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História do Sindicalismo no Brasil
Maria Bernadete Miranda 1

"Que ninguém mais ouse duvidar da capacidade de luta da classe trabalhadora"
Lula

A indústria brasileira se desenvolveu tardiamente em relação às grandes potências
capitalistas. Na passagem dos séculos 19 e 20, a economia brasileira era ainda
predominantemente agrícola.
No início do século 20, jornadas de 14 ou 16 horas diárias ainda eram comuns.
Assim como a exploração da força de trabalho de mulheres e crianças. Os salários pagos
eram extremamente baixos, havendo reduções salariais como forma de punição e castigo.
Todos eram explorados sem qualquer direito ou proteção legal. A primeira greve no Brasil
foi a dos tipógrafos do Rio de Janeiro, em 1858, contra as injustiças patronais e por
melhores salários.
Os imigrantes, enganados com promessas nunca cumpridas, trouxeram experiências
de luta muito mais avançadas do que as que haviam no Brasil, e é a partir deles que se
organizou o anarquismo, que foi a posição hegemônica mo movimento operário brasileiro
no período de nascimento e consolidação da indústria.
Existiam outras posições de menor influência política entre a classe, como a dos
socialistas, que fundaram o primeiro partido operário no país em 1890, e que, mais tarde,
adotaram as teses da 2ª Internacional, especialmente, a comemoração do 1º de Maio como
data internacional da classe trabalhadora.
Em abril de 1906, realizou-se no Rio de Janeiro, o 1º Congresso Operário
Brasileiro, com a presença de vários sindicatos, federações, ligas e uniões operárias,
principalmente do Rio e São Paulo. Nascia a Confederação Operária Brasileira (COB), a
primeira entidade operária nacional.
Mas a reação patronal e do governo não demorou. Em 1907, foram expulsos do país
132 sindicalistas. A crise de produção gerada pela 1ª Guerra Mundial e a queda vertiginosa
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Mestrado e Doutorado em Direito das Relações Sociais, sub-área Direito Empresarial, pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo. Coordenadora e professora do Curso de Pós-Graduação em Direito
Empresarial da Faculdade de Direito de Itu - Faditu; professora de Direito Empresarial na União das
Instituições Educacionais do Estado de São Paulo, Uniesp - São Roque; pesquisadora da Universidade de
Ribeirão Preto, Unaerp ­ Guarujá; professora supervisora das Monografias Jurídicas e Diretora responsável
pela Revista Eletrônica da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis de São Roque - Fac.
Advogada.
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dos salários dos operários, caracterizou-se por uma irresistível onda de greves entre 1917 e
1920. A greve de 1917 paralisou São Paulo e chegou a envolver 45 mil pessoas. O governo
convocou as tropas do interior e 7 mil milicianos ocuparam a cidade. O ministro da
Marinha enviou dois navios de guerra para o porto de Santos. A repressão era total sobre
os trabalhadores. Num dos choques com a polícia, foi assassinado o operário sapateiro
Antonio Martinez. Mais de 10 mil pessoas acompanharam o enterro. Em 1919,
Constantino Castelani, um dos líderes da União Operária, foi morto por policiais quando
discursava em frente a uma fábrica.
As limitações do ideário anarquista, entretanto, permitiram o isolamento do
movimento, tornando-se presa fácil do Estado e de sua força policial repressora. A
revolução soviética, em 1917, apontava para a formação de um partido e a redefinição do
papel do Estado.
Com a "Revolução de 1930", liderada por Getúlio Vargas, é iniciado um processo
de modernização e consolidação de um Estado Nacional forte e atuante em todas as
relações fundamentais da sociedade. Vargas acabaria atrelando a estrutura sindical ao
Estado, destruindo todas as bases sociais e políticas em que tinha se desenvolvido o
movimento sindical no período anterior.
A partir da década de 30, o Brasil passou a ser um país industrial e a classe operária
ganhou uma importância maior. O conflito entre capital e trabalho passou a ser tratado
como uma questão política. Por um lado, criou uma estrutura sindical corporativista,
dependente e atrelada ao Estado, inspirada no Fascismo italiano; por outro, criou o
Ministério do Trabalho, a Justiça do Trabalho e a Consolidação das Leis Trabalhistas
(CLT). A fundação dos sindicatos oficiais, a criação do imposto sindical e a política
populista de Getúlio Vargas estimularam o surgimento dos pelegos.
A palavra pelego, que originalmente significa a manta que se coloca entre o cavalo
e a sela de montar, passou a ser utilizada para classificar os dirigentes sindicais que
ficavam amortecendo os choques entre os patrões e o cavalo que, no caso, era a própria
classe trabalhadora.
Categorias e sindicatos combativos, no entanto, ainda resistiam. E obtiveram
conquistas importantes como a Lei de Férias, descanso semanal remunerado, jornada de
oito horas, regulamentação do trabalho da mulher e do menor, entre outros.
Junto com as lutas sindicais cresciam também as mobilizações das massas
trabalhadoras. Em março de 1934, é fundada a Aliança Nacional Libertadora, dirigida pelo
PCB, já com Luís Carlos Prestes..
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Entre 1940 e 1953, a classe trabalhadora dobra seu contingente. Já são 1,5 milhão
de trabalhadores nas indústrias e as greves tornam-se freqüentes. Em 1947, sob o governo
do marechal Dutra, mais de 400 sindicatos sofreram intervenção. Em 1951, houve quase
200 paralisações; em 1952, 300. Em 1953, foram 800 greves, a maior delas com 300 mil
trabalhadores de empresas têxteis, metalúrgicos e gráficos. Participação intensa do PCB e
reivindicações que não eram apenas econômicas: liberdade sindical, campanha pela criação
da Petrobras, em defesa das riquezas nacionais e contra a aprovação e aplicação do Acordo
Militar Brasil-EUA.
No campo, os trabalhadores iniciaram seu processo de mobilização. Em 1955, surge
a 1ª Liga Camponesa. Um ano antes, foi criada a União dos Trabalhadores Agrícolas do
Brasil. Pouco a pouco foram nascendo os sindicatos rurais.
O golpe militar de 1964 significou a mais intensa e profunda repressão política que
a classe trabalhadora enfrentou na história do país. As ocupações militares e as
intervenções atingiram cerca de 2 mil entidades sindicais em todo o país. Suas direções
foram cassadas, presas e exiladas. A desarticulação, repressão e controle do movimento
foram acompanhados de uma nova política de arrocho de salários, da lei antigreve nº 4.330
e do fim do regime de estabilidade no emprego. A ditadura passou a se utilizar de práticas
de tortura, assassinatos e censura, acabando com a liberdade de expressão, organização e
manifestação política.
Na década de 70, principalmente, começa a surgir um novo sindicalismo, que
retomou as comissões de fábrica e propôs um modelo de sindicato livre da estrutura
sindical atrelada. Este fenômeno aparece com maior nitidez no ABCD paulista (cidades de
Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema).
Surge, também, a mais expressiva liderança sindical brasileira de todos os tempos:
Luiz Inácio da Silva, o Lula, que em 1969 participa pela primeira vez da diretoria de um
sindicato, como suplente.
No dia 12 de maio de 1978, os trabalhadores da Saab-Scania do Brasil, em São
Bernardo do Campo (SP), entraram na fábrica, bateram o cartão de ponto, vestiram seus
macacões, foram para os seus locais de trabalho diante das máquinas, mas não as ligaram:
cruzaram os braços. No momento, eles não poderiam imaginar que com aquele gesto,
aparentemente simples, estavam abrindo o caminho de uma nova proposta sindical para o
Brasil. A greve desafiou o regime militar e iniciou uma luta política que se estendeu por
todo o país. No contexto das mobilizações populares que se seguiram, surgiram

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manifestações em defesa das liberdades democráticas e contra a ditadura militar, entre elas,
a luta pela anistia e pelas Diretas Já.
Em 1980, sindicalistas, intelectuais e representantes do movimento popular fundam
o Partido dos Trabalhadores, com a proposta de estabelecer um governo que represente os
anseios da classe trabalhadora.
Nos dias 24, 25 e 26 de agosto de 1984, é realizado em São Bernardo, o 1º
Congresso Nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT) com a participação de
5.260 delegados eleitos em assembléias, de todos os estados do país, representando 937
entidades sindicais. Foram lançados os princípios de uma nova proposta sindical, que vem
mudando o país e que culminou com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a
presidência do Brasil, em 27 de outubro de 2002.

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