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SAVIANI, Dermeval. A pedagogia no Brasil: história e teoria. Campinas, São Paulo:
Autores Associados, 2008. (Coleção Memória da Educação).
RESENHA
Elaborada pelas acadêmicas:
Ana Lúcia Rodrigues Gonçalves
Ana Paula Gonçalves Arantes1
A Pedagogia no Brasil: história e teoria, do autor Dermeval Saviani2, publicada pela
Autores Associados integra a Coleção memória da educação3. E socializa os principais
resultados do projeto de pesquisa 4 "O espaço acadêmico da pedagogia no Brasil: perspectiva
histórica e teórica", que contou com bolsa de produtividade em pesquisa do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no período de 2003 a 2007.
A obra está estruturada da seguinte maneira: introdução geral sobre a pedagogia; perspectiva
histórica e perspectiva teórica, ambas compostas por introdução, seis capítulos e conclusão;
glossário pedagógico; documentação relativa às Novas Diretrizes Curriculares Nacionais do
Curso de Pedagogia.
Na introdução geral "Pedagogia: a teoria na história" o autor situa a pedagogia como
campo epistemológico e como teoria e prática da educação. Pois, ao longo da história da
civilização ocidental a pedagogia relacionou-se com a educação. Na Grécia, o conceito de
pedagogia assumiu dupla referência: 1) finalidade ética que guia a atividade educativa; 2) o
meio para formar a criança para a vida. A partir do século XVII, Comenius propõe a
construção de um sistema pedagógico articulado aos fins da educação, que una os dois
aspectos, para servir de base à didática. Para Herbart, tais aspectos deveriam ser unificados
em um sistema coerente, no qual os fins da educação estariam pautados na ética e os meios
educacionais estariam pautados na psicologia. A partir daí, a pedagogia consolidou-se como
disciplina universitária, sendo definida como espaço acadêmico de estudos e pesquisas
educacionais. Desta maneira, assume caráter científico, ainda que tenha tido como modelo as
ciências empíricas. Segundo Genovesii (1999), no final da década de 1970, a pedagogia
encaminha-se como ciência autônoma, a qual possui uma linguagem própria para gerar um
conhecimento que permite a criação de modelos educativos. Mas, a pedagogia como campo
acadêmico-científico não seguiu a mesma linearidade do nome "pedagogia". Segundo Jaegerii
(1967), o termo "pedagogia" surgiu na Grécia com os sofistas, quando o fazer da educação era
relacionado ao fazer consciente do processo de educação. A passagem do termo do grego para
a língua latina deu a origem a: "paedagogatus" que significa educação, instrução;
"paedagogus" e "paedagoga" significam aquele que conduz; "paedagogium" significa tanto a
escola destinada aos escravos, como as crianças desta escola. Já a obra De magistro, de Santo
Agostinho, embora não utilize o termo "pedagogia", apresenta o conceito de instruir. E Santo
1

Acadêmicas graduandas do curso de Licenciatura Plena em Pedagogia da Universidade Estadual do Norte do
Paraná ­ UENP, campus de Cornélio Procópio.
2
Graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo ­ PUC-SP, doutor em Filosofia da
Educação pela PUC-SP, realizou "estágio sênior" nas universidades italianas de Pádua, Bolonha, Ferrara e
Florença. Atualmente, professor da Universidade Estadual de Campinas ­ UNICAMP e coordenador geral do
Grupo de Estudos e Pesquisas "História, Sociedade e Educação no Brasil" ­ HISTEDBR. Para maiores
informações acesse:.
3
Coleção composta por 34 livros de história da educação, que explicitam o passado para melhor compreender o
presente.
4
Projeto desenvolvido como subsídio à implantação do curso de pedagogia da Faculdade Filosofia, Ciências e
Letras de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, entre 2002 a 2004.

2

Tomás de Aquino, em obra homônima, quase nove séculos mais tarde, parte da reflexão de
Santo Agostinho e conclui que o ensino comporta uma dupla matéria: matéria que se ensina e
a pessoa a quem se comunica a ciência. Em relação à língua francesa, o termo pedagogia
aparece em 1495, no sentido de "ciência da educação das crianças". Mas Condorcet evita o
termo por julgá-lo como polissêmico, por isso usa o termo "instrução pública" para designar
educação. Além disso, o termo assumia um significado depreciativo de mestre pedante e
autoritário. No século XIX, o termo pedagogia é utilizado para designar a elaboração
consciente da ideia da educação e o fazer consciente do processo educativo. Logo após a
Revolução Francesa inicia-se o processo de criação de Escolas Normais para preparar
professores. E a primeira instituição com o nome de Escola Normal foi proposta na
Convenção de 1794, sendo introduzida a distinção: Escola Normal Superior para formar
professores de nível secundário e Escola Normal Primária para formar professores do ensino
primário. No entanto, havia escolas desde o século XI, mas estas aplicavam o princípio das
corporações de ofício. Já as universidades formavam os intelectuais na modalidade de "artes
liberais". Sendo assim, a história da formação de professores recai em dois modelos:
conteúdos culturais - cognitivos; pedagógico-didático. O primeiro modelo diz respeito aos
conteúdos necessário à formação dos professores secundários nas Escolas Superiores. Já o
segundo modelo diz respeito ao preparo didático-pedagógico necessário à formação de
professores primários nas Escolas Normais. Contudo, Saviani evidencia que a universidade
nunca se preocupou com o preparo didático-pedagógico dos professores devido a luta entre
esses dois modelos de formação de professores.
Na 1ª parte da obra, Perspectiva Histórica, o autor faz uma "Introdução à questão
pedagógica, da Colônia à Primeira República". Para tanto, evidencia que a problemática
pedagógica inicia-se no Brasil, em 1549, com a chegada dos jesuítas sendo conhecida como
"pedagogia brasílica", prossegue com a pedagogia do Ratio Studiorum e posteriormente com
a "pedagogia pombalina". Todavia, o termo "pedagogia" só apareceu após a independência do
país em 1826. Na época foi apresentado o projeto de lei do ensino Januário da Cunha Barbosa
que pretendia instituir um sistema de educação composto por quatro graus. Sendo que o
primeiro era o ensino elementar, o qual coincidia com a escola de primeiras letras. Com isso,
cria-se a Lei das Escolas de Primeiras Letras de 1817, na qual a palavra "pedagogia" aparece
pela primeira vez na história da educação brasileira. No entanto, o termo gerou controvérsias
e foi substituído na lei pela expressão "escola de primeiras letras". Para explicitar a questão de
formação pedagógica foi determinado que o ensino fosse desenvolvido por meio do método
monitorial-mútuo. E os professores deveriam custear o próprio treinamento nas capitais das
províncias. Em 1834, o Ato Adicional coloca a instrução primária sob a responsabilidade das
províncias, as quais adotaram a criação de Escolas Normais para a formação de professores. E
o currículo das escolas primárias era constituído pelas mesmas matérias que integravam o
currículo das Escolas de Primeiras Letras, porém não havia aprofundamento nos conteúdos.
Contudo, esta via normalista teve estabilidade após 1870 e permaneceu ao longo do século
XIX. Já a Reforma Leôncio de Carvalho (Decreto n. 7.247/79) instituiu a reforma do ensino
primário, secundário e superior. Sendo que o ensino volta-se à prática de "lições de coisas"
com a adoção do método intuitivo. Em 1882, o Barão de Macahubas - Abílio César Borges
propôs a criação de Internatos Normais nas capitais provincianas, onde os jovens pobres do
interior estudariam gratuitamente e ao terminarem o curso voltariam às suas cidades para
reger as escolas. Mas, esta proposta não foi implantada. Em 1890, a Reforma da Escola
Normal teve como característica a criação da Escola Modelo anexa à Escola Normal, sendo
marcada pelo enriquecimento dos conteúdos curriculares e pela ênfase nos exercícios práticos
de ensino. Em 1892, a Lei n. 88 instituiu o curso superior da Escola Normal com o intuito de
formar professores para as Escolas Normais e ginásios. Para tanto, este curso foi organizado

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em duas seções: científica e literária, com duração de dois anos. Em 1896, foi aprovado o
regulamento da Escola Normal de São Paulo visando à formação de professores para o ensino
secundário, porém o curso superior previsto não foi implantado. Mas, a questão foi retomada
com o Decreto n. 19.851/31, que baixou o Estatuto das Universidades Brasileiras. Dessa
forma, previam-se cursos de educação, ciências e letras para a constituição de uma
universidade no Brasil. Assim, abre-se o espaço acadêmico da pedagogia no âmbito do ensino
superior. E pelas condições requeridas no decreto não serem imposições, foi possível a
instituição de universidades com três faculdades tradicionais, mesmo sem ter espaço
acadêmico para os estudos educacionais. Contudo, o autor ressalta que o fato da Faculdade de
Educação, Ciências e Letras figurar ao lado de Direito, Medicina e Engenharia preconiza a
importância que se deu aos estudos superiores de educação.
No Capítulo I ­ "Significado da Faculdade de Educação, Ciências e Letras" o autor
discorre sobre os motivos que levaram o ministro Francisco Campos a introduzir a Faculdade
de Educação, Ciências e Letras no Estatuto das Universidades Brasileiras. Tal proposta visava
à formação de professores do ensino normal e secundário para sanar as deficiências do ensino
brasileiro. Sendo assim, a nova faculdade inserida na organização do sistema universitário
apresentava um caráter de formação profissional, que era marcado por uma dupla
ambiguidade. De um lado a formação profissional e a cultura geral, de outro a formação
didático-pedagógica e o domínio das matérias do currículo enciclopédico do ensino médio.
Contudo, apesar da Faculdade de Educação, Ciências e Letras ter caráter obrigatório, devido
ao Decreto n. 19.852/31, isto não se concretizou. Pois, o ministro não reconheceu a
competência do Colégio Pedro II para assumir tal responsabilidade, adiando assim a solução
deste problema.
No Capítulo II ­"O Instituto de Educação paulista e a Universidade de São Paulo" o
autor define a Universidade de São Paulo (USP), criada em 1934, como sendo a espinha
dorsal da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Pois, esta universidade tinha como
objetivo a formação de uma elite dirigente por meio dos conhecimentos científicos. E a
estrutura da USP tinha como espaço de educação o Instituto de Educação, composto pela
Escola de Professores, tendo como anexos o Curso Complementar, a Escola Secundária, a
Escola Primária e o Jardim de infância. Em relação à Escola Normal de São Paulo, Saviani
comenta que em 1931, Lourenço Filho a transformou em Instituto Pedagógico, sendo
efetivado pelo Decreto n. 4.888/31. Assim como, propôs uma reorganização do ensino
profissional e normal de acordo com o ideário renovador. Mas, em 1933, Fernando de
Azevedo tomou posse do Departamento de Educação do Estado de São Paulo e promoveu
outra reorganização do sistema escolar. Para tanto, foi aprovado um código de educação,
instituído pelo Decreto n. 5.884/33. Deste modo, o Curso Normal destinado à formação de
professores primários passou a ser organizado em três seções de ensino: Educação; Biologia
aplicada à educação; Sociologia. E para a formação de professores secundários e de
especialização para diretores e inspetores foi organizado em: Educação; Biologia educacional;
Psicologia educacional; Sociologia educacional; Prática de ensino. Porém, as faculdades
profissionalizantes não aceitaram a centralização das disciplinas básicas na nova faculdade.
Com isso, em 1938, essa faculdade tornou-se uma escola profissional com o intuito de formar
professores para o ramo secundário do ensino médio. Contudo, devido o Decreto Estadual n.
9.269/38, o Instituto de Educação foi extinto, sendo absorvido pela Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras como seção de educação. Desta maneira, aproximou-se da estrutura da
Faculdade de Educação, Ciências e Letras prevista pelo Decreto n. 19.852/31. Embora, a
Faculdade de Educação, Ciências e Letras não ter sido implantada, o seu modelo foi aplicado
por meio do Decreto n. 1.190/39 na Universidade do Brasil.

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No Capítulo III ­ "O Instituto de Educação carioca e a Universidade do Distrito
Federal" o autor explana sobre o processo de organização educacional que foi impulsionado
pelo movimento renovador a partir de 1920. Contudo, a questão da formação dos professores
das Escolas Normais e do ensino secundário exigiu a abertura de um novo espaço para os
estudos pedagógicos em nível superior. E para corrigir as distorções do modelo vigente,
Anísio Teixeira propôs um programa ideal que deveria ser implantado nas Escolas Normais.
Tal programa era composto por: Cursos de fundamentos profissionais ­ responsáveis pela
inclusão de conhecimentos gerais e para atividade educativa; Cursos específicos de conteúdo
profissional ­ responsáveis pelo material e conteúdo destinados ao ensino especializado;
Cursos de integração profissional ­ responsáveis pela inclusão de cursos de técnica educativa
ou de filosofia ou de cultura geral educativa. Além disso, tinha-se uma estrutura de apoio
composta pela: Escola de Professores com jardim-de-infância, escola primária e escola
secundária; Instituto de Pesquisas Educacionais; Biblioteca Central de Educação; Bibliotecas
Escolares; Filmoteca; Museus Escolares e Radiodifusão. E em 1935, a Escola de Professores
foi renomeada como Escola de Educação ao ser incorporada à recém criada Universidade do
Distrito Federal5. No entanto, esta universidade passou por complicações e foi extinta por
meio do Decreto n. 1.063/39. Com isso, seus cursos foram incorporados à Universidade do
Brasil6, que se tornou modelo padrão para todo país, sendo previsto a existência de 15
faculdades nacionais.
No Capítulo IV ­ "O curso de pedagogia" o autor menciona a promulgação do Decreto Lei
n. 1.190/39 que deu organização definitiva à Faculdade Nacional de Filosofia, na qual foi
instituído um currículo pleno fechado para o curso de pedagogia. Assim como, ressalta que a
Universidade do Brasil, entre 1940 a 1968, determinou a forma de organização desse nível de
ensino, culminando com a aprovação da Reforma Universitária ­ Lei n. 5.540/68. Ainda, de
acordo com o Decreto n. 1.190/39 a Faculdade Nacional de Filosofia seria estruturada em
quatro seções: filosofia, ciências, letras e pedagogia e uma seção especial de didática. Assim,
o curso de pedagogia origina com as seções de pedagogia e didática. E o modelo padrão
consistia em duas modalidades: bacharelado com três anos de duração e licenciatura.
Portanto, assim como os outros cursos, o curso de pedagogia foi definido como um curso de
bacharelado. E para obter o diploma de licenciatura era preciso cursar um ano de didática,
dando origem ao esquema "3+1". Deste modo, o pedagogo se formaria como bacharel em
pedagogia, sendo o técnico em educação que ao cursar licenciatura poderia atuar como
professor. No caso das outras seções, as disciplinas cursadas asseguravam a formação dos
professores para atuarem nas escolas secundárias. Em relação à pedagogia, as disciplinas
cursadas figuravam o currículo das Escolas Normais devido à disposição de um currículo em
que predominavam as matérias de cultura geral sobre as de formação profissional, previsto
pela Lei Orgânica do Ensino Normal. Tal estrutura só foi modificada com a aprovação da Lei
n. 4.024/61 ­ 1ª Lei de Diretrizes e Base da Educação (LDB). Além disso, a criação do
Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), atual Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, bem como da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior (CAPES), do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE)
e dos Centros Regionais de Pesquisas Educacionais (CRPEs) propiciaram reflexos positivos
no campo educacional. E uma nova regulamentação despontou com a Lei n. 5.540/68,
efetivada pelo Parecer n. 252/69 do Conselho Federal de Educação (CFE), do qual resultou a
Resolução n. 2/69, onde foi fixado o mínimo de conteúdos e duração de quatro anos para o
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Instituída no Rio de Janeiro pelo Decreto n. 5.512/35.
Organizada pela Lei n. 452/37. Esta universidade resultou da reorganização da Universidade do Rio de Janeiro,
atual Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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5

curso de Pedagogia. Quanto ao currículo, este era composto por uma parte comum e outra
diversificada com modalidades de habilitação (Orientação Educacional, Administração
Escolar, Supervisão Escolar e Inspeção Escolar), além do professor para o ensino normal.
Com isso, havia a formação do generalista e do especialista no mesmo curso de graduação,
com duração média de 4 anos e mínima de 2 anos e meio, descaracterizando o curso. Essa
regulamentação permaneceu em vigor para além da aprovação da LDB ­ Lei n. 9.394/96,
sendo alterada com as novas diretrizes curriculares nacionais de 2006. Contudo, Saviani
salienta que a concepção produtivista de educação tornou-se hegemônica em nosso país desde
o final da década de 1960. Visto que a formação de pedagogo está subordinada à
produtividade social, bem como às demandas do mercado de trabalho.
No Capítulo V ­ "Estudos superiores de educação" o autor discorre sobre a Lei n.
5.692/71, que fixou as diretrizes e bases para o ensino de 1º e 2º graus, no lugar da
terminologia de ensino primário e médio. Além disso, comenta sobre a elaboração e
aprovação do conjunto de oito Indicações com seus respectivos projetos de Resolução, que
contemplaram as licenciaturas da área de educação geral, passando pela formação pedagógica
das licenciaturas até a formação de professores para educação especial. Tais indicações teria o
significado de substituir o curso de pedagogia. No entanto, devido às pressões do movimento
educacional organizado a entrada em vigor foi sustada, prevalecendo até a aprovação da LDB,
a estrutura prevista no Parecer n. 252/69. Saviani salienta que o movimento dos educadores
foi essencial para manter vivo o debate, bem como para articular e socializar as experiências
que realizaram nas instituições. Com isso, surgiu a ideia de docência como eixo sobre o qual
se apóia a formação do educador. Assim, a organização do curso promoveu a formação de
professores para habilitação Magistério, em nível de 2º grau, bem como para atuar nas séries
iniciais do ensino fundamental, sendo expressa na base comum nacional. Porém, essa base
nacional consistia em um princípio que deveria inspirar e orientar a organização dos cursos de
formação de educadores no Brasil. No entanto, a preocupação com estes aspectos dificultou o
exame referente ao significado e conteúdo da pedagogia. Além disso, o desenvolvimento dos
programas de pós-graduação conduziu a uma aproximação com áreas afins das ciências
humanas, e em contrapartida, o curso de pedagogia caía em crise.
No Capítulo VI ­ "As Novas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Pedagogia"
o autor argumenta que a demora na definição das diretrizes curriculares do curso de
pedagogia propiciou a crise do curso de pedagogia, já que estas só foram aprovadas em 2006.
Contudo, as Diretrizes possuem ambiguidade, já que sem regular a formação dos
especialistas, a admite formalmente no decorrer do texto normativo. De acordo com as
diretrizes curriculares o curso de pedagogia tem como objetivo formar o pedagogo em
licenciatura para atuar na Educação Infantil, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, nos
cursos de Ensino Médio, na modalidade Normal e em cursos de Educação Profissional na área
de serviços e apoio escolar, bem como aquelas que preveem conhecimentos pedagógicos. No
que diz respeito às condições de ensino e aprendizagem e procedimentos, estas atendem como
aplicação ao campo da educação. Quanto à estrutura do curso, a Resolução prevê no artigo 6º
os núcleos: Estudos Básicos; Aprofundamento e diversificação de estudos; Estudos
integradores para o enriquecimento curricular. Sendo que nos três casos há uma lista de
tarefas e um conjunto de exortações que integrariam os referidos núcleos. No entanto, as
Diretrizes resultam em um paradoxo, pois é restrita e excessiva. São restritas no que configura
a pedagogia como um campo teórico-prático de conhecimentos historicamente acumulados
pela humanidade. E são excessivas no acessório, no que tange as múltiplas referências à
linguagem em evidência. Além disso, Saviani argumenta que a Primeira Conferência
Brasileira de Educação, em 1980, foi um movimento incapaz de centrar suas atenções à

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formação do educador e pedagogo. Ainda, constata que dificilmente as Diretrizes se
distanciariam do que consta do documento aprovado, uma vez que o texto foi negociado pelo
Conselho Nacional de Educação (CNE) com as entidades. Contudo, o autor recorre a José
Carlos Libâneo para explanar sobre as imprecisões contidas no texto das Diretrizes
Curriculares para o Curso de Pedagogia.
Na Conclusão ­ "A rica tradição teórica da pedagogia", o autor comenta a importância da
pedagogia na estrutura do ensino superior. Embora a área pedagógica tenha sido objeto de
estigma, reforçado pelo baixo status social da profissão docente quando referida ao nível
elementar da organização escolar. Além disso, nota que o tratamento dado à pedagogia a
reduziu em uma ciência profissional pragmática do professor, sendo mera transmissão de
conhecimentos para a orientação do ensino. Deste modo, Saviani conclui que para equacionar
o problema do espaço acadêmico da pedagogia deve-se começar por sua tradição teórica
relacionando-a com a educação enquanto prática, já que dela se origina e se destina.
Na 2ª parte da obra, Perspectiva Teórica, o autor faz uma "Introdução à pedagogia e
teoria da educação: referências preliminares" tratando das concepções de educação das
quais podem ser agrupadas em cinco grandes tendências: tradicional; humanista moderna;
analítica; critico reprodutivista e dialética. Para a primeira perspectiva cabe a educação
conformar um indivíduo ideal e universal, já para a segunda, o papel da educação é dar conta
das diferenças individuais, valorizando as experiências e interesses dos alunos. Na terceira
concepção, a educação é concebida através da objetividade e neutralidade dado ao
conhecimento transmitido. Na quarta perspectiva a educação é reprodutora das relações
sociais dominantes, e por ultimo a concepção dialética, na qual a prática pedagógica é ponto
de partida e chegada do processo educativo. A crítica reprodutivista não é tida pelo autor
como pedagogia, pois não tem prática pedagógica. A partir deste apontamento Saviani agrupa
as diferentes concepções de educação em duas grandes tendências, na primeira estão às
correntes pedagógicas que dariam prioridade à teoria sobre a prática deste faz parte pedagogia
tradicional (leiga ou religiosa), a pedagogia de Platão, pedagogia cristã, humanista, da
natureza e a idealista de Kant, Fichte e Hegel. Na segunda tendência a ênfase esta na prática
subordinada à teoria, faz parte desta tendência: a pedagogia nova, às pedagogias não diretivas,
a institucional e o construtivismo. Assim o autor procura identificar as correntes que em nosso
país se revelaram.
No Capítulo VII* ­ "Pedagogia antes da pedagogia", com a chegada da colônia portuguesa
e a implantação dos primeiros colégios jesuíticos em 1549 a pedagogia católica instaurou no
país a primeira versão do Plano de Nóbrega a "Pedagogia Brasílica", apesar de ser
considerado administrador hábil e realista Nóbrega não transformou as idéias educacionais em
idéias pedagógicas como Anchieta realizou criando métodos e procedimentos voltados para
educação. Apesar de seus bons resultados a pedagogia brasílica, não deixou de encontrar
oposição no interior da própria Ordem Jesuíta que foi superada pelo plano geral de estudo
organizado pela Companhia de Jesus e consubstanciada no Ratio Studiorum em 1599
(redação definitiva) este plano é constituído de regras para todos envolvidos no processo de
ensino-aprendizagem. Com a expulsão dos jesuítas é implantado a reforma pombalina em
1759, com suas aulas régias. Após 1808 o ensino mútuo tornou-se oficial, todavia na metade
do século XIX foi substituído pelo ensino intuitivo, que manteve se como referência durante a
Primeira República.
No Capítulo VII ­ "A questão teórica na constituição do espaço acadêmico da pedagogia
no Brasil", "a proposta da Faculdade de Educação, Ciências e Letras integrante do Estatuto

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das Universidades Brasileiras baixado em 1931, por decreto do ministro Francisco Campos, e
institui-se com a criação do curso de pedagogia em 1939, impulsionado pelo movimento
renovador" (SAVIANI, 2008, p. 97). Nesta conjuntura tenta se construir uma pedagogia com
base científica e com área de pesquisa, métodos e objetos próprios. A partir deste pressuposto
o autor discorre a cerca de dois momentos: a emergência e predominância da pedagogia nova
e da concepção pedagógica produtivista. A primeira pode ser detectada com a comissão
formada em 1947 para elaborar a LDB, com o intuito de fazer valer o que encontra se na
Constituição de 1946 a tarefa da União de fixar diretrizes e bases para a educação nacional. A
segunda com o ajuste do sistema de ensino com a Lei nº 5540/68 e do Decreto nº 464/69, e a
reforma do ensino superior Lei nº 5692/71. Contudo, ocorreu um terceiro momento
caracterizado por concepções contra hegemônicas. Na década de 1960 surge a Pedagogia
Libertadora, a qual ocasiona um método pedagógico formulado por Paulo Freire. Já na década
de 80 emerge a concepção pedagógica histórico crítica, pela qual prática social é ponto de
partida e chegada da prática educativa.
No Capítulo IX ­ "O dilema da pedagogia e seu impacto nas escolas", analisando as duas
grandes vertentes: tradicional e renovadora percebe-se que a primeira centraliza seu método
de aprendizagem com ênfase da teoria e reforça o papel do professor, e a outra, evidência a
prática e reforça o papel do aluno. Assim se fundamenta o dilema entre teoria e prática, no
qual se "um curso é teórico, não é prático, e, se é prático, não é teórico" (SAVIANI, 2008,
p.123) desta forma o professor defendendo a teoria e o aluno a prática, contudo não é possível
separar teoria- prática e professor-aluno. Porém, as duas tendências não puderam apresentar
uma solução para este dilema.
No Capítulo X ­ "Para superar o dilema", o autor discute o confronto entre teoria e prática,
que mesmo distintas tem aspectos inseparáveis, afinal a prática é a razão de ser da teoria, e a
teoria se constitui a se desenvolver em função da prática que opera. Sendo assim a prática
humana é determinada pela teoria, pois quanto mais sólida for a base teórica do aluno, mais
consistente e eficaz será sua prática. Partindo deste pressuposto Saviani apresenta dois
conceitos ligados a teoria e prática, o ativismo e verbalismo. O ativismo é a prática sem a
teoria e o verbalismo trata se do inverso. Para Saviani o que a pedagogia histórico crítica
propõe é a melhor solução para este dilema é a articulação entre teoria e prática.
No Capítulo XI ­ "Pedagogia e ciência(s) da educação", Saviani apresenta as ideias do
livro "Pedagogia: da empiria em direção à ciência" de Giovanni Genovesi, do qual apresenta
as três etapas históricas do desenvolvimento da pedagogia, que antes era filha da educação
passa a ser mãe da educação, ou seja, o objeto da pedagogia passou a ser a educação. Ainda
neste capítulo Saviani descreve a distinção das várias ciências da educação e a ciência da
educação propriamente dita, que é a pedagogia que tem como início e termino a pesquisa na
educação.
No Capítulo XII ­ "A polemização do campo pedagógico", durante longo século XX a
pedagogia foi marcada por disputas hegemônicas por tendências contrárias, cada qual por
meio de seu slogan procurava adeptos. Na obra de Scheffler "A linguagem da educação", é
examinada as várias figuras de linguagem que conforme o contexto reforça ou desmistifica a
ideia ou atitude defendida. E é neste sentido que Saviani ao escrever a "teoria da curvatura da
vara", sugere que os educadores não se curvem muito para um lado nem para outro, mas que
analisem bem os discursos das diversas correntes pedagógicas para que passar criticá-la e
examinar de acordo com seu ponto de vista a que melhor transcreve a sua prática.

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Na "Conclusão ­ uma nova perspectiva para o curso de pedagogia", o autor ressalta a
necessidade de uma nova perspectiva para o curso de Pedagogia. Sendo que realização de
estudos e pesquisas educacionais deve partir da faculdade, espaço apropriado para iniciar sua
formação teórica e prática sobre a educação. Já a pós graduação e mestrado possibilitaria a
plena iniciação da pesquisa científica completando-se com o doutorado. Portanto a pedagogia
deve apresentar um objeto de estudo, princípios norteadores, pesquisa científica e um método
específico o que a torna uma ciência da educação.
A 3ª parte é composta pelo Glossário Pedagógico. Segundo o autor é um dicionário de
pedagogia, pois contém as grandes concepções seguidas das várias teorias ou propostas
pedagógicas que foram citadas no livro. Ao todo são 45 verbetes organizados em ordem
alfabética, os quais o autor julgou ser útil e de interesse para os leitores agregar à análise das
perspectivas histórica e teórica da pedagogia no Brasil.
Ao escrever este livro Saviani recuperou a história da pedagogia no Brasil e elucidou sua
trajetória teórica. Por isso, a obra foi dividida em perspectiva histórica e teórica, para
compreender tanto o processo pedagógico quanto os fatos históricos que o configurou. Assim
como salientou que a problemática pedagógica surgiu antes da nomenclatura de pedagogia, da
mesma maneira que a prática surge antes da teoria.
Desta maneira, a pedagogia firmou-se como espaço da educação no campo universitário
propiciando a elevação à condição de ciência da e para a prática educativa.
Saviani discutiu também o dilema que envolve o pólo teórico e o pólo prático, no qual
admite-se que há a falta de articulação destes pólos por parte do professor, embora seja
necessária à sua formação.
Além disso, o autor evidenciou que para formar pedagogos conscientes e fundamentados
teoricamente, necessita-se de um curso estruturado. No qual o trabalho educativo deve estar
articulado num processo unificado, que terá a história como eixo da organização dos
conteúdos curriculares.
Para Saviani, a educação escolar necessita trabalhar com os conhecimentos clássicos, uma vez
que deve "produzir em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e
coletivamente pelo conjunto dos homens" (Saviani, 2003, p.13) em suas relações sociais.
Deste modo, enfatizou a importância da história como critério do "clássico", sendo este
caracterizado como aquilo que sobreviveu ao tempo.
Contudo, o autor apresenta elementos significativos para superar os dilemas pedagógicos e,
assim, possibilitar uma organização eficaz dos cursos de formação de educadores.
Trata-se de uma obra que necessita de leitura atenciosa, pois possui conhecimentos relevantes
à compreensão do processo pedagógico brasileiro. Por isso, suscita reflexões a cerca da
pedagogia e suas problemáticas. No entanto, sugerimos que a leitura inicie pelo glossário
pedagógico, que permitirá o entendimento do assunto a ser estudado.
A obra pode e deve ser considerada como um referencial de estudo ao curso de pedagogia.
Sendo indicado, principalmente ao primeiro ano letivo, o que não impossibilita que seja
trabalhado em outros momentos. Pois é conveniente que os acadêmicos, assim como os
interessados em educação, tenham acesso a essa leitura. Desta forma, o leitor ampliará seus
conhecimentos, tendo como subsídio as teorias pedagógicas para melhor desenvolver sua
prática. Pois, para Gramsci a plena formação do indivíduo se dá com a escola unitária, a qual
deverá formar indivíduos plenamente desenvolvidos, seja para o trabalho como para a
continuidade de seus estudos.
i

GENOVESI, Giovanni (1999). Pedagogía, dall'empiria verso La scienza. Bologna, Pitagora.
JAEGER, Wener (1967). Paidéia: los ideales de La cultura griega. 2. ed., 1. Reimp, México, Fondo de Cultura
Económica.
ii

9

SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 8. ed. Revista e ampliada.
Campinas, São Paulo: Autores Associados, 2003.