História da Educação
Brasileira
Marcos Silva

São Cristóvão/SE
2009

História da Educação Brasileira
Elaboração de Conteúdo
Marcos Silva

Projeto Gráfico
Neverton Correia da Silva
Nycolas Menezes Melo
Capa
Hermeson Alves de Menezes
Diagramação
Neverton Correia da Silva

Copyright © 2009, Universidade Federal de Sergipe / CESAD.
Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, transmitida e gravada
por qualquer meio eletrônico, mecânico, por fotocópia e outros, sem a prévia
autorização por escrito da UFS.

Ficha catalográfica produzida pela Biblioteca Central
Universidade Federal de Sergipe



S586h



Silva, Marcos.
História da educação brasileira / Marcos Silva -São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe,
CESAD, 2009.

1. Educação - Brasil - História.

I. Título.
CDU 37(81)(091)

Presidente da República
Dilma Vana Rousseff

Chefe de Gabinete
Ednalva Freire Caetano

Ministro da Educação
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Coordenador Geral da UAB/UFS
Diretor do CESAD
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Diretor de Educação a Distância
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coordenador-adjunto da UAB/UFS
Vice-diretor do CESAD
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Reitor
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Vice-Reitor
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Diretoria Pedagógica
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Núcleo de Avaliação
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Coordenação de Cursos
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Assessoria de Comunicação
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Núcleo de Formação Continuada
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Coordenadores de Curso
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Eduardo Farias (Administração)
Paulo Souza Rabelo (Matemática)
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Lourival Santana (História)
Marcelo Macedo (Física)
Silmara Pantaleão (Ciências Biológicas)

Coordenadores de Tutoria
Edvan dos Santos Sousa (Física)
Raquel Rosário Matos (Matemática)
Ayslan Jorge Santos da Araujo (Administração)
Carolina Nunes Goes (História)
Viviane Costa Felicíssimo (Química)
Gleise Campos Pinto Santana (Geografia)
Trícia C. P. de Sant'ana (Ciências Biológicas)
Laura Camila Braz de Almeida (Letras Português)
Lívia Carvalho Santos (Presencial)
Adriana Andrade da Silva (Presencial)

NÚCLEO DE MATERIAL DIDÁTICO
Hermeson Alves de Menezes (Coordenador)
Marcio Roberto de Oliveira Mendonça

Neverton Correia da Silva
Nycolas Menezes Melo

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
Cidade Universitária Prof. "José Aloísio de Campos"
Av. Marechal Rondon, s/n - Jardim Rosa Elze
CEP 49100-000 - São Cristóvão - SE
Fone(79) 2105 - 6600 - Fax(79) 2105- 6474

Sumário
AULA 1
A cientificidade da História da Educação..............................................07
AULA 2
Origens e desenvolvimento da escola moderna......................................23
AULA 3
A revolução da prensa gráfica................................................................39
AULA 4
Concepção moderna de infância e educação..........................................53
AULA 5
A educação na América Portuguesa.....................................................69
AULA 6
Educação escolar na época do Império Brasileiro...................................87
AULA 7
A educação escolar no Brasil republicano: da proclamação da
República ao Estado Novo.................................................................105
AULA 8
A educação escolar no Brasil republicano: da redemocratização
em 1945 ao fim da Ditadura Militar.........................................................123
AULA 9
A educação brasileira nos dias atuais..................................................143
AULA 10
Cultura infantil na época contemporânea..............................................161

Aula 1
A CIENTIFICIDADE DA HISTÓRIA
DA EDUCAÇÃO
META
Explicar a posição da História da Educação dentro do universo das Ciências Humanas e
Sociais, especificamente na História.

OBJETIVOS

Ao final desta aula, o aluno deverá:
definir o caráter científico da História da Educação;
historiar o surgimento e evolução da disciplina no Brasil;
justificar a importância do estudo da História da Educação.

PRÉ-REQUISITOS
Para esta aula você precisa de noções básicas de Teoria da História.

Marcos Silva

História da Educação Brasileira

EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA
EDUCAÇÃO NO BRASIL
Muito bem, companheiro(a)!
Aqui iniciamos uma jornada que tem como objetivo maior demonstrarlhe a importância de conhecer a evolução histórica da Educação no Brasil.
Quero que você entenda a educação em duas dimensões; uma mais abrangente, que diz respeito à transmissão dos padrões culturais. Outra mais
restrita, que se limita ao aspecto escolar. Esta nossa disciplina comumente
é estudada nos Cursos de Pedagogia, um dos conhecimentos mais importantes na formação de pedagogos(as), em que a ênfase recai no contexto
educacional formal, institucionalizado, a partir das escolas. No entanto,
como estamos tratando de um curso de História o realce deve ser outro.
Com certeza, para o historiador, conhecer os processos amplos de transmissão da cultura é muito mais importante do que se concentrar apenas no
perfil escolar. Assim, estudar educação no sentido lato sensu (abrangente)
significa analisar como as grandes instâncias de transmissão cultural têm
influenciado a vida das pessoas na civilização Ocidental.
Você deve concordar comigo que, a partir dos tempos modernos, as
mídias (meios de comunicação) se transformaram em importante organismo de informação, difusão cultural e moldagem dos indivíduos. Vamos
enfatizar, então, o potencial educacional dos meios de comunicação sem
deixar, também, de dar um vislumbre na evolução histórica de nosso sistema
formal de educação. Ao todo, trataremos dos seguintes pontos principais:
iniciaremos apresentando como se situa a História da Educação diante de
nossa ciência, a História; a seguir apresentaremos os fundamentos da Educação Moderna; depois demonstraremos como os meios de comunicação
de massa se tornaram determinantes na educação das sociedades modernas;
após isso, estabeleceremos uma pequena história da criança, principal objeto
do processo educacional e, por fim, analisaremos a história da educação
formal no Brasil com vistas a entendermos como se deu a constituição de
nosso sistema educacional.
Esta nossa primeira aula é um pouco teórica, mas, necessária, tendo em
vista que você precisa conhecer a constituição histórica de nosso campo de
estudo, suas ênfases temáticas, sua situação institucional atual e importância
como disciplina que deve contribuir para a crítica dos processos alienantes
de formação dos indivíduos em nossa sociedade. Boa leitura!

8

A cientificidade da História da Educação

Aula

UMA MERA QUESTÃO DE PONTOS DE VISTA?
Todos nós possuímos, consciente ou inconscientemente, uma explicação para as principais questões que afligem o ser humano. Esta orientação
geral para a existência nos informa acerca do significado da vida, o sentido
da história, o estado do homem na morte e tantas outras questões fundamentais. A este conjunto de pressupostos básicos que norteiam a existência
dos indivíduos, tanto nas grandes perguntas existenciais quanto nas coisas
do cotidiano, dá-se o nome de "cosmovisão" ou "visão de mundo".
As cosmovisões são herdadas pelos indivíduos de acordo com o ambiente em que ele nasce e se forma. Assim, a cosmovisão de um indiano
permite-lhe ter um sentimento de adoração diante de uma vaca, considerado
um animal sagrado na Índia, enquanto um estancieiro gaúcho pode ver em
tal animal apenas uma propriedade que poderá ser negociada ou até mesmo
virar churrasco em um final de semana.
Observe que uma cosmovisão é um marco perceptual e é construída
socialmente. Formam as lentes com as quais enxergamos a realidade. Ora,
uma lente pode nos ajudar a ver melhor determinados aspectos, mas também
pode dificultar a observação de outras dimensões da realidade.

Gravura de Flamarion (século XIX) ilustrando a cosmologia da Terra plana. Essa está centrada na
aldeia do observador, o que deriva da experiência cotidiana. À esquerda, vê-se um "curioso" que
procura romper a esfera das estrelas fixas com o objetivo de descobrir os mecanismos que produzem
o movimento do Sol, da Lua e dos planetas (Fonte: http://www.scielo.br).

9

1

História da Educação Brasileira

Desta forma, é possível perceber que nós não escolhemos o mundo no
qual nascemos. Tudo está previamente definido para as pessoas quando
nascem e esta visão de mundo lhes é imposta, tanto pela socialização
primária, desenvolvida sobretudo no seio da família, quanto pela socialização secundária, cuja principal responsável é a escola. Poucas pessoas estão
em condições de redefinir os conceitos prévios que lhe foram impostos
no processo de transmissão da cultura. As conseqüências da imersão dos
indivíduos em um determinado universo cultural são tremendas, e não vou
abordá-las agora.

Ver glossário no
final da Aula

O campo de estudo que demonstra a origem social de cada idéia
chama-se "Sociologia do Conhecimento", cujo representante mais
eminente foi o sociólogo judeu Karl Mannheim (1893 - 1947). Nas
sociedades modernas intensificou-se a exposição dos indivíduos a
diferentes maneiras de olhar o mundo. Isto provocou um relativismo
exacerbado na mentalidade do homem moderno. Porém, nesta
sociedade pluralista em que vivemos para estarmos satisfatoriamente
conscientes, para termos a capacidade de avaliar a vida e manter
uma comunicação eficaz é necessário ter consciência não apenas de
nosso modo de pensar, mas também do modo de pensar das outras
pessoas, para que possamos entendê-las.

Assim, quero mostrar-lhe que todos os indivíduos estão sujeitos a esses
condicionamentos da consciência, até mesmo os cientistas em seu trabalho
de procurar entender e explicar os mais diversos aspectos da realidade, seus
objetos de estudo. Os cientistas também trabalham com um conjunto de
concepções de explicação da realidade; também previamente construídas e
que facilitam, por um lado, e dificultam por outro, a observação da realidade.
A esse conjunto de fundamentos com os quais os cientistas trabalham
para entender e explicar seu objeto de estudo, dá-se o nome de "paradigma".
Grosso modo, o paradigma seria uma espécie de cosmovisão extremamente
especializada que norteia os cientistas em seus trabalhos de pesquisa. O
conceito de paradigma foi desenvolvido por um epistemólogo, teórico das
ciências, chamado Thomas Kuhn, em 1962. Em seu livro "A Estrutura das
Revoluções Científicas", ele propôs uma teoria para explicar o desenvolvimento da ciência, segundo a qual, esta evolui por meio de revoluções. A
um período de funcionamento normal da ciência, regido por uma estrutura
teórica consensual de explicação da realidade, compartilhada por uma comunidade de cientistas, segue-se um período de revolução, de transformação
no modo de estes entenderem o real.

10

A cientificidade da História da Educação

Aula

1

Capa do livro A estrutura das revoluções científicas, de Thomas Kuhn, publicado em 1962.

EPISTEMOLOGIA é a disciplina filosófica que estuda os
diferentes ramos do saber científico, procurando explicar seus
princípios de funcionamento, métodos, evolução histórica, relação com outros ramos do saber e práticas. É a teoria da ciência.
Assim, perceba que se o cidadão comum para se guiar na existência é
regido por uma cosmovisão, o cientista para se conduzir em seu trabalho
é orientado por um paradigma. Este é um conjunto de pressupostos que
regem as atividades de uma comunidade científica em uma determinada
época, prescreve suas teorias e metodologias, ou seja, o crer e o fazer de
quem lida com a Ciência.
O historiador, sendo o cientista que estuda o passado da humanidade
com o objetivo de explicar a conformação sociopolítica e econômicocultural do presente, também trabalha de acordo com determinados "paradigmas", ou seja, modelos teórico-metodológicos da História. As diversas
correntes de interpretação da história constituem as referências com as
quais determinadas comunidades de historiadores trabalham, ou seja, são
conduzidos em suas crenças e práticas. São os modelos, as diferentes estruturas conceituais utilizadas para interpretar o passado.
11

História da Educação Brasileira

ATIVIDADES
Abaixo segue um esquema gráfico que você deverá completar com informações básicas sobre as diferentes correntes de interpretação da história.
ESCOLAS HISTÓRICAS
HISTORICISMO

POSITIVISMO

MATERIALISMO
DIALÉTICO

ESCOLA DOS
ANNALES

NOVA
HISTÓRIA

HISTÓRIA
CULTURAL

PRINCIPAIS
REPRESENTANTES
PRINCIPAIS
ENFOQUES

COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES
A história é uma construção humana que é feita de acordo com
a concepção de mundo de cada historiador, especialmente sua
assimilação de tempo histórico. Desta forma, para entender a história
é preciso conhecer a perspectiva sob a qual o historiador trabalhou.
A partir do século XIX, quando a história se constituiu como ciência,
diversas teorias gerais procuraram explicar o processo histórico.
Nesta tarefa, você terá a oportunidade de pesquisar a respeito das
principais correntes de interpretação da história. Assim, dá para
perceber que esta é uma tarefa imprescindível para o estudante que
se defronta com o início de um curso de história. A partir de então,
você estará capacitado(a) a ler o relato histórico, compreendendo os
pressupostos com os quais trabalharam cada historiador. Obviamente,
sua compreensão da história crescerá, à medida que você perceber os
conceitos básicos que serviram, para o historiador, como instrumento
de interpretação da realidade.
O desafio é sistematizar a estrutura de explicação de cada escola
histórica (principais representantes, conceitos fundamentais,
concepção de tempo. Para tanto, você poderá recorrer aos materiais
das aulas de Introdução à História e também poderá fazer uma pesquisa
12

A cientificidade da História da Educação

Aula

1

básica na Internet, utilizando como palavras de pesquisa o nome das
correntes históricas.
Observe que a corrente "positivismo" de nosso quadro não diz respeito
ao Positivismo de August Comte mas, à corrente historiográfica que
se concentra, dentre outros aspectos, em documentos escritos oficiais
como a fonte histórica principal.
Percebam que as diversas correntes de interpretação da história se
caracterizam por diferentes maneiras de explicar e entender a realidade e
o funcionamento da história. Cada corrente historiográfica é um marco
perceptual, corresponde a uma lente que amplia alguns aspectos, ofusca
outros e contribui para enxergar o processo histórico de uma determinada
maneira.
Assim funciona a história, cujo estatuto epistemológico, pelo menos
entre nós historiadores, não é questionado. Mas, e a História da Educação?
Seria conduzida também por um arcabouço teórico básico? Seus estudos
devem estar afeitos ao campo da História ou da Educação? Possui ela um
objeto de estudo suficientemente delimitado, uma metodologia específica
e uma comunidade de cientistas que lhe dão razão de ser institucional?

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: CIÊNCIA DA
EDUCAÇÃO OU HISTÓRIA?
Afinal, por que estamos perguntando a respeito da cientificidade da
História da Educação? Primeiro porque essa é uma grande preocupação
entre os historiadores da Educação no Brasil de hoje. Isso se deve ao fato
de que o campo disciplinar está em fase de definição de seu estatuto epistemológico. Por outro lado, a História da Educação é vítima de uma espécie
de marginalização pelos historiadores de ofício, aqueles que alguns professores de nosso Departamento de História da UFS (Universidade Federal
de Sergipe) chamam de "puro sangue".
Segundo levantamento feito por Francisco José Calazans Falcon
em livros que fazem um balanço da historiografia ocidental, a
partir da década de 1970, foi constatada a ausência quase total de
trabalhos de historiadores abordando temas educacionais. Mesmo
entre os grandes historiadores europeus, os propugnadores de uma
nova história e da ampliação de seus objetos de estudo, o tema é
abordado apenas perifericamente. No Brasil, obras como Domínios
da História, de Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfas também
se destacam por ignorar totalmente a história da educação. Porém,
no final da década de 1990, Marcos Cezar Freitas organizou um

13

História da Educação Brasileira
volume, publicado pela editora Contexto, intitulado Historiografia
Brasileira em Perspectiva em que Marta Maria Chagas de Carvalho
apresenta um capítulo intitulado "A Configuração da Historiografia
Educacional Brasileira".

Capa do livro Domínios da História, de Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfas.

Na realidade muitos discutem se a História da Educação deve ser vista
como uma especialidade, uma espécie de ramo da História ou deve ser estudada como uma disciplina acadêmica que compõe o campo compósito das
"ciências da educação". A favor da identificação da História da Educação
como uma especialidade da História está o desenvolvimento da História
Cultural. Isto porque, segundo alguns, o cultural é tão central na análise
da realidade que o mesmo se dissolve nas instâncias econômica, política e
social qual "a água no açúcar". Ora, a educação é a grande responsável pela
transmissão cultural, não podendo o historiador negligenciar os diversos
processos de formação dos indivíduos, quer em seu aspecto amplo, quer
no aspecto restrito.
Para você entender esta atual indefinição epistemológica da História
da Educação, é importante conhecer um pouco da história da disciplina. A
História da Educação constituiu-se em campo de estudo ao final do século
XIX na França e Alemanha. Em 1891, tornou-se disciplina de estudo em
uma Universidade, pela primeira vez, em Harvard, nos Estados Unidos.
O seu desenvolvimento inicial foi ligado ao campo da educação e como
disciplina auxiliar da Filosofia da Educação.
14

A cientificidade da História da Educação

No Brasil, desde a segunda metade do século XIX que se encontram
trabalhos historiográficos que tomam a educação como objeto de estudo.
Recebendo forte influência do tipo de historiografia praticado pelos membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, podemos identificar no
folclorista paraense Frederico José de Santa-Anna Nery (1848 ­ 1901), o
primeiro escritor a dedicar, em 1884, um artigo exclusivo, escrito em francês,
sobre a instrução pública no Brasil. O primeiro livro sobre história da educação brasileira foi publicado em 1889 pelo médico José Ricardo Pires de
Almeida, intitulado "História da Instrução Pública no Brasil (1500-1889)".
O interessante nesta obra é que o escritor, que possuía amplo acesso aos
arquivos do poder legislativo brasileiro, baseando-se em fontes oficiais,
afirmava que o evento fundador da educação no Brasil foi a chegada da
família real portuguesa ao Brasil, em 1808. Assim, fica bem caracterizada
a postura positivista destes primeiros historiadores da educação brasileira.
No início do período republicano destacaram-se os trabalhos de Júlio
Afrânio Peixoto (1876-1947); Primitivo Moacyr (1868-1942) e de Fernado de
Azevedo (1894-1974). Este último, através da obra "A Cultura Brasileira",
lançada em 1942, que se dividia em três partes, no volume "A Transmissão
da Cultura", lançou os fundamentos de uma interpretação da história da
educação brasileira que marcou a historiografia do campo, centrada no
desenvolvimento das instituições educacionais nacionais e na preocupação
de constituição de um sistema nacional de ensino. Não pode deixar de ser
mencionado que o autor aproveitou para consumar a visão polarizada de
dois projetos educacionais para o país, o dos tradicionalistas, representados
por católicos e setor privado de ensino e o dos renovadores, cujos defensores foram os intelectuais responsáveis pelo Manifesto dos Pioneiros da
educação nova, de 1932.

Aula

1

Ver glossário no
final da Aula

15

História da Educação Brasileira

Educação - Órgão da Diretoria Geral do Ensino de São Paulo V. VI Jan./Fev./Mar., n. 1, 2 e 3, 1932.
Este número da revista Educação tornou-se notável com a publicação do Manifesto dos Pioneiros
com o título: "A Reconstrução Educacional no Brasil" (Ao povo e ao governo), p. 3-31, redigido por
Fernando Azevedo e assinado por vários educadores ilustres que defendiam as idéias da chamada
Escola Nova. (Fonte: http://www.crmariocovas.sp.gov.br).

Foram estes intelectuais da Educação (Anísio Teixeira, Fernando de
Azevedo, Afrânio Peixoto, Júlio de Mesquita Filho, Paschoal Lemme e outros) os responsáveis por tornar a História da Educação, a partir da década
de 1930, disciplina obrigatória dos cursos de formação de professores no
Brasil. Na realidade, a disciplina criada pelos escolanovistas foi "Filosofia e
História da Educação", ficando a segunda disciplina subordinada à primeira.
O objetivo da disciplina era utilitário, devendo contribuir na formação
moral dos futuros professores. Também seu magistério foi dominado por
indivíduos de formação religiosa e filosófica, oriundos principalmente do
seio do catolicismo.

16

A cientificidade da História da Educação

Aula

1

Após esta entrada enviesada nos currículos escolares brasileiros, a
História da Educação encontrou uma melhor valorização na Faculdade
de Educação da USP (Universidade de São Paulo), assumindo feições de
ensino superior. Num período de tempo que vai da década de 1940 até a
década de 1960, através de figuras como Laerte Ramos de Carvalho e Roque
Spencer Maciel de Barros, desenvolveu-se um amplo projeto de pesquisas,
visando construir uma História da Educação Brasileira fundamentada em
novas fontes documentais e que efetivamente conferisse identidade a este
campo de estudo no Brasil.
O próximo passo importante nesta história foi o surgimento dos Programas de Pós-Graduação em Educação, a partir do final da década de 1960
e início da década de 1970, onde a História da Educação se estabeleceu como
importante linha de pesquisa. Os primeiros programas de Pós-Graduação
em Educação foram o da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio de
Janeiro e o da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo. Logo
em seguida veio o da USP (Universidade de São Paulo), em 1971.
O desenvolvimento da pós-graduação em Educação desembocou na
criação em 1976 da ANPED (Associação Nacional de Pós-Graduação e
Pesquisa em Educação), entidade que visa à consolidação da pesquisa em
Educação no Brasil e que tem como uma de suas principais áreas temáticas
a História da Educação. Outros importantes passos no desenvolvimento
institucional da História da Educação no Brasil foram: a criação, em 1986,
do HISTEDBR (Grupo de Estudos e Pesquisas História, Sociedade e Educação no Brasil) na Faculdade de Educação da UNICAMP (Universidade
de Campinas) sob o comando do Prof. Dermeval Saviani e a criação, em
outubro de 1999, da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE).

17

História da Educação Brasileira

ATIVIDADES
Faça uma pequena viagem pela Internet e visite o Site destas principais
instituições que detêm o controle dos estudos da História da Educação no
Brasil. A partir daí, procure determinar quais os principais historiadores
da Educação em atuação no país e suas filiações ideológicas.
1. http://www.anped.org.br/
2. http://www.histedbr.fae.unicamp.br/
3. http://www.sbhe.org.br/

COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES
Talvez você encontre alguma dificuldade para chegar a um resultado
conclusivo nesta tarefa, devido à complexidade e a amplidão dos
conteúdos que irá encontrar. Porém, será útil para você avaliar a
natureza e riqueza da produção historiográfica na especialidade da
História da Educação no Brasil. Uma sugestão interessante para você
decifrar as filiações ideológicas dos principais historiadores da educação
no Brasil é, após determinar os mais presentes tanto na direção das
entidades quanto na produção, consultar seus respectivos currículos
na Plataforma Lattes do CNPq. http://lattes.cnpq.br/
Bom trabalho!
Como você pode observar por este pequeno histórico a História da
Educação no Brasil é um campo institucionalmente consolidado, no entanto, tem todo seu desenvolvimento atrelado às pesquisas em Educação.
Quais os problemas e dilemas que este histórico traz para este campo de
estudos? Inicialmente é possível perceber que os historiadores tradicionais, chamados de ofício, consideram a História da Educação uma história
secundária, posto que tem sido praticada por indivíduos oriundos de outros
campos de estudos.
Mas, os problemas teórico-metodológicos da História da Educação não
se restringem a isso. Apesar da sua marginalização em relação ao campo
histórico não há como negar que ela é uma especialidade da história. E como
tal deve seguir as mesmas orientações da teoria e da metodologia. Assim,
os historiadores da educação também adotam os paradigmas historicistas,
as chamadas correntes teórico-metodológicas que vocês estudaram acima,
18

A cientificidade da História da Educação

Aula

1

como seu marco perceptual, seu ponto de referência que lhes fornece as
categorias ou conceitos com os quais eles analisam e interpretam a realidade
educacional no Brasil. Deste modo, os estudiosos da História da Educação
no Brasil estão nitidamente divididos em dois grupos de filiação teóricometodológica: os de orientação materialista dialética e os que se pautam
pela nova história, notadamente a vertente cultural.
Segundo o Prof. Elomar Tambara, da Universidade Federal de Pelotas,
esta relação ideologizada com o objeto de estudo não contribui para uma
compreensão mais efetiva da realidade investigada. Como acontece com o
estudo da história, prevalecem em determinados momentos, modismos que
canalizam as opções teórico-metodológicas dos estudiosos da educação no
Brasil. Ou seja, como um campo de estudos institucionalmente constituído,
os estudos e pesquisas em História da Educação no Brasil estão sujeitos a
relações de poder que muitas vezes condicionam até as escolhas temáticas
e determinam o sucesso ou não de algumas empreitadas de estudos.
Por outro lado, a História da Educação no Brasil tem sido praticada
muito presa ao aspecto formal da educação, ou seja, os estudos se atém à
análise do fenômeno escolar. Olvidam-se os contextos educativos informais
como as associações, igrejas, clubes, família e também a função formativa
dos meios de comunicação de massa. Penso que este enfoque deve mudar
à medida que se perceba a crescente influência dos meios de comunicação
de massa na constituição dos indivíduos no mundo contemporâneo.
É exatamente a partir dessa constatação que pretendo demonstrar
a importância do estudo da História da Educação para a atualidade, ou
seja, numa "sociedade pedagógica", a chamada "sociedade aprendente"
ou "sociedade do conhecimento" é essencial que as pessoas aprendam a
relativizar e criticar as diferentes propostas educativas. Isso só será possível
à proporção que conheçam as proposições educacionais que historicamente
já têm demonstrado seus resultados. Assim, a história da educação servirá
de locus privilegiado para a crítica e reflexão em torno dos problemas
educacionais e de formação, quer em sentido restrito quanto amplo, que
afligem a sociedade contemporânea

19

História da Educação Brasileira

CONCLUSÃO
Bem, companheiro(a)! Procurei apresentar uma perspectiva de estudo
da História da Educação que possa efetivamente despertar o interesse dos
estudantes de História. Para mim, você precisa compreender a educação
como o instrumento mais adequado para a transmissão da cultura. Quando
pensamos em educação formal, escolarizada, temos que considerar que esta
é uma instituição surgida nos tempos modernos exatamente para exercer
a mediação entre as gerações mais velhas e as mais novas em função da
transferência do patrimônio cultural da humanidade para os mais jovens.
À educação escolar têm se dedicado majoritariamente os estudiosos
da história da educação ligados ao campo educacional. Nada impede do
historiador estudar esta instituição e perceber sua influência e centralidade
na civilização Ocidental contemporânea. No entanto, um fenômeno educacional muito mais abrangente também cobra a atenção dos historiadores,
diz respeito ao universo da comunicação e seu trabalho ininterrupto de constituição das subjetividades, de formação dos sujeitos, a partir do século XV.
Você perceberá que a cada momento histórico corresponde um determinado projeto de formação dos indivíduos. Tanto a escola como as
mídias se aliam então na tarefa de produção deste sujeito necessário ao
desenvolvimento social e à manutenção das estruturas de poder vigentes.
Assim, impõe-se uma postura crítica em relação aos mais variados
modelos de formação. Qual deles efetivamente contribui, na medida do
possível, para a construção de um sujeito autônomo ou quais reforçam
os laços de subordinação das pessoas e corroboram para a sua alienação?
Como preservar e transmitir não somente as culturas hegemônicas, mas
também as subordinadas historicamente? Bem, são questões que somente
poderão ser compreendidas à luz de um estudo das diferentes propostas
educacionais de formação dos sujeitos e transmissão cultural.

RESUMO
Nesta aula você foi apresentado ao conceito de cosmovisão e viu sua
ligação com a idéia de paradigma científico. Em função disso, apresentei-lhe
os "paradigmas da História", ou seja, as correntes teórico-metodológicas
que orientam os historiadores na sua tarefa de reconstruir o passado. Após
isso, foi possível fundamentar a compreensão do estatuto epistemológico da
História da Educação, reconhecendo-a como uma especialidade da História.
Assim, esta disciplina também é construída a partir das mesmas referências conceituais com as quais se estuda a História. Apresentei um pequeno
histórico da História da Educação no Brasil, desde o século XIX até a sua
20

A cientificidade da História da Educação

Aula

1

consolidação como um campo de estudo institucionalmente organizado e
levantei alguns problemas para a pesquisa neste campo no país. Sobretudo,
tentei mostrar-lhe que podemos estudar a História da Educação sob um
enfoque restrito, afeito à educação escolar, ou por uma perspectiva ampla,
que se preocupa com os processos de formação advindos dos meios de
comunicação de massa.

PRÓXIMA AULA
Pelo que você percebeu nesta primeira aula nós vamos estudar o fenômeno educacional tal como ele se configurou a partir dos tempos modernos. A instituição escolar, tal como você conhece hoje, foi criada desde os
séculos XVI e XVII na Europa Ocidental. Também nessa época surgiram
as mídias modernas, com a invenção da prensa gráfica. Assim, na próxima
aula, eu vou explicar para você o processo de formação da escola moderna.

AUTO-AVALIAÇÃO
Reflita assim: fiz uma leitura satisfatória do texto, a ponto de dizer que
os objetivos propostos pelo professor-autor foram por mim alcançados?
Pense também se houve, da sua parte, dedicação para cumprir a contento
com as tarefas propostas. Em suma, responda em seu íntimo: sou capaz de
explicar a relação da História da Educação com a História?

REFERÊNCIAS
FALCON, Francisco José Calazans. História Cultural e História da Educação. Revista Brasileira de Educação. v. 11 n. 32 maio/ago. 2006.
FREITAS, Marcos Cezar (org.). Historiografia brasileira em perspectiva.
6. ed. São Paulo: Contexto, 2006.
SIRE, James W. O universo ao vado: a vida examinada. Um catálogo
elementar de cosmovisões. São Paulo: Editorial Press, 2001.
TAMBARA, Elomat. Problemas teórico-metodológicos da História da
Educação. In: LOMBARDI, Claudinei; Saviani, José Dermeval; SANFELICE, José Luís (orgs.). História e História da Educação. Campinas,
SP: Autores Associados: HISTEDBR. 1998. p. 79-87.
VIDAL, Diana Gonçalves. História da educação no Brasil: a constituição
histórica do campo (1880-1970). Universidade de São Paulo. In: FARIAS

21

História da Educação Brasileira

FILHO, Luciano Mendes de. Revista Brasileira de História. Universidade
Federal de Minas Gerais. São Paulo, v. 23, nº 45. 2003. p. 37-70.
WALSH, Brian J. MIDDLETON, J. Richard. La vision transformadora.
La formación de uma cosmovision cristiana. Institute for Christian
Teaching Education Department. General Conference of Seventh-day
Adventists. Silver Springer, MD, EUA.

GLÓSSARIO
Karl Mannheim: Sociólogo judeu nascido na Hungria. Este
autor foi reconhecido internacional devido ao trabalho na
área da sociologia do conhecimento.
Thomas Kuhn: Nasceu (1922-1996) em Ohio, EUA. Foi
um físico cujo trabalho incidiu sobre história e filosofia
da ciência.
Frederico José de Santa-Anna: Barão de Santa Anna
Nery, foi um intelectual e historiador brasileiro.

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