A GEOGRAFIA NO CONTEXTO DAS
CIÊNCIAS SOCIAIS EM PERNAMBUCO*
Manuel Correia de Andrade

O objeto de reflexão
Estabelecendo o objeto de reflexão, procuramos delimitar no espaço e no tempo o que seria a
Geografia e quais as relações por ela mantidas com
as várias ciências naturais e sociais que lhe estão
próximas e que, muitas vezes, se interpenetram.
Levaremos em conta que uma ciência não
pode ser contida dentro de um estado ou de um
país, em face da coexistência de princípios gerais,
comuns às várias regiões, e aqueles restritos a
uma região ou até a um estado.
O conhecimento científico não é limitado no
tempo, devido à própria evolução do processo de
*

Agradeço a Thais Correia de Andrade a cessão do
texto inédito e a Silke Weber pela intermediação
para a publicação neste periódico [N.E.}

Artigo recebido e aprovado em agosto/2007

apropriação do espaço, da evolução dos processos de reflexão e do avanço tecnológico. Não se
pode esquecer também que o processo está em
mudança constante e que o conhecimento já
armazenado vai absorvendo novos conhecimentos, assimilando-os e transformando-se. E, se o
conhecimento necessita ser transformado continuamente, ele não prescinde da produção do passado para absorver o novo sem nenhuma vinculação anterior.
Daí, a grande importância da universidade
como Casa, ao mesmo tempo, de produção e
transmissão de conhecimento, de estância, onde
se procura comparar as experiências importadas
de outras nações, examinando quando e como devem ser assimiladas ou rejeitadas.
No caso da Geografia, que se expandiu e
despertou grande interesse no século XIX, ela se
apresentou muito dependente das divisões político-administrativas e muito preocupada com o
mais variado acervo de informações que a transRBCS Vol. 22 nº. 65 outubro/2007

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REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 22 Nº. 65

formavam em um verdadeiro almanaque. Era o
caso das famosas Corografias do Brasil, nas quais
os estados eram enumerados em série, de acordo
com a localização geográfica e, muitas vezes, com
os acidentes geográficos colocados de acordo
com a ordem alfabética. A geografia fornecia informações, mas não formava os caracteres, eram
quase catálogos.

O processo de transformação
No Brasil de um modo geral, e em
Pernambuco em particular, o processo de transformação do conhecimento geográfico ocorreu a
partir, sobretudo, do início do século XX, com
estudos, nem sempre considerados geográficos,
mas que abordavam temas referentes ao processo
de renovação da organização do espaço. E, naquela ocasião, podemos citar os trabalhos de
alguns estudiosos que marcaram sensivelmente a
problemática, congregando o geográfico ao natural, ao político e ao social. São deste período, em
Pernambuco, os numerosos estudos do historiador Pereira da Costa que, analisando a evolução
do estado, fez observações diretas sobre o arquipélago de Fernando de Noronha, estudos detalhados sobre a evolução da cidade do Recife e
dos seus arredores, assim como sobre as questões
de limites do estado de Pernambuco com províncias e estados vizinhos.
Merecem referências, também, os livros de
Artur Orlando, Porto e cidade do Recife, publicado
em 1908, e Brasil, a terra e o homem, de 1912. No
primeiro, ele analisa a localização e a importância
do Recife na ocasião em que eram concluídas as
obras de modernização do porto, procurando projetá-lo como o principal porto do Brasil e da América, no Atlântico Sul ­ o mais próximo da África e da Europa ­ e, para caracterizar a importância
da cidade, fez uma análise, aprofundada para a
época, das condições de relevo, de solo, do clima
da região dele dependente, comparando com as
observadas em outros continentes. E procurou
mostrar como estas condições tinham influência
sobre o que chamamos, hoje, de "qualidade de
vida" da população. No segundo, o autor já encara o país de forma mais ampla, talvez influenciado
pelas idéias de Elisée Reclus e de Pierre Denis, de

vez que já, em 1890, havia sido traduzido para o
português e publicado no nosso país a parte da
Geografia Universal referente ao então Estados
Unidos do Brasil e, em Portugal, o livro do Pierre
Denis O Brasil no século XX, que dava grande
importância às atividades econômicas na interpretação do espaço geográfico.
Mantendo uma certa fidelidade à "velha"
geografia, atuou na imprensa pernambucana, durante décadas, o historiador Mario Melo, que
publicou uma Corografia de Pernambuco e uma
Hidrografia, também de Pernambuco, listando acidentes geográficos por ordem alfabética e chamando de "cordilheiras" a formação montanhosa
de porte modesto que se erguia sobre o maciço da
Borborema. Eram, porém, contribuições muito válidas para a época em que foram publicadas.
Em 1921, surgiu um livro marcante, a tese
com que o político, Agamenon Magalhães, disputou a cadeira de Geografia Geral do Ginásio
Pernambucano. Tese em que procurou caracterizar o Nordeste brasileiro, baseando-se nos ensinamentos dos mestres franceses de então: Vidal
de la Blache, Camille Vallaux, Jean Brunhes.
Foram discípulos desses mestres, Pierre Deffontaines, Pierre Mombeig e Francis Ruellan, que revolucionaram a geografia brasileira nos anos de
1940, introduzindo o que se convencionou chamar de geografia moderna, ou científica.
O grande impacto sobre a geografia pernambucana e brasileira, porém, foi causado, nos
anos de 1920 e 1930 pelo antropólogo Gilberto
Freyre que, após cursos de graduação e de mestrado nos Estados Unidos e viagens de contatos e
pesquisas na Europa, voltou ao Brasil e procurou
revolucionar, a partir da cidade do Recife, a forma
de ver e de sentir o país e a região. Ele trouxe
como novidade científica as idéias de regionalismo, de tradicionalismo ­ sem que a tradição confrontasse a modernização ­, de ecletismo cultural
e religioso e preocupações ecológicas. Idéias que
lhe foram transmitidas, em grande parte, por Boas, seu mestre em Columbia, e ele próprio um
grande conhecedor da geografia. Entre os seus
livros famosos, pode-se destacar Nordeste, no
qual estuda a forma como a cultura da cana-deaçúcar avançou pela porção oriental da região,
destruindo a Mata Atlântica, sua fauna e flora, poluindo os rios e organizando a posse e a propri-

A GEOGRAFIA NO CONTEXTO...
edade da terra, com base em uma sociedade
patriarcal, e procurava também diferenciar, no
Nordeste, a região úmida da semi-árida, do Sertão, como se dizia então.
Posteriormente, estendendo suas pesquisas
à Índia e à África, Freyre desenvolveu um ramo
de conhecimento a que chamou de Luso Tropicologia, onde procurava mostrar como o colonizador lusitano apossou-se das terras tropicais,
fundando civilizações não européias e não africanas ou asiáticas. Na verdade, nessas análises ele
demonstrava uma certa simpatia pela colonização
portuguesa, tão combatida por sociólogos e historiadores dos vários pontos do país.
Notável, também, foi a contribuição do botânico João Vasconcelos Sobrinho à formação da
geografia pernambucana, de vez que, iniciando os
estudos de botânica sistemática, ele passou à análise das associações vegetais chocando-se com o
avanço da destruição da floresta Atlântica. Em
seguida, estendeu seus estudos por outras associações vegetais do Nordeste e escreveu, em 1950,
um livro sobre Pernambuco e, em 1971, um outro
sobre o Nordeste. Neste, sua obra principal, As
regiões naturais, o meio e a civilização do Nordeste,
começa com um capítulo sobre o que denominou
Geografia Ecológica, dando grande importância à
ciência geográfica e à sua abrangência em associação com outras ciências afins. Trabalhador e
empolgado com os estudos que desenvolvia,
Vasconcelos formou discípulos, como o fito-geógrafo Dárdano de Andrade Lima, e batalhou, como
militante, em favor de uma política que hoje chamamos de preservação do meio ambiente, dando
uma grande importância ao rio São Francisco que,
segundo ele, se encontrava com forte perda de seu
volume d'água, podendo, com o tempo, tornar-se
um rio temporário. Faleceu antes de presenciar as
grandes transformações ocorridas neste rio, após a
construção de numerosas barragens.

Os primeiros geógrafos e o estímulo
desenvolvido pelos colégios oficiais
Os anos de 1930 foram iniciados com a conversão do médico, Josué de Castro, em geógrafo,
de vez que, dedicando-se, como médico, aos estudos ligados à alimentação e fazendo pesquisas em

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áreas habitadas por pessoas pobres, inclusive nos
mocambos do Capibaribe, no Recife, foi levado a
fazer estudos de Geografia e, em seguida, a lecionar Antropologia e Geografia Humana na
Universidade do Distrito Federal, no Rio de
Janeiro. Escreveu livros como A alimentação brasileira à luz da geografia humana, Documentário
do Nordeste e Geografia humana e, em seguida, já
famoso, escreveu a Geografia da fome e a
Geopolítica da fome. Como político, foi deputado
federal por duas legislaturas e membro da diretoria da FAO, em Roma. Tendo idéias favoráveis à
reforma agrária, à alfabetização intensa e à melhoria das condições de vida da população de baixa
renda, foi cassado após o golpe de 64 e radicouse em Paris como professor da Universidade de
Vincennes. Sua grande contribuição cientifica está
em ter analisado o problema da fome no Brasil,
dividindo o país em cinco regiões alimentares e
constatando que na maior parte do território ocorria fome, ora de forma endêmica, ora de forma
epidêmica, o que tinha como causas, ora condições naturais, caso da Amazônia, ora as estruturas
econômico-sociais, caso do Nordeste úmido, açucareiro.
A divulgação das obras dos geógrafos franceses e alemães deu margem ao surgimento, na década de 1930, de livros didáticos modernos, escritos,
no Rio de Janeiro, por Delgado de Carvalho, e, em
São Paulo, por Aroldo de Azevedo, substituindo os
velhos textos que valorizavam, sobretudo, a memorização. Também os cursos ministrados na Universidade de São Paulo e do Distrito Federal, divulgaram mais os conhecimentos de geografia em
nível científico e contribuíram para um melhor
conhecimento da ciência geográfica. Isto se refletiu
na produção das teses para preenchimento das
cátedras dos colégios estaduais, disputadas por
professores que lecionavam no ensino secundário
ou ocupavam cargos na administração pública.
Em 1939, ocorreu a abertura do concurso
para catedrático do Ginásio Pernambucano, colégio tradicional, fundado no início do Segundo
Reinado, nele se inscrevendo três jovens professores formados em Direito: Gilberto Osório de
Andrade, com tese sobre A Amazônia, um complexo antropogeográfico, Mário Lacerda de Mello,
com Pernambuco, traços da geografia humana e
José Alfredo de Menezes, com um estudo sobre

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REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 22 Nº. 65

variações climáticas. Teses que abordavam temas
dentro dos parâmetros da época e cuidadosamente organizadas de acordo com os ensinamentos
de Jean Brunhes, de De Martone e de Vidal de la
Blache. Passara o período de maior influência de
Elisée Reclus e de Pierre Denis.
Os estudos geopolíticos desenvolveram-se,
no país, com Everaldo Backhaus, com maior
divulgação nos meios militares e nos órgãos que
norteavam a política nacional. O concurso de 1939
não se realizou, em vista do período conturbado
do Estado Novo; no período democrático, nos
anos de 1950, porém, concursos foram abertos e
realizados no Ginásio Pernambucano, com a apresentação das teses de Hilton Sette, sobre a Divisão
de Pernambuco em regiões naturais e, em seguida, com um estudo da geografia urbana da cidade
de Pesqueira; de Gilberto Osório de Andrade, com
uma tese sobre morfologia litorânea na região da
ilha de Itamaracá e, em 1958, com a tese de Manuel Correia de Andrade, intitulada O Vale do
Siriji: um estudo de geografia regional, defendida
em 1961. Nesta tese o autor demonstra uma grande preocupação com a erosão antrópica, com as
transformações no hábitat e com o crescimento da
indústria açucareira no Vale do Siriji. No Instituto
de Educação, que era uma casa inovadora e onde,
nos anos de 1920, iniciou-se o estudo da
Sociologia no Brasil, com a criação de cadeira dirigida e ministrada por Gilberto Freyre, houve concurso para a cátedra de Geografia do Brasil, cujo
candidato único foi o jornalista e poeta Mauro
Mota, com uma tese sobre o Cajueiro Nordestino.
Mota, que lecionava geografia em vários estabelecimentos de ensino médio, já publicara um livro
sobre Geografia literária e um outro em que analisava as modificações paisagísticas no Sertão e
Agrestes nordestinos, em que salientava a tendência da formação de cidades nas encruzilhadas,
tema que seria depois estudado por Rachel Caldas
Lins, em livro intitulado de Cidades gasolina.

A implantação da Associação dos
Geógrafos Brasileiros (AGB) em
Pernambuco e o desenvolvimento
das atividades de pesquisas do
campo

Os anos de 1950 foram bastante favoráveis
ao desenvolvimento dos estudos geográficos em
Pernambuco, devido à implantação das Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, inicialmente
como faculdades particulares, a exemplo das
Dorotéias, em 1939, e a dos Jesuítas, em 1943,
seguidas, em 1950, da Faculdade Oficial, estadual.
Com elas, criava-se, também, na então Universidade do Recife, atual Federal de Pernambuco,
uma faculdade, não confessional. E foi aí que os
professores Gilberto Osório de Andrade, titular de
Geografia Física, e Mário Lacerda de Mello, da
área de Geografia Humana, passaram a complementar o ensino em sala de aula, com os trabalhos de pesquisa de campo. Nesses trabalhos,
contaram com a colaboração de seus assistentes,
Manuel Correia de Andrade e Hilton Sette, e de
outros professores de ciências sociais, como o
historiador e antropólogo Estevão Pinto, o psicólogo social Silvio Rabelo e o antropólogo José
Heskett Lavareda. Excursões didáticas e de pesquisas foram realizadas na Serra Negra, "ilha" ecológica no Sertão pernambucano, das quais resultaram três monografias; com o apoio do professor
Estevão Pinto foram feitos estudos na área de
Águas Belas, visando a uma aproximação científica com os índios Fulni-ô.
Em 1952, a AGB ­ Associação de Geógrafos
Brasileiros, fundada em São Paulo, em 1934, pelo
professor Pierre Defonttaines, resolveu realizar sua
Assembléia Geral, anual, na Paraíba, iniciando o
conclave em Campina Grande e encerrando o
mesmo em João Pessoa. Os dois principais diretores dessa associação, os professores da USP João
Dias da Silveira e Aziz Ab'Saber, vieram ao Recife
para convocar os geógrafos locais a participarem
da assembléia. Alguns professores de geografia
participaram do conclave, como Gilberto Osório
de Andrade, Mário Lacerda de Mello, Hilton Sette
e Tadeu Rocha, e, ao voltarem ao Recife, fundaram o núcleo estadual da AGB. No ano seguinte,
em Assembléia Geral, realizada em Cuiabá, o professor Mário Lacerda de Mello foi eleito sócio efetivo da AGB, habilitando-se a chegar à presidência
da Associação em 1954, em Congresso realizado
em Ribeirão Preto, tornando a participação pernambucana cada vez mais forte. O XVII Congresso
Internacional de Geografia, realizado no Rio de
Janeiro, em 1956, possibilitou que, em 1959, outro

A GEOGRAFIA NO CONTEXTO...
pernambucano, Gilberto Osório de Andrade, fosse
eleito para a presidência da Associação e, em
1961, em Londrina, a presidência voltasse a
Pernambuco, com Manuel Correia de Andrade. Os
presidentes pernambucanos realizaram suas
assembléias gerais, respectivamente, em Garanhuns, em 1955, em Mossoró, em 1960, e em Penedo, em 1962.
Daí em diante, foram numerosos os associados de Pernambuco que ocuparam cargos de
direção no órgão máximo da geografia brasileira,
provocando a formação de grupos de pesquisa na
Universidade.
Outros passos seriam dados na produção da
geografia e na formação de geógrafos no Recife;
entre eles podemos salientar o início dos cursos
de pós-graduação, a estreita colaboração do
Departamento de Ciências Geográficas com outros departamentos ligados às ciências da Terra e
às ciências humanas e sociais, a colaboração com
trabalhos desenvolvidos pelo Instituto, depois
Fundação Joaquim Nabuco, em pesquisas sobre
problemas fundamentais da região, a colaboração
com a Sudene, a criação do curso de pós-graduação, stricto sensu, em nível de mestrado, no próprio departamento e, posteriormente, do curso de
gestão ambiental, a intensificação das relações de
colaboração com professores de outros estados
do Brasil e do exterior, sobretudo franceses e
norte-americanos.
Temas teórico-metodológicos e problemas
regionais foram debatidos por geógrafos pernambucanos, tornando-se objetos de dissertações de
mestrado, bem como a colaboração de geógrafos
dos cursos de doutorado em outras universidades,
coma a USP, a UFRJ, a Unesp (Rio Claro), a UFSE,
e, no exterior, sobretudo em Paris. A visita de
eminentes geógrafos estrangeiros, ministrando
cursos ou fazendo conferências, como Francis
Ruellan, Pierre Mombeig, Michel Rochefort, Philliponeau, entre outros, foi da maior importância
para a geografia local.
Em colaboração com a Fundação Joaquim
Nabuco, os geógrafos, sob a direção de Gilberto
Osório de Andrade e equipe, que reunia professores e alunos do curso de geografia, ocuparam-se por cerca de quatro anos ­ entre 1954 e
1961 ­, com estudos sobre a poluição dos cursos
d'água da região da Mata nos estados do Rio

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Grande do Norte, da Paraíba, de Pernambuco, de
Alagoas, produzindo cerca de cinco monografias,
verdadeiramente pioneiras, que materializaram
trabalhos de campo preconizados, nos anos de
1930, por Gilberto Freyre e Vasconcelos Sobrinho.
Também na Fundação Joaquim Nabuco foram
realizados trabalhos interdisciplinares sobre migrações para o Recife e para Manaus, quando o setor
geográfico esteve sob a direção de Mário Lacerda
de Mello. O estudo do Recife foi dirigido pelo
sociólogo Levy Cruz, contando com a participação
do economista Paulo Maciel, do geógrafo Mário
Lacerda de Mello e do estatístico e demógrafo
Antônio Carolino Gonçalves.
De importância fundamental foi a colaboração desenvolvida com a Sudene, quando o diretor
de departamento de política espacial era o geógrafo Carlos José Caldas Lins que, especialista em
estudos regionais, passou a desenvolver pesquisas
de campo e produzir ensaios em colaboração com
várias universidades do Nordeste. As pesquisas,
que envolviam professores de geografia e de
outros departamentos e alunos de graduação e
pós-graduação, produziram ensaios sobre as chamadas regiões agrárias, definidas no livro
Regionalização agrária do Nordeste, de 1978,
como, entre outras, "Agrestes", "Sertão Norte",
"Meio Norte", "Sertão Sul", "Área do Sistema
Canavieiro" etc. e, em seguida, estudos de regiões
urbanas, como as áreas de Teresina, Ilhéus-Itabuna
e Aracaju. As monografias publicadas foram escritas por Gilberto Osório de Andrade, Mário Lacerda
de Mello, Manuel Correia de Andrade, Rachel
Caldas Lins, Diva de Andrade Lima, Marlene Maria
Silva, José Alexandre Filizola Diniz, Silvio Bandeira
de Melo etc. Representavam uma fotografia do
Nordeste com os seus problemas e com as possíveis soluções para os mesmos, como o do latifúndio, da exploração extrativa vegetal, da agro indústria canavieira, da monocultura cacaueira, da
modernização da pecuária, da pequena agricultura, do contraste entre os brejos e a caatinga e da
caracterização da região do Agreste e das Serras
Frescas. Acreditamos que este conjunto de monografias seja uma das principais contribuições dadas
pela Sudene ao conhecimento da região que pretendia desenvolver.
A geografia pernambucana, porém, não
apresenta uma unidade de pensamento; em seu

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REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 22 Nº. 65

seio chocam-se idéias e posições divergentes,
como as que dividiram os geógrafos, na década
de 1970, com o surgimento da chamada geografia
teorética ou quantitativa ou as discussões sobre a
própria natureza da Geografia, quando se debatia
se ela devia estar aberta a influências teóricometodológicas e ao afluxo dos princípios das ciências sociais em geral ou se deveria defender o
que se chamava de "geograficidade", ou, ainda, se
deveria ser mantida a unidade da geografia ou
separá-la em dois campos, o da geografia física e
o da geografia humana.
Esta divisão era de grande importância porque permitia que o geógrafo se especializasse em
capítulos de cada uma das duas grandes divisões,
os quais se tornam cada vez mais extensos e autônomos, dando margem a novos ramos do conhecimento, como a Geomorfologia, em grande parte
geológica, a Climatologia, em grande parte Meteorológica, a Biogeografia, ligada à Biologia, ao
passo que a Geografia Humana dos franceses era
a Geografia Econômica dos anglo-saxões e a
Geografia Cultural dos alemães; também se infiltrava na Demografia, ao estudar as populações,
nas ciências agrárias, ao estudar a agricultura e a
pecuária, e no urbanismo, ao fazer a análise das
cidades. Ainda estava ligada à Ciência Política e às
Relações Internacionais quando abordava temas
políticos, chegando à Geografia Política e à Geopolítica. Assim, nesse universo de conhecimentos,
a Geografia tinha que cultivar a interdisciplinaridade e realizar uma união entre a unidade e a
diversidade, sem atingir um caráter enciclopédico.
Além dessa busca permanente da unidade,
os geógrafos pernambucanos ou estudiosos da
problemática pernambucana e nordestina, tinham
que dar a maior atenção aos problemas regionais,
em face, inclusive, da perda de importância política de Pernambuco e do Nordeste no contexto
brasileiro. Defrontavam-se também com problemas ligados à própria evolução do conhecimento
científico, quando tiveram que abandonar a idéia
de que a geografia era uma maneira de reunir
informações ligadas à superfície da Terra, passando a descrever e interpretar as paisagens existentes e os problemas advindos das condições naturais e a ação do homem. A contribuição de Josué
de Castro foi enorme nesse sentido, porque,
como médico, ele trouxe para reflexão geográfica

o problema da alimentação. Alguns geógrafos,
porém, preferiam preservar a geografia de preocupações políticas e sociais, consideradas pertencentes à área da sociologia e da ciência política,
defendendo um falso principio de "geograficidade". Assim, eram feitos estudos de geografia agrária levando em conta a exploração da terra em
face da influência de fatores como a localização
geográfica, o clima, o relevo, o solo e as associações vegetais, e ignorava a importância do mercado para os mais diversos produtos, os sistemas
histórico-sociais de exploração da terra, as políticas governamentais, os sistemas de governo etc.
E isso era feito em nome de uma chamada geograficidade e dizendo-se com base nos ensinamentos de Vidal de la Blache, esquecendo que o
famoso geógrafo francês escreveu um livro de
geopolítica, intitulado de La France de l'Est.
Dentro dessa linha teórico-metodológica,
havia autores que se voltavam para os problemas
do meio ambiente, como os agrônomos biogeógrafos Vasconcelos Sobrinho, Dárdano de Andrade
Lima e Sérgio Tavares; e havia os que, com uma
formação dialética, procuravam ver as direções
políticas e sociais, como ocorria, no Rio de Janeiro,
com Orlando Valverde, e em Pernambuco, com
Manuel Correia de Andrade, que, ao publicar seu
livro A terra e o homem do Nordeste, recebeu, do
Departamento de Geografia da UFPE, uma forte
oposição e criticas, embora tivesse sido muito bem
recebido por antropólogos e sociólogos de nossa
Universidade e de outros estados, inclusive da USP.
Ali, ele foi muito bem aceito no departamento de
Geografia, da mesma forma que o seu livro seguinte Paisagens e problemas do Brasil.
Nos anos de 1970, tivemos um novo embate, quando o governo militar estimulou trabalhos
de matematização da geografia, sobretudo no
IBGE e na Unesp ­ Rio Claro, visando a despolitizar, diziam, os estudos científicos. O Departamento de Geografia manteve-se à margem
desse movimento, mesmo no período difícil em
que ele controlou a Associação dos Geógrafos
Brasileiros, assim como se manteve um pouco à
margem quando veio a reação, partida de São
Paulo e que foi chamada de Geografia Crítica. Os
dois grupos mantiveram intensa atividade na área
de publicações. Na época, Milton Santos organizou o livro Novos rumos da geografia brasileira,

A GEOGRAFIA NO CONTEXTO...
com a colaboração de diversos autores, alguns
pernambucanos.
Bastante significativa foi a criação do curso
de Mestrado em Geografia na UFPE, em 1977, o
terceiro deste nível criado no país, que procurou,
durante alguns anos, desenvolver uma filosofia
crítica e comprometê-lo com a análise dos problemas nordestinos. Fato que não impediu o ingresso de estudantes oriundos dos mais diversos
estados do Brasil, desde o Acre até o Rio Grande
do Sul, e que deu origem a dissertações as mais
diversas, como se pode constatar em publicação
realizada em 1996, onde são indicados os títulos
de cem trabalhos, em que as preferências estão
apontadas para temas, como problemas ambientais, geografia agrária, relações cidade campo,
questões urbanas, dando grande ênfase aos problemas nordestinos.
As preocupações com a problemática nacional e regional e com os perigos advindos com a
destruição do meio ambiente, em face da deliberações do Clube de Roma e das Convenções de
Estocolmo (1972), do Rio de Janeiro (1992), de
Johanesburgo, levaram a UFPE a implantar, em
colaboração com outras universidades do Brasil e
de Portugal, cursos de pós-graduação dedicados
ao estudo dos problemas ambientais e de combate em favor do chamado desenvolvimento sustentável. Nessa linha foi criado, em 1997, o Curso de
Mestrado em Gestão e Políticas Ambientais, sob a
direção do professor Joaquim Correia Xavier de
Andrade Neto, tendo como vice a professora
Maria do Carmo Sobral. Curso que, apesar de
envolver vários departamentos da Universidade,
funciona no Departamento de Ciências Geográficas, sendo olhado com a maior dedicação e
carinho pela diretora do CFCH, a geógrafa e professora Edvânia Torres.
O grupo de geógrafos pernambucanos vem
sendo enriquecido com o ingresso de novos mestres e doutores que seguem posições teóricas e
metodológicas diferentes e mantêm o nome do
Estado e da Universidade em nível elevado, salientando, também, o relacionamento que vem sendo
mantido com outros departamentos e com outras
universidades do país e do exterior, assim como
com órgãos federais, como o CNPq, a Capes, a
Finep etc. e estaduais como a Facepe.

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RESUMOS / ABSTRACTS / RÉSUMÉS

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A GEOGRAFIA NO CONTEXTO
DAS CIÊNCIAS SOCIAIS EM PERNAMBUCO

GEOGRAPHY IN THE CONTEXT
OF THE SOCIAL SCIENCES IN
PERNAMBUCO

LA GEOGRAPHIE DANS LE CONTEXTE DES SCIENCES SOCIALES
AU PERNAMBOUC

Manuel Correia de Andrade

Manuel Correia de Andrade

Manuel Correia de Andrade

Palavras-chave: Geografia do Brasil; Geografia em Pernambuco; Bibliografia; História.

Keywords: Brazilian geography;
Geography in Pernambuco; Bibliography; History.

Mots-clés: Géographie du Brésil;
Géographie au Pernambouc; Bibliographie; Histoire.

Neste texto inédito Manuel Correia
de Andrade apresenta um traçado
histórico do processo de transformação do campo da Geografia no
Brasil, tratando, em particular, do
estado de Pernambuco. O autor procura delimitar no espaço e no tempo
o que seria a Geografia e quais as
relações por ela mantidas com as várias ciências naturais e sociais que
lhe estão próximas e que, muitas
vezes, se interpenetram. Analisa, então, os primórdios desse processo
no início do século XX, com estudos, nem sempre considerados geográficos, passando por momentos
cruciais como a fundação da Associação dos Geógrafos Brasileiros na
década de 1930, o florescimento do
campo nos anos de 1950 e o
impacto do golpe militar de 1964 na
área dos estudos geográficos.

In this unpublished paper Manuel
Correia de Andrade presents a historical tracing on the transforming
process in the field of geography in
Brazil, dealing especially with the
state of Pernambuco. The author
tries to delimitate both in space and
time what geography would be, as
well as its relations with the various
natural and social sciences that are
close to or interpenetrated within.
He analyzes, then, the commencements of such process in the beginning of the twentieth century with
studies, not always considered geographical, passing through crucial
moments such as the foundation of
the Brazilian Association of Geographers in the 1930s, the flourishing of
the field in the 1950s, and the impact
of the military coup d'état of 1964 in
the area of geographic studies.

Dans ce texte inédit, Manuel Correia
de Andrade présente un tracé historique du processus de transformation dans le domaine de la géographie du Brésil, en abordant, en
particulier, l'état du Pernambouc.
L'auteur cherche à délimiter dans l'espace et dans le temps ce que serait
la géographie et les rapports qu'elle
maintien avec plusieurs sciences
naturelles et sociales qui lui sont
proches et qui, souvent, s'interpénètrent. Il analyse, ensuite, les origines
de ce processus au début du XX siècle, avec des études qui ne sont pas
toujours considérées comme géographiques, en passant par des moments cruciaux comme la fondation
de l'Association des Géographes
Brésiliens dans les années 1930, le
déploiement de ce domaine dans les
années 1950 et l'impact du coup militaire de 1964 dans le cadre des
études géographiques.