O ENSINO DA GEOGRAFIA REGIONAL: INTEGRAÇÃO VERSUS
FRAGMENTAÇÃO
Giam Carmine Cupello Miceli/UFF
[email protected]
Julliana Silva Paiva/UFF
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INTRODUÇÃO
O desenvolvimento deste trabalho teve por objetivo facilitar a compreensão, por
parte dos alunos, dos conceitos e habilidades referentes aos estudos da Geografia
Regional. A Geografia ao longo de seu desenvolvimento enquanto disciplina escolar
adquiriu status de uma ciência descritiva. Mesmo que a descrição seja importante, e
nem teria razões para não ser, ela não colabora com a construção de uma visão de
mundo por parte dos alunos, que constitui um dos objetivos da geografia na escola.
Durante as disciplinas de Pratica de ensino em Geografia, no período de
formação docente, na Universidade Federal Fluminense, tivemos contato com diversas
realidades de alunos, em algumas escolas do município de Niterói e do Rio de Janeiro.
Dessas observações e do diálogo desta realidade com as discussões teóricas, propomos
este trabalho, fruto de vivências e reflexões sobre o ensinar e aprender geografia no
mundo contemporâneo.
As vivências e reflexões resultam, justamente, do poder do caráter descritivo da
Geografia nos dias atuais. O caráter descritivo, entretanto, muitas vezes, impede a
construção de uma "leitura de mundo" por parte dos alunos. O ensino da Geografia com
base na descrição, somente, faz com que o ensino se torne algo meramente
enciclopédico, negando a possibilidade de um processo construtivo, de um processo de
formação.
O mundo, atualmente, e mais do que nunca, está em processo de conexão. Cada
vez mais podemos nos comunicar com as diferentes partes. Vemos isso através de um

alcance inigualável das comunicações em tempo real, através dos transportes e da forma
fácil e rápida de conhecermos culturas diversas mundo afora. Uma interconexão global,
porém seletiva, que se expressa por meio do espaço geográfico através de uma rede de
fixos e fluxos diversos. Falamos em uma interconexão "seletiva" já que o termo
"globalização" exclui muitos países e povos, como se estes não fizessem parte do
mundo. Muitas diferenças são negadas pelo processo. Nem todos podem usufruir da
velocidade proposta pelo processo de globalização (SANTOS, 2008)
A questão é: ensinar a Geografia Regional e a Geografia do Brasil sem propor
uma integração destes conteúdos com outros conteúdos que envolvam a análise de
outros contextos sócio-espaciais compromete a compreensão e construção, por parte dos
alunos, de conceitos e habilidades geográficas. Seria coerente ensinar sobre um lugar do
globo sem mostrar suas semelhanças, suas diferenças e suas relações com os outros
lugares?
Estes são alguns questionamentos que fazemos a partir do que observamos em
sala de aula nos nossos estágios curriculares e, também, da reflexão sobre nossa prática,
a partir da pesquisa que desenvolvemos a respeito da importância dos Projetos Políticos
Pedagógicos e a geografia.
O Projeto Político Pedagógico, enquanto documento que mostra a função das
escolas, não pode, ou não poderia, deixar de incluir, em um de seus objetivos, esse
entendimento do espaço em que vivemos. Afinal, para que o aluno compreenda o
espaço, ele deve, em primeiro lugar, compreender e se enxergar na sua realidade. Daí a
importância de trabalhar o "espaço vivido", conceito tão enfatizado por Vygostsky. É a
partir deste ponto que o estudante começa a se ver no espaço. O trabalho com a
realidade dos alunos é indispensável Mesmo que, aqui, falemos do ensino da Geografia
Regional, não podemos deixar de ressaltar o importante processo de o estudante se
enxergar, pois, somente se enxergando ele vai entender a atuação do espaço sobre ele, e
dele sobre o espaço. Mesmo que falemos da Geografia Regional em si, que vem
sofrendo alterações significativas devido aos avanços no meio técnico (SANTOS,
2008), não podemos deixar de fazer uma referência ao espaço. E é esse meio técnico
que permite uma integração cada vez mais sólida entre os diferentes espaços. É ele que
possibilita um deslocamento internacional em questão de algumas horas. É ele que faz
com que possamos nos comunicar com diversas partes do globo via Internet. É esse
meio técnico que possibilita a circulação "invisível" dos capitais em volumosas

quantias. Vive-se a era da informação. Os alunos não deveriam saber isso? E o mais
importante: eles devem saber como essas técnicas são aplicadas.
As técnicas são tão citadas neste trabalho, pois já que temos, como objeto de
estudo o "espaço geográfico", não teria porque não tratarmos das técnicas.

Objetivos:
O objetivo principal deste trabalho é possibilitar maior discussão sobre o
ensino da Geografia Regional. Até que ponto a simples descrição é importante?
Obviamente, a descrição é importante. O ponto principal não é a supressão da
descrição de paisagens, culturas, povos, lugares; muito pelo contrário, o aspecto
descritivo é fundamental. O que pretendemos esclarecer com o trabalho é o reforço
da aliança entre a descrição e as relações entre os diversos espaços. Acreditamos
que, em tempos de globalização, a negação da conexão (rápida) entre os diversos
pontos do planeta, independente das distâncias, seria uma ameaça ao processo de
ensino/aprendizagem. Vide os famosos discursos falando em "glocalização", "fim
dos Estados", dentre tantos outros. Outro objetivo importante seria: o que incluir,
em nível de recursos didáticos, no processo de ensino/aprendizagem? O processo de
ensino/aprendizagem deveria sofrer alterações a cada grande salto da técnica. Não se
pode desprezar os efeitos da técnica sobre o espaço. E, também, seria ignorância
desprezar os efeitos do espaço sobre a técnica. Tais elementos nunca estiveram tão
próximos. Se o espaço geográfico sofre alterações, obviamente, a Geografia sofre,
também.
Devemos, mais uma vez, esclarecer: a nossa meta não consiste no
estabelecimento de fórmulas relativas ao ensino da Geografia Regional. Só não
parece muito coerente termos um mundo em avançado estágio técnico e termos uma
forma de ensinar, ainda, baseada na descrição. Pior que parecer incoerente, é ser
algo desnecessário. Para que ensinar a Geografia, ou seja, ensinar a "ler o mundo",
mundo este que se encontra cada vez mais conectado, mundo este em que "todas" as
partes se encontram, de alguma maneira, e com alguns interesses?
E, voltando aos Projetos Políticos Pedagógicos, eles deveriam, cada vez mais,
mostrar essa proposta de uma re-leitura do mundo e do espaço.

De um modo geral, trata-se de um assunto muito complexo, pois de nada adianta
discutir métodos de ensino sobre um só assunto. Veio a escolha pela Geografia
Regional, pois ela é uma chave para que se pense a respeito de outros ramos da
Geografia que acabam sendo ensinados na escola. Foi escolhido um tema que pode
se abrir em vários outros. O que é falado neste texto, com as adaptações devidas,
pode ser aplicado à Geografia Física, a uma região qualquer, à Geografia Urbana,
Agrária, etc. Logo, este é um trabalho voltado ao ensino da Geografia, sem qualquer
forma de restrição. A Geografia Regional foi escolhida por termos, em parte, a
proposta "lablacheana", que vê na região o resultado entre os homens e o meio em
que estes estão inseridos. Portanto, ela se faz emblemática e eficiente para a
discussão acerca do ensino de Geografia.
Metodologias, Recursos Didáticos e Política(s):
A metodologia do presente trabalho consiste em pesquisas sobre a Geografia
Regional e sobre a integração entre os diferentes países. A interface entre as pesquisas
de Geografia Regional e as idéias que foram surgindo ao longo das observações das
práticas de ensino se fez fundamental. É a partir dessa relação que pensamos em como
fazer com que a Geografia Regional seja aprendida pelos estudantes. As observações
nas práticas de ensino foram fundamentais. A partir delas se nota algumas falhas no
ensino da Geografia. Obviamente, a culpa não é do professor. E, mesmo que seja, ele
não é o único culpado. Temos uma série de fatores que fazem com que o ensino se
mostre defasado. Apontar culpados não resolve o problema. Temos um sistema de
ensino, ainda, baseado no cartesianismo, nas fragmentações. E, com a Geografia, não é
diferente. Com isso, no lugar de ensinar, por exemplo, a América Latina, se ensina,
separadamente e, dependendo do caso, sem ligação alguma, "A Vegetação da América
Latina", "O Relevo da América Latina", "A População da América Latina", enfim, não
se ensina "A América Latina", mas sim, uma série de peças, de modo isolado, sem
sequer mostrar que tais peças se ligam. O mesmo ocorre em tantos outros assuntos de
nossa disciplina
Logo, a reflexão acerca dos recursos didáticos foi e é um aspecto de importância
crucial. Nas aulas que acompanhamos, percebemos como o mapa é pouco usado. E o
uso do mapa na Geografia é fundamental. Como ensinar Geografia sem mapa? O mapa
é imprescindível. Ele concentra tantos fenômenos, tantos fatos importantes. Ele é um

meio fundamental de expressão no processo de ensino/aprendizagem. A contribuição
que este trabalho pretende deixar diz respeito à união entre a descrição e as relações que
resultam da interação entre os homens e o espaço geográfico, fazendo uso de recursos
múltiplos, como filmes, mapas, desenhos, etc. Acreditamos que a Geografia dispõe de
uma gama de recursos que não podem ser dispensados pelo professor. Acreditamos,
também, que a Geografia se renova sempre, a cada salto da técnica. E é por isso que se
pretende sair de uma simples descrição, que vê o mundo como vários pontos totalmente
isolados. Isso deixou de ocorrer. O que temos agora é a integração entre os espaços.
Integração esta que precisa ser interpretada e avaliada. Esta integração tem objetivos,
ela não ocorre acidentalmente. E, os alunos, ao aprenderem a "leitura do mundo",
devem aprender, portanto, a "leitura do espaço". E o que é o espaço hoje, senão essa
integração, cada vez mais forte e com uma velocidade incrível?
A meta é, simplesmente, suscitar uma discussão acerca do tema. Um tema como
"O Ensino da Geografia Regional" pode nos parecer pouco complexo à primeira vista.
No entanto, ao prestar atenção às evoluções que vem ocorrendo há um bom tempo,
pode-se perceber sua complexidade. A complicação advém justamente da forte ligação
entre a Geografia Regional e os avanços técnicos.
Em termos metodológicos, o que o professor deve fazer para que os alunos
consigam entender essa "nova espacialização" ou essa "nova configuração" que o
espaço vem ganhando em tempos de globalização? Em termos de gerar o debate, temos
as seguintes idéias, em ordem:
·

O aluno deve apreender o espaço. Em primeiro lugar, ele deve ser conhecedor
do espaço em que vive. No entanto, como falamos da Geografia, ou seja, de uma
ciência, ele deve se familiarizar com conceitos que sistematizam este espaço. Aí,
já entrando no velho debate, o professor deve ser o conhecedor destes conceitos.
Mais claramente, falta um domínio do professor sobre alguns dos conceitos
fundamentais à compreensão do espaço: paisagem, lugar, região, território e o
próprio espaço.

·

Depois, parte-se para o plano geral, ou global. Ou seja, os alunos, ao
compreenderem os conceitos básicos, conseguem aplicar tais idéias em escalas
diversas. Eles começam a entender a globalização, o discurso (perverso e
excludente) do fim dos territórios e dos Estados e a divisão (social, territorial e
internacional) do trabalho.

Em termos práticos, há várias alternativas para que o professor atue nesse
sentido. A Geografia, enquanto ciência que dispõe de vários recursos para que seja
ensinada, deve aproveitá-los. Em primeiro lugar, temos o mapa. Uma observação a ser
feita diz respeito às observações feitas na prática de ensino. Não houve aulas em que o
mapa foi utilizado. Isso reforça a idéia do cartesianismo na Geografia e nas outras
disciplinas. O que presenciamos nas aulas assistidas ainda foi o antigo método de
descrição e uma assumida fragmentação no ato de ensinar. Nesse caso, de fato, o mapa
deixa de ser necessário. No entanto, não está se ensinando Geografia, não está se
ensinando a leitura do mundo, a leitura do espaço geográfico, enquanto um sistema de
objetos e ações (SANTOS, 2008). O que se ensina, de acordo com o observado, são
fenômenos totalmente fragmentados, sem que haja, posteriormente, qualquer tentativa
de fusão destes elementos. Então a Geografia assistida consiste em "vegetação",
"clima", "solo", dentre outros aspectos. Realmente, todos eles, mais uma gama de
outros fatores, são constituintes do espaço. Mas, independente do recorte espacial que
venha a se fazer, os elementos estão conectados. Daí, a idéia de Milton Santos, que diz
que o espaço geográfico é um sistema de ações e objetos. O termo sistema já sugere a
noção de encadeamento entre suas diferentes partes. E falta um pouco de coesão nesse
processo de se ensinar o encadeamento.
Na Geografia Regional não é diferente. Estudando o Brasil ou qualquer outro
país do mundo, temos o mesmo problema. Temos todas as evidências possíveis de toda
a conexão "seletiva" que envolve muitos dos países do globo:

·

Comunicação

·

Transportes

·

Corporações multinacionais atuando em muitas partes do mundo

·

Atuação de agentes econômicos "multilaterais".

Ou seja, é inegável o processo de conexão, cada vez mais intensa, entre as
diferentes partes. E essa conexão não poderia deixar de ser mostrada aos estudantes. O
enfoque deste texto é na Geografia Regional. Mas isso deveria ocorrer em todos os
campos da Geografia. Não observamos isso nas aulas. Nem nas aulas de Geografia
Física, nem na Geografia do Brasil e nem na Geografia do Mundo. Nas Palavras de
Massey (2008):

"Trata-se, também, de uma imaginação da geografia do mundo (uma
cosmologia política, como diz Fabian) que contrasta radicalmente com aquela da
modernidade. No lugar de uma imaginação de um mundo de lugares delimitados,
somos agora apresentados a um mundo de fluxos. Em vez de identidades isoladas, um
entendimento do espacial como relacional, através de conexões. A própria palavra
globalização implica o reconhecimento da espacialidade." (p. 126)
Não faltam opções para que a Geografia Regional seja ensinada. Isso depende
das idéias que o professor possa vir a ter:
·

O uso do mapa é a principal idéia. É a mais simples. Além do trabalho com a
Geografia Regional, o professor pode introduzir (ou relembrar) algumas noções
relativas à Cartografia. Por exemplo, o professor pode trabalhar a questão da
integração entre dois países, sob os aspectos econômicos. Pode falar da
produção dos respectivos, das trocas existentes e, além disso, pode mostrar a
distância real entre os países, fazendo o cálculo da escala. Pode falar do mapa
enquanto representação da realidade. Pode-se fazer referência ao mapa enquanto
uma representação que não é isenta de ideologias. Tudo depende de quem
elabora a representação. Nem sempre a neutralidade é possível.

·

O professor pode partir para campo com os alunos. Pode ser feita uma visita à
sede de uma multinacional, para que os alunos entendam um pouco mais do
funcionamento da "cadeia produtiva". Com isso, os alunos passarão a ter maior
noção do processo, desde a obtenção da matéria-prima, até a distribuição dos
produtos mundo afora.

·

O professor pode visitar um supermercado com os alunos e olhar as origens de
alguns produtos. Feito isso, ele pode dividir a turma em grupos, sendo que cada
grupo escolhe um produto, nacional ou não, e faz uma pesquisa sobre o local de
origem do produto. A pesquisa pode englobar uma série de aspectos. Em
primeiro lugar, os alunos devem compreender que a concepção do produto
depende de uma série de fatores, que podem ser físicos (clima, vegetação, solos,
dentre outros), econômicos (preço do solo urbano, incentivos fiscais, etc),
políticos e sociais. Em segundo, os alunos devem entender a cadeia produtiva
em que o produto está inserido. Com isso, eles perceberão a conexão. Em
terceiro, eles poderão pesquisar como o produto é escoado. Por último, eles

podem estudar o porquê de o Brasil ser um importador (no caso de um produto
de outro país).
De um modo geral, tais idéias são muito simples e, o mais importante, são
passíveis de realização. É um jeito mais prático de se aprender Geografia. Alem disso,
são alternativas para que fujamos do tradicional modelo de avaliação, baseados em
provas, como se elas fossem as únicas formas de se avaliar nossos alunos. É uma forma
que escapa ao "velho modelo" das aulas baseadas em dados isolados relativos aos
países: onde está localizado, população, densidade demográfica, área, dentre outros
componentes. O aluno toma conhecimento destes dados, memoriza e faz uma prova que
apenas testa o que foi memorizado. Logo, é perfeitamente compreensível o desgosto dos
alunos pela disciplina. Eles precisam memorizar dados e, em nenhum momento eles se
vêem como componentes do espaço em que vivem. Ou seja, para eles, a Geografia
acaba sendo desnecessária. E o docente acaba sendo a figura da punição, enquanto
deveria ser a figura do estímulo.
Além disso, com tais atividades, há o estímulo à pesquisa, o que é importante
aos alunos e ao professor. Ou seja, isso serve para enfraquecer a "antiga" imagem do
professor da escola básica, que "não precisava pesquisar" (PONTUSCHKA, 2007).

"Segundo os novos referenciais oficiais (DCN) de formação docente, cabe ao professor
da escola básica desenvolver nos alunos uma atitude investigativa, situação em que a
pesquisa venha a constituir, ao mesmo tempo, instrumento de ensino e conteúdo da
aprendizagem. Ocorre que, para o professor, poder cumprir esse objetivo, é
imprescindível que ele mesmo tenha aprendido e seja capaz de dominar a habilidade de
produzir pesquisa." (PONTUSCHKA, 2007, p. 96)
Ou seja, a pesquisa é um forte instrumento para quebrar a idéia do professor
enquanto figura que transmite o conhecimento, apenas. O professor, ao se tornar
pesquisador, faz com que o processo de educação esteja em construção permanente. A
educação não é um projeto acabado, mas sim um projeto de construção e reflexão.
Não se pode deixar de fazer uma referência ao contraponto. Mais claramente, se
sabe que a Geografia dispõe de uma gama muito razoável de recursos, alguns citados ao
longo deste item. Entretanto, não podemos deixar de criticar o mau uso dos recursos
disponíveis. Em primeiro lugar, por ser uma falha bem visível, está o apoio e a

confiança indiscriminada ao livro didático. Não que não devamos ter confiança. No
entanto, ele não pode superar o trabalho, a competência e o domínio do professor. Não
que ele não deva ser usado, mas ele é um apoio, somente. O livro expõe fotografias,
dados numéricos, mapas, dentre outros elementos fundamentais. O livro didático é um
apoio excelente. Mas cabe ao docente saber usá-lo. Muitas vezes o livro didático
apresenta uma realidade completamente distante da realidade vivida pelos alunos. E o
professor deve ser o profissional a fazer (e saber fazer) tais aproximações. Portanto, não
teria coerência o fato de o professor ser tão dependente do livro didático. E o mesmo
vale para o Atlas. Não há cabimento o uso do Atlas como o instrumento supremo do
ensino da Geografia. A memorização de paises, estados, municípios e capitais, para que,
posteriormente, os alunos tenham que completar o mapa mudo como forma de
avaliação, constitui atraso. Há muito que se falar sobre um mapa. O professor pode se
referir ao mapa como uma construção humana, pode mostrar os mapas temáticos, pode
diferenciar o mapa político do mapa físico, pode pedir aos mais novos que tracem o
trajeto de suas respectivas casas para a escola. E, mesmo nessas simples atividades e
debates, não fica difícil notar como o conceito de região pode ser inserido. O mapa nos
revela as particularidades dos espaços, além de nos possibilitar superposições. Enfim,
há uma série de habilidades a serem desenvolvidas com os mapas. Ou seja, o Atlas é só
um suporte ao trabalho do professor. É uma ferramenta.

Observações de sala de aula:
Fujamos, novamente, à Geografia Regional, concentrando as atenções nas
observações feitas nas Práticas de Ensino realizadas pela Universidade Federal
Fluminense. Tal trabalho não visa a se prender à Geografia Regional. O assunto foi
escolhido, simplesmente, por possibilitar um recorte mais abrangente, já que envolve
muitos aspectos.
Concentrando as observações em sala de aula, houve contato com duas
experiências opostas. Em primeiro lugar, em uma turma de ensino fundamental, a
experiência foi excelente. A docente era extremamente preocupada com os alunos e
com o processo de aprendizagem. Havia trocas, havia debates e, além de tudo, um lado
afetivo, essencial para um convívio entre professor e alunos. Digamos que, de um modo
geral, havia uma atmosfera muito propícia ao aprendizado. Havia conversas, a

professora sabia escutar os alunos e, através de suas falas, tudo era convertido para o
discurso geográfico.
Por outro lado, já em outra escola e, acompanhando turmas de ensino médio,
veio o contato com outro tipo de professor. Foi a figura típica de um professor que só
falava e não fazia esforço algum para ouvir e compreender os estudantes. Era a típica
figura da punição, independente do assunto dado em sala. O espaço da sala de aula
enquanto espaço da liberdade, das trocas e da construção, foi efetivamente negado. As
aulas consistiram na mera leitura do livro didático (por parte dos alunos) e, ao final do
capítulo, o professor pedia que os exercícios fossem feitos. Já as avaliações eram
somente no formato das provas. E as médias eram muito baixas, sem a preocupação do
professor em relação a um melhor rendimento por parte de seus alunos.
Neste segundo caso, o que foi presenciado foi o ensino "tradicional", sem
interação, sem a atenção em relação às experiências dos alunos, sem a preocupação do
professor em fazer com que o espaço escolar fosse um espaço de liberdade.
Tais observações, por mais simples que pareçam, mostram, parcialmente, a
realidade em que os alunos se encontram. Houve uma experiência ótima e uma
experiência não tão boa. É importante mostrar os dois lados. No entanto, como forma de
gerar o debate, vale ressaltar a má experiência. Ela nos mostra a necessidade de
mudanças. Além das mudanças, nos deixa claro uma necessidade de renovação no
processo de ensino/aprendizagem. A renovação se torna quase uma obrigação no ato de
se ensinar. Esta traz propostas não tão seguidas em tempos passados:

·

Necessidade de se fornecer bases para que o aluno construa seu conhecimento.
Isso só se faz com diálogo.

·

O professor, em primeiro lugar, deve ser um pesquisador. Ele lida com dados e
conceitos erguidos através da sistematização; ele lida com ciência. E a pesquisa
não deve se restringir às universidades. E o professor é um cientista. De nada
adianta o professor estudar e pesquisar somente pelo material usado por seus
alunos.

·

Obrigação de se desenvolver novos métodos para a avaliação dos estudantes. A
avaliação não é punição, mas sim, uma forma de se obter informações sobre
cada aluno. A partir dela, estratégias de ensino devem ser elaboradas pelo
professor. Para tal, ela deve ter objetivos. Não se avalia por avaliar,
simplesmente. Daí a importância de o professor conhecer ou pensar no sentido

da avaliação. Obviamente, ela é, também, um meio para diagnosticar o aluno, no
sentido de se saber se este está apto à aprovação.
·

A renovação deve partir para o plano do espaço, também. Urge compreender e
analisar o espaço da escola. Analisar o espaço escolar implica dois aspectos: o
primeiro é avaliar se o espaço propicia um aprendizado eficiente e saudável (em
muitos casos isso não ocorre, por mais simples que tal observação pareça). O
segundo é refletir sobre o direito de os alunos estarem situados em um ambiente
agradável. Mesmo que seja uma opinião baseada em situações empíricas, não
acreditamos que a escola deva passar impressão de truculência e imposições. A
escola não deve ser o espaço da vigilância, mas sim, o espaço do aprendizado,
das trocas, do diálogo e (por que não?) do convívio social e das diferenças.
Tanto se fala em "geração do futuro". A escola, enquanto representação parcial
da sociedade, deve fazer com que suas atitudes e propostas extrapolem seu
espaço.
Cabe dedicar parte deste trabalho aos aspectos políticos. Devemos sempre

pensar que "a escola" extrapola seu próprio espaço. Deve-se pensar nos agentes que
estão por trás de todo o processo. Escrever sobre professores e alunos, somente, seria
algo muito limitado. Devemos pensar no que ocorre nas decisões a respeito das escolas
públicas, principalmente. As escolas particulares, por mais que estejam ligadas a
determinadas propostas externas, não estão tão submetidas às decisões. Além disso,
temos os embates entre agentes públicos e agentes privados. Deve-se refletir, sempre, na
concepção de educação. E, diferentes concepções acabam por gerar embates.

A

educação tem a função de gerar mão-de-obra? Ou ela tem, como papel principal, a
inserção de nossos cidadãos em sistemas de códigos e símbolos que regem, em parte, a
nossa sociedade? E quem toma as decisões não são os professores, nem os alunos. Estes
são meros executores das decisões que vem "de cima". Portanto, não se pode pensar nos
professores e alunos, apenas.
O que se pretende debater nestes parágrafos é o papel da educação (e da
Geografia, inclusive) na formação de cidadãos. Até que ponto as políticas públicas
estimulam este processo? De um lado, temos os Parâmetros Curriculares Nacionais que,
mesmo não obrigando a execução de suas propostas, são diretrizes que podem, muitas
vezes, nortear o trabalho do docente. Por outro lado, temos medidas como a "aprovação
automática" e a "Bolsa Escola". Ou seja, até que ponto há efetiva preocupação com a

questão educacional? E, até que ponto há medidas que pretendem suprir, a curto prazo,
uma desigualdade histórica que temos no Brasil? O estímulo ao interesse do aluno não
seria mais viável?

Conclusões:
Esta foi a impressão principal de parte do estágio realizado. O professor passava
a imagem da punição e da truculência. As aulas eram baseadas na leitura de capítulos,
como dito anteriormente. Os alunos liam os capítulos, o professor mandava fazer os
exercícios ao final de cada capítulo e, depois, as provas eram feitas. Os resultados não
eram nada satisfatórios e nada era feito para detectar falhas no aprendizado. A prova
era, de fato, utilizada para punir os alunos, enquanto poderia ser uma excelente fonte de
informações para o professor.
Ou seja, de acordo com o observado, não tivemos contato com uma Geografia
que favorecesse a construção do conhecimento por parte dos estudantes. A idéia do
construtivismo não foi executada. O que tivemos foi o ensino "bancário", nas palavras
de Paulo Freire. Não houve a proposta da autonomia para que o estudante aprendesse de
acordo com seus conhecimentos já obtidos. (FREIRE, 2007).
"Saber que ensinar não e transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a
sua própria produção ou construção. Quando entro em uma sala de aula devo estar
sendo um ser aberto a indagações, a curiosidade, as perguntas dos alunos, a suas
inibições, um ser critico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho ­ a de
ensinar e não a de transferir conhecimento." (FREIRE, 2007, pp. 47)
A reflexão se faz necessária. Qual a Geografia nós queremos que os jovens
brasileiros aprendam? Seria a Geografia que testa as memórias dos estudantes ou uma
Geografia que conta com a participação dos alunos, que faz com que eles se percebam
no espaço?
E, por mais que tal discurso pareça tão distante da Geografia Regional, devemos
pensar que se trata de uma questão escalar. Os alunos fazem parte de um espaço restrito,
ao mesmo tempo em que fazem parte do mundo. Eles estão, mesmo que indiretamente,

envolvidos na produção do espaço geográfico. E, de qualquer forma, principalmente
hoje, isso extrapola a nossa idéia de um espaço restrito em que vivemos. Não vivemos
somente em uma rua, um bairro, um município ou um país. Qual o papel do nosso país
no mundo?
Faz parte da cidadania e do processo educacional o conhecimento dos espaços.
Somos formadores e modeladores de nossos espaços. Daí a idéia do recorte "regional"
para este trabalho. É a forma mais simples de provar que atuamos em nossos espaços
que, por sua vez, atuam em outros espaços. Hoje, em tempos de globalização, a região,
independente de seu tamanho e função, facilita esse entendimento. Ela nos mostra a
interação entre o homem e um espaço disposto a sofrer alterações. E esta porção do
espaço pode ser útil à outra porção, de modo que elas se liguem através das técnicas
(SANTOS, 2008). E o trabalho teve o objetivo de mostrar que isso pode ser feito através
de atividades simples, além de propor uma nova postura dos docentes. Em uma visita ao
mercado, podemos descobrir tantas coisas. Como, por exemplo, determinado alimento
veio parar na estante de um supermercado? E, além disso, por que ela veio parar no
Brasil? Estes recortes, provavelmente, ajudarão nossos estudantes em uma busca por
explicações. O entendimento desta globalização tão rápida, fluida e, tantas vezes,
perversa, se fará presente. Pode-se esclarecer todo o objetivo do trabalho com base em
uma bela frase de Leon Tolstoi:
"Se queres ser universal, começa por pintar a sua aldeia."
Cabe aos docentes, portanto, a complexa tarefa de mostrar que somos locais e
globais, mas globais no sentido mais amplo possível. Cabe aos professores mostrar que
a cidadania não é, e nem teria razões para ser restrita espacialmente, historicamente,
politicamente, socialmente, nem geograficamente.

Referências Bibliográficas:
COSTA, Rogério Haesbaert da. O mito da desterritorialização: do "fim dos territórios"
à multiterritorialidade ­ 3ª edição ­ Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 31ª edição. Petrópolis:
Vozes, 2006
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São
Paulo: Paz e Terra, 1996
MASSEY, Doreen B. Pelo Espaço: uma nova política da espacialidade.
Tradução: Hilda Pareto Maciel, Rogério Haesbaert da Costa ­ Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2008.
PONTUSCHKA, Nídia Nacib; PAGANELLI, Tomoko Iyda; CACETE, Núria Hanglei.
Para ensinar e aprender Geografia. 1ª edição ­ São Paulo: Cortez, 2007.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. ­ 4ª
edição ­ São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência
universal. 10ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.
VESENTINI, José William. Novas Geopolíticas. 4ª edição. São Paulo: Contexto, 2007