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Do Jornalismo e da História à História do Jornalismo
Felipe Simão Pontes1

Resumo: O texto reflete as aproximações entre História e Jornalismo estudando o percurso teórico de
cada uma dessas áreas e as conexões possíveis a partir da constituição do conceito de História do
Jornalismo. Tem por base os resumos das teses e dissertações de pós-graduação em Comunicação do
Brasil que discutem o tema, estabelecendo primeiramente quais tratam o Jornalismo e, dentre estes, os
que tematizam a História do Jornalismo. O estudo trata da formação de um campo de saber jornalístico a
partir da busca por sua autonomia conjugada com o desenvolvimento conceitual e teórico da História para
uma compreensão das dificuldades e potencialidades pertinentes à História do Jornalismo. Por fim,
estabelece que tanto a abertura da História para os outros campos de saber quanto a falta de um objeto
justificado e delimitado por parte do Jornalismo permitem a entrada de outras áreas para a composição
das pesquisas em História do Jornalismo, tais como a Sociologia, a Economia, a Política, os Estudos da
Linguagem etc.
Palavras-chave: Jornalismo, História do Jornalismo, teoria, estratégias metodológicas, pós-graduação.

Historiador, Comunicólogo, Jornalista ou o que?
O problema mais comum decorrente de um trabalho de História do Jornalismo
é uma certa crise de identidade do pesquisador. Isso não é resultado de qualquer
problema de personalidade nem é constatado a partir de entrevistas com os autores
dessa área. É percebido no produto final, na composição das pesquisas, nas tentativas de
alicerces teórico-metodológicos que os autores querem sustentar. Por vezes, a estratégia
é afirmar-se historiador, colocando nessa acepção uma analogia à cientificidade - o que
o campo da História luta para ser e não ser ao mesmo tempo. Por outras, diz-se
comunicólogo, ou pesquisador das comunicações, o que revela um pesquisador híbrido
na utilização de métodos e teorias, algo tão provisório quanto o próprio campo da
Comunicação [mesmo levando em consideração os esforços para estabelecer os
alicerces epistemológicos da área, como exemplifica o trabalho de José Luiz Braga
(2001)]. Colocar-se como pesquisador em jornalismo é ainda mais difícil, visto que a
analogia mais comum a essa identidade remete o pesquisador à sua prática profissional.
Mesmo assim, alguns se dizem jornalistas e buscam justificar suas conclusões a partir
do que essa sub-área já produziu de conhecimento. Por fim, muitos que pesquisam a
História do Jornalismo alicerçam-se numa postura de interdisciplinaridade, por vezes
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Jornalista formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) em 2006. Mestrando do
Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E-mail:
[email protected]

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misturando Economia e Política para se dizer materialista-dialético; Literatura e Cultura
para posicionar-se ao lado das narrativas; tomando os Estudos da Linguagem (dentro de
sua imensa variabilidade de formas) para estudar as intenções, os sentidos e as
estruturas; ou a Sociologia para catalogar uma profissão e as categorias de produção de
um conhecimento.
Mas, não é o pesquisador o foco desse texto (ainda que ele seja um dos atores
principais da cena que será composta). A pertinência dessa crise de identidade é a
posição do Jornalismo como campo de estudo em relação às Ciências Sociais e
Humanas em geral. Dois conceitos tentam responder a esse problema: o Jornalismo
numa posição de fronteira teórica ou como dependente de lentes para ser analisado.
Pressupor que o Jornalismo localiza-se em uma região de fronteira sugere,
conseqüentemente, que ele possui uma região (mesmo que essa região seja tênue). Já, se
o Jornalismo pode ser tratado a partir das lentes, como traçado por Barbie Zelizer
(2004), ele estaria localizado apenas no objeto (a partir do que é visto) ou estaria fadado
a um "problema de visão" (a partir de quem vê). A região de fronteira permite a
discussão de um conhecimento do Jornalismo, visto que dá pistas para a constituição de
uma região de retorno no exercício da pesquisa nesse segmento. Por sua vez, a analogia
às lentes pressupõe a necessidade do auxílio de uma outra ciência e traz implícita uma
provocação que será levada ao longo do texto: o jornalismo como prática social pode
ser visto pela pesquisa em jornalismo a olho nu?
Quando se fala de História do Jornalismo, essa posição fronteiriça fica mais
tênue e a possibilidade do reconhecimento do Jornalismo independente de outras áreas,
mais difícil. Como soma, é possível verificar que o próprio estatuto da História também
é construído sobre hibridações. Ainda que a História tenha o respaldo do tempo para
demarcar sua (uni) presença, para além dessa metafísica ela não possui uma unicidade
teórica ou metodológica. Pode-se dizer que tudo tem uma história. Contudo, se for
retirado esse "tudo", a História se desfaz. A História, por isso, possui sua possibilidade
de existência em um "de" que lhe acompanha e polariza suas relações. Assim, pode-se
falar em História da Política, História da Economia, História das Artes, História das
Ciências, História do Jornalismo. A "História" única e ordenadora, tomando as palavras
de Paul Veyne (1982, p. 23-24), não existe para além da metafísica, ou, como aponta
Levi-Strauss (1976, p. 336), é um mito. A História do Jornalismo, portanto, abre
margens duplicadas para a entrada de outros campos, de outras lentes que redirecionam
o olhar para e o olhar de dessas pesquisas. Isso incide sobre a escolha dos objetos, os

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conceitos e teorias formuladas e no tipo de metodologia empregada para as diferentes
pesquisas com esse tema. As crises tornam-se inevitáveis.
O texto que segue discute a formação do Jornalismo como um campo de saber,
trazendo para a pauta dos estudos na área a interface com as outras ciências, a sua
relação com a Comunicação e as teorias que dão contornos a essa "região de fronteira".
Juntamente, discute as transformações da disciplina História, especialmente o debate
francês, buscando articular o conceito holístico de História com a dispersão desse
conceito em histórias com interesses voltados para as séries da qual estão inseridas.
Para, a partir disso, tratar da História do Jornalismo como possibilidade de observar a
História em favor de um reconhecimento do Jornalismo como área de saber.
A formação de um campo de saber do Jornalismo
O conceito de campo que é utilizado nesse texto advém, estruturalmente, da
definição de Pierre Bourdieu (1983, p. 122) de campo científico, entendendo-o como o
lugar, o espaço de jogo de uma disputa pela autoridade científica, definida como uma
capacidade técnica e poder social; ou pela competência científica, compreendida
enquanto capacidade de falar e de agir legitimamente. Adriano Duarte Rodrigues (1990,
p. 144), sistematizando essa definição, concebe campo como a "esfera de legitimidade
que impõe com autoridade indiscutível atos de linguagem, discursos e práticas
uniformes dentro de um domínio específico de competência". Esse conceito não se
alicerça apenas pelo objeto de observação (o Jornalismo em sua prática social), mas
também como espaço de formulação teórica sobre esse objeto. Ou seja, a possibilidade
de um campo jornalístico para esse estudo excede a definição de Bourdieu (1997) e de
Traquina (2004), visto que estes o definem apenas a partir da produção de notícias e dos
produtos do jornalismo.
Ainda que o Jornalismo não constitua um campo de saber legitimado
cientificamente diante de outras áreas e não formalize sua posição como conhecimento
epistemológico, a história de seus estudos também não está fadada a um modo genérico
de encarar a sociedade. O Jornalismo possui uma atividade de pesquisa e, decorrente de
um processo de institucionalização, busca alicerçar essa prática. Essa busca perpassa
pela competência de arregimentar conceitos capazes de explicar um dado objeto
exclusivo de uma maneira igualmente particular e pela capacidade de articulação de
obras, grupos de estudos, faculdades, sociedades científicas etc. Portanto, uma

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autonomia epistemológica, capaz de determinar a particularidade da pesquisa em
Jornalismo, e uma autonomia política, que visa demarcar posições e garantir espaço na
disputa com os outros campos de saber.
O entendimento dessa disputa política entranhada na responsabilidade
epistemológica aponta para a posição paradoxal em que se encontra a pesquisa em
Jornalismo em relação a outros campos de saber. O jornalismo, especialmente nos
últimos 150 anos, possui um alto número de estudos envolvendo diferentes processos
metodológicos, teóricos e de disputas com outros saberes. Marca disso é que os
institutos de pesquisa em Jornalismo na Alemanha coordenados por Karl Bücher datam
da década de 1880, período em que a Sociologia também lança seus alicerces a partir
dos cursos de Émile Durkheim na França e de Max Weber na Alemanha.
Nota-se, ainda nesse período, como os campos atuais das Ciências Humanas
(como a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia e a Lingüística) estavam imbricados
em análises filosóficas, políticas e econômicas. O jornalismo não estava em uma
posição diferente. Karl Marx, por exemplo, no desenvolvimento de seu compêndio
econômico e político, lançou as bases para a Sociologia, mas também contribuiu para o
Jornalismo ao estudar a importância da liberdade de imprensa. Karl Bücher (1901),
economista, parte do estudo do Jornalismo como uma das engrenagens da maquina
comercial do fim do século XIX, tentando entender a formação de uma opinião pública.
Robert Park (1904) começa seus estudos em Jornalismo para, a partir deles, fundar a
Sociologia estadunidense. Gabriel Tarde (1901) busca compreender a psicologia das
multidões com a intenção de entender a influência que também os jornais podem
exercer sobre o público e sobre a política. Como aponta Hanno Hardt (2001) e
demonstra o trabalho de Berger e Marocco (2007), o final do século XIX e início do
século XX possuem muitos exemplos de estudos que fundam e alimentam outros
campos de conhecimento concomitantemente ao campo jornalístico.
O Jornalismo também manteve um percurso acadêmico ao longo do século
XX, com produções que visavam entender o fenômeno jornalístico. Exemplo dessa
continuidade e especificidade de pesquisa está nas obras de Otto Groth que permanecem
pouco conhecidas e citadas pelos autores brasileiros diante da dificuldade da obra estar
toda em alemão. Nos Estados Unidos, os estudos em Jornalismo também se
desenvolveram, com a abertura de cursos de graduação na área promovida por Willard
Bleyer em 1903 e do curso de doutorado em Jornalismo fundado em meados da década
de 20 pelo mesmo pesquisador.

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No Brasil, como aponta Meditsch (1992), os cursos de Jornalismo, em sua
maioria, foram rapidamente transformados em Comunicação Social diante da política
do Centro Internacional de Estudios Superiores de Periodismo para a América Latina
(Ciespal). Essa tendência de transformar os estudos de Jornalismo em Comunicação
teve origem nos Estados Unidos2, como explica Rogers (1997, p. 445-495), a partir da
fundamentação da disciplina da Comunicação por Wilbur Schramm e pelo contexto
político-estratégico que esses estudos ocuparam durante a II Guerra Mundial e a Guerra
Fria. O Jornalismo passou a integrar-se ao conceito de meios de comunicação de massa
ou mídia e a participar do fenômeno da Comunicação Social como um todo, ao lado da
Publicidade, da Propaganda, do Cinema e do entretenimento em geral. O jornalismo
nessa circunstância é tratado como meio, como suporte, como portador de uma
mensagem e possibilitador da comunicação. Essa definição não é errada. Contudo,
parece não contemplar a especificidade que o Jornalismo busca nesses últimos 150
anos.
Para uma visão da disputa conceitual empreendida pelo Jornalismo diante da
Comunicação e das demais áreas das Ciências Humanas e Sociais, é preciso, por vezes,
inverter a relação do Jornalismo com os outros campos para que seja possível achar
alguns contornos do que poderia ser essa "estreita região de fronteiras". As outras áreas,
ao usarem o Jornalismo para alimentar suas teorias, acabam contribuindo também para
demandas do próprio campo. Por outro lado, muitos pesquisadores do Jornalismo vão
até essas áreas para buscar elementos que respondam a suas pesquisas. Assim, a
Economia possui um importante papel para o Jornalismo quanto à circulação e difusão
das informações. As Ciências da Informação auxiliam o pesquisador em Jornalismo no
estudo dos suportes tecnológicos, nas potencialidades pertinentes aos dispositivos
informativos. A Lingüística contribui para os estudos dos discursos e das estruturas das
notícias. A Antropologia pode contribuir permitindo a compreensão do simbolismo
inerente tanto ao hard news quanto às notícias de interesse humano. É possível
demonstrar, nesses casos, que o Jornalismo, ao entrar em outros campos, pode demarcar
sua especificidade e uma certa região de retorno.
Já quando colocado em relação com a Comunicação, a posição do Jornalismo
parece mais entranhada. Isso porque o Jornalismo em sua prática social e profissional
tem a comunicação como princípio básico, já que se trata de um processo de
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Nota-se, contudo, que nos Estados Unidos essa transformação de Jornalismo para Comunicação não
aconteceu em vários cursos.

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conversação social3 (um jornalista conta para o público o que ocorreu em um dado lugar
e tempo) e produz conversação social (as notícias são comentadas e difundidas pelo
público). Contudo, o Jornalismo não é qualquer conversação social. Ele difere da
Publicidade, da linguagem do Cinema ou ainda de uma revista em quadrinhos. O
Jornalismo possui um vínculo com os fatos4 que acontecem na realidade social e
possuem algum sentido no presente. Mesmo admitindo todos os processos pelos quais
passa uma notícia, ela torna-se impossível quando desvinculada de um fato concreto.
Ao Jornalismo não é permitido inventar fatos sem que isso seja considerado um erro.
Tal pressuposto é mais epistemológico (ou seja, está na ordem da verificação de um
fato) do que ético (da moral do jornalista ou do público). Enquanto a Comunicação está
interessada em qualquer processo de conversa que acontece na sociedade (seja ela
persuasiva, estética, ficcional) entendendo os sentidos decorrentes dela, o Jornalismo
possui a especificidade de tratar algo que aconteceu e que precisa ser compreendido
pelo público como algo que aconteceu. Nota-se nessa relação que o Jornalismo não está
apenas na produção da notícia, mas também no processo de entendimento e de resposta
do público. A persuasão, a estética e a ficção estão no Jornalismo, mas não são os
elementos mais importantes. Diferente do que acontece em outros setores da
Comunicação como a Publicidade e o Cinema, por exemplo.
Portanto, o Jornalismo é aqui questionado como uma possível região
epistemológica de análise do fenômeno jornalístico em sua completude, referendando a
interferência dessa prática nos diferentes sistemas culturais e políticos de uma dada
sociedade. Isso revela uma unicidade prática e teórica do conceito de Jornalismo, visto
que tanto a visão advinda da academia quanto a da prática dos jornalistas respondem ao
mesmo fenômeno Jornalismo. Essa posição amplia a abrangência do Jornalismo, por
vezes pensado apenas como um processo de produção de um dado bem simbólico (da
notícia, por exemplo), para uma relação institucionalizada que estabelece formas de
conhecimento para alicerçar suas práticas e compreender seu funcionamento.
O que se presume a partir disso é que uma teoria do Jornalismo deve responder
também a questões que excedam às atividades das redações, à produção da notícia ou
aos critérios de noticiabilidade. Uma teoria do Jornalismo não pode ser apenas aplicada
à prática profissional do jornalista. Ela deve ser capaz de perceber também a
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Braga (2001, p. 15-17) aponta que o objeto da Comunicação seria o que há de conversacional e de troca
nas instâncias e situações da vida social.
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Considero o fato aqui como qualquer fenômeno que acontece no mundo ontologicamente, independente
de qualquer valor subjetivo

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constituição da prática jornalística no seio da sociedade, a dinâmica de suas relações
com outros campos como a Política, a Economia e o Direito, a produção de uma
linguagem particular ao campo, sua predisposição a ser o vértice da produção de
imaginários sociais e a necessidade social da notícia, ou seja, a necessidade do público
em querer se informar. O objeto de uma teoria do Jornalismo, portanto, é a centralidade
do Jornalismo como prática social e cultural.
Contudo, essa definição ampla do que é o objeto de uma teoria do Jornalismo
permite que outras esferas de saber reivindiquem o papel de investigar o Jornalismo.
Como demonstra Zelizer (2004), áreas como a Sociologia, a História, a Cultura, a
Política e os Estudos da Linguagem fornecem conceitos e ferramentas metodológicas
para os pesquisadores do Jornalismo, como lentes para observar esse objeto. A grande
maioria dos trabalhos de pesquisa em jornalismo vai fundamentar seus conceitos em
teorias de outras áreas de saber e utiliza as ferramentas metodológicas que
originalmente foram constituídas para fornecer respostas pertinentes a essas áreas.
Diante de tantas pesquisas dessa natureza, muitas vezes o Jornalismo parece precisar de
outras áreas para se definir, o que o determina apenas como objeto, mas retira seu status
de teoria.
A resposta de muitos pesquisadores para essa situação híbrida das teorias sobre
o Jornalismo é metonímica. Eles enfatizam que o objeto do jornalismo é o processo de
produção da notícia, os critérios de noticiabilidade ou está centralizado no trabalho do
jornalista [exemplo disso são os trabalhos de Gomis (1991), Souza (2002) e Traquina
(2004)]. Por isso consideram sinônimas a Teoria do Jornalismo e a Teoria da Notícia.
Ou seja, tomam parte do objeto do Jornalismo como todo o objeto para a determinação
da Teoria do Jornalismo.
Para o estabelecimento de um possível objeto do Jornalismo não basta tomar
parte de sua especificidade. Por outro lado, é preciso tencionar as pesquisas que
fundamentam seus conceitos, métodos e objetivos a partir de outras áreas. Tomando
como pressuposto que o Jornalismo para essas pesquisas é visto a partir de lentes, é
preciso questionar o lugar de onde parte esse olhar e buscar retirar-lhe as lentes e
verificar se o objeto continua visível. Portanto, não reduzir o objeto, problematizá-lo
diante de sua fragilidade e explorá-lo em suas frestas. Tornar essa abertura teórica do
Jornalismo uma possibilidade para a compreensão da potencialidade desse objeto e do
desafio para estabelecer conceitos que auxiliem no seu entendimento.

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A História e suas histórias
A emersão das Ciências Humanas a partir do século XIX mudou a
configuração e o entendimento da História como uma área de conhecimento. A História,
como aponta Foucault (2002, p. 508-517), pode ser considerada a primeira ciência do
homem, uma espécie de "mãe das Ciências Humanas". A História, desde os gregos,
passando pelos estóicos e pela Idade Média, estava relacionada a um movimento único,
ou ligada a uma espécie de cronologia cósmica ou a um devir do mundo, uma espécie
de destino humano. Nota-se que essa visão filosófica estava fortemente arraigada ao
conceito de História em Hegel e demonstra uma proximidade estrutural com o modo de
pensar a história da humanidade em Comte ou Marx. A visão de totalidade e unicidade
histórica é alterada com o surgimento das ciências da vida, do trabalho e da linguagem.
Marx mesmo demonstra um processo de transição na História, já que vai estudar a
evolução das diferentes formas de trabalho a partir de categorias que emergem da
ciência do trabalho, no caso, a Economia. Os filólogos passam a verificar a evolução da
linguagem não apenas pela política, migrações ou guerra, mas na própria dinâmica
interna da fonética e da gramática. E a vida passa a ser compreendida por processos de
evolução, seleção natural e mutação.
Essa tendência de variabilidade da História ganha mais impulso diante do
surgimento de disciplinas como a Psicologia, Sociologia, Antropologia e Lingüística.
Pode-se afirmar que todas essas disciplinas, na busca pelo alicerce de suas posições,
desafiaram a História, buscando retirá-la do posto de discurso universal e unificador das
Ciências Humanas. No início do século XX, a Sociologia irá criticar a visão política e
nacionalista da História e reivindicar a cientificidade de sua área para os estudos do
passado. Levi-Strauss (1976, p. 336), por sua vez, aponta a História globalizante e
transcendental como um tipo de mito. Para ele, a História só pode ser parcial, visto que
não há totalidade histórica (como aponta Marx e Hegel), mas várias histórias que não
estão ligadas a um tema central. Essa via de análise permitiria, como aponta Dosse
(2001, p. 152-158), uma história dos pequenos acontecimentos, ou de histórias
descontínuas, tendo a Antropologia como ciência capaz de analisar todas essas
condições, visto que ela poderia decifrar as estruturas imanentes na sociedade,
diferentemente da História que ficaria restrita aos fatos diretamente observáveis. Antes
ainda, Saussure (2001, p. 23-25), vai tentar fundamentar uma disciplina dos signos que
explique os fatos sociais da vida humana como um todo, no caso, a Semiologia. Essa

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disciplina contemplaria todos os fenômenos relacionais do homem, incluindo sua
história. A partir desses dois autores, grande parte do Estruturalismo trouxe consigo
essa visão de uma História cindida e descontínua.
Outra crítica contundente à História como única foi colocada por Foucault
(2005) em sua Arqueologia do Saber. Para o autor, o objeto da pesquisa histórica deve
ser tratado como particularizado a partir de uma série da qual ele faz parte, com as
regras inerentes a essa série. Foucault, considerando um elemento definido em uma
série, procura reconhecer a regularidade dos fenômenos e os limites da probabilidade de
sua emergência. Assim, a análise requer que se estabeleçam "as séries diversas,
entrecruzadas, divergentes, muitas vezes, mas não autônomas que permitem
circunscrever o `lugar' do acontecimento, as margens de sua contingência, as condições
de sua aparição" (FOUCAULT, 2005b, p.56). A história serial opõe-se aos esquemas
totalizantes. Outra proposta de Foucault é a descontinuidade dos acontecimentos,
justamente para verificar as rupturas e valorizá-las, em oposição a uma tentativa de
uniformidade, explicando as diferenças a partir de um mesmo sistema, de um
continuum.
Todas essas críticas à disciplina histórica provocaram mudanças e o surgimento
de novas áreas de interesse. Ainda que seja considerada a força da herança hegeliana,
das pesquisas histórico-dialéticas de cunho marxista e do Histocismo de Dilthey
(tradições marcadamente da História Alemã), a disciplina História, em especial na
França, sofreu modificações, gerando novas tendências que influenciam ainda hoje a
historiografia brasileira e, particularmente, os estudos em História do Jornalismo.
A primeira grande mudança no modo de trabalhar dos historiadores foi
realizada por Marc Bloch e Lucien Febvre com a criação da revista Annales d' histoire
économique e sociale" e posteriormente da Escola dos Annales a partir de 1929.
Segundo François Dosse (2001, p. 20-21), a Escola dos Annales foi criada para fazer
frente à tradição historiográfica francesa de então que valorizava uma História política e
factual voltada para exaltar os governantes e as grandes batalhas da nação francesa.
Tomando como parte a crítica empreendida pela Sociologia, os autores da chamada
primeira fase dos Annales buscam incluir métodos da Economia, da Sociologia e da
Geografia para uma fundamentação estatística, demográfica e produtiva da história. É
característica dessas análises, ainda, o lançamento de uma espécie de "psico-história"
que ficou conhecida como a história das mentalidades, uma área voltada para o
desenvolvimento do saber e das correntes de pensamento na humanidade e que vai

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sofrer mutações nos 50 anos seguintes, especialmente por causa da história das ciências
inaugurada por Gaston Bachelard e seguida por George Canguilhen e das grandes
transformações decorrentes do movimento arqueológico do saber de Foucault.
Após a II Guerra Mundial, Fernand Braudel caracteriza o que é conhecida
como a segunda fase dos Annales. Como aponta Dosse (2001, p. 151-172), a crítica
estruturalista realizada por Levi-Strauss encontrou uma resposta da História a partir das
modificações teóricas feitas por Braudel. Primeiramente, Braudel fez a defesa por uma
história total, entendendo que todas as relações são históricas e cabe a História observar,
classificar, comparar e isolar todos os fatos pertencentes às outras ciências humanas,
inclusive às estruturas imanentes da Etnografia. A História de Braudel é estruturada em
uma relação temporal. Para ele existiriam três temporalidades, três domínios em que a
História explicaria a realidade: uma história quase imóvel que trata a relação do homem
com o seu meio geográfico; uma história lenta, que trata dos ciclos econômicos e das
estruturas sociais; e uma história de acontecimentos, capaz de relatar a experiência do
indivíduo e as oscilações breves da vida cotidiana e presente. Como unificadora dessas
temporalidades na História e fundadora da evolução dos homens e das coisas estaria a
longa duração, ou seja, um discurso histórico que interliga natureza e cultura,
permeando todas as relações possíveis. Isso significa que, contrário à posição de LeviStrauss que coloca a Etnografia como a responsável por descrever as estruturas
imanentes de sociedade, Braudel praticamente congela a História, dando a ela poderes
de descrever as estruturas mais permanentes em qualquer sociedade, superando,
inclusive, a lentidão da temporalidade geológica. Dosse (2001, p. 165-170) conclui que
nesse tipo de análise, o homem está cada vez mais fora do centro de atenção da História,
visto que são ações permanentemente e inconscientemente repetidas que governam as
ações humanas e precisam ser estudadas e descritas.
A exclusão de qualquer relação de centralidade do homem, de qualquer
hierarquia disciplinar ou de um continuum nos estudos da História é promovida pela
terceira fase dos Annales no final da década de 60 e início da de 70. A também chamada
Nova História Cultural foi a responsável por implodir a centralidade da História (com H
maiúsculo), buscando torná-la o local principal de dispersão de qualquer discurso
científico que buscasse a centralidade em substituição a ela. Autores como Pierre Nora,
Jacques Le Goff e Paul Veyne passam a difundir a história é regida pela preposição
"de", ou seja, que a história só possui regras específicas a partir da série em que está
colocada, dos conceitos imanentes do campo em que está interpretando. Assim, não

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existiria uma História orientadora de todo o campo do saber, mais uma história do solo,
uma história das artes, história da sexualidade, história da religião, história política e
todas elas não teriam relação de hierarquia umas com as outras, visto que as regras de
verdade e importância só diriam respeito a cada uma dessas áreas em específico. Essa
posição gera, automaticamente, descontinuidade, já que os fatos não são vistos em um
todo, em uma coerência que agrupa todos os acontecimentos em torno de uma unidade,
seja ela o homem, um sistema econômico ou dado governo. Os fatos acontecem ao
mesmo tempo e se colocam ao lado uns dos outros, pertencendo ao pesquisador a tarefa
de tecer as relações pertinentes ao seu objeto de pesquisa.
A divisão da História em várias histórias permitiu o surgimento de inúmeros
objetos possíveis de serem estudados pela área, alargando cada vez mais o seu leque de
atribuições e as possibilidades de entrada nos documentos e no arquivo. Uma atenção
maior é dada a regiões que não eram iluminadas pela história tradicional, tais como a
história dos homossexuais, das mulheres, a história dos costumes, do comércio, do
consumo, das formas de comunicação, do desejo, da vida privada. Ainda, permitiu uma
variabilidade de formas de estudar a história, utilizando elementos estruturais da
literatura e valorizando ainda mais o caráter autoral dos textos. Trata-se,
definitivamente, de uma fuga da História que tentava se alicerçar pela cientificidade,
mas por outro lado, servindo como aporte para inúmeras áreas de saber, inclusive as
científicas.
Pode-se dizer que, posteriormente à década de 80, muitos estudos buscaram
recuperar a centralidade da História ou, ao menos, retirá-la desse centro de dispersão.
Uma das obras que trabalha praticamente ao largo desse processo de congelamento ou
de rompimento da História foi a de Paul Ricouer, especialmente seus três tomos em
torno do Tempo e da Narrativa. O interessante nesse caso é que Ricouer vai estudar a
História pelo lado de fora, a partir da Filosofia, procurando entender qual é a posição da
narrativa histórica em relação às narrativas como um todo. Já François Dosse (2001 e
2007) procura recuperar todo o percurso da historiografia francesa e do Estruturalismo
como forma de pensamento hegemônico do século daquele país. Cabe ressaltar o teor
crítico dispensado pelo autor diante da divisão promovida pela Nova História Cultural.
Já no Brasil, identificam-se algumas importantes tendências que devem,
inclusive, nortear grande parte das pesquisas em História do Jornalismo. A primeira
delas é a chamada História dos grandes eventos e das personalidades. Essa História
busca unificar todos os fatos ocorridos na história do país a partir de sucessões

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presidenciais, sistemas de governo, a governabilidade e tudo que é inerente a ela (como
revoltas, crises políticas, econômicas etc). Alia-se, portanto, a uma versão oficial da
História que foi sistematizada no Brasil, inicialmente, por D. Pedro II com a criação de
institutos de pesquisa, da Biblioteca Nacional e dos museus. Essa tradição existe ainda
hoje, com estudos de catalogação, cronologia governamental, centralidade nas grandes
personalidades sob a forma de culto ao passado etc.
Uma segunda fase da Historiografia nacional é demarcada pela entrada das
demais Ciências Humanas, em especial a Sociologia, a Economia e a Etnologia.
Gilberto Freyre, por exemplo, introduz um modo diferenciado de pesquisa histórica ao
buscar as raízes comportamentais da estrutura social do Brasil. Foi assim na sua trilogia
mais famosa, Casa Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso, na
qual o autor conta a história do Brasil colonial, imperial e republicano sem qualquer
alusão à sucessão governamental. Freyre (2004), inclusive, introduz uma nova
metodologia para a época que é a História baseada em entrevistas realizadas com
pessoas de diferentes situações sociais, dando voz e vida ao período de transição do
Império para a República.
Ainda que Freyre seja reconhecido nacionalmente e internacionalmente por sua
obra, a História brasileira pós anos 40 vai criticá-lo muito. Principalmente porque a
teoria histórica-dialética marxista assume posição central nas universidades brasileiras e
regem os estudos em História. A centralidade dos estudos é dada aos processos
econômicos e políticos, utilizando a demografia, a estatística e a cartografia como bases
para suas justificações. Autores como Caio Prado Jr e Florestan Fernandes são
exemplos de uma posição crítica em relação à História chamada oficial, às políticas do
passado e do presente do Brasil e à situação de classes (área em que mais criticam
Freyre), trazendo em suas obras a imanência da transformação social necessária ao país.
O que pode ser chamada terceira fase reflete, principalmente, as mudanças na
História da década de 70 e que atingem o Brasil com maior força apenas a partir dos
anos 90. Trata-se de uma abertura da história nacional para diversas áreas de interesse,
envolvendo destacadamente o passado cultural do país. O interesse ampliou-se na
direção das formas de consumo, da vida privada, da etiqueta, dos costumes, dos
comportamentos, dando ao documento jornal uma importância que excede a verdade
econômica e política. O jornal passa a ser um termômetro da forma com que as pessoas
de uma dada época pensam e se comportam diante da realidade cotidiana. E muitos

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historiadores passam a enxergar novas possibilidades de pesquisa na prática e nos
produtos do jornalismo.
A História do Jornalismo
Diante do percurso de Jornalismo e História, pode-se verificar como essa união
gera dificuldades teóricas e metodológicas para os pesquisadores. O Jornalismo, um
campo que ainda precisa alicerçar-se teoricamente e discutir mais enfaticamente seu
verdadeiro objeto. Uma subárea da Comunicação transpassada por teorias e
metodologias oriundas de outras ciências sociais como Sociologia, a Lingüística, a
Cultura, os Estudos Literários, a Política, a Economia etc. Uma relação que só pode ser
avaliada diante da hibridez e na pressuposição de uma "região de retorno", sem os
limites claros se esse retorno é possível por parte dos pesquisadores e sem a delimitação
dessa região. Por outro lado a História, a primeira Ciência Humana, que passou por
inúmeras transformações diante da emergência de outras disciplinas. Uma área que
busca cientificidade nas suas relações com a Sociologia, a Lingüística ou a
Antropologia e ainda imprime a essas uma centralidade que seria sua. Mas que, por
outros autores, passa a reconhecer sua posição de igualdade com a área que estuda,
participando ativamente do processo de descentralização de qualquer disciplina como
orientadora. Um embate entre a História (com H maiúsculo) e a "história de". A
História do Jornalismo, portanto, começa da união de duas áreas que permanentemente
se chocam, visto que ambas querem alicerçar métodos e modos de observação. Uma
disputa que não envolve apenas conceitos, mas também formação dos pesquisadores,
orientação de programas de pós-graduação, congressos, revistas científicas, grupos de
pesquisa etc.
Portanto, a definição por um lado de interesse dessa disputa precisa ser
demarcado para a orientação desse texto. E é o Jornalismo a esfera escolhida para o
recorte. A História do Jornalismo, com isso, é confirmada como uma modalidade de
pesquisa do Jornalismo. A pertinência é verificar como relacionar História e Jornalismo
com vistas a responder a um interesse mais pertinente ao campo jornalístico. Trata-se de
uma busca mais difícil visto que a História vem usando largamente os produtos e os
processos do Jornalismo para responder às suas demandas de pesquisa.
Para isso, adota-se uma dupla estratégia como pressupostos norteadores: a)
considera-se hipoteticamente que o jornalismo possui uma região de retorno que precisa

14
ser melhor definida e que os estudos nessa área são capazes de constituírem teorias,
metodologias, ferramentas, hipóteses e objetivos pertinentes, capazes de delinear um
objeto próprio de estudo; b) não será considerada a História em uma versão total e que
abrange todas as esferas de pensamento das Ciências Humanas, mas como uma
possibilidade de fornecer ao jornalismo subsídios para a compreensão dele como área,
permitindo um recorte que o contemple em primazia. Ressalva-se que esses
pressupostos não são conclusões, mas possibilidades de recortar o modo de observação
e, ao mesmo tempo, uma busca por uma melhor compreensão do Jornalismo.
A união decorrente da História do Jornalismo nas pesquisas acadêmicas nem
sempre revela uma posição fixa do Jornalismo e da História como está entendido aqui
teoricamente. É possível verificar que o Jornalismo pode possuir cinco possíveis
posições nos trabalhos sobre o tema (posições que em alguns casos imbricam-se). a) Ele
é visto como um documento de comprovação, atestando fatos que aconteceram em
determinada época, registrando o comportamento da população, dos hábitos de
divertimentos ou da deficiência de um serviço público, servindo assim como dado de
resposta para as perguntas do pesquisador ao passado. b) Em muitos casos, o estudo em
história do jornalismo é justificado como a possibilidade de restaurar a memória do
campo profissional, intelectual e empresarial, sendo constituído sob a forma de
biografias (de jornalistas, donos de jornais, pesquisadores etc), história de empresas
jornalísticas, de jornais alternativos, veículos de sindicatos, partidos, governos etc,
catalogações em geral, justificação de um legado a partir da recuperação de obras
pioneiras sobre o assunto, demonstração de evoluções técnicas ou de conteúdo etc. c)
Por vezes, o processo da notícia ou o produto é tratado como objeto central de análise
em História do Jornalismo, já que o pesquisador está interessado no modo de cobertura
que o jornal realiza em uma dada época, nas estratégias que dispõe para narrar o fato, do
modo com que os sujeitos aparecem no texto, na organização empresarial das
companhias, nas possíveis formas de controle da notícia, no modo de trabalho dos
repórteres, nas diferentes formas de resposta do público etc. Nesse caso, o jornalismo é
estudado diante de um contexto dado, sem que esse contexto seja visto com maior
primazia. d) O Jornalismo também pode ser estudado como ator que interfere
diretamente na realidade verificada, buscando reconhecer como o papel dessa atividade
interfere e modifica o contexto social de um determinado período, auxiliando na
constituição de imaginários sociais e participando ativamente no processo de formação
do público, da opinião pública e da postura de outros campos sociais. e) Por fim, o

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jornalismo pode ser colocado como pressuposto teórico norteador, indicando uma
postura teórica que privilegia a formação desse campo de saber e busca utilizar e cunhar
conceitos pertinentes à área a partir do estudo do fenômeno jornalístico ao longo da
história. Nesse último caso, busca-se entender como a prática profissional, social,
cultural e teórica ao longo da história referenda um exercício anacrônico e
epistemológico para a constituição de conceitos capazes de contribuir para o
entendimento do campo jornalístico.
Já a História pode ocupar quatro posições definidas apriori quando trabalhada
com o Jornalismo. a) A História pode ocupar a posição de retorno ou origem, sendo
que, nesse caso, o pesquisador faz um movimento ao passado para buscar os
fundamentos de um dado fenômeno, por vezes, delimitando uma origem para esse
fenõmeno na sociedade. b) Em outro caso, a História pode manifestar e se justificar a
partir de uma análise cronológica das transformações que passa uma prática, podendo
receber para isso uma caracterização dialética, evolucionista ou episódica. c) Em outro
aspecto, ela pode figurar como campo de justificação ou explicação de um fenômeno do
presente ou de acontecimentos do passado que permanecem como questões abertas na
contemporaneidade. d) E, ela pode ser o pressuposto teórico norteador, capaz de
fornecer os conceitos e ancorar a pesquisa a partir de teorias que sejam próprias do seu
arcabouço, tecidas ao longo de sua história enquanto disciplina. Nota-se que essas
quatro posições da História podem ser resumidas em duas, visto que as três primeiras
tratam especificamente da relação de um fenômeno com o seu passado.
É visto que essas posições do Jornalismo e da História na pesquisa não são
estanques, cabendo ao pesquisador a dinamicidade de suas combinações e os resultados
pertinentes delas. Contudo, nem sempre as pesquisas trazem apenas referências da
História ou do Jornalismo. O que acontece é uma combinação de lentes, utilizando o
conceito de Zelizer (2004) para atestar que os pesquisadores recorrem a recursos de
outras áreas como a Sociologia, a Economia, a Política, os Estudos da Linguagem, a
Cultura etc. Nesses casos, não se trata apenas de História do Jornalismo, mas de
História Social do Jornalismo, História Cultural do Jornalismo, História Política do
Jornalismo,

História

Econômica

do

Jornalismo

etc.

Essa

necessidade

de

complementação pode ser explicada, como uma hipótese, pela dupla abertura imposta
pela união de História e Jornalismo. A primeira porque a História (seja ela considerada
como universal ou como seriada) possui a característica de agregar-se ao campo que
está auxiliando, exigindo dele parâmetros conceituais de justificação, instrumentos de

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aferição e a constituição de um objeto claro e referendado. Por outro lado, parece que o
Jornalismo ainda não conseguiu uma autonomia política e conceitual capaz de dar
plenamente essa sustentação que a História exige ao agregar-se com outra área. Isso
abre espaço para uma terceira disciplina, mais fundamentada nas Ciências Humanas e
com um maior poder de justificação alicerçado pelo volume de suas pesquisas e pela
formação de seus pesquisadores.
A relação teórica tríplice entre história, jornalismo e outra lente pode ser
representada de duas formas: por um triângulo, ou seja, em uma retroalimentação, sem
hierarquia estabelecida ou posição assumida, realizando, cada parte, contribuições
teóricas, metodológicas, no processo de delimitação de objetivos e na definição do
objeto; ou esses três vértices estariam em uma linha reta identificada com as regiões do
recorte teórico, métodos de aproximação e análise e do objeto específico. Em alguns
desses últimos casos, inclusive, o Jornalismo pode posicionar-se fora da reta, servindo
apenas como uma região de comprovação, ou seja, apenas como documento que
demonstra a existência de determinado fenômeno. Na maior parte dos casos, pelo que já
foi visto nos 202 resumos destacados como História do Jornalismo entre as 3616 teses e
dissertações defendidas nos programas de Mestrado e Doutorado em Comunicação no
país de 1992 a 2002, o Jornalismo está localizado no objeto de análise. O recorte teórico
e os métodos de aproximação ao objeto ficam sob disputa, sendo constantes as
justificativas vindas das áreas auxiliares para o aumento da aprovação diante da
comunidade científica.
Cada uma dessas combinações apresenta resultados de pesquisa diferentes e a
cada área que contribui para a História do Jornalismo, novas possibilidades teóricas e
conceituais são abertas e uma nova dinamicidade envolve o campo. Se a necessidade de
outros conceitos demonstra uma fraqueza epistemológica do Jornalismo, uma pesquisa
que consiga congregar as estratégias que cada pesquisador utiliza para se justificar, por
outro lado, pode contribuir para fortalecer o campo, identificando como o Jornalismo é
trabalhado e como ele pode ser potencializado a produzir novos conhecimentos a partir
da particularidade de sua prática.
Verifica-se que, ao tratar as fronteiras entre o pesquisador jornalista e o
historiador, acaba-se afirmando também que tipo de conhecimento a pesquisa em
Jornalismo pode oferecer. Enquanto os historiadores compartilham uma predisposição
em tratar qualquer assunto, de qualquer área sob o ponto de vista do recuo no tempo e
do recorte e com muitos interesses voltados para responder a questões pertinentes à

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História como um todo, o pesquisador em Jornalismo deve fixar sua área no fenômeno
de mediação pertinente à atividade do jornalismo na sociedade.
O pesquisador em Jornalismo precisa colocar seu interesse sob uma
predisposição de consolidação da compreensão conceitual e teórica do Jornalismo. Não
bastaria ao pesquisador interessado em fundamentar o campo tratar o Jornalismo apenas
como objeto de justificação de um tema terceiro ou como levantamento de uma
memória incapaz de contribuir mais efetivamente com o movimento de recuperação
teórica do jornalismo. O objetivo é, portanto, demonstrar a pertinência que os estudos
em História do Jornalismo possuem na compreensão teórica e prática do Jornalismo,
demonstrando que essa modalidade de investigação é um dos pilares fundamentais para
a pesquisa na área.
A pesquisa em História do Jornalismo pode responder ainda a muitos impasses
decorrentes da busca pela legitimação do Jornalismo como campo de saber. A
demarcação mais ampla do objeto do Jornalismo quando tratado pela História do
Jornalismo visa responder àqueles que definem o Jornalismo apenas como uma
profissão e àqueles que o apontam como conhecimento, mas ainda teimando em definilo apenas pelo viés da profissão. O Jornalismo não irrompe a História como uma
profissão, mas como uma atividade intelectual que envolve relações de poder e de saber,
que cria e é criado por um público e que dinamiza as concepções de cidadania, de povo,
de direitos, de liberdade, de entretenimento, de curiosidade, do presente e protagoniza a
própria consolidação da coisa pública. Como aponta John Hartley (1996, p. 33), não é
possível saber quem vem no bojo de quem: o Jornalismo ou a Modernidade. Uma
questão que cabe primordialmente ao Jornalismo investigar.
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