GEOGRAFIA, HISTÓRIA E ECOLOGIA:
CRIANDO PONTES PARA A
INTERPRETAÇÃO DA PAISAGEM*
ALEXANDRO SOLÓRZANO1
ROGÉRIO RIBEIRO DE OLIVEIRA2
REJAN Rodrigues GUEDES-BRUNI3
1Introdução
A presente revisão busca evidenciar os elementos históricos presentes na
compreensão da relação ser humano-natureza, ao mesmo tempo em que procura focar
os estudos em florestas tropicais, especialmente aquelas ocorrentes no Brasil, no âmbito
da Mata Atlântica. Nesse aspecto, o referencial empírico é a paisagem como base físicobiológica, associada aos processos antrópicos e aos processos naturais decorrentes que a
compõem. Dentro desse quadro e com a finalidade de compreender a contribuição dos
elementos históricos na formação e transformação da paisagem, podem ser destacadas
duas abordagens de conhecimento que apresentam uma proposta interdisciplinar: a história
ambiental e a ecologia histórica. Estas disciplinas incorporam, ao seu nome, tanto a história
quanto os elementos naturais envolvidos no objeto de observação (ambiente e processos
ecológicos). O que diferencia uma da outra, contudo, é o papel definidor que o primeiro
nome do binômio desempenha no processo analítico.
A história ambiental tem como foco os acontecimentos históricos que modificaram
e, ao mesmo tempo, foram modificados pelo ambiente. A ecologia histórica, por sua vez,
procura compreender os fenômenos e componentes ecológicos, como a funcionalidade de

*Este artigo é parte da dissertação de mestrado do primeiro autor, submetida à Escola Nacional de Botânica Tropical
(ENBT), no Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Aluno em Programa de Pós Graduação em Ecologia, Universidade de Brasília ­ UnB, Bolsista da CAPES

1

Professor do Departamento Geografia, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro ­ PUC-Rio

2

Pesquisadora do Programa Mata Atlântica, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro ­ JBRJ

3

Autor para correspondência: Rogério Ribeiro de Oliveira, Departamento de Geografia, Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro ­ PUC-Rio, Rua Marquês de São Vicente, 225, sala 411F, CEP 22453-900, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
E-mail: [email protected]
Recebido: 18/8/2007. Aceito: 14/4/2008.
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ecossistemas, a composição e a estrutura de comunidades, etc., à luz dos processos históricos
de transformação da paisagem. À primeira vista, surge uma similaridade muito acentuada,
porém se apresentam particularidades. Neste sentido, o presente artigo objetiva enfocar as
diferenças e similaridades, para auxiliar não só na melhor compreensão como na adequação
aos objetos de estudos que envolvem os processos históricos e ambientais.
Assim, é necessário reportar-se à geografia, em sua proposta totalizadora, sem com
isso corroborar a clássica dicotomia entre as geografias física e humana. Veremos como esta
ciência, que incessantemente tem procurado abordar a relação homem-natureza de maneira
integrada (ainda que tenha fracassado, muitas vezes, neste intento), pode contribuir com
alguns conceitos fundamentais, inerentes à sua base epistemológica. Dentro desse contexto,
o objetivo é evidenciar interfaces, similaridades e dissimilaridades nos processos envolvidos
nos objetos de estudos da geografia no que se refere à transformação da paisagem.

2História ambiental e geografia histórica
A história ambiental é um campo relativamente novo do conhecimento, surgido na
década de 1970, simultaneamente ao início dos movimentos ambientalistas e das conferências
mundiais sobre a crise ambiental, nascendo de um objetivo moral (WORSTER, 1990).
Porém, já na década de 1950, Aldo Leopold destacava a importância de uma interpretação
ecológica da história, na qual a ecologia seria empregada para compreender como o passado
do ambiente desenvolveu-se até os dias atuais (WORSTER, 1990). De forma mais sucinta,
podemos destacar o principal objetivo da história ambiental: o de compreender como a
natureza afetou o ser humano e, ao mesmo tempo, como a humanidade afetou o meio
ambiente (WORSTER, 1990). Esta perspectiva tenta suprir a lacuna criada pela forma como
as ciências naturais têm tratado o ser humano em suas abordagens, considerando-o como
um componente supranatural, dissociado do mundo natural e subtraído no entendimento
das resultantes decorrentes de sua interação com o ambiente em que vive.
Segundo Drummond (1991), em um trabalho de revisão da história ambiental no
mundo e no Brasil, esta disciplina tem sua origem a partir de duas linhagens das ciências
sociais: a história das civilizações e a antropologia cultural.
Na revisão feita por Williams (1994), ao comparar a história ambiental à geografia
histórica, são citados alguns trabalhos importantes que antecederam à estruturação desta
sub-disciplina. Worster (1991) destaca a importância dos trabalhos sobre a fronteira norteamericana como sendo as bases para a formulação de uma história ambiental. Também
podemos destacar Fernand Braudel, que considerava o ambiente como um elemento que
agia na modelagem da vida humana, ou seja, que destacava a história vista sob o ângulo da
natureza (WORSTER, 1991). Williams (1994) cita outros trabalhos que tiveram grande
importância para o surgimento da história ambiental, como os de Roderick Nash, para quem
é fundamental estudar o contato do ser humano com o seu habitat, tema dentro do qual
ele destaca as tradições norte-americanas relativas à fronteira. Em 1970, Nash foi um dos
primeiros autores a utilizar o termo história ambiental, numa contribuição a um compêndio
sobre o estado da arte da história norte-americana (WILLIAMS, 1994).
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Geografia, história e ecologia: criando pontes para a interpretação da paisagem

Nash também fez uma importante contribuição para a história ambiental ao recomendar
que a paisagem fosse interpretada como um documento histórico (WORSTER, 1991). Esta
visão evidencia a importância da paisagem como fonte de informação e dados, sem a qual
a história ambiental não poderia edificar a sua base de investigação e o seu escopo teórico.
A contribuição de Nash foi importante para a história ambiental, principalmente no que
tange ao tratamento que deu às tradições intelectuais e aos valores culturais agregados
sobre a natureza, freqüentemente valendo-se do termo wilderness para expressá-la. Ainda
de acordo com Williams (1994), no início do processo de concepção da história ambiental,
Thad Tate assinalou a ausência de uma delimitação da disciplina, e propôs então quatro
pontos importantes para sua circunscrição: percepção humana do mundo natural; inovações
tecnológicas relativas à transformação da natureza; compreensão dos processos ecológicos e
regulação política e legislativa do meio ambiente (WILLIAMS, 1994).
Donald Worster (1991) foi um dos primeiros e destacados historiadores ambientais
a sistematizar o conhecimento acerca da história ambiental, delimitando os seus objetivos,
conceitos e temas de maneira clara e concisa. Segundo este autor, a história ambiental
nasce a partir de uma necessidade de colocar a ciência de volta à história e, neste caso,
incluir a natureza dentro do estudo histórico, não apenas como objeto, mas como sujeito.
Portanto, utilizando as palavras de Worster (1991, p. 201), "a história ambiental trata do
papel e do lugar da natureza na vida humana", ou seja, trata de procurar interpretar os
fatos históricos a partir da realidade apresentada pela paisagem natural. Desta forma, vemos
como a história ambiental já surge com uma necessidade de dialogar com outros campos do
conhecimento, de interligar os aspectos naturais (físicos) da Terra com os aspectos sócioculturais e político-econômicos.
Worster (1991) destaca três níveis, ou conjunto de questões, da história ambiental.
Primeiramente versa sobre o funcionamento e a organização da natureza, ou seja: a
reconstrução de ambientes e de paisagens passadas. O segundo conjunto de questões
abrange a relação do domínio socioeconômico com a natureza. Este nível de investigação
refere-se às tecnologias de trabalho e exploração, modos de produção, instituições e relações
sociais em geral. O terceiro e último nível de análise da história ambiental atém-se mais
especificamente à percepção humana da natureza e, desta forma, ocupa-se dos valores, leis,
mitos e crenças religiosas de uma dada sociedade em relação à natureza.
Observamos, a partir destes preceitos, uma nítida interdependência da história
ambiental com outras áreas do conhecimento, tanto das ciências naturais quanto das ciências
sociais. Com isso vemos uma clara vocação da ecologia e da geografia para o estabelecimento
de questões de história ambiental, fornecendo assim bases teórico-metodológicas.
Essa nova disciplina busca romper com a clássica concepção da História, que dedicava
parte substancial de sua atenção ao funcionamento e às estruturas dos Estados Nacionais.
O rompimento surge a partir da década de 1970, com a emergência das questões ambientais
e ecológicas. Freitas (2002) indica uma valorização crescente de conceitos tipicamente
geográficos, como território, territorialidades, paisagem e outras noções de espaço inerentes
ao campo de conhecimento da geografia. Desta maneira, fica clara a sua inter-relação com
a história ambiental.
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A geografia é uma ciência que apresenta uma abrangência ainda maior do que a
história ambiental, enfocando a mistura de fenômenos naturais e sociais que ocorrem no
espaço. Williams (1994) destaca que muitos historiadores ambientais têm feito excelentes
trabalhos em geografia histórica, focalizando assuntos que têm sido ignorados pelos
geógrafos. O debate acerca da sistematização da história ambiental deve incluir geógrafos
históricos, devido à ligação da geografia com autores clássicos desta ciência, como Carl
Sauer e Vidal de la Blache, dentre outros. Historicamente a geografia, a partir de uma visão
holística, tem tratado a relação ser humano-natureza como uma de suas grandes questões,
tendo sido concebida pelos fundadores Friedrich Ratzel e Alexander Von Humboldt e,
mais tarde, atingindo a sua expressão máxima nos estudos da Escola Francesa de Geografia
(GALVÃO, 1992). Worster (1991) reconhece a sua pouca atenção à contribuição da
geografia para a história ambiental. Dentre os geógrafos atuais produtivos, cita Michael
Williams e Donald Meining, e, dentre os do passado, Carl Sauer e Clifford Darby. Worster
atribui aos geógrafos a noção de que o homem passou da condição de ser moldado pelo meio
ambiente ao papel de moldador da paisagem (WORSTER, 1991). Uma contribuição ímpar
da geografia histórica é a reconstituição espacial dos processos de ocupação de territórios,
como o estudo feito por Mauricio Abreu (2006) sobre a espacialização de engenhos coloniais
na região do Rio de Janeiro.
O tema central tratado pela história ambiental ­ a abordagem dos processos
históricos da transformação da natureza relacionada aos processos históricos humanos ­ já
foi estudado por geógrafos antes da sistematização da disciplina, a partir da abordagem da
paisagem geográfica. Sauer (1998) define a mesma como uma forma da terra na qual não
ocorre apenas uma modelagem física, mas sim uma associação desta aos processos culturais
da sua transformação. Com isso, observa-se uma preocupação em compreender a paisagem
a partir da interação entre processos naturais e humanos, sejam eles sociais, econômicos,
culturais, políticos, etc., decorrendo assim numa interpretação de história ambiental daquela
paisagem.
Outras disciplinas apresentam diferentes definições de paisagem. A ecologia
histórica, por exemplo, de acordo com Crumley (1993), sugere uma abordagem em que
a paisagem é retratada como a manifestação material das relações entre os seres humanos
e o meio ambiente. Sob esta perspectiva, a autora assume que as relações operantes entre
seres humanos e ambiente são dialeticamente interativas. Dentro da abordagem da ecologia
da paisagem, Forman (1995) define paisagem como um mosaico de ecossistemas locais e
diferentes usos do solo, que é repetido, com forma similar, numa vasta área. Ou seja, o autor
supracitado considera apenas os aspectos ecológicos da paisagem. Metzger (2001, p. 4)
define a paisagem como "um mosaico heterogêneo formado por unidades interativas,
sendo esta heterogeneidade existente para pelo menos um fator, segundo um observador
e numa determinada escala de observação". Esta definição deixa em aberto a inclusão,
ou não, do componente humano na conceituação da paisagem, ou seja, abrange todos os
aspectos possíveis de uma paisagem, sem nenhum compromisso explícito com uma área do
conhecimento. Pode-se compreender a paisagem ainda como "um processo histórico de
construção de formas de apropriação da natureza e a transformação da paisagem natural
`pré-antrópica' em paisagem artificial", como definido por Freitas (2003, p. 14).
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Geografia, história e ecologia: criando pontes para a interpretação da paisagem

A partir desse amplo campo conceitual de paisagem, observa-se que as diversas
abordagens, sejam elas geográficas ou ecológicas, contribuem efetivamente para o
conhecimento da história ambiental de uma determinada área.
O conceito de território é importante também para compreender os processos de
transformação social do espaço. O território pode ser compreendido como o espaço onde
se projetou o trabalho, o qual revela as relações marcadas pelo poder (RAFFESTIN, 1993).
Portanto, fundamentalmente, o território é um espaço definido e delimitado por e a partir de
relações de poder (SOUZA, 2003). Ao mesmo tempo, o território pode ser compreendido
como o espaço concreto em si, com os seus atributos naturais, que é apropriado, ou ocupado,
por um grupo social, que, por sua vez, alicerça raízes no espaço e possui uma identidade
com ele (SOUZA, 2003). Milton Santos (2001) considera que o território não é apenas
um substrato material, mas, igualmente, uma identidade, um sentimento de pertencer a
um dado espaço. Neste sentido, o território é a base das trocas materiais, do trabalho, da
residência, dentre outros aspectos.
Nesse entendimento fica evidente a importância da relação do ser humano com o
espaço, gerando uma intrínseca relação de uso e troca com o meio físico. Este conceito pode
ser aplicado à história ambiental, a partir do momento em que a natureza é compreendida
como um espaço utilizado, apropriado, por diversas populações em diferentes épocas.
Portanto, um ecossistema pode ser visto como um território, na medida em que ele foi
utilizado e apropriado no passado por diversas culturas e populações.
No caso da Mata Atlântica, por exemplo, esta relação de uso e transformação da
paisagem já ocorria antes mesmo da chegada dos colonizadores. Inicialmente, ela foi usada
por populações habitantes dos sambaquis, que ocuparam o litoral sudeste e cujas primeiras
datações são estimadas em cerca de 6.000 anos antes do presente e, posteriormente, por
populações tupis que ocuparam extensas áreas do litoral do Brasil. Os tupis praticavam
agricultura de corte e queima (DEAN, 1996; DRUMMOND, 1997; ADAMS, 2000).
A chegada dos colonizadores, portanto, gerou novos territórios nas diversas escalas
da paisagem, através do processo de uso e ocupação, e da conseqüente exploração dos
recursos naturais. Esta exploração foi feita inicialmente pela metrópole portuguesa e,
posteriormente, com o uso sistemático do solo para as diversas lavouras implantadas neste
complexo sistema de paisagens e territórios ­ mas as terras continuaram a ser concedidas
pela metrópole. Portanto, o legado destes distintos usos históricos, anteriores à chegada dos
colonizadores, gerou sucessivos territórios que se sobrepuseram, e que acabaram por gerar
uma paisagem modificada por usos diversificados. Tais mosaicos constituem o que é definido
como paleoterritórios, a espacialização das resultantes ecológicas de usos passados dos
ecossistemas por populações; os quais deixam marcas visíveis na paisagem até a atualidade
(SANTOS et al., 2006). Segundo Oliveira (2005, p. 228), "a cada uso superposto no tempo
podem ser esperadas resultantes ecológicas distintas, de acordo com a transformação imposta
pela implantação de cada território".
O uso do conceito de paleoterritório na análise histórica da paisagem surge da
dificuldade de se estabelecer qual foi, exatamente, o processo de transformação provocado
por usos sobrepostos. Assim, o estudo da utilização da paisagem pelas populações
tradicionais, como as indígenas, caiçaras, quilombolas, etc., fica comprometido, na medida
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em que as marcas dos usos somam-se e dissipam o(s) uso(s) anterior(es). Um dos grandes
empecilhos à compreensão desse processo é a escassez de informações e dados sobre as
técnicas de manejo e cultivo destas populações tradicionais, o que, por sua vez, dificulta
a real avaliação do grau de impacto e do provável efeito na paisagem atual. Portanto, de
acordo com essa concepção, o último uso ocorrido tem uma preponderância no processo
de análise das transformações da paisagem, sobretudo tratando-se de vestígios deixados na
vegetação. Neste caso, as resultantes ecológicas da utilização dos ecossistemas remeterão,
de forma mais clara, ao último grande impacto. Porém, o último uso não é necessariamente
o que fez maiores perturbações, mas é o que tem as marcas mais frescas e detectáveis, fruto
de um modelo de perturbação em cascata.
Worster (1991) aponta que a história ambiental perde a sua base de sustentação se
não incorporar o conhecimento ecológico da natureza, fragilizando assim a sua coerência
como um todo. O presente artigo tem uma preocupação de consolidar um escopo teórico
para a história ambiental, valendo-se da visão ecológica, em que os elementos bióticos e
abióticos são enfocados de forma interativa. Para tanto, destaca diferentes autores que, a
partir de uma abordagem antropológica, deram ênfase aos processos ecológicos. Eles criaram
uma sub-disciplina da ecologia e da antropologia que se convencionou referenciar como
ecologia histórica.

3Ecologia histórica
Uma das definições de ecologia histórica é que ela procura explicar as características
dos ecossistemas e paisagens a partir dos legados históricos de atividades humanas
(RUSSEL, 1997). Oliveira (2005) destaca que a história ecológica realiza as suas análises
voltadas para duas áreas distintas: a evolução dos ecossistemas, através da reconstituição de
paleoambientes e floras fósseis; e a antropologia ecológica, que estuda os sistemas ecológicos
por meio dos componentes humanos, como economia, religião e cultura, e de suas relações
com a natureza. Nesta perspectiva, percebemos duas linhas da ecologia histórica. Uma
advém da ecologia, em que as fontes históricas são provenientes de aspectos naturais, como
de estudos de dendrologia, de sedimentos, etc., e a outra de documentos históricos, como
relatos de usos passados, fotografias aéreas antigas, etc. Na perspectiva mais ecológica, esses
documentos históricos são utilizados para determinar o alcance e a variabilidade dos processos
ecológicos durante tempos em que os ecossistemas eram menos afetados pelo homem
(SWETNAM et al., 1999). Esta linha é denominada de ecologia histórica aplicada.
Simultaneamente, a história ecológica pode ser definida como o estudo de
ecossistemas passados, detalhando o processo de transformação da paisagem ao longo
do tempo (CRUMLEY, 1993). Neste aspecto, é fundamental para a ecologia histórica o
paradigma do ser humano como instigador e, ao mesmo tempo, ser adaptado às mudanças
nos ecossistemas. As circunstâncias em que estas modificações ocorrem variam de acordo
com o tempo, o espaço e a cultura. A última é aqui entendida como a transmissão da
informação e do conhecimento em conjunção com padrões de relações materiais com o
ambiente (CRUMLEY, 1993). Crumley destaca, ainda, que esta disciplina estabelece
relações dialéticas entre as ações humanas e as ações da natureza, manifestas na paisagem.
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Geografia, história e ecologia: criando pontes para a interpretação da paisagem

Como influências formadoras da ecologia histórica, a autora menciona principalmente a
antropologia, em conjunto com outras disciplinas, como apta para investigar os aspectos de
mudança espacial e temporal das paisagens. A arqueologia também é destacada, pois é uma
ciência que tem uma abordagem multidisciplinar, que utiliza conceitos das ciências naturais
(biologia, geologia, geografia) e das ciências sociais (história, lingüística, antropologia), ao
mesmo tempo em que, inerentemente, trata de processos temporais em diversas escalas.
Do mesmo modo, a etno-história, uma subárea da antropologia, contribui com a história
ecológica, na medida em que fornece dados sobre as evidências das ações, relações e
atitudes humanas no passado (CRUMLEY, 1993). A autora indica, ainda, que a introdução
da história nas análises ambientais é uma oportunidade para a aplicação dos conhecimentos
da geografia e da própria história.
Alguns conceitos geográficos são valorizados e utilizados pela ecologia histórica. O
conceito de escala é utilizado porque as paisagens geralmente não podem ser estudadas
em sua totalidade. A concepção e a compreensão de diferentes modelos de realidades das
populações e de suas interações com o ambiente são aplicadas em diferentes escalas temporais
e espaciais, em conjunto com a paisagem (CRUMLEY, 1993). A utilização de diferentes
escalas nas análises é importante à compreensão de padrões específicos. Assim, a seleção
de uma dada escala no processo de análise ocorre porque, naquela escala específica, certos
padrões podem ser identificados e compreendidos (CRUMLEY, 1993). Simultaneamente à
compreensão sobre duração, intensidade e periodicidade das escalas temporais e espaciais,
é importante examinar os processos interativos entre os elementos sócio-culturais e
ambientais. A escala da ação humana torna-se um fator preponderante na transformação
da natureza e varia com o tempo, o espaço e a cultura (CRUMLEY, 1993).
A problemática do conceito de escala acompanha as discussões epistemológicas e
metodológicas da geografia. Castro (2003, p. 118) discute a escala como uma "estratégia de
aproximação do real, que inclui tanto a inseparabilidade entre tamanho e fenômeno (...)
como a complexidade dos fenômenos e a impossibilidade de apreendê-los diretamente".
Nesse sentido, ela é definidora de espaços de pertinência da medida dos fenômenos. Ou seja,
é muito mais que uma medida de proporção entre a realidade e a sua representação (medida
de superfície), o que, na verdade, seria uma problemática da matemática relacionada à
cartografia (CASTRO, 2003). Inerentemente à escala, existe a seguinte questão: quando
o tamanho muda, as coisas mudam. Com isso o "fenômeno observado, articulado a uma
determinada escala, ganha um sentido particular" (CASTRO, 2003, p. 120). Esta idéia
associa-se à análise realizada pela ecologia histórica, da qual se pode depreender que a escala
recorta a paisagem ou qualquer outra unidade espacial, cria níveis de análises, não no sentido
hierárquico, mas na concepção de unidades de análises dos processos de transformação e
dos fenômenos de interação da paisagem, com objetivos distintos.
Outro conceito utilizado na ecologia histórica é o de região. Neste caso, a região é
uma unidade que pode ser reconhecida em uma dada escala devido à sua distinção espacial
e temporal e à sua interação com outras unidades (CRUMLEY, 1993). Destaca-se também a
importância da unidade regional apresentar uma homogeneidade perceptível, que explicite
as suas relações temporais, como as suas conexões com o passado e o futuro, e espaciais, como
as suas conexões com outras unidades em escalas diversas. A partir desta visão, as relações
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espaciais e temporais em termos de região, são importantes para revelar contradições e, em
decorrência, novas escalas, elementos e estruturas de análise. Para isso, a história regional
constitui uma importante ferramenta (CRUMLEY, 1993).
Na geografia, o conceito de região nasce em conjunto com a sua sistematização,
sendo até hoje um problema epistemológico e metodológico, tanto quanto o conceito de
escala. A problematização do conceito surge a partir do momento em que ele é apropriado
por outras áreas, o que o redefine para uso popular: extensão e limites atribuídos a um
fenômeno espacial. Nas ciências naturais, o conceito de região é usado para definir "uma
área sob certo domínio" (GOMES, 2003, p. 54). O conceito de região co-evoluiu com a
geografia, portanto, inicialmente na geografia clássica, surgiu a distinção de região natural
e região geográfica. A primeira explica a região como um domínio natural que atua na
orientação do desenvolvimento de uma dada sociedade. A região geográfica é conceituada
como uma unidade que sintetiza a ação transformadora do homem sobre um determinado
ambiente (GOMES, 2003). Percebe-se, assim, que a diferença entre as duas está na relação
ser humano-ambiente. Enquanto uma enfatiza o direcionamento da sociedade a partir do
ambiente, a outra destaca a transformação do ambiente pelo homem. Porém, ambas as
abordagens apresentam uma reflexão que inclui homem e natureza dentro de um quadro
de análise e, portanto, de grande interesse para o estudo da transformação antrópica da
paisagem.
A evolução do conceito permitiu a emergência da análise regional, na qual surgiram
duas novas abordagens: região homogênea e região funcional. A região homogênea é
resultado de uma divisão do espaço submetida a um conjunto de variáveis estruturantes,
gerando um sistema espacial classificatório, homogêneo e hierárquico. Este conceito
assemelha-se ao utilizado pela ecologia histórica, em que a homogeneidade do espaço é
um dos aspectos definidores de região. Porém, a ecologia histórica acrescenta o aspecto
temporal em sua concepção de região, conferindo um maior escopo de análise. Na região
funcional, a estruturação do espaço ocorre a partir de ações múltiplas que geram um espaço
internamente diferenciado (GOMES, 2003).
Crumley (1993) também cita outros conceitos importantes para a formulação de
questões de ecologia histórica, como fronteira (natural e social), diversidade (de espécies
e de culturas) e hierarquia (classificação em níveis hierárquicos). Ao mesmo tempo,
Winterhalder (1993) destaca a importância de conceitos ecológicos, como ecossistema e
comunidade, que, a partir de uma analogia organicista, têm tido uma grande influência
nas ciências sociais. Winterhalder destaca, porém, que esses conceitos devem ser utilizados
nas análises históricas com cautela e que conceitos como fragmentação, estabilidade e
resiliência são mais promissores, uma vez que destacam as dinâmicas espaciais e temporais
dos ecossistemas e os efeitos da história no seu atual e futuro funcionamento.
Ainda, dentro das abordagens interdisciplinares acerca da inter-relação do ser
humano com o seu meio, cabe destacar a antropologia ecológica e a ecologia cultural. Tal
como a ecologia histórica, estas subáreas do conhecimento são relacionadas, principalmente,
à antropologia, com forte influência da ecologia.
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Geografia, história e ecologia: criando pontes para a interpretação da paisagem

4História de uso do solo
A partir da ecologia, mais especificamente da ecologia de comunidades, surge
a necessidade de compreender os aspectos históricos de transformação da natureza, sem
constituir uma disciplina em si, mas se caracterizando, tão somente, como um enfoque mais
específico ora da história ambiental, ora da ecologia histórica. Estes estudos procuram avaliar,
à luz da composição e da estrutura dos ecossistemas, os aspectos de perturbação decorrentes
da ação do homem, tais como a agricultura, o pastoreio, a exploração de madeira, etc.
Na década de 1980, a partir de uma disputa por recursos para projetos de uma
agência financiadora dos Estados Unidos (Long Term Ecological Research ­ LTER), dois
grupos de pesquisadores, sediados em Harvard e Porto Rico, levantaram a seguinte questão:
a história humana e o histórico de uso do solo deveriam ser incorporados aos temas de estudo
sobre processos de transformação ecológica? Naquele momento, optou-se por ignorar tais
questões, com exceção dos efeitos indiretos das atividades humanas recentes, como a chuva
ácida e as mudanças climáticas globais (FOSTER et al., 2003). Posteriormente um grupo
de historiadores ambientais da Áustria propôs uma visão alternativa ao LTER, o Long Term
Socioecological Research, centrado nas interações entre sistemas naturais e sociais, vendo-os
como estruturalmente acoplados, investigando os processos co-evolutivos que ocorrem
entre ambos (HABERL et al. 2006).
Assim, ao longo desta última década, muitos cientistas envolvidos em estudos
ecológicos passaram a reconhecer que a história de suas respectivas áreas de estudo está
envolvida na estrutura e no funcionamento dos ecossistemas. Da mesma maneira, a
história ambiental passou a ser considerada como parte integrante da ciência ecológica
(FOSTER et al., 2003).
Esta mudança fundamental na visão histórica dos processos ecológicos foi direcionada
por quatro fatores: expansão dos estudos ecológicos para uma escala regional, na qual não
é possível evitar o exame dos efeitos atuais e históricos da atividade humana; a noção de
que a maioria das áreas naturais tem marcas de alguma história cultural; o reconhecimento
de que os legados de uso do solo têm um efeito persistente; a compreensão de que a
história acrescenta uma capacidade de explicação para o entendimento da estrutura e do
funcionamento dos ecossistemas, além de auxiliar na predição de modelos para o manejo de
tais áreas no futuro (FOSTER et al., 2003).
Os estudos têm enfocado principalmente os impactos nos ecossistemas relativos à
agricultura, à extração de madeira (e de outros recursos), à modificação dos regimes de
distúrbios naturais e à manipulação das populações de animais. Geralmente enfocam não os
efeitos diretos desses processos de modificação, mas os efeitos históricos, depois da regeneração
natural já se ter estabelecido. Desta forma, as principais vias de análise são a estrutura e a
composição dos ecossistemas, as propriedades químicas e físicas do solo e a persistência dos
efeitos de uso do solo após eventos de distúrbios naturais (FOSTER et al., 2003).
Além do trabalho supracitado sobre a evolução da incorporação de elementos
históricos na compreensão dos processos de transformação e regeneração de ecossistemas,
cabe igualmente citar Chazdon (2003), que contribuiu com uma ampla revisão sobre os
legados do impacto humano e dos distúrbios naturais na regeneração de florestas tropicais.
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Este autor evidencia que o estudo de um mosaico multifacetado de distúrbios atuais e
históricos é fundamental para a compreensão da recuperação das florestas tropicais.
O grau de perturbação vai definir a fisionomia de uma floresta secundária e, portanto,
diferentes impactos vão ter diferentes respostas estruturais e florísticas. Assim, distintos tipos
de uso do solo que a floresta teve e a sua intensidade acarretarão diferenças na regeneração
da vegetação. É na revelação dessas distinções que os estudos de história de uso do solo são
úteis à história ambiental.
Muitos trabalhos dessa natureza, reconhecidos na literatura estrangeira pelo
termo land use history, já foram realizados. Inicialmente, destaca-se o trabalho de um
grupo de pesquisadores de Porto Rico que incorporaram em suas análises dados históricos,
principalmente acerca do uso do solo pelas populações humanas. Sob este aspecto, surgiram
inúmeros trabalhos que relacionam os usos históricos à estrutura e à composição das
florestas. Garcia-Montiel e Scatena (1994) verificaram o efeito da atividade humana, como
a exploração de carvão e a agricultura, na estrutura e na composição de um trecho de
floresta tropical em Porto Rico; Aide et al. (1995, 1996) ativeram-se à regeneração de uma
floresta após o abandono de uma área usada para pastoreio em Porto Rico; Thomlinson et al.
(1996) verificaram a dinâmica do uso do solo pós-agricultura na paisagem de Porto Rico;
Pascarella et al. (2000) avaliaram a história do uso do solo (cafeicultura e pastoreio) e
a conseqüente regeneração da floresta em área montanhosa de Cayey, em Porto Rico;
Thompson et al. (2002) analisaram a história do uso do solo, bem como a composição
arbórea, de um trecho de floresta tropical; Uriarte et al. (2004) verificaram os efeitos da
história do uso do solo (cafeicultura e pastoreio) nos danos causados pela passagem de um
furacão e a recuperação decorrente em uma floresta neotropical. No México, destaca-se
o trabalho pioneiro de Purata (1986), ao estudar a relação do histórico de uma área e a
disponibilidade de espécies na estrutura e na composição durante o seu processo sucessional.
De uma maneira geral, os estudos acima se ocupam em determinar o tempo e o efeito de um
uso de solo após o seu fim e como os usos anteriores afetam a diversidade de espécies.
Além destes trabalhos, realizados na região neotropical, citam-se outros como:
Congdon e Heborn (1993), que estudaram a dinâmica de ecossistemas de áreas perturbadas
e não-perturbadas em Queensland, Austrália; Dutoit et al. (2003), que avaliaram a história
do uso do solo e as mudanças florísticas na região da Normandia, França; Ito et al. (2004),
que verificaram os efeitos do uso passado do solo na diversidade de espécies de plantas em
florestas semi-natural e plantada, em Kyushu, Japão; Parton et al. (2004), que verificaram o
impacto ecológico dos padrões de uso do solo passado e futuro, no Senegal.
No Brasil, trabalhos de história de uso do solo são relativamente exíguos. Dentre
eles, cabe mencionar os seguintes: Uhl (1987), que acompanhou por cinco anos a sucessão
ecológica em área de agricultura de pousio no rio Negro (AM); Nepstad et al. (1996), que
fizeram uma comparação entre o estabelecimento de árvores em um pasto abandonado
com uma floresta madura na Amazônia; Oliveira-Filho et al. (1997), que estudaram as
conseqüências de distúrbio passado e dos efeitos de borda na estrutura da comunidade
arbórea dentro de um fragmento de floresta semidecídua no sudeste do Brasil; Toniato
e Oliveira-Filho (2004), que estudaram a variação na composição e na estrutura da
comunidade arbórea em um fragmento de floresta semidecídua, relacionada a diferentes
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históricos de perturbação humana; Melo (2004), que realizou um estudo comparando dois
usos pretéritos na floresta amazônica, e Solórzano et al. (2005), que realizaram estudo do
efeito de uso pretérito de solo para a produção de carvão na estrutura e na composição
de trecho de Floresta Ombrófila Densa submontana no Rio de Janeiro. Posteriormente,
Santos (2009) analisou, sob o ponto de vista do paleoterritório dos carvoeiros, a resultante
ecológica desta atividade do século XIX e início do século XX.
No entanto, não apenas a vertente físico-biológica fornece a dimensão de usos do
solo na estrutura, na funcionalidade e na composição dos ecossistemas. O exemplo a seguir
evidencia que a resultante ecológica de usos passados ou presentes pode ter fundamento
de caráter simbólico, ligado às crenças das populações tradicionais (SVORC, 2007).
Tabus culturais são freqüentes entre populações tradicionais, podendo interferir no curso
da sucessão ecológica. Como exemplo, entre os caiçaras da Ilha Grande (RJ), as figueiras
(como Ficus ciclophylla, F. insipida, F. glabra, F. gomeleira ou F. alba), por questões culturais,
são mantidas intactas quando da derrubada das florestas para implantação de roçados.
Este arquétipo, presente em várias culturas, pode ter uma possível origem na passagem
bíblica em que Cristo amaldiçoa uma figueira (no caso, Ficus carica) que não produzia frutos
(Mt 21, 18-22). Além disso, na tradição afrodescendente brasileira, com uma confluência
de pelo menos quatro tradições ancestrais africanas, as figueiras ocupam o lugar de uma
espécie africana (Clorophora excelsa) para representar um deus-árvore: o iroco. Seja por um
ou por outro motivo, é extremamente comum encontrarem-se figueiras de grande porte
em meio a áreas secundárias, algumas em estágios iniciais de sucessão. A presença desses
imponentes exemplares impõe modificações na estrutura do bosque, principalmente quando
se trata de formações florestais secundárias. Ao contrário do exemplar da passagem bíblica,
a produção de frutos por estas figueiras brasileiras é intensa e constante, representando um
recurso significativo para a fauna, como o papagaio chauá (Amazona rodocorytha), o tucano
(Ramphastos vitellinus ariel), araçarí (Selenidera maculirostris), o macaco-bugio (Alouatta fusca)
e outros. A presença dessas árvores constitui, ao mesmo tempo, um importante elemento
de atratividade da fauna dispersora de sementes e uma espécie-chave, no sentido proposto
por Whitmore (1984).
Solórzano (2006) aponta a importância ecológica de um único exemplar de Ficus
preservado do corte pelos mesmos motivos acima na estrutura da comunidade vegetal, e
destaca que vários trabalhos ecológicos na Mata Atlântica encontraram esse padrão de
figueiras remanescentes na floresta. No sentido cultural, tal fato pode evocar um aspecto
simbólico da paisagem, ao expressar crenças, valores e mitos de uma população. Essa
dimensão imaterial do paleoterritório, que se traduz em resultantes ecológicas concretas,
evidencia as ações de manejo dos ecossistemas por parte de populações tradicionais.
Percebe-se uma clara aproximação deste ramo da ecologia com as disciplinas citadas
anteriormente. Como Foster et al. (2003) indicaram, os ecólogos passaram a incorporar a
história ambiental como uma parte integrante da pesquisa ecológica. Não fica claro, porém,
exatamente até onde esta incorporação se dá. Contudo, já se evidencia uma tendência à
valorização do elemento histórico para a compreensão dos processos ecológicos. Na atual
conjuntura, parece que a história é vista como uma fonte de dados a respeito do estado dos
ecossistemas no passado e das etapas de transformação (usos) ocorridas em cronosseqüências.
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Ou seja, a história é incorporada para auxiliar na compreensão da realidade atual, mais
especificamente para entender como diferentes usos do solo (agricultura, exploração de
madeira, carvão, etc.) afetam a regeneração do ecossistema. Este é o principal foco desta
linha ecológica: comparar florestas que tiveram usos distintos do solo no passado para buscar
detectar padrões possivelmente diferenciados de regeneração.
Portanto, percebemos que, neste caso, a história tem um foco bastante específico: a
relação do uso histórico do homem em áreas de floresta ou de outro ecossistema. Poderíamos
compreender esse enfoque como sendo uma parte da história ambiental? Como vimos
anteriormente, a história ambiental abrange o conhecimento de diversas áreas, inclusive
da ecologia. Sendo assim, por um lado podemos considerar este ramo da ecologia como
parte da história ambiental, pois está dentro do primeiro conjunto de questões levantadas
por Worster (1991), que seria a compreensão do funcionamento da natureza dentro de
um quadro histórico. Por outro lado, determinados autores, como García-Montiel (2002),
demonstram uma preocupação com estudos ecológicos sem a adequada ponderação da
dimensão histórica com um papel norteador, não só para os processos ecológicos propriamente
ditos, como também como fonte de reflexão acerca dos motivos sociais, culturais, políticos
e econômicos desse processo de uso e transformação.
Do mesmo modo, pode-se compreender o estudo da história de uso do solo como
um estudo de ecologia histórica. De acordo com algumas definições de ecologia histórica
apresentadas anteriormente, a história de uso do solo poderia a ela se adequar. Porém, a
ecologia histórica ainda não apresenta uma definição clara e, como matéria interdisciplinar,
apresenta muitas variações dentro de seu escopo teórico e de seus objetivos. De uma
maneira geral, o enfoque da ecologia histórica apresenta uma abordagem mais antropológica
e ecológica, focando o seu estudo na compreensão do homem como agente transformador
do ambiente, ao mesmo tempo em que procura abranger as conseqüências ecológicas de
tais eventos. Nesse caso, tratar-se-ia de uma preocupação fundamentada em estudar os
fenômenos culturais que motivam as diferentes sociedades a transformar a natureza.
Com esta dificuldade em adequar os estudos ecológicos, referentes aos usos pretéritos
do solo num grupo interdisciplinar, nota-se a importância de estabelecer as semelhanças e
diferenças entre o que vem a ser a história ambiental e a ecologia histórica.

5História ambiental × ecologia histórica
Uma das grandes diferenças entre estas duas disciplinas liga-se às suas gêneses. A
história ambiental surge como uma história intelectual do ambientalismo (WORSTER, 1991;
CRUMLEY, 1993; WINTERHALDER, 1993), enquanto a ecologia histórica advém
das buscas: 1) nos processos históricos da antropologia ecológica; e 2) na ecologia, de
compreender os processos ecológicos passados, com o objetivo de aplicá-los no manejo
de ecossistemas atuais (CRUMLEY, 1993; SWETNAM et al., 1999). Portanto, antes de
estabelecer as diferenças entre história ambiental e ecologia histórica, percebe-se que
dentro da própria ecologia histórica já existe uma divisão: uma abordagem mais cultural
(antropologia) e outra mais ecológica (paleoecologia).
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A partir da busca da antropologia em relacionar os aspectos culturais ao meio
ambiente, surge a antropologia ecológica (CRUMLEY, 1993; ADAMS, 2000). Ocorre, a
seguir, uma fusão de termos, conceitos, teorias e metodologias da ecologia e da antropologia
com um desenho teórico-metodológico bem estruturado. A história ambiental, por sua
vez, parte da busca dos historiadores por compreender tanto os processos históricos de
transformação da natureza quanto o desenvolvimento socioeconômico originário da
utilização dos recursos naturais. A sua tradição analítica está ligada, principalmente, à
história, mas também a outras ciências humanas. Na história ambiental, a ecologia e as
demais ciências naturais são utilizadas para compreender os aspectos do funcionamento da
natureza, em relação à transformação imposta pelo homem (WORSTER, 1991). Ou seja,
apresenta uma tradição maior ligada às ciências sociais, enfatizando o elemento humano
(WINTERHALDER, 1993; RUSSELL, 1997). Portanto, sutilmente, percebe-se a principal
diferença entre as duas disciplinas na ênfase dada pela história ambiental à história em
contraste à ênfase dada pela ecologia histórica à ecologia.
A partir dessa diferenciação surgem algumas questões polêmicas. Winterhalder (1993),
primeiramente, mostra que o tempo não pode ser visto como uma variável causal de
transformação da paisagem. A questão é muito polêmica, visto que na ecologia o tempo de
abandono de um sítio para a sua posterior regeneração é considerado uma importante variável
para a compreensão do grau de recuperação de uma determinada floresta. Simultaneamente,
essa concepção conflita com a metodologia da ecologia histórica aplicada, que utiliza dados
históricos quantificáveis, como, por exemplo, os anéis de crescimento de uma árvore ou as
camadas sedimentares, que medem tempo (SWETNAM et al., 1999).
Outra questão levantada por Winterhalder (1993) é que a história não apresenta
um escopo teórico, o que resulta numa contribuição insuficiente para a compreensão da
relação ser humano-ambiente. Sobre esse aspecto, pode-se tomar emprestado do debate
epistemológico da geografia que a história, em conjunto com a geografia humana e áreas
afins, constituem uma ciência ideográfica, ou seja, que se estrutura na descrição de eventos
particulares, não-generalizáveis. Nesse sentido, cada local tem uma história específica. Em
contraste às ciências ideográficas, existem as ciências nomotéticas, que buscam leis, teorias
e modelos gerais para a explicação dos fenômenos, como a ecologia, a geografia física, a
matemática, etc. (GOMES, 2003). Portanto, não faz parte da história desenvolver teorias
para a explicação de fenômenos e sim descrever os eventos históricos para compreender a
realidade (GOMES, 2003).
Outra abordagem que envolve a diferenciação da história ambiental da ecologia
histórica é o peso do materialismo e do idealismo na análise da dicotomia natureza-cultura.
A perspectiva da análise materialista pressupõe que a natureza molda o comportamento
humano, como, por exemplo, o fato de as práticas culturais serem vistas como adaptações
ao ambiente. A visão idealista da relação ser humano-natureza, por sua vez, preza pelo
sistema de crenças como o principal agente no processo de transformações da natureza
(INGERSON, 1993). Portanto, a diferença fundamental entre as duas linhas de análise
encontra-se na concepção do papel da natureza, ora como moldadora das ações humanas
(materialista), ora como receptora das ações humanas (idealista).
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Ingerson (1993) mostra que existe uma maior tendência de a história ambiental
enveredar por uma abordagem materialista, enquanto a ecologia histórica, por sua vez,
por uma abordagem idealista. A autora discorre sobre a obra de Donald Worster, criticado
por apresentar uma abordagem excessivamente materialista em suas análises. Outros
autores, porém, defendem a incorporação da cultura nas análises de história ambiental
(NASH, 1989 apud INGERSON, 1993; WHITE, 1990 apud INGERSON, 1993). Na
verdade, esta concepção de buscar compreender as relações das concepções ideológicas
em relação à natureza é colocada por Worster (1991) como o terceiro grupo de questões da
história ambiental.
A princípio há um problema de delimitação das duas disciplinas. A história ambiental
tem os seus limites ainda pouco claros, como indicado. Ao mesmo tempo, observa-se, em
alguns momentos, uma sobreposição de idéias e de objetivos entre as duas áreas. Apesar da
dificuldade, em um mesmo trabalho ou proposta, de se realizar uma análise investigativa
que permita compreender "como a natureza afetou o ser humano e ao mesmo tempo como
o homem afetou o meio ambiente" (WORSTER, 1990), parece que a história ambiental
procura envolver toda essa problemática, indo desde as análises mais ecológicas, passando
por abordagens mais socioeconômicas e políticas, além de incluir o campo das percepções e
dos sistemas de crenças.
Em contrapartida, a ecologia histórica procura deter-se nas questões ecológicas,
tentando compreender os fenômenos ecológicos no passado de ecossistemas e a sua evolução
para o atual estado, assim como inserir uma abordagem mais antropológica, objetivando
compreender as diferentes vias de utilização e transformação da natureza, a partir das ações
culturais das sociedades. Nesse último caso, parece haver um maior interesse em estudar
populações tradicionais, devido à sua maior proximidade com o quadro natural e à menor
dificuldade de acesso a informações.
A partir da análise de tais diferenças, é possível perceber muitas semelhanças entre
essas disciplinas, o que pode dificultar a real compreensão da delimitação das mesmas. Talvez
por serem interdisciplinares, envolvendo uma complexidade analítica relativa à relação ser
humano-natureza, sua sobreposição acabe por dificultar que os seus estudiosos façam uso
da atividade compartilhada, única forma de adequadamente atingirem os seus objetivos.
Por outro lado, as dificuldades à praxis destas duas disciplinas trazem novos debates para a
dicotomia ser humano-natureza.

6Considerações finais
Como detalhado anteriormente, a geografia, a partir de certos conceitos, como os
de paisagem, território, escala e região, apresenta diversos elos com a história ambiental
e a ecologia histórica. Isso se deve, em parte, à sua ampla abrangência, e ao período de
sua sistematização, que buscou a incorporação de uma análise explicativa da dicotomia ser
humano-natureza. Fica evidente esta busca em alguns conceitos geográficos, mas é com o
conceito de região que essa dinâmica torna-se mais clara. O pioneirismo na análise conjunta
dos fenômenos sociais e dos fenômenos naturais coloca a geografia em posição privilegiada,
na qualidade de disciplina inerentemente interdisciplinar, capaz de fornecer conceitos para
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os estudos integrados de ambiente e história dos processos humanos. Com isso, o conceito de
região é capaz de promover o encontro entre as ciências da natureza e as ciências humanas,
como preconizava Hartshorne (GOMES, 2003).
Simultaneamente, a geografia histórica tem sido um rico campo de idéias e
concepções a respeito da interação do ser humano com o espaço numa seqüência temporal.
Ainda segundo Williams (1994), a paisagem humanizada apresenta uma síntese para a
incorporação do elemento temporal na geografia. Portanto, estas noções de associação
espaço-temporal da geografia histórica têm muito a contribuir para a história ambiental.
Freitas (2002) destaca também a importância da geografia cultural na construção da
história ambiental. Este ramo da geografia enquadra-se perfeitamente no terceiro nível de
análise da história ambiental: o que trata do papel da cultura e das percepções humanas em
relação à natureza. Neste âmbito, seria uma concepção mais da história espiritual, ou seja, da
história dos valores culturais, políticos religiosos e morais das sociedades sobre a natureza.
Além da forte ligação da geografia cultural com esse terceiro nível de análise, destaca-se
igualmente o papel da geografia física (geomorfologia, hidrologia, climatologia) na descrição
do quadro natural, foco principal do primeiro conjunto de questões da história ambiental
que se atêm à compreensão da natureza em seus diversos aspectos (WORSTER, 1991).
Assim, a geografia pode lançar luzes na discussão sobre a dicotomia ser humanonatureza, na medida em que esta ciência nasce dessa problemática. Do mesmo modo, pode-se
utilizar as vias de análise da ecologia histórica e da história ambiental para aprofundar
a reflexão da geografia, possibilitando, senão uma reunificação, uma aproximação da
geografia física e da geografia humana. Em outras palavras, a história ambiental oferece
uma contribuição para a geografia voltar ao seu estado original, antes de sua fragmentação,
caracterizada como disciplina sistêmica ou holística, em que as análises espaciais incorporam
a dualidade ser humano-natureza.
A história ambiental, como campo interdisciplinar, enfrenta os problemas metodo
lógicos mencionados acima. Estes se encontram associados a uma falta de delimitação mais
clara da disciplina e, portanto, a uma variedade de conceitos e métodos de outras áreas
por ela incorporados, sem que ela própria tenha uma que a defina. Talvez seja esse o maior
impedimento à execução de um estudo realmente interdisciplinar. Apesar de não ter uma
metodologia que lhe seja própria, a história ambiental incorpora um método analíticointegrador calcado em metodologias das disciplinas que a compõem.
Porém, à luz desse desafio, a maior contribuição e importância da história ambiental
é o fato da disciplina fornecer, antes de tudo, um ponto de vista, uma maneira de olhar
para a paisagem e para a natureza, trazendo novos questionamentos e permitindo extrair
informações e dados acerca da história das sociedades. Portanto, a partir do momento em
que se inicia um trabalho com esse olhar e essas perguntas, o mesmo passa a ser norteado
pela história ambiental, independentemente da metodologia empregada. Na verdade, a
história ambiental atua como um grande pano de fundo para certas questões básicas e como
elemento capaz de imprimir uma maior coesão ao trabalho, unindo diferentes conceitos e
temas abordados.
Dentro dessa visão interdisciplinar, estudos integrados que situem os aspectos
históricos dos ecossistemas podem trazer valiosos subsídios à compreensão da transformação
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da paisagem, particularmente em aspectos bastante atuais, como as mudanças climáticas
globais, a redução da biodiversidade e a fragmentação da paisagem. É importante lembrar
que muitos dos processos históricos que produziram as atuais paisagens são ainda correntes,
ou seja, a história ambiental não é uma disciplina voltada apenas para o passado. Portanto a
conservação de ambientes silvestres tem muito a ganhar ao incorporar elementos da história
ambiental e da ecologia histórica, ao compreender os processos históricos e ecológicos do
passado, para melhor planejar e gerir os ecossistemas no presente e no futuro.
Assim, o resgate de novos e antigos paradigmas acerca da relação ser humanonatureza figura-se como uma das contribuições da história ambiental e da ecologia histórica
aos problemas ambientais contemporâneos, (re)significando-os, relativizando-os no tempo
e proporcionando novas alternativas para exploração do mundo natural.

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Ambiente & Sociedade



Campinas v. XII, n. 1



p. 49-66



jan.-jul. 2009

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Ambiente & Sociedade

GEOGRAFIA, HISTÓRIA E ECOLOGIA:
CRIANDO PONTES PARA A INTERPRETAÇÃO DA PAISAGEM
ALEXANDRO SOLÓRZANO
ROGÉRIO RIBEIRO DE OLIVEIRA
REJAN Rodrigues GUEDES-BRUNI
Resumo: O artigo apresenta uma revisão analítica dos conceitos e limites de abrangência da
história ambiental comparada à ecologia histórica. Para tanto, foram discutidas e avaliadas
as influências e raízes fundadoras, bem como a incorporação de conceitos de diferentes
disciplinas de outras áreas do conhecimento, como antropologia, história, geografia,
arqueologia, etnobiologia, etc. Conceitos tais como paisagem, território (paleoterritório),
escalas (espacial e temporal), e região constituem os seus elementos norteadores, em maior
ou menor grau de importância. Objetiva-se com esta abordagem a compreensão da história
ambiental e da ecologia histórica, além de identificar os conceitos unificadores, em cujo
contexto a geografia destaca-se como a área do conhecimento habilitada a integrar as
disciplinas que buscam analisar as relações entre os seres humanos e o seu espaço físico.
Palavras-chave: História Ambiental. Ecologia Histórica. Geografia. Paisagem. Dicotomia
ser humano-natureza.

Geography, history and ecology: building bridges to interpret landscape
Abstract: The paper at issue presents an analytical revision of the conceptual framework and the scientific
boundaries of environmental history in comparison to historical ecology. For this matter we evaluate and
discuss influences, founding ideas as well as the incorporation of different concepts from other areas like
anthropology, history, geography, archaeology, ethnobiology, etc. Conceptual parameters such as landscape,
territory (paleo-territory), scales (spatial and temporal) and region constitute as more or less important
guidelines. The main goal of this paper is to comprehend and differentiate environmental history and historical ecology as well as identify the unifying concepts and understand the role of geography to join the two
disciplines that both in their way try to comprehend the complex interrelation between human beings and
the physical environment that surrounds them.
Keywords: Environmental history. Ecological history. Geography. Landscape. Human-nature dichotomy.

Ambiente & Sociedade



Campinas v. XII, n. 1



p. 211-222



jan.-jun. 2009