Guia Histórico

Museu Arqueológico
e Etnográfico
de Paranaguá

Guia Histórico
Museu Arqueológico
e Etnográfico
de Paranaguá

Anneluize Shmeil - Fibras vegetais, plantas medicinais
Bruno Zétola - Organização, pesca artesanal, farinha de mandioca
Fernando Kowalski - Tradição ceramista, indústria pré-histórica
Fernando Tahan - Espaço Temporário, beneficiamento de grãos
Guilherme Rapetti - Construções em Madeira, beneficiamento de cana-de-açúcar
Marcos Rohr -Enterramentos pré-históricos
Tatiana Kugler - Prédio histórico, moradias

Realizado no âmbito do programa
de extensão universitária "Educação para
Cidadania", do curso de História.
Orientado pelo Prof. Dr. Dennison de Oliveira.

APRESENTAÇÃO
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
I

A proposta de elaborar um Guia Histórico do Museu Arqueológico e Etnográfico de
Paranaguá (PR) veio à voga no âmbito do programa "Educação para Cidadania", desenvolvido no
Departamento de História da Universidade Federal do Paraná. Trata-se de um empreendimento
orientado pelo Prof. Dr. Dennison de Oliveira, que tem por objetivo fomentar a articulação entre a
pesquisa acadêmica e o processo de ensino-aprendizagem. Desse projeto surgiram uma plêiade de
estudos como o Guia do Museu Paranaense e o Guia Histórico do Museu Atílio Rocco.
É aqui que entra o Museu como instituição de apoio ao professor. Mesmo sendo um
fenômeno puramente colonialista (VARINE-BOHAN: 1979), o museu deve se apresentar como o
detentor dos meios que possibilitam o aprendizado e a inserção social do indivíduo. Hughes de
Varine-Bohan apresenta a função da instituição Museu com maestria:
Em meu entender o museu atual deve ser considerado como um banco de objetos a serviço da sociedade. Este
banco de objetos tem por finalidade acumular certo número de dados sob a forma de objetos, documentos, de
duas ou três dimensões, que se reúnem, classificam, documentam, inventariam, rotulam, conservam,
restauram... de tal forma que a todo momento estão disponíveis para qualquer pessoa que tenha necessidade
de se servir deles: de se servir deles e não simplesmente vê-los. Em resumo: trata-se do museu como
instrumento. (VARINE-BOHAN: 1979, 18-19)

Corroborando as palavras de Varine-Bohan, os PCNEM estabelecem a importância a ser
dada à memória na sala de aula:
O direito à memória faz parte da cidadania cultural e revela a necessidade de debates sobre o conceito de
preservação das obras humanas. A constituição do Patrimônio Cultural e sua importância para a formação de
uma memória social e nacional sem exclusões e discriminações [sic] é uma abordagem necessária a ser
realizada com os educandos, situando-os nos "lugares de memória" construídos pela sociedade e pelos
poderes constituídos, que estabelecem o que deve ser preservado e relembrado e o que deve ser silenciado e
"esquecido".
Introduzir na sala de aula o debate sobre o significado de festas e monumentos comemorativos, de museus,
arquivos e áreas preservadas, permeia a compreensão do papel da memória na vida da população, dos
vínculos que cada geração estabelece com outras gerações, das raízes culturais e históricas que caracterizam
a sociedade humana. Retirar os alunos da sala de aula e proporcionar-lhes o contato ativo e crítico com as
ruas, praças, edifícios públicos e monumentos constitui [sic] excelente oportunidade para o
desenvolvimento de uma aprendizagem significativa. (MEC: 1998, 26-27)

Enfim, colaborar, juntamente com o professor, com a formação do cidadão, está aí a
verdadeira função do Museu. Uma instituição integrada á comunidade, não apenas um local para
visita de turistas, mas, um elo do indivíduo local a suas tradições ancestrais.
Nesse sentido, O Museu Arqueológico e Etnográfico de Paranaguá se apresenta como um
excelente objeto de estudo. Berço daquilo que um dia se transformaria no atual estado do Paraná, a
cidade de Paranaguá é em si uma grande aula de História, remontando boa parte dos processos
históricos que constituíram a História deste Estado. Seu Museu, porém, vai mais além. Rompendo
com o engodo do eurocentrismo, ele contém um acervo que remete ao modo de vida dos habitantes
da região muitos séculos antes da chegada dos europeus. Quando estes começaram a migrar em
maior número para o litoral paranaense, a partir do século XVII, sua miscigenação com a
população local engendrou uma cultura específica, amiúde chamada de "caiçara". Trata-se de uma

APRESENTAÇÃO
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

população pobre e marginalizada, que desenvolveu instrumentos e técnicas próprios para sua
subsistência. O Museu Arqueológico e Etnográfico de Paranaguá retrata de maneira soberba esse
modo de vida, que está sendo destruído ao longo das décadas pelo inexorável avanço da
industrialização e urbanização. Arqueológico e Etnográfico de Paranaguá retrata de maneira
soberba esse modo de vida, que está sendo destruído ao longo das décadas pelo inexorável avanço
da industrialização e urbanização.
Fundamental para a conscientização social frente ao desaparecimento da secular cultura
caiçara, o estudo das tradições indígena e neobrasileira deve ser difundido pelo ensino, tanto
fundamental como médio. Não apenas como meio de se estudar a cultura indígena, como também
a cultura luso-afro-ameríndia. A complexidade dos intercruzamentos sócio-raciais entre essas três
diferentes etnias, formadoras do alicerce sócio-cultural brasileiro traduz a complexidade
brasileira.
Infelizmente o Museu Arqueológico e Etnográfico de Paranaguá carrega o fardo
antropológico do relativismo. A ausência de datação, de explicações acerca da função de
determinados objetos, bem como sua inserção no contexto histórico em que foram produzidos são
notáveis no Museu através de uma rápida leitura de seu livro de visitas. Foi com o objetivo de
suprir essa expressa demanda dos visitantes por mais informações sobre o riquíssimo acervo do
Museu que se pensou na elaboração do Guia Histórico do Museu Arqueológico e Etnográfico de
Paranaguá.
O Guia está dividido em três grandes áreas temáticas. A primeira trata do edifício em que se
encontra o Museu. Antigo colégio de jesuítas, e depois quartel, sua arquitetura e a utilização que
lhe foi dada ao longo dos séculos são extremamente significativas sob a perspectiva histórica.
Nessa primeira parte também se encontram algumas exposições temporárias, que muitas vezes se
relacionam com o próprio edifício. Descendo as escadas o visitante se depara com o acervo
arqueológico do Museu, sua segunda área temática. Nesse domínio se encontram três salas que
remontam o modo de vida dos indígenas que habitavam a região. O visitante tem a oportunidade
de aprender muito sobre a indústria, a cultura e os rituais dessas sociedades. Ainda neste
pavimento, inicia-se a terceira área do Museu, relacionada à cultura caiçara. O visitante encontra
aí exposições sobre a utilização que se fazia das fibras vegetais e da madeira por essa população.
Descendo as escadas continua-se com a aula de História da Cultura Caiçara. São seis salas e
espaços que possuem um acervo relacionado ao suprimento alimentar, à saúde e aos costumes
dessa população.
Neste trabalho, cada sala ou espaço foi divida em três momentos. Primeiramente o acervo
da sala é elencado, de modo que o visitante tome conhecimento das peças que estão expostas. Em
seguida, para que seja possível uma melhor compreensão do significado de cada peça,
contextualizamos o acervo apresentado, denotando as implicações de tais objetos na vida das
pessoas e inserindo-os no momento histórico em que eram utilizados. Finalmente, há um
momento dedicado ao ensino de História e ciências afins. Fundamentamo-nos para tanto nos
Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio de 1998, talvez o mais ambicioso
documento de natureza didático-pedagógica que já se produziu no Brasil. Além de explorar as

II

APRESENTAÇÃO
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
III

virtualidades didático-pedagógicas do Museu, suscitamos aos visitantes o exercício de pensar os
espaços históricos como lugares em que se preserva uma memória em detrimento de outras. O que
se quer enaltecer e o quê se quer elidir, o que está apropriado e o quê está destoante com a proposta
de determinada sala? São perguntas que as pessoas devem começar a fazer para si mesmas pois,
através das respostas, podem desenvolver um pensamento crítico e uma experiência histórica mais
completa. Nesse sentido, o Guia ainda conta com fontes alternativas sobre os temas em pauta, para
que o visitante possa fazer comparações e desfrutar de uma reflexão mais aguçada e a aumentar
seu interesse pela disciplina que se encontra na encruzilhada das ciências humanas - a História.

SUMÁRIO
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MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Prédio Histórico ..........................................................................................
Espaço Temporário (Religião) ...................................................................
Tradição Ceramista ....................................................................................
Indústria Pré-Histórica .............................................................................
Enterramentos Pré-Históricos ..................................................................
Fibras Vegetais ...........................................................................................
Construções em madeira ...........................................................................
Pesca Artesanal ..........................................................................................
Farinha de Mandioca ................................................................................
Beneficiamento de grãos ............................................................................
Plantas Medicinais .....................................................................................
Beneficiamento de cana-de-açúcar.............................................................
Moradias ......................................................................................................
Fontes ..........................................................................................................
Serviços .......................................................................................................
Créditos das Ilustrações ............................................................................
Referências .................................................................................................

IV

PRÉDIO HISTÓRICO
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
01

No prédio, sua arquitetura é o seu acervo. Sua
construção foi iniciada e concluída no período colonial,
portanto possui características deste, como paredes
grossas feitas em pedra e rejuntadas com argila e azeite
de baleia, janelas com "namoradeiras", pé direito alto e,
por ter sido projetado para ser um colégio, um átrio. Mas
como passou por algumas reformas o edifício também
apresenta traços de arquiteturas posteriores, como
paredes recobertas com cimento, algumas janelas
incluídas depois, com formato diferenciado, e o
desaparecimento de algumas estruturas.

PRÉDIO HISTÓRICO
- Fragmentos da Antiga Capela (terceiro piso)
- Lavabo, (primeiro piso)
- Colunas de pedra, no auditório (terceiro piso)
- "Namoradeiras" das janelas
- Átrio

(lavabo)

(átrio)

(Fachada do Museu)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Destaques:

(Entrada principal do Museu)

02

PRÉDIO HISTÓRICO
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
03

O mais antigo documento que menciona a provável construção de um colégio jesuíta, na
cidade de Paranaguá, data de 1682 e se trata de uma petição da Câmara Municipal da cidade, que
solicita à Provincial da Companhia de Jesus, no Rio de Janeiro, o envio de 6 jesuítas "prometendo
lhes fazer Colégio, para suas residências, à custa do povo; dar-lhes dinheiro para a compra de
escravos e doações de terras para os seus estabelecimentos de agricultura; uma vez que dessem
eles aulas de Ensino Primário e de Latinidade, bem como ensinassem à mocidade os dogmas da
Religião" (VIANA, 1976, p.39 e TRAMUJAS, 1996, p.24). Os primeiros jesuítas chegaram a
cidade em 1697. Mas só no ano de 1708, quando os padres Antônio da Cruz e Thomaz de Aquino
chegam a vila, é fundada a "Casa Escola dos Jesuítas" e é iniciada a construção do colégio.
Em 1709, o ouvidor de São Paulo, João Saraiva de Carvalho, impede que a obra continue
sem que haja a permissão real, que foi concedida somente em 1738, mas as obras só reiniciaram em
1739, pois faltava o material e o dinheiro necessários para finalizá-la. No ano de 1752, a Casa
Escolar é transformada em Colégio, que é transferido para o novo prédio em 1754, sendo este
inaugurado no ano seguinte. As obras continuaram até 1759, quando os jesuítas foram expulsos do
Brasil, e, com as obras incompletas, o colégio foi abandonado.
Antônio Vieira dos SANTOS, citado por TRAMUJAS (1996, p.26/27), nos fala sobre a
construção do prédio:
A data canônica de sua fundação é 10 de dezembro de 1752. A transferência dos padres para a nova casa, bem
como dos serviços religiosos para a nova igreja, aconteceu em 1754. Porém, a inauguração oficial do colégio
foi realizada em 19 de março de 1755.Pensou-se em invocar a igreja à devoção de Santa Bárbara, e o colégio,
sob a proteção de Nossa Senhora do Terço. Contudo, pouco tempo tiveram os jesuítas para desenvolver as
atividades do colégio, pois, em 1759, a Ordem da Companhia de Jesus foi banida do Brasil, e os padres jesuítas,
presos e deportados. Em 19 de janeiro de 1760, foi procedida a ação de seqüestro dos seus bens em Paranaguá.

O desembargador Serafim dos Anjos Pacheco de Andrade veio a Paranaguá para confiscar
os bens e proceder o inventário, principalmente do colégio, apresentando-se à Câmara na vereança
de 4 de junho de 1760,
acompanhado do capitão
Antonio Ferreira Matoso,
depositário geral do mesmo
confisco. Nesta mesma
visita foram seqüestradas as
fazendas do Superagüi,
Emboguaçu, Rio Cubatão e
Borda do Campo, e demais
terras pertencentes aos
jesuítas. Em 1766, dom Luiz
Antonio de Souza relata o
abandono dos bens e sugere
a sua venda.
(Antes do aterramento o prédio ficava às margens do Itiberê)

PRÉDIO HISTÓRICO
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Depois que os jesuítas foram expulsos do território brasileiro, a primeira reforma se deu
com o Tenente Coronel Afonso Botelho de Sampaio e Souza (construtor da Fortaleza da Barra, na
Ilha de Mel) no ano de 1768. Este transformou o prédio em sua residência e escritório e promoveu
uma reforma, abrindo janelas e modificando seu interior.
Instalada provisoriamente no prédio do antigo colégio em 1827, a Alfândega utilizou o
primeiro e o segundo andares para o depósito de mercadorias, e o terceiro para acomodar os
escritórios, onde trabalhavam o despachante geral, o escrivão,
o amauense, os guardas e outros funcionários.
A segunda reforma do edifício se deu em 1830,
quando, na ala sul se instalou a Guarda Nacional. Nesta ala
foram construídas novas paredes e trocado seu telhado, para
que a maioria de suas salas pudessem servir de residência para
os militares, e as restantes fossem utilizadas como celas e
(Medidas, utilizadas para
depósito.
conferência pela âlfandega)
Com a criação do IPHAN em 1937, o edifício é tombado como Patrimônio Histórico
Nacional no ano seguinte e vinte anos depois foi feito um convenio entre a diretoria do Patrimônio
Histórico Artístico Nacional e a reitoria da Universidade Federal do Paraná para que nele fosse
instalado um museu, sob a direção do professor Doutor José Loureiro Fernandes. O prédio ficou
fechado para uma grande (e terceira) reforma que fez algumas alterações e o restaurou por
completo entre 1958 e 1962, quando transformou-se em Museu de Arqueologia e Artes Populares
de Paranaguá. Atualmente, chama-se Museu Arqueológico e Etnográfico de Paranaguá, tendo
como proposta fundamental a exposição das coleções arqueológicas e etnográficas, com um
enfoque na evolução nas técnicas utilizadas pelo homem desde a pré-história, na produção de
alimentos e artefatos.

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PRÉDIO HISTÓRICO
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
05

Ensino de História
Tivemos oportunidade de constatar que, apenas um ano após ser criado o Instituto
Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o prédio em que hoje se
encontra o Museu Arqueológico e Etnográfico de Paranaguá foi tombado como patrimônio
histórico nacional. Tal fato se justifica ao
lembrarmos que sua imponente arquitetura
serviu a diversas utilizações ao longo da
História, fazendo com que o valor histórico
agregado seja deveras significativo. Assim, o
próprio edifício possui uma expressiva
potencialidade didático pedagógica para o
ensino de História. Afinal, não há nada melhor
que um Museu para desenvolver aquilo que
sugerem os PCNs:
(As grossas paredes eram necessárias
à arquitetura da época)
O direito à memória faz parte da cidadania cultural e revela a necessidade de debates sobre o conceito de
preservação das obras humanas. A constituição do Patrimônio Cultural e sua importância para a formação
de uma memória social e nacional sem exclusões e discriminações é uma abordagem necessária a ser
realizada com os educandos, situando-os nos "lugares de memória" construídos pela sociedade e pelos
poderes constituídos, que estabelecem o que deve ser preservado e relembrado e o que deve ser silenciado e
"esquecido". (MEC: 1998; p. 26)

Nesse sentido, um interessante exercício de reflexão seria
pensar acerca do próprio tombamento do prédio em 1938. Por que se
começou a valorizar o patrimônio histórico e artístico nacional no
segundo lustro da década de 1930? Qual era o contexto sócio-político
da época e qual a importância de se voltar os olhos para a História e a
(Placa de tombamento
produção artística do Brasil?
do edifício do Museu)
Outro ponto que os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio de 1998,
colocavam era a construção da identidade pessoal como fundamental para a formação do aluno
de Ensino Médio. Considerando isto propunha:
O ensino de História pode desempenhar um papel importante na configuração da identidade, ao incorporar
a reflexão sobre a atuação do indivíduo nas suas relações pessoais com o grupo de convívio, suas
afetividades, sua participação no coletivo e suas atitudes de compromisso com classes, grupos sociais,
culturas, valores e com gerações do passado e do futuro. (MEC, 1998, p.22)

PRÉDIO HISTÓRICO

(Nessa pintura de Debret, da década de 1820, vê-se ao fundo a vila de Paranaguá, e o prédio do Museu)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Um museu é um lugar ideal para que seja iniciada, ou consolidada, a formação da
identidade pessoal no aluno. Através de sua arquitetura e de seu acervo, o estudante passa a
conhecer melhor a história local, que pode ter feito parte da vida de seus ancestrais. Tendo contato
com este passado, quem visita as salas do museu pode reconhecer como os habitantes desta região
viviam em sociedade, como produziam sua alimentação e seus artefatos e quais os traços de sua
cultura, neste caso a indígena e a caiçara, e através deste contato perceber que este conhecimento
não só favorece, como se torna fundamental para que o indivíduo possa construir sua identidade. A
relação presente/passado, em suas continuidades e rupturas, é aguçada quando nos encontramos
em um Museu. Dessa forma, a experiência histórica se torna mais significativa, favorecendo a
construção da identidade e a reflexão. Nesse sentido, poder-se-ia sugerir uma atividade
considerando que o prédio do Museu fora um antigo colégio jesuíta. Portanto, pode-se pedir aos
alunos que visitam o Museu para comparar, sob diversas perspectivas, o antigo colégio jesuíta
com o colégio em que estudam.

06

EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
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A exposição temporária dedicada à História
religiosa de Paranaguá é constituída em sua maior parte
por uma coleção de objetos de caráter sagrado,
caracterizando a tradição eclesiástica. Grande parte
desses objetos foram doados ou fornecidos
temporariamente pelo Colégio Jesuíta Medianeira e
outra parte por administradores das paróquias de
Paranaguá. Os objetos retratam a tradição da Igreja
católica romana, principalmente destacando a ordem dos
jesuítas , que abrange a maior parte do acervo.

EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA
- Missal (livro de orações)
- Turíbulo(instrumento para queima de incenso)
- Cruz (símbolo maior do catolicismo romano)
- Castiçal
- Paramento ( vestimenta instituída pelo Concílio de Trento)

(Paramentos)

(Missal, cruz e outros intrumentos litúrgicos)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Destaques:

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EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
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A religião sempre exerceu um forte papel sobre a comunidade de Paranaguá. Quando o
pequeno vilarejo se transferiu da ilha da Cotinga para o continente, ganhou seu primeiro templo
religioso, a Igreja Nossa senhora do Rosário, hoje a mais antiga do Paraná (TRAMUJAS: 1996,
27). Supõe-se que a fundação da Igreja date depois de 1560, mas não há nenhuma certeza da
memória do ano de sua fundação.
A necessidade da construção de um templo religioso surge a partir do momento da chegada
de exploradores de mina de ouro, que sendo católicos romanos, exigiam uma Igreja e um
sacerdote. "A exemplo de tantos outros núcleos povoados e colonizados pelos portugueses,
Paranaguá mostra toda a profunda religiosidade de seu povo. As tantas centenárias igrejas
existentes na cidade mostram a influência que a Igreja exerceu sobre os povoados e seus
descendentes'' (TRAMUJAS: 1996, 27).
A religiosidade do povo de Paranaguá apresenta particularidades interessantes. Essas
particularidades decorrem da hierarquia do sagrado e da noção de agradecimento. Parece inegável
que, dentro da hierarquia do sagrado, os santos protetores, são bem menos significativos para o
caiçara que as datas relativas às festas do senhor (SILVA: 1993, 54)
A partir do final do século XVII, a Vila de Nossa Senhora do Rosário começa a ganhar
destaque entre seus habitantes.A cooperação da comunidade parnanguara com a igreja é refletida
no próprio aspecto da
igreja, que a partir do
empenho de seus
habitantes
elevou-se à
categoria de catedral. Em
1682, os moradores
solicitam a vinda de padres
jesuítas aptos aos
ensinamentos religiosos às
crianças. Nessse período,
os jesuítas possuíam
grande destaque no papel
de educação que incluía o
ensino do latim. O primeiro
(Fragmentos da antiga capela Nossa Senhora do Terço)
registro da vinda de jesuítas
a Paranaguá data de 1679.
Em maio de 1708, começou a construção do Colégio Jesuíta de Paranaguá e em março de
1755 foi inaugurado. É pertinente enfatizar que as atuais instalações do Museu Arqueológico de
Paranaguá estão sobre um antigo Colégio Jesuíta.

EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

O decreto de Marques de Pombal expulsando os jesuítas do Brasil, em meados do século
XVIII, acarreta o abandono completo do colégio e da educação jesuíta durante um período em
Paranaguá. As ordens religiosas que tiveram a função de disseminar a "boa nova" entre os
habitantes locais, além dos jesuítas foram os franciscanos, da Congregação de São Francisco
Xavier, chegada em 1732; os carmelitas, da Ordem de Nossa Senhora do Monte Carmelo, em
1753, os josefinos, da congregação de São José, em 1914; os redentoristas, da Congregação do
Santíssimo Redentor, em 1945.
Paranaguá foi palco de grandes eventos e festividades históricas que contavam com o
consentimento sagrado dos clérigos. É na igreja matriz que aconteceram as solenidades em honra
ao rei dom João IV, e à rainha Dona Maria de Portugal em 1816. Em 1822, a igreja foi o local para
a realização do ato local de aclamação de Dom Pedro I, como primeiro imperador do país.
Atualmente, a devoção pela religião católica é expressa durante a festa da padroeira do Paraná,
Nossa Senhora do Rocio, celebrada em novembro, e que se constitui no maior evento anual da
cidade.

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EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

.Ensino de História
Os Parâmetros Nacionais Curricularaes do Ensino Médio de 1998 demonstram que o
tempo é determinado pela participação do homem em algum grupo social, podendo ser
manifestado através das religiões.
O tempo construído pelas diversas culturas é muitas vezes expressa nos mitos, destacando-se os que se referem
às origens do universo e do homem , e nas religiões, que ultrapassam os tempos passado e presente e
determinam o tempo de possíveis vidas futuras, construindo o tempo salvacionista ou escatológico. As
sociedades agrárias organizaram a vida cotidiana pelo templo cíclico , fixado pelos momentos da plantação e
da colheita e pelas estações que se repetem anualmente, e vincularam o tempo cotidiano, com seus ritmos de
mudança , ao astronômico, criando calendários, referenciando as marcas dos acontecimentos diários e daqueles
considerados significativos para a memória coletiva. Pode-se então compreender o tempo cronológico como
instrumento de marcação e datação e entender como a cultura ocidental cristã criou seu próprio calendário .
sobre o calendário gregoriano que marca os nossos tempos , é importante considerar as formas como ele está
organizado: ''O calendário gregoriano pode ser representado por uma linha contínua e infinita . Envolve a
compreensão de que cada um dos pontos dessa linha é distinto dos outros e que cada ponto corresponde a uma
datação. As datações são, assim, distintas umas das outras, especificando um dia, um mês e um ano . Apesar
dos números dos dias e nomes dos meses se repetirem de um ano para o outro, a numeração nunca se repete, o
que torna cada data um momento único e sem possibilidade de repetição no tempo . (MEC: 1998; 23)

O espaço reservado ao passado religioso de Paranaguá permite ao estudante refletir sobre o
papel importante da identidade. Através do acervo, os jovens do ensino médio tem a possibilidade
de desvendar a atuação do indivíduo nas relações com o coletivo. O catolicismo romano é uma
identidade que não pode ser descartada nem no tempo passado como no tempo presente.
Sem dúvida alguma, o catolicismo romano é a maior expressão religiosa da comunidade
parnanguara. Por isso, é justo que o acervo atribua grande ênfase ao catolicismo romano. Mas é
falho, na medida que não dá espaço a outras comunidades religiosas que estão há anos compondo a
identidade de Paranaguá. O museu necessita expor as contribuições de outras religiões, pois dessa
forma estaria proporcionando a percepção da alteridade, da diferença ("o outro") e da semelhança
("nós").
A coleção sacra é um apoio, do qual o aluno do ensino médio pode usufruir através de
questionamentos. Um exemplo disso é o missal (livro de orações), que leva o aluno a refletir acerca
de um objeto que tem a finalidade de
expressar o aspecto de comunicação de
uma coletividade, além de ser uma
representação do mundo social que gira
em torno de um instrumento que é
recitado pela grande maioria dos
habitantes locais. Nesse sentido,
percebe-se uma relação da história com
as ciências sociais.

(Missal e cruz)

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EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

A cruz é outro exemplo que pode ser associado à interdisciplinaridade. O fator simbólico
do mais aclamado objeto de culto do catolicismo leva os alunos a interpretar o símbolo pelo seu
contexto histórico, antropológico e no sentido das Artes. Histórico focalizando sua tradição;
antropológico no sentido de seu significado ritual e artístico pelas diferentes formas que é
retratado.
Assim, poderíamos sugerir uma atividade que privilegiasse a noção de diacronia sob o
prisma cultural, do qual a religião faz parte. Um bom exercício seria questionar os alunos quais as
diferenças entre os cultos religiosos de antigamente e os atuais. Antigamente havia um monopólio
católico da fé. Atualmente há um verdadeiro "mercado da fé", com a disseminação de inúmeros
cultos e crenças. Ademais, o próprio cristianismo se modificou. Outra atividade que poderia ser
realizada aqui é a comparação entre o culto católico de outrora com o atual.

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TRADIÇÃO CERAMISTA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
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O acervo da sala de Tradição ceramista mostra
alguns objetos utilizados pelos antigos habitantes do
litoral paranaense. Se encontram objetoss relacionados
principalmente aos hábitos alimentares. Também se
explica um pouco acerca das técnicas de fabricação da
cerâmica.

TRADIÇÃO
CERAMISTA
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA

(Panela bojuda, à esuqerda e
cuscuzeiro, à direita)

(Fragmentos de tradição ceramista)

(Utensílios de cerâmica utilizados pelos paleoíndios)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Destaques:
- cuscuzeiro
- panela bojuda
- fragmentos de tradições ceramistas

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TRADIÇÃO CERAMISTA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
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Papel importantíssimo apresentou para a civilização, o uso e aprimoramento da cerâmica.
Desde a pré-história, o homem demonstra seu perfil laborioso e, o descobrimento da cocção do
barro foi uma característica que corrobora esta afirmação.
Vista pelos arqueólogos, como um sinal evidente de sedentarismo (MEGGERS: 1979, 54),
a confecção de utensílios cerâmicos obviamente não foi explorada por todos os grupos humanos.
Um bom exemplo se dá nas Américas, onde grupos ceramistas e pré-ceramistas alternam-se,
durante a história, na ocupação de um mesmo território. E, no litoral paranaense, o grande exemplo
da boa adaptação desses grupos, muitas vezes considerados menos evoluídos culturalmente que os
ceramistas, se encontra em alguns grupos sambaquieiros, como os que erigiram os Sambaquis do
Guaraguaçu (MENEZES: 1976), localizados poucos quilômetros ao sul de Paranaguá, próximo ao
rio de que herdaram o nome.
Entretanto, não podemos descrever o grau de complexidade de um grupo humano apenas
pelas simples características de nomadismo ou desenvolvimento de tal ou qual indústria. Cada
ajuntamento de indivíduos buscou se adaptar a certo local, de acordo com sua melhor comodidade.
Os nômades encontraram uma saída para o não desenvolvimento de um modo de vida salubre
durante todo o decorrer do ano: a busca de região mais favorável. Já os grupos sedentários
encontravam maneiras de explorar melhor seu território, buscando alimentos alternativos ou
aprimorando meios de conservação dos mesmos.
É aqui que entra a cerâmica. Usada como recipiente de armazenamento, ou como
instrumento de preparação de alimentos, os utensílios cerâmicos apresentavam-se como auxiliares
benfazejos ao ser humano. Usados como panelas, copos, silos e até instrumentos de uso religioso
ou adornamentos, a cerâmica era marca característica de certos agrupamentos humanos.
Fundamental para a investigação arqueológica onde
(...) a cerâmica (...) assume um papel maior (...) por três razões principais: (1) é demasiado frágil para ser
facilmente transportada e, portanto, constitui um indicador seguro da adoção de vida sedentária; (2) é
passível de extraordinária variação, sem perda de sua utilidade funcional, tornando-se um índice sensível de
correlação cultural e de mudança na complexidade social; (3) é ultrapassada em durabilidade apenas pela
pedra, e, em conseqüência, vem a ser a principal evidência cultural sobrevivente em muitas partes das
Américas. (MEGGERS: 1979, 54)

Em território brasileiro, pode-se dividir, grosso modo, a indústria cerâmica em três grandes
fases:
1. Fase pré-histórica ou indígena. Caracterizada pelo uso de técnicas bastante rudimentares
de confecção: como a utilização de pedras, madeira e conchas durante seu feitio; incrustações de
conchas, gravações na cerâmica ainda úmida e pintora simples (excetuando-se a cerâmica
policrômica marajoara); cozimento através de fogueiras, resultando em uma queima imperfeita.
Essa primeira fase também se caracteriza pela grande variedade de utensílios e fins para estes. O
uso de cerâmica é bastante difundido na religião (como na preparação de poções e beberagens em
vasilhames rituais e na utilização de urnas funerárias confeccionadas em cerâmica), como adereço
e até como brinquedo (bonecas e representações de animais). (FUNARI e NOELLI : 2002)

TRADIÇÃO
CERAMISTA
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

2. Fase neobrasileira. O contato entre indígenas e europeus (séc. XVI), além dos africanos,
fez com que técnicas e estilos se mesclassem. O uso do torno, para a modelagem, e de fornos, para
o cozimento das peças, começa a se difundir. Há, também, uma gradual perda do caráter
ritualístico da cerâmica, aumentando seu caráter prático, com a difusão de novos instrumentos, até
então desconhecidos dos indígenas (chaleiras, panelas com asas e cuscuzeiras). No que concerne
ao adornamento das peças, este continua bastante precário. Relevos menos complexos e a pintura
com engobo vermelho, ou "taguá" (aplicação de um tipo de argila bastante diluído em água,
aplicado com a peça ainda úmida para dar coloração diferenciada (LOUREIRO FERNANDES:
1996, 38), são outros caracterizadores dessa fase que, por sinal, ainda sobrevive em algumas
partes do litoral brasileiro.
3. Fase moderna ou industrial. Marcada por técnicas apuradas: fornos modernos para o
cozimento da cerâmica, tornos e formas, esmalte usado como acabamento. Verifica-se uma
reanimação do caráter estético da cerâmica (vasos, jogos de jantar, enfeites...).
O litoral paranaense é um dos últimos redutos da tradição neobrasileira de produção
cerâmica, onde poucas artesãs ainda sobrevivem. Predominantemente feminina, a atividade de
ceramista preserva essa raiz indígena, delegando ao homem, as atividades de coleta de barro e
lenha, além do cozimento das peças. Em 1944, o saudoso antropólogo José Loureiro Fernandes
estudou a produção ceramista no texto "Indústrias Locais", recentemente publicado, juntamente
com alguns outros trabalhos organizados por Zulmara Posse (1996), pela Editora da UFPR. Este
texto, embora bastante breve e sem uma abordagem crítica, auxilia a compreensão dessa atividade
e de sua magnitude, intrínseca na tradição cultural caiçara.
Com um acervo representativo de cerâmica neobrasileira, o
Museu de Arqueologia e Etnologia possui um papel fundamental
da difusão do conhecimento sobre a secular tradição caiçara.
Instrumentos marcados por sua praticidade, utilizados no preparo
da alimentação salientam o caráter usual dessa fase da indústria
ceramista. A presença do cuscuzeiro, vasilhame utilizado na
preparação de cuscuz "(...) prato culinário à base de milho ou
mandioca (...) indica a influência também de africanos na formação
da população neobrasileira." (CHMYZ: 1995, 36)
A atividade de confecção da peça cerâmica neobrasileira é
(Cuscuzeiro)
bastante complexa, pois exige força e perícia. Inicialmente força,
devido à preparação do barro através de golpes para melhorar sua maleabilidade, e após isso,
perícia ganha através dos anos. Durante o feitio, a artesã molda a peça através da montagem de
pequenos cilindros de argila, chamados de "rodilhas", superpostos de acordo com o tamanho da
peça. Ferramentas como pequenas tábuas e pedras para auxiliar na modelagem, tiras de couro,
cascas de coco e até sabugos de milho para tornar lisa, a "cortadeira", para perfurar a peça, são
utilizadas pelas hábeis mãos das ceramistas. Atualmente, o uso do torno é bastante difundido, o
que facilita, mesmo descaracterizando, o trabalho de modelagem.

16

TRADIÇÃO CERAMISTA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
17

Ensino de História
O próprio Ministério da Educação observa a utilidade de se estudar aspectos e elementos
até então não abordados pela história tradicional, vislumbrando-os com o devido merecimento
histórico:
A história social e cultural tem se imposto de maneira a rearticular a história econômica e a política,
possibilitando o surgimento de vozes de grupos e de classes sociais antes silenciados. Mulheres, crianças,
grupos étnicos diversos têm sido objeto de estudos que redimensionam a compreensão do cotidiano em suas
esferas privadas e políticas, a ação e o papel dos indivíduos, rearticulando a subjetividade ao fato de serem
produto de determinado tempo histórico no qual as conjunturas e as estruturas estão presentes. (MEC: 1998,
p. 21)

É um novo ramo desperto com o alvorecer, na França, da Nova História. Uma escola
historiográfica que nivelou a memória dos esquecidos à dos poderosos. Essa história não é mais
feita apenas por documentos escritos, mas, com a ajuda da Antropologia, por instrumentos,
habitações e até pelos próprios indivíduos. Nota-se, mais uma vez, o destaque dado a esse aspecto:
"A investigação histórica passou a considerar a importância da utilização de outras fontes
documentais, além da escrita, aperfeiçoando métodos de interpretação que abrangem os vários
registros produzidos". (MEC: 1998, p. 21)
A escola como um meio de interação. Os alunos, por que não, cercados de livros, mas, também,
interagindo com diferentes comunidades e, até, culturas. Podendo tocar na realidade, ver e
conversar com produtores de cultura. Aqui se destaca a integração entre Escola e Museu, História e
Antropologia.
Um dos grandes meios de se estudar a cultura de um determinado aglomerado humano é a
análise de sua alimentação. As diferentes formas de armazenamento e preparo de alimentos
diversos contribuem para uma melhor compreensão da humanidade. Instrumentos de preparo e
armazenamento usados por
certa comunidade pode ser
totalmente desconhecida, bem
como seus alimentos, de um
grupo vizinho.

(Potes de cerâmica)

TRADIÇÃO
CERAMISTA
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Diferenças climáticas foram as grandes responsáveis por esse desconhecimento. Plantas e
animais, com seus respectivos nichos ecológicos, influenciam sobremaneira a alimentação do ser
humano. O domínio da agricultura, e a domesticação de certos animais resolveu em parte esse
problema, tornando algumas práticas comuns a várias comunidades.
Observemos alguns pratos considerados típicos de alguma regiões brasileiras. O cuscuz,
de origem africana, para ser cozido, precisa de um recipiente de barro com furos no fundo, para
que o vapor o atinja. Pesquisemos, então, outro pratos que são preparados com utensílios de
cerâmica e identifiquemos contribuições culturais dos diversos povos formadores do brasileiro
moderno.

18

INDÚSTRIA PRÉ-HISTÓRICA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
19

A sala de indústria pré-histórica expõe alguns
objetos fabricados por indígenas durante a pré-história
brasileira. São materiais fabricados em conchas, em
pedras e em ossos, que serviam a esses povos para as
atividades cotidianas.
.

INDÚSTRIA PRÉ-HISTÓRICA
- perfuradores
- faca
- raspadores
- pontas de projéteis

(Pontas de projéteis)

(perfuradores)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Destaques:

(Lâmina de machado)

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INDÚSTRIA PRÉ-HISTÓRICA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
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Corriqueiramente se pensa que a História do Brasil tem início com o descobrimento
europeu. Tal fato advém da grande exaltação que se faz à cultura estrangeira, européia
principalmente, em detrimento de uma valorização das nossas próprias peculiaridades. Esse é o
engodo do eurocentrismo. Não que se deva exaltar despudorada e desmesuradamente aquilo que
foi produzido aqui. Trata-se apenas de se lhe conferir sua devida valorização.
A história social e cultural tem se imposto de maneira a rearticular a história econômica e a política,
possibilitando o surgimento de vozes de grupos e de classes sociais antes minimizados. Mulheres, crianças,
grupos étnicos diversos têm sido objeto de estudos que redimensionam a compreensão do cotidiano em suas
esferas privadas e políticas, a ação e o papel dos indivíduos, rearticulando a subjetividade ao fato de serem
produto de determinado tempo histórico no qual as conjunturas e as estruturas são valorizadas. (MEC: 1998;
21)

Durante o século XVI, com a chegada dos portugueses, a costa paranaense era habitada por
povos da família lingüística Tupi-guarani. No litoral de Guaraqueçaba, segundo Romário Martins
(1937), habitavam os Tupiniquins, índios junto aos quais esteve aprisionado o alemão Hans
Staden, por volta da metade do Século XVI. Estes "viviam em boa harmonia com portuguêses de
São Vicente" (MARTINS: 1937, 47-48). Mais ao sul "havia uma tribu de selvagens chamados
Carios (Carijós) e que deviamos nos acautelar contra eles" (STADEN: 1552), nas palavras de Hans
Staden, europeu que descreveu, horrorizado, o ritual antropofágico dos Tupiniquins.
Ambos os grupos indígenas eram sedentários, ceramistas e dominavam a agricultura. E,
hoje, conhecemos os Carijós por Guaranis, grupo que dominava quase todo o território
paranaense, juntamente com grupos da família lingüística Jê.
"Atacados e preados em grandes levas na região de Paranaguá pela 'bandeira' de Jerônimo
Leitão, em 1585 (...)" (MARTINS: 1937, p. 40), os Carijós foram avessos à chegada da comitiva de
Gabriel de Lara, em 1640, tanto
que este estabeleceu o núcleo
original que daria origem à Vila
de Nossa Senhora do Rosário, na
ilha da Cotinga. "Tendo captado
a confiança dos índios, deles se
servio para a descoberta e a
exploração de ouro. Assim foi
que os carijós da costa
paranaguense que não foram
escravizados pela 'bandeira'
preadora ou que não se
internaram no sertão fugindo a
(Disco de osso de baleia)
outras agressões dos brancos,
passaram a constituir o lastro da nossa população litorânea." (MARTINS: 1937, p. 40)

INDÚSTRIA PRÉ-HISTÓRICA

(...) ferramentas usadas para as mais variadas tarefas e que, por isso, podem nos informar muito sobre a caça,
a pesca, a agricultura [quando existente] e a tecnologia para transformar materiais brutos em bens
manufaturados, para construir habitações ou para remodelar os terrenos onde eram instaladas aldeias (...).
Em alguns casos (...) possuíam um papel simbólico ou artístico e que podem nos dizer algo sobre os valores
e gostos de um grupo que viveu no passado e os produziu. (FUNARI e NOELLI : 2002, p. 16)

Instrumentos como facas de pedra ou osso, raspadores,
buris e machados líticos, além de pontas de projéteis ou
instrumento de concha, são numerosos no acervo do museu, e
mostram-nos um pouco da vida material dos indígenas e paleoíndios (grupos pré-históricos sem identificação de tribo ou
família lingüística, como nos índios modernos) que aqui
habitavam. Outro lado a ser notado, é o da vida religiosa ou
social dos indivíduos que confeccionaram estes objetos.
Adornos podem nos sugerir o que poderia ser uma possível
religião paleo-indígena.
(Pontas de projéteis)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Contudo, o litoral paranaense era habitado desde muitos anos antes da chegada dos
portugueses ao Brasil. Grupos denominados "sambaquieiros" incursionavam pela costa do
Paraná desde pelos menos 2 mil anos a. C.
Nômades, estes grupos indígenas não conheciam a cerâmica, sendo designados pela
Arqueologia, de pré-ceramistas. Responsáveis por erigir esses enormes montes de conchas, os
grupos sambaquieiros viviam em seus topos, onde se alimentavam, confeccionavam seus
utensílios e enterravam seus mortos. Nas regiões litorâneas ainda podemos observar a
grandiosidade dessas obras pré-históricas, como é o caso do complexo do Guaraguaçu, conjunto
de três sambaquis localizados nas proximidades de Paranaguá e pesquisados pela Arqueologia
durante a década de 1960. (MENEZES: 1976)
As ferramentas utilizadas por esses grupos pré-ceramistas limitavam-se a instrumentos
líticos, além dos confeccionados em osso e conchas. Devido às condições climáticas da região,
que favoreciam a decomposição de materiais mais frágeis, eram os únicos a emergirem através da
pesquisa arqueológica. Eram as

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INDÚSTRIA PRÉ-HISTÓRICA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
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Ensino de História
A sala Indústria Pré-Histórica mostra um pouco da vida material e transcendental dos
antepassados destes povos que foram "absorvidos" pelo processo exploratório europeu. Todavia,
deve-se ressaltar que os índios possuíam sociedades algumas vezes bastante complexas. Embora
não documentada, possuíam sim uma História. Estruturas culturais tão densas possuíam estes
povos que seu legado, por exemplo, nos é ainda bem forte no que diz respeito à linguagem.
Tamanha foi a influência do linguajar Tupi-guarani, que muitas palavras do português do Brasil
têm origem dele - abacaxi, Curitiba, Paraná, Paranaguá e muitas outras. Alguns hábitos como o
plantio pelo método da coivara e o uso alimentar da mandioca ou do milho, também são influências
indígenas. Desta forma, a sala aponta para reflexões importantes sobre as versões possíveis de
História, em especial no que concerne aos povos que não possuíam a escrita. Sua História pode ser
remontada através de vestígios arqueológicos. Os sambaquis, por serem os locais onde habitavam
muitos grupos indígenas, constituem-se num local riquíssimo para o estudo dessas sociedades. A
sala de Indústria Pré-Histórica pode, assim ser utilizada para se questionar acerca do papel da
escrita como primordial no estudo da História, como sugerem os PCNs.
O livro do Gênesis determina que o homem surgiu na face da Terra há aproximadamente seis mil anos e esta
datação, mesmo relativizada após as teorias evolucionistas e o desenvolvimento dos trabalhos
arqueológicos, situa a visão antropocêntrica da história que estabelece, ainda fortemente, a divisão do antes e
depois da escrita como marco decisivo para a compreensão do passado da humanidade. (MEC: 1998; 24).

Hoje pode nos parecer
repulsivo viver sobre uma montanha
de lixo, mas para os povos
sambaquieiros, essa estratégia se
mostrou bastante vantajosa. Os
sambaquis eram, geralmente, locais
temporários de habitação, onde os
paleo-indígenas construíam suas
aldeias nas épocas mais propícias do
ano no que concerne à coleta de
moluscos sua base alimentar quando
no litoral.
(Faca confecionada de costela de baleia)
Com o passar das estações e
das gerações, os amontoados de conchas de moluscos foram aumentando e ocupando um espaço
importante na aldeia. Habitações são construídas em locais mais elevados devido ao acúmulo dos
resíduos. Essa elevação do terreno se torna providencial, pois dessa forma, a aldeia pode se
proteger melhor de possíveis inimigos e das próprias intempéries devido ao bom escoamento de
água que os resíduos calcários possibilitam.

INDÚSTRIA PRÉ-HISTÓRICA

Nesse sentido os PCNs afirmam que:
As concepções políticas e as referentes às ações humanas nos espaços público e privado, assim como as
relações homem-natureza, estão sendo modificadas. Os paradigmas científicos que sustentavam as bases
fundamentais dessas concepções estão sendo questionados e colocados em cheque pelas realidades que
glorificam o novo tecnológico, mas não solucionam problemas antigos, como as desigualdades,
preconceitos, dificuldades de percepção do "outro" e as diversas formas de convivência e de estabelecimento
de relações sociais. (MEC: 1998; 20).

Façamos, então, uma reflexão sobre os conceitos de primitivo e civilizado, observando o
conveniente exemplo dos edificadores de sambaquis.

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Podemos pensar que essa é uma estratégia usada por um povo considerado como
primitivo, mas muitos urbanistas contemporâneos a vêem como uma saída barata para as
crescentes populações dos grandes centros urbanos. Boa parte da cidade de Nova Iorque foi
erigida sobre montes de lixo e, em muitos países da Ásia, centros de recreação, como campos de
golfe, são construídos sobre antigos lixões.

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TRADIÇÃO CERAMISTA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
13

O acervo da sala de Tradição ceramista mostra
alguns objetos utilizados pelos antigos habitantes do
litoral paranaense. Se encontram objetos relacionados
principalmente aos hábitos alimentares. Também se
explica um pouco acerca das técnicas de fabricação da
cerâmica.

TRADIÇÃO
CERAMISTA
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA

(Panela bojuda, à esquerda e
cuscuzeiro, à direita)

(Fragmentos de tradição ceramista)

(Utensílios de cerâmica utilizados pelos paleoíndios)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Destaques:
- cuscuzeiro
- panela bojuda
- fragmentos de tradições ceramistas

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TRADIÇÃO CERAMISTA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
15

Papel importantíssimo apresentou para a civilização, o uso e aprimoramento da cerâmica.
Desde a pré-história, o homem demonstra seu perfil laborioso e, o descobrimento da cocção do
barro foi uma característica que corrobora esta afirmação.
Vista pelos arqueólogos, como um sinal evidente de sedentarismo (MEGGERS: 1979, 54),
a confecção de utensílios cerâmicos obviamente não foi explorada por todos os grupos humanos.
Um bom exemplo se dá nas Américas, onde grupos ceramistas e pré-ceramistas alternam-se,
durante a história, na ocupação de um mesmo território. E, no litoral paranaense, o grande exemplo
da boa adaptação desses grupos, muitas vezes considerados menos evoluídos culturalmente que os
ceramistas, se encontra em alguns grupos sambaquieiros, como os que erigiram os Sambaquis do
Guaraguaçu (MENEZES: 1976), localizados poucos quilômetros ao sul de Paranaguá, próximo ao
rio de que herdaram o nome.
Entretanto, não podemos descrever o grau de complexidade de um grupo humano apenas
pelas simples características de nomadismo ou desenvolvimento de tal ou qual indústria. Cada
ajuntamento de indivíduos buscou se adaptar a certo local, de acordo com sua melhor comodidade.
Os nômades encontraram uma saída para o não desenvolvimento de um modo de vida salubre
durante todo o decorrer do ano: a busca de região mais favorável. Já os grupos sedentários
encontravam maneiras de explorar melhor seu território, buscando alimentos alternativos ou
aprimorando meios de conservação dos mesmos.
É aqui que entra a cerâmica. Usada como recipiente de armazenamento, ou como
instrumento de preparação de alimentos, os utensílios cerâmicos apresentavam-se como auxiliares
benfazejos ao ser humano. Usados como panelas, copos, silos e até instrumentos de uso religioso
ou adornamentos, a cerâmica era marca característica de certos agrupamentos humanos.
Fundamental para a investigação arqueológica onde
(...) a cerâmica (...) assume um papel maior (...) por três razões principais: (1) é demasiado frágil para ser
facilmente transportada e, portanto, constitui um indicador seguro da adoção de vida sedentária; (2) é
passível de extraordinária variação, sem perda de sua utilidade funcional, tornando-se um índice sensível de
correlação cultural e de mudança na complexidade social; (3) é ultrapassada em durabilidade apenas pela
pedra, e, em conseqüência, vem a ser a principal evidência cultural sobrevivente em muitas partes das
Américas. (MEGGERS: 1979, 54)

Em território brasileiro, pode-se dividir, grosso modo, a indústria cerâmica em três grandes
fases:
1. Fase pré-histórica ou indígena. Caracterizada pelo uso de técnicas bastante rudimentares
de confecção: como a utilização de pedras, madeira e conchas durante seu feitio; incrustações de
conchas, gravações na cerâmica ainda úmida e pintura simples (excetuando-se a cerâmica
policrômica marajoara); cozimento através de fogueiras, resultando em uma queima imperfeita.
Essa primeira fase também se caracteriza pela grande variedade de utensílios e fins para estes. O
uso de cerâmica é bastante difundido na religião (como na preparação de poções e beberagens em
vasilhames rituais e na utilização de urnas funerárias confeccionadas em cerâmica), como adereço
e até como brinquedo (bonecas e representações de animais). (FUNARI e NOELLI : 2002)

TRADIÇÃO
CERAMISTA
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

2. Fase neobrasileira. O contato entre indígenas e europeus (séc. XVI), além dos africanos,
fez com que técnicas e estilos se mesclassem. O uso do torno, para a modelagem, e de fornos, para
o cozimento das peças, começa a se difundir. Há, também, uma gradual perda do caráter
ritualístico da cerâmica, aumentando seu caráter prático, com a difusão de novos instrumentos, até
então desconhecidos dos indígenas (chaleiras, panelas com asas e cuscuzeiras). No que concerne
ao adornamento das peças, este continua bastante precário. Relevos menos complexos e a pintura
com engobo vermelho, ou "taguá" (aplicação de um tipo de argila bastante diluído em água,
aplicado com a peça ainda úmida para dar coloração diferenciada (LOUREIRO FERNANDES:
1996, 38), são outros caracterizadores dessa fase que, por sinal, ainda sobrevive em algumas
partes do litoral brasileiro.
3. Fase moderna ou industrial. Marcada por técnicas apuradas: fornos modernos para o
cozimento da cerâmica, tornos e formas, esmalte usado como acabamento. Verifica-se uma
reanimação do caráter estético da cerâmica (vasos, jogos de jantar, enfeites...).
O litoral paranaense é um dos últimos redutos da tradição neobrasileira de produção
cerâmica, onde poucas artesãs ainda sobrevivem. Predominantemente feminina, a atividade de
ceramista preserva essa raiz indígena, delegando ao homem, as atividades de coleta de barro e
lenha, além do cozimento das peças. Em 1944, o saudoso antropólogo José Loureiro Fernandes
estudou a produção ceramista no texto "Indústrias Locais", recentemente publicado, juntamente
com alguns outros trabalhos organizados por Zulmara Posse (1996), pela Editora da UFPR. Este
texto, embora bastante breve e sem uma abordagem crítica, auxilia a compreensão dessa atividade
e de sua magnitude, intrínseca na tradição cultural caiçara.
Com um acervo representativo de cerâmica neobrasileira, o
Museu de Arqueologia e Etnologia possui um papel fundamental
da difusão do conhecimento sobre a secular tradição caiçara.
Instrumentos marcados por sua praticidade, utilizados no preparo
da alimentação salientam o caráter usual dessa fase da indústria
ceramista. A presença do cuscuzeiro, vasilhame utilizado na
preparação de cuscuz "(...) prato culinário à base de milho ou
mandioca (...) indica a influência também de africanos na formação
da população neobrasileira." (CHMYZ: 1995, 36)
A atividade de confecção da peça cerâmica neobrasileira é
(Cuscuzeiro)
bastante complexa, pois exige força e perícia. Inicialmente força,
devido à preparação do barro através de golpes para melhorar sua maleabilidade, e após isso,
perícia ganha através dos anos. Durante o feitio, a artesã molda a peça através da montagem de
pequenos cilindros de argila, chamados de "rodilhas", superpostos de acordo com o tamanho da
peça. Ferramentas como pequenas tábuas e pedras para auxiliar na modelagem, tiras de couro,
cascas de coco e até sabugos de milho para tornar lisa, a "cortadeira", para perfurar a peça, são
utilizadas pelas hábeis mãos das ceramistas. Atualmente, o uso do torno é bastante difundido, o
que facilita, mesmo descaracterizando, o trabalho de modelagem.

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TRADIÇÃO CERAMISTA
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Ensino de História
O próprio Ministério da Educação observa a utilidade de se estudar aspectos e elementos
até então não abordados pela história tradicional, vislumbrando-os com o devido merecimento
histórico:
A história social e cultural tem se imposto de maneira a rearticular a história econômica e a política,
possibilitando o surgimento de vozes de grupos e de classes sociais antes silenciados. Mulheres, crianças,
grupos étnicos diversos têm sido objeto de estudos que redimensionam a compreensão do cotidiano em suas
esferas privadas e políticas, a ação e o papel dos indivíduos, rearticulando a subjetividade ao fato de serem
produto de determinado tempo histórico no qual as conjunturas e as estruturas estão presentes. (MEC: 1998,
p. 21)

É um novo ramo desperto com o alvorecer, na França, da Nova História. Uma escola
historiográfica que nivelou a memória dos esquecidos à dos poderosos. Essa história não é mais
feita apenas por documentos escritos, mas, com a ajuda da Antropologia, por instrumentos,
habitações e até pelos próprios indivíduos. Nota-se, mais uma vez, o destaque dado a esse aspecto:
"A investigação histórica passou a considerar a importância da utilização de outras fontes
documentais, além da escrita, aperfeiçoando métodos de interpretação que abrangem os vários
registros produzidos". (MEC: 1998, p. 21)
A escola como um meio de interação. Os alunos, por que não, cercados de livros, mas, também,
interagindo com diferentes comunidades e, até, culturas. Podendo tocar na realidade, ver e
conversar com produtores de cultura. Aqui se destaca a integração entre Escola e Museu, História e
Antropologia.
Um dos grandes meios de se estudar a cultura de um determinado aglomerado humano é a
análise de sua alimentação. As diferentes formas de armazenamento e preparo de alimentos
diversos contribuem para uma melhor compreensão da humanidade. Instrumentos de preparo e
armazenamento usados por
certa comunidade podem ser
totalmente desconhecidos,
bem como seus alimentos, de
um grupo vizinho.

(Potes de cerâmica)

TRADIÇÃO
CERAMISTA
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Diferenças climáticas foram as grandes responsáveis por esse desconhecimento. Plantas e
animais, com seus respectivos nichos ecológicos, influenciam sobremaneira a alimentação do ser
humano. O domínio da agricultura e a domesticação de certos animais resolveu em parte esse
problema, tornando algumas práticas comuns a várias comunidades.
Observemos alguns pratos considerados típicos de alguma regiões brasileiras. O cuscuz,
de origem africana, para ser cozido, precisa de um recipiente de barro com furos no fundo, para
que o vapor o atinja. Pesquisemos, então, outro pratos que são preparados com utensílios de
cerâmica e identifiquemos contribuições culturais dos diversos povos formadores do brasileiro
moderno.

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FIBRAS VEGETAIS
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
31

A sala referente às fibras vegetais conta com um
acervo de 31 peças, dentre essas cestos de vários
tamanhos e formas, peneiras, covos, uma rede de pesca,
além de materiais utilizados para a produção de alguns
tipos de trançados. Essas peças se encontram em um bom
estado de conservação, possuindo uma catalogação
bastante didática, que permite aos visitantes do museu
obter informações acerca dos objetos expostos.

INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
FIBRAS
VEGETAIS
- tarrafa
- rede de pesca
- cesto de cipó
- cesto de taquara
- cesto tipiti pequeno de taquara
- peneiras
- covo

(Carretéis utilizados na fabricação
de esteiras e redes de pesca)

(Fabricação de tarrafa,espécie de rede de
pesca para camarão e peixes miúdos)

(Covos, versáteis armadilhas de pesca)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Destaques:

(A cultura caiçara desenvolveu uma grande variedade
de produtos à base de fibras vegetais, para diversos usos)

32

FIBRAS VEGETAIS
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
33

A arte do trançado na região de Paranaguá está profundamente ligada à produção da farinha
de mandioca, bem como ao fato de existirem muitas fibras vegetais na região favoráveis a este tipo
de artesanato. Em verdade, a mandioca "ocupa um lugar de proeminência na alimentação dos
habitantes de todo o litoral brasileiro, não só pela facilidade de seu cultivo como também por não
exigir um terreno muito fértil, como por exemplo o milho.(LOUREIRO FERNANDES: 1996; 15)
Ora, o modo de preparo da farinha de mandioca adotado pelos indígenas é ainda hoje
verificado na cultura caiçara. Sem dúvida, algumas adaptações foram incorporadas a esse processo
ao longo do tempo, contudo, é possível dizer que a cultura caiçara contou com a contribuição de
uma rica herança dos índios da região.
Todas as sociedades humanas desenvolveram um modo de se relacionarem com a natureza
para extrair dela os elementos necessários à sua subsistência".(RIBEIRO: 1977; 38). Tal relação
pode ser percebida exatamente na arte da cestaria e do trançado da região de Paranaguá. Anatureza
possibilitou aos índios da região a criação de utensílios de uso doméstico, recipientes, utensílios
utilizados no processo de fabricação da farinha de mandioca, objetos de conforto, como as esteiras
utilizadas para forrar berços e camas, ou mesmo para servir de leito simplesmente estendidas sobre
o assoalho da casa, e ainda, utensílios para a pesca. (LOUREIRO FERNANDES: 1996; 41)
De fato, verifica-se que a cestaria está
intimamente ligada ao complexo da
mandioca", de modo que grande parte dos
objetos trançados está envolvido de alguma
forma à produção, transporte ou
armazenamento da farinha de mandioca. Por
exemplo, pode-se citar o cesto do tipo tipiti,
utilizado para extrair o sumo da mandioca
brava, as peneiras para coar a farinha,
separando os fragmentos grossos da mandioca
que não serão utilizados, cestos do tipo
cargueiros, para o transporte da farinha e
cestos para armazenar a farinha. Entretanto,
inúmeras outras utilizações são verificadas: as
já citadas esteiras, além de serem utilizadas
como forro para camas e berços, também
podem ser usadas como tapetes para sentar ou
comer ou como paraventos ou portas. Os mais
(Cesto de taquara utilizado para
diversos tipos de cestos podem ser utilizados
transporte ou guarda de mercadorias)
para o transporte ou armazenamento de mercadorias, vegetais, alimentos e diferentes objetos.
Cestos com alças também são úteis para carregar tais produtos. Ainda, cestos de diversos tamanhos
impermeabilizados podem servir como receptáculos de líquidos. A peneira, além de sua utilização
na produção da farinha de mandioca, sem dúvida é utilizada como utensílio de cozinha. O covo,
empregado na pesca, demonstra a versatilidade dos objetos produzidos à base de fibras vegetais.

INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
FIBRAS
VEGETAIS
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Esses objetos, em sua maioria, são
produzidos a partir de taquaras que se prestam à
confecção de trançados. Contudo, as redes de
pesca, também produzidas com técnicas de
trançados, são elaboradas a partir de outra matériaprima, o algodão.
Dessa forma, observa-se que a criatividade
indígena para a confecção de objetos trançados foi
capaz de gerar peças com tal funcionalidade, que
(Cesto de taquara tipo cargueiro, à esquerda,
essas passaram a ser incorporadas pela cultura
e cesto pequeno de tipiti, à direita)
caiçara. Sem dúvida, o fato da existência de material adequado em grande quantidade, da
facilidade da produção desses objetos, a leveza dos objetos trançados e a multiplicidade de usos
aos quais esses objetos se prestam, tudo isso constituiu em importantes fatores para a
sobrevivência dessa forma de arte, que é a arte do trançado.

34

FIBRAS VEGETAIS
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
35

Ensino de História
Ainda hoje é possível encontrar na região de Paranaguá a arte da cestaria e do trançado,
herdada dos índios e incorporada pela cultura caiçara. Nesse sentido, com toda a certeza, uma
discussão acerca da memória histórica da região, do povo e suas tradições se faz bastante adequada.
Certamente,
(...) é necessário frisar a contribuição da história para as novas gerações, considerando-se que a sociedade atual
vive um presente contínuo, que tende a esquecer e anular a importância das relações que o presente mantém com
o passado. Nos dias atuais, a cultura capitalista impregnada de dogmas consumistas fornece uma valorização
das mudanças no moderno cotidiano tecnológico e uma ampla difusão de informações sempre apresentadas
como novas e com explicações simplificadas que as reduzem aos acontecimentos imediatos. Um compromisso
fundamental da História encontra-se na sua relação com a Memória, livrando as novas gerações da "amnésia
social" que compromete a constituição de suas identidades individuais e coletivas. (MEC: 1998; 26)

De fato, é possível perceber que existe uma grande tendência para o esquecimento de
culturas passadas, o que na maioria das vezes leva ao esquecimento dos laços existentes entre
presente e passado, comprometendo a formação de uma identidade mais sólida.
Por exemplo, a despeito da existência de uma arte trançada extremamente variada por todo
o Brasil, os objetos confeccionados em vime importados de Java são mais valorizados que os
objetos produzidos com as técnicas locais de trançados. Assim, produtos que pouco dizem á
respeito a cultura brasileira recebem preços extremamente elevados, enquanto aqueles produzidos
com técnicas de trançados locais são muitas vezes desprezados pela população.
Em verdade, esse equívoco de valores pode ser trabalhado ao se voltar atenções para as
relações entre presente e passado observadas em nossa sociedade. De fato,
ao sintetizar as relações entre as durações e a constituição da memória e da identidade sociais, o ensino de
História, desenvolvido por meio de atividades específicas com as diferentes temporalidades, especialmente da
conjuntura e da longa duração, pode favorecer a reavaliação dos valores do mundo de hoje, a distinção de
diferentes ritmos de transformações históricas, o redimensionamento do presente na continuidade com os
processos que o formaram e a construção de identidades com as gerações passadas. (MEC: 1998; 27)

(O trançado local, apesar de ser bastante versátil,
leve e resistente, é pouco valorizado pela comunidade)

INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
FIBRAS
VEGETAIS

(Peneira utilizada para separar
a porção de mandioca que
não será utilizada na produção
de farinha)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Nesse sentido, com base nesse parágrafo, observa-se
que se houveram mudanças ou adaptações na cestaria e nas
técnicas de trançado para que essas melhor pudessem servir às
necessidades da produção da farinha de mandioca, torna-se
possível uma reflexão sobre a questão de as necessidades
econômicas poderem fomentar ou não um avanço
tecnológico. Nessa direção sugerimos algumas atividades.
A. Você tem em sua casa, ou conhece alguém que tenha
algum produto de fibras vegetais produzido através da técnica
de trançado?
B. Procure saber se o modo de produção de objetos em
fibras vegetais hoje é o mesmo que era utilizado no passado.

36

CONSTRUÇÕES EM MADEIRA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
37

Esta sala apresenta vários objetos talhados em
madeira pela cultura caiçara. São objetos empregados
nas mais variadas situações. Desde gamelas até canoas,
a sala mostra como a madeira foi um importante recurso
para o caiçara. Uma maior articulação com o meioambiente, porém, poderia ser feita.

CONSTRUÇÕES
EM MADEIRA
INDÚSTRIA PRÉ-HISTÓRICA
- canoa
- viola
- utensílios domésticos
- madeira em estado bruto

(gamela)

(Viola)

(Utensílios domésticos)

(canoa)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Destaques:

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CONSTRUÇÕES EM MADEIRA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

A madeira constitui-se numa das principais matérias-primas para confecção de artefatos na
história. No Brasil não poderia ter sido diferente. Um território tão rico, com vastas e volumosas
florestas, não poderia deixar de prover às populações que o habitaram e o habitam material para a
construção dos mais diversos objetos. Foi assim com os indígenas, prosseguiu com os
colonizadores europeus, e continua até os dias atuais como uma das mais comuns fontes para a
materialização da vida cultural.
Assim sendo, a madeira não pode ser isentada
da participação nas diversas esferas das culturas
locais. Variadas atividades foram desenvolvidas e
aprimoradas ao longo do tempo, como a agricultura,
pesca, cerâmica, tecelagem. Cultivou-se o linho para
a produção de tecidos, cujos teares eram feitos na
própria comunidade.
Dentro do processo de produção, sabe-se que
(Agulha de rede de pesca)
o homem evoluiu e buscou satisfazer as diferentes
necessidades para sobreviver, buscou alimento e proteção para o corpo. Os povos précolombianos desenvolveram instrumentos para caça, pesca e agricultura, objetos em cerâmica ou
em madeira para o preparo e o acondicionamento dos alimentos, desenvolveram técnicas de
construção de casas, de fiação, trançados e tecelagem do algodão. Com a chegada dos povos
europeus, contudo, houve uma miscigenação cultural, ou seja, uma influência mútua de técnicas e
conhecimento dos povos nativos com a cultura do Velho Mundo.
O povo português em suas conquistas territoriais, ocasionadas principalmente por suas
habilidades marítimas, adquiriu durante suas diversas viagens pelo mundo, conteúdos técnicoculturais de outros povos. No retorno de tantas viagens, esses navegantes trazem consigo
características marcantes, principalmente estéticas, em objetos decorativos e utilitários. Inserem
no processo de construção e na criação de seus produtos, elementos adquiridos em outras culturas.
Essas influências adquiridas, passam a integrar os conteúdos técnico-culturais na produção
portuguesa, que na busca de novas técnicas e conhecimentos, levam consigo uma imensa bagagem
de conteúdos, adquiridos em diferentes partes do mundo. Na produção do homem índio, muitas
das suas alíquotas técnico-culturais foram transferidas ou reaproveitadas pelo homem
colonizador, que a princípio sofre um processo de adaptação ao novo meio.
Pode-se encontrar objetos em madeira nas mais
variadas localidades e com as mais diversas funções. Nos
engenhos podemos encontrar uma gama de objetos, que
caracterizam o processo de produção. Parte da tecnologia
dos engenhos foi trazida pelos portugueses que,
conhecedores dos moinhos de vento, adaptaram peças e
engrenagens para utilização da força humana e
posteriormente a força animal.
(Roda em madeira)

39

CONSTRUÇÕES
EM MADEIRA
INDÚSTRIA PRÉ-HISTÓRICA

(O trabalho em madeira servia para atividades de
subsitência, como a pesca ou a agricultura)

(A plaina, à esquerda, é um instrumento utilizado para aplainar, alisar e deixar unfirmo superfícies de
madeira.A direita estão expostos vários objetos cotidianos confecionados em madeira por carpinteiros)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

As peças dos engenhos de farinha eram confeccionados em madeiras de lei como: canela,
peroba, jacarandá, ipê, jatobá e pau-ferro, bem como outros produtos utilizados para confecção do
carro de boi eram elaborados artesanalmente em madeira.
Embora muitos habitantes fossem agricultores e tecelões, conheciam também técnicas de
pesca. "Com os recursos florestais existentes na região, juntamente aos conhecimentos em
construção de embarcações e boas ferramentas, poderíam produzir seus equipamentos e suas as
embarcações" (LAGO, 1988: 76).
Todas as técnicas de captura e a confecção dos instrumentos ou objetos utilizados pelo
homem colonizador relacionam-se ao contexto natural da região e foram desenvolvidos através da
observação dos fatos e das necessidades do uso. Podese encontrar materiais e processos utilizados na pesca
artesanal, como embarcações; gamelas recipientes
para comida, agulhas e malheiros utilizados nas
confecção de tecidos. Todos estes elementos (canoas,
agulhas, embarcações, bancos), significam a
habilidade e a tecnologia da produção em madeira do
homem na região ao longo da história.

40

CONSTRUÇÕES EM MADEIRA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
41

Ensino de História
Mulheres, crianças, grupos étnicos diversos têm sido objeto de estudos que redimensionam a compreensão
do cotidiano em suas esferas privadas e políticas, a ação e o papel dos indivíduos, rearticulando a
subjetividade ao fato de serem produto de determinado tempo histórico no qual as conjunturas e as estruturas
estão presentes. (MEC: 1998; 21)

Devido a essa nova tendência no ensino de História, faz-se mister avaliar a importância da
miscigenação cultural proveniente da colonização da América por povos europeus. É importante
ressaltar que os povos que antes habitavam o território já possuíam uma cultura material e técnicas
de confecção de produtos, nesse caso com o uso da madeira como matéria-prima. Não obstante,
pode-se aliar esse conhecimento com a rica e vasta produção em cerâmica. Ainda, pode-se dessa
forma trazer à baila culturas que foram "excluídas" da história, mas que têm importância imane na
configuração cultural atual. Assim sendo,

[O] ensino de História pode desempenhar um papel importante na configuração da identidade, ao incorporar
a reflexão sobre a atuação do indivíduo nas suas relações pessoais com o grupo de convívio, suas
afetividades, sua participação no coletivo e suas atitudes de compromisso com classes, grupos sociais,
culturas, valores e com gerações do passado e do futuro.
A percepção da diferença (o "outro") e da semelhança ("nós") varia conforme a cultura e o tempo e depende
de comportamentos, experiências e valores pessoais e coletivos. O convívio entre os grupos sociais tem
gerado "atitudes de identificação, distinção, equiparação, segregação, submissão, dominação, luta ou
resignação, entre aqueles que se consideravam iguais, inferiores ou superiores, próximos ou distantes,
conhecidos ou desconhecidos, compatriotas ou estrangeiros. Hoje em dia, a percepção do 'outro' e do 'nós'
está relacionada à possibilidade de identificação das diferenças e, simultaneamente, das semelhanças. A
sociedade atual solicita que se enfrente a heterogeneidade e que se distinga as particularidades dos grupos e
das culturas, seus valores, interesses e identidades. Ao mesmo tempo, ela demanda que o reconhecimento
das diferenças não fundamente relações de dominação, submissão, preconceito ou desigualdade." (MEC:
1198; 23)

Tendo essa passagem dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) como base, pode-se
valorizar a cidadania no aluno, por via de uma compreensão do "outro". Esse viés é de extrema
importância na construção do aluno enquanto "ser social", pois compreendendo culturas
diferentes, e entendendo que no encontro de culturas as influências são mútuas em maior ou
menor grau, porém sempre interrelacionadas e, a partir da assimilação do "diferente" estimular no
discente uma valorização da tolerância. Muitas tradições, técnicas, usos e costumes, dos que
viveram no litoral no período resistiram ao tempo. Ainda, pode-se buscar nessa produção as
diferenças e semelhanças entre as variadas culturas e as resistências no tempo, imputando
significabilidade ao conhecimento ao alia-lo à realidade de cada aluno, assim como sugere o PCN.
Além de consubstanciar algumas das noções básicas introduzidas nas séries anteriores, que contribuem e
fornecem os fundamentos para a construção da identidade, tais como a de diferença e de semelhança, o ensino
de História para as séries do nível médio amplia e consolida as noções de tempo histórico Na articulação das
mentalidades em suas permanências de valores e crenças e das transformações advindas com a modernidade
da vida urbana em seu aparato tecnológico. (MEC: 1998; 21)

CONSTRUÇÕES
EM MADEIRA
INDÚSTRIA PRÉ-HISTÓRICA

Chamamos de tecnologia o estudo de todos os objetos criados pelos grupos humanos visando à sua melhor
adaptação no tempo e espaço em que vivem. É através da fabricação dos objetos que os grupos humanos
interagem com o seu meio ambiente, utilizando-se dele e imprimindo-lhe a sua marca. A produção de
variados objetos da cultura material, ferramentas, instrumentos, utensílios e ornamentos, com os quais um
grupo humano busca facilitar sua sobrevivência, está ligada à escolha e utilização das matérias-primas
disponíveis; ao desenvolvimento da técnica adequada de manufatura; às atividades envolvidas na
exploração do ambiente e na adaptação ecológica; à utilidade e finalidade prática dos objetos e instrumentos
produzidos. [...] Embora a humanidade tenha criado objetos bastante semelhantes, cada povo, ou grupo
étnico, com seu jeito de viver, inteligência e criatividade, tem desenvolvido tendências próprias, objetos e
técnicas totalmente distintas de outros grupos. (IN: Tecnologia e Cultura Material. Museu do Índio.
Disponível em http://www.museudoindio.org.br/cri/tema2.htmAcesso em 01/12/2003)

O excerto acima, de caráter geral, serve de base
para uma reflexão. Pode-se aliar esse breve texto com o
conteúdo supracitado, ou seja, tendo como foco a
madeira enquanto matéria-prima para a produção de
artefatos e desenvolvimento tecnológico. Assim sendo,
como podemos traçar um paralelo entre a produção em
madeira exposta na sala e a produção em madeira na
atualidade?
(Madeira em forma bruta)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Destarte, propomos uma atividade que considere os utensílios de madeira expostos na
sala, articulando-os com a disponibilidade de recursos materiais. Isso pode ser feito através de um
texto, como este:

42

PESCA ARTESANAL
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
43

O acervo da sala de pesca artesanal é constituído
preponderantemente de instrumentos de pesca
utilizados pelos caiçaras da baía de Paranaguá. Podem
ser vistos apetrechos legados tanto por indígenas quanto
por europeus, bem como os peculiares à cultura caiçara.
A sala também dispõe de algumas maquetes que
demonstram algumas das técnicas de pesca artesanal
empregadas pelos caiçaras. Completa o acervo uma
exposição de espécimes de vida marinha peculiares à baía
de Paranaguá. Deslocada do contexto, porém, se
encontra uma carranca pertencente a embarcações do rio
São Francisco, no Nordeste.

INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
PESCA
ARTESANAL
- Embarcações típicas da região
- Instrumentos de pesca
- Maquetes de técnicas de pesca
- Fauna marítima local
(Covo, armadilha para peixe
feita de bambu)

(Siris, que faziam parte da
base alimentar do caiçara)

(Cacimbas para guardar anzóis)

(Embarcação caiçara com uma fateixa, espécie de âncora
feita com pedras que os portugueses legaram à cultura caiçara)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Destaques:

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PESCA ARTESANAL
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Na costa brasileira, que não apresenta os "rendilhados" peculiares ao Mediterrâneo, as
baías, como a de Paranaguá, eram agradáveis exceções para os colonizadores europeus. Em
conseqüência disso, os primeiros núcleos de povoamento correspondem às poucas reentrâncias do
litoral brasileiro. Trata-se de cabeças-de-ponte nas quais bandeirantes e colonos iniciaram suas
marchas rumo ao interior. (NADALIN: 2002; 35). Desse modo, embora a colonização se tenha
iniciado pelo litoral, sul da América
Portuguesa, as vilas que aí se fundaram não
se desenvolveram nem em termos
demográficos, muito menos em termos
econômicos. "Bem ao contrário, a pobreza
e a pouca significação econômica das vilas
escassamente povoadas do litoral deu
ensejo a um movimento colonizador mais
consistente para além da Serra do Mar, em
direção ao planalto, a partir do século
XVII". (SILVA: 1993; 20).
(Mapa da baía de Paranaguá- 1666)
Haja vista a inexistência no litoral sul de pólos econômicos voltados para a exportação,
como ocorria no nordeste, a presença de escravos africanos aqui não foi tão intensa como em
outras partes da América Portuguesa. Não se pode esquecer, porém, que Paranaguá também
recebeu a presença de africanos. Era comum que negros escravos ou livres se dedicassem à pesca,
trazendo assim a contribuição da faina pesqueira nas estruturas tribais africanas.
No entanto, a população de Paranaguá se constituía principalmente de indígenas e
colonizadores brancos. A abolição da escravidão indígena ocorreu em 1609, anterior, portanto, a
uma ocupação mais efetiva da Baía de Paranaguá. Vale lembrar que, em algumas regiões mais
setentrionais, os indígenas escravizados desempenhavam a função de pescadores. O preço de um
cativo indígena, que normalmente valia quarenta vezes menos que um africano, poderia se
equiparar a este se aquele tivesse conhecimentos sobre a atividade pesqueira (SILVA: 2001; 44).
Tal fato denota o apreço e a necessidade que os colonizadores tinham pela faina pesqueira
indígena.
Os portugueses, por outro lado, também haviam desenvolvido importantes técnicas de
pesca. As Inquirições portuguesas nos dão conta que ao menos desde a época medieval já se
desenvolviam no litoral lusitano comunidades praticantes de uma apreciável indústria marítima.
Dada a escassez de marinheiros quando da expansão ultramarina portuguesa, no século XVI,
muitos pescadores dessas comunidades foram recrutados à força para servir na carreira do Brasil,
transplantando para cá aspectos culturais e
profissionais relacionados à sua função. Um
exemplo disso é o anzol de ferro, produto
muito cobiçado pelos indígenas, pois
substituía as espinhas tortas por estes
(Anzóis de ferro, artefatos
utilizadas (HOLANDA: 1957; 83.).
(Réplica de anzol esculpido em osso,
trazidos pelos europeus)

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pertencente à tradição Tupi-guarani)

INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
PESCA
ARTESANAL
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Das trocas culturais entre os dois grupos emergiu no longo período que abrange desde o
século XVII ao início do século XX uma formação social típica. Trata-se da cultura "caiçara",
notadamente mais presente nas costas dos atuais estados do Paraná e de São Paulo, e que possuía
na atividade pesqueira uma importante forma de sustento. "Situados num mundo ainda préindustrial, estes grupos criaram ou adaptaram artesanalmente embarcações e inúmeros artefatos
de pesca próprios para o meio natural que exploravam." (SILVA: 1993; 20). Constituíam uma
massa de analfabetos, de modo que seu conhecimento sobre técnicas de pesca, condições das
marés e manejo de embarcações e apetrechos de pesca advinha sobretudo da oralidade ou do
empirismo.
A partir de inícios do século XIX, por todo o Brasil se inicia uma tendência de se tentar
disciplinar o modo de vida dos trabalhadores marítimos. Tentava-se transformar os valores
relativos ao mundo do trabalho, extremamente estigmatizados pela escravidão, e fomentar uma
nova ética do trabalho. Naturalmente, esse processo está no âmbito da Revolução Industrial que,
dentre outras conseqüências, instaurou o tempo do relógio e a força motriz baseada no vapor,
mudanças que irão afetar profundamente a indústria pesqueira. Ademais, a oficialidade naval
brasileira, ávida por constituir uma reserva humana para a armada entre os pescadores, arrolava
para si a tarefa de disciplinar os trabalhadores marítimos. Visando atender os interesses da
marinha pela regulamentação das atividades pesqueiras e dos deveres dos pescadores, é
promulgada em 1856 uma modernizadora lei de incentivo às companhias de pesca. Segundo Luiz
Geraldo Silva, "para o universo da maritimidade, a lei de 1856 é o divisor de águas que separa o
mundo pré-industrial sobre o qual se assentava o modo de vida dos pescadores, canoeiros e
marinheiros dos séculos XVII ao XIX,e uma nova fase aberta pelo desejo de um desenvolvimento
industrial" (SILVA: 2001; 232).
Esse desejo, da modernização da pesca pela criação de companhias pesqueiras, só se
concretizará no século XX. No Paraná apenas nas décadas de 1950 e 1960 emerge uma maior
relação entre o mundo da pesca e a industrialização, que fará com que muitos pescadores
ingressem em companhias de pesca que expropriam seu valor de trabalho. Nesse universo de
pobreza material, explorados por empresas de pesca e por comerciantes intermediários, a maior
parte dos pescadores do litoral paranaense se constitui em criadores de uma riqueza que não lhes
pertence (KRAEMER: 1978; 175).
A despeito dos surtos modernizadores, da especulação imobiliária litorânea, e da poluição
de mangues e mares, o mundo das da pesca artesanal ainda sobrevive numa e noutra localidade.
Trata-se de comunidades marítimas que ainda não foram tocadas pela industrialização ou que
souberam adaptá-la ao seu tradicional modo de vida.

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PESCA ARTESANAL
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
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Ensino de História
Os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio de 1998 traziam a percepção
da relatividade do tempo como uma das principais habilidades a serem desenvolvidas pelos
estudantes. Nesse sentido, se propunha o seguinte:
Ao se repensar o tempo histórico tendo como referência as relações homem-natureza, pode-se ainda avançar
na compreensão das diversas temporalidades vividas pela sociedade e nas formulações das periodizações e
marcos de rupturas. Assim como defendia Lévi-Strauss, as grandes transformações irreversíveis da sociedade
podem ser basicamente divididas em dois grandes períodos. O primeiro momento desse longo processo foi a
revolução agrícola, com a criação da agricultura, responsável por mudanças significativas nas relações entre
os homens, a terra e as plantas e animais. O segundo grande momento foi o da revolução industrial dos
séculos XVIII e XIX, que introduziu relações entre o homem e os recursos naturais em escala sem precedentes,
impondo novo ritmo no processo de transformações e de permanências. Esses dois momentos correspondem à
constituição de novas formas de os homens organizarem o tempo, com novos ritmos, e de se organizarem no
seu tempo cotidiano: ao longo desse processo, o tempo da natureza foi sendo substituído pelo tempo da
fábrica. (MEC: 1998; 24).

A sala de pesca artesanal é ideal para se incutir esse tipo de reflexão nos jovens do ensino
médio. Através dos instrumentos e técnicas pesqueiras apresentadas o visitante tem a oportunidade
de deduzir a íntima relação que o pescador tinha com o tempo da natureza. O ritmo das marés, as
épocas apropriadas para a pesca de cada espécie, os horários das jornadas de trabalho, todo os
ofícios relacionados ao mundo da pesca baseavam-se num tempo voltado à natureza, em que o Sol
e a Lua, e as estações do ano tinham grande influencia. Com o advento da pesca industrial, porém,
esses ritmos de trabalho foram substituídos por outros voltados ao tempo do relógio. Dessa não
observação do tempo da natureza resultam alguns problemas, como a pesca predatória na época do
defeso do camarão por exemplo, que contribui para uma rarefação e, no limite, extinção de
algumas espécies de vida marinha no litoral paranaense.
Para uma melhor compreensão de como se utilizavam os instrumentos apresentados na
sala, pode-se confrontar o acervo exposto com outras fontes, como pinturas de época, por
exemplo. Nas duas pinturas abaixo, vemos cenas de pesca pintadas em meados do século XIX.
Esse apelo visual facilita a compreensão dos jovens, conferindo maior significabilidade ao acervo.

(Pesca na colônia do Superagüi ao entardecer,
Michaud - 1885)
(Canoa no rio Paranaguá,
Pallière- 1860)

INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
PESCA
ARTESANAL
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Na segunda imagem também se percebe nitidamente um dos grandes silêncios do museu,
a escravidão. Embora, como previamente aludido, a presença africana na baía de Paranaguá não
ter sido tão expressiva como em outras localidades, não se pode desconsiderar sua contribuição.
Negros livres e escravos, ligados ao mundo da pesca artesanal, sofreram as mesmas
conseqüências do processo de implantação do tempo do relógio. Existem dados do próprio
Ministério da Marinha, contemporâneos à pintura de LLoyd, denotando a presença de um quinto
de negros, entre livres e escravos, no total de homens embarcados na recém-criada Província do
Paraná.
Ademais, além de ser um excelente objeto de reflexão para se pensar as noções de tempo, a
sala de pesca artesanal pode ser utilizada, numa perspectiva multidisciplinar, para o estudo da
biologia. De fato, ao se considerar que antes da Revolução Industrial a noção de tempo estava
preponderantemente ligada à natureza, seriam extremamente profícuos os diálogos entre História
e Biologia no sentido de formar no estudante uma perspectiva mais ampla, desvinculada das
segmentações disciplinares recorrentes em nossas escolas.

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FARINHA DE MANDIOCA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
49

O acervo das "alfaias agrícolas das casas, oficinas e
fábricas de farinha de mandioca" é constituído
basicamente por utensílios e aparelhos utilizados para a
confecção desse produto. Encontram-se também alguns
painéis, explicando o funcionamento dos utensílios.

FARINHA DE
MANDIOCA
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA

(Prensa de gastalho com dois fusos, para
moer a massa da mandioca ralada)

(Bolandeira, cevadeira ou roda de ralar,
utilizada para ralar raízes de mandioca)

(Almajarra, roda de ralar
movida por tração animal)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Destaques:
- Peneiras
- Prensa de vara
- Forno
- Cevadeira ou roda de ralar

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FARINHA DE MANDIOCA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

O Antigo Sistema Colonial, sistema econômico em que as metrópoles européias detinham
a exclusividade das exportações e importações de suas colônias, foi o responsável por uma séria
crise de abastecimento de víveres na América Portuguesa por quase quatro séculos. A própria
legislação portuguesa para a colônia reflete a preocupação em favorecer atividades rentáveis
capazes de justificar a empreitada monocultora de tipo comercial (LINHARES e TEIXEIRA
SILVA: 1981; 117). Dessa forma, a produção de cana-de-açúcar, e depois a mineração, foram o
centro das atenções portuguesas no que se refere à agricultura brasileira. A produção de
subsistência para o auto-abastecimento da colônia só mereceu atenção por parte das autoridades
lusitanas em épocas de crise de abastecimento. Cabia às Câmaras Municipais ou, o que é o mesmo,
às elites locais garantirem seu próprio sustento. Nesse sentido, uma importante magistratura era o
cargo de Juiz ou Inspetor Almotacé. Sendo eleito pelas câmaras municipais com grandes poderes e
prerrogativas, cabia a esse funcionário zelar pelo abastecimento municipal, fixando preços,
cuidando da padronização de pesos e medidas e fiscalizando o mercado (ANTUNES DOS
SANTOS: 1995; 37).
Indubitavelmente o cultivo da mandioca era o mais importante. Considerada o "pão da
terra", ela era a base de subsistência da população colonial,
para ricos e pobres. A mandioca desempenhou um papel
fundamental no desenvolvimento da economia escravista.
Exportada para a África, permitiu a ampliação do raio de
atuação dos preadores de escravos, e também uma maior
distribuição de ração alimentar para os africanos
embarcados nos tumbeiros, diminuindo a mortalidade na
travessia (ALENCASTRO: 2000; 252-255). Ademais, o
(Réplica de cesto de mandioca)
auto-sustento da colônia permitia que os senhores
investissem seu capital em algo mais lucrativo: escravos.
Por isso, muitos engenhos de açúcar possuíam lavouras de culturas de subsistência
adstritas a eles em suas cercanias, o que originava uma condição de auto-abastecimento. Pela carta
régia de 11 de janeiro de 1701, a Coroa Portuguesa determinava que os senhores liberassem seus
escravos nos sábados, para que pudessem cultivar seu próprio sustento. (LINHARES e
TEIXEIRA SILVA: 1981; 120). Dessa forma o
senhor se esquivava da obrigação de ter que
alimentar seus escravos. O fato interessante é que
os escravos, além de produzirem seu próprio
sustento, produziam excedentes que eram
vendidos para os senhores que, em virtude dos
faustosos gastos, estavam sempre precisando
comprar mais víveres. Esse dinheiro poderia ser
utilizado para o escravo comprar sua alforria,
quando tivesse juntado um valor suficiente.
("Forno", para afinar a massa
da farinha de mandioca)

51

FARINHA DE
MANDIOCA
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Outros engenhos, bem como os centros urbanos, entretanto, precisavam recorrer às
regiões mais periféricas para garantir seu sustento. Trata-se de lugares em que a monocultura
agro-exportadora não se desenvolvera plenamente. Tal é o caso do litoral da capitania de São
Vicente, onde se encontrava Paranaguá. Desde o século XVIII a cidade exportava sua farinha, cuja
qualidade era muito apreciada, para São Paulo, Santos, Rio de Janeiro, Norte do Brasil e Colônia
do Sacramento. Assim, o incipiente comércio externo de Paranaguá tem sua origem na exportação
da farinha (WESTPHALEN: 1972; 73). Exportações estas que se faziam às custas dos sacrifícios
dos próprios moradores de Paranaguá que, como boa parte dos habitantes do Brasil, sofriam com a
escassez de víveres. Diante desse quadro de penúria, a Câmara Municipal procurou controlar e, no
limite, proibir a exportação da farinha parnanguara.
A rudimentar técnica utilizada para o plantio da mandioca era a que fora herdada dos
índios. Derrubava-se uma parte da mata nativa, geralmente através de queimadas, e plantava-se a
mandioca nas primeiras chuvas. Após usar-se a terra por alguns anos, se abandonava-na para
plantar em outra parte. Isso só era possível haja vista a imensidão de terras disponíveis no Brasil.
Com a publicação da Lei de Terras, em 1850, o Estado avoca para si a maior parte dos solos
devolutos. O resultado é a transformação da terra, e principalmente a terra fértil, em mercadoria
altamente valorizada. Essa lei deve ser entendida no âmbito da tentativa de "modernização" do
país. Apontando-se para a abolição da escravidão, essa medida permitia ao governo conceder
terras para imigrantes europeus, considerados muito mais "morigerados e laboriosos" que os
africanos pelas elites locais.
A emancipação da Província do Paraná em 1853, aliado a um surto de desenvolvimento
proveniente da economia ervateira, confere à província o mesmo anseio modernizador. Nesse
projeto, a estrutura agroalimentar tinha papel basilar pois: inaugurava uma nova forma de
propriedade (a pequena produção), nova unidade econômica (a família), novo tipo de relação de
produção (o campesinato autônomo e o Estado) e novo padrão de produção (através das técnicas
trazidas pelos imigrantes estrangeiros) (ANTUNES DOS SANTOS: 1995; 73). Os imigrantes,
porém, não se fixaram em grande número no litoral. Aqui continuaram a prevalecer as técnicas
agrícolas caiçaras, até que fossem suprimidas no decorrer século XX, graças a uma maior inserção
do Paraná, via porto de Paranaguá, na economia mundial.

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FARINHA DE MANDIOCA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Ensino de História
A sala de produção de farinha de mandioca é um excelente espaço para se pensar a relação entre
sociedade e economia. Visando sempre a monocultura agro-exportadora, a Coroa Portuguesa
deixava que seus súditos sofressem com a falta de víveres. Nesse sentido, uma questão importante
a ser discutida seria a da vida material. Esta se constitui nas trocas, novos produtos, técnicas, e é
feita de rotinas e inovações. (ANTUNES DOS SANTOS: 2002; 10).
De fato, a alimentação se encontra na base do desenvolvimento de uma sociedade. E a
farinha foi, no caso do Brasil, o mais importante alimento da época colonial. Nesse sentido, a partir
do paradigma das relações centro-periferia, tem-se também uma excelente oportunidade de se
articular micro e macro-história.
Na articulação do singular e do geral recuperam-se formas diversas de registros e ações humanas tanto nos
espaços considerados tradicionalmente os de poder, como o do Estado e das instituições oficiais, quanto nos
espaços privados das fábricas e oficinas. (MEC: 1998; 21)

A própria existência de áreas voltadas a suprir a monocultura açucareira, como a pecuária no
Rio Grande e a farinha em São Vicente, demonstra que os ciclos econômicos não são autônomos.
Dependem de uma série de outros processos socioeconômicos, muitas vezes elididos pelos
historiadores, para que tenham funcionalidade. Sem um "ciclo da farinha" em São Vicente e no
litoral fluminense, dificilmente a economia açucareira teria progredido tanto. Destarte percebe-se
a importância de uma história da alimentação, haja vista a agricultura de exportação e a de
subsistência ditarem os ritmos de crescimento da sociedade colonial.
Algumas considerações, porém, devem
ser feitas ao acervo exposto. Primeiramente,
não há qualquer informação acerca do plantio
da mandioca. Trata-se de uma técnica
indígena, bastante rudimentar, mas que foi
absorvida pelos portugueses e exportada até
mesmo para a África. Ademais, apenas com os
painéis explicativos, fica difícil compreender
o funcionamento dos utensílios expostos.
Seria interessante se fossem emuladas antigas
idéias de museus europeus, como a
interatividade por exemplo. Poderia ser
demonstrado na prática como era o processo
de fabricação de farinha de mandioca. No
limite, poder-se-ia facultar ao visitante que
produzisse sua própria farinha de mandioca.

(Peneira trançada no etilo tipiti, para
se fazer o crivo da mandioca)

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FARINHA DE
MANDIOCA
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA

Ao se repensar o tempo histórico tendo como referência as relações homem-natureza, pode-se ainda avançar
na compreensão das diversas temporalidades vividas pela sociedade e nas formulações das periodizações e
marcos de rupturas. Assim como defendia Lévi-Strauss, as grandes transformações irreversíveis da sociedade
podem ser basicamente divididas em dois grandes períodos. O primeiro momento desse longo processo foi a
revolução agrícola, com a criação da agricultura, responsável por mudanças significativas nas relações entre
os homens, a terra e as plantas e animais. O segundo grande momento foi o da revolução industrial dos
séculos XVIII e XIX, que introduziu relações entre o homem e os recursos naturais em escala sem
precedentes, impondo novo ritmo no processo de transformações e de permanências. Esses dois momentos
correspondem à constituição de novas formas de os homens organizarem o tempo, com novos ritmos, e de se
organizarem no seu tempo cotidiano: ao longo desse processo, o tempo da natureza foi sendo substituído
pelo tempo da fábrica.

Assim, proporíamos uma atividade em que os alunos, após pesquisarem sobre o fabrico da
farinha, respondessem quais as transformações entre o processo manufatureiro que está exposto
no museu e o processo industrial, e responder se ambos coexistem atualmente.

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Como ainda hoje se produz farinha nas colônias de Paranaguá, embora em escala assaz
reduzida, uma atividade de história econômica poderia ser realizada perguntando-se quem eram
os consumidores de farinha produzida em Paranaguá nos séculos XVIII e XIX, e no XX. Outro
exercício possível é pensar na coexistência de métodos artesanais de fabricação de farinha com os
métodos industriais, responsáveis pelas chamadas "farofas de pacote". Daí outra questão
levantada pelos PCNs, o tempo histórico:

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BENEFICIAMENTO DE GRÃOS
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
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É um espaço reservado à vida rural de Paranaguá é
constituído em sua grande parte por objetos adequados
ao campo que por longos tempos fizeram parte do
cotidiano dos camponeses. Os objetos derivam de antigos
moradores de Paranaguá e retratam de forma clara as
caracterizações desses objetos, a ultilidades e a forma de
uso. Mas o acervo é falho pelas legendas, que apenas dão
ênfase às utilidades sem mencionar o contexto histórico,
no qual estiveram ''presentes'' estes objetos.

BENEFICIAMENTO
DE GRÃOS
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
- Pilão de pedra
- Gamela
- Manjolo
- Milho

(Barril de armazenamento de arroz)

(Manjolo de moer grãos)

(prensa)

(Tafona manual para descascar
arroz ou moer o milho)

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Destaques:

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BENEFICIAMENTO DE GRÃOS
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A agricultura de Paranaguá foi definida de forma articulada com os interesses mercantis
europeus. A produção era voltada ao comércio internacional. "Consolidava-se a vocação agrícola
do país, sob uma palavra de ordem: produzir para exportar, sem preocupação com a produção de
alimentos e as necessidades de consumo interno" (LINHARES e TEIXEIRA SILVA: 1981,36)
Devido a esse fator, Paranaguá, a partir da segunda metade do século XVII, não dispunha de uma
estrutura produtora de alimentos voltada às necessidades da população. A partir do final do século
XVII, Paranaguá desenvolveu uma agricultura de subsistência definida pelo arroz, mandioca e
milho.
A falta de estrutura e de investimentos no desenvolvimento da agricultura de subsistência
gerou uma crise na agricultura de Paranaguá. "A crise de subsistência no Paraná provocou o
aumento da importação do açúcar, do trigo, da carne e toucinho, do sal, do feijão, do arroz, das
bebidas, dos tecidos e outros produtos. As atividades de subsistência passam a ser ocupação de
uma pequena parte da população". (SANTOS: 1995, 54)
Paranaguá destacou-se na Província do Paraná pela existência da Colônia Pereira fundada
em 1875. Os camponeses estabelecidos ali desenvolveram a produção do milho, da mandioca e do
arroz. Os excedentes desses produtos eram comercializados nos mercados do litoral, destacandose o milho.
A cultura do milho em Paranaguá se
estendeu ao longo do século XIX, sendo
produzido nos núcleos agrícolas e nas
pequenas roças e sítios. "A qualidade do
milho produzido no Paraná permitiu que os
seus derivados também fossem requisitados.
Um dos derivados do milho mais apreciados
pelos paranaenses era a broa de milho
misturado com trigo, e de centeio com
mistura de milho, conhecidas pelo nome de
(Monjolo com quatro pilões, permitia
pão preto". (SANTOS: 1998,129)
um processamento muito mais rápido)
Ao longo da história de produção de alimentos básicos e do abastecimento do Brasil, um
dos produtos de maior significado foi a mandioca. Este produto foi consumido de diversas formas
e em praticamente, todos os tempos e regiões do país.(SANTOS: 1995,130). Paranaguá foi
privilegiada na produção de mandioca por ser um produto típico do litoral. No século XVIII, as
farinhas de mandioca mantiveram incipiente o comércio externo de Paranaguá. O consumo do
produto foi de tal amplitude no Brasil que recebeu diversos nomes: mandioca, aipim, macaxeira,
cará e inhame, cujas variadas formas de preparo permitiram novos pratos na culinária: o pirão, o
mingau, o virado, etc.
O arroz ganhou destaque em Paranaguá, durante as décadas de 1840 e 1850. Ao longo
desse período, a produção de arroz paranaense constitui fonte de divisa, pois se tornou, juntamente
com a erva mate e a madeira, um dos principais produtos de exportação para dentro, mas,
principalmente para fora do império atingindo até 6% do total de exportações.(SANTOS:
1995,134).

BENEFICIAMENTO
DE GRÃOS
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
Os Parâmetros Curriculares do ensino médio de 1998 demonstram que o ritmo das
estruturas está diretamente conectado às relações de trabalho, do homem com o campo e suas
manifestações conforme os períodos e tendências.
Os ritmos de duração, conforme descritos por Fernando Braudel, permitem identificar a velocidade em que as
mudanças ocorrem e como nos acontecimentos estão inseridas várias temporalidades: a curta duração, a dos
acontecimentos breves, com data e lugar determinados; na média duração, no decorrer da qual se dão as
conjunturas, tendências políticas e/ou econômicas, que, por sua vez, se inserem em processos de longa
duração, com permanências e mudanças que parecem imperceptíveis.. É o ritmo das estruturas, tais como a
constituição de amplos sistemas produtivos e de relações de trabalho, as formas de organização familiar e dos
sistemas religiosos, a constituição de percepções e relações ecológicas estabelecidas na relação entre o homem
e a natureza. (MEC: 1998; 25).

O espaço reservado à vida rural de Paranaguá permite ao aluno refletir sobre a época em
que está inserido aquele estilo de vida no campo. O primeiro fato que o aluno pode questionar é a
existência da necessidade do plantio do arroz, seu aspecto econômico e político. O fator da
subsistência leva a questionar a importância do arroz como alimento. A interdisciplinaridade da
biologia com história entraria em conexão a partir do momento em que o aluno percebe o quanto o
arroz era necessário para a subsistência do homem rural.
O Pilão de pedra é um objeto adequado para o aluno estabelecer uma comparação entre os
processos tecnológicos que são usados na agricultura no tempo passado com os processos atuais,
já aperfeiçoados. Nesse sentido pode-se pedir para os alunos que respondam se conhecem alguém
que mói grãos utilizando um pilão em casa. Ou, pode-se questionar se os atuais alimentos a base de
grãos são feitos utilizando as mesmas técnicas e aparelhos expostos no museu.

(Pilão de pedra)

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Ensino de História

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PLANTAS MEDICINAIS
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O acervo relativo às plantas medicinais encontra-se
exposto no pavimento inferior, espalhado junto ao átrio.
Trata-se de algumas plantas tradicionalmente
utilizadas para a cura das enfermidades mais
recorrentes.

PLANTAS
MEDICINAIS
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
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Destaques:
- Ora-pro-nobis (peireskia acuelato)
- Boldo (cóleas barbatus benth)
-Alecrim (rosmarinus officinalis)
- Penicilina (Alternanthera Brasiliana)
- Alfazema (Lavandula Officinalis)
- Capim limão (kylling odorata)
- Sabugueiro (sambacus migra)
- Erva de passarinho (struthanthus flexcaulis)
- Babosa (aloes humilis)
- Guaco (mickania glomerada)

(Vista geral das plantas medicinais)

(A penicilina tem esse nome
devido aos efeitos análogos aos
do remédio de mesmo nome)

(Babosa, serve contra queda de
cabelo, segundo a tradição local)

l
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PLANTAS MEDICINAIS
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Por toda a história da humanidade, a botânica tem sido de extrema importância para a
promoção da saúde. Destacadamente, sua fundamental relação com a medicina data de tempos
imemoráveis. O grego Hipócrates (460 361 a. C.), considerado o pai
da medicina, empregava centenas de medicamentos de origem
vegetal. Certamente não foi o primeiro. A busca do homem por
remédios a base de plantas encontradas na natureza provavelmente
ocorreu em todas as sociedades que nos precederam, sendo algo quase
que instintivo ao ser humano.
Pode-se afirmar que a história do conhecimento das plantas
medicinais é indissociável do conhecimento das plantas em geral.(LE
GOFF: 1997; 345). Assim, nada mais natural que num país de grande
diversidade botânica como o Brasil, a medicina popular pautada em
(Boticário - estátua medieval
produtos de procedência vegetal seja impregnada de grande tradição. na Catedral de Amiens)
Sem dúvida, desde o alvor da humanidade o homem tem utilizado, de forma consciente, os
mais diversos vegetais para buscar e manter a saúde e a vida. Isto não foi diferente entre os índios
que habitavam a região brasileira quando da chegada dos portugueses. Na verdade, observa-se que
práticas indígenas relacionadas à cura através das plantas foram bem acolhidas pelos
colonizadores portugueses, que incorporaram muitas das receitas de cura através de plantas
próprias das comunidades indígenas em sua medicina. Desta forma, pode-se observar que ao longo
do século XVI, os medicamentos da fitoterapia indígena tinham boa usança entre missionários e
moradores.(ALENCASTRO: 2000; 133).
Contudo, os médicos que vinham da metrópole para a colônia (a presença de médicos
europeus na América portuguesa se dá a partir de meados do século XVII), defendiam uma
"medicina racional" e repudiavam o que chamavam de "medicina empírica" praticada
popularmente pelos habitantes da colônia, gente desprovida de ciência e fortemente influenciada
por elementos que havia recebido do "gentio da terra" e de "negros feiticeiros".
Por outro lado, os jesuítas assumiam posição contrária à dos médicos europeus, optando
pela eficácia da medicina nativa. Assim, percebe-se que o clero praticava atividades médicas e
farmacológicas, baseando-se muitas vezes no conhecimento indígena acerca da fitoterapia.
Entretanto, o contato entre a cultura européia e a indígena não produziu apenas o
enriquecimento da medicina. Produziu também um dos maiores genocídios da história da
humanidade, conhecido pelo nome de "choque microbiano". Doenças próprias da Europa como a
varíola, o sarampo e a gripe produziram declínio demográfico por todo o continente americano.
Embora não existam dados precisos em relação ao declínio demográfico da população indígena da
América portuguesa, é provável que o decréscimo tenha sido menor do que na América Central.
Nessa região, onde em 1519 habitavam 25 milhões de pessoas, seis décadas depois não havia mais
que 2 milhões de habitantes. (WACHTEL: 1997; 201). Desta forma, favorecido pela reduzida
diversidade genética dos índios americanos, o século XVI viu a população nativa desse continente
reduzir-se significativamente.(ALENCASTRO: 2000; 127). Isso explica, em parte, a maior
valorização do escravo negro, menos vulnerável que o gentio da terra.

PLANTAS
MEDICINAIS
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
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Desta forma, o contato entre diferentes culturas
ocasionou importantes conseqüências no âmbito da medicina.
Os europeus adquiriram muitos procedimentos medicinais
peculiares aos nativos, sem os quais seria muito mais difícil
sua permanência no continente americano. Por outro lado,
ocorreu a "união microbiana do mundo", processo
responsável pela perda de muitas vidas na América (Os conhecimentos de botânica
aumentaram muito com as trocas
Portuguesa.
culturais da expansão ultramarina)
É evidente que por muito tempo na história da humanidade, o homem foi buscar a cura ou a
prevenção para as suas enfermidades diretamente na natureza. Isso começou a mudar a partir de
meados do século XIX, com a chamada Segunda Revolução Industrial, também conhecida como
Revolução Científico-Tecnológica, que teve como centro os países mais desenvolvidos da Europa
e os Estados Unidos. Esse período assistiu a inúmeras descobertas científicas, as quais passaram a
ser grandes aliadas nos processos produtivos da época.
Dentre as mais diversas áreas que experimentaram este salto científico-tecnológico,
estava também a farmacologia. Neste momento, surgiram medicamentos produzidos
industrialmente, como a aspirina ou os antiácidos efervescentes, que iriam revolucionar a forma
como as doenças eram tratadas. Ora, já não era necessário preparar medicamentos em casa,
quando as farmácias podiam oferecer uma grande variedade de novos produtos prontos para o
consumo, expostos em suas prateleiras. Nesse período
também surgiram novos equipamentos a serviço da saúde,
como a seringa hipodérmica, o estetoscópio e o medidor de
pressão arterial. Em verdade, "...não era só uma questão de
variedade de novos equipamentos, produtos e processos que
entravam para o cotidiano, mas o mais perturbador era o ritmo
com que essas inovações invadiam o dia-a-dia das pessoas..."
(Medicamentos industrializados
e sintéticos passaram a
(SEVCENKO: 2001; 10).
prevalecer no século XX)
Num contexto de expansão capitalista e conseqüente expansão da economia industrial,
certamente o impacto da Revolução Científico-Tecnológica se faria sentir fora de seu epicentro.
Assim, também o Brasil foi atingido por tal revolução, mesmo que um tanto tardiamente. Dessa
forma, pouco a pouco, tanto a tradição de se cultivar plantas medicinais em casa como a tradição
do preparo caseiro de medicamentos foi sendo substituída pela visita prática, rápida e simples à
farmácia.

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PLANTAS MEDICINAIS
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Ensino de História
O espaço reservado às plantas medicinais poderia ser mais bem organizado e assim mais
interessante para o público, se junto a cada planta além de seu nome científico e popular fosse
também indicado o seu emprego medicinal, o que não ocorre na maior parte das plantas. Poder-seia, também, explicar quais eram as crenças populares, quem preparava os medicamentos e de onde
as plantas são extraídas.
Para melhor ilustrar de que forma
essas plantas eram, e ainda continuam sendo
utilizadas por parte da população, poderia
ser criada uma maquete, reduzida ou em
tamanho natural, demonstrando o preparo e
o emprego de medicamentos a base de
plantas. Um projeto mais ambicioso seria
colocar senhoras que detivessem o
conhecimento do preparo de medicamentos
caseiros, para que elas contassem ao público
como são feitos os remédios a base de (D. Elzira, com o conhecimento das plantas medicinais
quecultiva em seu quintal, poderia
plantas medicinais.
ser monitora desse espaço do Museu)
Contrastando com esse processo de fabricação de remédios, poder-se-ia incluir algum
material referente à moderna indústria farmacêutica, em forma de painel, maquete, ou peças
imitando comprimidos, seringas e outros produtos da farmacologia moderna. Dessa forma, o
choque da Segunda Revolução Industrial ficaria mais evidente. Ademais, comparando os dois
tipos de farmácia, iriamos ao encontro do que sugerem os PCNs quando apontam que:
As concepções políticas e as referentes às ações humanas nos espaços público e privado, assim como as
relações homem-natureza, estão sendo modificadas. Os paradigmas científicos que sustentavam as bases
fundamentais dessas concepções estão sendo questionados e colocados em cheque pelas realidades que
glorificam o novo tecnológico, mas não solucionam problemas antigos, como as desigualdades, preconceitos,
dificuldades de percepção do "outro" e as diversas formas de convivência e de estabelecimento de relações
sociais. A difusão da racionalidade da ciência não acarretou o desaparecimento de formas de representação do
mundo e do homem submetidas a dogmas e misticismos variados, permanecendo crenças religiosas diversas,
muitas vezes contraditórias e paradoxais diante da presença cotidiana das tecnologias. (MEC: 1998; 20)

De fato, é possível perceber que apesar do progresso verificado na área da medicina desde a
chegada dos portugueses à América, ainda hoje permanecem muitas das crenças em poderes
curativos de determinadas plantas medicinais. A crença ainda hoje viva em poderes mágicos de
cura para determinadas plantas mostra que a herança de métodos não científicos de cura continua
presente na sociedade. Isso pode ser percebido, atualmente, através de crenças e da medicina
popular. Ademais, o preparo de medicamentos caseiros a base de plantas medicinais continua,
como comprovam entrevistas realizadas com senhoras de Paranaguá. Embora haja uma forte
indústria farmaceutica internacional que mudou sensivelmente os hábitos de muitas pessoas, a
"botica da natureza" ainda resiste, mostrando ser um profundo traço cultural nessa sociedade.

PLANTAS
MEDICINAIS
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
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Algumas interessantes atividades podem ser propostas, tendo em conta o espaço de plantas
medicinais, bem como o conhecimento adquirido por muitas senhoras de Paranaguá no que diz
respeito a elaboração de remédios caseiros:
1. Compare os medicamentos utilizados até inícios do século XIX com aqueles
empregados após o surgimento da indústria farmacêutica moderna.
2. Com base nas entrevistas anexadas, responda à seguinte questão: Você acredita ser
possível coexistirem duas formas de preparo de medicamentos?
3. Na sua opinião, a utilização de medicamentos naturais, elaborados de forma artesanal,
tende a desaparecer com o tempo?
4. Tendo em vista o atual contexto da indústria farmacêutica, qual a importância da
Amazônia?

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CANA-DE-AÇÚCAR
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O acervo da sala de cana de açúcar reproduz
algumas técnicas para o tratamento desse produto. A
sala enfatiza a produção de aguardente, produto
bastante importante na economia colonial.

CANA-DE-AÇÚCAR
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
- alambique
- tonel
- cristalizadores

(alambique)

(Sala de processamento de cana-de-açúcar)

(Processo de destilação)

(tonel)

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Destaques:

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CANA-DE-AÇÚCAR
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Dificilmente se encontrarão formas de utilização dos recursos dos solos que se possam rivalizar com a
agroindústria canavieira quanto à capacidade de condicionar um tipo de sociedade e de economia, de modelar
um tipo de paisagem e de estruturar um tipo de arranjo econômico do espaço (LACERDA DE MELO: 1975;
33)

A cana de açúcar pode ser considerada como a cultura agrícola que mais importantes
mudanças trouxe para a História. Tal afirmação decorre do fato de que sua exploração desencadeou
um dos maiores fenômenos em termos de mobilidade humana, econômica, comercial e ecológica.
Sua efetivação como cultura agrícola remonta milênios e espalha-se por todos os cantos do planeta.
Esta teve papel fundamental tanto na História como no impacto ambiental que provoca, pois a sua
plantação intensiva esgota o solo, devora a floresta e dessedenta os cursos de água. É por isso que
encontramos eco numa passagem de Geografia da Fome, de Josué de Castro ao afirmar
que o cultivo da cana de açúcar se processa em regime de autofagia: a cana devorando tudo em torno de si,
engolindo terras e mais terras, dissolvendo o húmus do solo, aniquilando as pequenas culturas indefesas e o
próprio capital humano, do qual a sua cultura tira toda a vida. E é a pura verdade... Donde a caracterização
inconfundível das diferentes áreas geográficas açucareiras, com seu ciclo econômico, com as fases de rápida
ascensão, de esplendor transitório e de irremediável decadência. Ciclo este que se processa tanto mais
rapidamente quanto menores os recursos de terras disponíveis. Daí a semelhança de aspectos entre áreas
diferentes como o Haiti, Cuba, Porto Rico, Java e o Nordeste brasileiro".( CASTRO: 1952 ;73)

Foi o Oriente que iniciou essa cultura, tendo a Papua Nova Guiné como berço, por volta de
12000 anos atrás. Os árabes fizeram-na chegar ao ocidente e foram os principais arautos da sua
expansão. Genoveses e venezianos encarregaram-se do seu comércio na Europa. Mas é nas ilhas
que ela encontrou um dos principais viveiros da sua afirmação e divulgação no Ocidente: Creta e
Sicília no Mediterrâneo, Madeira, Açores, Canárias, Cabo Verde e S. Tomé, Cuba, Jamaica e
Antilhas. Não obstante, regiões continentais também foram alvo de sua expansão, como é o
exemplo do Brasil.
A realidade mostrada pela história dos últimos cinco séculos revela que o estatuto de
produção em larga escala adquirido pela cana de açúcar confirma a asseveração de Josué de Castro.
O Brasil não poderia sair ileso de tal decorrência; seu impacto é imane. Gilberto Freire nos elucida
nesse sentido ao afirmar que "o canavial desvirginou todo esse mato grosso de modo mais cru pela
queimada. A cultura da cana valorizou o canavial e tornou desprezível a mata" (FREYRE: 1985). O
processo por muito utilizado é simples. Para plantar a cana derruba-se ou queima-se a floresta.
Depois, para fabricar o açúcar essa floresta faz falta para manter acesa a chama dos engenhos, ou
construir estas infra-estruturas. A cana tem na floresta o seu maior aliado e inimigo.
A instalação da empresa açucareira no Brasil exigia a aplicação de imensos capitais para a
compra de escravos, o plantio da cana-de-açúcar e a instalação dos engenhos, onde se moía a cana e
se fabricava o açúcar. Além disso, o transporte e a distribuição do produto para a Europa, a parte
mais lucrativa do empreendimento, era uma tarefa gigantesca, para a qual Portugal não tinha
recursos suficientes. Os portugueses associaram-se, então, aos holandeses que, em troca do
financiamento para a instalação da empresa açucareira na colônia, ficariam com o direito de
comercialização do produto final, o açúcar, na Europa. Dessa forma, foi a Holanda que em certa
medida financiou a instalação dos engenhos no Brasil. Grosso modo aqui definido, na colônia
organizou-se a produção açucareira, sujeita às exigências metropolitanas de produção de riquezas,
num processo de dependência denominado pacto colonial.

CANA-DE-AÇÚCAR
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
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Durante os séculos XVI e XVII, o Brasil tornou-se o maior produtor de açúcar do mundo,
gerando imensas riquezas para os senhores de engenho, para Portugal e, também, para os
holandeses. Ostentando sua opulência, os senhores de engenho do Nordeste importavam da
Europa desde roupas e alimentos até louças e objetos de decoração. Como conseqüência da maciça
importação de mercadorias européias, da importação de escravos e da participação dos holandeses
e portugueses no comércio de açúcar, quase toda a riqueza gerada por este ciclo econômico foi
desviada da colônia para as áreas metropolitanas, caracterizando as condições do pacto colonial.
Embora a economia do período colonial tenha se baseado num único produto, que
concentrava quase completamente o interesse e as atividades de toda a colônia, havia algumas
atividades secundárias, realizadas para complementar as necessidades da população. Sendo assim,
havia, dentro do próprio engenho, a produção de aguardente e rapadura, utilizada no consumo
interno da colônia e também no escambo de escravos africanos. Ao mesmo tempo, iniciou-se a
criação do gado que se desenvolveu no Nordeste, próximo aos engenhos, penetrando depois no
interior. Sendo uma atividade complementar, a importância comercial da criação de gado era muito
menor que a da produção de açúcar. Entretanto, além de servir para mover as moendas e transportar
o açúcar, o gado era fonte de alimentação e fornecia o couro que era usado na confecção de roupas,
calçados, móveis e outros utensílios. O gado era criado de forma extensiva, ou seja, solto nas terras,
sempre à procura de melhores pastagens. Dessa forma, o gado penetrou no interior, originando-se,
assim, diversas fazendas no interior, o que acabou levando ao desbravamento da atual região
Nordeste. No século XVII, a riqueza do açúcar levou os holandeses a invadirem o Brasil. Durante
alguns anos, eles dominaram o Nordeste e se apropriaram de suas técnicas de produção. Após sua
expulsão, em 1654, os holandeses tornaram-se os maiores concorrentes dos produtores
nordestinos, passando a fabricar açúcar nas suas colônias das Antilhas. Isso marcou o início da
decadência econômica do Nordeste açucareiro, o que levou toda a colônia a uma profunda crise.
Já na região de Paranaguá, os engenhos de cana-de-açúcar foram fundamentais para o
desenvolvimento da agricultura. São nos engenhos que se produzem os derivados da cana-deaçúcar, como a garapa, o açúcar mascavo, o melado, a rapadura e as bebidas, especialmente a
cachaça. Para a produção desta, são usados os cochos, que usualmente são feitos de tábuas de
canela ou troncos de árvores. Para tanto, os cochos são locais utilizados para armazenar e fermentar
a garapa. O processo de fermentação se dá através do depósito de pedaços de bagaço de cana, fubá
ou, até mesmo, melado. Após alguns dias uma bebida chamada quira já está pronta para consumo.
A garapa, antes de retira, pode ainda receber fermento de pão, deixando-a fermentar por mais 24
horas. O fermento retira o sabor açucarado e ácido da garapa, resultando o chamado "vinhão", o
qual corresponde ao ponto em que deve ser colocada no destilador.
Os engenhos modernos, encontrados em algumas localidades próximas, possuem
equipamento moderno, mas, contudo, preservam-se os métodos tradicionais. Diversos engenhos
são construídos próximos a fontes d'água, que servirá de força motriz para a moenda. As paredes de
madeira e o chão batido servem para criar desníveis que facilitam o escoamento da garapa de um
recipiente a outro. . As variedades de cana mais utilizadas são a cana branca, a mole e a dura, a
bandeirantes, a caiana e a havaiana.

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CANA-DE-AÇÚCAR
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
69

Ensino de História
A exploração intensiva da cana de açúcar desde o século XVI gerou grandes exigências em
termos de mão-de-obra, sendo responsável pela maior fenômeno migratório à escala mundial que
teve por palco o Atlântico: a escravatura de milhões de africanos. Assim sendo, se aliar o
conhecimento histórico proposto por esse espaço do museu com as conseqüências desse tipo de
cultura, pode-se avaliar a mesclagem cultural decorrente desse processo, pois ligado a tudo isso
está também um conjunto variado de manifestações culturais que vão desde a literatura à musica e
à dança. Destarte, a história da cana de açúcar confunde-se com as mais variadas esferas da
sociedade brasileira.
Não obstante,
o tempo histórico, compreendido nessa complexidade, utiliza o tempo cronológico, institucionalizado, que
possibilita referenciar o lugar dos momentos históricos em seu processo de sucessão e em sua
simultaneidade. Fugindo à cronologia meramente linear, procura identificar também os diferentes níveis e
ritmos de durações temporais. A duração torna-se, nesse nível de ensino e nas faixas etárias por ele abarcadas,
a forma mais consubstanciada de apreensão do tempo histórico, ao possibilitar que alunos estabeleçam as
relações entre continuidades e descontinuidades. A concepção de duração possibilita compreender o sentido
das revoluções como momentos de mudanças irreversíveis da história e favorece ainda que o aluno apreenda,
de forma dialética, as relações entre presente-passado-presente, necessárias à compreensão das
problemáticas contemporâneas, e entre presente-passado-futuro, que permitem criar projeções e utopias.
(MEC: 1998; 24)

Ainda, pode-se demonstrar que o
"ciclo" da cana de açúcar desencadeou,
além de enriquecimento cultural, o
desenvolvimento de atividades
econômicas auxiliares, como é o caso
dos supracitados, criação de gado,
cultivo de outras culturas agrícolas,
como a mandioca e o fumo e outros
produtos da cana de açúcar, além do
açúcar "branco". Assim, a partir desses
dados, o aluno pode aliar esse
(Réplica de cana-de-açúcar)
conhecimento histórico e questionar as
durações e conseqüências desse tipo de exploração e cultura, observando mais acuradamente à
cultura brasileira oriunda desse período e maturada ao longo do séculos.
O estudo de novos temas, considerando a pluralidade de sujeitos em seus confrontos, alterando concepções
calcadas apenas nos "grandes eventos" ou nas formas estruturalistas baseadas nos modos de produção, por
intermédio dos quais desaparecem de cena homens e mulheres de "carne e osso", tem redefinido igualmente
o tratamento metodológico da pesquisa. (MEC: 1998; 21)

CANA-DE-AÇÚCAR
INDÚSTRIA
PRÉ-HISTÓRICA
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Entretanto, por esse espaço do museu torna-se ainda
difícil trabalhar essa via de análise histórica. Pode-se observar
que nessa sala não há a valorização e/ou relação do "homem
comum" na configuração dessa realidade sócio-econômica e
político-cultural, pois o acervo fixa-se muito na simples
demonstração de objetos utilizados para o processamento da
cana-de-açúcar. Justiça deve ser feita, contudo, para o fato de
que na exposição pode-se encontrar um boneco em tamanho
natural com aparência de sertanejo, ou seja, pode-se trabalhar
a questão do homem atuante nesse processo. Ainda, ao seu
lado pode observar um exemplar bovino que remete ao uso de
gado como força motriz no processamento da cana de açúcar.
(Utilização de animais domésticos no
Esse espaço do Museu propicia o questionamento processamento da cana-de´açúcar)
sobre as durações, as permanências. Basta considerar que os engenhos atuais, encontrados em
algumas localidades próximas, possuem equipamento moderno, mas, contudo, preservam-se os
métodos tradicionais. Assim, pode-se perguntar em que outros setores da vida moderna podemos
encontrar permanências de métodos utilizados no passado, nos quais o progresso tecnológico
aliou-se à tradição?

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MORADIAS
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
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O acervo da Casa Caiçara se constitui em mostrar o
ambiente familiar do caiçara paranaense. Podem ser
observados os materiais utilizados pela família caiçara
em suas tarefas domésticas, principalmente na
alimentação. Outro ponto que merece menção é o fato de
que o acervo não se restringe apenas a nos mostrar o
interior da casa, mas também expõe a área externa da
casa, onde podem ser vistas as crianças brincado, o pai e
os animais pertencentes àquela família.

MORADIAS
INDÚSTRIA PRÉ-HISTÓRICA
- Pilão
- Panelas e cumbucas
- Espingarda
- Rabeca
- Tamanco

(Vários objetos típicos da cultura
caiçara estão presentes nesta moradia)

(Rabeca)

(A moradia caiçara é bastante
simples, com poucas divisórias)

(A cozinha do caiçara
era bastante simples)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Destaques:

(Vista externa da moradia caiçara)

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MORADIAS
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

O povoamento da cidade de Paranaguá começou pela Ilha de Cotinga, por volta de 1550,
quando os europeus, atraídos pela belezas naturais e busca de riquezas, acabaram chegando ao
continente. Pioneiros, vindos principalmente de São Paulo, introduziram o processo de escambo
com os índios Carijós, e deu-se início o processo de povoamento.
Desde 1554 o comércio marítimo com Paranaguá foi estabelecido. A presença de
missionários jesuítas foi marcante na formação da vila de Nossa Senhora do Rocio de Paranaguá,
que foi criada por lei no dia 29 de julho de 1648. Foi instalada a Câmara Municipal e erguido um
pelourinho. Só em 1660 tornou-se capitania, passando à condição de cidade em 5 de fevereiro de
1842. Desde então, começou a expansão dos casarios pelas margens do Rio Itiberê e Paranaguá se
tornou marco na civilização do Paraná.
No ato da colonização, os índios que habitavam o litoral foram sendo exterminados pelos
colonizadores. A herança cultural deixada pelos índios combinada à cultura do colonizador e a dos
escravos fez surgir uma nova cultura na região litorânea, a caiçara (o termo caiçara denomina as
comunidades de pescadores tradicionais do litoral dos Estados do Paraná, São Paulo e sul do Rio de
Janeiro).
Os Caiçaras representam um forte elo entre o homem
e seus recursos naturais, gerando um raro exemplo de
comunidade harmônica com o seu ambiente. Eles têm uma
forma de vida baseada em atividades de agricultura itinerante,
da pequena pesca, do extrativismo vegetal e do artesanato.
Outras características importantes a serem notadas
(Barreado, prato típico do caiçara)
nas comunidades caiçaras paranaenses são: o barreado e o
fandango. · O barreado é um prato típico do Paraná originário dos pescadores do litoral. No
folclore paranaense o prato, embora feito com carne de segunda, é símbolo de fartura, festa e
alegria, pois foi incorporado pelo caiçara durante o entrudo, precursor do carnaval.
O fandango hoje é uma dança típica do litoral do Paraná, mas já foi considerada perniciosa
aos bons costumes, tendo sido bastante reprimida quase até à extinção.
Na sociedade paranaense do século XIX, escravos, libertos, pardos, mulatos e brancos despossuídos
formavam um grupo social bastante homogêneo culturalmente. Apesar da persistência de manifestações
culturais como o jongo, a confusão entre os termos "batuque" e "fandango" parece sugerir que estava em
andamento a fusão entre duas manifestações anteriormente distintas numa única: o baile popular.
(PEREIRA: 1996; p. 164)

A partir da década de 1960 houve uma
maior preocupação das autoridades em se
resgatar a tradição do fandango. Mas por essa
ocasião, o fandango já estava bastante
modificado de seu formato original.
(Tamancos, calçado típico
para os bailes de fandango)

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MORADIAS
INDÚSTRIA PRÉ-HISTÓRICA
Nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Médio de 1998 podemos
encontrar uma menção favorecendo a interdisciplinaridade entre História e Antropologia:
A aproximação entre a Antropologia e a História tem sido importante, dando origem a abordagens
históricas que consideram a cultura não apenas em suas manifestações artísticas, mas nos ritos e
festas, nos hábitos alimentares, nos tratamentos das doenças, nas diferentes formas que os vários
grupos sociais, ao longo dos séculos, têm criado para se comunicar, como a dança, o livro, o rádio, o
cinema, as caravelas, os aviões, a Internet, os tambores e a música.

A Casa Caiçara se mostra perfeita para que possa ser feita esta aproximação, pois,
além de expor a arquitetura da casa do caiçara, também expõe sobre sua alimentação, seus
instrumentos musicais e o modo de vida de suas crianças. Assim uma atividade interessante
seria a comparação entre a casa cabocla exposta e casa em que o estudante habita.

(A organização da casa caiçara expressa o estilo de vida dessa sociedade)

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Ensino de História

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FONTES
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
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Relato de um baile de fandango na década de 1870 por um estrangeiro.
Uma noite fomos convidados gentilmente a ir a uma baile chamado de "fandango", dado por
um caboclo da aldeia. Curling e eu fomos juntos, atendendo a cuidadoso convite escrito. Ao entrar
na casa em que a festa ia se realizar, encontramos-nos logo em espaçosa sala de terra batida e, em sua
volta, estavam as belezas da aldeia, encostadas 'a parede, decente e elegantemente vestidas em
algodão estampado, todas cuidadosamente preparadas para a ocasião.
No centro da sala, onde não se via mobília alguma, achava-se reunido um grupo de cerca de
doze rapazes do lugar, fumando e conversando de chapéu na cabeça, parecendo não se lembrarem
de estar na presença de senhoras.
A nossa entrada pareceu ser o sinal do começo da festa. Dois banjos (violas) principiaram a
soar e então, pela primeira vez, os rapazes se voltaram para as recatadas, mas prudentes donzelas,
que até o momento esperavam silenciosamente por aquele instante. Cada um dos rapazes escolheu
uma comparsa, formando-se dez pares, que se dispuseram em forma de roda, no meio da sala, e a
dança começou.
Em passo batido e lento, mas rítmico, acompanhando as violas, os homens começaram
primeiro a dançar, adiantando-se e retirando-se para o centro do círculo alternadamente, e as
mulheres também batiam os pés, mas não avançavam. Ao fim de doze compassos musicais, todos
em conjunto, homens e mulheres, batiam palmas três vezes, o que servia de sinal para que todos
dessem maior intensidade aos movimentos do corpo e batessem com mais força no chão.
Finalmente, um dos dançarinos, com bonita voz, começou a cantar a linda canção em perfeita
harmonia com a musica, sendo as últimas palavras da letra repetidas em coro. Outro silêncio vocal,
enquanto o monótono tum-tum-tum das violas e o ruído produzido pelos pés continuavam a bater.
Daí a pouco um segundo dançarino se pôs a cantar, terminando também em coro geral.
Observamos em cada uma dessas ocasiões que os olhos dos dançarinos ficavam voltados
para o nosso lado, como se estivessem se dirigindo a nós. Soubemos depois, por um de nossos
intérpretes presente, que estávamos sendo convidados a participar da dança. De boa vontade,
escolhemos cada um uma donzela das que ainda restavam encostadas 'a parede e fomos para a roda,
no meio da sala.
Durante aqueles minutos que pareciam intermináveis, tivemos então de bater os pés também
sobre o soalho pesado, sacudir os braços e o corpo e bater palmas. À proporção que a dança
continuava, a agitação ficava mais forte, a voz se transformava em grito, o menear do corpo, antes
gracioso, tendi para as contorções violentas, entrando em cena todos os movimentos característicos
de uma dança guerreira de índios norte americanos. Eu e Curling saímos sorrateiramente da roda
doa dançarinos e retiramo-nos para um despercebido segundo plano.
A atmosfera da sala estava cheia da fumaça dos cigarros, através da qual as velas de cera,
enfiadas na parede, lançavam uma luz triste. Súbito a música cessou e os dedos cansados dos
menestréis cediam por fim, terminando assim abruptamente a dança. A parceria entre cada par
foi imediatamente dissolvida, sem cerimônias da nenhuma espécie. O rapaz se afastou da dama
sem dizer palavra ou saudação e sem olhar para ela. A donzela desprezada, não vendo por mais
tempo necessária a sua presença ou colaboração, retornou mais uma vez ao seu lugar junto à
parede, para ser flor ignorada, até que outra dança pudesse começar.
(BIGG-WITHER, T. Novo caminho no Brasil Meridional.Curitiba: UFPR, 1984)

FONTES

PROCESSO DE: Resoluçao de "Se dar ou não" sepultura eclesiástica para um
suicida (1794) . Paulo Monteiro, escravo (suicida)
Auto Sumario Sobre o Suicidio de Paulo Montrº escravo de Joaqm de Miranda
Aos vinte oito dias do mes de Abril do anno de mil Setecentos e noventa e quatro nesta Villa
de Coritiba em Cazas de morada do Muito Reverendo Senhor Vigario da Vara Francisco das
Chagas Lima, aonde eu Escrivo' do Seo Cargo ao diante nomeado fui vindo e Sendo ahi,
forao' juntos os Reverendos Senhores o Padre Frei Antonio da Natividade Costa o Reverendo
Coadjutor Joaquim Gomes de Escobar, e o Reverendo Teodoro Jozê de Freitas Costa para
effeito de Se ConSultar e rezolver Se Se devia dar, ou negar a Sepultura Ecleziastica a Paulo
Monteiro, escravo de Joaquim de Miranda; por quanto estando elle prezo na Caceia desta Villa
por culpas, que tinha perante a Justiça Secular, fora achado esta noite passada morto com hua
cordinha ao pescoço, que, por Ser elle Só e prezo, conServado na [corroída 1 palavra],
mostrava, Ser a acçao' comettida por elle mesmo E porque nao' constou, nem pode constar,
que elle tivesse arrependimento daquelle Suicidio, aSsentavao' conformemente, que Se lhe
devia negar a Sepultura Ecleziastica, para que vendo os vivos que a Igreja castiga aos que
comettem tao' enorme pecado, Separando os depois dos Fieis Se Abstenhao' de comete-lo, e
de como aSim Se aSSertou, mandou oReverendo Ministro fazer este termo, em que todos
aSsignarao'e eu Francisco Manoel da FonSeca Paes Leme, Escrivao' deste Juizo Ecleziastico,
o escrevi
Chagas Theodoro Jozé de Freytas Costa
Escobar Fr Antonio da Nativid. Costa
(CEDOPE - DEHIS -UFPR)

MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Durante o período colonial, o cristianismo era diferente da atualidade,
preocupando-se com problemas como a escravidão e o direito à sepultura por
suicidas.

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FONTES
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Entrevistas realizadas com três senhoras parnanguaras que detém o conhecimento acerca do
processo caseiro de fabricação de medicamentos a base de plantas. (janeiro de 2004)
Entrevistada 1: Elzira Silva Zela, idade: 65 anos.
Entrevistada 2: Rosina Kugler Rodrigues, idade: 85 anos.
Entrevistada 3: Euthalia Soares Martins, idade: 93 anos
1. Como você aprendeu a utilizar plantas medicinais?
R1: Com a minha mãe.
R2: Com minha mãe, que tinha as ervas cultivadas no quintal.
R3: Com a minha avó.
2. Onde são colhidas/cultivadas as plantas que você utiliza?
R1: No quintal de casa e também no mato.
R2: No quintal, e algumas colhidas no mato.
R3: No quintal de casa.
3. Para que serve cada uma dessas plantas?
A. Ora-pro-nobis (peireskia acuelato)
R1: Para lavar a pele.
R2: Não sei.
R3: Não sei.
B. Boldo (coleas barbatus benth)
R1: Para mal estar do estômago.
R2: Para má digestão, acidez.
R3: Dor no estômago.
C. Alecrim (rosmarinus officinalis)
R1: É calmante e também utiliza-se como tempero.
R2: Estômago, e para acalmar os nervos.
R3: Não sei.
D. Penicilina (alternanthera brasiliana)
R1: Não tenho conhecimento.
R2: Não conheço.
R3: Contra infecções.
E. Alfazema (lavandula officinalis)
R1: É utilizada em feridas na pele e para banhos.
R2: Defumação
R3: Não sei.
F. Capim limão (kylling odorata)
R1: Para gripe e como calmante.
R2: Calmante
R3: Contra gripe e como calmante.
G. Sabugueiro (sambacus migra)
R1: Utilizado para má circulação e como depurativo.
R2: Suador.
R3: Contra febre e sarampo (banho).
H. Erva de passarinho (struthanthus flexcaulis)
R1: Cataplasma, para bronquite.
R2: Diarréia.
R3: Banho contra frieira e bicho geográfico.
I. Babosa (aloes humilis)
R1: Para queda de cabelo.
R2: Queda de cabelo.
R3: Lavar a cabeça para impedir a queda dos cabelos.

FONTES

4. Quem são as pessoas que procuram mais os seus serviços?
R1: Mais mulheres, idosos e pobres.
R2: Mulheres, idosos, pobres de Paranaguá.
R3: Mulheres, idosos e pobres.
5. Existem pessoas que se interessam pelo estudo de plantas medicinais e remédios
"caseiros" atualmente?
R1: Existem, mas não querem aparecer por medo.
R2: Conheço alguns poucos.
R3: Se existe, eu não conheço.
6. Você acha que essa tradição está se perdendo? Por quê?
R1: Não, porque os remédios são caros e muitas vezes os remédios caseiros são uma maneira de
tratar doenças. Principalmente para os moradores dos lugares de difícil acesso.
R2: Não, porque causam menos efeitos colaterais e o preço dos remédios é muito alto.
R3: Sim. Porque as plantas não são mais cultivadas e por ser mais fácil comprar nas farmácias e
supermercados.

(D. Euthalia e as plantas medicinais que cultiva em seu quintal)

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J. Guaco (mickania glomerada)
R1: Tosse e bronquite.
R2: Tosse.
R3:

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FONTES
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
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Relação da mão-de-obra marítima em 1860, de acordo com dados do Ministério da
Marinha.

Tabela encontrada do site "Brazilian Government Document Digitization Project
MINISTERIAL REPORTS, 1821-1960". Link: http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/u2094/000063.html)

FONTES
Vê-se em Paranaguá um grande número de vendas e de lojas bem abastecidas. Os
negociantes importam do Rio de Janeiro os artigos de que têm necessidade e exportam para essa
cidade, bem como para o Sul, arroz, cal, uma grande quantidade de tábuas, principalmente de
peroba e de canela-preta, mate, cordas feitas com cipó-imbé ou com folhas de Bromeliáceas e uma
enorme variedade de miuçalhas. Não será de admirar se o comércio de Paranaguá tomar um
grande incremento quando o caminho da Serra se tornar facilmente transitável e a agricultura dos
Campos Gerais se desenvolver suficientemente. De 1805 a 1807, as exportações de Paranaguá,
oriundas não apenas do distrito dessa cidade mas também de outra parte da Comarca de Curitiba,
foram avaliadas em 51.482.530 réis, e somente no ano financeiro de 1835 a 1836 elas se elevaram
a 197.900.470. (...)
Os produtos de exportação continuam hoje praticamente os mesmos do princípio do
século, mas convém notar que naquela época Paranaguá exportava o trigo em grãos e a farinha de
trigo, e hoje não exporta nenhum dos dois. Talvez não seja difícil explicar essa mudança. Nos anos
que se seguiram a 1800, o preço extremamente baixo do gado provavelmente levou os fazendeiros
do Distrito de Curitiba a abandonar a criação de bois e procurar novas fontes de lucro. Naquela
época, as leis portuguesas e a guerra tornavam difícil a entrada de trigo estrangeiro no Brasil; os
curitibanos dedicaram-se ativamente ao cultivo
desse cereal, e se afirma que foram construídos
vários moinhos nos arredores de São José dos
Pinhais. Mas quando a Província do Rio Grande do
Sul deixou de enviar o seu gado para o Rio de Janeiro
e começou a haver uma grande procura de bois em
Curitiba, tendo-se quadruplicado o seu valor;
quando o trigo estrangeiro de boa qualidade voltou a
entrar facilmente no país e era vendido a preços
moderados, os curitibanos, que tinham deixado
degenerar a qualidade do seu trigo, decidiram que
seria mais proveitoso aumentar os seus rebanhos do
que se dedicar, como antes, à cultura do trigo, que era
mais trabalhosa e menos lucrativa.
(Auguste de Saint-Hilaire, botânico francês,
viajou pelo Brasil entre os anos de 1816 e 1822)

(SAINT-HILAIRE, Viagem a Curitiba e a Província de Santa Catarina. p. 100-101)

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Saint-Hilaire e a questão da economia periférica (primeira metade do séc. XIX)

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SERVIÇOS
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Neste espaço serão informados os serviços prestado pelo Museu à comunidade.

CRÉDITOS DAS ILUSTRAÇÕES
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

Mapas - VIEIRA DOS SANTOS, A. Memória História da cidade de Paranaguá. Curitiba: 2001
(1850).
P. 03 - acervo do Museu
P. 06 - CURITIBA. Secretaria do Estado da Cultura. Pintores da Paisagem Paranaense.
Curitiba: Solar do Rosário, 2001.
P. 45(mapa) - SOARES, C. R. Baía de Paranaguá: Mapas e Histórias. Curitiba: Editora da
UFPR, 1994.
P. 47 - CURITIBA. Secretaria do Estado da Cultura. Pintores da Paisagem Paranaense.
Curitiba: Solar do Rosário, 2001.
P. 61 - MICHEL, A. Histoire Générale de la Médecine. Paris: s.d.
As demais fotos são de nossa autoria.

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REFERÊNCIAS
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ
83

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AZEVEDO, F. C. Fandango do Paraná. Rio de Janeiro: Funarte, Campanha de Defesa do
Folclore Brasileiro, 1978.
BIGG-WITHER, T. Novo caminho do Brasil Meridional. Paraná: Três anos em suas florestas e
campos. 1872-1875. Rio de Janeiro/Curitiba: José Olympio/UFPR, 1984.
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CHMYZ, I. Arqueologia de Curitiba. In: "Boletim Informativo da Casa Romário
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CURITIBA. Secretaria do Estado da Cultura. Pintores da Paisagem Paranaense. Curitiba: Solar
do Rosário, 2001.
EL-KHATIB, F. (Org.). História do Paraná. 3 Vols.. Curitiba: Grafipar, 1969.
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REFERÊNCIAS
MUSEU ARQUEOLÓGICO E ETNOGRÁFICO DE PARANAGUÁ

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_____. A Faina, a festa e o rito. Uma etnografia histórica sobre as gentes do mar (sécs. XVII
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SEVCENKO, N. (org.). História da Vida Privada no Brasil Vol. 3. República: da Belle
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