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História
Ensino Fundamental I

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História da família no Brasil colonial
Como o contingente de mulheres brancas vindas do Reino permaneceu reduzido durante todo o séc.
XVI e a reprodução não foi suficiente para dissipar a escassez, os colonos escolhiam as índias como
concubinas ou com elas se casavam segundo o costume da terra, raramente com elas contraindo
matrimônio segundo os ritos da igreja católica anteriores ao casamento tridentino.
Do ponto de vista dos primeiros jesuítas, o casamento segundo o costume da terra não constituía
um verdadeiro matrimônio, pois as formas indígenas de relação conjugal eram dominadas pela
poligamia. Deste modo a crítica de Manuel da Nóbrega, expressa em carta de 9 de junho de
1549, incide simultaneamente sobre a mancebia ou concubinato e sobre as alianças ao modo do
que ele entendia ser o casamento entre os índios. "Nesta terra há um grande pecado, que é terem
os homens quase todos suas negras por mancebas, e outras livres que pedem aos negros por
mulheres, segundo o costume da terra, que é terem muitas mulheres".
Ao chegar à Bahia Nóbrega ficou chocado com a miscigenação já ali existente, apesar de muitos
colonos terem sido dizimados pelos índios. Não há nenhum que deixe de ter muitas negras das
quais estão cheios de filhos e é grande mal. Embora fale genericamente, deve tê-lo impressionado
o caso de Diogo Álvares Correia, o Caramuru, dotado já de ampla família mameluca e com cinco
filhas casadas com os sobreviventes da matança feita pelos indígenas em anos anteriores.
O concubinato com índias era prática comum não só entre os brancos solteiros, mas também os
casados que tinham deixado suas mulheres em Portugal. Como escrevia de Porto Seguro a 7 de
fevereiro de 1550 o ouvidor-geral Pero Borges, muitos casados estavam amancebados com um
par ao menos cada um de gentias [...].
Combatido pelos jesuítas, punido sem demasiada severidade pelas justiças, tolerado pela sociedade
quinhentista, o concubinato com índias foi sem dúvida o responsável por contingentes numerosos
de mamelucos, sobretudo na primeira metade do século XVI.
[...]
O estatuto dos mamelucos na sociedade colonial quinhentista dependeu em grande parte do grau
de maior ou menor estruturação da família reinol. Na Capitania de S. Vicente, João Ramalho foi
o primeiro habitante português do Brasil meridional, tendo ali aportado em consequência de um
naufrágio. Vivendo entre os índios Tupiniquins, juntou-se com a filha do chefe Tibiriçá. Para o
recém-chegado Manuel da Nóbrega, o português adaptara-se perfeitamente aos costumes indígenas, nomeadamente à poligamia [...].
Dada a escassez de mulheres brancas, as mamelucas, em meados do séc. XVI, casavam facilmente
com brancos. [...]
SILVA , Maria Beatriz Nizza da. História da família no Brasil colonial.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. p.15-17.

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