CAMINHOS DE GEOGRAFIA - REVISTA ON LINE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA

INSTITUTO DE GEOGRAFIA

UFU

A GEOGRAFIA MÉDICA E AS DOENÇAS INFECTO-PARASITÁRIAS
Jureth Couto Lemos
Profa. Escola Técnica de Saúde - UFU

e-mail: [email protected]

Samuel do Carmo Lima
Prof. Instituto de Geografia - UFU

e-mail: [email protected]

ABSTRACT - Geography is a science that has as its objective the study of the earth surface,
the landscape, the individuality of places, the spaces, man and environment relations and
society, and nature relations. A different conception of Geography will be approached in this
study. It deals with medical Geography which has as its objective the study of the Geography
of diseases, in the light of the geographic knowledge, and the distribution and prevalence of
those diseases in the earth surface. Medical Geography started with Hippocrates - with
medicine history - when in 480 b.C the relation between environment agents and diseases had
been already shown. This theory prevailed for more than two thousand years concerning to
endemic and epidemic diseases. In the last decades of the nineteen century Medical
Geography underwent to a decline with the introduction of the unicausality theory, which
argued that once diseases specific etiologic agents were identified as well as their means of
transmission, the prevention problems and also the disease heeling would be solved. For that
reason works on Medical Geography were only published after 1900 although without much
importance. Unicausality theory had its crisis started between the 1930s and 1950s when the
concept of multicausality came back to the academy. According to the concept the disease is a
process that occurs because of severalcauses such as physical, chemical, biological,
environmental, social, economical psychological and cultural agents. For that reason
Medical Geography intends to understand the organization process of the geographic space
done by human society in the different times and places. The comprehension of this process is
very important as it allows us to understand the role of geographic space organization in the
genesis and in the disease distribution, so we can establish Health Environmental Vigilance
programs.
Key-word: Medical Geography, infector-parasite diseases, environmental, Geography of diseases

Várias são as definições de Geografia como, por

Mas neste estudo, pretende-se abordar uma

exemplo, o estudo da superfície terrestre, estudo

outra concepção de Geografia - a Geografia

da paisagem, estudo da individualidade dos

Médica, descrita por LACAZ (1972, p. 1):

lugares, estudo dos espaços, estudo das relações
entre o homem e o meio ou ainda, o estudo da
sociedade e a natureza (MORAES, 1999).
Caminhos de Geografia 3(6), jun/ 2002

"A Geografia Médica é a disciplina que estuda a
geografia das doenças, isto é, a patologia à luz dos
conhecimentos geográficos. Conhecida também
como Patologia geográfica, Geopatologia ou
página 74

A Geografia Médica e as doenças infecto-parasitárias

Medicina geográfica, ela se constitui em um ramo
da Geografia humana (Antropogeografia) ou,
então, da Biogeografia" LACAZ (1972, p. 1).

PESSÔA (1960, p. 1), ao definir

Geografia

Jureth Couto Lemos
Samuel do Carmo Lima

epidêmicas. Estes dois termos, ainda hoje são
utilizados pelos profissionais de saúde.
Para PESSÔA (1960), a Geografia Médica
sofreu um declínio a partir das últimas décadas

Médica ele diz:

do século XIX, quando Louis Pasteur realizou
"A Geografia Médica tem por fim o estudo da
distribuição e da prevalência das doenças na
superfície da terra, bem como de todas as
modificações que nelas possam advir por
influência dos mais variados fatores geográficos e
humanos" PESSÔA (1960, p. 1).

pesquisas sobre a etiologia das moléstias
infecciosas, atribuindo às doenças exclusivamente
à penetração e multiplicação de uma bactéria e
nada mais do que isto. Perdeu-se de vista o
conjunto das causas que atuam sobre o ser

LACAZ (1972) diz que a Geografia Médica
nasceu com Hipócrates e, portanto com a
própria

história

da

medicina,

quando

aproximadamente 480 a.C., publicou sua
famosa obra Dos ares, das águas e dos lugares.
Nesta época, ele já demonstrava a relação dos
fatores ambientais com o surgimento das
doenças. Segundo ROSEN (1994), nunca é
demais enaltecer essa obra, pois segundo ele,
este foi o primeiro esforço sistemático para
apresentar as relações causais entre fatores do

humano sadio e enfermo, bem como o meio
ambiente deixou de apresentar a importância
que vinha assumindo. Deixou-se a velha
tradição da escola hipocrática, quanto à
influência do meio físico sobre o homem e
sobre as doenças que o afligem foi relegada a
um simples capítulo da história da medicina.
Este

período

foi

denominado

de

era

bacteriológica ou pastoriana. Daí o fato de, a
partir de 1900, terem sido publicadas poucas
obras sobre Geografia Médica, privada de

meio físico e doença e, por mais de dois mil

maior importância como o Tratado de Higiene,

anos, o terreno teórico para a compreensão das

de Pagliani (1913), no qual é estudada de forma

doenças endêmicas e epidêmicas. Ainda nesta

proeminente a questão dos solos, das águas e

sua obra, Hipócrates reconhecia a presença

dos ambientes em relação à Saúde Pública.

contínua de certas doenças que as chamou de
endêmicas e a freqüência de outras doenças,

No início da era bacteriológica, a teoria da

nem

vezes

unicausalidade teve sua grande época, isso

aumentavam em demasia, que as denominou de

porque os adeptos dessa teoria imaginavam que,

sempre

presentes,

mas,

por

uma vez identificados
Caminhos de Geografia 3(6), jun/ 2002

os agentes vivos
página 75

A Geografia Médica e as doenças infecto-parasitárias

Jureth Couto Lemos
Samuel do Carmo Lima

específicos de doenças, os chamados agentes

doenças, que orientavam obras de saneamento

etiológicos e os seus meios de transmissão, os

ambiental (FERREIRA, 1991).

problemas de prevenção e cura das doenças
correspondentes estariam resolvidos, esquecendose dos demais determinantes causais relacionados
ao hospedeiro e ao ambiente.

A Geografia Médica resulta da interligação dos
conhecimentos

geográficos

e

médicos,

mostrando a importância do meio geográfico no
aparecimento

e

distribuição

de

uma

Mas somente entre as décadas de 1930 e 1950 é

determinada doença, visando também fornecer

que inicia-se a crise da teoria da unicausalidade

subsídios seguros à Epidemiologia, para que

e

de

esta possa estabelecer programas de vigilância

multicausalidade, segundo o qual, a doença é

ambiental tanto no aspecto preventivo como no

um processo que ocorre por múltiplas causas,

controle das endemias.

começa

a

entendendo-se

prevalecer

como

o

conceito

causas

agentes

ou

determinantes de doenças de caráter físicos,
químicos,

biológicos,

ambientais,

sociais,

econômicos, psicológicos e culturais, cuja
presença ou ausência possa, mediante ação
efetiva

sobre

um

hospedeiro

suscetível,

constituir estímulo para iniciar ou perpetuar um
processo de doença e, com isso, afetar a
freqüência com que uma patologia ocorre numa
população, de tal sorte que, hoje, já se fala, em
uma medicina neo-hipocrática (COSTA &
TEIXEIRA, 1999).
Quanto a aproximação da Geografia Médica
com a Epidemiologia, este fato ocorreu durante

Para LACAZ (1972, p. 1):
" Na Geografia Médica, o estudo do enfermo é
inseparável do seu ambiente, do biótopo onde se
desenvolvem os fenômenos de ecologia associada
com a comunidade a que ele pertence. Quando se
estuda uma doença, principalmente as
metaxênicas (doenças que possuem um
reservatório na natureza e um vetor biológico no
qual se passa uma das fases do ciclo evolutivo do
agente infectante), sob o ângulo da Geografia
Médica, devemos considerar, ao lado do agente
etiológico, do vetor, do reservatório, do
hospedeiro intermediário e do Homem
susceptível, os fatores geográficos representados
pelos fatores físicos (clima, relevo, solos,
hidrografia, etc.), fatores humanos ou sociais
(distribuição e densidade da população, padrão
de vida, costumes religiosos e superstições, meios
de comunicação) e os fatores biológicos (vidas
vegetal e animal, parasitismo humano e animal,
doenças predominantes, grupo sangüíneo da
população, etc.) LACAZ, 1972, p. 1).

o século XIX, quando surgiram os primeiros
trabalhos sistematizados com descrição e

A concepção geográfica das doenças infecto-

cartografia

parasitárias passou a ter um maior impulso

da

distribuição

regional

das

desde que as comunidades primitivas deixaram
Caminhos de Geografia 3(6), jun/ 2002

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A Geografia Médica e as doenças infecto-parasitárias

de ser nômades

Jureth Couto Lemos
Samuel do Carmo Lima
"Epidemiologia é a ciência que estuda o processo
saúde-doença em coletividades humanas,
analisando a distribuição e os fatores
determinantes das enfermidades, danos à saúde e
eventos associados à saúde coletiva, propondo
medidas específicas de prevenção, controle, ou
erradicação de doenças, e fornecendo indicadores
que sirvam de suporte ao planejamento,
administração e avaliação das ações de saúde"
ROUQUAYROL & GOLDBAUM, 1999, p. 15).

e passaram a fixar suas

moradias tornando-se sedentárias. A partir daí o
ambiente passou a ser alterado em escala
contínua,

interferindo

na

interação

Sociedade/Meio/Agente/Vetor.
Esta interferência faz com que a Geografia
Médica passe a ter grande relevância nos

O estudo Sobre a Maneira de Transmissão do

estudos das endemias e das epidemias que

Cólera, escrito por John Snow em Londres, em

possuem

vetor

1854, marca o início de uma nova era na análise

(transmissor de doenças), no qual se realiza

das condições de saúde e doença dos grupos

uma das fases do ciclo evolutivo do agente

humanos, ou seja, da Epidemiologia e da

etiológico,

aplicação de seu método (SNOW, 1999).

um

reservatório

como

e

também

um

aquelas

que

necessitam apenas de um ambiente favorável
para a sua proliferação.

SNOW (1999), de 1849 a 1854, acompanhou a
ocorrência das duas epidemias de cólera em

A importância da Geografia Médica nos

Londres, utilizando o tempo e o espaço e

estudos da Epidemiologia pode ser percebida

formulando hipóteses para entender como a

desde que a teoria da unicausalidade deixou de

doença se espalhava nos diferentes locais,

ser

desde o início dos sintomas, até seu completo

a

única

forma

de

explicação

pela

disseminação de doenças e passou a ser aceito o
conceito de multicausalidade. A Geografia
Médica, ao buscar a identificação dos locais de
ocorrência das doenças, busca também a
descrição e a explicação das diferenças
existentes na superfície terrestre e a relação
da humanidade com o meio, oferecendo
assim,

subsídios

Epidemiologia

que,

para

o

estudo

ROUQUAYROL

GOLDBAUM (1999, p. 15) descrevem:

Caminhos de Geografia 3(6), jun/ 2002

da
&

desaparecimento.
Este

pesquisador

fez

um

levantamento

detalhado dos lugares de ocorrência dos óbitos,
chegando à suspeita de que a contaminação era
decorrente de uma bomba pública de água
existente em Broad Street. Realizou pesquisa
junto ao serviço de registro de óbitos das
mortes recentes de pessoas que residiam nas
proximidades geográficas da bomba de água de
Broad Strret. Verificou o falecimento de

página 77

A Geografia Médica e as doenças infecto-parasitárias

Jureth Couto Lemos
Samuel do Carmo Lima

pessoas que residiam afastadas da bomba mas

Na década de 1930 surge também uma outra

que consumiam dessa água e observou também a

pesquisa científica de grande relevância para a

ausência de casos da doença entre trabalhadores

Geografia Médica, quando em 29 de maio de

de uma cervejaria localizada próxima à bomba,

1939, PAVLOVSKY Y. N. apresenta na ex-

que não consumiam desta água.

União Soviética perante a Academia de

Estes conjuntos substanciais de evidências
foram os primeiros passos decisivos para
comprovação de que a água era o meio de
transmissão da doença. Sem dúvida nenhuma,
este fato pôde ser considerado um grande
avanço.

Pois,

SNOW

(1999)

conseguiu

identificar o veículo de transmissão da cólera
antes mesmo da descoberta do agente causador
(Vibrio cholerae), que só foi identificado em
1884, por Koch, na Índia (BRASIL, 1991).

Ciências, a primeira formulação de sua teoria
dos focos naturais de doenças, sendo uma das
mais importantes elaborações teóricas da
relação espaço geográfico e o estudo das
doenças infecto-parasitárias. Este autor diz que
um

foco

natural

de

doenças

(aquelas

transmitidas ao homem a partir de um
reservatório silvestre) está relacionado com as
mais diversas paisagens geográficas do globo
terrestre. Uma constatação dessa sua teoria
ocorreu com o avanço da fronteira agrícola

o Brasil, a Geografia da cólera é quase que

soviética, no início da era Stalin. Nessa época,

exclusiva das regiões Norte e Nordeste e das

extensas áreas da ex-União Soviética (parte

periferias dos grandes centros urbanos, isso

asiática)

porque essas regiões periféricas são as menos

exploradas, tanto para a agricultura quanto por

favorecidas com sistema de Saneamento Básico.

seus recursos naturais (madeiras e minerais).

Ao observar onde a cólera fez o maior número de

Como conseqüência dessa modificação no

vítimas a partir de 1991 (início da sétima

ambiente surgiram problemas de saúde pública

pandemia de cólera no Brasil), pode-se concluir

como

que foi exatamente nestas regiões, onde as

Tegumentar.

autoridades não se preocupam em realizar obras
de saneamento para promover saúde e qualidade
de vida para a população. A Cólera é uma doença
intestinal aguda, causada pelo vibrião colérico
(Víbrio cholerae) (BRASIL, 1991).
Caminhos de Geografia 3(6), jun/ 2002

passaram

o

a

ser

aparecimento

desbravadas

da

e

Leishmaniose

Este mesmo fato pôde ser observado durante o
período de colonização da Amazônia Brasileira,
especificamente
quando

da

no

Estado

implantação

de

de

Rondônia,

Projetos

de

"Reforma Agrária", na década de 1970.
página 78

A Geografia Médica e as doenças infecto-parasitárias

Jureth Couto Lemos
Samuel do Carmo Lima
fazer a guerra não implica afirmar que ela só
serve para conduzir operações militares; ela
serve também para organizar territórios, são
somente como previsão das batalhas que é
preciso mover contra este ou aquele adversário,
mas também para melhor controlar os homens
sobre os quais o aparelho do Estado exerce sua
autoridade" (LACOSTE, 1988, p. 22).

Rondônia tornou-se a mais nova fronteira
agrícola do país, nesse período. Entretanto, o
governo brasileiro, que promoveu este processo
de colonização agrária, não considerou que a
região favorecia o processo de focos naturais de
doenças. A população que acorreu aos milhares
para lá não foi informada deste fato e tornaramse vítimas de endemias como Leishmaniose
Tegumentar

Americana,

Febre

Amarela,

Malária e outras.

Quanto

a

Leishmaniose

Tegumentar

Americana, objeto desta pesquisa, distribui-se
no Oriente Médio, Sul da ex-União Soviética e,
nas Américas, do Sul dos Estados Unidos ao
Norte da Argentina. No continente Americano

Ao contrário do governo brasileiro da década

ela ocupa áreas muito extensas, de climas

de 1970, os norte-americanos sob a pressão da

variados, quente e superúmido na Amazônia e

Segunda Guerra Mundial, no momento em que

América Central, zonas temperadas do México,

seus soldados lutavam em várias regiões da

do Sul do Brasil e da Argentina. Esta endemia

Ásia,

informações

ocorre em médias altitudes, podendo ser

consideradas essenciais para o desenvolvimento

encontradas ao nível do mar e em altitudes de

das operações militares, através de estudos da

1200 a 2800 metros, na Cordilheira dos Andes

Geografia Médica. Em 1944 foi publicado o

(COUTINHO, 1972; BRASIL, 2000).

procuraram

adquirir

primeiro volume de uma Global Epidemiology,
A Geography of Disease and Sanitation. Esta
obra

publicada

em

muitos

volumes

é

considerada o mais importante dos tratados
sobre Geografia Médica dos Estados Unidos.
LACOSTE (1988, p. 22) diz que:

A Febre Amarela é encontrada em países da
África e Américas Central e do Sul. São países
que oferecem condições ambientais propícias à
sobrevivência do vírus e à proliferação do
vetor,

que

é

um

mosquito

do

gênero

Haemagogus, que vive exclusivamente nas
florestas, e que, picando um animal doente,

"Pois, a geografia serve, em princípio, para fazer
a guerra. Para toda ciência, para todo saber deve
ser colocada a questão das premissas
epistemológicas; o processo científico está ligado
à uma história e deve ser encarado, de um lado,
nas suas relações com as ideologias, de outro,
como prática ou como poder. Colocar como ponto
de partida que a geografia serve, primeiro, para
Caminhos de Geografia 3(6), jun/ 2002

principalmente macacos, leva o vírus ao animal
sadio e ao ser humano através de sua picada. É
uma

doença

infecciosa

aguda,

febril,

caracterizando-se clinicamente por manifestações

página 79

A Geografia Médica e as doenças infecto-parasitárias

Jureth Couto Lemos
Samuel do Carmo Lima

de insuficiência hepática e renal, que pode levar

Plasmodium vivax, causando surtos instáveis de

à morte, em cerca de uma semana. Esta doença

Malária (REY, 1992; BRASIL, 1995).

não era conhecida entre os povos antigos e só
depois da descoberta da América (1492) passou
a figurar nos quadros nosológicos, classificandose em Febre Amarela Silvestre e Urbana.
Atualmente a forma encontrada no Brasil é a
silvestre, que é uma doença de animais, sendo
transmitida ao homem somente acidentalmente
(BRASIL, 1998).

parasita

que muito cedo os gregos estabeleceram uma
associação racional entre Malária e pântanos. O
filósofo Empédocles de Agrigento (c. 504-443
a.C.) livrou de uma epidemia o povo de
Selinute, na Sicília, desviando dois rios para os
pântanos, com o objetivo de prevenir a
estagnação das águas e as adocicar.

A Malária é uma doença infecciosa causada
pelo

ROSEN (1994) relata uma história indicando

do

gênero

plasmodium

e

transmitida de pessoa a pessoa pela picada do
mosquito do gênero Anopheles que se infecta
ao sugar o sangue de um doente. Nas regiões
equatoriais, onde as condições climáticas são
relativamente estáveis, com altos índices
pluviométricos, temperatura e umidade relativa
do ar elevadas, a transmissão de doenças como
a Malária é permanente. Nas regiões tropicais,
com alternância de uma estação seca e outra
chuvosa, mesmo permanecendo temperaturas
elevadas durante quase todo o ano, a falta de
umidade reduz a população de anofelinos. Nas
áreas subtropicais, a temperatura cai nos meses
de inverno, impedindo a atividade de qualquer

Atualmente, a Geografia da Esquistossomose
Mansônica

está

praticamente

restrita

aos

Estados da Região Nordeste e Norte do Estado
de Minas Gerais. Esta doença é originária da
África chegando ao Brasil através dos escravos
que foram forçados a vir para o nosso país.
Com a expansão migratória da população para
outros locais, em função da expansão das zonas
agrícolas e das áreas irrigadas, esta endemia
poderá proliferar-se para as mais diversas áreas
do país, haja visto o grande número de
moluscos

(hospedeiros

intermediário)

que

existem em outros Estados. É uma doença
parasitária causada pelo Schistosoma mansoni
(REY, 1992; BRASIL 1998).

tipo de vetor. A transmissão interrompida assume

A Geografia da Doença de Chagas faz parte de

caráter de surtos epidêmicos anuais. As zonas

um ecossistema que é exclusivo do continente

temperadas têm invernos prolongados e verões

Americano. Sua distribuição geográfica se

curtos, sendo encontrado nessa região apenas o
Caminhos de Geografia 3(6), jun/ 2002

página 80

A Geografia Médica e as doenças infecto-parasitárias

estende desde o Sul dos Estados Unidos até o
Sul da Argentina e do Chile. No Brasil, ela se
apresenta de forma endêmica nas regiões
Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Na
Amazônia vinham sendo detectados casos
autóctones da Doença de Chagas de maneira
isolada, mas nos últimos anos devido ao
desmatamento vêm aumentando gradativamente
o número de casos. As espécies de triatomíneos
silvestres estão se aproximando perigosamente
dos domicílios humanos em busca de alimento,
o que significa que a endemia pode se expandir
geograficamente naquela região. Nas demais
regiões a doença mantém-se endêmica (REY,
1992; BRASIL 1998).
Esta patologia foi descoberta por um grande
estudioso da Geografia Médica, o médico
Sanitarista Carlos Chagas. Trata-se de fato
singular na história das descobertas no ramo da
medicina, onde um mesmo autor começa por
revelar o parasita e seu hospedeiro intermediário,
para depois reconhecer a existência de uma nova
entidade nosológica. Descreve o quadro clínico
por inteiro, estuda a anatomia patológica e a
patogenia, nem lhe escapa a significação da nova
moléstia como grave problema de saúde pública
para o país (LACAZ, 1972).
PAVLOVSKY E. abordou a questão do foco
natural de doenças descrevendo:
Caminhos de Geografia 3(6), jun/ 2002

Jureth Couto Lemos
Samuel do Carmo Lima
Um foco natural de doenças existe quando há um
clima, vegetação, solo e micro-clima favoráveis
nos lugares onde vetores, doadores e reciptores
tornam-se abrigos de infecção. Em outras
palavras, um foco natural de doenças está
relacionado a uma paisagem geográfica
específica, tal como a taiga com uma certa
composição botânica, um deserto de areia quente,
a estepe, etc., isto é, uma biogeocoenosis
(tradução nossa) (PAVLOVSKY, E., 196-, p. 19).

SORRE

(1951)

procurou

trabalhar

a

importância da ação humana na formação e na
dinâmica de complexo patogênico, que para ele
se constitui a partir dos agentes causais, seus
vetores, o meio ambiente e o próprio ser
humano. Com isto, ampliou o poder analítico e
explicativo de uma Geografia, antes restrita
quase que exclusivamente à descrição do meio
físico incentivando os primeiros estudos de
Geografia Médica na França.
MEGALE (1984) diz que Sorre, após ter tido
contato com a Geografia Médica, cria o conceito
de complexo patogênico, mostrando sua percepção
do conjunto de três planos onde se desenvolve a
atividade humana: o plano físico, o plano biológico
e o plano social. A criação e a explicação do
conceito de complexo patogênico são até hoje
atribuídos a Max. Sorre e denominadas como de
sua autoria na ciência médica e nos estudos de
saúde pública e de higiene.
Para SORRE (1951), os complexos patogênicos
são considerados infinitos em números e em
variedades, e seu conhecimento constitui a base
página 81

A Geografia Médica e as doenças infecto-parasitárias

de toda a Geografia Médica. Os complexos
recebem o nome da doença a que se referem
como, por exemplo, complexo da peste, da
malária, da doença do sono etc. Ele considera
que os complexos patogênicos possuem vida
própria, surgem, desenvolvem, substituem e se
desintegram.

Jureth Couto Lemos
Samuel do Carmo Lima
capítulo das doenças infecciosas; sem ela esse
capítulo seria mera coleção de fatos desprovidos
de ligação e sem nenhum alcance científico
(tradução nossa) (SORRE, 1951, p. 293)

Em relação ao Brasil, ainda são muito poucos
os estudos pertinentes à Geografia das doenças,
principalmente se comparados ao grande
impulso na produção de pesquisas nesta área

No passado, o complexo patogênico esteve

em outros países do mundo. A Geografia

ligado diretamente à evolução do ecúmeno (que

Médica no Brasil se referencia a duas grandes

representa a população em seu dinamismo

obras: Introdução à Geografia Médica no

interno, fruto da ação e reação humanas em

Brasil (LACAZ, 1972) e Ensaios Médico-

face da natureza), sobretudo, em função da

Sociais (PESSÔA, 1960).

mortalidade e ao fator migratório que o
ecúmeno causava (MEGALE, 1984). Por isso,
SORRE (1951, p.293) deu ao conceito de
complexo patogênico posição central nos
estudos

de

Geografia

Médica,

conforme

descrito:
Na complexidade das relações que interessam
simultaneamente ao biólogo e ao médico,
procura-se uma noção sintética suscetível de
orientar as pesquisas do geógrafo. A
interdependência dos organismos vivos em jogo
na produção de uma única doença infecciosa
permite inferir uma unidade biológica de ordem
superior: o complexo patogênico. Compreende,
junto com o homem e o agente causal da doença,
os transmissores e todos os seres que
condicionam ou comprometem a existência
humana. Ao propormos esta noção, há alguns
anos, seguimos os entomologistas levados por
considerações desta natureza ao estudar as
doenças parasitárias das plantas. Os complexos
patogênicos do homem são apenas casos
particulares da imensa série de complexos
patogênicos que se formam em torno de cada ser
vivo. É com base nesta noção que nos propomos a
fundar o maior capítulo da geografia médica, o
Caminhos de Geografia 3(6), jun/ 2002

Segundo PESSÔA (1960), a Geografia Médica
teve o seu maior desenvolvimento no período
da penetração dos países imperialistas na região
tropical, entre os séculos XVI e XVII, com fins
de conquista e colonização. Neste período
houve necessidade de se conhecer a distribuição
geográfica das doenças, das entidades mórbidas
nela dominantes, para a defesa dos povos
indígenas e melhores possibilidades da fixação
dos novos colonizadores. Devido a posição
geográfica dos países colonizados, as doenças
aí existentes ou introduzidas com os novos
habitantes receberam a denominação geral de
doenças tropicais.
Mas ainda para PESSÔA (1960), as obras mais
importante da Geografia Médica brasileira das

página 82

A Geografia Médica e as doenças infecto-parasitárias

Jureth Couto Lemos
Samuel do Carmo Lima

décadas de 1930 a 1960 foram o livro de

dentro deste estudo, uma vez que as doenças

Gavião Gonzaga, intitulado "Climatologia e

provocadas pela fome são conseqüências de

Nosologia do Ceará" (1925) e o de Afrânio

uma política social e econômica perversa

Peixoto, "Clima e Saúde" (1938). A obra de

principalmente em nosso país e em boa parte do

Gavião Gonzaga, segundo PESSÔA (1960), se

mundo.

refere a um estudo geográfico da região que
analisa o clima, o regime pluviométrico, a
questão das secas, a flora, a fauna e finalmente,
o homem, vindo em seguida o estudo das
doenças, fazendo o autor, notar previamente a
ação dos fatores climáticos sobre as condições
nosológicas do Estado.
GONZAGA (1925) apud PESSÔA (1960, p.
39) escreve o seguinte parágrafo:
"A história das secas demonstra que as endemias
estão sempre associadas à fome e à sede. As secas
atuam, pois, de uma maneira direta e de uma
maneira indireta sobre a nosologia do Estado.
Atuam, diretamente, causando a decadência
órgano-fisiológica
das
populações,
e,
indiretamente provocando o êxodo dos flagelados
que, na sua peregrinação, através do hinterland
brasileiro, adquirem moléstias e trazem-nas de
retorno aos primitivos lares. Num e noutro caso
os
cataclismos
climáticos
contribuem
poderosamente para a constituição de um quadro
nosológico complexo, em que avultam a
disseminação e a multiplicidade das endemias"
(GONZAGA, 1925, apud PESSÔA, 1960, p. 39).

PESSÔA (1960, p. 40) ao se referir as obras de
Josué de Castro, faz o seguinte comentário:
"Estudos sobre a alimentação em relação à
geografia têm vindo mais abundantemente à luz,
talvez devido à influência poderosa do notável
nutricionista e geógrafo José de Castro. Assim
temos os livros deste autor, tão bem conhecidos,
não só pelos especialistas como pelo público em
geral, como a Alimentação brasileira à luz da
geografia humana (1937), a Geografia da fome
(1946) e a Geopolítica da fome (1953)"
(PESSÔA, 1960, p. 40).

Os fatores social e econômico são um dos
fatores que mais favorecem a disseminação
de doenças. Uma vez o indivíduo não
conseguindo ter uma boa alimentação, o seu
organismo fica com baixa resistência devido
a desnutrição, isto favorece a entrada de
agentes patogênicos oportunistas como o
Micobacterium

(1965), Geografia da Fome, se enquadra como
um estudo da Geografia Médica. Porém, se
partirmos do princípio das definições de
Geografia Médica citadas por LACAZ (1972) e

e

outras

infecções como as diarréias. No entanto,
sabe-se

Para muitos estudiosos, a obra de CASTRO

tuberculosis

que

isso

acontece

não

pelas

características físicas regionais do Brasil,
mas sim, pela falta de uma política séria de
desenvolvimento econômico e social por
parte dos administradores públicos que possa
amenizar as desigualdades sociais no país.

PESSÔA (1960), esta obra não se enquadraria
Caminhos de Geografia 3(6), jun/ 2002

página 83

A Geografia Médica e as doenças infecto-parasitárias

Jureth Couto Lemos
Samuel do Carmo Lima

Na atualidade, está estabelecido que para

vez erradicado vetores como o Aedes aegypti,

melhor entender-se o processo saúde-doença

dever-se-ia manter um sistema de vigilância

em qualquer comunidade, faz-se necessário

como

entender o ser humano no seu meio físico,

Vacinação contra a Poliomielite, que mesmo

biológico, social e econômico. Estes meios são

sem ter registrado casos da Paralisia Infantil

considerados como fatores determinantes e

nos últimos anos, continua havendo incentivo

condicionantes deste processo, estabelecendo a

para que os pais vacinem seus filhos menores

ocorrência e a prevalência das doenças infecto-

de cinco anos de idade, para não corrermos o

parasitárias nas paisagens terrestres, bem como

risco da reintrodução do vírus nas crianças.

seus comportamentos que são influenciados por
estes fatores. O agente infeccioso é, na verdade,
apenas uma das causas para a ocorrência das
endemias.

acontece

com

as

Campanhas

de

Para que problemas como a Dengue não volte a
acontecer em nosso país a Fundação Nacional
de Saúde - FUNASA estabelece o Sistema
Nacional de Vigilância Ambiental em Saúde -

É no espaço geográfico que se desenvolvem as

SNVA, pelo Decreto n.º 3.450 de 10 de maio de

interações entre os diferentes segmentos das

2000. Este Sistema prioriza a informação no

sociedades humanas e destas com a natureza.

campo da vigilância ambiental, de fatores

Se as interações não forem harmoniosas podem

biológicos (vetores, hospedeiros, reservatórios,

surgir novas doenças ou ressurgir doenças que

animais peçonhentos), qualidade da água para

já haviam sido controladas, como, por exemplo

consumo humano, contaminantes ambientais

a Dengue, que teve o seu vetor - Aedes aegypti

químicos e físicos que possam interferir na

erradicado no Brasil, porém sendo reintroduzido

qualidade da água, ar e solo, e os riscos

em 1976, na cidade de Salvador e encontrado no

decorrentes de desastres naturais e de acidentes

ano seguinte no Rio de Janeiro, instalando-se

com produtos perigosos (BRASIL, 2000).

posteriormente em todo território brasileiro, com
epidemias sucessivas a cada ano.
A reintrodução do Aedes aegypti no Brasil e a
urbanização de doenças como as Leishmanioses
são fatos que ocorreram por falha nas políticas
públicas principalmente na área da saúde. Uma
Caminhos de Geografia 3(6), jun/ 2002

A Vigilância Ambiental em Saúde se configura
como:
"Um conjunto de ações que proporcionam o
conhecimento e a detecção de qualquer mudança
nos fatores determinantes e condicionantes do
meio ambiente que interferem na saúde humana,
com a finalidade de recomendar e adotar as
medidas de prevenção e controle dos fatores de

página 84

A Geografia Médica e as doenças infecto-parasitárias

Jureth Couto Lemos
Samuel do Carmo Lima

risco e das doenças ou outros agravos
relacionados à variável ambiental" (BRASIL,
2000).

BRASIL. Ministério da Saúde. Centro Nacional
de Epidemiologia. Coordenação Nacional de
Dermatologia Sanitária. Guia de controle da

Neste contexto, a Vigilância Ambiental em

leishmaniose tegumentar americana. Brasília,

Saúde não pode prescindir dos estudos da

1994. 43 p.

Geografia Médica, principalmente, sobre os
fatores

geográficos

que

contribuem

no

aparecimento ou permanência de determinadas
endemias,

para

se

estabelecer

medidas

preventivas e de controle destas doenças.
Portanto não é possível fazer Vigilância
Ambiental

em

Saúde

sem

os

estudos

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação
Nacional

de

Operações.
doenças

Saúde.

Coordenação

Departamento
de

Transmissíveis

Controle
por

de
de

Vetores.

Diagnóstico e tratamento no controle da
malária: manual para pessoal de saúde de
nível médio. Brasília,1995. 62 p.

geográficos.
BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação
Compreender o processo de organização do
espaço geográfico, pelas sociedades humanas,
em diferentes tempos e lugares, é uma forma

Nacional de Saúde. Controle, diagnóstico e
tratamento da leishmaniose visceral (calazar).
Brasília, 1996. 85 p.

particular de entender as doenças. Portanto,
para a Geografia Médica, a compreensão deste

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação

processo é muito importante por permitir

Nacional de Saúde. Centro Nacional de

entender o papel da organização do espaço

Epidemiologia.

geográfico na gênese e na distribuição das

epidemiológica. Brasília, 1998.

doenças,

para

que

se

possa

estabelecer

programas de vigilância ambiental em saúde.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Guia

de

vigilância

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação
Nacional de Saúde. Manual de controle da
leishmaniose tegumentar americana. Brasília,
2000. 62 p.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria
Nacional de Vigilância Sanitária. Cólera. 3. ed.

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação

Brasília, 1991. 50p.

Nacional de Saúde. Vigilância ambiental em
saúde.

Caminhos de Geografia 3(6), jun/ 2002

Brasília,

2000.

Disponível

em:

página 85

A Geografia Médica e as doenças infecto-parasitárias

Jureth Couto Lemos
Samuel do Carmo Lima



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Acesso em: 24/06/2002.

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