REVISTA DE EDUCAÇÃO, CULTURA E MEIO AMBIENTE- Dez.-N° 10, Vol I, 1997

GEOGRAFIA CLÁSSICA - UMA
CONTRIBUIÇÃO PARA HISTORIA DA CIÊNCIA
GEOGRÁFICA
GENYLTON ODILON RÊGO DA ROCHA *

RESUMO: Procuraremos apresentar alguns apontamentos acerca da chamada
Geografia Clássica, resultante das concepções descritiva e matemática de geografia,
construídas por gregos e romanos desde a Antigüidade Clássica e melhor sistematizadas
respectivamente por Estrabão e Cláudio Ptolomeu. Iniciaremos com uma rápida
informação acerca de geógrafos que tiveram papel fundamental na Antigüidade para a
produção de conhecimentos sistematizados, rotulados de geográficos.

PALAVRAS ­ CHAVE: Antiguidade, Grego e Geografia Clássica.

ABSTRACT: We will present some notes about the so-called Classical Geography, resulting
of descriptive and mathematical conceptions of geography, built by the Greeks and Romans
since Classical antiquity and best systematized respectively by Strabo and Claudius
Ptolemy. We will start with a quick information about geographers who had key role in
Antiquity for the production of systematized knowledge of geographic labelled.

KEYWORDS: Antiquity, Classical Greek, geography.

NOTAS INTRODUTORIAS: O saber geográfico não é algo que começou a
ser produzido recentemente. Em alguns trabalhos sobre a história da Geografia,
a exemplo de Capel & Urteaga (19984), Andrade (l 987), Sodré (1989) e Moraes
(1989 e 1990), é demonstrado o quanto remota é a origem desse conhecimento.
Chega-se mesmo

a afirmar

que o

seu

início remonta às

primeiras

comunidades gentílicas. O rótulo geografia, por outro lado, somente passou a ser
utilizado na Antigüidade Clássica e é fruto direto do pensamento grego.
Neste texto, procuraremos apresentar alguns apontamentos acerca da
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chamada Geografia Clássica, resultante das concepções descritiva e matemática de
geografia, construídas por gregos e romanos desde a Antigüidade Clássica e melhor
sistematizadas respectivamente por Estrabão e Cláudio Ptolomeu.
Iniciaremos com uma rápida informação acerca de geógrafos que tiveram
papel

fundamental

na

Antigüidade

para

a

produção

de

conhecimentos

sistematizados, rotulados de geográficos. Em um segundo momento, daremos
ênfase as contribuições de Estrabão e Ptolomeu para a consolidação das vertentes
descritiva e Matemática de geografia e finalizaremos demonstrando como as
teorias produzidas por estes dois autores deram conformação a geografia clássica.
A CONSTRUÇÃO DA GEOGRAFIA OCIDENTAL: A CONTRIBUIÇÃO DOS
GREGOS E ROMANOS.
No processo histórico de construção desta especificidade do saber humano,
os (as) gregos (as) são considerados (as) os (as) primeiros (as) a registrar de
forma sistematizada os conhecimentos geográficos. Os (as) romanos (as), partindo
dos conhecimentos herdados dos (as) gregos (as), ampliaram significativamente
estes

conhecimentos,

tornando-se

os

(as)

responsáveis

pelas

grandes

contribuições que passariam ser, mais tarde, fundamentais no desenvolvimento da
Geografia enquanto ciência (Um dos grandes problemas enfrentados pelos que
pretendem desenvolver uma pesquisa mais aprofundada acerca da história da
Geografia, é a ausência quase que total de informações sobre as produções
teórico-metodológicas dos povos orientais, sobretudo os da Antiguidade, fato que
nos obriga, neste processo de construção, a citar apenas os feitos dos geógrafos
ocidentais, e, mais particularmente, os dos greco-romanos). Autores como
Erastóstenes, Tales de Mileto, Anaximandro, Heródoto, Hipócrates, Hiparco, além de
outros, produziram os conhecimentos alicerçadores do que mais tarde seria a
geografia científica, fato que justifica alguns comentários sobre eles.
Erastóstenes de Cirene foi um célebre matemático, astrônomo e geógrafo
grego. Viveu na cidade de Alexandria onde dirigiu a famosa biblioteca lá
existente. Suas obras principais foram: As Medidas da Terra e Notas
Geográficas, das quais apenas algumas partes conseguiram ser conservadas e
conhecidas nos dias atuais.
Uma de suas maiores preocupações foi com a medição da superfície do
nosso planeta. Para calcular de forma mais exata as dimensões, ele se baseou nos
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métodos astronômicos e geométricos, além de adotar, como princípio, a idéia de que
a forma real da Terra era esférica. Seus cálculos apontaram para uma dimensão
próxima à que atualmente é conhecida, permitindo com isso que se tivesse, já
naqueles tempos, uma idéia da grandeza do planeta. Graças a seus estudos
neste campo, foram possíveis a outros (as) autores (as) desenvolverem, mais
tarde, estudos mais exatos sobre a configuração, posição e tamanho da
superfície terrestre.
Erastóstenes também "realizou aportes significativos en el campo de la
geografia, abordó aspectos fisico-geograficos relacionados con las teoria de las
zonas. Hizo consideraciones sobre materiales topográficos que podiam servir
para la confeccíon de mapas".(ÁLVAREZ et al, 1986:38)
Devemos destacar, também, que no campo da cartografia, este autor foi
responsável pela confecção de um mapa mundi que continha sete paralelos e sete
meridianos, cada qual denominado pelo nome do lugar por onde passava.
Desenvolviam-se com ele os sistemas de coordenadas tão presentes hoje em
nossos mapas.
Tales de Mileto e Anaximandro deram as suas contribuições ao privilegiarem
em suas obras a mediação do espaço e a discussão de forma da Terra (assunto
hoje próprio da Geodesia). São eles verdadeiramente, os fundadores da
Geografia Moderna, que mais tarde seria melhor sistematiza por Cláudio Ptolomeu.
Heródoto de Helicarnado, conhecido como "pai da História", acumulou
grandes conhecimentos graças as suas viagens que o levaram desde o Sudão
até a Europa Central e da Índia até a Península Ibérica, ou seja, todo o mundo até
então conhecido pelos gregos. Suas descrições históricas são ricas em
informações geográficas, que grandes utilidades tiveram para os governantes
gregos, desejosos de obterem informações sobre os chamados bárbaros e seus
territórios.
Interessante comentário faz Yves Lacoste apud Capel & Urteaga, sobre este
autor grego:
"¿Viajero curioso? Audaz comerciante? Uno de los primeros historiadores? En realidad, El geógrafo,
el espia dei imperialismo ateniense.
Este autor cristaliza ante nuestro ojos Ia contradicción constitutiva de Ia geografia: informar ai estratega
y justificar Ia dominación.
Heródoto tenha que asumir por si solo esta doble función, estratégica e ideológica, de información y de
mistificación, distribuida hoy entre la geografia dei Estado Mayor y la geografia escolar. Y la realizó no
sin dificultades.

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Informó útilmente a Pendes sobre Ia organización política de los bárbaros, pero inquieto a los griegos que
esperaban de sus noticias la confirmación de su superioridad. Por eito lo acusaron de malignidade. Quizás
sea esta malignidad la que nos seduce en Heródoto, como si Ia ambigüedad de Ia geografía estuviera ya
inscrita en Ia encuesta que realizó el afijo de 446 antes de nuestra era."(Apud CAPEL & URTEGA, 1984:05).

Outro importante geógrafo, cujas produções foram contemporâneas às de Heródoto, foi
Hipócrates. Suas preocupações, segundo Sodré (1989), estavam voltadas mais para o homem do
que para o meio, apesar de aceitar a idéia de que este último elemento era mais importante. A obra
de sua autoria mais consagrada foi: Dos Ares, Das Águas e dos Lugares, na qual, de forma bastante
determinista, procurou estabelecer a distinção entre os habitantes das montanhas e os das planícies.
Segundo ele:
"... aqueles, por força da influência das terras altas, úmidas, batidas pelos ventos, seriam de estatura alta,
bravos e de temperamento suave; estes, por força da influência das formas leves, descobertas,
desprovidas de água, com bruscas variações de temperatura, seriam secas, nervosos, indóceis,
arrogantes, mais louros do que morenos."(SODRÉ,1989:15)

Quanto a Hiparco, podemos dizer que foi o grande continuador da obra de Erastótenes,
além de tê-lo substituído na direção da Biblioteca de Alexandria. Considerado por muitos como
um dos maiores astrônomos da Antigüidade, suas contribuições no campo da geografia
matemática foram também de grande importância.
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Foi ele o primeiro a dividir o círculo terrestre em 360 , além de ter inventado a projeção
estereográfica (foi um dos primeiros a se preocupar com o problema da projeção da superfície curva
da Terra em um mapa plano), tão fundamental para a renovação da cartografia. Estabeleceu os
princípios que nos permite afirmar que a diferença de longitude de dois pontos é igual à diferença dos
ângulos horários, isto é, a diferença das horas locais simultâneas desses dois pontos. Isso resultou
no avanço do sist ema de localização dos acidentes geográficos via coordenadas terrestres,
meridianos e paralelos. Coube também a ele a definição de clima como sendo áreas limitadas por
paralelos. Sobre este autor, assim se posicionaram Álvarez et al:
"Los trabajos de Hiparco prestaron una ayuda incomparable a Ia geografia v a Ia cartografia, entre
otras causas porque fue el creador de los sistemas de proyección estereográfico v el de coordenadas
terrestres, mediante la aplicación dei principio de longitudes que él había imaginado, es decir, trasladó
su método de ubicación de Ias posiciones de los astros en el ciclo, a Ia localización de ciudades en la
superfície terrestre. Introdujo, por tanto, los conceptos de longitud v latitud geográficas. (...) Hiparco
resultó el más exigente de los astrónomos y geógrafos antiguos en cuanto a fijar ia posición de los
lugares geográficos, pues no aceptaba, como otros, Ias indicaciones de los viajeros y na veg a nt e s
so br e Ia s di st a nc ia s, so l o se b a l sea ba en de t erm ina cio ne s astronómicas."(1986:49).

Apesar da imensa contribuição destes autores citados, foram, sem dúvida,
Estrabão e Cláudio Ptolomeu os maiores responsáveis pela sistematização
dos conhecimentos geográficos na Antigüidade Clássica. Suas obras,
ressaltamos, serviram de modelo para os geógrafos responsáveis pela grande
retomada da produção de conhecimentos geográficos, ocorrida a partir do século
XV, como veremos mais adiante.

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AS

CONTRIBUIÇÕES

DE

ESTRABÃO

E

PTOLOMEU

PARA

O

SURGIMENTO E DESENVOLVIMENTO DA GEOGRAFIA CLÁSSICA.
Estrabão e a sua geografia descritiva:
O grego Estrabão foi um grande viajante, historiador e geógrafo, tendo
percorrido quase todo o mundo que em sua época era conhecido. Graças às
suas viagens, pôde ele produzir uma geografia, a exemplo de Heródoto,
marcadamente descritiva.
Os fatos observados por este autor (as terras percorridas e os povos que nela
habitavam) foram objetos de detalhada descrição, porém não lhe interessou
interpretá-los nem analisá-los. Vale ressaltar também que, ao contrário dos
geógrafos de sua época, e mesmo dos que lhe antecederam, Estrabão não
valorizou a matemática e a astronomia, consideradas até então fundamentais para
os estudos geográficos.
"El no concedió ei valor necesario que tienen ia matemática y Ia astronomia para un conocimiento
geográficas más acertadas, pero profundizó en ei domínio de las llamadas ciencias Morales y lo reflejó en
sus consideraciones sobre ia geografia, pues le impuso ei sello literario, critico y filosófico, por encilla dei
carácter físico y matemático."(ÁLVARES et ai, 1986:50)

Consolidava-se com ele a geografia descritiva, que tão profundas influências
tiveram sobre o desenvolvimento de nossa ciência, e, sobretudo, na forma que ela
passou a ser ministrada nas salas de aulas.
Em todos os lugares por ele percorridos, fez questão de contactar com os
habitantes, e, através de conversas, obteve informações orais e escritas, além
de conhecer as suas tradições. De todo este material surgiu as suas principais
obras: Memórias Antigas, composta de 43 livros e a Geografia, considerada a mais
importante e composta de 17 volumes. Nesta última, Estrabão realizou uma
análise do mundo, tendo a preocupação de produzir um mapa mundi, que
abarcava a totalidade dos espaços geográficos conhecidos pelos gregos e
romanos, além de áreas desconhecidas, mas que se acreditavam existentes graças
a relatos e suposições.
Capel & Urteaga (1984) nos chamam atenção para o fato de que desde
Antigüidade, a geografia foi um importante recurso nas mãos dos governantes. O
conhecimento do espaço foi rapidamente transformado em saber estratégico por
parte daqueles interessados pelo poder e pelas estratégias espaciais, tão
necessárias para que se mantivesse monopolisticamente aquele mesmo poder. Não
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foi à toa que o saber geográfico se tornou algo tão zelosamente controlado pelos
governantes, característica que até hoje se mantém. Na análise que fazem da obra
de Estrabão, estes dois autores assim se manifestam:
"Su obra tiene asimismo una dimensión práctica, de utilidad para Ios governantes. Como interesaba, sobre
todo, 'para Ios fines de gobierno', Ia geografia es para él geografia humana: 'Los geógrafos - escribió - no
tienen que preocuparse de aquello que está fuera dei mundo habitado'. La observacíon propia y Ia
utilización erudita de fuentes griegas se combinan aqui para realizar una obra geográfica que permite
iluminar Ia historia dei mundo romano. La geografia se aproxima a Ia filosofia por su pretensión de
integrar conocimientos variados y elevarse a un saber descriptivo universal y a una visión integradora de
los fenómenos."(1984:05)

Em síntese, Estrabão rechaçou a geografia matemática. Manteve-se avesso à
geografia puramente astronômica e cartográfica, pois em sua opinião ela procedia
"con un criterio más científico que el que corresponde a esta disciplina"
(CAPEL & URTEAGA, 1984:06). Despreocupou-se ainda com as causas físicas dos
fenômenos naturais, importando-se apenas com os fenômenos humanos ou com
as coisas que tinham significado para os homens. O tratamento dado a estes
fenômenos limitou-se quase que exclusivamente ao registro, já que a preocupação
do autor era apenas com a descrição, pouco se importando em interpretá-los ou
explicá-los.
Ptolomeu e sua Geografia Matemática:
O termo geografia, criado pelos gregos, significa "Ciência da descrição da
Terra" (geos, Terra e grafein, descrever); porém, o ato de descrever a Terra, a
corografia, exigia a produção de mapas para que os territórios, objetos da descrição,
fossem precisamente localizados. Como conseqüência desta necessidade, os
geógrafos responsáveis pela arte da cartografia apropriaram-se dos conhecimentos
matemáticos e astronômicos, bem como se viram obrigados a desenvolver
algumas reflexões de caráter científico acerca da forma do nosso planeta. Surgia
daí a chamada geografia matemática, que teve em Cláudio Ptolomeu um dos seus
mais importantes expoentes.
Ptolomeu foi astrônomo, matemático e geógrafo. Sua mais importante obra
foi a Geographike Synyaxis, a qual o autor fez acompanhar de projeções. Sobre esta
produção Álvarez et al fazem o seguinte comentário:
"El tratado comprende una síntesis de Ios conocimientos astronómico griegos alcanzados con anterioridad
a Ptolomeu, interpretados por él, ampliados y fundamentados de acuerdo con sus métodos matemáticos y
geométricos"(1986:51)

De caráter puramente astronômico, esta obra trouxe à luz a chamada
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concepção ptolomeica do universo, na qual se considerava "la Tierra en el centro dei
Universo y al Sol, Ia luna y los astros dei firmamento girando alrededor de
ella."(CAPEL & URTEAGA, 1984:07). Podemos também encontrar, nesta obra,
quadros com a latitude e a longitude, além de cálculos referentes à variação do dia
de acordo com a distância do Equador. Graças aos árabes, que a traduziram,
dando-lhe o título de Almagesto, o pensamento de Ptolomeu se tornou
conhecido na Europa medieval, o que lhe assegurou duradouro prestígio.
Como era típico, nas obras produzidas por simpatizantes da geografia
matemática, os aspectos físicos e humanos não constavam nos escritos de
Ptolomeu. Para que possamos compreender esta posição teórica adotada por
este autor, não devemos perder de vista que, em seus trabalhos, o objetivo principal
a ser alcançado era a fixação do ecúmeno. Neste sentido, a astronomia, a
cosmografia e a cartografia tornaram-se o cerne de sua obra, já que as mesmas
eram os meios necessários para que seus objetivos fossem alcançados.
"A geografia propriamente, aquilo que hoje consideramos como tal, não representa ai senão matéria de
segundo plano, subordinada àquela primeira e principal parte. Daí o lugar que toma a simples
nomenclatura; o 'nome' apelida o lugar matematicamente fixado e cartograficamente representado."
(PRADO. 1R, 1961:169)

Os autores responsáveis pelas concepções teórico-metodológicas, que deram
corpo à denominada Geografia Clássica, tiraram dos modelos resultantes
das sistematizações realizadas por Estrabão e Ptolomeu os aportes necessários
para suas produções. Sobre esta afirmação, assim se manifesta Prado Jr:
"Respectivamente de um e de outro se originaram as duas grandes partes em que tradicionalmente se
dividirá a matéria: geografia matemática e política. A primeira abrange a parte geral, onde ao lado da
astronomia, cosmografia e cartografia, se colocam as considerações gerais sobre a Terra e sua
configuração. Na outra se reúne a descrição dos diferentes países e povos. Divisão defeituosa, do nosso
ponto de vista, pois subordina a parte essencial do que é propriamente a geografia, a quadros políticos em
que se confundem história e geografia física. Esta última ficará por isso necessariamente subordinada e
reduzida quase unicamente a uma relação de acidentes geográficos e aspectos naturais dos diferentes
países. Assim, enquanto a geografia matemática se desenvolvia sobre bases científicas e sólidas, a
geografia propriamente se confinava num pobre e estéril trabalho de simples relações descritivas"
(1961:171)

Lacoste (1988) produz análise convergente a esta feita por Prado Jr. Ao nos
demonstrar o uso ideológico dado aos conhecimentos geográficos, este autor
chama-nos atenção para a existência de duas geografias, uma a dos Estadosmaiores, que se constituiu como conjunto de conhecimentos referentes ao espaço e
representações cartográficas, considerados estratégicos e por isto mesmo,
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monopolizado pelos detentores do poder de Estado; e a outra, a geografia dos
professores que foi produzida para legitimar o trabalho empobrecido de estabelecer
relações descritivas, mascarando a importância estratégica dos conhecimentos
produzidos pela geografia. Esta última, massificada nas escolas e universidades,
tornou-se a referência, aos olhos da maioria, como verdadeiro saber geográfico,
sendo transformada em tradição na acepção dada por Reymond Willians (1979).
COMO AS GEOGRAFIAS DE ESTRABÃO E PTOLOMEU FORAM
TORNADAS COMO MODELO, DANDO ORIGEM À GEOGRAFIA CLÁSSICA
Para que possamos entender a influência de Estrabão e Ptolomeu no
processo de con stru ção da c ha mada geograf ia cláss ica, é n ecessário
que prime ira me nte chamemos a atenção dos geógrafos árabes, pois foi através
deles que o ocidente voltou a ter contato com as obras daqueles autores.
O interesse geográfico dos árabes era bastante grande, haja vista as
necessidades impostas pelo expansionismo islâmico verificado a partir do século XII,
e que resultou na conquista de imensos territórios que se estendiam do Oriente
Médio até o norte da África e ia rumo à Ásia (Cálcaso e Pérsia). Por outro, a
geografia era considerada um saber agradável à Deus, pois contribuía para o
conhecimento exato do trajeto que os fies deveriam realizar, a fim de alcançar a
cidade de Meca, objeto de peregrinação religiosa.
Geógrafos como Ibn Fosslan, Del Cordadbeh, Ibn Haukal, Massudi, El
Edrise, Ibn el Wardi, Ibn Batuta, Abulfeda, foram grandes estudiosos e na opinião de
Kretschmer:
"Cultivaram la Geografia cientifica en su aspecto más profundo y transcendental, dei mismo modo que Ia
Geografia matemática, v en lo que se refiere a la Geografia física compilaron multitud de observaciones,
pero sin formar con éstas un sistema y sin poder formular una teoria rigurosamente científica.
Principalmente las especulaciones fantásticas desempeñaron importante papel. En cambio,
prestaron un grande servicio con sus trabajos de medición de grados de meridianos, que realizaron con
arreglo a los escritos de los geógrafos griegos."(1942:53-54

Como foi afirmado anteriormente, graças aos geógrafos árabes foi possível
recuperara obra geográfica de origem grega. Os califas árabes foram responsáveis
pela fundação e manutenção de escolas superiores e observatórios em diversas
cidades localizadas no império islâmico, locais que acolhiam as pessoas que se
dedicavam aos estudos geográficos. Foram estes estudiosos árabes que
primeiramente recuperaram a Geografia de Ptolomeu, a qual foi traduzida e
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recebeu o título de Almagesto, se constituindo no fundamento da Astronomia e da
Geografia matemática durante toda a Idade Média. Sobre a importância dos árabes
para a difusão das obras de caráter geográfico produzidas pelos gregos, assim se
manifesta o já citado Kretschmer:
"... Ios árabes tampoco distendieron Ias producciones de los clásicos de Ia Antigüedad, sino que
lograron crear una Geografia más adelantada, basándose en los princípios de los autores griegos,
entre los que figuran dos nombres que desempeñaron en su literatura preponderante papel: Aristóteles y
Ptolomeu, Los árabes tradujeron y comentaron de ellos, (...) fueron de nuevo conocidas por Ios cristianos
de Occidente" (1942:50-51)

Recuperada e difundida pelos árabes, a produção geográfica dos gregos e,
principalmente, as obras de Ptolomeu e Estrabão acabaram se tornando
fundamentais para os estudos geográficos que na Europa se desenvolveram mais
acentuadamente a partir do século XIV.
O Século XVI é o ápice de um período de profundas crises e transformações
na Europa Ocidental. As estruturas sociais, econômicas, políticas e territoriais
herdadas do feudalismo, já em profunda decadência, estavam sendo negadas
pelos novos grupos que se apropriavam do poder, sobretudo pela burguesia
responsável pela emergência de um novo modo de produção: o capitalista.
Vivia-se a expansão mercantil e com ela a "Revolução Comercial". Fato
fundamentalmente importante para o alastramento das relações capitalistas e o
correspondente declínio final do modo de produção feudal.
O mercantilismo foi responsável pela grande expansão européia ocorrida ao
longo dos séculos XV, XVI e XVII. À medida que novas terras eram devassadas, e
os europeus mantinham contatos com os povos que nelas habitavam, uma gama
fabulosa de novos conhecimentos foi sendo acumulada. A geografia tornou-se um
dos saberes mais beneficiados por este processo.
Concomitantemente, iniciava-se também o Renascimento, que no dizer de Heller
"... significa um processo social total, estendendo-se da esfera social e econômica, onde a estrutura
básica da sociedade foi afetada até o domínio da cultura, envolvendo a vida de todos os dias e as
maneiras de pensar, as práticas morais e os ideais éticos quotidianos, as formas de consciência religiosa,
a arte e a ciência." (1982:09)

Uma das características do Renascimento foi exatamente o interesse pela
cultura greco-latina, cujos conhecimentos produzidos eram considerados muito mais
amplos do que os produzidos pela humanidade durante a Idade Média. Os
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conhecimentos de caráter geográfico não constituíram a exceção. Entre os
geógrafos, houve também a necessidade de buscar nos autores greco-romanos a
inspiração para suas teorias. Dessa forma, a constituição da geografia, no seu
início, acabou tomando por modelo autores da Antigüidade Clássica, sobretudo
Estrabão e Ptolomeu.
Parece-nos bastante esclarecedor a fala de Capel & Urteaga sobre as
transformações que ocorriam e os rumos tomados pelos geógrafos preocupados
com a sistematização dos novos conhecimentos em produção.
"AI Viejo Mundo que constituía el ecúmene para los chinos, árabes v europeos, se le afidio ahora un
Nuevo Mundo, que hubo que describir y cartografiar. Poco mas tarde razones a Ia vez teológicas y
científicas levaron a aceptar la existencia de un gran continente austral, una acicate para la exploración
dey Globo en los siglos siguientes.
Las noticias sobre Ias Indias orientales y occidentales maravillaran a los europeos y estimularon
el desarrollo científico ... Se crearon centros de estudios náuticos y cartográficos (Casa de
Contratación de Sevilla, Casa de La Índia de Lisboa) que sistematizarían la información sobre
Ias nuevas tierras. Las relaciones de viajes v descubrimientos v Ias descripciones de la s
regiones descubiertas contribuyeron a configurar una nueva imagem dela Tierra.
Autores muy distintos y con preocupaciones bien diversas intervienen en esta labor descriptiva
de los territorios, que se extendió también Ias regiones dey viejo continente. En el campo de Ia
geografía el modelo de Estrabão, autor de ahora se conece v se edita, incluyendo grandemente con
los eruditos dey Renacimiento. Se multiplican en todos los paire Ias descripciones corográficas, o de
regiones, y topográficas, o de lugares concretos. Su interés era variado: Ias Relaciones topográficas,
de Filipe II, constituyen el primer ejemplo moderno de recogida sistemática de información
territorial con fines políticos y administrativos."(CAPEL & URTEAGA, 1984:1011)

Se o modelo de Estrabão tornou-se fundamental para a tarefa tão necessária
de descrever os novos territórios conquistados (prática por ele denomina corografia),
não menos importantes foi o modelo de Ptolomeu.
"A posição de Ptolomeu diante do problema geográfico coincidirá perfeitamente com as necessidades
da época em que renascem os estudos de geografia. Inaugurava-se a grande navegação oceânica, a
exploração dos mares, de rotas e terras desconhecidas; havia que preocupar-se, acima de tudo, com
os dados e conhecimentos necessários à realização daquelas tarefas. A cosmografia se tornará o
capítulo principal da geografia, e com ela a cartografia em que se concretiza. E ambas terão o
desenvolvimento que todas conhecem, desde a segunda metade do século XV." (PRADO JR, 1961:169).

Com bases nestes dois modelos se constituiu a geografia clássica que tão
profunda influência exerceu sobre a geografia que eram produzidas e na que era
ensinada nas escolas, ao ponto desta ter por muito tempo se contentado com a
descrição das paisagens, isso quando não se limitou à tarefa mais estéril ainda de
apenas ensinar as nomenclaturas dos fenômenos naturais e sociais visíveis.

BIBLIOGRAFIA

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REVISTA DE EDUCAÇÃO, CULTURA E MEIO AMBIENTE- Dez.-N° 10, Vol I, 1997

ANDRADE, Manoel C. Geografia - Ciência da sociedade: uma introdução... São Paulo: Atlas, 1987
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HELLER, Agnes. O homem do renascimento. Lisboa: Alianza Editorial, 1982
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Mestrado), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo São Paulo, 1996
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Raymond. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979

*Genylton Odilon Rêgo da Rocha. Professor Assistente de Prática de Ensino e
Metodologia do Ensino de /Geografia do DMTOE/EDUC/UFPA. Mestre em
Educação (PUC-SP) e Doutorado em Geografia (USP).

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