter
significados diferentes para cada ser humano a partir de sua história de vida. Isso torna-se
possível pois os referenciais presentes no espaço físico fixam-se como materiais
importantes de identificação entre os sujeitos, constituindo-se como elementos de
formação, uma vez que "as relações do indivíduo com o espaço fazem parte dos primeiros
aprendizados culturais e não cessam de se desenvolver" (Claval, 1999, p.189). Todo espaço
é espaço de alguém. E ao lado dessa identidade individual há também a construção de uma
identidade coletiva, ao se estabelecerem os corredores isotópicos (Blikstein, 1993)
compartilhados por todos os sujeitos de um lugar, como está presente nas lembranças de
Graciliano Ramos (1945):

Desse antigo verão que me alterou a vida restam ligeiros traços apenas. E nem
deles posso afirmar que efetivamente me recorde. O hábito me leva a criar um
ambiente, imaginar fatos a que atribuo a realidade. Sem dúvida as árvores se
despojaram e enegreceram, o açude estancou, as porteiras dos currais se abriram,
inúteis. É sempre assim. (...) Certas coisas existem por derivação e associação;
repetem-se, impõem-se (...) Dificilmente pintaríamos um verão nordestino em
que os ramos não estivessem pretos e as cacimbas vazias. Reunimos elementos
considerados indispensáveis, jogamos com eles, e se desprezamos alguns, o
quadro parece incompleto. (p.40)

Esse processo de formação é na verdade um processo de interação dialética, onde a
presença do outro é constante, pois a "cultura é produto humano e produtora do humano. É
o ser humano que produz a cultura. É a cultura, no entanto, que possibilita a emergência do
humano". (Lara, 1996, p.29)21
Nessa perspectiva que pode-se marcar uma diferença entre infância e criança. A
infância seria a o lugar que cada grupo social destina para suas crianças. O lugar concebido
em todas as suas dimensões, com toda rede simbólica que o envolve. Torna-se possível
assim, falar em uma Geografia da Infância.
A busca de compreender quais os lugares ocupados nesse processo de interação da
criança com os demais sujeitos de seus entornos (que são representados tantos pelos
ocupantes do espaço imediato quantos pelos distantes, uma vez que essas realidades se
amalgam) é um dos esforços da geografia da infância. Porém, não esgota-se ai, pois a
tentativa desse desvelamento envolve conceitos fundamentais, como o de espaço, o de
território e o próprio conceito de lugar, ao qual se agrega o de cultura.
Dessa forma, a geografia da infância tem como questão básica a compreensão da
infância em seus diferentes contextos, ou seja como os arranjos sociais, culturais, produzem
as infâncias em seus diferentes espaços e tempos e como as crianças ao se apropriarem
dessas dimensões sociais, as reconfiguram, as reconstróem, e ao se criarem, criam suas
diferentes geografias.
122

Geografia da Infância: Territorialidades Infantis

Comentários finais
Na minha cidade, nos domingos de tarde, as pessoas se põem na sombra
com faca e laranjas. Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta, a
campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas: Eh bobagem!'Daqui a
muito progresso tecno-ilógico, quando for impossível detectar o Domingo
pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,em meu país de memória e
sentimento,basta fechar os olhos:é domingo, é domingo, é Domingo.

Adélia Prado

A partir do que foi exposto até então, gostaríamos de traçar alguns comentários finais.
Não são fechamentos, mas inquietações que se abrem a partir do exposto até aqui: a
interface das diferentes infâncias, seus cotidianos e contextos espaciais, o que para nós tem
justificado o termo "Geografia da Infância".
No mundo contemporâneo a infância figurada está sendo lentamente retocada e
definida a partir de novos traços que marcam o que é ser criança, convencionados pelo
mercado consumidor. O mesmo capital que construiu o sentido moderno de infância
burguesa está fazendo-a desaparecer. Diferente, portanto, da afirmação defendida por
alguns sobre o fim da infância, o que poderíamos afirmar é o fim de uma infância
constituída temporalmente e não o fim de uma posição social do ser criança, o que temos é
o estabelecimento de novos feixes, que consolidam uma nova infância. Uma infância com
uma perspectiva homogeneizadora, que privilegia o capital em detrimento do local, que
buscam reduzir suas geografias ao reduzirem duas diferenças culturais.
A Geografia da Infância nos convida a tirar proveito dessa condição dialética que
produz e é produzida por homens e mulheres ao criar sua realidade; e que, por isso, nos
possibilita fisgar suas contradições e construir possibilidades de mudanças.
Essa condição nos remete a lteridade, a uma alteridade relacional construída no contato
com o outro, vivida nas vozes e observações dos trabalhos de campo. Em coletas de
evidências possíveis pode-se construir uma nova história, podem-se criar vínculos de
resistência a esse processo pasteurizador: como as brincadeiras de crianças nas praças, as
histórias narradas nos portões das casas, nos longos almoços em família, em realidades
muitas vezes dissertadas nas lembranças de gente real. Em coisas da vida, presentes em nós
e que revelam um outro país, distante do mito global. São fragmentos reais frente às
metáforas e eufemismos neoliberais. Consolidam uma esperança que se mescla com
desejos. Desejo de construção de uma nova realidade, que
"(...) tem a ver com libertação. Libertação de um novo colonialismo que agora
invade as subjetividades, seqüestrando sua autonomia. Libertação de um
individualismo que obriga os sujeitos a viverem presos dentro de si sem a
possibilidade de construir-se com o outro, condenados a essa solidão que arrasa

123

JADER J. M. LOPES e TÂNIA DE VASCONCELLOS

o sujeito contemporâneo. Libertação das grande narrativas que a tudo querem
homogeneizar e não deixam lugar para a auto-construção e para a diferença."
(Pellanda in Maclaren, 2000. p.viii)

De uma esperança possibilite o "desenvolvimento de novas formas de subjetividade e
de linguagem que possam integrar-se às lutas sociais." (Maclaren, 2000, p.37). De uma
esperança, que possa permitir aos sujeitos, rememorar suas infâncias, viver seus lugares e
recordar, como na poesia seus "Domingos", enfim produzirem suas histórias e suas
geografias.

Notas
1

POSTMAN, 1999. p.157

2

Narrativa recolhida e transcrita em diário de campo em 1997.

3

Apesar do texto de Valverde ser de 1958, ainda é considerado um dos mais completos trabalhos sobre a Geografia da
Zona da Mata de Minas Gerais

4

SANTOS, 1998, afirma em relação a isso: "São Vicente, Salvador, Olinda...pedaços de Lisboa no trópico, concebidas
prontas. Os funcionários que vinham fundá-las traziam orientações estritas: Casa de Câmara aqui, igreja ali, adiante
fortaleza e colégio." p.39

5

Nota de campo, 2000.

6

A coroação de Nossa Senhora Assunção ocorre em dois momentos: no mês maio e na festa no mês de agosto. Os dias de
maio são destinados a Nossa Senhora, por isso no segundo domingo do mês ocorre uma coroação em homenagem às
mães, e no último domingo do mês uma específica para a Virgem Maria. Da coroação participam as crianças até
aproximadamente 08/09 anos de idade, a partir daí são substituídas pelas mais novas. As crianças se vestem de anjos,
entram em fila pela nave central da igreja entoando hinos a Nossa Senhora. A malhação do Judas ocorre no Domingo de
Páscoa. Trata-se de uma tradição que envolve as crianças, sobretudo na confecção dos bonecos "Judas". Na noite
anterior, as crianças também participam com os grupos que saem pela comunidade "roubando" utensílios nas
residências, os quais serão devolvidos no dia seguinte. As procissões são muito comuns na localidade, e ocorreram
sempre em homenagem a algum santo; delas participam as crianças rezando e cantando com os adultos. As principais
acontecem na Semana Santa ­ a mais tradicional é a Procissão do Enterro - e na Festa no mês de agosto, em homenagem
`a padroeira da comunidade Nossa Senhora da Assunção. O cortejo sai da igreja católica, localizada no centro da praça,
passa pelas ruas centrais e retornam para a mesma. O trajeto é marcado por muito silêncio de quem observa e muito
canto e rezas de quem dele participa. Na Sexta-Feira da Paixão, uma prática comum é a de "buscar leite". As fazendas
próximas à comunidade neste dia não podem vender a sua produção de leite por ser um dia santo. Todo o leite retirado é
doado às pessoas que porventura passarem por lá. Tornou-se uma rotina anual para os moradores se organizarem para
tal empreitada. Grupos de adultos, acompanhados de crianças, saem de madrugada e andam muitas vezes quilômetros
para chegar ao destino; nas mãos galões vazios que retornarão cheios. No deslocamento, muitas canções, brincadeiras e
histórias são contadas, mais do que uma necessidade o que vale é a tradição. No retorno, tudo que foi coletado será
convertido em doces. Neste dia, "tudo cheira doce de leite" e em "qualquer casa que você for te oferecem doce com o
leite da Sexta Feira Santa".(nota de campo, 2000)

7

Essa expressão coletada em campo ­ no meu retorno à comunidade em 2002 - é utilizada quando as funções intestinais
sofrem alguma alteração em sua regularidade.

8

Segundo as benzedeiras, as orações só podem ser entoadas no momento em que a criança está presente, dessa forma não
podem ser faladas aleatoriamente, o que dificultou o registro das mesmas. O livro já citado, de GOMES&PEREIRA,
registra várias orações coletadas em Minas Gerais. (ver bibliografia).

9

Estou chamando de endoculturação o processo de aprendizagem e de humanização dos sujeitos dentro dos grupos
sociais em que se inserem.

124

Geografia da Infância: Territorialidades Infantis

10

P.11

11

DARNTON, 1988, p.21-2

12

Ibidem, p.24

13

ARIÈS, 1981, p.10

14

Ariès, 1981, p.11

15

Essa idéia é partilhada por Huyssen (2000, pg. 36), que afirma: "As novas tecnologias de transporte e comunicação
sempre transformaram a percepção humana (...). Foi assim com a ferrovia e o telefone, com o rádio e o avião, e o
mesmo será verdade com o ciberespaço e o cibertempo."

16

POSTMAN, 1999, p.50

17

As concepções pedagógicas que passam a orientar a escola, então nascente, estabelecem suas bases nesses pressupostos.

18

Ao final do século XVII, a infância já estava concebida na Inglaterra, mas não para todos, como aparece no no relato de
Sarah Gooder, de apenas oito anos:"Sou encarregada de abrir e fechar as portas de ventilação na mina de Gauber, tenho
de fazer isso sem luz e estou assutada. Entro às quatro, e às vezes às três e meia da manhã, e saio às cinco e meia. Nunca
durmo. As vezes canto quando tenho luz, mas não no escuro: não ouso cantar." (Postman,1999. p.67)

19

Silva e Milito, 1995.

20

Tuan (1982) reconhece algumas aproximações entre as espécies no estabelecimento de pontos no espaço, como na
afirmação: "Qual é o papel da emoção e do pensamento na ligação ao lugar? Considerem o animal como movendo-se ao
longo de um caminho, parando de tempo em tempo. O animal pára por uma razão, usualmente para satisfazer uma
necessidade biológica importante - a necessidade de descansar, beber, comer ou acasalar. A localização da parada tornase para o animal um lugar, um centro de significância que ele pode defender de intrusos. Este modelo de comportamento
animal e sentimento de lugar é prontamente aplicável aos seres humanos. Nós paramos para atender a exigências
biológicas; cada pausa estabelece uma localização como sendo significativa, transformando-o em lugar." (p.149) Além
disso, reconhece que os sentidos são os primeiros fatores que atuam na interação com o ambiente físico: tato, olfato,
paladar, audição e visão são traços comuns, pertencentes a toda espécie humana.

21

Cultura está sendo compreendida aqui como uma teia de significados socialmente arranjados (Geertz,1989). Nessa ótica
podemos inferir "que são os Homens que constroem a cultura, mas ao mesmo tempo estão presos a ela. Assim, a cultura
é simultaneamente construto e construtora do ser humano; só podemos nos perceber, nos compreender enquanto uma
construção social, cultural, é ela que define nossa visão da realidade. (Lopes, 1998). Lara (1996) explicita claramente
essa visão ao utilizar um desenho para demonstrar o conceito de cultura:"Representava ele uma aranha, no centro da sua
teia.Não foi difícil, para as pessoas presentes, intuírem a possível relação entre o desenho e o assunto em discussão. A
teia simbolizava a cultura. A aranha tece a teia. Não há teia sem aranha. Mas a teia torna possível a vida da aranha.
condiciona seu modo de ser. Não lhe é possível existir, como aranha, a não ser situada em uma teia.A cultura também é,
de uma só vez e de maneira incindível, produto humano e produtora do humano. É o ser humano que produz a cultura. É
a cultura, no entanto, que possibilita a emergência do humano.

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Correspondência
Jader Janer Moreira Lopes, Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brasil.
E-mail: [email protected]
Fernanda Müller, Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brasil
E-mail: [email protected]

Texto publicado em Currículo sem Fronteiras com autorização dos autores.

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