objetivos

AULA

A história do atendimento à
criança no Brasil

6
Meta da aula

Mapear as formas de amparo à criança ao longo
da história do Brasil.

Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta
aula, você seja capaz de:
1. identificar as formas de atendimento à criança
no Brasil nos diferentes momentos históricos e
políticos;
2. reconhecer a história da creche no Brasil.

Educação Infantil 1 | A história do atendimento à criança no Brasil

INTRODUÇÃO

Nesta aula, analisaremos a história do atendimento à criança no Brasil e
precisaremos revisitar a própria história do Brasil. Portanto, dividiremos este
texto de acordo com os diferentes momentos históricos, mas procurando
sempre enfocar a infância. Também realizaremos uma retrospectiva histórica
da creche no Brasil. Quando e por que surgiu, a forma de atendimento prestado à criança nos diferentes momentos históricos e as principais mudanças
até os dias atuais.

História do Atendimento à Infância no Brasil

Descobrimento do Brasil e ação dos jesuítas
A primeira forma de atendimento às crianças no Brasil surgiu
logo após o seu descobrimento com a chegada dos jesuítas. Os jesuítas
tinham o objetivo de civilizar os índios através do cristianismo, mas
encontraram bastante resistência com os índios adultos e voltaram-se
para as crianças (curumins), que eram afastadas do convívio familiar e
A Casa dos

passavam a viver na C a s a

Muchachos

hábitos da cultura europeia e eram catequizados.

era
o lugar onde os indiozinhos eram criados
e catequizados pelos
jesuítas, junto com
órfãos portugueses,
para que tivessem um
modelo para aprender
os modos considerados civilizados com
outros da mesma
faixa etária (FREITAS, 2001, p. 96).

dos

M u c h a c h o s , local onde aprendiam os

Ao fim da infância essas crianças saíam da Casa dos Muchachos
e voltavam para a tribo ou perambulavam pelas cidades, já que muitos
não conseguiam se readaptar à vida indígena. Podemos pensar que essa
prática deu origem à primeira população de rua de nosso país, já que
não conseguiam retornar aos antigos hábitos indígenas e também não
conseguiam se inserir na sociedade, vagando pelas cidades em busca de
um lugar para morar e trabalhar.

Período Colonial (1530 até 1822)
Durante o Período Colonial, houve uma grande importação de pensamentos e ideias dominantes na Europa, inclusive em relação ao atendimento
à criança, mas apresentando uma diferença clara entre negros e brancos.
Os filhos de escravos eram incorporados ao trabalho a partir de cinco anos
e com 12 anos já eram considerados adultos, inclusive sexualmente usados
para reproduzir e aumentar o número de escravos. As crianças brancas em
muitas famílias eram cuidadas por amas. A partir de seis anos, frequentavam
os colégios religiosos, utilizavam trajes adultos e recebiam castigos.

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Nessa época, foi criada a Santa Casa de Misericórdia, que cuidava,

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a princípio, dos doentes, mas logo começou a receber crianças que eram
abandonadas em um dispositivo denominado "roda", onde quem recebia a
criança não conseguia identificar quem a estava abandonando. A roda dos
expostos legitimava o abandono de crianças, já que era um local público
onde se possibilitava que estas fossem deixadas. No séc. XVIII muitas crianças abandonadas na roda morriam devido à falta de condições mínimas de
higiene e saneamento na Santa Casa. As que conseguiam sobreviver eram
entregues a "criadeiras externas" (mulheres que recebiam uma quantia
do governo para cuidar das crianças) até os nove anos. A partir de então
eram encaminhadas ao trabalho em fazendas ou na Marinha.

Pelo que consta a
"roda" começou na
Itália, sendo depois
adotada por inúmeros
países, inclusive Portugal e Brasil. No Brasil a primeira "roda"
surgiu em 1730 no Rio
de Janeiro e estava
colocada no Asylo dos
Expostos, fundado por
Romão Mattos Bernardes, sendo que, posteriormente, também
veio a existir na Bahia
e em São Paulo (VELLOSO, 2009).

Fonte: www.santacasasp.org.br/.../downloadsdisponiveis-roda-dos-expostos.pdf

A partir da metade do século XIX, a
prática da roda e as amas passaram a
ser condenadas pelos abolicionistas
e higienistas, porque o índice de
mortalidade das crianças que eram
abandonadas era altíssimo.

Brasil Independente (1822 até 1889)
Como uma das consequências da independência do Brasil, temos o
inchaço das cidades e a queda da qualidade de vida, levando ao aumento
da criminalidade. Adultos e crianças infratoras eram encaminhadas ao
mesmo local. Somente em 1861, surgiu o primeiro Instituto de Menores,
para onde passaram a ser encaminhadas as crianças infratoras.

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Educação Infantil 1 | A história do atendimento à criança no Brasil

O Instituto de Menores tinha o objetivo de disciplinar os corpos
(uso de castigos corporais) para disciplinar a mente. Com o passar do
tempo eram encaminhadas a essa instituição todas as crianças em situação
de rua, sendo ela infratora ou não. O Estado passou a tutelar a criança
pobre como se fosse criminosa e passou a ensinar-lhe ofícios. As crianças
eram separadas por idade e grau de aprendizagem e, posteriormente,
encaminhadas à escola de aprendizes de marinheiro.

Brasil República (1889 a 1930)
O período que vai de 1889 a 1930 é conhecido como a República
Velha. Este período da História do Brasil é marcado pelo domínio
político das elites agrárias mineiras, paulistas e cariocas. O Brasil
firmou-se como um país exportador de café, e a indústria deu um
significativo salto. Na área social, várias revoltas e problemas
sociais aconteceram nos quatro cantos do território brasileiro
(SUA PESQUISA, 2009).

O Brasil República herda os problemas sociais do Império. Em relação
à infância, o Movimento Higienista clamava por uma assistência à infância
nos internatos devido às altas taxas de mortalidade infantil.

No fim do século XIX e início do XX, surgia uma nova
mentalidade que se propunha a cuidar da população,
educando e ensinando novos hábitos. (...) Convencionouse chamá-la "movimento higienista". Muitos "higienistas"
tomavam como referência a ideia que preconizava ser a
falta de saúde e educação do povo responsável por nosso
atraso em relação à Europa (GÓIS JUNIOR, 2002).

Os juristas começavam a criar as primeiras leis para os "menores"
no início do século XX. Essas leis visavam regular a vida e a saúde dos
recém-nascidos, os serviços prestados pelas amas de leite, assim como
velar pelos menores infratores ou em situação de trabalho, amparar as
crianças pobres, doentes, deficientes, maltratadas e abandonadas; criar
instituições como maternidades, creches e jardins de infância.

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Em 1919 foi criado o Departamento da Criança no Brasil,
cuja responsabilidade caberia ao Estado, mas foi mantido
na realidade por doações, que possuía diferentes tarefas:
realizar o histórico sobre a situação da proteção a infância
no Brasil; fomentar iniciativas de amparo à criança e à
mulher grávida pobre; publicar boletins; divulgar conhecimentos; promover congressos; concorrer para a aplicação
das leis de amparo à criança; uniformizar as estatísticas
brasileiras sobre mortalidade infantil (disponível em http://
samanthapaiva.blogspot.com).

Estado Novo (Era Vargas ­ 1930 até 1945)
Getúlio Vargas foi nomeado presidente e começou com
uma política de modernização do país. Criou vários ministérios (do Trabalho, Indústria e Comércio e o Ministério da
Educação e Saúde) e a Lei da Sindicalização, que vinculava
todos os sindicatos ao Presidente, com a pretensão de ganhar o apoio popular (o que ficou conhecido como política
do populismo). Durante a Era Vargas aconteceram diversos
avanços na legislação trabalhista, que culminaram na CLT
(Consolidação das Leis Trabalhistas).
Durante seu governo também houve uma forte influência nazifascista vinda da Europa, e o Brasil tentou buscar
alternativas para o atendimento à infância como forma de
"aperfeiçoar a raça".

Fonte: an.arquivonacional.gov.br

Tanto o nazismo quanto o fascismo eram regimes totalitários, eram ditaduras de extrema-direita, e todas as decisões eram tomadas em função
dos interesses do Estado. O poder central era concentrado nas mãos do
chefe do governo.

Acreditava-se que as condutas antissociais eram adquiridas
hereditariamente e o meio social faria com que se instalassem ou não.
Ou seja, acreditava-se que, se a criança nascesse com uma herança
genética para criminalidade e vivesse em um ambiente que favorecesse
a marginalidade, ela consequentemente seria um marginal.

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Educação Infantil 1 | A história do atendimento à criança no Brasil

Como uma tentativa de eliminar uma possível convivência das
crianças com a marginalidade, foi criado em 1941 o Serviço de Assistência ao Menor (SAM), que era um conjunto de normas e regras para
instituições públicas e particulares que atendiam crianças.
Veiculava-se inicialmente que as instituições regidas pelo SAM
eram a única possibilidade para uma boa educação para a criança pobre, e a população carente recebia a orientação para que levassem seus
filhos para essas instituições. Mas na verdade tornou-se uma fábrica de
delinquentes, na medida em que a criança pobre não infratora convivia
com menores infratores. O que tanto se temia inicialmente, que era
essa convivência com a marginalidade, acabou acontecendo dentro das
próprias instituições.

De 1945 a 1951 Vargas foi senador federal e, após esse mandato, voltou
à presidência pelo voto popular. Em agosto de 1954, sob forte pressão
política e escândalos pessoais, Getúlio Vargas cometeu suicídio.

Ditadura militar (1964-1985)
Em abril de 1964 iniciou-se a ditadura militar no Brasil, após um
golpe das forças armadas ao governo de João Goulart. Um dos principais motivos para o golpe foi o receio da implantação de reformas,
especialmente a reforma agrária, que traria como consequência direta
a divisão das grandes propriedades de terra, reivindicada por políticos
e intelectuais desde a abolição (1888), levando a diminuição do poder
dos "coronéis" (proprietários de terras no Nordeste) que mantinham os
trabalhodores do campo sob seus domínios, inclusive manipulando-os
nas campanhas eleitorais.
Em relação à infância, durante o período da ditadura militar,
o Estado considerava o menor como "objeto de segurança nacional".
O SAM foi extinto e criada a funabem (Fundação Nacional do Bem-Estar
do Menor), que tinha objetivos de integração da criança na sociedade, ou
seja, durante a estada na instituição a criança receberia um preparo para
estar no convívio social quando retornasse a sua família, inclusive com um
preparo profissional, mas na verdade só mudaram os títulos, o atendimento
à criança permaneceu da mesma forma: o assistencialista.

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Depois das pressões vindas de organizações não governamentais

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(Pastoral do Menor, entre outras), em 1989 surge uma legislação para
a infância: Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A funabem é
extinta e são mais focalizados os direitos da criança e do adolescente ao
invés dos deveres, na medida em que passam a ser vistos como sujeitos
de direitos. Hoje é essa legislação que norteia todas as instituições que
trabalham com crianças, sejam elas infratoras ou não.

ATIVIDADE
Atende ao Objetivo 1
1. Como sugestão de atividade, faça um panorama das formas de atendimento da criança pelo Estado no Brasil nos diferentes períodos históricos.
Como sugestão, faça uma linha do tempo, colocando em vermelho as
características que se mantiveram em cada fase e em azul as que surgiram
naquela época especificamente. Essa linha do tempo o ajudará a compreender o mapeamento que fizemos até aqui e será um bom esquema para
estudar para as avaliações.
Características
mantidas

Características novas

Descobrimento
do Brasil

Período
Colonial

Brasil
independente

Brasil
República

Ditadura militar

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Educação Infantil 1 | A história do atendimento à criança no Brasil

resposta

Período
histórico

Características
mantidas

Características novas

­

Afastamento da convivência
familiar (tutela da criança
órfã e indígena pela igreja/
Estado)

Período
Colonial

Tutela da criança órfã pelo
Estado.

Herança dos modelos europeus
de atendimento à criança;
roda dos expostos e criadeiras externas;
alto índice de mortalidade
infantil.
crianças brancas nos colégios;
castigos corporais.

Brasil
independente

Tutela da criança órfã pelo
Estado;
castigos corporais;
alto índice de
mortalidade
infantil.

Instituto para menores infratores;
tutela da criança pobre como
criminosa;
ensino de ofícios;
escola de aprendizes de
marinheiro;

Brasil
República

Tutela da criança órfã e pobre
pelo Estado;

Movimento higienista;
criação de leis para o amparo
à criança.

Era Vargas

Tutela da criança órfã e pobre
pelo Estado;
tutela de crianças infratoras
e não infratoras na mesma
instituição.

Ditadura
militar

Tutela da criança órfã e pobre
pelo Estado;
tutela de crianças infratoras
e não infratoras na mesma
instituição.

Descobrimento
do Brasil

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Influência nazifascista;
SAM.

Funabem;
preparo para o convívio
social.

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A História da Creche no Brasil
Durante o mapeamento histórico que fizemos na primeira parte
da aula, não nos detivemos em falar das instituições que atendiam às
crianças pequenas no Brasil porque queríamos dedicar um tópico especialmente para essa discussão. A creche no Brasil surge acompanhando
as modificações do capitalismo, a urbanização em pleno crescimento e
a necessidade de aumento da força de trabalho.
Durante muitos séculos, o cuidado e a educação da criança eram
tarefas familiares, principalmente das mulheres. A criança era considerada um adulto em miniatura e logo que superava a fase de dependência
de necessidades físicas passava a participar das atividades cotidianas dos
adultos e era integrada a esse meio social como um adulto. Apesar do
contexto doméstico ser o mais utilizado para a educação das crianças,
alguns espaços alternativos foram sendo criados ao longo da história
para amparar as crianças em situações desfavoráveis, como é o caso da
"roda". A responsabilidade por esse acolhimento era realizada em geral
por entidades religiosas e eram sempre permeadas pelas ideias de abandono e pobreza. Essas ideias geraram concepções negativas acerca das
instituições de educação infantil, acentuando sempre um favorecimento
da família como a matriz educativa principal.

O termo "creche" é de origem francesa e significa manjedoura ou presépio. Na Itália, foi utilizado o termo "asilo
nido" que indica um ninho que abriga. No Brasil, além do
termo creche foi muito utilizada a denominação escola
materna. Em todos os nomes se reforça a instituição de
educação infantil como um lugar da falta familiar (OLIVEIRA, 2002).

Até meados do século XIX no Brasil, o atendimento de crianças
pequenas longe da família praticamente não existia. O avanço da industrialização no século XX favoreceu mudanças familiares importantes.
A estrutura econômica baseada na agricultura, na qual toda a família
trabalhava junto e próximo à residência, cedeu lugar a uma estrutura
na qual cada trabalhador era considerado uma unidade produtiva,
incluindo uma separação entre o ambiente doméstico e o local de trabalho. Um grande número de mulheres foi inserido nas fábricas, gerando
o problema de onde deixar a prole durante o horário de expediente.

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Educação Infantil 1 | A história do atendimento à criança no Brasil

Soluções emergenciais precisaram ser tomadas dentro dos próprios
núcleos familiares e algumas mulheres passaram a "tomar conta" das
crianças para que as mães pudessem trabalhar em troca de pagamento.
Eram chamadas "criadeiras" e as precárias condições de atendimento
levaram a uma alta da mortalidade infantil.
A creche surgiu na segunda metade do século XIX com a finalidade
de amparar as classes populares e liberar a mão de obra pobre feminina.
As primeiras creches atendiam ao apelo do movimento higienista, difundindo os preceitos higiênicos entre os menos favorecidos economicamente, e o das mulheres burguesas, na medida em que abrigavam os
filhos das empregadas domésticas.
Essas iniciativas de proteção à infância estavam relacionadas ao
combate das altas de taxas de mortalidade infantil e atribuíam à família
a culpa por essa situação. Com isso, a creche foi ganhando a conotação
que em parte é encontrada até hoje, como lugar da carência e do abandono. Muitas mães ainda vivem com ambivalência o fato de deixar o
filho na creche para continuarem trabalhando.

Embora fisiologicamente possibilitada de afastar-se do bebê sem prejuízo deste, a mãe
ainda não se sente emocionalmente disponível para tal. A função materna atualmente possui uma característica que pode ser definida como a resultante de duas forças
opostas. De um lado, o ideal da maternidade como a dedicação irrestrita e exclusiva da
mãe ao filho. De outro, as condições objetivas de vida das mulheres, onde o trabalho
extra domiciliar aumenta a cada ano. Dessa batalha cotidiana, travada por cada mulher,
nasce a culpa. Essa dificuldade de conciliação de papéis torna esse sentimento frequente para a mãe do século XX. A creche, cuja finalidade seria permitir uma solução de
forma satisfatória para a mãe e filho, também é vivificada com profunda ambivalência
(CIVILETTI, 1988, p. 18).

No final do século XIX é trazido ao Brasil, através das influências americana e europeia, o jardim de infância, que também foi alvo
de muitas discussões entre os políticos da época. Alguns o criticavam
porque consideravam mais um local de mera guarda das crianças.
Os Jardins de Infância eram considerados prejudiciais porque tiravam
a criança do convívio familiar precocemente. Outros os defendiam por
acreditarem que trariam benefícios ao desenvolvimento da criança, já
se vislumbrando um aspecto pedagógico influenciado pelo Movimento
das Escolas Novas (OLIVEIRA, 2002).

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O movimento operário nas décadas de 1920 e 1930, liderado prin-

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cipalmente por imigrantes europeus, reivindicava melhores condições de
trabalho e locais para o atendimento das crianças durante o horário de
expediente. A necessidade de ajuda nos cuidados com os filhos foi produzida pelo novo sistema econômico industrial, mas não foi reconhecido como
um dever social. Algumas creches próximas às fábricas foram criadas pelos
empresários e usadas nos ajustes das relações de trabalho. Ainda assim,
o discurso existente na época era de um ideal de mulher voltada para a
família e cuidados com os filhos no ambiente doméstico. O atendimento
à criança pequena em creches era de cunho assistencialista, o higienismo
dominava a expectativa de educação de crianças pequenas.
Organizados aqui no Brasil, os operários passaram a protestar
contra as precárias condições de vida e de trabalho. Os empresários
procurando enfraquecer os movimentos começaram a conceder
algumas creches e escolas maternais para os filhos de operários.
As grandes cidades não dispunham de infra-estrutura urbana suficiente, em termos de saneamento básico, moradias etc., sofriam o
perigo de constantes epidemias. A creche passou a ser defendida por
sanitaristas preocupados com as condições de vida da população
operária. Grupos de mulheres de classes sociais mais abastadas
que, organizadas em associações religiosas ou filantrópicas, criaram várias creches. Instruíam as mulheres das camadas populares
a serem boas donas-de-casa e a cuidarem adequadamente de seus
filhos. Eram convictas de que o cuidado materno era o melhor para
a criança e que o cuidado em grupo (creche) era certamente um
substitutivo inadequado (GONÇALVES, 2009).

Nesse contexto histórico, surgiram as primeiras legislações sobre
o trabalho da mulher e o atendimento de crianças pequenas. A partir
de 1923, foi regulamentada a lei que concedia o direito às instalações
de creches e salas de amamentação próximas ao ambiente de trabalho.
Em 1943, com a Consolidação das Leis do Trabalho, foram prescritas
leis sobre o atendimento dos filhos de mulheres trabalhadoras com a
finalidade de facilitar amamentação durante o horário de trabalho.
A partir da década de 1950, houve um aumento do número de
mulheres de classe média no mercado de trabalho. Até então, a maioria
das mulheres trabalhadoras pertencia às classes menos favorecidas.
Paralelamente a esse aumento, houve uma especulação imobiliária nas grandes cidades, com a redução do espaço que as crianças tinham para brincar.

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Educação Infantil 1 | A história do atendimento à criança no Brasil

Todos esses fatores contribuíram para o crescimento da demanda do
atendimento público da Educação Infantil (uma das etapas da Educação
Básica, segundo a LDB n° 9.394/96) destinado a crianças de zero a seis
anos. Com a procura de classes sociais mais favorecidas economicamente
por esse tipo de atendimento, houve uma preocupação maior com a
socialização, a criatividade e o desenvolvimento infantil como um todo.
A instituição de educação infantil deixa de ser pensada como uma
instituição assistencialista e começa a ser pensada como um ambiente
estimulador, que proporciona bem-estar e condições necessárias para
o desenvolvimento infantil, ao menos nas instituições que recebiam as
crianças das classes mais favorecidas. Com a Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional aprovada em 1961, o atendimento a crianças menores
de sete anos passa a ser incluído no sistema de ensino, ainda que com
a finalidade de uma educação pré-escolar, ou seja, não com objetivos
próprios, mas sim como um simples preparo para o ensino primário.
Assim, para a população de baixa renda, foram sendo criadas
propostas de trabalho para as instituições de educação infantil (creches e
pré-escolas) com caráter compensatório, baseados na teoria da privação
cultural. As propostas visavam a uma estimulação precoce e ao preparo para
a alfabetização, dando continuidade às práticas assistencialistas de educação
e ensino. Já para as camadas mais favorecidas, os projetos elaborados para
educação infantil começavam a ter uma conotação de aprimoramento intelectual, visando aos aspectos cognitivos, sociais e emocionais da criança.

Privação cultural baseava-se na ideia de que só havia um modelo de criança: a da classe média, e assim, as outras crianças desfavorecidas economicamente comparadas a
estas crianças-modelo eram consideradas "carentes" e "inferiores". Faltavam para elas
determinadas atitudes e conteúdos. Na década de 70, ocorre a profusão de movimentos
sociais e com eles surge, dentre outras, uma proposta de creche mais afirmativa para a
criança, a família e a sociedade. Para encerrar este período, é importante ainda lembrar
que, em 1975, o Ministério de Educação e Cultura instituiu a Coordenação de Educação
Pré-Escolar e, em 1977, foi criado o Projeto Casulo, vinculado à Legião Brasileira de
Assistência (LBA) que atendia crianças de zero a seis anos de idade e tinha a intenção
de proporcionar às mães tempo livre para poder "ingressar no mercado de trabalho e,
assim, elevar a renda familiar" (GONÇALVES, 2009).

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ATIVIDADE
Atende ao Objetivo 2
2. Apresente uma reflexão crítica sobre a seguinte afirmação:
A história da creche liga-se às modificações do papel da mulher na
sociedade e suas repercussões no âmbito da família, em especial
no que diz respeito à educação dos filhos. A creche deve ser compreendida dentro de um contexto social que inclui a expansão da
industrialização e do setor de serviços, ao mesmo tempo em que a
urbanização se torna cada vez maior (OLIVEIRA, 1999).

Resposta comentada

Ao refletir sobre a história da creche no Brasil não podemos deixar
de atrelá-la à inserção da mulher (pobre e imigrante) no mercado de trabalho. Na primeira metade do século XX, as demandas
econômicas devidas ao aumento da industrialização, assim como
a necessidade de suprir a mão de obra masculina no período das
grandes guerras, fizeram com que muitas mulheres deixassem seus
lares para entrar no mercado de trabalho, surgindo então a necessidade de um local no qual pudessem deixar seus filhos. As creches
nesse período detinham-se apenas aos cuidados com a criança.
A partir da segunda metade do século XX, gradativamente as mulheres de classe média também começaram a investir em uma carreira
profissional, ao mesmo tempo em que ocorreu uma diminuição dos
espaços para as crianças brincarem devido à especulação imobiliária, levando ao surgimento das pré-escolas com uma proposta
de trabalho educativo para as crianças. Gradativamente ao longo
deste século, a família passa a compartilhar a educação dos filhos
pequenos com essas instituições (creche e pré-escola).

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Educação Infantil 1 | A história do atendimento à criança no Brasil

Conclusão
Dessa forma, com as transformações socioeconômicas e culturais
observadas nas últimas décadas, houve um crescimento gradativo do
atendimento coletivo às crianças pequenas no Brasil e como consequência
surgiu a necessidade de uma legislação mais apropriada a esse tipo de
atendimento, como veremos na próxima aula. Atualmente, com essa
perspectiva, o ambiente creche é utilizado como um espaço de educação
infantil, que favorece o desenvolvimento e a socialização da criança desde os primeiros meses de vida, com um trabalho baseado em objetivos
próprios para a faixa etária.

Atividade Final
Atende aos Objetivos 1 e 2
Como atividade para esta aula podemos sugerir que você faça uma reflexão,
baseada no texto e na sua vivência, sobre as instituições creche e pré-escola. Você
ainda percebe diferenças entre elas? Quais? Faça uma correlação entre os aspectos
levantados por você e os aspectos históricos estudados na aula.

resposta comentada

Para responder a essa questão, é importante que você reflita baseado
em sua experiência de vida e nos textos. A creche atualmente ainda
cumpre somente o papel assistencial (como durante boa parte de nossa
história) ou já tem um comprometimento efetivo com a educação das
crianças em amplo aspecto? É importante também que você faça uma

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comparação com as escolas de educação infantil que não atendem em

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período integral e tampouco crianças na faixa etária de creche (zero
até três anos). Pode levar em consideração também as instituições
públicas e privadas. Reflita se existe uma tendência em diferenciar
o tipo de atendimento de acordo com a classe social atendida pela
instituição, como vimos acontecer durante muito tempo. Vale ressaltar
que a sua resposta não poderá ser generalista, como por exemplo: "as
creches particulares valorizam a criança", mas sim apontar tendências
percebidas por você, contrastando com os aspectos históricos.

Re s u m o
É essencial que você compreenda o panorama do atendimento à infância no
Brasil, sobretudo da tutela da criança pobre pelo Estado nos diferentes períodos
históricos. Perceba as condutas que permaneceram em relação à criança pobre,
mesmo que, em cada período, as estratégias tenham sido diferenciadas, assim como
as condutas que realmente mudaram ao longo dos períodos históricos. Atente
para o fato de que, desde o descobrimento do Brasil, a criança pobre sempre foi
tutelada pelo governo, ou seja, era retirada da convivência familiar ou havia um
incentivo para que a própria família o fizesse e colocasse essa criança aos cuidados
do governo através de diferentes instituições.
É importante também você perceber que, historicamente, creche e pré-escola se
constituíram em dois campos diferentes de atuação. Enquanto a pré-escola desde a
sua origem evidencia um caráter educacional, de preparação para a escola regular,
a trajetória da creche nos mostra que o assistencialismo foi presença marcante
em toda a sua história. Durante muito tempo a creche foi uma instituição para
abrigar e salvar crianças (pobres) cujas famílias não possuíam estrutura para fazêlo. Assim, a maior preocupação das propostas presentes nas creches era com a
higiene, considerada extremamente precária entre as camadas populares, e com
a saúde, tendo em vista o altíssimo grau de mortalidade infantil.
A história da creche está diretamente relacionada às modificações do papel da mulher
na sociedade e suas repercussões na estrutura familiar, em especial na educação dos
filhos. O surgimento e mudanças ocorridas nesse tipo de instituição estão envolvidos
em um conjunto de fatores sociais, econômicos, políticos e culturais.

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