UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA
CENTRO DE CIÊNCIAS NATURAIS E EXATAS
DEPARTAMENTO DE GEOCIÊNCIAS

GEOGRAFIA:
ENSINO & PESQUISA

GEOGRAFIA: ENSINO & PESQUISA, Santa Maria, v.11, n.1, jul., p.1-56, 2001.

GEOGRAFIA: ENSINO & PESQUISA

Geografia : Ensino & Pesquisa / Universidade Federal de Santa
Maria.
Centro de Ciências Naturais e Exatas. Departamento de Geociências. ­ V. 1 (1987)-_____________. ­ Santa Maria, 1987-____.
Anual
V. 11, Nº 1 (2001)
CDU 911

Ficha catalográfica elaborada por
Alenir Inácio Goularte CRB-10/990
Biblioteca Central da UFSM

PERMUTA
Desejamos estabelecer permuta com Revistas similares
Deseamos establecer el cambio con Revistas semejantes
Desideriamo cambiare questa Revista con altri similari
On désir établir l'échange avec les Revues similaires
We wish to establish exchange with all similar Journals
Wir wünschen den Austausch mit gleichartigen Zeitschriften

A correspondência deverá
ser dirigida para:
All correspondence should
be addressed to:

Universidade Federal de Santa Maria
Centro de Ciências Naturais e Exatas
Departamento de Geociências, sala 1106-B
97.105-900 - Santa Maria - RS - Brasil
Fone: (0xx55) 220 - 8143
Fone/Fax: (0xx55) 220 - 8207
Email: [email protected]

Tiragem: 300 exemplares

O presente fascículo da revista "Geografia: Ensino & Pesquisa" foi
publicado com o auxílio concedido pelo Centro de Ciências Naturais e
Exatas (CCNE/UFSM).

iii

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA
CENTRO DE CIÊNCIAS NATURAIS E EXATAS
DEPARTAMENTO DE GEOCIÊNCIAS

REITOR
Paulo Jorge Sarkis

DIRETOR DO CENTRO
Edgardo Ramos Medeiros

CHEFE DO DEPARTAMENTO
Roberto Cassol

COORDENADORA DO CURSO DE GEOGRAFIA
Maria da Graça Barros Sartori

COMISSÃO EDITORIAL
Prof. MSc. Carlos Alberto Pires
Profª. MSc. Ivaine Maria Tonini
Prof. Dr. Luis Eduardo Robaina
Profª. Drª. Maria da Graça Barros Sartori
Prof. MSc. Mauro Kumpfer Werlang
Profª. Drª. Meri Lourdes Bezzi
Prof. Dr. Roberto Cassol
Profª. Drª. Vera Maria Favila Miorin
Prof. Dr. Waterloo Pereira Filho

iv

PROFESSORES DO DEPARTAMENTO DE GEOCIÊNCIAS

Professores
MSc. Adriano Severo Figueiró
MSc. Andrea Valli Nummer

Endereço eletrônico

[email protected]
[email protected]

MSc. Átila Augusto Stock da Rosa

[email protected]

Dr. Bernardo Sayão Penna e Souza

[email protected]

MSc. Carlos Alberto da Fonseca Pires

[email protected]

MSc. Cesar de David

[email protected]

MSc. Edgardo Ramos de Medeiros

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MSc. Eliane Maria Foleto

[email protected]

MSc. Ivaine Maria Tonini

[email protected]

Dr. José Luiz Silverio da Silva

[email protected]

MSc. Lilian Hahn Mariano da Rocha

[email protected]

MSc. Luciane R. Bittencourt
Dr. Luis Eduardo Robaina

[email protected]
[email protected]

Dra. Maria da Graça Barros Sartori

[email protected]

MSc. Mauro Kumpfer Werlang

[email protected]

Dra. Meri Lourdes Bezzi
Dr. Roberto Cassol
Eng. Valdir José Fração
Dra. Vera Maria Favila Miorim
MSc. Vilma D. M. Figueiredo
Dr. Waterloo Pereira Filho

[email protected]
[email protected]
[email protected]
[email protected]
[email protected]
[email protected]

v

SUMÁRIO / TABLE OF CONTENTS

Considerações sobre a temática ambiental em Geografia.
Considerations about the environmental theme in Geography.
Deina Farenzena, Ivaine Maria Tonini e Roberto Cassol.........................................................................

1-8

Classificação das zonas agroecológicas na sub-bacia rio Ibicuí-mirim: adequação das culturas ao tipo
de solo - RS.
Classification of the agro-ecological zones at the Ibicui-mirim hydrological sub-basin:
matching the cultures to the type of soil - RS.
Isimar Stefenon Hundertmarck e Vera Maria Favila Miorin Miorin...........................................................

9 - 15

A estrutura da produção agrícola e o perfil socioeconômico do município de Salvador das Missões RS.
The structure of the agricultural production and the social-economical profile of the borough
of Salvador das Missões - RS.
Ivete Teresinha Strieder e César de David...............................................................................................

17 - 23

Uso da terra em vertentes íngremes: O caso da microbacia hidrográfica do Arroio Jacutinga - RS.
Land-Use in Sheer Slops: the case of River Jacutinga - RS.
Marcuse de Jesus da Cunha Guazina, Andréa Rossato Branco e Waterloo Pereira Filho......................

25 - 31

Astronomia e livro didático: erros ou enganos?
Astronomy and didactic books : errors or mistakes ?
Paulo Cesar Zanon e Ivaine Maria Tonini................................................................................................

33 - 39

Estudo da ação antrópica sobre o meio ambiente em área de produção familiar, na sub-bacia do
Areal, município de Quarai - RS.
A study of the anthropic action over the environment in a familiar production area at the areal
hydrological sub-basin, county of Quaraí - RS.
Rógis Juarez Bernardy e Vera Maria Favila Miorin..................................................................................

41 - 50

Adequação do ensino de Geografia a realidade rural: um estudo junto as escolas-núcleo do
município de Santa Maria - RS.
Adequacy of teaching Geography to the rural reality: a study done by the nucleus schools in
the borough of Santa Maria - RS.
Rosangela Spironello e Meri Lourdes Bezzi.............................................................................................

51 - 55

vi

EDITORIAL

A Revista Geografia: Ensino & Pesquisa é
uma publicação do Departamento de Geociências,

mesmo tempo, esse periódico, ressurge com novo
visual e formatação.

unidade do Centro de Ciências Naturais e Exatas da

A revista permuta trabalhos em caráter

Universidade Federal de Santa Maria e, visa, desde o

nacional e internacional e constitui-se em periódico

seu primeiro volume, editado em 1987, divulgar

aberto ao corpo discente, oportunizando que o

essencialmente a produção científica de acadêmicos

formando demonstre que assimilou os conteúdos e

do Curso de Geografia, nas habilitações Licenciatura

as técnicas de elaboração de sua Ciência. Esse

ou Bacharelado desta Instituição de Ensino Superior.

periódico busca, também, evidenciar ao acadêmico

Com a qualificação teórico-metodológico-

que a criação científica deve ser aprofundada, que

instrumental e técnica de seu corpo docente e a

envolve

diversificação dos Laboratórios de Pesquisa do

persistência e determinação. Ao apresentar o

Departamento,

a

revista

planejamento,

é

trabalhosa

e

exige

englobará,

também,

resultado de seu trabalho ele se conscientiza de que

Iniciação

tem competência e está habilitado, não só para o

trabalhos

elaborados

em

bolsas

Científica,

financiada

por

órgãos

de

externos

à

exercício profissional, mas principalmente, para

universidade, como CNPq e FAPERGS e de

produzir e retransmitir o pensamento científico

incentivos internos como FIPE e FIEX, ampliando seu

alicerçado na ciência geográfica.

espectro temático.

Este Volume 11, Número 1, inclui sete

As contribuições abrangem, principalmente,

contribuições: duas na área de Geografia Física,

trabalhos de pesquisas nas áreas de conhecimento

quatro na área de Geografia Humana e uma na área

da Geografia, segundo classificação da CAPES:

de Ensino da Geografia.

Geografia

Física

Climatologia

Destaca-se que a Geografia apresenta-se

Geográfica, Pedologia, Hidrogeografia, Geoecologia,

como um espaço privilegiado para reflexões e

Fotogeografia, Geocartografia); Geografia Humana

experiências relativas aos estudos integrados e

(Geografia

interdiciplinares.

da

(Geomorfologia,

População,

Geografia

Agrária,

Esta

publicação

soma-se

aos

Geografia Urbana, Geografia Econômica, Geografia

demais periódicos que tem nesta ciência seu objeto

Política);

de estudo.

Geografia

Regional

(Teoria

e

Desenvolvimento Regional, Regionalização, Análise
Regional); Ensino da Geografia e áreas afins à
ciência geográfica.
Desde 1987, Geografia: Ensino & Pesquisa
está indexada e caracterizava-se por ter uma
periodicidade anual. Salienta-se, no entanto, que a
mesma ficou por cinco anos, sem ser publicada e, o
seu último volume editado, foi o de número dez,
publicado em 1996. No entanto, pretende-se com
esta publicação, resgatar a sua continuidade e, ao

Novembro de 2001

Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 1-8, 2001

1

CONSIDERAÇÕES SOBRE A TEMÁTICA AMBIENTAL EM GEOGRAFIA1
CONSIDERATIONS ABOUT THE ENVIRONMENTAL THEME IN GEOGRAPHY
Deina Farenzena2; Ivaine Maria Tonini3 e Roberto Cassol4
RESUMO
Este artigo fundamenta-se em um resgate bibliográfico
sobre a evolução do pensamento geográfico, desde a
institucionalização
e
consolidação
da
Ciência
quando à natureza era designado um elevado valor
econômico-material; o segundo período, ambientalista,
de meados do século XX (décadas de 50/60) até a
atualidade, quando a deterioração do meio ambiente
atinge níveis preocupantes e de relevante importância
social.
Palavras-chaves: Evolução do pensamento geográfico,
Temática ambiental.

Geográfica até a atualidade, ressaltando a visão da
temática ambiental implícita neste período. Nesta
perspectiva, dois períodos distintos são salientados. O
primeiro período, naturalista, que perdurou do século
XIX
até
meados
do
século
XX,
ambientais em pesquisas, em planejamentos e
igualmente no ensino.
Este capítulo tem por objetivo proceder a
abordagem teórica e, neste contexto, prioriza o resgate
histórico da evolução do pensamento geográfico, desde
a institucionalização e consolidação da Ciência
Geográfica até os dias atuais, ressaltando a visão
ambiental deste período.
2 A TEMÁTICA AMBIENTAL EM GEOGRAFIA

ABSTRACT
This article is based on a bibliographic research about
the evolution of the geographic think, since its
institucionalization and consolidation of Geography as a
Science up to the present days, highlighting the vision of
the environmental theme implicit in this period. In this
perspective, there are two distinct periods. The first one,
the naturalist that lasted from the nineteenth century to
the twentieth, when to nature it was designed an
elevated material-economical value, the environmentalist
from the middle of the twentieth century (the 50 and 60
decades), the second period to the present days when
the deterioration of the environment reaches considerate
levels of relevant social importance.
Key words: Evolution of
environmental theme.

the

geographic

think,

1 INTRODUÇÃO
A temática ambiental mundialmente preocupa
instituições governamentais e não governamentais
tornando-se objeto de estudo para pesquisadores e
planejadores. Também, devido a sua relevância deve
ser incorporada ao processo educacional, de modo a
contribuir para a formação de cidadãos conscientes e
comprometidos com o futuro da sociedade e da
natureza.
A Geografia, como campo de conhecimento, têm
apresentado preocupação com as transformações da
sociedade, com o espaço humanizado e com a natureza
socializada permitindo refletir sobre as questões

1

2
3
4

A temática ambiental está sendo o centro
polarizador de estudos em diversos campos do
conhecimento, que preocupados com a destruição do
patrimônio natural e com a qualidade de vida, tentam
resgatar as boas condições ambientais que hoje se
encontram abaladas pelos sucessivos anos de
apropriação e uso depredatório dos recursos naturais
disponíveis na superfície terrestre e passível de geração
de lucros.
Como destaca MENDONÇA (1993, p.8):
Nem todas as ciências, entretanto, tiveram uma
preocupação ambientalista durante sua evolução e isto
é bastante interessante quando, na atualidade, se
percebe que quase todas ­ senão todas ­ têm voltado
sua atenção para essa temática; a despeito das críticas
negativas,
deve-se
salientar
que
isto
é
consideravelmente bom e contribui para um melhor
equacionamento da questão. A geografia, ao lado de
outras ciências, desde sua origem tem tratado muito de
perto a temática ambiental, elegendo-a, de maneira
geral, uma de suas principais preocupações.
No entanto, mesmo que a Geografia tenha se
preocupado desde a sua gênese com o quadro natural,
um resgate histórico comprova a existência de dois
momentos distintos relacionados a esta temática: um
primeiro, que se inicia com a consolidação da Geografia
como ciência no século XIX e vai até meados do século
XX; e um segundo momento, que se inicia no século
XX, mais precisamente nas décadas de 50 e 60 e
perdura até a atualidade.

Capítulo integrante do trabalho de Graduação A: "A Educação Ambiental em Geografia nas Escolas Estaduais de Ensino
Fundamental da Quarta Colônia de Imigração Italiana/RS". Apresentado ao Departamento de Geociências, CCNE/UFSM.
Licenciada em Geografia pela UFSM, Santa Maria, RS.
Co-orientadora, Profª. M.Sc. do Departamento de Geociências, CCNE/UFSM.
Orientador, Prof. Dr. do Departamento de Geociências, CCNE/UFSM.

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2

Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 1-8, 2001

2.1 A Institucionalização e a Consolidação da
Ciência Geográfica: o Período Naturalista.
O
período
em
que
pontificaram
os
institucionalizadores da Geografia e em que ocorreu a
consolidação do conhecimento geográfico ­ século XIX
até meados do século XX ­ pode ser denominado
segundo MENDONÇA (1993) de período naturalista.
Neste período, a concepção naturalista vinculada
a Geografia deveu-se, fundamentalmente, a influência
do modo de produção capitalista; a burguesia, como
importante classe social da época e; a filosofia
positivista, que estruturou metodologicamente os
trabalhos das inúmeras ciências, inclusive da Geografia.
O capitalismo, influenciou as ciências, e
particularmente a Geografia, devido a necessidade de
alastrar e intensificar as relações comerciais pelo
mundo. Para que isso pudesse ocorrer, havia a
necessidade de conhecimento da superfície terrestre,
não necessariamente de sua totalidade mas, pelo
menos, das áreas litorâneas de fácil acesso.
Com o expansionismo do comércio, a burguesia
capitalista européia estendeu suas relações comerciais
a outros povos. Isto fez aumentar seu poder financeiro e
sua influência política e, segundo ANDRADE (1987),
passou a estimular o desenvolvimento de técnicas e
pesquisas, visando racionalizar e maximizar a
exploração dos recursos naturais.
A gama de informações acumuladas a respeito
da superfície da terra, proporcionada pelo incentivo do
capitalismo e da burguesia, através das inúmeras
viagens e do aprimoramento técnico, constituíram o
pressuposto histórico e material para a sistematização
do conhecimento geográfico.
O pressuposto filosófico e metodológico, que
permitiria a transformação da Geografia em ciência
autônoma e unitária, surgiu no final do século XVIII
juntamente com uma grande revolução econômica e
cultural que consolidou o domínio burguês e o modo de
produção capitalista.
O Iluminismo representante da visão da
burguesia intelectual da época, passou a considerar a
razão como chave para o entendimento do mundo e a
questionar as leis da Igreja e os fenômenos naturais.
Segundo ANDRADE (1987, p.49):
A superestrutura ideológica-cultural se consolidava
consagrando a racionalidade da ação do homem sobre
a natureza, o que permitiria a sua exploração com
grandes vantagens, a dominação técnica, a valorização
do pensamento científico, com a preocupação do
estabelecimento de leis universais, a partir das
formulações de Newton, e crença generalizada no
progresso, que seria linear e contínuo. O homem,
empregando os meios de que dispunha, procuraria
dominar a natureza e fazê-la produzir, de acordo com
suas metas e com os seus interesses.
A intensa preocupação em conhecer a superfície
da terra e em controlar a natureza, fez com que as
ciências da observação e da experimentação se
expandissem. A Geografia passou a ter lugar destacado
dentre as ciências por ter função essencialmente
descritiva, o que satisfazia a necessidade da classe
hegemônica que buscava "explicações" objetivas e
quantitativa da realidade.

No início do século XIX, as condições culturais,
econômicas e políticas propiciaram a mudança nas
diretrizes intelectuais levando as idéias ao positivismo
estruturado por Augusto Comte.
Os postulados positivistas, profundamente
empiristas e naturalistas, foram a base sobre a qual foi
estruturada a Geografia deste período e que influenciou
os fundadores da Geografia, enquanto ciência.
No entanto, apenas a existência de pressupostos
históricos e filosóficos não poderia proporcionar a
colocação da Geografia no rol das ciências particulares
e autônomas.
O impulso desencadeador da sistematização do
conhecimento geográfico adveio da Alemanha, onde
particularmente as relações capitalistas penetraram
tardiamente, pois no início do século XIX, o território
alemão ainda não se constituía como Estado Nacional,
inexistindo uma unidade econômica e política, devido a
forma coesa da estrutura feudal.
Com a penetração do capitalismo na estrutura
feudal, sem alterá-la, o comércio passou a desenvolverse sendo prejudicado pela falta de um Estado Nacional
constituído e coeso, no qual as relações com outros
Estados pudessem ser duradouras e onde pudesse
existir um centro organizador e polarizador das relações
econômicas. Desta forma, a questão do espaço, seu
domínio e organização, passaram a ser primordial para
a classe hegemônica alemã e também para os
estudiosos que iriam fazer as primeiras colocações no
sentido de uma Geografia sistematizada, destacando-se
dentre eles Alexandre von Humboldt e Karl Ritter.
De acordo com MORAES (1989, p.15):
Humboldt e Ritter são, sem dúvida, os pensadores que
dão o impulso inicial à sistematização geográfica, são
eles que fornecem os primeiros delineamentos claros do
domínio dessa disciplina em sua acepção moderna, que
elaboram as primeiras tentativas de lhe definir o objeto,
que realizam as primeiras padronizações conceituais.
Humboldt era naturalista, viajou pelo mundo
procurando conhecer a natureza física, porém tinha
grande curiosidade pelo homem e sua organização
social e política.
Segundo ANDRADE (1987, p.52):
As idéias centrais de Humboldt foram o resultado da
influência do racionalismo ilustrado francês do século
XVIII, do idealismo alemão e do projeto positivista. Daí a
sua grande preocupação com o estabelecimento de leis
gerais que explicassem o mundo em que vivia,
relacionando o povo, categoria social, com o meio
ambiente..., não se preocupando porém com as
relações sociais em si.
Ritter, filósofo e historiador, não excursionou pelo
mundo. Apresentou um trabalho essencialmente
metodológico, numa proposta que reforça a análise
empírica e, segundo Moraes (1989) inaugurou a
discussão geográfica sobre a relação homem-natureza,
colocando-a mesmo como um dos objetos principais de
tal disciplina.
A união dos conhecimentos destes dois
estudiosos alemã, lançou as bases da Ciência
Geográfica, ciência esta profundamente preocupada
com os aspectos físicos-naturais das paisagens e com a
relação dos homens com a natureza.

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2.1.1 A Geografia Tradicional
Após o desaparecimento de Humboldt e Ritter,
no final do século XIX o processo de sistematização da
Geografia ganhou novo impulso através das colocações
de Friedrich Ratzel.
Assim como seus antecessores, Ratzel também,
estavam ligados a classe hegemônica alemã, mas ao
contrário de Humboldt e Ritter, vivenciou a unificação do
estado alemão e a transformação da Alemanha em um
Estado industrial.
Dentre os estudos de Ratzel, o maior destaque
fica para a Geografia Política, onde, segundo SODRÉ
(1986) teria considerado o Estado como organismo
parte humano parte terrestre e, a conquista de novos
territórios
essencial
para
a
manutenção
e
desenvolvimento de um Estado.
Neste momento histórico era de fundamental
importância para os mais diversos estados, e também
para o Estado alemão, defender a posse de seu
território buscando ampliá-lo cada vez mais, pois isso
traria riqueza - através da exploração de seus recursos
naturais - e poder ao Estado.
MORAES (1991, p.56) comenta:
Para Ratzel o território representa as condições de
trabalho e existência de uma sociedade. A perda de
território seria a maior prova da decadência de uma
sociedade. Por outro lado, o progresso implicaria a
necessidade de aumentar o território, logo, de
conquistar novas áreas.
Em seu pressuposto, Ratzel buscou justificar
com o conceito de "espaço vital", que seria a relação
entre a população de um Estado e a capacidade de
utilização do seu território (ANDRADE, 1987).
Ratzel também privilegiou em seus estudos as
relações entre o homem e o meio natural de forma
dissociada, sendo que ao explicar o determinismo dos
lugares sobre os homens, reduziu o homem a um
animal, não o considerou como elemento social ao
igualar os fenômenos humanos aos naturais.
Mesmo que Ratzel tenha inovado em algumas de
suas formulações, este intelectual manteve a visão
naturalista que caracteriza o período da Geografia. De
acordo com GOMES (1996) o pensador tentou
estabelecer uma teoria positiva que se aplicaria ao
homem, fundamentada na teoria evolucionista, a
exemplo do que já havia sido feito nas ciências ditas
"naturais".
Reforçando, mais uma vez, a idéia de que a
natureza, considerada território, era um espaço a ser
dominado e explorado no seu potencial máximo para
privilégio de alguns grupos sociais (classe hegemônica)
ou de alguns Estados mais poderosos, política,
econômica e militarmente, isto ocorrendo com o auxílio
dos conhecimentos geográficos.
Em
contraposição
as
idéias
políticas,
expansionistas e naturalistas de Ratzel, surgiram às
formulações do historiador francês Paul Vidal de La
Blache.
Assim como as idéias de Ratzel evidenciaram
atender a classe hegemônica prussiana, a Geografia
desenvolvida por La Blache, mesmo de forma mais
dissimulada, também buscou responder positivamente à
ideologia das classes dominantes francesas, contudo

3

acentuou o propósito humano, propondo uma
despolitização no temário geográfico.
La Blache, segundo MORAES (1991, p.68):
Definiu o objeto da Geografia como a relação homemnatureza, na perspectiva da paisagem. Colocou o
homem como um ser ativo, que sofre influência do meio,
porém que atua sobre este, transformando-o. Observou
que as necessidades humanas são condicionadas pela
natureza, e que o homem busca as soluções para
satisfazê-las nos materiais e nas condições oferecidos
pelo meio. Neste processo, de trocas mútuas com a
natureza, o homem transforma a matéria natural, cria
formas sobre a superfície terrestre: para Vidal é aí que
começa a "obra geográfica do homem".
Mesmo que La Blache tenha se preocupado em
combater a concepção naturalista, continuou inexistente
também na Geografia francesa a preocupação com o
processo de produção das relações sociais e as
conseqüências destas para o meio físico. Ao contrário
da proposta ratzeliana, estendeu seus estudos a
pequenas áreas, supervalorizando o trabalho de campo
e a intuição do geógrafo no trabalho com os aspectos
físicos, posteriormente sobrepondo a estes os aspectos
humanos e econômicos, o que reforçou a concepção
naturalista em vez de descartá-la.
No entanto, La Blache contribuiu com
importantes conceitos para a Ciência geográfica tais
como o que caracterizou a Geografia francesa ­ o
Possibilismo e a Região. O primeiro entendido como a
possibilidade da ação do homem sobre o meio e o
segundo como o gênero de vida.
Comenta ANDRADE (1987, p.71):
Admitindo que a região ou o meio físico é o suporte que
o homem utiliza para viver, para fazer suas construções,
para extrair os produtos de que necessita, Vidal de La
Blache estimulou grande preocupação nos geógrafos
com a descrição deste meio, das formas de utilização do
mesmo e deu base à formulação da noção de gênero de
vida, vital ao esquema de trabalho. Para ele, o gênero
de vida seria o conjunto articulado de atividades que,
cristalizadas pela influência do costume, expressam as
formas de adaptação, ou seja, a resposta dos grupos
humanos aos desafios do meio geográfico.
La Blache, embora contestando as idéias do
prussiano Ratzel, em termos de método não rompeu
com as formulações deste, sendo o positivismo o ponto
que aproxima as duas concepções.
No final do século XIX e início do século XX, um
grande geógrafo francês deu sua contribuição para o
desenvolvimento de uma Geografia comparável com o
que se conhece atualmente por ambientalismo.
Ao contrário dos geógrafos que o antecederam,
Élisée Reclus não se associou a estrutura social
dominante, mas posicionou-se contra a estrutura de
poder passando a defender as classes menos
favorecidas.
Influenciado pelo marxismo e por uma
metodologia de análise dialética, produziu trabalhos que
foram refutados em sua época, o que dificultou a
expansão de seu pensamento. Para Reclus, segundo
ANDRADE (1985, p.21):

ISSN 0103-1538

4

Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 1-8, 2001

A geografia era uma única ciência, e a natureza e o
homem, por ela estudados, formavam um conjunto
harmônico em que o meio natural exercia influência
sobre o homem, provocando a sua ação, modificando-o,
transformando-o e conduzindo-o à produção do espaço.
O autor possuía uma visão totalizante da
realidade, ou seja, não reduziu seus estudos aos limites
da dicotomia geografia física versus geografia humana,
sendo que se preocupou com problemas que
interrelacionavam o meio físico com as atividades
humanas, tais como os comentados por ANDRADE
(1987, p.58):
... o da degradação do meio ambiente intensificado com
a expansão, em escala mundial, do capitalismo e hoje
fonte de grande preocupação para estudiosos e
administradores; o crescimento urbano e industrial,
provocando o surgimento de grandes aglomerações
populacionais e intensificando os problemas de
transporte, de saúde e de abastecimento; o do controle
dos países dominados, hoje chamados Terceiro Mundo,
pelos países industrializados etc.
O trabalho de Reclus representa para sua época
uma visão crítica e moderna para os dias de hoje, por se
ter preocupado com os problemas que afligiam a
sociedade: desenvolvimento industrial e tecnológico,
surgimento e expansão dos grandes centros urbanos e
uso intensivo e depredatório dos recursos naturais que
se fortaleceriam rapidamente.
Outro geógrafo alemão, que como Reclus teve
suas formulações pouco aceitas e difundidas em sua
época, devido ao domínio do Possibilismo, ao
isolamento cultural da Alemanha e também devido às
preocupações com a realidade que pontificaram como
temas de seus trabalhos foi Alfrede Hettner.
Hettner que privilegiou o método dedutivo
encaminhou o conhecimento geográfico em direção à
ecologia, considerando a Geografia como o estudo das
formas de inter-relação dos elememtos no espaço
terrestre. (MORAES, 1991)
As idéias de Hettner só foram retomadas pelo
geógrafo americano Richard Hartshorne após a Iª
Guerra Mundial que desenvolveu e aprimorou as idéias
de seu mestre.
Em seus estudos, baseados fundamentalmente
na análise das inter-relações entre os fenômenos no
espaço terrestre, Hartshorne buscou desenvolver uma
Geografia Geral, de menor carga empirista e
privilegiando mais o raciocínio dedutivo.
O trabalho de Hartshorne finalizou este período
"naturalista" da Geografia, e mesmo sem haver rompido
com o pensamento tradicional, suas formulações já
configuravam a transição que ocorreria do pensamento
geográfico tradicional para a busca de novos
paradigmas.
Mesmo refletindo inúmeras deficiências, a
Geografia Tradicional possuiu e ainda mantém uma
relevante importância porquê, formou a base do
conhecimento sobre a qual foi e está sendo construída a
Ciência Geográfica, formulou e desenvolveu alguns
conceitos e elaborou um rico acervo empírico.
As lacunas da Geografia Tradicional são
encontradas nas dicotomias que foram geradas, tais
como Geografia Física "versus" Geografia Humana, o

que dificultou os estudos de inter-relação entre os
aspectos físicos e humanos.
No entanto, a Geografia Tradicional foi eficiente
quando atendeu aos desafios da classe dominante,
concentrando-se na luta pela exploração dos recursos e
dos homens na superfície terrestre.
2.2 O Período de Transição: do Naturalismo para o
Ambientalismo.
O ano de 1950 marcou o início de uma grande
crise mundial que implicou na transformação das
categorias social, política, econômica e cultural e atingiu
a Ciência Geográfica, levando-a a uma nova forma de
tratar os aspectos naturais.
2.2.1 A Crise da Ciência Geográfica
A crise da Geografia que se iniciou na metade do
século XX e levou os geógrafos a formularem críticas
em relação à Geografia construída até então, permitiu
traçar novos caminhos metodológicos que atendessem
as necessidades impostas pela nova realidade social.
Esta crise, além de ter introduzido um
pensamento crítico à Geografia Tradicional, também
alargou seus horizontes de interesse na busca de novos
paradigmas.
Este movimento de renovação no pensamento
geográfico foi causado primeiramente pela alteração da
base social que engendrou os fundamentos da
Geografia Tradicional, a burguesia e o capitalismo
concorrencial haviam sido derrubados pelo capitalismo
monopolista e pela ação do Estado no planejamento
econômico e territorial. Estes últimos necessários à
reconstrução da paisagem destruída pela Segunda
Guerra Mundial.
Segundo MORAES (1991, p.94):
O planejamento econômico estava estabelecido como
uma arma de intervenção do Estado. E, com ele, o
planejamento territorial, com a proposta de ação
deliberada na organização do espaço. A realidade do
planejamento colocava uma nova função para as
ciências humanas: a necessidade de gerar um
instrumental de intervenção, enfim uma feição mais
tecnológica. O espaço terrestre se globalizara nos fluxos
e nas relações econômicas. Vivia-se o capitalismo das
empresas multinacionais, dos transportes e das
comunicações interoceânicas. A realidade local era
apenas o elo de uma cadeia, que articulava todo o
planeta.
Um
exemplo
disso
foi
a
rápida
internacionalização da economia dos Estados Unidos, o
grande vitorioso do conflito mundial que buscou
expandir
suas empresas em
outros países
superprotegendo o seu mercado interno, não se
preocupando com os problemas gerados pela
exploração dos recursos naturais e humanos.
Afirma MENDONÇA (1993, p.38):
Em busca do acréscimo da produtividade de matériasprimas muito se destruiu em termos de sociedade e de
ambiente dos países subdesenvolvidos ou em
desenvolvimento, e a industrialização ­ que neles
deveria promover desenvolvimento social ­ acabou por
garantir a situação de dependência atual onde estão

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Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 1-8, 2001

presentes desempregos, analfabetismo, êxodo rural,
epidemias,
violência,
subnutrição,
degradação
ambiental, etc. e onde a luta em defesa do meio
ambiente não consegue ­ e por coerência nem deveria
­ suplantar lutas por direitos básicos de vida e
cidadania.
A industrialização tornou a realidade social ainda
mais complexa, pois fez com que ocorresse a
mecanização da agricultura, que se intensificasse o
processo de urbanização e de mundialização da
economia.
O
crescimento
da
industrialização,
e
consequentemente a concentração populacional em
determinadas áreas sem infra-estrutura, passou a
pressionar o ecossistema do local e a baixar o nível da
qualidade ambiental de vida, como afirma ANDRADE
(1987, p.103):
Este crescimento rápido teria de ser feito à custa da
degradação do meio natural ­ uma política
preservacionista tornaria mais elevado o custo de
produção ­ e da condição de vida da população,
sobretudo no chamado mundo subdesenvolvido....
O instrumental geográfico elaborado até o
momento não era suficiente para apreender e analisar o
espaço mundializado, o que exigiu que a Geografia
passasse da observação a campo para o uso de
técnicas mais modernas, tais como o sensoriamento
remoto e a computação.
Entre os fatores essencialmente geográficos que
influenciaram a crise da Geografia estão: os
fundamentos filosóficos baseados no positivismo, no
qual estava assentado o pensamento geográfico
tradicional, e com o passar do tempo se tornou simplista
e arcaico; as próprias formulações geográficas que
permitiram inúmeras dicotomias e muitas vezes
enfraqueceram o discurso geográfico; a indefinição do
objeto de análise da Geografia Tradicional e; por fim a
falta de leis que permitissem a generalização na
explicação dos fenômenos estudados.
Assim, o movimento de renovação da Geografia
buscou romper com o pensamento tradicional o que
levou muitos geógrafos a refletirem sobre a natureza da
Geografia, reformulando seus princípios científicos e
filosóficos e buscando novos paradigmas que os
permitisse disputar espaço com outras disciplinas da
área de planejamento e da crítica social. (ANDRADE,
1987)
Dentro deste preâmbulo, afirma MORAES (1991,
p.98):
O movimento de renovação, ao contrário da Geografia
Tradicional, não possui uma unidade; representa
mesmo uma dispersão, em relação àquela. Tal fato
advém da diversidade de métodos de interpretação e de
posicionamentos dos autores que o compõem. A busca
do novo foi empreendida por variados caminhos; isto
gerou
propostas
antagônicas
e
perspectivas
excludentes. O mosaico da Geografia Renovada é
bastante diversificado, abrangendo um leque muito
amplo de concepções. Entretanto, é possível agrupá-las
em função de seus propósitos e de seus
posicionamentos políticos, em dois grandes conjuntos:
um pode ser denominado Geografia Pragmática, outro
Geografia Crítica.

5

Este estudo busca evidenciar a importância da
Geografia Crítica em detrimento da Geografia
Pragmática ou Nova Geografia, pois esta última embora
refutando as tradições geográficas e adotando novas
técnicas e novas perspectivas apoiadas na visão
sistêmica, por modelos e por modelos lógicomatemáticos, hesitou em contestar os fundamentos
geográficos e os fundamentos sociais que sustentavam
a Geografia Clássica, ainda visíveis em sua base de sua
sustentação. (GOMES, 1996)
Também aborda-se algumas vertentes que se
desenvolveram paralelamente a Geografia Crítica, que
destacam-se pela preocupação com o meio ambiente e
com a problemática ambiental, tais como a Geografia da
Percepção ou Comportamental e a Geografia Ecológica
2.2.2 A Geografia Crítica
A Geografia Crítica ou Radical desenvolveu-se a
partir da década de 60, através de um grupo de
geógrafos que, mesmo não apresentando uma
uniformidade de pensamento, buscaram se opor a coisa
social e romper com o pensamento geográfico anterior,
de profundo caráter classista. A consciência da
necessidade de transformações desenvolveu-se assim,
sob o estímulo de uma seqüência de eventos sociais,
políticos, naturais e econômicos mutantes.
Segundo Peet apud CHRISTOFOLETTI (1985,
p.226):
A ciência radical, e a Geografia Radical dentro dela, põe
a descoberto esta "falsa cultura" porque ela é ­ um
plano para a proteção do sistema econômico contra a
ascensão da consciência revolucionária em seu próprio
povo. A ciência radical mostra os desvios, expõe as
explicações existentes à crítica, providencia explicações
alternativas que tracem a relação entre os "problemas
sociais", na superfície, e as causas sociais profundas, e
encoraja as pessoas a engajarem-se na construção de
sua própria teoria.
Desta forma, o próprio conhecimento geográfico,
passou a ser o instrumento de ataque a ordem
constituída, ou seja, as contradições e injustiças sociais,
que até então eram analisadas sob a ótica do
materialismo histórico e dialético.
Sendo assim, a Geografia Crítica buscou
construir um conhecimento que se distanciasse da
neutralidade que impregnava a Geografia Tradicional e
inserir a ciência geográfica num contexto político,
econômico e social popular, embasada por fundamentos
filosóficos de diversas correntes, mas principalmente
marxistas.
Para VESENTINI (1989), Marx foi o fundante do
pensamento crítico, pois ele é ao mesmo tempo um
analista, um propagador e um crítico da modernidade
capitalista.
Quanto a preocupação com o meio ambiente, a
corrente que mais se preocupou com o tema foi a
liderada por Yves Lacoste, que dentre uma diversidade
muito grande de temas procurou privilegiar em seu
trabalho temas como os problemas gerados pela
urbanização, o problema do habitat e ainda os
problemas climáticos e ecológicos.
No entanto a Geografia Crítica, ao contrário da
Tradicional que abordava a temática ambiental na forma
de descrições do quadro natural independente da ação

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do homem, passa a conceber meio ambiente de forma
mais complexa, como expõe MENDONÇA (1993, p.66):
Nesta nova abordagem o meio ambiente deixa de
receber
aquela
"tradicional"
visão
descritiva/contemplativa por parte da geografia como se
fosse um santuário que existe paralelamente à
sociedade. O meio ambiente é visto então como um
recurso a ser utilizado e como tal deve ser analisado e
protegido, de acordo com suas diferentes condições,
numa atitude de respeito, conservação e preservação.
No Brasil, a Geografia Crítica ou Radical surgiu
no final da década de 70 e continua sendo desenvolvida
até hoje, contemplando uma variada gama de temas,
entre eles o ambientalismo, que segundo MENDONÇA
(1993) passou a ter destacada importância a partir do
final dos anos 80, quando após a promulgação da
Constituição Federal de 1988, a Legislação Ambiental
normatizou as atividades relacionadas ao meio
ambiente.
Desta forma, tanto o trabalho do geógrafo,
através da elaboração de laudos técnicos, diagnósticos
ambientais, planejamento para recuperação de áreas
degradadas etc., quanto o do licenciado em Geografia
através da Geografia Escolar e de uma eficiente
Educação Ambiental, torna-se fundamental para
equacionar ou minimizar os impactos da inter-relação
sociedade e meio ambiente.
No entanto, o pensamento geográfico crítico
ainda encontra-se em desenvolvimento, especialmente
no Brasil, onde seu surgimento ocorreu de forma mais
tardia. No ensino, a Geografia Crítica ainda encontra-se
em fase de estruturação, o que não impede o professor
de Geografia a orientar o seu aluno a práxis
transformadora da realidade que o cerca.
2.2.3 Geografia da Percepção ou Comportamental
No final da década de 60 e início da década de
70, a realidade mundial passou a exigir dos geógrafos
uma nova interpretação para as transformações que
envolviam o mundo. O crescimento e desenvolvimento
econômico, social e político, que aconteceu de forma
desordenada, fez aumentar a disparidade entre os
países, acentuando os níveis de pobreza e as
desigualdades sociais.
Segundo ANDRADE (1987, p.111):

Esta buscaria entender como os homens percebem o
espaço por eles vivenciado, como se dá sua consciência
em relação ao meio que os encerra, como percebem e
como reagem frente às condições e aos elementos da
natureza ambiente, e como este processo se reflete na
ação sobre o espaço. Os seguidores desta corrente
tentam explicar a valorização subjetiva do território, a
consciência do espaço vivenciado e o comportamento
em relação ao meio.
Porém, a Geografia da Percepção e do
Comportamento apresentou três linhas mestras que
nortearam os trabalhos dos pesquisadores desta
Escola. Segundo GOODEY & GOLD (1986) a primeira
diz respeito à percepção da criança e sua relação com o
desenvolvimento de sua visão geográfica; a segunda, a
morfologia urbana; e a terceira trata da percepção
regional.
A grande preocupação com a criança e com o
futuro da humanidade, permitiu o desenvolvimento de
atividades voltadas ao ensino, as quais estavam
amplamente relacionadas com a psicologia piagetiana.
Além disso, os geógrafos engajados nesta
Escola e influenciados pela linha behaviorista, também
se preocuparam, segundo GOODEY & GOLD (1986,
p.16), com:
... os modelos de sociedade empregados na
investigação geográfica, a multidisciplinaridade, a
orientação para a política de planejamento, e o desejo
de produzir estudos geográficos mais integralmente
envolvidos na educação ambiental e na interpretação
do meio ambiente. (Grifo nosso)
Esta preocupação com a Educação Ambiental e
com o meio ambiente, apresentada pela Geografia da
Percepção e do Comportamento, deve-se ao
agravamento
dos
problemas
ecológicos
pelo
desenvolvimento do capitalismo, o que implicaria
diretamente no futuro da humanidade. No entanto,
mesmo considerando a grande importância dos
trabalhos preservacionistas realizados por esta Escola
da Geografia, uma crítica deve ser feita, pois esta
Escola não contesta a ordem dominante, ou seja não se
direciona ao cerne do problema, neste caso
representado pelo sistema econômico em vigência,
transferindo a responsabilidade para o campo individual.
2.2.4 A Geografia Ecológica

O uso cada vez maior de tecnologias avançadas
aumentava as rendas das grandes empresas, mas
acelerava o processo de destruição e de degradação do
meio ambiente. Viram os geógrafos que os seus
estudos abstratos, técnicos, despreocupados com a
situação real e os seus cálculos matemáticos não
contribuíram para resolver os problemas que estavam
levando a humanidade a uma crise mais aguda.
Diante desta situação, um grupo de geógrafos
retornou as velhas fontes do conhecimento geográfico e
o revestiram de uma nova roupagem, articulando-o com
a Psicologia.
O produto desta articulação designou-se
Geografia da Percepção ou Comportamental e, segundo
MORAES (1997, p.106):

Na segunda metade da década de 70, a
perspectiva de degradação das condições de vida e até
de possível desaparecimento da humanidade,
demonstrou a premente necessidade de acabar com o
discurso neutro e apolítico que entremeava a Ciência
geográfica, tanto nos trabalhos científicos como na
Geografia Escolar.
As
transformações
provocadas
pelo
desenvolvimento industrial, na sociedade e na natureza,
acabaram por mexer com alguns geógrafos,
principalmente os mais ligados ao tratamento da
Geografia Física, e pouco a pouco se intensificaram os
trabalhos que enfocavam a natureza sob o ponto de
vista da dinâmica natural das paisagens em interação
com as relações sociais de produção.
Os geógrafos ligados a corrente ecológica
abordaram de forma crítica a problemática ecológica

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Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 1-8, 2001

nas mais variadas realidades ­ em economias
socialistas e em economias capitalistas; em países
desenvolvidos e em países subdesenvolvidos; em áreas
de florestas e em áreas desérticas, entre outras.
Ainda afirma ANDRADE (1987, p.119):
Os geógrafos passaram também a preocupar-se
seriamente com o problema do meio ambiente,
observando-se que na área de Geografia Física, muitos
evoluíram de trabalhos específicos sobre morfologia,
clima, hidrologia etc. para realizar pesquisas mais
amplas a respeito do meio ambiente, ou, continuando os
trabalhos em suas áreas específicas, passaram a
aplicar os conhecimentos especializados, levando em
conta o impacto dos elememtos naturais quando
influenciados pela sociedade sobre o meio ambiente.
No Brasil também foram inúmeros os
pesquisadores que se associaram a corrente ecológica,
entre eles destacaram-se Aziz Ab'Saber e Carlos
Augusto de Figueiredo Monteiro. O primeiro,
geomorfólogo, preocupou-se com a reorganização do
espaço e com os impactos ambientais em áreas
atingidas pela construção de barragens e lutou contra o
desmatamento e a poluição do ar pelas grandes
indústrias. O segundo, especialista em climatologia,
realizou trabalhos enfatizando sua preocupação com a
poluição do ar e suas conseqüências para o clima e
para a agricultura.
Além destes trabalhos, outros buscaram
contemplar os problemas ambientais das regiões
brasileiras e, principalmente, com a problemática do
desenvolvimento diante do impacto ecológico por ele
gerado.
No entanto, comenta ANDRADE (1987, p.121):
Não há, naturalmente, identidade ideológica entre os
vários geógrafos sobre as soluções a serem dadas aos
impactos ecológicos, mas em comum eles defendem a
preservação da natureza e combatem a política
desenvolvimentista que vem financiando a devastação
da vegetação natural, feita de forma indiscriminada e a
implantação de indústrias altamente poluidoras, e a
degradação das condições de vida e de alimentação
das populações.
Mesmo assim, a Associação de Geógrafos
Brasileiros, reunida com especialistas de outras áreas
de pesquisa, permitiu que fossem apresentadas críticas
as políticas antiecológicas dos governos e alternativas
mais racionais para minimizar os impactos ambientais.
2.3 A Geografia Escolar e a Educação Ambiental
A construção da Ciência Geográfica, fez-se
através de crises e da aglutinação de várias idéias e
reflexões, muitas vezes ambíguas e contraditórias, a
respeito de objetivos e métodos, mas que no entanto
serviram para dar unidade a esta ciência.
A difusão das diversas correntes de pensamento
geográfico, influenciou intensamente a Geografia
Escolar, devendo-se salientar principalmente a
Geografia Tradicional, que imprimiu características até
hoje notáveis nas práticas pedagógicas escolares.
No
Brasil,
a
institucionalização
e
o
desenvolvimento da Geografia nas universidades, a
partir de 1934, sofreu forte influência da escola

7

lablachiana e da metodologia positivista, que
conduziram os trabalhos aos estudos regionais,
centrados na busca de explicações objetivas e
quantitativas da realidade compartimentados, ou seja,
estudos do quadro natural, econômico e humano, sem
relacionar um aspecto ao outro.
No ensino, a Geografia Tradicional imprimiu
fortes características, tais como designar maior
importância para o estudo descritivo tanto das
paisagens quanto das sociedades e uma maior
valorização e memorização em detrimento de um estudo
crítico e politizado.
Após a Segunda Guerra Mundial a Geografia
Tradicional tornou-se insuficiente para tentar explicar o
complexo momento vivido pelo contexto mundial.
O desenvolvimento econômico e a passagem do
capitalismo concorrencial para a sua fase monopolista,
fizeram com que crescessem as desigualdades sociais
e econômicas entre os países e as suas estruturas
sociais.
A influência marxista proporcionou o surgimento
de tendências críticas a Geografia Tradicional, que
passou a destacar o estudo das relações que ocorriam
quando da transformação do espaço propondo novas
formas de interpretar criticamente estas transformações.
A preocupação com as transformações da sociedade,
com o espaço humanizado e com a natureza socializada
permitiu a Geografia contemplar a temática do meio
ambiente e as problemáticas ambientais.
Para o ensino, a produção geográfica das últimas
décadas serviu de estímulo para inovações, tanto em
termos de métodos como de conteúdos e também para
a produção de novos modelos didáticos. No entanto, as
mudanças provocadas pela Geografia Crítica não foram
totalmente incorporadas pelas propostas didáticas e
pelos profissionais responsáveis pela Geografia Escolar.
No entanto, a Geografia Escolar construída,
atualmente, se encaminha para uma abordagem crítica
com o objetivo de despertar maior interesse do aluno
pelo conteúdo e de fazê-lo compreender e atuar no
contexto das transformações do seu ambiente social.
Através de um trabalho dinâmico, crítico e que
leve em consideração a compreensão dos processos
históricos e atuais de transformação do espaço, a
Geografia como disciplina constante nos currículos,
poderá alargar seus horizontes associando-se à
Educação Ambiental, e conscientizar os alunos para a
importância da preservação de um meio ambiente
equilibrado para a manutenção da vida humana.
Segundo OLIVEIRA (1989, p.143):
É nesses termos que seu ensino adquire dimensão
fundamental no currículo: um ensino que busque incutir
nos alunos uma postura crítica diante da realidade,
comprometida com o homem e a sociedade; não com o
homem abstrato, mas com o homem concreto, com a
sociedade tal qual ela se apresenta, dividida em classes
com conflitos e contradições. E contribua para sua
transformação.
A Educação Ambiental inserida na disciplina de
Geografia, e também em outras disciplinas, poderá
dinamizar o processo ensino-aprendizagem, pois hoje
os problemas ecológicos e as transformações
ambientais não ocorrem de forma isolada em um único
lugar, mas sim, e lamentavelmente, de forma
generalizada e próxima da realidade do aluno.

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3 CONCLUSÃO
A temática ambiental tem sido alvo de discussões em
todos os campos do conhecimento, pois vivemos hoje
uma crise ambiental sem precedentes. Faz-se
necessária, portanto, uma reorientação da atuação
humana em sua relação com o meio-ambiente. Em tal
contexto, a Geografia Escolar tem sua entrada garantida
nessa busca de melhores entendimentos dessa
problemática.
Este estudo mostrou, através de uma
historicidade, que a Geografia sempre trouxe em suas
discussões conceituais uma preocupação com a
temática ambiental. Também, mostrou como ocorreram
as tramas que iam tecendo a emergência de outros
entendimentos sobre a temática ambiental. Isso mostra,
que embora houvesse uma diversidade de pressupostos
epistemológicos a temática ambiental sempre esteve
centrada nos estudos geográficos. Portanto, a Geografia
reúne as ferramentas analíticas necessárias para atuar
com legitimidade na temática ambiental.
4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, M. C. de (Org.) Élisée Reclus. São Paulo:
Ática, 1985.
________. Geografia, ciência da sociedade. São Paulo:
Atlas, 1987.
________. Caminhos e Descaminhos da Geografia. São
Paulo: Papirus,1993.
CRHISTOFOLETTI, A. Perspectivas da Geografia. São
Paulo: Difel, 1985.
GOMES, P. C. da. Geografia e Modernidade. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
GOODEY, B. & GOLD, J. Geografia do comportamento
e da percepção. Belo Horizonte, Departamento de
Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais,
1986.
MENDONÇA, F. Geografia e meio ambiente. São Paulo:
Contexto, 1993.
MORAES, A. C. R. A Gênese da Geografia Moderna.
São Paulo: Hucitec,1997.
________. Geografia: pequena história crítica. São
Paulo: Hucitec,1997.
________. Meio ambiente e ciências humana. São
Paulo: Hucitec, 1997.
OLIVEIRA, A. U. de. Educação e ensino de Geografia
na realidade brasileira. In: Para onde vai o ensino de
Geografia? São Paulo: Contexto, Edusp, 1989.
VESENTINI, J. W. Geografia, natureza e sociedade.
São Paulo: Contexto, 1989.

ISSN 0103-1538

Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 9-15, 2001

9

CLASSIFICAÇÃO DAS ZONAS AGROECOLÓGICAS NA SUB-BACIA RIO
IBICUÍ-MIRIM: ADEQUAÇÃO DAS CULTURAS AO TIPO DE SOLO - RS1
CLASSIFICATION OF THE AGRO-ECOLOGICAL ZONES AT THE IBICUI-MIRIM HYDROLOGICAL SUB-BASIN:
MATCHING THE CULTURES TO THE TYPE OF SOIL - RS
Isimar Stefenon Hundertmarck2 e Vera Maria Favila Miorin3
RESUMO
O estudo se refere aptidão dos solos e as
relações entre uso e adequação das culturas produzidas
nos municípios da sub-bacia do rio Ibicuí-mirim.
Segundo os tipos de solo existentes e que estão
classificados por zonas agroecológicas, foi possível
tipificar a adequação do tipo de cultura ao tipo de solo
em escala preferencial, tolerado, marginal e inapto, além
de poder verificar os procedimentos que o homem rural
realiza para obter uma cultura não recomendada ou não
adequada a zona agroecológica em questão. Como
resultado destaca-se a necessidade de introduzir
técnicas de gerenciamento da produção e de
administração dos negócios voltadas para uma visão do
futuro, sem perder de vista as possibilidades de cultivos
alternativos e agroindústrias compatíveis com o
potencial edafoclimático presente em cada zona.
Palavras-chaves: Zonas agroecológicas; Tipos de solo;
Adequação das culturas.
ABSTRACT
The study refers to the soils aptitude and the
relationship between use and adequacy of the culture
produced in the counties of the Ibicui-Mirim sub-basin.
According to the types of soils which exist and which are
classified by agro-ecological zones, it was possible to
tipify the adequacy of the type of culture to the type of
soils using the scale: preferential, tolerated, borderline
and unfit, besides being able to verify the procedures
that the rural population does in order to obtain a culture
not recommended or not adequated to the agroecological zone being discussed. As a result, it was
stressed the need to introduce techniques of production
and business administration management directed to the
future, without losing sight of the possibilities of the
alternative cutures and agro-business fitted to the
edapho-climatic potential present in each zone.
Key Works: Agro-Ecological zones; Type of the soil;
Adequacy of the culture.
1 INTRODUÇÃO
Atualmente ocorrem diferentes problemas ligados
a questão ambiental. O Brasil tem tratado esta questão
de forma setorial (solo, água, florestas), sem uma ação
1
2
3

da política ambiental, deixando ocorrer superposição de
funções que geram conflitos e torna-se ineficaz.
Contudo, nos últimos anos registra-se o despertar de
uma consciência ambiental popular relacionada ao meio
natural. Pode-se dizer que passamos a entender que o
meio ambiente é o reflexo não apenas dos processos
naturais, mas também das contradições da sociedade,
na medida dos interesses sociais e econômicos,
determinantes das formas de exploração e apropriação
do espaço.
Captando o desenvolvimento destas mudanças,
este estudo analisa o espaço rural da produção primária
entendendo que a agricultura moderna, baseada na
excessiva dependência de fertilizantes e biocidas está
comprometendo, seriamente, os solos férteis e
acelerando a redução das terras produtivas do ponto de
vista de seu equilíbrio ecológico. Tal situação torna as
áreas alvo de estudo na tentativa de, através de
diagnósticos, analisar e espacializar os impactos
decorrentes das formas de uso.
O meio rural não podendo superar os
desequilíbrios transfere para as gerações a necessidade
de construir o desenvolvimento sustentável, pois a
permanência de formas agressivas tem provocado, cada
vez mais, a deterioração ambiental e tem reduzido as
possibilidades de elevação do nível de reprodução das
relações produtivas destas populações rurais, gerando
crises sociais e políticas, além de diminuir as chances
de um futuro.
2 A SUB-BACIA RIO IBICUÍ-MIRIM
A sub-bacia rio Ibicuí-mirim localiza-se a oeste de
Santa Maria entre as coordenadas geográficas de 290
55' e 290 26' de latitude sul e 530 42' e 540 30'de
longitude oeste da linha de Greenwich, ocupando,
praticamente, o centro do Estado.
Do ponto de vista da administração pública, a
área estudada abrange os municípios de São Martinho
da Serra, Santa Maria, São Pedro do Sul e Dilermando
de Aguiar respeitando as divisões impostas pelo relevo
e não pelos limites municipais.
As nascentes do rio Ibicuí-mirim se encontram no
extremo sul do Planalto Meridional Brasileiro, no
município de São Martinho da Serra, em altitudes
aproximadas de 500 metros acima do nível do mar e
sua desembocadura no rio Toropi possui altitudes em
torno de 80 metros.
O rio Ibicuí-mirim de sua fonte até a
desembocadura
percorre
dois
compartimentos

Resumo do Trabalho de Graduação A, apresentado ao Departamento de Geociências, CCNE/UFSM.
Licenciado em Geografia pela UFSM ­ Santa Maria, RS.
Orientadora, Profª .Drª. Adj. do Departamento de Geociências, CCNE/UFSM.

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Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 9-15, 2001

geomorfológicos do estado do Rio Grande do Sul: o
Planalto Meridional ou Planalto Rio-grandense e a
Depressão Periférica ou Depressão Central. Ë possível
individualizar quatro unidades morfológicas (de relevo)
na área que se enquadram em dois dos grandes
domínios morfoclimáticos propostos por AB'SABER
(1970), o das pradarias e o das araucárias, onde
dominam zonas agroecológicas de distinta exploração
rural.
Pertencentes a domínio morfoclimático das
araucárias, têm-se:
- Topo do Planalto
A unidade de relevo do Topo do Planalto abrange
o setor norte do município de São Martinho ou seja, as
áreas onde se encontram as fontes da sub-bacia do rio
Ibicuí-mirim. Trata-se de um compartimento com
topografia fracamente ondulada possuindo altitudes que
variam de 340 a 520 metros e declividade média de 8 a
12%.
O relevo da área se formou devido aos
sucessivos derrames de lavas, juntamente com a
presença de arenitos "inter trapp" e rochas vulcânicas.
Realizando estudos a esse respeito Sartori e Maciel
Filho (1975), acrescentam que os últimos derrames de
lavas (superiores) no oeste e centro do Planalto Riograndense, principalmente nas proximidades do
Rebordo.
A morfologia fracamente ondulada é um reflexo
da
resistência
das
rochas
aos
processos
morfoclimáticos e da própria disposição estrutural em
camadas que mergulham suavemente para oeste.
Neste ponto o rio Ibicuí-mirim apresenta um
padrão dendritico, com tendência a retangular, reflexos
das condições litoestruturais que sustentam a
morfologia do Topo do Planalto.
A expressiva contribuição hídrica proveniente
dessa unidade geomorfológica foi um fator determinante
da escolha do local para construção dos reservatórios
d'água do município de Santa Maria. O rio Ibicuí-mirim
representa a principal artéria de fornecimento d'água
para a cidade. A barragem de maior capacidade se
localiza a uma distância de 11,5 Km a montante do rio
Ibicuí-mirim e a outra se localiza a 21,5 Km, seguindo a
mesma direção.
- Rebordo do Planalto
O Rebordo do Planalto não se constitui em um
compartimento geomorfológico individualizado, mas
parte integrante do Planalto Meridional Brasileiro.
Apresenta-se como faixa de transição entre o Planalto e
a Depressão Central, abrangendo áreas significativas do
município de São Martinho da Serra e Santa Maria,
principalmente em seu distrito de Boca do Monte.
A origem do Rebordo está relacionada com a
superposição de sucessivos derrames de lavas
ocorridos na Bacia do Paraná, ocasionando um desnível
da ordem de 370 metros, entre o seu topo e as terras da
Depressão. A área é muita acidentada, possuindo alta
energia de relevo, com declividades médias que variam
entre 5,6 e 45,5%, da base para os setores mais
elevados. (MACIEL FILHO et al, 1978). Revelando uma
topografia de degraus ou patamares que decaem em
direção as terras mais baixas e apresentando escarpas
abruptas, dependendo da intensidade da ação erosiva.
Neste ponto o rio Ibicuí-mirim, juntamente com
seus afluentes e devido ao grande desequilíbrio do perfil
longitudinal, secciona a escarpa em uma erosão

remontante, cujo trabalho é facilitado pela existência de
falhas e fraturas.
O controle estrutural, representado pelos
falhamentos e diaclasamentos resultantes dos esforços
de soerguimento do Planalto, determina que grande
parte dos cursos d'água desta área seja retilínea. A
drenagem perene é responsável pela intensa
dissecação do Rebordo ocasionando a formação de
vales em "V" ou em "U" encaixados e profundos.
Ao domínio morfoclimático das pradarias, têm-se:
- Coxilhas da Depressão Periférica
A unidade de relevo de ondulações suaves
(coxilhas) contorna as áreas baixas, geralmente
recobertas por aluviões finos, onde afloram os lençóis
d'água que originam os banhados. Estas coxilhas
pertencentes a Formação Rosário do Sul e/ou
Formação Santa Maria, se constituem em pequenos
divisores d'água que separam os tributários do rio Ibicuímirim. Em áreas associadas a esta ultima formação
percebe-se o desenvolvimento de voçorocas que,
devido a intensificação da ação fluvial, dão origem as
"sangas" as quais, em conjunto com os sedimentos
síltico-argiloso da fácies Alemoa (superior), formam a
feição típica da Depressão Periférica.
- Planícies aluviais da Depressão Periférica
As planícies aluviais se encontram embutidas nas
planícies onduladas da Depressão Periférica, formadas,
basicamente, de sedimentos recentes provenientes de
compartimentos mais elevados que se depositam no
leito maior dos rios. O estudo desses depósitos fluviais
recentes tem sua importância ligada ao considerável
espaço que ocupam na área da sub-bacia do rio Ibicuímirim.
As altitudes das várzeas ficam em torno de 40 a
60 metros e a diferença entre a várzea e a calha do rio é
superior a dois metros e inferior a 10 metros. Esta
altimetria permite um arranjo espacial da drenagem da
sub-bacia estudada que tende para o dendritico, canais
meândricos e, também, alguns braços abandonados.
3 AS ZONAS AGROECOLÓGICAS
As zonas agroecológicas foram estabelecidas
com a finalidade de reunir municípios que apresentam
características
geomorfológicas,
climáticas
e
capacidade de uso do solo, considerando o uso atual
em nível de macro clima, o mais homogêneo possível,
embora tenham sido concebidas respeitando os limites
municipais.
(MACROZONEAMENTO
AGROECOLÓGICO E ECONÔMICO DO ESTADO DO
RIO GRANDE DO SUL, 1994).
A adoção desta regionalização torna-se um
instrumento normatizador para estabelecer programas
de desenvolvimento agrícola municipais e regional,
selecionando alternativas culturais e agro-industriais
compatíveis com o potencial edafoclimático presente em
cada região.
Deste modo, deve ser criada uma política
agrícola que contemple as atividades e culturas
agrícolas que estiverem integradas à vocação ecológica
diferenciada, dando ao produtor a garantia de
estabilidade e rentabilidade competitiva.
O estado do Rio Grande do Sul foi dividido em
doze grandes regiões agroecológicas, sendo algumas
delas subdivididas em duas ou mais sub-regiões. Os
municípios situados na sub-bacia rio Ibicuí-mirim estão
situados na REGIÃO 1 Depressão Central e fazem


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parte da Sub-região 1C Santa Maria, constituindo as
Zonas Agroclimáticas, cujo grau de aptidão é variável e
permite o zoneamento das culturas e sua distribuição
espacial.


3.1 Graus de Aptidão Agroclimática e Distribuição
das Culturas na Sub-Bacia Rio Ibicuí-Mirim
A indicação da cultura em uma região, sub-região e
município, obedecem a seguinte classificação:
preferencial, tolerada, marginal e inapta. Em
substituição a classe inapta, se utilizou a denominação
de não recomendada, pois para a maioria das culturas,
não chega a caracterizar a inaptidão da área e sim a
limitação imposta por restrições de ordem climática ao
rendimento econômico do produto final, tornando-se
neste caso o cultivo, muitas vezes, inviável.
ZONAS PREFERENCIAIS - Se caracterizam por
apresentarem as melhores condições climáticas para a
cultura, podendo ser ou não o local ideal para a mesma,
se comparadas com outras áreas do mundo, mas
evidentemente apresentam boas condições para uso
agrícola no Estado.
ZONAS TOLERADAS - Aquelas áreas que apresentam
um fator negativo à cultura, a temperatura ou condições
de deficiência ou excesso hídrico.
ZONAS MARGINAIS - correspondem as áreas que
apresentam dois fatores negativos para o cultivo,
temperatura e umidade, por exemplo.
ZONAS INAPTAS (NÃO RECOMENDADA) - Referemse as áreas do Estado inadequadas ao cultivo.
Com exceção do arroz, as demais culturas se
concentram nos solos que produzem colheitas médias e
elevadas sem a necessidade de praticas ou medidas
especiais de preservação, por se tratarem de solos
profundos fáceis de trabalhar e sem problemas
relacionados com a umidade, fertilidade ou limitações
que dificultam a livre mecanização e até mesmo
exigindo o emprego de práticas especiais de manejo.
Nas áreas de solos com profundidade variável,
topografia plana fortemente ondulada, a principal
restrição ao uso relaciona-se com a presença de rochas
na porção superficial do solo, quer soltas, quer na forma
de afloramentos, porém com forte limitação relacionada
com a extrema susceptibilidade à erosão, tanto hídrica
como eólica. A presença de ondulações na topografia
torna-se um elemento restrito ao seu uso, pois os
declives são sempre acentuados, ainda que se
apresentem de forma contínua e/ou descontínua e de
extensão variável.
Deste modo, as culturas produzidas em áreas da subbacia são classificadas:
3.1.1 Zonas Preferenciais
- Arroz irrigado
O cultivo do arroz é o único que se realiza sobre
solos de áreas planas ou quase planas, nas
proximidades do leito do rio, caracterizando os solos de
várzea que geralmente são rasos e estão sobre solos de
má permeabilidade. A principal restrição a essa cultura é
a suscetibilidade ao alagamento e/ou a presença do
lençol freático excessivamente superficial. O excesso
d'água pode originar-se da sua posição à margem de
cursos d'água, quando se verifica por inundações de
freqüência e durações variáveis.

11

De acordo com a aptidão climática, a cultura do
arroz nos quatro municípios da sub-bacia, está inserida
na classe PREFERENCIAL I. Esta classificação é
decorrente da não existência de restrições quanto a
temperatura durante o período em que a planta esta em
desenvolvimento, pois as médias térmicas são
superiores a 200C. Estas características vão influenciar
diretamente nos rendimentos desta cultura na área que
são, em conjunto, ligeiramente acima da média
estadual. (Tabela 1)
Tabela 1 - Área colhida, quantidade produzida e
rendimento médio do arroz irrigado nos municípios da
sub-bacia rio Ibicuí-mirim.
MUNICÍPIO

Santa Maria e
Dilermando de
Aguiar
São Pedro do Sul
São Martinho da
Serra
Total do Estado

ÁREA
QUANTIDADE RENDIMENTO
COLHIDA PRODUZIDA (t)MÉDIO (Kg/ha)
(ha)

6500
3800

35750
19000

5500
5000

210
981526

1092
4965210

5200
5058

Fonte: Anuário Estatístico do Rio Grande do Sul (1995)
Montagem: Isimar Stefenon Hundertmarck

O arroz, por ser cultivada em áreas preferenciais
dada as condições climáticas deveria apresentar
rendimentos mais elevados. Estes rendimentos vão
influenciar diretamente na renda dos produtores,
impossibilitando investimentos na melhoria da produção.
O problema da fertilidade poderia ser solucionado com a
aplicação de corretivos e a utilização de técnicas de
manejo do solo anulando, em parte, os problemas de
deterioração do solo.
Apesar do arroz ser cultivado em solos planos ou
quase planos, a ação da erosão acelerada ou agrícola,
provocada pela ação antrópica, devido a incorreta
utilização da área cultivada é constante. Este tipo de
erosão, se não for controlada, poderá ocasionar
conseqüências maiores como o êxodo de sua
população rural. O inadequado manejo deixa o solo
abandonado às águas da chuva que o removem,
contribuindo, também, para o assoreamento do rio
Ibicuí-mirim e seus afluentes.
A lavoura do arroz também contribui para
diminuição da vazão do rio Ibicuí-mirim, por conta da
intensidade do volume de água utilizado no processo de
irrigação, desviando seu curso e assoreando as
margens.
Milho
Com relação ao zoneamento agroclimático, essa
cultura se encontra nas classes PREFERÊNCIAL I e II.
Esta classificação relaciona-se com o mês de
semeadura do milho que é realizada nos meses de
setembro, outubro, novembro e dezembro, o que
determina diferenças quanto a temperatura e deficiência
hídrica. Assim, nos quatro municípios da sub-bacia rio
Ibicuí-mirim, a soma térmica no período da semeadura
ao espigamento geralmente será superior a 800° C,
podendo em algumas áreas, com exceção de São
Pedro do Sul, ficar entre 700° C e 800° C. A deficiência
hídrica acumulada varia de zero a 25mm dependendo
do mês, ano e região. A deficiência hídrica acumulada é
a soma do mês do florescimento com o mês anterior e
posterior ao florescimento. (Tabela 2).

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12

Tabela 2 - Área colhida, quantidade produzida e
rendimento médio da produção de milho nos municípios
da sub-bacia rio Ibicuí-mirim.

revertendo o processo de ausência de capitais de
investimento.

MUNICÍPIO

Tabela 3 - Área colhida, quantidade produzida e
rendimento médio da produção de soja nos municípios
da sub-bacia rio Ibicuí-mirim

Santa Maria e
Dilermando de
Aguiar
São Pedro do
Sul
São Martinho
da Serra
Total do Estado

ÁREA
COLHIDA
(ha)

QUANT.
PRODUZIDA
(t)

REND.
MÉDIO
(Kg/ha)

MUNICÍPIO
12000

40800

3400

8000

14400

1800

1800
1741492

5220
4605268

2900
2644

Fonte: Anuário Estatístico do Rio Grande do Sul (1995)
Montagem: Isimar Stefenon Hundertmarck

Percebe-se que juntos os municípios de Santa
Maria e Dilermando de Aguiar ocorre a maior área
ocupada com essa cultura e o rendimento médio acima
da média do Estado.
O município de São Martinho da Serra, que
possui a menor área colhida, apresenta um rendimento
ligeiramente acima da média do estado do Rio Grande
do Sul. Entretanto, São Pedro do Sul, que possui uma
grande área colhida, não obtém grande quantidade
produzida pois seu rendimento esta abaixo da média
estadual.
Assim, qualquer política agrícola deve ser
direcionada também a essa cultura, pois com a melhoria
das técnicas e aplicação de insumos, principalmente
nos municípios de São Pedro do Sul e São Martinho da
Serra, a renda dos produtores poderá se elevar.
- Trigo
Dos municípios da área em estudo, apenas São
Pedro do Sul se encontra na Zona Preferencial II.
De acordo com o Zoneamento Climático do trigo
na ZONA PREFERENCIAL II a umidade relativa do ar é
menor que 75%, diminuindo, em parte, o problema de
doenças. Nesta Zona a média mínima do mês mais frio
é inferior a 8° C, não ocasionando restrições. Apesar
destas características, no município a cultura não
alcança bons rendimentos (700Kg/ha), embora seja
classificada como PREFERENCIAL para esta área,
deveria apresentar altos rendimentos, no entanto, esta
muito abaixo da média estadual.
Pode-se concluir que a área colhida com essa
cultura esta sendo mal utilizada. Cuidados com a
adubação adequada, sanitários, sementes de boa
qualidade e adequação da época de semeadura são
alguns dos fatores que requerem melhorias para o
aumento do rendimento. Destaca-se a ausência de
capitais disponíveis por parte dos produtores e a
necessidade de programas assistenciais ao cultivo do
trigo.
- Soja
Nas terras que circundam o rio Ibicuí-mirim a
cultura da soja se encontra na classe PREFERÊNCIAL I
pois a deficiência hídrica é nula e a soma térmica das
temperaturas acima de 15° C , durante o mês de
crescimento, é superior a 1200° C. Destaca-se o
município de São Pedro do Sul pela maior área colhida
mas, a quantidade produzida é pouco significante, pois
seu rendimento médio esta abaixo da média do estado
do Rio Grande do Sul. (Tabela 3)
Esta cultura, sendo preferencial para esta área
deveria ser de interesse dos produtores, pois assim
estariam contribuindo para o aumento de seus ganhos e

ÁREA
COLHIDA
(ha)

Santa Maria e
Dilermando de
Aguiar
São Pedro do Sul
São Martinho da
Serra
Total do Estado

QUANT.
PRODUZIDA
(t)

REND
MÉDIO
(Kg/ha)

5000
9000

10500
13500

2100
1500

1500
3078313

2880
6067494

1920
1971

Fonte: Anuário Estatístico do Rio Grande do Sul (1995)
Montagem: Isimar Stefenon Hundertmarck

3.1.2 Zonas Toleradas
- Cana-de-açúcar
Essa cultura se encontra na classe TOLERADA
IV. Esta classificação deve-se ao fato da temperatura
média anual ser maior ou igual a 18,50C e menor que
200C. O número de geadas por ano é superior a 7 e
inferior a 13 e o número de horas de frio abaixo de
7,20C do mês de maio a agosto é maior que 150 e
menor que 200 horas.
Entretanto, as restrições a essa cultura
decorrente dos danos causados pelo frio não impedem
que a mesma obtenha bons rendimentos.
A maior área da sub-bacia ocupada com esta
cultura se encontra no município de São Pedro do Sul,
500ha, mas o rendimento está situado abaixo da média
30 000kg/ha, impede que a quantidade total da
produção seja elevada. Esse rendimento não é
decorrente apenas das restrições causadas pelo frio,
pois nos outros municípios o rendimento (50.000Kg/ha)
está acima da média do estado gaúcho, demonstrando
que as restrições decorrentes da temperatura podem
ser compensadas, em parte, com a utilização de
insumos e uso de técnicas.
A obtenção de bom rendimento do produto
cultivado, em área considerada tolerada, só não é
elevada para o município de São Pedro do Sul.
- Mandioca
Na sub-bacia rio Ibicuí-mirim a cultura da
mandioca está inserida na classe TOLERADA VII. Esta
classificação é decorrente das restrições causadas
pelas baixas temperaturas de inverno, que
proporcionam a formação de geadas, tornando
necessário o armazenamento das mavinas. No entanto
o verão é quente, sem restrições, e a deficiência hídrica
é nula.
Assim, esses fatores vão influenciar diretamente
na produtividade e conseqüentemente na renda dos
produtores.
Embora que os quatro municípios da sub-bacia
detenham rendimento abaixo da média do estado do Rio
Grande do Sul. Os municípios de Santa Maria e
Dilermando de Aguiar, juntos, possuem a maior área
colhida, 3.000ha mas, no entanto possuem os menores
rendimentos 12.000 kg/ha. Destaca-se o município de
São Pedro do Sul por possuir a maior área colhida,
15.000kg/ha, na região, mas não alcança a média do
estado gaúcho.
- Batata

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De acordo com o zoneamento climático, em
todos os municípios da sub-bacia, esta cultura se
enquadra na ZONA TOLERADA VIII e as épocas do
plantio são os meses de fevereiro e setembro. Nesta
Zona a média das temperaturas mínimas é maior que
16° C, em um ou dois meses, prejudicando o
rendimento. A deficiência hídrica nula durante o ciclo
não causa restrições, no entanto o excedente hídrico
nos meses de maturação e colheita, ou seja, maio e
junho ou dezembro e janeiro, causam problemas para a
efetivação da colheita.
A presença da batata ocorre em todos os
municípios da sub-bacia estudada, porém como o ano
de informação dos dados, ainda que publicados em
1995, estão baseados em informações de anos
anteriores e estas informações coletadas se referem a
época em que o município de São Martinho da Serra
era, então, distrito de Santa Maria, dificulta a análise
desta cultura e sua identificação de forma isolada.
Pesquisa de campo, junto aos produtores, no referido
Município, revelam que atividades com a batata, plantio,
rendimento e comercialização existe, principalmente,
nas propriedades de pequeno e médio porte (abaixo de
100 hectares), ainda que não seja possível precisar seu
montante.
- Sorgo
Em todos os municípios da área estudada a
cultura está classificada como TOLERADA II. Isso se
deve a existência de excedente hídrico no mês de maio
que corresponde ao mês de maturação. O excedente
hídrico é maior que 100mm e causa eventuais
problemas de apodrecimento e germinação das
sementes antes da colheita. Esse problema vem sendo
resolvido, em parte através da utilização de híbridos
com sementes de alto conteúdo de tanina. Durante o
crescimento da planta a soma térmica é superior a
600° C o que não gera restrições.
A análise desta cultura, pelas mesmas razões da
anterior teve suas informações prejudicadas, ainda que
em trabalho de campo houvesse sido notada a presença
de sua comercialização além do uso interno nas
propriedades. Objetivamente verificou-se a presença da
cultura na área estudada.
- Pessegueiro
Em todos os municípios da área analisada a
cultura esta contida na ZONA TOLERADA III que se
caracteriza pelo número de horas anual, com
temperaturas abaixo de 7,2° C ser maior que zero e
menor que 100h. Contudo o que torna possível sua
prática é a proximidade de mercados consumidores.
Porém, as restrições decorrentes da temperatura
influenciam diretamente a produção final permitindo que
os rendimentos fiquem abaixo da média do estado.
Gaúcho. (Tabela 4)

Assim, mesmo que os produtores invistam em
tecnologia os rendimentos nunca poderão competir com
o das áreas preferenciais pois os custos da produção
impediriam qualquer disputa de mercado.
- Forrageiras
Em todos os municípios da sub-bacia as
forrageiras de verão são encontradas em ZONAS
TOLERADAS VIII a classificação decorre do número de
meses com temperaturas toleradas pela cultura. Para as
pastagens de verão a estação de crescimento efetivo é
de 9 meses e a temperatura média das mínimas é
superior a 10° C, sendo as variedades mais comuns a
pensacola, feijão miúdo, sorgo e milhetos. Como se
trata de uma área tolerada para forrageira, a soja
perene e a centrosena são consideradas inaptas.
Para o caso das pastagens de inverno a área
também esta inserida na ZONA TOLERADA VIII, sendo
a classificação decorrente do número de meses com
temperatura abaixo de 10° C ser maior que 3 meses e a
temperatura média do mês mais quente superior a 24° C.
Como espécies destaca-se a aveia, azevém, trevo
branco e centeio.
3.1.3 Zonas Marginais:
- Feijão
A aptidão climática esta cultura nos municípios de
Santa Maria e Dilermando de Aguiar se insere na ZONA
MARGINAL III e VII enquanto que nos municípios de
São Martinho da Serra e São Pedro do Sul se
enquadram na ZONA MARGINAL VII.
A ZONA MARGINAL III se caracteriza por
apresentar deficiência hídrica durante o ciclo (inferior a
50mm), que é raramente prejudicial ao rendimento, não
provocando restrições durante a maturação e colheita. A
temperatura média durante o ciclo é superior ou igual a
23,9° C. Em algum mês, gera restrições devido ao
rendimento ficar prejudicado.
Na ZONA MARGINAL VII a deficiência hídrica
durante todo ciclo é nula. As condições térmicas com
temperatura média em algum mês superior ou igual a
23,9° , ocasiona prejuízos de rendimento, porém o
excesso de umidade da maturação até a colheita
quando situado abaixo de 50mm, não provoca
restrições.
O feijão é uma cultura adaptada a praticas
manuais, inclusive na colheita. Entre os produtos
vegetais ela é a primeira a proporcionar renda no ano
agrícola e ajudando na manutenção da família. Talvez
seja esta a principal razão do seu cultivo. (Tabela 5)
Tabela 5 - Área colhida, quantidade produzida e
rendimento médio da produção de feijão nos municípios
da sub-bacia rio Ibicuí-mirim
MUNICÍPIO

Tabela 4 - Área colhida, quantidade produzida e
rendimento médio da produção de pêssego nos
municípios da sub-bacia rio Ibicuí-mirim.
MUNICÍPIO

Santa Maria e
Dilermando de Aguiar
São Pedro do Sul
São Martinho da Serra
Total do Estado

ÁREA
QUANT.
COLHIDA PRODUZIDA
(ha)
(1000fr)
38
15
4
14012

Fonte: Anuário Estatístico do Rio Grande do Sul (1995)
Montagem: Isimar Stefenon Hundertmarck

1390
625
146
740972

REND.
MÉDIO
(fr/ha)
36578
41666
36500
52881

13

Santa Maria e
Dilermando de Aguiar
São Pedro do Sul
São Martinho da Serra
Total do Estado

ÁREA
COLHIDA
(ha)
150
1350
400
203499

QUANT.
REND.
PRODUZIDA MÉDIO
(t)
(Kg/ha)
135
945
360
156212

900
700
900
767

Fonte: Anuário Estatístico do Rio Grande do Sul (1995)
Montagem: Isimar Stefenon Hundertmarck

O município de São Pedro do Sul se destaca pela
maior área ocupada com essa cultura, porém sua
produtividade é a mais baixa do conjunto dos
municípios. Embora a sub-bacia rio Ibicuí-mirim seja
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uma área marginal para a cultura do feijão, os
rendimentos permitem algum ganho.
Além das condições climáticas, a adubação
deficiente e a qualidade das sementes contribuem para
que o rendimento seja baixo. Mesmo assim, a presença
de mercados consumidores próximos a cultura torna-se
apta para exploração comercial.
- Trigo
Nos municípios de Santa Maria, Dilermando de
Aguiar e São Martinho da Serra essa cultura está
inserida na ZONA MARGINAL V.
De acordo com o zoneamento climático da
cultura do trigo, a ZONA MARGINAL V se caracteriza
por apresentar a umidade relativa do ar superior a 75%
proporcionando o surgimento de problemas com
doenças. No inverno a média mínima do mês mais frio é
maior que 8° C, trazendo restrições por serem os
invernos quentes.
Os municípios de Santa Maria e Dilermando de
Aguiar se destacam pela maior área colhida, 80hectares
e rendimento acima da média do estado gaúcho,
1.700kg/ha., o rendimento do município de São Martinho
da Serra, 1.200kg/ha, está, igualmente, acima da média
gaúcha.
Os produtores, embora com aplicação intensiva
de insumos e de tecnologia não obterão grandes
rendimentos com essa cultura pois o clima exerce forte
influencia na produtividade.
- Alho e Cebola
Em todos os municípios da sub-bacia rio Ibicuímirim estas culturas se encontram na ZONA MARGINAL
V. Nesta Zona a temperatura média do mês de outubro
é maior que 16° C não causando restrições a cultura.
Entretanto a deficiência hídrica nula causa restrições
para a cura dos bulbos.
O município de São Pedro do Sul se destaca pela
maior área colhida dessa cultura, 5ha, mas seus
rendimentos, de 2.000kg/ha, ficam abaixo da média
estadual. Tratando-se de uma área marginal para a
cultura, os municípios de Santa Maria e Dilermando de
Aguiar, possuem uma boa produção, (10t), que só não é
maior devido a pequena área cultivada, que é de 2
hectares.
Com relação ao cultivo da cebola o município de
São Pedro do Sul se destaca pela maior área colhida,
40ha, mas devido ao baixo rendimento, (10.000kg/há), a
quantidade produzida não é elevada. A produção é
decorrente da zona climática e, em parte, devido a não
utilização de tecnologia, pois nos outros municípios,
também, classificados como zonas marginais para esta
cultura, ocorre uma produtividade acima da média
estadual.
- Fumo
Em todos os municípios da área estudada esta
cultura se enquadra na ZONA MARGINAL V. Nesta
zona a deficiência hídrica durante os meses de
novembro e dezembro varia de zero a 25mm causando
algumas restrições. As condições térmicas apresentamse com temperatura média nos meses de novembro e
dezembro maior que 20° C causando, restrições
variáveis dentro da zona. Estas restrições vão
influenciar diretamente na renda dos produtores.(Tabela
6)

Tabela 6 - Área colhida, quantidade produzida e
rendimento médio da produção de fumo nos municípios
da sub-bacia rio Ibicuí-mirim
MUNICÍPIO

Santa Maria e
Dilermando de Aguiar
São Pedro do Sul
São Martinho da Serra
Total do Estado

ÁREA
QUANT.
COLHIDA PRODUZIDA
(ha)
(t)
180
300
20
161610

288
540
32
318690

REND.
MÉDIO
(Kg/ha)
1600
1800
1600
1971

Fonte: Anuário Estatístico do Rio Grande do Sul (1995)
Montagem: Isimar Stefenon Hundertmarck

Os municípios da sub-bacia apresentam
rendimento abaixo da média estadual. Para que essa
cultura obtenha colheitas elevadas se faz necessária a
utilização de tecnologia, o que é impossível dado as
condições econômicas dos agricultores e, também,
porque o aumento do custo da produção tornaria
impossível a competição no mercado.
Assim, para aumentar a renda da
propriedade, os produtores devem encontrar culturas
que tenham uma formação ecológica para esta área.
4.1.4 Zonas Inaptas ou Não Recomendadas:
- Abacaxi
A cultura do abacaxi é classificada como INAPTA
VI, para a área da sub-bacia rio Ibicuí-mirim. Esta zona
tem como características a temperatura média do
inverno inferior a 15,5° C o que causa insuficiência
térmica e a presença de geadas freqüentes também se
constituem em restrições a essa cultura, pois são muito
prejudiciais. O fato de não ocorrer o cultivo do abacaxi
indica que o solo esta sendo bem utilizado ao ser
destinado a outros cultivos.
- Banana
Esta cultura é classificada como INAPTA VI com
temperaturas médias do inverno inferiores a 15,5° C,
provoca insuficiência térmica. A deficiência hídrica é
variável e as geadas são muito freqüentes. A geada é o
principal fator restritivo a esta produção, resultando em
uma produtividade pouco destacável.
Apesar dos municípios de São Martinho da Serra
e São Pedro do Sul apresentarem rendimento
ligeiramente acima da média estadual, sua
produtividade é muito baixa comparada com as culturas
das áreas preferenciais. Deste modo, esses produtores
não conseguem uma renda elevada. A única razão da
prática desta cultura é a proximidade dos mercados
consumidores.
- Videira
A videira americana é classificada como INAPTA
IV, por encontrar horas de frio inferior a 100, não
correspondendo ao número mínimo de repouso exigido.
As condições de maturação encontram um índice
heliopluviométrico maior que 1,7 e menor que 2,
provocando restrição à maturação.
A videira européia, devido ao índice hidrotérmico
ser maior que 70 unidades e o repouso hibernal ser
deficiente está inserida na zona INAPTA XVI.
Por se tratar de área inapta para esta cultura, não
ocorrem áreas de dimensão significativa deste cultivo.
Apresentando-se as poucas culturas em pequenas
propriedades que ainda preservam a tradição da
fabricação do vinho. Em geral, nestes municípios a
produção do vinho tem a finalidade de complementar a

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renda dos proprietários através da venda e abastecer o
consumo interno.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo permitiu determinar a aptidão e as
relações entre uso do solo e adequação. As culturas do
arroz irrigado, milho e soja nos municípios da sub-bacia
e a cultura do trigo especialmente no município de São
Pedro do Sul foram classificadas como preferenciais.
Apesar
das
melhores
condições
climáticas
apresentadas, as culturas mostram um rendimento não
elevado e isto ocorre pela inexistência de técnicas de
preservação e de insumos no manejo das culturas
preferenciais. Estas culturas, sendo preferencial para
esta área deveriam ser de interesse dos produtores,
pois assim estariam contribuindo para o aumento de
seus ganhos e revertendo o processo de ausência de
capital de giro.
Para as culturas da cana-de-açúcar, mandioca,
batata, sorgo, pessegueiro e forrageiras a área
apresenta um fator climático negativo, classificando
estas culturas como toleradas. Com a utilização de
insumos e algumas técnicas adequadas as restrições
decorrentes do clima poderão ser compensadas.
As culturas do feijão, alho, cebola, fumo foram
classificadas como marginais para todos os municípios,
além do trigo, com exceção do município de São Pedro
do Sul. Analisando os retornos de produção e lucros
percebem-se que os municípios da sub-bacia
apresentam rendimento abaixo da média estadual. Para
que estas culturas obtenham colheitas elevadas se faz
necessário a utilização de tecnologias, o que é
impossível devido a situação financeira dos agricultores
e, também, porque o aumento do custo da produção
diminui as possibilidades de competição no mercado.
Assim, para aumentar a renda da propriedade, os
produtores devem buscar culturas ecologicamente
compatíveis com a área.
Como marginais foram classificadas as culturas
do abacaxi, banana e videira. Por se tratar de zonas
inaptas ou não recomendadas para estas culturas, na
sub-bacia rio Ibicuí-mirim não são comuns estes
cultivos.
A falta de um manejo adequado do solo na área
tornou o grau de erosão e a perda da fertilidade
acentuada. Os solos lavrados, principalmente em áreas
de declives, uma ou duas vezes por ano e, geralmente,
em épocas ou estações chuvosas, tornam-se
susceptíveis a erosão.
Deve ser ressaltar que falta sensibilidade do
agricultor para distribuir do uso do solo na propriedade,
muitas vezes os produtores fazem potreiros na parte
plana do imóvel e as lavouras no alto dos morros,
contrariando as normas do bom uso do solo.
Além da utilização da água do rio Ibicuí-mirim
para irrigação do arroz, o desmatamento é considerado
como o elemento mais importante para o desequilíbrio
do volume de água do leito maior do Ibicuí-mirim. Tal
comportamento permite entender porque o rio possui
seu leito quase seco e por ocasião das enxurradas as
águas sobem assustadoramente, muitas vezes
provocando enchentes sobre as lavouras.
Nesse sentido, para que ocorra algum progresso
econômico na região faz-se necessário utilizar o solo
agrícola de acordo com as suas aptidões ou capacidade

15

de uso. Isto deve se tornar uma prática de
recomendações usual ao agricultor.
Além disso, é recomendada a utilização de
técnicas para diminuir os níveis de degradação do solo,
podendo ser utilizadas as faixas de retenção, rotação de
culturas, cobertura vegetal, construção de terraços e a
adubação orgânica.
Finalmente, considera-se que existem condições
para o progresso econômico, porém é necessária a
introdução de novas idéias e de uma nova visão do
futuro, onde se poderá ter a certeza de produzir os
alimentos, reduzindo e/ou anulando o impacto sobre o
meio natural.
6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÀFICAS
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A ESTRUTURA DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA E O PERFIL SOCIOECONÔMICO DO
MUNICÍPIO DE SALVADOR DAS MISSÕES ­ RS1
THE STRUCTURE OF THE AGRICULTURAL PRODUCTION AND THE SOCIAL-ECONOMICAL PROFILE OF
THE BOROUGH OF SALVADOR DAS MISSÕES-RS
Ivete T. Strieder2 e César de David3
RESUMO
O trabalho analisa a organização espacial do
município de Salvador das Missões/RS, sobretudo do
meio rural, com vistas a reconhecer os principais
problemas causas, conseqüências e apontar possíveis
soluções. O município possui uma estrutura agrária
baseada na pequena propriedade na qual está
ocorrendo grave problema conseqüente das técnicas
inadequadas empregadas para trabalhar a terra e
insuficiência de políticas governamentais direcionadas a
pequena propriedade.
Estrutura
Agrícola;
Palavras-chaves:
Sócioeconômico; Salvador das Missões.

Perfil

ABSTRACT
The study analyzes the special organization of the
borough of Salvador das Missões-R.S., above all in the
countryside, with the objective of recognizing the main
problems, the causes, the consequences, and to pointing
out possible solutions. The borough has na agrarian
structure based on small properties that are suffering
deep problems in consequence of inadequate techniques
used to cultivate the land and insufficient governmental
politics directed to small homesteads.
Key Words: Agricultural structure; Social-economical
profile; Salvador das Missões-RS.

décadas, devido, principalmente, ao acelerado
crescimento tecnológico e da comunicação. Quando
ocorrem inovações no sistema é preciso que esteja claro
o quanto isto o afetará, pois elas podem gerar efeito
negativo.
Assim, este trabalho tem como objetivo analisar a
organização espacial do município de Salvador das
Missões/RS, sobretudo do meio rural, com vistas a
reconhecer os principais problemas enfrentados pela
população e apontar soluções. Problemas comuns a um
grande número de municípios da região noroeste do
estado do Rio Grande do Sul que possuem um processo
de colonização e desenvolvimento semelhante. Para
atender ao objetivo foi aplicado um questionário em todas
as unidades residenciais, do município entre os dias
01/04/1998 a 30/06/1998. Na pesquisa cada entrevistado
pode, além de informar sobre a situação socioeconômica,
identificar o setor onde estão os principais problemas e
suas causas, além de sugerir alternativas para solucionálos.
O município de Salvador das Missões está
situado na região noroeste do estado do Rio Grande do
Sul, distante da capital do estado 535 km. Tem sua
posição estabelecida pelas coordenadas geográficas de
28° 10' de latitude sul e 54° 45' 30" de longitude oeste. A
área do município é de 94,82 Km2, com uma população
total de 2.732 habitantes (Conforme questionário
aplicado em 1998) distribuindo-se em 682 domicílios,
sendo a população urbana composta de 414 habitantes
ocupando 108 residências e a população rural de 2.318
habitantes dividindo-se em 574 residências.

1 INTRODUÇÃO
A agricultura está ligada à cultura, à história, às
oportunidades e as restrições geográficas e ecológicas
do local, assim como aos valores, conhecimentos,
habilidades, tecnologias e instituições da sociedade rural.
O sistema de produção do estabelecimento
agrícola é determinado pelo contexto biofísico e,
também, pelas características socioeconômicas, culturais
e políticas, sobretudo as ligadas à família.
Alguns processos que influenciam nos sistemas
são: os contatos sempre maiores com as sociedades
urbanas; o desenvolvimento dos meios de comunicação;
a integração ao sistema comercial de mercado; o nível de
educação dos componentes da família; a degradação do
meio natural e as políticas governamentais dirigidas ao
setor.
Os sistemas agrícolas não são estáticos, mudam
ao longo das gerações, e mais rapidamente nas últimas
1
2
3

2 HISTÓRICO DA COLONIZAÇÃO DO RIO GRANDE
DO SUL E A INTRODUÇÃO DA PEQUENA
PROPRIEDADE NA REGIÃO NOROESTE DO
ESTADO
O inicio da colonização estrangeira no Rio Grande
do Sul ocorreu com o total apoio do governo Imperial.
Desejoso de povoar o sul do território brasileiro para
garantir a posse definitiva do mesmo, pois a região era
palco de constantes conflitos entre o exército nacional e
invasores (principalmente espanhóis) com interesse de
expandir seus domínios a leste (BASTIDE, 1976).
Os primeiros grupos de estrangeiros receberam
passagens pagas, propriedade de terras gratuitas,
alguns animais, sementes, ajuda em dinheiro nos
primeiros dois anos, naturalização com todos os direitos
dos demais brasileiros. Isto acarretou em enormes

Projeto de pesquisa financiado pelo FIPE -UFSM.
Aluna do Curso de Geografia.
Orientador. Prof. M. Sc. do Depart. de Geociências, CCNE, UFSM.

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gastos e o posterior corte de verbas para a colonização
estrangeira, por parte do Governo. (ROCHE, 1969)
Em 1850 houve a criação da Lei de Terras
(estabelecendo a compra como única forma de acesso à
terra) elaborada pela aristocracia latifundiária, a qual
temia a possível concorrência da nova classe produtora
que estava se formando no sul do Império,
principalmente no Rio Grande do Sul ­ os pequenos
proprietários.
Até a adoção desta Lei de Terras a aquisição da
terra sempre foi gratuita, desde a época anterior a
colonização, quando o governo presenteava com
enormes extensões de terra (as sesmarias), a quem era,
a seu ver, merecedor, como soldados participantes de
guerras e pessoas ligadas a corte. (CUNHA, 1991)
A introdução da pequena propriedade na região
noroeste do estado do Rio Grande do Sul ocorreu no
processo de colonização desencadeado pelos primeiros
imigrantes que chegaram ao estado gaúcho (alemães,
em 1824), formando núcleos de economia agrícola
(BASTIDE,1976). Quase um século após, em 1906, teve
origem o núcleo de Salvador das Missões.
No processo de colonização o tamanho das
propriedades foi diminuindo "O lote rural (colônia)
recebido pelo imigrante (o colono) não variou de
tamanho: até 1851, era de 77ha; de 1851 a 1889 foi de
48,4ha, e de 1889 em diante passou a ser de 25ha"
(BRUM, 1988). Por vários motivos, tais como: o
interesse do governo de que o imigrante desenvolvesse
a agricultura de subsistência - produção de alimentos;
as atividades praticadas fossem desenvolvidas com a
mão-de-obra dos próprios membros da família do
proprietário, o que, em princípio não exigia grandes
extensões de terra para o progresso das famílias; e
também, dessa forma o governo evitava entrar em
conflito com os estancieiros temerosos do poder que os
colonizadores poderiam adquirir.
3 A INSTALAÇÃO DA PEQUENA PROPRIEDADE NO
RIO GRANDE DO SUL
Para SINGER (1968), independentemente do
período e local em que foram instaladas, todas as
colônias passaram por três fases: a primeira baseada
em uma economia de subsistência que sucedeu ao
desmatamento e a organização da produção agrícola e
de artesanato incipiente, importando manufaturados
mínimos exigidos; na segunda fase, conjuntamente com
a expansão da agricultura de subsistência ocorreu a
produção de excedentes comercializáveis em troca de
alguns produtos necessários ao consumo dos colonos e;
na terceira fase, houve o surgimento de uma agricultura
comercial especializada, em sincronia com a ampliação
do mercado consumidor dos produtos coloniais que até
a fase anterior se restringia a Porto Alegre, a partir de
então, atingiu o centro do país. Segundo Singer
(1968:169):
... esta evolução não ocorreu simultaneamente
em todas as colônias, nem o período de tempo gasto
em cada fase de desenvolvimento obedeceu a qualquer
padrão pré-estabelecido ela foi-se dando na medida em
que o sistema de comunicação se ia estendendo e
atingindo as colônias, tendo em vista a rapidez com que
o mercado para a produção colonial rio-grandense se
expandia.

Acredita-se que a primeira fase tenha sido
estendida por mais tempo nas chamadas "colônias
velhas" fundadas antes da metade do século XIX e
anteriores a Lei de terra, considera-se, também, que os
colonos que chegaram posteriormente foram obrigados
a pagarem por suas propriedades obrigando-se a
produzir excedentes e vender ao mercado para adquirir
recursos, livrando-se da dívida inicial. Neste contexto se
enquadra o município de Salvador das Missões.
Inicialmente o desenvolvimento foi lento devido a
dificuldade de comunicação, as terras cobertas por
florestas, a falta de capital e a necessidade de
sobrevivência. Assim, desde o início os problemas não
se limitavam aqueles relacionados aos aspectos físicos,
muitos tiveram que buscar crédito junto a comerciantes
mais próximos, contraindo nova divida, que era paga em
valor de produto ficando dependente do comerciante
que funcionava como banqueiro. (ORLANDO,1994)
Devido as circunstância em que foi instalada a
pequena propriedade no estado do Rio Grande do Sul
se estabeleceu uma policultura baseada na variedade
de produtos agropecuários, sempre e, em primeiro
lugar, a produção daqueles mais consumidos na
alimentação da família. De acordo com BRUM
(1988:56):
Em cada propriedade rural, cultivada pelos
membros da própria família, produzia-se grande
variedade de produtos: milho, mandioca, trigo, arroz,
feijão, cana-de-açúcar, erva mate, batata inglesa, batata
doce, etc. ...Junto a residência da família ficava a horta,
onde se produzia hortaliças, verduras, legumes, pomar.
Assim, a maior parte das necessidades de consumo da
família rural era atendida pela própria produção.
Adquiria-se no comércio apenas o que não era
produzido na propriedade.
A produção variada logo gerou excedentes,
alguns produtos se adaptaram melhor ao local,
despertando maior interesse da família ou ainda por que
dispunham de condições para a comercialização.
O excedente produzido precisava de alguém que
o levasse ao local de comércio (atravessador), pois as
condições de transporte e as longas distâncias a serem
percorridas, consumiam horas e às vezes dias no ir e
vir, apareceu assim os comerciantes vindos de outros
lugares e/ou algum colono vizinhos dispostos a
comercializar os produtos, embolsando o valor
resultante da diferença entre o preço pago ao produtor e
aquele recebido na venda. Na volta sempre traziam, sob
encomenda ou não, inúmeros artefatos necessários e
não produzidos artesanalmente, cobrando pelos
mesmos um preço estipulado, pois não havendo meios
de comunicação o agricultor não tinha noção de preços
praticados no mercado. Com o progresso da colônia,
aumentava a produção e com ela prosperava o
comerciante por ficar com a maior parte do lucro. Este
processo dava o monopólio ao comerciante que com
isso controlava a produção da colônia. De acordo com
BRUM (1988: 58):
Nas cidades, bem como nas vilas e mesmo nos
povoados mais ativos, prosperavam atividades
artesanais e incipientes indústrias destinadas a
produção dos objetos e artigos de uso mais comum da
população, de acordo com os padrões tradicionais... .

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Com o aumento da circulação de mercadorias
promovidas pelos comerciantes, muitos produtos antes
produzidos artesanalmente no local, foram sendo
substituídos pelos industrializados provenientes de
outros lugares, resultando na conseqüente falência de
fabricantes locais. Somente alguns, com melhores
condições, investiram no ramo, comprando máquinas
importadas.
Com o crescimento industrial e comercial,
melhoria das comunicações encurtando distâncias e
colocando o agricultor mais próximo da fabricação do
produto, o raciocínio lógico seria que o preço dos
produtos
manufaturado
diminuísse
com
o
desenvolvimento, mas não foi exatamente isto que
ocorreu. Com a maior diversificação dos produtos e o
crescimento dos meios de comunicação, mostrando as
utilidades das novas tecnologias e criando necessidades
na mentalidade do produtor rural, o proprietário tornouse, cada vez mais, dependente do capital
industrial.(MESQUITA & SILVA, 1988)
Em meio a esse processo capitalista exploratório
surgiu no Rio Grande do Sul, em 1903, movimentos
cooperativistas, como o Caixa Rural controlado pela
Igreja Católica, que recebia depósitos e fazia
empréstimos aos colonos sem fins lucrativos.
A partir de 1911 o movimento alastrou-se
contando, então, com o apoio do governo estadual ao
receber isenção de impostos. A partir daí mudou o
método de funcionamento, iniciando a cobrança de juros
baixos a prazo longo. A Caixa de Crédito Rural teve logo
apoio dos agricultores, pois foi uma forma de escapar
dos comerciantes. Estes, a muito tempo, vinham
explorando e enriquecendo as custas dos trabalhadores
rurais.
Com a aprovação dos agricultores, o passo
seguinte foi a criação e construção de estabelecimentos
(cooperativas de agricultores) de compra e venda direta
de produtos coloniais aos grandes centros de consumo
e inclusive exterior, livrando o produtor do atravessador.
A partir de 1930, com o programa
desenvolvimentista do governo central, as cooperativas
foram utilizadas pelo Estado para implantar programas
voltados as áreas agrícolas.
A década de 1960 caracterizou-se por profundas
mudanças econômicas, sociais e políticas e pela
entrada de grande volume de capital estrangeiro através
do estabelecimento de empresas multinacionais e do
desenvolvimento rápido do capital privado, além da
modernização da agricultura.
A modernização da agricultura no planalto
gaúcho esteve, inicialmente, centrada na produção de
trigo o qual desencadeou as profundas transformações
nas técnicas de cultivo e manejo do solo, uma vez que
antes os instrumentos utilizados eram simples. Segundo
BRUM (1988:71):
Os instrumentos de trabalho utilizados eram
simples:...para o desbravamento usava-se foice e
machado, enxada e arado de tração animal para o
preparo do solo e controle das ervas daninhas; maquina
manual de plantar; foicinha de cortar trigo, arroz,
etc...máquina manual de matar formiga; carroça e outros
veículos de tração animal, para o transporte.
Agora passava a ser o trator, a colheitadeira, o
arado de disco, o terraceador, o pulverizador, o
caminhão.

19

Como fatores para a expansão do trigo em larga
escala, ainda é BRUM (1988) quem esclarece:
(1) o objetivo governamental de buscar autosuficiência na produção deste cereal, básico na
alimentação, procurando livrar-se da dependência da
importação;
(2) os interesses das corporações transnacionais
norte-americanas de implantar o complexo agroindustrial, como forma de expandir seus negócios,
através da criação de um mercado para insumos,
maquinas e equipamentos agrícolas;
(3) Condições favoráveis, na região, para lavoura
mecanizada e pessoas aptas em aceitar o desafio de
levar avante os empreendimentos.
Quem primeiro se lançou à produção
mecanizada não foi o agricultor tradicional, o pequeno
produtor rural, e sim pessoas da cidade com algum tipo
de vínculo com a agricultura: comerciantes, profissionais
liberais, e pequenos industriais, os quais possuíam uma
visão mais ampla dos negócios e habilidades para lidar
com os bancos. Inicialmente arrendando terras e depois,
também, adquirindo, tornaram-se os pioneiros na
expansão da modernização da agricultura no planalto
gaúcho.
O agricultor tradicional, não possuindo capital
próprio e tendo aversão a contrair empréstimos junto
aos bancos uma vez que isto implicava na hipoteca da
terra, de início não se sentiu atraído pela triticultura.
Somente a partir dos meados da década de 1960
ingressou no processo devido ao esgotamento do solo,
da falta de capitais, do declínio da produção e da
existência de incentivos apenas para o trigo. Deste
modo, ingressar na monocultura do trigo com o reforço
da soja em expansão tornou-se a alternativa viável,
através dela se dava o acesso ao crédito bancário para
a aquisição de máquinas modernas, insumos,
recuperação do solo e ingressar na produção
modernizada. Deste modo a pequena propriedade
deixou sua policultura, (produção de alimentos
diversificados para consumo interno, função primeira
para a qual foi implantada no Rio Grande do Sul), para
produzir predominantemente culturas empresariais.
As mudanças econômicas que ocorreram na
época também se refletiram em muitas cooperativas as
quais se transformaram em complexos comerciais e
agro-industriais, com enormes investimentos em suas
benfeitorias (silos, armazéns, caminhões, etc...).
Ainda, com o processo de internacionalização da
economia brasileira (penetração das multinacionais no
setor agrícola), na década de 1970, aparecem os
conglomerados agro-industriais que vem concorrer com
as cooperativas quebrando a hegemonia das mesmas.
Essas agroindústrias se instalaram e iniciaram o
trabalho junto aos trabalhadores rurais oferecendo
recursos para a instalação (benfeitorias), depois
fornecimento dos insumos, do início até o fim da
produção, e no fim da operação a compra e
industrialização do produto, dando sempre a garantia da
venda do seu produto ao agricultor, processo feito pela
cooperativa com a diferença que esta não garantia a
compra da produção, pois dependia do mercado
externo.
3.1 A Economia Agrícola da Zona Colonial.

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Para SINGER (1968: 186) a economia agrícola
da zona colonial entrou em decadência a partir da
metade do século XX, tendo por base fatores de ordem
endógena e exógena às unidades de produção. De
ordem exógena cita a concorrência externa em vários
mercados, como sendo o mais importante. Assessoria e
Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa, AS-PTA,
(1994:8) cita outros fatores como:

Tabela 2 - Tamanho das propriedades rurais.

- Na elaboração de políticas agrícolas de
desenvolvimento, o governo discrimina a pequena
propriedade.
- Poucos recursos destinados a pequena propriedade.
- Propriedade muito pequena.
- Serviços agrícolas ineficientes.
- Burocracia para aquisição de recursos.
- Maior parte da tecnologia inadequada à pequena
propriedade, a adequada não chega ao conhecimento
do agricultor.
- Insumos industrializados são muito caros, preços na
venda da produção são baixos e comercialização
instável.
- Poder aquisitivo dos consumidores urbanos é baixo, o
que limita a expansão do mercado interno e reduz os
preços.
- As restrições, protecionismo e subsídios impostos
pelos países desenvolvidos dificultam a exportação e
estimulam as importações de alimentos a preços
subsidiados, prejudicando os produtores nacionais.
Transferência de recursos do setor rural-agrícola para o
setor urbano industrial.

Existem hoje no município 142 famílias que não
possuem terra, repartindo as já pequenas propriedades
dos pais, não permite a sobrevivência.
A falta de terra resulta no desemprego, na época
em que foram realizadas as entrevistas 170 pessoas
estavam procurando emprego. As possíveis ocupações
são mencionadas na Tabela 3.

O desenvolvimento da agricultura, sempre
recebeu influência do governo, quer federal, quanto
estadual ou local, sendo, muitas vezes, decisivo para
seu progresso ou estagnação, pois através das políticas
direcionadas para determinados setores, conforme o
interesse dos grupos sociais dominantes. (DINIZ, 1984)
4 PERFIL SÓCIO-ECONÔMICO DA PRODUÇÃO
AGRÍCOLA DE SALVADOR DAS MISSÕES - RS
A atividade básica da população tem sido a
agropecuária, sendo este setor responsável por 77,99%
do total das contribuições no Município, de acordo com
a Tabela 1
Tabela 1 - Contribuições setoriais - 1996
ESPECIFICAÇÃO VALOR (R$) (%) SUB-TOTAL
Agropecuária
1 890 190,55
77,99%
Indústria
161 926,48
6,68%
Comércio
327 516,03
13,51%
Serviços
43 940,36
1,82%
TOTAL
2 423 573,44
100,00%
Fonte: Dados do questionário, 1998.

A agropecuária é desenvolvida sobre uma
estrutura fundiária de pequenas propriedades,
possuindo 574 famílias de agricultores produtores
distribuídos em uma área média de aproximadamente
16,31ha cada uma das unidades familiares. Portanto,
pequenos produtores que trabalham em regime familiar,
conforme a Tabela 2.
A área média cultivada com culturas anuais é de
12 hectares. Este tamanho reduzido da propriedade é
causa do maior problema enfrentado pelos filhos dos
agricultores, o difícil acesso a terra.

NÚMERO DE HECTARES

Nenhum
Até 10 ha
Até 20 ha
Mais que 20 ha
TOTAL

NÚMERO DE FAMÍLIAS

142
183
202
47
574

Fonte: Dados do questionário, 1998

Tabela 3 - Funções que poderiam ser desempenhadas
pelos desempregados.
FUNÇÕES
N° DE PESSOAS
Babá, Pedreiro, Carregador,
Comunicação, Recepcionista
5
Costureira
2
Merendeira
2
Faxineira
3
Magistério
4
Doméstica
5
Agricultura
6
Agentes de saúde
8
Computação
9
Escritório
13
Operador de máquinas (indústria)
14
Serviços gerais
18
Motorista
23
Comércio
24
Qualquer emprego
34
TOTAL
170
Fonte: Dados do questionário, 1998.

Pode-se perceber que as funções que desejam
desempenhar , na sua maioria, não exigem curso
superior.
De acordo com os dados levantados, Tabela 4, a
população na sua maioria não está preparada para
enfrentar
mercado
de
trabalho
fora
da
agricultura.Encontra-se aí o problema da não
qualificação da mão-de-obra, embora havendo vagas
em oferta com exigência de escolaridade, poucos
desempregados do município podem ocupá-las.
Tabela 4 - Grau de escolaridade (população acima de 6
anos de idade).
GRAU DE ESCOLARIDADE
PESSOAS
10 grau incompleto
1485
10 grau completo
206
20 grau incompleto
116
20 grau completo
160
30 grau incompleto
22
30 grau completo
27
TOTAL
2016
Fonte: Dados do questionário, 1998.

A solução sugerida para esse problema, pelos
agricultores, seria um crédito fundiário para que os
jovens possam adquirir terras e evitar o problema do
desemprego.
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Encontra-se aí o problema da não qualificação
da mão-de-obra, embora havendo vagas em oferta com
exigência de escolaridade, poucos desempregados do
município podem ocupá-las.
A solução sugerida para esse problema, pelos
agricultores, seria um crédito fundiário para que os
jovens possam adquirir terras e evitar o problema
desemprego.
Encontra-se aí o problema da não qualificação
da mão-de-obra, embora havendo vagas com exigência
de escolaridade, poucos desempregados do município
podem ocupá-las.
A solução sugerida para esse problema, pelos
agricultores, seria um crédito fundiário para que os
jovens possam adquirir terras e evitar o problema do
desemprego.
Condicionados ao relevo de uma topografia
pouco acidentada permite a mecanização nas atividades
agrícolas em 85% da área o que foi fator fundamental
da intensa mecanização no município, e suas
conseqüências, como o endividamento com as compras
das máquinas, o que canalizou, por vários anos, todos
os lucros para este fim, o agricultor deixava de investir
na compra de terras, escola dos filhos e no bem estar
geral da família para pagar as dívidas, chegando alguns
a perder suas terras para o sistema financeiro.
A
intensa
mecanização
teve
outras
conseqüências, como, o emprego indevido do
maquinário que resultou na compactação e erosão do
solo diminuindo a produtividade, ainda, favoreceu, na
região, o binômio trigo e soja, pois as outras culturas
exigiam maior trabalho manual.
Com o binômio trigo e soja vieram os insumos
que são utilizados desde o preparo do solo até a
colheita. Esses insumos são produtos industrializados,
consumidos, pela unidade de produção aumentando seu
custo, conforme Tabela 5.
Tabela 5 - Custo da lavoura de soja de um ha. (Plantio
direto na palha). Custos do mês de fevereiro de 1999.
PRODUTOS UTILIZADOS
Fertilizantes (calcário, adubo)
Herbicidas
Inseticidas
Custo Terra
Custo mão-de-obra
Custo máquinas
Combustíveis
Sementes
TOTAL

GASTOS EM REAIS
60,00
60,00
15,00
30,00
60,00
54,00
24,00
40,00
339,00

Fonte: Dados fornecidos por engenheiro. agrônomo. da DEFENSA (Revenda de
defensivos agrícolas), escritório de São Borja, responsável pela região oeste do
estado do Rio Grande do Sul.

Existem hoje somente 202 tratores para 574
agricultores, sendo este o instrumento considerado
fundamental para o desenvolvimento de uma
propriedade, a causa é a falta de recursos para
aquisição de máquinas e implementos novos e para a
manutenção adequada das sucatas, tornando-se
impossível a recuperação dos mesmos.
Alguns fatores que contribuíram para a solução
desse problema seriam linhas de crédito especiais e
viáveis para aquisição e reforma de máquinas, sendo
que os recursos do PRONAF ainda são considerados de
juro muito elevado; associações de agricultores para
compra, em conjunto, de máquinas agrícolas; a
ampliação da assistência técnica prestando informações

21

sobre tecnologias viáveis, financeiramente, à situação
do pequeno proprietário e apropriadas à pequena
propriedade.
O preço atual da saca de soja é de R$ 15,00, a
produção média é de 25 sacas /hectare. Tendo um
gasto de R$ 339,00 ou 22,6 sacas para produzir 1
hectare, o agricultor terá lucro de 2,4 sacas/hectare ou
R$ 36,00/hectare plantada. Considerando, a área média
cultivada com soja, pelos agricultores de Salvador das
Missões, sendo de 12ha, o produtor terá, por ano, um
rendimento de R$ 432,00.
A maior parte da produção é vendida à
COOPEROQUE, que atua na compra de soja, milho,
trigo e suínos; comercialização de insumos,
medicamentos veterinários, ferramentas, tecidos,
confecções e produtos alimentícios. A cooperativa tem
sede no município de Salvador das Missões e recebe
produtos dos municípios de Cerro Largo, São Pedro do
Butiá, Campina das Missões, Roque Gonzales e
Rolador. Em torno da mesma gira a maior parte do
comércio local, exercendo uma certa forma de
monopólio, não deixando nenhum concorrente se
desenvolver dentro do município, sendo que além dela
há em todo município 14 mini-estabelecimentos
comerciais conforme a Tabela 6.
Tabela 6 - Estabelecimentos comerciais de Salvador
das Missões excluindo a cooperativa
TIPO DE PRODUTOS
COMERCIALIZADOS

Insumos Agropecários
Mini-Mercados de produtos
alimentícios
Loja de confecções
Venda de imóveis e
eletrodomésticos
Lancherias
TOTAL

NÚMERO DE
ESTABELECIMENTOS

2
4
3
2
3
14

Fonte: Dados do questionário, 1998.

Em todas elas, com exceção da cooperativa,
trabalham somente a família do dono, se tivessem
recursos para ampliação, gerariam empregos para
pessoas fora da unidade familiar.
Além da soja e do trigo são cultivados o aipim, a
cana de açúcar, o feijão, a batata inglesa, milho, frutas e
verduras, somente para a subsistência e trato de
animais domésticos, pois segundo os agricultores é
muito arriscado plantar em grande quantia, por vários
fatores, como: não possuir garantias de venda da
produção (quando consegue vender os preços mínimos
são aquém dos custos de produção) poucos
conhecimentos e práticas de comercialização; distância
dos centros consumidores gerando custos altos com
transporte; os intermediários ficam com a maior parte
dos lucros; baixo poder aquisitivo da população que
gera vendas reduzidas no comércio e indústrias
existentes; falta de agroindústrias para a industrialização
do produto o que eliminaria intermediários, e ainda,
porque os produtos industrializados possuem mais
mercado.
A solução para esses problemas é a instalação
de agroindústrias. Com a falta de recursos, para que
estas se concretizem, uma alternativa seria a formação
de associações. As agroindústrias são incentivadas pela
assistência técnica e extensão rural, Secretaria
Municipal da Agricultura, sindicato dos Trabalhadores
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Rurais e Igreja Católica. E ainda, o agricultor se vê
obrigado pela exigência das políticas especiais de
fornecimento de créditos à agricultura familiar, sendo
que as mesmas só liberam verbas para associações e
não mais individualmente. Entretanto, para a formação
dessas associações o agricultor enfrenta individualismo
e o pouco conhecimento sobre formas associativas o
que precisa ser superado.
Quanto a pecuária, a suinocultura sempre ocupou
um lugar de destaque, porém nos últimos anos, a criação
de gado leiteiro se sobressai, devido ao alto custo da
alimentação dos suínos, produzida em indústrias e não
pelo produtor e, também, pela quantia de produto
consumido sendo que o suíno é criado em estado de
confinamento, enquanto que o gado leiteiro é alimentado
com pastagens produzidas na propriedade, sem muito
investimento, e sem precisar receber os cuidados
permanentes. A pecuária leiteira sobressai também
porque a indústria do leite não é tão exigente quanto a da
carne suína, no que se refere a alimentação do animal.
Mesmo vendendo o litro de leite por R$ 0,19 centavos de
reais, quando deveriam custar R$0,30 centavos de reais
para cobrir os custos de produção. Os produtores ainda
acham mais vantajoso vender leite do que carne suína. A
média de produção por vaca é de três litros/ordenha e a
média diária de venda por produtor é de 30 litros.
O produtor não recebe o suficiente para cobrir os
custos, conseqüentemente não tem condições de fazer
novos investimentos e aumentar a produtividade.
O maior problema deste setor, também, está na
comercialização "in natura" do leite e da carne, o mesmo
que ocorre com os hortifrutigrangeiros. A solução seria a
industrialização do produto pelo próprio agricultor, para
isto precisa de informações sobre o processo de
industrialização de cada produto. Essas informações
podem ser fornecidas através de cursos oferecidos por
órgãos/entidades do governo no município e centro de
treinamento de apoio a agricultura familiar, e ainda, a
adequação das escolas à realidade do meio rural.
Existem hoje cinco escolas no município, que
atendem ao todo 618 alunos, conforme a Tabela 7.
Estas escolas poderiam colaborar em muito na
melhoria da qualidade de vida das famílias e no
desenvolvimento do município, mas, o problema
relatado pela população é que o ensino não está voltado
ao meio rural, não prepara o jovem para permanecer no
meio rural. As alternativas que solucionariam o
problema seriam a reforma do currículo escolar com
disciplinas voltadas para as explorações agropecuárias,
pequenas agroindústrias para o ensino prático e
professores com capacitação técnica.
Ainda foram levantados problemas relacionados
a área da saúde, saneamento básico e habitação, tanto
na área rural como urbana.
Na área da saúde foram relatados problemas
como o restrito trabalho de saúde preventiva; inexistência
de unidade hospitalar no município, o que obriga a
população procurar atendimento nos municípios vizinhos;
a alimentação deficiente ou inadequada, no planejamento
das refeições a maioria das famílias não observa os
quatro grupos alimentares necessários, a alimentação é
a base de cereais, raízes e carnes gordurosas.
Destacam-se algumas alternativas que poderiam
resolver o problema como a intervenção da prefeitura;
treinamento e contratação de agentes de saúde nas
comunidades; ampliar e equipar o posto de saúde e, no
que se relaciona a inadequada alimentação, isto poderia

ser resolvido com cursos de preparação de alimentos
algo que também poderia ser incluído no currículo das
escolas.
Tabela 7 - Escolas do município de Salvador das
Missões.
NOME DA ESCOLA
Escola Estadual de 1º e 2º
Graus João de Castilhos
Escola Estadual de 1º Grau
Incompleto Egon Hoff
Escola Municipal de 1º Grau
São Nicolau
Escola Municipal de 1º Grau
Padre Afonso Rodrigues
Escola Municipal de 1º Grau
Incompleto Romano
Heizmann
TOTAL

LOCALIZAÇÃO
Sede do
Município
Vila Santo
Antônio

ALUNOS

Vila Caraguatá
Vila Santa
Catarina

97
146

Esquina
Faxinal
5

26
618

325
24

Fonte: Dados do questionário, 1998.

No setor de saneamento básico os principais
problemas, tanto do meio rural como o do urbano são a
falta de instalações sanitárias em 4% das residências; a
falta de limpeza regular da caixa de armazenamento de
água (em 105 residências a limpeza é feita de dois em
dois anos ou, ás vezes, num período ainda maior,
quando deveria ser feita semestralmente); O destino do
lixo doméstico (em 148 casos é depositado a céu aberto).
Prováveis alternativas para resolução dos
problemas seria um programa municipal para
distribuição de lotes e ajuda na infra-estrutura,
programas de habitação federal, estadual e municipal e
mutirões habitacionais.
Constatou-se, através da análise realizada, que
uma das principais causas dos problemas, tanto da
população urbana quanto da população rural é que o
setor agropecuário não é considerado prioridade pelo
governo federal, há falta de incentivos, inexistência de
uma política agrícola definida, e o crédito é considerado
de custo elevado e muito burocratizado, inviável para os
micros produtores. Pois no que se refere aos principais
problemas citados, pode-se perceber que alguns são
conseqüências, diretas
da pobreza do setor
agropecuário, e também, devido a falta de investimento
por parte da prefeitura, que cuja atuação encontra-se
limitada em função da carência de verbas para
investimentos
pois
a
pequena
produção
e
comercialização no município reduz o retorno de
impostos.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
As possíveis soluções para os problemas, são, a
educação do agricultor, a aquisição de tecnologias
adequadas e a organização em associações. A
organização dos agricultores em associações para
aquisição de insumos, maquinário, investimento em
agroindústrias, entre outros, tende a afastar o agricultor
da dependência de políticas de crédito governamental,
dos empréstimos bancários e dos altos juros cobrados
pelo sistema financeiro.
As associações promovem troca de experiências,
informações e fazem com que o produtor tenha
condições financeiras para adquirir novas tecnologias e,
conseqüentemente, aumentar sua produtividade.

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6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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a agricultura sustentável e de baixo uso de insumos
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DIFEL, 1976
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VOZES, 1982.
_____ . A Modernização da Agricultura: trigo e soja.
Petrópolis: VOZES, 1988.
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Agropecuária brasileira: da Agricultura Escravista ao
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CUNHA, J. L. Os Colonos Alemães e a fumicultura
Santa Cruz do Sul. Rio Grande do Sul 1849-1881. Santa
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Sul. Porto Alegre: Globo, V. I - II, 1969.
SINGER, P. Desenvolvimento Econômico e Evolução
São
Paulo:
Nacional,
1968.
Urbana.

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USO DA TERRA EM VERTENTES ÍNGREMES: O CASO DA MICROBACIA
HIDROGRÁFICA DO ARROIO JACUTINGA - RS1
LAND-USE IN SHEER SLOPS: THE CASE OF RIVER JACUTINGA - RS
2

3

Marcuse de Jesus da Cunha Guazina , Andréa Rossato Branco e Waterloo Pereira Filho
RESUMO
O foco de estudo está centrado nas formas de
uso da terra em vertentes com declividade igual ou
superior a 25%, na microbacia hidrográfica do arroio
Jacutinga, que atravessa a sede do município de Ivorá.
Tendo em vista o que propõe CROFTS citado por
FUCHS (1986), quanto a aptidões e limitações do uso
da terra em vertentes com declividades superiores a
25%. "Há sérios problemas de instabilidade de
vertentes, são áreas de preservação florestal". A área foi
mapeada e foram identificados os temas de interesse,
tais como: limites da microbacia, hidrografia declividade
igual ou maior que 25% (vertentes íngremes) e o uso da
terra. Os dados, do mapa compilado, partir da imagem
de satélite Landsat - TM e da carta de declividade,
foram integrados através do Programa Computacional
Microcam que se mostrou apropriado à visualização dos
temas, para um pequeno número de dados, entretanto a
entrada destes apresentou-se ineficiente devido ao
tempo despendido. As áreas foram quantificadas
através do computador. As vertentes com declividade
extrema apresentaram 58,09% sem cobertura florestal,
sendo ocupada por culturas temporárias o que
proporciona o uso inadequado da terra em relação à
aptidão desta classe de declividade, conforme autor
citado e necessitam de um incremento florestal de
316,24ha.
Palavras-chaves: Declividade; Uso da terra.
ABSTRACT
This present study is focused on the ways of the
land use in slopes with 25 percent of declivity or more
than this, in the hydrographic micro basin of Jacutinga
gully, which goes through the seat of the county of Ivorá.
Bearing in mind what CROFTS suggests, when cited by
FUCHS (1986), whom talking about aptitudes and
limitations of the land use in slopes with more than 25
percent of declivity, "There are serious instability
problems of slopes, they are areas of forestall
preservation." The area was mapped and the issues of
interest were identified, such as: limits of the micro
basin, hydrography, 25 percent of declivity or more
(sheer slopes) and land use. Data from the map,
compiled from the images of Landsat-TM satellite and
from the declivity chart, were integrated by the computer
programming Microcam, which was appropiate to the
1
2
3
4

4

visualization of the issues, for a amall amount of data,
however the entrance of the data was inefficient due to
the time which was spent. The areas were quantified
through a computer. The slopes with extreme occupied
by temporary cultures which provide na anadequate land
use in relation to the aptitude of this class of declivity,
according to the cited author and they need a forestall
increment of 316,24 ha.
Key words: Declivity; Land-use.
1 INTRODUÇÃO

A degradação das florestas não é um
fenômeno atual. Desde os tempos primitivos o
homem a fim de suprir suas necessidades,
começou devastá-las. "O desmatamento constitui,
em inúmeras regiões do globo o primeiro estágio
da destruição dos meios primitivos e da
degradação dos solos. No passado o machado e o
fogo estão na origem de um processo infernal,
pois o desflorestamento gera uma erosão
acelerada. As inundações e a degradação dos
solos, consecutivas à destruição da floresta,
arruinaram as cidades e as lavouras nas regiões
baixas. No entanto o desflorestamento prossegue
num ritmo intensificado em todo o mundo, sendo
particularmente nefasto nos terrenos em declive,
onde a cobertura vegetal constitui a única
proteção verdadeiramente eficaz" DORST (1973).
Atualmente, o desenvolvimento tem assumido
grandes proporções. A crescente procura de madeiras,
o grande interesse por uma agricultura rentável, sem
grandes investimentos e o grande aumento da
população em todo o mundo, vem transformando o
nosso planeta, proporcionando a degradação das
florestas e, consequentemente, dos solos.
Na África, o desflorestamento tem ocorrido de
forma intensa. Calcula se que 2/3 das florestas tropicais
diminuíram. Quanto à Ásia, o desflorestamento continua
provocando a erosão de inúmeros setores. Somente
18% da Índia e em 9% da China persistem florestados
(DORST, 1973).O mesmo autor cita os efeitos da
mudança do uso da terra que ocorreu nos Estados
Unido da América a partir da segunda metade do século
XIX. O deslocamento de colonos da região florestal leste
para as planícies do oeste, eliminando a vegetação

Trabalho realizado sob a concessão de bolsas de Iniciação Científica do CNPq. Proc.: 80.0356/92.6-GL.
Licenciado em Geografia pela UFSM.
Licenciada em Geografia pela UFSM.
Orientador, Prof. M. Sc. do Departamento de Geociências/CCNE/UFSM.

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florestal e gramínea, que foram substituídas por culturas
de cereais, trouxe para a região problemas sociais e
econômicos, devido as culturas permanentes.
No Brasil, as marcas da agressão ao meio
ambiente estendem-se por todo o território. A destruição
gradativa da fauna e da flora, ameaça até mesmo os
grandes santuários ecológicos, como a Amazônia e o
Pantanal Mato-grossense.
No Rio Grande do Sul, a situação é alarmante. A
cada ano, são derrubadas 90.000ha de árvores
desalojando animais, alguns já em vias de extinção. No
passado havia 40% de matas nativas, hoje as
estimativas apontam menos de 2,6% (ZERO HORA,
1991).
O cultivo, consecutivo com desbravamento,
completa a destruição dos habitats. Essa condição
proporciona, em muitos casos, praticas agrícolas sem
técnicas conservacionistas que aceleram muito os
processos de erosão.
A microbacia do arroio Jacutinga está inserida na
zona de transição entre o Planalto Meridional e a
Depressão Periférica. Localiza-se no Rebordo do
Planalto, onde as declividades decorrentes de sua
localização são muito acentuadas, sendo dessa forma,
sujeitas a processos intensivos de erosão.
Tendo em vista essa situação, o presente estudo
teve os seguintes objetivos básicos:
a) Mapear a presença ou não de vegetação arbórea em
áreas declivosas, na microbacia do arroio Jacutinga.
b) Quantificar a área da mata em vertentes iguais ou
superiores 25% de declividade.
c) Testar o potencial do sistema computacional
"MICROCAM" para a representação gráfica, dos temas
objeto deste trabalho.
2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS
O avanço da técnica de sensoriamento remoto
tem proporcionado a identificação cada vez mais
detalhada da superfície terrestre, permitindo destacar
temas como uso da terra, qualidade da água, geologia,
etc.
Em trabalho realizado por KHORRAM e
BROCKHAUS (1991), na Província de Sicília, no Sul da
Itália, foram classificados 22 tipos de uso do solo e
vegetação. Esses autores encontraram dificuldade para
diferenciar áreas urbanas de complexos industriais. No
decorrer do trabalho foi desenvolvida metodologia
apropriada, para identificação do uso do solo. Esse
trabalho destaca, ainda, a necessidade de fazer-se um
estudo periódico, devido ao fato de que imagens obtidas
em épocas diferentes produzem variação nos resultados
entre uma estação do ano e outra.
DWIVEDI e SANKAR (1991) estudaram a
mudança da área de cultivos entre 1978 e 1984
mediante recursos de sensoriamento remoto. O trabalho
foi realizado no Estado Orissa no noroeste da Índia.
Concluíram que neste período o uso agrícola dobrou em
área o que se repete também em outras regiões dos
trópicos úmidos como no Sul da América do Sul no
Sudeste da China e da África. Esses autores destacam
que o cultivo realizado num período de três anos
consecutivos deixa o solo degradado e exaurido,
principalmente se o relevo se apresentar ondulado e se
a precipitação pluviométrica for elevada. Conforme
ODUM (1988), os Estados Unidos começou a
preocupar-se com a conservação do solo a partir de

1930, com a criação do Serviço de Conservação do
Solo (SCS), com o objetivo de combater a erosão dos
solos.
As medidas tiveram sucesso, devido a
conciliação entre o governo de Washington e os
governos estaduais, com as Universidades Rurais, em
que o governo participava com recursos e as
universidades com o conhecimento.
O crescimento econômico dos agricultores
também influenciou para que a situação de perda de
solos fosse invertida. Sérias medidas foram tomadas,
tais como: construção de terraços, lavouras seguindo
curvas de nível, tanques nas fazendas, culturas de
cobertura, faixas tampão de vegetação permanente,
rotação de culturas e outras medidas.
O SCS considera uma perda anual de campos
cultivados em fileiras de 12,5t/ha, o nível máximo
tolerável para solos bons e profundos; 5t/ha para solos
mais pobres e mais rasos.
LANGDALE et al apud ODUM (1988), estimam
que para 2,5cm de solo perdido ocorre uma redução de
até 10% da colheita de arroz.
Na figura 1 observam-se diferentes valores de
perdas de solo de acordo com o uso da terra, e que
pode atingir valores expressivos sob determinado uso,
principalmente se não houver um adequado manejo de
uso da terra.
ODUM (1988), considera que a rede hidrográfica
é um sistema aberto por isso as causas e as soluções
da poluição da água não são encontradas, analisandose somente a água. O seu funcionamento e estabilidade
relativa ao longo dos anos são determinados em grande
parte pela entrada e saída de águas materiais e
organismos de outras partes da bacia de captação. Se a
entrada de materiais for muito grande e não puder ser
assimilado, o rápido acúmulo de materiais poderá
destruir o sistema.

Figura 1 - Perda de solos (erosão do solo) em relação à
utilização da terra. (Do relatório oficial do United States
Departament of Agriculture, 1978)
Este autor destaca que a erosão do solo e a
perda de nutrientes de uma floresta perturbada ou de
um campo cultivado inadequadamente, não somente
empobrecem esses ecossistemas, como também
podem causar impactos, como eutrofização a jusante
em um rio.
Outro estudo, citado por ODUM (1981), feito na
área de Hubbard Brook em Nova Hampshire, foi
realizado em bacias experimentais, com áreas que

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variavam de 12 a 48ha sob uma precipitação
pluviométrica de 1.230mm por ano. As concentrações
de cálcio e de outros minerais foram medidas a jusante
de uma barragem, o que tornou possível calcular o
balanço de entrada e saída de materiais. Na área com
florestas, a perda estimada do ecossistema foi de 8kg
de cálcio/ha/ano, sendo que 3kg do cálcio foram
repostos com a chuva. Os 5kg/ha que faltam acredita-se
que foi fornecida pela taxa normal de intemperismo a
partir da rocha subjacente.
Na mesma bacia, foi cortada a vegetação e
suprimiu-se toda a aplicação de herbicidas. Mesmo o
solo tendo sido pouco perturbado, a saída de nutrientes
minerais no riacho aumentou de 3-15 vezes, em
comparação com as perdas das bacias hidrográficas de
controle, não perturbadas.
Após a recuperação da vegetação (sem mais
aplicações de herbicidas) a perda de nutrientes diminui
rapidamente, sendo restabelecido certo balanço
equilibrado de 3 a 5 anos, embora sendo necessário de
10 a 20 anos para que todos os nutrientes voltassem às
condições normais de saída de uma bacia hidrográfica
de floresta não perturbada.
As perdas de nutrientes das bacias hidrográficas
não perturbadas são muito pequenas, enquanto que,
com o uso mais intenso com atividades humanas, a
concentração de fósforo e nitrogênio em cursos d' água
e reservatórios aumentam devido à lixiviação do solo,
ocorrendo até mesmo o transporte do horizonte
orgânico, conforme ilustração da figura 2

Figura 2 - Perdas de fósforo e nitrogênio de acordo com
a intensidade do uso do solo (ODUM, 1988).
TUNDISI (1986a), estudou o processo de
eutrofização em reservatórios d' água, o que traz uma
série de conseqüências para o ecossistema como:

27

diminuição do oxigênio, aumento dos sedimentos em
suspensão e turbeis da água, o que se reduz as
possibilidades de sobrevivência da fauna e da flora,
essenciais a esse ambiente para completar o ciclo
ecológico.
O manejo inadequado da bacia hidrográfica sem
práticas de conservação do solo, como contenção de
enxurradas, produz a perda de nutrientes do solo, sendo
transportados pela águas das chuvas, depositando-se
no leito dos rios. Macronutrientes como nitrogênio,
fósforo e potássio, que são aplicados em grandes
quantidades nas culturas agrícolas fornece sustento ao
fitoplâncton e micrófitas aquáticas. Essas condições
devem ser monitoradas, para permitir o nível trófico
adequado das águas.
A desagregação sedimentar resulta da
desproteção do solo, ocorrendo erosão, pela não
infiltração da água no solo, deixando de alimentar os
lençóis freáticos.
A ação antrópica, em vertentes acentuadas, sem
o uso de técnicas adequadas, acarreta o transporte de
sedimentos pelas águas da chuva, acumulando-se no
leito dos rios e proporcionando o assoreamento. Esta
condição promove menor vazão da água nas épocas de
chuvas por ter ocorrido menor infiltração de água nas
vertentes, proporcionando extravasamento do leito
principal. Nas épocas de estiagem, ocorre falta de água
devido à diminuição do volume de água armazenado e a
redução do nível do lençol freático e dos rios.
Dados da Federação das Associações dos
Engenheiros
Agrônomos
do
Brasil,
1993
(PETROBRAS,1986) demonstram que o País perde 600
milhões de toneladas de solo agrícola por ano, devido a
erosão e mau uso. Estudos realizados no noroeste do
Paraná mostram que são necessários 24000 anos nas
condições climáticas atuais, para se formar uma
camada de 60 cm de solo e que, em certos casos, o
mau uso já reduziu essa camada em 15 cm. Como
resultado tem se a perda física do solo, a perda de
nutrientes e a conseqüente queda da produção agrícola,
assoreamento dos rios, barragens e represas, CASSETI
(1991).
PEREIRA FILHO (1990), utilizou dados de
Sensoriamento Remoto na análise de duas sub-bacias
hidrográficas, a do rio Pucuruizinho e a do rio Lontra, na
área de captação da UHE Tucuruí. Avaliou as
características abióticas e antrópicas que vão influenciar
no ambiente aquático, mediante mensuração do TSS
(total de sedimentos em suspensão), e da taxa de
infestação de micrófitas aquáticas. Concluiu que a ação
antrópica foi causa maior da alteração do meio, desde
que o potencial abiótico, representado pela composição
geomorfológica seja mais intenso.
A análise da microbacia do arroio Jacutinga,
utilizando recursos de sensoriamento remoto, fez se
necessária devida a constatação "in loco" de um número
crescente de problemas ambientais, tais como:
desmatamento em vertentes íngremes, a redução da
mata ciliar dos rios, desproteção do solo. Estas
condições produzem conseqüências para a população
que habita e depende do próprio rio para sobreviver.
A desagregação de partículas do solo que,
principalmente em áreas declivosas, carreadas pelas
águas das chuvas, indo acumular-se nos leitos dos rios
tem causado uma série de prejuízos tanto para os
órgãos do governo como privados.

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O setor agrícola e o de transporte fluvial sofrem
prejuízos econômicos com o mau uso de vertentes,
tanto na redução da produtividade como na redução do
calado dos navios pela perda de nutrientes do solo e
assoreamento dos canais respectivamente.
Isto levou o governo do Estado Rio Grande do
Sul a baixar portaria, reduzindo o calado dos navios de
17 para 16 pés no porto de Porto Alegre e do Pólo
Petroquímico, com a redução da tonelagem por navio, o
que significa grandes prejuízos econômicos, (Zero
Hora,1993).
DUARTE (1988) conceitua declividade como
sendo a inclinação do terreno em relação à linha do
horizonte, ou seja, a tangente trigonométrica de uma
linha que seria a inclinação do relevo com a linha do
horizonte.
VILLELA E MATTOS (1975), salientam que a
declividade em uma bacia hidrográfica tem influência
direta na velocidade de escoamento das águas das
chuvas e o conseqüente risco de erosão.
CARNEIRO Apud FUCHS (1986), relata que a
repartição do espaço por classes de declividade é de
fundamental importância no manejo com o solo e com
isso se chegar à determinação das atividades
adequadas para cada classe de declividade, tais como:
conservação de solo, projetos agropecuários florestais,
áreas mecanizáveis entre outras.
FUCHS (1986), cita em sua obra que CROFTS
propõe que as áreas situadas em declividade superior a
25 % sejam de preservação florestal devido aos
problemas de erosão e instabilidade de vertentes a que
estão sujeitas.
2.3 Referencia da Legislação,(extraída do Código
Florestal, Lei Número 7.803 de 1989) Considerando o
Planejamento da Adequação da Capacidade de Uso
da Terra na Microbacia.
A Lei número 7.803, de 18 de julho de 1989
altera o código florestal, Lei 4.771, de 15 de setembro
de 1965. A seguir encontra ­se transcrita parte da lei
7.803.
Art. 2 ­ Consideram-se de preservação
permanente, pelo só efeito desta lei as florestas e as
demais formas de vegetação naturais situadas:
a) ao longo dos rios ou de qualquer curso d' água,
desde o seu nível mais alto em faixa marginal cuja
largura seja:
1- de 30 metros para os cursos d' água de menos de 10
metros de largura;
2- de 50 metros para os cursos d' água que tenham de
10 a 50 metros de largura;
b) ao redor das lagoas, lagos ou reservatórios d' águas
naturais ou artificiais;
c) nas nascentes, ainda que intermitentes e nos
chamados olhos d' água qualquer que seja a situação
topográfica, num raio mínimo de 50 metros de largura.
d) No topo dos morros, montes montanhas e serras;
e) Nas encostas ou parte destas com declividade
superior a 45 graus, equivalente a 100 % na linha de
maior declive;
f) Nas bordas dos tabuleiros ou chapadas, a partir da
linha de ruptura do relevo em faixa nunca inferior a 100
metros, em projeções horizontais.
Parágrafo único ­ No caso de áreas urbanas
assim entendidas as compreendidas nos perímetros
urbanos definidos por lei municipal, e nas regiões

metropolitanas e aglomerações urbanas, em todo
território abrangido, observa­se dispositivo nos
respectivos planos diretores e leis do uso do solo,
respeitado os princípios e limites a que se refere o
artigo.
Art. 10 ­ Não é permitida a derrubada de
florestas situadas em áreas de inclinação entre 25 a 45
graus, só sendo nelas toleradas a extração de toras,
quando em regime de utilização racional, que visem a
rendimentos permanentes.
3 MATERIAL E METODOLOGIA
3.1 Caracterização Geral da Microbacia
A área em estudo é definida pela microbacia do
arroio Jacutinga que drena parte do município de Ivorá e
atravessa a área urbana desse município, localizado no
Rio Grande do Sul com as seguintes coordenadas 530
25' a 530 40' de longitude oeste 290 22'a 290 33' de
latitude Sul.
A área em estudo abrange uma zona de
transição geológica e geomorfológica. Essa microbacia
localiza­se na escarpa do Planalto Meridional Brasileiro,
com a depressão Central. O que proporciona um relevo
acidentado com a presença de escarpas e vales; as
altitudes variam de 160m 485m.
Essa área faz parte da região florestal no Rio
Grande do Sul que se apresenta de forma densa e
fechada com diversidade de espécies.
A região era rica em madeira nobre, que
representou matéria prima básica para a população
dessa região colonial, para a produção de lenha, móvel
e a construção de casas. A região é classificada como
sendo de floresta estacional decidual (caducifólia) de
acordo com LEITE E KLEIN (1990).
Apresenta clima subtropical, com temperaturas
médias do mês mais quente superior a 25 graus e, a
média do mês mais frio,com temperatura em torno de 10
graus e precipitação pluviométrica média de 1.750 mm
ao ano (NIMER 1990).
3.2 Material Utilizado
Na realização deste trabalho foram utilizados os
seguintes materiais: (1) Microcomputador 286 com
vídeo colorido de 16 cores; (2) "Software Microcam"; (3)
"Software Careav"; (4) Impressora Matricial e Laser; (5)
Máquina Fotográfica; (6) Carta Topográfica; (7) Papel
Vegetal; (8) Material de desenho; (9) Automóvel.
3.3 Metodologia
Na execução do trabalho, definiu-se a área
através da bacia hidrográfica. Foram extraídos os dados
como hidrografia, vegetação, declividade superior a 25
% e o uso do solo nessas áreas. Foram utilizados dados
obtidos em fontes bibliográficas, cartográficas e em
trabalho de campo.
A elaboração de mapa-base fundamentou­se na
carta topográfica em escala 1:50000, de Camobi MI ­
2965/2.
A microbacia foi identificada com base na carta
topográfica, sendo o divisor de água identificado pelas
curvas de nível, pontos cotados e a rede de drenagem.
Depois de delimitada as áreas da sub­bacia, foram
extraídas para o papel vegetal a rede de drenagem, e as

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Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 25-31, 2001

coordenadas geográficas e UTM. O mapa assim
elaborado serviu de base para o mapa de declividade e
uso da terra.

29

Foram extraídas as áreas com declive superior a 25%
com e sem floresta e a áreas total da sub-bacia.
3.3.5 Uso do Microcam

3.3.1 Mapa de Declividade
Para a elaboração do mapa de declividade com
vertentes superiores a 25 % de inclinação, foi utilizado
um ábaco de declividade, conforme DE BIASI, (1970)
cujos métodos de confecção foram feitos a partir da
seguinte fórmula:
I =DN x100 / DH
I = Porcentagem de inclinação da vertente (%);
DN= Diferença de nível entre as curvas de nível;
DH= Distância horizontal dada pela eqüidistância entre
duas curvas de nível consecutivas.
Adotando-se a fórmula, chegou se a um valor
gráfico de I na escala do mapa de declividade,
correspondentes à classe de declividade acima de 25
%. Através do valor "I", que foi de 1.6mm, construiu se
um ábaco que utilizado sobre uma carta altimétrica e
especificamente entre duas curvas de nível sucessivas,
em que a distância entre as mesmas foram menor ou
igual 1.6mm, permitiu a identificação das áreas com
declividades superiores a 25 %, identificadas para a
escala utilizada 1:50000. Para pontos cotados foram
identificados em quadrantes.
Em função do material disponível e objetivo do
trabalho, classificou-se vertentes somente acima e
abaixo de 25 % de declividade, enquadrando ­ se na
classe de uso da terra 5 o que se destaca pelo motivo
da declividade que deve ser de preservação florestal.
3.3.2 Mapa do Uso da Terra
Esse mapa foi obtido a partir da sobreposição do
mapa de uso da terra da sub-bacia do rio Soturno,
elaborado pelo Departamento de Engenharia Rural da
Universidade Federal de Santa Maria, em 1990, que foi
atualizado através de fotografias aéreas, imagens de
satélite e trabalho de campo.
Com base nesse mapa foram identificadas somente as
classes de uso da terra com florestas e sem floresta.

Para mapeamento da área utilizou-se o programa
de computador MICROCAM, desenvolvido por Scott A.
Loomer, dos Estados Unidos reestruturado por Paul S.
Anderson que traduziu o manual para a língua
portuguesa.
A finalidade da utilização desse sistema no
estudo da microbacia foi de testar suas potencialidades
nos objetivos em questão bem como, a adaptação do
uso de técnicas computacionais na análise geográfica.
3.3.5.1 Vantagens do Programa Microcam para a
Cartografia
- Rapidez na elaboração da reprodução de mapas;
- Melhor apresentação na publicação;
- Possibilidades de desenvolvimento do Software, para
entrada de dados via mesa digitalizadora;
- Cruzamento de dados com representação espacial;
Utilizado em computador pessoal, não havendo
necessidade de conhecimento aprofundado em
computação para operá-los.
3.3.5.2 Limitações do Microcam
Entrada dos dados é permitido apenas via
teclado e não via mesa digitalizadora (na versão
utilizada).
O Microcam é um programa potente, mas não foi
construído para o uso de escalas grandes (pequenas
áreas).
Funciona com dados vetoriais e não matriciais o
que não permite o uso de imagens de satélites.
3.3.5.3 Técnica para Obtenção de Dados
A partir da limitação da microbacia foi
estabelecido um ponto central e traçado um conjunto de
eixos (x) e (y) abcissa e ordenada, em que a partir daí,
mediu-se a distâncias em polegadas para cada ponto do
segmento em questão.

3.3.3 Mapa do Cruzamento Declividade e Uso da Terra

3.3.5.4 Comandos do Microcam

Através da sobreposição do mapa do uso da terra
sobre o mapa de declividade, pode-se observar as
áreas com declividade superior a 25 % que já foram
devastadas, apresentando ou não culturas temporárias.
Com base nisso, foi confeccionado um mapa com o
cruzamento das duas informações, a fim de obter - se
uma melhor visualização do problema em estudo.

LINEXY ­ Desenha uma linha entre duas coordenadas
ligando as coordenadas do ponto 1 com as do ponto 2,
sendo que o último se liga ao primeiro.
TEXTXY ­ Desenha um texto em dada coordenada.
FILLXY ­ Preenchimento de uma dada área definida por
coordenadas.
REM ­ Desenha uma linha texto sem imprimir.
PEN ­ Seleciona a cor.
LINEMODE ­ Seleciona o tipo de linha.
LINEWT ­ Seleciona a espessura da linha.
BOXXY ­ Desenha um retângulo em dada coordenada.

3.3.4 Cálculo de Áreas
Para o cálculo das áreas da microbacia, das
manchas com declive, e do uso da terra, utilizou se um
sistema computadorizado de medições das áreas, via
mesa digitalizadora. Este sistema permite a
quantificação da área, deslocando-se o "mouse" sobre
o perímetro das áreas em avaliação. Logo que a área é
fechada e totalizada o número de pontos, obtém-se a
área de acordo com a escala previamente determinada.

3.3.5.5 Formas de Saída
O sistema possui saída de mapas via monitor de
vídeo, do qual se tirou fotografia com filme papel 36mm,
que permitiu a reprodução em "slides", via impressora
matricial em pinos monocromática, impressora "laser"e
impressora a jato de tinta.

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30

Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 25-31, 2001

4 RESULTADOS
Na microbacia, o uso de vertentes declivosas
para cultivos agrícolas tem sido intensa. Essa área se
caracteriza por pequenas propriedades rurais, com
intenso uso da terra, o que provoca o decréscimo da
produtividade, forçando os agricultores a avançarem em
direção às poucas áreas de cobertura florestal que
ainda restam, em busca de melhores rendimentos.
A representação e a análise da área de estudo
foram feitas através do mapeamento e sua
interpretação. Os dados cartográficos e de
sensoriamento remoto foram cruzados pelo Sistema
Computacional Microcam, visando obter-se informações
sobre a microbacia com dados do ano de 1990, ano em
que se tem imagem de satélite da área em estudo.
Com os equipamentos disponíveis a entrada de
dados tornou se demorada, pelo fato da versão
disponível possibilitar a entrada de dados apenas via
teclado, principal fator limitante identificado no sistema
utilizado. Por outro lado, mostrou-se versátil quanto à
saída de dados, o que se pode fazer, via impressora
matricial, impressora "laser" impressora colorida e em
tela colorida.
Os dados de declividade e uso da terra obtidos
estão representados na tabela com os respectivos
percentuais de cada classe de declividade:
A tabela 1 mostra que a microbacia do arroio
Jacutinga, possui uma área total de 1.823,10ha, sendo
que do total, 1.278,11ha possui declividade menor que
25% os quais não fazem parte do objetivo principal
deste trabalho.
Da área total da microbacia, 544,99ha possuem
declividade igual ou superior a 25% (considerados como
vertentes íngremes), o qual tolera certos tipos de uso da
terra, mas que não sejam cultivos anuais. Esta classe
corresponde a 30% da microbacia.

como, feijão e milho. A prática agrícola em áreas
íngremes trás problemas de instabilidade de vertentes e
perda de solo, conforme já abordado.

Figura 3 - Vertentes com declividade iguais ou superior
a 25% com e sem vegetação arbórea, na microbacia
hidrográfica do arroio Jacutinga.
Quanto maior o grau de inclinação de vertentes
maior é a susceptibilidade à erosão. Esse problema
torna-se mais grave em locais de intensa atividade
antrópica, principalmente sem manejo adequado.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tabela 1 ­ Diferentes situações de uso de acordo com
classes de declividade.
Classes de
Área
% Área Total
declividade
= ou < que 25%
1278,11
70,1%
= ou >25%
544,99
29,9%
= ou > 25% c/ floresta
228,74 (42%)
12,5%
= ou > 25% s/ floresta
316,24 (58%)
17,5%
Área Total da
Microbacia
1823,10
100%
Fonte: Autores.

A figura 3, apresenta vertentes com declividade
superior
a
25%
sem
vegetação
arbórea,
correspondendo a 316,524ha; o que eqüivale a 58% da
classe de declividade com restrições quanto ao uso.
Enquanto que 42% das vertentes íngremes (228,74ha)
encontram se com uso adequado.
A área da microbacia apresenta-se com vertentes
íngremes maiores que 25%, sem vegetação arbórea, e
se caracteriza pelo abandono de terras ocupadas por
capoeira e espécies de vegetação secundária,
configurou se como área de pousio. Em alguns locais, é
explorada com culturas temporárias de subsistência, tais

Tendo em vista o quadro nacional, veiculado pela
imprensa, quanto as formas inadequadas de uso da
terra, a microbacia do arroio Jacutinga não se mostrou
diferente. Para uma avaliação da dinâmica das
condições de uso da área em estudo, há necessidade
de uma avaliação multitemporal; somente assim, podese identificar as condições de uso rural quanto às taxas
de desmamamento e a partir daí, a formulação de um
planejamento voltado ao uso da terra de forma racional,
visando rendimentos permanentes.
Os resultados, obtidos pelos mapeamentos e
trabalho de campo, mostraram que parte da microbacia
hidrográfica se encontra sob condições inadequadas de
uso. Das vertentes consideradas íngremes (declividades
superior a 25%) aproximadamente 58%, ou seja,
316,24ha apresentam condições de uso irregular. Essas
áreas exigem dos planejadores uma maior atenção
quanto ao seu manejo.
O monitoramento da ocupação espacial é uma
tarefa complexa, devido à variedade de uso, condições
morfológicas, dimensão espacial entre outros.
Entretanto, a evolução tecnológica, principalmente com
o advento das técnicas de sensoriamento remoto
viabiliza a avaliação sinótica do espaço geográfico.
Nesse sentido, foi utilizado o sistema
computacional "Microcam" como suporte para
tratamento dos dados espaciais. Este sistema

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Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 25-31, 2001

apresentou algumas limitações, principalmente quanto à
entrada de dados espaciais, que é realizado através do
teclado por meio de um sistema de coordenadas
exigindo uma pré-identificação da figura a ser
representada. Todos os segmentos de retas são
convertidos em um sistema de coordenadas adotadas e
somente após estas etapas, eles são transferidos ao
computador.
Outro fator limitante identificado, se destaca a
pouca flexibilidade de manuseio de dados geográficos
inseridos no sistema, o que, sem dúvida, o torna restrito
à identificação de informações.
Para uma avaliação detalhada das condições
ambientais estudadas, sugere-se o seguinte:
a) monitoramento das mudanças ocorridas no tempo
através de técnicas de detecção de mudança;
b) uso de um sistema computacional com maiores
recursos, de acordo com o atual estado de arte;
c) a realização de um trabalho geoambiental,
envolvendo outras áreas de conhecimento, como
Ecologia, Engenharia Florestal, Agronomia, Biologia,
Geologia entre outros.
Com aumento populacional, surge a necessidade
de aumentar-se a produção agrícola principalmente nos
países em desenvolvimento, que são assolados pela
miséria e pela fome. ASSAD E SANO (1993) ressalvam
que há de se ter o cuidado com a exploração de
recursos naturais como solo e florestas; de fazer-se o
uso, observando a regulamentação ecológica. Por isso a
importância de termos as informações de base sobre as
potencialidades das terras para chegar-se às
possibilidades de uso adequado.
A disponibilidade de recursos naturais tem
implicação direta com o nível de vida das populações.
Os recursos devem ser preservados para que as
gerações futuras usufruam a boa qualidade ambiental.

31

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1988. 434p.
PEREIRA FILHO, W. Integração de dados de campo e
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NIMER, E. Clima. In: Geografia do Brasil; Região Sul,
IBGE. Rio de Janeiro, V. 2, 1990. P.151-187.

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Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, 2001

Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 33-39, 2001

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ASTRONOMIA E LIVRO DIDÁTICO: ERROS OU ENGANOS?1
ASTRONOMY AND DIDACTIC BOOKS : ERRORS OR MISTAKES?
Paulo Cesar Fagan Zanon2 e Ivaine Maria Tonini3

RESUMO
Devido a importância que o livro didático vem
assumindo dentro da prática de ensino, surgiu a
preocupação de fazer uma análise dos conteúdos que
veiculam neste recurso. Esta pesquisa analisa,
especificamente, como o conteúdo de Astronomia é
colocado nos livros didáticos. O conteúdo de Astronomia
foi escolhido como objeto a ser analisado por ser um
assunto que desde a Antigüidade foi muito importante,
e, hoje, além de despertar a curiosidade de muitas
pessoas, principalmente a comunidade escolar, é um
assunto atual, com o qual estamos sempre em contato,
mesmo sem perceber. Também o fato de que, devido a
distância de sua prática, é um conteúdo bastante
"abstrato". Esse trabalho pretendeu contribuir para a
Geografia Escolar através da análise dos conteúdos
programáticos relativos à Astronomia para o ensino da
5ª série do ensino fundamental, através dos seguintes
objetivos específicos: (a) identificar os possíveis erros
ou enganos contidos em cada livro sobre Astronomia;
(b) verificar a relação entre o conteúdo de Astronomia e
a escola geográfica na qual o autor se insere; (c)
justificar a presença do conteúdo de Astronomia em tais
livros bem como os erros ou enganos neles
encontrados.
Palavras-Chaves: Astronomia, Ensino, Livro didático,
Pensamento Geográfico.
ABSTRACT
Due to the importance that didactic books have
been assuming in teaching practices, it emerged the
preoccupation of making an analysis of its contents. This
research analyses, specifically, how astronomy is
presented in didactic books. This subject was chosen for
having been important since Antiquity and, today,
besides arousing curiosity in many people, it is a modern
topic with which we are always in touch, even without
realizing it. Also, due to the distance of its practicability,
it is a very "abstract" subject. This paper intended to
contribute to the teaching of Geography through the
analysis of the contents related to Astronomy, following
these specific goals: (a) identifying possible errors or
mistakes about astronomy in each book; (b) verifying the
connection between Astronomy and the Geographical
School in which the author is inserted; (c) justifying the
presence of Astronomy in such books as well as errors
and mistakes found in them.

1
2
3

Key Words: Astronomy , Teaching , Didactic books ,
Geographical thought.
1 INTRODUÇÃO
Devido a importância que o livro didático vem
assumindo dentro da prática de ensino, surgiu a
preocupação de fazer uma análise dos conteúdos que
veiculam neste recurso.
Esta pesquisa analisa como o conteúdo de
Astronomia é colocado nos livros didáticos. O conteúdo
de Astronomia foi escolhido como objeto a ser analisado
dentro desta perspectiva por ser um assunto que, desde
a Antigüidade, foi muito importante, e, hoje, além de
despertar a curiosidade de muitas pessoas,
principalmente a comunidade escolar, é um assunto
atual, com o qual estamos sempre em contato, mesmo
sem perceber. Também o fato de que, devido a
distância de sua prática, é um conteúdo bastante
"abstrato".
A ciência tem busca sempre o conhecimento do
universo. Com isso, alguns conceitos sobre alguns
temas vão sendo modificados ou refeitos. Com essa
perspectiva, o livro didático deve acompanhar e inserir
esses novos conhecimentos de Astronomia em seus
conteúdos.
Esse trabalho tem a pretensão de contribuir com
a Geografia Escolar analisando os conteúdos
programáticos relativos à Astronomia para o ensino da
5ª série do ensino fundamental, através dos seguintes
objetivos específicos: (a) identificar os erros ou enganos
possíveis, contidos em cada livro didático sobre
Astronomia; (b) verificar a relação entre o conteúdo de
Astronomia e a escola geográfica na qual o autor se
insere; (c) justificar a presença do conteúdo de
Astronomia em tais livros bem como os erros ou
enganos neles encontrados.
2 A HISTORIOGRAFIA DA GEOGRAFIA
2.1 Os Primeiros Conhecimentos Geográficos
A idéia de pensamento geográfico é bastante
antiga. Tal fato é percebido nos registros impressos nas
paredes das cavernas habitadas pelos homens préhistóricos e em mapas datados do ano de 2 500 a.C.,
referentes às localidades de GASA e UR, a 300 Km ao
norte da Babilônia (atualmente território do Iraque).
Estes registros surgiram da necessidade que o homem
sentiu de guardar os caminhos os quais percorria. Seu
deslocamento era motivado pelas guerras, em busca do

Este artigo é parte do Trabalho de Graduação A apresentado ao Curso de Geografia/CCNE/UFSM.
Licenciado em Geografia/CCNE/UFSM.
Profª. M. Sc. Do Departamento de Geociências/LIEnGEO/CCNE/UFSM.

34

Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 33-39, 2001

domínio sobre novos territórios, ou pela necessidade de
procurar recursos para a subsistência, ou ainda como
um meio de guardar as informações sobre os caminhos
percorridos.
A civilização Grega destaca-se sobre as demais
civilizações da época, pela primazia de apresentar e
desenvolver um espírito investigador, isto é, priorizava
desenvolver conhecimentos relativos à superfície
terrestre.
Esses conhecimentos, muitos dos quais
caracterizados como geográficos, estão, contudo,
ligados à Astronomia e à Geometria. Justifica-se o
direcionamento para estas áreas do conhecimento pela
necessidade que a civilização Grega sentia de conhecer
melhor o seu próprio território e, a partir dele, lançar-se
a novas conquistas territoriais, alargando, assim, o seu
conhecimento da superfície terrestre.
Convém
ressaltar
que
muitos
destes
conhecimentos carecem de teor científico, apresentando
erros grotescos, oriundos do empirismo, superstições
religiosas ou crendices. Estes conhecimentos,
entretanto, estavam atrelados ao nível de conhecimento
de mundo que possuíam e são consideradas ¨etapas
preliminares da sistematização geográfica¨ (TONINI,
1993), o conteúdo abordado pelo conhecimento dito
geográfico era bastante variado e estava bastante
disperso em outras ciências.
Para FERREIRA E SIMÕES (1986:38),
desenvolve-se neste período histórico, paralelamente,
duas tendências geográficas: "A Geografia matemática,
ligada à astronomia e à geometria e a Geografia
descritiva, resultante da descrição do mundo
conhecido".
A primeira consiste numa Geografia que visava
desenvolver a conhecimentos relativos a Terra e ao
Universo, quanto ao seu tamanho, área, configuração e
tantos outros temas ligados aos aspectos físicos. A
finalidade do direcionamento da Geografia para a área
física era de alcançar o conhecimento total da Terra e
do Universo. Somente a posse destes conhecimentos
poderia proporcionar o deslocamento, com maior
segurança1, dos povos sobre a superfície terrestre.
A segunda consiste na perspectiva de descrever
os territórios habitados pela civilização da época, bem
como os que viriam a ser conquistados. A finalidade
desta Geografia era de estabelecer um inventário de
informações, tanto dos aspectos físicos, como humanos
relativos ao território habitado e o que viria a ser
conquistado.
Nessa mesma perspectiva, MOREIRA (1982)
afirma que a Geografia evoluiu sobre duas vertentes: a
Geografia Geral, denominada por FERREIRA, SIMÕES
e MOREIRA, a qual possui maior respaldo no
conhecimento científico. Tal fato é explicado por ser
uma área da Geografia que estuda os aspectos físicos
dos fatos e fenômenos, os quais encontram explicação
científica. Conseguiam, portanto, maior veracidade
dentro da comunidade científica da época e, por que
não afirmar, até os dias de hoje.

1

Nesta época havia muita crendice e superstições
sobre os oceanos, ou seja, acreditava-se na existência
de monstros marítimos, e como se acreditava que a
Terra era um disco plano, os oceanos acabariam em um
precipício, limitando com isto que se lançassem ao mar
em busca de novas terras.

A Cartografia, que estava inserida na vertente da
Geografia denominada Geografia Matemática, também
trouxe contribuições muito importantes para a
sistematização da Geografia, através dos instrumentos
por ela utilizados, podendo-se alcançar maior
desenvolvimento e aperfeiçoamento dos conhecimentos
relativos à superfície terrestre, até então não conhecida
em sua totalidade. Havia, pois, a necessidade de
conhecê-la e para tanto houve a busca gradativa dos
conhecimentos através da elaboração de novos mapas
marítimos e da descrição de lugares e povos, através
da expansão política, comercial e marítima dos povos.
A expansão marítima e o avanço cartográfico
estavam ligados ao conhecimento e ao domínio da
Astronomia. Os pontos de referência para cartógrafos e
navegadores eram o sol e as estrelas, porque ainda não
havia o conhecimento da bússola.
Na Idade Média, com a queda do Império
Romano e a difusão do Cristianismo, o conhecimento
científico passou por um período de regressão. O fato
de a Igreja ser o único poder centralizado na Europa
ocidental2 e das explicações dadas, a quaisquer
questões, terem interpretação Bíblica, como por
exemplo: o universo geocêntrico e a origem do homem,
segundo FERREIRA e SIMÕES (1986:47), "provocou o
desaparecimento da geografia como ciência durante
esse enorme período da história".
Neste período histórico, foi implantado, uma
superestrutura3 de instituições políticas, jurídicas,
religiosas (normativas e doutrinárias), referendando o
poder da nobreza feudal sobre os camponeses, cuja
doutrina perpetuada advinha da Igreja, isto é, as teorias
políticas daquele período foram construídas sob os
dogmas religiosos. (GOMES, 1991)
Nos finais da Idade Média, as Cruzadas
intensificaram o comércio entre a Europa e o Oriente e,
juntamente com as idéias renascentistas, ressurgiu a
curiosidade pelo mundo desconhecido, proporcionando,
assim, um impulso a uma nova etapa de
desenvolvimento
da
Geografia,
através
do
reaparecimento dos itinerários de viagens e obras que
descreviam as terras visitadas.
No início do século XV com a tradução da obra
de Ptolomeu (Síntese Geográfica) do árabe para o latim,
as idéias dos europeus sobre a forma da Terra e a
Cartografia sofreram modificações que resultaram na
retomada da Geografia de seu rumo, abandonando os
conceitos e as explicações bíblicas dadas pela Igreja.
O
Renascimento
procurou
enfatizar
a
importância das ciências naturais, emancipando-se da
Teologia, que representava uma barreira para a
"interpretação naturalista do universo", tornando o
conhecimento científico laico, esse movimento também

2

O poder alcançado pela Igreja sobre o "Estado" (e
conseqüentemente estende-se até a população) é
justificado pelo fato de que a Igreja era grande
proprietária de terras e exercia domínio sobre o mundo
romano e o mundo bárbaro.
3
A superestrutura, como produto de base, exerce ativa
influência sobre o sistema econômico da sociedade,
contribuindo para o desenvolvimento da infra-estrutura
(relações de produção formam a base econômica da
sociedade) ou, em caso inverso, entravando-o. No caso
dos conhecimentos ditos geográficos a doutrina cristã
contribuiu para seu retrocesso e/ou estagnação.
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Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 33-39, 2001

marcou o início da transição do feudalismo para o
capitalismo.
No século XVIII, também chamado de século das
luzes, o homem modificou sua visão de mundo e passou
a ver a si mesmo, sua realidade natural e social,
criticando o Antigo Regime (absolutismo, mercantilismo
e sociedade estamental), esse movimento, que esteve
ligado a ascensão da burguesia, revelava, então, a
razão, como uma luz que ilumina trevas da ignorância e
da obscuridade (MORAES, 1993:200). Tem-se, então,
uma nova fase de crescimento científico.
No século XVIII, através de Copérnico, Kepler e
Galileu, retornou-se à concepção de esfericidade da
Terra. Modificou-se sua posição no universo, que passa
a ser heliocêntrica, isto é, o sol passa a ser o centro do
universo caracterizando a independência da ciência
sobre a religião.
A evolução da Cartografia e da Astronomia
seguiram dando subsídios para o pensamento
geográfico, mas seu amadurecimento foi demorado, por
um longo tempo arrastou-se sobre erros e discussões
que levaram ao conhecimento e incorporaram a ele os
requisitos necessários para, mais tarde, ter condições
de dar suporte a uma ciência sistematizada. Isto ocorreu
no início do século XIX, com o amadurecimento e a
união necessária do pensamento geográfico, advinda do
conhecimento real do planeta alcançado através da
criação de um "arquivo" com informações referentes aos
pontos mais diversificados da superfície terrestre já
levantada; com o aprimoramento das técnicas
cartográficas, que o uso da bússola e do astrolábio
possibilitaram; com a construção de mapas mais
confiáveis e precisos; com a utilização da rosa dos
ventos, a qual possibilitava determinar todas as direções
a partir de um ponto.
Todos esses instrumentos foram impulsionados
pelo processo de avanço e de domínio das relações
capitalistas sobre as nações e os novos Estados que
foram se organizando e se formando.
Mas o temário geográfico só obteve pleno
reconhecimento de sua autoridade com as teorias do
evolucionismo, de Darwin e Lamarck, que forneceram o
apoio imediato da legitimação científica desta disciplina.
No início do século XIX, os pressupostos
históricos já estavam suficientemente preparados,
conforme MORAES (1988:41): A sistematização da
geografia, sua colocação como ciência particular e
autônoma, foi um desdobramento das transformações
operadas na vida social, pela emergência do modo de
produção do capitalismo.
Neste período, que vai desde o início dos
primeiros registros geográficos até o início do século
XIX, o sistema escolar também foi aos poucos surgindo,
à medida que a sociedade se organizava política e
economicamente e, principalmente, pela incorporação
de novos valores em um primeiro momento, o processo
de ensino estava centrado nas mãos do clero e
daqueles que possuíam "notório saber" (os quais tinham
aval do clero para exercer tal atividade). Esse ensino
era destinado a poucos (principalmente à nobreza) e
voltado primordialmente para ensinar latim e teologia.
Inexistia, até então, a escola formal.
Alguns países, inicialmente os europeus, que
implantaram o sistema escolar a partir do final do século
XVIII e acompanharam a industrialização clássica
buscaram introduzir no ensino disciplinas que
respaldassem seus projetos políticos, ou seja, voltadas

35

para as estratégias geopolíticas utilizadas para a
consolidação de seus Estados.
É nesse contexto que a Geografia surge como
disciplina, no embrionário sistema escolar, cuja
finalidade primordial era de enaltecer o nacionalismo,
pela necessidade de desenvolver o patriotismo
exacerbado. Esse foi seu alicerce básico na escola da
primeira revolução industrial. Essa fase inicial de
implantação do ensino tinha como objetivo principal
erradicar o analfabetismo, com a finalidade de instruir a
massa popular, a qual se tornaria apta a trabalhar nas
indústrias. O sistema escolar priorizando o ensino
fundamental.
2.2 A Sistematização da Geografia
A Alemanha foi o berço da sistematização da
Geografia. É lá que a Geografia, com Humboldt e Ritter
aflora, onde nascem os primeiros Institutos e as
primeiras propostas metodológicas.
A Geografia desenvolveu-se aos poucos
juntamente com as outras ciências que buscavam
aprimoramento científico. Neste período, quando dois
cientistas alemães, Alexandre Von Humboldt (1769 1859) e Karl Ritter, (1779 - 1859) dão à Geografia, até
então descritiva, um caráter sistemático e uma
metodologia própria. Por este motivo, Humboldt e Ritter
são considerados os fundadores da Geografia Moderna.
Neste período a Geografia foi o meio usado pela
burguesia para dar uma concepção racionalista ao
mundo e derrubar de vez a visão teológica que o
feudalismo propunha. Assim a burguesia acabou com o
regime feudal e, através do capitalismo, tomou de vez o
poder.
A Geografia como outras ciências modernas
surgiu foi uma arma de combate ideológico da burguesia
para consolidar o seu projeto político. Conforme SODRÉ
(1989:30): Se houvesse necessidade de fixação, (...) de
uma data, assinalando a autonomia da geografia, a sua
constituição como área específica de conhecimentos e
de sua análise sistematizada, esse ano seria 1845,
quando Humboldt iniciou a publicação do Cosmos.
A partir de então a Geografia evoluiu cada vez
mais, novas obras e autores se juntaram em torno das
mesmas idéias, criaram-se normas e procedimentos,
metodologias. Enfim, a Geografia, avança cada vez
mais em busca de respostas para as questões da
época, agora apoiada por uma metodologia e uma
sistemática própria e pelo respaldo de ser uma ciência.
No final do século XIX a escola formal já se
encontrava consolidada e disseminada por toda a
superfície terrestre. O modelo de sistema escolar
europeu é reproduzido quase totalmente na sua íntegra
nos vários continentes, ou seja, as mesmas disciplinas,
cujos métodos pouco se diferenciavam entre si.
Segundo Braun apud RUI BARBOSA (1882:292)
(...) a geografia faz parte do programa obrigatório das
escolas de todos os países civilizados. É pertinente
ressalvar, que a Geografia foi constituída como
disciplina desde a primeira série do ensino fundamental,
cuja importância só era precedida pela língua-mãe e
aritmética rudimentar.
No Brasil é reproduzido o modelo escolar
europeu, com base no projeto pedagógico francês pois,
até então, e por mais meio século tinha uma
dependência cultural da França. Só que este sistema
escolar não foi estendido à massa popular brasileira e

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sim direcionado às classes mais privilegiadas da nossa
sociedade.
A disciplina de Geografia apresentava os
mesmos conteúdos apresentados nas escolas
européias em todas as séries (alguns adaptados, como
por exemplo a Geografia da França pela Geografia do
Brasil) e o mesmo método.
Tal fato, pode ser comprovado nos sumários dos
livros didáticos editados na época (muitos deles em
Paris), cujas listagens de conteúdos programáticos
iniciam sempre pelo estudo do Universo.

Para justificar a presença destes conteúdos,
relativos a Astronomia, na primeira série do ensino
fundamental BALBI (1838:1) afirma que: Para
conveniente desempenho da descrição da Terra importa
primeiro que tudo saber o que ella lhe he em respeito
aos corpos celestes, isto he, em relação ás outras
grandes massas de que o Universo consta, e que a
observação nos mostra. Este conhecimento só nos pode
ser dado pela astronomia, e constitue a matéria da parte
da geographia que se chama Geographia Mathematica."
Percebe-se então, que o ensino da Geografia
assimila para si as duas vertentes já instituídas na
Antigüidade: a Geografia Matemática e a Geografia
Descritiva. Portanto, os conhecimentos que estão
atrelados à Geografia Matemática adquirem suma
importância dentro da disciplina de Geografia e,
conseqüentemente, no sistema escolar.
Na Reforma do Ensino Primário em 1882,
proposta por Rui Barbosa, existe um esboço para cada
disciplina do nosso ensino. A parte destinada a
Geografia é denominada de Geografia e Cosmografia, e
está dividida por séries. Sendo que os conteúdos
relativos à Astronomia iniciam na primeira unidade da
série inicial.
A inserção de tais conteúdos e a importância que
é dada, pode ser explicada pelo contexto científico
vivenciado neste momento pela sociedade, isto é, a
explicação dos fatos e fenômenos via razão. Isto é
elucidado por RUI BARBOSA (1882:310) ao afirmar
que: A história da ciência astronômica, apresentada a
propósito, serviria para assinalar os erros, os
preconceitos, as superstições que o espetáculo do céu,
à míngua de idéias exatas, há inspirado aos homens.
Deste modo, as noções de cosmografia deveriam
ser dadas mediante observações e exemplificações
concretas.
2.3 Geografia Tradicional
As obras de Humboldt, Ritter e Ratzel vão
compor a base da Geografia Tradicional, apesar de
Ritter trabalhar mais a termo regional e com uma visão
antropocêntrica e Humboldt procurar a busca do global,
sem privilegiar o homem. Eles criam uma linha de
continuidade no pensamento geográfico, que vai marcar
um período e criar uma escola.
A escola clássica ou tradicional, que reuniu
características próprias capazes de definir uma escola,
mas no entanto sem força necessária para romper com
a Geografia institucionalizada.
Essas características foram:
- O fim do prestígio do finalismo positivista e
evolucionista e do esforço de encontrar leis gerais que
explicassem as diferenças existentes na superfície da
terra de forma uniforme por todo o planeta;

- Os geógrafos, impossibilitados de aplicar leis da
física ao processo de produção do espaço pelo homem,
tenderam a abandonar a Geografia Humana
considerando a Geografia apenas como física e a
Geografia Regional em detrimento da Geografia Geral.
Para BEZZI & MARAFON (1992:49): De forma
geral a geografia desse período (séc. XIX) até metade do
séc. XX se caracterizou pelos seus Fundamentos
Positivistas, sua visão Naturalista e Empirista.
A Geografia Clássica teve grande importância
porque atendeu aos anseios da classe dominante na
exploração de recursos e dos próprios homens. A
situação econômica e social de cada país vai provocar
um desenvolvimento diferenciado da Geografia, com
formação de Escolas Nacionais e Regionais1.
O ensino da Geografia na tendência do
pensamento tradicional continuou, em grande parte, a
reproduzir os mesmos conteúdos e métodos ministrados
durante a sua sistematização, isto é, as noções de
Astronomia continuam a ter importância. A alteração
mais substancial que houve, foi a mudança de tais
conteúdos para séries escolares seguintes.
O Estado continuou a ser o gerenciador deste
sistema escolar. Portanto, os conteúdos programáticos
seguiam rigidamente o programa oficial, estabelecido
pelos órgãos educacionais do governo. Tal fato, pode ser
comprovado através dos sumários de alguns livros
didáticos, dessa época e que foram analisados.
Cujos conteúdos, abarcam maior unidade a ser
desenvolvida entre as demais. São conteúdos
fragmentados,
inventariantes,
voltados
para
memorização de informações sobrepostas a respeito de
alguns aspectos predefinidos. Apresenta forte vinculação
com os paradigmas do pensamento geográfico
tradicional, isto é, a teoria e a prática encontram-se em
perfeita sintonia.
No Brasil, a partir da implantação do Estado
Novo, houve uma expansão muito grande das escolas
públicas. Tal fato, foi ocasionado pelas políticas de
planejamento governamentais que tinham como
intenção criar indústrias. Portanto, havia a necessidade
de estender a escolarização à massa popular, a qual
seria a mão-de-obra para essas indústrias.
2.4 Movimento Renovador na Geografia
No final da década de 50 a Geografia Tradicional
entra em crise, provocada por fatores de ordem social e
econômica, que mudaram a estrutura social, política e
econômica do mundo. A base social que havia dado a
base para as formulações da Geografia Tradicional
mudou, pois a economia mundial não estava mais na
fase concorrencial do capitalismo, tinha entrado no
estágio do capitalismo monopolista. O liberalismo
econômico deu lugar a ação do Estado na regulação e
ordenação econômica, e o planejamento territorial para
a organização do espaço.
Para MORAES (1988:98): O movimento de
renovação, ao contrário da Geografia Tradicional, não
possui unidade, representa mesmo uma dispersão, em
relação àquela. Tal fato advém da diversidade de
métodos de interpretação e de posicionamento dos
autores que a compõem.
Os conceitos e métodos usados já não eram
mais capazes de dar as respostas que se pensava
1

Escola Alemã, Francesa, Britânica, Soviética, Americana, etc.

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serem dadas pela Geografia. Os geógrafos vão a busca
de novas metodologias. Temos então uma evolução do
pensamento, com formação de escolas e com a
modificação metodológica. Estas modificações nos
levam a uma outra fase muito importante do
pensamento geográfico, constituindo novas escolas
como a Nova Geografia e a Geografia Crítica.
2.4.1 Nova Geografia
Baseada no neopositivismo, surgido em 1953
com a publicação do artigo "excepcionalismo em
geografia", de Fred K. Schaefer.
A Nova Geografia buscava estudar os padrões
que os fatos apresentavam, e não fenômenos isolados.
Seu objeto de estudo era a organização espacial, que
iria estabelecer os critérios para a análise do espaço,
sendo que o espaço geográfico é composto de
elementos e relações ou processos. Caracterizou-se
pelo intenso uso de teorias, técnicas quantitativas e
modelos, os quais vão aparecer agora no começo,
criando hipóteses, e a observação e o trabalho de
campo vem no final do trabalho.
O espaço de análise passa a ser o espaço
relativo, que não é dado pelas coordenadas geográficas,
podendo ser definido em torno de velocidade, custo,
tempo, percepção, distância e acessibilidade. As
técnicas de análise, pela necessidade de dar um caráter
interdisciplinar e universal, utilizam linguagem científica
e emprego da quantificação, que são de grande
importância para se coletar e analisar dados.

Segundo BEZZI & MARAFON (1992:61): A
Nova Geografia, utiliza as técnicas quantitativas,
ou seja, matemática-estatísticas, pois as mesmas
fornecem sub-resultados objetivos e científicos
que, através do mapeamento são colocadas em
uma visão espacial, fundamental na pesquisa
geográfica, para serem em seguida interpretadas
dentro
de
uma
abordagem
conceitual
anteriormente escolhida.
A matematização (quantitativa) da Geografia não
foi discutida enquanto postura metodológica em meios
escolares. No entanto, observa-se uma "quantificação"
básica nos livros didáticos. Os dados estatísticos
passam a ser tomados como algo pronto e verdadeiro,
não são objetos de reflexão, nem são contextualizados.
A produção didática, neste momento, reveste-se
de roupagem nova, na maioria dos livros, passam a
introduzir uma quantidade infinita, até então não vista,
de tabelas, gráficos, cartogramas, mapas e outros
acessórios, assim chamados por serem mero
preenchimento de "conteúdos".
A característica mais marcante do sistema
escolar deste período é sua extensão até o nível médio
(o nosso 2º grau) e implantação de escolas técnicas. Foi
uma época de valorização da mão-de-obra
especializada, devido ao espalhamento da atividade
industrial.
Este período, configurado pela segunda
revolução industrial, significou a necessidade da escola
ir além da alfabetização. Era fundamental a
aplicabilidade do saber (VESENTINI, 1996)
Neste contexto, a disciplina de Geografia começa
a apresentar os primeiros sintomas de debilidade, por
continuar a ter a mesma finalidade inicial de sua
implantação no sistema escolar. Esse sintoma não

37

ocorreu somente com ela, mas juntamente com outras
disciplinas.
Os livros didáticos de Geografia, editados nesse
período, registram no sumário este fato.
Numa análise comparativa entre as edições do
livro didático de Aroldo de Azevedo nas duas escolas do
pensamento geográfico: Tradicional e Nova, percebe-se
num primeiro momento a diminuição do temário, na
Nova Geografia. Mas existe a continuidade no processo
de ensino-aprendizagem dos paradigmas gerados pela
Geografia Tradicional.
Portanto, os paradigmas da Nova Geografia
inexistem na maioria das obras didáticas. Como reflexo
deste fato, tem-se o primeiro passo do distanciamento
entre a teoria (que dá a sustentação ao método) e a
prática (a ação do processo), fazendo com que o ensino
da Geografia atravessa-se de forma capenga esse
período.
2.4.2 Escola Crítica
Também em conseqüência do movimento de
renovação da Geografia, surge uma corrente mais
radical frente a Geografia existente. Essa postura crítica
assumida, principalmente frente a realidade e a
estrutura do poder.
Segundo BEZZI & MARAFON (1992:72) a
Geografia Crítica ou Radical: (...) emergiu nos Estados
Unidos em um ambiente conturbado, ligado a guerra do
Vietnã, a luta pelos direitos civis, da crise da poluição e
da urbanização, priorizando os processos sociais,
inseridos nas formações sócio-econômicos espaciais.
Já para MORAES (1988:117) a Geografia Crítica
surge na França, onde: (...) a Geografia Regional vai
progressivamente se inteirando do papel dos processos
econômicos e sociais, no direcionamento da
organização do espaço. Assim, abre uma discussão
mais política na análise geográfica.
Mesmo sendo discutível a origem da Geografia
Crítica, o fato é que o surgimento desta vem propor uma
nova maneira de se fazer Geografia.
Os autores deste período criticam a neutralidade
da ciência frente aos problemas sociais e propõem uma
geografia militante, comprometida com a luta da
sociedade. Cujas metodologias, não rompem com a
análise regional tradicional. A descrição e o empirismo
continuam, mas sem encobrir as contradições espaciais.
A descrição de uma realidade injusta, problemática,
desigual já fazia frente à ordem instituída, fazendo da
Geografia um instrumento de ação política.
Porém, essa "Geografia de Denúncia" não
conseguiu resolver toda a problemática da disciplina,
pois, segundo MORAES (1988:120): Assim limitavam-se
a um estudo das aparências, sem a possibilidade de
indagar a respeito da essência dos problemas. A
manutenção da ótica empirista vedava a análise dos
processos essenciais e a explicação era sempre externa
a geografia.
A Geografia Crítica atual apresenta propostas
diferenciadas, mas com objetivos comuns, assim,
segundo MORAES (1988:126): (...) a unidade da
geografia crítica manifesta-se na postura de oposição a
uma realidade social e espacial contraditória e injusta,
fazendo-se do conhecimento geográfico uma arma de
combate à situação existente.

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Seu suporte teórico e metodológico é o
Materialismo Histórico1 e o Materialismo Dialético2,
baseado no método Dialético3. Como objeto de estudo
tem-se o espaço das relações num âmbito geral, ou
seja, seu espaço de estudo é o todo.
3 METODOLOGIA
O presente estudo foi desenvolvido, através da
análise dos conteúdos programáticos, referentes a
Astronomia, nos livros didáticos de Geografia da 5a
série do ensino fundamental, conforme Tabela 1.
A escolha destes livros didáticos, justifica-se por
serem estes mais utilizados nas escolas públicas e
particulares e por encontrarem-se em disponibilidade no
Laboratório de Ensino da Geografia do Departamento
de Geociências/CCNE/UFSM, os quais passam a ser os
dados da pesquisa.
Para mensuração dos dados foram realizadas as
seguintes etapas: Primeiramente, selecionou-se todo o
material, onde foi possível identificar os livros didáticos
que apresentassem conteúdos programáticos relativos à
Astronomia. A segunda fase, foi destinada a identificar
os erros ou enganos do conteúdo. E, por último foi
realizada a análise destes livros didáticos.
Tabela 1 ­ Livros didáticos de geografia
Título
Geografia Crítica

Geografia Nova
Geografia
Espaço em
Construção

Autor

Editora

Ano

J. W. Vesentini
Vânia Vlach
Igor Moreira
Melhem Adas

Ática

1996

Ática
Moderna

1996

Luci I. O. Alves
Rosangela M.
Carvalho
Idárci E. Lasmar



1995

Elian Alabi Luci

Saraiva

1995

Helio C. Garcia
Tito Marcio
Garavello

Scipione

1995

Celso Antunes
Carlos W. P.
Gonçalves

Scipione
Livro
Aberto

1995

Homem & Espaço
Lições de
Geografia

Geografia e
Participação
Geografia e
Natureza

1991

Jorge L. Barbosa
Total: 8 livros
Fonte: Laboratório de Ensino de Geografia/ Deptº. Geociências/ CCNE/UFSM ­
1996.
Organização: Paulo César Fagan Zanon

1

Filosofia Marxista estuda as leis sociais que caracterizam a
vida da sociedade, a evolução histórica, a prática social dos
homens no desenvolvimento da humanidade.
2
Tem como princípios básicos, a matéria, a dialética e a prática
social, onde os fenômenos e processos são materiais e o
pensamento não existe separado da realidade. Deste modo, a
realidade material e o pensamento estão sempre em
movimento.
3
A dialética é formada pela tese, que é o ponto de partida, a
antítese, que é a negação da tese, e a síntese que é a negação
da negação. Logo a síntese sendo verdade tem-se outra tese e
temos um novo processo. Este conflito de idéias é a dialética.

4 ANÁLISE DOS DADOS
Foram encontrados 20 tipos de erros e 21 tipos
de enganos no total dos livros, sendo que alguns são
específicos em determinados livros e outros são
comuns. Após a identificação destes erros e enganos,
fez-se uma explicação com alguns exemplos citados, a
seguir:
Posição do Sol - O Sol não "nasce" sempre
exatamente no Leste, pois devido à inclinação do eixo
da Terra e do movimento de rotação da Terra, temos a
migração aparente do Sol entre o Trópico de Câncer e o
Trópico de Capricórnio. Temos então o Sol nascendo
dia após dia em um lugar diferente. Na verdade, o Sol
aparece em um ponto próximo ao Leste.
Com relação a Plutão, onde todos os livros
analisados sempre se referem a ele, referem-se como
um planeta. Porém, Plutão tem características que
destoam muito do padrão dos demais planetas.
Plutão tem sua órbita muito mais achatada, mais
parecendo com a órbita de um cometa, sendo que
durante vinte anos (1979 a 1999), Netuno e não Plutão
é o planeta mais distante do Sol, pois sua distância varia
de 7,4 a 4,5 milhões de quilômetros.
A inclinação do plano de sua órbita é de 17°
(dezessete graus), sendo que as órbitas dos outros
planetas têm uma inclinação muito menor, aonde
Mercúrio chega a 7° (sete graus), Vênus 3° (três graus)
e a Terra, considerada de padrão 0° (zero graus), os
planetas mais afastados que a Terra em relação ao Sol,
não passa de 2° (dois graus). Além de que, Plutão é tão
pequeno em relação aos outros planetas e mesmo
comparado com alguns satélites de outros planetas,
sendo que ele é menor que a própria Lua, nosso satélite
natural, e outros como Ganimedes (lua de Júpiter), Titan
(lua de Saturno), Calisto (lua de Júpiter), Io (lua de
Júpiter), a nossa Lua, Tritão (lua de Netuno), Europa
(lua de Júpiter).
Muitos astrônomos consideram
Plutão e
Caronte, seu satélite, como se fosse um planeta duplo,
pois se pode dizer que não é Caronte que gira em torno
de Plutão, e sim que ambos realizam um movimento
conjunto. Portanto, Plutão é considerado planeta pela
sua fama, pois as suas características destoam muito
dos demais planetas.
Considerando-se Plutão como planeta será,
então, o menor planeta do sistema Solar e não
Mercúrio.
Alguns conceitos como os de cometa, asteróides
aparecem ora incompletos ou então confusos, sendo
que os cometas não são corpos brilhantes como uma
estrela. Primeiro, porque são infimamente menores, e
segundo, porque não possuem luz própria como uma
estrela. Eles parecem maiores e mais brilhantes por
estarem mais próximos de nós. Quanto aos asteróides a
questão ainda é discutida e não se pode afirmar com
certeza que eles são pedaços de um planeta que
explodiu, pois, por que ele explodiria ?
Há varias hipóteses sobre a origem dos mesmos,
sendo que ainda não temos um consenso a respeito do
assunto.
Um equívoco cometido por alguns autores é
quanto ao número de satélites de cada planeta, onde a
Terra possui um satélite, Marte dois, Júpiter dezesseis,
Saturno possui dezoito, Urano possui quinze e Netuno
possui oito.

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Outro erro bastante comum, é quanto aos
desenhos do Sistema Solar, onde estes se apresentam
planos e desproporcionais. A órbita da Terra e da Lua
também parece bastante achatada, quando estas são
elípticas bem mais circulares.
Os desenhos das fases da Lua, em alguns dos
livros analisados, não mostram o aspecto real das fases
da Lua, e ocorre de estas apresentarem-se de forma
invertida. Tal falta, ocorre devido as editoras adquirem
fotografias de agência do hemisfério norte.
Outro ponto a considerar é que a maioria dos
autores, tenta inserir o seu livro dentro da Escola Crítica,
e nesta perspectiva, descuida um pouco do conteúdo
Astronômico, por ser este considerado um assunto
tradicional. Mas como o aluno pode desenvolver seu
senso crítico se não conhece o lugar em que mora?
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Hoje, quando tanto se fala em globalização, onde
os indivíduos devem estar bem preparados para
enfrentar todo o tipo de concorrência, e de exploração
nós nos perguntamos, o que a escola esta fazendo? O
que a escola oferece ao aluno para que ele possa
preparar-se bem para enfrentar um mundo tão
competitivo?
Com a realização deste trabalho, podemos
observar a realidade, de que, algumas vezes, e não tão
poucas, os livros didáticos podem não cumprir de
maneira satisfatória o papel ao qual se propõem. Não
sabemos se por omissão ou por falta de conhecimento,
ou mesmo por falta de atenção, os livros didáticos
apresentam em seu conteúdo informações que por
vezes não condizem com a realidade.
O fato foi apurado através deste trabalho, onde
comprovamos que 100% dos livros analisados contêm
alguma informação a qual não podemos considerar
como totalmente correta, e algumas vezes
completamente
equivocadas
no
conteúdo
de
Astronomia.
O fato é preocupante por mostrar falta de
atenção no trato da informação educacional brasileira,
colocando no mercado estudantes com um
conhecimento questionado como "verdade". Tal fato,
mostra que o sistema educacional em nosso país é
frágil e defasado ao proporcionar ao jovem aluno acesso
a um ensino que não está, totalmente, comprometido
com a verdade, que não busca prestar informação ao
indivíduo tornando-o capaz de competir fora dos muros
escolares.
O professor deve ter censo crítico e estar a par
das novas descobertas científicas, para que possa ao
deparar-se com livros didáticos que contenham "erros
e/ou enganos" seja capaz de argumentar mostrando o
que está errado e o que está equivocado. Não pode
permanecer atrás de um livro e deixar que ele continue
passando o conhecimento da forma como apresenta.

39

AZEVEDO A. Geographia. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1939.
AZEVEDO A. Geografia. 35 ed. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1959.
AZEVEDO A. Geografia. 44 ed., São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1961.
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Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 33-39, 2001

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Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 41-50, 2001

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ESTUDO DA AÇÃO ANTRÓPICA SOBRE O MEIO AMBIENTE EM ÁREA DE
PRODUÇÃO FAMILIAR, NA SUB-BACIA DO AREAL, MUNICÍPIO DE QUARAÍ ­ RS1
A STUDY OF THE ANTHROPIC ACTION OVER THE ENVIRONMENT IN A FAMILIAR PRODUCTION AREA AT
THE AREAL HYDROLOGICAL SUB-BASIN, COUNTY OF QUARAÍ - RS
Rógis Juarez Bernardy2 e Vera Maria Favila Miorin3
RESUMO
A questão ambiental é discutida nos últimos anos
pelas organizações não governamentais e órgãos
oficiais. Estas instituições têm demonstrado, não só
preocupação com o meio ambiente como também o
forte desejo em modificar determinadas formas de
relações que as populações mantêm com a natureza.
Ao priorizar o desenvolvimento econômico, o homem
tende a alterar profundamente os parâmetros
ambientais, chegando, em determinados casos, a
impossibilitar o desenvolvimento normal dos seres vivos
em seu ecossistema. Relacionado a isto se destaca: os
últimos anos nos quais vem ocorrendo a concentração
da população em pequenas extensões de terra
ocasionando seu uso intensivo e contribuindo para a
degradação dos recursos naturais. Salientam-se as
relações homem e natureza no meio rural,
especialmente, após a modernização da agricultura que
acentuou os desequilíbrios sistêmicos. A este respeito, o
estudo apoiado em autores aponta a responsabilidade
do homem em administrar o patrimônio da flora e da
fauna e seus habitats, que se encontram em perigo
devido a combinação de fatores adversos.
Palavras-Chaves: Ação antrópica; Meio ambiente;
Produção rural familiar
ABSTRACT
The environmental issue is being discussed for
the last years by the non governmental and
governmental organizations. These institutions have
demonstrated, not only concerns with the environment,
but also a strong desire to modify some forms of
relationship which the populations maintain with nature.
When the economic development has the primacy over
other aspects, man tends to change so drastically the
environmental parameters, that, in certain cases, the
normal development of the live beings becomes
unfeasible in their own eco-systems. Related to this, it
has been observed that the concentration of the
population in small land sites with its excessive use has
contributed to the natural resources degradation. The
relationship man-nature in thr rural areas, specially after
the agricultural modernization, has stressed the systemic
unbalance. This study, supported by different authors,
point ou to the responsibility of man to deal with the flora

1
2
3

and the fauna and their habitats, which are presently in
danger due to the combination of adverse factors.
Key works: Anthropic action; Environment; Familiar
rural production.
1 INTRODUÇÃO
Considera-se que o homem ao priorizar o
desenvolvimento
econômico
tende
a
alterar
profundamente os parâmetros ambientais, chegando,
em
determinados
casos,
a impossibilitar
o
desenvolvimento normal dos seres vivos em seu
ecossistema. Relacionado a este fato, destaca-se em
primeiro lugar, os últimos anos nos quais vem ocorrendo
a concentração da população em pequenas extensões
de terras e ocasionando o uso intensivo desta,
contribuindo para a degradação dos recursos naturais.
Em segundo lugar, questiona-se o como harmonizar o
desenvolvimento econômico com a preservação dos
recursos naturais disponíveis, gerando o que se
denomina na atualidade de desenvolvimento
sustentável.
Na
busca
de
resposta
para
estes
questionamentos, a área escolhida refere-se a
microbacia do Areal, município de Quaraí - Rio Grande
do Sul, por apresentar processos de arenização,
tornando-a pouco adequada para o uso agrícola, aliada
a utilização em pequenas dimensões baseadas em
sistema intensivo.
Assim sendo, a pesquisa teve como meta
principal, identificar a influência dos sistemas de
produção das unidades familiares sobre o meio físico,
considerando que, por se tratar de formas desprovidas
de capital e intensivas de trabalho o homem busca
aproveitar ao máximo as condições que o meio oferece
sem se preocupar com os possíveis danos ao ambiente,
principalmente em função da fragilidade dos solos.
Finalmente, ressalta-se que a presente pesquisa
fez parte do projeto que visa a reconversão das áreas
que apresentam fragilidade socioeconômica e ambiental
em unidades de produção familiar do estado do Rio
Grande do Sul. Nesta, se envolveram a Universidade
Federal de Santa Maria/UFSM, Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária, (EMBRAPA) de Pelotas,
Prefeitura Municipal de Quaraí com apoio do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq).

Resumo do Trabalho de Graduação A, apresentado ao Departamento de Geociências, CCNE/UFSM.
Licenciado em Geografia pela UFSM ­ Santa Maria, RS.
Orientadora, Profª. Drª. do Departamento de Geociências, CCNE/UFSM.

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1.1 O que é Ação Antrópica Sobre o Meio Ambiente?
Uma primeira indagação assume importância e
requer um entendimento a priori, neste trabalho: o que
é ação antrópica sobre o meio ambiente? Desde a sua
origem, o homem tem estabelecido um certo
relacionamento com os produtos que a natureza coloca
a sua disposição. Ao longo da evolução da humanidade,
o progresso esteve sempre estreitamente relacionado
com as novas e diversas formas de apropriação da
natureza.

O homem primitivo, mesmo sem o domínio
de determinados conhecimentos, retirava da
natureza os elementos e mecanismos necessários
a sua existência. Nesse contexto, o processo de
movimentação dos grupos humanos, na busca de
meios para subsistência e proteção, fez com que o
conhecimento, do homem, sobre a superfície da
terra aumentasse e ele acumulasse informações
que foram transmitidas às gerações futuras, como
os meios de realizar a caça, pesca e coleta. De
acordo com Andrade, apud MARAFON & BEZZI
(1992:02) os povos primitivos... Conheciam os
mecanismos das estações, fazendo migrações, às
vezes de longos percursos, a fim de
acompanharem os animais silvestres que
utilizavam como alimentos ou para colherem os
frutos de determinada área.
Dedicando-se a diversas atividades, os povos
primitivos, mantinham intensa relação com a natureza o
que era de vital importância a sua sobrevivência. Para
NOGUEIRA (1992:19) o uso do fogo pode ser entendido
como um dos primeiros passos decisivos nessa
evolução e domínio sobre a natureza. Até então, a única
possibilidade básica de alimentação era extrair produtos
naturais que podiam ser diretamente consumidos. O
fogo permitiu a ampliação do número de produtos e a
forma de usá-los para o consumo humano.
Com relação ao advento da agricultura,
NOGUEIRA (1992:19) afirma que: esta foi uma
revolução tecnológica no relacionamento homem e
natureza. Ela permitiu o surgimento de técnicas básicas
no uso do solo para a produção agrícola como irrigação,
construção de terraços e diques, além das técnicas de
plantio, entre outras. Até mesmo a técnica de
atrelamento dos animais para puxar o arado e o carro
de rodas, surgem nesse período. Destacaram-se os
Gregos em função da privilegiada posição geográfica,
região de contato entre o Ocidente e o Oriente. Eles
começaram a usar palavras como bacia e erosão. De
acordo com NOGUEIRA In Desenvolvimento e
Educação
Ambiental
(1992:19)
os
Gregos
...contribuíram com o moinho d'água, as melhorias nos
transportes e a aplicação da força animal. Entretanto,
eles
tinham
profundas
reservas quanto ao
desenvolvimento de técnicas produtivas. Eles tinham um
profundo sentimento de dignidade do pensamento puro
e o valor eminente da contemplação. Assim, eles
passaram a história pelas admiráveis descobertas...
Desta forma a partir da fixação do homem em
determinado lugar se estabeleceu maior conhecimento
do meio ambiente que o cercava. Assim sendo, diversas
civilizações se sucederam, apresentando diferentes

graus de apropriação e/ou relação com a natureza,
criando-se artifícios com maior ou menor intensidade.
A chegada dos conquistadores no continente
Americano identificou que os primitivos estruturavam-se
em diferentes níveis de civilização. Além das
sociedades coletoras e caçadoras, que se encontravam
em estágio cultural primitivo, (esquimó) destacava-se,
também, as sociedades que praticavam a agricultura de
subsistência. Eram os primeiros passos da revolução
agrícola, onde se cultivava mandioca, milho, feijão,
amendoim, tabaco, mate; e se fabricavam utensílios
como as varas de flechas.

Porém, neste continente encontravam-se as
sociedades avançadas com produção agrícola
excedente. Entre elas destacavam-se os Maias
que viviam em área de florestas densas e tropicais
de clima quente e chuvoso onde realizavam a
agricultura de roça através do processo de
derrubada de árvores e queimada de troncos e
restos vegetais. Neste sentido ADAS (1982:87)
afirma: Por se tratar de uma civilização agrária, a
determinação do ritmo das estações era
importante para garantir a boa colheita. Assim
sendo, o calendário solar e agrícola determinava
os períodos favoráveis ao trabalho de lavrar a
terra, semear e colher.
Os Astecas, também, desenvolveram a atividade
agrícola (período de plantar e colher) de acordo com a
astronomia e seu calendário, formado por 18 meses de
20 dias. Esta civilização era constituída por uma grande
massa de trabalhadores do campo responsáveis pela
produção agrícola.
Os Incas, povo conquistador, formaram um dos
impérios mais integrados da história, com grande
capacidade administrativa (inclusive realizavam censos)
e possuíam sistema para estocar a produção agrícola
de base produtiva coletivista. Adotavam vários
procedimentos visando o aumento da produção de
alimentos, principalmente em área de baixa altimetria.
Usavam a irrigação e terraços nas vertentes mais
íngremes, além de canais para escoamento das águas.
As atividades do meio rural desenvolveram-se em
função do calendário astronômico.
Entretanto, a baixa densidade demográfica que
formava as sociedades primitivas e uma produção
fundamentalmente voltada para a subsistência, não
provocava uma ação expressiva sobre os ecossistemas
por permitir grande mobilidade dos grupos humanos e
uma recomposição do meio ambiente naturalmente.
Porém, com o advento do capitalismo, que
representou um momento revolucionário na história da
humanidade ao provocar o surgimento de novas formas
de organização social e de apropriação da natureza
como coloca NOGUEIRA In Desenvolvimento e
Educação Ambiental (1992:19):
representa
a
apropriação privada da terra, da água e dos recursos
naturais, com o propósito de transformá-los em
mercadorias (ou em produtores de mercadorias) e usálos como fatores geradores de lucros, rendas e capital.
Desse modo, percebe-se que dependendo do
tipo de formação social que a humanidade teve em
determinado momento, o relacionamento do homem
com
o
meio
ambiente
apresentava
certas
especificidades. Entretanto, com a Revolução Industrial
essa convivência torna-se mais complexa. Neste
enfoque, SCHUMACHER apud Elhers, (1996:72) relata
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43

que: ...a vida nas sociedades modernas estava sendo
desvirtuada pelo culto obsessivo do crescimento
econômico ilimitado... julgava inevitável o colapso
dessas sociedades para um modelo de vida compatível
com as verdadeiras necessidades do homem.
Realizando
estudos
a
este
respeito,
CHRISTOFOLETTI (1989:609) acrescenta que a cultura
ocidental é antropocêntrica, isto é, coloca os seres
humanos em uma posição superior sobre a natureza no
contexto da hierarquia de valores. Sob esta perspectiva,
a natureza deve ser dominada, conquistada ou
manejada para servir as necessidades humanas. A
adoção dessa posição... aliena os seres humanos de
seu meio ambiente, do qual depende a sua
sobrevivência.

2.372 pessoas (11,3%), apresentando redução em torno
de 8,46% nos últimos anos.
Na primeira metade do século XX, apoiando-se
em CHEGUHEM (1992), o sistema de produção de
hortigranjeiros, desenvolveu-se de forma paralela à
pecuária bovina e ovina. Este, sofreu rápido decréscimo
em sua produção, principalmente pela carência do
sistema de transporte e pela influência das flutuações
cambiais existentes entre o Brasil e o Uruguai. Também,
contribuiu para o decréscimo da produção de
hortigranjeiros o fato da cidade Uruguaia de Artigas
possuir um cinturão verde bem estruturado, produzindo
com qualidade superior.
Na década de 70, houve a introdução das
culturas do milho, arroz e soja no Areal, como uma
No Brasil, desde a sua colonização, o uso tentativa das unidades familiares de produção
extremamente predador dos recursos naturais foi acompanharem o restante do estado do Rio Grande do
muito amplo, como atestam os ciclos econômicos Sul e substituírem o modelo de produção local
como
do
pau-brasil,
cana-de-açúcar considerado obsoleto economicamente, por um conjunto
de práticas tecnológicas mais eficazes.
(monocultura),
ciclo
da
borracha
etc.
No município de Quarai, RS, predomina o clima
Posteriormente, vários ciclos de monoculturas do tipo fundamental Cfa 2 (33) de Koeppen. A
foram praticados. Nesta evolução NOGUEIRA temperatura média anual apresenta-se em torno de 19.6
(1992:21) menciona que: A ocupação do noroeste oC. A precipitação média anual fica por volta de 1.365
do Paraná foi extremamente violenta e a ocupação mm, sendo que as mínimas anuais podem chegar a
de São Paulo, com o café, no final do século 1.200 mm e as máximas a 1.500 mm. Podendo ocorrer
passado, foi extremamente violenta. Se chuva torrencial de 165 mm em 24 horas. A média de
procurarmos saber que motivações levaram essa dias chuvosos no ano fica em torno de 90 dias. A
sociedade a seguir esse caminho, vamos chegar a umidade relativa do ar é de 70 a 80% sofrendo
variações de acordo com os elementos do clima. A
uma explicação que talvez não seja a única, mas
ocorrência de períodos secos, faz com que a insolação
que é extremamente importante: é que naquele se apresente intensa. Por outro lado, as geadas que
momento... dada a abundância de recursos que ocorrem de abril a outubro caracterizam as
existiam no País... havia muita área, relativamente temperaturas mínimas negativas na área CHEGUHEM
pouca gente, então, São Paulo, Paraná, foram (1991, 1992),
O município de Quarai é drenado por rios de
ocupados, num ritmo fascinante, avassalador.
médio porte, arroios e sangas acrescidas por um
Por volta de 1960 o padrão de produção,
conjunto de açudes e barragens. As sangas são
adotado nos Estados Unidos e Europa Ocidental, foi
alimentadas por cursos intermitentes dependendo das
transferido para diversas partes do mundo, entre elas o
chuvas e somados com os arroios formam um sistema
Brasil. EHLERS (1996). O pacote tecnológico que
do tipo dendrítico. A maior parte dos cursos d'água
desencadeou a Revolução Verde estava fundamentado
dessa malha hidrográfica dirige-se para sul indo
na melhoria do desempenho dos índices de
desaguar em seus principais componentes como o
produtividade agrícola através da substituição dos
arroio Cati ou no rio Quaraí. Os açudes existentes são
moldes de produção local por um conjunto de práticas
de pequeno porte sendo utilizados como bebedouros
tecnológicas.
Neste
contexto,
destacou-se
a
naturais aos rebanhos existentes.
monocultura, cultivo de uma única espécie vegetal em
Junto aos arroios e rios que drenam o Município
detrimento das nativas que foram dizimadas. Esta
desenvolve-se a mata ciliar característica da Campanha,
prática provocou desequilíbrios sistêmicos além de
formada por espécies arbustivas e arbóreas de pequeno
expor a própria espécie cultivada a ataques maciços de
e médio porte, de grande importância na manutenção de
pragas e de aumentar o uso de agrotóxicos.
mananciais hídricos e do habitat de espécies animais
nativas. Esta flora é constituída por uma diversidade de
2 SUB-BACIA DO AREAL
herbáceas e arbóreas de porte médio. Destacam-se,
igualmente, as gramíneas de pequeno porte
A sub-bacia do Areal como objeto do estudo de
características de clima temperado.
acordo com CHEGUHEM, (1991, Vol. I e II) localiza-se
Na formação dos solos (Boletim Técnico do
no município de Quarai, situado entre as coordenadas
geográficas 30° 00 a 30° 34' de latitude Sul e 55° 40' a Ministério da Agricultura, 1973), destacam-se o basalto
56° 40' de longitude Oeste. O Município possui uma e o arenito. As unidades de Mapeamento originadas do
basalto são: Escobar, Pedregal (1, 2 e 3) e Uruguaiana,
área de 3.270 km2 e situa-se a altitude média variável
já as unidades originárias do arenito são: Vacaraí e São
de 112 metros, inserido na microrregião da Campanha
Pedro.
Fronteira Ocidental do Rio Grande do Sul, a qual é
ocupa
área
de
Unidade
Escobar
composta pelos demais municípios: Alegrete,
aproximadamente 510 km2 o que corresponde a 0,19%
Uruguaiana, São Borja, Itaqui, São Francisco de Assis,
da área do Estado. As suas características marcantes
Manoel Viana, Garruchos, Barra do Quarai e
são: solos pouco profundos, mal drenados, pretos,
Maçambará.
argilosos, muito pegajosos e desenvolvidos a partir do
Atualmente na sede do Município vivem 20.862
basalto.
habitantes, sendo que a população rural corresponde a

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Nesta unidade o relevo é plano a suavemente
ondulado com declives variando até 5%. Situa-se nas
terras aluviais ao longo dos rios. As altitudes variam em
torno de 100 metros. Quanto ao grau de limitação ao
uso agrícola esta unidade apresenta fertilidade natural
ligeira e moderada. Em geral são férteis, entretanto
muito suscetíveis a erosão. (forte e moderada) Mesmo
situados em relevos suavemente ondulados, neles
predominam grande número de vossorocas.
Embora sejam solos com boa capacidade de
retenção de umidade, ocorrem em áreas que
apresentam déficit de umidade durante o verão, sendo a
irrigação (uso agrícola) indispensável. Geralmente estes
solos são utilizados para pastagens, embora as áreas
mais planas e mal drenadas, que ocorrem ao longo do
curso dos rios, são utilizadas para o cultivo do arroz. As
maiores limitações para o uso agrícola, referem-se a
drenagem e as características físicas apresentadas. A
Unidade Escobar pode ocorrer associada a outros tipos
de solos, como o Pedregal.
A unidade Pedregal ocupa área de
aproximadamente 13.105 km2 o que representa 4.88%
da área do território do Estado e é constituída de solos
bem drenados desenvolvidos a partir do basalto
apresentando portanto uma coloração escura. Ocorre
em altitudes que variam de 80 a 200 metros
caracterizando um relevo suave ondulado com
declividade de 5% a 12% na fase mais gradual O
horizonte superior deste solo possui espessura de
aproximadamente 10 cm (principal variação desta
Unidade) de coloração acinzentada a escura. A textura
varia de fraca a argilosa moderadamente desenvolvida.
Estes solos são utilizados com pastagens naturais e
cultura do arroz, próximo aos cursos d'água. Os solos
Pedregal, ainda ocorrem associados a outros, entre os
quais: Unidade Escobar, São Pedro, Uruguaiana etc.
A unidade Uruguaiana ocupa uma área de
aproximadamente 2.695 km2 o que representa 1% da
área do Estado. Em geral esta Unidade determina-se
por solos férteis (suportando junto com a Unidade
Escobar os melhores campos da Campanha). As suas
características gerais determinam a ocorrência de solos
mediamente profundos, (um metro aproximadamente),
apresentando cores escuras. São imperfeitamente
drenados e pegajosos com saturação de bases alta, (em
torno de 3%). Formados a partir dos sedimentos do
basalto com tonalidades acinzentadas. O relevo que os
caracteriza é do tipo plano cujas altitudes são
suavemente onduladas. Suas deficiências prendem-se
ao fósforo disponível que é baixo como o potássio. A
erosão é nula a ligeira, pois são solos bem providos de
base. Somente no relevo suavemente ondulado são
necessárias as práticas simples de conservação,
enquadra-se em solos que tem boa capacidade de
retenção de água, mas ocorrem em áreas que
apresentam déficit de umidade no verão. Podendo estar
associados à Unidade Pedregal.
A unidade Vacacaí concentra-se nas várzeas ao
longo dos rios e arroios e ocupa uma área de 16.340
km2, o que representa aproximadamente 6,06% da área
do Estado. Os solos são derivados de sedimentos
aluviais recentes, principalmente, provenientes de
arenito e siltitos e tem como características gerais
serem mal formados a imperfeitamente drenados. Esta
Unidade condicionada pelo relevo, apresenta-se com
cores acinzentadas e devido a influencia água
apresenta-se mosqueados de várias tonalidades,

principalmente, nos horizontes inferiores onde a água é
mais abundante.
O relevo e a altitude variam de plano, (ao longo
dos cursos d'água), suavemente ondulado e, com
elevações, apresentando declives suaves (3 a 5%). A
fertilidade natural é moderada a forte. São solos ácidos,
com saturação e soma de base baixa e pobre, na
maioria dos nutrientes.
A unidade São Pedro totaliza uma área de
6,675 km2, o que representa cerca de 2.48% da área do
Estado. Esta Unidade apresenta características gerais
como solos profundos e avermelhados, textura
superficial arenosa, bem drenados e ácidos. O relevo
predominante é o ondulado formado por elevações (8 a
10%) e arredondadas (coxilhas), com altitude média de
150 metros. Os solos desta Unidade se caracterizam
por serem pobres em matéria orgânica e nutriente
disponíveis. São suscetíveis à erosão devido a textura,
determinando um alto grau de limitação ao uso agrícola,
além de possuírem baixa capacidade de retenção de
água. Nesta Unidade pode ocorrer associação de outros
solos como o Santa Maria, Pedregal, Escobar,
Livramento.
3 DIAGNÓSTICO
ECONÔMICOS.

AMBIENTAL

E

SÓCIO-

3.1 Metodologia Aplicada no Estudo
A investigação referente ao estudo da ação
antrópica sobre o meio ambiente em áreas de produção
rural familiar, tendo como área de estudo a sub-bacia do
Areal, determinou as seguintes etapas:
- revisão da bibliografia, enfatizando questões
relevantes entre as quais destaca-se, evolução histórica
e os principais aspectos naturais do município de
Quarai, relevantes ao tema de estudo.
- as leituras realizadas deram suporte ao estudo
das informações e sua interpretação para a análise final
sobre desenvolvimento rural, seguindo PATERSON
(1976) que estabelece a verificação dos caracteres
naturais (ambientais), composição da unidade de
produção
(potencial
populacional)
tecnológica
(capacidade de gerenciamento) e nível de vida (bem
estar e conforto das populações).
A realização do levantamento de campo se
processou por coleta de amostra controlada junto ao
setor rural da microbacia do Areal, município de Quaraí.
A amostra considerou o valor de, aproximadamente,
17% das propriedades existentes (de um total de 330
unidades rurais, conforme a Secretaria de Agricultura
Municipal), sendo um levantamento significativo para o
caso estudado com dimensão de área mínima de 0,4
até 105 hectares. O levantamento se constituiu de um
inquérito junto a cinqüenta e cinco (55) propriedades,
dando preferência aos produtores residentes no meio
rural. A seguir, os dados que constituíram as
informações foram revistos e organizados e
posteriormente processados via SAS e, finalmente,
analisados.
O instrumento de campo totalizou 299 variáveis
que atenderam a três características: caracteres
ambientais totalizando quarenta e sete (47) variáveis;
composição do sistema de produção subdividido em
caracteres de produção com noventa e duas (92)
variáveis e estrutura de produção com oitenta e cinco
(85) variáveis; composição da unidade de produção

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que considerou os aspectos sociais com setenta (70)
variáveis. Além dessas, três (3) variáveis atenderam as
características da composição da unidade de produção
(social) como a composição do sistema de produção
(estrutural).
No tratamento estatístico foi aceitável o
processamento
computacional
da
freqüência,
percentagem, freqüência acumulada e percentagem
acumulada com um nível de significância igual e/ou
superior a 75%. Rejeitadas as variáveis a partir de 14
ausências na resposta para o universo de cinqüenta e
cinco (55) propriedades definidas após a revisão dos
instrumentos de campo. Deve-se ressaltar ainda que as
informações foram processadas no Laboratório de
Estudo e Pesquisa Regional (LEPeR), que por Rede
interna utilizou-se do SAS- Sistema de Análise
Estatística - ligado ao Centro de Processamento de
Dados (CPD) da UFSM.
3.2 Diagnóstico Sócioeconômicos e Ambiental do
Areal.
A sub-bacia do areal está ligada a sede do
município por via asfaltada, o que determinou a
facilidade de acesso entre a localidade e a sede do
município de Quaraí. Assim sendo, se estabeleceu o
maior fluxo de pessoas e mercadorias. A analise da
distância dominante entre as propriedades entrevistadas
e a Sede municipal, varia de 22 a 30 km de distância.
Buscando a análise do uso dos recursos
hídricos, florísticos, edáficos e os cuidados no trato que
o homem rural dispensa a esses recursos em sua
produção de sobrevivência e econômica, foram
analisadas, no instrumento, as variáveis referentes a
estes recursos.
Observando a variável pertinente a existência de
cobertura verde no solo, tem-se que 22,2%
responderam que cuidam para que o solo permaneça
com cobertura. Esta baixa percentagem revela a
presença de erosão e de elementos que provocam a
alteração da cobertura verde e do próprio solo. Estes
elementos somados aos cuidados e ações humanas
sobre o solo permitiram entender que a presença de
elementos erosíveis como voçorocas (34%) e valetas
(22%) ocorrem nas unidades rurais visitadas. Os
cuidados e a interferência do homem sobre o solo
revelou que 29,41% fazem análise do solo; 17,64%
aplicam calcário nas lavouras; 56,87 utilizam adubo
químico e 52,94 lançam mão da adubação orgânica.
Estes valores revelados não correspondem a realidade,
pois os trabalhos de campo identificaram valores
maiores. Por isso admite-se que o homem não
reconhece a existência de elementos erosivos, dando a
falsa idéia de que eles não existem.
O uso do adubo químico e orgânico e a aplicação
de calcário juntamente com a análise do solo,
determinam o empirismo predominante nas atividades
do meio rural. Neste caso a adubação orgânica passa
para a posição secundária (utilizados em áreas restritas
de consumo familiar, como as hortas), sendo que a
adubação química é adotada com maior expressão nas
atividades de produção familiar (56,87%).
Em relação a alternação de atividades 52,94%
dos entrevistados admitiram que utilizam-se desta
técnica. Neste caso os agricultores efetuam o consórcio
entre as culturas cíclicas (melancia, melão, abóbora e
milho) com o criatório do gado. Este criatório permanece

45

por um período de dois a três anos sobre determinada
área e, posteriormente, ela retorna para o uso agrícola.
Quanto aos recursos da flora, 72,54% das
propriedades plantam árvores anualmente, porém
muitos não souberam precisar a quantidade e a
dimensão da área plantada determinando que a
imprecisão da informação compromete a credibilidade
da resposta.
Nos questionamentos relacionados ao uso de
agrotóxicos, verificou-se que 21,56% fazem uso deste
componente e utilizam o poço, rios e açudes para
abastecerem os pulverizadores. Quando questionados
sobre o destino das embalagens, 72,72% admitiram que
enterram, queimam ou jogam em valetas. Os demais
dão outro destino às embalagens. Em relação aos
problemas causados por agrotóxicos, 18,18% afirmaram
terem sofrido alguma forma de intoxicação.
Nas questões referentes ao uso dos recursos
hídricos constatou-se que a irrigação das lavouras,
especialmente na atividade arrozeira que se desenvolve
em pequena escala nas várzeas do arroio Areal,.
apresenta solos propícios a atividade (conforme o
Macrozoneamento Agroecológico e Econômico do
Estado do Rio Grande do Sul, 1994) e ocorre em
13,95% das propriedades inquiridas. Este recurso
hídrico é extraído, principalmente, do arroio Areal bem
como dos açudes distribuídos pela área.
As procedências da água consumidas pelas
famílias entrevistadas provem: de vertentes naturais
para 72,54%, de poços artesianos para 21,56%.
Também,
76,2%
das
propriedades
inquiridas
mencionaram que mantém a vegetação como forma de
proteger as mesmas, dos processos erosivos, da
contaminação por embalagens de agrotóxicos e para
conter o acesso dos animais.
Quando indagados sobre a falta de água para
consumo durante os meses de verão, 43,47% dos
entrevistados admitiram enfrentar essa problemática.
Também, foram objetos de investigação a presença de
instalações hidráulica e sanitária nas casas, a presença
de fossa negra e o destino do lixo cujas respostas
revelam um quadro pouco animador: Instalações
hidráulica e sanitária 36,53%; Fossa negra 86,36%; Lixo
(queimado) 56,6%; Lixo (enterra/adubação) 13,2%
Em relação ao destino das águas servidas, para
86,9% dos casos analisados é a fossa negra e, para
46,16as águas servidas dirigem-se para o fundo das
casas. Percebe-se, também a ausência de instalações
hidrosanitárias em 73,47% dos casos.
Quanto a composição do sistema de produção
(caracteres de produção) foram analisadas variáveis
que permitem determinar a produção e reconhecer a
forma de estabelecer a normatização de planos de
desenvolvimento. As variáveis de produção revelaram a
situação das unidades produtoras quanto aos tipos de
culturas, área que ocupam e a produção média por
hectares, entre outros elementos. Observando as
culturas mais freqüentes nas atividades agrícolas como
milho, melancia, mandioca, feijão, arroz e melão,
constatou-se que o milho e a melancia compõem
69,33% das atividades de cultivo, seguidos pela
mandioca que apresenta certa expressão com 20% do
total produzido, destacando-se, também, a produção de
videira (parreira) em duas (2) unidades de produção
familiar. Este tipo de cultivo apresenta-se em fase
embrionária na sub-bacia cujos resultados das primeiras
safras são considerados satisfatórios, abrindo

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Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 41-50, 2001

perspectivas de crescimento deste sistema de produção
no Areal. Essas culturas ocupam freqüentemente uma
área que varia de 0,1 a 5 hectares e realizam uma
produção média de 2863 kg/ha.
A seleção das sementes para 83,72% dos
entrevistados ocorre com a tomada de cuidados no uso
dos recursos visando a melhor produtividade. Este
elevado índice deve-se, também, ao fato das culturas
cíclicas (melancia e melão), serem híbridas.
A comercialização da produção é efetuada
diretamente com o consumidor ou com pequenos
comerciantes da cidade de Quarai, para 86,95% dos
produtores. Este comércio é realizado de forma
individual ou isolado, sem nenhuma forma associativa
das unidades produtoras familiares.
Os proprietários foram indagados sobre as
atividades hortigranjeiras em suas propriedades por
entender que a proximidade com a população urbana, o
bom acesso viário e a ocorrência de pequenas unidades
de produção estariam motivando estas atividades.
Entretanto, constatou-se que apenas dois produtores
dedicam-se a comercialização de hortigranjeiros,
destacando-se produtos como alface, radite, repolho,
temperos, cenoura e beterraba.
Os pomares estão presentes em 83,63% das
propriedades e são representados por cítricos e
rosáceas, destinando-se à subsistência das famílias,
pois apenas 17,77% dos produtores comercializam seus
produtos junto a população urbana de Quaraí. Também,
por se tratar de propriedades com área média em torno
de 30ha questionou-se a produção e venda de produtos
artesanais (coloniais) como queijo, pão caseiro e outros.
O número de produtores que possuem esta alternativa
de renda é pouco significativo, apenas 12,96% dos
entrevistados.
Na criação de animais destacam-se os bovinos
em 88,89% dos casos, sendo que o número varia de 10
a 50 cabeças por propriedade. Esses animais são
representados
pelo
cruzamento
das
raças
charolês/zebu, em 45,83% das unidades de produção
familiar. Também, aparecem com elevada freqüência
animais que não tem linhagem genética definida,
chamados de crioulo e resultantes da cruza de várias
raças. Esta mistura genética, deve-se, em parte, a
ausência de qualquer política de inseminação para obter
um rebanho mais rentável e economicamente viável.
Está tecnologia é empregada em apenas 6,12% das
unidades de produção rural entrevistada. A opção por
espécies cruzadas e indefinidas deve-se ao destino:
corte e leite para o consumo doméstico em 91,66% das
propriedades. Constatou-se, também, que a maior parte
dos produtores possui uma ou duas vacas em estágio
de lactação. A alimentação fornecida ao gado bovino é
determinada pelas pastagens nativas, forrageiras,
milhas e farelo. A área destinada ao criatório de bovinos
varia de 0,2 a 36 ha, o que corresponde, na maioria dos
casos, a dimensão máxima da propriedade.
A criação de animais de médio e pequeno porte,
composta por aves, ovinos, suínos, peixes e abelhas,
constitui-se em um complemento da criação e auxiliam
na diversificação da produção em 85,45% das unidades
de produção familiar entrevistada.
As aves ocorrem em 16 unidades de produção
familiar, sendo que o número de cabeças por
propriedade varia de 10 a 50, com a finalidade principal
da criação é o corte e a produção de ovos para 80,43%
dos criadores. Entretanto, o número de poedeiras não é

expressivo, variando de 10 a 20 aves. O comércio de
ovos, por sua vez, não sendo intenso pouco estimula o
aumento de poedeiras entre os criadores. Esta atividade
apresenta-se como uma alternativa para 27,28% das
unidades de produção e a comercialização varia de 5 a
10 dúzias por propriedade/mês.
Os ovinos correspondem a atividade de criação
expressiva na área (isto deve-se ao solo da sub-bacia
que é propício a esse tipo de criatório). A faixa
predominante do número de ovinos por propriedade é
de 11 a 40 animais e se destinam ao corte/lã para 80%
dos casos analisados. Em relação a comercialização da
lã, 78,94% das propriedades afirmaram que realizam a
venda como forma de diversificação dos ganhos e que a
quantidade depende do tamanho do plantel.
A criação de suínos aparece em apenas 31,11%
das propriedades e se destina ao corte/banha. Já o
número de matrizes para a reprodução corresponde a
somente uma matriz em 64,29% das propriedades. Este
tipo de atividade é desenvolvido, com a finalidade de
suprir as necessidades domésticas empregando
técnicas rudimentares.
Analisando
a
produção
existente
nas
propriedades familiares da sub-bacia do Areal,
determina-se que esta área apresenta três (3)
características fundamentais:
(1) diversificação da produção;
(2) insignificância da quantidade produzida;
(3) carência no sistema de comercialização devido
a carência de mercados.
As variáveis que compõem os caracteres
estruturais permitem reconhecer o uso do solo, bem
como seu grau de intensidade, as tecnologias aplicadas
na produção e as estruturas indicadoras de melhor
qualificação deste setor da economia bem como do
modo de vida das populações rurais estudadas. Na
análise da área das propriedades constatou-se que há
significativa variação da dimensão, podendo ser
destacado grupos por extratos de área de maior
incidência de propriedade, como: Até 10 hectares 36,4%; 11,5 a 37 hectares - 23,6%; 40 a 85 hectares 21,8%; mais de 87,6 hectares - 18,2% das propriedades
estudadas. Trata-se, portanto de uma área onde
ocorrem unidades de produção e de reprodução familiar
de pouca dimensão de área disponível exigindo
intensidade de trabalho. Entre os produtores há os que
receberam a terra por herança (47,27%), por aquisição
(38,18%) e por transação de compra e venda detendo
as escrituras. Destas terras a utilização para a
agropecuária ocupa uma dimensão que varia de 10,4%a
29,6% das propriedades.
Referente ao emprego de técnicas nas atividades
de alimentação dos animais, encerra para aves,
presença de estrebarias e de pocilgas foi significativa a
presença de pastos especiais durante os meses de
inverno (81,25% dos casos), por serem meses de maior
exigência do criatório quanto a cuidados devido às
baixas temperaturas. No verão apenas 12,5% das
propriedades cultivam pastagens destinadas ao
criatório.
A utilização do adubo natural proveniente dos
excrementos de aves, suínos, ovinos e bovinos,
recolhidos para o depósito (esterqueira), antes de serem
aplicados em lavouras e hortas, é prática em 6,25% das
propriedades, permitindo determinar que poucos são os
que se utilizam desta eficiente e barata técnica. Por

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outro lado, quando indagados sobre a possibilidade de
construírem esterqueiras para o aproveitamento do
adubo natural, apenas 44,44% pensam em construir
futuramente, permitindo deduzir que os agricultores
continuarão dependendo dos insumos químicos em
suas lavouras.
A presença de horta e pomares é comum nas
propriedades, ocorrendo em 75,92% e 83,63% dos
casos, respectivamente. Essas atividades destinam-se
ao consumo interno em 97,56% dos casos dos
horticultores; os pomares definem-se por cítricos e
rosáceas, porém o número de plantas por propriedade
tem uma ocorrência heterogênea, variando de 10 a 90
unidades.
A mecanização nas unidades de produção
aparece apenas em 18,19% dos casos, isto pode ser
explicado devido a pequena dimensão de área
disponível à agricultura nas propriedades. A ocorrência
de pouca área disponível não incentiva o uso de
implementos e nem permite a capitalização de bens
desta natureza. Neste enfoque, observou-se que
apenas 18,19% das propriedades possuem trator,
caracterizando o que MÜLLER (1989) na época
analisou sobre esta questão que ... em torno de 80%
dos agricultores não conseguiram se inserir no novo
processo de produção.
Por se tratar de pequenas unidades de produção
voltadas para o consumo interno familiar o uso de
financiamentos para a lavoura é inexpressivo (3,63%) e
as associações e entidades como as cooperativas,
alcançam apenas 43,63% das propriedades analisadas.
Assim
sendo,
deduz-se
que

atividades
desarticuladas do trabalho comunitário, estando
portanto, individualizadas em sua pequena produção.
Em relação a presença de sindicato de
trabalhadores rurais, 50,9% dos agricultores admitiram
serem filiados ao STR. Entretanto, quando indagados
sobre a motivação para empreendimentos futuros no
meio rural, 54,54% deles não pretendem modificar o
sistema de produção e 90,74% não pretendem
desenvolver qualquer cultura específica. Estes
questionamentos refletem a idade avançada dos chefes
de família e a ausência de jovens no meio rural. Devese acrescentar que 92,5% dos entrevistados não
desejam desenvolver outra atividade, embora muitos
não exerçam função extra além da agropecuária.Tal
situação permite considerar que se trata de uma área
em processo de envelhecimento social e econômico,
cujas atividades rurais culminarão na estagnação ou no
desaparecimento. Isto pode ser confirmado quando foi
questionado o desenvolvimento de atividades paralelas
e 29,09% dos entrevistados admitiram que possuem
como atividade principal o comércio, escritórios de
contabilidade, oficinas mecânicas e serviço bancário
entre outras, executadas na cidade de Quarai.
Esses dados permitem deduzir que a sub-bacia
do Areal está sendo transformada em área de transição
entre o rural/urbana na qual as pessoas possuem dupla
atividade.Tem contribuído para isto as dificuldades de
sobrevivência no meio rural, a insignificante dimensão
de área disponível, as dificuldades de mercados para os
produtos e, principalmente, a atração do urbano (Sede
municipal de Quarai) dada a sua proximidade e as
facilidades de acesso.
Quanto a variável que determina o número de
famílias por propriedade, o predomínio é de uma família
em 80% dos casos. Tal informação revela a presença

47

de um contingente populacional baixo no meio rural,
pois a isto se acrescenta o número de pessoal na
propriedade: até 4 pessoas para 81,8% dos casos
analisados.
Considerando-se
esta
existência,
especulou-se a idade do chefe na propriedade (primeiro
membro da família), permitindo entender que não há
uma concentração significativa em determinadas faixas
etária, ao contrário, os dados revelam uma dispersão
que varia de 32 a 95 anos e em uma divisão quartílica
tem-se: 1a classe 32 - 45 anos com 13 pessoas; 2a
classe 47 - 57 anos com 20 pessoas; 3a classe 58 - 71
anos com 12 pessoas e uma 4a classe 73 - 95 anos com
10 pessoas.
As informações determinam que as idades da 2a
e 1a e 3ªclasse, respectivamente, são as que
caracterizam a faixa etária do dirigente da propriedade
rural, sendo ainda que 83,63% dos dirigentes são do
sexo masculino. No questionamento referente ao grau
de instrução destas pessoas a realidade revela que
81,8% dos entrevistados são analfabetos ou sua
instrução vai até as primeiras séries iniciais do ensino
básico.
O segundo membro da família na propriedade
possui idade que varia de 15 a 80 anos, determinando
uma dispersão. Ao se aplicar uma distribuição por
classes aos dados, obteve-se: 1a classe 15 - 33 anos
para 11 pessoas; 2a classe 40 - 48 anos para 19
pessoas; 3a classe 49 - 56 anos para 12 pessoas e 4a
classe 57 - 80 anos para 10 pessoas
As informações revelam que as idades da 2a e 3a
classe são as que determinam a faixa de idade da
segunda pessoa da propriedade, das quais 84,61% são
mulheres. Apresenta ainda este segundo membro da
família um grau de instrução muito baixo, onde 80,8%
são analfabetos ou possuem até as séries iniciais do
ensino fundamental.
O tipo de moradia predominante é a casa de
alvenaria (46,2%) seguida da casa de madeira em
30,7% das propriedades, possuindo seis cômodos
(86,5%) por casa. O conforto doméstico nas
propriedades pode ser determinado pela presença de
energia elétrica (59,6%), de geladeira (61,2%), do fogão
a gás (84,6%), da televisão (51,9%) e de freezer
(15,4%). A ocorrência de condução própria para o
deslocamento das pessoas é significativa para 59,6%
das propriedades.
As populações rurais, ainda que constituídas por
famílias pequenas, predominam nelas a mão-de-obra
familiar em 92,72% das unidades rurais, cujo percentual
de pessoas da família que trabalham na propriedade
varia de duas a 4 pessoas nas práticas agropecuárias.
Este índice é explicado pelo reduzido número de
pessoas na família das unidades produtoras rurais,
revelando um marcado êxodo rural que se processa nas
últimas décadas. O trabalho tem caráter intensivo, 8
horas/dia para 41,81% dos entrevistados que admitiram
trabalhar 365 dias/ano.
A alta ocupação da mão-de-obra na propriedade
dispensa o trabalho de terceiros, apenas 20% realizam
tarefas fora da propriedade, exercendo tarefas como a
de "alambrador" (pessoa que faz cercas para o criatório
do gado em uma propriedade localizada, geralmente, na
metade sul do estado do Rio Grande do Sul), outra
atividade é a de diarista em época de plantio e colheita
da produção Por outro lado, 15,4% dos entrevistados
contratam mão-de-obra assalariada em determinados
períodos do ano. Também, os serviços de mutirão não

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são difundidos o que permite entender que não há
trabalho associativo e nem grupos comunitários.
Nas questões referentes as condições de
alimentação e aproveitamento dos produtos na família,
observou-se que 49% utilizam os produtos In natura,
37,25% utiliza-os em caldas, sendo que as verduras são
consumidas em forma de saladas para 81,55% das
unidades rurais. A respeito do futuro da propriedade
como atividade rural, ela tende a ter continuidade para
70,9% dos entrevistados que admitem a permanência
dos filhos na propriedade caso não encontrem outra
perspectiva de inserção dos membros da família em
outros ramos da atividade econômica, ainda que sua
produção seja dirigida para o consumo próprio.
Indagados porque são agricultores, 78,2%
responderam que gostam da atividade, entretanto,
admitiram que não encontraram outra oportunidade de
trabalho, mas não desejam vender suas terras.
Procurando identificar o nível de sociabilidade
das famílias, constatou-se que apenas 40% participam
de entidades sociais, porém não comunitárias. A
população também, sugeriu que para desenvolver a
comunidade é necessário melhorar as estradas (28%),
além de ampliar a rede de ensino (8%) que oferece até
a quinta série do ensino fundamental, (reivindicam no
sentido de completar esta modalidade de ensino), além
de orientação técnica e energia elétrica.
Em relação a contribuição de órgãos públicos
para o desenvolvimento da comunidade, 61,8% dos
casos analisaram a atuação da Prefeitura Municipal de
forma satisfatória. Isto se deve, principalmente a
patrulha rural (composta por tratores e implementos
para o preparo dos solos objetivando o cultivo das
principais culturas cíclicas aos proprietários da
localidade bem como do restante do município), que
oferece serviços a comunidade. Entretanto, esta técnica
que resolve os problemas imediatos dos agricultores
tende a causar problemas irreversíveis ao ambiente
local, por se tratar de uma área de extrema fragilidade
ecológica. A atuação do Sindicato dos Trabalhadores
Rurais foi vista como positiva para 9,1% das unidades
inquiridas. A assistência médica é obtida junto aos
órgãos governamentais como INSS e Posto de Saúde
por 54,5% dos entrevistados. Os demais recorrem a
convênios e/ou hospitais particulares.
4 CONSIDERAÇÕES E RECOMENDAÇÕES
O objetivo do estudo foi verificar os prováveis
efeitos da atuação do homem sobre o sistema físico a
partir dos sistemas de produção desenvolvidos nas
unidades de produção familiar rural existentes na subbacia do Areal, município de Quarai - RS.
Desse modo, verificou-se que a falta de manejo
adequado tornando a erosão acentuada e a expressiva
perda da fertilidade do solo, tende a continuar na
medida em que o Poder Público Municipal persiste em
oferece condições aos produtores, através da Patrulha
Rural, de efetuarem, com certa freqüência, a aragem
(revolvimento) do solo. Também, contribui para isto o
pequeno número de produtores que mantém cobertura
verde no solo, (22,2%) principalmente nos meses em
que a precipitação é acentuada (dezembro, janeiro e
fevereiro), ocasionando o aparecimento de voçorocas
nas lavouras. Assim sendo, faz-se necessário a
intensificação do uso de cobertura vegetal através de
culturas cíclicas e/ou pastagem forrageira que podem

ser utilizadas para o trato dos animais. (desta forma
tem-se o consorcio entre as atividades agrícolas e a
pecuária).
No que diz respeito ao baixo uso de técnicas
como a análise de solo e aplicação de calcário, elas
refletem o intenso grau de descapitalização dos
moradores do Areal. Entretanto, percebeu-se a
acentuada dependência aos fertilizantes de origem
química. Neste sentido, recomenda-se a intensificação
da adubação orgânica (atualmente subtilizada, em
pequenas áreas), pois a produção da pecuária local
propicia a matéria-prima eficiente e de baixo custo às
unidades produtoras. Está técnica, cada vez mais vem
ganhando espaço no cenário Estadual em função da
produção natural que representa impacto menor ao
ambiente.
Como fator positivo da produção no Areal,
destaca-se a alternância das culturas nas propriedades.
Por se tratar de culturas cíclicas, como melancia, melão,
milho e abóbora, elas podem ser produzidas
consorciadas e escalonadas em faixas aumentando a
proteção do solo.
No que diz respeito aos recursos da flora o
estudo realizado permitiu destacar que os produtores
efetuam plantio de árvores em suas propriedades,
embora em quantidades inexpressivas. Isto se deve ao
fato da sub-bacia possuir como principal característica a
vegetação de gramíneas, com exceção das áreas onde
ocorrem as mata - galeria.
Observou-se ainda que em determinadas
propriedades, o homem buscando solos mais férteis
vem avançando sobre a mata - auxiliar, causando
assoreamento em determinados trechos dos tributários
e do próprio arroio Areal. Desta forma, faz-se necessário
uma manutenção da mata - galeria como meio de
conservar dos recursos hídricos, pois a escassez desta
atinge, na atualidade, 43,47% das propriedades nos
períodos de maior estiagem.
Nas questões pertinentes aos recursos hídricos
utilizados para o consumo da família têm-se a
preocupação em manter a vegetação como forma de
proteger os mananciais em 76,2% das propriedades.
Contudo, no restante os animais têm acesso as
nascentes o que pode transformar a água em fonte de
contaminação. Assim sendo, faz-se necessário uma
proteção destes mananciais com cercas ou vegetação
de porte.
No trato das questões sanitárias é necessária
mudança de conduta em relação ao lixo gerado nas
residências, uma vez que o mesmo pode ser usado (em
quase sua totalidade) na adubação orgânica junto as
hortas, pomares e lavouras. Atualmente está prática
acontece em apenas 13,2% das propriedades. Com
esta prática, busca-se uma produção ecologicamente
correta, que se aproxime do desenvolvimento
sustentável.
Também, as águas servidas em sua maior parte,
e em propriedades sem fossa e sem instalação
hidráulica, é jogada em superfície nos fundos das
residências que podem se tornar focos geradores de
insetos nocivos a saúde humana.
A composição do sistema de produção da subbacia do Areal revelou a ocorrência de três
características básicas; - diversificação da produção; insignificância na quantidade da produção; - carência no
sistema de comercialização.

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- diversificação da produção: no Areal as culturas
que se salientam são o milho, melancia, mandioca,
arroz, melão e feijão. Estas culturas ocupam,
freqüentemente, uma área que varia de 0,1 a 5
hectares, em função das superfícies restritas das
propriedades, aliado a alternação de culturas com o
sistema do criatório bovino e ovino.Também, contribui
para a diversificação da produção as atividades
hortigranjeiras, embora explorada para a subsistência,
com exceção de 3,7% das propriedades que
comercializam diretamente com os consumidores na
cidade de Quaraí. Está comercialização, geralmente é
acompanhada por cítricos nos meses de maio, junho e
julho, sendo realizada de forma individual e representam
uma forma de rendimento extra destas unidades de
produção.
Neste sentido recomenda-se o plantio de culturas
permanentes como por exemplo a videira americana
que não apresenta restrições em condições de repouso
e de maturação. A sub-bacia do Areal, apresenta-se
como zona preferencial, por possuir ótimas condições
climáticas para este tipo de cultura. Também é
classificada como preferencial a cultura da bergamota e
limão em razão da soma térmica diária acima da
recomendada. Em se tratando de cítricos a cultura da
laranja é considerada tolerada, podendo ser explorada
neste local. Quanto ao plantio de pessegueiros, a área
em estudo apresenta condições preferenciais, visto que
possui excelentes condições térmicas durante o período
do ano, conforme as recomendações de culturas
permanentes,
somos
concordantes
com
o
Macrozoneamento Agroecológico e Econômico do
estado do Rio Grande do Sul, 1994.
- insignificância na quantidade da produção:
principalmente em função dos espaços confinados a
preocupação da subsistência em um primeiro momento.
Desta maneira a comercialização se dá pelo excedente
da produção no caso do milho e mandioca. Por outro
lado, a cultura da melancia, melão e arroz adquirem
caráter eminentemente comercial, sendo o arroz
produzido com o emprego de tecnologia e
comercializado na Sede municipal de Quarai.
- carência no sistema de comercialização: em se
tratando de culturas cíclicas, os produtores encontram
dificuldades na comercialização (exceto a produção do
arroz), pois a mesma efetua-se de forma individual,
onde todos se dirigem ao mesmo mercado (que em um
primeiro momento é possível ser identificado como
restritivo), em um curto período do ano (em média 40
dias) com produtos perecíveis (milho In natura, melancia
e melão). Deste modo, cabe aos órgãos de assistência
técnica, junto com o poder público municipal buscar
novas formas e locais para reverter este quadro de
carência da comercialização.
Nas questões relativas ao criatório do gado
bovino tem-se o cruzamento de raças sem linhagem
genética definida e a presença da cruza charolês/zebu
que apresenta certa rusticidade e adaptação as
condições físicas do local. No caso da produção da
pecuária a ausência de tecnologia está diretamente
condicionada ao mercado: corte e leite para o consumo
doméstico e/ou comercialização do excedente.
Constatou-se que no Areal as formas de produção
bovina, para uma parte de sua totalidade, acompanham
o restante da Campanha Gaúcha.
Por se tratar de área com ocorrência de
produção familiar a criação de animais de porte variável

49

de médio a pequeno, aves, ovina e suína, é destinada
ao consumo interno das propriedades. O sistema de
criatório é de forma rudimentar, ou seja, criados soltos,
neste caso, salienta-se a importância de se encontrar
novos meios para incrementar a produção destes
animais, principalmente a de buscar novas formas para
diversificar e obter rendimento extra, que pode ser
estendido por todos os meses do ano. Como exemplo
tem-se a probabilidade da expansão da venda de ovos
que atualmente alcança apenas 27,28% das
propriedades.
O estudo, também permitiu conhecer a estrutura
social da área, sendo que nela prevalece o baixo
contingente populacional, com
famílias pouco
numerosas. Acrescenta-se a idade dos moradores que
detêm a responsabilidade de dar continuidade a
produção agrícola. Aliado a esta problemática,
acrescenta-se o baixo grau de escolaridade das
pessoas (ensino básico incompleto).
Nesse contexto, qualquer plano de normatização
a ser implementado na sub-bacia do Areal deve
contemplar a permanência dos poucos jovens
remanescentes e/ou a volta ao meio rural dos filhos dos
agricultores que abandonaram o campo. Aliado a isto,
deve-se acrescentar a ampliação da rede escolar ou de
formas alternativas para que as crianças e jovens
tenham acesso ao estudo sem precisar sair do lugar e,
desta maneira, encontrar meios para incrementar o
desenvolvimento local.
Finalmente a pesquisa permitiu deduzir que 29%
das unidades de produção familiar da sub-bacia do
Areal foram incorporadas ao meio urbano do município
de Quarai e são exploradas como área de lazer em fim
de semana. Neste caso elas produzem exclusivamente
para a subsistência em função de possuírem caráter
secundário nas atividades econômicas de seus
proprietários.
Ao persistir o atual quadro de estagnação social,
econômico e ambiental das unidades de produção
familiar na sub-bacia do Areal, as áreas tendem a ser
incorporadas pelos médios e grandes proprietários
vizinhos do Areal, bem como por moradores do meio
urbano do Município.
5 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
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sociais. São Paulo: ed. Moderna, 1982. 332p.
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Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 51-55, 2001

51

ADEQUAÇÃO DO ENSINO DE GEOGRAFIA A REALIDADE RURAL: UM ESTUDO
JUNTO AS ESCOLAS-NÚCLEO DO MUNICÍPIO DE SANTA MARIA-RS1
ADEQUACY OF TEACHING GEOGRAPHY TO THE RURAL REALITY: A STUDY DONE BY THE NUCLEUS
SCHOOLS IN THE BOROUGH OF SANTA MARIA ­ R.S
2

3

Rosangela Lurdes Spironello e Meri Lourdes Bezzi
RESUMO
O momento atual é caracterizado por grandes
transformações no cenário global. Essa realidade
também é sentida no meio rural, quando o jovem busca
através da educação modificar essa realidade. A
Geografia como ciência possui a capacidade de
instrumentalizar o jovem para a modificação dos fatos
desde que o seu ensino seja voltado para o meio rural
através da adequação da aprendizagem, utilizando a
cognição do educando aliado aos conteúdos didáticos.
Contudo, é preciso que o educador se disponha a
trabalhar os conteúdos geográficos dentro de uma
perspectiva local e faça uso da percepção do educando
sobre seu mundo.
Palavras-Chaves: Percepção; Geografia; Meio rural;
Educando.
ABSTRACT
The present moment is characterized by great
transformations in the global scenery. This reality is
noticed in the countryside, when young people search
through education how to modify their space.
Geography, as a science, is able to instrumentalize
young people to modify facts since its study can be
turned to the countryside through the adequacy of
learnyng, using the cognition of the learners allied to the
didactic contents. It is necessary, through, that the
educationalist uses the geographic contents inside a
local perspective and the learners perception about their
world.
Key words: Perception; Geography; Countryside;
Learner.
1 INTRODUÇÃO
1.1 Problemática de Estudo Objetivos e Justificativa
do Trabalho
No cenário atual o mundo caracteriza-se por
constantes mudanças tecnológicas em todos os
campos, devido a dinâmica evolutiva alcançada pelo
homem e, cada vez mais sobre os espaços, tanto na
cidade como no campo. Nesta perspectiva, insere-se o
pequeno produtor rural que não consegue acompanhar
a evolução tecnológica que a globalização lhe confere.

1
2
3

Como resultado abandona o campo e busca na cidade
melhores condições de vida.
As famílias que permanecem no meio rural
sofrem a marginalização socioeconômica não lhes
permitindo condições dignas de vida.
Neste contexto, está inserido o jovem rural, que
busca através da educação, modificar esta realidade.
Por outro lado, percebe-se que a educação no meio
rural nem sempre está voltada para a realidade local, ao
contrário, prioriza o urbano, não permitindo o
crescimento intelectual e o desenvolvimento integral do
indivíduo na sua realidade.
Portanto, a realidade vivida pelo jovem do campo
não é trabalhada e muito menos questionado, no
ambiente escolar. Deve-se ressaltar que a percepção do
educando não pode ser destruída e sim deve ser
trabalhada.
Diante deste quadro a Geografia tem grande
contribuição a fornecer, por meio da adequação do
conhecimento geográfico ao ambiente de vida do aluno
que são perpassados através dos livros didáticos,
promovem o desenvolvimento local com conseqüente
transformação espacial.
Sendo o aluno um ser que participa da
construção de seu espaço e da história de suas
relações espaciais, deve-se priorizar sua experiência e o
conhecimento, pré-concebido no espaço vivido.
Desta forma, o presente trabalho enfoca esta
temática tendo como objetivos: (a) verificar como o
ensino de Geografia, ministrado no Curso de Geografia
da UFSM está adequado ao universo real de atuação do
profissional que atuará no meio rural; (b) analisar a
integração entre o curso de Geografia da UFSM e as
Escolas-Núcleo de Santa Maria, localizadas na zona
rural e (c) divulgar e discutir as ações pedagógicas
executadas como forma de provocar a reflexão sobre as
atividades de Ensino-Pesquisa e também do Universo
de trabalho, voltada para o ensino fundamental, médio e
superior.
1.2 Metodologia do Trabalho
Inicialmente, realizou-se uma ampla revisão
bibliográfica referente ao assunto em foco com o intuito
de instrumentalizar e, conseqüentemente, alicerçar o
desenvolvimento teórico-metodológico da pesquisa.
A segunda fase da pesquisa, esteve ligada a
realização do trabalho de campo, com o objetivo de
conhecer a realidade da comunidade escolar.
Posteriormente, realizaram-se entrevistas que foram

Trabalho de Graduação A ­ Curso de Geografia/Geociências/CCNE/UFSM.
Acadêmica do Curso de Geografia/Geociências/CCNE/UFSM.
Profa. Dra. do Departamento de Geociências, LEPeR/CCNE/UFSM.

ISSN 0103-1538

52

Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 51-55, 2001

aplicadas aos professores e a direção das escolas
selecionadas. Paralelamente, observou-se a aula de
Geografia das turmas de 8a séries, com o intuito de
apreender o conteúdo desenvolvido.
Há que se destacar que as entrevistas realizadas
nas escolas estavam embasadas em 23 variáveis
dividida em quatro (4) partes. A primeira parte, variáveis
de 1 a 7, referiam-se a infra-estrutura e aspectos físicos
das escolas, relacionava-se ao espaço interior e exterior
ocupado pela escola. A segunda parte, variáveis de 8 a
16, demonstrava a preocupação com os conteúdos de
geografia desenvolvida na 8a série do Ensino
Fundamental. Verificou-se também, a forma de trabalhar
as informações transmitidas aos alunos; os subsídios
para a complementação do conteúdo didático, bem
como, o método de avaliação utilizado pelo professor e
também as demais questões relacionadas ao ensino. Na
terceira parte, variáveis de 17 a 19, dirigia-se a cognição
do educando em sala de aula; a instituição formadora do
professor de Geografia e o seu tempo de atuação em
sala de aula e a percepção da comunidade em que vive.
A quarta parte, variáveis de 20 a 23 referiam-se as
disciplinas trabalhadas fora da grade curricular normal,
ou seja, observou-se as técnicas comerciais, técnicas
agrícolas entre outras existentes na escola e que atuam
também como agentes formadores do espaço vivido no
meio rural.
Ressalta-se que o universo estabelecido para
este trabalho foi as Escolas-Núcleo do município de
Santa Maria. Das sete escolas existentes no Município,
quatro, foram selecionadas. Tal escolha obedeceu a
dois critérios de seleção: tempo disponível para a
realização do trabalho e realidades distintas das
Escolas-Núcleo investigadas. As escolas escolhidas
foram : Escola Municipal Santa Flora, localizada no
distrito de Santa Flora; Escola Municipal Bernardino
Fernandes, localizada no distrito de Pains, Escola
Estadual Almiro Beltrame localizada no distrito de Boca
do Monte, e Escola Municipal Major Tancredo Penna de
Moraes localizada no distrito de Arroio do Sol.
O período destinado as saídas a campo e
observação "in loco" das aulas foram os meses de
outubro e novembro de 1998. Tal escolha justifica-se,
porque somente nesses meses é que foi possível o
contato com as escolas. No entanto, o trabalho de
campo realizado contou com a disponibilidade e
interesse da população alvo.
Para a análise concreta do uso ou não da
percepção em sala de aula, por parte do professor,
foram considerados alguns fatores, entre eles: infraestrutura; utilização de material de apoio e; plano
pedagógico da escola; por se entender que o
profissional da educação realiza um trabalho dinâmico
com resultados concretos, faz-se necessário haver uma
infra-estrutura de apoio a disposição, desde os aspectos
físicos da escola como as relações entre educando e
educador.
2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS
2.1 Aspectos Teóricos da Escola Humanística
A presente pesquisa fundamentou-se na Escola
Humanística da Geografia a qual enfatiza as vivências e
as experiências individuais, buscando a valorização do
indivíduo através do meio no qual este se insere. Essa
Escola
Geográfica,
considera
como
pontos

fundamentais, o elo de ligação entre o indivíduo e a sua
cultura. Portanto, é a cultura um dos "motores" para as
mudanças maiores que se verificam na paisagem.
Baseia-se,
portanto,
na
fenomenologia
existencial, a qual procura a libertação da experiência
vivida através da atuação do homem no espaço e tempo
modificando-o, é o que BEZZI (1996:268) nos evidencia
quando afirma que: "...para a fenomenologia o
conhecimento é derivado da prática humana...".
Portanto, a Geografia Humanística procura
explicar como o meio influencia a personalidade do
indivíduo, pela sua atuação no tempo, vivenciado
através de uma visão de mundo particular. Prioriza,
portanto, uma análise pontual, singular, próprio daquele
"espaço". No caso específico deste trabalho, o espaço
rural.
Resgata, portanto, o estudo das relações dos
indivíduos com a natureza e sua sociedade. E isso
resulta da ação do homem como agente atuante, que
modifica, o espaço geográfico de acordo com o seu
conhecimento, suas necessidades e suas técnicas.
Pode-se portanto, considerar-se que a fenomenologia
como uma tendência filosófica, norteia a Geografia
Humanística. Ela teve suas origens ligadas a Edmund
Husserl
(1858-1938).
Busca
contrapor-se
ao
positivismo, o qual tem uma visão objetiva do mundo. A
fenomenologia, busca então, promover o indivíduo
tornando-o sujeito no processo de construção de seu
conhecimento, destacando a essência do mesmo, sua
atuação no tempo vivido, voltada sempre a apreender e
compreender o mundo e a maneira de como ele o vê, e
de forma mais complexa, como o sente.
Neste contexto, pode-se dizer, que a
fenomenologia faz um estudo partindo da realidade do
sujeito com o objetivo de fazer uma descrição da
mesma mostrando como é a experiência de vida de
cada ser, (seus sentimentos, pensamentos e emoção).
Valoriza portanto, a descrição sem preconceitos no que
diz respeito, a natureza da consciência da pessoa
humana. Ressalta-se a importância dos ideais, dos
valores, dos propósitos e as metas que cada indivíduo
tem em relação a vida e o entorno no qual vive.
Através desta abordagem fenomenológica
entende-se que cada indivíduo constrói seus conceitos
dentro do seu próprio mundo vivido. Estrutura sua
própria identidade, ou seja, a sua realidade, a qual é
resultado de suas experiências e vivências no espaço e
no tempo. Isso é enfatizado claramente por TUAN
(1980:09), quando diz que: Experiência é um termo que
abrange as diferentes maneiras através das quais uma
pessoa conhece e constrói a realidade.
E esta experiência é constituída dentro de um
espaço idealizado, sonhado pelo homem.
Pode-se dizer então, que o homem, é o
"produtor" de sua cultura e passa a atribuir valores às
coisas que o rodeia. Assim, a percepção envolve o
mesmo, entendendo-o como agente social e a
apreensão dos valores e metas passam a ser
qualitativos e essenciais para a sua vivência, ou seja,
valoriza-se os componentes materiais, sociais,
intelectuais e simbólicos.
Neste contexto, o indivíduo que reside no meio
rural, estabelece uma relação afetiva, direta e estreita
com essa paisagem, pelo fato de que, ali ele adquire
experiência, constrói o seu "ambiente", cria e transforma
o espaço geográfico conforme a sua necessidade
através da sua percepção.

ISSN 0103-1538

Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 51-55, 2001

Neste sentido, CHAUI (1996:123), diz que a
percepção:
... envolve nossa vida, isto é, os significados e os valores
das coisas percebidas decorrem de nossa sociedade e
do modo como nela as coisas e as pessoas recebem
sentido, valor e função. A percepção nos dá acesso ao
mundo as coisas materiais, práticas, nos orientam para
as ações do dia a dia, ela é a forma do conhecimento
institucionalizado.
Também preocupado com os estudos da
percepção PENNA (1968:11) fornece sua contribuição
quando fala que: Percepção é conhecer através dos
sentidos, objetos e situações. É um estender-se para o
mundo.
Buscou-se então nesse trabalho basear-se nas
experiências vivenciadas. Procurou-se trabalhar a
interferência do meio físico e social na formação da
personalidade da criança, e como as mesmas, poderiam
ser utilizadas para uma melhor retroalimentação no
ensino da Geografia, voltando a aprendizagem para o
seu meio ambiente, procurando, desta forma, fixar o
homem ao campo enfatizando seus valores culturais.
De acordo, com Resende apud VESENTINI
(1989:84), há que se enfatizar que:
Se nós professores, passássemos a considerar
devidamente o saber do aluno (seu espaço real),
integrando-o ao saber espacial que a escola deve
transmitir-lhe..., tal atitude poderia trazer profundas e
benéficas conseqüências a nossa prática de ensino.
Há que se ressaltar também que, o professor
deve ser, acima de tudo, um estimulador da criatividade
da criança ele deve ter domínio de conteúdo, passando
segurança e determinação para as mesmas e não um
simples repassador de informações, que se perderão
com o tempo.
Por esse motivo, é importante que os
professores tenham conhecimento da ciência e
desenvolvam conteúdos que se aproximem da realidade
vivenciada pelo educando, realizando um trabalho
conjunto através de troca de experiências, aluno x
professor, desenvolvendo atitudes reflexivas de ambas
as partes. Fortalecendo a prática educativa, procura-se
melhorar o ensino e tenta-se amenizar possíveis
desajustes que podem vir a ocorrer tanto no conteúdo,
quanto no método a ser utilizado para a transmissão do
conhecimento em sala de aula.
Portanto, a educação deve ser transmitida de
modo que o educando tenha o prazer da descoberta.
Deve-se orientar o aluno a analisar a organização
espacial através de um raciocínio crítico, despertando a
observação, a análise e a extrapolação do
conhecimento adquirido, evitando-se, sempre que
possível, a memorização. Propõe-se incentivar a
percepção conjuntamente ao conteúdo desenvolvido.
Para SANTOS (1996:62): "A percepção é sempre
um processo seletivo de apreensão". Pode-se dizer
então, que o indivíduo classifica as informações de
acordo com o seu interesse.
Da mesma forma, OKAMOTO (1996:22), salienta
que:
Pela
mente
seletiva,
diante
do
bombardeio de estímulos, são selecionados os aspectos

53

de interesse ou que tenham chamado atenção, e só aí
que ocorre a percepção (imagem) e a consciência
(pensamento, sentimento), resultando em uma resposta
que conduz a um comportamento.
O desenvolvimento de uma consciência crítica
(pensante e atuante), aliando-a a cognição do educando
ao conteúdo tradicional a ser desenvolvido em sala de
aula, exige um profissional aberto a novas perspectivas.
Estabelece-se, assim, uma retroalimentação na qual o
profissional não deve se mostrar preconceituoso a
idéias alheias. Este deve ser flexível quanto ao método
de trabalho a ser adotado, uma vez que esse método
deve beneficiar tanto o educando como o educador,
promovendo o gosto pela pesquisa, seja em sala de
aula ou fora dela.
Como ressalta VESENTINI (1989:179), é
necessário ter em mente que:
... não ensinar, mas ajudar a aprender, orientar
no crescimento intelectual-cognitivo-político, formar
pessoas criativas, críticas e capaz de fazer coisas
novas.
Nesse sentido, um professor somente realizará
um bom trabalho, se possuir uma mentalidade capaz de
reconhecer seus possíveis erros e aceitar diferentes
alternativas,
rever
suas
fundamentações
constantemente e procurar a superação de suas
limitações.
Desta forma, o professor de Geografia, deve ficar
atento as constantes inovações tecnológicas e estar
preparado para aliar a percepção do aluno com as
novas técnicas. É necessário, portanto, trazer a
realidade para a sala de aula. Transformar o ato de
ensinar em algo harmonioso, uma descoberta, ou uma
redescoberta, incitando a criatividade do aluno, para que
o mesmo busque soluções aos problemas do cotidiano
que fazem parte do contexto geográfico no qual o
mesmo se insere.
Da mesma forma PAVIANI (1988:33), nos coloca
que:
A vantagem de se trazer o cotidiano para a
Geografia é a motivação dos jovens estudantes; eles
serão chamados a raciocínios e juízos, fruto de análises
elementares dos problemas sociais, econômicos,
urbanos, ambientais contemporâneos.
Assim, de nada adianta um profissional
altamente capacitado que una a percepção do
educando a técnicas inovadoras, se todo o
conhecimento trabalhado e adquirido pelo aluno não
puder ser utilizado para a solução de problemas no meio
em que o mesmo vive. Conforme PAVIANI (1988:35):
O professor que adotar uma atitude mais
dinâmica e inovadora deverá se munir de humildade,
paciência e firmeza frente a uma audiência mais
motivada e crítica. É seu papel.
Nesse sentido é mister que o professor deva
fazer uso do diálogo, deva ajudar o aluno, fazendo com
que ele encontre respostas para seus questionamentos
dentro de si mesmo, deve manter um elo de afetividade,
um contato mais estreito entre ambos, favorecendo a
busca de sua auto-realização conquistando de forma

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54

Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 51-55, 2001

autêntica seu espaço, promovendo também seu
autocrescimento valorizando suas experiências na vida
cotidiana, onde o aluno participa diretamente da
construção de seu meio.
Todavia, o profissional da área da educação
deve estar comprometido com a construção do saber
que será a gênese do futuro cidadão, dentro de sua
percepção de espaço, promovendo o desenvolvimento
do mesmo.
Neste sentido, NIEDELCOFF (1991:38), nos
mostra outro perfil do educador dizendo que:
- um mestre apático: que trabalha com notícias
da atualidade mas que não se sente interessado e
comprometido com a realidade do país ou do mundo,
que não tem idéias claras nem uma atitude crítica diante
dos fatos, não pode incentivar nas crianças atitudes que
eles mesmos não tem;
Entretanto, para se realizar um trabalho
significativo que apresente resultados satisfatórios devese levar em conta, sobretudo, o ambiente no qual o
educando está inserido, a educação, a cultura, atitudes
familiares, sua experiência individual, preferências do
grupo, e a herança biológica, como um conjunto de
fatores que exercem forte influência, moldando sua
personalidade, sendo entendido desta forma, como um
"trabalho vivo" que está sempre em construção,
transformação.
Contudo, o ensino da Geografia deve resgatar as
experiências do educando e utilizá-las como subsídios
para o mesmo ver no campo uma saída para sua
sobrevivência, construindo seu futuro dentro de seu
ambiente conhecido, sem precisar recorrer a cidade
para solucionar seus problemas econômicos, deixandose perder sua potencialidade criadora, nas periferias das
cidades.
A Geografia como uma ciência eminentemente
social, possui instrumentos para guiar o educando
nessa difícil tarefa que é a escolha de permanecer ou
não no meio rural. No entanto, é necessário saber se o
modo como a Geografia vem sendo colocada, é clara
nesse sentido, ou se está mostrando somente uma
saída? Conforme nos diz novamente NIEDELCOFF
(1991:50): O objetivo da Geografia na escola é ajudar as
crianças a CONHECER O HOMEM através da
compreensão da inter-relação deste com o meio.
Ou seja, entender como o homem se organiza na
sociedade em que vive, e como este transforma o
espaço geográfico de acordo com sua ação e da mesma
forma, como ele se identifica com o mesmo.
Portanto, é necessária a conscientização tanto
do educador como do educando de que a Geografia se
faz na prática, na construção de seu próprio destino.
Alteram-se padrões tradicionais procurando modificar
também o meio, uma vez que, as relações espaciais são
dinâmicas. SANTOS (1996:61) esclarece que:
...tanto a paisagem quanto o espaço resultam de
movimentos superficiais e de fundo da sociedade, uma
realidade de funcionamento unitário, um mosaico de
relações, de formas, funções e sentidos.
Logo, a Geografia pode vir a ser enriquecida
através da percepção que o indivíduo tem ou que ele faz
de seu mundo se colocada e trabalhada de forma clara
e consciente, voltada sempre para o crescimento do

indivíduo como ser, e da comunidade, como resposta ao
trabalho a ser desenvolvido.
Pode-se dizer também que, a escola tem a
função de formar um cidadão ciente de seus direitos
onde o mesmo deverá buscar a ampliação de seus
espaços, seja de participação cultural, econômica e
política enquanto produtor do espaço geográfico em que
se vê inserido. E por estar inserida neste contexto, a
escola é o lugar onde se dispõe de condições
apropriadas para tal procedimento, até porque é uma
instituição organizada dentro de determinados padrões
e de uma filosofia de trabalho.
Neste contexto, é que as Escolas-Núcleo do
Município de Santa Maria foram pensadas e planejadas
dentro de sua filosofia de trabalho, com o intuito de
melhor qualificar e preparar a sua clientela, buscando
não só a formação individual mas também a coletiva.
Este projeto foi elaborado e apresentado para as
comunidades com o objetivo de atender as
especificidades desta população que até o momento
estava em segundo plano.
Para que o projeto de "Nuclearização de
Escolas-Núcleo da Zona Rural" entrasse em vigor o
mesmo foi aprovado como experiência pedagógica.
O objetivo principal da Nuclearização de Escolas
é de fornecer às comunidades do interior do município
um ensino de pré-escola e ensino fundamental,
condizente com a realidade local oportunizando uma
educação em que o aluno cresça através "do trabalho
para o trabalho", contribuindo assim, para a sua
autopromoção e realização como agente ativo
construtor do espaço geográfico e transformador da
sociedade, valorizando suas experiências e vivências do
cotidiano.
A Escola-Núcleo, na busca incessante de formar
o indivíduo conhecedor de sua realidade, de suas
aspirações faz com que o aluno se torne sujeito do
processo, construtor de sua própria história, e
transformador do meio em que vive, vencendo
obstáculos e preconceitos, buscando uma maior
integração e envolvimento com a comunidade.
3 ESCOLAS-NÚCLEO DE SANTA MARIA-RS
O município de Santa Maria até o ano de 1989
possuía uma das maiores redes de escolas do Estado,
constando no total de 170 escolas, das quais 126 se
localizavam na zona rural do Município. As escolas, na
sua maioria, eram atendidas por um só professor, que
trabalhava quatro turmas em uma só sala (1ª a 4ª série)
enfrentando inúmeros problemas, entre eles: a grande
repetência dos alunos, evasão escolar, principalmente,
em época de colheita; a falta de espaço físico;
dificuldades de acesso tanto do aluno quanto do
professor às escolas e a unidocência.
Diante desse quadro, a Prefeitura do Município
de Santa Maria, passou a elaborar um diagnóstico
referente a realidade rural, com o intuito de melhorar a
qualidade de ensino neste meio. Em algumas escolas
houve a melhoria de sua infra-estrutura e a ampliação
dos prédios. Da mesma forma, o sistema de transporte
escolar foi reorganizado para atender essa população.
Efetuou-se, também, a compra de equipamentos para o
desenvolvimento tanto das atividades administrativas
quanto das pedagógicas. O projeto elaborado ficou
conhecido como "Nuclearização de Escolas da Zona
Rural" de Santa Maria.

ISSN 0103-1538

Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 51-55, 2001

Este projeto veio a constituir-se em um processo
gradativo de agrupamento de pequenas escolas
unidocentes em uma Escola-Núcleo, apresentando
assim, características específicas de trabalho e
organização com um plano pedagógico vinculado as
necessidades da população que reside no espaço rural
do Município.
Hoje, o município de Santa Maria conta com
sete Escolas-Núcleo, das quais quatro possuem Ensino
Fundamental completo e três com Ensino Fundamental
incompleto. Sendo que, das sete Escolas-Núcleo três
delas trabalham com horário integral, e as demais,
trabalham
com
horário
convencional.
Essa
diferenciação no funcionamento das escolas pode ser
entendida como modalidade de funcionamento
específica de cada escola.
Diante deste quadro, as Escolas-Núcleo vieram
a modificar o ensino no meio rural, possibilitando aos
jovens um ensino de melhor qualidade oportunizando a
conclusão do Ensino Fundamental e abrindo espaço
para construção de um futuro mais sólido e aberto a
novas perspectivas. Possibilitou, ao estudante, partir
para o mercado de trabalho, com condições reais de
competir ou permanecer em seu ambiente de origem
promovendo o desenvolvimento do mesmo.
Neste contexto, procurou-se analisar se a idéia
da implantação das Escolas-Núcleo foi válida, tendo
como linha mestra deste estudo a Geografia, através da
Escola Humanística. Salientou-se, também, o modo
como a mesma foi adaptada a essa nova realidade e
qual a resposta obtida do educando diante destas
modificações, fazendo uso da percepção para melhor
entender a dinâmica social.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho teve como base o estudo da
percepção, no contexto geográfico. Procurou-se
focalizar a metodologia adotada pelo professor em sala
de aula ao trabalhar os conteúdos geográficos no meio
rural.
Por isso, é relevante ressaltar a importância da
escola ao educando e os meios necessários para
efetuar suas atividades. Destaca-se que as EscolasNúcleo analisadas apresentam uma infra-estrutura
satisfatória o que possibilita a variação das opções
oferecidas. São elementos ligados as atividades de
aulas práticas, bem como um elemento integrador entre
a percepção e o seu meio ambiente.
Aliada a infra-estrutura está o plano pedagógico
da escola. Pôde-se verificar, pela ocorrência da
adequação do ensino, que cada escola considerando a
realidade na qual está condicionada, harmonizou o
conteúdo da grade curricular normal a prática de
disciplinas técnicas em forma de projetos desenvolvidos
em disciplinas específicas.
Também se pôde constatar que nas aulas
observadas ocorreram momentos de adequação do
ensino da Geografia a realidade local, por meio de
exemplos do cotidiano citado pelo professor para
elucidar conteúdos, bem como para realização de
trabalhos escritos ou temas ligados ao homem rural.
Ao utilizar a percepção junto com o conteúdo
didático desenvolvido em sala de aula, o professor
estimula a criatividade e promove a busca do
conhecimento por parte do educando aliando suas
experiências
vivenciadas
ao conteúdo normal

55

trabalhado, propiciando a criação de um indivíduo apto a
atender e modificar seu espaço e promover mudanças
sociais.
Sugere-se então que: (a) ocorra um intercâmbio
maior entre a UFSM e as Escola-Núcleo, via estágio
acadêmicos de Geografia a partir dos primeiros
semestres,
contribuindo através de observações em sala de
aula, bem como esclarecer conteúdos diversos
trabalhados pelos professores de Geografia; (b) quanto
a Secretaria da Educação, mesma deveria manter os
professores de Geografia atualizados através de cursos,
palestras, eventos e distribuição de materiais como
revistas e jornais, periodicamente, por serem de suma
importância para o ensino atuante e crítico, promotores
do desenvolvimento social e (c) para evitar a evasão
dos alunos que terminam o Ensino Fundamental nas
Escola-Núcleo, poderia dar-se continuidade dos
estudos, através da implantação do Ensino Médio
voltado para a área agrícola.
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Geografia: Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 11, n. 1, 2001

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NORMAS PARA A ELABORAÇÃO DOS
ARTIGOS

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10. Os casos omissos, serão resolvidos pela Comissão
Editorial

1. Os artigos devem ser enviados à Comissão Editorial
(endereço na contra capa) e serão submetidos à
publicação desde que estejam de acordo com as
normas de elaboração da Revista que prevê o texto
contendo: objetivos, metodologia, desenvolvimento
(resultados e discussão), conclusão e referência
bibliográfica, bem como devidamente corrigido em sua
ortografia e estrutura, de conformidade com a língua
portuguesa.
2. O(s) artigo(s) deve(m) ser(em) digitado(s) em Word
últimas versões. O(s) trabalho(s) deverá(ão) ser(em)
apresentado(s) em disquete juntamente com uma cópia
impressa.
3. Os trabalhos devem estar digitados de acordo com a
seguinte configuração: tamanho do papel: A4 (210 x 297
mm); fonte da letra modo arial; margens superior, inferior
e interna com 2,5 cm; margem externa com 2 cm; Título
em português, título em inglês e nome dos autores
devem estar em negrito, em uma coluna, centralizados e
em tamanho da letra 12, 9 e 9 respectivamente, com
espaçamento de 1,5 linha; informações adicionais a
títulos e autores devem estar em nota de rodapé tamanho
6; o texto deverá estar configurado em duas colunas com
8 centímetros de largura e 0,5 cm de espaçamento entre
as colunas.
4. O(s) trabalho(s) a ser(em) publicado(s) deverá(ão) vir
acompanhado(s) de um resumo em português e em
inglês ou francês, com no máximo 500 palavras
precedendo a introdução do artigo (duas colunas).
5. As ilustrações (mapas, tabelas, gráficos e fotografias),
devem ser em preto e branco e obedecer às seguintes
normas: mapas inseridos no texto em coluna normal,
contendo escala gráfica; as Tabelas e gráficos
igualmente inseridos no texto, contendo o título, fonte e
organização. As fotografias deverão conter sua
respectiva identificação. A fonte e organização das
Tabelas e Figuras deverão ter fonte no tamanho 6.
6. O texto do artigo deve ser digitalizado em espaço
simples. As citações, bibliografia e o resumo em
Português e Inglês ou Francês, serão digitados em
espaço simples, seguidos das palavras-chaves em
português e em inglês (Key Words) ou francês (Monts
Clefs) usando, no máximo cinco palavras.
7. A bibliografia deve obedecer a normas definidas pela
ABNT.
8. O(s) artigo(s) não deverá(ão) ultrapassar vinte páginas
incluindo texto, resumos, mapas, tabelas, gráficos,
bibliografia, notas de identificação dos autores e
auxiliares. Somente em caso especial, dada a
importância e oportunidade do assunto ventilado, serão
aceitos trabalhos com número superior de páginas.
9. Os conceitos emitidos nos artigos são de inteira
responsabilidade do(s) autor(es).

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