História da Geografia

Manual do Candidato
Geografia

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Geografia

MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES
Ministro de Estado
Embaixador Antonio de Aguiar Patriota
Secretário-Geral

Embaixador Ruy Nunes Pinto Nogueira

Presidente
Embaixador José Vicente de Sá Pimentel

Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais

Centro de História e Documentação Diplomática
Diretor
Embaixador Maurício E. Cortes Costa

A Fundação Alexandre de Gusmão, instituída em 1971, é uma fundação pública vinculada ao
Ministério das Relações Exteriores e tem a finalidade de levar à sociedade civil informações
sobre a realidade internacional e sobre aspectos da pauta diplomática brasileira. Sua missão
é promover a sensibilização da opinião pública nacional para os temas de relações internacionais e para a política externa brasileira.
Ministério das Relações Exteriores
Esplanada dos Ministérios, Bloco H
Anexo II, Térreo, Sala 1
70170-900 - Brasília - DF
Telefones: (61) 2030-6033/6034/6847
Fax: (61) 2030-9125
Site: www.funag.gov.br

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História da Geografia

Manual do Candidato
Geografia
Bertha Becker

Fundação Alexandre de Gusmão

Brasília, 2012

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Geografia

Direitos reservados à
Fundação Alexandre de Gusmão
Ministério das Relações Exteriores
Esplanada dos Ministérios, Bloco H
Anexo II, Térreo, Sala 1
70170-900 Brasília - DF
Telefones: (61) 2030-6033/6034
Fax: (61) 2030-9125
Site: www.funag.gov.br
E-mail: [email protected]

Equipe Técnica:
Eliane Miranda Paiva
Fernanda Antunes Siqueira
Gabriela Del Rio de Rezende
Jessé Nóbrega Cardoso
Rafael Ramos da Luz
Vanusa dos Santos Silva
Wellington Solon de Souza Lima de Araújo
Revisão:
Júlia Godoy
Projeto Gráfico:
Wagner Alves
Programação Visual e Diagramação:
Gráfica e Editora Ideal
Fotografia da capa:
Grande Relevo Branco, de Emanoel Araújo. Relevo em madeira esmaltada de branco, 2,70 x 11,17 m, sem data.
Acervo do Ministério das Relações Exteriores

Impresso no Brasil 2013
B395
BECKER, Bertha.
Manual do candidato : geografia / Bertha Becker; apresentação do Embaixador Georges
Lamazière. ­ Brasília : FUNAG, 2012.
196 p.; 29 cm. ­ (Manual do candidato).
Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-7631-420-2
1.História da geografia. 2. Geografia da população. 3. Geografia econômica. 4.
Geografia agrária. 5. Geografia urbana. 6. Geografia política. 7. Gestão ambiental. 8. Manual
do candidato. I. Fundação Alexandre de Gusmão. II. Instituto Rio Branco. III. Manual do
candidato.
CDU: 911
Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Talita Daemon James ­ CRB-7/6078
Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional conforme Lei nº 10.994, de 14/12/2004.

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História da Geografia

Bertha Becker
Doutora em Ciências, Docente-Livre pela Universidade Federal do Rio
de Janeiro (1970) e Professora Emérita da mesma Universidade (2002).
Doutora Honoris Causa pela Universidade de Lyon III (2005). Membro da
Academia Brasileira de Ciências (2006). Foi agraciada com a Ordem de
Mérito Científico (MCT) e a Ordem de Rio Branco (MRE). É professora,
pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Gestão do Território
(Laget) do Departamento de Geografia da UFRJ. Foi agraciada pela
American Geographical Society com a David Livingstone Centenary Medal
e pela Faperj com a Medalha Carlos Chagas Filho, de Mérito Científico.
Participa de vários comitês científicos nacionais e internacionais, tendo sido
vice-presidente da União Geográfica Internacional (1996-2000) e membro
do Grupo Internacional Consultivo do Programa Piloto para Proteção das
Florestas Tropicais Brasileiras (1993-2004).
Sua área principal de pesquisa é a Geopolítica do Brasil, particularmente
da Amazônia.
E-mail: [email protected]

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Apresentação
Embaixador Georges Lamazière
Diretor do Instituto Rio Branco

A Fundação Alexandre de Gusmão (Funag) retoma, em importante iniciativa, a
publicação da série de livros "Manual do Candidato", que comporta diversas obras dedicadas
a matérias tradicionalmente exigidas no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata.
O primeiro "Manual do Candidato" (Manual do Candidato: Português) foi publicado em 1995, e
desde então tem acompanhado diversas gerações de candidatos na busca por uma das vagas
oferecidas anualmente.
O Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata, cumpre ressaltar, reflete de maneira
inequívoca o perfil do profissional que o Itamaraty busca recrutar. Refiro-me, em particular,
à síntese entre o conhecimento abrangente e multifacetado e a capacidade de demonstrar
conhecimento específico ao lidar com temas particulares. E assim deve ser o profissional que
se dedica à diplomacia. Basta lembrar que, em nosso Serviço Exterior, ao longo de uma carreira
típica, o diplomata viverá em diversos países diferentes, exercendo em cada um deles funções
distintas, o que exigirá do diplomata não apenas uma visão de conjunto e entendimento amplo
da política externa e dos interesses nacionais, mas também a flexibilidade de compreender
como esses interesses podem ser avançados da melhor maneira em um contexto regional
específico.
Nesse sentido, podemos indicar outro elemento importante que se encontra
sempre presente nas avaliações sobre o CACD: a diversidade. O Itamaraty tem preferência
pela diversidade em seus quadros, e entende que esse enriquecimento é condição para
uma expressão externa efetiva e que faça jus à amplitude de interesses dispersos pelo país.
A Chancelaria brasileira é, em certo sentido, um microcosmo da sociedade, expressa na
miríade de diferentes divisões encarregadas de temas específicos, os quais formam uma
composição dos temas prioritários para a ação externa do Governo brasileiro. São temas que
vão da Economia e Finanças à Cultura e Educação, passando ainda por assuntos políticos,
jurídicos, sobre Energia, Direitos Humanos, ou ainda tarefas específicas como Protocolo e
Assistência aos brasileiros no exterior, entre tantas outras. Essa diversidade de tarefas será tanto
melhor cumprida quanto maior for a diversidade de quadros no Itamaraty, seja ela de natureza
acadêmica, regional ou ainda étnico-racial. O CACD é, em razão disso, um concurso de caráter
excepcional, dada a grande quantidade de provas de diferentes áreas do conhecimento
acadêmico, buscando com isso o profissional que demonstre o perfil aqui esboçado.
No entanto, o perfil multidisciplinar do Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata
pode representar um desafio para o candidato, que deverá desenvolver sua própria estratégia
de preparação, baseado na sua experiência acadêmica. Em razão disso, o Instituto Rio Branco e a
Funag empenham-se em disponibilizar algumas ferramentas que poderão auxiliar o candidato

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nesse processo. O IRBr disponibiliza, anualmente, seu "Guia
de Estudos", ao passo que a Funag publica a série "Manual
do Candidato". Cabe destacar, a esse propósito, que as
publicações se complementam e, juntas, permitem ao
candidato iniciar sua preparação e delimitar os conteúdos
mais importantes. O "Guia de Estudos" encontra-se
disponível, sem custos, no sítio eletrônico do Instituto
Rio Branco e é constituído de coletâneas das questões
do concurso do ano anterior, com as melhores respostas
selecionadas pelas respectivas Bancas.
Os livros da série "Manual do Candidato", por sua
vez, são compilações mais abrangentes do conteúdo
de cada matéria, escritos por especialistas como Bertha
Becker (Geografia), Paulo Visentini (História Mundial
Contemporânea), Evanildo Bechara (Português), entre
outros. São obras que permitem ao candidato a imersão na
matéria estudada com o nível de profundidade e reflexão
crítica que serão exigidos no curso do processo seletivo.
Dessa forma, a adequada preparação do candidato, ainda
que longe de se esgotar na leitura das publicações da
Funag e do IRBr, deve idealmente passar por elas.

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História da Geografia

Sumário
1. História da Geografia

11

1.1 Expansão colonial e pensamento geográfico

11

1.2 A Geografia moderna e a questão nacional na Europa

15

1.3 As principais correntes metodológicas da Geografia

20

Bibliografia do Capítulo 1

27

2. Geografia da população

31

2.1 Distribuição espacial da população no Brasil e no mundo

31

· A população no mundo
· A população no Brasil
2.2 Os grandes movimentos migratórios internacionais e intranacionais
· Migrações internacionais
· Migrações no Brasil

37
39
42

2.3 Dinâmica populacional e indicadores da qualidade de vida das populações

45

Bibliografia do Capítulo 2

52

3. Geografia econômica

55

3.1 Globalização e Divisão Internacional do Trabalho

55

3.2 Formação e estruturação dos blocos econômicos internacionais

65

· Regionalismo e multilateralismo

68

3.3 Energia, logística e reordenamento territorial pós-fordista

72

3.4 Disparidades regionais e planejamento no Brasil

76

· O planejamento regional no Brasil
Bibliografia do Capítulo 3

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33
36

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Geografia

4. Geografia agrária

87

4.1

Distribuição geográfica da agricultura e pecuária mundiais

87

4.2

Estrutura e funcionamento do agronegócio no Brasil e no mundo

96

4.3

Estrutura fundiária, uso da terra e relações de produção no campo brasileiro

103

Bibliografia do Capítulo 4

111

5. Geografia urbana

113

5.1 Processo de urbanização e formação de rede de cidades

113

5.2 Conurbação, metropolização e cidades mundiais

124

5.3 Dinâmica intraurbana das metrópoles brasileiras

132

5.4 O papel das cidades médias na modernização do Brasil

136

· A dinâmica das cidades médias no Brasil

140

Bibliografia do Capítulo 5

141

6. Geografia política

143

6.1 Teorias geopolíticas e poder mundial

143

6.2. Temas clássicos da geografia política: as fronteiras e as formas de apropriação
política do espaço
149
6.3

Formação territorial do Brasil

158

Bibliografia do Capítulo 6

164

7. Geografia e Gestão Ambiental

169

7.1 O meio ambiente nas Relações Internacionais: avanços conceituais e

institucionais

169

7.2 Macrodivisão natural do espaço brasileiro: bacias, biomas, domínios e

ecossistemas

177

7.3 Política e gestão ambiental no Brasil

Bibliografia do Capítulo 7

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186
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11

1. História da Geografia

1.1 Expansão colonial e pensamento geográfico
Por constituírem duas faces de uma mesma moeda, não é por acaso que a expansão
colonial e a afirmação nacional na Europa do final do século XIX confundem-se com a legitimação do antigo saber geográfico enquanto disciplina acadêmica de grande prestígio oficial,
como veremos nos capítulos a seguir.
Com efeito, nesse período, a expansão do imperialismo, no plano da política internacional, ocorreu em meio à intensa luta entre as potências europeias pela divisão dos continentes
em "zonas de influência".
Dessa forma, a afirmação do próprio sistema capitalista em nova fase ­ o imperialismo
­ trará profunda repercussão na realidade concreta e, portanto, na divisão política do mundo
e, consequentemente, no plano do saber geográfico e de sua aceitação enquanto um conhecimento escolar e universitário estratégico.
Adquiriu-se reconhecimento oficial nesse período, o saber geográfico acompanhou a
descrição e o conhecimento do mundo em todos os tempos. Nesse sentido, Lacoste (1981)
indaga se "as grandes descobertas" e as descrições dos "geógrafos" árabes da Idade Média não
seriam também Geografia.
Recuando no tempo, a geografia existe desde o surgimento de aparelhos de Estado,
desde Heródoto e Estrabão, por exemplo, para o mundo ocidental, que antes da era cristã não
contam simplesmente uma história, mas procedem a um verdadeiro "inquérito" em função
dos objetivos do "imperialismo" comercial ateniense.
Com efeito, segundo Moreira (1985) em sua lembrança mais remota, a geografia nasceu
entre os gregos junto com a filosofia, a história e o teatro, apoiando a expansão comercial
grega na forma de relatos de povos, terras e mapas feitos para servir ao comércio e ao Estado.
Refletindo essa interpretação dos primeiros relatos geográficos, esse autor cita Estrabão,
a quem se atribui a primeira grande obra de sistematização da geografia ao observar que
"a geografia familiariza-nos com os ocupantes da terra e dos oceanos, com a vegetação, os

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Geografia

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frutos e as peculiaridades dos vários quadrantes da Terra;
e o homem que a cultiva é um homem profundamente
interessado no grande problema da vida e da felicidade". Assim, no curso do tempo, dos romanos à "idade das
ciências" (séculos XVIII ­ XIX), a tradição geográfica terá sua
imagem cunhada como um inventário sistemático de terras e povos.
Nesse sentido essa tradição esteve sempre associada seja ao conhecimento do novo, seja ao espírito de domínio que acompanhava, via de regra, esse conhecimento
quando não o sustentava explicitamente.
Aproximando-se mais do pensamento filosófico
que antecedeu e inspirou diretamente o aparecimento da geografia, enquanto pensamento indutor da expansão colonial do século XIX, não se pode deixar de
mencionar a obra de Immanuel Kant (1724-1804), que
durante quarenta anos lecionou na Universidade de
Koenigsberg, Alemanha, o que mais tarde seria denominado "geografia física".
As aulas professadas por ele nessa Universidade servem não só de campo de aplicação de seu sistema filosófico, como irão respaldar grande parte da "geografia científica"
que se desenvolverá na Alemanha e, mais tarde, no mundo.
Para Kant, segundo Moreira (1985), o conhecimento
é dado pelos sentidos, sendo, portanto, um conhecimento
empírico que advém da percepção de um "sentido interno", que revela o homem (antropologia pragmática) e um
"sentido externo", que revela a natureza (geografia física).

Nesse contexto, a percepção orienta a experiência,
que para isso precisa ser sistematizada, cabendo, portanto,
à geografia realizar essa sistematização no plano do espaço, enquanto a história a fará no plano do tempo, uma vez
que a sistematização passa por dois processos associados
à narrativa (história) e à descrição (geografia).
Juntas, portanto, a geografia e a história abarcariam
o conjunto das nossas percepções fundamentando, assim,
o conhecimento empírico necessário ao desbravamento
dos povos e das terras ainda desconhecidas ao europeu
ocidental ou, ao menos, à elite política que aí se consolidava na forma de Estados-nação com pretensão de empreender uma nova expansão colonial.
Para Moraes (2005), a relação entre a geografia e
o colonialismo do século XIX é siamesa, pois se tratava
de promover o levantamento sistemático do mundo extraeuropeu, identificando riquezas potenciais necessárias à evolução do capitalismo que se afirmava em sua
fase imperialista por meio da expansão industrial que
necessitava matérias-primas e novos mercados para
seus produtos.
A Conferência Internacional de Geografia, convocada
pelo rei da Bélgica, Leopoldo II, em 1876, na qual compareceram representantes de um saber ainda difuso adquirido
e difundido pelas sociedades geográficas, diplomatas e exploradores, tinha por objetivo, segundo discurso do próprio

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História da Geografia

monarca, "a tarefa de debruçar-se sobre o continente africano
com o intuito de abrir à civilização a única parte do nosso globo em que ela não havia ainda penetrado..." (MOREIRA, 1985).
Leitor assíduo dos relatos das inúmeras expedições
científicas promovidas fora da Europa, o rei Leopoldo II da
Bélgica tem seu nome relacionado a um dos mais sangrentos regimes coloniais africanos dos tempos modernos
(o do "Estado Livre do Congo"), apesar de opor-se oficialmente ao tráfico de escravos, seguindo a proibição liderada pela Inglaterra desse comércio transatlântico a partir de
meados da década de 1840 (FRIEDEN, 2006).
Em termos de avanço do pensamento geográfico
nesse período pode-se afirmar que até mesmo o impulso verificado nos métodos de análise (como o método
comparativo) e na gênese de uma geografia regional
(CAPEL, 2008) a partir das observações sistemáticas realizadas por viajantes e naturalistas, dentre os quais se
destacou Humboldt, está inserido em um processo de
conhecimento mais aprofundado das terras fora da Europa1, aí incluída a partilha e colonização da África pelas
potências europeias.

O colonialismo no século XIX, longe de se restringir ao entesouramento do ouro e da prata do período
mercantilista de expansão colonial anterior, agora necessitava de fontes renovadas de recursos naturais e,
portanto, de identificar novos caminhos e eventuais restrições para apoiar o projeto geopolítico de hegemonia
financeira e industrial dos países da Europa Ocidental
frente às novas forças econômicas que surgiam tanto na
Rússia, como, secundariamente, na América do Norte.
Nesse contexto, a síntese geográfica associada ao
projeto de observação sistemática da Terra, seja a partir do ponto de vista de um determinismo natural, e/ou
inserida em uma visão possibilista, adaptativa da geografia humana, e/ou mesmo de uma interpretação mais
próxima à geopolítica, serviu como instrumento afiado
para promover a avaliação "científica" do potencial de
expansão do colonialismo europeu naquele momento
histórico.
Com efeito, o "estudo sistemático da natureza", raiz
da geografia moderna que se iniciava em princípios do
século XIX, é indissociável da revolução científica que
se observava desde o final do século anterior. Assim, o
projeto científico que conduziu Humboldt à América espanhola foi por ele definido como uma "empresa idealizada com o objetivo de contribuir para o progresso das
ciências físicas" ao mesmo tempo em que considerava
que a publicação de seu trabalho podia oferecer inte-

1 Grande parte do projeto de formulação de uma "Teoria da Terra" através da
investigação sistemática "de toda a complexa e rica problemática das relações
entre os distintos fenômenos de nosso planeta" realizada por Alexander von
Humboldt (1769-1859), considerado por muitos o pai da geografia moderna
(CAPEL, 2008), foi realizado em expedições científicas às terras não europeia,
notadamente à América espanhola.

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Geografia

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resse "para a história dos povos e o conhecimento da
Natureza"2.
A isenção do projeto de conhecimento ampliado e
aprofundado da Terra, resguardado pelo caráter científico
das expedições e pesquisas nas áreas coloniais, foi posta
em xeque, contudo, quando esse autor denunciou o sofrimento humano causado pela escravidão no vale do Güines, próximo à Havana (Reino da Nova Espanha). Tal fato
não só impediu a realização de expedições que Humboldt
pretendia fazer posteriormente às possessões inglesas na
Ásia, como, também, devido à pressão direta da burocracia
prussiana, foi impedido de abordar questões humanas que
considerava relevantes em sua viagem à Rússia (CAPEL,
2008)3.
De acordo com Bernardes (1982), é na segunda
metade do século XIX que se intensificam as grandes expedições e a exploração científica do interior dos continentes que Humboldt, em suas grandes viagens, começara
pioneiramente a fazer. Foi assim na África, até então co-

nhecida apenas pelos contatos litorâneos realizados pelos
europeus, na Ásia (Sibéria inclusive), como na América do
Norte e na América do Sul. Floresce a era das sociedades
de geografia, de grande prestígio durante um largo tempo.
A expansão colonial das potências europeias constituía o motor dessas sociedades comprometidas basicamente com o conhecimento geográfico aprofundado de
terras desconhecidas e/ou pouco povoadas e com o conhecimento das potencialidades dos novos territórios.
A cartografia geral e temática fazia grandes progressos, produzindo para a Europa, para os Estados Unidos e
também para a Índia cartas em média e grande escalas
com notável riqueza de informações topográficas e geológicas. As observações meteorológicas e oceanográficas
faziam-se cada vez mais regulares e precisas e as respectivas cartas passaram a ser publicadas. Enfim, a organização
dos primeiros serviços de estatísticas regulares deve ser
também levada em conta.
O conhecimento sistemático da superfície terrestre
que começava então a ser elaborado no âmbito da geografia e da cartografia não estava descolado do desenvolvimento de uma formação colonial que implicava invariavelmente a apropriação de novas terras.
Segundo Moraes (2005), tratava-se, assim, na ótica do colonizador europeu, da construção de um espaço
e de uma sociedade que tinha na ocupação do solo e
na expansão territorial a base de poder. Com efeito, para

2 Ao menos desde o final do século XVIII Humboldt já havia definido sua
preocupação com uma "restauração total das ciências", em que se acentuava
a integração dos diversos conhecimentos, uma vez que considerava
insatisfatório todo o sistema científico do século XVIII, baseado na realização
de classificações.
3 De acordo com Capel (2008), apesar de poder ser considerado um
"democrata da Corte", Humboldt sempre defendeu um ponto de vista
democrático permitido por sua elevada posição e imenso prestígio.

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História da Geografia

esse autor, nas colônias o poder originava-se na propriedade fundiária e trazia em si uma acentuação dos processos referidos ao espaço, aí se incluindo até mesmo a
dinâmica da vida social.
Nas Américas, por exemplo, a expansão territorial,
em linhas gerais, estava intrinsecamente assentada na
disponibilidade de terras, possibilidade de avanço da fronteira econômica e demográfica, facilitada pelos caminhos
naturais existentes permitir a enorme velocidade com que
a mineração, a extração vegetal, os rebanhos e as frentes
populacionais penetraram nas remotas extensões do continente, traçando as linhas gerais de definição dos territórios nacionais, através da origem de novas vilas e fronteiras
político-administrativas então criadas.
Cabia, portanto, a um saber geográfico em vias de
se estabelecer como disciplina e conhecimento estratégico na consolidação do nacionalismo europeu, fornecer,
também, o conhecimento necessário não só voltado à
expansão do colonialismo africano do século XIX como à
consolidação da ocupação do interior das antigas colônias
na América.

1.2 A Geografia moderna e a questão nacional na
Europa

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A geografia moderna, como disciplina, tornou-se
um saber estratégico na consolidação da questão nacional na Europa a partir do final do século XIX, alcançando
um papel legitimador da afirmação dos estados nacionais nesse continente, notadamente naqueles países que
passaram por um processo tardio de unificação de seu
território.
Para Touraine (1994), durante todo o século XIX,
a humanidade viveu e pensou dentro do modelo de
sociedade nacional e de classe construído naquele momento enquanto expressão concreta da modernidade
triunfante.
Com efeito, na Europa a plena superação da fragmentação feudal e da legitimidade dinástica implicava
a construção simbólica de novos laços de coesão social
legitimadores da forma estatal de dominação política.
O discurso geográfico moderno foi gerado naqueles
países, como é o caso da Alemanha, onde esse processo
necessitou de uma forte dose de indução, caminhando
junto com a própria consolidação do moderno Estado
nacional.
Nesses países, as representações espaciais forneceram um elemento de referência negado pela história, colocando a discussão geográfica no centro do debate ideo-

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Geografia

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lógico. Isto no berço, pois a partir daí as teorias e conceitos
da geografia se difundem ­ o que em si mesmo é um elemento revelador de sua eficácia ideológica.
A este propósito, Claval (1984) defende que o fim do
século XIX e o princípio do século XX ofereceram os contextos políticos e intelectuais mais apropriados para uma
reflexão sobre o Estado e o seu poder. As nações europeias
acabavam de se constituir em Estados modernos e procuravam, assim, desenvolver o sentido nacional ensinando a
história do país e os traços principais que fazem a originalidade "geográfica" de seu território.
Segundo Schiera (1982), o surgimento do Estado
moderno europeu reflete a tensão que vai do sistema
policêntrico e complexo dos senhorios de origem feudal
à afirmação do Estado territorial concentrado e unitário,
obedecendo a um único centro irradiador de poder e suas
respectivas hierarquias repassadoras, visando a uma racionalização da gestão deste poder e da própria organização
política imposta pelo processo de mudança.
Ao ressaltar o significado histórico da centralização do
poder, esse autor aponta que além do aspecto meramente
funcional e organizativo da formação do Estado moderno,
cabe ressaltar também o caráter político e ideológico deste último, a ser consolidado pelo ensino de uma história e
geografia comum que ajudasse à superação do policentrismo do poder e do território, em favor de uma concentração
do mesmo numa instância unitária e exclusiva.

Os grandes confrontos territoriais a que se assiste
entre o fim do século XIX e o século seguinte giram principalmente em torno dos nacionalismos, convertendo as
questões territoriais em temas relevantes, quer no que se
refere às novas nações, à rivalidade entre as grandes potências de então ­ Inglaterra, França, Alemanha e Rússia ­
quer no que diz respeito à formação e consolidação dos
impérios coloniais.
A essa conjuntura sociopolítica juntava-se, assim,
um contexto de afirmação dos estudos geográficos que
se definiam em torno das relações entre os homens e o
ambiente em que viviam. Essa orientação geral da geografia aparecia, contudo, marcada por diversos matizes, uma
vez que o movimento de constituição do pensamento
geográfico moderno conheceu conjunturas e contextos
de formulação díspares, o que alimentou diferenciações
internas e polêmicas, até porque essa geografia se institucionalizou em "escolas nacionais".
Os antagonismos de interpretação da geografia
moderna iam desde a herança de Karl Ritter (1779-1859),
que se fundava na compreensão das relações entre o destino dos povos e o seu ambiente, à orientação de Friedrich
Ratzel (1844-1904), que indagava acerca da originalidade
dos povos nos diferentes meios de desenvolvimento e nos
diferentes meios naturais, ou à orientação francesa, sob a
influência de Vidal de la Blache (1845-1918), que sublinha-

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História da Geografia

va a importância das civilizações e a ação do homem na
modelagem das regiões geográficas4.
Apesar das grandes diferenças que se foram evidenciando ao longo do período que vai do último quartel do século XIX
e o primeiro do século XX, os grandes temas da geografia humana e da geografia política, em particular, centram-se em torno do Estado, do povo e do território. Os corpos territoriais do
Estado, o território, as fronteiras, as capitais, afirmam-se como
objetos de estudo da geografia política, oferecendo um vasto
campo de estudo inaugurado pela obra de Ratzel.
Na verdade, é no contexto da expansão do pangermanismo que esse autor realizou a obra que vai influenciar,
ainda hoje, a geografia humana ­ Anthropogeographic ­ intimamente associada a sua Politischeographic5.
Para Moraes (1991), o caso alemão, com sua tardia
unificação nacional, aparece como paradigmático, fazendo
desse país o centro teórico da reflexão geográfica ao longo
de todo o século XIX e onde a geografia cumpriu também,
funções ideológicas e políticas consideráveis.

Segundo Capel (2008), a invasão napoleônica deu
lugar a uma reação nacionalista que valorizou os valores
espirituais da cultura alemã, incentivando os estudos históricos e geográficos e contribuindo, em parte, para a criação da cátedra de geografia na Universidade de Berlim, na
qual o papel da filosofia e das humanidades valorizou os
aspectos espirituais da cultura alemã como elemento de
resistência e união, contribuindo para exaltar a história e
a geografia, nas quais eram buscadas as raízes comuns da
personalidade e do futuro poderio germânico6.
A geografia, enquanto disciplina escolar, "naturalizou" as fronteiras políticas entre os países, ajudando a projetar uma forte imagem simbólica do Estado-nação identificada pelo seu formato e pela descrição das inúmeras
características do território nacional. Para Allies (1980 apud
MORAES, 1991), o discurso geográfico foi, sem dúvida, um
elemento central na consolidação do sentimento de pátria
e o principal núcleo divulgador da ideia de identidade pelo
espaço.

4

De acordo com Moraes (1991), enquanto Humboldt e Ritter, animados pelo
êxito da Revolução Francesa, construíam a unificação alemã, Ratzel atuou
como ideólogo do Estado bismarckiano e La Blache, defendia a unidade
cultural e natural da França de leste, lamentando a perda da Alsácia e Lorena.
5 Retomando conceitos ratzelianos, como o de espaço vital, e de geógrafos
americanos e britânicos, o general Karl Haushofer (1869-1946) dá, nas
vésperas da Primeira Guerra Mundial, um impulso decisivo à geopolítica.

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6 Nas décadas que se seguiram à guerra franco-prussiana, a Alemanha
unificada havia surgido no centro da Europa como uma grande potência
militar em expansão que num futuro próximo poderia disputar aos ingleses
o domínio dos mares. Assim, a ruptura do equilíbrio de poder europeu,
que fora estabelecido em 1815 pelo Congresso de Viena, colocou em
perigo tanto a segurança insular quanto a supremacia marítima britânicas,
tornando-se um dos principais fatores de conflagração da Primeira Grande
Guerra.

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Nesse processo, o nacional, através do discurso geográfico, torna-se natural. Assim, entre os acidentes geográficos da superfície da Terra, destacam-se as fronteiras, e estas qualificam povos, cujo caráter vai sendo moldado num
ininterrupto intercâmbio com suas regiões de origem.
O nacionalismo, como ideologia identitária, constituiu, assim, o fundamento do Estado-nação, que progressivamente se superpôs ao Estado moderno. Esta ideologia,
elaborada com o auxílio do ensino da história e da geografia, tornou-se então um recurso simbólico necessário à
consolidação do Estado como instituição política territorializada e legitimada pela sociedade (CASTRO, 2005).
Pode-se afirmar, desse modo, que os europeus inventaram, no mesmo período histórico, não somente o
Estado moderno, conforme Ruggie (1993 apud ARRIGUI,
1996), como a própria geografia enquanto disciplina curricular institucionalizada.
De acordo com Hobsbawm (1991), a "questão nacional", como os velhos marxistas a chamavam, está situada
na intersecção da política, da tecnologia e da transformação social. As nações existem não apenas como funções
de um tipo particular de Estado territorial, como também
no contexto de um estágio particular de desenvolvimento
econômico e tecnológico.
Assim, prossegue o autor, "as nações e seus fenômenos associados, como o nacionalismo e o próprio Estado,
devem, portanto, ser analisados em termos das condições

econômicas, administrativas, técnicas, políticas, entre outras". Nesse processo, a perspectiva holística presente na
proposta da geografia moderna da busca da integração
entre a dimensão natural e social, apresentava-se como o
nicho acadêmico e de ensino por excelência para procurar
descrever tais fenômenos.
A busca de um tratamento integrado de fenômenos
naturais e sociais está na base das indefinições e ambiguidades que caracterizam ainda hoje algumas das categorias centrais da geografia moderna como os conceitos de
meio, paisagem, ambiente, território, região que, tomados
a outras áreas do conhecimento e recontextualizados no
discurso geográfico, emprestaram uma concretude, isto é,
uma "naturalização" aos processos sociais.
A qualificação das sociedades pela sua espacialidade aparece como expressão clara de tal enfoque, no qual
a "naturalização" das fronteiras e das nacionalidades serve
como exemplificação histórica.
No final do século XIX e início do século XX, o entendimento da nação, conforme realizada pela geografia
oficial, foi construído essencialmente pelo alto, em momentos, historicamente diferenciados, de necessidade de
afirmação da centralidade de um Estado, agora entendido
como um Estado territorial, um Estado-nação.
Com efeito, o Estado moderno tornou-se progressivamente um espaço político por excelência, locus de uma
vontade comum, de um poder moral, aceito contratual-

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mente por todos a partir dos instrumentos de legitimação que ele dispunha, notadamente a partir da Revolução
Francesa, que inaugurou a "época contemporânea" e o
aprofundamento da participação da sociedade, estabelecendo os marcos da expressão política de uma vontade
comum e da solidariedade social estabelecida pelas regras
do contrato com a sociedade civil que o legitimam nos limites do território.
Esta solidariedade se fez, pela primeira vez na história, com os recursos à ideia de nação, tendo sido definidos os conteúdos do discurso (histórico e geográfico)
sobre a responsabilidade comum, embasada no local de
nascimento e no pertencimento a uma comunidade de
destino. Ambos são fundadores de uma identidade territorial, cultural e política e são componentes essenciais do
nacionalismo.
Para Hobsbawm (1991), a "nação" pertence exclusivamente a um período particular e historicamente recente. Ela é uma entidade social apenas quando relacionada a
uma certa forma de Estado territorial moderno, o "Estado-nação" e não faz sentido discutir nação e nacionalidade
fora desta relação.
Contudo, nesse processo histórico, a consolidação do
Estado-nação, como instituição inovadora, como uma forma
de poder político territorialmente centralizado, só foi possível pela submissão e pelo controle do território. Este controle
se fez pela imposição da lei, pelo comando centralizado da

burocracia da administração pública e pela uniformização
das instituições sociais: língua, moeda pesos e medidas, etc.
Deve ser observado que a substância da nação, no
sentido de comunidade de destino, resultou da estratégia
política de apropriar-se do sentido identitário contido na
ideia de povo e colá-lo à organização política comandada pelo Estado. O povo passou a ser o corpo da nação, e,
portanto, confundido com ela e submetido à centralidade
territorial do poder político. Além do povo, era necessário,
também, possuir um território e uma lei para se constituir
um Estado-nação.
Sendo o Estado uma construção política e ideológica que se fez no tempo e no espaço, a centralidade
territorial do seu poder decisório foi fundamental para a
tarefa de tomar a si a obrigatoriedade de fornecer educação para todos, utilizando o aparato institucional a sua
disposição para as exaltações simbólicas do nacionalismo. Disciplinas como a história e a geografia foram estratégicas nesta tarefa.
Na atualidade, do ponto de vista da geopolítica,
pode-se afirmar que à geografia dos oficiais que decidem
com base nos mapas as táticas e estratégias, à geografia
dos dirigentes do aparelho de Estado, que estruturam o
seu espaço em províncias, circunscrições, distritos e à geografia dos exploradores (muitas vezes oficiais) que preparam a conquista colonial e a exploração, conforme descrita por Lacoste (1981), juntou-se a geografia das grandes

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corporações e dos grandes bancos que decidem sobre a
localização dos seus investimentos em nível regional, nacional e internacional, fazendo do sistema logístico, o vetor espacial mais importante no qual se trava a guerra pela
competitividade econômica na contemporaneidade.
Além da leitura "pelo alto" feita pela geografia oficial
do início do século passado da questão nacional na Europa, inúmeros geógrafos contemporâneos propõem uma
leitura do espaço geográfico a partir da complexa teia de
interesses que caracterizam as relações sociedade-natureza nos dias atuais.

1.3 As principais correntes metodológicas da Geografia

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O debate em torno das correntes metodológicas da
geografia não é descolado do contexto geral de evolução
das demais ciências e dos métodos que permitem captar a
apreensão das diversas dimensões ­ socioeconômica, ambiental, cultural e política ­ presentes em um mundo em
constante transformação.
Nesse sentido, o aprimoramento do arcabouço metodológico utilizado e uma preocupação constante com
sua adequação à dinâmica específica do espaço geográfico, constituem uma questão central na qual cada novo
ponto de partida abre espaço para novas questões e outros tantos desafios e questionamentos.
Desse modo, não se pode perder de vista de um
lado a sintonia com os problemas centrais que afetam a sociedade e o espaço geográfico nos dias atuais e, de outro
lado, a preocupação com os próprios avanços ocorridos na
geografia em termos conceituais, metodológicos e operacionais ao longo do tempo.
A questão metodológica tem que ser vista, assim,
no bojo da problemática teórico-conceitual da geografia
como um todo e, portanto, tendo como balizamento os
anseios e indagações que instigam o pensamento geográfico no curso da história.
Com uma trajetória marcada pelo empiricismo, a
"geografia tradicional" deve essa característica, em grande

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parte, ao fato de ter sido uma disciplina escolar antes mesmo de se constituir em campo de investigação científica.
Desse modo, ela inicialmente estruturou um conjunto de
informações sobre o mundo e as ensinou em currículos escolares para somente mais tarde projetar-se na academia.
Cabe destacar, como acontecimento fundamental,
o estabelecimento de cátedras de geografia em várias
universidades na Europa, onde, de acordo com Bernardes
(1982), o governo da Prússia foi pioneiro, a partir de 1874,
e logo em seguida, toda a Alemanha, recentemente unificada.
Ainda segundo esse autor, as principais referências
da geografia alemã nessa época foram Ferdinand von Richthofen (1833-1905) e, posteriormente, Friedrich Ratzel
(1844-1904). No entanto foi Paul Vidal de la Blache (1845-1918), o grande "chefe de escola" francês, que centralizou,
na virada do século XIX para o século XX, o intenso movimento intelectual que não apenas veio dar à geografia
uma nova feição metodológica como também contribuiu
fortemente para consolida-la como um campo profissional
legitimado pela academia.
Essa efervescência metodológica da chamada Moderna Geografia a partir da última década do século XIX
correspondeu a um contexto histórico mais amplo, relatado anteriormente, assim como ao confronto com outros
campos da ciência em evolução.

Nesse sentido, influência poderosa no campo geográfico teve o desenvolvimento das ciências biológicas e
das ciências sociais, causando debates de crucial importância para a disciplina ainda em fase de consolidação.
Pode-se afirmar assim que, da influência e do confronto com as ciências naturais e sociais daquele período,
sobretudo devido ao darwinismo, reforçou-se o caráter
ambientalista da geografia através do estudo das relações
entre o homem e o meio, a partir do qual eclodiu o confronto doutrinário "determinismo versus possibilismo" que
desde então irá marcar grande parte das escolhas metodológicas que se fará na geografia (BERNARDES, 1982).
Cabe observar que ainda em seu período formativo,
a geografia foi marcada por problemas metodológicos que
envolveram e ainda estimulam grandes discussões nesse
campo do conhecimento, definindo linhas de pesquisa,
grupos acadêmicos ou até mesmo levando à proposta de
novos paradigmas7.
Nesse contexto, enquanto o determinismo postula que "o homem é um produto da superfície terrestre"8,

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7 De acordo com Bernardes (1982), os mais clássicos dos problemas que
estão na raiz das escolhas conceituais e metodológicas feitas na geografia
tradicional são: o da "dicotomia entre geografia física e geografia humana";
o da questão do próprio objeto (ou campo) da geografia; o da sua natureza
como ciência e o da sua posição entre as ciências naturais e sociais.
8 Isto é, ele não apenas "é filho da terra, pó do seu pó, mas que a terra tem-lhe servido de mãe, alimentado, estabelecido suas tarefas, dirigido seus

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os elementos do meio natural no possibilismo não "produzem" resultados, independentes do momento histórico. Isto é, eles constituem "condições" (e não "fatores")
que pesam ora mais, ora menos poderosamente, pautando os resultados de outras forças originárias de ação
humana.
Os possibilistas foram buscar inspiração principalmente na interpretação das sociedades primitivas e tradicionais9 a partir das quais foi produzida por Vidal de la Blache e
seus discípulos imediatos uma noção fundamental para o
novo método geográfico: a noção de gênero de vida.
Nesse sentido, nas relações entre o homem e o
meio, o homem não é um mero elemento passivo; ele
é sobretudo um agente e sua ação é tanto mais antiga
quanto mais avançado seu grau de cultura e mais desenvolvida a técnica de que é portador. Desse modo, dentre
as condições oferecidas pelo meio, o homem escolhe as
de maiores possibilidades para a sua sobrevivência e o seu
desenvolvimento cultural.
As condições históricas possuem, assim, um significado particular nas relações homem-meio, no seu desen-

volvimento cultural e no seu papel como agente modificador da superfície da Terra.
Não se trata, portanto, de negar a influência do meio
que é, por vezes, poderosa, mas sim de enfatizar como os
grupos humanos e o meio interagem mutuamente, produzindo uma resultante geográfica entre meio natural e meio
cultural. Ao mesmo tempo, os possibilistas não negavam
a ideia, presente nos deterministas, do "todo" da superfície
terrestre, da inter-relação entre todos os fenômenos nesta
mesma superfície.
Nesse contexto, La Blache edificou seu método geográfico em torno de dois pontos principais:

pensamentos, confrontando-o com dificuldades que têm fortalecido
seu corpo, aguçado sua capacidade mental", etc. (SEMPLE, 1911 apud
BERNARDES, 1982).
9 As expedições do século XIX e o desenvolvimento da etnografia foram
realçando o papel da cultura e da técnica na conquista do meio pelo homem.
Nesse contexto destaca-se a contribuição de Lucien Febvre que em sua obra
"La terre et l'évolution humaine" (Paris, 1924) faz a crítica do determinismo.

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· Adotando uma base filosófica de interpretação
dos fatos constituída pela doutrina do possibilismo, a qual se tornou a refutação final ao determinismo geográfico.
· Adotando o estudo das regiões como o meio
mais adequado ao conhecimento das relações
homem-meio, centro da controvérsia filosófica,
que seria apenas superada no período entre as
duas guerras mundiais.
Desse modo, o estudo da região, ao privilegiar a intuição, a observação e a descrição da paisagem10 como o

10 Otto Schlüter (1872-1952) vê a geografia enquanto ciência da paisagem criada
pelo homem. O conceito de paisagem tornou-se comum em uma época em

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método analítico por excelência, a geografia tradicional
terá no empiricismo sua base de sustentação.
No período entreguerras, a trajetória metodológica
da geografia será marcada por uma tensão entre a força da
tradição empiricista clássica e a necessidade de sua superação através da adoção de um campo teórico-metodológico lastreado no pensamento científico.
Pode-se afirmar que a geografia tradicional em
questão de método pouco se afastou da recomendação
de Ritter (1779-1859) no sentido de que ela deveria ser empírica e de que o observador deveria progredir de observação para observação na busca de leis gerais e não partir de
opiniões preconcebidas para hipótese e para observação.
Vidal de la Blache não se afastou desse espírito, uma vez
que a tradição vidaliana foi fiel ao método intuitivo.
Nesse contexto, abalada pelo aprofundamento
das relações da geografia com as ciências sociais e a
economia11 e pela ênfase dada à abordagem sistêmica e

à assimilação do método científico através da busca de
leis gerais e do desenvolvimento da teoria, ocorre a ruptura no paradigma da geografia tradicional pela Nova
Geografia (New Geography) que privilegia métodos
quantitativos. Portanto, de acordo com Faissol (1978), o
novo paradigma da geografia é sistêmico, isto é, usa a
matemática e a estatística, por concepção e ao mesmo
tempo por necessidade, mas continua essencialmente
geográfico porque sua principal área e objetivo é a análise espacial.
Nessa trajetória destaca-se, a partir de meados do
século XX, um movimento de grande importância no entendimento do enquadramento metodológico da geografia, a partir do qual podemos compreender, de certo
modo, a complexa matriz metodológica que marca hoje
esse campo do conhecimento no Brasil e no mundo.
Com efeito, a "revolução" teórico-quantitativa que
balizou grande parte da produção da geografia brasileira
nos anos 70, na busca de embasamentos teóricos e operacionais sólidos e de uma linguagem universal de comunicação e entendimento com outros campos do saber pode
ser caracterizada pela adoção de técnicas quantitativas e
modelos conceituais matemático-estatísticos.
O momento histórico em que surgiu esse paradigma foi caracterizado pela intensa urbanização, industrialização e expansão de capital, gerando modificações profundas na organização espacial e em seu entendimento

que os geógrafos alemães estavam estudando áreas cada vez menores, nas
quais a landschaft seria um todo homogêneo identificável por sua aparência e,
portanto, servia como uma base empírica de método de pesquisa de campo.
11 Após a Segunda Guerra Mundial, Pierre George contribuiu para abalar
a rigidez da tradição vidaliana com a forte integração da geografia em
um campo indissociável de relações socioeconômicas, no qual o "espaço
geográfico organizado pelo homem" passa a substituir o binômio homem-meio pelas relações homem-espaço revelando a "dinâmica introduzida pelo
homem na superfície terrestre". Segundo Andrade (1987), notadamente
quando da publicação de Geografia Ativa, Pierre George rompe com a velha
tradição descritiva da geografia abrindo caminho para uma perspectiva mais
politizada com uma clara preocupação com a dimensão social.

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Geografia

que acabaram por abalar profundamente os conceitos e
métodos que pautavam a Geografia até aquele momento.
Para Moraes (1981), essa nova "Geografia Pragmática" efetua uma crítica apenas à insuficiência da análise tradicional no que tange a seu caráter pouco pragmático, não
atingindo, contudo, seus fundamentos e sua base social.
Nesse sentido, esta disciplina privilegiava uma ótica
retrospectiva, estando, assim, pouco habilitada a projetar
o futuro e, portanto, inoperante como instrumento de intervenção na realidade. Os autores da Nova Geografia vão
propor, deste modo, uma ótica prospectiva, um conhecimento voltado para o futuro, que instrumentalize uma
Geografia aplicada. Daí sua denominação de pragmática
(MORAES, 1981).
Calcada no positivismo lógico, a Geografia Quantitativa ou Teorética12 ou, simplesmente, New Geography, ao
adotar métodos hipotético-dedutivos, apoiados em modelos matemático-estatísticos, promoveu, de acordo com
Moraes (1981), uma renovação conservadora da Geografia,
onde ocorre a passagem, ao nível dessa disciplina, do
positivismo para o neopositivismo. Troca-se o empirismo da observação direta (do "ater-se aos fatos" ou dos

12 Segundo Sposito (2004), a palavra teorética (uma tradução do inglês
theoretical) levou à aceitação e incorporação por todos, sem contestações
aparentes, do adjetivo teórico por apenas uma corrente doutrinária inspirada
no neopositivismo, negligenciando qualquer outra possibilidade de outras
correntes também produzirem teorias.

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"levantamentos dos aspectos visíveis") por um empirismo mais abstrato, dos dados filtrados pela estatística
(das "médias, variâncias e tendências"). Do contato direto com o trabalho de campo, ao estudo filtrado pela
parafernália da cibernética. Nesse processo, sofistica-se
o discurso geográfico, tornam-se mais complexas a linguagem e as técnicas empregadas.

Assim, da aceitação dos métodos indutivos (e toda
a Geografia Tradicional faz o elogio da indução) passa-se
a aceitar também o raciocínio dedutivo. Da contagem e
enumeração direta dos elementos da paisagem, para as
médias, os índices e os padrões. Da descrição, apoiada na
observação de campo, para as correlações matemáticas
expressas em índices estatísticos.
Nesse contexto, o objeto de estudo da Geografia ­
o espaço geográfico ­ será estudado de forma abstrata,
sendo concebido como uma expressão topológica, decorrendo daí a importância dos modelos e fórmulas lógicas
para sua interpretação, nos quais o homem aparece como
mais uma variável a ser levada em conta, ou seja, destituído
de qualquer expressão social ou histórica, sendo encarado
como um elemento genérico dentro de um vasto universo de variáveis espaciais. Assim, o espaço não é concebido
como algo produzido historicamente pela sociedade.
Para Moraes (1981), o saldo da Geografia Pragmática foi, ao lado de um real crescimento técnico-operacional
alcançado, um empobrecimento na sua capacidade ana-

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lítica. Nesse sentido, acusada por muitos geógrafos de
fornecer uma visão excessivamente neutra de um espaço
geográfico marcado por um momento histórico de inúmeros conflitos e rupturas na sociedade, a New Geography tem
seus fundamentos metodológicos cada vez mais contestados pela Geografia Crítica.
Desse modo, será a leitura qualitativa da realidade
concreta revelada pelo espaço geográfico com suas tensões e contradições derivadas das relações sociais, econômicas e políticas que irá marcar a geografia crítica e os
novos horizontes conceituais e metodológicos a ela associada. Essa corrente defendia, sobretudo, uma geografia
menos "neutra" e, portanto, mais engajada com os princípios da justiça social, diminuição das desigualdades sociais
e regionais.
Ela se consolidou no contexto de forte revisão de
ideias e de valores das décadas de setenta e oitenta do século XX influenciadas pelos movimentos de maio de 1968
(na França), das lutas civis, do fim da guerra do Vietnã, dos
movimentos feministas nos Estados Unidos e na Europa,
do acesso a terra na América Latina e do surgimento da
Ecologia.
Em termos ideológicos, o diálogo com o pensamento de esquerda foi uma constante nesse período, destacando-se o estabelecido com os pensadores da Escola
de Frankfurt, com o anarquismo (Réclus, Kropotkin), com

Michel Foucault e com o marxismo e os marxistas, em particular os não dogmáticos.
Anunciando uma transição, "possivelmente marcante no pensamento crítico" (SOJA, 1993 apud HISSA & GERARDI, 2001), a geografia passa a dialogar na atualidade
com teorias, conceitos e métodos que procuram abandonar referências clássicas da modernidade nas quais se incluem a concepção marxista da ciência13, caminhando em
direção das novas fronteiras do conhecimento.
Nas últimas décadas são sucessivos os movimentos
internos à ciência como um todo e à geografia, em particular, que sugerem uma consciência de ruptura do ambiente
teórico e metodológico convencional e a construção de
novas posturas que poderiam ser identificadas como a
emergência de um saber intitulado por alguns como "pós-moderno" (HISSA & GERARDI, 2001), incluindo-se ainda
incursões a teorias, como a do caos, que se voltam para
enfrentar os desafios postos pela questão ambiental na
atualidade.
Nesse contexto, segundo Andrade (1995), não é fácil
elaborar um esquema de teorização e de metodologia únicos para a Geografia ou para qualquer outra disciplina no

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13 Não se pode afirmar com precisão que a obra de Soja desvencilha-se de
paradigmas modernos e, em especial, do marxismo. Com efeito, esse autor
refere-se, inclusive, a uma "pós modernização da geografia marxista" (SOJA,
1993 apud HISSA & GERARDI, 2001).

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momento de grandes indefinições e transformações em
que se vive na contemporaneidade.
Nesse sentido, Megale (1976) afirma que não existe
na atualidade um padrão metodológico para o pesquisador; este deve possuir uma versatilidade, uma habilidade
quanto ao problema pesquisado e os meios de se chegar
a ele.
A geografia na atualidade passa, assim, por um momento rico de revisões em um contexto global de crise
das ciências e da humanidade (HISSA & GERARDI, 2001) no
qual as expectativas de progresso são substituídas, ou ao
menos acrescidas, segundo esses autores, por incertezas
postas, entre outras, pela propagação da técnica e da informação em escala planetária e em ritmo acelerado apontando para uma complexidade de matrizes conceituais e
metodológicas portadora de mudanças não só nesse campo do conhecimento como na ciência em geral.
Para Correa (2010), na atualidade, e no caso específico do Brasil, não se pode falar em "Escola Brasileira de Geografia", que tem como um suposto a natureza monotônica
de seu pensamento, de análises alicerçadas em um único
paradigma. Pode-se falar em Geografia Brasileira, que teve
uma trajetória que partiu do monismo para chegar ao pluralismo. Neste pluralismo convivem, em maior ou menor
grau, conceitos e formulações teóricas advindas de fontes
diversas, expressas nas contribuições de diversos autores e
correntes conceituais e metodológicas.

Nesse contexto, afirma Correa, a trajetória da geografia brasileira caracterizou-se pela crescente complexidade de paradigmas, na qual matrizes distintas, antagônicas
ou complementares foram sendo incorporadas, gerando
no começo do século XXI um nítido e enriquecedor pluralismo.
Na multiplicidade teórico-metodológica contemporânea dentro e fora do Brasil "as tendências atuais na
Geografia são variadas, o que é bastante útil ao desenvolvimento da ciência" (DINIZ, 1984). Desse modo, a Geografia,
que tem como objeto de estudo o espaço geográfico e
suas interações, possui inúmeras possibilidades teórico-metodológicas e técnicas, configurando um pluralismo
metodológico.
Cabe observar que admitir um método ou teoria
ideal para a geografia é desconsiderar a história do pensamento geográfico e de suas características fundamentais
que fazem dela um campo do conhecimento privilegiado
do exercício transdisciplinar e do ensaio da integração necessária para se entender a complexa realidade do mundo
contemporâneo.
Assim, a geografia contribui em muito na atualidade
para acelerar a aproximação entre as áreas do conhecimento, ampliando os horizontes conceituais e metodológicos
da ciência que, por sua vez, resultam na elaboração de
estratégias de planejamento de uma realidade socioambiental que requer uma visão multiescalar dos complexos

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problemas que envolvem as relações estabelecidas entre
os diversos continentes, países, regiões, lugares e comunidades de um planeta que se conecta instantaneamente.
A revalorização da geografia e de seus métodos de
pesquisa se evidencia em um momento histórico como o
atual no qual o uso "sustentável" do território está na raiz de
grande parte dos problemas e das soluções que gravitam
em torno dos grandes dilemas do século XIX, tais como o
da questão ambiental e da permanência e renovação das
desigualdades e de conflitos socioespaciais.

História da Geografia

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2. Geografia da população

2.1 Distribuição espacial da população no Brasil e no mundo
A distribuição espacial das populações diz respeito sobre onde as pessoas vivem, por
que lá se concentram, para onde estão indo e o que as motivam a se deslocarem e a escolherem os lugares de destino. O planeta apresenta uma distribuição bastante heterogênea
das populações humanas e é a combinação de vários fatores que explica essa disparidade de
densidade populacional. São eles: os contextos históricos e culturais específicos, o desenvolvimento econômico desigual das áreas, as características demográficas (como taxa de fecundidade, natalidade e mortalidade) e a diversidade de ambientes físicos, com maior ou menor
facilidade de ocupação.
Ao longo da história da humanidade, a disponibilidade de recursos naturais e relevos
que facilitassem a acessibilidade, a sobrevivência e a defesa foram fatores importantíssimos
para a concentração de pessoas. O fácil acesso a suplemento de água potável e a recursos
minerais como ferro, carvão e petróleo e a existência de solos férteis e de potencial de cultivo privilegiaram certas áreas para a ocupação em detrimento de outras. Os férteis vales de
grandes rios como o Ganges, na Índia e o Amarelo, na China são exemplos de regiões que
apresentam enorme concentração populacional em função da elevada produtividade de suas
planícies fluviais.
Alguns elementos físicos devem ser destacados como importantes dificultadores de
concentração demográfica, são eles: altas latitudes, relevo acentuado (altas altitudes), áreas de
temperaturas e umidade extremas (como os grandes desertos), áreas polares e com escassez
de água. Em contrapartida, locais que apresentam clima com temperaturas moderadas, chuvas regulares e solos férteis, assim como a existência de importantes fluxos hídricos, favorecem
o aumento da densidade demográfica.
Evidentemente, estas facilidades e dificuldades são relativizadas pela tecnologia disponível em cada sociedade. Por exemplo, a concentração demográfica existente na Roma
antiga só foi possível graças a tecnologia dos aquedutos. Técnicas de extração de água por

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Geografia

32

meio de poços artesianos profundos e de usinas de dessalinização possibilitam um grande aumento da concentração demográfica. Israel, por exemplo, produz 21% da água
que consome a partir do mar, 32% do subterrâneo e 22%
da reutilização do esgoto. O mar da Galileia, outrora grande fonte de água da região, responde por apenas 25% da
água consumida em Israel14.
Da mesma forma, obstáculos naturais antes intransponíveis, hoje podem ser superados por obras de engenharia como túneis e pontes, rodovias e ferrovias, mudando radicalmente as condições de acessibilidade de regiões
inteiras. Também o avanço da tecnologia agrícola e da logística oferecerem novas possibilidades de valorização dos
territórios para fins de ocupação humana.
A distribuição das populações no espaço mundial
passou a sofrer profundas transformações, principalmente
a partir do século XIX, com o processo de modernização
das sociedades baseado no progresso técnico, no desenvolvimento industrial, no comércio e na urbanização. Regiões pioneiras no processo de industrialização se tornaram grandes centros de concentração demográfica, como
o nordeste dos EUA e a Europa ocidental. E a decorrente
ampliação de infraestrutura e melhorias nos meios de
transportes foi e continua sendo fundamental para intensi-

ficação dos deslocamentos e direcionamento de fluxos humanos. A ocupação do oeste norte-americano, por exemplo, teve como suporte o progresso técnico das ferrovias.
As cidades surgem, crescem e se dinamizam em função de
sua conectividade viabilizada por redes de transporte e de
comunicação. A acessibilidade é, portanto, fator primordial
nos estudos de distribuição demográfica.
Neste sentido, não é fortuita a forte concentração
da população mundial nos litorais e nos vales dos grandes rios, pois estas áreas apresentam boa acessibilidade
natural. Porém, a tecnologia, como dito, pode alterar as
condições de acessibilidade. Na Amazônia brasileira, os vales dos rios, em especial o do rio Amazonas, eram as áreas
preferenciais de ocupação. Com a construção de rodovias
penetrando a floresta ao sul e a leste, estas áreas passaram
a ser as maiores concentradoras de população, alterando
um padrão histórico.
O processo de modernização das sociedades não
ocorre de forma igual nem no tempo ou no espaço. As
decorrentes transformações demográficas não seguem o
mesmo padrão em todos os lugares. Uma das principais
transformações ocorridas, a urbanização, apresenta características bastante distintas ao redor do mundo (ver capítulo 5). Do ponto de vista estritamente demográfico, a mais
importante mudança que ocorreu no séc. XX foi a queda
acentuada da fecundidade, que teve impacto direto na desaceleração do crescimento da população e na mudança

14 De acordo com o jornal Valor Econômico, edição de 17/07/2009.

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da estrutura etária ­ o envelhecimento da população. Este
processo se deu com a regulação voluntária da fecundidade pela população, através do uso de métodos contraceptivos (BERQUÓ, 2001).
A economia e a política são fatores poderosos na
explicação da distribuição da população. As regiões economicamente mais dinâmicas concentram mais habitantes, por meio de uma migração que busca maior oferta de
oportunidade de trabalho. É o que explica o crescimento
das megacidades em todo o mundo (ver capítulo 5) e, em
parte, a concentração populacional em países como Estados Unidos e Alemanha, que possuíam em 2010 respectivamente 42,81 e 10,76 milhões de estrangeiros vivendo
em seus territórios. Aliás, boa parte da população que vive
hoje em países como Brasil, Canadá, Argentina, Chile, Austrália e Estados Unidos descende de estrangeiros que migraram para estes países estimulados por políticas oficiais
de migração.
De fato, a distribuição da população no Brasil e no
mundo se explica por um acúmulo histórico de fatores
demográficos, sociais, políticos, econômicos e culturais,
associados a características naturais nas quais o peso de
cada fator e sua temporalidade na explicação do padrão
de distribuição territorial varia de lugar para lugar.

Geografia_Book.indb 33

Geografia da população

A população no mundo
A população mundial era em 2011 de 6,97 bilhões
de pessoas (UN, 2011b). As estimativas apontam para um
contínuo crescimento demográfico entre 2011 e 2050,
ainda que seu ritmo diminua. Com base nessas projeções,
para 2050 é esperada uma população de 9,3 bilhões de
habitantes, considerando a tendência de queda da fecundidade. Essa crescente população, que está distribuída de
forma irregular, apresenta enormes concentrações demográficas no leste asiático e no subcontinente indiano. Em
2011, 37,1% da população do mundo vivia na China e na
Índia. Incluindo os outros oito países mais populosos do
mundo, a concentração chega a 58,8% da população mundial (Tabela 2.1).


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34

Geografia

Tabela 2.1 - Países mais populosos do mundo - 2011
População
(milhares)
1.347.565
1.241.492
313.085
242.326
196.655
176.745
162.471
150.494
142.836
126.497
114.793
94.852
88.792
84.734
82.537
82.163
74.799
73.640

Ordem

País

1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18

China
Índia
Estados Unidos
Indonésia
Brasil
Paquistão
Nigéria
Bangladesh
Rússia
Japão
México
Filipinas
Vietnã
Etiópia
Egito
Alemanha
Irã
Turquia

19

Tailândia

69.519

20

Rep. Democrática do Congo

67.758

21

França

63.126

22

Reino Unido

62.417

23

Itália

60.789

24

África do Sul

50.460

25

República da Coreia

48.391

Fonte: World Population Prospects: The 2010 Revision. Highlights. New York: UN, 2011.

Geografia_Book.indb 34

O crescimento da população mundial teve um lento ritmo até o século XVIII, a partir da queda dos índices
de mortalidade. Mas é principalmente no século XX, e primeiramente nas regiões industrializadas, que a população
passa a crescer intensamente devido ao aumento da longevidade possibilitada por avanços médicos e sanitários e
mudanças no modo de vida. Entre os anos de 1965 e 1970
(UN, 2009b), o crescimento anual da população mundial
chegou a 2%, índice incrementado também pela mudança demográfica nos países pobres. Em alguns destes países, houve primeiramente uma forte queda das taxas de
mortalidade, e em apenas poucas décadas depois, alcança
uma queda correspondente nas taxas de natalidade. O resultado é que certos países, entre eles o Brasil, experimentaram um forte crescimento demográfico, aumentando,
então, a sua participação no total da população mundial.
A partir de 1970, o ritmo do crescimento populacional mundial experimentou um início de desaceleração
como resultado da queda de fertilidade nos países em
desenvolvimento. Ainda que o ritmo de crescimento nos
últimos quarenta anos venha diminuindo, o nível de incremento demográfico ainda é significativo. As projeções para
2050 apontam para um aumento da população mundial,
com previstas taxas de crescimento de 1,18% ao ano para
o período de 2005-2010, caindo para 0, 34% para o período
de 2045-2050. Esse crescimento demográfico mostra-se de
forma díspar entre países centrais e periféricos. A tendên-

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Geografia da população

cia é que o segundo grupo de países concentre o crescimento, e em pelo menos 31 deles, na sua maioria pobre,
espera-se a duplicação populacional no período. De fato,
é notável a perda de participação da Europa na população
mundial entre 1950 e 2011, bem como na projeção para
2050 (Tabela 2.2). Em contraposição, a África aumenta bastante a sua participação.

Tabela 2.2 - Distribuição da população mundial 1950/1980/2011/2050
Região

População (milhões de habitantes)

População (% do total mundial)

1950

1980

2011

2050(1)

1950

1980

2011

2050(1)

230

483

1.046

2.192

9,1

10,8

15,0

23,6

1.403

2.638

4.207

5.142

55,4

59,2

60,3

55,3

Europa

547

693

739

719

21,6

15,6

10,6

7,7

América Latina e Caribe

167

362

597

751

6,6

8,1

8,6

8,1

América do Norte (2)

172

254

348

447

6,8

5,7

5,0

4,8

Oceania

13

23

37

55

0,5

0,5

0,5

0,6

África
Ásia

Fonte: World Population Prospects: The 2010 Revision. Highlights. New York: UN, 2011.
(1) projeção considerando o cenário médio de crescimento
(2) exceto México

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Geografia

A população no Brasil
A distribuição espacial da população é o retrato da
formação territorial. Num primeiro momento, a ocupação do Brasil se restringia a poucos pontos no litoral, que
cumpriam a função de defesa do território e também de
entreposto comercial. Estas ocupações deram origem a algumas das maiores cidades do país, como o Rio de Janeiro,
Salvador, Recife/Olinda e Belém. Durante os séculos XVI e
XVII, as atividades econômicas da colônia se concentravam
próximas ao litoral, especialmente a produção de açúcar
no Nordeste, gerando uma primeira concentração demográfica naquela região.
Foi lentamente que o interior do território começou
a ser ocupado, dado as vastidões dos sertões e a dificuldade de acessibilidade. Os criadores de gado, que abasteciam
de carne e couro as áreas do litoral, e os bandeirantes, que
partiam em jornadas pelo interior em busca de minerais
preciosos e da captura de escravos foram pioneiros neste
processo. Para isto, os vales dos rios normalmente eram os
caminhos naturais.
O primeiro grande processo de interiorização da população brasileira veio com a descoberta de ouro em Minas Gerais, causando grande afluxo de pessoas para aquela
região. Em decorrência disto, a capital da colônia também
se deslocou de Salvador para o Rio de Janeiro, iniciando
o processo de transferência do eixo demográfico do país
para a Região Sudeste.

Geografia_Book.indb 36

36

Já no século XIX, o cultivo do café ganhou gradativamente importância, primeiro no Vale do Paraíba Fluminense, depois se expandindo em direção a Minas Gerais e São
Paulo. Nesta então província, o trabalho escravo foi sendo
gradativamente substituído pela mão de obra imigrante.
Ainda em São Paulo, a expansão da malha ferroviária pelo
interior do estado propiciou o avanço da agropecuária,
bem como a formação de um grande número de cidades
ao longo das ferrovias. Já no final do séc. XIX e início do
séc. XX, Rio de Janeiro e São Paulo ganharam importância
como centros industriais, atraindo um grande número de
migrantes, brasileiros e estrangeiros.
Na Região Sul, políticas de colonização atraíram
também grande contingente de imigrantes de várias nacionalidades europeias. Em Minas Gerais, uma nova capital,
Belo Horizonte, foi construída, reforçando a tendência de
concentração demográfica na região central do estado.
No séc. XX, o Brasil urbanizou-se rapidamente e suas
grandes cidades passaram a concentrar cada vez maior
parte da população, especialmente no Sudeste do país.
O Nordeste, em contrapartida, perdeu peso relativo no
quadro demográfico brasileiro.
Em pleno Planalto Central, até então uma vastidão
pouco ocupada, foi inaugurada Brasília, em 1960. A nova capital se transformou numa ponta de lança para a ocupação
do interior do país. A partir dali partiram os eixos que fizeram

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Geografia da população

a fronteira avançar no cerrado e na Amazônia, ajudando a
fixar a população em porções mais ocidentais do Brasil.
O processo de ocupação territorial do país, apontado em alguns de seus aspectos nos parágrafos anteriores,
é que vai explicar o atual padrão de distribuição da população no país. Os momentos históricos se somam e vão
deixando a suas marcas na ocupação. A distribuição da
população é um quadro resultante deste processo. Assim,
o Brasil se caracteriza por uma concentração de população
próxima ao litoral e algumas partes do interior, principalmente nos estados de Minas Gerais e São Paulo. Estes dois
estados, junto com o Rio de Janeiro, concentram 40,3% da
população do país15. Não por acaso, estas três unidades da
federação também concentram a maior parte do PIB. Outro foco de contração demográfica está na área próxima a
costa nordestina, especialmente entre Salvador e Natal. No
Sul, destaca-se a porção do território que vai de Curitiba a
Porto Alegre. Em todo país, a população é concentrada nas
grandes cidades, tema abordado no capítulo 5.
As migrações, componente marcante para a explicação da distribuição da população, serão abordada no
próximo item.

2.2 Os grandes movimentos migratórios internacionais e intranacionais

15 IBGE, Censo Demográfico 2010.

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O movimento de pessoas dentro de um país ou
atravessando fronteiras nacionais é um fato que sempre
esteve presente na história da humanidade, seja como
resposta ao crescimento demográfico, a necessidades
econômicas, mudanças políticas e ambientais ou devido
a motivações culturais.
As migrações são fenômenos extremamente complexos em suas causas e com profundas consequências
nas áreas receptoras e nas áreas de êxodo. As causas mais
óbvias das migrações são as disparidades dos níveis de
renda, emprego e bem-estar social entre as distintas zonas. São relevantes também as características demográficas no que diz respeito à fecundidade, à mortalidade,
à estrutura etária e ao crescimento da força de trabalho
(HUGO, 1998 apud CASTLES, 2000). As migrações, entretanto, não se explicam apenas por fatores econômicos e
demográficos. O seu entendimento requer ainda a análise
de elementos sociais, políticos, culturais, ambientais e territoriais. Pela sua complexidade e diversidade, as teorias
a respeito tratam, geralmente, de facetas do fenômeno.
Não existe uma teoria geral das migrações. Ao analisá-las,
devem-se escolher as teorias que melhor se adequarem
as dimensões e processos específicos que se quer explicar (ARANGO, 2000).

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Geografia

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Do ponto de vista econômico, somente a diferença
de renda não explica as migrações. É necessário que haja
oportunidades de trabalho razoavelmente remuneradas
e seguras, pois as migrações normalmente envolvem estratégias familiares de sobrevivência e busca de oportunidades, inclusive envolvendo remessas financeiras para os
membros da família que não migraram (ver capítulo 3).
Este movimento em busca de melhores condições de vida
requer uma certa base econômica dos emigrantes. Famílias muito pobres carecem de capital econômico e cultural
necessários para enxergar oportunidades em outros locais
e para custear o transporte de longa distância, especialmente no caso das migrações internacionais.
Os movimentos migratórios típicos estão normalmente relacionados ao deslocamento de jovens pioneiros.
Uma vez iniciado o processo, uma rede social se forma e
outros migrantes passam a seguir o caminho aberto. As redes sociais tornam a migração mais segura e tolerável para
os migrantes e suas famílias. Não por acaso algumas cidades (ou partes delas) se caracterizam pela concentração de
imigrantes de determinada procedência ou pela saída de
emigrantes para determinado lugar. É o caso, por exemplo,
de Governador Valadares, cidade mineira com grande número de moradores nos Estados Unidos.
Uma vez começado o movimento, algumas pessoas passam a ser facilitadores do processo, criando uma
"indústria" da migração, envolvendo advogados, agentes,

contrabandistas, e outros intermediários, que podem tanto ajudar, como explorar os migrantes (CASTLES, 2000). Na
fronteira entre o México e os Estados Unidos são inúmeras
as quadrilhas que atuam na facilitação da entrada ilegal
de migrantes do país ao norte do rio Grande, muitas vezes colocando em risco a integridade física deste grupo de
pessoas.
Os migrantes afetam todo o sistema produtivo, as
artes, as ciências, assim como a estratificação social. Se
algumas contribuições dos migrantes são tangíveis, é difícil medir as contribuições culturais e institucionais dos
migrantes (TIMUR, 2000). No Brasil, por exemplo, os imigrantes, desempenharam importante papel no processo
de industrialização de várias cidades pelas contribuições
culturais que traziam de seus países de origem. Da mesma
forma, grandes áreas do Mato Grosso, ocupadas por migrantes gaúchos e paranaenses, foram moldadas incorporando elementos do modo de vida dos sulistas.
A diversidade cultural pode ser importante vantagem econômica (ver capítulos 3 e 5). Cidades como Londres ou Nova Iorque, que possuem cerca de um terço de
suas populações nascidas no exterior, se aproveitam desta
diversidade trazendo-a para os processos produtivos ali
desenvolvidos, fortalecendo a posição de cidades globais.
A migração afeta as regiões de maneiras diferentes.
Por exemplo, à medida que se desenvolve a cadeia migratória e um grande número de pessoas de determinada ci-

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Geografia da população

dade emigra, a emigração pode levar a uma escassez de
mão de obra local, bem como a mudanças importantes
na vida familiar e comunitária. A chamada "evasão de cérebros" (mão de obra altamente qualificada), por exemplo,
é um problema importante para os países pequenos e pobres. Em 2005, 72 países tinham programas para estimular
o retorno deste tipo de profissional. (UN, 2009a)
Nos locais de destino dos fluxos, os migrantes tendem a se concentrarem em comunidades próximas à oferta de emprego. Em grandes cidades na Europa e nas Américas, é comum a existência de bairros que se convertem
em centros de assentamento de migrantes internacionais
de determinada origem, abrigando negócios, associações,
serviços sociais e elementos culturais característicos (CASTLES, 2000). É o caso, por exemplo, do bairro da Liberdade
em São Paulo, que concentra muitos asiáticos.
No plano internacional, um tipo especial de migração é a de refugiados, tema tratado pela ONU através da
Convenção de Genebra. Neste documento os refugiados
são definidos como pessoas que, residindo fora de seu país
de origem, não queiram regressar devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social
ou opiniões políticas.
De modo geral, as migrações se intensificaram bastante a partir do século XX, resultado das transformações
sociais, econômicas e tecnológicas ocorridas no mundo.

O maior movimento migratório já ocorrido na humanidade é sem dúvida a urbanização do planeta (ver capítulo 5).
Centenas de milhões de pessoas se deslocaram e continuam se deslocando de áreas rurais para as cidades. Enquanto a Europa e as Américas já se encontram bastantes
urbanizadas, este movimento assume, no século XXI, proporções sem precedentes em países como China e Índia,
num processo acelerado.

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Migrações internacionais
As migrações internacionais foram de extrema importância para a formação territorial de muitos países, principalmente no continente americano. Nas Américas, primeiro houve o fluxo de migrantes provindos das próprias
nações colonizadoras, que vinham exercer funções administrativas e ocupar as novas terras. O avanço da economia
das colônias levou ao aumento da demanda por mão de
obra, o que implicou num grande movimento migratório
forçado de africanos para o continente americano. Noriel
(1988 apud CASTLES, 2000) estima que cerca de 15 milhões de africanos abasteceram, entre os séculos XV e XIX,
o mercado de trabalho das colônias. Depois, nos séculos
XIX e XX, os novos países da região elaboraram políticas de
estímulo à migração que atraiu milhões de pessoas, majoritariamente europeus. Naquele momento a Europa vivia
uma profunda transformação pela industrialização e havia

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Geografia

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um excedente demográfico em diversos países. Somente
nos Estados Unidos, entre 1861 e 1920, entraram cerca de
30 milhões de imigrantes. Outros países, como Canadá,
Argentina, Chile, Uruguai, Austrália, Nova Zelândia e Brasil
têm na imigração elemento essencial na formação social e
territorial.
Em 2010 existiam 213,9 milhões de pessoas (3,1% da
população mundial) vivendo fora de seu país natal (Tabela
2.3), um incremento de 58 milhões desde 1990. As áreas
onde os migrantes internacionais, em 2010, tinham o maior
peso na população total são a Oceania (16,8%), América do
Norte (14,2%) e a Europa (9,5%). Em alguns países, como na
Austrália e na Suíça, este percentual ultrapassa os 20% da
população. Mesmo em países populosos como os Estados

Unidos e a Alemanha, este percentual chegava em 2010 a
13,5% e 13,1% respectivamente. Não por acaso, a concentração de migrantes ocorre nos países mais ricos, indicando o peso do fator econômico na explicação das migrações. Em contraste, o estoque internacional de migrantes
respondia em 2010 por menos de 2% da população total
na África e América Latina.
Já quando se considera apenas a migração dos refugiados, a sua distribuição no mundo é diferente. Do estoque total de migrantes, os refugiados respondiam por 8%
em 2010, ou 16,3 milhões de pessoas (UN, 2011a). Desta
população, 86% viviam em países menos desenvolvidos,
especialmente na Ásia e África.

Tabela 2.3 - Migrantes internacionais nos continentes ­ 1990/2010
Continente

Estoque de Migrantes
Internacionais (milhões)

% da População do
Continente

1990

2010

1990

2010

África

16,0

19,3

2,5

1,9

Ásia

50,9

61,3

1,6

1,5

América Latina e Caribe

7,1

7,5

1,6

1,3

América do Norte (1)

27,8

50,0

9,8

14,2

Europa

49,4

69,8

6,9

9,5

Oceania

4,4

6,0

16,2

16,8

Fonte: UNITED NATIONS (UN). International Migration Report 2009: A Global Assessment. New York: UN, 2011.
(1) exceto México

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Geografia da população

Gráfico 2.1 - Percentual de emigrantes brasileiros, segundo o país de residência - 2010

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2010.

Se nos séculos XIX e XX houve um grande movimento de pessoas em direção ao continente americano
e à Oceania, no século XXI as migrações mais marcantes
são em direção aos países mais ricos da América do Norte

Geografia_Book.indb 41

e da Europa. Há uma rede de migração da América Latina em direção aos Estados Unidos, especialmente a partir
do México e da América Central. Também são significativos os movimentos migratórios que conectam países da

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Geografia

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América Latina a Europa, com destaque para a Espanha.
A Europa recebe, por sua vez, a maior parte dos emigrantes da África e da Turquia.
O Brasil, que outrora recebeu grande número de
migrantes, é agora um país predominantemente de emigrantes. Estudos recentes indicam que há no exterior entre 2 e 3,7 milhões de brasileiros, concentrados principalmente nos Estados Unidos, Europa e Japão (MRE, 2008).
Levantamentos inéditos do Censo Demográfico
2010 contabilizaram 491.695 brasileiros residindo no exterior naquele ano. Porém, o próprio IBGE indica que, por
restrições metodológicas, há uma subnumeração neste
quantitativo. Mas os dados do Censo mostram um retrato
mais preciso relativo à distribuição dos emigrantes brasileiros por países e sua estrutura etária.
O Censo Demográfico confirma os EUA como principal país receptor de migrantes brasileiros, mas a Europa,
em seu conjunto abrigava a proporção muito maior de migrantes brasileiros. O Japão também aparece com destaque no levantamento do IBGE (Gráfico 2.1).
Os dados do Censo de 2010 indicam ainda o perfil
jovem do migrante brasileiro no exterior, com a faixa etária entre 20 e 34 anos representando 60% do total (Gráfico
2.2). Esta distribuição etária reforça a associação do êxodo
do país pela busca de melhores oportunidades de trabalho
em outro país. Este movimento tende a aumentar quando

a situação econômica no país de origem está mais degradada. Desde 2008, com a eclosão de grave crise econômica na Europa e Estados Unidos e manutenção de níveis
recordes de emprego no Brasil, a tendência é a diminuição
do fluxo de brasileiros para o exterior e um certo aumento
do fluxo de estrangeiros para o Brasil. O volume de pessoas
procedentes do exterior que vieram morar no Brasil entre
2000 e 2010 aumentou 62,7% em relação ao período 1990-2000 (IBGE, 2012).

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Migrações no Brasil
No decorrer do século XX, muitas foram as transformações na sociedade brasileira. Os contextos históricos, econômicos, políticos, sociais e demográficos foram
os cenários para a urbanização e industrialização, explicando os fluxos demográficos no país. A dinâmica de
deslocamento da população brasileira caracteriza-se por
saltos migratórios, por deslocamentos de longa distância e pela elevada proporção de migrantes na população
(THÉRY, 2005).
Já na virada do século XIX para o XX a mobilidade
espacial da população no país era alta. Fatos como o fim da
escravidão, a expansão cafeeira e a produção da borracha
na Amazônia marcaram a redistribuição de populações
pelo país. A migração de negros libertos e de estrangeiros
em quantidades significativas foi importante pelo menos
até a crise do café ­ década de 1930 (BERQUÓ, 2001).

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Geografia da população

Gráfico 2.2 - Composição da população de emigrantes brasileiros, por sexo, segundo grupos
de idade na data de partida do Brasil- 2010

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2010.

As migrações internas entre 1930 e 1950 foram predominantemente do campo para as cidades, principalmente
para os centros industriais do Sudeste e para as fronteiras agrícolas. Na década de 1940 a migração rural-urbana nacional
chegou a três milhões de pessoas.
Na década de 1950, principalmente com o desenvolvimentismo de JK e a avançada urbanização e industrialização
do país, o êxodo rural mais que dobrou: cerca de 7 milhões
de pessoas se deslocaram para as áreas urbanizadas. Nessa
mesma década, a interiorização do território ocorreu princi-

Geografia_Book.indb 43

palmente por fluxos demográficos que se direcionavam para
as fronteiras agrícolas.
A modernização agrícola é o marco da década de 1960
que intensifica ainda mais o êxodo rural, nessa década totalizam-se 12,8 milhões de pessoas saindo do campo em direção
às cidades. Paralelo a este processo, os atrativos urbanos se
diversificaram com a criação de novos empregos devido ao
crescimento da estrutura produtiva nacional. Neste período
começaram as migrações, estimuladas pelo Estado em direção à Amazônia, processo que continua na década seguinte.

31/01/2013 14:52:51

Geografia

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A tendência do movimento rural-urbano se intensifica a partir da década de 1970, quando os movimentos
migratórios para as fronteiras agrícolas se desaceleram e os
grandes centros urbanos se consolidaram visto o crescente processo de metropolização (BERQUÓ, 2001).
Na década de 1980, as forças que atraiam as populações para a São Paulo se arrefecem, porém não desaparecem. Se a Região Metropolitana de São Paulo ainda continua a receber o maior número de migrantes, ela passa a se
destacar como centro de emigração, com forte movimento de retorno.
A década de 1990 confirma a posição de São Paulo
como centro receptor de migrantes, apesar da emigração
de retorno. Paralelamente com o aumento das migrações
intrarregionais e intraestaduais, fato visível pelo crescimento das capitais nordestinas.
Os resultados do Censo Demográfico de 2010 mostram o cenário da migração na década no período 2000-2010. Um indicativo importante do histórico dos movimentos migratórios é o estoque de migrantes. Para 2010,
foram registrados 26,3 milhões de pessoas que viviam em
unidades da federação das quais não eram naturais. Deste
contingente, os estados de São Paulo (8 milhões de pessoas não naturais), Rio de Janeiro (2,1 milhões), Paraná (1,7
milhões) e Goiás (1,6 milhões) acumulavam a maior quantidade de migrantes. Em contrapartida, Minas Gerais (3,6
milhões de pessoas), Bahia (3,1 milhões), São Paulo (2,4

milhões) e Paraná (2,2 milhões) foram os estados com os
maiores volumes de população natural residindo em outras Unidades da Federação (IBGE, 2012).
Com estes resultados, São Paulo era a Unidade da
Federação que em 2010 acumulava, de longe, o maior saldo migratório, com 5,6 milhões de pessoas, resultado direto do intenso processo de industrialização ocorrido a partir
da década de 1950. O Rio de Janeiro apresentava em 2010
um saldo migratório acumulado de 1,3 milhões de pessoas, sendo a segunda Unidade da Federação nesta variável. Em contrapartida, Minas Gerais e Bahia apresentavam
um saldo migratório negativo acumulado de 2,2 milhões
de pessoas cada um.
Quando se avalia os movimentos migratórios mais
recentes (nos 10 anos anteriores aos levantamentos), o cenário que se tem é uma diminuição geral da migração entre diferentes Unidades da Federação quando comparados
os dados levantados pelos Censos Demográficos de 2000
e 2010. Exceções para os estados de Santa Catarina, Goiás
e Distrito Federal.
Avaliando-se o período 2005-2010, as Unidades da
Federação que tiveram maior ganho líquido de população
por migração foram São Paulo, Goiás e Santa Catarina e as
maiores perdas foram observadas no Maranhão e na Bahia
(IBGE, 2012).
A dinâmica da população abrange aspectos relativos
à qualidade de vida, assunto abordado no próximo item.

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2.3 Dinâmica populacional e indicadores da qualidade de vida das populações

À noção de saúde individual se estende, assim, à de
saúde pública e, mais recentemente, abrange o próprio
campo educacional, o que representa um enorme avanço
conceitual ao se retirar esta noção do campo estritamente
individual, inserido na dicotomia saúde-doença, e inseri-la
em um entendimento mais amplo, isto é, enquanto um
processo social em curso17.
Quanto à educação ressalta-se o fato de que a aquisição de conhecimentos básicos e a formação de habilidades cognitivas, objetivos tradicionais do ensino, constituem hoje condições indispensáveis para que todas as
pessoas tenham capacidade para processar informações,

Longe de constituir um fenômeno isolado, a análise da dinâmica demográfica no Brasil incorpora, cada vez
mais, um entendimento mais aprofundado quando associado à ideia de qualidade de vida dos diversos segmentos
populacionais e as diferentes regiões do país.
Com efeito, tanto o componente da dinâmica populacional afeto ao deslocamento da população no espaço geográfico, quanto aquele ligado às taxas de natalidade e mortalidade têm suas causas interligadas às condições socioeconômicas, culturais, ambientais e políticas que, juntas, fundamentam a natureza relacional da noção de qualidade de vida.
Nesse sentido, os estudos voltados às mudanças
demográficas e à qualidade de vida da população deverão contemplar, de forma interligada, as dimensões centrais que interferem na própria construção da cidadania no
mundo contemporâneo, qual seja, saúde e educação.
A saúde, saindo do campo estritamente médico, é
entendida como o resultado de reações internas de cada
indivíduo com o meio. Nesse sentido, a concepção de saúde pública torna-se pertinente enquanto reveladora de uma
visão comprometida com uma comunidade mais ampla
onde se insere o indivíduo e o grupo ao qual pertence16.

16 Cabe observar que já no início do século Winslow (1953 apud IBGE, 2004)

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definia a saúde pública enquanto "ciência e arte de prevenir a doença,
prolongar a vida e promover saúde e eficiência física e mental através de
esforços organizados da comunidade para o saneamento do meio, o controle
das doenças infectocontagiosas, a educação do indivíduo em princípios de
higiene pessoal, a organização/institucionalização dos serviços médicos e
de enfermagem para o diagnóstico precoce e o tratamento preventivo das
doenças e o desenvolvimento da maquinaria social de modo a assegurar a
cada indivíduo da comunidade um padrão de vida adequado à manutenção
da saúde".
17 A situação da saúde humana, identificada por meio de internamentos e
mortes causadas pelas doenças de veiculação hídrica e, sempre que possível,
associada aos níveis de escolaridade da população, é vista aqui como
indicador importante na avaliação da qualidade de vida da população, assim
como diretamente articulada à condição sanitária dos cursos d'água. A água
por ser um elemento essencial à subsistência e às atividades humanas, e, na
maioria das vezes, insubstituível, é muito suscetível a danos. Nesse sentido,
ela tornou-se um bem imprescindível à vida e um fator condicionante, tanto
pela quantidade como pela qualidade do desenvolvimento econômico e do
bem-estar social (CUNHA, 1980 apud IBGE, 2004).

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selecionando o que é relevante, e continuar aprendendo
(KAPPEL, 2000). Nesse sentido, o conhecimento, a informação e uma visão mais ampla dos valores são componentes
básicos para o exercício da cidadania, incluindo o direito a
viver em um ambiente saudável ­ fator determinante, na
atualidade, junto com características histórico-culturais,
como definidor do ritmo de reprodução das sociedades
humanas.
Com efeito, ainda que por si só a educação não assegure diretamente a justiça social e o acesso a um ambiente
saudável, ela é, sem dúvida, parte indispensável do processo para tornar as condições de existência da população
menos desiguais.
De acordo com Kappel (2000), há um consenso entre os especialistas em desenvolvimento de que a educação é fundamental para a redução das disparidades sociais
e econômicas. Muitos estudos apontam não só a correlação positiva entre educação e renda, mas também reforçam que a contribuição da educação é consideravelmente
maior do que qualquer outra característica individual na
desigualdade salarial.
A correlação positiva entre saúde e educação irá
constituir, assim, o ponto central de ponderação da qualidade de vida da população em um momento no qual o
aumento da produtividade do trabalho afasta-se da exigência da experiência acumulada voltando-se, cada vez

mais, para o desenvolvimento do raciocínio aliado a um
processo contínuo de capacitação profissional.
Enfim, a necessidade de abordar os problemas de
forma interligada e o reconhecimento da importância da
salubridade do meio natural alterado pelo homem são caminhos, portanto, que devem ser resgatados, contemporaneamente, em uma abordagem abrangente da questão da
dinâmica demográfica. Nesse sentido, é necessário enfocar,
além dos temas diretamente relacionados à evolução da
dinâmica demográfica, processos e vetores que afetam e
informam, diretamente, a qualidade de vida da população.
A população brasileira experimentou sucessivos
aumentos em seu contingente somente ao longo do século XX, tendo crescido nove vezes nesse período, embora a velocidade deste crescimento venha diminuindo
progressivamente nas últimas décadas. Assim, segundo o
IBGE, se em 1900 o país contava com 17.438.000 habitantes, ele chega ao ano de 2000 com 169.590.693 habitantes
e, em 2009, atinge uma população estimada de cerca de
191.480.000.
A visão integrada do processo demográfico do Brasil, ao incorporar as mudanças estruturais ocorridas na sociedade e no território brasileiro, assimila as desigualdades
e diversidades contidas num país continental.
Dentre as cinco grandes regiões brasileiras, Sudeste,
Nordeste e Sul são as mais populosas, refletindo os proces-

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Tabela 2.4 ­ População recenseada, segundo Brasil e grandes regiões e Brasil ­
1970/2010
População residente (milhões de pessoas)

Brasil e Grandes Regiões

1970

1980

1991

2000

2010

Brasil

93,1

119,0

146,8

169,8

190,8

Norte

3,6

5,9

10,0

12,9

15,9

Nordeste

28,1

34,8

42,5

47,7

53,1

Sudeste

39,9

51,7

62,7

72,4

80,4

Sul

16,5

19,0

22,1

25,1

27,4

Centro-Oeste

5,1

7,5

9,4

11,6

14,1

Fonte: IBGE, Censo Demográfico, 2010.

sos históricos de ocupação econômica do território nacional que, ao se estruturar ao longo do litoral e em algumas
regiões interiores dessas macrorregiões, como a zona de
mineração de Minas Gerais e a expansão do café no Rio de
Janeiro, em São Paulo e no Paraná, fez das regiões Norte e
Centro-Oeste as menos populosas. Esta última, que desde o
final da década de 1940 apresentava o menor volume populacional, passou à frente da região Norte, entre 1960 e 1980.

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Em consequência das alterações políticoadministrativas18
ocorridas no período 1980-1991, ela voltou a ocupar a última posição, e permanece assim até a mais recente pesquisa
sobre o total da população brasileira, conforme Tabela 2.4.

18 Desmembramento do Estado de Goiás, com a criação do Estado de Tocantins
que passa a fazer parte da Região Norte.

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Cabe observar que apesar de a Região Norte abrigar
grande parte da área de baixa densidade demográfica que
caracteriza a região de domínio florestal do bioma Amazônia, a ocupação do Centro-Oeste, de domínio do bioma
cerrado, pela agropecuária modernizada, fez dessa grande
região a de menor número de habitantes do país.
Se o deslocamento espacial da população em direção às áreas de fronteira agropecuária do Centro-Oeste e
Norte tem aumentado os centros urbanos dessas regiões,
destacando-se a Capital Federal e seu entorno, os demais
elementos que compõem essa dinâmica, como as taxas
de mortalidade e de natalidade, possibilitam uma análise
diretamente articulada entre a evolução demográfica e os
indicadores de qualidade de vida.
Com efeito, segundo Oliveira & Simões (2000), durante as décadas de 40 e 50, as taxas brutas de mortalidade recuaram de um patamar de 21 para 10 óbitos por
mil habitantes, no Brasil. Entre as causas associadas a essa
redução, cabe mencionar, a organização regular de um sistema público de saúde, a constituição, embora restrita, de
sistemas de previdência pública, a ampliação dos serviços
de infraestrutura urbana e a regulamentação social do trabalho nas principais regiões do país.
Esses fatores institucionais, conjuntamente com os
avanços da indústria químico-farmacêutica, concorreram
para o controle e redução de várias doenças, principalmen-

te as infectocontagiosas e pulmonares19, que até então tinham forte incidência sobre a população, com altos níveis
de letalidade (SIMÕES & OLIVEIRA, 1997). Pode-se observar
que a mortalidade registra declínio consistente a partir de
1940, sendo o papel dos antibióticos fundamental nesse
processo de queda, atuando, num primeiro momento, na
redução da mortalidade adulta, estendendo-se, posteriormente, aos grupos etários infantis e infanto-juvenis.
Entre 1940 e 1960, o ritmo de crescimento demográfico acelerou-se em decorrência do aumento do diferencial entre nascimentos e óbitos, passando de 2,4% ao ano
durante a década de 40 para valores em torno de 3,0% ao
ano nas duas décadas seguintes. A principal razão foi que
a queda observada na mortalidade não foi acompanhada
por um concomitante e equivalente declínio da natalidade. Este crescimento foi contemporâneo de experiências
similares de outros países do chamado "Terceiro Mundo", e
suscitou acaloradas polêmicas acerca do papel da população no processo de desenvolvimento econômico.

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19 Relativamente às condições de saúde pública, os indicadores mais pertinentes
dizem respeito ao número de casos notificados de doenças transmitidas por
mosquitos, como a dengue, malária e febre amarela, relacionadas com a água,
principalmente com o abastecimento, reserva e drenagem, além de aspectos
da relação do homem com o meio ambiente. A hepatite A e a febre tifoide,
assim como a maioria das diarreias, são doenças de transmissão hídrica, cuja
ocorrência relaciona-se com o consumo de água contaminada por dejetos,
notadamente nas faixas etárias de menores de cinco anos e de maiores de
oitenta anos de idade por serem grupos mais suscetíveis ao óbito por diarreias
decorrentes da contaminação do meio ambiente.

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Ao final dos anos 60 e, principalmente durante a
década de 70, as transformações em curso na sociedade
brasileira, reguladas por um modelo econômico concentrador, impulsionaram o crescimento e diversificação da
urbanização, a mudança de papéis familiares, a generalização do consumo e das relações de mercado, afetando,
deste modo, os padrões de reprodução familiar e o comportamento reprodutivo.
Desse modo, o reflexo de tais mudanças socioeconômicas e demográficas sobre os níveis de fecundidade
das mulheres se fez sentir quase imediatamente, iniciandose um declínio restrito a algumas regiões, como a Sudeste,
e a grupos sociais de maior poder aquisitivo no final dos
anos 60, que se generaliza posteriormente na passagem
da década de 70 para a de 8020.
Cabe observar, assim, que enquanto a mortalidade
registra declínio consistente a partir de 1940, a natalidade
inicia sua redução de forma mais consolidada somente a
partir dos anos 60.
O auge do crescimento demográfico brasileiro, em
termos relativos, foi a década de 1950, quando mais eleva-

da foi a diferença entre a natalidade e a mortalidade. Nas
décadas seguintes, como resultado do declínio dos níveis
de fecundidade, reduziu-se a diferença entre taxa de natalidade e mortalidade, considerando-se, por suposto, o saldo
migratório internacional irrelevante. Assim, a taxa de crescimento reduziu-se gradualmente, visto que em meados
dos anos 90, as taxas de natalidade já haviam recuado para
níveis em torno de 21% (nascimentos por 1000 habitantes), enquanto a taxa bruta de mortalidade tem flutuado
em valores entre 7% e 8% (óbitos por 1000 habitantes).
Entretanto, a partir de meados da década de 70 retoma-se a tendência de queda da mortalidade, tanto geral como infantil, em todos os países da América Latina.
No caso do Brasil, a retomada do processo de declínio da
mortalidade está associada, no âmbito das políticas centralizadoras do regime político desse período, às ações
representadas pela expansão da rede assistencial e à ampliação acelerada da infraestrutura de saneamento básico,
sobretudo da rede de abastecimento de água, que tiveram
o papel principal na continuidade do processo (VETTER &
SIMÕES, 1981).
Como consequência da desconcentração e ampliação dos serviços de saúde e saneamento e do aumento da
escolarização, começa a ocorrer uma redução significativa
nos padrões históricos da desigualdade regional diante da
mortalidade no país. O Nordeste apresentou os maiores
aumentos da esperança de vida ao nascer durante o período de 1975 a 2000.

20 Colaborou para este declínio a rápida adoção de meios contraceptivos,
principalmente através da disseminação de métodos diretos, como as pílulas
anticoncepcionais. Nos anos 80 e 90, ampliou-se generalizadamente a ação
dos anticoncepcionais, inclusive através da banalização das cirurgias voltadas
para a esterilização, cujos efeitos sobre a redução dos níveis de fecundidade
foram imediatos, principalmente naquelas regiões e segmentos sociais onde
o uso dos métodos tradicionais eram menos disseminados.

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A oferta de serviços de saneamento básico a áreas
até então excluídas, os programas de saúde materno-infantil, sobretudo os voltados para o pré-natal, parto e puerpério, a ampliação da oferta de serviços médico-hospitalares,
as campanhas de vacinação, os programas de aleitamento
materno e reidratarão oral, entre outras iniciativas, em muito colaboraram para a continuidade da redução dos níveis
de mortalidade infantil e infanto-juvenil, principalmente a
partir dos anos 80 (SIMÕES & OLIVEIRA, 1997).
Nas últimas décadas, as taxas brutas de mortalidade
decaem mais lentamente, pois, seus patamares já são re-

lativamente baixos, oscilando apenas, em função de comportamentos específicos por idade (redução da mortalidade infantil e infanto-juvenil, novo perfil epidemiológico,
como por exemplo, o aumento da mortalidade por causas
externas, etc.).
Em síntese, a componente natalidade e os padrões
correlatos de fecundidade são os principais agentes de
mudanças no padrão demográfico brasileiro. O seu movimento de declínio é que explica a razão pela qual a taxa de
crescimento demográfico registrado no Brasil entre 2000 e
2010 foi de apenas 1,17% ao ano (IBGE, 2011).

Gráfico 2.3 - Composição relativa da população residente, por sexo, segundo as idades Brasil - 1960/2010

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 1960/2010.

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Geografia da população

A queda das taxas de mortalidade e natalidade
tem levado a uma mudança do perfil etário da população
brasileira, com um rápido envelhecimento da população
(Gráfico 2.3). No presente momento, o país vive o chamado "bônus demográfico", no qual o predomínio é de população em idade ativa. A tendência aponta um aumento
contínuo na população de idosos, trazendo novos desafios
para o sistema de saúde, para a previdência e para a organização da sociedade.
Muito embora a queda tanto da fecundidade quanto da mortalidade tenha atingido todas as regiões do país,
áreas urbanas e rurais e grupos sociais, ela não se deu com
a mesma intensidade em todos estes espaços e segmentos. Consequentemente, seu impacto é diferenciado, no
tempo e no espaço, entre os vários subgrupos populacionais, persistindo, ainda, diferenciais significativos em termos regionais e sociais nos níveis dessas variáveis.
Enfim, cabe observar que a evolução demográfica
que o país vem vivenciando afeta diferentemente grupos
de pessoas e regiões, necessitando, para uma análise mais
acurada, da comparação com indicadores específicos de
expansão dos serviços de saúde e educação, no caso de
crianças e jovens; de indicadores de emprego, no caso dos
jovens e adultos e de atenção médico-psicológica e fortalecimento dos programas previdenciários, no caso dos
idosos.

Desse modo, ignorar a evolução, as diferenças e as
contradições do processo de mudanças demográficas vis-à-vis às mudanças observadas na qualidade de vida da
população brasileira constitui uma grave lacuna na capacidade de reflexão sobre as condições de vida e reprodução
dessa população e, em especial, de seus contingentes mais
pobres.

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Geografia

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Bibliografia do Capítulo 2

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Geografia da população

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. Acesso em 17 de agosto de 2009.

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3. Geografia econômica

3.1 Globalização e Divisão Internacional do Trabalho

Quando pensamos em globalização, rapidamente imaginamos fluxos crescentes de
bens, serviços e capitais permeando através das fronteiras nacionais. A globalização, porém, é
um fenômeno bem mais complexo e multifacetado, que envolve aspectos sociais, econômicos, políticos, culturais, institucionais e tecnológicos, todos eles inter-relacionados. As abordagens a respeito do tema são muitas vezes divergentes. Matias (2005) identifica duas correntes
principais que se contrapõem: a dos "hiperglobalizantes" e a dos "céticos". Os primeiros defendem a ideia de que os Estados já teriam deixado o posto de principais agentes econômicos
e políticos da sociedade mundial, enfraquecidos pela formação das redes transnacionais de
produção, comércio e finanças, tornando as fronteiras nacionais permeáveis. A autonomia
dos Estados, por esta interpretação, estaria sendo minada pelo poder das corporações e pelas instituições mundiais e regionais de cooperação, pois os Estados teriam perdido as suas
características de independência e eficiência na geração de riquezas. Já para os "céticos", a
globalização não passa de um mito. Os fluxos que a caracterizam não seriam, para este grupo,
uma novidade na história da humanidade, já presentes, por exemplo, no séc. XIX. Além disso,
as corporações transnacionais teriam fortes ligações com seus países de origem, cujos governos conservam o poder.
Parece, entretanto, mais adequado uma posição intermediária entre os "hiperglobalizantes" e os "céticos". De fato, existem algumas características que diferem a atual economia
global da do sistema de acumulação de capital que alcançava boa parte do mundo pelo menos desde o século XVI. Uma economia globalizada é aquela com capacidade de funcionar
como uma unidade, em tempo real e em escala planetária. Foi apenas no final do século XX
que esta combinação aconteceu, baseado nas tecnologias de informação e comunicação
(CASTELS, 2000), bem como no avanço da logística, que contribui para "a redução das barreiras
operacionais que separam os pontos de produção, tornando `fluidos' os processos produtivos
realizados em espaços diferentes e os aproximando do consumo final" (CORO, 2003. p. 99).

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Geografia

Em termos institucionais, destacam-se importantes
marcos da globalização (SASSEN, 2005):
· O mercado financeiro global é uma instituição
crucial para a organização e governo da economia mundial. São os mercados financeiros, fortalecidos pela intensa desregulamentação ocorrida
a partir da década de 1980, que possibilitam o
incrível volume de transações financeiras, com
alta lucratividade e especulação, o que leva, inevitavelmente, a instabilidade. Em um intervalo de
pouco mais de dez anos, importantes crises ganharam dimensão internacional: México (1994),
Ásia (1997), Rússia (1998), Brasil (1999) Argentina
(2001), "bolha do pontocom" ­ Estados Unidos
(2000) ­ e crise do subprime ­ Estados Unidos
(2007). Esta última atingiu em cheio o coração
do sistema, originando a maior crise econômica
mundial desde 1929. De origem no sistema financeiro, levou a uma grave crise social a uma crise
de endividamento dos Estados europeus, ameaçando a própria existência da moeda única do
continente.
· As afiliadas de transnacionais e outros arranjos
contratuais entre firmas se tornaram mecanismos
ainda mais importantes da organização e da administração da produção industrial e de serviços.

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O número de afiliadas das transnacionais cresceu
de 174.900 em 1990 para 927.000 em 2003.
· A criação da Organização Mundial do Comércio,
em 1993, permite a resolução de disputas comerciais entre os países num fórum multilateral,
representando potencialmente um elemento-chave na governança global da economia. Outra
componente que atua na facilitação e governança do comércio internacional são os blocos econômicos, assunto que será tratado mais adiante.
É notório que os fluxos internacionais, sejam eles de
mercadorias, de serviços ou de investimentos produtivos
e financeiros, aumentam a taxas significativamente mais
altas do que o crescimento do PIB mundial, indicando uma
intensificação do processo de globalização. Entre 1978
e 1998, enquanto o PIB mundial cresceu a taxas médias
anuais de 2,5%, o comércio internacional cresceu a taxa de
5% ao ano. Entre 1980 e 1996 os investimentos diretos no
exterior cresceram a taxas médias anuais de 8% e os fluxo
financeiros 25% (CORO, 2003).
A economia global continua consistida de comércio,
agronegócios, indústria e extração de recursos naturais. Entretanto, a partir dos anos e 1980, as finanças e os serviços
em geral passaram a ser os principais componentes das
transações internacionais. O volume de capital circulando
no mundo é muito maior do que a produção da economia

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Geografia econômica

real. Em 2004, enquanto a circulação de mercadorias no
comércio internacional alcançava US$ 11 trilhões, os fluxos
financeiros globais atingiam a incrível quantia de US$ 262
trilhões (SASSEN, 2006). Este valor supera de longe também todo o PIB mundial daquele ano, que foi de US$ 52
trilhões.
O fato de haver poucas barreiras para a circulação
do capital e de haver redes técnico-informacionais que
permitam o seu deslocamento quase instantâneo tornam
os mercados interconectados e globais. Nas bolsas de valores, por exemplo, o preço das ações está mais diretamente
relacionado aos fluxos de capital do que as características
produtivas das empresas em si. A velocidade e a liberdade
na circulação do capital, por outro lado, podem acarretar
volatilidades não desejadas, como por exemplo, nas taxas
de câmbio, nos preços das commodities e no desempenho
das bolsas de valores e mercadoria. A atual crise econômica, nascida no sistema financeiro americano e estendida
por todo o mundo, é um indicativo da globalização financeira e dos riscos inerentes à liberdade quase irrestrita de
circulação do capital.
Os mercados de bens e serviços também são cada
vez mais globalizados. A produção se fragmenta espacialmente para aproveitar as vantagens de cada lugar, pelo
menos nos setores mais dinâmicos da economia. Tal fragmentação só é possível graças ao desenvolvimento das

tecnologias de informação e transporte, bem como de sofisticadas técnicas gerenciais.
A linha de jatos da Embraer EMB170/195, por exemplo, depende de conexões por todo o mundo. Estes aviões
tiveram parceiros globais ainda na fase do desenvolvimento. A japonesa Kawasaki e a belga Sonaca são responsáveis
pela fabricação das asas. A francesa Latécoère, responsável
por duas seções da fuselagem. A espanhola Gamesa é fornecedora da cauda. Dos Estados Unidos, a General Electric fornece as turbinas, a Honeywell, os sistemas aviônicos
(equipamentos eletrônicos), a Hamilton Sundstrand, a unidade de controle de força (APU) e os sistemas elétricos e
de controle ambiental. A alemã Liebherr fornece o trem de
pouso, as rodas e os freios. Coube à Embraer, além da liderança do projeto, toda parte de concepção e de anteprojeto, o desenvolvimento e a fabricação da fuselagem dianteira, parte da fuselagem central e carenagens da junção
asa-fuselagem, montagem da asa e, no final, a integração
total da aeronave (VASCONCELOS, 2003). Esta cadeia produtiva mostra o quão complexa pode ser a divisão internacional do trabalho, não se restringindo a simples modelos
de fornecedores de produtos primário e fornecedores de
produtos industrializados.
Entretanto, há limites para esta produção globalizada, especialmente no campo político. Os mecanismo
protecionistas continuam estruturais em muitos países.
Tal proteção do mercado interno está ligada a questões

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Geografia

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geopolíticas, estratégias de desenvolvimento, ou questões
sociais e de política interna. Pode-se citar o caso dos protegidos mercados agrícolas europeu e norte-americano; das
prioridades de aquisição no mercado interno brasileiro de
algumas encomendas de estatais, como na compra de navios pela Petrobras; da restrição ao fornecimento de equipamentos militares norte-americanos ou com componentes norte-americanos a Venezuela21. Pensando unicamente na lógica econômica, os Estados Unidos, por exemplo,
importariam o etanol brasileiro em grandes quantidades,
pois a produção baseada na cana é muito mais eficiente
e barata do que a do etanol americano, baseada no milho.
Entretanto, o mercado norte-americano permanece restrito ao álcool brasileiro e a produção interna naquele país é
fortemente subsidiada, atendendo aos lobbies internos e à
política de segurança energética do país.
Os limites no comércio internacional (de mercadorias e serviços) ficaram evidentes com o fracasso da chamada rodada de Doha ­ fórum de liberalização comercial
da Organização Mundial de Comércio. Tal fracasso está
relacionado justamente a impasses quanto à abertura de
mercados internos e uma mostra de que não se pode ignorar a persistência do Estado-nação e a do papel dos go-

vernos na definição da estrutura e da dinâmica econômica.
Um mercado internacional totalmente aberto é improvável, pois os governos dos Estados-nações, dentro da concorrência global, tendem a promover o interesse de seus
cidadãos e das empresas ali sediadas (CASTELS, 2000).
Em momentos de crise econômica, como o atualmente vivido, há uma tendência de recrudescimento do
nacionalismo e do protecionismo. A Argentina, por exemplo, tem se utilizado de diversos mecanismos, como as
licenças não automáticas de importação, para reduzir a
entrada de produtos estrangeiros, inclusive aqueles provenientes do Mercosul. Uma outra forma de protecionismo
indireto está relacionada a manipulação da taxa de câmbio22. A China, maior exportador global, tem na taxa de
câmbio desvalorizada um dos pilares de seu modelo de
desenvolvimento.
A taxa de câmbio no Brasil tem sofrido fortes oscilações em relação às principais moedas. Após a fase aguda
da crise econômica, deflagrada pela falência do banco de
investimentos americano Lehman Brothers em setembro
de 2008, o Real sofreu grande desvalorização. Permaneceu
desvalorizado por alguns meses enquanto houve, por parte dos agentes econômicos dominantes, uma aversão a

21 Um contrato de venda de 36 aviões militares da Embraer (Super Tucanos)
para a Venezuela foi vetado pelo governo americano em 2006, porque o
avião utiliza componentes fabricados nos Estados Unidos.

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22 O câmbio é um preço geral da economia que altera a competitividade de
todos os setores econômicos.

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Geografia econômica

qualquer possibilidade de risco. Logo depois o Real iniciou
um forte movimento de valorização, causado em grande
parte pela enorme quantidade de capitais disponíveis no
mundo, capital estes liberados devido à redução geral das
taxas de juros dos principais bancos centrais, políticas de
estímulo monetário para combater a crise econômica nos
países centrais e baixas taxas de crescimento econômico

nos principais países. Em busca de maiores taxas de retorno e com liberdade de circulação, os agentes econômicos
alocaram grandes volumes de dinheiro no Brasil. Em 2012,
após ações mais diretas do governo brasileiro, o câmbio
vem flutuando num nível mais estável e favorável para a
competitividade econômica do país (Gráfico 3.1).

Gráfico 3.1 - Taxa de câmbio do Real em relação ao Dólar Americano, Euro e Libra Esterlina Novembro/2007 a Outubro de 2012

Fonte: OANDA. Disponível em: http://www.oanda.com/lang/pt/currency/historical-rates/. Consultado em novembro de 2012. Adaptação do autor.

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Geografia

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A globalização se vê limitada também pela natureza
de certos setores econômicos. Os serviços públicos e os
órgãos governamentais, por exemplo, não fazem parte
de um mercado global. Porém, os segmentos e empresas
mais dinâmicos estão profundamente conectados e dependentes dos mercados mundiais (CASTELS, 2000).
Se é possível falar na produção e circulação global
de bens e serviços, o mesmo não se pode afirmar sobre
o mercado de trabalho. A circulação de trabalhadores é
bastante regulada e restrita, restrições estas que buscam
manter blindadas as sociedades ricas do fluxo de pessoas
de áreas empobrecidas. Mesmo assim, as disparidades de
renda entre os países funcionam como um motor para
que as pessoas deixem seus locais de origem em busca de
melhores oportunidades econômicas nos países mais ricos
(Tabela 3.1). Este grande contingente de trabalhadores desempenha relevante papel nas economias destes países,
exercendo funções onde há carência de trabalhadores,
como limpeza e construção civil, além de aumentar a flexibilidade destas economias pela elasticidade da oferta de
mão de obra. Do ponto de vista dos países de origem dos
migrantes, o processo reduz a pressão sobre os serviços
públicos essenciais e, em alguns casos, as remessas de dinheiro destes migrantes podem ser bastante significativas
para as economias locais. Estimativas do Banco Interamericano de Desenvolvimento para o ano de 2010 (MALDO-

NADO, 2011) indicam que os latino-americanos residentes
no exterior enviaram para seus países cerca de US$ 58,9
bilhões. Em termos relativos, este fluxo é extremamente
relevante em países como Guatemala, Jamaica, Nicarágua,
El Salvador, Honduras, Haiti e Guianas, onde estas remessas
superam 10% do PIB nacional.

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Tabela 3.1 ­ Migrantes internacionas em países selecionados ­ 1990/2000/2010

País

Estoque de migrantes estrangeiros
(milhões)

% da população do país

1990

2000

2010

1990

2000

2010

23,25

34,81

42,81

9,1

12,1

13,5

Alemanha

5,94

9,98

10,76

7,5

12,2

13,1

Canadá

4,50

5,56

7,20

16,2

18,1

21,3

França

5,90

6,28

6,69

10,4

10,6

10,7

Reino Unido

3,72

4,79

6,45

6,5

8,1

10,4

Espanha

0,83

1,75

6,38

2,1

4,4

14,1

Austrália

3,58

4,03

4,71

21

21

21,9

Itália

1,43

2,12

4,46

2,5

3,7

7,4

Emirados Arabes Unidos

1,33

2,29

3,29

71,3

70,6

70

Japão

1,08

1,69

2,18

0,9

1,3

1,7

Suíça

1,38

1,56

1,76

20,5

21,8

23,2

Qatar

0,37

0,47

1,31

79,1

76,3

86,5

Brasil

0,80

0,69

0,69

0,5

0,4

0,4

Estados Unidos

Fonte: UNITED NATIONS (UN). International Migration Report 2009: A Global Assessment. New York: UN, 2011.

Boa parte do contingente de trabalhadores migrantes, entretanto, vive na ilegalidade ou sob um forte preconceito. Isto significa uma precarização na qualidade de
vida destas populações. Os Estados, por sua vez, impõem
barreiras cada vez mais severas para impedir a migração,
que vão da construção de muros ­ como o existente en-

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tre os Estados Unidos e o México ­ à criação de legislações mais rigorosas contra o imigrante ilegal. O discurso
nacionalista mais radical tem ganhado força em diversos
países, especialmente na Europa, desde a crise econômica
de 2008. Nesta direção, a Itália aprovou uma lei em agosto
de 2009 que torna crime a imigração ilegal no país, passível

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Geografia

de punição por multa e extradição imediata, além de punir
com prisão os italianos que alugarem casas para imigrantes ilegais.
Apesar disto, a mão de obra é um recurso global e
as empresas se instalam em diferentes lugares do mundo para usar a fonte de mão de obra que precisam, em
termos de especialização, custos ou controle social (CASTELS, 2000), aproveitando-se inclusive dos fluxos ilegais
de migrantes.
Outra forma do caráter global da mão de obra é o
seu recrutamento seletivo, envolvendo trabalhadores altamente qualificados. As empresas, quando precisam de
pessoal qualificado, podem solicitá-los de qualquer lugar
do mundo, desde que ofereçam renumeração e condições
de trabalho adequadas. Cidades globais, como Londres,
Nova Iorque ou Hong Kong concentram um grande número destes trabalhadores. Por exemplo, o setor ligado a
tecnologia da microeletrônica e informacional na Califórnia, nos Estados Unidos. Empresas como o Google têm em
seus quadros, na Califórnia, trabalhadores de toda a parte
do mundo e reconhece a diversidade como um valor e
uma vantagem competitiva:
Os nossos produtos e ferramentas servem a um público
globalmente e culturalmente diverso. Então, é uma vantagem estratégica ter em nossa equipe não somente os
melhores talentos do mundo, mas também um reflexo
da diversidade de nossos consumidores, usuários e pa-

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trocinadores. É imperativo que nós empreguemos pessoas com perspectivas e ideias divergentes, com uma
variada origem cultural e contextual. A filosofia da empresa não pode ser apenas assegurar nosso acesso aos
mais recompensados empregados. Isto tem que levar
aos melhores produtos e criar equipes mais engajadas e
interessadas (Eric Schmidt, Chairman e CEO da Google.
GOOGLE, 2009).

A empresa tem escritórios em 30 países, escritórios
estes que cuidam não somente da venda, mas também do
desenvolvimento de produtos, de modo a se aproveitar
dos melhores talentos de cada lugar e ao mesmo tempo
incorporar as especificidades locais de cada cultura. É uma
forma de produção em rede, relacionada a uma nova divisão internacional do trabalho.
Este modo produtivo, com grande dispersão espacial do trabalho, mostrado também pelo exemplo da
Embraer, leva a profundos desafios no que diz respeito
ao gerenciamento da produção e sua distribuição, pois o
complexo processo produtivo, inerente ao pós-fordismo
(item 3.3), incorpora itens produzidos em vários locais,
por várias empresas e com o objetivo de atingir clientes
e mercados específicos. Tem que ter, ao mesmo tempo,
escala e flexibilidade de produção. Não é somente uma
empresa global com unidades fornecedoras espalhadas
pelo mundo, mas
um novo sistema produtivo que depende de uma combinação de alianças estratégicas e projetos de cooperação ad hoc entre empresas, unidades descentralizadas

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Geografia econômica

de cada empresa de grande porte e redes de pequenas e médias empresas que se conectam entre si e/ou
com grandes empresas ou redes empresariais (CASTELS,
2000, p. 114).

miperiféricos que apresenta algumas destas funções, mas
com concentração bem menor, e um terceiro grupo que
praticamente não possui representatividade nos setores
mais avançados da economia. Quando mudamos a escala de análise e olhamos para a distribuição das atividades
produtivas nestes países, percebemos que nos países centrais existe uma densa rede com um grande número de
nós com papéis importantes na economia global. Em um
país como os Estados Unidos, por exemplo, existe grande
número de empresas de consultoria jurídica, de produção
de softwares avançados e centros de pesquisas espalhados por seu território. Ainda assim é possível identificar
porções em seu território de periféricos em relação à economia mundial.

Fica patente a sofisticação da Divisão Internacional
do Trabalho (DIT). Como apontado, ela não é mais entre
regiões fornecedoras de matérias-primas ou pouco elaboradas e regiões industriais. Nem tampouco é possível
fazer unicamente uma separação simplista entre países
centrais e países periféricos. Para se trabalhar com a DIT
um conceito fundamental é o da escala. Entende-se por
escala não somente o grau de aproximação ou afastamento físico, mas escala dos processos, a escala analítica.
Podemos assim analisar a DIT sobre algumas óticas distintas. É necessário, primeiro, identificar quais são as estruturas-chave da economia global. As fábricas, minas e plantações cederam suas posições para os mercados financeiros, para as firmas de serviços corporativos avançados,
para os bancos e para as sedes das corporações transnacionais. A produção industrial não é mais o coração da
economia global, apesar de conservar certa importância.
Assim, a própria ideia de países industrializados e países
não industrializados perde força.
Mas é possível identificar um conjunto de países
centrais que concentram a maior parte das funções nobres
do sistema econômico e, consequentemente, da riqueza
mundial (Tabela 3.2). Um segundo conjunto de países se-

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Geografia

Tabela 3.2 ­ Produto Interno Bruto - 2011
Ordem
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25

País
Estados Unidos
China
Índia
Japão
Alemanha
Rússia
Brasil
Reino Unido
França
Itália
México
Coreia do Sul
Espanha
Canadá
Indonésia
Turquia
Irã
Austrália
Taiwan
Polônia
Argentina
Holanda
Arábia Saudita
Tailândia
África do Sul

Produto Interno
Participação no
Bruto (US$ milhões Produto Interno Bruto
PPC) (1)
Mundial - PPC (%) (1)
15.290
11.440
4.515
4.497
3.139
2.414
2.324
2.290
2.246
1.871
1.683
1.574
1.432
1.414
1.139
1.087
1.003
926
887
782
726
713
692
610
562

19,03
14,24
5,62
5,60
3,91
3,01
2,89
2,85
2,80
2,33
2,10
1,96
1,78
1,76
1,42
1,35
1,25
1,15
1,10
0,97
0,90
0,89
0,86
0,76
0,70

Fonte: CIA World Factbook, 2012.
(1) Dólar medido pela metodologia de poder de paridade de compra, que considera as
diferenças dos preços locais das economias.

O Brasil, que por esta abordagem é um país semiperiférico, possui alguns pontos que desempenham funções
centrais na economia mundial, mas com uma densidade

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menor. São Paulo, por exemplo, concentra algumas destas
funções centrais: são consultorias jurídicas, contábeis, empresas de marketing, bancos, mercado financeiro, centros
de pesquisa, etc. É uma rede de cidades globais, tema explorado no capítulo 5, que concentra a elite da produção
mundial.
Já um município como Barcarena, no Pará, desempenha um papel de fornecedor de recursos naturais processados (alumina, alumínio, caulim) para o mercado mundial, função bem menos nobre. Enquanto isto, algumas
regiões do interior do Nordeste encontram-se numa quase
total desconexão do sistema econômico mundial. A mesma análise pode ser feita no interior de um espaço urbano.
Em São Paulo, regiões como da Av. Paulista, entorno da Av.
Nações Unidas e parte do centro concentram importantes
nós da economia mundial. Em contraposição, existe um
enorme anel periférico que envolve a cidade.
A DIT deve ser entendida sempre numa visão multiescalar. O cenário resultante é um mundo profundamente, segmentado, interdependente e desigual em suas múltiplas escalas.
A DIT é modificada pela organização dos países em
blocos econômicos, pois estes arranjos alteram o valor potencial dos territórios, fazendo com que as corporações
distribuam a sua produção de acordo com as novas realidades criadas, como veremos a seguir.

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Geografia econômica

3.2 Formação e estruturação dos blocos econômicos
internacionais

Os exemplos mostrados deixam claro a íntima ligação entre economia e política na criação de associações
entre os países. Para se avaliar o tema, do que diz respeito
às relações econômicas internacionais, três questões devem ser levadas em consideração: (CHASE, 2005):

Os blocos econômicos não representam uma novidade na história. É difícil precisar a gênese deste tipo de arranjo, mas acordos de preferência comercial existiram, por
exemplo, entre Portugal e Inglaterra no século XVIII, como
o Tratado de Methuen (1703). Este acordo concedia privilégios para o vinho português no mercado inglês e para
os tecidos ingleses em Portugal, além de marcar a aliança
política e militar entre os dois países. Um outro exemplo, já
no século XIX, é o Zollverein alemão, uma união alfandegária formada em 1834 por 18 pequenos estados, união esta
que foi passo inicial para a criação da Alemanha unificada
no final no mesmo século (FRANKEL, 1997).
A história recente dos blocos econômicos está diretamente relacionada ao contexto da 2° guerra mundial.
Na Europa, em 1951, foi criada Comunidade Europeia do
Carvão e do Aço (CECA) ­ embrião da União Europeia ­
cujo objetivo primordial era de assegurar a paz entre os
países vencedores e perdedores da Grande Guerra (UNIÃO
EUROPEIA, 2009). Paralelamente, a antiga União Soviética
liderou a formação de um bloco dos então países socialistas. Assim, foi fundada em 1949 a Comecon (Conselho para
Assistência Econômica Mútua), que procurava assegurar o
papel de liderança econômica e política de Moscou em
sua área de influência.

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· As motivações que levam os países a se associarem em blocos econômicos regionais.
· O impacto dos blocos econômicos na integração
multilateral da economia mundial.
· Como a criação dos blocos afeta a economia, a
política, o posicionamento militar e a cooperação
entre regiões.
Os blocos econômicos, dependendo do grau de integração, podem propiciar, no campo da economia, uma
série de vantagens para os países participantes: maior
escala de produção; estabilidade e homogeneização de
instituições, com evidentes reduções dos custos de transação; eficiência produtiva, pelo melhor aproveitamento das
potencialidades regionais; maior poder de negociação em
fóruns internacionais; e redução das desigualdades regionais, muito evidenciado no caso da União Europeia.
Do ponto de vista doméstico, a adesão a um bloco
econômico produz, ao menos num primeiro momento,
ganhadores e perdedores. A decisão de se filiar a um bloco
é uma resposta política a pressões de parcelas da socieda-

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Geografia

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de que teriam ganhos com a união. Por isso é necessário
entender a organização social e dos sistemas produtivos
domésticos, incluindo a posição das corporações, para analisar a formação e caracterização dos blocos econômicos.
Neste sentido, devido à dispersão das etapas de produção em diversos países, parte das elites nacionais tem
forte interesse em mercados abertos e padrões harmonizados entre os países, pois assim é possível melhor conectar seus investimentos através das fronteiras internacionais
(CHASE, 2005), melhorando a produtividade e a lucratividade. Na mesma direção caminham aqueles setores nos
quais a escala de produção é fundamental para a manutenção da competitividade, pois neste caso, os mercados
domésticos podem ser insuficientes. No Mercosul, o exemplo mais evidente de integração produtiva é a cadeia automotiva. As montadoras criaram uma base produtiva única
no bloco, com as fábricas e fornecedores se distribuindo
entre Brasil e Argentina. Há um intenso fluxo comercial de
autopeças e veículos prontos entre os dois países. Cerca
de 60% da produção argentina do segmento é exportada,
principalmente para o Brasil. O setor de material de transporte representou, em 2008, aproximadamente 32%23 da
corrente comercial entre o Brasil e a Argentina, indicando

a importância e o grau de integração produtiva na fabricação de automóveis dentro do bloco.
A integração econômica, entretanto, pode ter impactos negativos nos países participantes Os acordos assinados reduzem o grau de liberdade para a condução de
políticas internas. Os governos passam a contar com menor
margem de manobra para solução de crises e promoção
do desenvolvimento e, além disso, a exposição à competição externa pode, dependendo do grau de assimetria das
economias envolvidas, levar a desestruturação de setores
econômicos inteiros e consequentemente, a crises sociais.
A integração entre países requer certo nível de complementaridade econômica e, em grande medida, das
estratégias de desenvolvimento de longo prazo adotadas
pelos países membros dos esquemas de integração. Estratégias divergentes impedem a formação de blocos e enfraquecem os acordos existentes (GONÇALVES, 2009).
O papel dos blocos econômicos extrapola o campo
econômico stricto sensu e está diretamente ligado a questões políticas, como já indicado. A política e a economia são
o que vão definir a composição dos blocos, a velocidade e
o grau de integração desejado. É sempre um processo extremamente complexo, pois envolve, em maior ou menor
grau, a necessária transformação institucional dos países.
Além disso, numa integração econômica alguns setores
vão perder espaço e outros ganharão, envolvendo então
interesses contraditórios dentro de cada país. Por isso, um

23 Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior Brasileiro, em 2008, o país exportou para a Argentina em material
de transportes US$ 5,6 bilhões (32,06% das exportações para aquele país) e
importou no mesmo ano US$ 4,3 bilhões (32,34% do total das importações).

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Geografia econômica

processo de integração mais robusto demora várias décadas, havendo uma lenta convergência das instituições, das
cadeias produtivas e das estratégias de desenvolvimento
dos países. Uma consequência positiva deste processo é
uma maior contribuição para a estabilidade regional, pois
a formação do bloco "(...) gera uma trama de interesses e
relações que torna mais profundas as ligações, tanto econômicas quanto políticas, e neutraliza as tendências à fragmentação" (MERCOSUL, 2009).
Os acordos econômicos regionais podem envolver
uma grande diversidade de arranjos, desde uma pequena
margem de preferências tarifárias até uma integração econômica total. Os principais tipo de blocos econômicos são
(FRANKEL, 1997):

importado de países de fora do bloco e depois
reexportado para dentro do bloco se aproveitando da inexistência de tarifas. Assim, o produto comercializado para o parceiro do bloco tem que ter
um determinado percentual de seu valor agregado gerado dentro do próprio bloco. Ex.: Nafta.
· União Aduaneira: apresenta as características de
uma zona de livre-comércio e também uma política comercial externa comum, em termos de tarifas e barreiras. Uma União Aduaneira completa
deve também harmonizar as restrições quantitativas no comércio e os subsídios às exportações.
De fato, toda a política comercial para os membros deveria ser unificada, tendo com o bloco
uma voz única em futuras negociações comerciais. Ex.: Mercosul.
· Mercado Comum: engloba os aspectos de uma
união aduaneira, mas, além da livre circulação de
bens e serviços, incorpora o livre movimento dos
fatores de produção: trabalho e capital. No mercado comum há um esforço de coordenação de
políticas macroeconômicas, havendo necessidade de mudanças institucionais mais significativas.
Com a livre circulação do trabalho, a migração
torna-se um elemento sensível no esforço de
união entre os países.
· União Econômica: avançando além do livre movimento de bens, serviços e fatores de produção,

· Zona de preferência tarifária: são adotadas para os
países membros tarifas inferiores àquelas adotadas para terceiros. Neste tipo de bloco as tarifas
são reduzidas, mas não abolidas. É o primeiro estágio de integração econômica. Ex.: Aladi.
· Zona de Livre-Comércio: objetiva a eliminação
de tarifas, cotas e preferências em todos os bens
e serviços negociados dentro do bloco, sem, entretanto adotar uma tarifa externa comum. Para
o funcionamento das zonas de livre-comércio é
necessário que haja um mecanismo de regras de
origem, de modo a evitar que um produto seja

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Geografia

a união econômica envolve um alto grau de harmonização das políticas econômicas nacionais e
a criação de um conjunto de instituições supranacionais para gerir as questões comunitárias,
podendo chegar à criação de um banco central
comunitário e moeda única. Uma integração econômica completa tende a criação de uma espécie de federação entre os países. Depende de um
alto grau de sofisticação institucional. Ex.: União
Europeia.
Regionalismo e multilateralismo
A questão dos blocos econômicos remete ao debate
sobre regionalismo e multilateralismo. Os blocos econômicos existem em todos os continentes, tendo havido expansão dramática durante a década de 1990. A União Europeia
completou o seu programa de mercado comum em 1992
e implantou o Euro a partir de 1999 (Quadro 3.1); Estados
Unidos, México e Canadá formaram o Nafta em 1994; Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai fundaram o Mercosul
em 1991 (a Venezuela se tornou um membro pleno em
2012). A Asean (Associação das Nações do Sudeste Asiático) lançou as bases para sua área de livre-comércio em
1992. Foi um período de grande crescimento da corrente
comercial intrablocos. Para o Brasil, por exemplo, a participação do Mercosul no comércio exterior mais do que

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dobrou entre 1990 e 1998, passando de 7% para 16,8%,
revelando um êxito na estratégia de integração num primeiro momento. Após a crise argentina no final do século
XX, o Mercosul perdeu importância relativa do ponto de
vista comercial (Gráfico 3.2), mas ainda converge grande
significado como destino de produtos industrializados
brasileiros e também para o processo de internacionalização de empresas do país. No Nafta, entre 1993 e 2006,
as exportações norte-americanas para seus parceiros do
bloco cresceram 157%, enquanto para o resto do mundo
o aumento foi de 108% (UTSR, 2009). Do ponto de vista
estritamente econômico, o debate que se coloca é se a
formação dos blocos gera um incremento do comércio
exterior ou simplesmente causa a substituição da origem
extrabloco para uma origem intrabloco, dificultando a
entrada de produtos externos.

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Geografia econômica

Gráfico 2 - Participação do Mercosul na corrente de comércio exterior do

Gráfico 3.2 - Participação do Mercosul
na corrente
de comércio exterior do Brasil 1989/2011
Brasil
1989/2011
18
16
14

(Percentual)

12
10
8
6
4
2
0
1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011

Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Sistema AliceWeb.

Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Sistema AliceWeb.

Alguns autores preveem que a divisão do mundo
em blocos pode fragmentar a economia, pois os blocos
econômicos, uma vez formados, tenderiam a ser defensivos. A unidade da economia global estaria sendo, por esta
abordagem, ameaçada pelo crescimento de acordos econômicos regionais. Neste sentido, a experiência ocorrida
nos anos 1930 oferece um exemplo de consequências do
acirramento do regionalismo. Neste período, o Reino Unido e a França estabeleceram negócios preferenciais para

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os seus territórios coloniais e impuseram altas tarifas para
produtos vindos de outras regiões. Japão e Alemanha expandiram seus próprios impérios (pelo comércio ou pela
conquista) e também aumentaram tarifas, aumento também feito pelos EUA. O resultado foi um colapso no sistema de comércio que, junto com a grande depressão e a
Segunda Guerra Mundial, desestruturaram uma economia
mundial integrada que florescia antes de 1914. Entretanto,
as características dos blocos econômicos de hoje são dife-

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rentes da década de 1930, não sendo possível fazer uma
analogia direta (CHASE, 2005).
A estruturação dos blocos econômicos convive com
ambientes de negociação mais amplos e multilaterais, com
destaque para a Organização Mundial do Comércio (OMC),
que tem ganhado força na última década como fórum de
liberalização comercial e de resolução de conflitos comerciais entre os países. A OMC possui mecanismos institucionais que permitem aos países membros abrir queixas

contra práticas comerciais consideradas desleais, podendo
gerar condenações que implicam em direito de retaliação.
As negociações multilaterais, entretanto, tendem a
ser complexas e demoradas, pois envolvem múltiplos interesses nacionais. A última rodada de negociações da OMC,
a chamada rodada de Doha, tinha o seu primeiro prazo de
conclusão em 2005, mas em meados de 2009 ainda não
tinha sido concluída.

Quadro 3.1 - União Europeia







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A União Europeia nasceu de um contexto político bastante específico ­ a Europa do pós-guerra ­
sendo criada em 1951, a CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço) unindo Alemanha, França,
Luxemburgo, Bélica, Itália e Holanda. "O seu objetivo primordial era assegurar a paz entre as nações
europeias vencedoras e vencidas, associando as num sistema institucional comum regido pelos
princípios da igualdade e da cooperação" (UNIÃO EUROPEIA, 2009). Em 1957, estes mesmos países
assinaram o Tratado de Roma, criando a Comunidade Econômica Europeia (CEE), promovendo a livre
circulação de bens e serviços em um prazo de até dez anos.
O bloco econômico é ampliado já em 1973, com a entrada do Reino Unido, da Irlanda e da Dinamarca
e novamente em 1986, com Portugal, Espanha e Grécia. A entrada destes países tornou mais urgente
a expansão dos programas de desenvolvimento regional, criados em 1975, implicando em maciças
transferências de recursos para Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha.
O Tratado de Maastricht, assinado em 1991, criou a União Europeia (UE), ampliando a cooperação
intergovernamental. Em 1993 estava completo o processo de construção de um mercado único,
passando a ser livre também a circulação de pessoas. O passo seguinte foi a implantação da moeda

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comunitária, o Euro, que passou a circular em 2002. A UE é o único grande bloco econômico que possui
moeda comunitária.
A expansão da UE continuou nos anos de 1990 e 2000, agregando Áustria, Finlândia, Suécia e a maior
parte dos países do leste Europeu. A UE conta com 27 países membros (Mapa 01), uma população
de 503,7 milhões de habitantes (2012), um PIB de US$ 15,65 trilhões (2011)(a) ­ superior ao norte-americano ­ formando a maior e mais ambiciosa experiência de integração política e econômica do
mundo. O bloco possui uma avançada estrutura institucional, uma ativa política de desenvolvimento
regional e um forte nível de integração econômica. São candidatos a ingressar na UE a Romênia, a
Bulgária e a Turquia e a Eslovênia. Caso estes países ingressem no bloco, significará uma ampliação
significativa da UE, especialmente por causa da Turquia, país de grande população e diversidade cultural.
Entretanto, a crise econômica de 2008 vem impondo novos desafios a União Europeia, pois mostrou
que os mecanismos do bloco de governança econômica não eram suficientes.
(a) Fonte: CIA ­ World Factbook. Considerando a metodologia de poder de paridade de compra.

As relações econômicas entre os países se estruturam de maneira complexa e articulada: as negociações são
feitas de forma bilateral, com acordos de livre-comércio entre dois países ou de redução tarifária para setores específicos, de forma multilateral, através principalmente da OMC,
e regionalmente, com os blocos econômicos. Existem 191
acordos regionais registrados na OMC, a maioria são tratados bilaterais. Dentre os principais blocos econômicos,
destacam-se o Nafta24, a Asean/Afta, a CEI (Comunidade

24 O Nafta é uma zona de livre-comércio composta pelos Estados Unidos,
México e Canadá. A ASEAN/AFTA é uma zona de livre-comércio composta

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dos Estados Independentes), União Europeia e o Mercosul.
Na América do Sul é importante também a Comunidade
Andina.
Estes acordos regionais interferem na distribuição
das atividades produtivas, pois os territórios envolvidos
passam a um novo valor estratégico, lógica empresarial
pós-fordista, como será tratado a seguir.

por Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Miamar, Filipinas, Singapura,
Tailândia e Vietnã. Informações detalhadas sobre os blocos econômicos
existentes pode ser obtida no sítio da Organização Mundial do Comércio, via
.

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3.3 Energia, logística e reordenamento territorial
pós-fordista

res, cada vez mais fragmentados, passavam a exigir. Era um
sistema muito rígido no sentido de imobilizar capitais fixos
em larga escala e a longo prazo, com pouca flexibilidade
de planejamento. Esta rigidez também era manifestada no
mercado de trabalho pela força dos sindicatos, que dificultavam qualquer mudança.
O fordismo entrou em crise no final dos de 1960 e
início dos anos de 1970, apesar de continuar em expansão
com sucesso em países como o Brasil. A resposta para a
crise foi flexibilizar a produção. O sistema produtivo que
emerge25, mais enxuto, busca escapar da rigidez fordista e
se baseia num modo de acumulação flexível:

A organização econômica do mundo sofreu grandes transformações a partir dos anos de 1970. O modelo
de acumulação dominante até então, o fordismo, era baseado na divisão do trabalho, na produção em massa, na
padronização dos produtos e produção verticalizada nas
empresas. Todavia, a grande inovação que Henry Ford concebeu e implantou em 1914 foi
o seu reconhecimento explícito que produção de massa significava consumo de massa, um novo sistema de
reprodução da força de trabalho, uma política de controle e gerência do trabalho, uma nova estética e uma
nova psicologia, em suma, um novo tipo de sociedade democrática, racionalizada, modernista e populista
(HARVEY, 1989).

Do ponto de vista da distribuição produtiva no espaço, a verticalização característica do fordismo significava a
existência de grandes plantas industriais ­ necessárias para
a obtenção de ganhos de escala ­ com a concentração
de todas ou a grande maioria das etapas produtivas num
mesmo local. Esta estrutura se garantia a baixos custos
produtivos, não respondia de forma rápida as variações de
demanda e nem era capaz de atender de forma satisfatória
a diversificação de produtos que os mercados consumido-

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Ele se apoia na flexibilidade dos processos de trabalho,
dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de
consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de
produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento, de serviços financeiros, novos mercados e,
sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação
comercial, tecnológica e organizacional. A acumulação
flexível envolve rápidas mudanças dos padrões do desenvolvimento desigual, tanto entre setores, como entre regiões geográficas, criando, por exemplo, um vasto
movimento no emprego, no chamado "setor de serviços" (...) (HARVEY, 1989).

25 O fordismo persiste em alguns setores industriais, apesar de geralmente
mais enxuto.

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Esta flexibilização implicou num profundo processo
de desverticalização produtiva. As empresas passaram a se
concentrar somente em suas atividades mais nobres, mais
rentáveis, terceirizando muitas vezes a própria produção.
Para isso, são utilizadas inúmeras formas de articulações
entre as empresas: contratações de serviços, consórcios
modulares, condomínios industriais, franquias, rede de pequenas e médias empresas, etc. É um exemplo deste tipo
de inovação gerencial a fábrica de caminhões e ônibus
que a Volkswagen implantou no município de Resende
(RJ), que opera no modelo de consórcio modelar, onde a
própria montagem dos veículos é terceirizada. Pode-se citar a produção em rede de pequenas e médias empresas
da Terceira Itália, onde as etapas produtivas são divididas
sem que haja uma grande empresa contratante dos serviços. Cita-se ainda, a profusão de serviços avançados nas
metrópoles (trabalhado no capítulo 5) como outra faceta
importante deste processo.
Em termos espaciais, o reordenamento territorial
pós-fordista significou uma dispersão maior do processo
produtivo, em todas as escalas: intraurbano, regional, nacional, continental e global. As empresas tendem a terceirizar tudo aquilo que não faz parte de sua área de excelência, focando o seus recursos na qualidade e na tecnologia.
Esta dispersão é apoiada em novos arranjos institucionais
(como os blocos econômicos), no desenvolvimento de
técnicas gerenciais, em redes informacionais e na logística.

São facetas do mesmo processo de reordenamento
territorial:

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· o fortalecimento das cidades globais como locais
concentradores da oferta de serviços avançados
a empresas;
· a dispersão da produção industrial. No Brasil, para
o Nordeste e também para o interior do Sul e Sudeste. No Mercosul, o complexo produtivo da indústria automobilística montado entre o Brasil e
Argentina. No mundo, o deslocamento da produção industrial para a China e outros países da Ásia;
· a dispersão e a produção em rede por parte de
empresas de serviços, possibilitando, por exemplo, o crescimento do setor de serviços ligados a
área tecnológica na Índia;
· o fortalecimento do setor de serviços em detrimento do industrial.
Neste modelo produtivo a conectividade passa a ser
uma palavra-chave e a logística passa a ser um conceito
que expressa a conectividade e seu papel na aceleração
das transformações. No mundo contemporâneo, tal como
proposto por Paul Virilio (1976 apud BECKER, 2006), a logística é um sistema de vetores de produção transporte e processamento que garante o movimento perene e a competitividade. Sistema de vetores que corresponde cada um

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deles às múltiplas redes ­ de transporte, de energia, de
comunicação, etc. ­ que em conjunto geram forte sinergia
(BECKER, 2006). É fácil perceber a importância da logística
na organização e na dinâmica do território e seu efeito na
diferenciação espacial.
A nova racionalidade tende a se difundir pela sociedade e o espaço, mas em nível operacional. Em nível concreto,
é seletiva, gerando uma geopolítica de inclusão/exclusão e
avançando rapidamente no setor produtivo privado através
da formação de sistemas logísticos espaço-temporais viabilizados por redes técnicas e políticas e alimentados pela
informação. Em alguns casos o setor público, dada a sua estrutura pesada e rígida, e a sociedade desprovida de meios
econômicos e de informação, tem muito mais dificuldade
em operar a logística (BECKER, 1993).
A logística não se resume às redes de infraestrutura ­
ela é hoje um serviço sofisticado capaz de suprir a redução de custos, a confiabilidade e a velocidade necessárias
à competitividade global, sendo um elemento decisivo
na definição dos padrões territoriais e na inserção social.
A logística está, então, diretamente relacionada aos padrões de aproveitamento da base territorial de uma região,
podendo facilitar a sua inserção competitiva ou marginalizá-la dos processos sociais e econômicos mais dinâmicos
(BECKER e STENNER, 2008).
A logística é um elo que interliga as diversas etapas das cadeias de suprimento e distribuição, incluindo

operações integradas de transporte, armazenagem, distribuição, e serviços jurídicos, de planejamento tributário
e de seguros de gerenciamento de estoque. Dentre estes
itens, o transporte propriamente dito representa, na média mundial, cerca de 1/3 dos custos logísticos (MT & MD,
2007 apud BECKER e STENNER, 2008). Entretanto, a logística, num sentido mais amplo, abrange ainda outros tipos de
redes e serviços estruturantes, como produção e distribuição de energia e telecomunicações.
É a logística que possibilita que as corporações estruturem sofisticadas redes de fornecedores, parceiros e
clientes espalhados por todo o mundo, como nos exemplos mostrados no item 3.1 da Embraer e do Google, potencializando o desenvolvimento e a lucratividade. Sistemas produtivos baseados no just in time, modelo no qual as
empresas trabalham com baixos estoques, dependem de
confiabilidade e pontualidade na entrega dos fornecedores, o que só é possível com uma logística eficiente.
É então direta a relação da logística com reordenamento territorial pós-fordista. A produção e o consumo
dispersos só podem se conectar através dos sistemas logísticos. A logística é a espinha dorsal do sistema em suas
duas facetas: as infraestruturas e os serviços envolvidos.
O comércio internacional e os investimentos diretos no
exterior só atingiram os níveis atuais porque os sistemas
de transporte, manuseio e armazenagem de mercadorias
serviram de base técnica e com um custo relativamente

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baixo. De fato, as inovações no campo da logística ­ e das
tecnologias de informação não representam apenas um
facilitador das formas tradicionais de internacionalização
da economia, mas uma das condições impulsionadoras de
uma nova divisão internacional do trabalho. A logística é
uma base tecnológica que possibilita novas redes produtivas, sociais e geográficas (CORÒ, 2003).
As áreas mais fortemente conectadas as redes logísticas, seus nós mais importantes, são aquelas de maior
grau de desenvolvimento. Estes nós são representados especialmente pelas cidades globais, para onde convergem
não somente os sistemas físicos nos quais a logística se baseia, mas principalmente onde são produzidos os serviços
especializados relacionados à logística.
Assim, é notável como nas áreas economicamente
mais desenvolvidas as redes físicas dos sistemas logísticos
assumem tal densidade que formam uma malha que cobre praticamente todo o território. Esta é a situação do entorno da metrópole de São Paulo, do nordeste dos Estados
Unidos ou do coração da economia europeia, envolvendo
o sul da Inglaterra, a região de Paris, o vale do Reno e o
norte da Itália. Em áreas como na Amazônia, as redes se
apresentam de forma isolada e pouco articulada.
Estruturas de destaque dos sistemas logísticos são
os portos e aeroportos. A presença de terminais de carga
aérea é fundamental para o desenvolvimento de uma economia de alto valor agregado. Para este tipo de produto os

elevados fretes aéreos não representam um grande impacto no preço final do produto, mas a velocidade e pontualidade do sistema viabilizam a produção.
No Brasil, é interessante destacar o papel que São
Paulo representa não só na atração de passageiros para a
para a própria metrópole, mas também como o mais importante centro de conexão do país: muito passageiros desembarcam em São Paulo apenas para embarcar em um
novo voo para dentro ou fora do país. Brasília tem também
este papel em relação aos voos que seguem para a Região
Norte.
Os portos são estruturas indispensáveis para o comercio internacional que necessitam ser eficientes no processo de carga e descarga, no desembaraço jurídico dos
produtos e na integração com outros modais, além de
ainda serem capazes de receber navios de grande porte,
melhorando a economia de escala. Na escala global é por
navios que circulam boa parte das mercadorias comercializadas, em quantidades cada vez maiores. Isto está diretamente relacionado ao baixo preço do transporte ­ e de
seu insumo principal, a energia ­ permitindo um alto grau
de liberdade locacional das unidades produtivas. De outro
modo, não seria viável, por exemplo, a importação, pela
China, de minério de ferro brasileiro. O fato de a China ter
se tornado a grande "fábrica" do mundo está diretamente
relacionado ao baixo custo da energia. Caso contrário, as
corporações tornariam a sua produção mais regionalizada,

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pois os custos de transporte superariam as vantagens locacionais de uma região mais distante.
A energia circula globalmente de forma indireta,
incorporada nos produtos. Assim, graças aos avanços da
logística, as atividades energo-intensivas se distribuem no
globo seguindo a lógica da disponibilidade energética.
É o que explica a presença de grandes plantas de produção de alumina e alumínio ­ produtos eletrointensivos ­
na Amazônia brasileira, pois ali existe energia farta e barata proveniente da usina hidrelétrica de Tucuruí, além de
disponibilidade de bauxita, matéria-prima para o alumínio.
A produção dos metais é praticamente toda exportada
para países como o Japão, carente em recursos energéticos. Em casos como este, é possível identificar uma DIT
baseada na distribuição de energia no globo.
As diferenças de conectividade e da distribuição das
atividades econômicas no mundo significam profundas
disparidades regionais. No caso brasileiro, são marcantes
as diferenças regionais, assunto do próximo item.

3.4 Disparidades regionais e planejamento no Brasil

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O Brasil é um país profundamente desigual. Somente cinco mil clãs de famílias se apropriam de mais de 40%
de toda a riqueza nacional. Por outro lado, 90% da população brasileira se apropriam somente de 25% da renda
nacional. Esta enorme desigualdade tem se mantido de
forma estrutural: apesar de uma queda na década de 2000,
o rendimento médio mensal familiar per capita dos 10%
mais ricos era, no ano de 2007, 17,2 vezes maior do que
dos 40% mais pobres (Gráfico 3.3). A tendência de queda
da desigualdade persistiu nos anos seguintes, mas num
ritmo lento.

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Gráfico 3.3 ­ Diferencial entre o rendimento médio mensal familiar per capita das famílias dos 10% mais ricos em
relação às famílias dos 40% mais pobres ­ Brasil 2001-2007

Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2001-2007.
(1) Exclusive a população rural de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá.

Se a sociedade brasileira como um todo é estruturalmente desigual, o rebatimento territorial deste fenômeno
têm dois aspectos que merecem ser destacados. Primeiro, a enorme desigualdade regional ­ antiga e persistente,
com grande disparate não somente nos níveis de renda,
mais em praticamente qualquer indicador social, econômico e territorial que se avalie. As regiões Sul, Sudeste e, mais
recentemente, também a Centro-Oeste, pelo avanço da

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fronteira agropecuária, apresentam indicadores bastante
superiores ao Nordeste e ao Norte (Gráfico 3.4). O segundo ponto é que justamente as regiões e cidades mais ricas
concentram as maiores desigualdades, fato perceptível nas
principais metrópoles do país.

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Gráfico 3.4 - Rendimento nominal médio mensal, segundo as Unidades da Federação - 2010

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2010.
Notas: 1. Os dados de rendimento são preliminares.
2. Exclusive as informações dos domicílios sem rendimento nominal mensal domiciliar.

O Sudeste brasileiro concentrava 56,8% do PIB nacional, ficando o Sul com uma participação de 16,3%. Em
contraposição, o Nordeste, que abrigava 27,5% da população nacional, participava com apenas 13,1% do PIB, se
constituindo a região brasileira mais pobre. Esta desigualdade é ainda mais aguda quando avaliamos o quadro in-

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trarregional. No Norte e Nordeste existe uma forte concentração econômica nas regiões metropolitanas das capitais.
As cinco maiores regiões metropolitanas (Recife, Fortaleza,
Salvador, Belém e Manaus) concentravam 37,26% do PIB
conjunto das duas regiões, enquanto participam com somente 21% da população (IBGE, 2008). Este mesmo padrão

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é válido quando comparamos as demais capitais estaduais,
especialmente do Nordeste, com o restante do estado.
Assim, o interior destas regiões é ainda mais pobre e
carente de serviços e infraestrutura, fato recorrente quando se avalia a presença de serviços de educação, saúde,
transportes e a própria densidade e nível da rede urbana
(ver capítulo 5), bem como indicadores de qualidade de
vida (BECKER, 2006; IBGE, 2008). Em algumas áreas onde
existem grandes riquezas naturais, as atividades econômicas se restringem ao extrativismo ou a um beneficiamento primário, não havendo maior agregação de valor e, por
conseguinte uma difusão na geração da riqueza por parcelas maior da população. É o caso da Amazônia, onde é
necessário encontrar um modelo econômico, baseado no
conhecimento e na tecnologia, que transforme o patrimônio natural da região no motor de seu desenvolvimento.
Em contraposição, o centro-sul do país, especialmente o estado de São Paulo, conta com uma economia
diversificada e articulada, apoiada num sistema logístico
mais eficiente, centros de pesquisa e melhores serviços de
educação e saúde. Todas estas redes ocorrem em algumas
áreas da região com tal densidade que formam uma malha
que cobre a totalidade do território, conectando-o aos circuitos econômicos mais dinâmicos.
Se a desigualdade regional é forte e persistente no
Brasil, o mesmo é válido para a desigualdade intrametropolitana. As metrópoles, justamente por concentrarem

atividades econômicas, atraem grandes contingentes populacionais, pouco qualificados, provenientes de regiões
empobrecidas; e mão de obra altamente qualificada e
bem remunerada. As metrópoles concentram a riqueza,
mas também possuem grandes contingentes de população pobre. Esta combinação produz elevados índices de
desigualdade, fisicamente visível na concentração de pessoas vivendo em favelas, às vezes ao lado de áreas nobres
das cidades.
Levantamentos do Censo Demográfico de 2010 indicaram que naquele ano 6% da população brasileira vivia em aglomerados subnormais26, em 323 municípios. Na
Região Metropolitana de Belém, 53,9% da população vivia
neste tipo de área; na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, 14,4%; na Região Metropolitana de Salvador, 26,1%.
A mesma pesquisa torna visível a diferença de rendimento
entre a população que vive em aglomerados subnormais e
a que vive em áreas regulares da cidade (Gráfico 3.5) (IBGE,
2011).

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26 Aglomerados subnormais é a terminologia utilizada pelo IBGE que se
aproxima da ideia de favela.

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Gráfico 3.5 - Distribuição dos domicílios localizados em aglomerados subnormais e áreas urbanas regulares de
municípios com aglomerados subnormais, por classe de rendimento nominal mensal per capita - 2010

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2010.

O planejamento regional no Brasil

A questão regional do país vem a surgir de fato, com
o processo de integração da economia nacional durante
o século XX. Até então, o país era formado por um arqui-

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pélago de regiões, cada uma delas com articulações mais
fortes com o exterior do que com outras regiões do país.
A dinâmica econômica regional era definida a partir de
mercados externos e sua relação com o produto regional
dominante. Assim, era possível o Sudeste estar muito bem

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porque o café estava bem no mercado internacional, enquanto o Nordeste ia mal porque o açúcar estava em baixa
(ARAÚJO, 2005).
Ao longo do século XX, o mercado interno passa
paulatinamente a comandar a dinâmica econômica do
país e sua economia se torna cada vez mais integrada. No
momento que estas articulações se montam, tornam mais
evidentes as diferenciações regionais. Entre os anos de
1920 e 1970 ocorre um forte movimento de concentração
econômica no país, sob o comando da produção industrial, concentrada sobretudo no Sudeste e em São Paulo,
aguçando as diferenças regionais.
Diante deste contexto de desigualdade regional
persistente ou crescente, muitas foram as políticas e ações
que visavam o desenvolvimento regional do país. Neste
processo, um marco muito importante foram as ideias de
Celso Furtado. Ainda na década de 1950, ele propunha o
entendimento da pobreza do Nordeste numa perspectiva histórica e econômica, fugindo do determinismo ambiental até então dominante que relacionava a pobreza à
seca. Assim ­ afirmava Celso Furtado ­ os problemas do
Nordeste não estão relacionados à seca, mas à reconfiguração do desenvolvimento brasileiro e como a região está
se inserindo nela (ARAÚJO, 2005). Neste contexto, com a
liderança de Celso Furtado foi criada em 1959 a Sudene
­ Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste.
O órgão conseguiu promover alguma industrialização no

Nordeste, mas muito concentrada em algumas capitais.
Apesar de significativos avanços econômicos e sociais, a
região continua periférica em termos econômicos e com
graves problemas sociais. Recentemente a Sudene, que
havia sido extinta em 2001, foi recriada, com objetivo de
"promover o desenvolvimento includente e sustentável de
sua área de atuação e a integração competitiva da base
produtiva regional na economia nacional e internacional"
(SUDENE, 2009).
É importante também ressaltar na política regional
do Nordeste a Codevasf ­ Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba ­ que tem
como objetivo promover o desenvolvimento da região
utilizando os recursos hídricos como força propulsora. As
ações da empresa visam

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à geração de emprego e renda, à redução dos fluxos
migratórios e dos efeitos econômicos e sociais decorrentes de secas e inundações e, ainda, à preservação
dos recursos naturais dessas bacias hidrográficas, com o
objetivo de melhorar a qualidade de vida dos habitantes das regiões (CODEVASF, 2009).

A Amazônia foi outra região alvo de significativas
ações regionais. Ainda na década de 1940, a "Marcha para o
Oeste", a criação da Fundação Brasil Central (1944), a inserção de um Programa de Desenvolvimento para a Amazônia na constituição de 1946 e a delimitação oficial da Amazônia Legal, seguidos pela criação da Superintendência de
Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), revelam uma

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preocupação regional, mas com poucas ações efetivas
correspondentes. Já no governo de Juscelino Kubitschek,
ações implantadas em seu Plano de Metas tiveram ações
efetivas na região, como a criação de Brasília e a implantação das rodovias Belém-Brasília e Brasília-Acre.
A partir de 1966, a região passa a ser alvo de ações
efetivas de planejamento regional, inseridas num projeto
geopolítico de modernização acelerada da sociedade e
do território nacionais. O Estado implantou na região uma
malha de duplo controle ­ técnico e político ­ constituída
de todos os tipos de conexões e redes, capaz de controlar
fluxos e estoques, e tendo as cidades como base logística
para a ação. Foram abertas novas rodovias, implantados
sistemas de comunicação, utilizados incentivos fiscais e
créditos com juros subsidiados para estimular a produção,
indução de fluxos migratórios, inclusive com projetos de
colonização. Além disso, foi criada a Zona Franca de Manaus, um grande enclave industrial no coração da floresta, valendo-se de poderosa estratégia territorial (BECKER,
2004).
As motivações das políticas regionais na Amazônia,
entretanto, diferem em relação ao Nordeste. Para a Amazônia tais políticas eram vistas como soluções para as tensões
sociais internas decorrentes da liberação de mão de obra
no campo devido à modernização da agricultura no Nordeste e no Sudeste; para evitar o surgimento de focos revolucionários no meio da floresta; e para reforçar a influência

brasileira na região por meio de um maior povoamento e
integração com o coração da economia brasileira.
O planejamento com bases territoriais teve um período de pouco mais de 30 anos (entre 1947 e 1979) no
qual diversas políticas foram implementadas, inclusive
ações em relação ao Nordeste e a Amazônia supracitadas.
Os principais planos foram:

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· Plano Salte (1947): Priorizava as áreas de saúde,
educação, transporte e energia, com recursos do
orçamento, privados e de empréstimos internacionais.
· Plano de Metas (1956): Tinha como alvo os setores
de energia e transporte, a indústria intermediária
(siderurgia, papel, cimento), indústrias produtoras
de equipamentos (automobilística, naval e bens
de capital) e a construção de Brasília.
· I Plano Nacional de Desenvolvimento ­ PND
(1972-1974): Fase caracterizada pelo grande afluxo de capitais externos e substituição das importações, a marca registrada do I PND foram os
grandes projetos de integração nacional e expansão de fronteiras de desenvolvimentos.
· II Plano Nacional de Desenvolvimento ­ PND
(1975-1979): enfatizou os investimentos em indústria de base e pela busca da autonomia em
insumos básicos. Havia ênfase no campo da ener-

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gia, com estímulo à pesquisa de petróleo, programa nuclear, programa de álcool e construção de
hidrelétricas, como Itaipu.
Após este período, o planejamento governamental é esvaziado, devido a crises econômicas. As tentativas
de retomada do planejamento ocorrem somente após a
Constituição de 1988. Na década de 1990, os planos plurianuais (PPA), obrigatórios pela nova Carta Magna, passam
a ser o instrumento organizador do planejamento. Nos
anos 2000, vários outros planos e políticas surgiram, como
a Política Nacional de Desenvolvimento Regional, a Política Nacional de Ordenamento Territorial, o Programa de
Aceleração do Crescimento, o Plano Amazônia Sustentável, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), entre
outros. Além disto, foram recriadas as Superintendências
de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) e do Nordeste
(Sudene).
Todo o esforço de planejamento regional feito no
Brasil ­ se teve efeitos positivos ­ não conseguiu ainda
alterar, de forma estrutural, os padrões de desigualdade,
revelando um profundo enraizamento histórico destas disparidades.

Geografia econômica

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4. Geografia agrária

4.1 Distribuição geográfica da agricultura e pecuária mundiais
Longe de reproduzir processos e padrões espaciais rigidamente pautados em diferenças naturais derivadas das coordenadas geográficas (latitude e longitude) e suas repercussões
nas mudanças climáticas, no solo e na vegetação, os padrões atuais de distribuição da agricultura e pecuária no mundo estão associados cada vez mais, em grande parte do planeta, a
fatores socioeconômicos mais amplos que alteraram em muito a distribuição das atividades
no campo ao longo do tempo.
Observa-se atualmente no mundo uma distribuição da produção agropecuária referenciada não só à diversidade natural do planeta, mas, também, crescentemente, articulada a um
complexo conjunto de fatores que vão muito além das formas a-históricas de se observar a
agricultura segundo sua "vocação natural".
Desse modo, não resta dúvida que o espaço agrário tradicional passou por um intenso
processo de transformação em grande parte dos países, perdendo a autonomia relativa que
possuía e se integrando cada vez mais à esfera econômica, social e cultural de uma sociedade
e de um território em crescente articulação.
Outro fator essencial desse processo de transformação diz respeito à afirmação da preocupação ecológica em escala global, revalorizando o papel da natureza em si e colocando, em
novos termos, a questão do uso e da regulação dos recursos naturais necessários à produção
agropecuária em moldes sustentáveis.
Esse é o caso, sobretudo, da natureza como fonte de informação para a biotecnologia,
que abre caminho para novas fronteiras do desenvolvimento científico-tecnológico na agropecuária, notadamente no que se refere às fontes de energia renováveis, como os biocombustíveis, em um mundo no qual a crise energética desponta como um acelerador de novas
rivalidades e tensões geopolíticas.
Apesar de a questão ambiental ser um fator que acrescenta complexidade à análise da
distribuição da atividade agropecuária, pode-se afirmar, contudo que, na atualidade, a geogra-

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Geografia

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fia da agricultura e pecuária mundiais vem seguindo uma
dinâmica espacial que tem como motor o comércio internacional de commodities. Nesse sentido, ela envolve não só
a distribuição dos produtos agropecuários na superfície da
terra como, cada vez mais, a questão da logística que inclui
sua localização frente às vias de circulação e aos pontos de
armazenagem, processamento e distribuição da produção
e de serviços a ela associados.
A enorme especialização alcançada pela agropecuária norte-americana, formadora dos cinturões de milho e de trigo ­ corn belts e wheat belts ­, é o testemunho
marcante da dinâmica espacial de uma agricultura considerada, por muitos estudiosos, a mais desenvolvida do
mundo27.
Na Europa, por exemplo, Hervieu (s/d apud WANDERLEY, 2000) afirma que ocorre um vigoroso movimento
de concentração que tende a relocalizar a produção agropecuária em função dos lugares de transformação e de distribuição. Nesse sentido, o triângulo portuário Rouen-Londres-Amsterdam tem tal poder de atração, que se poderia
imaginar um cenário para os próximos 30 anos, no qual

60% a 70% da produção agrícola europeia tenderia a se
concentrar ao longo da linha do Canal da Mancha e do Mar
do Norte, de Brest (França) a Copenhague (Dinamarca).
Na América Latina, em que o espaço agrário é de
ocupação histórica mais recente do que o europeu, a distribuição da agropecuária tem avançado em direção ao interior do continente em terras antes consideradas de baixa
capacidade de suporte natural. A introdução de novas tecnologias, tanto nas espécies vegetais, como aquelas que
alteram as características dos solos, permitiu a incorporação de extensas regiões do interior do território brasileiro ­
cerrado ­ ao mercado mundial enquanto grande produtor
de grãos (soja, milho) e de carne.
Além desses fatores a interiorização da rede de estradas, de energia e de comunicação vem revertendo a posição estratégica do interior da América do Sul e do Brasil,
em especial, frente ao competitivo mercado de commodities agrícolas que passa por constantes mudanças seja do
lado da demanda como da produção e da comercialização
de alimentos.
O aumento exponencial da produção e demanda
por proteína animal e vegetal28 cria uma nova distribuição

27 A forma intensiva, a alta produtividade e a integração à indústria constituem
as principais características da agricultura estadunidense. O emprego de
sistemas intensivos associa vários fatores, entre os quais os mais importantes
são: intensa mecanização; alta tecnologia; menor utilização quantitativa de
mão de obra; qualificação profissional.

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28Com efeito, além do grande desenvolvimento do mercado e do
consumo mundial da proteína animal, um outro segmento que dinamiza
crescentemente a economia mundial com reflexos diretos na distribuição
espacial da atividade agropecuária constitui o mercado mundial de grãos.

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Geografia agrária

geográfica da agricultura e pecuária mundiais, na qual a
produção de tais commodities se torna mais um elemento
estratégico no jogo político-financeiro que envolve corporações e governos de países e blocos, tanto do mundo desenvolvido, quanto do grupo de países emergentes, como
China, Índia e Brasil.
De acordo com dados da USDA ­ United State Departamente of Agriculture, a produção e consumo de carne bovina e derivados aumentou consideravelmente nas
últimas duas décadas impulsionada pelo acelerado crescimento das economias de países como a China, a Índia e,
em menor medida, também o Brasil, gerando um aumento
sensível no poder de compra de parte das populações, sobretudo urbanas, desses países.
Trata-se, assim, de transformações de ordem econômica apoiada em inovações tecnológicas, que afetaram
profundamente a forma de produzir e de distribuir a produção agropecuária não só na América Latina como em
todo o mundo e que se traduziram, especialmente, pela
progressiva modernização do processo de produção aliada
a um movimento contínuo de integração desse setor aos
mercados, inclusive e, sobretudo, aos mercados extralocais.
Em escala mundial, nas últimas três décadas, a inserção maciça no mercado de produtos alimentícios pro-

cessados de carnes (aves, bovina e suína) e derivados de
soja, cada vez mais acessíveis, alterou substancialmente
o padrão de consumo alimentar das populações urbanas
em praticamente todo o mundo ocidental e, mais recentemente, também em países de cultura oriental, a exemplo
da China e da Índia.
A acelerada urbanização observada em economias
emergentes, como China, Índia e Brasil, projeta um aumento da demanda de produtos alimentares dado que grande
parte dos novos habitantes urbanos, principalmente no
caso da China, deixa de produzir no campo.
Não é por acaso que esse é um dos pontos que envolve atualmente a discussão acerca da manutenção dos
subsídios e da produção de alimentos no continente europeu versus a maior dependência às importações da China,
dos Estados Unidos29 e do Brasil, assim como a questão que
envolve o esvaziamento e desemprego no campo europeu30 aumentando a elevada urbanização desse continente.

Atualmente este mercado é composto principalmente por três commodities
agrícolas: trigo, milho e arroz que constituem a base alimentar da maior
parte da humanidade.

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29 Estados Unidos é ainda o maior produtor e exportador mundial de alimentos.
Apenas para citar alguns exemplos, esse país é o primeiro produtor mundial
de milho e soja, o segundo na produção de frangos, carne e algodão e o
terceiro na de trigo, açúcar e equinos.
30 Com efeito, durante décadas a política agrícola na Europa garantiu a
estabilidade de preços, comprou excedentes de produção, subsidiou
exportações e acumulou enormes reservas, fazendo com que em alguns
períodos ocorressem "montanhas de manteiga" ou "lagos de leite", refletindo
situações absurdas dessa política. Nesse sentido, as reservas da União
Europeia para instabilidades de mercado foram drasticamente reduzidas nos
últimos anos. .

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Além da manutenção subsidiada de áreas agrícolas na Europa cabe observar a preexistência de regiões de
agricultura tradicional em todos os continentes seja pela
sua pequena inserção em uma economia de mercado que
marginaliza ainda grande parte de agricultores asiáticos,
africanos e latino-americanos, ou seja, devido a uma ação
deliberada de preservação de formas tradicionais de reprodução de culturas e técnicas secularmente adaptadas,
como é o caso do cultivo do arroz (mapa abaixo).

O arroz está entre os cereais mais importantes do
mundo para a alimentação humana, sendo o continente
asiático o responsável por 88,9% do consumo mundial,
seguido das Américas (4,9%), África (4,9%), Europa (1%) e
Oceania (0,2%) ().
Ainda segundo essa fonte, citando dados da FAO
(Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), divulgados em 2006, entre os continentes, a Ásia

Mapa 4.1 - Distribuição do arroz no mundo

Fonte: FAO (extraído de: http://www.atmosphere.mpg.de/enid/263.html em 04/06/2009).

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Geografia agrária

é o maior produtor mundial (90,5%), seguido das Américas
(5,9%), África (3,0%), Europa (0,5%) e Oceania (0,1%). O Brasil é o nono produtor mundial de arroz e o primeiro fora do
continente asiático.
Considerando os diferentes tipos de arroz produzidos e consumidos mundialmente, a produção mundial
é superior a 600 milhões de toneladas em 2005. Os nove
maiores produtores mundiais foram responsáveis por
84,8% da produção mundial naquele ano, sendo China e
Índia os maiores produtores, participando com 30,0% e
20,9%; seguidos da Indonésia, com 8,7%; Bangladesh 6,5%
e Vietnã 5,9%, além da Tailândia e Myanmar, com cerca de
4% ().
Em países da América do Sul, como o Brasil, a redução no consumo per capita do arroz observada ao longo
do tempo é atribuída a vários fatores, entre os quais se destacam: a substituição do arroz por fontes de proteína de
origem animal; e a mudança de hábito alimentar com o
advento do fast food.
Nesse cenário de aumento da produção e do consumo de proteína animal e vegetal, o Brasil, por meio de
uma estratégia político-econômica de incentivo à produção agropecuária voltada à exportação, ganha destaque
nas últimas três décadas e se consolida entre os maiores
produtores e exportadores de carnes e grãos, ao lado dos
EUA e da Argentina. Em termos relativos, a produção agropecuária brasileira é a que apresenta o maior aumento na
última década.

Os Estados Unidos constituem um dos maiores
produtores e exportadores de commodities agrícolas destacando-se no segmento do milho, soja, trigo e algodão,
além do setor de frangos, carne e equinos.
Segundo informações da USDA, os EUA lideram a
produção e a exportação de grãos no geral e também de
soja, seguidos por Brasil e China. No entanto, quando se
trata de exportações, a China perde lugar para a Argentina,
pois seu consumo doméstico de soja é o maior do mundo, perdendo apenas para o bloco da União Europeia. No
que se refere à produção de carne bovina, os três maiores
produtores e exportadores são EUA, Brasil e China, respectivamente31.
De modo geral, pode-se afirmar que o crescimento
atual da produção agropecuária se deve, sobretudo, aos
mecanismos de mercado, aí incluídos desde o aumento da
demanda mundial por alimentos, fibras e energia renovável até o maior consumo interno em países como o Brasil,
possível graças, entre outros motivos, à criação de políticas
de inserção social.
Mais recentemente, no entanto, a crise na zona do
euro e a desaceleração da economia chinesa constituem
fatores de retração do comércio externo que poderão bai-

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31 Cabe observar que os dados da USDA não ser referem ao rebanho, mas à
produção em toneladas de carcaças.

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xar o preço das commodities agrícolas com repercussão negativa sobre o volume de produção a partir de 2012.
Com efeito, a diminuição da demanda de alimentos
(e ração) que possa eventualmente ocorrer a partir da crise financeira iniciada nos Estados Unidos em 2008 e sua
persistência e desdobramentos regionais na Europa e nos
"grandes mercados emergentes" como a Índia e a China,
ameaça o processo continuado de expansão das exportações das commodities agrícolas em países exportadores,
como o Brasil.
Nesse contexto, a diminuição na demanda de alimentos pode representar um momento de inflexão nas
expectativas e nas políticas postas em andamento pelo
quadro expansionista firmado desde o início da década,
alterando, de alguma forma, a expansão das áreas de produção agrícola no Brasil e no mundo.
No quadro ao lado são observadas algumas características básicas que explicam em grande parte a distribuição atual da produção agrícola no mundo assim como
os eventuais deslocamentos espaciais que poderão ocorrer em futuro próximo, decorrentes de fatores tais como
as mudanças climáticas que poderão tornar cada vez mais
complexa a explicação da distribuição da produção agropecuária no mundo.
Com efeito, na atualidade, a questão da distribuição
da atividade agropecuária rebate-se diretamente com a
problemática ambiental, fazendo com que os indicadores

tanto das áreas de lavouras como das áreas de pastagem
e de desenvolvimento da pecuária sejam analisadas tendo
como referência a questão ambiental.
A intensidade de uso agropecuário do território
constitui, assim, um tema de crescente relevância no mundo contemporâneo transformando o indicador de densidade do rebanho em um valioso instrumento de análise da
distribuição da atividade agropecuária no mundo em suas
relações com o meio ambiente.

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Geografia agrária

Quadro 4.1 - Características territoriais dos principais produtos agrícolas no mundo
Característica

Arroz

Trigo

Milho e Soja

Batata

Principais continentes e
países produtores

Ásia - China e Índia

China, Índia, Europa e
Rússia

América do Norte,
América do Sul e Ásia

China, América do Norte,
Rússia

Alimentação humana

Alimentação humana Farinha, pão

Alimentação humana e
animal

Alimentação humana

Clima

Temperado a muito
quente

Frio a temperado

Temperado a
quente

Frio a temperado

Necessidade de água

Muito alta

Baixa

Alta

Média a alta

Potencial impacto na
mudança climática

Moderado
deslocamento das áreas
de cultivo ao norte

Moderado
deslocamento das áreas
de cultivo ao norte

Moderado a alto
decréscimo na
produtividade devido ao
aumento do calor

Baixo
mudanças na
sazonalidade e nas
variedades

Utilidade

Fonte: FAO (extraído de: em 4/6/2009).

Em termos de pressão sobre o meio ambiente, o
mapa da distribuição mundial da densidade do rebanho
(bovinos, caprinos, equinos, bubalinos e camelos), no
mapa a seguir, revela que nas regiões onde a densidade do
rebanho é baixa, especialmente na África e Ásia, a atividade
pecuária se desenvolve em sua maior parte em pastagens
naturais sem utilização de insumos.
Nesse contexto, de acordo com o grau de extensividade com que é praticada, a atividade pecuária pode
até mesmo ajudar a manter a fertilidade natural do solo,
contribuindo para a retenção de nutrientes e de manuten-

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ção de sua umidade, criando, desse modo, um ambiente
propício para a reprodução de microflora e microfauna. Ao
contrário, em áreas onde a pecuária é praticada intensivamente, isto é, com altos índices de cabeça por área, utilizando, portanto, sistemas criatórios com uso de insumos
industriais e de confinamento, a concentração do rebanho
pode causar sérios problemas ambientais.

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Geografia

Mapa 4.2 - Distribuição mundial do rebanho de animais de grande e médio porte*

(*) Bovinos, caprinos, equinos, bubalinos e camelos.
Fonte: FAO (extraído de: em 4/6/2009).

Os sistemas intensivos de produção pecuária, que
resultam em grande excedente nutricional desperdiçado,
são geralmente encontrados em áreas próximas às grandes concentrações urbanas, como aquelas do noroeste da
Europa, do nordeste e centro-oeste dos Estados Unidos e
do Japão.

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Cabe observar que as maiores densidades mundiais
encontram-se no Oriente Médio, Ásia e Austrália.
Na América do Sul, contudo, a expansão da atividade pecuária em áreas de floresta, apesar de ser praticada
de forma extensiva e semiextensiva, tem sido constantemente associada ao crescimento do desmatamento na re-

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Geografia agrária

gião amazônica, seja isoladamente, seja dentro de uma dinâmica de uso e ocupação da fronteira agropecuária onde
se observa constantemente o sequenciamento temporal
e espacial da extração vegetal ­ abertura da pastagem e,
finalmente, expansão da lavoura modernizada de grãos,
com destaque para soja e milho.
A experiência brasileira recente de construção de
um pacto entre agentes privados e organizações não governamentais em torno do rastreamento da procedência
do gado bovino visando o combate à comercialização do
rebanho proveniente de áreas desflorestadas na Amazônia
constitui um exemplo bem-sucedido de ação de combate
ao desmatamento relacionado à expansão da pecuária sobre áreas de floresta nessa região.
Nesse sentido, em 2009, os quatro maiores frigoríficos e empresas brasileiras de abate e processamento
de carne e couro assinaram um compromisso público de
inibir a atividade econômica de fornecedores envolvidos
com o desmatamento da Amazônia.
Embora existam muitas variações quanto à dinâmica de uso da terra nessa região, as madeireiras constituem,
usualmente, a frente avançada de exploração dos recursos,
sendo quase sempre sucedida pelos agricultores itinerantes que se instalam seletivamente nas áreas desmatadas
e abandonadas pelos madeireiros. Em sequência, os proprietários de maiores extensões de terra em muitos casos
agregam as pequenas propriedades em grandes fazendas
de pecuária, com pouca diversificação agrícola.

De acordo com Serrão (1998), a extração de madeira, a agricultura migratória e a expansão pecuária se unem
em um processo dinâmico num movimento de abertura
de fronteira com desmatamentos da floresta primária. Esse
processo se manifesta em um padrão espacial de cobertura da terra, que varia de espaços urbanos desenvolvidos e
abertos à agricultura de longos pousios, mesclada com a
exploração seletiva de madeira.
Quanto à expansão da pecuária na Amazônia brasileira, cabe observar que longe de ser considerada atividade viável somente para as grandes propriedades, o que se
percebe, na atualidade, é sua ampla difusão entre os pequenos produtores rurais dessa região, como revela o processo de pecuarização da agricultura familiar, presente em
toda essa região. Tal processo ocorre, inclusive, entre pecuaristas nas frentes pioneiras que nunca tiveram acesso a
incentivos fiscais e a políticas de crédito, como no passado.
Se na Amazônia brasileira o desmatamento está intrinsecamente associado ao processo de expansão e consolidação da fronteira agropecuária e demográfica articulada direta ou indiretamente à ação pública e privada de
ocupação dessa macrorregião, nos demais países sul-americanos que compõem a Amazônia sul-americana essa associação também ocorre, mas com especificidades decorrentes das diferentes formas de inserção das "Amazônias"
ao mercado interno e externo, este último ligado, cada vez
mais, à demanda mundial de proteína animal e vegetal e
de energia.

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Geografia

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Na Bolívia, onde o desmatamento ocorre atualmente de forma extensiva, dados recentes indicam um aumento das terras agrícolas e da pecuária de forma mais intensa
na região de Santa Cruz, onde o desmatamento tem apresentado um dinamismo maior, acompanhando, de certa
forma, a expansão da pecuária e do cultivo da modernizado da soja na fronteira amazônica brasileira.
De acordo com Perz (2003), no Peru, como em outros países da bacia amazônica sul-americana, o desmatamento verificado nos departamentos de San Martín e de
Pucallpa está relacionado não só a agricultura como, sobretudo, à atividade pecuária. Com efeito, para esse autor,
a pecuária vem se afirmando como uma atividade de importância crescente na Amazônia peruana como resposta
ao crescimento econômico dos anos noventa e aos planos
de implantação da rodovia transoceânica ligando o Brasil
ao Peru.
Finalmente, cabe observar que na contemporaneidade, a questão da distribuição geográfica da agricultura
e da pecuária mundiais constitui ponto central da agenda
política contemporânea ao abranger temas que vão desde
a superação das desigualdades socioeconômicas no mundo até aqueles que tangenciam a própria sobrevivência da
humanidade e dos recursos naturais no planeta, como a
questão da mudança climática e de fontes renováveis de
energia, como a biomassa.

4.2 Estrutura e funcionamento do agronegócio no
Brasil e no mundo

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Para compreender a estrutura e funcionamento do
agronegócio no Brasil considera-se necessário lançar um
breve olhar sobre a evolução da atividade agropecuária no
país e sua inserção na economia mundial.
Antes de mais nada, é preciso observar que a agricultura tem histórica relevância geográfica e econômica
no Brasil, tendo moldado as diversas formas de ocupação
e uso do imenso patrimônio natural tropical e subtropical
que formam o país.
Com efeito, o processo de ocupação e as atividades
econômicas desenvolvidas no Brasil estiveram fortemente relacionados com a exploração da terra e, portanto, das
potencialidades naturais contidas em seu território32. Nesse contexto, as principais atividades econômicas desenvolvidas desde o início da colonização estiveram ligadas a
produtos agrícolas ou de caráter extrativo, como pau-brasil, cana-de-açúcar, fumo, algodão, café, borracha e cacau.
A ocupação agrícola foi um dos elementos fundamentais para conformar até mesmo a diferenciação regio-

32 Segundo Araújo (2006), o Brasil engatou no século XVI no velho movimento
de internacionalização do capital comercial como colônia de exploração
dentro de um processo que deixa sua marca até os dias atuais. Desse
modo, afirma a autora, pedaços do território brasileiro foram articulados
nesse movimento, montando bases produtivas e estruturas socioculturais
diferenciadas que, ainda hoje, marcam nossas distintas regiões.

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Geografia agrária

nal que hoje em dia compõe o país, alterando-se à medida
que o movimento de apropriação e uso dos espaços rurais
ou agroindustriais vai reconstruindo, dinamicamente, o
território nacional ao longo do tempo.
A estrutura espacial nas primeiras décadas do século
XIX, ainda refletia, de modo geral, um país de ocupação
concentrada na faixa litorânea, cuja base econômica agrária, espacialmente descontínua e comandada pelo mercado externo, era marcada por dinâmicas pontuais que se reproduziam em diferentes áreas de seu território, de forma
desintegrada, conforme as condições naturais reagiam à
participação do Brasil no mercado internacional enquanto
produtor de bens primários diferenciados.
O modelo econômico primário-exportador manteve-se durante os regimes políticos da Colônia, do Império e do início da República, baseado na geração de renda
proporcionada pela exportação de produtos agrícolas para
importar os bens manufaturados.
Após a Segunda Guerra Mundial observa-se um
aprofundamento das ações modernizantes no setor agrícola brasileiro que começa a ganhar dimensão regional em
partes do sul e sudeste do país com a introdução de máquinas e insumos e de novas variedades de culturas.
Com a intensificação do crescimento dos setores industrial e de serviços, o modelo de produção agrícola de
baixa tecnologia vigente ainda em grande parte do país

passa a ter dificuldades em atender à crescente demanda
por produtos agropecuários. Esse aumento de demanda é
resultado da migração de pessoas do campo para os centros urbanos (em função do aumento da oferta de empregos na indústria e no comércio), as quais deixam de produzir e passam a demandar alimentos, acabando por pressionar o processo de modernização da agricultura brasileira.
Segundo Kageyama et alli (1990), a segunda metade da década de 1960 pode ser considerada um marco
no processo de modernização da agricultura brasileira ao
definir um novo modo de produção agrícola, caracterizado pela intensificação das relações entre a agricultura e a
indústria.
Assim, em meados dessa década a adoção de uma
série de políticas públicas específicas para a modernização
da agricultura provocou importantes transformações no
setor, consolidando a grande agricultura comercial, através
da tecnicização de seus processos produtivos e de uma
maior abertura ao mercado internacional. Nesse contexto, a produção agropecuária apresentou um desempenho
muito superior a de décadas anteriores, devido tanto ao
aumento da sua produtividade, como da diversificação de
suas exportações agrícolas.
Esse quadro em que o setor agropecuário se estrutura com base na expansão e na modernização tecnológica da produção de commodities de alto valor comercial, foi
consolidado ao longo da década de 70. Naquele período

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foram ampliados os investimentos públicos na infraestrutura, no armazenamento e na modernização da produção
agropecuária em larga escala. Chama a atenção o aumento
da mecanização do setor agropecuário entre os anos 70 e
80, quando a maioria dos estados mais que dobraram o
número de tratores utilizados. Estados com grande produção de grãos, como o Paraná, Goiás e Mato Grosso, mais
que quintuplicaram as sua frotas nessa década. Só o Mato
Grosso (incluída a área do atual Mato Grosso do Sul para
efeitos de comparação) passa de um total de 4.386 tratores em 1970 para 44.320 unidades em 1980 (GUIMARÃES,
2012).
Com efeito, a partir desse período o setor agropecuário brasileiro será submetido a um complexo processo
de modernização que ocasionou uma mudança qualitativa fundamental na sua base técnica (GRAZIANO, 1996). Tal
processo, pautado em uma série de políticas governamentais, dentre as quais se destacavam os subsídios creditícios,
alteraria em caráter definitivo a organização produtiva do
setor, incentivando o desenvolvimento de uma grande
produção de alto valor comercial não só para o mercado
interno como para o mercado externo.
Nesse contexto, instalava-se, também, na década de
70, um forte debate no país quanto ao abastecimento do
mercado interno contraposto às exportações agrícolas. As
políticas econômicas, base da modernização, contrapunham-se entre a produção para exportação e a de alimen-

tos de consumo popular, que deveriam se manter a preço
baixo dado a pressão que exerciam sobre a base salarial.
A grande capacidade demonstrada pela agropecuária brasileira ­ grandes, médios e pequenos produtores
­ de produzir alimentos e matérias-primas não só para o
mercado interno, quanto para exportação vai colocando,
contudo, a dicotomia (mercado interno X mercado externo) em segundo plano.
Um fator que contribuiu para a superação dessa dicotomia foi a passagem de um estágio de substituição de
importações na economia brasileira para o de estímulo às
exportações, nas quais a agricultura teria um papel importante não só enquanto exportadora de produtos para um
mercado internacionalizado (HIRST & THOMPSON, 1998)
exponencialmente crescente, como também, enquanto
segmento econômico fundamental, para ampliar a demanda de insumos industriais em larga escala33, dentro de
um elevado padrão tecnológico.
O uso de novos sistemas técnicos para a produção
agrícola permite que sejam ocupados os tempos vagos do
calendário agrícola, encurtados os ciclos vegetais e acelerada a circulação dos produtos, dos serviços e das infor-

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33 Esse movimento foi simultâneo a uma tendência mundial de consumo
intensivo de insumos industriais poupadores de terra e trabalho nos
processos produtivos desse setor, que ficou conhecida como "revolução
verde".

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mações quer giram, agora, em torno da agroindústria, da
cadeia produtiva e, finalmente, do agronegócio34.
A disponibilidade do crédito e a expansão das culturas voltadas à exportação vão conduzir, assim, a um novo uso
agrícola do território brasileiro, no qual o setor agropecuário
não pode mais ser entendido de forma autônoma, isto é,
descolada da indústria, dos serviços e da comunicação.
Com efeito, o setor agropecuário que estava, em
muitos aspectos, organizado de maneira formalmente autônoma, integra-se, crescentemente, ao restante da economia. Essa integração, que é definitiva, varia de acordo
com a intensidade das trocas que são realizadas entre os
setores não agrícolas e os diferentes segmentos produtivos da agricultura.
Para a análise desse processo, torna-se relevante a
utilização da noção de cadeias produtivas na qual se interligam os agentes supridores de insumos e fatores de produção, os produtores, os armazenadores, os processadores
e os distribuidores, além dos prestadores de serviços de

toda ordem, aí incluídos os agentes financeiros institucionalizados ou não.
Dado que essa nova dinâmica da agricultura passa
a ser, em grande medida, determinada pela lógica produtiva dos demais setores, o espaço para a concretização de
uma agropecuária independente é cada vez menor, uma
vez que esta última não tem mais condições para produzir
isoladamente os insumos necessários para realização da
produção, nos termos tecnológicos exigidos pelo grande
mercado nacional/mundial de alimentos e fibras básicas.
Os lugares eleitos para produzir as commodities que
interessam às grandes empresas passam a ser modernizados em detrimento de grandes porções do território. As
relações de produção passam então a ser determinadas,
essencialmente, pelo mercado internacionalizado que dita
as regras e impõe suas normas, enquanto uma extensa
porção do território nacional começa a se tornar especializada no cultivo de produtos em grande parte destinados à
exportação, como é o caso da soja em Mato Grosso (Mapa
da Cadeia Produtiva da Soja).
Essa lógica espacial extrapola, portanto, o meio rural
e a produção agrícola estrito senso e se projeta na modernização e expansão de redes de fluxos materiais (a montante e a jusante da produção propriamente dita) e imateriais (ordens, informação, capital, serviços) numa busca
permanente pela fluidez necessária ao aprofundamento
da divisão territorial do trabalho.

34 Se a noção de agroindústria remete a uma situação de produção rural e
beneficiamento mais ou menos complexo dessa produção, a de cadeia
produtiva e de agronegócio remetem a uma complexidade maior nas
relações intersetoriais uma vez que envolvem, também, o complexo sistema
de circulação, comercialização, financiamento e de serviços que atualmente
requalificam a atividade agropecuária tornando-a um componente
crescentemente similar ao demais setores que compõe a economia brasileira
e mundial.

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A soja no Estado do Mato Grosso constitui, nesse
contexto, um exemplo emblemático da lógica que preside a complexa teia de interesses econômicos, financeiros
e político dos setores envolvidos no agronegócio no Brasil.
Nesse contexto, embora os fatores climáticos e topográficos tenham evidentemente auxiliados a difusão
dessa cultura no cerrado brasileiro, as ações políticas estatais e privadas facilitaram esta marcha em todas as direções da Região Centro-Oeste e, mais recentemente, para o
Norte e Nordeste do Brasil nas quais grande parte da soja
plantada é financiada por empresas de agronegócios nacionais e internacionais.
Nesse sentido, há exemplos de investimentos diretos não só no setor agrícola, como na infraestrutura e na
logística como é o caso do porto fluvial de Santarém (PA) e
investimentos em parceria com outras empresas do setor
e com o Estado brasileiro, como no caso do asfaltamento
da rodovia Cuiabá-Santarém.
Assim, ao lado da localização da produção e da rede
de armazenagem, a estruturação dos transportes multimodais representa um componente de comércio fundamental para se atuar no mercado mundial, onde a proximidade
das áreas de produção e armazenamento, em relação aos
portos, constitui um elemento territorial decisivo na definição da competitividade, embora não esgote a trama de
articulações espaciais e setoriais envolvidas na questão da
logística voltada para o competitivo segmento dos grãos.

De acordo com os resultados da Pesquisa de Estoques do segundo semestre de 2010 (IBGE, 2010) indicam
que houve um acréscimo de 3,5% no número de estabelecimentos ativos de armazenagem, comparativamente ao
primeiro semestre. No final do segundo semestre, a rede
armazenadora de produtos agrícolas contava com 9.092
estabelecimentos ativos, dos quais 43,9% encontravam-se
na Região Sul, 22,9% na Região Sudeste, 21,6% na Centro-Oeste, 8,3% na Nordeste e 3,3% na Região Norte.
Acompanhando de perto a localização das áreas de
grande expressão do segmento agroindustrial nacional,
notadamente no que diz respeito à produção de grãos, a
distribuição espacial da armazenagem no Brasil mostra na
escala macrorregional forte concentração na Região Sul-Sudeste e um processo de expansão em direção às áreas
de crescimento da fronteira agrícola no Centro-Oeste, importantes produtoras de grãos, notadamente de soja e
milho. Nesse sentido, a distribuição de silos e graneleiros
revela, de forma direta, a logística de localização e distribuição das grandes empresas inseridas nos complexos
agroindustriais, como o da soja, cuja atuação, longe de restringir-se ao mercado interno, insere-se numa economia
desenvolvida em escala global.
Nesse contexto, cabe lembrar que a tendência de
deslocamento das áreas tradicionais de plantio e processamento de grãos, principalmente da soja, do Rio Grande
do Sul, Paraná, Santa Catarina e São Paulo para os estados

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de Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e, mais recentemente, Bahia, Maranhão e Piauí, responde, em grande parte, pela configuração do mapa da distribuição das unidades
de armazenagem no território nacional (BAHIANA, 2012).
O Mapa da Cadeia Produtiva da Soja deixa evidente
a complexidade de atividades e interesses imbricados no
agronegócio na atualidade.

Assim, se a industrialização da agricultura firmava-se
no estreitamento da relação entre indústria e agricultura,
como se a segunda se tornasse mais uma ramificação da
primeira pela dependência dos insumos que recebe de determinadas indústrias, na atualidade, os serviços de logística e de certificação ambiental constituem, também, uma
ampliação das articulações intersetoriais na construção do

Mapa 4.3 - Cadeia Produtiva da Soja

Fontes: IBGE, Produção agrícola municipal, 2007; IBGE, Regiões de influência das cidades, 2008; IBGE, Cadastro de
empresas, 2006; ABIOVE, Coordenadoria de Economia e Estatística, 2008.

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agronegócio nacional e de sua capacidade de competir e
se inserir no mercado mundial.
Nesse contexto, pode-se afirmar que não se esgotaram com o tempo as funções exercidas pela agropecuária
quer como atividade desbravadora, como fonte produtora de riquezas para o mercado mundial ou como força de
impulsão à economia de mercado interno e externo com
base no setor urbano-industrial.
Com efeito, o novo padrão alimentar que vem se
gestando no Brasil tende a seguir os padrões dos países desenvolvidos, existindo uma relação entre oferta e demanda
que passa por uma reestruturação do sistema agroalimentar, agora entendido enquanto uma cadeia, dos fornecedores de insumos e fabricantes de máquinas ao produto
colocado em grandes atacadistas e varejistas, como os supermercados ou escoado para os terminais portuários para
exportação.
A "revolução" na indústria de alimentos é profunda,
gerando novos hábitos, diferenciando o mercado e introduzindo gradativamente novas tecnologias pelo lado da
oferta. Assim as novas e complexas relações estabelecidas
alteraram o sentido linear oferta-demanda, transformando-as em elos de uma grande cadeia de agronegócio nos
quais a diversificação de produtos tem uma retroalimentação demanda-oferta com reflexos rápidos e flexíveis na
resposta da produção.

A economia mundial ­ e dentro dela o sistema
agroalimentar ­ apresenta tendências que, se não estão
ainda completamente nítidas, apontam para algumas direções de contornos já delineados. Inovações tecnológicas,
inovações organizacionais e uma crescente necessidade
de estreitamento entre serviços e produtos obtidos são
elementos suficientes para provocar uma reestruturação
do sistema de produção agrícola e alimentar.
Nesse sentido, as mudanças na forma de produzir,
circular, organizar e consumir são parte da discussão dos
rumos a serem tomados em futuro próximo pela agropecuária brasileira, redefinindo as condições econômicas, sociais e ambientais de um novo caminho, no âmbito interno
e externo.
Assim, ao papel inicial da agropecuária no processo de incorporação e apropriação do território e formação
de sua soberania como nação, acrescente-se sua função
atual como atividade responsável pela cota expressiva do
produto interno bruto e elevada participação na pauta de
exportações.
A dependência do país às exportações de commodities agrícolas traz consigo questões relacionadas à necessidade da diversificação da pauta de exportação e ao risco
da desindustrialização e da perda de uma autonomia relativa frente à crescente instabilidade econômica que caracteriza o processo de globalização econômica e financeira
contemporâneo.

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Nesse contexto, se por um lado, o aumento da demanda por qualidade e diferenciação de produtos e a pressão pela expansão da infraestrutura continuarão marcando
a geografia do agronegócio brasileiro no futuro, por outro
lado, o crescimento sustentado do mercado externo em
um mundo marcado pela instabilidade sistêmica da economia lançará um ambiente de incerteza cíclica no processo de produção/comercialização das commodities agrícolas.

4.3 Estrutura fundiária, uso da terra e relações de
produção no campo brasileiro

Constituindo uma característica central da história
de ocupação do território brasileiro e de formação da sua
sociedade, a estrutura fundiária revela a um só tempo processos pretéritos e contemporâneos do modo como os recursos naturais são apropriados no Brasil.
Das formas de acesso a terra, engendradas por uma
sociedade escravista que teve na expansão territorial a base
de sua dominação política, econômica e social, o país herdaria uma estrutura fundiária marcada pela desigualdade.
A análise da estrutura fundiária brasileira articula-se, profundamente, com as relações estabelecidas entre os homens,
isto é, com as relações sociais de produção e com o uso
econômico que a sociedade e o Estado fizeram dos seus
recursos naturais a começar pela terra.
De acordo com Furtado (1971), numa economia colonial comandada pela pecuária extensiva, cuja expansão
estava intrinsecamente assentada na disponibilidade de
terras, dada a baixíssima capacidade natural de suporte prevalecente no sertão, a possibilidade de avanço da fronteira,
facilitada no interior pelos caminhos naturais representados
pelos rios, tornou possível que os rebanhos penetrassem
com rapidez na remota extensão setentrional do interior do
país, traçando as linhas gerais de definição do território brasileiro, aí incluída a desigual divisão de terras.

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Cabe observar que a desigualdade no acesso a terra
está associada aos dois principais e distintos processos de
ocupação que marcaram a economia colonial tanto no litoral como no interior do Brasil. No sertão, essa desigualdade vem associada aos "caminhos do gado" formados pela
marcha progressiva das fazendas de gado e a reprodução
da economia e da sociedade sertanejas35, e no litoral, a desigualdade na distribuição da terra caracterizou também a
grande lavoura comercial, estruturada em torno da economia escravista do açúcar nordestino.
Ao se analisar o índice de Gini, utilizado para medir
os contrastes na distribuição da terra, percebe-se que a estrutura fundiária brasileira ainda apresenta nos dias atuais
alto grau de concentração, da ordem de 0,856, em 1995
para 0,857 em 2006. Cabe lembrar que quanto mais próximo este índice estiver da unidade, mais concentrada é
a distribuição das terras, isto é, poucos estabelecimentos
rurais concentram um alto percentual de terras enquanto
um número elevado de pequenos estabelecimentos concentram um pequeno percentual das terras apropriadas,
conforme observado na Tabela 4.1.

35 Cabe observar que embora o grande criador de gado do interior nordestino
se distingue no início por ser "proprietário de ferro e sinal" mais do que,
propriamente de terras e utilizava, contudo, vastas extensões de pastagem
para alimentar seu rebanho.

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Tabela 4.1 ­ Área dos estabelecimentos rurais segundo estrato de área 1985 ­ 1995 ­ 2006
Ano
Área total

Grupos de área total (ha)
1985

1995

2006

Menos de 10

9.986.588

7.882.194

7.777.669

De 10 a menos de 100

69.565.121

62.693.585

62.163.020

De 100 a menos de 1.000

131.432.623

123.541.517

110.017.719

Mais de 1.000

163.940.415

159.493.949

190.158.423

Total

374.924.747

353.611.246

370.116.830

Fonte: IBGE, Censos Agropecuários.

Nesse sentido, enquanto os estabelecimentos rurais
de menos de 10 ha tomam menos de 3% da área total ocupada pelos estabelecimentos rurais no período analisado,
a área ocupada pelos estabelecimentos de mais de 1.000
ha concentram mais de 43% da área total.
Quando se analisa a participação do estrato de mais
de 100 ha, o percentual nos três períodos analisados atinge mais de 78% das terras incorporadas, o que revela que
grande parte dos estabelecimentos agropecuários de até
100 ha ­ (pequenos e médios) que em geral utilizam mão
de obra familiar ­ não chegou a alcançar 23% das terras
incorporadas à agropecuária no Brasil nas três últimas

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décadas, mantendo, portando, o padrão histórico de alta
desigualdade na distribuição de terras entre os diferentes
estratos fundiários, conforme observado no Gráfico 4.1.

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Gráfico 4.1 ­ Distribuição dos estabelecimentos rurais segundo estrato de área 1985 ­ 1995 ­ 2006

Fonte: IBGE. Censos Agropecuários.

A evolução da estrutura fundiária segundo o tamanho dos estabelecimentos deixa evidente que enquanto a
área dos estabelecimentos até 100 ha manteve-se em um
patamar estável nas últimas décadas, a área dos estabelecimentos de mais de 1000 ha, isto é, dos grandes e muito
grandes estabelecimentos, passou de um patamar de cerca de 160.000.000 ha para atingir, em 2006, uma área maior
do que 190.000.000 ha, ampliando, em termos absolutos,

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a concentração de terras nos grandes estabelecimentos
agropecuários.
Quando se analisa a evolução do Índice de Gini segundo as Grandes Regiões (Tabela 4.2), observa-se que a
estrutura fundiária reflete, em grande parte, os processos e
formas que presidiram a ocupação diferenciada do imenso
território nacional, conforme mencionado anteriormente.


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Tabela 4.2 ­ Evolução do Índice de Gini 1985 ­ 1995 ­ 2006
Regiões e Brasil

1985

1995

2006

Norte

0,812

0,82

0,825

Nordeste

0,869

0,859

0,856

Centro-Oeste

0,857

0,831

0,871

Sudeste

0,772

0,767

0,851

Sul

0,747

0,742

0,766

Brasil

0,857

0,856

0,857

Fonte: IBGE. Censos Agropecuários.


Nesse contexto, ao ser calculado para o conjunto
das regiões brasileiras, entre os anos intercensitários de
1985 e 2006, o índice de Gini pôde distinguir espaços de
acordo com o grau de concentração da terra, revelando
diferenças significativas em termos regionais.
Em primeiro lugar, chama a atenção o fato de a Região Sul constituir, em todos os anos, a área de menor
desigualdade na distribuição das terras entre os diferentes estratos de área. Com uma estrutura fundiária consolidada pela presença da produção colonial do migrante
europeu, a divisão de terras no Sul reproduziu o padrão
agrário do campesinato da Europa Ocidental, parcelando as terras em pequenas propriedades característica da
agricultura familiar.

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Geografia agrária

A estrutura agrária dessa região contrasta, assim,
daquela dominante nas demais regiões do país, à exceção
de algumas regiões do Sudeste, de origem colonial semelhante. Nesse contexto, cabe ressaltar que a tendência
observada na Tabela 4.2, no sentido de aumento da concentração fundiária, pode indicar o processo de concentração da terra que vem se dando nessa região, em função
da incapacidade que muitos pequenos produtores têm
demonstrado de conduzirem suas explorações familiares,
num quadro de avanço da produção tecnificada fortemente vinculada aos mercados competitivos e aos complexos
agroindustriais (HEES, 2000).
Na Região Sul destacam-se pela igualdade na distribuição das terras os municípios incluídos nas áreas coloniais de migrantes italianos e alemães situadas no noroeste
do Rio Grande do Sul, na região vinícola da Serra Gaúcha
assim como aqueles situados na região da agroindústria de
aves e suínos, no oeste catarinense e sudoeste paranaense,
composto de pequenos estabelecimentos de produtores
integrados a esses segmentos da agroindústria.
Um contraponto ao padrão fundiário de menor
desigualdade do Brasil meridional é encontrado tanto na
Região Nordeste, como, mais recentemente, na Região
Centro-Oeste, onde a desigualdade se aprofunda acompanhando o processo de modernização produtiva e inserção ao competitivo mercado mundial de commodities
agrícolas.

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Permanecendo em patamares semelhantes ou superiores ao índice nacional, a região Nordeste manteve até
meados da década de 1990 do século XX um índice de Gini
superior a média nacional, destacando-se com os elevados
níveis de concentração de terras existente na porção leste
do Maranhão e em grande parte do Piauí, do vale do São
Francisco e do oeste da Bahia.
Nessa região convivem tanto as causas históricas
de desigualdades que marcaram o processo de ocupação
do território nordestino desde o período colonial, como a
economia escravista e as grandes propriedades pastoris do
sertão, quanto as regiões de cerrado do oeste baiano nas
quais a expansão da soja dentro de um pacote tecnológico
e um elevado grau de articulação ao comércio mundial de
commodities agrícolas impõe uma escala de grande produção como pressuposto para inserção no mercado.
No Nordeste aparecem também regiões de domínio
de pequenos produtores posseiros e arrendatários, especialmente no Golfão Maranhense no qual a presença de
estabelecimentos rurais de menos de 5 ha é muito comum
fazendo com que alguns municípios apresentem um baixo
índice de concentração de terras devido à extrema fragmentação fundiária aí observada.
Nessa região e no território nacional de modo geral,
as distintas modalidades de arrendamento e parceria funcionaram como mecanismos de acesso dos pequenos produtores a pequenos estabelecimentos. Contudo, à medida

que as relações de produção, oriundas da grande exploração latifundiária cederam lugar às relações de trabalho
assalariado, o arrendamento capitalista foi gradativamente
surgindo e se consolidando regionalmente, contando com
participação diferenciada dos pequenos estabelecimentos.
É justamente a profunda inserção das áreas de domínio do bioma cerrado, situadas nos chapadões do planalto
central do Brasil incluídas em sua maior parte na Região
Centro-Oeste, que a produção em grande escala de grãos,
como a soja e o milho, além da expansão modernizada do
algodão e da incorporação de áreas em direção à fronteira
agropecuária ao norte de Mato Grosso, vem aumentado o
processo de concentração fundiária nessa região, fazendo
com que no último período intercensitário, de 1995 a 2006,
o Índice de Gini da Região Centro-Oeste fosse superior ao
da média brasileira e ao da Região Nordeste.
Com efeito, ao lado de municípios que apresentam
elevado índice de Gini ­ o que revela a presença simultânea de uns poucos estabelecimentos de grande extensão
concentrando uma parte significativa da terra ­, na Região
Centro-Oeste ocorre um fenômeno peculiar onde até mesmo municípios de baixo grau de desigualdade na distribuição de terras apresentam tal resultado devido à ocorrência
unicamente de grandes estabelecimentos.
Nessa região, mais do que qualquer outra, pode-se
afirmar que a monocultura da soja ­ ou do binômio sojamilho, além do algodão ­ veio até mesmo reforçar a de-

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Geografia agrária

sigualdade que marcava a propriedade da terra em uma
região historicamente ocupada por uma pecuária ultraextensiva. Assim, ao contrário das áreas do Rio Grande do Sul
e Paraná que lideraram a introdução e a consolidação da
agroindústria da soja no sul do país a partir dos anos 70, na
Região Centro-Oeste essa lavoura alcançou uma escala de
tecnificação que alavancou a concentração fundiária a um
patamar superior àquele dominante no sul do país como
ao preexistente na própria região.
De acordo com Hees (2000), as maiores unidades
de produção, com 2000 ha e mais, apresentam-se concentradas principalmente no Centro-Oeste. O predomínio de
grandes estabelecimentos rurais nessa porção do território
nacional deveu-se, inicialmente, à prática da pecuária extensiva e, posteriormente, aos estímulos governamentais à
implantação de empreendimentos agropecuários de grandes dimensões por meio de incentivos fiscais e creditícios.
Na Região Norte, a presença de grandes estabelecimentos na fronteira agropecuária contrasta com o domínio
de pequenos estabelecimentos de produtores posseiros,
denominados ribeirinhos, que historicamente ocuparam,
com sua produção familiar, basicamente de subsistência,
e com a pesca artesanal os recursos dos rios e os solos de
várzeas fertilizadas naturalmente pelas cheias sazonais.
Nesse contexto, observa-se, de modo geral, a presença de municípios com alta desigualdade na distribuição de terras como os do sudoeste do Pará que se inserem

crescentemente à fronteira agropecuária, seja pela expansão de pastagens, seja pela produção de soja e milho. Por
outro lado, observam-se também nessa região municípios,
como os do noroeste do Amazonas, onde os baixos índices
de desigualdade na estrutura fundiária revelam o domínio
do ribeirinho com sua pequena lavoura de subsistência,
concentrando-se na produção de mandioca enquanto
base alimentar tradicional da cultura indígena e cabocla,
assim como do pequeno comércio local de farinha.
Embora mantendo uma média regional abaixo do
Índice de Gini nacional, a Região Norte vem, contudo, aumentando o grau de desigualdade na estrutura fundiária
conforme cresce sua participação no processo de expansão da fronteira agropecuária.
Na Região Sudeste, observa-se uma complexa convivência entre áreas de forte, média e pequena desigualdades na concentração de terras, em geral associadas a
antigos processos de ocupação, como nas áreas de colonização europeia do Espírito Santo e Rio de Janeiro, assim
como as áreas de pequenos e médios estabelecimentos
no sul de Minas. Por outro lado, observa-se que a especialização em lavouras modernizadas, como as de cana-de
-açúcar, em São Paulo, de modo geral, expulsa o produtor
de menor grau de capitalização.
Finalmente, considerando-se as áreas dedicadas aos
diversos usos da terra no país verifica-se uma diferenciação
espacial quanto à predominância de determinados usos.

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Assim, as lavouras temporárias apresentam-se mais dispersas no território brasileiro, pois nessa categoria incluem-se
os principais produtos alimentares básicos, como arroz, feijão, milho e mandioca, cultivados em todo o País, além das
commodities agrícolas de ampla distribuição, como a soja,
o milho, produto básico da cadeia agroindustrial de aves.
A recente expansão da cana-de-açúcar para além
das áreas tradicionais do litoral nordestino e de São Paulo,
chama atenção para uma dinâmica que se move no sentido de abrir novas áreas para essa e outras lavouras temporárias, como a mamona, e permanentes, como o dendê,
alavancadas pela expansão do setor produtor de biocombustíveis.
As lavouras permanentes mostram-se mais concentradas, alcançando maior expressão sobretudo no sul da
Bahia, no Espírito Santo, sul de Minas Gerais e norte de São
Paulo, em função basicamente dos cultivos de cacau, café
e laranja.
Da mesma forma, as matas plantadas apresentam-se muito concentradas, especialmente no centro e no
norte dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo, bem
como na porção oriental de São Paulo e dos estados da
Região Sul. Chama atenção, ainda, pela importância das
matas plantadas, o sul do Amapá e o norte do Pará, em
função da presença da empresa Jari Florestal, que desde os
anos setenta tem praticado o reflorestamento em grande
escala, com vistas à fabricação de celulose (HEES, 2000).

Segundo essa autora, em oposição a esse padrão
concentrado, situam-se as áreas em pastagens plantadas
que, apesar de apresentarem maiores proporções na área
total dos estabelecimentos no Centro-Oeste, são significativas ainda em diversas áreas do país, sobretudo no
Triângulo Mineiro, oeste de São Paulo e do Paraná. É bastante expressiva também a faixa de terras em pastagens
plantadas que contorna a chamada Amazônia Legal, na
forma de um arco que se estende de Rondônia, passando
por Mato Grosso, até o leste do Pará e norte do Tocantins.
A importância que esse uso da terra adquire nesse espaço é bastante reveladora em relação ao profundo impacto
ambiental que acompanhou a expansão da fronteira agrícola na Amazônia, na qual extensas áreas de florestas naturais cederam espaço a pastagens plantadas muitas vezes
com baixíssimo grau de produtividade.
Quanto às relações de produção, os dados do Censo
Agropecuário 2006 do IBGE revelaram que a grande maioria dos responsáveis pela exploração agropecuária era de
proprietários. De um total de 5.175.636 estabelecimentos,
3.946.911 eram geridos por proprietários. Desta forma, a
participação do número de proprietários no total de produtores foi de 76% em 2006, atingindo o total de 93% da
área dos estabelecimentos (IBGE, 2010).
As outras categorias de produtor apresentaram participação bem mais modesta, uma vez que o número de
arrendamentos e parcerias representava 7% e o das ocupa-

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111

ções quase 8%, enquanto a proporção daqueles que eram
geridos por administradores era de 4% do total. Em relação
à área, os estabelecimentos geridos por administradores
apresentaram uma participação de 27%, as ocupações
cerca de 2% enquanto os arrendamentos constituíram em
torno de 3% do total.
Finalmente, em termos de distribuição geográfica
no território nacional, a presença da condição de produtor-proprietário é preponderante e ocorre de forma disseminada na maior parte das regiões do Brasil, com exceção
dos espaços rurais da Região Nordeste, principalmente em partes do Maranhão, Piauí e Ceará e na Amazônia
Ocidental, notadamente nos estados do Amazonas e do
Acre, onde essa categoria convive com outras condições
de acesso direto (ocupante) e indireto (arrendatário e parceiro) com a terra.

Geografia agrária

Bibliografia do Capítulo 4
ARAÚJO, T. B. "O Brasil ainda precisa se consolidar como nação". In: Boletim Regional. Brasília, Ministério da Integração
Regional, maio/junho/julho/agosto, 2006.
BAHIANA, L. C. C. "A logística da agropecuária e sua infraestrutura". In: IBGE. Atlas do Espaço Rural Brasileiro, Rio de Janeiro: IBGE, 2012.
FURTADO, C. Formação econômica do Brasil, 11. ed. Rio de
Janeiro: Companhia Editora Nacional. 1971.
GRAZIANO DA SILVA, J. A nova dinâmica da agricultura brasileira. Campinas: Instituto de Economia, Unicamp, 1996.
GUIMARÃES, L. S. P. "Evolução do espaço rural brasileiro". In:
IBGE. Atlas do Espaço Rural Brasileiro, Rio de Janeiro: IBGE,
2012.
HEES, D. R. "A reestruturação do espaço agrário". In: IBGE.
Atlas Nacional do Brasil, Rio de Janeiro: IBGE, 2000.
HIRST, P. & THOMPSON, G. Globalização em questão: a economia internacional e as possibilidades de governabilidade.
Petrópolis: Vozes, 1998.

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Geografia

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IBGE. Pesquisa de Estoques. Rio de Janeiro: IBGE, 2010.
KAGEYAMA, A. (coord) et alli. "O novo padrão agrícola brasileiro: dos complexos rurais aos CAIs". In: DELGADO, G. et alli.
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Acesso em 29 de junho de 2009.
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WANDERLEY, M. N. B. A emergência de uma nova ruralidade
nas sociedades modernas avançadas ­ o "rural" como espaço
singular e ator coletivo, 2000.

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113

5. Geografia urbana

5.1 Processo de urbanização e formação de rede de cidades
A Terra é um planeta urbanizado. O número de domicílios urbanos já supera o quantitativo de domicílios rurais. As cidades são de fundamental importância, seja na distribuição da
população nos países, na organização da produção econômica, na reprodução e transformação
sociocultural, na distribuição de mercadorias e informações e na tomada de decisões.
Entretanto, para que as cidades existissem e crescessem, foram necessárias algumas precondições. A primeira é a sedentarização da sociedade. Não é possível a construção das estruturas fixas inerentes a uma cidade em uma sociedade nômade. As cidades demandam uma
maior organização social, com algum nível de organização e de divisão do trabalho para que se
construa e administre os sistemas técnicos (armazenamento, distribuição, habitação) e políticos
necessários à sociedade. Nada disso seria viável sem existência de excedentes agrícolas que
liberassem algum contingente demográfico para exercer as funções urbanas.
Tal processo só foi possível com o desenvolvimento da agricultura, na chamada revolução
neolítica. Sociedades de coletores/caçadores não podiam se organizar em cidades, pois dependiam constantemente da migração em busca de novos territórios para caçar e coletar e, além
disto, não geravam excedentes comercializáveis em quantidade suficiente para abastecer as cidades. A agricultura permitiu que as cidades se desenvolvessem e estas, num processo dialético,
fortaleceram o desenvolvimento da agricultura, pois demandavam mais excedentes agrícolas e
propiciavam um sistema de controle e cooperação centralizado necessário para a administração de sistemas agrícolas de grande porte (PACIONE, 2005). Tais condições ocorreram em várias
partes do mundo, em algumas delas por volta de 3.500 a.C., como na Mesopotâmia. O Mapa 5.1
mostra que outros vales de grandes rios ­ propícios a agricultura ­ foram sítios de urbanizações
pioneiras, revelando a relação das cidades com a produtividade agrícola.
Importantes cidades e sistemas urbanos foram se expandindo ao longo do tempo, como
na Grécia Antiga e no Império Romano. Entretanto, o mundo ainda permaneceria predominantemente rural por muitos séculos. Na história da humanidade a urbanização generalizada é

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Geografia

114

um fenômeno bastante recente. Em 1890, apenas o Reino
Unido, o noroeste da Europa e os Estados Unidos possuíam
mais de 25% de suas populações morando nas cidades. Em
termos globais, apenas 3% da população era urbana em
1800, passando para 6% em 1850, 14% em 1900, cerca de
28% em 1950, 38% em 1970 (SOUZA, 2003), 50% em 2008
e 52,1% em 2011. Foi somente a partir da Revolução Indus-

trial que a urbanização se acelerou. As cidades foram essenciais para o processo de acumulação do capitalismo industrial que dominou a segunda metade do século XVIII e
o século XIX. Para viabilizar a produção e o consumo, eram
necessárias economias de aglomeração que dependiam
da concentração de pessoas. Como mostram os dados acima, foi intensa a urbanização do mundo desde o início do

Mapa 5.1 - Áreas de surgimento das primeiras cidades

Fonte: Pacione, 2005.

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Geografia urbana

século XIX, mas com velocidades e momentos diferentes
em cada parte do mundo.
Em todo o mundo é esperado que, até 2030, haja
1,35 bilhão de novos habitantes urbanos, atingindo 4,98
bilhões de pessoas morando nas cidades (UN, 2012). Atualmente há um grande êxodo rural em curso justamente
nos dois países mais populosos do mundo: a China e a Ín-

dia e as estimativas indicam que entre 2011 e 2030 haverá
276 milhões de chineses e 218 milhões de indianos a mais
nas cidades. A América Latina é um continente bastante
urbanizado, com de 79,1% de população urbana em 2011,
enquanto a África e na Ásia tinham apenas 39,6% e 45%
respectivamente de suas populações vivendo nas cidades
(Mapa 5.2) (UN, 2012).

Mapa 5.2 - Índice de Urbanização - 2011

Fonte: UN, 2012 - World Urbanization Prospects - 2011 Revision

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116

Geografia

Tabela 5.1 - População das maiores aglomerações urbanas
do mundo ­ 2011
Cidade

País

População (milhoes
de habitantes)

Tóquio

Japão

37,2

Delli

Índia

22,7

Cidade do México

México

20,4

Nova Iorque

Estados Unidos

20,4

Xangai

China

20,2

São Paulo

Brasil

19,9

Mumbai

Índia

19,7

Pequim

China

15,6

Daca

Bangladesh

15,4

Calcutá

Índia

14,4

Carachi

Paquistão

13,9

Buenos Aires

Argentina

13,5

Los Angeles

Estados Unidos

13,4

Rio de Janeiro

Brasil

12,0

Manila

Filipinas

11,9

Moscou

Rússia

11,6

Osaka-Kobe

Japão

11,5

Istambul

Turquia

11,3

Cairo

Egito

11,2

Lagos

Nigéria

11,2

Guangzhou

China

10,8

Paris

França

10,6

Shenzhen

China

10,6

Fonte: UNITED NATIONS (UN)/POPULATION DIVISION - World Urbanization Prospects - The
2011 Revision. New York: UN, 2012.

Geografia_Book.indb 116

A urbanização acelerada do mundo no século 20
produziu um grande número de grandes cidades. Em
2011, a ONU lista 23 aglomerações urbanas com mais de
dez milhões de habitantes, que concentravam 9,9% da população urbana do mundo (Tabela 5.1). Estas megacidades se localizam cada vez mais nos países periféricos ou
semiperiféricos, com apenas quatro delas localizadas em
países centrais. Da gigantesca escala destas cidades emergem igualmente gigantescos desafios urbanos relativos a
saneamento e abastecimento de água, poluição hídrica e
atmosférica, transportes, habitação, entre outros. O abastecimento de água de São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, depende de água transposta de rios a dezenas de quilômetros de distância e seus principais corpos d'água (rio
Tietê e baía de Guanabara) ainda enfrentam altos níveis de
poluição, apesar de grandes investimentos recentes.
O processo de urbanização dos países semiperiféricos ou periféricos diferencia-se, em maior ou menor grau,
do que ocorreu nos países centrais. Em alguns destes países, notadamente naqueles onde não houve uma industrialização tardia, as dificuldades de reprodução social da vida
no campo, ligadas à carência de tecnologia, à falta de terras
disponíveis e à concentração fundiária acabam funcionando como fator de expulsão da população rural. A busca por
melhores condições de vida leva ao êxodo rural, mas a dinâmica econômica das cidades é insuficiente para incorporar

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Geografia urbana

toda a população que chega. O resultado deste processo
gerou grandes cidades com elevados níveis de exclusão
social, que pode ser percebido, por exemplo, na existência
de favelas no Brasil (Figura 5.1), mas fica mais evidente em
cidades como Lagos (Nigéria) ou Luanda (Angola). Entretanto, isto não significa que a urbanização dos países centrais foi isenta de mazelas. As cidades europeias do séc. XIX
sofriam de graves problemas urbanos e sanitários.
Figura 5.1 ­ Favela de Paraisópolis e bairro do Morumbi - São Paulo

Nota: A imagem mostra o contraste da ocupação urbana entre a favela de Paraisópolis, com elevada densidade de ocupação, vielas estreitas e às vezes
imperceptíveis e ausência de áreas verdes. No Morumbi predominam grandes construções, vias largas, densidade baixa e muita área arborizada.
Fonte: Google, Elaboração do autor.

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Geografia

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No Brasil, já no século XX, principalmente no pós-guerra, a dinâmica da urbanização começou a avançar
por todo o território, em consonância com o processo de
crescimento e integração econômica do país. Até o início da sé, o Brasil era basicamente rural, como uma rede
urbana pouco articulada e com apenas algumas cidades
se destacando, formando um verdadeiro "arquipélago"
concentrado na faixa litorânea. Em 1900, apenas Rio de
Janeiro (691.565), São Paulo (239.820), Salvador (205.813)
e Recife (113.106) superavam os 100.000 habitantes (SAN-

TOS, 1993). Em 1940, já eram 11 cidades que superavam tal
marca, número que cresce para 14 em 1950, 31 em 1960,
66 em 1970, 105 em 1980 e em 2010 para 253. Entre 1950
e 2010 o percentual da população brasileira que passa a
viver nas cidades passa de 36,2% para 84,4% (Gráfico 5.1).
Mesmo áreas com menor densidade de ocupação, como a
Amazônia, apresentam índices de urbanização que atinge
72,4%. O desenvolvimento das cidades brasileiras formou
uma rede urbana complexa e articulada.

Gráfico 5.1 ­ Proporção da população residente, por situação do domicílio - Brasil ­ 1950/210

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 1950/2010.
(1) Para o cálculo da taxa foi utilizada a população presente em 1950, enquanto para os anos seguintes foi utilizada a população residente.

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119

Geografia urbana

As cidades só podem ser compreendidas através
do entendimento de seu papel no conjunto de cidades.
É do relacionamento entre elas que advém a maior parte
de suas dinâmicas. Então, não basta olhar os atributos locais de uma cidade para compreendê-la. É preciso ver qual
o papel dos centros urbanos nos sistemas regional, nacional e global de cidades. Os estudos sobre redes urbanas
buscam justamente compreender estes relacionamentos
e o papel de cada cidade. E, de fato, a rede urbana é uma
síntese dos relacionamentos das corporações e pessoas
que estão nas cidades.
A configuração da rede urbana está diretamente relacionada à divisão do trabalho no território. O processo
produtivo comandado pelo capital hegemônico apoia-se
em redes técnicas cada vez mais eficientes e desenvolve
uma estratégia locacional para melhor aproveitar as especificidades de cada lugar, interferindo decisivamente na
articulação entre as cidades, estimulando a competição e
ao mesmo tempo a cooperação entre os lugares, influindo
decisivamente em seu tamanho e em suas características.
Para a compreensão da rede urbana devem-se articular as diferentes escalas de análise. Isto quer dizer que
processos globais, nacionais, regionais e locais devem ser
considerados, pois todos interferem na dinâmica urbana
(PACIONE, 2005), indicando fatores cuja dinâmica pode interferir no desenvolvimento das cidades. Tais fatores, evidentemente, se inter-relacionam e devem ser entendidos
como um conjunto:

· Economia: cada fase do capitalismo envolve

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mudanças no que é produzido, em como é produzido e onde é produzido. Cada mudança no
sistema econômico implica em novas formas urbanas e na emergência e decadência de cidades.
A passagem do fordismo para a produção flexível
gerou profundas transformações nas metrópoles em todo o mundo, com o deslocamento da
produção para cidades do interior que ofereciam
custos menores de produção. Antigas cidades
industriais fordistas entraram em decadência ou
fortaleceram o setor de serviços, concentrando a
gestão e a inovação.
·Tecnologia: mudanças tecnológicas ­ geralmente ligadas a mudanças econômicas ­ interferem
bastante nos padrões de crescimento e estruturação urbana. O advento do transporte ferroviário
viabilizou o espraiamento de grandes cidades,
pois permitiu que a população morasse a grande
distância do local de trabalho. Na Alemanha, um
sistema ferroviário moderno e eficiente garante
elevada mobilidade de pessoas, permitindo que
se distribuam com maior liberdade no território.
Mas talvez a mudança tecnológica de maior impacto seja o avanço das telecomunicações e da
tecnologia da informação, que aliado a uma lo-

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Geografia

gística de transportes eficiente, possibilitou um
refinamento da divisão territorial do trabalho e
aumentou o grau de liberdade locacional das
empresas, com consequências óbvias no desenvolvimento das cidades.
· Demografia: as mudanças demográficas têm impactos diretos na urbanização e na transformação
das cidades. A estrutura etária da população e o
crescimento vegetativo estão diretamente relacionando aos movimentos migratórios ­ incluídos
o êxodo rural e os movimentos interurbanos. São
os movimentos migratórios ­ inclusive os internacionais ­ que causam as grandes transformações
demográficas entre as cidades. As metrópoles de
Nova York, Londres e Hong Kong, por exemplo,
têm cerca de 1/3 de sua população nascida no
exterior. Isto afeta não somente o tamanho das
cidades, mas tem reflexos em sua potencialidade
econômica e cultural. A Tabela 5.2 indica como a
política americana de receber imigrantes alterou
a dinâmica demográfica de Nova York ao longo
do tempo.

Geografia_Book.indb 120

120

Tabela 5.2 - Cidade de Nova York - Evolução Demográfica
População

Ano
Total
1820

123.706

Estrangeiros

% Estrangeiros na
população total

5.390

4,4

1850

515.547

235.733

45,7

1900

3.437.202

1.270.080

37,0

1910

4.766.883

1.944.357

40,8

1930

6.930.446

2.358.686

34,0

1950

7.891.957

1.784.206

22,6

1970

7.894.798

1.437.058

18,2

1980

7.071.639

1.670.199

23,6

1990

7.322.564

2.082.931

28,4

2000

8.008.278

2.871.032

35,9

2010

8.175.133

3.008.448

36,8

Fonte: Prefeitura de Nova York, Departamento de Planejamento; US census Bureau.

·Política: as cidades refletem a ideologia política
vigente. Nos antigos países de economia planificada da Europa, por exemplo, novas cidades
foram criadas e outras remodeladas, de modo a
atender as orientações do planejamento centralizado. No Brasil, por orientação política, foram
criadas as cidades de Belo Horizonte, Goiânia e
Brasília, que causaram profundas transformações
na rede urbana brasileira. Ainda no Brasil, políticas
públicas buscaram fortalecer as cidades médias,
ao invés das capitais, da região Nordeste e repas-

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121

Geografia urbana

ses federais garantem a sobrevivência financeira
de um grande número de pequenos municípios.
Na Amazônia, parte da rede urbana se estruturou
como fruto de uma política de colonização dirigida pelo governo federal. A cidade de Manaus
cresceu por conta dos incentivos fiscais federais
da Zona Franca de Manaus. Na Europa, o Estado
francês com intuito de reduzir o peso de Paris na
economia nacional, incentiva o crescimento de
outros polos no interior, como Lyon.
· Sociedade/Cultura: mudanças de preferências da
sociedade podem ter grandes impactos nas características das cidades. Por exemplo, a adoção
de métodos contraceptivos afeta a composição
demográfica da população e o crescimento das
cidades. Do mesmo modo, elementos culturais
historicamente acumulados podem interferir na
dinâmica econômica de uma cidade e ainda influenciar com quais outras cidades se darão as
ligações preferenciais.
·Ambiente: o impacto das mudanças ambientais
nos padrões de urbanização pode ser percebido
nas mais diversas escalas geográficas. Mudanças
nos padrões de chuva, por exemplo, pode alterar
o padrão econômico de regiões inteiras, com evidentes impactos nas cidades.

A interação destes fatores com elementos locais,
historicamente construídos, mais as características do quadro natural é que darão a configuração da rede urbana. É
importante ainda, neste sentido, distinguir duas formas de
articulação que conferem a dinâmica das cidades dentro
da rede:

· O abastecimento com bens e serviços (educação,
saúde, advocacia, engenharia, etc.) de sua região
de influência concentra recursos do entorno na
cidade-polo, o que lhe confere maior dinâmica
econômica e demográfica. A diversificação e a
sofisticação dos bens e serviços oferecidos estão
relacionada à posição da cidade na hierarquia urbana. Entretanto, modernas redes de transporte e
informações permitem, por exemplo, a realização
de compras pela internet. Assim, alguns centros
menores podem sair enfraquecidos, pois não
conseguem competir com as grandes lojas de
venda online. A rede urbana não tem mais uma
hierarquia tão linear das cidades.
· As cidades também se articulam em redes regionais, nacionais e globais como parte da divisão internacional do trabalho. Neste caso o que confere
dinâmica à cidade não é a distribuição de bens
e serviços em seu entorno, mas sim o seu papel

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122

Geografia

na divisão internacional do trabalho. Nesta perspectiva, é preciso ultrapassar os limites nacionais
e olhar para o capitalismo global para entender
as cidades. Quanto maior a posição dentro da
hierarquia urbana, mais importante é esta forma
de articulação. São Paulo, por exemplo, apesar de
funcionar como um grande centro abastecedor
de bens e serviços36 tem a maior parte de sua
dinâmica e riqueza relacionada à importante posição que ocupa como centro financeiro global,
na gestão empresarial e na produção e gestão da
inovação e do conhecimento, funções estas que
extrapolam a sua área de influência e as fronteiras
nacionais. Sob esta ótica, quanto mais inovadora
for a produção da cidade, mais vantajosa tende a
ser a sua inserção na rede urbana.
No Brasil, estudo recente do IBGE (2008) aponta
uma desigualdade da rede urbana brasileira, apresentando-se consolidada e estruturada no Sul e Sudeste, com
poucas cidades de hierarquia elevada no Nordeste e ainda
em consolidação no Norte do país, com peso acentuado
das capitais estaduais, principalmente Manaus e Belém.

36 Por exemplo, sacoleiros de várias partes do país fazem compras no bairro
do Bráz e na rua Vinte e Cinco de Março para revenda em suas cidades de
origem.

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O estudo classificou as cidades e suas articulações baseado nas funções de gestão e na oferta de bens e serviços
(Mapa 5.3) de acordo com as classes abaixo:
1. Metrópoles ­ são os 12 principais centros urbanos
do País, que se caracterizam por seu grande porte
e por fortes relacionamentos entre si, além de, em
geral, possuírem extensa área de influência direta.
As metrópoles que comandam a rede urbana concentram as decisões e os recursos econômicos.
O conjunto foi dividido em três subníveis segundo
a extensão territorial e a intensidade destas relações: a) Grande metrópole nacional ­ São Paulo, o
maior conjunto urbano do País, com 19,5 milhões
de habitantes, em 2007, e alocado no primeiro nível da gestão territorial; b) Metrópole nacional ­
Rio de Janeiro e Brasília, com população de 11,8
milhões e 3,2 milhões em 2007, respectivamente,
também estão no primeiro nível da gestão territorial. Juntamente com São Paulo, constituem como
um foco para centros localizados em todo o país;
e c) Metrópole ­ Manaus, Belém, Fortaleza, Recife,
Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Goiânia e Porto
Alegre, com população variando de 1,6 (Manaus)
a 5,1 milhões (Belo Horizonte), constituindo o segundo nível da gestão territorial.

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123

Geografia urbana

Mapa 5.3 - Rede Urbana Brasileira - 2007

Fonte: IBGE, Região de Influência das Cidades - 2007.

2. Capital regional ­ integram este nível 70 centros
que, como as metrópoles, também se relacionam
com o estrato superior da rede urbana. Com capacidade de gestão no nível imediatamente inferior ao das metrópoles, têm área de influência de

Geografia_Book.indb 123

âmbito regional, sendo referidas como destino,
para um conjunto de atividades, por grande número de municípios.
3. Centro sub-regional ­ integram este nível 169
centros, com atividades de gestão menos com-

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Geografia

plexas; têm área de atuação mais reduzida, e seus
relacionamentos com centros externos à sua própria rede dão-se, em geral, apenas com as três
metrópoles nacionais. Com presença mais adensada nas áreas de maior ocupação do Nordeste
e do Centro-Sul, e mais esparsa nos espaços menos densamente povoados das Regiões Norte e
Centro-Oeste.
4. Centro de zona ­ nível formado por 556 cidades
de menor porte e com atuação restrita à sua área
imediata; exercem funções de gestão elementares.
5. Centro local ­ as demais 4.473 cidades cuja centralidade e atuação não extrapolam os limites do
seu município, servindo apenas aos seus habitantes.
Cabe ressaltar que este estudo não avaliou as conexões internacionais das cidades brasileiras ­ relevante para
o entendimento da rede urbana ­ conexões estas que serão tratadas no próximo item.

124

5.2 Conurbação, metropolização e cidades mundiais
A Conurbação é a união, devido ao crescimento, de
manchas urbanas de diferentes cidades, formando um espaço urbano contínuo. Na maior parte dos casos existe um
núcleo principal que concentra os elementos dinâmicos e
impulsiona o crescimento urbano, elementos estes que faz
com que a área urbanizada do núcleo original extrapole
os seus limites político-administrativos e estimule o crescimento das cidades do entorno. A população muitas vezes
se fixa nas cidades do entorno por conta da maior oferta
de áreas residenciais de melhor qualidade (os subúrbios
americanos, por exemplo) ou de custo mais acessível. Atividades econômicas que necessitam de grandes espaços,
como indústrias também se distribuem por estas cidades
do entorno.
Com a consolidação da área urbana, a estrutura do
aglomerado se torna mais complexa, exigindo soluções
institucionais baseadas na articulação das diversas unidades territoriais envolvidas (no Brasil, municípios e estados).
Existem grandes áreas conurbadas no mundo. Em
algumas, a área urbanizada de dezenas de cidades se
unem numa única mancha urbana, como em São Paulo
(Figura 5.2)37, Nova York ou Cidade do México. Mas o pro-

37 Na Figura 5.2 é possível identificar a mancha urbana de São Paulo se
estendendo para muito além dos limites do município.

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125

Geografia urbana

cesso de conurbação não é exclusivo de grandes áreas urbanas. Cidades menores também podem se conurbar. No
Brasil, um exemplo é a conurbação de Barra Mansa-Volta
Redonda, no estado do Rio de Janeiro.
Cabe ressaltar que conurbação, metropolização e
formação de regiões metropolitanas são processos dis-

tintos, embora geralmente relacionados. Conurbação é
um conceito que diz respeito à morfologia ­ a junção de
manchas urbanas vizinhas. É um processo físico que está
relacionado ao crescimento das metrópoles, mas existem
metrópoles onde não ocorre conurbação e existem conurbações que não constituem metrópoles. No primeiro caso,

Figura 5.2 ­ Conurbação de São Paulo

Nota: As linhas escuras representam os limites municipais.
Fonte: IBGE e Google Earth

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Geografia

126

a metrópole cresce, mas tem seu espaço urbano contido
em uma única unidade político-administrativa. É o caso de
Manaus, que devido à grande extensão territorial do município, a sua área urbanizada contínua não extrapola o
próprio território municipal. Na outra situação ocorre o processo de conurbação, mas o espaço urbano resultante não
apresenta os atributos que a caracteriza como uma metrópole. Neste caso a conurbação resulta numa aglomeração
ou aglomerado urbano, como no caso de Volta Redonda-Barra Mansa ou Juazeiro do Norte-Crato-Barbalha (CE).
Já as regiões metropolitanas são territórios institucionalizados, normalmente definidos por legislação. No
caso brasileiro, é competência dos estados tal definição.
Em 2010 eram 39 Regiões Metropolitanas, mas apenas 12
metrópoles.
Mas o que é uma metrópole? A metrópole é uma
forma de concentração demográfica, social, econômica e
política. É o lugar de tomada de decisão, de produção e
difusão de ideias, de modos de vida. As metrópoles estão
no topo da hierarquia urbana global. É uma rede de metrópoles ao longo do mundo com posições diferenciadas
uma das outras que comanda o planeta.
Estão nas metrópoles as sedes da maior parte das
grandes corporações, dos centros de pesquisa, da produção mediática. Ali são oferecidos os serviços mais avançados (financeiros, marketing, contabilidade, jurídico,
arquitetura, etc.). As metrópoles são territórios altamente

conectados e devem a sua dinâmica principalmente a estas conexões. Elas são nós essenciais da economia global, a
vitrine do sistema de produção, inclusive de suas imensas
contradições e desigualdades. No Brasil, a concentração de
riqueza nas metrópoles fica evidente quando observamos
o seu PIB per capita: sistematicamente superior à média de
sua área de influência, com exceção do Rio de Janeiro e de
Goiânia (Tabela 5.3). No primeiro caso a exceção se deve ao
petróleo da bacia de Campos e no segundo caso à produção agropecuária pulverizada no interior.

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127

Geografia urbana

Tabela 5.3 - Metrópoles brasileiras e suas áreas de influência - 2007
Metrópole
São Paulo
Rio de Janeiro
Brasília
Manaus
Belém
Fortaleza
Recife
Salvador
Belo Horizonte
Curitiba
Porto Alegre
Goiânia

População da área de
Influência (2007)
51.020.582
20.750.595
9.680.621
3.480.028
7.686.082
20.573.035
18.875.595
16.335.288
16.745.821
16.178.968
15.302.496
6.408.542

População da
Metrópole (2007)

PIB per capita da Área
de Influência (2005)

19.592.271
11.849.940
3.278.649
1.646.602
2.114.383
3.250.937
3.677.355
3.664.096
5.100.265
3.001.839
2.941.435
1.937.368

16.890
14.895
15.342
10.363
5.654
4.664
5.356
6.428
9.582
13.102
13.661
9.363

PIB per capita da
Metrópole (2005)
21.606
14.811
25.597
16.527
7.928
7.586
7.980
12.609
12.698
16.620
17.138
9.234

Fonte: IBGE, Regiões de Influência das Cidades 2007.
Nota: os dados da metrópole de Porto Alegre não incluem a região de Novo Hamburgo/São Leopoldo.

A posição de São Paulo como grande metrópole fica
evidente: ela tem, de longe, a maior população, tanto na
metrópole, quanto na área de influência que é a mais rica
de todas. A cidade ainda concentra ainda a sede de 365
das 1.124 grandes empresas analisadas no estudo. O Rio
de Janeiro aparece com 118 sedes (IBGE, 2008). Além disso,
concentra a produção de C&T e os serviços de apoio à produção mais avançados.
As cidades grandes e significativas são e sempre
foram objeto de vários estudos que usaram uma ampla
gama de denominações para descrevê-las: cidades impe-

Geografia_Book.indb 127

riais, cidades primazes, grandes cidades industriais, cidades
milionárias, cidades mundiais, cidades globais do capitalismo, centros financeiros internacionais, megacidades, cidades globais, etc. A variação da terminologia reflete tanto
a diversidade das cidades como do enfoque dos estudos.
Dentre estes enfoques, podem-se distinguir dois grandes
grupos: um de tradição demográfica, interessado no tamanho da população das cidades e suas implicações. Neste
caso, é fácil identificar o objeto de estudo, como as aglomerações apresentadas na Tabela 5.1. O outro enfoque
está relacionado à funcionalidade das cidades como par-

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Geografia

128

te de um sistema maior, relacionando-as ao processo de
globalização. Os estudos de cidades mundiais e cidades
globais estão ligados a este enfoque (TAYLOR, 1999). Entretanto, sob esta ótica, a definição ­ conceitual e operacional
­ de uma cidade global não é tão trivial quanto pela ótica
demográfica.

No período fordista a dinâmica das metrópoles estava muito ligada à concentração industrial. Com a compressão do espaço/tempo pelo avanço das redes técnicas, principalmente no campo informacional e da logística, o papel
das metrópoles mudou. Ocorreu uma desindustrialização
relativa e um aumento da participação dos serviços avança-

Gráfico 5.2 ­ Mudanças no Emprego por Setor de Atividade ­ Londres ­ 1986/2006

Fonte: The London Plan ­ Spatial Development Strategy for Greater London. Consolidated with Alterations since 2004

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129

Geografia urbana

dos na economia. Esta mudança ­ da metrópole industrial
para a metrópole informacional ­ representou uma profunda transformação na estrutura de emprego, e, num primeiro momento, também uma grande crise. O Gráfico 5.2
ilustra as transformações ocorridas em Londres entre 1986
e 2006. É perceptível uma grande queda no emprego industrial e, num primeiro momento também do emprego
total. E perceptível também um enorme crescimento dos
setores de serviços, principalmente dos serviços de apoio à
produção, mas também hotéis e restaurantes e construção
puxando a recuperação do emprego total. Processo semelhante ocorreu nas principais metrópoles mundiais.
As cidades globais devem ser entendidas e analisadas com base nesta nova estrutura produtiva e das novas
funções assumidas por estas metrópoles. Nesta direção,
Sassen (2005) analisa os principais elementos que caracterizam as cidades globais. Segundo a autora, é necessário
olhar para o processo de globalização e sua característica
de dispersão geográfica das atividades produtivas. Mas, ao
mesmo tempo, tais atividades dispersas são crescentemente integradas, o que torna mais complexa e importante as
funções corporativas centrais (gerenciamento, coordenação, finanças e contabilidade, marketing, etc.). O aumento
desta complexidade leva a uma crescente terceirização: as
grandes corporações passam a contratar uma parcela incremental de serviços centrais especializados (marketing,
contabilidade, jurídico) antes exercidos pelo próprio grupo.
As firmas que prestam estes serviços especializados estão

sujeitas a economias de aglomeração, dado a complexidade dos serviços que produzem, a incertezas do mercado
em que estão envolvidos e à crescente importância da velocidade nestas transações criando condições e necessidades de novas dinâmicas de aglomerações. Neste caso, um
ambiente urbano com funções de centro informacional e
capacidade para aglutinar um grande número de profissionais altamente especializados. Estar numa cidade como
esta significa estar num contínuo extremamente intenso
e denso de informações que traz vantagens competitivas.
É justamente a aglomeração destas firmas especializadas que caracteriza uma cidade global. Tais empresas
precisam prestar um serviço mundial e, para isto, dependem de filiais ou parceiros em outras cidades e países, formando assim uma rede produtiva que conecta cidades ao
redor do globo, caracterizando uma rede urbana internacional. Como consequência, o poder econômico das cidades globais está cada vez mais desconectado com as suas
hinterlândias e mesmo com as economias nacionais.
Esta dinâmica dominante nas cidades globais tem
efeitos marcantes nas suas estruturas internas. A grande
concentração de profissionais especializados e bem pagos
faz com que haja um crescimento das desigualdades socioespaciais e da informalização de certos setores da economia,
que têm nestas cidades o seu mercado, mas que não conseguem se inserir nos circuitos econômicos mais lucrativos.
A estrutura produtiva descrita nos parágrafos anteriores tem implicações morfológicas específicas nas

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130

Geografia

Figura 5.3 ­ Novos núcleos de negócios

Canary Wharf, na antiga região portuária de Londres, abriga torres comerciais com
importantes firmas do setor financeiro e de mídia. A região é um exemplo do policentrismo
de Londres, que tem na City o seu tradicional centro financeiro.

grandes metrópoles globais. Uma das mais significativas é
o policentrismo. As firmas não se concentram necessariamente num único núcleo na metrópole, mas se distribuem
ao longo de vários centros de negócio dinâmicos e interconectados. São exemplos de novos núcleos de negócios
a área da Av. das Nações Unidas (São Paulo), Canary Whart
(Londres) (Figura 5.3) ou La Defense (Paris). O policentrismo
pode ser identificado fora dos limites da própria metrópole
quando as firmas distribuem suas atividades em diversas
cidades, profundamente interconectadas, que podem estar localizadas a centenas de quilômetros de distância uma
das outras.
Um dos trabalhos mais recentes e amplos sobre as
cidades globais, os estudos do GAWC (Globalization and
World Cities Research Network), grupo de pesquisas baseado na Inglaterra, classificou as cidades de acordo com a
sua capacidade planetária em termos de prover serviços
avançados de apoio a produção, avaliando a sua conectividade com as demais cidades. Os centros identificados
foram divididos em quatro grandes grupos38:
· Cidades Alfa: é o grupo de 40 cidades mais conectadas e importantes. Neste grupo, composto
por cidades como Paris, Tóquio, São Paulo, Xangai, Buenos Aires, Frankfurt, Chicago, Londres e

38 Os resultados apresentados referem-se à versão 2008 da pesquisa.

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Geografia urbana

Mapa 5.4 - Cidades Globais Alfa

Fonte: GAWC, 2009

Nova York, as duas últimas se isolam no mais alto
nível de importância e integração. O Mapa 5.4
mostra a distribuição destas cidades ao redor do
mundo.
· Cidades Beta: são importantes cidades mundiais
que fazem a ligação de sua região ou país na economia mundial. Engloba cidades como Los Angeles, Rio de Janeiro, Cairo, Munique e Bogotá.
· Cidades Gama: são cidades mundiais que ligam
regiões ou países menores a economia mundial
ou cidades mundiais importantes cujo principal

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papel global não está ligado aos serviços avançados a produção. Engloba cidades como Detroit,
Manchester, Cidade do Panamá, Lagos e Calcutá.
· Cidades com serviços suficientes: não são cidades mundiais, mas possuem uma quantidade
suficiente de serviços que as fazem não ser totalmente dependentes das cidades mundiais.
Geralmente são cidades capitais menores ou
centros tradicionais de regiões manufatureiras.
Engloba cidades como Curitiba, Porto Alegre,
Otawa e Medelín.

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Geografia

132

5.3 Dinâmica intraurbana das metrópoles brasileiras

As metrópoles brasileiras são bastante diferenciadas entre si, seja em tamanho demográfico, em relação
à estrutura econômica e social ou ao seu grau de riqueza e de desenvolvimento. As diferenças no PIB per capita (Tabela 5.3) e no índice de desenvolvimento humano
(Gráfico 5.3) evidenciam os contrastes existentes entre elas.
Souza (2000) indica que enquanto a fragmentação sociopolítico-espacial encontra-se num estágio embrionário em
Recife e Curitiba, em São Paulo e no Rio de Janeiro ela é
muito mais evidente, especialmente na metrópole carioca.
As diferenciações também ocorrem no estágio de crescimento demográfico em que se encontram. Enquanto as
áreas mais consolidadas como São Paulo, Rio de Janeiro,
Porto Alegre e Recife apresentam taxas de crescimento demográfico relativamente modestas, Brasília, Curitiba e Manaus crescem a taxas bem mais significativas. De fato, os
dados de migração do Censo Demográfico 2010 mostram
que São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Recife
e Fortaleza apresentam saldos migratórios negativos. Este
fato tem um significado na dinâmica intraurbana, pois a
maior dinâmica demográfica faz com que novas áreas estejam sendo permanentemente incorporadas à estrutura
urbana da metrópole, aumentando a demanda pela ampliação dos serviços urbanos.

Conforme estudado no item 5.1, são 12 as metrópoles no Brasil (Mapa 5.3 e Tabela 5.3). Para o entendimento
da dinâmica intraurbana das metrópoles brasileiras é necessário saber como cada uma se insere na rede urbana
nacional e global, quais são os processos dinâmicos da cidade e de seu entorno. A partir daí, deve-se compreender
as suas diferenciações internas, as características de cada
pedaço da cidade, cada um sendo interpretado como parte de um sistema maior e ao mesmo tempo como um elemento articulado com as lógicas locais da cidade.
As metrópoles englobam os territórios mais conectados e por isso a dinâmica das redes nas quais estes territórios estão vinculados tendem a ser preponderante sobre
as dinâmicas locais. Mas nem todos os territórios de uma
metrópole estão conectados nos circuitos econômicos superiores. Em algumas delas apenas uma pequena fração
de seu território está sujeita a esta dinâmica. Isto faz com
que as metrópoles brasileiras concentrem riqueza, mas
também grandes contingentes de população empobrecida. As atividades econômicas principais sustentam, mas de
forma marginal, um grande contingente demográfico, que
vive de trabalhos informais pouco qualificados e sofre pela
falta ou má qualidade da habitação, do transporte público,
do saneamento, dos serviços de saúde e educação, além
da violência urbana.

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133

Geografia urbana

Gráfico 5.3 - Evolução do Índice de Desenvolvimento Humano nos
grandes centros do Brasil - 1991-2000

detrimento do setor de serviços. Mesmo nos lugares onde
houve um processo de industrialização recente, como em
Fortaleza e Curitiba, apesar do grande crescimento em termos absolutos do emprego industrial, sua participação no
total de empregos declinou. Para o conjunto das 12 metrópoles relacionadas na Tabela 5.4, a participação no total
do emprego industrial do Brasil cai de 54% em 1985 para
36,2% em 2011, indicando uma clara migração do emprego industrial para o interior. Em São Paulo, a perda da participação do emprego industrial entre 1985 e 2011 chegou a
19,9%, havendo um decréscimo de mais de 300 mil postos
de trabalho no período.
Toda esta mudança econômica implica em profundas transformações na estrutura urbana das cidades. Antigas áreas industriais entram em decadência e novos polos
na área de serviços surgem. A distribuição espacial e qualitativa dos empregos nas cidades se altera, bem como as
demandas por transporte e moradias. As metrópoles passam a necessitar de redes informacionais que garantam a
sua conectividade interna e externa. Um grande contingente de trabalhadores menos qualificados tem dificuldade de encontrar trabalho formal diante das novas demandas do mercado de uma cidade informacional.

Fonte: Convênio IPP/IUPERJ/IPEA e FJP-MG.

Do ponto da conectividade econômica, São Paulo (num primeiro nível isolado) e depois o Rio de Janeiro
(num segundo nível também isolado) se destacam bastante. Ambas são metrópoles nacionais e cidades globais. Isto
significa que a dinâmica interna destas metrópoles está
muito mais sujeita as lógicas nacionais e globais.
Alguns processos comuns podem ser destacados.
A mudança do caráter de cidade industrial fordista para
cidade informacional gerou profundas transformações em
praticamente todas as metrópoles brasileiras, com impacto mais significativo em São Paulo, onde o emprego industrial mais perdeu importância relativa39 (Tabela 5.4) em

39 Cabe ressaltar que a indústria continua sendo importante nas metrópoles.
São Paulo é o maior centro industrial brasileiro. Em 2011 a sua região

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metropolitana possuía 1,23 milhões de empregos industriais, o que representa
15,13% do total de empregos industriais do país. A desindustrialização da
metrópole é, portanto, relativa.

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134

Geografia

Tabela 5.4 - Evolução do Emprego da Indústria de transformação nas Metrópoles Brasileiras - 1985/2011
Empregos Formais - 1985
Região Metropolitana

Indústria de
Transformação

Total

Empregos Formais - 2011

Participação da Indústria
Indústria de
de Transformação no
Transformação
Total (%)

Total

Participação da Indústria de
Transformação no Total (%)
25,4

Manaus

55.755

183.769

30,3

130.747

513.938

Belém

30.561

237.052

12,9

27.463

503.388

5,5

Fortaleza

72.293

378.121

19,1

170.734

968.296

17,6

103.523

527.768

19,6

113.873

1.086.896

10,5

62.918

573.996

11,0

91.763

1.108.396

8,3

138.989

882.745

15,7

245.312

1.962.763

12,5

Recife
Salvador
Belo Horizonte
Rio de Janeiro

390.705

2.286.842

17,1

293.004

3.299.911

8,9

1.554.263

4.260.906

36,5

1.227.894

7.380.405

16,6

Curitiba

101.961

501.527

20,3

222.877

1.241.047

18,0

Porto Alegre

268.759

898.523

29,9

280.538

1.363.985

20,6

Goiânia

20.340

261.323

7,8

86.737

732.308

11,8

Brasília

13.775

482.608

2,9

47.426

1.279.550

3,7

Total 12 Metrópoles

2.813.842

11.475.180

24,5

2.938.368

21.440.883

13,7

Total Municípios não metropolitanos

1.848.027

6.406.026

28,8

4.180.893

19.447.596

21,5

Total Brasil

5.213.804

20.492.131

25,4

8.113.805

46.310.631

17,5

São Paulo

Nota: Foi considerado o total das regiões metropolitanas e Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno. Exceto para Manaus, onde foi considerado
apenas o próprio município. A classificação da indústria de transformação refere-se aos setores do IBGE.
Fonte: Rais, Ministério do Trabalho e Emprego.

O resultado deste processo são cidades divididas:
territórios altamente dinâmicos e conectados com processos globais se mesclam com territórios de populações
excluídas ou inseridas marginalmente, tornando as metrópoles no espaço da desigualdade. Esta desigualdade é
acentuada pela ineficácia dos transportes públicos e pela
insuficiência de políticas habitacionais. A favelização é
a sua face mais visível, soma-se a isto a violência, a redução da mobilidade urbana pelos congestionamentos e a
queda na qualidade de vida, ameaçando a própria competitividade da cidade na rede urbana nacional e global.

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As metrópoles ficam com o tecido sociopolítico-espacial
fragmentado, resultado de uma
sinergia sinistra: uma certa importância e uma certa
complexidade (e sofisticação) não apenas da elite stricto sensu, mas também da classe média local; uma certa
magnitude da pobreza e uma certa complexidade da
segregação residencial; uma certa importância socioespacial da criminalidade violenta e, especialmente, do
tráfico de drogas. Pode-se, adicionalmente, estabelecer
como um fator, também, um certo limiar crítico em matéria de tamanho da cidade (tamanho populacional e
em área), desde que isso não seja considerado isoladamente (SOUZA, 2000, p. 333).

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Geografia urbana

A distribuição da população mais pobre na metrópole do Rio de Janeiro ajuda a ilustrar a fragmentação urbana, com um imenso anel periférico e um pontilhado de
áreas pobres no próprio município núcleo, revelando as
áreas de favela (Mapa 5.5).
Por outro lado, "a acumulação de atividades intelectuais ligadas à nova modernidade assegura a criação
de numerosas atividades produtivas de ponta, garan-

tindo à metrópole preeminência em relação às demais
áreas e atribuindo-lhe, por isso mesmo, novas condições
de polarização" (SANTOS, 1993). Cabe ressaltar o grande
crescimento do emprego formal no país como um todo e
nas metrópoles (Tabela 5.4), especialmente na década de
2000, o que amenizou os problemas sociais das grandes
concentrações urbanas.

Mapa 5.5 - Renda Familiar per capita

Geografia_Book.indb 135

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Geografia

136

A metrópole de São Paulo apresenta características
diferenciadas por sua complexidade e tamanho. No entorno
do município de São Paulo articula-se, o que foi identificado ainda na década de 1970, a chamada macrometrópole
paulista. Trata-se de uma imensa região, altamente integrada e conectada, que, a partir da região metropolitana de São
Paulo, incorpora as regiões metropolitanas de Campinas da
Baixada Santista, do Vale do Paraíba e a região de Sorocaba.
Nesta área, com mais de 25 milhões de habitantes, concentra-se o núcleo mais dinâmico da economia nacional, onde
as corporações trabalham articuladas em múltiplas localidades. Trata-se de um espaço urbano, uma cidade-região policêntrica. É dentro desta região ou em seu entorno próximo
que ocorreu grande parte da desconcentração industrial
relativa da região metropolitana de São Paulo. A macrometrópole concentra também grande parte da produção de
ciência e tecnologia do país, além de contar com avançados
serviços de marketing, de contabilidade, de engenharia e
arquitetura, jurídicos e financeiros que têm como mercado,
em última instância, toda economia global.
Diferentemente, o Rio de Janeiro não apresenta uma
rede urbana em seu entorno, densa e altamente conectada
como São Paulo. A própria estrutura da Região Metropolitana é menos policêntrica do que em São Paulo, com uma
forte concentração dos serviços mais avançados no município do Rio de Janeiro. Apesar disto, as ligações econômicas
entre as metrópoles carioca e paulista são intensas, levando
alguns autores a sugerir que estaria em formação uma megalópole pela união das duas metrópoles.

5.4 O papel das cidades médias na modernização
do Brasil

Diferentemente do fenômeno metropolitano, cujas
especificidades são bem identificadas a ponto de se definir
territórios institucionalizados, não existe um conceito cristalizado do que é uma cidade média. Embora seja possível
agrupar, com algum consenso, certos parâmetros que identificam as cidades médias, dificuldades existirão na hora de
se enquadrar aqueles centros que se encontram numa faixa
de intersecção junto a grandes ou pequenas cidades. Muitas
vezes a definição de cidade média se sujeita muito mais aos
objetivos do pesquisador (SERRA e AMORIM FILHO). Dificilmente encontra-se exatamente o mesmo grupo de cidades
médias em estudos diferentes.
Assim, é necessário melhorar o entendimento sobre
o que são cidades médias. Alguns pesquisadores as definem
pelo critério demográfico. Andrade (2000) considera cidades
médias no Brasil aquelas entre 100.000 e 500.000 habitantes, desde que não sejam capitais ou municípios metropolitanos. O segundo ponto desta definição é extremamente
relevante. A cidade média deve ser considerada analisando
o conjunto do aglomerado urbano, seja ele metropolitano
ou não, em que está inserida. Deste modo, municípios que
fazem parte de regiões metropolitanas, como Niterói, por
exemplo, não podem ser considerados como cidades médias, pois na verdade fazem parte da metrópole.

Geografia_Book.indb 136

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137

Geografia urbana

Santos (1993) definiu o limite inferior para as cidades
médias em 100.000 habitantes, dado o nível de complexidade e diversificação de bens e serviços que devem ser ofertados numa cidade desta categoria, que só poderia ser atingido com este patamar mínimo de aglomeração. Entretanto,
ele ressalta que este limiar é dinâmico: se uma cidade de
20.000 habitantes poderia ser considerada como média no
início do séc. XX isto já não é mais verdade no final do mesmo século. Outras pesquisas consideram o limiar demográfico inferior para uma cidade média como 50.000 habitantes. O limiar superior pode chegar a 1 milhão de habitantes.
É necessário constatar também que o patamar demográfico
de uma cidade média vai variar de acordo a região que ela
está inserida.
O fato é que, normalmente, a abordagem demográfica acaba sendo utilizada para a definição das cidades médias pela facilidade operacional, ao menos para uma primeira aproximação dos estudos. Entretanto, são evidentes
as limitações desta abordagem se tomada de forma isolada. As cidades médias devem ser consideradas pelo seu
aspecto funcional, ou seja, pelo papel que elas exercem na
rede urbana. Neste enfoque, o critério demográfico apenas identifica o grupo de municípios que pode conter as
cidades médias, pois nem sempre existe uma correspondência direta entre contingente populacional e função na
rede urbana.

Sposito (2004) considera como cidades médias
aquelas que além de terem tamanho demográfico correspondente a este porte, desempenham claros papéis
intermediários entre as cidades pequenas e as metrópoles. A população das cidades pequenas, polarizadas por
uma cidade média, realizam parte do consumo de bens
e serviços necessários à produção e à vida nestas cidades. São elas também que apresentam as melhores condições para, dado os ajustes do sistema fordista para o
sistema flexível de produção, abrigarem novas unidades
de produção, cumprindo assim não somente o papel de
atendimento ao mercado regional, mas desempenhado
importantes funções como elos de um sistema produtivo global. O Mapa 5.6 mostra o exemplo da rede urbana
comandada por Chapecó (SC). A cidade organiza todo o
oeste catarinense, funcionando como um centro intermediário entre as cidades menores e a metrópole.

Geografia_Book.indb 137

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138

Geografia

Mapa 5.6 - Região de Influência de Chapecó (SC)

Fonte: IBGE, 2008

Sobre a ótica de seu papel funcional, o IBGE (2008)
aponta um conjunto de cidades que podem ser tratadas
como cidades médias: são 70 cidades classificadas como
capitais regionais e 169 cidades listadas como centros sub-regionais, conforme mostrado no Mapa 5.3. As maiores
capitais regionais poderiam ser excluídas do grupo de cidades médias se for feito também um corte demográfico.

Geografia_Book.indb 138

A distribuição destas cidades (Mapa 5.3) é bastante irregular, concentrando-se em grande número e densidade no
centro-sul brasileiro, mas escasseando-se em direção ao
Nordeste e Amazônia.
A estruturação desta rede urbana significa um
avanço da malha tecnoinformacional para porções mais
amplas do território, integrando estas regiões a rede de

31/01/2013 14:53:01

139

Geografia urbana

produção capitalista mais avançada. São as redes produtivas caminhando para o interior do território brasileiro,
onde as cidades médias são importantes nós, desempenhando suas funções de modo integrado e complementar às metrópoles que concentram os serviços mais
avançados e a gestão, enquanto ocorre uma relativa dis-

persão da produção e mesmo de algumas atividades terciárias mais nobres para as cidades médias. O Mapa 5.7,
mostra que, em que pese a grande concentração da
pós-graduação nos espaços metropolitanos, é nítido o
seu avanço nas cidades médias, em especial no centro-sul brasileiro.

Mapa 5.7 - Ensino de pós-graduação no Brasil

Fonte: Relação de cursos recomendados e reconhecidos. Brasília, DF: Ministério da Educação, Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, 2006. Disponível em: . Acesso em: 6 jan. 2006. IBGE, 2008.

Geografia_Book.indb 139

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Geografia

140

Na década de 1970 houve um esforço, por parte do
governo federal, de reduzir a concentração metropolitana
e fortalecer as cidades médias. Influenciado pela experiência francesa de aménagement du territoire, que buscava diminuir a concentração econômica excessiva em Paris pelo
fortalecimento de centros no interior do país, foi lançado o
Programa Nacional de Apoio as Capitais e Cidades de Porte
Médio (PNCCPM), parte integrante do II Plano Nacional de
Desenvolvimento (PND). O Programa tinha como objetivo
o fortalecimento de algumas cidades médias para aliviar o
crescimento das metrópoles. As cidades escolhidas deveriam atrair atividades e pessoas, dando força à economia
de suas regiões (HOLANDA, 2001). Há controvérsias sobre
o sucesso do plano, mas de fato houve um fortalecimento
das cidades médias no país.

Estudos de Andrade (2000) mostram que, no período entre 1980 e 1996, os fluxos migratórios tinham uma
orientação metropolitana, mas foi bastante significativa
a participação das cidades médias neste processo. Entre
1991 e 1981, 3,986 milhões de migrantes se dirigiram às
metrópoles, enquanto 3,273 milhões se dirigiram para as
cidades médias. Entre 1991 e 1996, o fluxo para as cidades médias chegou a 1,585 milhão, superando a migração
para as metrópoles (1,198 milhão). O estudo conclui que
as cidades médias contiveram parte dos fluxos migratórios
que, de outro modo, chegariam às metrópoles.
Estudo mais recente (RIBEIRO e RODRIGUES, 2009),
que avalia o período entre 2000 e 2007, mostra uma tendência semelhante, indicando um crescimento demográfico muito próximo entre as cidades médias e as metrópoles (Gráfico 5.4). Os dados do Censo Demográfico de 2010
confirmam o fato de os centros intermediários terem saldos migratórios maiores do que as metrópoles.

A dinâmica das cidades médias no Brasil
É usualmente divulgado pela mídia que as cidades
médias se tornaram as áreas mais dinâmicas do território
brasileiro, enquanto as metrópoles perdem importância
demográfica e econômica. Este tipo de afirmação deve ser
vista com restrições. De fato as cidades médias ganham
importância qualitativa e quantitativa na rede urbana brasileira. Mas tal ganho não significou um enfraquecimento
das metrópoles, mas sim uma consolidação da rede urbana brasileira.

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141

Gráfico 5.4 - Crescimento demográfico - 2000-2007

Geografia urbana

Bibliografia do Capítulo 5
ANDRADE, T. A.; SANTOS, A. M. S. P.; SERRA, R. V. Fluxos Migratórios nas Cidades Médias e Regiões Metropolitanas Brasileiras: A Experiência do Período 1980/96. Texto para Discussão número 747. Rio de Janeiro: IPEA, 2000.

Fonte: IBGE, Censo demográfico 2000 e Contagem populacional 2007. Tabulação
Observatório das Metrópoles.

As cidades médias, com o avanço das redes técnicas,
passam crescentemente a integrar os circuitos mais avançados da economia. Com isto, a sua integração com as metrópoles se torna mais forte. Estudos do IBGE (2008), baseados na
distribuição das sedes e filiais de empresas, indicam esta integração, ao mesmo tempo em que mostra comando regional
das cidades médias. São as conexões com redes produtivas
superiores aliada a oferta de bens e serviços para a sua área
de influência que promovem a dinâmica das cidades médias,
mas principalmente em detrimento das pequenas cidades e
de maneira complementar as metrópoles. Pode-se concluir
que há um fortalecimento tanto das metrópoles quanto das
cidades médias, numa densificação das redes produtivas formando, em algumas áreas, como o estado de São Paulo, uma
verdadeira malha que cobre todo o território.

Geografia_Book.indb 141

BRASIL. MINISTÉRIO DO TRABALHO. "Programa de Disseminação de Estatísticas do Trabalho". Sítio disponível em:
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Geografia

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UNITED NATIONS (UN)/POPULATION DIVISION ­ World Urbanization Prospects ­ The 2007 Revision. New York: UN,
2008.
UNITED NATIONS (UN)/POPULATION DIVISION ­ World Urbanization Prospects ­ The 2011 Revision. New York: UN,
2012.
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143

6. Geografia política

6.1 Teorias geopolíticas e poder mundial
A geografia vem passando por significativas transformações teóricas, epistemológicas
e metodológicas que estão sendo denominadas, de modo genérico, como giros ou viradas
da disciplina, de acordo com Lindón (2010, p. 23). Esses giros afetam a geografia política na
qualidade, então, de uma geografia política renovada, mas que não subestima a relevância de
seu legado intelectual, remetendo-se a uma revisão constante dos temas e fundamentos da
geopolítica.
O geógrafo francês Paul Claval afirma que "a geopolítica está na moda" (1994, p. 3).
O termo criado na alvorada do século XX pelo sueco germanófilo Rudolf Kjéllen adquiriu um
prestígio considerável, ao longo daquele século, sem, contudo deixar de experimentar momentos de alta e de baixa valorização, tendo sido, um dos seus ápices, o período do entreguerras. Apoiada nos princípios do paradigma do realismo político, a geopolítica reforça a tradição político-geográfica dos estudos focados no Estado. Mais do que isso, de fato, os estudos
geopolíticos clássicos reconhecem o Estado como o único protagonista das relações internacionais, depreendendo-se desse reconhecimento à ideia de que o Estado é a única fonte
de poder. Essa concepção unidimensional do poder rendeu à geopolítica clássica o rótulo de
"estadocêntrica", conforme ressalta Raffestin (1993).
O realismo político, balizador da geopolítica clássica, apresenta, pelo menos, três características essenciais: a) política interna e política internacional são consideradas áreas distintas
e independentes entre si; b) somente os Estados são reconhecidos como atores internacionais;
e c) o poder traduzido na possibilidade de usar a força é a sua obsessão. Morgenthau (2003)
consolida nos EUA a sua teoria do realismo político, sistematizando o que denominou de seus
princípios, a saber:
1.A política, tal como a sociedade é governada por leis objetivas comparáveis à luta
pela sobrevivência, refletindo-se na conduta dos Estados.

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Geografia

2. Todo e qualquer interesse ­ político, econômico
ou cultural ­ dos atores internacionais deve ser
traduzido na pretensão de alcançar mais poder.
3. O conceito-chave de interesse definido como
poder é uma categoria objetiva com validade
universal.
4. Não existem regras morais universais aplicáveis a
todas as situações e ações dos Estados.
5. O sistema internacional é absolutamente anárquico, isto é, desprovido de qualquer regulação
supranacional.
6. Consagra a separação entre a política interna e a
política externa dos Estados, ou seja, é o "império
dos mais fortes".
Esse paradigma realista ou clássico elucida a orientação das primeiras elaborações das ideias geopolíticas, a
começar pela obra magistral de F. Ratzel, ainda no final do
século XIX. Ratzel, com sua máxima "espaço é poder", abre
um fértil caminho para análises que vinculassem as ações
do Estado com a organização do espaço, numa concepção orgânica. Assim, para aquele autor alemão, o Estado
consistia num organismo vivo. Dentre os conceitos propostos na geografia política ratzeliana, sem dúvida ressalta
o de espaço vital, expressando um dos componentes da
sua obra, qual seja o expansionismo territorial. Preocupado com a coesão social e territorial de uma Alemanha

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144

recém-unificada, Ratzel atribuía ao Estado a responsabilidade de orquestrar e concretizar aquela coesão, revelando
a intenção de consolidar a unidade nacional na interface
da integridade territorial. A senda aberta por Ratzel foi ampliada por outros nomes célebres vinculados à geopolítica,
valendo a pena focalizar alguns que elaboraram hipóteses
geoestratégias sobre o poder mundial.
Ainda que sejam denominadas por alguns autores
como teorias geopolíticas, o que será apresentado adiante
mereceria melhor denominação de hipóteses geoestratégicas, como de fato parecem constituir. Os comentários
recairão sobre as hipóteses de H. Mackinder, K. Haushofer,
A. Mahan e N. Spykman. São autores que apresentaram
suas ideias num contexto que se poderia caracterizar como
"era pré-nuclear", indicando-se com isso que outras hipóteses foram sugeridas após a Segunda Guerra Mundial. As hipóteses aqui mencionadas seguiriam, fundamentalmente,
dois princípios ou parâmetros: a) a distribuição de terras e
mares e b) a busca por espaços autárquicos. A combinação desses dois parâmetros explica, em grande medida, os
propósitos daquelas hipóteses, bem como a preocupação
que os conceptores tinham com relação à questão nacional, isto é, a afirmação de seus respectivos Estados no jogo
geopolítico mundial. O fulcro, com certa evidência, era a
luta por mecanismos que garantissem uma visibilidade
hegemônica ao nível planetário. Um nome de destaque
nesse rol de autores é, certamente, o de Halford Mackinder

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Geografia política

(1861-1947), geógrafo e Sir da Coroa Britânica. Sua hipótese é a mais difundida e se presta a exames ainda hoje para
atestar sua atualidade.
Originalmente, foi apresentada em 1904, no artigo
intitulado "O pivô geográfico da história". Nesse artigo, o
autor apresenta o conceito de heartland (o coração terrestre), o qual representaria o próprio pivô (ou região-pivô)
que consta do título.
Essa área-pivô, o heartland, representava-se e estendia-se do Himalaia ao Ártico e do rio Volga ao Yang-Tsé, representava um espaço autárquico devido à sua extensão,
possibilidade de circulação com uma ampla gama de recursos. Também se constituía numa fortaleza natural, numa
posição estratégica e inacessível aos ataques militares por
via marítima. Em função dessas características do heartland
e de sua relação com as terras de seu entorno, Mackinder
enuncia a sua hipótese numa frase-síntese: quem dominar
o leste da Europa domina o heartland, quem dominar o
heartland, dominará a Ilha-Mundo, e quem dominar a Ilha-Mundo dominará o mundo.
Geograficamente, o heartland correspondia às vastas terras da Rússia estendendo-se pelas imensidões siberianas. De acordo com Becker (1995, p. 279), é "fácil perceber as motivações dessa hipótese. Inglaterra, que construíra o maior império marítimo da História, preocupava-se
em mantê-lo, vendo como ameaça a expansão moderna
da Rússia aliada à Alemanha". Nas palavras de Lorot (1995,

p. 20), a percepção de Mackinder era a de que "a evolução do planeta resulta das variações da relação de força
existente entre o pivô central e as terras do anel exterior,
ou seja, entre potências terrestres e potências marítimas".
Esboçava-se, desse modo, a contraposição mais marcante
derivada da hipótese mackinderiana, o oceanismo versus
o continentalismo. O poder terrestre passa a ser encarado
como a contraface do poder marítimo, exigindo esforço
para a sua coordenação.
A hipótese de Mackinder é revista pelo próprio autor
em dois momentos: um em 1919 e outro em 1943. Na última revisão, Mackinder expande a área representada pelo
heartland e apresenta outro conceito estratégico, que é o
midland ocean. Este último conceito encerra a viabilidade
de controle de uma área marítima estratégica, complementar ao controle do heartland. É assim que o geógrafo
britânico vislumbra o potencial geoestratégico do Atlântico Norte. Vale ressaltar que, logo após a sua morte, cria-se
a aliança militar denominada Organização do Tratado do
Atlântico Norte (OTAN).
Transcorrido um século desde a apresentação inicial
da hipótese em foco, persistem as interpretações do mundo contemporâneo, com inspiração naquelas ideias. Mello
(1998, p. 213) é firme ao explanar sobre a atualidade de
Mackinder. A atualidade de suas ideias poderia ser expressa em quatro pontos principais.

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Geografia

Primeiramente, uma formulação mackinderiana da
maior atualidade é sua concepção do mundo como
sistema fechado. (...) Em segundo lugar, outra formulação mackinderiana da maior relevância é sua visão
histórico-geográfica da luta permanente entre dois
grandes poderes antagônicos ­ as potências oceânicas
e as potências continentais. (...) Em terceiro lugar, deve
ser destacada a relevância de uma série de conceitos
mackinderianos tais como região-pivô (heartland), crescente marginal (inner crescent) e crescente insular (outer crescent). (...) Finalmente, é preciso ressaltar ainda a
relevância do conceito estratégico de oceano central
(midland ocean) ­ com sua retaguarda na costa leste da
América do Norte, seu aeródromo na Inglaterra e sua
cabeça-de-ponte na França.

Talvez por essa razão, Mello tenha intitulado seu livro
da seguinte forma: Quem tem medo da geopolítica?.
Acrescentamos que a percepção geográfica de
Mackinder o remeteu à noção de Eurásia. Essa percepção
situou a posição estratégica da Europa ante a Ásia. A atualidade dessa noção é atestada em trabalhos tais como
"O retorno da Eurásia, 1991-2011: vinte anos do novo grande espaço estratégico que deu passagem ao século XXI",
organizado por F. Veiga e A. Mourenza (2012), bem como
à indagação proposta no livro organizado por M. Spektor e
D. Nedal (2010): "O que a China quer?". A geografia política
contemporânea pode contar com os ideiais mackinderianos, facilitando a decifração do mundo, como propõe Boniface (2011).

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Outra hipótese geoestratégica merecedora de ressalvas é a do geógrafo, militar e diplomata alemão Karl
Haushofer (1869-1946).
Segundo Lorot (1995, p. 28), a "geopolítica alemã é o
prolongamento natural da geografia política de Friedrich
Ratzel e de Rudolf Kjéllen. Karl Haushofer lhe tomou de
empréstimo vários conceitos, notadamente o de lage (situação) e a de raum (espaço)". Trata-se de uma hipótese sobre
o poder terrestre, orientada por uma ordem internacional
idealizada a partir da perspectiva de assegurar, a algumas
potências, zonas de influência bastante extensas, ou seja,
efetivos espaços autárquicos controlados por Estados específicos. De acordo com Becker (1995, p. 279),
Influenciado pela geopolítica de Kjéllen, pelo poder marítimo inglês e pela visão de Mackinder, a escola alemã
conduzida pelo major Haushofer, idealizou a formação
de pan-regiões como forma de, através da complementaridade de recursos produzidos em climas, alcançar a
autarquia. Segundo essa concepção, o império inglês
correspondia, na verdade, a uma pan-região fragmentada, representada pelas colônias. A formação da Pan-região americana liderada pelos EUA, a Pan-região África liderada pela Alemanha, Pan-leste da Ásia pelo Japão
e Pan-Rússia com a Índia, seria uma forma de romper o
poder inglês, concepção que no plano da ação correspondeu ao pacto de não agressão à URSS e à aliança
com o Japão.

Haushofer à frente de um atuante grupo (formado
por O. Maull, E. Obst, O. Shuter, dentre outros) liderou a

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Geografia política

mais famosa e controvertida escola de geopolítica de todos os tempos, sobretudo em função do regime nazista
que se instaura na Alemanha, a partir de 1933, tornando-se
uma referência para o domínio da política, fosse ela partidária ou pensada pelos teóricos da academia. A Revista
de Geopolítica, comandada por Haushofer, em Munique,
tornou-se importante veículo de discussão geopolítica.
Ainda sobre a concepção geopolítica de Haushofer,
Costa (1992, p. 139) faz o seguinte arrazoado:

Embora com a mesma visão de Mackinder, mas contrariando sua hipótese, o almirante Alfred Mahan (1900)
ao analisar os fundamentos da grandeza do Império
Britânico, reconhece as desvantagens da continentalidade e atribui valor estratégico para o poder aos mares, verdadeira planície aberta a ser explorada. O poder
naval, para controle do mar é o que permite o domínio
do mundo.

Em suma, ele [Haushofer] diz, a política externa repousa
sobre o espaço vital. A partir dessa ideia geral, desenvolve uma estratégia política para os Estados, que leva em
conta, necessariamente, a correspondência ideal entre
a densidade populacional, os projetos de plena realização econômica e cultural das nações e a base territorial,
indispensável ao pleno desenvolvimento de cada país.

Um terceiro autor de uma hipótese geoestratégica
sobre o poder mundial a merecer destaque é o almirante
norte-americano Alfred Mahan (1840-1914). O autor em
foco estava interessado na reflexão sobre o poder marítimo e escreve, em 1892, o livro intitulado The influence of
sea power upon French empire and revolution (1793-1812).
Entretanto, Mahan não se interessava apenas pelos oceanos. Em seu trabalho "Problema da Ásia", de 1900, ele sublinha a importância daquilo que Mackinder denominaria
alguns anos mais tarde de heartland. Sobre o autor, Becker
(1995, p. 280) assinala que:

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Mahan deixa mais clara sua tese sobre a importância
do poder marítimo e do naval quando escreve em 1890, o
livro The influence of sea power upon History. O almirante vislumbra, ainda, numerosas semelhanças entre a Inglaterra
e os Estados Unidos, e publica em 1897 um texto no qual
expõe os interesses dos Estados Unidos no poder marítimo. Neste trabalho, o autor apresenta alguns pontos, sintetizados por Lorot (1995, p. 37): a) associação dos EUA com
o poder naval britânico; b) oposição às pretensões alemãs
sobre os mares; c) vigilância sobre a expansão previsível do
Japão sobre o Pacífico; e d) defesa coordenada dos europeus e americanos contra os povos da Ásia.
Costa (1992) afirma que Mahan tinha uma visão inovadora, baseada numa concepção integrada de todas as atividades relacionadas ao mar, concebendo, também, oceanos e mares como um vasto espaço social e político. Quanto
à posição do território dos EUA, entre os oceanos Atlântico e
Pacífico, Mahan assinala a necessidade de interligação rápida entre as suas costas, daí, segundo o almirante, a necessidade urgente de um canal no istmo do Panamá.

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Geografia

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Nicholas Spykman (1893-1943) é um norte-americano de origem holandesa que apresentou uma visão crítica
aos trabalhos de H. Mackinder e de K. Haushofer, expondo
sua própria hipótese geoestratégica sobre o poder mundial. Consoante Becker (1995, p. 281),

à revolução científico-tecnológica também focalizando a
necessária discussão sobre o desenvolvimento sustentável.

No final da Segunda Guerra Mundial, Nicholas Spykman
(1944) ofereceu subsídios à hegemonia americana, reafirmando o poder marítimo. Ainda seguindo a visão de
Mackinder, elegeu como área estratégica para o poder o
"rimland", as terras peninsulares da Eurásia, onde se concentram a população, os recursos e as linhas marítimas.
Parodiando Mackinder, estabeleceu que quem controlasse o "rimland" controlaria o mundo, alertando para a
necessidade de impedir o domínio da Alemanha nessas
terras através de múltiplas coligações dos EUA com outros Estados da América, Europa e Extremo Oriente.

Na prática, a estratégia sugerida por Spykman foi seguida após a Segunda Guerra; organizou-se a contenção
e o cerco da União Soviética para conter a sua expansão,
mediante poderoso cinturão de coligação a sua volta.
O quadro de nomes e hipóteses retratado poderia
se estender. Ao longo do tempo, considerar-se-iam as propostas de J. Bowman, de S. Cohen, de Z. Brzezinski, dentre outros. A esse respeito, vale consultar os trabalhos de
Costa (1992) e Vesentini (2000) na atualidade, novos parâmetros interferem na prática geopolítica, como alerta Becker (1995), quanto à ecologia e à tecnologia, focando o
papel da logística como uma nova racionalidade associada

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Geografia política

6.2 Temas clássicos da geografia política: as fronteiras e as formas de apropriação política do
espaço

Trata-se atualmente de uma retomada do conceito
de território, pelas Ciências Sociais como um todo, o qual
passa por uma espécie de revalidação epistemológica
e pragmática. Nesse sentido, chega-se a falar no fim dos
territórios, como o faz, em seu livro, Bertrand Badie. Este
autor argumenta que a (des)ordem internacional é caracterizada, dentre outros, pela difusão .de redes, de fluxos e
de trocas. Segundo Badie (1995, p. 14), o território, ainda
numa concepção westphaliana, designa mais que um simples espaço, mas sim uma ordem, um agenciamento, um
modo de organização e que a "nova cena mundial se desenha como a-territorial", submissa a várias lógicas e muito
raramente sob a lógica do Estado nacional. Esse polêmico
inciso sobre o fim dos territórios contribui para a reafirmação do debate sobre a pertinência ou o princípio territorial,
no mundo contemporâneo, não apenas como referência
para o Estado, mas também em outras configurações escalares. Recentemente, ainda fora da produção acadêmica
dos geógrafos, Saskia Sassen (2010) discute o desencaixe
territorial da escala nacional e os seus novos contextos na
era global e digital, em seu livro Território, autoridade e direitos.
Quanto à revalorização do território, como referência importante para o funcionamento do mundo contemporâneo, Santos (1996, p. 15) acena que "a interdependência universal dos lugares é a nova realidade do território.
Nesse longo caminho, o Estado-nação foi um marco, um

Um dos conceitos-chave da geografia política é,
sem dúvida, o de território. Concebido como espaço geográfico sob o controle do Estado, originalmente o território
ganha prestígio entre geógrafos-políticos justamente por
essa relação atávica com a figura do Estado. Mesmo fora
do âmbito dessa disciplina acadêmica, quando se discute
a origem do poder do Estado, é comum encontrar uma
clara referência à centralidade territorial do Estado como
um dos trunfos do poder que, inclusive, diferencia o Estado de outras instituições e agrupamentos. O trabalho de
Mann (1992, p. 182) sobre o poder autônomo do Estado é
categórico nas passagens em que ressalta: "a definição do
Estado se concentra sobre sua natureza institucional, territorial, centralizada".
Esta é a mais importante precondição do poder do
Estado: "(...) Só o Estado é inerentemente centralizado em
um território delimitado, sobre o qual ele tem um poder
autoritário. (...) O Estado é realmente um lugar, tanto um
lugar central, quanto um alcance territorial definido". Essa
centralidade e principalidade territorial reconhecidas por
Michael Mann passam, contudo, por uma série de questionamentos, na atualidade.

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Geografia

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divisor de águas, entronizando uma noção jurídico-política
do território (...)". Reconhecendo o território como a base,
o fundamento do Estado-nação, sobretudo no passado, o
autor em foco adverte que, nos dias atuais, algo dessa realidade se transmuta. Então, o autor afirma que

um espaço apropriado, com sentimento ou consciência de
sua apropriação, sendo um conceito passível de uma construção ao mesmo tempo jurídica, social e cultural (BRUNET,
1993).
Outros franceses, como Jacques Lévy e Michel Lussault, reportam-se ao conceito de território relacionando-o
a um espaço de métrica topológica ou das redes (LEVY e
LUSSAULT, 2003). À parte das variadas definições de território, encontram-se no cerne do conceito elementos
político-geográficos, como por exemplo, as noções de
apropriação e de controle social de uma determinada área
geográfica.
De acordo com Raffestin (1993, p. 143), espaço e território não são termos equivalentes, o espaço é anterior ao
território, o "território se forma a partir do espaço, é o resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático
(ator que realiza um programa) em qualquer nível. Ao se
apropriar de um espaço, concreta ou abstratamente (por
exemplo, pela representação), o ator `territorializa' o espaço". Assim, metaforicamente, o autor em tela escreve que o
"espaço é a prisão original, o território é a prisão que os homens constroem para si" (idem, p. 144). Além da noção de
controle, implícita na metáfora da "prisão", Claude Raffestin
também considera a noção de limite como elemento fundamental para a construção de territórios. O autor afirma
que definir, "caracterizar, distinguir, classificar, decidir, agir
implicam a noção de limite: é preciso delimitar". E acres-

assim como antes tudo não era, digamos assim, território "estatizado", hoje tudo não é estritamente "transnacionalizado". Mesmo nos lugares onde os vetores da
mundialização são mais operantes e eficazes, o território habitado cria novas sinergias e acaba por impor, ao
mundo, uma revanche.

Segundo Haesbaert (2004), as Ciências Sociais redescobrem o território, no final do século XX, para falar do seu
desaparecimento, explicitando essa ideia através do termo
desterritorialização. Para o autor, este último termo pode
encerrar mais um mito da chamada pós-modernidade e o
conceito de território deve ser revisitado em toda sua amplitude, articulando as perspectivas materialistas (em suas
concepções naturalistas ou de base econômica ou da tradição jurídico-política de território) e, idealistas numa perspectiva integradora e/ou relacional. Assim, é possível rediscutir o conceito de território em bases distintas daquelas
que o reduziam, no passado não muito distante, ao hábitat
dos animais e das plantas, ou meramente à área geográfica
controlada por um Estado Nacional.
O geógrafo francês Roger Brunet procura definir território referindo-se a uma malha de gestão do espaço, a

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centa: "delimitar é, pois, isolar ou subtrair momentaneamente ou, ainda, manifestar um poder numa área precisa"
(ibidem, p.153).
Refletir sobre o território, como uma construção
social, é pensá-lo como modo de divisão ou delimitação
do espaço, de forma tal que, por seu intermédio, os grupamentos humanos estabeleçam alguma distinção entre si,
conforme esclarece Gottmann (1973). O geógrafo Guy Di
Méo reforça a interpretação da ecogênese territorial apresentada por Claude Raffestin e agrega, de forma sistematizada, o que se pode chamar de significações suplementares para se pensar o conceito de território. São quatro
significações, a saber:
1. A inserção de um sujeito num grupo implica a
construção de um pertencimento, uma identidade coletiva. Essa é uma experiência concreta do
espaço social que condiciona nossa relação com
os outros, nossa alteridade.
2. O território traduz um modo de recorte e de controle de espaço garantindo a especificidade e a
permanência, a reprodução dos grupos humanos
que o ocupam. Essa é a dimensão política do território.
3. No campo simbólico, o território também pertence à ordem das representações sociais e pode
expressar-se por sua natureza emblemática. Fala-

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Geografia política

-se em território identitário, com dupla função:
política e simbólica.
4. Por fim, a importância do tempo de longa duração, da história estrutural, também deve ser levada em conta em matéria de construção social dos
territórios (DI MÉO, 2001, p. 38).
No que tange ao conceito de territorialidade, a geografia política contribui com revisões teóricas que apontam para a ampliação do significado desse termo. Robert
D. Sack é um dos geógrafos mais destacados no avanço
dessa revisão teórica. Para esse geógrafo, a territorialidade
humana é uma estratégia geográfica poderosa. Sack (1986,
2011) afirma que a territorialidade é uma relação com o
espaço e se constitui na tentativa de afetar, influenciar ou
controlar uma área geográfica específica. Segundo esse
autor, a definição de territorialidade contém três aspectos interligados: a) a classificação ou delimitação de áreas;
b) a comunicação (relativa às redes); e c) uma forma de
controle social (definição de relações de poder). Essas territorialidades podem ainda, passar por ativação ou desativação, isto é, não são eternas.
Por seu turno, Raffestin (1993, p. 161) fala em territorialidade estável e territorialidade instável. Este último
autor ressalta que cada "sistema territorial segrega sua própria territorialidade, em que os indivíduos e as sociedades
vivem. A territorialidade se manifesta em todas as escalas
espaciais e sociais" (idem, ibidem).

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Becker (1988, p. 108) considera necessário "reconhecer modos e intensidades diversos da prática estratégica
espacial". Para tanto, distingue territorialidade de gestão
do território. Para a autora, a territorialidade, no rastro das
concepções de R. Sack e C. Raffestin, é a face vivida do poder, enquanto gestão do território "é a prática estratégica,
científico-tecnológica do poder no espaço-tempo". E, baseada em M. Foucault, a autora acrescenta que a gestão do
território integra elementos de administração de empresas
e elementos de governamentalidade. Em síntese, naquele
texto, a autora afirma que a gestão tende a se identificar
com a logística, no sentido de poderosa preparação de
meios e da velocidade de sua atuação, referente esta não
só à rapidez como à projeção para o futuro. Nesse sentido, o conceito de território se presta à construção teórica
desdobrada para a compreensão e formas de apropriação
política do espaço, ou seja, o uso político-estratégico do
mesmo.
Além dos conceitos expostos até aqui, cabe enfatizar o conceito de fronteira. Ainda que muito arraigado ao
tema clássico da guerra, em geografia política, a discussão do termo fronteira extrapola esse âmbito temático.
Para além da distinção entre fronteira e limite, podem ser
discutidos os tipos de fronteira e o seu caráter histórico-político. Na geografia política clássica, sob a influência do
organicismo, as fronteiras eram concebidas como o órgão
periférico estatal, como assinalou a obra de F. Ratzel. Uma

contribuição desse geógrafo alemão, quanto à construção
teórica do termo, foi a ressalva de que as fronteiras são móveis, pois uma fronteira aparentemente rígida seria apenas
a detenção temporária de um movimento. É bom ressaltar,
de qualquer modo, que as fronteiras "incorporam uma das
mais reconhecidas relações entre o Estado e o território",
segundo Costa (1992, p. 291).
No presente momento, em função das forças globalizadoras, retoma-se o debate acadêmico e público sobre as questões de fronteiras. Chega-se mesmo a cogitar
o fim das fronteiras. Quanto a esse último aspecto, Martin
(1992, p. 60) alerta que a própria "ideia da formação de `blocos de países' visando obter ganhos de escala parece por
si só contradizer a tese do `fim das fronteiras'. Ao contrário,
são novas fronteiras que estão surgindo, as `inter-blocos', e
acrescente-se, sem que as `nacionais' tenham deixado de
existir". Os temas clássicos do expansionismo, do universalismo versus particularismo, bem como do regionalismo
­ desta feita na escala supranacional ­ reaparecem com
força neste início do século XXI, a partir da problemática
das fronteiras e das demarcações territoriais que delas decorrem.
Segundo Lacoste (2003, p. 176) além de estarmos
atentos para a distinção ilusória entre fronteiras naturais e
artificiais, pois, diz o autor, todas as fronteiras são políticas,
devemos estar atentos também para o fato de que a análise metódica de uma fronteira deve levar em conta não

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Geografia política

apenas a separação entre um Estado e outro ou o tipo e
relevo no qual se apoia, mas sobretudo os diversos conjuntos espaciais que ela recorta. Ou seja, o autor insiste na
atenção que recai sobre a relação entre a análise de fronteiras e o jogo de escalas geográficas que se tem e empreender nessa análise.
A geografia política tem abordado sistematicamente a configuração territorial do mundo, constituindo, tal
abordagem, num tipo de vocação, qual seja uma análise
ao nível planetário. Alguns conceitos foram desenvolvidos ao longo da disciplina, sobretudo quanto às hipóteses
geoestratégicas sobre o poder mundial ­ tratadas em outro tópico deste Manual. Mas é relevante destacar que os
conceitos de centro e de periferia fazem parte desse léxico
político-geográfico.
Taylor e Flint (2002, p. 21) escrevem que o "conceito de `periferização' ou `processo que conduz à situação de
periferia' implica que estas zonas novas não se incorporaram à economia-mundo na qualidade de `sócios de pleno
direito', mas se incorporaram em condições desfavoráveis
com relação aos antigos membros". Os autores em tela advertem que uma zona geográfica, uma região ou um Estado se convertem em centrais ou periféricos dependendo
dos processos que neles ocorrem. E isso não é apenas um
argumento semântico.
Para os autores, os processos de centro e de periferia
são dois tipos opostos de relações complexas de produ-

ção. "Em termos simples, os processos de centro consistem
em relações que combinam salários relativamente altos,
tecnologia moderna e um tipo de produção diversificada;
enquanto os processos de periferia são uma combinação
de salários baixos, tecnologia mais rudimentar e um tipo
de produção simples" (idem, p. 22).
Da exposição conceitual anterior decorre a noção
de semiperiferia. De acordo com os autores citados acima,
constrói-se o conceito de semiperiferia como uma situação na qual se combinam, de forma particular, ambos os
processos de centro e de periferia. Inspirados nas teorizações de I. Wallerstein, Taylor e Flint (2000, p. 22) alegam que
a "semiperiferia é interessante, porque é a categoria dinâmica da economia-mundo".
Em que pesem aos estudos da geografia política
clássica, os quais instauraram, a partir do final do século
XIX, uma tradição interpretativa centralizada na figura do
Estado, constituiria um equívoco desconsiderar ou negar o
papel desempenhado, na atualidade, pelos Estados. O que
se percebe de fato é uma reafirmação de antigas funções
exercidas pelos Estados, bem como o abandono relativo
de outras, além da incorporação de novas, delineando
configurações da geografia política contemporânea.
Trata-se, dentre outros aspectos, de uma reestruturação do sistema interestatal, uma reacomodação dinâmica do sistema-mundo. E nesse sentido, os processos

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de globalização, em suas múltiplas dimensões e direções,
jogam um papel preponderante no tensionamento dos
Estados, ou seja, a relação formada entre globalização e
Estado exige uma análise rigorosa capaz de explicitar o arranjo político-geográfico dela resultante.
No que diz respeito à globalização atual, Tavares e
Fiori (1997, p. 7) afirmam que:

dimensão territorial desse processo globalizador em suas
variadas escalas geográficas e em suas implicações nos jogos de poder. Talvez por isso mesmo, sejam interessantes
as propostas interpretativas de autores como Peter Taylor,
Colin Flint e Eduardo Viola, quando, em seus respectivos
trabalhos, sistematizam as múltiplas dimensões da globalização, como sintetizado abaixo, enumerando-se características básicas para cada dimensão.

Não há dúvida de que a palavra "globalização" foi cunhada no campo próprio das ideologias transformando-se,
nesta última década, num lugar-comum de enorme
conotação positiva, apesar de sua visível imprecisão
conceitual. É provável, inclusive, que esta palavra passe
à história dos modismos sem jamais adquirir um verdadeiro estatuto teórico, mantendo-se como um conceito
inacabado. Mas também não há dúvida de que apesar
de tudo isso, poucas palavras possuem tamanha força
política neste final de século XX, o que já seria razão suficiente para submetê-la a um exame mais rigoroso e
crítico.

Segue, no início do século XXI, a força política da noção de globalização, assumindo facetas ainda mais complexas. Por esse motivo, alguns autores preferem falar em
processos de globalização, para ressaltar a complexidade
inerente à noção, enquanto outros propõem termos intercambiáveis ou complementares, tais como reglobalização, globalização, dentre outros (IANNI, 1996; ROBERTSON,
2000). Quanto à geografia política da globalização, o que
se depreende é a necessidade de uma avaliação crítica da

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Quadro 6.1 - Globalização Atual
Dimensões
Política

Características
Desregulação, redefinição do Estado, agenda
neoliberal

Militar

Armas nucleares, monitoramento por satélites

Econômico-produtiva

Empresas globais, serviços de conhecimento
intensivo

Financeira
De governabilidade
global
Comunicacional- cultural
Científico-tecnológica
Populacional- migratória
Ecológico-ambiental
Epidemiológica
Criminal-policial
Geográfica

Circulação eletrônica de moeda, mercados
globais
Fraqueza do direito internacional e do debate
público
Ocidentalização do mundo, efeitos
homogeneizadores
Cooperação entre instituições, transmissões
instantâneas
Pressões migratórias sobre fronteiras
Problemas ambientais globais movimento
ambientalista
Vulnerabilidade da espécie humana, pandemias
Novas máfias, fraca coordenação policial
Rede de cidades mundiais reordenação do
espaço

Fonte: Adaptado de Taylor e Flint (2000); Viola (1997).

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As dimensões da globalização referem-se a contextos, o que permite se considerar, inclusive, como um sistema de contextos, transversalizados entre si, mantendo, em
comum uma referência à escala planetária. Para a geografia
política, a preocupação analítica com a escala global não
constitui, exatamente, uma novidade. Porém, a densidade e a intensidade dos processos sociopolíticos parecem,
isto sim, representar um desafio intelectual. Autores como
Hirst e Thompson (1998, p. 13) questionam se a globalização não seria um "mito necessário", argumentando que a
noção tornou-se um termo:

político-geográficas de soberania, hegemonia, fronteiras e
limites, dentre outras, como movimentos antissistêmicos,
contra-hegemônicos, nacionalistas e regionalistas em revista. Um dos supostos para o interesse nesses movimentos
atesta-se, por exemplo, com a preocupação no papel da
África ­ como no trabalho de Hugon (2009) ­ e mesmo no
papel dos Brics, como no trabalho de Hurrell et al. (2009).
O sistema-mundo moderno, pelo menos em parte
do globo, desde o século XVI pode ser considerado em
termos de uma economia-mundo capitalista. Os Estados
soberanos funcionam dentro de um sistema interestados,
com peculiaridades, mas relacionados àquela economia-mundo.
Nesse sentido, Wallerstein (2003, p. 93) destaca que
a "soberania, tal como tem sido definida desde o século
XVI, não é uma asserção sobre o Estado, mas sobre o sistema inter-Estados. Trata-se de uma asserção dupla, que olha
tanto para o interior como para o exterior". Segundo esse
autor, olhando "para fora", a soberania do Estado é o argumento de que nenhum outro Estado no sistema-mundo
tem o direito de exercer qualquer autoridade, direta ou indiretamente, no interior das fronteiras de um Estado dado,
pois isso representaria quebra de soberania. Esse argumento coloca em debate o significado e a funcionalidade política das fronteiras nacionais. O mesmo argumento
encerra a questão sobre o que legitima o Estado no seio da

em moda nas ciências sociais, uma máxima central nas
prescrições de gurus da administração, um slogan para
jornalistas e políticos de qualquer linha. Costuma-se
dizer que estamos em uma era em que a maior parte
da vida social é determinada por processos globais, que
culturas, economias e fronteiras nacionais estão se dissolvendo (...) Essa imagem é tão poderosa que magnetizou analistas e conquistou imaginações políticas. Mas
isto acontece?

A imagem bastante difundida de que as fronteiras nacionais estariam se dissolvendo atinge diretamente a geografia política, de forma mais precisa no temário
que envolve o Estado. Assim, ao se colocar em discussão
a pertinência do Estado no mundo atual ­ e até mesmo
quando se questiona o fim do Estado, como propôs K. Ohmae (1996) ­ colocavam-se em pauta, também, as noções

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economia-mundo, bem como acerca dos recursos políticos empregados para se alcançar essa legitimidade internacional. Em síntese, Wallerstein (2002, p. 108) afirma que
a "soberania dos Estados ­ sua soberania interna e externa
no seio da estrutura do sistema interestados ­ é um pilar
fundamental da economia ­ mundo capitalista".
Em outro momento, Wallerstein (2005, p. 13) sublinha que a "história da emergência da análise de sistemas-mundo está imbricada na história do sistema-mundo moderno e as estruturas de saber que se desenvolveram como
parte desse sistema". A geografia política faz parte dessas
estruturas de saber contribuindo com aportes teóricos e
aplicados à dinâmica do sistema-mundo moderno. Um
exemplo desses aportes é a discussão sobre a tensão formada entre fronteira e limites. Uma das contribuições acerca dessa tensão encontra-se no trabalho de Becker (1999,
p. 9), ao afirmar que esses dois conceitos foram enriquecidos, assumindo novas conotações. Fronteira é uma noção
que representa "indiferenciação, transgressão e conflitos.
O limite, pelo contrário, significa diferenciação, contenção
e consenso pelo reconhecimento do outro e, portanto, da
própria identidade expressa, inclusive, por movimentos de
autonomia e resistência".
Ainda sobre a tensão fronteira-limite, outro geógrafo, Hissa (2006, p. 34), argumenta que a "fronteira coloca-se
à frente (front) como se ousasse representar o começo de
tudo onde exatamente parece terminar; o limite, de outra

parte, parece significar o fim do que estabelece a coesão
do território (...). O limite estimula a ideia sobre a distância
e a separação, enquanto a fronteira movimenta a reflexão
sobre o contato e a integração" no contexto atual regido
por processo de globalização, as conexões que alimentam
integração e unificação, os contatos que formam alianças e
fusões parecem exigir uma atenção redobrada com respeito à problemática das fronteiras nacionais e dos territórios
por elas definidos.
No esteio da relação da globalização com o sistema
interestatal mundial, deve-se prestar atenção à questão
da hegemonia, ao nível planetário. Hegemonia que representa, antes de mais nada, supremacia, comando. Deve-se
atentar para movimentos hegemônicos e para os contra-hegemônicos. O mundo contemporâneo é marcado por
globalismos e localismos. Alguns Estados se empenham
em manter (ou lutar por) posições destacadas no sistema
interestados, num incessante movimento de reestruturação. A condição de potência mundial ou regional parece
ser decisiva para a força hegemônica de certos Estados,
como os Estados Unidos, o Japão, a Alemanha e a China,
para citar alguns.
É válido reconhecer o peso de contribuição que articulam as noções de globalização, hegemonia e império,
como o fazem Hardt e Negri (2001), Ceceña (2005), as que
reavaliam a reestruturação mundial a partir do comporta-

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mento do Estado norte-americano, como no trabalho de
Krugman (2006) e aquelas contribuições que enfocam resistências mundiais, movimentos antissistêmicos e tratam
até de globalização hegemônica e contra-hegemônica,
além de globalização de alta e de baixa intensidade, conforme Seoane e Taddei (2001) e Sousa Santos (2005).
No conjunto daquilo que se poderia denominar desafios da globalização inclui-se, seguramente, uma análise político-geográfica dos Estados em sua relação com o
sistema-mundo. Amin (2006, p. 105) chega a admitir que
um dos elementos novos do atual sistema mundial é a
"erosão do Estado nacional autocentrado e o desaparecimento que ele acarreta da concomitância entre o espaço
de reprodução da acumulação e o de sua gestão política e social, que até aqui foi definida precisamente pelas
fronteiras desse Estado nacional autocentrado". E, mesmo
dentre aqueles que enfatizam a dimensão econômica da
globalização, como Corsi (1997, p. 107), o papel do Estado é avaliado como ainda relevante, pois "o Estado tende a
perder uma de suas principais prerrogativas, o controle das
políticas econômicas e do espaço econômico nacional,
que a rigor tende a se dissolver em uma economia mais
ampla. Contudo, continua tendo uma atuação importante
na criação de `vantagens comparativas' como parceiro de
grandes empresas, na regulação dos mercados, nas políticas anticíclicas e na sustentação do mercado financeiro".
Em que se sobressaia a necessidade de relativização das

ideias que apregoam o fim do Estado face à globalização,
em suas múltiplas dimensões, nunca é demais lembrar
que antes de o processo de globalização ocupar um lugar de destaque na agenda intelectual do momento, já
se cogitava o efetivo desaparecimento da figura do Estado, bastando citar o livro escrito em 1973 por L. R. Brown,
intitulado World Without Borders (Mundo sem fronteiras),
editado em Nova York pela Vintage. O Estado em questão
sugere um tema extremamente importante para a análise
político-geográfica pelo exposto anteriormente. Pensar a
geografia-política da globalização é refletir, sobretudo, sobre o poder inteligente, incluindo nesse parâmetro a ação
dos Estados, como bem o explica Nye Jr. (2012).

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6.3 Formação territorial do Brasil

incerteza que domina no grande debate contemporâneo
quanto ao poder do Estado sob o impacto da globalização, torna-se importante analisar as relações espaço-poder
num patamar mais elevado, do governo do território.
A análise da configuração política do espaço brasileiro na atualidade está intrinsecamente comprometida
com uma visão ao mesmo tempo abrangente e articulada
dos processos e circunstâncias que moldaram o poder e a
ação do Estado no território nacional. Tal visão não comporta uma compreensão reducionista do poder, nem do
Estado, e muito menos do território. Ao contrário, ela implica a necessidade de se buscar novos ângulos de entendimento de uma realidade territorial que apresenta, hoje em
dia, enorme capacidade de se transformar acompanhando
as inúmeras transições pelas quais passa o poder político
na contemporaneidade.
Se, por um lado, ocorrem mudanças profundas no
interior do Estado, ou melhor, nas relações estabelecidas
entre suas esferas administrativas e entre estas e a sociedade civil, enfatizando sua função mediadora mais do que a
de detentor único do poder; por outro lado, os Estados-nação passam, externamente, a transitar de entidades fundamentalmente separadas, retendo o controle administrativo de seu território, para o fortalecimento de padrões de
interdependência entre eles. As transformações operadas
no processo conjugado de transmissão de informação e
globalização dos circuitos financeiro-econômicos, assim
como aquelas decorrentes da força política alcançada pelo

A geopolítica foi um fundamento constante da formação do Brasil desde o início da colonização. Entendida
como política do território, envolve relações de poder com
o espaço geográfico. Em sua origem no final do século XIX,
foi concebida como a política geográfica dos Estados Nacionais, que se consolidavam então em bases expansionistas. Se, a partir dos anos 1970 do século XX, torna-se patente a eclosão de geopolíticas de múltiplos atores que não
apenas a dos Estados nacionais, percebe-se, também, que
a geopolítica é parte de um processo histórico mais amplo
das relações entre poder e espaço geográfico, qual seja, o
governo do território.
Como magistralmente analisado por Michel Foucault, o governo do território como conjugação do verbo
governar, seja como arte ou como saber, refere-se às relações entre poder e território desde a antiguidade, suas
formas variando através da História. E como o poder não
é uma "coisa", mas, antes de mais nada, constitui-se nas relações sociais, não é possível definir "o que é o poder"; é
apenas possível captar suas manifestações em estratégias
e mecanismos, que igualmente variam com as formas históricas de governar.
Tendo em vista a importância da Geopolítica do
Estado na formação social e territorial do Brasil e do planejamento territorial por ela induzido, e tendo em vista a

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movimento em defesa da conservação de uma natureza
compartilhada em escala planetária, acabam se rebatendo,
de diferentes modos, no equilíbrio federativo e no modelo
de desenvolvimento de diversas nações.
Todas essas transformações implicam não só na reespecialização produtiva e rearticulação das economias
regionais com o exterior, como na criação, no interior de
algumas nações de dimensão continental, como o Brasil,
de grandes áreas destinadas à preservação do meio ambiente, repercutindo, no plano econômico, na redução do
espaço de regulação macroeconômica dos governos nacionais e, no plano político, na alteração da distribuição do
poder e das fronteiras intranacionais, enfim no governo do
território.
A configuração atual do mapa político brasileiro revela, antes de tudo, formas diferenciadas de dividir o território e, portanto, de repartir o poder no espaço. Ela não
resulta, pois, de um só processo, diretamente relacionado
com a divisão federativa do Estado brasileiro, mas de uma
combinação complexa de processos agindo, muitas vezes,
de modo contraditório.
A modelagem territorial do Brasil contemporâneo
vai muito além das referências históricas que moldaram o
nascimento de uma federação constituída a partir de um
Estado centralizado, conforme analisado a seguir, passando, a admitir maiores influências e a refletir interesses de
forças externas.

Segundo Dória (1953), o Brasil não nasceu com a
federação e nem seus membros federados constituíam Estados autônomos que abdicaram de sua soberania pactuando a federação, como no caso clássico da nação norte-americana.
Ao contrário, o governo central no Brasil preexistia
à federação e esta foi por ele, em grande parte, construída
dentro de uma tensão constante que contrapunha forças
políticas legitimadoras da centralização e da descentralização do poder. Com efeito, ao longo da história política do
Brasil, poucas questões suscitaram tanto debate quanto
aquelas relacionadas com a organização do poder do Estado referentes à centralização e descentralização política e
administrativa, às quais se articula o tema da configuração
e, mais recentemente, da gestão do território nacional.
Partindo de objetivos e estratégias diferenciadas de
organização do Estado frente aos desafios concretos com
os quais se defrontava a elite política do país, temas como
os da manutenção da unidade territorial, da acomodação
da diversidade regional e do desenvolvimento nacional
(FERREIRA, 1999) estiveram, de alguma forma, presentes na
agenda política do Brasil desde sua constituição enquanto nação independente, gerando formas diferenciadas de
delimitar fronteiras, dividir poderes e demarcar a ação do
Estado no espaço político intranacional.
Se o passado colonial legou ao Brasil uma burocracia
marcada por um projeto centralizado de poder, enquanto
processo decisório, ele também legou formas de ação ter-

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ritoriais descentralizadas enquanto estratégia operacional
capaz de manter e controlar a unidade de um imenso espaço colonial cuja posse pressupunha, antes de tudo, seu
uso direto através da conquista efetiva.
Com efeito, faltava ao Brasil um centro comum, seu
território colonial constituía "um círculo imenso cujos raios
convergiam muito longe da circunferência" (CARVALHO
apud FERREIRA, 1999).
Cabe observar que a própria ruptura do sistema colonial não ocorreu simultaneamente em todo o território.
Ao contrário, o reconhecimento da mudança do poder, advindo com a Independência, levou cerca de um ano para
se concretizar no Norte, confirmando o sentido autônomo
que tomara a administração dessa região que pouco se
achava ligada ao resto do País, não somente pela enorme
distância física que a separava, como, fundamentalmente,
pela condução do pacto político-administrativo firmado,
preferentemente, com a metrópole portuguesa.
Se a colonização foi, assim, obra do Estado português, a experiência colonial, contudo, legou uma sociedade e um território marcados pela descentralização, traduzida, entre outros, no caráter autônomo que caracterizava
a vida política local. Com efeito, segundo Faoro (1991) as
vilas, com sua autonomia tolerada e mediada pelo Estado
português, representaram os primeiros municípios cuja
autonomia era incentivada fundamentalmente para agilizar a arrecadação de rendas e tributos.

Uma vez, contudo, inviabilizada a união com Portugal, a independência colocou as classes dirigentes do
País frente ao desafio de construir o Estado brasileiro o que
pressupunha a manutenção de sua unidade territorial recorrentemente ameaçada, no período regencial, pelas rebeliões provinciais que, por vezes, colocaram em pauta a
questão da fragmentação e dissolução desta unidade.
O processo de centralização marcou o Segundo Reinado, que se firmou, em termos políticos, na afirmação do
poder moderador encarnado na figura do Imperador e, em
termos administrativos, na substituição do princípio eletivo
no sistema judiciário e policial pelo princípio hierárquico,
inibindo a autonomia provincial conquistada no período
regencial. Do ponto de vista territorial, tal processo apoiou-se na emergência da economia do café, consolidando um
núcleo irradiador de poder no País.
A centralização política verificada na capital do Império nos anos 30 do século XIX corresponderia, assim, a
uma fase da organização territorial brasileira marcada pela
coincidência espacial entre poder econômico e poder político. Tal centralização acabou por possibilitar a manutenção da unidade territorial por meio de alianças e pactos
mais do que, necessariamente, como uma ordem imposta
de cima para baixo.
Com efeito, a relação entre o poder central e o poder
local no sistema político imperial é antes marcada pelo papel de articulação do que de destruição política dos poten-

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tados rurais e de seus caciques políticos na construção do
Estado centralizado e na sustentação da monarquia. Nesse
sentido, mais uma vez a enorme dimensão territorial do
país parece impor a necessidade concreta de o poder central estabelecer alguma forma de compromisso em rede
com as distantes e heterogêneas bases rurais, onde os senhores territoriais legitimam seu poder político em nível
local.
O imediato aproveitamento das províncias imperiais
em estados federados deixa entrever, em termos geopolíticos, que a passagem da ordem imperial para a República
e o federalismo não chegariam a ser, de imediato, portadores de forças transformadoras na organização territorial da
nação. A alegação de "tradições históricas" justificadoras da
manutenção dos recortes territoriais preexistentes deixou
de fora qualquer tentativa no sentido de diminuir as desigualdades entre as unidades federadas por meio de uma
distribuição territorial mais equitativa entre elas (BONFIM,
1996).
Nesse sentido, vale lembrar que, ainda no período
colonial, as capitanias (maiores unidades político-administrativas da época), já se dividiam em principais e subalternas, consagrando, institucionalmente, a sujeição e a dependência de umas sobre as outras.
Desde o Império e ainda mais no período republicano, os conflitos em torno da divisão da renda tributária passariam a opor, por um lado, as unidades político-adminis-

trativas economicamente mais fortes, que concorriam para
assegurar a existência do poder central, o qual controlava
e pretendia dominar não só pela ascendência econômica
como, principalmente, política e, por outro lado, as unidades mais fracas que, incapazes de subjugar o governo central, almejavam, na partilha das rendas, torná-lo financeiramente dependente das esferas políticas regionais.
Será ainda em torno da divisão tributária que irá se
desdobrar, contemporaneamente, a questão federativa e
de descentralização do poder político no país que está na
raiz do processo acelerado de transformação do mapa político a partir da Constituição Federal de 1988.
Com efeito, o avanço alcançado, por vias constitucionais, no processo de descentralização político-administrativa do Estado, além de reestruturar o pacto federativo
por meio da redistribuição dos recursos tributários e da
consolidação da autonomia municipal, fez retomar aos estados o controle sobre a criação de municípios. Promovia-se, assim, uma dupla distensão afetando tanto a legislação
referente à divisão dos recursos tributários entre os membros da federação, quanto aquela concernente à criação
de novos municípios.
A existência de outros fatores explicativos do processo emancipatório, como a carência de recursos básicos
e a garantia dada pela Constituição Federal às despesas
iniciais com a instalação dos novos municípios, deixa evidenciado que a discussão em torno de tal processo não é

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simples, desdobrando-se em uma diversidade de elementos que vão além da sua mera vinculação à liberalidade da
legislação.
Ao superar, contudo, o entendimento da instância
municipal como mero posto avançado da administração
estadual, para a de ente político verdadeiramente autônomo da Federação, a última Carta Constitucional caminhou,
de alguma forma, no sentido do avanço na organização
institucional do Estado, notadamente em uma sociedade
marcada por desigualdades sociais e regionais expressas
em acentuados e diversificados conflitos de interesse.
A análise das forças que dividem o espaço político
nacional não se esgota, no entanto, na discussão da tensão
centralização-descentralização continuamente renovada
nas adaptações do pacto federativo e nas articulações políticas daí resultantes.
A necessidade de um conhecimento aprofundado
do território nacional, a partir dos anos 40, visando inicialmente à modernização e à integração do espaço brasileiro
e, posteriormente, ao próprio desenvolvimento do planejamento na esfera pública passa a demandar a elaboração
de divisões regionais do país. Tais divisões, pautadas na malha político-administrativa, constituem, por sua vez, outras
formas de configurar politicamente o território nacional no
sentido de servirem de referência tanto à ação do governo
para alocação de recursos e implementação de projetos,

como, mais recentemente, à conjugação de interesses comuns por parte de municípios vizinhos.
Pautadas nas características do meio físico como
elemento diferenciador do quadro regional brasileiro, as
Zonas Fisiográficas, delimitadas pelo IBGE, inicialmente, na
década de 40, representaram não só um período no qual se
tornava necessário o aprofundamento do conhecimento
do território nacional, como, conceitualmente, marcam o
predomínio da noção de "região natural" na compreensão
do espaço geográfico, em um momento em que a questão regional ainda se confundia, em grande parte, com as
diferenças existentes no quadro natural. A divisão do Brasil em Microrregiões Homogêneas (1968) e Microrregiões
Geográficas (1990) introduzem critérios diversificados, reveladores da importância crescente da articulação econômica e da estrutura urbana na compreensão do processo
de organização do espaço brasileiro. As divisões regionais
variaram, assim, com a própria concepção que se tinha de
região e de sua mudança ao lado do processo contínuo
de reestruturação do território brasileiro acompanhando
o aprofundamento das forças capitalistas e a expansão de
suas redes de articulação física, técnica e política sobre o
território.
O atual ciclo de expansão financeiro, econômico e
tecnológico do capitalismo mundial, ao significar uma ruptura com o padrão de desenvolvimento que se realizava

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Geografia política

predominantemente sob o controle estatal e dentro dos
limites territoriais dos Estados nacionais, irá, certamente,
alterar os atributos definidores da divisão regional do território brasileiro.
Nesse contexto, reintroduz-se, sob um novo ângulo,
a questão da base natural, dada a importância geopolítica
assumida pela natureza em si enquanto capital de realização futura (BECKER, 1995a), centrando o foco da discussão
na distribuição territorial do poder, uma das questões mais
importantes da política contemporânea tanto em termos
práticos como teóricos. Com efeito, a revalorização da natureza, advinda com a expressão política alcançada pela causa ambientalista no mundo contemporâneo talvez esteja
colocando em novos termos e de forma direta a percepção
do meio natural como elemento fundamental na diferenciação do espaço político, concorrendo com as formas tradicionais que presidem a divisão político-administrativa do
território nacional, notadamente na Amazônia.
Na análise do mapa político do Brasil contemporâneo contrapõe-se, assim, em grandes extensões do território amazônico, a lógica da divisão política do espaço associada à repartição de competências e encargos derivados
da ordenação federativa, a uma outra (e nova) lógica de
divisão territorial, de viés não necessariamente utilitarista,
pautada numa apreciação do valor intrínseco e, portanto, não instrumental, da natureza e de formas culturais a
serem preservadas. Em outras palavras, pode-se afirmar

que a configuração atual do mapa político nacional revela
formas diferenciadas de dividir o território e, portanto, de
repartir o poder no espaço, formas essas articuladas não
só pela divisão interna do poder derivada do sistema federativo, como pela lógica ambiental, apoiada, em grande
parte, por forças políticas externas legitimadoras da criação
de "espaços institucionalizados" voltados, especificamente,
à conservação do meio ambiente e da cultura indígena.
Essas duas vertentes de divisão política do território nacional traduzem, por seu turno, origens diversas de
desconcentração espacial do poder: a emancipação municipal, derivada de um processo de fragmentação territorial estruturado a partir de forças endógenas da ordenação
federativa e do próprio processo de aprofundamento da
democracia no país e as Terras Indígenas e Unidades de
Conservação revelando a manifestação concreta de um
projeto de descentralização articulado, em grande parte,
em nível global.
É, portanto, em relação ao controle e ao uso dos
recursos naturais, forma primeira de manifestação do poder sobre o território e referência obrigatória na discussão
acerca da divisão política deste último, que se abre outro
ângulo de entendimento do mapa político do Brasil na
atualidade, introduzindo desajustes na organização institucional do Estado brasileiro frente à administração de um
espaço político agora compartilhado por novos e múltiplos atores nacionais e internacionais.

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Geografia

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Esse entendimento passa, enfim, pela questão mais
profunda posta, nos dias atuais, a respeito da efetiva capacidade que tem o Estado de controlar e/ou influenciar
o destino da sociedade e do território, isto é, pelas formas
de que dispõe de manifestar o seu poder, mesmo sendo
esse controle e, portanto, o próprio poder, cada vez mais
pactuado com a sociedade em geral, não só nacional,
como internacional, notadamente no que se refere ao
somatório das práticas e interesses sociais sobre o meio
ambiente.

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7. Geografia e Gestão Ambiental

7.1

O meio ambiente nas Relações Internacionais: avanços conceituais e institucionais

Tema de pouca relevância no contexto nacional e internacional até meados do século
XX, a questão ambiental vem desde então e, principalmente, a partir dos anos 1960, adquirindo
crescente importância nas relações internacionais.
Embora a valorização da natureza tenha se manifestado com alguma intensidade no
próprio movimento naturalista inglês do século XVIII, quando se refletiu, de modo expressivo,
não só no campo das artes, como em algumas iniciativas pioneiras de proteção à vida selvagem e do conservacionismo do século XIX, nessa ocasião partia-se basicamente de movimentos e iniciativas isoladas.
Nesse sentido, não é por acaso que tais movimentos se originassem em grande parte no
centro de um império colonial e da Revolução Industrial, como a Inglaterra. País que começava
a enfrentar em seu próprio território a excessiva fumaça das novas fábricas, a transformação das
paisagens naturais tradicionais e o aparecimento de novas doenças (MACNAGHTEN & URRY,
1998, apud FLORIT, 2004).
Cabe observar que as iniciativas conservacionistas do século XIX, tais como a criação
do Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos em 1872, de enorme importância na
história do movimento ambientalista devido ao status legal e de gestão ainda inéditos naquela
época, apesar de exercer grande influência na difusão de áreas protegidas em algumas partes
do mundo, e, especialmente, na América Latina (Parque Nacional da Tijuca, no Brasil) e Caribe,
na segunda metade do século XIX, não chegou, contudo, a ser questão relevante da diplomacia naquele período.
Na atualidade, entretanto, a mudança de postura em direção ao ambientalismo contemporâneo deve-se, em grande parte, à constatação empírica da ameaça eminente de esgotamento e/ou deterioração dos recursos naturais em escala planetária em face de um processo

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Geografia

civilizatório pautado no uso indiscriminado desses recursos40, o que coloca em risco não só a continuidade desse
processo e da forma de desenvolvimento e de consumo a
ele associado como, mais adiante, a própria sobrevivência
do homem no planeta.
Ao lado dessa constatação empírica ocorreram, ao
longo das últimas décadas, significativos avanços tanto
nos planos conceitual quanto institucional no que se refere ao entendimento e aos pactos mundiais que devem ser
feitos em torno da preservação do planeta e da sociobiodiversidade que ele abriga.
Um marco na história recente dos avanços conceituais alcançados pelo ambientalismo contemporâneo remete ao consenso obtido, no século XX, em torno de conceitos centrais, tais como o de:
· esgotamento dos recursos naturais do planeta ­
décadas de 1960 e 197041;

40 Com efeito, a modernidade inaugurada no século XVIII considerava o âmago
do impulso humano como uma vocação por conhecer e dominar os objetos
não humanos e, portanto, a natureza, supondo uma concepção civilizatória
onde o progresso deve ser medido e avaliado em termos da dominação
humana da natureza (FLORIT, 2004).
41 Os limites do crescimento e o Relatório do Clube de Roma constituíram
dois documentos fundamentais elaborados por um grupo de especialistas
alertando para a ameaça concreta que representava a continuação da
exploração dos recursos e da industrialização em ritmo acelerado, para o
esgotamento das fontes de riqueza naturais do planeta.

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170

· desenvolvimento sustentável ­ final da década
de 1980.
Colocando em xeque a ideia do progresso ilimitado
difundido pelo industrialismo moderno, baseada na aplicação do conhecimento científico para dominar e transformar a natureza, a questão do limite e da racionalidade
no uso dos recursos naturais pela sociedade revalorizou o
campo conceitual da geografia e, em especial da geografia política, ao trazer as relações sociedade-natureza para o
centro das discussões políticas acerca da apropriação e uso
futuro do planeta no final desse século.
A discussão acerca da solução para a questão do esgotamento dos recursos e a poluição pela adoção de uma
política mundial de controle de crescimento denominada
"Crescimento Zero", foi imediatamente contestada por ser
extremamente simplista ao considerar o mundo como homogêneo quanto ao consumo de energia e de recursos, o
que condenaria os países pobres a um estado permanente
de subdesenvolvimento, refreando seu crescimento com o
pretexto de preservar o planeta.
Assim, se a questão ambiental delineada neste final
de milênio revaloriza o próprio campo disciplinar da Geografia ao resgatar sua essência integradora frente à relação
sociedade-natureza, o desenvolvimento sustentável visto
enquanto instrumento político de regulação do uso do

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Geografia e Gestão Ambiental

território (onde ocorre, portanto, tal relação) joga o debate
no âmbito da geografia política.
Nesse contexto, não só se amplia o campo de discussão do conceito em construção e ainda com forte margem de questionamento e imprecisão42, como se introduz uma nova distensão no próprio objeto da geografia
política. Esta última, caminha no sentido da abertura de
seu leque de indagações e análise, contemplando agora,
também, as formas de distribuição do poder em relação à
apropriação e uso dos recursos naturais no espaço nacional e regional, assim como os modos de repartição desse
poder no interior do complexo aparato administrativo e
institucional do Estado moderno e mais amplamente, no
interior da sociedade.
O grande desafio geopolítico embutido na proposta
ambiental e veiculado em um ambiente de franca globalização das comunicações e da economia em geral constitui, contudo, nas mudanças ocorridas no relacionamento
entre os Estados-nação que passam externamente a transitar de entidades fundamentalmente separadas, detendo
o controle administrativo dentro de suas fronteiras, para o
fortalecimento de padrões de interdependência entre eles.

Se, internamente, o Estado não é mais aquele de
Ratzel, detentor único do poder, externamente ele passa,
também, a compartilhar dos desafios e incertezas comuns
resultantes da exploração conjunta dos recursos naturais
do planeta (da nave-mãe), julgados até há pouco tempo
inesgotáveis, por um projeto industrializante pautado em
uma economia de fronteira, que tinha seu desenvolvimento cumulativo realizado à custa da exploração progressiva
dos recursos naturais.
Dentro desse quadro é que se discutem, contemporaneamente, as novas formas de contrato entre os homens e entre eles e a natureza, mediadoras, a seu turno,
de novos pactos de poder, intranacionais e internacionais,
que se materializam na renovação da prática política e da
gestão territorial geopolítica, agora vistas em um contexto
multidimensional.
Em outras palavras, práticas que são atualmente
analisadas dentro de um ambiente que tenta substituir,
ou ao menos compatibilizar, os interesses de curto prazo
voltados para a valorização econômico-financeira imediata
com o compromisso de longo prazo, que envolve o respeito não só às necessidades e interesse dos atores sociais
presentes ou representantes nas decisões tomadas quanto
à alocação e uso dos recursos, como, também, das gerações futuras ainda não representadas no jogo político em
curso para com as quais, porém, tem-se o compromisso
ético de garantir um futuro minimamente "sustentável".

42 Consagrado, ao final de 1987, pelo relatório Brundtland (Our Common
Future), das Nações Unidas, o conceito de desenvolvimento sustentável é
visto ali como um processo de mudança onde a exploração de recursos,
a orientação dos investimentos, os rumos do desenvolvimento ecológico
e a mudança institucional se harmonizam e estão de acordo com as
necessidades das gerações presentes e futuras.

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Geografia

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Este parece ser o caminho aberto para a ampliação
do significado do termo sustentabilidade, esvaziado de
seu sentido inicial estritamente econômico, e aprofundado
no campo político, diplomático, social e cultural de forma
mais ampla, conforme sua elaboração em Nosso Futuro
Comum.
O Relatório Brundtland amplia o debate em torno
do desenvolvimento sustentável, ao enfocar a responsabilidade dos problemas ambientais e a vontade política para
enfrentá-los nas mãos das instituições e interesses ­ nacionais e internacionais ­ estabelecidos entre os homens
à medida que contextualiza esse conceito dentro de um
objetivo uma abordagem metodológica e uma finalidade
normativa igualmente importantes.
É nesse contexto que se insere o debate conceitual
na atualidade, tendo em conta que a relação entre o desenvolvimento sustentável e a geografia política, longe de
suscitar questões triviais e acabadas, reflete, antes de tudo,
as inquietações e incertezas que rondam a vida na Terra na
década inicial do século XXI.
Com efeito, se o território nacional enquanto limite de validade espacial do direito do Estado sempre teve
um papel importante na história do espaço político (LEVY,
1991), ele torna-se, contudo, cada vez menos adequado
como recorte espacial de compreensão da complexidade
e dos dilemas colocados pela globalização contemporânea. E a preocupação ecológica talvez seja aquela que mais

tenha contribuído para abalar a ideia de soberania, um dos
pilares de criação do Estado moderno, juntamente com o
território e o povo, ao reivindicar a necessidade de uma
ação global em defesa de Gaia, domicílio comum de toda
a humanidade, que começa a dar sinais de esgotamento e
que cabe preservar para usufruto das gerações presentes
e futuras.
Nesse sentido, a relação entre as fronteiras torna-se
cada vez mais complexa na medida em que o espaço se
rearticula em face das transformações estruturais em curso
no mundo, colocando em questão uma maior permeabilidade no que se refere à soberania do Estado, notadamente
frente às demandas contemporâneas postas, entre outras,
pela diversidade cultural e ambiental.
Na defesa conjunta do meio ambiente deve-se observar, contudo, que coexistem poderosos interesses e forças políticas e econômicas em questão, que se valem de
algum modo do discurso ecológico para reafirmar-se no
mundo contemporâneo, onde os antigos antagonismos
Leste-Oeste parecem ultrapassados pelo confronto Norte-Sul e os conflitos político-ideológicos perdem espaço para
os interesses explicitamente econômicos, assim como para
as diferenças culturais.
Até mesmo reivindicações geopolíticas há muito
ditas como superadas, como a do expansionismo territorial, consagrada na conceituação do espaço vital, são, de
algum modo, atualizadas pelas teses neomalthusianas,
abrigadas em muitos discursos ambientalistas a favor do

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Geografia e Gestão Ambiental

controle de natalidade, apontado como solução para a redução da "pressão antrópica" sobre os frágeis ecossistemas
presentes no Terceiro Mundo.
Na visão de Becker (1995), a diminuição ou o controle do número de habitantes nos países periféricos constituiria a contrapartida contemporânea ao expansionismo
territorial já ultrapassado, não se levando em consideração
o fato de ser o acesso aos recursos, mais do que o próprio
quantitativo populacional, o que contextualiza a problemática ambiental nas economias emergentes e nos países
pobres. Segundo Redclift (1989), quanto mais se analisam
os conflitos acerca da distribuição e da gestão dos recursos
nos países em desenvolvimento, mais atenção é preciso
em relação aos mecanismos políticos e sociais através dos
quais os interesses sobre o meio ambiente são canalizados
e expressos.
Nesse sentido é que se afirma ser o desenvolvimento sustentável não somente uma questão ecológica ou
econômica estrito senso, mas um conceito fundamentalmente político à medida que para sua efetivação concorram pressupostos básicos relativos à alocação de recursos
ao poder ou ao seu controle, à mediação de conflitos e,
não menos importante, à elaboração da agenda política
de encaminhamento de soluções e é nesse jogo que os
interesses de toda ordem se chocam, ao mesmo tempo
em que coalizões inesperadas se efetivam.
Assim, se alguns pontos parecem sensibilizar mais
diretamente a maioria dos Estados, dada a eventual amea-

ça que representariam à saúde do Planeta, como o da diminuição da camada de ozônio e o da emissão de poluentes provocando o "efeito estufa", outras questões mais polêmicas estão à espera de uma eventual solução tecnológica
ou são relegadas a um segundo plano.
Esse parece ser o sentido da crítica feita, entre outros, por Capra (1982) e Dupuy (1990), atacando o racionalismo científico do mundo ocidental e o projeto técnico
por ele alimentado, que acabou difundido por toda a humanidade, e que atualmente conduz a uma situação paradoxal, uma vez que o padrão de consumo de grande parte
da população dos países ricos e da elite dos demais países,
não poderia se estender a toda a humanidade, sob a pena
de comprometer, de vez, os recursos naturais do planeta.
As formações políticas e as instâncias executivas
parecem incapazes de apreender essa problemática no
conjunto de suas implicações. Apesar de estarem começando a tomar uma consciência parcial dos perigos mais
evidentes que ameaçam o meio ambiente natural, elas geralmente se contentam em abordar o campo dos danos
industriais e, ainda assim, unicamente numa perspectiva
tecnocrática, ao passo que só uma articulação ético-política, envolvendo o meio ambiente, as relações sociais e a
subjetividade humana, é que poderia esclarecer suficientemente esta questão, como sugere Guattari (1989).
Na opinião deste autor, não haverá verdadeira resposta à crise ecológica a não ser em escala planetária e
com a condição de que se opere uma autêntica revolução

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Geografia

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política, social e cultural, reorientando os objetivos da produção de bens materiais e imateriais.
Com efeito, há sinais evidentes de que a evolução
tecnológica em curso está sendo capaz de promover alterações profundas no processo produtivo particularmente
no que diz respeito às relações entre o patrimônio natural
e a atividade industrial, conseguindo uma crescente eficácia nos métodos de manipulação e transformação dos
recursos naturais, aí incluído o uso da energia, contribuindo para a obtenção de níveis crescentes de produtividade
do sistema como um todo. Alimentado por um promissor
mercado verde, as tecnologias já disponíveis em muitos setores industriais têm permitido a generalização da prática
da reciclagem de inúmeros materiais e do aproveitamento
de resíduos e descartes de todo tipo.
Para Costa (1995), tais processos têm contribuído
para a obtenção de índices cada vez menores de desperdício e poluição, economizando matérias-primas, energia
e, portanto, os recursos naturais em geral, aumentando
a produtividade por unidade de capital investido no empreendimento e a competitividade dos produtos no mercado externo.
De certo modo, a proteção ambiental está se tornando uma das principais áreas de investimentos para um
sistema em busca de alternativas de reciclagem e que não
perde oportunidades capazes de combinar os interesses
econômico-financeiros com uma ideologia vendável em
um sistema competitivo de escala planetária.

Do ponto de vista da reprodução do sistema capitalista, nos dias atuais, parece indiscutível que o dinamismo
do mercado verde se constitui num dos principais pontos
de apoio para a sustentação da acumulação, assim como
alimenta um novo período na geopolítica mundial via exigências e restrições impostas ao comércio internacional,
que, ainda no curto prazo, poderá se constituir em um poderoso fator de discriminação das exportações dos países
mais pobres.
Nessa perspectiva, a exigência do "selo verde", como
o atualmente imposto para a comercialização de produtos
florestais e, agora, também, de produtos agropecuários em
alguns países, pode representar uma tentativa de regulação perversa para aquelas economias que têm na exploração dos recursos naturais abundantes sua principal fonte
de receita no comércio internacional.
A discussão em torno das patentes43 reflete, em parte, a tentativa de se valorizar, de outra forma, esses recursos, ou seja, através da própria preservação da natureza e

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43 O conflito estabelecido em torno da questão de patentes expõe,
basicamente, interesses opostos entre os países detentores da tecnologia
(notadamente aquela referente à biotecnologia) e dos conhecimentos por
eles desenvolvidos e patenteados, e os países detentores da natureza e dos
seus segredos, aos quais negam o rótulo de universais por se localizarem
em seus territórios soberanos, abrindo um debate ainda desconhecido na
legislação existente em torno dos direitos de propriedade sobre os processos
naturais, ou melhor, sobre os seres vivos.

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Geografia e Gestão Ambiental

dos povos que a conhecem de perto (isto é da biodiversidade tomada em seu sentido pleno), em troca da tecnologia inexistente nos países do Terceiro Mundo.
Nesse sentido, parece não restar dúvida de que o
avanço tecnológico no futuro estará muito mais associado
à preservação do patrimônio natural dos ecossistemas florestais, por exemplo, do que à extração dos recursos aí localizados, podendo se revelar num valioso fator de barganha para os países que os detêm, ou ao contrário, se constituir em uma fonte de dependência frente à oligopolizada
informação/pesquisa científica, notadamente aquela desenvolvida nos setores de ponta como o da biotecnologia.
Inúmeros exemplos de indústrias do hemisfério sul
que integram o fator ambiental, sobretudo na sua dimensão concorrencial, asseguram que já se percebe também
que essa argumentação é fundamental para o acesso aos
mercados dos países ricos.
Com a economia de mercado reagindo a seu modo
ao alerta ambiental, colocam-se novos desafios e incertezas quanto à concretização dos postulados do desenvolvimento sustentável em um mundo dividido entre ricos e
pobres ainda mais que as macroestratégias adotadas até
agora, em nível mundial, têm-se revelado muito tímidas
frente à realidade em que sobrevive grande parte da humanidade.
Nesse contexto, o avanço institucional verificado em
torno das questões ambientais envolve tanto a estrutura-

ção interna aos estados nacionais para concretizar os tratados e acordos realizados no mundo, como o debate em
torno da responsabilidade social e econômica das nações
centrais frente ao cumprimento por parte dos países emergentes e dos países mais pobres das metas acordadas.
Na realidade, a agenda dos organismos internacionais, a partir da última década do século XX e da década seguinte voltou-se, em grande parte, para a dimensão social
como demonstra a realização de diversas conferências da
ONU, Eco 92 ­ Cúpula da Terra, Conferência de Direitos Humanos de 1993, Conferência Mundial sobre Mulheres de
1995. No século atual seguem-se a Declaração do Milênio
e seus Objetivos de Desenvolvimentos traçados em 2000
por essa instituição, a Conferência Internacional sobre o Financiamento ao Desenvolvimento de 2002, Johanesburgo
2002 (Rio + 10), a Conferência de Durban de 2002, as diversas COP ­ Painel de Alto Nível da ONU para as Mudanças
Climáticas e, mais recentemente, a Conferência Mundial de
Determinantes Sociais da Saúde, em 2011 e, finalmente, a
Rio + 20, em 2012 (GALLO, 2012).
Esse processo consolidou a importância da agenda da sustentabilidade para a sobrevivência do planeta, o
que hoje a coloca como agenda prioritária do ponto de
vista global. Nesse contexto, nos vinte anos que se passaram desde a Eco 92, foi fundamental a institucionalização
e o grau de consenso alcançado pelo desenvolvimento
sustentável enquanto novo paradigma e princípio estru-

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Geografia

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turante para o desenvolvimento, permitindo o avanço na
criação de tecnologias, elaboração de indicadores e no envolvimento governamental, social e comunitário.
Ainda que haja dimensões conceituais a serem esclarecidas, como o conceito de economia verde, o aspecto mais crítico, contudo, continua a ser o da baixa implementação de medidas concretas capazes de enfrentar os
principais desafios relacionadas à efetividade de políticas,
pesquisas e outras estratégias que articulem os três pilares
do desenvolvimento sustentável: desenvolvimento econômico, equidade social e proteção ambiental.
Desse modo, chegou-se em 2012 à Rio + 20 tendo
como agendas centrais a Economia Verde e a Governança para o Desenvolvimento Sustentável, isto é, com duas
questões que tocam de perto elementos fundamentais
de relações internacionais, tais como a da transferência
de tecnologias limpas entre países, além da pactuação
permanente, em vários campos, de estratégias, acordos e
agendas comuns que envolvem escalas de ação diversas
em nível nacional e global.
Ainda que aparentemente sejam agendas consensuais, os conceitos e implementação prática da Economia
Verde e da Governança ainda é controversa. Segundo Gallo (2012) há desde posições que apontam para o "esverdeamento do capitalismo", até as que as identificam como
o caminho de transformação para um mundo mais solidário. Todas, entretanto, destacam a importância de que se

aprofundem o debate sobre o conteúdo e as estratégias
destas Agendas.
Nesse sentido, a economia verde deve estar alinhada
à promoção e à defesa dos Objetivos de Desenvolvimento
do Milênio (ODM) e caminhar no sentido dos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável, ainda em discussão.
Apesar da persistência e desdobramento mundial
da crise financeira iniciada em 2008 nos Estados Unidos, o
mundo avançou positivamente em alguns dos ODM que
têm, entre outras, a meta de reduzir pela metade o número
de pessoas com fome e sem acesso à água potável.
Contudo, o que se pode concluir em relação à perspectiva de uma nova postura global para superar os problemas ambientais é a afirmação de duas tendências que
se reforçam com a crise financeira atual. A primeira delas
relativa à necessidade da regulação estatal, isto é, da "mão
visível" do Estado sobre os mercados e os territórios nacionais e a segunda voltada à necessidade de melhorar a
coordenação sobre as políticas financeiras, econômicas e
ambientais não só entre as grandes economias mundiais
­ EUA, China e União Europeia ­ como entre elas e a economia real dos demais países.
Na perspectiva da economia verde talvez se possa
superar uma das principais dificuldades do capitalismo industrial dos séculos XIX e XX que era a da incapacidade de
generalizar pelo conjunto da população periférica os padrões de vida das economias centrais.

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Geografia e Gestão Ambiental

Isto implica em alterar a política fiscal, reformar e reduzir os subsídios a empreendimentos prejudiciais ao ambiente, redirecionar os investimentos para setores verdes
primordiais, que utilizem recursos naturais e energia em
menor quantidade ou de forma eficiente e que sejam socialmente inclusivos. Isto eliminaria indústrias marrons que
em grande medida existem devido a subsídios.
Todo esse processo implica na presença maior da
"mão visível" do Estado e no aprofundamento das agendas
globais, o que requer um enorme esforço no sentido da
governança e do fortalecimento de instituições com atuação global.
Finalmente, enquanto no nível nacional, conforme
enunciado por Cano (1990), urge fazer o desenho de uma
política que exija não um simples enxugamento do estado
e sua desregulamentação, mas, sobretudo, uma profunda
reformulação do Estado, retomando seu poder estruturante.
Na escala planetária, o conceito de governança é
mais amplo do que o de governabilidade, pois não se restringe às questões do aparelho político-administrativo de
estados nacionais separados. Ao contrário, ele se pauta na
formação de parcerias, constituição de arranjos institucionais com participação conjunta de governos-empresas-sociedade, entre outras formas de articulação, construídas a
partir não só de agendas e ações locais, regionais, nacionais, mas preponderantemente, e, com ênfase crescente, a
partir de agendas globais.

7.2 Macrodivisão natural do espaço brasileiro: bacias, biomas, domínios e ecossistemas

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Longe de constituir uma tarefa simples e de fácil
execução, a divisão do espaço geográfico brasileiro em
grandes regiões é antes uma tarefa de caráter científico
ditada tanto por interesses acadêmicos, quanto por necessidades do planejamento e, mais recentemente, da gestão
do território.
Assim, enquanto atividade científica acadêmica, a
divisão do espaço brasileiro em macrorregiões constitui
um exercício de discussão e elaboração de conceitos, teorias e métodos que levam a um determinado modelo que
tem como objetivo, na maior parte das vezes, a ampliação
do conhecimento científico sobre o território nacional
(MAGNAGO, 1995).
A divisão regional, entretanto, é também uma tarefa
executada para subsidiar o planejamento, especialmente
ao que se refere à definição de uma base territorial institucionalizada para fins de planejamento, ou mesmo para fins
de levantamento e divulgação de dados estatísticos pelos
órgãos públicos.
Tal fato remete, necessariamente, a uma análise
comparativa dos atuais modelos de macrodivisão natural
do espaço brasileiro àqueles elaborados pela geografia tradicional, desde início do século passado, na qual é introduzido o conceito de região natural.

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Com efeito, de acordo com Magnano (1985), nos estudos geográficos produzidos no Brasil a questão regional
começa a ganhar consistência teórica a partir do início do
século XX, com a obra de Delgado de Carvalho44, na qual é
introduzido o conceito de região natural.
A divisão natural do espaço geográfico apoiava-se
na premissa de que uma divisão regional deveria ter caráter duradouro, seguindo a concepção clássica da geografia determinista baseada na hipótese de que os atributos
naturais seriam os únicos capazes de definir uma região
segundo características fixas, isto é, que não variavam ao
longo do tempo, como os "fatores humanos".
Nesse sentido, elas serviriam para balizar os limites das regiões de um país de forma mais estável do que
aqueles limites provenientes das intervenções do homem
sobre a superfície terrestre, sujeita a mudanças constantes.
A divisão proposta por Delgado de Carvalho baseava-se
em elementos do meio físico, especialmente o relevo, o
clima e a vegetação, definindo cinco grandes unidades naturais no Brasil45.
Esse quadro regional, embora visasse ao ensino de
geografia, teve grande influência nos estudos e pesquisas

elaborados no país até os anos 30, quando novos conceitos
foram, então, introduzidos na análise regional. Entretanto,
foi apenas no início da década de 1940 que a questão da
divisão geográfica do Brasil ganha novas contribuições
teóricas e metodológicas, responsáveis pela elaboração da
primeira divisão oficial do país em grandes regiões.
A proposta apresentada pelo IBGE46, de modo semelhante à anterior servia-se da posição geográfica para
nomear as Grandes Regiões e encontrava, também, no
quadro natural o embasamento necessário para delimitar
as regiões segundo as características naturais do território
brasileiro47.
Nessa ocasião, a abordagem regional do país continuava sendo realizada através da leitura das inter-relações
das condições físicas, principalmente do clima, da vegetação e do relevo, na qual prevalecia a noção de fator dominante, isto é, a chamada nota característica da região que
privilegiava, dentre esses atributos naturais, aquele mais
influente na descrição e delimitação de um determinado
recorte regional.

44 Professor e, principalmente, grande difusor da geografia e, especificamente,
dos estudos regionais no Brasil, Delgado de Carvalho acompanhou a visão
regional clássica construída na passagem do século XIX para o XX na Europa.
45 Brasil Setentrional ou Amazônico, Brasil Norte-Oriental; Brasil Oriental; Brasil
Meridional (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul); Brasil Central (Goiás
e Mato Grosso).

46 Criado em 1937, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, teve entre
suas tarefas iniciais elaborar "uma única divisão regional para o Brasil.
47 Ainda obediente à delimitação político-administrativa do país, a proposta
do IBGE, para se adequar às necessidades da administração pública abria
mão, mais uma vez, de uma divisão que retratasse a "existência real" da
natureza.

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Geografia e Gestão Ambiental

Pautadas, portanto, nas características do meio físico como elemento diferenciador do quadro regional brasileiro, as macrorregiões delimitadas pelo IBGE na década
de 1940, representaram não só um período no qual se
tornava necessário o aprofundamento do conhecimento
do território nacional, como, conceitualmente, marcam o
predomínio da noção de "região natural" na compreensão
do espaço geográfico, em um momento em que a questão
regional ainda se confundia em grande parte com as diferenças existentes no quadro natural.
A metodologia empregada baseava-se no princípio
da divisão, isto é, partia do "todo" ­ o território nacional ­
que sucessivamente se dividia e se subdividia em unidades
cada vez menores. Desta forma, identificaram-se, primeiramente, cinco grandes regiões que, correspondendo aos
espaços mais abrangentes, caracterizavam-se "pela dominância de um certo número de traços naturais comuns,
que as tornaram bem distintas umas das outras".
Essa divisão do Brasil em cinco macrorregiões, com
base em características físicas, com pequenas alterações,
mantém-se válida ainda hoje enquanto síntese da diversidade regional brasileira.

· Região Norte: Amazonas e Pará; Territórios Federais do Acre, Amapá, Rio Branco e Guaporé.
· Região Nordeste: Ocidental ­ Maranhão e Piauí.
Oriental ­ Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba,
Pernambuco e Alagoas e Território de Fernando
de Noronha.
· Região Leste: Setentrional ­ Sergipe e Bahia.
Meridional ­ Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de
Janeiro e Distrito Federal (após 1960, Estado da
Guanabara).
· Região Sul: São Paulo, Paraná, Santa Catarina e
Rio Grande do Sul.
· Região Centro-Oeste: Mato Grosso e Goiás
(após 1960, o Distrito Federal).

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Cabe observar que a importância dada ao conhecimento da realidade física do país na primeira metade do
século XX longe de se relacionar à necessidade de preservação e de racionalidade do uso dos recursos, associava-se à necessidade de facilitar a ocupação humana que
"esbarrava em toda a série de obstáculos que precisavam
ser previamente conhecidos para que melhor possam ser
transpostos ou dominados" (PEREIRA, 1943).
Com efeito, a necessidade de um conhecimento regionalizado do Brasil, a partir de "certos aspectos da geografia física" justificava-se naquela ocasião muito mais pela
ideia de evitar "ocupações efêmeras ou passageiras". Nesse

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sentido, as regionalizações realizadas tinham claramente
um viés utilitarista de aproveitamento dos recursos naturais, do que propriamente um interesse de conhecer a diversidade natural para promover ou induzir uma ocupação
mais racional, como as propostas atuais de macrodivisão
do Brasil segundo bacias e biomas e ecossistemas.
Nesse sentido, a revalorização da natureza talvez
esteja colocando em novos termos, e de forma direta na
atualidade, a percepção do meio natural como elemento
fundamental na diferenciação do espaço político, concorrendo com as formas tradicionais que presidem a divisão
político-administrativa do território regional entre Estados
e municípios, conforme observado no quadro acima.
A macrodivisão natural do Brasil na atualidade contrapõe-se, assim, a lógica da divisão política tradicional,
que enquadra a base territorial e a ação administrativa, a
uma outra (e nova) lógica de divisão territorial, de viés não
necessariamente utilitarista, pautada numa apreciação do
valor intrínseco e, portanto, não instrumental, da natureza
e de formas culturais a ela associada.
Tal lógica torna difícil negar os conflitos estabelecidos entre o planejamento territorial do crescimento
econômico e o da proteção ambiental, uma vez que eles
irão se impor no curso da ação política tal como observarmos atualmente no Brasil e, especificamente, no que diz
respeito às formas de avanço do povoamento na região
amazônica.

Na atualidade, a introdução dos princípios de sustentabilidade inseridos na institucionalização da legislação
ambiental no Brasil a partir da década de 1970 e legitimada
na própria Constituição Federal de 1988 vem colocando na
agenda política brasileira a necessidade de voltar a incluir
critérios naturais na divisão regional brasileira.
Nesse sentido, a divisão do território brasileiro em
Bacias hidrográficas longe de constituir uma simples delimitação natural do país adquire, na atualidade, uma importância central para a gestão do território nacional notadamente quando se considera o sentido estratégico que vem
adquirindo a regulação dos recursos hídricos no Brasil e no
mundo contemporâneo.
A disputa pela água representará, no século XXI, um
fator agravante da instabilidade global resultando a alocação ineficiente desse recurso natural em um entrave ao
desenvolvimento econômico e uma ameaça imediata à
qualidade de vida da população mundial. Nesse sentido,
a regulação do uso desse recurso deve constituir um elemento-chave no planejamento das políticas territoriais das
nações em geral e do Brasil, em particular48.

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48 No caso brasileiro, pode-se mesmo afirmar que uma das questões centrais
que a sociedade e o Estado deverão enfrentar no século atual será aquela
atinente ao uso planejado e compartilhado das grandes bacias hidrográficas

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Nesse contexto, a Bacia hidrográfica passa a ser, na
atualidade, um critério de importância estratégica para se
planejar uma ocupação sustentável tanto do ponto de vista ambiental como do ponto de vista normativo, dado o
avanço ocorrido no âmbito da legislação sobre recursos
hídricos no país49.
A água constitui elemento essencial à vida, enquanto componente biológico dos seres vivos e meio de vida
de várias espécies vegetais e animais, assim como fator
fundamental de localização dos assentamentos humanos
e, portanto, de entendimento das formas de organização
socioeconômica do território nacional e de suas bacias.
As condições dos recursos hídricos revelam os impactos acumulados das formas de ocupação desse território, conforme analisado anteriormente nesse relatório,
segundo os vetores estruturantes da dimensão socioeconômica. Com efeito, nenhum outro recurso natural oferece
tantos usos legítimos quanto a água, aí incluída sua utilização para o abastecimento doméstico e industrial e como
matéria-prima nas atividades industriais e agrícolas, para
geração de energia e irrigação, entre outros.

A divisão de bacias hidrográficas de uma determinada região do país representa um desafio e sua compartimentação depende dos objetivos que se pretende atingir,
da concepção metodológica adotada e, sobretudo, da escala de apresentação. Em estudos mais específicos, podem
ser delimitadas bacias que têm relevância socioeconômica
em função da presença de represas e usinas hidrelétricas
ou que abranjam municípios com alta densidade populacional ou ainda apresentem problemas de natureza ambiental.
De modo geral, os limites das bacias são definidos
de acordo com critérios técnicos que incluem a separação
dos divisores de água a partir da identificação das cabeceiras dos canais de primeira ordem, chegando-se à delimitação dos rios que formam a rede de drenagem principal. Assim, dependendo da escala do mapa a divisão hidrográfica
pode ser cada vez mais detalhada e, portanto, comportar
inúmeras subdivisões. O mapa abaixo constitui um exemplo de divisão do território brasileiro em grandes regiões
hidrográficas50.

e dos imensos recursos hídricos situados na face oriental da América do Sul,
onde se estende o recorte territorial brasileiro.
49 A divisão do território brasileiro em Regiões Hidrográficas foi instituída
juridicamente atendendo à vasta legislação criada sobre o uso dos recursos
hídricos a partir de meados dos anos 90 do século passado.

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50 A Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000, criou a Agência Nacional de Água
- ANA, vinculada ao Ministério do Meio Ambiente e entidade federal de
implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e de coordenação
do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos.

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Geografia

Mapa 7.1 Divisão do Brasil em Regiões Hidrográficas

Fonte: Ministério do Meio Ambiente ­ Secretaria de Recursos Hídricos.

Em termos de disponibilidade hídrica o Brasil pode
ser considerado um país privilegiado, uma vez que a produção total de água doce representa 53% do continente sul-americano (334.000m³/s) e 12% do total mundial
(1.488.000 m³/s) (REBOUÇAS et al, 2002). Contudo, apesar
do aparente abundância, o país apresenta uma extensa
superfície territorial e grande diversidade física e climáti-

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ca que convivem com uma distribuição e uso desigual de
seus recursos hídricos superficiais, no espaço e no tempo.
Essas características do território brasileiro são essenciais na discussão acerca da distribuição espacial das
atividades agrícolas e do uso da água no Brasil, uma vez
que o processo de ocupação agropecuária na atualidade deve necessariamente compatibilizar, no espaço e no

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Geografia e Gestão Ambiental

tempo, o crescimento econômico, com a conservação
ambiental, aí incluída a manutenção da quantidade e da
qualidade dos recursos hídricos, considerado esse último,
um ponto central da agenda política, social e econômica
do país e do mundo contemporâneo.
O conhecimento da distribuição espacial da oferta
de água, além da condição de qualidade das águas das
principais bacias hidrográficas brasileiras, é de fundamental importância no sentido de promover o planejamento,
de forma eficiente, e evitar conflitos de uso entre as várias
atividades e os diversos segmentos sociais que a utilizam,
notadamente para aquelas relacionadas à produção agropecuária.
De fato, é de origem política, social e cultural e não
somente de um estrito determinismo físico-climático, a
complexa questão que envolve a análise das diversas formas de utilização da terra e suas compatibilidades e impactos sobre os recursos hídricos, dentre os quais se destaca
aqueles relativos ao agravamento das condições de seca e
de enchente. É, contudo, de origem político-institucional
as ações e a regulamentação frente à questão da escassez/
abundância que surgem no processo de utilização dos recursos hídricos para fins agropecuários.
Neste contexto, a situação de escassez e estresse hídrico emerge como uma questão cada vez mais presente
no território nacional, especialmente nas bacias localizadas em áreas que apresentam uma combinação de baixa

disponibilidade e grande demanda de recursos hídricos.
Com efeito, observa-se, atualmente, que cerca de 80% dos
recursos hídricos disponíveis em território nacional, estão
distribuídos entre as bacias hidrográficas de menor densidade demográfica, enquanto as regiões mais densamente
urbanizadas detêm somente 12% dos recursos hídricos,
abrigando 54% da população de total do país (ANA, 2011).
Na atualidade, uma outra forma de macrodivisão natural do Brasil que vem adquirindo crescente importância
nas discussões acerca da política ambiental voltada para a
redução do desmatamento e da biodiversidade na Amazônia constitui aquela que privilegia a vegetação enquanto
um critério fundamental para definir os Biomas Brasileiros.
Com efeito, esse termo51 tornou-se muito útil conceitual e metodologicamente para dimensionar, na atualidade, a questão da perda da vegetação, isto é, da massa
vegetal e das outras formas de vida a ela associada.

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51 O termo bioma tem origem no grego Bio = vida + Oma = grupo ou massa.

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Geografia

Mapa 7.2 - Divisão do Brasil em biomas

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Nesse sentido, a divisão do Brasil em biomas é considerada por amplos setores do ambientalismo no Brasil e
no mundo como um instrumento fundamental e legítimo
para aplicar corretamente a legislação ambiental, notadamente aquela que dispõe sobre a utilização e proteção da

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vegetação nativa, como é o caso da Lei da Mata Atlântica52,
considerando como integrante desse bioma as formações

52 Lei n. 11. 428, de 2006.

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florestais e ecossistemas específicos53, cuja delimitação
deve ser feita cartograficamente.
A definição dos limites dos biomas brasileiros será
igualmente útil para se solucionar algumas pendências em
torno da aplicação de diferentes cotas de "reserva legal"
contidas no Código Florestal54 que variam de acordo com
a cobertura vegetal das diversas regiões do país.
Desse modo, abre-se na atualidade a discussão acerca da conveniência de substituição do recorte geopolítico
da Amazônia Legal, utilizada nesse Código, pela conceituação mais adequada de divisão territorial segundo biomas.
De acordo com Coutinho, conforme desenvolvido
por Walter (1986, apud COUTINHO, 2004, vide ), o bioma seria uma área do espaço geográfico

53 Colinvaux (1993) definiu bioma como um "ecosystem of a large geographic
area in which plants are of one formation and for which climate sets the
limits". Importante salientar que se trata, pois, de um ecossistema, de
uma unidade ecológica, estrutural e funcional, com seus componentes
bióticos e abióticos. Todavia, não se deve supor erroneamente que bioma e
ecossistema sejam sinônimos. Para a fisionomia, elemento de fundamental
importância na classificação dos biomas, a fauna tem pouco ou nenhum
significado. O mesmo não ocorre quando nos referimos a um ecossistema.
54 A reserva legal constitui um percentual da propriedade rural que deve
permanecer com vegetação nativa, chegando tal reserva a abranger, de
acordo com Medida Provisória em vigor, 80% da área da propriedade rural
caso ela esteja localizada na Amazônia Legal. Como o recorte da Amazônia
Legal obedece aos limites político-administrativos de 9 estados (Amazonas,
Acre, Roraima, Pará, Amapá, Tocantins, Mato Grosso e Rondônia) e, no caso
do Maranhão, estende-se até o Meridiano de 44°, o que se alega é que
tais limites não serviriam para a aplicação de uma legislação pautada em
características naturais do território.

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Geografia e Gestão Ambiental

de grande dimensão representada por um tipo uniforme
de ambiente, identificado e classificado de acordo com o
macroclima, a fitofisionomia (formação), o solo e a altitude,
isto é, os principais elementos que caracterizam os diversos ambientes continentais55.
Apesar de pautar-se por uma delimitação que se
pretende "mais técnica" do espaço geográfico do que os
recortes político-administrativos (estados, municípios) que
costumam definir as regiões geográficas no Brasil, a divisão
segundo bioma ao pautar-se no domínio ou na proporção
de diferentes formas de vida (vegetal e animal) que o compõe torna também muito difícil e impreciso o traçado de
limites que os diferencia.
Nesse contexto, a discussão da divisão do espaço brasileiro revela a tendência atual a uma estruturação
preferencial das ações políticas a partir de uma divisão regional na qual a ação pública e os programas de governo
se ajustem às características e potencialidades da base de
recursos naturais notadamente em um momento histórico
em que se projeta uma regulação do território mais afinada com a diversidade e a capacidade de suporte do meio
natural.

55 Para Odum (1971 apud COUTINHO, 2004, ), "regional
climates interact with regional biota and substract to produce large, easily
recognizable community units, called biomes (...) In a given biome the life
form of the climatic climax vegetation (...) is uniform".

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A revalorização da dimensão e da política regional,
agora incorporando um forte componente ambiental,
constitui, pois, um dos elementos marcantes do cenário da
globalização nesse início do século XXI, além de um ponto
central para se projetar um planejamento que sirva a um
projeto de desenvolvimento que se quer sustentável.
Desse modo, o objetivo central de se promover um
planejamento territorial do Brasil balizado pelos princípios
de sustentabilidade tem contribuído para a busca de novos modelos de divisão regional, ou pelo menos de definição de um quadro de macrorregiões brasileiras, na qual as
unidades identificadas tenham alguma coerência interna
e certo grau de permanência de seus atributos constitutivos, que pressupõe, necessariamente, levar em conta um
patamar mínimo de características naturais estruturantes,
sejam elas a bacia hidrográfica, bioma ou ecossistema.

7.3

Política e gestão ambiental no Brasil

É em torno do controle e uso dos recursos naturais
que se coloca na atualidade a questão da política e da gestão ambiental no Brasil.
A análise dessa questão passa, em linhas gerais, pela
capacidade que tem o Estado contemporâneo e, no caso
específico, o Estado brasileiro, de influenciar o destino dos
homens e dos recursos naturais em seu território.
Vale lembrar que, nesse início do século XXI, o território não se restringe mais àquele delimitado pelas fronteiras internacionais e dividido internamente pelas esferas
político-administrativas. Além disso, ele passa também a
englobar o espaço de práticas vivenciadas56 em várias escalas de referência, da local à global, cuja regulação abre
um novo campo à ação política e à gestão quanto aos limites da ação humana sobre o meio natural.
A política e a gestão ambiental dizem respeito, assim, às formas de que dispõe o Estado brasileiro de manifestar o controle sobre o comportamento humano em seu
território, em um momento histórico em que esse controle

56 Segundo Raffestin (1993), sendo o território o "resultado da vivência (...) um
produto usado, vivido pelos atores e utilizado como meio para sua prática e
reprodução social, ele constitui o resultado tanto da prática social como da
intenção do poder" sobre ele.

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Geografia e Gestão Ambiental

é cada vez mais pactuado com a sociedade, notadamente
no que se refere ao somatório das práticas humanas sobre
o meio ambiente.
Nesse sentido, a normatização da ação direta do
homem sobre o meio ambiente passa, necessariamente,
por alguma forma compartilhada e descentralizada, de se
concretizar a ação pública e privada sobre o território nacional. Com efeito, a proteção e defesa do meio ambiente
parecem constituir, nesse início de século, um dos poucos campos de ampliação do poder institucional do Estado brasileiro, ao tentar normatizar, de modo abrangente
e articulado, as complexas relações entre a sociedade e a
natureza.
Atuando inicialmente em resposta a pressões políticas, provenientes em grande parte do exterior, a favor
da preservação das florestas tropicais e de seus povos indígenas, a evolução da política e da gestão ambiental no
Brasil ocorreu, assim, através da sua interação com uma das
frentes mais expressivas de enfraquecimento das fronteiras
nacionais no mundo contemporâneo, constituída em torno da preservação do planeta.
Nesse sentido, a ação política referente a questões
tais como a delimitação de terras indígenas, unidades de
conservação, controle de desmatamento, sequestro de
carbono e mudança climática, entre outros, tornou-se um
desafio ao papel mediador desempenhado pelo Estado
brasileiro ao forçar, dentro de um quadro institucional de

afirmação do federalismo no país, uma interlocução cada
vez mais ampliada não só entre os vários entes federativos ­ união, estados e municípios ­ como entre os vários
agentes e atores sociais que se organizam, nacional e internacionalmente, em torno da causa ambiental.
Se à política ambiental cabe, assim, um papel fundamental de absorção e estabilização da "ordem natural"
recorrendo a técnicas, métodos e normas de adaptação de
segmentos do aparelho do Estado, à gestão cabe promover a melhoria contínua das relações do homem com o seu
meio57.
Com efeito, segundo Oliveira (2004), o objetivo da
gestão ambiental é propiciar a melhoria contínua das relações homem-meio. Ainda segundo esse autor, devido
às características sistêmicas e complexas das questões
ambientais, as estratégias legais e práticas para alcançar
tal continuidade devem considerar a presença de ciclos e
subsistemas; a abordagem integrada e o maior número de
agentes possível, remetendo à noção de diversidade e a

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57 Desde as três últimas décadas do século XX, o meio ambiente no Brasil
e no mundo vem-se tornando uma questão política que atravessa
horizontalmente os campos tradicionais de formação e de divisão do poder,
inclusive, e, principalmente, daqueles que se manifestam na conformação
das fronteiras externas e internas do território, engendrando novos recortes
espaciais, novas burocracias e mesmo, novos partidos políticos, sendo objeto
da criação de complexos corpos de legislação e tema de programas de
pesquisa nacionais e multinacionais e a causa de um movimento de massa
que mobiliza milhões de pessoas em todo o mundo (McCORMICK,1992).

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Geografia

188

sua importância para a flexibilidade e estabilidade dos sistemas ambientais.
No Brasil, a internalização da problemática ambiental no âmbito das normas jurídicas e, portanto, da ação
política, viria a se materializar concretamente na reformulação do arcabouço jurídico e institucional do Estado pela

introdução, nas Constituições Federal de 1988 e estaduais
(mais recentes), de capítulos específicos voltados à regulamentação do uso dos recursos naturais.
O Quadro abaixo elenca a evolução das principais iniciativas do estado brasileiro no campo da política ambiental.

Evolução da Política Ambiental no Brasil
1981. Lei 6.938 - Política Nacional de Meio Ambiente (PNMA): "a preservação ambiental (...) visa assegurar condições para o desenvolvimento socioeconômico, os interesses
da segurança nacional e a proteção da dignidade da vida humana". Cria o Sistema Nacional de
Meio Ambiente (Sisnama) e o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).
1988. Constituição Federal, artigo 225: "Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se
ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo para as presentes e futuras gerações".
1990. Decreto 99.274 - Licenciamento Ambiental: estabelece procedimentos tais
como: Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) de atividades e obras utilizadoras dos recursos naturais.
1992. Agenda XXI: principal documento resultante da Conferência das Nações Unidas
sobre Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92: A Agenda 21 é um programa de ação, baseado
num documento de 40 capítulos, contendo um levantamento de prioridades para o desenvolvimento de uma comunidade visando promover, em escala planetária, um novo padrão de desenvolvimento, conciliando métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica.

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189

Geografia e Gestão Ambiental

1997. Lei 9.433 ­ Política Nacional de Recursos Hídricos e Sistema Nacional de
Gerenciamento de Recursos Hídricos: regulamenta o uso da água de forma compartilhada.
1998. Lei 9.605 ­ Lei de Crimes Ambientais: prevê aplicação de punições além de incorporar métodos e possibilidades de não aplicação de penas através da recuperação ao dano
ou pagamento da dívida à sociedade.
2000. Lei 9.985 ­ Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC): divide as
Unidades de Conservação do Brasil em Unidades de Proteção Integral (antes denominadas de
unidades de uso indireto) e Unidades de Uso Sustentável (antes denominadas de unidades de
uso direto).
2004. Decreto do Executivo ­ Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal: propõe medidas e coordena ações que visam à redução dos
índices de desmatamento na Amazônia Legal.
2006. Lei 11.284 ­ Lei de Gestão de Florestas Públicas para a Produção Sustentável: regulamenta a gestão de produtos madeireiros, não madeireiros e de serviços relacionados à natureza, como os esportes de aventura. Essa lei cria no MMA o Serviço Florestal Brasileiro
(SFB) e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal (FNDF).
2006. Lei 11.284 ­ Lei da Biodiversidade: dispõe sobre a gestão de florestas públicas
para a produção sustentável.
2008. Projeto de Lei ­ Política Nacional de Combate às Mudanças Climáticas: determina medidas para que as emissões de gases de efeito estufa sejam mantidas em níveis que
não influenciem o sistema climático de forma perversa.

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2010. Lei 12.305 ­ Política Nacional de Resíduos Sólidos: tem como objetivos básicos, entre outros, a proteção da saúde pública e da qualidade ambiental; a redução, reutilização, reciclagem e tratamento dos resíduos sólidos, bem como disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos, incentivo à indústria de reciclagem e gestão integrada de resíduos
sólidos.
2012. Lei 12.651 ­ Novo Código Florestal: dispõe sobre a proteção da vegetação nativa estabelecendo normas gerais com o fundamento central da proteção e uso sustentável das
florestas e demais formas de vegetação nativa em harmonia com a promoção do desenvolvimento econômico.

Conforme visto no Quadro acima, a partir da década de 80 foram feitas novas abordagens à legislação
existente no sentido de ajustá-la a uma nova etapa de
valorização dos atributos naturais que exigia um enquadramento normativo ampliado e sintonizado à diversidade ambiental do país e ao período de consolidação
dos princípios federativos e do Estado Democrático de
Direito, reforçados pela Constituição Federal de 1988.
Assim, além da própria originalidade representada por uma legislação que pretende introduzir uma
nova racionalidade ao uso dos recursos naturais, tradicionalmente visto segundo uma lógica unilateral e

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produtivista, a política ambiental traz ainda um caráter
intrinsecamente descentralizador da ação pública o que
constituiu, também, um outro traço inovador inerente à
esta última.
A necessária descentralização da ação pública sobre o meio ambiente servirá, de algum modo, para colocar em novos termos a relação entre as esferas governamentais assim como entre o público e o privado, uma
vez que o Estado brasileiro, em todas as suas escalas de
representação, passou a admitir a parceria com diversos segmentos da sociedade civil para levar a termo as
transformações impostas pela agenda ambiental.

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Cabe observar que a Lei 6.938/81, que instituiu a
PNMA, é válida para todos os entes da federação58. Portanto, além de servir como base na elaboração de todas as
normas legais do país que versam sobre meio ambiente,
ela vai colocar, também, de forma mais explícita, a questão das competências legais/administrativas e das escalas
geográficas de representação do território na federação
brasileira.
Elaborada anteriormente à Constituição Federal de
1988, a questão das competências político-administrativas
não se colocava, ainda, naquela ocasião, de forma tão clara
como após a promulgação da Carta Magna, uma vez que os
estados e, principalmente, os municípios, só viriam a reivindicar uma ingerência mais firme no uso de suas competências territoriais, no que se refere ao uso dos recursos naturais,
com a promulgação da última Constituição que consagra o
uso compartilhado do território nacional e de seus atributos
naturais nos moldes de uma divisão federativa.
No caso específico da legislação ambiental ou, mais
amplamente, naquela afeta à atuação direta do Estado sobre os recursos naturais, pode-se dizer que existe, também,
na atualidade, uma necessidade crescente de se compa-

tibilizar a legislação existente com as diversas escalas e
competências, legislativas e materiais, sobre as quais se
pretende atuar.
Desse modo, novas formas de exercício do poder
(e de controle) sobre as atividades dos diferentes segmentos sociais foram projetadas, visando atender às injunções
e complexidades da dinâmica ambiental/territorial do país,
com implicações diretas nas formas de organizar a administração e a regulação do espaço político nacional, em
todas as suas esferas de atuação, municipal, estadual e federal.
Nesse sentido, tornou-se urgente por parte do poder público federal tomar a iniciativa de articular ações em
múltiplas escalas visando à promoção de uma intervenção
coordenada, isto é, coesa, sobre o território nacional.
É nesse contexto que se projeta, na atualidade, um
cenário negociado de políticas públicas e de instrumentos
dessa política voltados para a promoção da sustentabilidade ambiental a começar pela estruturação de um campo
regulatório pautado pelos princípios de equidade característicos do Estado Democrático de Direito.
A noção de sustentabilidade ambiental é aqui considerada não só do ponto de vista estritamente técnico,
enfatizando taxas de exploração e de regeneração de
recursos naturais, sendo, portanto, tratada por meio de
esquemas de regulação e de sistemas normativos como,
também, sob o ângulo das relações sociopolíticas, envol-

58 Marco da legislação ambiental contemporânea do Brasil, essa lei enfoca, pela
primeira vez, o meio ambiente de forma abrangente sem o viés utilitarista e
setorial que marcava a legislação anterior que balizava tão somente o uso
mais eficiente dos recursos naturais.

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vendo os conflitos de interesse em jogo na apropriação e
uso dos recursos naturais e que implicam mudanças no nível político e institucional para viabilizar a sustentabilidade.
A sustentabilidade ambiental traz embutida novas
formas de exercício do poder (e de controle) sobre as atividades dos diferentes segmentos sociais, visando atender
às injunções e complexidades da dinâmica ambiental/
territorial contemporânea, com implicações diretas nas
formas de organizar a administração e a regulação do espaço político e de suas diferentes escalas e competências
administrativas.
No campo da ação política, cabe, assim, de acordo
com Becker (1995), a busca de convergências entre a gestão territorial e a gestão ambiental, entendida a primeira
enquanto um amplo processo de negociação entre todos
os atores envolvidos em um dado território para a tomada
de decisões, acabando por englobar, portanto, a própria
gestão ambiental e seus instrumentos de fiscalização e de
controle sobre o uso dos recursos naturais.
Desta maneira, a ação no campo ambiental apresenta como uma de suas grandes contribuições à consolidação da democracia brasileira a necessidade política de instituir uma forma participativa de gestão, manifestada nos
princípios da articulação intergovernamental e da integração interinstitucional, por meio da participação e controle
social decorrente do aprofundamento de processos políticos pautados pela descentralização do poder decisório.

Na última década, de acordo com Zapata (2007
apud KRONEMBERGER, 2008), o Brasil é considerado um laboratório vivo de iniciativas ambientais e territoriais institucionalizadas, com potencial transformador, caracterizando
um cenário diferente do experimentalismo difuso da década de 1990.
Assim, a sociedade brasileira vem assumindo importância crescente nos últimos anos, conquistando maior
espaço no processo de desenvolvimento do país, embora
ainda longe do ideal, contribuindo para a criação de um
ambiente favorável ao mesmo. São expressões deste fato o
crescimento da participação das entidades do Terceiro Setor e de Conselhos Municipais de Meio Ambiente59, a participação da sociedade em orçamentos governamentais e
a multiplicação de iniciativas de desenvolvimento local ou
endógeno60.

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59 Os Conselhos de Meio Ambiente são fóruns com participação da
sociedade civil organizada que têm como função formular e acompanhar
a implementação da política ambiental do município, podendo ter caráter
consultivo ou deliberativo.
60 De acordo com Kronemberger (2008), desde que foram criadas pela Lei nº.
9.790/99, as Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público ­ OSCIPs
também vêm incrementando sua participação. Eram somente 5 em 1999,
tendo alcançado um número de 3.470 em 2005 (MINISTÉRIO DA JUSTIÇA,
2006 apud KRONEMBERGER, 2008). As OSCIPS são entidades privadas, sem
fins lucrativos, que tem como finalidade pelo menos uma das atividades
de interesse público, nas quais destacam-se aquelas voltadas à preservação
e conservação do meio ambiente e promoção do desenvolvimento
sustentável.

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Com efeito, segundo Kronemberger (2008) existe no
Brasil uma multiplicidade de iniciativas que visam o desenvolvimento local, seguindo uma tendência mundial, que
tem em comum a formação de redes sociais, o fomento as
dinâmicas democrático-participativas, ampliando a esfera
pública, e o fortalecimento do capital social e humano.
A incorporação da gestão ambiental às organizações civis não é, contudo, tarefa fácil uma vez que ela exige
um grande estímulo e reforço às atividades que realizam a
interconexão entre as diferentes unidades administrativas,
tais como os diversos departamentos, assessorias e diretorias envolvidos em cada uma das etapas de gestão.
A mesma atenção que deve ser dada à montagem
e à estruturação dos elementos que compõem os sistemas de gestão deve ser também dirigida à montagem e
estruturação das interconexões ­ os programas de documentação, capacitação e comunicação ­ entre os diversos
agentes presentes ou potenciais.
Assim, a abordagem integrada, interdisciplinar, incorpora novas questões, exigindo, no plano metodológico e operacional, a reunião de informações de diversas
fontes diferenciadas visando à preparação de bases para
o diálogo com os vários setores envolvidos e, além disso,
o desenvolvimento da capacidade de trabalhar de forma
cooperativa.
Nação emergente na geopolítica mundial, o Brasil
passa, na atualidade, por uma fase de acelerado dinamis-

mo e mudanças nas formas de ocupação e uso de seu
território que exige da Federação um esforço renovado
de produção e intercâmbio da informação, com destaque
para a informação georreferenciada, entre as diferentes esferas administrativas.
No ranking mundial o Brasil ocupa a quinta posição
seja em extensão territorial, com 8.514.876,599 km², seja
em população, com 190.755.799 habitantes, em 2010 e,
em termos econômicos, avança para atingir posição próxima a esse patamar. Sua percepção enquanto país emergente na geoeconomia e na geopolítica mundial passa pelas diferentes maneiras como é visto do exterior o processo
de ocupação de seu imenso território e o uso/gestão dos
recursos naturais nele contido.
Assim, se por um lado o país é associado a um imenso patrimônio natural a ser preservado, dada a presença
em seu interior da maior floresta tropical ainda existente
no planeta, por outro lado é, também, assimilado enquanto uma das últimas fronteiras da agropecuária mundial,
provedor de commodities agrícolas para um extenso mercado asiático em expansão.
Mais recentemente, a exploração do petróleo depositado na camada de pré-sal localizada em águas profundas na costa brasileira repõe, em novos termos, a questão
entorno das formas de compatibilização possível entre a
exploração econômica dos recursos naturais e a necessária
prevenção em sua utilização devido ao impacto que possa
eventualmente causar na contaminação dos oceanos.

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A dualidade nessa percepção do país sintetiza, de alguma forma, as múltiplas dimensões e temas que cobrem
a temática em torno do desenvolvimento sustentável no
Brasil, incluído o fato de que além de sua projeção enquanto potência ambiental e agrícola no mundo, o país ainda
possui uma histórica desigualdade social e regional a ser
superada. O acalorado debate em torno da elaboração do
Novo Código Florestal constitui um exemplo do forte viés
político que envolve a questão do uso do território e da
terra no Brasil contemporâneo.
Tal desigualdade reforça a demanda em torno do
monitoramento territorial de programas, projetos e ações
públicas compromissados com o objetivo de reforçar a
coesão social e regional da federação brasileira, dentro de
um projeto de nação que se quer alinhado aos princípios
de um federalismo cooperativo.
Nesse contexto, a produção da informação geográfica é, portanto, estratégica, para se realizar a compatibilização possível entre o crescimento econômico promovido por inúmeros atores e interesses dinamicamente articulados no território nacional e mundial vis-à-vis à melhoria
nas condições de manutenção/promoção da diversidade/
sustentabilidade cultural e ambiental do país com redução
das desigualdades sociais.
Nesse início de milênio, no Brasil, a política e a gestão ambiental têm demonstrado, assim, uma grande capacidade de repensar os diferentes campos da política e,

portanto, da ação humana, tanto em seus fundamentos
teóricos e legais, quanto em suas aplicações práticas.

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Geografia e Gestão Ambiental

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