HISTORIA DO BRASIL

OBRAS DO MESMO AUTOR
Propriedade da Livraria Francisco Alves

Exame

de

Admissão

materias exigidas
legio Pedro II.

para os Gymnasios, promptuario das
para o exame de admissão no Col-

Historia do Brasil para Gymnasios e Escolas Normaes, curso

superior.
para Escolas Primarias, adoptada para
uso das Escolas do Estado de Minas, curso médio.

Historia do Brasil,

(Rudimentos de), para Escolas Primarias,
curso primario.

Historia do Brasil

Autores Contemporaneos. Selecta dos autores do seculo XIX,

contendo numerosas annotações philologicas.
Grammatica

Portugueza,

da infancia,

curso

primario

(1°

anno) .
Grammatlca Portugueza, elementar, curso médio

(2° anno).

Grammatica Portugueza, curso superior (3° anno).
Historia do Brasil

(edição do Centenario).

Livro' de Exerclcios, para servir com a Grammatica do 1.0

anno.
Periodo archaico, periodo classico; quinhentistas e seisoentistas; com annotações philologicas
e grammaticaes.

Selecta Classica -

Historia Antiga (esgotada).
Feitas (Explicação de proverbios e modismos
naculos) 2 vols.

Frazes

ver-

JOÃO RIBEIRO

RUDIMENTOS
DE

HISTORIA DO BRASIL
(CURSO PRIMARIO)

14. a EDIÇÃO

LIVRARIA FRANCISCO ALVES
166, Rua do Ouvidor, 166 - Rio de Janeiro
S. Paulo
Bello Horizonte
49-A, Rua Libero Badaró
R u a d a II a b l "" 1052

I

:1-936

ADVERTENCIA
A HISTOR·IA DO BRASIL do autol (oi tra
tada em tres cursos, que não divergem senão
pela quantidade de materia.
Este é o CURSO INFERIOR agora revisto e
actualizado,. contém apenas os rudimentos
da historia patria, exigidos nas escolas primanas.
Ha ainda (') CURSO MEDIO, e o cunso SUescripto para os Gymnasios e institutos de instrucção secundaria.

PERIOR

1924.

PEDRO

ÂLVARES CABRAL

Monumento inaugurado no Rio de Janeiro por occaSlao dQ
IV cenlenario da descoberta do Brasil

HISTORIA DO BRASIL

I

o descobrimento.

Pedro Alvares Cabral

Summario. Descobrimento; a frota de Pedro Alvares Cabral. O Monte Pascoal. A primeira missa. Vera Cruz,
Santa Cruz, Brasil. Vaz de Caminha.

No dia 9 de março de 1DOO, saía do porto
de Lisboa, no rio Tejo, uma grande armada
de treze caravelas e mais de mil homemi de
guarnição, sob o commando de Pedro Alvares
Cabral.
A armada partia em busca da India para
continuar a conquista do commercio e do caminho maritimo para aquella remota região,
já achada e encetada dois annos antes por
Vasco da GanIa. Havia um seculo que se
faziam descobrimentos de terras não conhecidas para o lado do occidente e para o sul

8

Descobrimento do Brasil

na Africa; oito annos antes, Christovão Colombo, gellovez, a serviço de Espanha, tinha
descoberto terras da America (1492).
Propositadamente desviou-se a frota portugueza do rumo habitual, diz-se que para
evitar as calmarias africanas, e, é possivel
tarnbem crê r , pelo instincto de novos descobrimentos a oeste, que já os havia e eram
saLidos de todos.
Commandava a frota, como dissemos,
Pedl"o Alvares Cabral, fidalgo e amigo de
Vasco da Gama, e por este recommendado a
el-rei D. Manoel para continuar a conquista
do oriente.
Tarnbem fôra experiencia e conselho de
Gama, esse novo rumo, a loeste das terras
africanas; parecia-lhe melhor descer todo o
Atlantico, sempre ao largo, até a latitude do
cabo da Boa-Esperança, para só então dobraI-o e demandar os mares orientaes. Assim
fez Cabral; mas de tal modo se afastou da
costa africana que aos 21 de abril viu pelo
mar ervas fluctuantes e outros indicios de
terra proxima, e no dia 22 avistou um monte

Pedro Alvares Cabral

9

de fórma arredondada, a que deu o nome de
Monte Pascoal. Este momento marca a era da
descoberta do Brasil. (1)
No dia seguinte velejou Cabral sempre
á vista da terra, até que a sondagem accusou pouco fundo junto ao Rio do Frade; procurou entretanto melhor abrigo, e, seguindo
sempre para o norte, pôde achar um porto
« muito bom e mui seguro» que foi provavelmente a enseada hoje de 2anta Cruz. Num
ilhéo que havia dentro do porto foi celebrada
a primeira missa a 26 de abril, domingo de
Pascoela.
Outra missa foi celebrada no dia 10 de
maio, em terra firme, pelo guardião Frei Henrique de Coimbra, com mais pompa e na presença dos indios que, em grande numero, espantados, assistiam ás ceremonias do culto,
examinando as vestes e gestos dos portugue(I) Celebra-!'e no dia 3 de maio a data do descobrimento, por ser esta a tradigão mais antiga. A historia, porém, melhor estudada, verificou ser o dia 22 de abril o da
descoberta, segundo a primeira narração escripta, que é a
carta do escrivão da frota Vaz de Caminha.

10

Descobrimento do Brasil

zes e a grande cruz de madeira que ajudaram
a erguer ao pé do altar.
A terra que os descobridores suppozeram ser uma ilha, foi chamada da «Vera
Cruz», ao depois « Santa Cruz»; fica situada: no
territorio do actual Estado da Bahia. Prevaleceu, porém, pouco mais tarde, o nome Brasil.
A 2 de maio aprestaram-se para a partida, e,
deixando em terra dois degredados, como
era costume, na esperança de mais tarde ütilizal . . os como interpretes, velejaram para a India, sendo ma ndada lima náo a Portugal para
levar a noticia do descobrimento em carta di~
rigida ao rei Dom Manoel e escripta pelo escrivão da armada Pero Vaz de Canlinha;
Alguns personagens notaveis assistiram ao descobrimento de Cabral e foram FI'. Henrique de Coimbra que disse a primeira missa, Pero Vaz de Caminha, autor da longa carta em que dá noticia' ao
Hei da terra descoberta e dos indios e Bartholomeu
Dias que havia ,antes descoberto o cabo das Tormentas, depois chamado da ,Boa Esperança.
Os descobl'Ídores demoraram doze dias na terra
do ,Brasil.

II

A primeira exploração
Summario. Primeira expedição; Americo Vespucio. Ore·
conhecimento do litoral do cabo S. Roque a S. Vicente.

A ,noticia da descoberta da Terra de
Vera Cruz causou grande e alegre surpreza
na .côrte de D. Manoel, o rei afortunado.
Era mais uma esperança de riquezas novas;
a grandeza que d' essa terra dizia Vaz de
Caminha fez com que logo se aprestasse uma
esquadra para ,reconhecer o palz e,AssuaS
costas.
A primeira expedição, não se sabe bem
quem a commandava. Ha, presumpção de
que ,vieram varios exploradores. Seja como
fôr, ,a pessoa mais esclar~cida dessas primeiras explorações foi decerto Anlerico
Vespucio, o piloto e marinheiro maIS

12

Primeira exploração

instruido do seu tempo, e que foi tambem
o primeiro orgão de descredito da nossa
terra por que não achou que a terra valesse
muito para o commercio; na viagem encontraram em Cabo Verde a Pedro Alvares
Cabral, que voltava já da Jndia.
Uma das frotas de exploração veio
tocar a costa brasileira no cabo de S. Roque,
e correu-a toda de norte a sul até o cabo
de Santa Maria (Uruguay); por onde foram
passando, deram os primeiros exploradores,
conforme o calendario, os nomes de santos
aos accidentes geographicos : cabo de S. Roque
(16 de agosto), cabo de Santo Agostinho (28 de
agosto), rio S. Francisco (4 de outubro), Bahia
de Todos os Santos (1 de novembro), cabo de
S. Thomé (21 de dezembro), «Rio de Janeiro»?
(1 de janeiro de 1õ02), Angra dos Reis (6 de
janeiro), S. Vicente (22 de janeiro); esmorecendo o chefe da expedição, Vespucio tomára o rumo de sueste, depois de viagem
tempestuosa, e chegou a Lisboa a 7 de setembro de 1õ02.

Primeira exploração

13

Depois d'essas explorações, a terra de
Santa Cruz caíu em verdadeiro olvido, durante alguns annos. (1)
(I) Outras viagens houve: a de Gonçalo Coelho,
outros dizem, André Gonçalves (que veiu com Americo
Vespucio, segundo outra opinião), que buscava uma passagem pelo sul para a India, tocou na Bahia e em outros pontos
em 1503;' no mesmo anno Fernando de Noronha, armador e particular, descobriu a ilha do mesmo nome; João
Dias Solis, espanhol, em 1515, visitou varios portos, e
Fernando de Magalhães, portuguez a serviço de Espanha, em 1519, esteve no Rio e em outros lugares, seguindo
para o sul como Solis; e ainda varios portuguezes ou estrangeiros, navegadores, aventureIros e piratas, estiveram no
Brasil.
Todas estas viagens encerram pontos obscuros e suscitaram muitas duvidas que não seria opportuno aqui registrar.

14

Indios seI vagens

lndio

UAPÉ

do Amazonas

III

Os indios selvagens
Summario. Os indigenas; estado e gráo de civilização.
Os tupis e os bugres. Desintelligencia entre os conquistadores eos indios.

A terra então descoberta era habitada
por uma gente a que se deu o nome de
indios desde a descoberta da America (que
a principio foi considerada como parte da
India); vivia da caça e pesca, não conhecia
outras armas de industria ou de guerra senão o arco e a clava e andava em completa
nudez. Entregues á natureza, não conheciam
Deus nem lei, pois não era conhecei-os possuir o terror da superstição e o dos mais
fortes. A feição dos indios, dizia Vaz de Caminha, o escrivão da armada de Cabral, «é
serem pardos, á maneira de avermelhados,
de bons rostos e bons narizes, bem feitos».

16

Indios selvagen8

A prInCIpIO suppoz-se que eram todos
os indios do Brasil da mesma estirpe; mas
dentro em pouco se percebeu que se distinguiam muito, uns de outros, peja diversidade dos costumes, sempre incultos, pela
indole pacifica ou feroz ou ainda pelo
habito de comerem a carne humana, o
qual era apenas de poucas tribus; e distinguiam-se egualmente pela variedade das
linguas.
Na região do litoral, que foi a melhor
e mais cedo conhecida, predominavam, pelo
numero e valentia, os tupis: eram differentes
tribus, de sul a norte, com differentes nomes; mas a lingua d'ellas era com poucas
differenças a mesma. d' onde se lhe chamou
merecidamente mais tarde a Lingua geral.
Em todo o caso ainda hoje não se sabe
bem em quantas famílias distinctas se dividem os indios de todo o paiz; são muito
conhecidos os tupis e foram quasi os unicos
que mais ou menos se approximaram das
povoações civilizadas, que outros mais bugres.

Indios selvagens

t7

os tapuias ou gês, por exemplo, nunca poderam supportar sem rancor. (1)
Portuguezes e indios praticavam-se mutuamente crueldades, porque não se entendiam e nem se podiam entender, attentos os
differentes gráos de civilização. O índio tinha o sentimento da propriedade collectiva
(da tribu), mas não o tinha da « propriedade
privada»; os indios não julgavam fazer mal
roubando; e assim muitos crimes que o
(4) Os indios do Brasil podem ser classificados em alguns grupos:
1. Os Tupis-guaranis são os mais civilizados, mais
fortes e industriosos, e occupavalll o litoral de sul a norte e as
margens dos grandes rios Paraguay, Paraná, Amazonas: tupis,
guaranis, mundurucús, jurunas, apiacás, tamoios, omaguas, etc.
2. Os Gês (ou tapuias, como lhes chamavam os tIlpis),
rudes, caçadores; em geral desconheci~m a navegação e a ceramica: botucudos, aimorés. suiás, habitavam o centro do paiz.
3. Os Nu Aruali::s: os mox6s, aruáks, paumaris, baures,
etc. Ao noroeste do Brasil.
4. Os Caribas: os naucas, bacairis, palmeias, pimenteira.ç. (Do rio XinglÍ para o Norte).
Algumas tribus de importancia não podem entrar nestes
grupos geraes e ficam á parte: carajás, bororós, guaicurlÍs,
goitacás (que parece extincto).
J. Ribeiro-Hist. Brasil primaria

2

13

Indios selvagens

eram I"tlra os christãos, para elles nada significavam. Por outra parte, qualquer ultrage feito a um indio por um só portuguez,
d' elle eram considerados responsaveis todos
os portuguezes onde os encontravam, o que
fazia parecer má fé, traição ou ferocidade

Taba de indios

gratuita da parte dos selvagens. Os civilizados entretanto ainda hoje, na guerra, responsabilizam povos inteiros pelos erros ou
crimes de poucos individuos.
Tinham os conquistadores na conta de
homens sobrenaturaes, fantasmas vindos do

lndios selvagens

19

mar, caraibas, e era natural que fossem submissos ante o invasor. Este, porém, pensou
logo em transformaI-os em escravos; a escravidão não era uma injuria para a consciencia dos negros, muito menos para a.
dos indios; mas era um acto, e o principal
effeito da guerra. Só eram escravos os vencidos.
A escravidão era tambem o trabalho
forçado e o castigo corporal; e o indio, de
natureza indolente, não podia e não gostava
de trabalhar segundo os habitos dos europeus. D'ahi nasceram muitos tumultos e vinganças atrozes.
Apesar de naturalmente supersticiosos
e atrazados, os indios eram gentes de grande
orgulho e independencia, e na sua maioria
doceis e pacificos.
Vieram com o tempo em grande parte
misturar-se ú raça branca, principalmente
no interior do paiz e na região do Norte.
Os tllpis viviam em tabas (aldeias) e respeitavam
os chefes (mllrllbixabas) e os seus feiticeiros (pagés).
Não conheciam os metaes e as suas armas eram a
clava, o arco e a flexa.

IV
A colonização. Capitanias hereditarias
Summal'io. D. João III emprehende a colonização. Capitanias e donatarios.

Morrendo D. Manoel subiu ao throno
portuguez D. João III (1D21-HH57), que lançou vistas resolutas sobre a colonia um
pouco abandonada. Já então a India tinha
sorvido muito das forças, cabedaes e vidas.
Voltou, pois, o novo rei as suas vistas para
o Brasil, achando que convinha povoaI-o.
O seu primeiro acto foi a creação de uma
esquadra que devia estacionar e cruzar ao
longo das .costas brasileiras e ao mesmo
tempo servir, quanto podesse, ao povoamento. Foi d' ella commandante Christovão
Jacques, e compunha-se de seis náos. C.
Jacques fundou feitorias em Itamaracá e Pernambuco e fortificou-as. Seguindo para o sul,
na bahia de Todos os Santos bateu e aprisio-

Capitanias hereditarias

21

nou 300 francezes, que levou para a Europa.
Um anno mais tarde um galeão francez vingava esse desastre assolando a nova feitoria.
Já então varios povos estrangeiros, aventureiros e commerciantes procuravam contacto com as terras brasileiras.
Tudo parecia recair no olvido, quando
corre a Europa a noticia da abundancia de
prata vista nas mãos dos selvagens do rio
descoberto por Solis. A ambição despertou de
novo a apathia antiga, e a duvida de que esse
rio estaria dentro da linha de demarcação,
fez logo equipar a esquadra que com Martin
AO'onso de Souza, armado de poderes
absolutos, conjunctamente com Pero Lopes,
seu irmão, partiu para o Brasil.
Tendo já no Brasil tres feitorias - Pernambuco, S. Vicente e Piratininga - D. João III
desde o anno antecedente resolvera praticar o systema de colonização que Christovão Jacques, natural da Madeira, já desde
a expedição precedente havia, de accôrdo
com o letrado Diogo Gouveia, proposto
em 1527. Era o systema das capitanias here-

22

Colonização

ditarias antes applicado na colonização da
Madeira e dos Açores.
Christovão Jacques, ainda que o houvesse pedido, não foi contemplado. Eramu' o, e de modo excepcional, os dois irmãos Souzas, Pero Lopes e Martin Af~
fonso.
Foi dividido o paiz em lotes, pouco mais
ou menos de cincoenta leguas de costa até
á linha de demarcação pela terra dentro.
Cada lote d'estes coube a um capitão-mór
(e ás veies mais de um lote), o qual deveria cuidar da povoação e prosperidade das
suas terras, exercendo sobre ellas direitos
senhoriaes quasi absolutos. Essas capitanias
eram hereditarias e foram doze, a saber:
S. Vicente, Santo Amaro, Paraíba do Sul,
Espirito Santo, Porto Seguro, llhéos, Bahia,
Pernambuco, e quatro capitanias da Paraíba
até o limite extremo do Maranhão. Eram
treze os donatarios, mas os quinhões foram
quinze; os dois irmãos Souza tinham 18{)
leguas ou cerca de 4 quinhões.

23

Capitanias hereditarias

Donatarios e Capitanias:
1. Martin Alfonso de Cananéa a Cabo Frio.

S.Vicente Isto é,

2. I)ero Goes da Silveira isto é, de Cabo Frio a Itapemerím.

Paraíba,

3. Vasco Fernandes Coutinho-Espirito Santo, da antecedente ao rio Mucury.
4. Pero de Canlpos Tourinho -Porto
Seguro, do Mucury até limite não indicado.
D. Jorge de Figueiredo Corrêa -

Ilhéos, até a' Bahia de Todos os Santos.
6. Francisco Pereira Coutinho Bahia; da Bahia até a foz do rio S. Francisco.
7. Duarte Coelho Pereira - Pernam,...
buco, desde a antecedente até ao norte do rio
Iguaraçú, sitio dos Marcos.
~.

Pm·o I~opes - desde Itamaracá, até
alcançar a Bahia da Traição.
9. Antonio Cardoso de Barros Ceará.
10. João de Barros, o historiador, e
Ayres da Cunha - Do Rio Grande ao Ma-

24

Colonização

ranhão; excluindo os quinhões de Cardoso
de Barros e Fernando Alvares.
11. Fernão Alvares de Andrade (parte
do Piauhy e Maranhão).
12. (O mesmo Pero Lopes) Amaro, ao sul de S. Vicente.

Santo

N. B. As capitanias do extremo norte (9', 10·, 11") não
foram colonizadas (a não ser no seculo XVII). As outras não
prosperaram, salvo a de Pernambuco e a de S. Vicente. Oe
donatarios não tinham recursos sufficientes para povoar, fundar a agricultura e defender as capitanias contra as aggressôes dos corsarios do mar e dos indios. Por esta razão, nasceu a idéa de criar um Governo geral na Bahia. Ainda
pertencia a Pero Lopes um terceiro lote, a capitania de
Sane Anna, que nunca foi demarcada; os dois outros lotes
foram Santo Amaro e Itamaracá.

25
SYNOPSE GERAL
Datas e factos

t. O deli cobri- -Partida da frota de Cabral (9 de março). Avista
mento

terras do Brasil (22 de abril). Primeira
mi,sa no ilhéo de Santa Cruz (26 de abril)
Missa em terra firme (1 0 de maio). Prosegue
a frota para a India (2 de maio).
Escrivão da armada: Pero Vaz de Oaminha.
2. Exploração -El-rei D. Manoel ordena a exploração da terra
(1501-02)
descoberta_
Varios exploradores desconhecidos.
Expedição de Americo Vespucio (1501).Revelação do litoral desde o cabo de S. Roque (16 de
agosto) até S. Vicente (22 de janeiro de 1502).
3. Os indios -As gentes do Brasil. Costumes, aspectos. Tupis
e bugres. A lingua tupi e a lingua geral.
Causas geraes de dissentimento entre portuguezes e selvagens: o "ollbo, o costume das
vinBanças, a escravidão.
4. As Capita- -D.João III adopta o systema de capitanias henias
reditarias para o povoamento do paiz (Diogo
de Gouveia).
Expedições de Christovam Jacques e de Martin
Afonso de Souza (do cabo de S. Agostinho
ao Rio da Prata).
As tres primeiras feitorias (1533) :-Pernambuco, S. Vicente, Piratininga.
As doze capitanias: Santo Amaro, S. Vicente,
Paraíba do Sul, Espirito Santo, Porto Seguro, Ilhéos, Bahia, Pernambuco e as do extremo norte, só povoadas mais tarde, no
seculo seguinte.
(1500)

v

o

Governo geral. Thomé de Souza, Duarte
da Costa; Caramurú e Ramalho

Summal'io. ·Os goyernos geraes. Thomé de Souza. A fundação da. capital. Nobrega. Duarte da Costa. O primeiro bispo. Anchieta. Caramurú. Ramalho.

A experiencia da fraqueza das capitamas e a ameaça constante dos piratas, na
maior partefrancezes, que impunemente
commerciavam com os indios e procuravmn
estabelecer-se na terra, induziram D . .J oão II I
a crear o GOí)ernO Geral do Brasil.
Comprou-se para séde do gnverno a capitania da Bahia, á familia do donatario que
ahi fôra victima dos selvagens (Francisco Pereira Coitinho), ponto magnifico pela excellencia do porto, como por estar quasi a meio
das costas jú aqui e alli occupadas desde
Cananéa até Itamaracá.

28

Governador gt?ral. Thomé de Souza

Foi primeiro governador nomeado Thomé de Souza (1õ49-HHS3), homem prudente
e sizudo, como era a sua fama, e que chegou
a 29 de março de 1õ49 com 3 navios e logo,
assistido de portuguezes que ahi estavam e
dos indios, lançou os fundamentos da Cidade do Salvador, na chapada da montanha,
no logar que hoje se chama cidade alta. Na
praia havia um pequeno nucleo de colonos
antigos que foram transferidos para a cidade recem-fundada.
Thomé de Souza era um bastardo, porém
de grande estimação entre a nobreza, pelos
seus serviços e por «ser um homem sério».
Com elle vieram um Oupidor-mór, que
tinha a seu cargo os negocios de justiça; um
Procurador, que devia arrecadar os impostos
e mais dinheiros da corôa, um Capitão-mór
da costa, que devia viajar e guardar olitoral,
600 homens de combate, 400 degredados, sementes e gado para lavoura e criação.
Em companhia de Thomé de Souza vieram seis jesuitas sob a direcção do Padre
Manoel da Nobrega. Vinham para conver~

D. da Costa, Caramurú e Ramalho

29

ter os indios e prestar á colonia os serviços
da religião e dos bons costumes, então quasi
abandonados.
Thomé de Souza organizou a defeza das
colonias, fortificando-as e tornando obrigatorio por toda parte o serviço militar. Protegeu os indios, mas não sem castigaI-os severamente quando lhe pareceu necessario ; de
uma feita, tendo estes assassinado e devorado
dois portuguezes, aprisionou dois murubixabas (assim chamavam os indigenas aos
chefes), atou-os á bocca de uma peça, que fez
disparar em seguida. Essa crueldade foi bem
inutil, e parece inexplicavel num homem
como Thomé de Souza. Percorreu varias vezes as capitanias, dando auxilio e conselho,
creando povoações (Conceição de Itanhaen e
Santo André).
No seu governo o Brasil foi feito bispado (separado do Funchal, de que dependia), e o primeiro Bispo foi D. Pero Fernandes, que chegou em HH:52.
Duarte da Costa (HHi3-1nn8) foi o

su.ccessor de Thomé de Souza. A sua admi-

30

Governo geral. Thomé de Souza

nistração foi muito mais tempestuosa que
a de Thomé de Souza; no seu tempo os
indios, em grande alliança sob o commando
de um terrivel cannibal, Cunhã-bebe, desde
o Cabo Frio até a Bertioga, levantaram-se
fazendo grandes mortandades e zombando
dos portuguezes.
Tambem francezes -calvinistas se estabeleceram numerosos na bahia do Rio de
Janeiro ( HHH» com o chefe Nicoláo de
Villegagnon, que se
fortificou na ilha que
tem o seu nome hoje.
Duarte da Costa
pedia recursos que
nunca chegavam, e,
não podendo combater, ficava na inacção, preferindo-a á
vergonha da derrota.
Tambem vieram
PADRB ANCHIBTA
com elle novos jesuitas e entre esses .José de Anchieta, o
apostolo do Novo Mundo, a quem se deve

D. da Costa. Caramurú e Ramalho

31

,ter chamado á civilização milhares de homens embrutecidos pela selvageria, e ter
promovido a paz entre elles e os colonos,
com risco de vida e com grandes, constantes e penosos trabalhos, nos quaes consumira a existencia.
Na administração de Duarte da Costa
deram-se divergencias entre o bispo e o
governador, sobretudo pela desmandada
conducta do filho d'este, Alvaro da Costa, moço de grande coragem, porém de
costumes soltos; formaram-se, entre os colonos, partidos de um e outro lado, que
ameaçavam perturbar a ordem. O rei fez
chamar o bispo e Pero Fernandes efTectivamente embarcou em 1!'H56; mas ainda nas
costas do Brasil, nos baixios chamados de
D. Rodrigo, perto do rio Cururipe. naufragou,
e com outros que iam foram devorados pelos
Caetés. A consternação produzida por essa
desgraça ao menos poz termo por algum
tempo a todas as disputas.
Em HH57 Duarte da Costa terminou o seu
infeliz governo.

32

Governo geral. Thomé de Souza

Um anno depois morria na Bahia o celebre Caramurú, já muito carregado de
allnos, que fôra a testemunha dos grandes
acontecimentos da terra, nos quaes tivera
não pequena parte.
Esse Caramurú era um certo portuguez de nome Diogo Alvares. que havia
naufragado na Bahia e conseguira com
uma arma de fogo atemorizar os indigenas
e maravilhaI-os a ponto de ser por elles
respeitado e acolhido como um deus ou
um monstro surgido das aguas Por elles
foi appellidado CaraUllll"Ú ou Dragão do mar.
Diogo Alvares conviveu largos annos com
os indios, entre os quaes deixou .numerosa
descendencia, e foi no tempo de Thomé de
Souza um dos mais prestimosos auxiliares
da fundação da cidade.
Tambem teve egual celebridade outro
portuguez de nome João Ralnalho, que
no sul os primeiros colonizadores de S. Vicente encontraram em convivencia com o·
gentio, e que se suppõe um degredado ou
talvez um naufrago como Diogo Alvares.

D. da Costa, Car,llllurú e Ilamalho

33

1'ambcm Ramalho tinha grande poder
sobre os indios, que cegamente lhe obedeCiam, e constituiu familia numerOSISSImH,
sobre a qual, com o correr dos annos, pois
viveu muito tempo, exerceu verdadeira fasci, e egua 1mente como
nação, rI' ornou-se aSSIm
o CaraUlurú ao Norte, um dos elementos
que mais facilitaram aos colonizadores a
diflicil tarefa de impôr-se á estima dos selvagens.
Este João Ramalho foi encontrado por Martim
Alfonso de Souza e dizia estar no Brasil, hayia lIIais
de vinte annos. Tinha numerosa prole e era casado
COIU a J:lha de UII! indio guaianaz, o cacique Tebyriçú', Foi um dos gTandes auxiliaJ'es da colonização de
S, Yic{'nt{'.

J, Ribeiro -llisl. Brasil primaria

3

VI
Mem de Sá.
Expulsão dos francezes do Rio de Janeiro
e mais tarde do Maranhão
Summario. I. Mem de Sá. Os francezes no Rio de Janeiro
A guerra da expulsão dos francezes. Estacio de Sá. Fundação da cidade do Rio. Salvador Corrêa. II. Dominio
espanhol. Os francezes no extremo norte (Maranhão).

Já desde o tempo de Duarte da Costa,
segundo governador, haviam estabelecido os
francezes, sob o mando de Nicoláo Durand
de Villegagnon, uma colonia de protestantes na ilha de Seregipe na bahia do Rio
de Janeiro, onde, attraindo o gentio, faziam
lucrativo commercio.
Villegagnon era um oflicial de grande
lustre da marinha franceza, e no seu tempo
a França estava dividida pelas lutas religiosas entre calvinistas e catholicos. Villegagnon era do partido dos protestantes e por
isso resolveu procurar na America um refu-

Mem de Sá

35

gio para os seus compatriotas e companheiros de religião.
O Rio de Janeiro, pela belleza do sitio
já anteriormente visitado por piratas francezes, parecia o logar mais adequado. Foi
essa a chamada França antarctica ou do Sul.
As difficuldades em que se via Duarte
da Costa, as dissensões com o bispo, a
guerra dos indigenas em varias capitanias,
junto á falta de maiores recursos·, collocaram-n'o em completa inacção. A camara da
Bahia pedia ao rei pelas cltagas de Cltristo
que VIesse novo governo.
Aproveitando-se d'esta inacção, os francezes fortificaram-se e augmentaram a sua nova
colonia, que entretanto não prosperava porque eram continuas e violentas as disputas
religiosas entre os proprios calvinistas.
Neste momento, o Brasil portuguez receLeu novo governo.
Foi nomeado Mem de Sá, homem experi-.
mentado (e irmão do celebre poeta Sá de Miranda), amigo do rei, chegou com poderes amplos e para governar pelo tempo que quizesse.

36

Mem de Sá. Expulsão dos Francezes

l\lem de Sá g0vernou 15 annos, de 1007 até a
sua morte na Bahia, 1072; Foi seu prip1eiro
cuidado atalhar os abusos que encontrou na
colonia; dominar os gentios rebeldes pela
força, e agrupaI-os em aldeias dirigidas pelos
jesuitas. Mas a questão principal era a dos
francezes que se haviam apossado do Rio.
Chegado um reforço de náos que pedira para Portugal, resolveu expellil-os, o
que logo fez derrotando-os, fazendo cem
prisioneiros e em seguida dmolindo e inu
tilizalldo as fortificações que encontrou noRio de Janeiro.
Essa victoria, porém, fôra inutil porque a maior parte dos vencidos se haviam
internado llas florestas, de modo que, apenas
Mem de Sá se retirára, de novo os francezes
voltnram ao litoral.
Tornava-se indispensavel fundar ahi uma
cidade, nucleo de resistencia aos piratas. Estacio de Sá, sobrinho do governador, fortificou-se junto ao Pio ~ Assucar, na Praia vermellta, e começou a escaramuçar contra francezcs e indios, que principahnente occupavam a

do Rio de Janeiro e Maranhão

37

ilha do Paranáplwn (mais tarde do Governador)
e o litoral de oeste - até o rio Carioca. Essas
guerrilhas, porém, nada traziam de deHnitivo
D'csse estado de cousas teve noticia 1'lenl de
Sá, que embarcou na Bahia na esquadra de
Chri5tovão de Barros e reunindo reforço de
~'ente, indios temimÍTnós do Espirito Santo
\com o seu cacique Ararigboia, a quem mais
tarde foram doadas as terras de Niteroi) e outros recursos de gente e canôas em S. Vicente,
aproou para o Rio de Janeiro e, investindo
contra os franc{lzes, tomou-lhes as posições de
Uru{"umirim (praia do Flamengo) e Paranâpuan; aqui a victoria foi completa, mas não
sem a perda de muitos bravos e entre e11es
a de Estacio de Sá, ferido mortalmente no
rosto por uma frecha.
Não tiveram os portugueze::; o prazer de
aprisionar a Villegagnon; suppunham-n'o
no Rio de Janeiro, mas, tendo de vencer conspirações que se formaram contra a rigidez
da sua disciplina moral, já havia, muitos
annos antes, abandonado a colonia. Foi então fundada a cidade do Rio
de Janeiro I
·

38

Mem de Sá. Expulsão dos Francezes

no morro de S. Januario (hoje do Castello)
sondo primeiro governador, Salvador CÜlTea.
Mem de Sú falleceu na Bahia em 1072.
Mem de Sá transferiu a sl~de do 'primeiro acampamento Itlilitar na Praia vermelha para o sitio da
nova capital no Illorro do Caslello.
Talllbelll transferiu a vi!la de S. André da Borda
do Call1jJo para São Paulo que havia de ser a principal [lovoa