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PRÉ-HISTÓRIA do Rio Grande do Sul

ARQUEOLOGIA
DO
RIO GRANDE DO SUL, BRASIL
ISSN - 0103-5630

DOCUMENTOS 05
2ª edição

2006
Instituto Anchietano de Pesquisas - UNISINOS
São Leopoldo, RS, Brasil

Editor responsável: Pedro Ignácio Schmitz
Diagramação e Arte Final: Fúlvio Vinícius Arnt

SUMÁRIO

Apresentação da nova edição...........................................................................07

Prefácio da Primeira Edição: Uma pré-história para o Rio Grande do Sul Pedro Ignácio Schmitz ......................................................................................11

1. O mundo da caça, da pesca e da coleta - Pedro Ignácio Schmitz............13

2. Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani. Pedro Ignácio Schmitz
...........................................................................................................................31

3. Os primitivos engenheiros do Planalto e suas estruturas subterrâneas:
a tradição Taquara - Pedro Ignácio Schmitz e Ítala Irene Basile Becker........65

4. Os aterros dos campos do Sul: a tradição Vieira - Pedro Ignácio Schmitz,
Guilherme Naue e Ítala Irene Basile Becker.................................................. 101

5. O que sobrou dos índios pré-históricos do Rio Grande do Sul - Ítala
Irene Basile Becker ........................................................................................ 125

6. Alimentos usados pelo homem pré-histórico ­ André Luiz Jacobus ... 149

Apresentação da nova edição
Com o esgotamento da tiragem anterior de Pré-história do Rio Grande
do Sul, impressa em 1991 como Documentos 5, optou-se por uma nova edição,
modificando a apresentação, mas conservando os conteúdos e as ilustrações
anteriores.
Quinze anos é um período suficientemente longo para um livro de
arqueologia se tornar obsoleto, se houver continuidade e intensidade de
pesquisa na área e na temática abordadas.
Por isso, antes de reimprimi-lo, o texto foi lido cuidadosamente pelo
editor, que se deu conta de que a informação básica da edição de 1991 não
havia sido seriamente ultrapassada, apesar de haver um bom número de
pesquisas novas, muitas ainda em execução, ou concluídas mas inéditas,
algumas publicadas, outras apresentadas como dissertações de Mestrado ou
teses de Doutorado.
Para que o leitor se dê conta e possa recorrer às novas contribuições,
publicadas em livros ou revistas de fácil acesso, fazemos o registro das mais
importantes.
Sobre o Mundo da Caça, da Pesca e da Coleta existem várias
contribuições novas. Pedro Augusto Mentz Ribeiro e Catarina T. Ribeiro (1993)
publicaram uma pesquisa feita em abrigo rochoso de Montenegro, no vale do
rio Caí, de uma ocupação pré-histórica de mais de 9.000 anos. Adriana
Schmidt Dias (2004) estudou os abrigos rochosos do alto vale do rio dos Sinos,
onde registrou uma ocupação humana, que se inicia em idade semelhante à do
abrigo anterior e continua por vários milênios. Mentz Ribeiro e outros (2002)
publicaram a ocorrência de zoólitos no litoral central e meridional do Rio
Grande do Sul.
A população Guarani e seus ancestrais tiveram um número ainda maior
de contribuições. O médio e alto rio Jacuí foi objeto de várias dessas
pesquisas. Pedro Ignácio Schmitz, Jairo Henrique Rogge e Fúlvio Vinícius Arnt
(2000) publicaram o levantamento feito na área de construção da barragem
Dona Francisca. Pedro Augusto Mentz Ribeiro (1996) repetiu o levantamento
em anos posteriores. Por fim Sérgio Klampt (2006) fez um terceiro
levantamento da mesma área, com escavações maiores, que usou em sua
tese de doutorado, para detalhar melhor o sistema de assentamento. Jairo
Henrique Rogge (1996) usou informações do primeiro desses levantamentos,
mais informações sobre dois sítios escavados no vale do rio Pardo, para
entender a adaptação do Guarani ao ambiente subtropical nos vales dos rios
Jacuí e Pardo. Sobre a ocupação do rio Pardo, Pedro Augusto Mentz Ribeiro
fez sua tese de doutorado, da qual, em 1993, publicou um resumo. Jairo
Henrique Rogge (2005) dedicou sua tese de doutorado ao estudo das

fronteiras entre os grupos ceramistas das tradições Tupiguarani, Taquara e
Vieira, no território do Rio Grande do Sul. Finalmente, André L. R. Soares
(1997) discutiu a organização social e a arqueologia do Guarani.
Os primitivos engenheiros, responsáveis pelas "casas subterrâneas" do
planalto meridional, vêm sendo, novamente, objeto de intensos estudos por
várias instituições de pesquisa. Pedro Ignácio Schmitz (2002) editou os
relatórios das pesquisas mais recentes. Posteriormente Saul Eduardo Seiguer
Milder (2005) organizou uma publicação ampliada desses relatos. Marcus
Vinicius Beber (2005) publicou a sua tese sobre o sistema de assentamento
dos grupos ceramistas do Planalto Sul-brasileiro. E Jefferson L. Z. Dias (2005),
para testar a continuidade entre os ocupantes das casas subterrâneas e os
índios Kaingang, comparou os dados conseguidos pelos arqueólogos com as
informações etnográficas do século XIX sobre estes índios.
Mesmo os aterros dos campos do Sul, conhecidos como "cerritos",
tiveram uma nova contribuição. Pedro Ignácio Schmitz, Maribel Girelli e André
Osorio Rosa (1997), publicaram, finalmente, as pesquisas feitas pelo Instituto
Anchietano de Pesquisas em Santa Vitória do Palmar, na década de 1960/70.
Sobre as populações indígenas históricas também houve contribuições
interessantes. Luis Fernando Laroque (2000) publicou sua dissertação de
Mestrado sobre as lideranças Kaingang do século XIX. Ítala Irene Basile
Becker (2002) editou, em português, o texto que antes existia em espanhol,
sobre o índio Charrua e Minuano.
No momento em que é lançada esta nova edição da Pré-história do
Rio Grande do Sul, em todas as grandes áreas abrangidas pelo livro,
continuam as pesquisas. Pedro Ignácio Schmitz (2006) coordena um volume
sobre novas pesquisas arqueológicas do Instituto Anchietano de Pesquisas no
Litoral Meridional do Brasil, abrangendo pescadores pré-cerâmicos, populações
da tradição Taquara/Itararé, da tradição Tupiguarani e da tradição Vieira.
Adriana Schmidt Dias e Pedro Ignácio Schmitz, independentemente, continuam
pesquisando ocupações antigas do vale do rio Caí. A equipe do Instituto
Anchietano vem aprofundando o estudo das "casas subterrâneas" do planalto
meridional. Várias dissertações de mestrado retomam o povoamento das
populações da tradição Tupiguarani, no Litoral Meridional, no vale do rio Pardo,
no vale do rio Uruguai. E continuam os estudos sobre os Kaingang e os
Guarani históricos do Estado.
Com isso cresce a perspectiva de que, logo, teremos de escrever uma
história realmente nova do povoamento e da história das populações indígenas
do Rio Grande do Sul.

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Arqueologia do Rio Grande do Sul

As obras citadas
BASILE BECKER, I.I. 2002. Os índios Charrua e Minuano na Antiga Banda
Oriental do Uruguai. São Leopoldo, Editora UNISINOS.
BEBER, M.V. 2005. O sistema de assentamento dos grupos ceramistas do
Planalto Sul-brasileiro: o caso da Tradição Taquara/Itararé. Arqueologia do Rio
Grande do Sul, Brasil. Documentos 10, p. 5-125. São Leopoldo, Instituto
Anchietano de Pesquisas/UNISINOS.
DIAS, A.S. 2004. Sistema de assentamento de caçadores coletores no alto vale
do rio dos Sinos, Rio Grande do Sul. Revista do CEPA, vol. 28, n. 39, p. 7-48.
Santa Cruz do Sul, Editora da UNISC.
DIAS, J.L.Z. 2005. A tradição Taquara e sua ligação com o índio Kaingang.
Arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil. Documentos 10, p. 126-158. São
Leopoldo, Instituto Anchietano de Pesquisas/UNISINOS.
KLAMPT, S. 2006. Uma contribuição para o sistema de assentamento de um
grupo horticultor da tradição cerâmica Tupiguarani. Gnosis, série
Conhecimento 29. Santa Cruz do Sul, UNISC.
LAROQUE, L.F. da S. 2000. Lideranças Kaingang no Brasil Meridional (18081889). Pesquisas, Antropologia 56. São Leopoldo, Instituto Anchietano de
Pesquisas/UNISINOS.
MENTZ RIBEIRO, P.A.M. 1993. Pré-história do vale do Rio Pardo. A história
dos primeiros habitantes. Santa Cruz do Sul, Gráfica Kirst Ltda.
MENTZ RIBEIRO, P.A.M. & RIBEIRO, C.T.1999. Escavações arqueológicas no
sítio RS-TQ-58, Montenegro, RS, Brasil. Rio Grande, Editora da FURG.
MENTZ RIBEIRO, P.A.M., PENHA, M.A.P., FREITAS, S.E. & PESTANA, M.B.
2002. A ocorrência de zoólitos no litoral centro e sul do Rio Grande do Sul. Rio
Grande, Editora da FURG.
MILDER, S.E.S. (org.) 2005. Casas subterrâneas. Anais do I Colóquio sobre
sítios construídos. Santa Maria, LEPA, UFSM.
ROGGE, J.H. 1996. Adaptação na floresta subtropical: a tradição Tupiguarani
no médio Rio Jacuí e no Rio Pardo. Arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil.
Documentos 6, p. 7-156. São Leopoldo, Instituto Anchietano de
Pesquisas/UNISINOS.
ROGGE, J.H. 2005. Fenômenos de fronteira: um estudo das situações de
contato entre os portadores das tradições cerâmicas pré-históricas no Rio
Grande do Sul. Pesquisas, Antropologia 62. São Leopoldo, Instituto Anchietano
de Pesquisas/Unisinos.
Documentos 5, Ano 2006

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SCHMITZ, P.I. (ed.) 2002. Casas subterrâneas nas terras altas do Sul do
Brasil. Pesquisas, Antropologia 58. São Leopoldo, Instituto Anchietano de
Pesquisas/Unisinos.
SCHMITZ, P.I. (coord.) 2006. A ocupação pré-histórica do Litoral Meridional do
Brasil. Pesquisas, Antropologia 63. São Leopoldo, Instituto Anchietano de
Pesquisas/UNISINOS.
SCHMITZ, P.I., GIRELLI, M. & ROSA, A.O. 1997. Pesquisas arqueológicas em
Santa Vitória do Palmar, RS. Arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil.
Documentos 7. São Leopoldo, Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos.
SCHMITZ, P.I., ROGGE, J.H. & ARNT, F.V. 2000. Sítios arqueológicos do
Médio Jacuí, RS. Arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil. Documentos 08.
São Leopoldo, Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos.
SOARES, A.L.R. 1997. Guarani: organização social e arqueologia. Porto
Alegre, coleção Arqueologia n. 4.

São Leopoldo, 22 de abril de 2006.

Pedro Ignácio Schmitz
Editor.

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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Prefácio da Primeira Edição

UMA PRÉ-HISTÓRIA PARA O
RIO GRANDE DO SUL
Há muitos livros sobre a história do Rio Grande do Sul. Eles costumam
iniciar seus relatos com a dominação européia do território, mostrando os
conflitos ao longo de uma fronteira móvel, a instalação de etnias brancas
sucessivas, a organização econômica, política e social dessas populações, que
organizaram sua vida e seu estado à imagem do Velho Mundo.
As etnias indígenas, especialmente sua longa história e soluções locais
aparecem muito desfocadas.
Vários anos faz que os arqueólogos gaúchos prepararam um livro de
pré-história, que uma editora se propôs imprimir, mas não o fez.
Hoje há muitas informações para essa história pré-colonial. De 1965 a
1972 meia-dúzia de arqueólogos prospectou o Rio Grande do Sul de norte a
sul e de leste a oeste. De 1972 para esta data a pesquisa foi menos intensa
porque diversos desses arqueólogos se voltaram para outros estados
brasileiros, onde continuam o trabalho. Quem sintetiza os conhecimentos
acumulados não pode esquecer o nome dos pioneiros, chefes de equipe: no
Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul, Eurico Th. Miller; no Centro de
Estudos e Pesquisas Arqueológicas de Santa Cruz do Sul, Pedro Augusto
Mentz Ribeiro; no Instituto Anchietano de Pesquisas, Pedro Ignácio Schmitz e
Ítala Irene Basile Becker; na PUC/RS, o Irmão Guilherme Naue e Arno Alvarez
Kern; na UFRGS, José Proenza Brochado. A quase totalidade de suas
pesquisas se deteve na prospecção, buscando identificar as culturas, ver a sua
adaptação ecológica e sua distribuição espacial e temporal. Escavações de
grandes superfícies ficaram como obrigação para a nova geração.
Dos capítulos reunidos neste volume, cinco foram escritos para o livro
de Pré-história do Rio Grande do Sul: 2, 3, 4, 5 e 6. O capítulo 2 fala dos
migrantes da Amazônia, a tradição Tupiguarani; o capítulo 3, dos primitivos
engenheiros do Planalto e suas estruturas subterrâneas, a tradição Taquara; o
capítulo 4, dos aterros dos campos do sul, a tradição Vieira; e o capítulo 5, dos
índios que sobraram após a conquista européia. Todos estes capítulos tratam
das populações que plantavam e produziam cerâmica. 6 é um apêndice que
apresenta os principais alimentos usados pelo homem na pré-história. Para
substituir os capítulos que tratavam das populações que viviam da caça, da
pesca e da coleta, escritos por outros colegas, foi organizado, para fins desta

Pedro Ignácio Schmitz

publicação, o capítulo intitulado O Mundo da Caça, da Pesca e da Coleta, que
passou a ser o primeiro.
Procuramos evitar os termos técnicos, oferecendo uma leitura, tanto
quanto possível, sem tropeços.
Ainda esperamos oferecer à população do Estado do Rio Grande do
Sul e do Brasil um texto adequado.
São Leopoldo, 31 de dezembro de 1990.
Pedro Ignácio Schmitz

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Arqueologia do Rio Grande do Sul

O MUNDO DA CAÇA, DA PESCA E DA COLETA
Pedro Ignácio Schmitz

*

1. Os primeiros dez milênios
O Rio Grande do Sul foi povoado muito antes do que a maior parte das
pessoas imagina.
O ambiente seco e frio da última glaciação, com ventos gelados
varrendo paisagens de pouca vegetação, foi o cenário dos primeiros humanos
que, uns 10.000 anos a.C., acamparam à beira do rio Uruguai e nos abrigos
rochosos do vale do Caí.
Este povoamento não é um fato isolado. A América do Sul inteira
recebe, neste tempo, o seu povoamento definitivo. São populações que, saindo
da Ásia, atravessaram o estreito de Behring, peregrinaram pela América do
Norte e Central e, depois de muitas gerações, chegaram aqui.
Se antes desse momento temos humanos em alguns pontos do subcontinente, como no Nordeste do Brasil, ou no Centro-Sul do Chile, as
pesquisas deverão confirmar.
Mais de 600 gerações humanas sucederam-se de então para cá, no
Estado. Isto é bastante frente às 13 gerações contadas desde a ocupação
portuguesa do território, mas é pouco em comparação das 90.000 gerações
humanas do Velho Mundo.
Neste primeiro capítulo esboçaremos a história das populações mais
antigas, que viviam de caça, pesca e coleta e não conheciam cultivos.
As populações dos dez primeiros milênios tinham pouco domínio sobre
a natureza porque suas culturas e sua tecnologia eram, ainda, pouco
desenvolvidas. Viviam dentro da natureza e aproveitavam o que ela brindava
graciosamente, interferindo muito pouco em seu sistema. Por isso estão muito
dependentes da distribuição desses recursos e sujeitos às mudanças que se
processaram nos últimos 10.000 a 12.000 anos.
Olhando o ambiente de nossos dias podemos dar-nos conta, mais
facilmente, dessas transformações.
Hoje, o clima é temperado úmido. As chuvas estão distribuídas durante
todo o ano, com certo predomínio nas estações do outono-inverno, as
precipitações são mais abundantes nas porções de terreno de relevo
acentuado, onde podem alcançar 2.000 mm anuais, são menos abundantes
nas áreas menos acidentadas, onde podem não passar de 1.250 mm. Em
*

Instituto Anchietano de Pesquisas, UNISINOS, Bolsista do CNPq.
Arqueologia do Rio Grande do Sul, Documentos 5, 13-30. São Leopoldo : IAP, 2006.

Pedro Ignácio Schmitz

termos gerais, e sem uma estação realmente seca, esta é ainda muita chuva e
permite o desenvolvimento de uma densa vegetação de crescimento
ininterrupto.
As temperaturas médias são inferiores a 22° C; as médias mínimas
baixam até 10° C, no planalto; a amplitude térmica anual e diária é alta.
A combinação de clima, solo, relevo e história produziram uma
distribuição típica da vegetação: campos desenvolvem-se nos terrenos
ondulados do sul, oeste e noroeste; florestas mistas com pinheiros ocupam a
maior parte dos terrenos altos do norte e nordeste; florestas subtropicais de
folhas predominantemente caducas ocupam a borda do planalto e
acompanham o rio Uruguai como a maior parte de seus afluentes; ao longo do
litoral ainda constatamos uma vegetação típica. (Mapa 1)
Cada um desses ambientes oferece ao homem que vive de caça,
pesca e coleta, recursos diferentes, de origem vegetal, animal e mineral. Os
locais que reúnem maior quantidade e variedade desses recursos eram mais
úteis e aí se encontram mais concentrados e mais duradouros os sítios
arqueológicos. Locais de recursos uniformes, mesmo se abundantes, e locais
de poucos recursos costumam ter poucos sítios; quando existem, costumam
ser passageiros. A longo prazo cada um dos grandes ambientes imprimiu seu
caráter às culturas que dentro dele se formaram.
Quando os primeiros povoadores chegaram, o ambiente seria bastante
diferente do atual. A temperatura média seria alguns graus mais baixa; a
precipitação inferior. Os rios teriam pouca água e a paisagem teria uma
fisionomia de forte aridez. A floresta subtropical de folhas predominantemente
caducas, dependente de calor, só ocuparia pequenas franjas ao longo do rio
Uruguai e na encosta do planalto; a floresta de pinheiros, adaptada ao frio,
seria mais compacta e desceria bastante na borda do planalto; vegetações
herbáceas e arbustivas, de tipo estepe e savana, dominariam as áreas baixas
que seriam bastante maiores porque a plataforma continental estaria exposta
em grandes extensões por causa do baixo nível das águas do mar.
Neste ambiente, além dos animais hoje existentes, viviam outros, de
estatura e peso muito maiores, que estavam adaptados ao clima frio e às
paisagens abertas de ervas altas, como as preguiças terrestres, os tatus
imensos, os hipopótamos, os elefantes, os camélidos e também os cavalos,
que são originários da América, para citar apenas alguns. (ver capítulo 6)
Ao redor de 9.000 a.C. a glaciação mundial terminava e a temperatura
ia-se elevando, mas não na mesma proporção, levando a um longo período
ainda mais seco, que deveria produzir uma crise na vegetação, acompanhada
da extinção dos animais agigantados.
Nichos conhecidos como importantes para o homem, que já vivia nesse
espaço, eram as confluências dos arroios no rio Uruguai, onde se juntaria a
savana aberta com a estreita mata ciliar e os animais encontrariam a água que
escassearia nos terrenos abertos. Também eram importantes pequenos
14

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O Mundo da Caça, da Pesca e da Coleta

abrigos rochosos na borda baixa do planalto, limite entre a savana e a mata da
encosta. Nesses dois nichos estão localizados todos os sítios antigos
conhecidos no Estado. (Mapa 2)
Ao redor de 6.000 anos a.C. a umidade começou a aumentar junto com
a temperatura, chegando ambas a níveis máximos entre 4.000 e 2.000 a.C.,
quando deveriam ter sido bastante maiores que hoje. Os rios aumentaram
consideravelmente seu volume de águas, o mar, que vinha subindo desde o
final da glaciação, subiu alguns metros acima do nível atual, a floresta
subtropical de folhas predominantemente caducas invadiu os campos e os
pinheirais e tendeu a ocupar o espaço de agora.
Nichos favoráveis para o homem seriam os numerosos abrigos
rochosos do nordeste do Estado, onde teriam refúgio contra as chuvas e a
disponibilidade dos bens nascidos nos campos, na mata e no pinheiral;
pequenos vales encaixados na borda do planalto poderiam oferecer condições
semelhantes (tradição Umbu). Nas altas matas que se adensam ao longo das
margens mesmas do Uruguai, recursos de outra natureza deveriam tornar-se
disponíveis porque aí grupos humanos aparecem e se multiplicam (tradição
Humaitá). Junto das lagoas litorâneas, onde os moluscos se reproduzem nas
águas aquecidas e os peixes marinhos vêm crescer e se multiplicar, cria-se
outro nicho muito rico que junta os recursos marinhos, lacustres e florestais da
encosta (tradição de coletores e pescadores litorâneos). (Mapa 3)
Durante os dois mil anos seguintes a temperatura e a precipitação
teriam um descenso que as deixaria abaixo das médias atuais, mas esta
mudança não deveria ser trágica para o mundo animal e humano, embora
apareça como um marco de transição para as culturas humanas. Ao menos um
novo nicho aparece com a descida da água das lagoas e dos banhados das
cabeceiras de certos rios no centro sul do Estado, criando imensas áreas
alagadiças, onde animais terrestres, voláteis e aquáticos estariam acessíveis
em grande quantidade; também abundante material para construir cabanas
para se abrigar do frio e da chuva. Esse novo ambiente vai oferecer ricas
alternativas para caçadores da tradição Umbu.
Finalmente, com o começo da era cristã, a temperatura e a
precipitação se aproximariam das que conhecemos hoje. Esta última
modificação marca a introdução dos cultivos e da cerâmica no Estado, levando
a uma vida mais sedentária e a um visível aumento populacional. A nova
tecnologia e o novo modo de vida tinham surgido anteriormente em outras
áreas do continente (como o México, o Peru e a Amazônia) e são introduzidos
no estado de formas diferentes: nas áreas de mato se estabelece um grupo de
cultivadores escapados da Amazônia (tradição cerâmica Tupiguarani); nos
pinheirais do planalto surge uma população ainda fortemente caçadora e
coletora, mas que também planta e inova do ponto de vista do assentamento,
construindo casas subterrâneas (tradição cerâmica Taquara); nos campos, as

Documentos 5, Ano 2006

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Pedro Ignácio Schmitz

populações tornam-se mais estáveis e no fim provavelmente usam algumas
plantas cultivadas (tradição cerâmica Vieira).
Para a evolução climática pode-se ver Ab'Saber (1977).
2. Caçadores, pescadores e coletores das áreas abertas: a tradição Umbu
A pesquisa sobre os povoadores mais antigos foi realizada por Eurico
Th. Miller (1976), no sudoeste do Rio Grande do Sul, na margem do rio Uruguai
e seus afluentes, onde encontrou acampamentos datados desde 10.700 a
6.600 a.C. Os mais antigos receberam a denominação arqueológica de fase
Ibicuí, os demais, de fase Uruguai.
Schmitz e equipe escavaram, em Ivoti, um pequeno abrigo rochoso,
cujas camadas mais antigas são contemporâneas desses achados.
No lugar denominado Batinga, no município de Maratá, Pedro Augusto
Mentz Ribeiro (com. pes. 1989), também num abrigo rochoso, encontrou
material muito rico da mesma idade.
Para este período só temos, por enquanto, estas informações.
A fase Ibicuí, representada pelos dois acampamentos mais antigos,
sobre afluentes do rio Uruguai, no sudoeste do estado, vem acompanhada de
animais pleistocênicos extintos; entre os instrumentos abandonados, lascados
por percussão, encontram-se raspadores e talhadores, mas ainda nenhuma
ponta-de-projétil bem definida. Ela corresponde ao período seco do final da
glaciação, em que o rio tem pouca água e corre num leito reduzido; os
materiais saem das barrancas por baixo do nível atual das águas e estão
acessíveis só em período de seca extraordinária.
A fase Uruguai, para a qual se conhecem mais de duas dezenas de
acampamentos sobre o rio Uruguai, certamente é a continuação da fase Ibicuí,
separada pelo arqueólogo porque algum instrumento é diferente. Ainda
pertence ao período seco posterior à glaciação, mas o rio já tem um pouco
mais de água. Os sítios encontram-se geralmente na confluência de arroios e
sangas com o Uruguai e na frente de corredeiras, onde os alimentos e os
seixos para produzir instrumentos costumam ser abundantes. Os artefatos
mais característicos são pontas-de-projétil lascadas em pedra, ao lado de
raspadores, facas e percutores. O carvão que serviu para datar numerosos
sítios provém das fogueiras que eram acesas no meio do acampamento e que
se encontram rodeadas de restos de lascamento e instrumentos abandonados.
Não há restos de choupanas: talvez ainda não soubessem construir. Os
acampamentos correspondem a grupos reduzidos de pessoas e seriam pouco
duradouros. Os grandes animais do período frio deveriam estar em extinção e
a caça deveria concentrar-se em animais de tamanho médio e pequeno,
semelhantes aos de hoje.
A escavação realizada por Schmitz e equipe, no abrigo de Ivoti, não
chegou a produzir resultados diferentes, mas o abrigo de Batinga nos informa
16

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O Mundo da Caça, da Pesca e da Coleta

que, ao lado de caça de médio e pequeno porte, o grupo recolhia numerosos
caramujos terrestres que constituíam parte de sua alimentação. Estes abrigos
são acampamentos temporários típicos de pequenos bandos que caçam na
área.
Os poucos sítios estudados até agora deixam bem claro que, entre
10.000 e 6.000 anos, a população é extremamente rarefeita e vive em
pequenos grupos familiares que vagam pelo território, acampando à beira de
córregos ou em abrigos rochosos da borda do planalto. Ainda não se encontrou
nenhum de seus esqueletos, mas só os restos conservados de seus
instrumentos e, às vezes, de suas precárias refeições.
Neste tampo outros pequenos bandos, com instrumental semelhante,
vagavam pelas áreas de vegetação aberta do sul do Brasil, do Uruguai e da
Argentina. Mas nos cerrados do Brasil Central e no Nordeste, bandos um
pouco mais densos e com instrumentos também diferentes já deixavam marcas
muito mais precisas de sua passagem, em abrigos, grutas e acampamentos a
céu aberto, onde são abundantes os restos de comida e esqueletos e as
pinturas e gravuras cobrem paredões inteiros.
Na medida em que a umidade e a vegetação arbórea aumentam,
encontramos as populações da tradição Umbu mais concentradas nos abrigos
rochosos e ao longo dos rios da borda do planalto no Nordeste e Centro do
Estado, na proximidade dos campos, dos pinheirais e talvez dentro de uma
franja de mata subtropical que deveria estar se expandindo rapidamente.
Os sítios são geralmente maiores e mostram maior tempo de
ocupação. Talvez houvesse, ainda, pequenos grupos, vagando em campos
abertos durante certas estações, mas os restos destes acampamentos são
difíceis de achar.
O instrumento em pedra torna-se mais variado, apresentando ainda
furadores, quebradores de frutos, talhadores, lâminas polidas de machado e
bolas de boleadeira. A matéria-prima para a produção desses instrumentos
provém de seixos do rio, blocos ou afloramentos rochosos e é trabalhada, de
acordo com sua natureza, por lascamento, picoteamento ou polimento.
Calcedônia, arenito, quartzo e quartzito são trabalhados por percussão;
basalto, diorito e outras rochas semelhantes geralmente por picoteamento ou
polimento. (Figura 1)
Em osso, sub-produto da caça, preparam furadores, espátulas, anzóis,
agulhas e pingentes de dentes perfurados; carapaças de moluscos servem
para fazer contas de colar.
Os restos de alimentos, encontrados principalmente nos abrigos
rochosos, nos dizem que faziam uma caça generalizada, onde aparecem a
anta, o veado, o porco-do-mato, a cutia, o coati, a paca, o bugio, a jaguatirica, o
tatu, o ratão do banhado e outros ratos, a preá, cágados e lagartos.
Geralmente encontram-se também ossos de peixe. Às vezes cascas de ovo de
ema. Em alguns abrigos são abundantes as conchas de caramujos terrestres
Documentos 5, Ano 2006

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Pedro Ignácio Schmitz

ou de água doce. As frutas estão pouco representadas, o que não quer dizer
que não seriam muito usadas. Os restos mostram que a alimentação era
conseguida com a apropriação de produtos naturalmente disponíveis, sem
acréscimo notável resultante da engenhosidade humana. Esta falta de controle
da produção obrigava os grupos a manterem-se pequenos, móveis e dispersos
pelo território.
Alguns esqueletos foram recuperados de sepultamentos em abrigos
rochosos. Ainda não foram estudados do ponto de vista de sua biologia. Os
falecidos eram enterrados no chão mesmo dos acampamentos. O ritual de
sepultamento era simples: uma vez aberta uma cova, na mesma eram
colocadas lajes de arenito à guise de assoalho, com uma extremidade mais
elevada à maneira de travesseiro. Sobre o assoalho e o travesseiro era posta
uma camada fina de carvões que recebia o corpo envolto em folhas de árvores
e que era coberto com terra ou lajes. O corpo era depositado estendido de
costas ou todo dobrado; só raramente os adultos eram acompanhados de
algumas contas de colar; as crianças com mais freqüência (Miller, 1969).
Nas paredes de alguns abrigos existem gravuras, simples rabiscos
irregulares, geralmente preenchidos com pigmentos escuros, para destacá-los
do fundo rochoso.
Quando o clima novamente se torna mais frio e a chuva menos intensa,
um nicho muito rico, que se vai criando ao longo das lagoas litorâneas e nos
grandes banhados das cabeceiras dos rios do Centro e Sul do Estado, vai ser
intensamente explorado. Ali a caça, o peixe e as frutas são mais abundantes
que em qualquer outra parte ocupada pela tradição Umbu, além de ser
abundante o material para construir choupanas, que já neste tempo deveriam
levantar para abrigo das chuvas, dos animais e do frio. Os sítios arqueológicos
típicos são aterros, ou cerritos, na borda e dentro das áreas alagadiças,
multiplicados às centenas desde aproximadamente 500 a.C. Logo essa
população vai adotar a cerâmica da tradição Vieira e talvez alguns cultivos. O
modo de vida dessas populações é descrito no capítulo que trata da tradição
Vieira.
Sítios da tradição Umbu só excepcionalmente são encontrados na
mata, que é território da tradição Humaitá, ou no litoral, onde se encontram os
sambaquis.
Pesquisas sobre a tradição Umbu foram realizadas principalmente por
E.Th. Miller, P.A. Mentz Ribeiro e P.I. Schmitz. Arno A. Kern (1981) e P.I.
Schmitz (1984, 1985 e 1987) reuniram essas informações em sínteses mais ou
menos desenvolvidas, onde pode ser encontrada a bibliografia e as datas de
carbono radioativo.

18

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O Mundo da Caça, da Pesca e da Coleta

3. Caçadores, pescadores e coletores das florestas: a tradição Humaitá
Nas matas do Sul do Brasil e partes da Argentina e do Paraguai
desenvolveu-se uma cultura diferente. É possível que seus fundadores sejam
da mesma população que os caçadores das áreas abertas, mas até agora não
se encontrou material para fazer a comparação.
Os acampamentos mais antigos, que recuam até 6.000 anos a.C. estão
profundamente enterrados nos barrancos do Alto Uruguai e do Alto Paraná;
dessa área, nos milênios seguintes, a floresta e a tradição Humaitá
expandiram-se paralelamente; elas são mais recentes quanto mais periférica a
esses locais é sua posição.
Os recursos que atraíam esses homens e tornavam sua vida possível,
em parte estão na água dos rios, onde pescavam e recolhiam moluscos, em
parte na floresta, onde caçavam animais de toda espécie (anta, veado,
capivara, porco-do-mato, macaco, gato-do-mato, lontra, ratão do banhado, tatu,
lagarto) e recolhiam caramujos terrestres e frutas; a maior parte dos sítios está
tão perto de pinheirais que, em alguns dias de caminhada, teriam acesso a
eles.
Os acampamentos seriam temporários e reuniriam pequenos grupos
que voltariam tanto mais vezes ao mesmo local, quanto mais abundantes ou
concentrados estivessem os recursos.
Os instrumentos abandonados nesses acampamentos compõem-se
principalmente de grandes enxós, raspadores, talhadores e cunhas lascadas,
que seriam usados para abrir clareiras na floresta e trabalhar madeira. Picões,
facas, furadores e simples lascas completam os restos. Quase nunca
aparecem instrumentos polidos, como poderiam ser lâminas polidas de
machados, instrumentos lascados com a mesma forma e a mesma função
substituíam os polidos e talvez fossem mais eficientes que aqueles. (Figura 2)
A matéria-prima para fazer esses instrumentos costuma ser o basalto,
o diabásio, o riolito ou o arenito silicificado, fáceis de recolher nas corredeiras
dos rios sob a forma de seixos, ou nas encostas onde afloravam como grandes
blocos. Mais raramente aparece a calcedônia e o quartzo, com que se
produziam artefatos pequenos.
Os artefatos costumam ser bem maiores que os da tradição Umbu e
bem diferentes, destacando-se especialmente a ausência de pontas de dardos
ou flechas em pedra, as quais são os artefatos mais característicos daquela
tradição. Provavelmente na tradição Humaitá seriam feitas de madeira.
Num abrigo rochoso estudado na Argentina foram encontrados
numerosos anzóis feitos de osso, que dão uma idéia da importância que a
pesca teria para o grupo.
Nas paredes de alguns abrigos do vale do Jacuí foram deixadas
gravações com a forma de pisadas de animais (de gatos, veados e aves) e
símbolos sexuais masculinos e femininos.
Documentos 5, Ano 2006

19

Pedro Ignácio Schmitz

Nos acampamentos a céu aberto, que hoje aparecem como manchas
de terra escurecidas com carvão, instrumentos e restos de lascamento, ainda
não foi possível recuperar ou identificar restos de choupanas, que se supõe as
famílias levantavam como proteção contra intempéries e animais.
Como a tradição Umbu se mantinha nas áreas de vegetação aberta,
assim a população da tradição Humaitá se restringia à floresta. É possível que
em certas áreas da borda do planalto, no centro do Estado, grupos humanos
das duas tradições estivessem muito próximos, se encontrassem e talvez se
miscigenassem, como sugere a justaposição dos instrumentos das duas
tradições nos mesmos acampamentos.
A tradição Humaitá permaneceu em sua área original, vivendo sempre
em pequenos bandos dispersos pelo território, até o primeiro milênio d.C.,
quando sua área é invadida e rapidamente ocupada por migrantes da
Amazônia, conhecidos em nossa história como Guaranis. O que aconteceu
com a população da tradição Humaitá? Conhecendo o modo de vida dos
invasores, cultivadores eficientes de floresta e canibais, podemos supor que o
lento extermínio seria o destino das populações nativas. Refugiar-se nos
campos não seria fácil porque eles estavam ocupados e a tecnologia que
conheciam era inadequada para sua exploração; sair das áreas quentes da
beira dos rios para ocupar os planaltos frios dos pinheirais oferecia dois
obstáculos: a adaptação climática não seria fácil e a área estava povoada por
um grupo bem adaptado, a tradição Taquara.
A tradição Humaitá não é exclusiva do Rio Grande do Sul. Ela se
estendia igualmente pelas florestas subtropicais que acompanham o Alto
Uruguai e o Alto Paraná, aparecendo com as mesmas características em Santa
Catarina, no Paraná, em São Paulo e Misiones argentinas e paraguaias.
Há poucos trabalhos extensivos e nenhum trabalho aprofundado sobre
a tradição Humaitá, embora todos os arqueólogos do Estado, em um momento
ou outro, tenham lidado com ela. Sínteses abrangentes são encontradas em
Kern (1981) e Schmitz (1984 e 1987).
4. Coletores, pescadores e caçadores do litoral: os Sambaquis
Houve muitos sambaquis ao longo do litoral do Rio Grande do Sul,
desde São José do Norte até Torres, mas não temos grandes conhecimentos
sobre eles porque nunca se realizaram pesquisas e publicações adequadas.
Embora sobrem alguns restos, a maior parte foi destruída para fazer
cal, para aterrar estradas ou mesmo para buscar restos arqueológicos. Jussara
Louzada já desde muitos anos se dedica ao seu estudo, mas ainda não
publicou os resultados. Arno A. Kern (1989) publicou uma síntese para o litoral
norte.
Como se trata de populações que não viveram só em nosso Estado,
pelo contrário, seu modo de vida foi mais expressivo e mais estudado em
20

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O Mundo da Caça, da Pesca e da Coleta

outros estados brasileiros (SC, PR, SP, RJ), usaremos este conhecimento
geral para apresentar o grupo.
Os sambaquis mais antigos encontram-se entre o Paraná e São Paulo,
onde alcançam 4.000 anos a.C. Em direção ao norte e em direção ao sul desse
ponto, os sítios tornam-se mais recentes, podendo se esperar que os primeiros
sambaquis de Torres tenham surgido uns dois mil anos a.C.
Como esta adaptação litorânea nasceu e quem são os fundadores,
ninguém ainda descobriu.
Os sambaquis são acúmulos de conchas, ossos de peixes e outros
resíduos de atividade humana, resultantes da ocupação do litoral marítimo por
bandos especializados em sua exploração. São os resíduos mais volumosos
produzidos por qualquer população pré-histórica brasileira. Podem formar
morros de 30 metros da altura, ao longo de lagoas, lagunas, mangues,
pântanos ou baías, onde os alimentos eram ricos, mas dificilmente são
encontrados ao longo de praias retilíneas, onde o conjunto de alimentos é
consideravelmente pobre. (Figura 3)
Os alimentos disponíveis em grande quantidade durante o ano todo
são moluscos, crustáceos, peixes do mar que entram nas águas salobras para
desovar ou crescer; temos ainda a caça de mamíferos nas áreas vizinhas dos
corpos de água e na encosta do planalto ou da Serra do Mar; as numerosas
aves marinhas; e os frutos de variadas palmeiras e árvores de restinga e da
Floresta Atlântica. O litoral lagunar foi, durante os milênios anteriores à
introdução da agricultura, o ambiente que mais recursos e mais estáveis
ofereceu ao homem.
Apesar de numerosas pesquisas não está claro se os sambaquis
surgiram da mera sobreposição de ocupações em conseqüência do lixo
acumulado ao redor das choupanas, ou se houve acúmulo intencional para
fugir do ambiente infestado do banhado ou para destacar uma área de
sepulturas.
Eles costumam assentar sobre uma pequena elevação que pode ser
um cordão litorâneo ou um afloramento rochoso, na proximidade de um corpo
de água que brinde alimentos, água potável e um meio desimpedido para
locomover-se para outras fontes de recursos.
Escavações mais extensas dão idéia de ao menos algumas estruturas:
poucas vezes foi possível destacar pisos que mostrariam o tamanho e a forma
das choupanas; as maiores têm 7m de diâmetro; alguma vez são elípticas.
Deveriam ter sido construídas com folhas ou ramos, ofereceriam pouco
espaço, mas defenderiam contra as intempéries e os mosquitos.
Mais que os fundos das cabanas, aparecem os lugares de preparação
dos alimentos que se podem apresentar como um conjunto de pequenos
blocos de rocha em meio a manchas de carvão, ou como pequenas fossas
preenchidas com pedras ou argila, nas quais se assava o alimento; elas vêm

Documentos 5, Ano 2006

21

Pedro Ignácio Schmitz

geralmente cheias de conchas de moluscos, pinças de crustáceos, espinhos de
ouriço do mar, ossos de peixes e coquinhos calcinados.
Mais comuns são as sepulturas. Ao longo do litoral havia duas
maneiras de sepultar os mortos: completamente dobrados, provavelmente
envoltos em esteiras como os fardos mortuários peruanos; ou estendidos, de
bruços ou de costas, provavelmente também envoltos. A cova podia ser um
simples buraco no meio das conchas, ou dos ossos de peixes; ela podia ter um
revestimento de conchas, de areia branca ou de argila. Freqüentemente se
fazia um revestimento de ossos de baleia e, ao menos num caso, o morto
estava num sarcófago de argila endurecida, com desenhos vermelhos na
tampa. Freqüentemente o morto vinha coberto de ocre. Objetos de uso pessoal
são muitas vezes encontrados sobre o esqueleto; podem ser colares de
conchas ou dentes, pingentes em osso ou pedra, pontas de flecha em osso,
seixos, lâminas de machado ou esculturas em pedra. (Figura 4)
A disposição dos sepultamentos dá pistas para o número, a colocação
e o deslocamento das choupanas; algumas vezes as sepulturas formam
verdadeiros cemitérios familiares, outras, parecem distribuídas irregularmente
na superfície.
Em sambaquis muito grandes, compostos principalmente de conchas,
os sepultamentos parecem formar a menor parte dos restos; em sambaquis
rasos os sepultamentos são muito evidentes. Não temos uma idéia clara se há
sambaquis realmente pequenos, levantados por poucos indivíduos. Os
arqueólogos dão uma média de 50 a 100 indivíduos como responsáveis por
todos os restos de um sítio médio; para sítios grandes ou muito grandes o total
da população, proveniente de numerosas gerações sucessivas, poderia chegar
a 600 indivíduos. Isto daria, em qualquer um dos casos, uma ocupação
simultânea de poucas famílias no topo e arredores do sambaqui, unidas
provavelmente por laços de parentesco biológico ou social, típico dos
pequenos bandos de caçadores e coletores.
Olhando para o número de sambaquis, formados no litoral sul e
sudeste do Brasil, poderíamos ser tentados a pensar numa grande densidade
populacional, muito diferente dos números acima. Mas, considerando que se
trata de uma sucessão de ocupações durante 4.500 anos e que os sítios
individualmente não costumam passar de 300 anos, os arqueólogos chegaram
à conclusão de que eram poucos os sítios habitados simultaneamente.
Os instrumentos que os habitantes do sambaqui necessitavam seriam
relativamente simples. Muitos deveriam ter sido em material perecível, dos
quais nada se recuperou. Dos que eram pedra sobraram lascas de quartzo e
diabásio, que serviam para cortar; seixos com marcas de golpes nas
extremidades, usados para quebrar ou esmagar; ou nas faces, usados como
suportes; blocos planos com superfícies deprimidas, usadas para esmagar,
moer ou polir; pesos de rede ou de anzol; lâminas polidas ou semipolidas de
machados para cortar e trabalhar madeira, pequenas peças fusiformes bem
22

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O Mundo da Caça, da Pesca e da Coleta

acabadas, geralmente interpretadas como adorno; pratos, bastões e pequenas
esculturas finamente esculpidas. Sobre blocos de diabásio junto da praia se
encontram sulcos ou depressões circulares ou elípticas que parecem lugares
de preparação desses instrumentos.
Ossos resultantes da caça e da pesca, proporcionavam matéria-prima
para fazer agudas pontas-de-flecha, anzóis, furadores, agulhas ou objetos de
adorno. Dentes de animais terrestres e marinhos eram usados para fazer
adornos e instrumentos.
Conchas proporcionavam material para colares e os mais resistentes,
como as de ostras, podiam ser transformadas em facas ou raspadores.
Entre os artefatos ainda não recuperados certamente estavam redes
para a pesca, cestos, esteiras, cordas, trançados, armas e canoas, além das
estruturas do acampamento com cabanas, giraus, cercas, estendedores e
bancos.
No meio de uma tecnologia tão simples, de artefatos despretenciosos,
chama atenção o bem-acabado de sua escultura em pedra. Devemos supor
que havia uma arte, igualmente bem acabada, em material perecível, como
poderiam ser máscaras, cocares e outros adornos corporais.
O que se preservou são pequenas esculturas em pedra e osso de
baleia, que representam diversos animais e apresentam uma cavidade ventral
ou lateral que, à primeira vista, sugeriria função de almofariz. As peças
datadas, mais antigas, são de 2.000 anos a.C. O maior número delas foi
encontrado em Santa Catarina e norte do Rio Grande do Sul, mas elas ocorrem
num raio muito maior.
O tamanho varia de 7 a 77 cm e o peso de 40 a 5.000 gramas. Elas
representam aves, peixes, cetáceos, quadrúpedes e raros antropomorfos.
A população dos sambaquis formava uma sociedade igualitária, com
bandos distanciados entre si, ocupando os ambientes propícios. Precisavam
pouca tecnologia para viver.
Mas que também viviam pouco. Alvim e Uchoa (1976) estudaram a
idade no momento da morte dos 87 indivíduos exumados no sambaqui de
Piaçaguera, SP: 35,63% morreram como crianças, 2,29% como jovens e
62,06% como adultos. A mortalidade infantil se dava, com maior incidência, na
faixa de 6 a 12 meses. Nos adultos femininos a morte ocorria mais
freqüentemente entre 20 e 30 anos; nos adultos masculinos entre 20 e 40
anos.
Dão-nos também uma idéia de sua aparência: estatura baixa, tendendo
a estatura média (estatura média dos indivíduos masculinos, 1,61 m; dos
femininos entre 1,54 e 1,52 m); esqueletos robustos com as impressões das
inserções musculares fortemente marcadas; dimorfismo sexual acentuado.
Crânios grandes, face longa, ou média; nariz largo; mandíbula alta e robusta,
mesognata. Gozava de bons dentes, com raríssimas cáries, outras afecções
dentárias ou perdas de dentes.
Documentos 5, Ano 2006

23

Pedro Ignácio Schmitz

Embora haja bastante semelhança no aspecto físico e cultural dos
homens do sambaqui de todo o litoral, certamente eram vários grupos que
disputavam o espaço. Estavam isolados das populações do interior pela
barreira da Serra do Mar, enquanto na região inteira todos se dedicavam à
caça, à pesca e à coleta. Esta barreira se tornaria fraca com o advento dos
cultivos; estes chegaram primeiro aos habitantes do interior.
Uma grande parte dos sambaquis pré-cerâmicos estão, por isso,
cobertos por restos de povos ceramistas. Primeiro, talvez 800 d.C., foram os
ceramistas das casas subterrâneas do Planalto (tradição Taquara/Casa de
Pedra/Itararé) que invadiram o litoral e aí se fixaram; temos indícios que, em
alguns lugares, se misturaram com populações anteriores, mantendo uma boa
adaptação litorânea. Depois o Guarani (no Sul) e o Tupi (no Sudeste)
colonizaram o mesmo litoral, voltados para as terras cultiváveis e não tanto
para os recursos do mar; o que aconteceu então com os sambaquianos, ainda
não foi estudado. De qualquer forma, nas áreas dessa invasão, os
sambaquianos desapareceram.
Há numerosos trabalhos sobre os sambaquis da costa brasileira e três
sínteses: a mais completa é de Prous (1976), as duas outras são de Schmitz
(1984 e 1987).
Bibliografia citada
AB'SABER, A.N. 1977 Espaços ocupados pela expansão dos climas secos na
América do Sul, por ocasião dos períodos glaciais quaternários. Paleoclimas 3,
São Paulo.
ALVIM, M.C. & UCHÔA, D.P. 1976. Contribuições ao estudo das populações
dos sambaquis. Os construtores do sambaqui de Piaçaguera. Instituto de PréHistória, USP, São Paulo. Série Sambaqui de Piaçaguera n°1.
KERN, A.A. 1981. Le preceramique du Plateau Sud-Brésilien. Études en
Sciences Sociales, Paris.
MILLER. E.Th. 1969. Resultados preliminares das escavações no sítio précerâmico RS-LN-1: Cerrito Dalpiaz (abrigo-sob-rocha). Iheringia, Antropologia
1: 43-112. Porto Alegre.
__________. 1987. Pesquisas arqueológicas paleoindígenas no Brasil
Ocidental. Estúdios Atacameños 8: 37-61. Antofogasta.
PROUS, A. 1976. Les sculptures zoomorphes du Sud Brésilien et de l'Uruguay.
Cahiers d'Archéologie d'Amérique du Sud 5, Paris.
SCHMITZ, P.I. 1984. Caçadores e coletores da Pré-História do Brasil. Instituto
Anchietano de Pesquisas/UNISINOS, São Leopoldo.
__________. 1985. Estratégias usadas no estudo dos caçadores do Sul do
Brasil. Alguns comentários. Pesquisas, Antropologia 40: 75-97, São Leopoldo
__________. 1987. Prehistoric hunters and gatherers of Brazil. Journal of World
Prehistory 1(1): 53-126. New York and London.

24

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O Mundo da Caça, da Pesca e da Coleta

PARAGUAI

R

a
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R.

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28º

ARGENTINA

R. Jacui

URUGUAI
CAMPOS

32º

VEGETAÇÃO LITORÂNEA

OCEANO

FLOR. COM PINHEIROS
CERRADO

ATLÂNTICO

FLOR. ESTACIONAL DECIDUAL
FLOR. ESTACIONAL SEMIDECIDUAL
FLOR. OMBRÓFILA DENSA

0
52º

100

200Km

48º

Mapa 1: Domínios fitogeográficos do Sul do Brasil
Documentos 5, Ano 2006

25

Pedro Ignácio Schmitz

SP

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PARAGUAI

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Entre 6.000 e 10.000 anos a.C.

M

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OCEANO

Ao redor de 6.000 anos a.C.
0
52º

100

200Km

48º

Mapa 2: Sítios mais antigos do Sul do Brasil.
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Arqueologia do Rio Grande do Sul

O Mundo da Caça, da Pesca e da Coleta

SP

MS

PR
PARAGUAI

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OCEANO
ATLÂNTICO

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Tradição Umbu
Tradição Humaitá
Sambaquis

0
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100

200Km

48º

Mapa 3: Áreas arqueológicas do Sul do Brasil datadas entre 4.000 anos a.C. e
500 anos d.C.: tradições Umbu, Humaitá e sambaquis.
Documentos 5, Ano 2006

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Pedro Ignácio Schmitz

Figura 1: Formas comuns de pontas de projétil, furadores, pequenos raspadores
pedunculados e pequenas folhas bifaciais da tradição Umbu, segundo vários
autores.
28

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O Mundo da Caça, da Pesca e da Coleta

Figura 2: Formas comuns de artefatos líticos da tradição Humaitá, segundo
vários autores.
Documentos 5, Ano 2006

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Figura 3: Sambaqui da Carniça, um dos grandes sambaquis da região de Laguna, SC.

Pedro Ignácio Schmitz

30

Arqueologia do Rio Grande do Sul

MIGRANTES DA AMAZÔNIA:
A Tradição Tupiguarani
Pedro Ignácio Schmitz

*

1. As aldeias na mata
A arqueologia dos Guaranis é mais fácil de escrever que a de qualquer
outro grupo pré-histórico do Rio Grande do Sul, porque conhecemos a sua
economia, os seus costumes, a sua história colonial e o território que
ocupavam. Se alguém pode levantar dúvidas sobre a conexão dos outros
indígenas históricos com relação aos seus predecessores, como os Guaianás
(Kaingang) com a tradição Taquara, os Minuanos com a tradição Vieira, esta
dúvida não cabe absolutamente quando ligamos os Guaranis históricos com a
tradição cerâmica chamada Tupiguarani. Há uma ligação inegável entre os
Guaranis históricos e os reconstituídos através da arqueologia. Os pontos onde
a conexão se torna incontrovertível são as reduções do primeiro período
missionário espanhol (1626-1636), três das quais foram estudadas: Jesus
Maria no município de Candelária, São Miguel no município de São Pedro do
Sul e Candelária do Caazapámini no Município de São Luiz Gonzaga.
Quando os colonizadores deram nomes locais diferentes, como
guaranis, tapes, carijós, arachãs, etc. aos grupos que falavam guarani apenas
identificavam locais diferentes onde os índios viviam, como nós quando
falamos do homem da Campanha, da Serra ou do Litoral.
No grupo guarani não é fácil, nem interessante separar os dados
históricos dos arqueológicos, devido à sua íntima conexão, mas será preciso
manejá-los simultaneamente, buscando uma antropologia e uma história dos
agricultores do mato em todas as etapas da sua evolução. De certa forma
todas são hoje arqueológicas. Isto é tanto mais necessário quanto a maio parte
dos trabalhos arqueológicos estava endereçada menos aos aspectos da
reconstituição da cultura que à história dessas populações. A reconstituição da
cultura deverá ser necessariamente o trabalho de uma segunda etapa, na qual
dados sobre o abastecimento, a estrutura da casa e da aldeia, a territorialidade,
os rituais de sepultamento, a tecnologia e muitos outros terão de ser
rigorosamente observados e elaborados.

*

Instituto Anchietano de Pesquisas, UNISINOS, Bolsista do CNPq.
Arqueologia do Rio Grande do Sul, Documentos 5, 31-64. São Leopoldo : IAP, 2006.

Pedro Ignácio Schmitz

Ao redor de 200.000 pessoas falariam guarani no Rio Grande do Sul ao
tempo da colonização européia. Estavam distribuídas por todas as áreas de
mata subtropical, que se estende ao longo do rio Uruguai e seus afluentes, ao
longo do rio Jacuí e seus tributários, ao longo da costa marítima e suas lagoas.
Pelo norte faziam fronteira com grupos genericamente denominados
Guaianás, ocupantes das matas com pinheiros, acima dos 300m de altitude, e
pelo sul tinham como vizinhos Charruas e minuanos, ocupantes dos campos.
A maior parte das informações sobre seu modo de vida provem do
missionário Antonio Ruiz de Montoya, S.J. e não se referem especificamente
ao Rio Grande do Sul, mas ao grupo em geral (Montoya, 1876, 1892).
Sua economia e sua cultura se encaixavam perfeitamente no que os
antropólogos estão acostumados a denominar "horticultores de floresta
tropical", como existe ainda hoje na Amazônia.
Baseavam sua economia em pequenas roças ou hortas, abertas nas
matas através de "queimadas". Não tinham animais domésticos, o que os
obrigava a conseguir as proteínas através da caça, da pesca e da coleta.
Viviam concentrados em aldeias de casas coletivas, construídas com
troncos e palha, numa clareira da mata. Eram consideradas aldeias pequenas
as que tivessem de 200 a 300 habitantes, mas não sabemos qual seria o
critério para considerar uma aldeia "grande"; certamente não mais que mil.
Estes povoados com 3, 4 ou 6 casas, distariam 2, 3 ou 4 léguas uns dos
outros, estando os maiores ao longo dos cursos de água e os menores nas
encostas mais afastadas ou nas "serras". As aldeias estavam ligadas por
caminhos largos que iam do interior ao litoral.
A população tinha os seus líderes locais, convencionalmente
chamados "caciques". A maior parte dirigia um pequeno grupo de famílias,
geralmente aparentadas, que se concentravam dentro de uma casa, mas
alguns exerciam influências mais amplas e conseguiam adesão de líderes
espalhados sobre um território muito amplo. Os caciques eram representantes
de uma "nobreza" tradicional, com tendência a manter a posição na mesma
família e se casavam com mulheres pertencentes à mesma nobreza. Não
precisariam trabalhar porque os seguidores os sustentavam. Tinham grande
número de mulheres e muitos filhos, além de criadas. O cacique se dirigia aos
seus liderados nos momentos em que exigia decisões coletivas, numa retórica
desenvolvida e com voz bem forte. Esta era uma característica de todas as
lideranças do grupo, não só dos caciques. A política local, na falta de uma
estrutura estatal, deveria ser instável, exigindo intensa atividade e controle por
parte dos numerosos líderes. A situação ficou ainda mais crítica ao tempo da
Colonização, quando brancos com interesses divergentes pleiteavam favores e
os índios se dividiam, uns a favor, outros contra, o novo modo de vida trazido
pelo espanhol e pelo português.
Os caciques podiam ser ao mesmo tempo líderes políticos, filosóficos,
religiosos e curadores, mas geralmente estas últimas funções eram
32

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

desempenhadas por indivíduos diferentes, os pajés. Estes, no papel de guias
religiosos e intelectuais de seu povo, eram inimigos do missionário, que, nas
reduções, viria a ocupar o seu lugar. Eram temidos enquanto vivos e, alguns,
venerados depois da morte. Eram os senhores das danças religiosas, nas
quais eram auxiliados por seus discípulos, chamados "dançadores"
(hierokyharas). A dança era o lugar onde tomavam corpo as mais importantes
funções rituais, onde os homens se diziam e faziam divinos, onde se cantavam
as palavras inspiradas, se proferiam ameaças cataclísmicas, especialmente
quando chegaram as invasões coloniais que pretendiam destruir a identidade
guarani.
Provavelmente os pajés orientavam os indivíduos nas suas doenças e
males, buscando soluções no canto das aves, chupando os locais doloridos ou
extraindo deles objetos simbolizadores do mal. Provavelmente também
estavam ligados à perpetuação e reinterpretação dos mitos, nos quais se
veiculavam as verdades fundamentais do seu modo de ser e de viver. Entre
estes se coloca a narração de uma grande enchente, que lembrava aos
missionários a história do dilúvio bíblico. Falava-se numa terra sem males, para
onde em determinadas circunstâncias poderiam ser transportados sem morrer
e onde seriam felizes indefinidamente. Também lembravam civilizadores
antigos, que os missionários interpretavam como sendo São Tomé. Na religião
se falava num grande Deus ao qual, entretanto, não prestavam um culto
semelhante aos cultos cristãos.
Sobre as verdadeiras crenças praticamente nada sabemos por que
dificilmente as transmitiriam aos colonizadores e elas absolutamente não
interessavam ao missionário vindo expressamente para as substituir,
implantando uma nova religião. Por isso suas bebedeiras rituais, para
celebração dos antepassados, escandalizaram os missionários, que as
aboliram, introduzindo em substituição a infusão de folhas de erva mate,
aspirada antes para levar os pajés ao transe.
Entre as crendices ligadas à provocação da morte, que para eles, não
era um fenômeno natural, mas sobrenatural, estava o coaxar dos sapos e a
magia dos "enterradores", indivíduos que escondiam objetos no chão das
casas com a intenção de prejudicar os seus moradores.
A família era poligínica e o número de mulheres era o indicador do
status de um homem. Os casamentos dificilmente duravam por toda a vida e as
mulheres podiam ser trocadas de acordo com novos interesses ou
circunstâncias mudadas. Os casamentos preferenciais eram com as sobrinhas,
filhas das irmãs. O sistema de parentesco regulava as relações entre as
famílias e os indivíduos, sendo a posição do homem dominante sobre a mulher,
que era subalterna e de pouco destaque.
Dentro da família reinava grande solidariedade e responsabilidade.
Assim pode ser interpretado o costume de o homem, depois do nascimento do
filho, manter resguardo por duas semanas para o bem da criança e como sinal
Documentos 5, Ano 2006

33

Pedro Ignácio Schmitz

externo de aceitação da paternidade. A mulher, pela morte do marido, se
infligia grandes penas, chegando a ficar aleijada por se jogar da altura ou furar
a carne do próprio corpo com hastes pontiagudas.
A economia se baseava nos cultivos de milho, aipim, abóbora, batata
doce, amendoim, feijão, cará, fumo, algodão e outras plantas tropicais, sob os
cuidados das mulheres; e na caça e pesca, sob a responsabilidade dos
homens. A coleta podia brindar frutos, fungos, raízes, folhas e uma quantidade
apreciável de moluscos fluviais. A mata oferecia materiais para construção,
cestaria, tecelagem, plumária, armas, móveis e canoas. Barro era muito
importante para a confecção de numerosos vasilhames, e pedras eram
necessárias para preparação de instrumentos e armas.
Uma forma de dar vazão ao número crescente de indivíduos e à
exaustão do solo era a busca de novos rios cobertos de matas, uma "terra sem
males", onde a vida poderia ser reproduzida sem grandes preocupações.
Todas as terras colonizadas mantinham entre si uma ligação estreita
através dos casamentos, do parentesco, de troca de produtos, de festas,
viagens e de uma espécie de cantores e discursadores, que percorriam
livremente todas as comunidades, mesmo em tempos de conflito. Aos viajantes
que retornavam ao lar e aos hóspedes que os visitassem recebiam-nos com
prantos rituais. "Entretanto o hóspede em casa, tomava assento e junto dele o
que o recebia. Apresentavam-se logo as mulheres e, rodeando o hóspede, sem
terem dito qualquer palavra, levantavam um grande alarido e contavam nesse
choro, os parentes do que veio, as mortes ocorridas, as façanhas e feitos de
bravura..., bem como a sorte boa ou má que lhes ocorreu. Os homens cobriam
o rosto com a mão, ostentavam tristeza ou choravam em coro com as
mulheres. Com palavras ditas em voz baixa iam aplaudindo as endeixas ou
canções lastimosas, que as mulheres em pranto recitavam. Quanto mais
importante era a pessoa, maior o choro..."(Montoya, 1982).
Apesar de perdidos no meio da mata, estes aldeões não estavam livres
do conflito e da guerra. Esta era constante com os vizinhos do norte, com os
quais contendiam pelo mesmo espaço, e provavelmente freqüente com os
vizinhos do sul, também interessados na borda do mato. Porém mais
freqüentemente era interna, um cacique ou grupo contra outro, por razões as
mais variadas, devido à falta de uma estrutura política superior, capaz de
mediar as pretensões e exacerbações individuais. Os ataques eram feitos de
preferência ao clarear do dia, quando os adversários estavam desatentos ou
dormiam.
"Ao amanhecer se ouviu em todo o povoado grande ruído e estrondo,
preparação de guerra, tambores, flautas e outros instrumentos, sendo que na
praça do povo se juntaram 300 guerreiros com as armas compostas de
escudos, espadas, arcos e flechas em quantidade, bem como vistosos, pelo
fato de todas estarem bastante pintadas de cores e adornadas de plumaria
vária. Em suas cabeças portavam eles coroas de plumas muito aparatosas.
34

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

Mas, mais que todos, esmerava-se o cacique, o qual envergara um rico
vestido, todo feito de plumas de colorido variegado, entretecidas com artifício
muito lindo. Tinha ele na cabeça uma coroa de plumas e achava-se armado
com uma espada e rodela e escudo. Iam em ambos os seus lados dois
mocetões, cada um com um arco e um grande feixe de flechas para o próprio
cacique. Este, capitaneando a todo esta gente, encaminhou-se para o
embarque. Em seguida saíram todos do porto com muita galhardia, sonido de
tambores e flautas."(Montoya, 1982).
Os prisioneiros ou quaisquer outros adversários não eram incorporados
como escravos, mas devorados em rituais muito elaborados.
Os mortos do próprio grupo costumavam ser enterrados num cemitério
próximo à aldeia. A tradição mais comum era colocar o cadáver, ou os ossos
descarnados, num grande vasilhame de barro, coberto por um outro menor.
Segundo os guaranis, a alma acompanhava o corpo, mas separada, podendo
ficar no espaço deixado entre o cadáver e a tampa.
A língua guarani era falada no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina,
no Paraná, no Mato Grosso do Sul, no Paraguay e na Argentina por uma
população que, ao tempo da conquista, devia alcançar entre 600.000 e 800.000
indivíduos, talvez até mais. Era muito semelhante ao Tupi falado do Paraná
para o norte por um povo de cultura também semelhante. Mas ao mesmo
grupo lingüístico pertenciam ainda outras línguas espalhadas pela Amazônia. O
grupo lingüístico Tupi-Guarani era, ao tempo da Conquista, uma das
populações mais numerosas e importantes do leste do Brasil.
2. Da Amazônia ao Prata
Usando índices de variação temporal das línguas dentro de um tronco
lingüístico (método conhecido como glotocronologia) e baseado no pressuposto
de que o lugar de origem do tronco é aquele em que coexiste o maior número
de famílias lingüísticas aparentadas, Migliazza (1982) estabeleceu o local de
origem do tronco Tupi (ao qual pertencem os Guaranis) entre os rios Jiparaná e
Aripuanã, tributários da margem direita do rio Madeira. Estima-se que este
tronco possa ter tido sua origem ao redor de 5.000 anos atrás. (Ver mapa 1)
O ambiente, na borda meridional da Amazônia, onde se estipula o seu
começo, seria de florestas entrecortadas de cerrado, que ofereciam bons
recursos para a caça e a coleta. Nem cultivos, nem cerâmica pertenceriam
então ao seu patrimônio cultural.
Durante os 2.000 anos seguintes, durante os quais a população
cresceu e se expandiu até o Alto Madeira, no oeste, até o Guaporé, no Sul, até
o Alto Xingu, no leste, a proto-língua Tupi se teria diversificado, dando origem a
todas as famílias do tronco Tupi hoje conhecidas. Nesse tempo devem ter
chegado até eles os primeiros cultivos e provavelmente os conhecimentos da
fabricação de cerâmica. Os grupos que diversificaram a sua língua nos
Documentos 5, Ano 2006

35

Pedro Ignácio Schmitz

primeiros 2.000 anos estão localizados mais perto do ponto de origem, como
se pode ver no mapa, no mesmo ambiente de matas e cerrados em que
encontramos a proto-língua inicial, mas talvez em locais mais adequados para
os seus primeiros cultivos. Ao redor do tempo de Cristo começariam migrações
maiores, principalmente dos ascendentes da família conhecida como TupiGuarani, buscando outras matas, onde o seu sistema de colonização pudesse
expandir. Nesse tempo deve ter-se fixado o primeiro grupo Tupi-Guarani nas
florestas subtropicais, que estão ao longo do Alto Paraná e do Alto Uruguai, em
áreas que podem corresponder ao sul do Brasil, ao Paraguay e ao nordeste da
1
Argentina.
Esta mata deveria ser similar à que deixavam na borda da Amazônia,
mas maior e mais rica, e se não estava desocupada, porque nela se
encontravam instalados os coletores e caçadores da tradição Humaitá, era-o
tão frouxamente e por populações tecnologicamente tão inferiores, que não
seria difícil aos novos chegados irem tomando conta.
O Tupi-Guarani já era nesse tempo um pequeno agricultor eficiente na
exploração da floresta e um grande ceramista. A sua saída da borda da
Amazônia poderia ser devida ao mero crescimento demográfico na área de
origem, onde passariam a faltar terras cultiváveis, levando à criação de novas
colônias em matas mais afastadas. Mas poderia ser impulsionada por uma
seca, prolongada durante décadas, talvez até séculos, que tornaria as
condições ali existentes difíceis para uma população em crescimento baseado
na agricultura de coivara. Esta seca é bastante conhecida e está datada por
14
C .
Passados alguns séculos de sua instalação nas matas do Sul, nos
damos conta de duas populações: uma do Paranapanema para o norte e ao
longo da costa leste brasileira, que fala Tupi; a outra, no Paraguay, nos três
estados meridionais do Brasil e em partes do nordeste argentino, falando
Guarani.
A diferença entre as duas populações não é só lingüística, mas
tecnológica e ecológica. Os Tupis, em terras mais quentes, vão cultivar
predominantemente a mandioca amarga e adaptar seus artefatos cerâmicos
para a produção de beiju e farinha. Os Guaranis, em terras geralmente mais
frias, vão cultivar o milho, o aipim, o feijão, a batata doce, as abóboras, para
cujo preparo necessitam outras formas de artefatos cerâmicos, que vão
distingui-los de seus irmãos de mais ao norte.

1
O modelo alternativo mais importante encontra-se em Lathrap (1970), seguido por Brochado
(1984), no qual o centro de dispersão estaria no médio curso do Amazonas, subindo os futuros
Guaranis o rio Madeira, e descendo os futuros Tupinambás o Amazonas e deslocando-se pelo
Nordeste até atingir o litoral do Sudeste.

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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

Os arqueólogos, baseados nas diferenças existentes nos recipientes
cerâmicos em termos de decorarão, forma e fabricação, denominaram o ramo
Tupi de subtradição Pintada, e o ramo Guarani de subtradição Corrugada. No
primeiro, a quase totalidade dos recipientes são pintados, ao passo que no
segundo a impressão da polpa do dedo (corrugado), da borda da unha, ou de
objetos pontudos constituem a decoração mais comum das vasilhas. As
próprias formas dos vasilhames se diversificam, mantendo, porém, certas
características estruturais e decorativas, que reclamam a unidade original. A
tradição cultural que reúne os dois ramos de agricultores é denominada pelos
arqueólogos de tradição tecnológica Tupiguarani para separá-la das tradições
tecnológicas de outros agricultores da mesma área, como a Aratu na Bahia e
em Goiás, a Sapucaí em Minas Gerais, a Taquara no planalto do Rio Grande
do Sul, que apresentam outras características econômicas, tecnológicas e
culturais.
3. A ocupação das matas do Rio Grande do Sul
As primeiras aldeias da tradição Tupiguarani no Rio Grande do Sul
estão ao longo da grande inflexão do rio Uruguai, no noroeste do estado.
Estima-se que as mais antigas remontam ao tempo do Nascimento de Jesus
Cristo ou um pouco depois. São poucas, espalhadas e afastadas do rio,
abrigando uma população ainda muito reduzida.
Os seus recipientes cerâmicos são fundos e conformados como os da
subtradição Corrugada, mas são pintados como os da subtradição Pintada. As
decorações corrugadas ainda estão praticamente ausentes, começando a
desenvolver-se apenas alguns séculos mais tarde. Ao redor de 700 a 800 d.C.
realmente a subtradição Corrugada está plenamente desenvolvida no Alto
Uruguai e no Médio Jacuí e mostra um grande vigor colonizatório.
Além do povoamento no noroeste do estado já temos neste período
antigo uma aldeia no vale alto do Jacuí, mostrando que desde cedo esses
horticultores saíram em busca de outras matas para cultivar.
Na medida em que a subtradição se consolida, há uma grande
expansão colonizadora, em decorrência de considerável aumento demográfico.
Entre os séculos IX e X começamos a perceber núcleos em todos os vales
cobertos de matas e ao longo das lagoas do litoral.
As novas colônias, estabelecidas geralmente nas várzeas do curso
médio, sobem os rios até o ponto em que o vale desaparece no meio dos
penhascos da "serra". As terras ocupadas com mais intensidade são as aluviais
ao longo das corredeiras, mas depois se encontram pequenas aldeias até nas
encostas íngremes até 300 ou 400m de altitude.
Ao tempo da colonização européia, no século XVI e XVII, todas as
áreas de mata subtropical ao longo da costa, na borda do planalto, na serra do
Sudeste e ao longo dos rios, estava ocupada pelos agricultores guaranis. Já
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Pedro Ignácio Schmitz

não havia possibilidade de novas expansões e a população deveria se
defrontar com um sério impasse, provavelmente não consciente, mas
registrado pelos missionários espanhóis, que escreveram não existir nas matas
um só lugar de terra suficientemente conservado para organizar uma missão. A
crise não se tornou mais aguda porque todo o sistema foi modificado através
da incorporação do índio nas economias e nas culturas de Espanha ou de
Portugal.
4. As aldeias
O Guarani era um agricultor da mata subtropical, como depois seria o
imigrante alemão.
Esta mata se havia desenvolvido desde uns 5.000 a 6.000 anos antes,
quando a região, após um período frio e seco, estivera sujeita a temperaturas
mais elevadas e a maior quantidade de chuvas do que hoje e do que ao tempo
do estabelecimento dos Guaranis.
A mata se desenvolveu somente em determinadas condições e cobria
uma parte reduzida do território. (Ver mapa 2) De modo geral era a encosta
baixa, quente e úmida do planalto, seguindo o curso médio dos rios nele
encaixados, especialmente o Jacuí e o Uruguai. Também cobria uma parte da
serra do Sudeste. As áreas aplanadas baixas, incluindo o curso inferior desses
rios, não eram favoráveis a seu desenvolvimento, por estarem cobertas de
campos, como não o era o planalto e a sua alta encosta, a terra dos pinheirais,
da mata mista e de campos elevados.
A mata se mantinha num clima úmido, temperado, sem estação seca e
com verão quente, com temperaturas medias anuais de 18° a 22° C, com
grande amplitude térmica durante o ano, havendo no inverno 3 a 10 dias de
geada e no verão temperaturas extremas que podiam alcançar 40° C. As
precipitações, mais abundantes no inverno, atingem de 1.250 a 2.000mm
anuais.
As aldeias eram levantadas em clareiras abertas nesta mata. Ao redor
se faziam as roças para os necessários cultivos. No começo deveriam estar em
meio a uma mata virgem, mas aos poucos as capoeiras se tornariam cada vez
maiores e mais incômodas.
O aldeamento era concentrado, reunindo a população de toda uma
área.
Mas estas aldeias não permaneciam no mesmo lugar por muito tempo,
tanto pelo material com que eram construídas, como pelo tipo de economia. As
camadas arqueológicas encontradas nos locais das antigas moradias
raramente chegam a 30 ou 40 cm de espessura.
No primeiro tempo da colonização as aldeias estavam, de preferência,
longe dos rios, no limite da mata com o campo, ou em locais onde a mata e o
campo estavam entremeados. A população no tempo deveria ser pequena, e
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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

as aldeias muito distantes umas das outras. As terras provavelmente não eram
as melhores, mas adequadas e o lugar abundava em caça, era de difícil
locomoção e estava afastado dos caçadores e coletores da margem do rio.
Mas logo, na primeira grande expansão, correspondente ao clímax da
cultura, as aldeias se transferiram para as várzeas, onde as terras são mais
férteis e mais profundas, havia bastante caça, pesca e moluscos comestíveis,
podendo a locomoção ser feita por água. A população já era suficiente para
competir com os índios caçadores e coletores, que podiam ser enxotados,
destruídos ou incorporados. As aldeias, com isso, se tornariam maiores e mais
duradouras.
Depois de preenchidos os espaços das terras aluviais ao longo de
todos os rios e das lagoas, começa o povoamento de áreas cada vez menos
adequadas, nas encostas ou lombas, longe dos rios, com solos pobres
provenientes da decomposição do arenito Botucatu e do granito. Aí não há
peixe, nem moluscos, e a comunicação é mais difícil. As aldeias só podem ser
pequenas, pobres e pouco duradouras.
Uma povoação era composta de varias choupanas, aproximadamente
iguais no material, no tamanho e na organização, dispostas com certa
regularidade ao redor de um espaço aberto, distando algumas dezenas de
metros umas das outras. Assim cada uma das moradias concedia acesso
direto à "praça" central, às roças e ao mato. A disposição igualitária ao redor da
praça exprime a igualdade das casas e a falta de hierarquia econômica, social
e política.
Na aldeia escavada pelo Museu do Colégio Mauá, perto da cidade de
Candelária (Schmitz e outros, 1990) há pelo menos três casas: na casa menor
existe só uma área de cozinha; nas duas grandes existem duas áreas de
cozinha; cada uma das áreas de cozinha deveria reunir diversas famílias
aparentadas. Estima-se que a casa pequena teria entre 10 e 12 moradores; as
duas maiores, poderiam ter, cada uma, de 20 a 24.
Nos momentos de pleno desenvolvimento, quando as aldeias são
grandes, as casas têm forma elipsoidal e tem espaço para abrigar numerosas
famílias cada uma. Nos momentos de estrangulamento, quando as aldeias
reduzem o seu tamanho, as casas também são menores, assumindo forma
subcircular, e não têm espaço para abrigar mais que uma ou duas famílias.
Não havendo animais domésticos, nem carros, nem grandes colheitas,
só há necessidade mesmo das habitações, dentro das quais se
desenvolveriam as atividades, se preparariam e guardariam os instrumentos e
se depositariam as colheitas eventuais.
Aparentemente não havia nem um lugar único para depositar o lixo,
aparecendo dentro da habitação não só os restos de alimentos, mas também
os recipientes quebrados e os instrumentos em desuso. Em algumas aldeias se
nota que os instrumentos de pedra eram confeccionados a certa distância das

Documentos 5, Ano 2006

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Pedro Ignácio Schmitz

moradias, evitando assim que as lascas resultantes cortassem os pés dos
moradores.
Os mortos eram acomodados em velhas urnas e depositados num
cemitério próximo das casas.
As aldeias das várzeas não tinham problemas com abastecimento de
água para o banho e as necessidades da casa. Geralmente estavam sobre o
dique marginal do rio, onde as enchentes dificilmente alcançariam. As
corredeiras, junto às quais se localizavam, têm abundantes moluscos, são bons
pesqueiros e acumulam seixos de material variado, necessário para a
confecção de instrumentos. Nas barrancas se pode retirar argila adequada à
fabricação do vasilhame. Vantagens semelhantes podiam ser conseguidas na
beira das grandes lagoas.
As aldeias das encostas, mesmo as que se fixavam na beira de um
córrego, teriam dificuldade de conseguir certos bens e facilmente se podiam
tornar dependentes dos moradores do vale.
Esgotados os recursos num lugar, a aldeia era reconstituída numa área
próxima, de qualidades semelhantes. Aparentemente as mesmas populações
se estabeleciam dentro do espaço de alguns quilômetros, com o que as roças
abandonadas poderiam ser ainda visitadas. Quando observamos o
deslocamento, através dos séculos, de uma mesma aldeia, como ilustrei no
mapa 3, nos damos conta de que o grupo necessitava manter o controle sobre
uma área bem grande, dentro da qual pudesse circular e conseguir todos os
recursos para a perpetuação do seu modo de vida.
O número de sítios arqueológicos, ou de antigos lugares de aldeias, é
tanto maior quanto maior a mata, melhor o solo e mais antigo o povoamento;
áreas de matas pequenas, solos pobres e de povoamento mais recente têm
número reduzido de jazidas.
5. Instrumentos e utensílios
Muito variado deveria ser o material em uso numa aldeia em pleno
funcionamento, como se pode ver pela descrição dos missionários.
Extremamente pobre é o que o arqueólogo recuperou até hoje; primeiro porque
a maior parte das armas, instrumentos, utensílios, enfeites e demais objetos
eram confeccionados com materiais perecíveis; segundo porque até agora só
uma aldeia foi (parcialmente) escavada e os seus materiais publicados
(Schmitz e outros, 1990). Os restos de que dispomos provém, em sua maior
parte, de achados superficiais ou sondagens pequenas, suficientes para
conseguir dados cronológicos, mas inadequados tanto para o estudo da
estrutura do povoamento, como da cultura material e da tecnologia geral.
Os elementos recuperados mais importantes se referem à cerâmica,
necessária para buscar, guardar e servir água, para preparar e distribuir
bebidas fermentadas de milho e mandioca, para armazenar produtos e
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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

cozinhar alimentos. Os recipientes maiores, depois de velhos e inúteis,
serviriam ainda para enterrar os mortos, que eram cobertos por panelas e
acompanhados de tigelas com alimentos e bebidas.
A cerâmica era feita pelas mulheres, que usariam barro naturalmente
adequado ou acrescentariam areia, grânulos diversos ou cacos velhos bem
triturados ao barro excessivamente plástico.
Havia necessidade para os afazeres da casa de recipientes com
tamanhos e formas diferentes (ver capa do volume): a fermentação e
conservação de bebidas para as festas coletivas exigiam grandes talhas de
pescoço estreitado, que podiam atingir 1 metro de bojo e altura; para cozinhar
eram mais úteis panelas de boca expandida que podiam alcançar até 30 cm de
bojo; e para servir alimentos e bebidas havia necessidade de um grande
numero de pequenas tigelas.
Estas peças eram decoradas com padrões característicos dos
Guaranis: as utilitárias, de todo dia, tinham a superfície externa coberta com
impressões regulares da polpa do dedo, da borda da unha, da ponta de um
estilete, ou eram lisas; um outro conjunto, melhor trabalhado, era pintado, às
vezes com um vermelho uniforme, mas geralmente com desenhos geométricos
variados em vermelho ou preto sobre uma base branca. (Figuras 1, 2, 3 e 4;
também Schmitz e outros, 1990). Especialmente a pintura dava um aspecto
agradável ao vasilhame e mostrava que o grupo tinha vencido a mera
subsistência e investia algum tempo em arte.
As panelas não eram muito duradouras porque queimadas em fogo
aberto, na falta de um forno controlado.
O barro também era usado para fazer contas simples de colares e
cachimbos para inalação de fumo, cultivado desde muito tempo.
Artefatos de pedra são extremamente raros. Nos arredores das antigas
aldeias podem ser encontradas cunhas polidas ou lascadas, que usariam como
laminas de machado e enxós para a derrubada do mato e o trabalho da
madeira. Em algumas áreas do Estado se encontram numerosas lascas de
calcedônia ou ágata, que sem nenhum retoque são extremamente cortantes e
apresentam evidentes sinais de utilização para cortar ou furar materiais moles
como carne ou couro. Nas aldeias antigas são bastante freqüentes tembetás
de quartzo polido, em forma de T, que os homens usariam numa perfuração do
lábio inferior como símbolo de sua virilidade. Geralmente vêm acompanhados
de pequenos fragmentos de arenito com desgaste em forma de canaletas,
ligadas à produção dos tembetás. Os homens também usavam sobre o peito,
presas ao pescoço por um cordel, pequenas plaquetas de pedra polida de
forma oblonga ou semicircular. (Figura 5)
Como adornos, poderiam servir ainda dentes de animais, macacos,
onças, capivaras, ou colares feitos com rodelas de casca de caramujos.

Documentos 5, Ano 2006

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Pedro Ignácio Schmitz

6. A economia
A produção, como se falou, tinha dois pés: o cultivo para os
carboidratos e a caça e a pesca para as proteínas.
O cultivo era feito com uma tecnologia primitiva com as seguintes
etapas: o corte do mato, a queimada, o cultivo nesta roça sem remover os
troncos e sem afofar o chão, a colheita, enquanto o inço não cobria os cultivos,
o abandono do terreno inçado para cortar novo trecho de mato. O ciclo
fechava-se em apenas 3 anos.
Uma parte das colheitas era perecível e teria de ser consumida
imediatamente após a colheita, mas o milho, os feijões, a mandioca
transformada em farinha ou beiju prestar-se-iam ao armazenamento para
enfrentar más colheitas ou o crescimento e especialização da população. Na
realidade a produção era tão pequena que não dava para cobrir o ano, nem
muito menos para distribuí-la equitativamente por todas as estações. Assim, diz
J. Rodrigues (1940) que os guaranis históricos do litoral de Santa Catarina "tem
o ano repartido em quatro partes, isto é, três meses comem milho, outros três
favas e abóboras, outros três alguma mandioca e outros três comem farinha de
uma certa palmerinha, que é assaz de fome e miséria."
As colheitas de que se fala não eram totalmente garantidas, pois
estavam ameaçadas pela irregularidade climática da região e, se um ano a
produção poderia ser excelente, no ano seguinte uma seca, chuva excessiva,
ou geada extemporânea, poderiam reduzi-la tragicamente.
Parece que o Guarani racionalizava o uso da terra de modo a
conseguir colheitas de produtos diferentes em diferentes estações do ano,
como se pode deduzir da observação acima, de que comiam milho numa
(primavera-começo de verão?), favas e abóboras noutra (verão-começo do
outono?), mandioca numa terceira (outono-começo do inverno?), ficando uma
estação (inverno-começo da primavera?) pouco abastecida, em que recorriam
à colheita de produtos do mato, como certa palmeira (provavelmente palmito).
Nos escritos de Montoya o pinhão é colocado como importante, quer
em sua forma natural, quer transformado em farinha e pão.
O abastecimento de proteínas, indispensáveis para o desenvolvimento
de um povo, foi, entretanto, o desafio maior. Na falta de animais domésticos,
esta população teve de se voltar para a caça de animais dispersos pelo mato
ou para os escassos peixes dos rios, das lagoas e do mar. Dentro das casas
da aldeia de Candelária foram encontrados abundantes restos ósseos, entre os
quais predominava absolutamente o veado, mas aparece o bugio, o gambá, o
porco-do-mato, a anta e a cutia, o tapiti, a capivara, o mico, a paca, a preá, a
jaguatirica, o mão-pelada, o ratão-do-banhado, o ouriço e o zorrilho, mas
poucos peixes e répteis.
Os alemães colonizaram o mato através de um povoamento disperso
espalhando as casas por todo o mato: isto era possível porque toda família

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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

tinha condições de produzir por si mesma a maior parte dos recursos
necessários à sobrevivência. Os Guaranis, pelo contrario, colonizaram o mato,
concentrando-se em pequenas aldeias porque, além da produção familiar,
havia grande necessidade de atividades coletivas. Nessas aldeias não havia
estratificação ou especializações, mas apenas uma complementação natural
dos resultados do trabalho feminino e masculino.
Na produção de alimentos os homens cortavam o mato e se
encarregavam das proteínas, ao passo que as mulheres faziam o plantio e a
colheita e se encarregavam das lidas domesticas. O resultado da atividade
feminina era mais seguro que o da masculina, porque baseada no cultivo,
havendo geralmente suficientes carboidratos; ao passo que a atividade
econômica masculina, porque baseada na caça e na pesca de animais
dispersos, produzia resultados muito mais aleatórios. A atividade masculina
adquiria uma certa eficiência apenas quando coletiva, reunindo os esforços de
vários homens e por isso a vida em aldeias tinha grandes vantagens sobre a
vida em casas dispersas.
Essas aldeias eram construídas coletivamente por toda a população
em mudança.
A produção de artigos para as casas e as aldeias, não era, entretanto,
coletiva, correspondendo a cada família produzir os objetos de seu uso. Os
homens produziam armas, instrumentos, canoas e plumaria, ao passo que as
mulheres confeccionavam todo o vasilhame e toda a tecelagem.
A convivência na aldeia e um complexo sistema de parentesco, ligando
as famílias estabelecidas em pontos muito distantes, eram o principio
fundamental de uma extensa rede de colaboração e trocas, visando a um
aproveitamento seguro dos recursos naturais e humanos da área inteira.
Artigos excedentes podiam ser produzidos ou simplesmente usados para
conseguir mercadorias desejáveis, não disponíveis no próprio local. Por
exemplo, os índios de Tramandaí levavam para os seus parentes de Laguna,
peles, algodão em rama ou manufaturado, arcos e flechas, em troca de
conchas marinhas. (Rodrigues, 1940)
Apesar de não ter uma estrutura política unificadora, a colonização
guarani apresenta concentrações marcadas por maior solidariedade e maior
unidade. É interessante notar que os moradores do mesmo vale compartem
certas características culturais, que os separam dos moradores do outro vale;
num nível mais alto, toda a colonização da bacia do Jacuí comparte certas
características que a diferencia da colonização da bacia do Uruguai, ou do
litoral atlântico. Em tempos históricos, os moradores da costa do Rio Grande do
Sul eram amigos dos moradores da costa de Santa Cantarina, os quais
consideravam parentes e com eles mantinham razoável intercambio. Assim,
apesar da falta de mecanismos políticos formais, a população guarani do sul do
Brasil mantinha laços de solidariedade, que a unia aos membros da mesma

Documentos 5, Ano 2006

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Pedro Ignácio Schmitz

cultura e a opunha aos caçadores dos campos do sul e aos coletorescaçadores do planalto, contra os quais mantinha lutas permanentes.
Esta população, ao tempo do Descobrimento, tinha-se expandido sobre
todas as áreas adequadas a sua tecnologia sem mudar sua estrutura e seu
modo de vida e sem criar qualquer centro que pudesse desembocar numa
civilização. Mas não possuía tecnologia suficiente para colonizar outras áreas
próximas, como a floresta higrófila da Serra do Mar, as matas de araucária, ou
os campos da Campanha ou do Planalto, razão por que se viu obrigada a
estacionar dentro dos seus limites ecológicos.
7. Empecilhos para o desenvolvimento
Por que os Guaranis não chegaram a um nível de vida mais alto?
Tentarei apontar alguns fatores.
A distancia dos centros mais desenvolvidos nos Andes e na costa do
Pacifico certamente é decisiva. Embora alguns povos tenham criado
civilizações a partir de recursos próprios, a fecundação por elementos mais
desenvolvidos quase sempre foi necessária. Embora no patrimônio original dos
Guaranis haja notórios elementos andinos (as plantas, a cerâmica etc.), depois
de instalados nos matos do sul do Brasil não parecem ter recebido novas
contribuições dignas de menção, ficando entregues à sua própria criatividade.
Esta criatividade foi limitada por deficiências ou ausências importantes.
Talvez a deficiência mais importante fosse a de produtores de abundantes
proteínas, como rebanhos domésticos ou selvagens ou grandes cardumes de
peixes, como os de que podiam dispor as culturas andinas. Com isso os
Guaranis ficaram restringidos a buscar a proteína na caça esparsa e no peixe
ralo dos rios, das lagoas e do mar, o que lhes exigia um investimento
considerável de terras, de tempo e de gente, sem resultado garantido e sem
possibilidade de aumentar a produção. Se tentassem aumentar a produção,
estendendo os territórios de caça, as terras seriam mais rapidamente
esgotadas e a aldeia teria de mover em menor tempo; um maior investimento
de tempo e gente subtrairia, além disso, forças produtivas de outras atividades,
gerando desequilíbrio, ou aceleraria por mais um lado o esgotamento, se em
ambas as frentes se aumentasse a produção. Temos, pois, aí um dos fatores
limitativos do desenvolvimento, que o Guarani teve de respeitar.
Enquanto as aldeias se mantinham ao longo dos rios, das lagoas e do
mar, com vistas à exploração da escassa pesca e construindo os núcleos
afastados, de modo a não esgotar a caça das matas, a população pôde
sobreviver com as proteínas disponíveis. Mas quando a população cresceu e
foi obrigada a se afastar dos cursos de água, a subir encostas, a devassar o
mato inteiro sem deixar refúgios para a caça, certamente a falta de proteína se
tornou crônica. A solução não era fácil: os Tupis paulistas organizavam
grandes pescarias no mar e nos rios para produção de peixe seco. Embora J.
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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

Rodrigues (1940) conte que os carijós de Laguna atacavam todos os meses os
Guaianás do planalto próximo para fazerem presas que pudessem comer, não
era esta a solução.
Proteínas também podem ser conseguidas de plantas, especialmente
feijões, do que se valeram as altas culturas americanas para suprir,
parcialmente, as suas deficiências. Os Guaranis usavam variados feijões, mas
não parecem ter colocado neles a solução do problema, enquanto podiam
resolvê-la de outra forma.
Mesmo conseguindo vencer com meios locais a falta de proteínas, um
segundo obstáculo ao desenvolvimento desafiava o colonizador do mato na
sua tecnologia agrícola. O Guarani é um exclusivo cultivador de mato
subtropical. Este mato cresce em pequenas várzeas e na encosta do Planalto;
os terrenos das várzeas são férteis, mas de pouca extensão, ao passo que os
terrenos das encostas têm fertilidade reduzida e se esgotam rapidamente. As
grandes áreas aluviais do Estado (coma as várzeas do Baixo Jacuí, do Ibicuí,
do Uruguai e outras), por não serem recobertas por matos, não se prestavam
ao cultivo com a tecnologia guarani.
Mesmo sendo restritas em extensões e capacidade de exploração,
estas terras poderiam produzir colheitas maiores e mais duradouras se
regularmente tratadas com amanho, rotação de culturas, correção de acidez e
adubação, como outros povos neolíticos do Novo e do Velho Mundo
aprenderam a tratar as suas terras. Mas revolver as terras de mato sem
animais de tração é praticamente impossível, fazer rotação de culturas sem
amanho da terra também não é fácil. Corrigir a acidez do solo e adubar com
quê? A acidez do solo pode ser corrigida quando existe calcário, como em
muitas regiões européias, onde bastava abrir uma cova no campo e espalhar
na superfície o calcário do subsolo. Os adubos tradicionais são excrementos de
animais domésticos ou de aves, ou peixes; as enchentes também podem
fertilizar o solo. Os Guaranis não dispunham de nenhum calcário e de nenhuma
forma de adubo; nem mesmo as enchentes são um meio efetivo nas pequenas
várzeas dos vales médios dos rios, porque, se um ano depositam limo, no ano
seguinte podem arrancar o solo ou afogar a plantação.
Como conseqüência, um campo preparado com dispêndio de mão-deobra, tinha um rendimento pequeno e curto, que apenas ou mal cobria o
investimento, mas não capitalizava. Em pouco tempo o investimento tinha de
ser abandonado e o mesmo solo talvez só fosse cultivado novamente na outra
geração, exigindo um investimento igual ao anterior. Com uma intensa rotação
de terra e uma exaustiva exploração da caça e da pesca, produzindo, ambas,
um esgotamento que exige longos anos de recuperação, em duas ou três
décadas a aldeia teria de ser abandonada com todas as benfeitorias, para fazer
nova instalação em outra área de cultivo, caça e pesca.
Este seria o movimento decorrente apenas do uso da terra, supondo
uma população estável. Acontece que uma adaptação bem sucedida ao
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Pedro Ignácio Schmitz

ambiente da mata virgem deve ter trazido um incremento demográfico, que não
podia ser absorvido dentro da aldeia para não acelerar a rapidez de
transferência da mesma. Com isso aldeias paralelas tinham de ser criadas para
absorver as novas gerações e a velha aldeia perdia para a nova alguns dos
seus elementos mais dinâmicos.
Por todas essas razões não valia a pena investir excessivamente na
aldeia. Esta era construída com os materiais mais comuns da região, isto é,
troncos e folhas; os móveis eram mínimos porque não poderiam transportá-los
de uma aldeia para outra; talvez nem plantas de ciclo muito longo valesse a
pena cultivar, porque não chegariam a produzir no tempo útil da aldeia.
Como o rendimento do trabalho era pequeno e não permitia nenhum
investimento a médio ou longo prazo, devido às limitações apresentadas,
nenhuma força humana podia ser liberada da produção imediata de alimentos
e nenhuma capitalização em terras ou bens podia ser feita. Com isso nenhuma
especialização ou complexificação era possível e a população se limitava a
repetir dentro do mesmo ambiente a mesma célula original sem poder
aumentá-la, nem mantê-la no mesmo local.
O estrangulamento só poderia ser vencido através de uma
reestruturação interna, com uma complexificação da cultura e especialização
de respostas que levariam a um grau mais alto de desenvolvimento; ou através
de uma nova estratégia demográfica, buscando um equilíbrio com o ambiente
através do controle da natalidade.
Qual destas duas alternativas seria adotada, não nos foi dado observar
porque neste momento se processa uma reestruturação de fora por
conquistadores de tecnologia muito mais desenvolvida e totalmente
desproporcional à do colonizador indígena.
8. O Guarani diante das frentes de expansão européia
O Guarani do Sul do Brasil e regiões vizinhas foi colhido pelas tenazes
opostas de duas etnias altamente expansivas: a portuguesa e a espanhola.
(Ver mapa 2)
Das frentes portuguesas, a da plantation (fazendas de cultivos para
exportação) de São Vicente, Piratininga e Rio de Janeiro chega muito
fortemente, ao passo que o avanço missionário do Rio de Janeiro chega mais
devagar.
Das frentes espanholas, a que chega mais forte é a expansão
missionária de Asunción, que faz 77 fundações, ao passo que a da plantation
que existiu primeiro, enfrenta graves problemas e é mantida sob certo controle.
Estes são movimentos de centros secundários na economia colonial
dos paises ibéricos, que vão atuar sabre áreas periféricas e incorporá-las
também politicamente.

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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

Estas frentes atuam com mais força que o normal porque não são
movimentos pacíficos. Pelo contrário, as duas etnias disputavam e procuravam
incorporar o mesmo território e os mesmos indivíduos.
Além da oposição entre as duas etnias, dentro do avanço da mesma
etnia nota-se a tensão entre os representantes da expansão da plantation e os
representantes da expansão missionária, resultando não poucas vezes, na
aliança dos preadores de índios portugueses e espanhóis contra os
missionários jesuítas de Asunción. Para entender melhor este fenômeno é
preciso registrar que, durante o avanço principal das frentes de expansão na
bacia do Prata, a coroa de Portugal e a coroa de Espanha se encontravam
sobre a mesma cabeça, embora sem unificação ou fusão dos dois paises e que
família politicamente importante de Asunción estava ligada por casamento com
família plantadora importante do Rio de Janeiro.
A maior parte da população guarani localizava-se em território
consignado à Espanha pelo tratado de Tordesilhas e estava sendo aldeada em
reduções missionárias; mas por outro lado uma parte dela estava tão longe do
centro de expansão espanhola de Asunción como do centro de expansão
plantadora portuguesa do litoral brasileiro. Esta era uma fatalidade. Por isso,
uma parte dessa população foi arrebanhada pelos portugueses antes de ser
aldeada, outra parte foi arrebatada das aldeias recém-fundadas; a que estava
mais perto de Asunción sofreu menos porque defendida mais efetivamente. No
mapa se vêem claramente as áreas onde o índio foi preado diretamente (áreas
limpas), onde foi preado depois de aldeado (reduções destruídas ou
abandonadas) e onde finalmente pode desenvolver uma civilização, que durou
quase dois séculos e também foi morta (reduções definitivas). Em resumo,
ruínas por todo o território. Por isso tenho que continuar a contar essa historia.
A plantation de São Vicente, de Piratininga e Rio de Janeiro desde
cedo começou a buscar mão-de-obra escrava dentro de seu raio de alcance,
apercebendo-se rapidamente de que a colonização Guarani era mais densa
que a dos grupos do Planalto ou da Campanha e tornando-a, por isso, alvo de
suas caçadas.
Em 1585 começa a guerra contra os carijós autóctones e livres de
Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. A partir de 1600 começam as
"descidas" (escravização) sistemáticas dos índios desse sertão. Em 1602
Nicolau Barreto, em 1607 Belchior Dias, em 1611 Fernão Paes de Barros
"descem" carijós.
Para isso os moradores de São Vicente iam em caravelões ao longo da
praia, usando como portos de apoio Laguna, os rios Araranguá e Mampituba e
a lagoa dos Patos com o Jacuí. Na costa existiam verdadeiras feitorias, onde
os índios eram negociados. Os empresários principais da escravidão eram
chefes indígenas do litoral ou do interior, que facilitavam extraordinariamente o
trabalho das "bandeiras".

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Pedro Ignácio Schmitz

Quando os navios chegavam à barra, eram mandados emissários ao
sertão pelos chefes, chamados Tubarões, avisando que havia muitas
ferramentas, vestidos e outros objetos para trocar por gente. Quando estes
correios chegavam ao sertão, logo mandavam recado pelas aldeias,
convidando-as a descerem à praia para vender gente. Traziam para vender
moços e moças órfãos, sobrinhas ou parentes que não queriam ficar com eles
(casamento tio-sobrinha) ou não os queriam servir. A outros traziam
enganados, com promessas de diversas coisas. Outros iam por própria
vontade, levando suas peles, suas redes e tipóias para trocar por objetos que
desejavam ou necessitavam; mas os seus parentes da praia, sem atender que
vinham de tão longe para negociar com eles, os vendiam aos vicentistas. Os
demais que eram trazidos, tão logo chegavam ao navio, os prendiam nos seus
porões. E podendo vender aos Guaianás, que aprisionavam nas suas guerras,
preferiam comê-los e vender os seus parentes (Rodrigues, 1940).
Esse comercio escravista formava uma rede de intermediários que
alcançava grande parte do Rio Grande do Sul; a tal ponto que o assuncenho
Pe. Roque Gonzalez de Santa Cruz, quando chega ao Tape, em 1627, tem
noticia da mesma. A trama se baseava no antigo comercio indígena e no
estabelecimento de novos mentores, os pajés e alguns mestiços e criava um
fluxo regular de mão-de-obra escrava para as plantações de São Paulo e Rio
de Janeiro.
Esta organização matou o Pe. Cristóvão de Mendoza, quando, no seu
avanço para o planalto do Nordeste, fazia um balanço da rede com vistas a
novas fundações missionárias e a defesa das já existentes.
Paralelamente à frente escravista de São Vicente se havia instalado a
frente missionária com seu ponto de apoio principal no Rio de Janeiro.
Os Jesuítas estabeleceram uma primeira residência em Imbituba, no
sul de Santa Catarina, donde, entre 1605 a 1607, catequizaram os carijós.
Em 1609 fizeram nova tentativa, mal sucedida, de missionarização,
trazendo, na volta, 1.500 Guaranis para as aldeias de índios livres de São
Paulo.
Entre 1617 e 1619 houve mais uma volta aos carijós da costa
meridional de Santa Catarina, catequizando os índios até o Araranguá e o
Mampituba e chegando até Tramandaí, onde falaram a 1.000 frecheiros, que
seriam aldeados no ano seguinte. Mas a oposição dos vicentistas, ameaçados
no abastecimento humano de suas plantações, já neste momento era muito
forte.
Em 1622, voltaram os jesuítas à residência de Imbituba.
Em 1624 fundaram igreja em Laguna, donde seguiram até o Rio
Grande do Sul.
Em 1628 tentaram inutilmente uma residência às margens do Guaíba,
perto de Porto Alegre.

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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

Sucederam-se novas expedições, em 1635 e em 1637, mas as
dificuldades e atritos com as "bandeiras", já entrando pelo interior do
continente, eram tão grandes, que os jesuítas desistiram, levando consigo para
o Rio de Janeiro, os índios cristianizados durante o período missionário.
Em 1635, conseqüência do comércio escravista da costa e das
"bandeiras" do interior, tanto a costa do Rio Grande do Sul, como o interior não
tinham mais Guaranis; haviam sido queimados como combustível das
plantações de São Paulo e Rio de Janeiro, sem deixar sobreviventes
conhecidos. O que aconteceu com os índios levados pelos jesuítas também é
desconhecido.
Além da frente escravista litorânea existia, na área espanhola, a
"encomienda" agrícola que, antes da instalação das missões religiosas, durante
muitas décadas, buscou arregimentar toda a população indígena,
traumatizando-a e levando à sua desorganização.
Só depois chegou a missão que buscou reunir as populações
sobreviventes, transformando-as em cristãos, súditos de Espanha, e habitantes
de povoados bastante densos, parecidos com as cidades européias da época;
estava livre do serviço pessoal dos fazendeiros espanhóis e, em sua nova
condição, teriam relativa liberdade.
A partir de 1609, a maior parte dos Guaranis do oeste do Paraná, do
centro e oeste do Rio Grande do Sul, de Misiones argentinas e paraguaias,
foram incorporados às reduções e assim transformados em cidadãos do seu
tempo. Embora criadas em território pertencente à Espanha, estas
comunidades estavam, como se disse antes, muito próximas do centro de
expansão agrícola de São Paulo e Rio de Janeiro, que as destruiu.
Em 1611 Fernão Paes de Barros, o mesmo que "descia" carijós da
costa de Santa Catarina, levava uma "bandeira" de prea de índios ao Guairá
(PR), onde um ano antes se tinham fundado as primeiras de 13 reduções, mas
teve seus intentos frustrados pelas autoridades espanholas locais.
Em 1612 Sebastião Preto tenta o mesmo, com o mesmo resultado,
negativo.
Em 1619, 1623 e 1624 Manuel Preto ataca as reduções do Guairá,
levando numerosos índios para a sua fazenda da Expectação.
Em 1628 e 1629 uma "bandeira" muito grande (69 paulistas
qualificados como loco-tenentes de Antônio Raposo Tavares, 900 mamelucos e
2.000 índios auxiliares) ataca as reduções, onde haveria uns 30.000 índios e as
destrói. Os sobreviventes, em número de 12.000 índios, são levados pelos
missionários para locais mais seguros no sul e oeste, donde nunca mais
voltaram à sua terra de origem.
Depois do Guairá, as "bandeiras" se dirigiram contra as reduções do
Rio Grande do Sul. A primeira é de 1635, contando provavelmente 200 homens
e muitos índios, que navega até Laguna e aí se embrenha no sertão, mas ela é

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Pedro Ignácio Schmitz

desbaratada em várias frentes, morrendo 29 homens na fronteira com Santa
Catarina e outros nas margens do Guaíba.
Esta e as seguintes "bandeiras" se apóiam sobre a rede de
intermediários que cobre o leste do Rio Grande do Sul e leva os prisioneiros
para os portos da costa.
Em 1636 Antônio Raposo Tavares, com 150 portugueses e 1.500
Tupis, desce por terra e ataca as reduções, levando numerosos escravos,
depois de tê-los reunido numa paliçada sabre o rio Taquari.
Em 1637 André Fernandes, com 30 a 40 paulistas, mais 1.000 Tupis e
índios amigos, faz a mesma coisa.
Em 1638 é a vez de Fernão Dias Paes, com mais de 100 bandeirantes
e o costumado corpo de índios.
Diante dos estragos, das numerosas perdas e do perigo permanente,
os índios reduzidos do Rio Grande do Sul são levados para o outro lado do
Uruguai, onde se podem defender melhor; isto entre 1637 e 1639. Ficam para
trás as ruínas e uma dúzia e meia de pequenas cidades indígenas que cobriam
o centro e oeste do Estado. (Mapa 2)
Finalmente em 1640 se organiza a maior de todas as "bandeiras", sob
a chefia de Jerônimo de Barros, contando com mais de 400 portugueses,
muitos mulatos e negros e mais 2.500 Tupis frecheiros, para dar um golpe de
morte nas reduções do lado direito do Uruguai, em território atualmente
argentino. Mas neste momento os índios estavam mais concentrados, mais
bem armados e mais apoiados (eram considerados "guarnição de fronteira"),
de modo que a "bandeira" saiu derrotada na batalha de Mbororé, sobre o rio
Uruguai. A partir deste momento nenhuma "bandeira" é organizada contra as
reduções, mas durante mais uns 20 anos, novas expedições paulistas vão
caçar índios remanescentes na margem esquerda do Uruguai, território
atualmente riograndense e em outras regiões da bacia do Prata.
Os índios transmigrados para a Argentina voltaram, a partir de 1687, à
sua terra, construindo então os Sete Povos, que cem anos depois entravam em
decadência.
É muito difícil calcular quantos Guaranis foram levados para as
plantações de São Paulo ou mortos nas refregas e no transporte. Geralmente
se crê que seriam mais de 60.000. Alguns falam em até 300.000. Todo o
estado do Paraná, todo o estado de Santa Catarina, o leste e o centro do Rio
Grande do Sul, antes densamente povoados, ficaram sem Guaranis.
9. A nova cultura colonial na frente missionária espanhola
Num pequeno espaço do noroeste do Rio Grande do Sul, do norte da
Argentina e do sudeste do Paraguay ficaram concentrados em 30 reduções,
certamente mais de 100.000 Guaranis sobreviventes. Alguns falam em
300.000. (Ver mapa)
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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

Estes foram levados de cultivadores neolíticos de mata subtropical a
cidadãos de um mundo em expansão.
Na transformação dos Guaranis colhidos entre as duas grandes frentes
de expansão européia, as tensões já anteriormente existentes entre os
diferentes grupos indígenas locais, são encorajadas. Assim observamos que,
se os Guaranis de todo o território se defendem e auxiliam mutuamente, como
membros reconhecidos da mesma etnia, os Tupis se apresentam como seus
inimigos permanentes, ajudando os paulistas que os vem escravizar. Os
Guaianás do Planalto, contra os quais os Guaranis antes faziam incursões
regulares em busca de carne humana (e pinhão) e provavelmente também em
defesa de uma fronteira instável, também costumavam aliar-se aos
bandeirantes, ajudando-os no que pudessem. Os Minuanos e Charruas, com
os quais o conflito era acentuado desde antes da chegada européia, também
se aliaram aos portugueses, procurando prejudicar as reduções e suas
estâncias de gado. Assim a colonização reforçou as antigas alianças e as
antigas oposições entre os grupos, alimentando-as e ativando-as com novos
motivos e com novos aliados.
Mas também a dualidade existente na organização sócio-politica dos
Guaranis foi extraordinariamente intensificada, buscando reforço na dualidade
da colonização. Esta dualidade aparece mais claramente na distinção entre os
dois lideres tribais: o cacique e o pajé. Se os caciques geralmente se colocam
ao longo da frente missionária que procura trazer, com a religião o
desenvolvimento local, os pajés costumam colocar-se na oposição ao
movimento, favorecendo o escravismo, vendendo os seus irmãos, ou tentando
prejudicá-los de outras formas, matando inclusive os missionários.
Como foi transformada a cultura original do Guarani para formar a
civilização missioneira dos 30 povos finais?
Apesar das aparências guaranis que as mesmas conservaram, as
mudanças foram muito profundas. Em primeiro lugar elas não têm mais
autonomia, mas estão incorporadas, como uma pequena área privilegiada,
dentro do império colonial espanhol e não têm a iniciativa do seu
desenvolvimento, mas são dirigidas nos seus pormenores por guias
carismáticos, que, não tendo o poder temporal, orientam, não obstante,
incontestes, toda a nova estrutura.
Talvez seja mais fácil perguntar o que se conservou, do que perguntar
o que foi modificado. Conservou-se a língua. Conservou-se uma parte da
estrutura política, guindando os caciques a administradores do seu povo, mas
dentro de um esquema superior espanhol. Conservou-se uma parte do seu
sistema de produção com propriedades e atividades particulares e
propriedades e atividades coletivas. Conservaram-se elementos de
solidariedade, mantendo-se os Guaranis isolados dos demais grupos étnicos,
inclusive dos espanhóis. Talvez também se conservassem parcelas do seu sis-

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Pedro Ignácio Schmitz

tema de parentesco. Mas isso é apenas uma tintura do que eram como povos
neolíticos indígenas.
As instáveis aldeias do mato, uniformes e colocadas no meio de suas
roças, foram reunidas em duradouras cidades com início de especialização,
nas coxilhas dos campos, muitas vezes longe dos seus locais de cultivo,
criação ou exploração. As casas de alvenaria eram rigorosamente alinhadas
com relação à praça central encabeçada por suntuoso templo barroco de
arquiteto italiano. A administração dessas cidades já não é o conselho de
famílias com o cacique, mas a estrutura das comunas espanholas com seu
cabildo e seu alcaide. As duas lideranças antigas são transformadas e
reforçadas: o cacique tem agora muito mais poder como executor geral e o
missionário assume a função cultural, médica e espiritual do antigo pajé. A
criatividade e liberdade antiga é substituída pela disciplina e a obediência a
seus prepostos civis e religiosos. A religião, que no período indígena parece ter
sido da maior importância, passa a ser a primeira atividade do dia, e é
responsável por grande parte de sua realização; só que o seu conteúdo é
completamente diferente.
No setor de produção, a velha tecnologia foi toda substituída por uma
tecnologia européia, com arados, animais de tração, adubo animal, rotação de
campos e principalmente a criação de gado para suprir as proteínas
necessárias. Uma parte da produção é armazenada para atender às
necessidades dos especialistas, dos desamparados e dos momentos de crise
geral ou particular. Certos artigos são produzidos com objetivo de exportação,
como a erva-mate, da qual as reduções detinham o segredo do cultivo.
Ao lado do artesanato familiar introduziram-se manufaturas para a
produção em série dos artigos mais necessários para a cidade, como a
cerâmica e a tecelagem.
Certamente a participação no erguimento das novas estruturas e o
florescimento posterior de seus povos terá engajado uma grande parte da
população, dando-lhe satisfações compensadoras das radicais mudanças a
que foram sujeitos. Não só das mudanças, mas também das peripécias por que
passaram: as grandes fomes, enquanto as novas plantações ainda não eram
suficientes para sustentar uma população concentrada; as freqüentes pestes
européias que os contaminaram, matando-os aos milhares; as perdas com os
preadores de escravos; as numerosas transmigrações; os trabalhos a serviço
da cidade nos ervais, nas estâncias, nas roças afastadas; o serviço militar sob
os espanhóis de Asunción e de Buenos Aires, desde que, em 1636, foram
declarados "guarnição de fronteira"; mas talvez mais que qualquer outra coisa
a disciplina e a concentração de esforços exigidos para o desenvolvimento da
nova civilização.
Alguns tentaram voltar para as matas, onde haviam vivido
anteriormente, mas esta alternativa já não era valida, porque os matos eram

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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

infestados por inimigos que os obrigariam a uma vida muito mais penosa nas
plantações portuguesas.
Não foram os Guaranis que escolheram o caminho da civilização, nem
eles a moldaram. A civilização havia chegado a eles numa forma determinada,
como chegara à maior parte dos povos, e os engajara compulsoriamente, sem
deixar qualquer alternativa. Os que estavam no raio de ação da frente
plantadora portuguesa foram consumidos como combustível da plantation
pobre da costa e do planalto, sem poderem contar com a frente moderadora da
missão. Os que foram atingidos pela frente de expansão missionária espanhola
de Asunción foram mais felizes porque puderam ficar no seu território, sem
grandes compromissos com a frente plantadora e apenas transformados em
cidadãos espanhóis de status e condições especiais.
Assim se criou a civilização dos Trinta Povos Guaranis, uma típica
floração colonial local, de raiz indígena, sem autonomia e de características
predominantemente européias, criada no império mercantil salvacionista
espanhol.
Sua história posterior continua sujeita às oscilações de fronteira entre
as duas potencias ibéricas, que sempre as marcou e sua decadência rápida, a
partir da segunda metade do século XVIII, está ligada à evolução européia e à
troca de hegemonias no Velho Mundo. Já não são eles que fazem a história.
Por isso, quando se pede que uma parte deles abandone sua terra, suas
cidades, seus mortos e se estabeleça numa área estranha, densamente
povoada, a guerra dos seus homens e dos seus chefes está antecipadamente
perdida e nem Sepé Tiaraju é capaz de salvá-los. Quando finalmente são
privados dos guias carismáticos que lhes haviam ensinado, no mesmo sermão,
a religião cristã e a civilização européia, e têm de aceitar administradores que
não conhecem as tradições do seu povo e sua civilização mestiça, a sua
segunda criação cultural se despenca numa rápida decadência da qual nunca
mais se recuperaram. Ruínas imponentes...
Esta é a história do Guarani, primeiro o colonizador mais efetivo do
mato subtropical, depois ou combustível de uma plantation periférica, ou
parcela privilegiada dentro de um grande império colonial: os poucos
sobreviventes são mestiços incorporados na classe baixa de pequena república
subdesenvolvida, ou indígenas dispersos em busca de um projeto que
novamente os possa entusiasmar.
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Pedro Ignácio Schmitz

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OCEANO
ATLÂNTICO

2200
1500

2000
2600

3200
2900 5000 2900
4000

1000
3200

1100

OCEANO

1800

Diversificação do Tronco Tupi
(Migliazza)

PACÍFICO
Migrações em anos A.P.
das diversas famílias
Principais Áreas
Arqueológicas da Trad.
Tupiguarani

Mapa 1: Diversificação das línguas do tronco Tupi, de acordo com Migliazza,
1982.

56

Arqueologia do Rio Grande do Sul

30°

25°

ai

R. Pa
ra g u

CHARRUA

Asunción

R. Pa
raná

Posadas

R. Jacuí

R. Uruguai

R. I
gua

50°

Araranguá

GUAIANÁ
Imbituba
Laguna

apa n
em a

Curitiba

aran

P.Alegre Tramandaí

çú

R. P

s

Documentos 5, Ano 2006
Linha de
Tordesilha

55°

Rio
de Janeiro

0

Reduções abandonadas
Reduções finais

Floresta Litorânea
Floresta Subtropical

150Km

GUARANI NEOLÍTICO E COLONIAL

S. Vicente

S. Paulo

45°

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

Mapa 2: Distribuição da Floresta Subtropical e das formações litorâneas, área
de colonização do Guarani. Distribuição das Reduções Jesuíticas.

57

Pedro Ignácio Schmitz

2Km
53°10'

0
Limite entre as várzeas
grandes e pequenas

Jac
u

i zi n

ho

R. JACUÍ

R.

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Ar



tim
a

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m


55°20'

da

j. d

a

Gr
ing

j. D

ou

rad

os

a

Movimento das aldeias

29°30'

Mapa 3: Distribuição dos sítios Tupiguarani ao longo de um trecho do Alto Jacuí
(no centro). Separação entre as grandes aldeias das várzeas amplas e as
pequenas das mais estreitas (esquerda). Como imaginamos o movimento das
aldeias através do tempo (direita).
58

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

Figura 1: Motivos de decoração da cerâmica pintada, em vermelho sobre branco,
ou vermelho e preto sobre branco
Documentos 5, Ano 2006

59

Pedro Ignácio Schmitz

Figura 2: Motivos de decoração da cerâmica pintada, em vermelho sobre branco,
ou vermelho e preto sobre branco
60

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

Figura 3: Acabamento da superfície. Corrugados
Documentos 5, Ano 2006

61

Pedro Ignácio Schmitz

B

A

D

C

Figura 4: Acabamento da superfície. A. Corrugado-ungulado; B. Ungulado;
C. Ponteado ou impressão de cestaria, roletado, riscado. D. Corrugado simples.
62

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani

4

1

5

3

2

10

9

8
7
6

16

15

14

13
11

12

22

21

19
17

18

20

29

28
23
24

25

30

27

26
0
5cm
20-24, 30-31

31

32

0

5cm

33

37

34

38

35

36

Figura 5: Instrumentos em pedra: 1-14 talhadores; 15, 16 raspadores; 17, 18
bolas de boleadeira; 19 alisador; 20 intermediário de percussão; 21 alisadorem-canaleta; 22 enxó; 23, 24 tembetás; 25-29, 37-38 lâminas de machado;
30, 31 percutores; 32, 33, 36 núcleos bipolares; 34, 35 furadores.
Documentos 5, Ano 2006

63

OS PRIMITIVOS ENGENHEIROS DO
PLANALTO E SUAS ESTRUTURAS
SUBTERRÂNEAS:
A Tradição Taquara
*

Pedro Ignácio Schmitz
*
Ítala Irene Basile Becker

1.

O que é a tradição Taquara?
A Pré-História do Planalto Rio-grandense, nos últimos dois milênios,
será muito esquelética se nos contentarmos com arrolar os dados técnicos sem
recurso à fantasia para iluminá-los, mas será irreal se nossa fantasia não for
guiada por ampla experiência e cuidadosa metodologia. É que a intensidade e
a extensão dos trabalhos realizados no planalto e áreas contíguas são tão
pequenas e qualitativamente tão pobres, em comparação com a massa de
sítios ali existentes, que a mera enumerarão dos resultados não satisfaria a
realidade, que nos interessa. O meio-termo, que nos propusemos, resultou em
tópicos mais técnicos, como a apresentação das fases, e outros mais
interpretativos como as aldeias, o sistema econômico e a historia do grupo. ­
Quem não está interessado em muitos detalhes arqueológicos pode omitir o
item 4, passando diretamente do Item 3 para o 5.
O termo tradição Taquara identifica aqueles sítios arqueológicos que
têm cerâmica de uma certa característica: ela é pequena, composta de potes e
tigelas, com decoração impressa variada, onde são facilmente distinguíveis
negativos de cestaria, depressões regulares produzidas por pontas de vários
formatos, ou das unhas, incisões lineares etc. A identificação da tradição é feita
principalmente pela cerâmica, totalmente diferente da Tupiguarani e bastante
diferente da Vieira.
Mas esta tradição se caracteriza também, com relação às outras duas
tradições ceramistas indígenas do Estado, por seus trabalhos de engenharia de
terra. Nela se encontram casas subterrâneas, galerias nas encostas dos
morros, taipas fechando espaços à semelhança de fortificações, terraços de
terra e pedra, além de montículos mortuários e/ou cerimoniais.
A primeira impressão que dela se possuía era de um grupo coletorcaçador e pequeno plantador que, devido às condições mais precárias de
*

Instituto Anchietano de Pesquisas, UNISINOS, Bolsistas do CNPq.
Arqueologia do Rio Grande do Sul, Documentos 5, 65-100. São Leopoldo : IAP, 2006.

Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

ambiente e solo, ocuparia, em termos econômicos, uma posição muito inferior
ao Tupiguarani. Fazendo agora um novo balanço, com mais informações e
melhor ponderação das mesmas, esta diferença parece diminuir, percebendose uma economia equilibrada, capaz de manter um grupo relativamente
numeroso desde o século II de nossa era até o embate da conquista européia.
Hoje há uma idéia absolutamente dominante de que a população sobreviveu
mesmo a este, embora com nomes cambiantes (Guaianá, Coroado, Kaingang)
e em condições cada vez menos satisfatórias devido à progressiva redução de
seu território e, com isso, de seu potencial de abastecimento, estando
representada hoje por grupos kaingang das reservas indígenas do Norte e
Noroeste do Estado.
2.

Foi assim que o estudo começou
Os primeiros sítios descobertos estavam no litoral, onde Schmitz
(1958) descreve a cerâmica da tapera de uma aldeia superficial, dando-lhe o
nome de Osório, em atenção ao município do achado.
Quem primeiro chamou atenção às casas subterrâneas foi Alan L.
Bryan, que, em 1960, falando a Schmitz indicou um sitio em Fazenda Souza
"muito parecido com as casas subterrâneas dos Estados Unidos e do Canadá",
aconselhando sua escavação.
Também o arqueólogo Igor Chmyz teve noticias de uma casa
subterrânea na bacia do rio das Antas e veio do Paraná para estudá-la (Chmyz,
1965).
A pesquisa tornou-se intensa a partir de 1966, quando, por um lado,
Schmitz, do Instituto Anchietano de Pesquisas e logo La Sálvia (1968), da
Universidade de Caxias do Sul, fizeram grandes levantamentos no planalto do
Nordeste, seguidos de uma escavação em Santa Lúcia do Piaí, município de
Caxias do Sul (Schmitz e outros, 1988). Simultaneamente Miller, do Museu
Arqueológico do Rio Grande do Sul, realizou levantamentos, principalmente na
encosta e no litoral, seguidas de escavações no Morro da Formiga, nos
arredores da cidade de Taquara. Com estes estudos se definiu a fase Taquara
(Miller, 1969a:19-21), que deu origem à tradição Taquara (Brochado e outros,
1969:12-15), na medida em que fases parecidas foram sendo identificadas.
Hoje se contam às centenas os sítios visitados, entre os milhares
supostamente existentes, com escavações representativas na fase Taquara
(uma aldeia de casas subterrâneas pelo Instituto Anchietano de Pesquisas em
colaboração com a Universidade de Caxias do Sul; uma aldeia superficial no
Morro da Formiga pelo Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul), na fase
Erveiras (escavações de duas casas subterrâneas por Mentz Ribeiro, das
Faculdades Integradas de Santa Cruz do Sul) e Guabiju (também escavações
em aldeias de casas subterrâneas pelo mesmo pesquisador); ainda existem

66

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara

trabalhos menores, no município de Vacaria, feitos por Kern, da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
3.

Escavações em Água Azul
Na localidade de Água Azul (Santa Lúcia do Piaí, Caxias do Sul),
lugar de peregrinação indicado como ponto do martírio do padre jesuíta
Cristóvão de Mendoza, havia sido localizado um aglomerado de 36 casas
subterrâneas e 40 túmulos, na propriedade de Antonio Vergani. A escavação
foi realizada sob o patrocínio da Secretaria de Turismo do Município. Dos
trabalhos, que se estenderam por 36 dias, nos anos de 1967, 1968 e 1970,
participaram quase todos os arqueólogos do Estado, mais Pe. João Alfredo
Rohr, S.J., do Museu do Homem do Sambaqui, de Florianópolis, e grande
número de pessoas da população local.
Como não havia conhecimento algum das casas subterrâneas, este
foi um trabalho realmente inovador. Foram abertas 4 casas, que pensávamos
dariam informações sabre o grupo: a maior de todas, medindo 11 m de
diâmetro e 6 m de profundidade; uma menor, com 5,20 por 2,89 m; e duas
ainda mais rasas, respectivamente 5,62 por 2,10 m e 4,80 por 1,90 m.
Queríamos saber tudo sobre as construções, seu funcionamento e sua
14
agrupação. Também mandamos fazer datações de C , que não apenas diriam
quando as casas foram ocupadas, mas durante quanto tempo, e se houve
reocupações depois de um ou mais períodos de abandono. Simultaneamente
foram estudados três dos montículos funerários.
O agrupamento, sem nenhum esquema urbanístico aparente,
encontra-se numa elevação suave do terreno, coberto de mata mista com
pinheiros, tendo na proximidade um pequeno banhado, posteriormente
transformado em açude. As casas, que apareciam como depressões mais ou
menos profundas, encontram-se dispersas num diâmetro de uns 500 m, com
túmulos sob a forma de pequenos aterros dispersos no meio delas. Uma
ladeira mais íngreme, onde existem alguns túmulos, foi terraceada com pedras
e terra.
A casa maior, escavada em declive pouco acentuado do terreno, tem
uma porção da parede em rocha ainda sadia, outra em rocha decomposta e a
porção mais alta de uma parede preenchida com o desaterro. O piso é em
basalto resistente; no centro dele um buraco para o esteio principal do telhado;
ao longo da parede, quase ao nível do piso de rocha maciça, imaginou-se ter
isolado uma banqueta baixa, dentro da qual haveria mais buracos de esteios.
Nas trincheiras, feitas ao redor da casa, apareceram aglomerados baixos de
pedras, que foram interpretados como suportes dos caibros do telhado, que
não se levantaria do chão, mas apoiaria sobre ele; uma caneleta ao redor para
desviar as águas da chuva. Foi impossível identificar, na escavação, os restos
do telhado e os dispositivos de acesso ao interior da habitação. (Fig.4)
Documentos 5, Ano 2006

67

Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

Nas espessas camadas de ocupação do interior se encontravam
cerâmica e primitivos instrumentos de pedra, indicando uma longa ocupação
humana; e no fogão de pequenos blocos, junto à parede, além de muito carvão
e pinhões calcinados, foi juntado um pedaço de mão-de-pilão; este fogão
acompanhou o crescimento das camadas arqueológicas sucessivas,
alcançando mais de um metro de altura.
Uma data sobre carvão retirado entre 80 e 100 cm de profundidade,
deu 470 ± 70 anos depois de Cristo. Como até o piso ainda havia certa
espessura de camadas arqueológicas, pode-se imaginar que a primeira
ocupação desta estrutura se tenha dado um ou dois séculos antes dessa data.
No outro extremo do aglomerado de casas foi escavada outra estrutura
habitacional, menor e proporcionalmente menos profunda. O terreno escolhido
para a construção também era um pouco inclinado. A parede em quase toda a
extensão era rocha, tal como o piso. Num lado a parede era mais baixa, mas
não se colocou o aterro para igualar. Neste lado, provavelmente para evitar
desmoronamentos e umidade, pequenas lajotas naturais de basalto cobriam a
parede em sua parte inferior. Quase no centro do pavimento havia novamente
um buraco para o esteio central, escorado por um conjunto de pedras.
Pequenos trilhos de carvão, dispostos radialmente com relação a este buraco,
devem ser das traves queimadas do telhado, constituído provavelmente de
palha e terra. Nas trincheiras feitas ao redor da casa se descobriram 9
acúmulos de pedras de 40 a 70 cm de diâmetro, em distâncias de
aproximadamente 150 cm, nos lugares dos esteios do telhado, que estaria
levantado do chão. Num lugar onde dois esteios só distavam 80 cm um do
outro, três lajes com as extremidades presas na parede e uma parte
sobressaindo, formariam uma escada interna de acesso ao piso.
Nas camadas arqueológicas foi possível distinguir certa
descontinuidade, sendo a mais superficial o entulho posterior ao abandono
definitivo da habitação; por baixo dela havia uma camada indicando uma
ocupação recente e pouco intensa, datada em 1.110 ± 60 anos depois de
Cristo; a camada mais profunda, sobre o piso rochoso, era espessa e deu uma
data de 620 ± 100 anos depois de Cristo: nela havia pequenos fogões ao longo
da parede, contendo carvão, pinhões calcinados e cerâmica. (Ver figura 2)
Na proximidade desta habitação estavam os três montículos
escavados, de que falaremos depois.
Não muito longe da casa grande foram escavados duas casas, mais
rasas e semelhantes entre si. A que deu mais claramente as características
não tinha a parede vertical, como as anteriores, mas a parede e o fundo
constituíam uma cúpula invertida, cortada por uma banqueta, que serviria tanto
para dar acesso à casa, como para sentar. No meio da habitação, lugar natural
do esteio central, havia muitas pequenas pedras, carvão e outros restos,
indicando ser também lugar de fogão, no qual se preparariam alimentos e
donde irradiaria calor para os sentados na banqueta. Nas trincheiras abertas ao
68

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara

redor da depressão apareceram, como nas anteriores, os aglomerados de
pedra, indicando o lugar dos esteios do telhado, que seria erguido do chão.
Não temos datações para estas duas estruturas.
Os três montículos deram resultados diferentes. O primeiro, de 6 x 5 x
1,30 m, era composto de terra e apresentava muitas pequenas galerias
irregulares. Nele havia uma quantidade de carvão, que, datado, deu 810 ± 40
anos depois de Cristo. As galerias podem ser produzidas por tatus, que cavam
o chão em busca dos cadáveres. O segundo, de 4,50 x 2,05 x 1,20 m, tinha
uma camada de terra superficial e no interior pedras organizadas como se
fosse um nicho raso, no qual deveria estar o cadáver; na parte inferior, carvão.
O terceiro, de 4 m de diâmetro e 1,60 de altura, era parcialmente de terra,
parcialmente de pedras não organizadas e continha bastante carvão. Ele
estava no declive, um pouco abaixo do terraço superior. Em nenhum deles
foram encontrados restos de esqueletos. São montículos artificiais,
contemporâneos com as casas, para os quais podemos supor, mas não provar,
serem túmulos dos moradores indígenas do lugar.
As datas conseguidas dentro do aglomerado provam o que a visão
superficial e a escavação faziam supor: a aldeia foi ocupada ou reocupada
durante muito tempo; as diversas estruturas não são todas coetâneas e a
aldeia nunca teria as 36 casas ocupadas simultaneamente, mas talvez 1, 2 ou
3; apenas somando no tempo as diversas taperas chegaríamos à configuração
atual; as diferentes casas podem ter longo período de ocupação ou
reocupação.
Em locais próximos, há outros aglomerados semelhantes,visitados mas
não escavados. (Figura 2)
4.

As variações regionais: fases
Os arqueólogos, para melhor poderem manipular os seus materiais,
usam termos próprios, alguns dos quais é preciso explicitar. Sítio, para eles, é
um lugar onde aparecem restos de ocupação humana; pode ser um
aglomerado de casas subterrâneas com seus acompanhantes, taperas de
choças de palha, acampamentos em abrigos rochosos, sambaquis etc. Fases
denominam conjuntos de materiais com características semelhantes (cerâmica,
artefatos de pedra ou osso, gravações ou pinturas em rochas) e que mantém
as características, isoladas como diagnósticas, dentro de um espaço e tempo
reduzidos; mal comparando, abrangeriam o espaço e o tempo de uma tribo
indígena. Tradições são conjuntos maiores de materiais com características
semelhantes, reunindo em geral diversas fases e que mantém as
características, isoladas como diagnósticas, dentro de um tempo (e espaço)
mais amplos; mal comparando, abrangeriam o espaço e o tempo de uma
nação indígena. O nome da primeira fase determinada para um certo material
costuma dar o nome à tradição. Assim o nome fase Taquara, oficializado para
Documentos 5, Ano 2006

69

Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

a primeira identificação do conjunto aqui descrito, também passou a denominar
o conjunto de fases de material semelhante, isto é, a tradição Taquara. Quando
um mesmo material, por qualquer razão recebeu vários nomes, um deles
prevalece e os demais passam a ser sinonímia.
Dentro da tradição Taquara foram descritas as seguintes fases:
Taquara (sinonímia: cerâmica Osório e fase Caxias), fase Guatambu
(sinonímia: fase Vacaria), fase Caí (talvez sinonímia de fase Taquara), fase
Erveiras, fase Xaxim (existe principalmente em Santa Catarina), fase Guabiju,
fase Taquaruçu e fase Giruá (talvez sinonímia da anterior). É possível que, com
o avanço dos estudos mais alguma destas fases passe a ser considerada
sinonímia por se referir a material que anteriormente já recebeu outro nome.
(Ver figura 1)
4.1.

A fase Guatambu
14

A fase Guatambu é a mais antiga, cobrindo as datas de C do século II
ao XII de nossa era.
Ela foi estudada por La Salvia, Schmitz e Basile Becker (1970:493497), Miller (1971:44-49), Lazzarotto, Schmitz, Basile Becker e Steinmetz
(1971:81-84) e provavelmente Kern (1985:30-33), nos municípios de Vacaria e
Bom Jesus, no Norte do Estado; continua em São Joaquim, no estado de
Santa Catarina.
Dois ambientes apresentam sítios: os campos altos com mata mista e
pinheiros, onde foram visitados 11 conjuntos de casas subterrâneas; e as
várzeas dos rios Antas e Pelotas, com suas matas de galeria, onde 41 taperas
de aldeias com choças de palha foram vistas. Na proximidade desses rios,
abrigos em paredões rochosos foram usados para depositar os mortos.
Em termos econômicos esta dualidade ambiental pode ser importante.
Um tipo de recursos podia ser conseguido nas terras altas, especialmente
pinhão e caça terrestre e aérea. Usando simultânea ou sucessivamente os
vales dos rios tinha-se acesso a muitos outros recursos, como terras boas para
cultivos tropicais, que poderiam ser milho, mandioca, batata doce, amendoim e
fumo, além de moluscos, peixes e grandes mamíferos terrestres; também
seixos para a produção de instrumentos de pedra. É de supor que, além disso,
tenham tido acesso ao litoral fronteiro de Santa Catarina, em cuja planície
costeira existem sítios superficiais parecidos (Rohr, 1969); o zoolito encontrado
junto de uma das casas subterrâneas certamente vem de sua visita a um
sambaqui.
As casas subterrâneas formam aglomerados que podem chegar a um
máximo de 22 estruturas, dispostas irregularmente. Os diâmetros dessas casas
vão de 2,5 a 18 m e a profundidade de 2 a 6 m. A ocupação poderia ser mais
longa em umas e mais curta em outras, sendo os resíduos arqueológicos
dentro delas relativamente pouco espessos: de 5 a 25 cm.

70

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara

Um fato curioso são dois cordões de terra, de uns 150 cm de largura e
50 cm de altura, que correm paralelos uns 30 m um do outro, e circundam a
elevação na qual se encontra um sitio de 6 casas subterrâneas; guardam
paralelismo ainda quando dobram em ângulo de 90° em direção a um riacho.
Fenômeno parecido se repete junto a outro conjunto de casas subterrâneas.
Na proximidade de casas subterrâneas foram encontrados dois
montículos aproximadamente circulares, um de uns 10 m, o outro de uns 5 m
de diâmetro, que poderiam ser funerários.
As antigas aldeias superficiais, que geralmente bordeavam as matas
de galeria dos rios, ocupavam superfícies relativamente pequenas, variando de
10 x 20 a 50 x 125 m, com uma camada arqueológica de 15 a 30 cm. Não mais
se percebiam os fundos das choupanas, mas o material estava disperso.
Foram visitados vários abrigos nos quais se haviam depositado os
mortos. O mais típico é o do Matemático de Bom Jesus. Lazzarotto e outros
(1971:81) assim o descreve:
"Abre-se a gruta entre duas camadas de basalto, de consistência e
coloração diferente, à meia-altura de uma cascata de pequeno córrego, que cai
verticalmente uns 100 m.
"Constitui-se o fundo de pequeno cañon, que aqui nasce e vai morrer
no Rio Monjolo. As escarpas do cañon constituem um acesso bastante difícil à
gruta; chegados, porém, na direção desta, a uns 80 m da mesma, há um
caminho natural quase plano, de uns 2 m de largura, marcando também as
duas camadas de basalto, que leva fácil e diretamente à gruta, não obstante a
rocha cair vertical tanto por cima como por baixo da vereda.
"A fenda da gruta abre-se de lado a lado numa extensão de mais de 80
m. A parte habitável, porém apresenta as seguintes dimensões: largura 40 m;
profundidade 9 m; altura da boca de 1,30 a 2,10 m, abaixando à medida que se
vai para o fundo.
"O chão da gruta estava todo tapetado por pedras médias e pequenas,
evidentemente desprendidas do teto. Foi bastante revolvido por visitantes
anteriores, curiosos em busca de ouro, que, segundo consta, levaram
esqueletos e objetos mais vistosos. Fala-se em doze a quinze crânios, que há
muito tempo foram levados.
"De lado, ao Norte, há duas vertentes perenes de água. O fogo era
2
feito perto da boca da gruta e as cinzas aparecem numa área de 16 m , numa
espessura de 10 cm. Nestas é que pesquisamos: por sorte não estavam
revolvidas, salvo em dois ou três pontos insignificantes.
"Como material arqueológico recolhemos: cerâmica, cascas de pinhão
(assado nas brasas, tendo o fruto sido arrancado posteriormente com auxílio
dos dentes), sabugos de milho (inteiros e quebrados), palha de milho, taquaras
cortadas para cestaria, carvão, fragmentos de ossos e dentes humanos.

Documentos 5, Ano 2006

71

Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

"Abaixo da camada de cinzas não apareceram vestígios de ocupação.
No resto habitável da gruta, mas sempre na superfície, aparecia o mesmo
material, porém em menor quantidade.
"Afirma-se que uma esteira de taquara cobria toda a boca da gruta.
Esta desapareceu já há muito tempo, mas as amostras de taquara, recolhidas,
podem ser um testemunho deste fato."
Miller (1971:45) completa: "Apesar da perturbação e depredação dos
enterramentos, as evidências foram suficientes para constatar-se que eram do
tipo aterro, entrando na sua formação, terra e restos vegetais de xaxim, folhas
de taquara e capim. Pequenos blocos de pedra circundavam os aterros que
eram alongados (... ) e baixos.
"Os enterramentos eram acompanhados por restos de pequenas
fogueiras (nós de pinho), trançados de fibra vegetal e raramente animal,
artefatos de madeira, cera animal e conchas de lamelibrânquios. O milho,
pinhão e cabaças fariam parte das oferendas aos mortos pelos restos de
sabugos, cascas, fragmentos e sementes de porongo."
O material cerâmico recolhido nos sítios da fase é de aproximadamente
12.000 cacos. As vasilhas com formas de pote ou tigela eram produzidas pelas
técnicas anelar, roletada e modelada; podiam chegar a 40 cm de altura, mas
geralmente eram pequenas. A maior parte delas apresenta a superfície externa
polida; uma pequena porcentagem é decorada com impressões em
ziguezague, incisões paralelas e/ou cruzadas, estampado denteado, pinçado,
ungulado e ponteado, formando freqüentemente uma faixa na metade do corpo
da peça; a superfície interna é igualmente polida e às vezes recoberta por um
engobe vermelho fugidio. Alguns recipientes têm cabo, ou alça ou furos,
destinados à suspensão.
Entre os restos perecíveis, só conservados nos abrigos, encontram-se
vegetais sob a forma de cordéis, sacolas, tembetá ou botoque, bola, pente de
taquara, argolas de capim como porta-recipientes; um cordel feito de tendão
animal e uma massa de cera com incisões em forma de broa.
Dos mais de 1.800 artefatos líticos podem ser destacados: lâminas
polidas e semipolidas de machado, mãos-de-pilão, afiadores em canaleta,
talhadores uni e bifaciais, raspadores, lascas retocadas, percutores e suportes
de percussão, seixos-alisadores para cerâmica.
No século XIX, quando da ocupação definitiva pelos colonizadores
europeus, os Campos de Cima da Serra eram dominados pelos Botocudos,
adversários férreos dos kaingang do cacique geral Braga, que ocupava os
campos e pinheirais de São Francisco de Paula, Caxias do Sul e arredores,
território da fase Taquara.
4.2.

A fase Taquara

É a segunda em antiguidade, indo do V ao menos até o XV século de
nossa era.
72

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara

Foi estudada principalmente por Schmitz, coordenador e outros
(1967:2-10), Schmitz (1969:163-167), La Salvia (1968, 1983), La Salvia e
Schmitz (1973), Miller (1967:19-21; 1974:19), Mentz Ribeiro (1975); Schmitz e
outros (1988:5-130).
Está situada no Nordeste do Estado.
Explora três ambientes distintos. Há centenas de sítios com casas
subterrâneas e acampamentos superficiais nas matas com pinheiros e nos
campos do planalto; nas encostas, nos terraços altos e morros dos vales dos
rios, foram localizados com menor freqüência, mas formam aí os maiores
sítios, correspondentes a antigas aldeias superficiais de choças de palha, como
no Morro da Formiga, na periferia de Taquara; às vezes acampavam nos
abrigos rochosos, que também usavam para depositar os seus mortos;
finalmente são muito freqüentes junto às lagoas costeiras, às vezes
diretamente sobre a praia do Oceano, entre Tramandaí e Torres.
Como na fase Guatambu esta multiplicidade de ambientes seria muito
importante em termos econômicos. Os pinhões e a caça dos campos e
pinheirais do planalto frio podiam ser somados com as possibilidades de
cultivo, caça e pesca nas terras férteis e quentes da encosta baixa e do vale
dos rios, a coleta de abundantes moluscos de terra, de água doce e salgada,
junto com a pesca, na planície litorânea com suas grandes lagoas e praias
arenosas.
As casas subterrâneas aparecem dentro de capões de mato, ou em
campo aberto perto de córregos, nascentes ou banhados. O diâmetro dessas
escavações aproximadamente circulares vai de 2 a 20 m por uma profundidade
de 2,8 a 6 m. Embora existam com uma certa freqüência casas isoladas,
geralmente elas vêm agrupadas, podendo os aglomerados chegar até 36
dessas estruturas de diferentes tamanhos, não necessariamente coetâneas.
De mistura com as casas existem aterros, predominantemente de terra
ou com uma estrutura de pedras sob a forma de nichos, que parecem
sepulturas individuais.
Aclives mais acentuados, na borda da aldeia, podiam ser terraceados,
usando para tal fim pedras e/ou terra.
Há informações sobre galerias escavadas em aclives fortes, porém
muitas vezes se confundiram canais cavados pela água (erosão tubular), com
trabalho indígena. Tais galerias, existentes aos milhares em diversas partes do
Estado, podem algumas vezes ter sido usadas como esconderijos ou lugar de
sepultamento, mas a comprovação de que algumas são produto intencional da
ação humana é muito débil.
Na encosta leste do planalto, Miller (1974:19) encontrou abrigos-sobrocha ocupados como cemitérios. As evidências são de poucos sepultamentos
de indivíduos infantis e adultos, que estão dispersos pela superfície a 25 cm de
profundidade. Os sedimentos apresentam restos de poucas lentes de cinzas e
grânulos de carvão. Os artefatos associados compõem-se de restos de cordas,
Documentos 5, Ano 2006

73

Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

sacolas, alças de cesto, furadores de osso, contas de colar, peças líticas
polidas e fusiformes, polidores em arenito e raros talhadores. Outros abrigos
podem ter sido usados simplesmente como acampamentos de caça.
As aldeias na encosta baixa, ou em morros e terraços altos no vale dos
2
rios, se constituem nos maiores sítios, alcançando até 4.000 m de superfície.
Deveriam ter populações estáveis até relativamente grandes. Embora não se
percebam hoje os fundos de suas choupanas de palha, a disposição dos cacos
dos vasilhames insinua a sua localização.
As aldeias à beira das lagoas ou do oceano são ainda pouco
estudadas e aparecem mais porque o acúmulo de restos de alimentos,
compostos predominantemente de ossos de peixes e conchas, os destacam no
meio das areias. Freqüentemente mostram contatos com as populações
horticulturas Tupiguarani.
Em todos estes sítios aparecem restos de pequenos potes e tigelas
utilitárias, de formas e acabamento muito característicos e com altura máxima
de 40 cm. Em oposição com o que se vê nas outras fases, nesta, vasilhames
decorados são muito freqüentes. A decoração, cobrindo geralmente do lábio
até a base, disposta de forma cuidadosa ao redor do corpo, abrange ponteados
simples, arrastados, múltiplos, ungulados verticais e horizontais, pinçados,
impressões de corda, malha e cestaria, aplicados mamiliformes, incisos e
outros, às vezes combinados no mesmo recipiente.
Os artefatos em pedra incluem exemplares polidos muito bem
acabados como grandes mãos-de-pilão e lâminas de machado; entre o material
lascado podemos encontrar talhadores uni e bifaciais, raspadores, lascas
retocadas ou usadas diretamente; materiais usados sem ulterior preparação
podem ser percutores e moedores. O retalhamento bipolar de cristais de
quartzo e geodos de calcedônia é bastante comum.
Quando os europeus, no começo do século passado, conquistaram
esta área, vivia ali uma grande tribo de índios kaingang, com seu chefe Braga,
cujos ascendentes teriam sido enterrados no planalto durante ao menos 5
gerações. Existe uma boa probabilidade de serem estes os descendentes da
população da fase Taquara.
A fase Caí (Mentz Ribeiro, 1972) refere-se a rápidos acampamentos
em abrigos dos vales do rio Caí e Sinos, um deles com sepultamentos, que
pela quantidade muito pequena de material possivelmente seja apenas
sinonímia da fase Taquara ocupante de toda esta região.
O material lítico, entretanto, se destaca bastante, provavelmente pela
disponibilidade local de matéria prima. Entre o material lascado há talhadores,
lâminas lascadas de machado, raspadores, lascas retocadas, lascas usadas e,
naturalmente, os resíduos inúteis do lascamento; polidas ou semipolidas temos
lâminas de machado, mãos-de-pilão e bolas de boleadeira; material usado sem
modificações intencionais está representado por percutores, trituradores,
moedores e suportes de percussão.
74

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara

A grande semelhança deste material com o da fase pré-cerâmica local,
denominada Pinhal, faz os autores pleitearem a fase Erveiras como uma
evolução daquela.
4.4.

A fase Guabiju

É a mais recente de todas as fases da tradição Taquara. Muito
parecida com a fase Guatambu e sua vizinha, é, entretanto muito mais recente.
Foi estudada por Mentz Ribeiro e Torrano Ribeiro (1985), no município
de Esmeralda.
Deles extraímos a sinopse, que introduz o texto monográfico.
"Todos os sítios encontram-se na bacia do rio Pelotas, um dos
formadores do Uruguai. Climatologicamente, a região pertence ao clima
temperado ou das faias; temperatura média anual em torno dos 16° C, tem
geadas e nevadas no inverno; as chuvas anuais estão entre 1600 a 1700 mm.
A vegetação e o relevo apresentam dois aspectos: 1 - floresta com pinheiro e
terreno dobrado acentuado junto e próximo ao rio Pelotas; 2 - campos com
capões, também com pinheiro, relevo ondulado suave, mais afastado do rio. A
fauna e flora são variadas e eram abundantes.
"Conseguimos 27 sítios de campo aberto (dos quais 24 são da tradição
Taquara), 39 conjuntos totalizando 135 casas subterrâneas, 3 estruturas, 3
galerias subterrâneas, 3 cavernas e 2 abrigos sob rocha. (...) As casas
subterrâneas variavam, em cada sitio de uma até 23, predominando as
primeiras. As dimensões das casas se encontram entre os 2,5 m de diâmetro
até 19,6 x 22,1 m e a altura desde 0,4 até 2,0 m; a grande maioria estão entre
6 e 10 m de diâmetro. Não formam figuras ou obedecem a um plano. As
estruturas são formadas por círculos de terra de 2 a 3 m de largura e 0,3 a 0,5
m de altura com diâmetros que variam entre 21 e 70 m. Em dois locais os
círculos são isolados; em outros encontramos dois círculos e uma figura
trapezoidal unidos; o círculo menor e a figura trapezoidal possuem um
montículo no centro, com 6,0 m de diâmetro e 0,5 m de altura.
"Realizamos coletas superficiais sistemáticas nos sítios de campo
aberto e cortes experimentais em um destes sítios, duas estruturas e em 9
casas subterrâneas. Registramos o seguinte material: 2.470 fragmentos de
cerâmica da Tradição Taquara (simples e decorada: ponteada, incisa, cestaria
impressa, pinçada, ungulada, malha impressa, impressão de corda, carimbada,
digitada e mista). A cerâmica simples foi a mais popular na quase totalidade
dos sítios. A técnica do modelado, antiplástico arenoso, forma semi-esférica,
contorno simples, espessura das paredes entre 5 e 8 mm e abertura entre 8 e
16 cm marcam as características desta cerâmica. O lítico é composto de 1.302
peças, predominando a pedra lascada com 1.063, destacando-se os talhadores
e raspadores semicirculares. Na pedra polida, as mãos-de-pilão, enxada e
fragmento de virote são os instrumentos mais sugestivos. A matéria-prima por
excelência é o basalto.
Documentos 5, Ano 2006

75

Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker
14

"Obtivemos 6 datações pelo método do C para 4 casas subterrâneas.
Os resultados oscilaram entre 355 ± 50 e 650 ± 55 anos A.P." (ou 1.595 ± 50 e
1.300 ± 55 anos depois de Cristo).
Através do material coletado os autores concluem que esta população
praticava a horticultura, caçava e coletava.
Nenhum fragmento de cerâmica Tupiguarani foi encontrado em toda a
pesquisa.
4.5.

A fase Xaxim

Uma fase do Sudoeste e Centro de Santa Catarina, pouco
representada no Rio Grande do Sul, tendo sido noticiados 3 sítios na
proximidade do rio Uruguai, no município de Erechim.
Tem uma data de 975 ± 95 e outra de 1.520 ± 90 anos depois de
Cristo, datas que são aceitáveis.
Em Santa Catarina foi estudada por Piazza (1969a:60-61; 1969b:65-66;
1971:75), no Rio Grande do Sul por Miller (1971:49). Por sua localização e
características parece idêntica à fase Itapiranga, estudada em Santa Catarina
por Basile Becker e Schmitz (1969:499-506) e depois por De Masi e Artusi
(1985:99-121) e Artusi e De Masi (1985:21-29).
Os sítios costumam encontrar-se no topo ou na encosta de morros,
próximos a córregos ou nascentes, dentro de um ambiente de floresta
subtropical. São pequenos, podendo medir 10 x 20 ou 20 x 30 m de diâmetro e
têm pequena espessura de camadas arqueológicas, indicando ocupação não
muito duradoura.
A cerâmica se compõe de pequenos potes e tigelas, com um diâmetro
máximo de 30 cm no bojo. A maior parte dos vasilhames são apenas alisados;
a decoração, que aparece num pequeno número de recipientes, é o inciso, o
ungulado, o ponteado, o pinçado e o inciso ungulado.
Os artefatos em pedra estavam pouco representados nas publicações,
consistindo de lascas, fragmentos de pontas de quartzo, raspadores, batedores
e uma lâmina de machado semilunar. No trabalho de DE MASI e ARTUSI
(1985) há finalmente, um cuidadoso estudo da utilização do quartzo cristalizado
e da sua técnica de retalhamento bipolar.
Também nesta fase há contato marcado com o Tupiguarani.
4.6.

A fase Taquaruçu
14

É uma das manifestações mais recentes, tendo uma data de C de
1.120 ± 60 anos depois de Cristo e outra de 1.790 ± 70 anos depois de Cristo,
esta última considerada nova demais pelo autor, mas de qualquer forma muito
sugestiva e provavelmente verdadeira.
Foi estudada por Miller (1969a:37-38), no Oeste do Estado.

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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara

Trata-se de apenas 4 sítios superficiais em terrenos outrora cobertos
por floresta subtropical: 3 deles estão às margens de arroios em coxilhas no
interior e 1 está sobre coxilha na proximidade do rio Uruguai.
2
As dimensões dos sítios são regulares, atingindo até 5.000 m . As
camadas arqueológicas não passam de 30 cm de espessura, não se
percebendo os locais dos fundos das choupanas, mas simplesmente um
terreno mais escurecido no local dos assentamentos.
Os vasilhames, geralmente pequenos, com a forma de potes e tigelas,
podem atingir até 39 cm de altura, sendo a maior parte somente alisados; uma
pequena quantidade tem a superfície externa decorada com ponteado,
ponteado-arrastado, ungulado e aplicado. Ocorrem alguns apêndices, que
poderiam ser fragmentos de asas ou pezinhos, bem como diminutos pássaros.
Os artefatos produzidos em pedra são afiadores em canaleta,
furadores, trituradores, raspadores e seixos alisadores de cerâmica.
Sugestivamente na proximidade está o toldo kaingang de Guarita.
4.7.

A fase Giruá

Da fase Taquaruçu foram separados por Miller (1969a:38) 2 sítios, com
pouco material, que deram origem à fase Giruá. Estão situados na margem do
Uruguai, em coxilhas e ladeiras suaves.
Existe uma data para ela, de 1.550 ± 100 anos depois de Cristo, que
parece correta, apesar da dúvida do pesquisador. Combina com a da fase
anterior.
Os poucos cacos encontrados têm a superfície externa lisa, ponteada
ou pinçada.
Os artefatos produzidos em pedra teriam grandes semelhanças com a
fase pré-cerâmica local, chamada Caaguaçu, da tradição Humaitá.
5.

Dois tipos de aldeias
No grande grupo da tradição Taquara são conhecidas várias formas de
assentamento, usadas de acordo com as circunstâncias. Vamos examinar
algumas das mais importantes.
As aldeias com casas subterrâneas são encontradas regularmente nos
terrenos altos e frios com uma vegetação também adaptada a baixa
temperatura hibernal, que são os campos e as matas mistas com pinheiros. Aí
as geadas intensas são comuns nas madrugadas de inverno e a neve não
chega a surpreender.
Embora existam casas isoladas, geralmente elas estão agrupadas em
pequeno número, podendo excepcionalmente chegar a várias dezenas. Isto
não quer dizer que tenham sido todas ocupadas simultaneamente, porque
umas seriam abandonadas e outras novas construídas no mesmo espaço.
Como geralmente existem aglomerados semelhantes em capões de mato
Documentos 5, Ano 2006

77

Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

muito próximos poderia acontecer que em vários houvesse simultaneamente
habitações, formando um povoamento semi-disperso.
Uma mesma casa pode ter sido reformada e reocupada em tempos
bastante diferentes através dos séculos.
Como se faz uma casa subterrânea? Primeiro se escava um buraco
circular dentro do chão sólido ou na rocha em decomposição, com o diâmetro e
a profundidade necessários.
Precisa ter o cuidado de fazê-la num ponto alto para evitar que infiltre
água e a transforme em poço.
As paredes nas casas profundas são aproximadamente verticais.
Quando não escavadas em rocha sólida ou em decomposição podem ser
revestidas de pequenas lajotas naturais. Nas casas menos profundas a parede
pode ser em degrau, formando um lanço, depois uma banqueta e outro lanço.
O telhado deveria ter sido de troncos, palha e terra. Quando a casa é
grande e funda provavelmente era apoiado sobre um esteio central e as traves
em raio descansavam no chão a alguma distancia do lado de fora da boca;
com isto se evitava que a água das chuvas alagasse as casas ou mantivesse
as paredes úmidas; uma valeta, cercando o telhado, ao menos nos pontos
mais altos do terreno, aumentaria a segurança. Quando a casa era menor ou
menos profunda, o telhado apoiaria sobre um poste central e outros colocados
do lado de fora a alguma distancia da borda, que receberiam as traves
colocadas radialmente.
Em geral ela está dentro do mato aberto de pinheiros porque aí não é
fortemente atingida pelo vento, as chuvas e talvez o sol. A proximidade de
uma nascente, banhado ou pequeno córrego é importante para abastecimento
fácil e regular de água.
As casas certamente eram moradias, existindo dentro delas fogões
compostos de pequenas pedras como os de um acampamento de piquenique.
Dentro deles, misturado com o carvão e pinhões calcinados, encontram-se
cacos de panelas de barro e às vezes restos de instrumentos. Se dentro destas
casas se cozinha ou se mantém fogo aceso para calefação, que estratégias
existem para eliminar a fumaça? Algumas casas mais fundas, onde o telhado
sairia rente ao chão, parecem ter tido respiros laterais, escavados na parede,
que trariam para dentro da casa o ar puro e frio do ambiente, expulsando o ar
quente e a fumaça. Nas casas menos profundas, com o telhado levantado do
chão, o problema deveria ser menor e a renovação do ar poderia ser
proporcionada por aberturas na parede entre o telhado e o chão.
O acesso ao interior da casa, naquelas mais fundas, deveria ser por
uma escada de madeira, uma vez que não se encontrou vestígio de quaisquer
outros dispositivos; nas mais rasas poderia ser através de banqueta, de rampa,
ou pedras embutidas na parede, formando degraus.
Algumas vezes se mencionam ligações através de túneis subterrâneos,
de uma casa para outra vizinha, mas a certeza é pequena.
78

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara

Certamente a casa subterrânea é uma adaptação ao frio do planalto e
por isso ela é encontrada nas terras altas desde o Rio Grande do Sul até Minas
Gerais. Na América ela se estende por áreas muito variadas, abrangendo
especialmente altas latitudes ou altitudes. Com um sólido telhado e o fogo
aceso no seu interior ela manteria o calor nas noites frias do outono e do
inverno.
Naturalmente uma grande parte da vida ocorreria no exterior da
mesma, como mostram os artefatos disperses ao seu derredor.
A escavação de casas tão grandes e profundas exigiria considerável
trabalho, especialmente se consideramos as ferramentas primitivas (talhadores
de seixo, ou pequenas pás de madeira) de que poderiam dispor, devendo a
terra escavada ser removida em cestos feitos de taquara rachada. Como
estruturas permanentes, ocupadas talvez durante décadas, tal esforço
compensava.
Os túmulos espalhados entre as casas ou na sua periferia representam
uma movimentação bem menor e mais fácil de terra, uma vez que não era
necessário levantá-la. Geralmente era conseguida na proximidade, onde se
percebe ainda a depressão causada pela remoção.
Os terraços de pedra e terra nas encostas fortes, na periferia da aldeia
e o levantamento de taipas circulares ou retangulares com seus montículos de
terra, como aparecem na fase Guatambú e Guabiju, como verdadeiras
fortalezas primitivas, são outras obras de engenharia deste povo.
As aldeias de casas subterrâneas sempre se nos apresentaram como
os centros residenciais desta população e ainda não temos razões para
descartar esta idéia. Para se manterem neste ambiente deveria haver fortes
razões econômicas ou de segurança; econômicas no sentido de que o
ambiente deveria brindar recursos adequados; de segurança no sentido de que
populações diferentes dificilmente ali os atingiriam.
Mas na medida em que as pesquisas se foram estendendo a novas
áreas em terrenos mais baixos e mais quentes, foram-se multiplicando as
taperas de aldeias compostas por pequenas choças de palha. O diâmetro
destas choças era de poucos metros, a forma provavelmente circular ou
elíptica. O número de habitações é pequeno, mas a grande quantidade de
fragmentos de cerâmica e restos de instrumentos feitos em pedra sugerem que
não se trata de meros acampamentos estacionais, mas de aldeias com certa
permanência, coetâneas das aldeias de casas subterrâneas do planalto. As
habitações eram levantadas com palha ou ramos de árvores, em cima da terra,
porque seria um contra-senso construir casas dentro do chão em áreas
quentes ou de solos pouco resistentes, que deixariam a água filtrar para dentro
das moradias, transformando-as nas chuvas em poços ou piscinas. Estas
aldeias estão na mata da encosta ou na proximidade da mata de galeria ao
longo dos rios ou lagoas, permitindo assim o abastecimento regular de água.

Documentos 5, Ano 2006

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Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

Outros sítios, antes mencionados, mais parecem refúgios temporários,
como os abrigos rochosos e as galerias subterrâneas. Ambos também eram
usados para depositar os mortos. Na medida em que as galerias subterrâneas
são produzidas ou adaptadas pelo homem, são novos testemunhos de
engenharia indígena, mas teriam a seu desfavor especiais dificuldades de
aeração.
Os supostos acampamentos familiares de caça, pesca e coleta dos
períodos anuais de dispersão são muito mais difíceis de localizar, exigindo uma
varredura do terreno muito mais fina do que até agora temos feito.
A grande quantidade de aldeias tanto no planalto, como na encosta e
no litoral ainda não provam uma grande densidade demográfica. Tanto os
materiais usados nas choupanas de palha, como nos telhados das casas
subterrâneas estariam sujeitos a rápida deterioração, inviabilizando a moradia
e convidando a construir uma nova habitação ou até mesmo uma nova aldeia.
Recordando que a ocupação começou ao menos no segundo século e
perdurou provavelmente até o século passado, durante uns 15 a 16 séculos (40
a 50 gerações humanas), podemos imaginar quantas taperas deixariam umas
poucas aldeias que se deslocam de uma em uma, ou de duas em duas
décadas, ou de geração em geração.
Para termos ao menos uma aproximação quanto ao contingente
populacional podemos fazer uma comparação com os índios que no século XIX
ocupavam o território da fase Taquara, levando uma vida tribal autônoma, sob
a coordenação do cacique principal Braga: seriam aproximadamente 1.400
indivíduos, divididos em 23 tribos, vivendo provavelmente em outras tantas
aldeias. Uma população desta ordem ou levemente maior podemos imaginar
para os séculos anteriores. No mesmo século XIX temos ainda uma tribo de
botocudos, com um número desconhecido de indivíduos, no território da fase
Guatambu e talvez da Guabiju, e duas tribos, com um total aparentemente
pequeno de índios mais para o Norte e Noroeste, sob o comando dos caciques
principais Nonohay e Fongue, no território das fases Taquaruçu, Giruá e Xaxim.
Este total, da ordem de 2.000 a 3.000 índios, nos dá uma idéia da população
do planalto nos tempos anteriores à colonização européia.
6.

O sistema econômico
As informações que a arqueologia nos proporciona a respeito do
sistema econômico são mais de ordem inferencial e conjetural do que
propriamente factual. Os elementos que usamos na reconstituição provêm dos
dados concretos da escavação e prospecção, da distribuição dos sítios no
espaço, e do sistema econômico dos kaingang, seus prováveis continuadores
na mesma área, no século XIX.
Se classificamos a população da tradição Taquara como horticultores
com forte apoio na coleta, caça e pesca, temos uma primeira idéia vaga de sua
80

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara

subsistência; mas só a especificação de suas características nos vai dizer que
eles devem ter conseguido uma boa eficiência, que os capacitou a repelir de
seu território os Tupiguarani, horticultores que dominavam os vales e parte das
encostas.
Restos de milho e de cabaças foram encontrados num dos abrigos
mortuários da fase Guatambu. Que outras plantas cultivariam ou receberiam
em contato com populações vizinhas não sabemos ainda. A sua convivência,
na borda do planalto com a população Tupiguarani certamente pôs ao seu
alcance toda a série de plantas, que estes horticultores efetivos da floresta
subtropical teriam trazido da borda da Amazônia. Uma vez conseguidas, estas
plantas poderiam ser cultivadas por eles próprios, usando em grande parte as
aldeias das encostas e das planícies e em menor escala a vizinhança das
casas subterrâneas do planalto; ou poderiam ser conseguidas através de um
sistema de trocas amplas que a própria convivência com o Tupiguarani sugere.
Mesmo que o centro de sua cultura, que são as terras altas, se prestem menos
a esses cultivos tropicais, os produtos agrícolas necessários, desta forma,
poderiam chegar a eles. Os mais importantes cobrem as necessidades básicas
da população durante o verão e o começo do outono, mas dificilmente o resto
do ano.
A coleta proporcionava uma forte complementação dos produtos
cultivados, no começo provavelmente até mais importante que este. O pinhão
era a coleta mais substancial e o domínio dos pinheirais deveria ser uma
preocupação permanente na suposição de que as populações dos vales
também ambicionavam este fruto, quando maduro. Os kaingang do século XIX
tinham, mesmo entre si, para evitar conflitos de grupos familiares, uma rigorosa
distribuição dos pinheirais com marcações de limites e leis draconianas para os
transgressores. O pinhão amadurece no começo do outono e produz, sem
esforço humano, colheitas muito maiores do que as roças, com maior dispêndio
de energia, poderiam proporcionar. Infelizmente ele se conserva menos que
diversos produtos cultivados, como o milho, o feijão, a batata doce, ou a
mandioca. Se eles já tivessem tido naquele tempo, uma técnica de
desidratação dos frutos, como os kaingang do século XIX, que os
transformavam em farinha, com possibilidade de longa conservação, teriam
tido uma reserva alimentar para o inverno e não precisariam invejar as
populações horticultoras dos vales.
Para a consecução de proteínas também existia uma estratégia
elaborada. As terras altas proporcionavam caça abundante e gorda ao tempo
da maturação dos pinhões, que aliciam tanto animais terrestres como aves.
Durante o resto do ano a caça andaria mais magra e dispersa, mas nem por
isso desprezível. A beira dos rios, onde estavam as choças de palha tinham à
sua disposição peixes, moluscos de água doce e animais terrestres. Os
acampamentos e aldeias na beira das lagoas exploravam intensamente

Documentos 5, Ano 2006

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Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

moluscos de água doce ou salobra, peixes e caça terrestres. Peixe seco
poderia ser estocado para épocas mal providas de proteína.
O tempo mais bem abastecido do ano parece ter sido o verão e o
outono, quando tanto os produtos da plantação e coleta vegetal, como da caça,
pesca e coleta de moluscos eram abundantes. O tempo menos bem abastecido
parece ter sido o inverno e a primavera. Para o inverno ainda poderia haver
reservas do período anterior, mas na primavera os depósitos deveriam estar
vazios e os produtos naturais escassos. Esta situação levaria naturalmente os
grupos, depois dos trabalhos na preparação das roças, a se dispersar em
pequenas partidas de caça, como faziam os kaingang do século XIX, deixando
as aldeias com um mínimo de pessoas, até que os produtos agrícolas e coleta
de pinhões novamente permitissem a convivência de todas as famílias.
Desta forma as aldeias teriam pulsações estacionais, como sói
acontecer nos grupos indígenas horticultores. O tempo da fartura geralmente
corresponde a uma convivência festiva, com abundância de rituais, nas aldeias
residenciais. O tempo da escassez corresponde a uma convivência familiar nos
acampamentos dispersos.
Se agora olhamos a economia do grupo como um todo, notamos que
ela pode ter sido estável e sadia, capaz de proporcionar à sociedade um
abastecimento regular e satisfatório ao menos durante a maior parte do ano.
Mas isto só era possível com o domínio vertical de ao menos três ambientes:
as terras altas com campos e pinheirais, as encostas florestadas e várzeas dos
rios com bons terrenos de cultivo junto com possibilidades de pesca, e
finalmente o litoral atlântico com suas grandes lagoas cheias de moluscos e
peixes. Na medida em que os recursos produzidos podiam ser compartilhados
por toda a população, quer através da troca entre as aldeias, quer através de
migrações individuais, familiares ou plurifamiliares, a sobrevivência do grupo
estaria garantida.
O sistema era altamente vulnerável e a falta de acesso a qualquer uma
dessas áreas poria em risco a sobrevivência da população, exigindo
importantes reformulações.
A preservação deste domínio vertical não terá sido pacífica,
especialmente porque o Tupiguarani também ambicionava as encostas e o
litoral e poderia querer os pinhões maduros para complementar as suas
colheitas. A convivência com esta etnia, nestas áreas, em tempos mais
recentes, poderia ser um indício de que grupos familiares da população do
planalto se desintegraram do sistema próprio e passaram a um novo circuito
econômico, complementando o seu abastecimento através da simbiose com
um grupo diferente, na proximidade de cujas aldeias se encontravam
estabelecidos. Mas também poderia ser que através desses contatos todo o
sistema do planalto fosse reforçado, injetando mais produtos cultivados em
troca de algum outro bem ambicionado pelo Tupiguarani. Isso não impediria
naturalmente que o Tupiguarani da costa todos os anos, no período de calor
82

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara

subisse ao planalto para caçar homens para seus banquetes antropofágicos
(Rodrigues, 1940). Ele fazia o mesmo com as aldeias vizinhas de sua própria
etnia.
O que se fala aqui de alimentos poderia ser aplicado igualmente a
matérias primas minerais, vegetais e animais, necessárias para a manufatura
de instrumentos ou utensílios.
Os dados são excessivamente escassos para se dizer algo sobre o
circuito matrimonial, a organização da família e da sociedade como um todo,
enquanto estruturas de manutenção e reprodução deste sistema econômico.
O fato de haver territórios estáveis, ocupados por variantes culturais
através dos séculos, nos faz pensar que teriam uma estrutura política primitiva,
com tribos, semelhante à dos kaingang do século XIX.
7.

Os artefatos
Os objetos mais conhecidos que os arqueólogos podem manobrar são
a cerâmica e os artefatos de pedra. A impressão na superfície externa da
cerâmica também nos dá uma idéia de sua cestaria pequena, feita em espiral.
(Figuras 5-9)
A identificação, tanto da tradição, como de suas fases, é realizada
fundamentalmente através do estudo da cerâmica. Esta se compõe de
pequenas tigelas e potes, feitos em barro selecionado que se tornar menos
plástico por conter grânulos minerais arredondados e às vezes espículas
submicroscópicas de espongiários de água doce.
Para a feitura dos recipientes podiam usar três técnicas: sobrepondo
roletes ou anéis, repuxando e modelando a massa, ou moldando-a dentro de
um cesto até conseguir a forma desejada. As paredes dos vasilhames eram
simples ou infletidas. As formas produzidas e as decorações são patrimônio de
toda a tradição, ao passo que as diferenças no tamanho, em detalhes de
forma, na disposição ou freqüência da decoração, além de outros pormenores,
servem para distinguir as fases no meio do todo. A maior parte dos vasilhames
é simplesmente alisada; decorações predominantes são impressões de
cestaria, ponteados simples ou múltiplos, ungulados, pinçados, incisões
lineares, geralmente produzidas com grande minúcia. Estes vasilhames eram
utilitários e estão fortemente incrustados de fuligem na superfície externa e
cobertos de restos de alimentos na interna.
Os artefatos de pedra eram polidos, como grandes mãos-de-pilão, que
chegavam a medir 80 cm, e deveriam ser usadas para esmagar, por exemplo,
pinhão; ou lâminas de machado, para cortar madeira. Para serem produzidos,
eram escolhidas rochas adequadas, especialmente diorito e basalto. Mas
freqüentemente são lascados, podendo ser classificados como talhadores (isto
é seixos com gume lascado), raspadores ou simples lascas usadas com ou
sem retoque.
Documentos 5, Ano 2006

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Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

Para retalhar as pedras usavam a percussão direta e a percussão
apoiada ou bipolar. Na percussão direta o lascamento é feito segurando a
massa a ser percutida na mão esquerda, geralmente apoiada sobre a coxa do
mesmo lado; conforme a intenção produziam talhadores descascando um
bloco, ou desprendiam de um núcleo lascas para uso imediato como facas ou
raspadores. O seixo usado como percutor apresentará marcas na borda ou nas
extremidades da peça. Na percussão apoiada, ou com suporte, se apóia uma
extremidade da massa a ser percutida sobre um seixo ou qualquer outra pedra,
e se bate na outra extremidade, com a intenção de tirar lascas ou despedaçar a
massa. O seixo usado como percutor, geralmente é alongado e manejado
como se fosse um martelo, segurando-o numa extremidade como cabo e
batendo com a outra. As marcas do percutor estão perto da extremidade e não
na borda, nem na ponta. Na peça usada como suporte aparecem marcas
características, geralmente no centro da face; às vezes classificavam-se estes
suportes como "quebra-cocos".
A matéria prima comum para lascar eram os seixos dos rios: o basalto,
o riolito e o arenito silicificado para artefatos grandes, a calcedônia e o cristal
de quartzo para pequenos. Muitas vezes, na falta destes, poderiam usar
massas desprendidas de grandes blocos rochosos ou pequenas massas
arredondadas.
A percussão direta era mais comum entre as populações indígenas,
mas os ceramistas do Rio Grande do Sul usavam também lascamento com
suporte, especialmente para calcedônia e quartzo, dificilmente para basalto,
riolito ou arenito silicificado.
Como se vê, o arqueólogo dispõe de muito poucos materiais para
recompor a tecnologia indígena. Nem os poucos materiais perecíveis,
conservados nos abrigos, lhe ajudam muito por serem excessivamente
fragmentários. As suas fantasias sobre o material por isso o levam facilmente
para muito longe da realidade.
8.

A história do grupo
A tradição Taquara é reconhecida pelos arqueólogos por primeira vez
em meados do segundo século de nossa era. Naturalmente surge então a
pergunta: Como apareceu? Nasceu no local por mudança de cultura de uma
população que ali teria vivido anteriormente, ou foi transportada por uma
população que veio migrando de outro lugar?
É preciso dizer logo que não existe uma resposta pronta. Precisamos
raciocinar.
A região dos campos altos e pinheirais e a encosta leste era habitada
anteriormente à tradição Taquara por grupos de caçadores com pontas de
projétil, da tradição Umbu. Os vales florestados dos rios maiores o eram por
caçadores sem pontas de projétil de pedra, da tradição Humaitá. Nem um, nem
84

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara

outro grupo tinha casas subterrâneas, nem cerâmica, talvez tão pouco plantas
cultivadas.
O começo da tradição ceramista Taquara corre paralelo com uma
neolitização geral do planalto brasileiro e a migração para o sul do Brasil de
uma população horticultora da borda da Amazônia, que os arqueólogos
identificam como Tupiguarani.
Durante algum tempo se pensou que esta população da borda da
Amazônia poderia ter ensinado às populações locais tanto o uso da cerâmica
quanto o cultivo de plantas. Acontece que as primeiras aldeias Tupiguarani
todas incluem alguns fragmentos de característica cerâmica Taquara,
mostrando que esta é anterior à migração daquele povo. De qualquer maneira
ficaria por explicar o aparecimento das casas subterrâneas, que a população
amazônica desconhecia. De modo que somos obrigados a pensar numa
evolução regional autóctone.
Os séculos ao redor do tempo de Cristo levam a termo em todo o
planalto brasileiro e regiões lindantes a transformação dos caçadores-coletores
em plantadores, com aldeias mais estáveis e utilização de cerâmica, exigida
pelos novos produtos vegetais. Neste processo estão incluídas difusões de
elementos culturais referentes à domesticação de plantas e animais, cerâmica,
construção de habitações, organização social e política, e provavelmente
migrações de populações, como a do Tupiguarani, ao lado de expressões de
criatividade das populações locais surgidas espontaneamente ou em resposta
a modificações ambientais ou acontecimentos históricos. A fisionomia das
populações se transforma de maneira semelhante como nas demais
revoluções da história do Homem. Nesta modificação geral surge a tradição
Taquara. Neste momento somos incapazes de maiores detalhes sobre o
processo concreto, que deu origem às casas subterrâneas, à cerâmica
planaltina e ao sistema econômico local. A tradição Taquara não surge isolada
no Rio Grande do Sul, porque a mesma grande cultura, com as mesmas
formas de assentamento, o mesmo padrão cerâmico e idêntica estrutura
econômica se estendem por todo o planalto sul-brasileiro, abrangendo ainda
Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Misiones argentinas. A casa subterrânea
continua em terras altas de Minas Gerais, mas já com cerâmica diferente
(tradição Sapucaí), e provavelmente um outro sistema econômico e social.
Aparentemente o fenômeno é mais antigo no Rio Grande do Sul, que parece o
lugar do surgimento da grande tradição.
Dentro do Estado o aparecimento se dá primeiro nos pontos mais altos,
no extremo Nordeste, com a fase Guatambu; séculos mais tarde ela já se
estendeu para pontos um pouco menos elevados do Nordeste, na fase
Taquara; mais uns séculos e ela aparece mais para o Centro, com a fase
Erveiras; no Noroeste e no Norte ela chega em tempo ainda mais recente, com
a fase Taquaruçu, Giruá/Xaxim e Guabiju.

Documentos 5, Ano 2006

85

Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

Estes sucessivos avanços no território do estado poderiam ser
atribuídos a sucessivas colonizações do grupo que primeiro se conseguiu
modernizar (a fase Guatambu), ou a sucessivas modernizações de
contingentes mais atrasados, que se transformariam então nas diversas fases
estudadas.
Desde o primeiro instante aparecem contatos esporádicos com o
Tupiguarani, dos vales florestados, expressos nos cacos Taquara
encontradiços nas aldeias dos migrantes subamazônicos. Levantou-se até a
hipótese de o Tupiguarani, no começo sem decorações plásticas na sua
cerâmica, ter aprendido este acabamento de superfície com os moradores do
planalto. Parece um movimento unidirecional da tradição local para a tradição
migrada. Na medida em que o tempo passa, este contato se reduz como se
cada uma das populações se retraísse sobre si mesma. Em tempos mais
recentes, nas altitudes menores, tanto ao longo do oceano, como nas encostas
florestadas, o contato volta, mas invertido, desta vez com a incorporação de
elementos Tupiguarani nas aldeias Taquara. Mas poucas aldeias do planalto,
núcleo da tradição, mostram qualquer elemento Tupiguarani, indicando que os
mencionados fenômenos são predominantemente de fronteira.
Apesar dessas prováveis tensões fronteiriças, em terrenos
ambicionados pelos dois grupos de horticultores e das mútuas acomodações, a
evolução do povo da tradição Taquara parece ter sido tranqüila até a chegada
do europeu.
Aí o missionário jesuíta tentou chegar a eles, buscando reduzi-los em
missões, tanto no litoral atlântico, quanto na bacia do Prata; por sua vez os
bandeirantes de Piratininga e os escravagistas do litoral paulista os queriam
levar para suas fazendas de agricultura de exportação. Nesta época as
populações do planalto são conhecidas pelo nome genérico de Guaianá e por
uma série de nomes locais, identificando provavelmente contingentes tribais.
Ao menos alguns ainda viviam em casas subterrâneas como mostram as datas
da fase Guabiju.
O impacto sobre eles foi muito menor que sobre o Tupiguarani, porque
sua população, dispersa em pequenas aldeias, os tornava menos visíveis; sua
menor experiência agrícola os tornava menos aptos para a economia colonial;
em conseqüência disso nem os representantes das missões, nem os das
fazendas, conseguiram desorganizar completamente a cultura e a vida tribal.
É claro que deve ter havido uma crise, obrigando a consideráveis
reestruturações, porque o território havia sido mutilado com a perda do litoral; a
população havia sido dizimada pelas bandeiras paulistas, as guerras
conseqüentes à expansão branca e provavelmente às pestes; partes
importantes do território já não eram seguras por causa da presença do
conquistador e só podiam ser exploradas com grande risco. Mas eles
sobreviveram.

86

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara

Eles são novamente descobertos no século XIX, com o surto de
povoamento dos campos altos e das matas da encosta. Neste momento se
conhecem 4 grupos rivais: os Botocudos na área da fase Guatambu e talvez
também da Guabiju, os Kaingang do cacique Braga na área da fase Taquara;
os Kaingang dos caciques Nonohay e Fongue, na área das fases Taquaruçu,
Giruá e Xaxim. A genealogia do cacique Braga, que não tinha necessidade de
explicar a sua presença no estado por nenhuma migração, certamente o liga
aos Guaianá dos séculos da Conquista. Ele demonstra a Mabilde (Basile
Becker, 1976:269-270) que 5 gerações de caciques, seus antecessores,
haviam sido enterrados no mesmo lugar onde ele tinha a sua aldeia na primeira
metade do século XIX. Os caciques Nonohay e Fongue, sim, explicavam a sua
presença no estado através de migrações a partir de Santa Catarina ou do
Paraná. Os locais onde eles tinham as suas aldeias realmente são de
14
povoamento mais recente, como se pode ver pelas datas de C , mas não tanto
quanto poderia dar a entender a fala dos caciques. Mesmo que eles tenham
migrado de outro estado, como dizem, sua cultura não deixaria de estar no
grande horizonte cultural do planalto, ao qual pertence a tradição Taquara.
Com a ocupação definitiva do território pelos criadores de gado nas
áreas abertas e os colonos alemães nas florestas subtropicais da encosta, a
economia indígena foi desmantelada de maneira irremediável. A população
kaingang passou a ser um estorvo para o desenvolvimento dos colonizadores
brancos da província e foi constrangida, em meados do século, a se aldear,
passando a viver em reservas sob o comando e na dependência do governo.
Quando olhamos sua história, notamos que a população do planalto
esteve sujeita à mesma necessidade de sucessivas modernizações que a
nossa. As soluções encontradas não lhe deram predomínio sobre os vizinhos,
nem uma situação confortável, mas lhe possibilitaram sobreviver, quando
outros desapareceram.
Dificilmente hoje os kaingang seriam capazes de reconstituir a sua
história como nós a esboçamos. Este relato, cheio de incertezas e escrito com
o uso de uma fantasia controlada por longa experiência de arqueólogo teórico e
prático, ainda está longe da verdade sobre o modo de vida e a evolução do
grupo, mas representa a formulação mais exata que os dados atuais permitem.
Nossa esperança é que novos arqueólogos voltem com novas técnicas e novos
métodos aos inumeráveis sítios da tradição Taquara e construam uma história
mais verdadeira e mais útil para a população indígena e branca do estado.
9.

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aproveitamento dos recursos naturais pela fase Itapiranga, em Itapiranga. Boletim do
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Documentos 5, Ano 2006

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Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

do Sul. In: Arqueologia do Rio Grande do Sul.
Anchietano de Pesquisas. São Leopoldo.

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Documentos 02:5-74. Instituto

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Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara

Santa Catarina

ARGENTINA

6

8

5
7

1

4
3

2

30º

TI
CO

Rio Grande do Sul

LIMITES
0

O
CE
AN

O

AT

N

URUGUAI

100 km

Figura 1: Posição das fases da tradição Taquara: 1. Guatambu; 2. Taquara;
3. Caí; 4. Erveiras; 5. Guabiju; 6. Xaxim; 7 Taquaruçu; 8. Giruá

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Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

0

20m

ma
to

na

tur
a

l

N

plantação

montículo

mato natural
RS-110

montículos
Figura 2: Distribuição de casas subterrâneas e montículos num sítio do planalto
do Rio Grande do Sul
92

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Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara
B
A

C

pinhão

A

B

C

RS-127, casa B

pedras

cerâmica

carvão

720 cm

Figura 3: Escavação da casa B de Água Azul. Em cima: perfil mostrando as
camadas arqueológicas e a posição dos esteios do telhado. Em baixo: planta
mostrando fundo da casa e a posição dos esteios ao redor.
Documentos 5, Ano 2006

93

0

B

CASA A - Corte Transversal

CASA A - Corte Transversal

D

0

2m

A

aterro

corte 1

Nivelamento

Nivelamento

2m

C

Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

Figura 4: Cortes transversais de uma grande casa subterrânea.
94

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Os Primitivos Engenheiros do Planalto e suas Estruturas Subterrâneas: a tradição Taquara

0

5cm

Figura 5: Formas das vasilhas da tradição Taquara.
Documentos 5, Ano 2006

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Pedro Ignácio Schmitz & Ítala Irene Basile Becker

Figura 6: Decoração da cerâmica da tradição Taquara.
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Figura 7: Decoração da cerâmica da tradição Taquara.
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2
3

1

7

6
5
4
10

11

9

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14

13
12

0

5cm

15

Figura 8: Artefatos em pedra da tradição Taquara. Lasca com trabalho bifacial:
7-9, 11-13. Lasca com trabalho secundário e retoque: 14, 15. Biface grande: 1-3.
Bifaces pequenos: 4-6, 10.
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3

2
1
0

5cm

3

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10
8

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9

13

14

15

Figura 9: Artefatos em pedra da tradição Taquara. Lascas com trabalho
secundário: 1-4, 6, 9. Nucleiforme: 5. Seixo lascado bifacialmente: 7. Percutores
bipolares: 13, 14. Percutor unipolar: 8, 12. Percutor-bigorna: 15 . Lâminas
polidas de machado: 10, 11.
Documentos 5, Ano 2006

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OS ATERROS DOS CAMPOS DO SUL:
a tradição Vieira
*

Pedro Ignácio Schmitz
*
Guilherme Naue
*
Ítala Irene Basile Becker

1. O Neolítico e os caçadores
O movimento renovador conhecido como Neolítico, trazendo no seu
bojo os cultivos, a cerâmica e maior sedentariedade, atingiu de maneira
diferente as diversas populações do sul do Brasil, transformando umas em
predominantemente agrícolas, outras em agrícolas-coletoras, e mantendo
algumas caçadoras com relativamente pequenas modificações. Plenamente
neolítica nenhuma delas se tornou porque a todas faltava a domesticação de
animais e tudo o que acompanha o seu usufruto.
Uma das razões desta diferente transformação certamente está no
ambiente no qual as populações viviam. Alguns se prestavam a pleno cultivo
por técnicas neolíticas, como as matas subtropicais; outros eram menos aptos,
como os pinheirais do planalto, cujas populações seriam obrigadas a incorporar
ao seu domínio terras de encosta e do litoral atlântico para desenvolver uma
economia satisfatória, na qual a apanha de frutos continuaria sendo tão
importante quanto os cultivos. Os campos da metade meridional do Rio Grande
do Sul não eram úteis para culturas com tecnologia neolítica, a não ser talvez
em pequeníssimas extensões ao longo das lagoas litorâneas, onde havia
capões de mato. As florestas mais significativas foram rapidamente ocupadas
pelo cultivador mais plenamente neolítico, que é o Tupiguarani. Mas o
movimento renovador atingiu também os caçadores destes campos e ao
menos a cerâmica foi rapidamente incorporada no seu patrimônio tecnológico,
fazendo que eles sejam conhecidos hoje como tradição (ceramista) Vieira.
Os terrenos ondulados, cobertos de gramíneas, ter-se-iam prestado
extraordinariamente à domesticação, mas não havia animais domesticáveis, e
a onda renovadora que chegou a eles provavelmente já não os teria em seu
acervo. Nem ao tempo da colonização européia, quando estas populações,
então conhecidas como Minuanos e Charruas, usavam para montaria cavalos
de extração européia e se alimentavam predominantemente de carne bovina e
eqüina, tinham incorporado plenamente a tecnologia da criação de animais e a

*

Bolsistas do CNPq.
Arqueologia do Rio Grande do Sul, Documentos 5, 101-124. São Leopoldo : IAP, 2006.

Pedro I. Schmitz, Guilherme Naue & Ítala I. Basile Becker

utilização de todos os seus produtos, preferindo caçá-los nas vacarias e
estâncias e usá-los para fins muito limitados.
Sua economia parece ter continuado a se basear num sistema
equilibrado de caça, pesca e coleta estacionais, talvez com progressiva
suplementação de alimentos cultivados, conseguidos de vizinhos e alguns
certamente de produção própria. O sistema era efetivo, porque levou a um
progressivo crescimento demográfico, mas limitado, não permitindo nunca
ultrapassar o limiar da estacionalidade para um estágio sedentário.
Vamos ocupar-nos neste capitulo do modo de vida dos caçadores
neolíticos, usando como material demonstrativo nossas próprias escavações.
Em Rio Grande, na margem ocidental da lagoa dos Patos buscaremos definir
acampamentos estacionais de pesca; no Banhado do Colégio em Camaquã e
nos terrenos alagadiços entre a lagoa Mirim e a mangueira em Santa Vitória do
Palmar nos ocuparemos de acampamentos de caça. A arqueologia de todas
estas áreas é caracterizada por um sitio inconfundível: o "cerrito".
2. 'Cerritos': o que é isto?
Desde o começo do século pesquisadores argentinos (Torres, 1911;
Lothrop, 1932, entre outros) haviam estudado nos imensos terrenos baixos e
alagadiços ao longo do rio Paraná, sítios arqueológicos que tinham forma de
"cerritos", ou aterros; em sua quase totalidade eram cerâmicos, mas os restos
de alimentação provinham de caça ou pesca. - No Brasil, aterros ou tesos, só
eram conhecidos então da ilha de Marajó e eram também de grupos
ceramistas.
Foi uma grande surpresa quando aterros indígenas começaram a ser
noticiados para a margem ocidental da lagoa dos Patos, em seguida para os
terrenos entre a lagoa Mirim e a Mangueira (Schmitz, coord., 1967; Schmitz e
outros, 1970; Brochado, 1974; Rüthschilling, 1985, 1985, 1989). E logo para as
margens do rio Jaguarão (Herval do Sul e Jaguarão - Schmitz, 1979; Copê,
1985), do alto rio Negro (Dom Pedrito - La Salvia in Schmitz, coord., 1967), do
rio Santa Maria (Rosário do Sul - Naue, com. pes.), do Ibicuí (Alegrete e Itaqui Miller, 1969), do Vacacaí (Santa Maria - Brochado, 1969), do Pardo (Vera Cruz
- Mentz Ribeiro, 1983) e ainda em Tapes (Schmitz); onde quer que houvesse
grandes extensões de terras baixas, que alagavam durante o período das
chuvas, ai se podiam buscar tais 'cerritos". O mesmo aconteceu no território
uruguaio fronteiro (Figura 1).
Foi a partir de 1966 que José Proenza Brochado, Vander Valente e
Pedro Ignácio Schmitz se ocuparam, de forma ainda precária, desses sítios em
Rio Grande. De 1967 a 1976 um grupo de arqueólogos, entre os quais Schmitz,
Basile Becker, Naue, La Salvia, Maria Helena A. Schorr, alguma vez Mentz
Ribeiro e Brochado, enfrentaram com seriedade o problema dos "cerritos" do
Sudeste; dele resultou a tese de Schmitz: "Sítios de pesca lacustre em Rio
102

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Aterros dos Campos do Sul: a tradição Vieira

Grande, RS, Brasil" (1976); mais tarde o Instituto Anchietano de Pesquisas
estudou os "cerritos" do alto Jaguarão, que deram origem à dissertação de
mestrado de Silvia Moehlecke Copé: "Aspectos da ocupação pré-colonial no
vale do rio Jaguarão - RS" (1985). Ana Luiza B. Rüthschilling publicou em
1989 os resultados conseguidos com os diversos trabalhos realizados no
Banhado do Colégio, em Camaquã. (Figura 1)
Os cerritos são pequenas elevações do terreno, com forma
aproximadamente circular, oval ou elíptica, compostos principalmente de terra,
ou com grande quantidade de restos de alimentos humanos, que podem
chegar até 100 m de diâmetro e 7 m de altura. Encontram-se na proximidade
das lagoas ou em banhados ao longo dos rios. Geralmente vem agrupados,
mas há também os solitários. Em cada região podem ser dezenas ou mesmo
centenas. Muito conhecidos dos fazendeiros, que os protegiam, eram, nos
tempos de enchente, os únicos pontos onde o gado estava resguardado das
águas. Em Rio Grande eram falados ainda porque uma fábrica de adubos de
Pelotas transformava os ossos neles contidos em fertilizantes para a
agricultura. Nas lavouras de arroz, que sucedeu à criação de gado, muitas
vezes são nivelados desaparecendo rapidamente.
Com nosso trabalho inicial, além de fazer um levantamento geral deste
tipo de sítio arqueológico, procuramos resolver os problemas que logo se nos
foram impondo.
Na Argentina, onde o fenômeno é muito comum, se discutiu se eram
diques marginais do rio, ocupados por indígenas pré-históricos, ou aterros
construídos intencionalmente por estes. Nossas sondagens sistemáticas na
borda dos aterros provaram, sem margem de dúvida, que não foram
depositados pela água, mas são resultado da ocupação humana, a qual, por
um lado acumulou lixo no lugar do acampamento e, por outro, ao menos em
muitos casos, teria ajudado intencionalmente a levantar a plataforma para
impedir a inundação pelas cheias (Schmitz e Baeza, 1982). Geralmente estão
sobre elevações quase imperceptíveis do terreno.
Contendo a maior parte deles fragmentos de cerâmica, ao menos nas
camadas superficiais, imaginamos logo que eles não seriam muito antigos: mas
quanto? A solução mais prática foi recolher amostras de carvão das fogueiras
e mandar para datação nos Estados Unidos. Em Rio Grande conseguimos
assim datações que vão desde 500 a.C. até 1750 d.C., isto é dos primeiros aos
últimos cerritos. Até ao redor do tempo de Cristo eles não tinham cerâmica,
depois aprenderam a fazer tigelas simples de barro cozido. Não sendo possível
datar todos os sítios porque os laboratórios são poucos, cobram caro e
dificilmente datam amostras não muito significativas, buscamos paralelamente
uma datação geológica, relacionando os aterros com os terraços das lagoas.
Essas, nos últimos milênios, apresentam uma regressão bastante regular; com
isso os aterros, que estão sobre terraços mais altos e/ou mais afastados,
devem ser considerados mais antigos; os mais baixos e mais próximos da
Documentos 5, Ano 2006

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Pedro I. Schmitz, Guilherme Naue & Ítala I. Basile Becker

margem, mais novos. Com as datas de carbono 14 para diversos desses
cerritos (7) foi possível estabelecer inclusive o ritmo de regressão da lagoa.
Usando essas formas de datação descobrimos também que aterros próximos
não formam necessariamente uma "aldeia", mas podem representar ocupações
sucessivas, sendo os mais altos (e mais afastados da água) mais antigos, e os
mais baixos então mais recentes.
Havia uma outra pergunta importante: estes aterros e seus arredores
representam locais de moradia permanente ou acampamentos sazonais? De
fato em todas as camadas dos cerritos, desde a base até o topo, há restos de
ocupação humana e em diversos puderam ser vistos buracos de pequenos
postes, que seriam de frágeis choupanas. Em Rio Grande fizemos o teste dos
restos de alimentos, separando Maria Helena A. Schorr (1975) milhões de
ossos de peixes e pinças de crustáceos, além de outros ossos animais. É
sabido que diversos tipos de peixes marinhos entram na lagoa para se
alimentar ou reproduzir e que isso acontece em épocas precisas do ano. Nos
sítios por nós estudados só pudemos encontrar ossos de peixes que estão na
lagoa do fim da primavera até provavelmente metade do verão; os que estão
previstos para estarem na lagoa no outono e inverno não se achavam
representados. Por que a população estaria aí neste tempo? Onde estaria nas
outras estações do ano?
Em busca dessas respostas tivemos de examinar outras paragens
onde houvesse abundância de recursos no verão e outono e que poderiam ser
áreas de muita caça ou coleta. A caça costuma ser farta em áreas alagadiças
ou grandes banhados, como o Banhado do Colégio (Camaquã), ou do Taim
(Rio Grande). Frutos são abundantes apenas no verão em terras um pouco
mais altas como o palmar de Santa Vitória e as matas de pitanga do interior.
Hoje em dia os aterros são procurados não só para construir moradia,
mas muitas vezes para cultivar plantas de subsistência, porque a terra é mais
fértil e a vegetação geralmente mais fácil de remover que as gramíneas do
campo. Teriam os moradores indígenas descoberto esta qualidade do solo,
voltando ao mesmo local na proximidade de antigos acampamentos não só por
atavismo, mas também por razões econômicas? A sua permanência na beira
das lagoas, durante a primavera e começo do verão poderia não ser motivada
somente pelas possibilidades de pesca e coleta, mas talvez fosse também a
oportunidade de realizar as suas plantações nas terras mais apropriadas de
que podia dispor.
Depois que o Tupiguarani estabeleceu aldeias na margem da lagoa
dos Patos, ao redor do ano 1.000 d.C., na proximidade de Rio Grande criou-se
outra simbiose como a que registramos na tradição Taquara, entre a população
local e a adventícia, e os locais de assentamento passaram a estar mais
próximos de terras aptas para a feitura de roças do que antes, deslocando-se
da borda da lagoa para terraços mais altos.

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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Aterros dos Campos do Sul: a tradição Vieira

Os cultivos então realizados ter-se-iam tornado menos importantes,
quando a presença do branco, por um lado não lhes permitia a posse tranqüila
dessas terras e por outro colocava à sua disposição recursos mais
significativos, como o cavalo, a vaca e, através destes, outras benesses dos
conquistadores; com isso a estrutura econômica e social encontrada no século
XVIII já deveria distanciar-se bastante daquela desenvolvida nos dois milênios
anteriores.
3. Pescadores estacionais na beira da lagoa
Na proximidade das vilas de Povo Novo e Quinta, na margem ocidental
da lagoa dos Patos, frente ao saco e no banhado do Silveira, bem como no
saco do Arraial, foram estudados 29 aterros que procuramos caracterizar. Os
numerosos outros sítios da margem da Lagoa, bem como do canal de São
Gonçalo, neste momento não nos podem interessar.
3.1. Ambiente e sítios
A parte inferior da lagoa, de águas semi-salgadas por causa da
proximidade do Oceano, recebe nas diversas estações do ano maciças
migrações de peixes e crustáceos marinhos, que vêm para aí se alimentar e
crescer (migração trófica), ou se reproduzir (migração reprodutiva). Os bagres,
que chegam a 30 kg, entram na lagoa entre agosto e setembro e saem uns três
meses depois; a corvina, de 250 a 300 gramas, entra entre setembro e outubro
e sai entre dezembro e janeiro; a miraguaia, que em estado adulto chega a 60
ou mesmo 80 kg, também é mais abundante nos meses de setembro, outubro
e novembro; a tainha, de 1,5 a 2 kg, chega na primavera e sai entre junho e
julho; a castanha também está presente no verão. Entre os crustáceos, o siriazul invade a lagoa quando começa o calor e as fêmeas saem no começo do
período frio; do mesmo jeito o camarão está adulto no verão. Esta presença
maciça de animais de relativamente poucas espécies, em épocas fixas do ano,
permite que o homem conheça os seus hábitos e faça grandes capturas. Por
isso a cidade do Rio Grande é considerada um dos maiores centros de pesca
lacustre e marinha do Brasil. Por isso também ao longo da porção inferior da
lagoa se encontram inúmeros acampamentos de pesca indígena.
A margem da lagoa é composta de terrenos baixos, escalonados em
dois suaves degraus, que representam terraços recentes, holocênicos, sendo
"A" o mais baixo e com isso o mais novo, e "B" o mais alto e mais antigo;
depois segue um degrau ainda bastante mais alto, que é um terraço
pleistocênico, sobre o qual estão as vilas antes mencionadas de Povo Novo e
Quinta. Os sítios arqueológicos estudados em sua quase totalidade encontramse nos terraços holocênicos; só os mais recentes estão sobre o degrau mais
alto. A vegetação local oferece um gradiente parecido ao do terreno: plantas
aquáticas, juncais e campos, formações arbustivas e capões de mato bastante
Documentos 5, Ano 2006

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Pedro I. Schmitz, Guilherme Naue & Ítala I. Basile Becker

fechados. Nela existem grandes possibilidades de coleta para uma população
indígena, oferecidas principalmente pelas matinhas da orla das lagoas com
suas imensas figueiras bravas, cada uma das quais pode oferecer, de
dezembro a fins de fevereiro, dezenas ou centenas de quilos de frutas
adocicadas; ai também se encontram os bosques de jerivazeiros, cujos
coquinhos amadurecem entre dezembro e janeiro; nos terrenos mais secos
acham-se cactáceas (tunas e cáctus de árvores) carregadas de frutos
comestíveis semelhantes a figos, que amadurecem de janeiro a março, e uma
série de outras árvores, cujos bagos ou sementes são abundantes, embora de
menor tamanho.
Existem animais terrestres grandes na proximidade da lagoa, como as
capivaras e os veados; porém mais importantes parecem ter sido os pequenos
como as preás, os tatus e os ratões-do-banhado. Qualquer um sabe como
estas áreas fervilham de aves, de presença permanente, ou migradas de
longínquas terras frias.
Abundantes recursos alimentares, de espécies uniformes e
densamente representados, tanto no reino animal como no vegetal, estão à
disposição do homem principalmente durante a primavera e o verão. Na
primavera se dão grandes migrações de peixes de fácil captura; no verão
existem crustáceos, aves, ovos e frutos. Embora os terraços holocênicos
tenham sido pouco propícios para cultivos indígenas, as camadas férteis dos
próprios aterros e os terrenos arenosos em cima do barranco do Pleistoceno
teriam oferecido possibilidades para certas culturas durante a estação quente.
Nenhum ambiente poderia ser melhor para o caçador passar o tempo do calor.
O outono e o inverno, pelo contrário, apresentam poucos recursos, ameaçam
os acampamentos com prolongadas enchentes e os fazem sofrer sob o
impacto dos chuviscos trazidos pelos ventos frios do Sudeste e do Sudoeste.
Os acampamentos indígenas se apresentam hoje como pequenos
cômoros, constituídos de sedimentos arenosos, escuros, com grande
quantidade de restos de origem animal, em menor quantidade de origem
vegetal. A maior parte deles assenta diretamente sobre areia clara. A altura
2
vai de 30 a 125 cm atuais, a área de 800 a 11.000 m . A forma é arredondada
ou elíptica, sendo a parte central mais alta que as bordas. A vegetação que os
cobre, devido à maior fertilidade dos sedimentos, caracteriza-se por ervas altas
típicas de terras perturbadas pelo homem. Os estratos não são muito
diferenciados, encontrando-se níveis ou lentes de ossos, soltos ou
conglomerados, lugares de fogueiras, excepcionalmente covas ou sepulturas.
Quando os sedimentos por baixo dos estratos arqueológicos são claros,
podem-se observar evidências de estacas, com diâmetros de 7 a 8 cm, de
antigas choças. Os resquícios da ocupação são principalmente cacos de
cerâmica acompanhados de uns poucos artefatos líticos, ósseos ou
conchíferos.

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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Aterros dos Campos do Sul: a tradição Vieira

Os restos alimentares abandonados como lixo e que se conservaram,
são de origem animal, predominando absolutamente ossos e mesmo escamas
de peixes, pinças de crustáceos, conchas de moluscos, ossos de mamíferos e
de aves. Os restos de alimentos vegetais consistem praticamente só de
coquinhos calcinados, inteiros ou quebrados; os demais desapareceram com o
tempo.
Devido ao pequeno tamanho das escavações não podemos dizer nada
sobre como seriam as formas das choças, os rituais de deposição dos mortos e
a organização geral do acampamento.
Os sítios mais antigos têm as camadas mais profundas pré-cerâmicas,
e sobre elas estratos cerâmicos; não encontramos, nessa seqüência, nenhum
sítio totalmente pré-cerâmico. Como os vasilhames deste grupo são diferentes
dos de outros ceramistas do Rio Grande do Sul receberam nome próprio:
tradição ceramista Vieira. Vieira é o local em Rio Grande, onde Schmitz e
Brochado (1966) por primeira vez identificaram este material.
Nos sítios mais recentes existe, além da cerâmica de tradição Vieira,
também cerâmica de tradição Tupiguarani.
3.2. Cronologia: o passar do tempo
Como o período abrangido pelos sítios é muito longo, mais de 2.000
anos, há necessidade de que marquemos as principais etapas de
desenvolvimento.
O grupo se estabelece no local quando o primeiro terraço holocênico
(B) já é bastante largo e permite o crescimento de árvores junto ao barranco do
Pleistoceno. Na medida em que a costa da lagoa se desloca com a diminuição
das águas, os sítios a acompanham, aparecendo mais concentrados nas
bordas visíveis dos terraços, porque aparentemente aí as águas estacionaram
por mais tempo.
A parte mais antiga da seqüência é, como se disse, pré-cerâmica:
chama-se fase Lagoa. Caracterizam-se os sítios, que estão no lugar chamado
Barra Falsa, como assentamentos de pesca sobre o terraço B, afastados da
borda e bastante amplos. De aproximadamente 500 a.C. a princípios de nossa
era.
Os demais sítios são cerâmicos de tradição Vieira; as características
gerais dos assentamentos continuam as mesmas.
A parte mais antiga é denominada fase Torotama. A cerâmica aparece
nas camadas superficiais de dois sítios da fase Lagoa e apresenta um ar de
primitividade nas formas pequenas, de paredes grossas, mal acabadas e mal
cozidas, com impressões de palha na superfície e restos de palha também na
pasta. Devido ao fato de que esta fase está definida praticamente só pela
cerâmica, não se podem avaliar possíveis modificações no sistema de
abastecimento ou no padrão de assentamento. A cerâmica tem semelhanças
Documentos 5, Ano 2006

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Pedro I. Schmitz, Guilherme Naue & Ítala I. Basile Becker

com as da área do rio da Prata, especialmente com Palo Blanco e Punta Indio,
na proximidade de La Plata (Cigliano, Schmitz, Caggiano, 1971). Do começo
de nossa era até o século III.
Os demais sítios pertencem à fase Vieira, que se estende até o século
XVIII, quando o português coloniza a região. Os sítios da fase Vieira inicial, na
Barra Falsa, estão sobre a borda do terraço B. A cerâmica já é bem elaborada.
Do século III ao IX.
Os sítios da fase Vieira média estão localizados em frente ao saco do
Arraial, sobre o terraço A ou sobre terrenos pleistocênicos. A ocupação de
terrenos pleistocênicos, aptos para o cultivo, poderia indicar mudanças maiores
no abastecimento por influência do Tupiguarani. Do século IX ao XIII.
A fase Vieira final, em frente ao saco do arraial, sobre o terraço A ou
terrenos pleistocênicos, encontra-se geralmente na parte superficial dos sítios
da fase Vieira média e caracteriza-se pela presença de certa quantidade de
cerâmica Tupiguarani. Do século XIII ao XVIII.
Em nenhum dos sítios de nossa pesquisa aparece material europeu do
início da colonização portuguesa, razão por que supomos que são todos
anteriores a essa conquista, ou ao menos independentes da mesma enquanto
acampamentos. Nos terrenos elevados existem sítios rasos portugueses,
correspondentes à fundação da cidade de Rio Grande em 1737, e outros onde
os materiais da tradição Vieira vêm de mistura com cerâmica colonial,
cachimbos holandeses e uma indústria lítica com pontas de projétil, pedras de
fuzil e bolas de boleadeira.
Os aterros eram ocupados durante períodos longos, provavelmente
alguns séculos, e abandonados na medida em que a lagoa se afastava
excessivamente do local, provocando o empantanamento e dificultando a
pesca.
3.3. Como seriam os acampamentos?
O tamanho dos sítios indica assentamentos com poucas choupanas. A
ocupação, mesmo estacional, se por períodos longos, cria um acúmulo de
restos que se destaca suavemente na paisagem como pequeno cômoro.
Tomando por base os vestígios de estacas, as choças deveriam ser de
materiais perecíveis, e pequenas, como de famílias nucleares.
Durante todo o período abrangido pela fase Vieira, como mostram as
impressões na cerâmica, o grupo produz esteiras, com que deveria forrar o
chão para descansar e trabalhar. Não temos testemunhos do mesmo fato para
as fases Torotama e Lagoa.
Na fase Vieira final, quando estão em contato permanente com o
Tupiguarani, conhecemos deles pequenos cestos, feitos com diversas técnicas
e que deixaram impressões na cerâmica.

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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Aterros dos Campos do Sul: a tradição Vieira

A matéria prima para as choupanas, as esteiras e os cestos é
abundante e acessível na beira da Lagoa, onde existe grande quantidade de
juncos e outros materiais produtores de fibras.
Também buscamos estabelecer os padrões tecnológicos, relacionando
os restos de alimentos recuperados, as possibilidades oferecidas pelo
ambiente e os utensílios e instrumentos escavados.
Entre os artefatos líticos, temos pedras com covinhas, pedras com
facetas polidas, polidores e percutores, que podem estar relacionados com o
esmagamento de cocos, a trituração de alimentos, o preparo de couros; lascas
e furadores toscos podem ser de utilidade múltipla; machados escassos
serviriam para trabalhar madeira ou fazer roças. Nem pontas de projétil de
pedra, nem bolas de boleadeira. As rochas ou seixos bons para a feitura de
instrumentos são escassos nos terrenos aluviais da beira da lagoa, mas ossos
utilizáveis sobram por todo lado.
Entre os artefatos de osso alguns se insinuam como pontas de projétil,
outros como anzóis compostos, outros ainda como furadores. Provavelmente
usaram numerosas pontas mais simples de osso, como dão a entender os
abundantes restos ósseos seccionados. Os dentes e as rodelas de conchas
são manifestamente objetos de adorno.
O elemento mais abundante é a cerâmica. Ela é utilitária como
demonstra o intenso uso no fogo; simples e uniforme. A falta de especialização
nas formas pode ser explicada tanto pela simplicidade da cultura a que
pertence, como pela função especifica a que se destinaria. Certamente a sua
ligação inicial não é com cultivos, mas com a preparação do peixe: o peixe
esboroa-se todo ao assar e, por isso, uma tigela larga e rasa é de grande
utilidade. Os recipientes, como estão representados na figura 4, de paredes
finas e antiplástico grosseiro, de quartzo, prestam-se admiravelmente, porque
oferecem grande superfície para a disposição do alimento e permitem que o
calor chegue facilmente a ele. No começo ela é praticamente sem decoração,
aos poucos a superfície externa se cobre de pequenas depressões rasas
produzidas com a polpa do dedo, no final a impressão de cestaria, ou sua
imitação por outras técnicas, toma certo impulso. Esta última decoração tem
alguma semelhança com a da tradição Taquara. (Figura 4)
Quando chega o cultivo, a cerâmica Vieira permanece igual, mas ao
lado dela existe nos sítios, com maior ou menor intensidade, a cerâmica de
tradição Tupiguarani, também inalterada, preenchendo talvez parcial ou
totalmente as novas funções e necessidades.
3.4. As atividades do acampamento
Quando examinamos o lixo alimentar, podemos levantar hipóteses
sobre as técnicas utilizadas ou utilizáveis para a consecução desses bens. Os
mais abundantes são os peixes, os crustáceos e os moluscos. O maior volume
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de restos é de peixes marinhos, de tamanho médio, existentes em grande
quantidade na lagoa, onde entram em densos cardumes. A falta de anzóis
induz-nos a crer que na pesca devem ter usado a rede. O baixo nível das
águas, em grandes extensões das margens, permitiria afixar redes sem auxilio
de canoas. A colocação de redes necessitaria da colaboração de várias
pessoas, de preferência homens. Talvez paralelamente se usasse também
algum tipo de anzol ou projétil para peixes grandes, como a miraguaia, hoje
pescada com a utilização de anzol especial.
Os crustáceos capturam-se facilmente usando um cesto com engodo e
naturalmente também se prendem nas redes.
Os moluscos são recolhidos geralmente com a mão.
A caça de aves vem em segundo lugar em volume de restos. Quando
aninhadas, em bandos, as aves aquáticas de arribação, são fáceis de pegar
com laços ou com a mão. Ao mesmo tempo se podem recolher grandes
quantidades de ovos dos ninhos agrupados e colocados à pequena distancia
do chão.
Uma outra caça abundantemente representada é a de animais
pequenos: ratões-do-banhado, preás, tatus; para a caça de todos eles o
expediente mais fácil é a armadilha, o laço, a mão, não o projétil.
Os herbívoros maiores mais comodamente são caçados com projéteis,
porque mais isolados e menos numerosos, pouco fixos a um determinado local.
Dessa maneira, a falta de mais evidências de armas pode ser
explicada pela utilização predominante de outros expedientes, como redes,
laços, armadilhas, cestos ou a captura com a própria mão.
Para a colheita de frutas também se necessitariam apenas cestos ou
sacos, que não deixam vestígios, porque feitos com materiais perecíveis, como
fibras ou couro.
Com relação à sucessão dos alimentos no tempo, considerando os
diversos aterros individualmente, a pesca parece ter sido sempre a tarefa
principal. Os crustáceos apresentam uma contribuição considerável durante o
período cerâmico, tendo sido menor no pré-cerâmico. A caça de aves cresce
progressivamente com o correr do tempo, em cada acampamento, na medida
em que o banhado aumenta ao longo do assentamento por causa do recuo da
lagoa; depois também aumenta progressivamente no mesmo sitio a caça de
animais terrestres que dependem de idêntico ambiente. Isto sugere que a caça
não é feita a grande distancia, mas ao redor mesmo do acampamento. O ratãodo-banhado e a preá se multiplicam muito rapidamente e podem produzir maior
quantidade de alimento por área do que os grandes herbívoros. Com isso
também se explica a pequena participação dos grandes mamíferos na
alimentação do grupo: provavelmente eles são poucos, isolados e distraem
muita mão-de-obra, que é necessária para a pesca, tanto no momento da
captura, como da transformação. É sabido que certos alimentos, e imaginamos
entre eles o peixe, requerem muito mais esforço de transformação e
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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Aterros dos Campos do Sul: a tradição Vieira

estocagem do que de captura. Assim, os limites da exploração de um território
nos tempos de abundância podem ser expressos mais pela capacidade da
população em estocar alimentos que pela capacidade de se apropriar dos
mesmos. Talvez a caça, tanto dos animais terrestres como dos voláteis,
preenchesse o meio do verão, quando há menor quantidade de peixes
migratórios e, portanto, menos ocupação para os homens. A caça é importante
não só pelo alimento que proporciona, mas também como fornecedora de uma
grande quantidade de ossos, necessários para a produção de instrumentos. de
penas e de couros utilizados para outros misteres.
Os coquinhos só aparecem abundantemente nos sítios próximos do
barranco do Pleistoceno, porque é ali que eles crescem: ou a população não
iria longe para colhê-los, ou quando as árvores estivessem longe não levariam
os frutos para o acampamento. Podemos imaginar que as crianças estariam
mais ocupadas, como se dá na maior parte dos grupos, com a colheita e o
consumo de frutas; talvez também as mulheres; as possibilidades são muitas e,
como para qualquer caçador, constituiriam elemento importante na
alimentação.
É possível que desde antes do contato com o Tupiguarani tenha havido
alguns cultivos, que poderiam ser feitos nos aterros, perto das choupanas.
Após contato com estes horticultores, que tomaram posse das florestas da
serra do Sudeste e de areais na proximidade da lagoa, há cerâmica Vieira nas
aldeias Tupiguarani e cerâmica Tupiguarani nos sítios Vieira, indicando intenso
contato e provável simbiose, que certamente levou à intensificação dos cultivos
ou à introdução dos mesmos caso ainda não tivessem existido. Estes cultivos
podem ser feitos nos areais pleistocênicos junto da lagoa, ou em pontos da
serra não utilizados pelo Tupiguarani. A recente fase Piratini (Brochado, 1974),
localizada em pequenos vales, cobertos com vegetação de galeria, já na
periferia da floresta, poderia ser um local de cultivo do grupo Vieira na serra do
Sudeste.
3.5. A circulação do grupo
No tocante ao abastecimento é importante ainda caracterizar as
estações em que os sítios da beira da lagoa eram ocupados. Pela presença
dos peixes, crustáceos e coquinhos, temos provas de que o assentamento é
ativo na primavera e começo de verão e abandonado durante o período de
outono e inverno. Para o meio do verão não temos por enquanto provas
conclusivas, mas sugestões muito fortes: este período apresenta recursos
abundantíssimos em crustáceos, aves, ovos e variedades de frutas.
Dificilmente um outro local dentro da região apresentaria a mesma riqueza, na
mesma época. Dessa maneira podemos postular que os sítios estariam
ocupados com certeza durante a primavera e começo do verão; com grande

Documentos 5, Ano 2006

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Pedro I. Schmitz, Guilherme Naue & Ítala I. Basile Becker

probabilidade durante o meio do verão; abandonados, durante o outono e
inverno.
Se o grupo precisa juntar os recursos de diversos nichos espalhados
por uma região maior, que área ocupa esse território de abastecimento?
Somente a cerâmica se presta, por enquanto, para delimitar sua possível área
de circulação. Pois a cerâmica de tradição Vieira ocupa uma superfície que
abrange o ambiente das grandes lagoas e os campos limpos e sujos de Tapes
até o sul do departamento de Rocha (R.O. Uruguay), do Atlântico até o alto rio
Negro (R.O. Uruguay), o Ibicuí e o Jacuí, num diâmetro de uns 300 km.
Uma das suas zonas mais ricas em determinada época do ano é
certamente a parte inferior da lagoa dos Patos, onde se deveriam concentrar
então grupos de famílias para a pesca, a caça e a colheita de plantas nativas.
Mas também existem outras áreas com grande densidade de sítios, neste caso
de caça, em terrenos alagadiços como Santa Vitória do Palmar e Camaquã,
sobre os quais falaremos a seguir. Os mesmos pescadores se deslocariam
para essas áreas, em outras estações, para caçar? Ou haveria nesses locais
populações diferentes, donas e exploradoras dos seus próprios recursos? Até
agora também não temos nenhuma pesquisa sobre as matas de butiá, que
oferecem imensas possibilidades no alto verão.
Quando soubermos como os diversos nichos se relacionam entre si
talvez descubramos que nas localidades mais abastecidas as populações se
agrupam e adensam em certas épocas do ano; em outras se dispersam para
explorar recursos mais rarefeitos.
4. Caçadores em Santa Vitória do Palmar
Entre a lagoa mirim e o Mar, nos terrenos baixos ao longo dos arroios
Chuí, do Pastoreio, del Rei e Provedores, foram localizados e parcialmente
pesquisados aproximadamente 150 cerritos, entre os anos de 1967 e 1973. Os
pesquisadores foram Schmitz, Naue, Basile Becker, La Salvia.
No Pleistoceno e no Holoceno formaram-se nesta área banhados
quase intransponíveis por acúmulo de sedimentos e constante recuo das águas
do mar. A paisagem se compõe hoje de imensos juncais bordados de sarandis
nos pontos constantemente alagados, de belíssimos campos limpos nos
terrenos um pouco mais elevados e de pequenos bosques de vegetação mista,
além de um palmar de butiazeiros com vários quilômetros de extensão nos
terrenos não atingidos pelas enchentes.
Embora existam peixes nas águas da lagoa Mirim e da Mangueira, eles
são insignificantes diante do que vimos em Rio Grande. O que pelo contrário
chama atenção e deve ter atraído as populações indígenas, é a grande
quantidade de caça terrestre e volátil concentrada nos banhados e suas
proximidades. Em terra eram principalmente capivaras, veados, ratões-dobanhado, preás. Em termos de coleta vegetal o palmar de butiazeiros, que deu
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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Aterros dos Campos do Sul: a tradição Vieira

nome à cidade e ao município, com seus frutos amadurecendo no alto verão,
deveria ser um ponto de referência importante no abastecimento indígena.
A localização dos sítios arqueológicos mostra claramente que
avaliação as populações pré-históricas fizeram do ambiente: ao longo do
oceano e da lagoa Mirim existem poucos sítios, rasos, recentes e de pequena
duração. Mas ao longo dos arroios eles estão concentrados, formando
agrupamentos, como o da figura 2. Em 1967 em poucas semanas percorremos
42 desses sítios, que somavam um total de 138 aterros. Aparentemente eles
não formam aldeias, mas representam continuas voltas aos mesmos lugares.
Os sítios mais altos, sobre terraços elevados e mais afastados da água, são
pré-cerâmicos (fase Chuí); os mais baixos e mais próximos da água têm
cerâmica, às vezes até bem abundante, da tradição Vieira (fase Cerritos). O
Tupiguarani não chegou nesta área carente de florestas, existindo alguns
cacos apenas nos sítios posteriores ao começo da colonização, nas margens
da lagoa. Estes sítios são rasos e apresentam um contexto igual ao
encontrado em sítios igualmente rasos em Rio Grande: cerâmica Vieira,
Tupiguarani e colonial, cachimbos holandeses, mais pontas de projétil, pedras
de fuzil, bolas de boleadeira etc. (Figura 2)
Como não foi possível reunir suficiente carvão para datar, a não ser
aterros muito recentes, temos de pensar a cronologia com relação à de Rio
Grande. Acreditamos não estar muito longe da realidade se estendermos as
etapas da lagoa dos Patos para esta nova área. Isto representaria o começo
da ocupação para o primeiro milênio a.C. e a cerâmica para os primeiros
séculos de nossa era. Datas conseguidas no lado uruguaio da lagoa Mirim
conformam nossa suposição (Jorge Femenias, com. or., 1990).
Os restos de alimentos estão geralmente mal conservados. Nos aterros
mais antigos do Chuí e nos mais novos do Provedores, onde puderam ser
identificados, mostram total predomínio da caça, sendo o animal mais abatido o
veado (ao redor de 90% dos restos analisados); nos primeiros períodos da
ocupação do Chuí também existem ossos de miraguaia, sugerindo que o arroio
na época deveria estar diretamente ligado ao Oceano, por onde peixes tão
grandes poderiam entrar.
Nos cerritos mais recentes encontramos uma pequena quantidade de
sepultamentos primários (Figura 3) sobre cujo ritual de deposição ainda não
temos coragem de falar; num outro aterro foi achado um sepultamento
certamente secundário, composto de ossos da bacia, parte dos ossos das
pernas e uma mandíbula colocada junto da bacia. Em nenhum dos três
achados de sepultamentos havia oferendas mortuárias acompanhando os
esqueletos.
Sendo muito escasso o material lítico nas escavações recorremos aos
colecionadores locais para ter uma idéia do mesmo e do que poderia significar.
Na coleção Emídio P. Martino, na dos irmãos Donato e em outra menor
encontramos material muito significativo, do qual tiramos amostras para nossa
Documentos 5, Ano 2006

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Pedro I. Schmitz, Guilherme Naue & Ítala I. Basile Becker

figura 5. Um grande número de pontas de projétil e bolas de boleadeira foram
encontradas na praia do porto velho, onde as águas em dias de tormenta as
libertam das camadas junto com cerâmica Vieira, Tupiguarani e colonial. Além
dos modelos de bolas da ilustração existem também aquelas com numerosas
pontas. Comuns são também pedras polidas com pequenas depressões bem
lisas nas diversas faces; uma só mão-de-pilão foi recolhida, tendo iguais
depressões na metade do corpo e numa das extremidades; mós ou alisadores
com o dorso cheio dessas covinhas são até freqüentes; lâminas de machados
com ou sem garganta, também com covinhas picoteadas ou polidas, são mais
comuns que em Rio Grande: a maior parte dessas lâminas foram encontradas
em sítios dentro ou na proximidade de áreas florestadas. Finalmente incluímos
um zoolito quebrado, com forma de ave, que teria sido achado na beira do
arroio Chuí. As pedras com covinhas podem estar ligadas à utilização de
caroços de butiá, segundo outros seriam usadas no tratamento de couros. As
lâminas de machado nos fazem pensar que em lugares mais aptos, como
seriam pequenas extensões de mato ou os próprios aterros, poderia ter havido
cultivos. O zoolito não é uma raridade: em áreas semelhantes de cerritos do
Uruguay foram encontrados diversos. (Figura 5)
Se nos perguntarem sobre a ligação desses sítios com os de Rio
Grande, podemos dizer apenas que usam o mesmo gênero de cerâmica,
embora com pequenas diferenças, razão por que criamos para ela novo nome
de fase.
Sobre a estação em que se deram os acampamentos somos
totalmente ignorantes. A época da colheita do butiá, que é o alto verão, poderia
ser uma sugestão. As estações chuvosas poderiam parecer impróprias por
causa das inundações; mas para que levantar então os aterros até 3 m de
altura? Sendo válida esta reflexão é licito pensar em canoas para a
comunicação dentro destes verdadeiros mares de água.
5. Caçadores no Banhado do Colégio, Camaquã
A situação em Camaquã é praticamente a mesma de Santa Vitória do
Palmar. O Banhado do Colégio representava uma imensa área pantanosa,
surgida em conseqüência do represamento, pelos sedimentos lacustres, do
arroio Duro e outros cursos de água, que drenam a encosta da serra do
Sudeste. Grandes juncais nas áreas alagadas, campos limpos em terrenos um
pouco mais elevados, bosques mistos e a floresta subtropical na encosta e no
alto da serra.
Os recursos disponíveis no banhado fizeram que na sua borda, e ás
vezes no seu interior, se concentrassem os sítios. Na costa da lagoa eles são
absolutamente raros. Na serra, dominada pelo Tupiguarani, inexistentes.
Todos os materiais perecíveis, desapareceram das camadas, ficando
algumas lascas, bolas, raras pontas e cacos de cerâmica. Somando estes com
114

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Aterros dos Campos do Sul: a tradição Vieira

as peças mais bonitas que estão nas casas dos fazendeiros conseguimos um
contexto semelhante ao de Santa Vitória do Palmar.
A seqüência cultural nos 47 sítios com 96 aterros, estudados por
Schmitz, Basile Becker, Naue, Brochado e Mentz Ribeiro, entre 1968 e 1971 e
retomados por Rüthschilling em 1987, parece a mesma dos locais
anteriormente descritos: caçadores pré-cerâmicos (fase Patos), caçadores
neolitizados (tradição Vieira, sem nome próprio de fase), colonização
Tupiguarani pura (fase Camaquã) e sítios de contato ou simbiose.
6. Neolitizados, mas sempre caçadores
Apresentamos neste capitulo uma área predominantemente de pesca e
duas principalmente de caça. De passagem fizemos referência a diversos
outros locais no interior do estado (e poderíamos fazê-lo no interior do
Uruguay) aparentemente também de caçadores da mesma cultura, e nos
restaria explicar finalmente como estas diferentes ocorrências estariam
relacionadas entre si.
Em termos de mera cronologia tudo leva a crer que são
contemporâneas e a população que as produziu esteve sujeita à mesma
evolução. Esta é a razão por que damos o mesmo nome a toda esta formação
tecnológico-cultural.
A pergunta, entretanto, é mais ampla e se refere ao modo como a
população no seu todo se achava estruturada e manejava os recursos. Em
busca da resposta inicialmente nos sentimos tentados a apelar para os
sobreviventes do período colonial e através de uma analogia etnográfica
iluminar o passado. Alguma aproximação a vida dos minuanos do século XVIII
e XIX poderia oferecer, se os pudéssemos captar no primeiro momento do
contato, antes de se tornarem os tão falados 800 minuanos cavaleiros e
caçadores de gado, descritos pelos oficiais espanhóis que os combateram até
sua total desorganização. Como isso não é possível, e há necessidade ao
menos de uma visão geral do seu modo de vida, achamos mais acertado
transcrever um texto da introdução ao livro sobre o Homem Caçador (Lee e
Devore, 1973:11-12) que, embora se referindo ao caçador em geral e a um
caçador não neolitizado, oferece a informação mais aproximada e justa que
neste momento podemos produzir.
"Fazemos duas suposições básicas a respeito de caçadores e
coletores: 1) eles vivem em pequenos grupos e 2) eles se movem muito. Cada
grupo local está associado com um espaço geográfico, mas esses grupos não
funcionam como sistemas sociais fechados. Provavelmente, desde o começo
houve comunicação entre grupos, incluindo visitas recíprocas e alianças
matrimoniais; de modo que a sociedade caçadora básica consistia em uma
série de bandos locais, que eram parte de uma comunidade lingüística e
procriadora maior. O sistema econômico está baseado em diversas
Documentos 5, Ano 2006

115

Pedro I. Schmitz, Guilherme Naue & Ítala I. Basile Becker

características nucleares, incluindo uma base residencial ou campo, uma
divisão de trabalho - com homens caçando e mulheres colhendo - e, mais
importante, um padrão de partilha dos recursos alimentares colhidos.
"Essas poucas características, amplamente definidas, proporcionam
uma linha de base organizacional da pequena sociedade da qual podem ser
derivados desenvolvimentos posteriores. Visualizamos um sistema social com
as seguintes características. Primeiro, se indivíduos e grupos têm de
movimentar-se para conseguir alimentos, há uma implicação importante: o
montante de propriedade pessoal tem de ser mantido num nível muito baixo.
(...) Segundo, a natureza do suprimento alimentar mantém pequenos os grupos
viventes, geralmente abaixo de cinqüenta pessoas. Grandes concentrações de
pessoas esgotariam rapidamente os recursos imediatos e os membros seriam
forçados a dispersar-se em unidades menores de abastecimento. É provável,
como observou Mauss, que diversos bandos se encontrariam numa base
estacional, resultando numa divisão do ano em períodos "públicos" e
"privados". Por causa do pequeno tamanho dos grupos vivos e da grande
variação do tamanho da família, os bandos crescem e diminuem em número de
membros. É provavelmente necessário redistribuir continuamente a população
entre os bandos com o objetivo de manter as unidades de colheita de alimentos
num nível efetivo.
"Terceiro, os grupos locais como grupos, não mantém ordinariamente
direitos exclusivos sobre os recursos. Variações no suprimento de comida de
região para região e de ano para ano criam uma situação fluida, que pode ser
melhor controlada por organizações flexíveis, que permitem à população
mover-se de uma área para outra. Os padrões de visita criam obrigações
intergrupais, de modo que os hóspedes numa estação se tornam os
hospedeiros na outra. Pensamos que acesso recíproco aos recursos figuraria
com importância igual ao intercâmbio de esposas como meio de comunicação
entre os grupos. (...)
"Quarto, superávit alimentar não seria uma característica proeminente
da pequena sociedade. Se os estoques de alimento disponíveis são mínimos,
um esforço praticamente constante tem de ser realizado durante todo o ano. Se
cada um sabe onde está o alimento, na realidade o próprio ambiente é o
armazém; e desde que cada um conhece os movimentos de todos os outros,
não há preocupação de que os recursos alimentares vão falhar ou vão ser
explorados por outros.
"Quinto, visitas freqüentes entre as áreas de recursos vão evitar que
qualquer um dos grupos se apegue demasiadamente a uma única área. Sítios
rituais estão comumente associados a grupos específicos, mas a subsistência
da população não depende destes sítios. Além disso, a falta de empecilhos sob
a forma de propriedade pessoal ou coletiva permite um grau considerável de
liberdade de movimentos. Indivíduos e grupos podem mudar de residência sem

116

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Aterros dos Campos do Sul: a tradição Vieira

abandonar interesses vitais em terras ou bens, e, quando a discussão surge, a
solução é dividir o grupo para evitar conflito sério."
7. Afiliações platinas
Os sítios de caça e pesca estudados encontram-se dentro de uma área
de transição, de ecologia variada, bastante marcada pelos campos, embora
cheguem até lá elementos da floresta subtropical e da vegetação de restinga.
Nela grupos humanos podiam sobreviver bastante bem, combinando
racionalmente a caça, a pesca e a colheita de plantas nativas. Esta adaptação
estudada no Rio Grande do Sul, se afigura recente, instalando-se na transição
do "ótimo Climático" para um período mais frio e menos chuvoso. No planalto
e no litoral brasileiro se processam na mesma época reacomodações de
antigos caçadores, que passam a dar mais importância à coleta vegetal e
através dela chegam aos cultivos. O mesmo deve ter acontecido na bacia
Platina. É a transição para o neolítico.
Este período pré-cerâmico pensamos que pode ser incorporado na
tradição de caçadores de nome Umbu, largamente espalhada no sul do Brasil,
embora como adaptação característica e tardia, que podemos denominar
subtradição Lagoa.
Quando a cerâmica, os cultivos e outros elementos neolíticos
aparecem entre os caçadores da subtradição Lagoa, notam-se mais facilmente
as configurações culturais e tecnológicas que realmente as devem ter
plasmado. Nesse momento os caçadores por nós estudados se configuram
como uma tradição local independente, que denominamos tradição (cerâmica)
Vieira, dentro de uma grande tradição tecnológica e cultural do rio da Prata.
De fato, na bacia do rio da Prata, são numerosos os caçadores com
adaptações semelhantes às estudadas e explorando ambientes parecidos. A
cerâmica Vieira é mais parecida com a dos grupos que vivem sobre o rio
Uruguai do que com as do rio Paraná; e é bastante diferente da cerâmica, da
tecnologia e do modo de vida das populações do planalto e litoral brasileiro.
Isso continuava acontecendo em tempos históricos quando os Minuanos,
ocupantes da mesma área da tradição Vieira e prováveis continuadores
daquelas populações pré-históricas, se distanciavam muitíssimo dos Kaingang
do Planalto e dos Guarani das florestas da encosta.
Com isso chegamos à conclusão de que, corno no ambiente, também
na cultura, os grupos dos campos do sul devem ser afiliados às tradições
platinas e não às brasileiras.
A continuação dessa história se encontra no texto de Basile Becker.
8. Bibliografia citada
BROCHADO, José Proenza. 1969. Pesquisas arqueológicas nos Vales do Ijuí e Jacuí.
Publicações Avulsas Museu Emílio Goeldi 13:31-62. Belém.
Documentos 5, Ano 2006

117

Pedro I. Schmitz, Guilherme Naue & Ítala I. Basile Becker

__________. 1974. Pesquisas arqueológicas no Escudo Cristalino do Rio Grande do Sul
(Serra do Sudeste). Publicações Avulsas Museu Emílio Goeldi 26:25-52. Belém.
CIGLIANO, Eduardo Mario; SCHMITZ, Pedro Ignácio; CAGGIANO, Maria Amanda.
1971. Sitios cerámicos prehispanicos en la costa septentrional de la provincia de
Buenos Aires y de Salto Grande, Entre Rios: esquema tentativo de su desarrollo. Anales
de la Sociedad Cientifica CXCII(III-IV):127-91. La Plata, Argentina.
COPÉ, Sílvia Moehlecke. 1985. Aspectos da ocupação pré-colonial no Vale do Rio
Jaguarão - RS. Universidade de São Paulo. São Paulo. (Dissertação de Mestrado).
LEE, Richard B. & DEVORE, Irven. 1973. Problems in the study of hunters and
gatherers. In: Man the Hunter: the first intrusive survey of a single, crucial stage of
human development ­ man's once universal hunting way of life. p.3-12. Aldine
Publishing Company. Chicago.
LOTHROP, Samuel Kirkland. 1932. Indians of the Paraná Delta, Argentina. Annals of
the New York Academy of Sciences XXXIII:77-232. New York.
MENTZ RIBEIRO, Pedro Augusto. 1983. Sítios arqueológicos numa microrregião de
área alagadiça na Depressão Central do Rio Grande do Sul - Brasil. Revista do CEPA
10(12):3-121. Santa Cruz do Sul.
MILLER, Eurico Th. 1969. Pesquisas arqueológicas efetuadas no oeste do Rio Grande
do Sul (Campanha - Missões). Publicações Avulsas Museu Emílio Goeldi 13:13-21.
Belém.
RÜTHSCHILLING, A.L.B. 1985. O material lítico do sitio RS-CA-14, Capão Grande,
Camaquã, RS. Pesquisas, Antropologia 40:123-139. São Leopoldo.
__________.1985. Análise do material lítico do sítio arqueológico RS-CA-14 de Capão
Grande-Camaquã. Boletim do MARSUL 3:53-60. Taquara.
__________.1989. Pesquisas arqueológicas no Baixo Rio Camaquã. Arqueologia do Rio
Grande do Sul, Brasil, Documentos 03:7-20. Instituto Anchietano de
Pesquisas/UNISINOS. São Leopoldo.
SCHMITZ, Pedro Ignácio (Coord.). 1967. Arqueologia no Rio Grande do Sul.
Pesquisas, Antropologia 16:1-58. São Leopoldo.
__________. 1976. Sítios de pesca lacustre em Rio Grande, RS, Brasil. Instituto
Anchietano de Pesquisas/UNISINOS. São Leopoldo. (Tese de Livre-docência).
__________. 1979. Salvamento arqueológico na área do reservatório da Barragem do
Centurião, lado brasileiro, RS. Relatório de Atividades, SUDESUL/UFRGS. Porto
Alegre.
SCHMITZ, P.I. & BAEZA, J.E. 1982. Santa Vitória do Palmar: una tentativa de evolución
del ambiente en el Alto Chuy y su vinculación al problema de los cerritos. In: Anales del
VII Congreso Nacional de Arqueologia. Colonia del Sacramento, Uruguay.

118

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Aterros dos Campos do Sul: a tradição Vieira

SCHMITZ, P.I. & BROCHADO, J.P. 1966. Prospecções arqueológicas no Rio Grande
do Sul, Brasil. Comunicação ao Congresso Internacional de Americanistas, Mar del
Plata.
SCHMITZ, Pedro Ignácio e outros. 1970. Prospecções arqueológicas no vale do
Camaquã, RS. ln: Estudos de Pré-história Geral e Brasileira. p.507-24. São Paulo.
SCHORR, Maria Helena Abrahão. 1975. Abastecimento indígena na área alagadiça
lacustre de Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil. Associação Santanense Pró Ensino
Superior (Cadernos 1). Sant'Ana do Livramento.
TORRES, Luís Maria. 1911. Los primitivos habitantes del Paraná. Imprenta de Coni
Hermanos. Buenos Aires.

Documentos 5, Ano 2006

119

Pedro I. Schmitz, Guilherme Naue & Ítala I. Basile Becker

Santa Catarina

ARGENTINA

10

7

8

30º

Rio Grande do Sul

9

1
2

TI
CO

6
5

AT

N

URUGUAI

LIMITES
0

100 km

4

O
CE
AN

O

3

Figura 1: Locais onde, no Rio Grande do Sul, foram estudados sítios de aterros:
1. Tapes; 2. Camaquã; 3. Rio Grande; 4. Santa Vitória do Palmar; 5. Herval do
Sul; 6. Dom Pedrito; 7. Vera Cruz; 8. Santa Maria; 9. Rosário do Sul;
10. Alegrete e Itaqui.

120

Arqueologia do Rio Grande do Sul

0

0

30m

6m

Os Aterros dos Campos do Sul: a tradição Vieira

Arroio Provedores

Arroio Provedores

Figura 2: Croqui de um sítio de "cerritos" em Sta. Vitória do Palmar, mostrando
distribuição no terreno. Perfil do terreno.
Documentos 5, Ano 2006

121

30cm

Pedro I. Schmitz, Guilherme Naue & Ítala I. Basile Becker

0

Sepultamento 4

Ossos de veado

Fogão com carvão
e cerâmica

Sepultamento 3

Sepultamento 1
Sep. 2

Figura 3: Sepultamentos num "cerrito" de Santa Vitória do Palmar.
122

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Os Aterros dos Campos do Sul: a tradição Vieira

0

10cm

Figura 4: As formas típicas da cerâmica da tradição Vieira, fase Vieira.
Documentos 5, Ano 2006

123

Pedro I. Schmitz, Guilherme Naue & Ítala I. Basile Becker

Figura 5: Típicos artefatos em pedra polida de Sta. Vitória do Palmar: A - bolas
de boleadeira; B - zoolito; C - mão-de-pilão; D - pedras com covinhas;
E - moedor; F - lâminas de machado
124

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O QUE SOBROU DOS ÍNDIOS PRÉHISTÓRICOS DO RIO GRANDE DO SUL
Ítala Irene Basile Becker

*

Os grupos pré-históricos do Rio Grande do Sul, vistos pela Arqueologia
nos capítulos anteriores, são os responsáveis pelas diferentes Tradições e
Fases líticas e cerâmicas. Aqui são tratados com os nomes prováveis com que
foram conhecidos ao tempo da Conquista. São vistos nos mesmos ambientes
naturais e como as três etnias que foram envolvidas no processo de conquista
e colonização do Estado. São eles:
Os Kaingang - antigos Guaianá, prováveis moradores das casas
subterrâneas do Planalto, com extensão para os demais estados da Região
Sul. São encontrados também em Misiones, Argentina. Eram índios coletores,
especialmente de pinhão, caçadores, pescadores e pequenos horticultores.
Os Charrua e Minuano - são provavelmente os construtores dos
"cerritos" nas regiões dos campos do Sudoeste e Sudeste do Estado com
extensão para o pampa uruguaio e argentino. Eram caçadores, pescadores e
coletores.
Os Guarani - do grande grupo lingüística Tupi-Guarani, ocuparam as
áreas florestadas próximas dos grandes rios como o Uruguai, o Jacuí, o
Camaquã e partes do Litoral atlântico e lagunar. Eram agricultores e bons
ceramistas.
Para os Kaingang e os Charrua e Minuano, damos uma visão etnohistórica geral e sucinta; nela ressaltamos o problema do contato com o
conquistador e colonizador, contato que os levou à situação atual ou ao
extermínio. Nessa ótica tratamos os grupos desde o século XVI até os séculos
XIX ou XX. Os Charrua e Minuano estão extintos, em oposição aos Kaingang
em crescimento como grupo.
O Índio Kaingang no Rio Grande do Sul e El Indio y la Colonización:
Charruas y Minuanes, são as monografias por nós publicadas respectivamente
em 1976 e 1984. Do primeiro trabalho divulgamos alguns excertos em O Índio
e a Colonização alemã no Rio, Grande do Sul, 1976. Para o terceiro grupo o
estudo mais recente é O Guarani no Rio Grande do Sul, 1985, de Pedro
Ignácio Schmitz, inciso no presente volume. Deste grupo estamos estudando
alguns aspectos da organização social, tomando como referência o cacicado e

*

Instituto Anchietano de Pesquisas/UNISINOS. Professor-Pesquisador da
SEC. Bolsista do CNPq.
Arqueologia do Rio Grande do Sul, Documentos 5, 125-148 São Leopoldo : IAP, 2006.

Ítala Irene Basile Becker

a pajelança. Contamos até o presente com uma listagem biobibliográfica de
mais de cem caciques para as diferentes Províncias missioneiras.
O GRUPO KAINGANG
Informações gerais: O Kaingang, descendente dos antigos Guaianá, é
identificado por esse nome desde 1882. Diversos estudiosos se ocuparam dele
nos últimos cem anos. Estas informações constituem a base do nosso texto e
referem-se praticamente sempre ao passado. No momento presente, por um
lado, lutam por maior participação na sociedade nacional e, por outro, por
repensar sua própria cultura e sociedade.
Seu físico tem aparência mongolóide. De estatura mediana têm o corpo
bem proporcionado. O rosto é levemente oval, com olhos pretos e oblíquos; o
nariz um pouco achatado, a boca e as maçãs do rosto normais. A pele é de cor
bronzeada. O cabelo é abundante, preto e liso; os homens o cortam em coroa,
o que lhes valeu, no século passado, o apelido de "Coroados". As mulheres
usam o cabelo de preferência comprido e solto; às vezes fazem uma trança.
Costumavam, especialmente os homens, depilar até mesmo as pestanas. Têm
ótima acuidade sensorial tanto para os olhos como ouvidos e uma grande
habilidade táctil. Seu idioma é o Kaingang, pertencente ao grande tronco das
línguas Jê.
Os Kaingang ocupavam, desde o inicio da Conquista até fins dos
séculos XVII e XVIII, determinadas áreas dos estados de São Paulo, Paraná,
Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Eram conhecidos pelos nomes de
Botocudo, Aweikoma, Xokleng, Aweikoma-Kaingang, Bugre, entre outros.
Apareceram pela primeira vez na literatura com o nome de Guaianá. Aqui os
trataremos simplesmente por Kaingang .
As informações históricas para os Kaingang no século XVI são raras e
pouco explícitas; em verdade elas começam em inícios do século XVII quando
se fizeram as primeiras tentativas de missão como por exemplo, as do Pe.
Montoya, S.J. Nesse momento os Kaingang aparecem na periferia das áreas
do Guarani ou formando bolsões nas mesmas áreas. Já haviam sido
contatados esporadicamente pelos conquistadores no século XVI. Segundo os
missionários que no século XVII os tentaram missionar, esses índios eram
totalmente diferentes dos Guarani. De acordo com a localização geográfica
e/ou com as fontes, os Guaianá eram também conhecidos como Bate, Chova,
Pinaré, Kaiguá ou Caaguá, inimigos tradicionais dos Guarani.
Com a colonização da Região Sul e de modo especial com o
desenvolvimento da cafeicultura no século XIX, grupos de Kaingang são
levados a deslocamentos rápidos. Alguns grupos que viviam no interior das
matas, hostilizados pelos criadores de gado do Sul, conseguiram sobreviver em
capões dessas matas desde o Paraná até o nosso Estado.

126

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O que Sobrou dos Índios Pré-Históricos do Rio Grande do Sul

O avanço das frentes de colonização, com os diferentes modos de
entrar nas terras dos índios - bandeirismo, missão e colonização - fez com que
o Kaingang continuasse a migrar. Mesmo assim ele conseguiu mais uma vez
certa permanência em seu ambiente natural, ainda que ilhado em meio a um
mundo hostil.
A migração de alguns grupos Kaingang para o Rio Grande do Sul
parece relativamente recente. Alguns grupos, além de fugirem do colonizador,
migraram por causa das lutas entre eles próprios. Alcançaram, por uma ou
outra razão, as matas de pinheiros e os campos da parte norte do Estado. São
as áreas ocupadas ou reocupadas pelos índios dos caciques Nonohay e
Fongue. Mais para o leste, nos campos do planalto, estava o grupo de Braga,
numa área que parece lhe ter pertencido sempre.
Para o grupo do Cacique Braga os dados são mais claros e
abundantes. Mabilde, século XIX, descreve um cemitério com sete túmulos por
ele encontrado e escavado na área. Eram 5 sepulturas de caciques, sucessivos
antepassados de Braga, e 2 de índios, homens e mulheres, que haviam sido
mortos num combate com os Botocudos de Santa Catarina. Pelo estado dos
ossos, o informante conclui que o combate com os Botocudos se teria dado em
inícios do século, 1806. Os túmulos dos 5 caciques, por outro lado,
representando cinco gerações de governantes, certamente mostrariam o
14
enraizamento de Braga na região por uns dois séculos. Datações de C
atestam a presença da tradição Taquara, provável antecessora dos Kaingang
de Braga, nesse espaço desde o século V depois de Cristo até ao menos o
século XV.
Os índios e a colonização - O Kaingang no Rio Grande do Sul não foi
poupado pelas frentes colonizadoras e de modo especial pela colonização
alemã. Sua transformação, resultado desse processo, enquadra-se
perfeitamente nos mecanismos estudados para tais casos. A mudança, tanto
do ponto de vista da raça, como da cultura, não se deu em sua totalidade ainda
que os mecanismos lhe tenham sido favoráveis. Ela se processou em certos
aspectos transformando um índio coletor, caçador, pescador e pequeno
horticultor num agricultor nos moldes das civilizações que os envolveram.
Acreditamos que isso se deva à própria organização sócio-econômica e
mesmo política do grupo que na atualidade ainda mantém valores do passado.
Com relação ao aspecto agrícola, acreditamos que seja uma volta ao status
inicial possibilitado pelas novas contingências. informações para o passado os
caracterizam como produtor de milho de diversos tipos, lembrança que se
perde na memória dos Kaingang mais velhos, assim como a afirmação de
terem sido ceramistas, o que em termos arqueológicos não deixa dúvidas.
O processo geral de colonização, responsável pelas mudanças,
começa no século XVI com os portugueses e espanhóis terminando, em tese,
com os alemães no século XIX, como sintetizamos a seguir.

Documentos 5, Ano 2006

127

Ítala Irene Basile Becker

A Colonização luso-espanhola efetiva, não trouxe para os Kaingang as
mesmas dificuldades que a alemã. Com os espanhóis, de modo particular, a
área Kaingang periférica sofre a ação indireta da política missioneira que se
instalara, desde inícios do século XVII com os Guarani, obtendo ótimos
resultados. Por sua vez a ação direta que se pretende com os Kaingang não
tem a mesma projeção embora se fizessem várias tentativas; exemplo é a
atuação infrutífera, que segundo a história, teria resultado no martírio do Ibiá.
O bandeirismo paulista invadiu o Sul para suprir, com mão-de-obra
indígena as fazendas litorâneas de exportação e depois com animais de
transporte as áreas de mineração. Por volta de 1635, o bandeirante Fernão
Dias Paes Leme atravessa os Campos de Lages, Santa Catarina e os da
Vacaria no Rio Grande do Sul quando se dirigia às missões dos Guarani sobre
o Rio Uruguai para prear índios. Nessa época nada consta especificamente
sobre a apreensão de Kaingang ainda que Vacaria fosse área autóctone de
alguns grupos. Posteriormente, 1727, a mesma região dos Campos de Vacaria
é cruzada pelo Caminho das Tropas de Cristóvão Pereira com os mesmos
objetivos atingindo-os de maneira mais ou menos indireta.
Ao se instalar definitivamente no Estado, em fins do século XVIII, a
colonização lusa alcança alguns espaços na área Kaingang ou seja os Campos
do Planalto, a Encosta superior e inferior do Nordeste e partes do Planalto
médio. No começo do século XIX apenas os município de Vacaria e Santo
Antonio são explorados para criação de gado. Essa modalidade de colonização
lusa permitiu a sobrevivência independente do índio e do português de forma
que o Kaingang, coletor de pinhão, ficou nas áreas de mato e o criador luso na
de campos. A seguir se multiplicam os municípios e, de modo especial, nas
áreas de colonização alemã como se verá adiante.
É nessa área de colonização lusa, delimitada pelo Rio Passo Fundo e a
Serra limítrofe com o Litoral, que se localizava o maior grupo Kaingang,
representado pelas 23 tribos subordinadas ao Cacique Braga. É conhecida, a
partir de 1848, como Aldeamento do Campo do Meio.
Em 1845, o missionário Antonio de Almeida Leite Penteado, faz uma
experiência de catequese com os Kaingang das proximidades de Passo Fundo,
quando consegue atrair a uns 400 indivíduos. No mesmo ano, com o avanço
do Caminho das Tropas, outras tentativas são realizadas. A iniciativa particular
tenta o mesmo com os índios do Cacique Nonohay, mas também sem
resultados.
O que de concreto o governo imperial consegue com a ajuda de
jesuítas espanhóis é a fundação de três aldeamentos; o objetivo central dos
mesmos era o de reunir os índios dos diferentes grupos moradores das áreas
atingidas. Instalados, entre 1848 e 1850, são conhecidos como Aldeamento do
Guarita, fundado pelo Pe. Parés com índios do Cacique Fongue, no atual
município de Tenente Portela. Guarita teve como chefe índio o próprio Fongue,
escolhido para essa função. O aldeamento resolveu o problema dos
128

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O que Sobrou dos Índios Pré-Históricos do Rio Grande do Sul

fazendeiros de Cruz Alta, onde também existia um grupo Kaingang, assim
como o das estâncias de Santo Ângelo e São João. A segunda concentração é
Nonoai, fundada em 1849 em terras do velho Cacique Nonohay. O aldeamento
deveria reunir os índios dessa área, hoje município de Nonoai, bem como os
índios da área perturbada do Cacique Braga, atingida pela colonização alemã
em quase sua totalidade.
O aldeamento de Nonoai foi uma concentração de grande instabilidade
por causa do problema de colonização em si e dos desentendimentos entre os
próprios chefes índios. O terceiro aldeamento foi o Campo do Meio fundado
nas terras do Cacique Braga.
A Colonização alemã, por sua vez, agiu mais direta, intensa e
drasticamente sobre a área Kaingang desde 1824 a 1846 e de 1848 a 1874.
No primeiro momento surgem as chamadas antigas colônias de São Leopoldo,
São José do Hortêncio, Feliz, Mundo Novo, Bom Princípio e Pinhal quando a
área inicial de colonização se estende da Antiga Feitoria (São Leopoldo) até a
borda do Planalto. Nessa época, antes mesmo dos colonos chegarem aos lotes
destinados tinham de passar às vezes por terras dos índios que se defendiam
à sua maneira. Desde 1829 a 1832 se repetem os encontros com colonos
alemães estabelecidos em Dois Irmãos e de 1845 a 1847 com os colonos de
São Francisco de Paula e Nova Petrópolis.
Com isso ambas as etnias viviam uma situação bastante tensa porque,
enquanto o colono tentava se estabelecer nas terras que lhe cabiam por
determinação imperial, o Kaingang via a penetração efetiva nas terras onde
havia nascido. Enquanto os primeiros sofriam com a presença do índio, este,
por sua vez, só tinha como única alternativa, a retirada.
A colonização prossegue apoiada numa legislação que dispunha sobre
as terras devolutas como exclusivamente reservadas aos alemães. Surgiram
assim as Colônias de Caí, Montenegro e Nova Petrópolis que se tornam
cenário de novos encontros.
Para sanar a situação, criaram-se os aldeamentos referidos assim
como foram reativadas as Companhias de Pedestres, já atuantes em
determinadas áreas. Os resultados não foram satisfatórios; instalou-se a
animosidade entre os próprios índios, alguns dos quais aceitam o trabalho
assalariado nas mesmas Companhias ou em grupos defensivos particulares.
Com isso os grupos se dividiram e enfraqueceram. É o caso do Cacique Nicué,
dissidente de Braga, que perseguido por seus irmãos de raça praticou o que se
pode registrar como último assalto (1860) com um pequeno grupo de 23
indivíduos entre os quais duas mulheres.
Para o colonizador porém, o resultado foi a definição dos municípios
atuais nos mesmos lugares de origem dos índios.
A Colonização Italiana iniciada por volta de 1875, na mesma área
Kaingang (Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Garibaldi) não teve influência
sobre a população indígena porque o problema da partilha das terras e da
Documentos 5, Ano 2006

129

Ítala Irene Basile Becker

concentração dos índios fora superado. Os contatos entre Kaingang aldeados e
italianos foram raros e pacíficos.
O resultado final da Colonização para os Kaingang foi colocá-los numa
situação mais ou menos igual à dos períodos iniciais, isto é, a necessidade de
continuar a luta pela posse, de fato, das suas terras, frente a entidades
econômicas de interesses vários. A área continua a mesma, o alto Rio Uruguai,
na porção compreendida entre o atual município de Lagoa Vermelha e o
município de Santo Augusto, outrora pertencente a Palmeira das Missões. Nela
os Kaingang estão aldeados sob os cuidados da FUNAI praticando, entre
outras atividades, a agricultura mecanizada do trigo, milho e soja numa reserva
demarcada de 51.940 hectares. O contingente indígena, parcialmente
mestiçado, está distribuído em cerca de 20 Postos surgidos das primeiras
aldeias. Alguns destes postos se uniram, outros se dividiram, outros mesmo
desapareceram. (Veja-se Mapa 1)
A cultura nos diferentes momentos - Os Kaingang representam um
contingente populacional que tenta a sua sobrevivência como grupo
conservador de seus antigos valores a um preço bastante elevado. Suficiente é
tomar contato com os estudos de Salzano, Vieira dos Santos e Fischer entre
outros. Numericamente estão em crescimento, sendo notável a superioridade
numérica feminina nos Postos estudados por Salzano. É, excluída a pequena
parcela dos Guarani, o único sobrevivente índio do Rio Grande do Sul.
Depois dos trabalhos de catequese ter-se-iam tornado mais humildes e
submissos, sabendo ser cruéis e hostis quando provocados. Em contato com a
civilização e especialmente no trato com os brancos ou mesmo com seus
semelhantes, usariam de uma certa reserva que não deixaria de ser um traço
da sua dignidade pessoal. Conservam o seu idioma nativo ao lado de um
português mal falado; cultuam a memória dos seus antepassados. Apreciavam
muito os títulos militares que lhes ficaram dos períodos de colonização, quando
emprestaram seus serviços ao governo imperial. É comum ainda hoje o uso de
títulos de nossa hierarquia militar.
O Índio Kaingang tem grande respeito pelas suas mulheres e, como no
passado, a organização social de base é a família patrilinear, em geral
monogâmica; parte de duas Metades exógamas de origem mitológica. Para o
Rio Grande do Sul especificamente não temos dados concretos sobre essa
divisão mas acreditamos, em vista dos contatos pessoais, que a situação seja
a mesma ou idêntica à do Paraná, onde cada metade é dividida em duas
minorias associadas aos gêmeos ancestrais; são guiadas estas minorias pelo
Sol ou pela Lua, cujos sinais levam pintados no corpo.
A preferência para o casamento, apesar do elevado grau de
aculturação, recai sobre os indivíduos da mesma etnia, isto é, homem
Kaingang casa com mulher Kaingang, num percentual de 71,92 sobre os 495
casos estudados por Salzano e, de preferência, com os nascidos no mesmo
Posto. A taxa de esterilidade entre as mulheres era de 5,25% sobre os 438
130

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O que Sobrou dos Índios Pré-Históricos do Rio Grande do Sul

casais estudados. Deve-se acrescentar que, no século XIX, era comum o uso
de um anticoncepcional feito à base de vegetais bem como um medicamento
para supressão das regras mensais.
Numericamente é quase impossível expressar a população Kaingang
anterior ao século XIX. Os dados são vagos e quase inexistentes. A primeira
informação para uns 3.000 indivíduos que teriam sido aldeados (1630) é
bastante duvidosa. Posteriormente, 1848-1850, quando se criam os três
aldeamentos, a população aldeada seria de uns 870 indivíduos, número que na
atualidade se elevaria ao redor de 7.000 Kaingang para todo o grupo.
A vida familiar se desenvolve em aldeias de tamanhos regulares que
constituem os Postos onde levam uma vida mais ou menos sedentária à qual
aderiram em fins do século XIX como decorrência do próprio regime
econômico.
As suas casas apresentam algumas formas curiosas mas o comum são
os simples ranchos feitos de tábuas de pinho fornecidas pelos Postos. São
cobertas de palha ou lascão do mesmo pinho. Não têm divisões internas e o
fogo no chão é permanente. Passaram por modificações até chegarem às
moradias colocadas pela FUNAI; são construídas com madeira beneficiada na
serraria de alguns Postos num modelo aprovado com piso levantado do chão;
têm cobertura de telhas de cerâmica também produzidas na Reserva. O corpo
da casa, com 3 a 4 peças assoalhadas, é separado da cozinha por um
passadiço também coberto, enquanto que a cozinha é preferentemente de
chão batido por solicitação expressa dos índios. É nela, ao redor do fogo, que
se reúnem e não raro dormem, como no passado. Influenciados pelos Postos,
alguns índios aderiram ao jirau ou à rede de fibra vegetal para dormirem.
As famílias assim organizadas estavam no início do século afetas ao
Governo estadual ou federal através de seus administradores; hoje estão aos
cuidados da Fundação mas como no passado, prestam obediência ao cacique
que é às vezes o maior colaborador da administração civil.
Num passado mais distante as aldeias eram comunidades de 20 a 25
famílias que moravam em 5 ou 6 choças feitas com lascão de madeira e
cobertas de capim. Com 4 divisões internas intercomunicáveis, abrigavam,
cada uma, uma família de 4 a 5 filhos. As choças mantinham distancias que
possibilitassem a coleta, a caça e a pesca. Comunicavam-se entre si por
caminhos abertos na mata; de preferência ficavam afastadas dos rios ou
arroios. A aldeia grande ou central parece permanente mas registra-se a
mobilidade do grupo em termos de estacionalidade ligada de modo especial à
pesca no Litoral e à maturidade do pequeno plantio na aldeia após a colheita
do pinhão.
Obedeciam a um chefe geral - cacique - e cada família a um chefe, que
a governava com caráter paternal que chamamos cacique subordinado. A
chefia ou cacicado tende a perpetuar-se na família como outrora. Não raro
porém a sua disputa gera lutas internas que terminam com a cisão do grupo.
Documentos 5, Ano 2006

131

Ítala Irene Basile Becker

Um exemplo claro é o Posto do Inhacorã dividido em dois e onde, até 1945,
persistia o cacicado na linha de Fongue (que vem pelo menos desde a
fundação do Guarita em 1848) ou, o caso da dissidência entre Braga e Doble
por disputas de mando.
A repressão das faltas leves é feita por advertência ou conselhos; as
maiores, como o roubo, eram, até 1910, castigadas no tronco, que
desapareceu definitivamente entre 1956 e 1960. A penalidade máxima para o
adultério, no passado, era a morte em local público para ambas as partes, com
suas próprias armas e sem o direito a sepultura regular.
A economia, própria de grupo coletor, evoluiu com a ação planejada
dos Postos. O cultivo passa a ser mais diversificado: plantam milho, feijão,
batata-doce, aipim, etc. Criam galinhas de modo que a reduzida economia das
pequenas chácaras ou rocinhas se torna às vezes um auxiliar valioso.
Continuam, como no passado, não armazenando qualquer produto cultivado,
contentando-se apenas com a apanha diária que satisfaz suas necessidades.
Importante é ressaltar para o pinhão, no passado, um sistema de desidratação
que possibilitava a estocagem para os meses de maior carência.
Em regra geral, o sistema do cultivo dos produtos complementares em
rocinhas ou chácaras, foi trocado pela lavoura intensificada com o
planejamento controlado em grandes plantações. Nessas lavouras o Kaingang
trabalha por salário, podendo ao mesmo tempo cuidar da pequena produção
que negocia sob modalidade cooperativista instalada em alguns Postos.
Nessa economia própria de coletor, cujo elemento básico era o pinhão,
se distinguia uma clara divisão de trabalho por sexo e faixa etária bem como
um característico sistema de troca in natura; este era apenas para os objetos
de propriedade particular, resultante do pequeno artesanato, de vez que outro
tipo de propriedade individual não existiu. A terra, o território de coleta e de
caça de determinados elementos, era propriedade usufrutuária do grupo,
aspecto que subsistiu no século XIX e parece sobreviver com características
peculiares no presente.
Os instrumentos necessários nessa economia, além dos utensílios
domésticos básicos, eram os machados de pedra em cunha (lascados ou
polidos), as mãos-de-pilão também em pedra, os almofarizes e os pilões. O
instrumental de caça e pesca assim como os diversos tipos de armas feitos
com materiais específicos, vão se modificando com a colonização;
exemplificam os vários tipos de pontas de flecha, em madeira, substituídas
pelas pontas feitas com lâminas de ferro ou aço, que conseguiam com o
colonizador. As armas de fogo, comuns para a caça, são concedidas aos índios
mas são muito raras; as armas de cintura em regra geral são proibidas.
Dos hábitos artesanais que ficaram reduzidos à confecção de chapéus
em fibra vegetal, cestos de taquara, abanos e alguns outros poucos objetos
feitos com os mesmos materiais, fazem um pequeno comércio às vezes de
troca por bebidas, fumo, erva-mate, fazendas ou roupas com o civilizado. Esse
132

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O que Sobrou dos Índios Pré-Históricos do Rio Grande do Sul

comércio em alguns Postos, por falta de transporte, é feito no local com o
interessado que o vai procurar por um preço irrisório. Presentemente negociam
esses produtos com museus regionais que lhes proporcionam certa garantia,
ou com os turistas.
O vestuário do Kaingang, segundo as informações mais antigas, era a
nudez completa para os homens que a quebraram, depois do contato, pelo uso
de uma camiseta conseguida por troca com os Guarani. Usavam também um
cordão feito de fibra de urtiga brava colocado no baixo ventre. As mulheres
cobriam sua nudez com um manto também de fibras de urtiga ou caraguatá de
fabricação própria como o cordão; deixavam os ombros e os braços nus.
Completavam essa veste com um tipo de manto que lhes cobria a cabeça e
caía sobre os ombros. Registram-se variações para esse vestuário rudimentar
entre os diferentes grupos assim como referências distintivas de sexo e status.
O uso de adereços não parece ter sido significativo; o tembetá, insígnia
masculina, foi abandonado após o contato com os missionários.
Sua indumentária sofreu mudanças gradativas podendo-se dizer que
hoje vestem à maneira civilizada tendo ainda preferência pelas cores vivas. As
mulheres gostam da maquilagem e das bijuterias. As chinelas de dedo são
usadas por homens e mulheres indistintamente de idade.
A guerra também sofreu modificações. Nunca teve como objeto central
a conquista de território mas sim a sua preservação. A guerra era quase
sempre com grupos antagônicos, como os já referidos Botocudos de Santa
Catarina, ou com os Guarani, seus tradicionais inimigos. Com o avanço da
colonização às vezes se deram dentro do próprio grupo ou com índios a
serviço do branco nas Companhias de Pedestres ou outras formas de serviços
prestados ao colonizador.
Durante o período colonial devem-se destacar os encontros com os
brancos antes referidos, enquanto que, no presente, a atividade guerreira se
resume nos levantes de conhecimento público.
Do ponto de vista da religião é difícil caracterizar o Kaingang moderno;
ele está mais ou menos integrado ao cristianismo, sem que para isso pareça
haver interferência da administração. As suas idéias religiosas forçosamente
devem ter sido alteradas e de modo especial devido às tentativas de catequese
feitas pelo menos em 11 Postos. A adoção de certos costumes cristãos parece
antes decorrência do seu aparato externo, como bem o expressa Balduino
Rambo para um cerimonial tipo Missa - uma mescla curiosa de elementos
originais e cristãos. Só a observação visual e minuciosa permitiria dizer até que
ponto pertence ao patrimônio cultural antigo.
Nesse sincretismo observam dois feriados religiosos comemorados à
sua moda, a Sexta-feira Santa e o Dia de Finados.
Em tempos presentes é destacada a atuação da missão Evangélica de
Confissão Luterana do Brasil, no Posto do Guarita, onde atuou por vinte anos e

Documentos 5, Ano 2006

133

Ítala Irene Basile Becker

não apenas com caráter de religião. Também está em grande desenvolvimento
a Assembléia de Deus com capelas nas proximidades de alguns Postos.
O sentimento de religiosidade ou crença, referido por Alfred Métraux,
parece continuar fortemente arraigado ao passado; o Xamã, com várias
atribuições e grande credibilidade, continua como um mediador influente em
vários, senão em quase todos os aspectos da vida grupal. O mesmo se poderia
dizer das mulheres velhas encarregadas de certos segredos da tribo,
especialmente os ligados à saúde e à procriação.
A morte por sua vez é encarada como um fato natural cercado de
cuidados antecedentes.
Costumam enterrar os mortos depois de um cerimonial que
poderíamos comparar com o velório; é de grande beleza ritual expresso por
cantos, lamúrias e rezas. O enterro em si é feito no cemitério da aldeia com a
participação de todo o grupo quando o corpo, envolto ou sobre uma esteira, é
colocado diretamente numa cova rasa que cobrem com terra.
Presentemente o sepultamento é feito em caixão de madeira; uma cruz
à cabeceira do túmulo testemunha as manifestações de luto que entre os
parentes mais próximos continua com o uso de uma tarja no chapéu ou
qualquer outra parte do vestuário.
O culto ligado aos mortos era a parte mais bela de todos os rituais
Kaingang podendo mesmo superar os ritos de iniciação para ambos os sexos.
Para os mortos, o sepultamento diferenciado segundo o status e o sexo, se
revestia de características peculiares. O culto não terminava com o enterro,
solenizado por todo o grupo, mas continuava com um ritual de
aproximadamente um ano que pode ser resumido pela renovação constante da
cobertura do túmulo de grandes proporções. Era feita por parentes do falecido.
O final da cerimônia tinha grande significação político-social porque era numa
festividade ao redor do túmulo que o grupo assistia à destinação dos novos
membros (crianças) para a metade à qual deveriam pertencer - Aniki/Kamé,
Votoro/Kadnyerú, feito pelo pai. A promoção desse cerimonial estava sempre a
cargo de elemento do sexo masculino, pai, irmão ou filho e de acordo com a
importância e prestígio do morto. A celebração acontecia anualmente na época
em que o pinhão estava maduro e o milho ainda verde, tendo a participação e
colaboração material de toda a aldeia ou aldeias.
Finalizando recordemos todo o cerimonial do desenlace, velório e
sepultamento distintos de acordo com a hierarquia grupal para os séculos
passados, descritos por Affonso Mabilde com riqueza de detalhes.
Outras manifestações da cultura material ou espiritual dos Kaingang
podem ser indicadas como o gosto artístico representado na música por um
instrumental próprio que não fugiu às modificações. Hoje são comuns entre os
índios a gaita de fole, o violão, a gaita de boca, entre outros. Gostam também
dos bailes, jogo de cartas e bola, bem como outras reuniões sociais onde não
faltam a pinga, o mate, os caramelos e doces. Atualmente o rádio, assim como
134

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O que Sobrou dos Índios Pré-Históricos do Rio Grande do Sul

a TV, são presença em muitas casas ou no Posto, onde se reúnem em
participação.
OS GRUPOS CHARRUA E MINUANO
Informações gerais - Os Charrua e Minuano foram dois grupos que se
distinguiram tanto do ponto de vista físico, como social e cultural; seguiam
lideres independentes e ocupavam espaços separados. Pertenciam ao mesmo
tronco lingüístico, mas não está claro se falavam línguas ou só dialetos
diferentes. Por razões históricas, ou pela falta de informações, às vezes são
tratados como um só grupo e quiçá também por causa das alianças que faziam
entre si no século XVII, quando começaram as primeiras informações para os
Minuano.
Pertenciam à raça pampeana; tinham estatura variável entre 1,76 m
para os homens e 1,68 a 1,66 m para as mulheres. Eram de constituição física
normal com algumas diferenças mercantes entre os grupos. Tinham os
membros bem conformados, com pés e mãos relativamente pequenos.
Dolicomorfos, de olhos amendoados, pretos e olhar penetrante; o nariz variava
entre aquilino e levemente achatado. Eram de cor morena acentuada; cabelos
lisos, pretos, não muito abundantes assim como a barba que era bastante rala.
Os homens usavam o cabelo solto, ou preso ao redor da testa por uma tira de
couro; as mulheres usavam-no em trança ou raramente solto.
As diferenças físicas entre os dois grupos estavam na altura; os
minuano eram alguns centímetros mais baixos e menos robustos que os
Charrua. O dimorfismo sexual era acentuado, tendo as minuanas os seios mais
volumosos que as charruas; a boca e olhos também maiores; os lábios mais
grossos e o nariz mais achatado.
Os Charrua e Minuano, caçadores, pescadores, coletores dos campos,
ocupavam a antiga Banda Oriental do Uruguai, que dividiam com dois grupos
horticultores conhecidos como Chaná e Guarani. Especificamente no Rio
Grande do Sul os Charrua e Minuano estavam localizados nos campos do
Sudoeste e Sudeste até a altura dos rios Ibicuí e Camaquã com extensões
para o pampa uruguaio e pequena porção do território argentino. Os Charrua
moravam mais para o oeste, ocupando ambas as margens do Rio Uruguai e
tiveram maior contato com o conquistador espanhol; os Minuano se
localizavam mais para leste, nas áreas irrigadas pelas lagoas dos Patos, Mirim
e Mangueira, com extensão até as proximidades de Montevidéu; tiveram maior
contato com os portugueses.
Com o avanço da ocupação branca em suas terras de origem os dois
grupos fizeram vários deslocamentos mas as posições originais dos primeiros
séculos são bem reconhecíveis. (Mapa 2). A Arqueologia os distingue pelas
Tradições lito-cerâmicas como também pela forma de ocupação nos "cerritos".

Documentos 5, Ano 2006

135

Ítala Irene Basile Becker

Numericamente é impossível uma avaliação para os primeiros
momentos do contato com o branco porque os dados são muito escassos e
vagos, mas quando este se intensifica, os caçadores charrua e minuano seriam
uns 2.000 indivíduos sendo aproximadamente 1.100 Charrua e uns 900 ou
1.000 Minuano.
O envolvimento histórico - Os Charrua e Minuano, como os Kaingang e os
Guarani, enfrentaram quase as mesmas formas de conquista e expansão
territorial com algumas diferenças em razão das próprias características
grupais e do espaço geopolítico que ocuparam.
A história dos Charrua e Minuano é um pouco diferente da história dos
horticultores Guarani e Chaná que foram rapidamente aldeados ou entregues
aos colonos brancos pelas formas usuais de colonização espanhola como a
mita, a "encomienda" ou a simples escravidão. Ela é também diferente da
história dos Kaingang que enfrentaram as formas de colonização lusoespanhola e da alemã de modo especial, mas sem uma absorção total como
aconteceu com os Guarani. Os Charrua e Minuano não se deixaram submeter
a essas formas ainda que participassem direta ou indiretamente de todo o
processo de conquista e colonização luso-espanhola nos três primeiros
séculos, chegando assim até a definição política das duas coroas no século
XIX, quando os índios estão praticamente extintos como grupo.
Desde começos do século XVI os Charrua e provavelmente os
Minuano foram atingidos pelos colonizadores com a introdução do gado eqüino
e no século seguinte pelo bovino que se tornaram os elementos de mudanças
da cultura. Por sua vez a atuação missionária, segunda forma de penetração,
instala-se no século XVII; são os mercedários, franciscanos e dominicanos que
não têm grandes resultados em termos de duração, talvez porque as áreas
ocupadas pelos índios fossem impróprias para desenvolver um sistema
colonizador de base agrícola.
Decorrentes dessas penetrações, começam as fundações espanholas
de 1527 a 1577 e as portuguesas de 1680 a 1737, de início com características
militares.
Em continuação, esses estabelecimentos se multiplicam e
respondem pelos diferentes Tratados de Limites estabelecidos entre Portugal e
Espanha que resumem grande parte do processo de conquista da antiga
Banda oriental do Uruguai.
Diante desse quadro os Charrua e Minuano continuaram caçadores
enquanto o colonizador não consegue, por si, ocupar e incorporar o território
indígena. Aos poucos, nos séculos XVII e XVIII, o colonizador vai se fixando
de forma lenta e cada vez mais para o interior do território índio. Primeiro se
fixa no lado espanhol, ao lado do Rio Uruguai, em área dos Charrua; depois, no
lado português, ao longo do litoral atlântico, em área dos Minuano.
Durante os dois séculos, os Charrua e Minuano foram solicitados cada
vez mais tanto pelos espanhóis como pelos portugueses para as mais
diferentes formas de trabalho; dentre elas podemos destacar as lides com o
136

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O que Sobrou dos Índios Pré-Históricos do Rio Grande do Sul

gado. Dessa forma os índios conseguiam manter uma certa estabilidade e
independência garantidas e negociadas por seus lideres, os caciques, que
cada vez mais ganhavam em representatividade frente ao branco.
Com o avanço da colonização efetiva se foram somando à cultura
charrua e minuano os produtos dessa colonização. Esses novos recursos dão
aos índios outras possibilidades ainda que continuem caçadores. Muda porém
o seu tipo de caça que tem no gado alçado a presa favorita; muda o transporte
e vários de seus hábitos. Em continuação tornam-se pequenos criadores de
eqüinos e bovinos tanto para o seu sustento como para um comércio por troca
de bens coloniais com o branco. São bens de mera satisfação pessoal ou
matéria prima para objetos utilitários.
Dessa maneira os Charrua e Minuano foram se incorporando sem
grande estabilidade à economia colonial mas não de forma intencional porque
as outras tentativas não deram resultado.
Essa incorporação ou integração do índio em termos de colônia é
periférica, assistemática e dispensável. O próprio índio não consegue
desenvolver uma economia nos moldes usados pelo branco. Ele faz uma
exploração pela apreensão do gado em pequeno volume e sem continuidade,
enquanto o colonizador se transforma de preador de gado em grande escala,
num criador estável de grande proporção e rentabilidade, que vai dispensando
o trabalho índio mas que necessita cada vez mais do espaço por ele ocupado.
A dependência do índio frente ao colonizador é cada vez maior e cria
sérios conflitos que se originam com roubo de gado nas estâncias. Esses
roubos ora se fazem nas estâncias dos espanhóis para vender aos
portugueses ou vice-versa. O resultado é o desgaste dos grupos indígenas
tanto do ponto de vista cultural como demográfico porque sofrem em paralelo a
repressão crucial do policiamento de campo. Mesmo assim os grupos
conseguem manter uma população relativamente estável nos trezentos anos
de luta.
Em fins do século XVIII e primeiras décadas do século XIX, os
espanhóis e portugueses ocuparam em definitivo o território indígena;
proliferaram as estâncias de criação de gado com uma exploração econômica
intensiva e extensiva, que aumenta a exportação de couros e carnes para o
mercado interno e mesmo europeu. As cidades se fixavam e cresciam em
número. Com isso a população indígena é empurrada para o interior, em
espaço bem reduzido, de sorte que não tem condições mesmo para a
reprodução de uma exploração preadora, possível apenas no gado das
estâncias. Como não desenvolveram nenhum sistema econômico produtivo e
não estão dispostos a aceitar o modo de vida dos brancos, pouco lhes sobrou.
O que resta agora aos Charrua e Minuano, sem o território que antes
lhes pertencera e sem possibilidades de caça, é unicamente empregar-se com
o branco de quem fizeram total dependência econômica. As formas de
emprego são escassas, resumindo-se no mercado clandestino de couros, no
Documentos 5, Ano 2006

137

Ítala Irene Basile Becker

engajamento nos conflitos de fronteira e lutas de independência. Restam-lhes
também raras possibilidades de trabalhar como peões de estância, fato que
não agradava aos caciques.
Essa alternativa de emprego é passageira porque fixada a
independência política e não sendo mais necessário o trabalho do índio, os
Charrua e Minuano passam a ser perseguidos insistentemente pelas forças
governamentais para as quais trabalharam, lutaram e sacrificaram muitas
vidas.
O final de toda a história Charrua e Minuano pode ser resumida nos
dois combates de extermínio em 1831 e 1832, feitos à traição. Referimo-nos
aos combates de Salsipuedes e Mataojos quando os dois grupos foram
praticamente destroçados em campo. Os homens presos, maiores de 12 anos,
ou foram sacrificados ou levados para Montevidéu e postos à disposição de
companhias nacionais de navegação mercante. As mulheres, crianças e
velhos, todos prisioneiros, foram levados para a Capital e distribuídos em
público entre os moradores da cidade de acordo com determinados prérequisitos.
De todo o contingente índio de aproximadamente 2.000 indivíduos, a
história registra um saldo de apenas 30 pessoas escapadas dos últimos
combates, mas totalmente incapacitadas de reproduzir seu modo de vida
indígena, e cuja triste história ainda não foi contada; registra também umas 450
pessoas que foram distribuídas por várias cidades, onde o sangue índio deve
circular em muita família uruguaia. Confirmam essa situação os filhos do velho
cacique Polidoro-Santana e Avelino - com descendência em primeiro e
segundo graus na campanha uruguaia, em campos de Tacuarembó.
No Rio Grande do Sul provavelmente existam descendentes dos
últimos 20 Charrua que, em 1834, transpõem o Rio Quaraí assim como dos
Minuano, com um mesmo grau de parentesco, localizados na Estância do
Rincão Bonito, Santana do Livramento, conforme informação oral.
A cultura nos diferentes momentos - A cultura dos Charrua e Minuano,
tomada como um todo, sofreu as transformações decorrentes do contato em
muitos aspectos; não perdeu, entretanto, a índole de invencibilidade,
conservando o caráter arredio à submissão total, o que lhes valeu o extermínio
como grupo já em meados do século passado.
De temperamento retraído, eram pouco dados ao gosto artístico.
Praticamente sem vaidade, eram também pouco ciumentos com relação às
suas mulheres, que cediam com facilidade ao colonizador luso ou espanhol
como forma passageira de negociação. Sua vaidade era expressa nas pinturas
faciais diferenciadoras de tribo e nos homens, de modo especial, pelas
cicatrizes intencionais estampadas no corpo numa correspondência ao número
de inimigos mortos.
A organização social, com base na família, se manteve nos dois grupos
até o seu extermínio. Conservou algumas características iniciais distinguindo138

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O que Sobrou dos Índios Pré-Históricos do Rio Grande do Sul

se entre elas a poligamia mais acentuada entre os Charrua. Nos Minuano ela
pareceu mais freqüente entre os caciques que tinham de duas até cinco
mulheres e com elas tinham filhos. Nos grupos charrua a organização familiar
era mais frouxa quer em termos de estabilidade como em relação à educação
dos filhos dirigida pelas inclinações individuais; mesmo para as refeições ou
melhor, para comerem o assado feito pelos pais, as crianças comiam quando
sentiam vontade. Entre os Minuano, a educação também estava ao encargo
dos pais; os filhos ficavam com estes até que se consumasse o período de
lactância; nessa ocasião a criança era entregue à responsabilidade de um
parente que assumia a paternidade total.
As relações de parentesco, com informações raras para os Charrua, se
manifestam pela adoção dos órfãos por um parente mais próximo ou alguém
mais caridoso. O parentesco como tal ficava melhor expresso pelos rituais de
luto.
Nos dois grupos, a família (possivelmente nuclear de linha paterna),
constituída pelo casamento, absorvia os homens já maduros, de vez que não
ficavam solteiros. As mulheres casavam tão logo tivessem alcançado a idade
núbil que entre as Minuano era mais precoce. Nos dois grupos ficavam
submissas aos seus maridos. A instabilidade familiar entre os Charrua permitia
a separação do casal quando não houvesse filhos, enquanto que o adultério
era punido apenas com a agressão física do adúltero, com possibilidades reais
de reconciliação.
Assim organizadas, as famílias moravam em choças, "toldos"
construídas pelas mulheres sobre quem recaiam todos os encargos
domésticos. De início as casas eram simples esteiras de junco suficientes
como abrigo e proteção contra grupos hostis. Caracterizavam grupos
caçadores em movimentações estacionais que com o correr do tempo se
deslocam por exigências guerreiras.
De simples para-ventos, as casas dos Charrua passaram para as
choupanas cobertas com esteira vegetal disposta sobre quatro estacas
cravadas no chão. Nos séculos XVII e XVIII elas eram cobertas de couros mas
sem alterações na forma, permanecendo assim até o final da sua história,
quando praticamente regridem para as formas e materiais originais.
As choças sempre foram pequenas, com espaço suficiente para uma
família não superior a dez pessoas. A cozinha era fora da choça e o fogo na
mesma ou nas proximidades era presença constante. A vida familiar, em sua
maior parte, era fora da habitação, lugar mais de descanso e de proteção
contra os rigores do clima pampeano. Entre os Minuano a permanência nas
choças parece mais estável de vez que nelas permaneciam os velhos com os
jovens de ambos os sexos que ainda não tinham condições de trabalho.
Eram construídas sobre colinas descobertas nas proximidades de rios
e arroios ou sobre a encosta dos mesmos. Formavam concentrações em
aldeias ou toldoarias, submissas aos seus caciques; ficavam separadas por
Documentos 5, Ano 2006

139

Ítala Irene Basile Becker

regular distancia para que não faltasse o pasto necessário ao gado e de modo
especial para a cavalhada roubada ou de criação. Cada aldeia tinha o seu
pequeno cemitério também localizado sobre uma coxilha próxima à aldeia que
se transferia de acordo com a mobilização imposta aos grupos. Nos conflitos
quase permanentes com o colonizador as aldeias se concentravam em
espaços menores e se movimentavam como um todo com os seus caciques,
pois eram raríssimas as desavenças entre os chefes índios.
No Século XVIII, 1749, registram-se aglomerados de até 80 famílias à
margem da Lagoa Mirim; eram os Minuano dirigidos por Tacu, Casildo e mais
três caciques, devendo cada um morar numa aldeia com os seus chefiados.
Para o século XIX podemos exemplificar com os 647 Charrua reunidos sobre a
margem oriental do Rio Uruguai ou das duas aldeias próximas do Rio Quaraí
com 32 e 42 ranchos respectivamente.
Nessa organização social dos Charrua e Minuano transparecem
claramente as diferenças entre os sexos. Entre os primeiros elas começavam
com o nascimento e chegavam até a morte. Logo após o parto, ou passados
alguns dias, o menino charrua recebia a insígnia viril - o barbote - ou tembetá
introduzido por sua mãe no lábio inferior. De uso diário, o tembetá era somente
retirado para ser substituído por outro maior de acordo com o próprio
crescimento.
A passagem da infância para a idade adulta era marcada por um
grande cerimonial quando pintavam o rosto com traços e disposições diferentes
para os dois sexos e grupos.
Vários outros aspectos diferenciavam o sexo no dia-a-dia dos Charrua.
Até mesmo na maneira de montar o cavalo, em pelo entre os homens,
enquanto as mulheres montavam sobre arreios bem simples. Na guerra,
quando o homem só possuía um cavalo era ele quem montava e sua mulher
seguia-o a pé, carregando filhos e pertences.
A organização política teve sua base nos Chefes de família, membros
do Conselho de Aldeia que evoluiu para o Cacicado já bastante destacado nos
séculos XVII e XVIII.
Os caciques tiveram grande representatividade e influência pelo
número de índios à sua disposição, pelas negociações que realizavam com o
gado roubado durante boa parte da colonização e também pelos acordos e
tratados de paz feitos com as autoridades governamentais.
Nos últimos anos de sua história - século passado - o poder do cacique
tanto entre os Charrua como entre os Minuano tornou-se mais forte. A escolha
agora tem como pré-requisitos, entre outros de então, a audácia, o valor e o
consenso geral do grupo.
A chefia ou cacicado assim constituído, ainda que não fosse
hereditário, tendeu a sê-lo como se pode ver na listagem dos aproximadamente
200 caciques para ambos os grupos desde o século XVI até meados do século
XIX. (Basile Becker, 1984:166 ss).
140

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O que Sobrou dos Índios Pré-Históricos do Rio Grande do Sul

Por sua vez, caracterizar a organização econômica dos Charrua no
século XVI só é possível como sendo a de um caçador, pescador e coletor
estacional. Aparentemente tiveram conhecimento de cultivos. A troca, se
existiu, seria in natura. Nos momentos de contato a economia, antes
controlada pelo Conselho de Aldeia, muda em razão da introdução do gado.
A transformação imposta por tais elementos - eqüinos e bovinos atinge a estrutura dos Charrua e Minuano a começar pelos hábitos alimentares.
A carne de gado substituiu a caça selvagem; a caça e a pesca, em grande
consumo, passa a ser substituída por apreensão do gado em volume
crescente, possibilitando a cria de alguns exemplares. Com isso o sistema de
negociações fica totalmente afeto aos Caciques.
Passando esse espaço de relativa estabilidade econômica ambos os
grupos entram numa economia de crise, alicerçada no roubo de gado e nos
resultados decorrentes dos trabalhos prestados ao branco nas formas antes
citadas. Entre os Minuano acreditamos em maiores possibilidades, de vez que
aprenderam com os Guarani do Litoral o cultivo da mandioca, trabalho que
ficou ao encargo das mulheres, assim como a transformação da mesma em
produtos de consumo alimentar.
O instrumental de uso diário, quer de atividade doméstica, como da
caça e guerra, evoluiu da mesma forma. Transformam-se as pontas de flecha
inicialmente feitas de madeira, osso e pedra em pontas de ferro ou aço, agora
ao seu alcance. As bolas de boleadeira, antes usadas na caça ao avestruz de
modo especial, mantém-se para a apreensão do gado; com muitas formas elas
são usadas na guerra no decorrer dos séculos. A esse instrumental de guerra
se faz necessário agregar o uso da lança e outros tipos chegados com a
colonização.
Como referência sobre o vestuário podemos dizer que os Charrua e
minuano nunca se vestiram muito, sendo poucas as diferenças entre os dois
grupos. As vestes podem ser resumidas em um pequeno saiote para as
mulheres e para os homens numa espécie de capa. Eram feitas de pele de
animais selvagens curtida com gordura de peixe.
Com o contato passam a utilizar o couro bovino, curtido com a própria
gordura. Apresenta diferenças maiores no estilo; entre elas se destacam alguns
tipos semelhantes a pequenos capotes que usam com o pelo em contato com o
corpo, quando faz muito frio ou, o caiapí que possivelmente teria resultado no
chiripá gaúcho; era mais usado pelos Minuano. Quando do contato mais efetivo
com o colonizador, quase na fase final, começam a usar o poncho de lã ou
algodão, conseguido por troca ou presente mesmo com os Guarani
missionados.
Sem grandes acessórios, o vestuário parece ter empobrecido como
conseqüência das correrias às quais foram sujeitos.
Na guerra ou na pilhagem, atividades de grande importância durante o
período colonial, decorrência do mesmo, os Charrua e Minuano usavam de
Documentos 5, Ano 2006

141

Ítala Irene Basile Becker

táticas que em síntese, não mudaram muito. Entre elas pode-se destacar os
cuidados na observação do inimigo, as formas de ludibriá-lo com as mudanças
de direção, a movimentação parcial de seus homens e cavalhadas, a própria
forma de montar, a previsão certa da hora do ataque feita em geral antes do
amanhecer e, especialmente, a transferência das famílias para dentro da mata
praticamente inacessível ao branco.
Essas atividades, que no decorrer dos três séculos do contato, se
tornaram vitais e freqüentes, não teriam sido assim no século anterior. Nessa
época moviam guerra aos grupos vizinhos com o objetivo de fazerem
prisioneiros, o que fizeram também contra os agricultores Guarani e Chaná,
que eram depois negociados com os espanhóis do lado argentino. Nunca
porém as guerras objetivaram a conquista de novos territórios, talvez porque a
propriedade da terra era apenas usufrutuária. Contentavam-se, em geral, com
uma só vitória retirando-se do campo de luta permitindo ao inimigo recobrar
suas forças. Por sua vez, os resultados materiais da luta pertenciam a quem os
conseguia; quando fossem mulheres e crianças integravam-nas à família com
determinados direitos e deveres até a idade núbil.
As decisões de guerra nos períodos iniciais ficavam entre os Minuano
ao encargo dos chefes de família que convocavam os grupos por meio de
fogueiras ou da simples fumaça. Posteriormente as decisões cabem ao
Conselho da aldeia e finalmente à coordenação dos Caciques.
Informações de Antônio Diaz para a década de 1812 nos dizem que:
"Em seus dias mais belicosos quando iam lutar ou quando sabiam que o
inimigo estava perto, o cacique os formava a cavalo em ala e os proclamava
com uma longa conversa em que expunha as injúrias e agravos recebidos e
lhes recordava as glórias de seus maiores, com as suas próprias façanhas e
feitos d'arma. Cada vez que a proclamação os incitava ou impelia à desforra, o
cacique movia a lança agitando-a com força e em toda a linha se alçava grande
gritaria prometendo todos lutar com valor.
"Enquanto durava sua alocução ou proclamação, as mulheres se
punham em fila, atrás dos homens, como a umas vinte varas e estavam
cantando não se sabe o que; supondo porém que seria uma canção para
animar os combatentes."
As mesmas táticas se observam até os últimos encontros dos Charrua
e Minuano contra as forças do General Frutuoso Rivera, quando foram
praticamente destroçados nos traiçoeiros combates.
A cultura espiritual dos Charrua e Minuano parece estar mais ligada ao
curandeirismo. Os seus feiticeiros, geralmente em estado de transe pela
absorção de ervas, de modo especial da erva-mate, atuavam nos mais
variados momentos; diziam que sua força dominaria mesmo os elementos da
natureza. Acreditavam igualmente num ser superior, maléfico de onde lhes
vinham todas as desgraças.

142

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O que Sobrou dos Índios Pré-Históricos do Rio Grande do Sul

Este aspecto cultural se explica. Há poucas noticias a respeito de suas
idéias religiosas. Em suas borracheiras - que evidentemente eram cerimônias
religiosas - invocavam um ser superior que alguns jesuítas chamavam "diabo"
que às vezes se lhes mostraria visível.
Parece que acreditavam na
ressurreição da alma e por dedução, na imortalidade da mesma.
A morte parece ter sido encarada como um fato natural. Poucas são
as informações para o fato em si, como para os rituais que a acompanham.
Certo é, porém, que não deixavam seus mortos insepultos, mesmo em
situações de guerra.
Já durante os primeiros contatos foi localizado pelos cronistas um
cemitério nas proximidades de Maldonado (Uruguai); eram 30 os corpos ali
enterrados em covas separadas e junto às mesmas estavam todos os
pertences individuais, única forma de propriedade privada.
Todos, indistintamente, eram enterrados em covas rasas, cobertas com
pedras ou ramas. Sobre esse pequeno acúmulo eram colocadas as
boleadeiras; a lança ficava plantada no lado oposto ao qual deixavam o cavalo.
Informações de outros autores dizem que o cavalo era sacrificado sobre a
sepultura por desejo expresso de seu dono.
O luto se destacou como a expressão mais representativa neste
aspecto da vida Charrua e Minuano; sua importância era proporcional ao status
do morto e implicava em obrigações diferenciadoras de sexo e parentesco. Se
o morto era o pai, marido, ou irmão que houvesse desempenhado chefia
familiar, os filhos, viúva e irmãs casadas, cortavam uma falange da mão,
começando pelo dedo minguinho. Além disso faziam com a lança do morto
vários cortes espalhados pelo corpo, ficando, depois durante duas luas, tristes,
ocultas em suas casas, comendo apenas determinados alimentos. Entre as
mulheres minuano o sentimento de luto era manifesto ainda pelo corte das
extremidades do cabelo. Entre os Minuano o luto era feito pelas filhas adultas,
não para seu pai de sangue, mas para aquele que as criara.
Os maridos não faziam luto por suas mulheres nem os pais por seus
filhos. As obrigações de luto no sexo masculino eram para os filhos adultos e
começavam logo depois do desenlace; com um ritual bastante longo e
sacrificado finalizava por mutilações passageiras, provocadas pela introdução
de estiletes pontiagudos nos membros superiores desde os pulsos até as
paletas. Completam esse sacrifício com um recolhimento de aproximadamente
dez dias durante os quais observavam rigoroso jejum comendo unicamente
ovos de perdiz que seus companheiros lhes alcançavam. Entre os minuano a
diferença nesse tipo de luto está nos estiletes feitos com espinhas de peixe em
substituição aos de madeira.
Todos estes aspectos da cultura charrua e minuano, somados ao seu
caráter indômito, explicariam empecilhos para a adaptação aos colonizadores
nos mais diferentes momentos e sob as mais diferentes formas.

Documentos 5, Ano 2006

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Documentos 5, Ano 2006

145

Ítala Irene Basile Becker

Santa Catarina

ARGENTINA

B
A

C

30º

Rio Grande do Sul

TI
CO

URUGUAI

Pontos de atrito

Estrada Pontão-Caí-Porto Alegre
Limites

O
O
CE
AN

Postos (1848-1965)

AT

N

Área de colonização alemã
Área dos caciques: A - Fongue
B - Nonoay
C - Braga

0

100 km

Mapa 1: localização das tribos Kaingang, dos pontos de atrito com a população
nacional e dos pontos nos quais foram aldeados.

146

Arqueologia do Rio Grande do Sul

O que Sobrou dos Índios Pré-Históricos do Rio Grande do Sul

SANTA
CATARINA
RIO GRANDE DO SUL

Ri o

Ur
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ARGENTINA

Rio

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Rio Jacuí

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Qu
ar


L.

Pa
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Ri

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N

URUGUAY
L.

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Ri

Mi
rim

Rio Grande
ro
eg

O ÍNDIO DO CAMPO MERIDIONAL
Áreas de atuação do
grupo Minuano
Áreas de atuação do
grupo Charrua

Colônia
Montevidéo

Mapa 2: localização dos Charrua e Minuano, no Rio Grande do Sul e no
Uruguay.

Documentos 5, Ano 2006

147

ALIMENTOS UTILIZADOS PELO HOMEM NA
PRÉ-HISTÓRIA
André Luiz Jacobus

Introdução
Este texto trata das relações que o homem pré-histórico, que ocupou o
atual território do Rio Grande do Sul, mantinha com os animais e vegetais para
a sua alimentação. É uma síntese de nossas análises de milhares de restos de
animais e vegetais recuperados em sítios arqueológicos, bem como daquelas
publicadas por outros pesquisadores. Como está explícito no título, aborda
somente a questão da alimentação, pois a confecção de artefatos com matéria
prima orgânica foi tratada nos capítulos que antecedem este apêndice.
Se nos sítios arqueológicos as condições de conservação forem
favoráveis, é possível recolher restos de animais e vegetais. A análise
(quantificação e identificação) desses restos permite entender os padrões de
alimentação das populações pré-históricas, bem como reconstituir o ambiente
pretérito. Com ela também podemos conhecer as relações entre os homens e
os animais e vegetais, que com eles conviveram na pré-história, como atuaram
entre si e como seus padrões de adaptações mútuas mudaram através do
tempo.
Os restos de vegetais mais comuns de aparecer são os frutos lenhosos
(coquinhos) e as sementes. Os de animais são os ossos, muito quebrados para
o aproveitamento do tutano ou trabalhados para a confecção de artefatos, os
dentes, as conchas e as carapaças (crustáceos).
Entende-se como grupos caçadores-coletores as populações com
padrão de alimentação predominantemente de caça e coleta, que compreende
a caça de répteis, aves e mamíferos de qualquer tamanho e ambiente, a pesca
de peixes, a coleta de moluscos, de insetos e suas larvas, de crustáceos, de
mel de abelhas silvestres, de ovos e de vegetais e seus produtos. Dependendo
do ambiente e do padrão cultural, um grupo de caçadores-coletores irá
acentuar uma ou mais destas atividades, não necessariamente realizando
todas as aqui enumeradas. Na maioria dessas sociedades a coleta de vegetais
e pequenos animais e seus produtos contribui em cerca de oitenta por cento da
alimentação, atividade esta desenvolvida por mulheres e jovens. Pode ocorrer
o plantio de vegetais úteis como alimento, medicamento, atrativo para a caça e
fonte de matéria prima para diversos fins, não domesticados, no ambiente
explorado.
Entende-se como grupos horticultores aquelas populações com padrão
de alimentação predominantemente baseado no cultivo de vegetais
domesticados, sem a utilização de arado e adubo, pois o uso desses itens
Arqueologia do Rio Grande do Sul, Documentos 5, 149-164. São Leopoldo : IAP, 2006.

André Jacobus

caracteriza grupos agricultores. Os horticultores necessariamente caçam e
coletam, pois somente os vegetais domesticados não forneceriam as proteínas
essenciais à sobrevivência do organismo.
Para que os caçadores pré-históricos obtivessem sucesso
necessitavam desenvolver suas estratégias de caça, bem como suas armas e
armadilhas de acordo com a disponibilidade relativa dos animais e com a
relativa dificuldade de capturá-los. As variáveis que influem na disponibilidade
relativa da caça são o tamanho, isto é, seu comprimento e peso e o padrão de
agregação, ou seja, se a caça vive sozinha, aos pares ou em grupos. Quanto à
relativa dificuldade de capturar a caça as variáveis consideradas são: o ciclo de
atividade diária, isto é, se o animal é ativo de dia, de noite ou no crepúsculo; o
comportamento de defesa, se o animal se imobiliza, esconde, foge ou ataca; o
local de alimentação e descanso, se é subterrâneo, terrestre, arbóreo, aquático
ou aéreo e o ambiente em que vive (deserto, campo, lago, rio, mar, floresta
temperada, floresta tropical, etc.) (Lustig-Arecco, 1979:39-60 e 1985:45-73;
Hesse e Wapnish, 1985:12).
A análise de restos de animais e vegetais encontrados em sítios
arqueológicos requer tempo, paciência e visão crítica, além de uma boa
coleção de espécimes recentes e bibliografia especializada. Há nove anos
iniciamos esta tarefa e temos recebido o auxilio de muitos amigos e
instituições. Gostaríamos de registrar aqui a gratidão ao Instituto Anchietano de
Pesquisas, ao CNPq e à CAPES pelas bolsas concedidas. Ao professor Pedro
Ignácio Schmitz pela orientação fornecida durante estes anos. Aos amigos que
contribuíram para o crescimento de nosso trabalho, e principalmente àqueles
que deram valiosas sugestões para a melhoria deste texto, cujo original foi
escrito em 1986. Um agradecimento especial cabe ao amigo Werlei Leonel
Mazouhy Gomes, que tão dignamente acolheu nossas sugestões enquanto
elaborava meticulosamente as figuras que ilustram este texto. Agradecemos ao
amigo Jairo Henrique Rogge que tão paciensiosamente legendou aquelas
figuras.
1. Os Primeiros Povoadores
Como primeiros povoadores denominamos os grupos de caçadorescoletores que aqui viveram entre cerca de 11.000 e 6.500 anos antes de Cristo.
Este intervalo de tempo corresponde ao final da última glaciação mundial e ao
início do período interglacial que atualmente vivemos. Abordamos aqui os
animais que conviveram com e que, possivelmente, foram caçados e coletados
por aqueles grupos. São desconhecidos restos de animais e vegetais que
indiquem o seu uso pelos primeiros povoadores do Estado.
Os animais que com eles conviveram são conhecidos através de
fósseis, encontrados em sedimentos relativos àquele período. De concreto o
que se conhece, são fósseis de moluscos e mamíferos, a maioria desses de
grande porte, conhecidos como megamamíferos ou megafauna. Mesmo não
sendo conhecidos fósseis, é certo que aqui viviam insetos, crustáceos, peixes,
150

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Alimentos Utilizados pelo Homem na Pré-História

anfíbios, répteis e aves semelhantes aos atuais, que poderiam ter sido
utilizados pelos primeiros povoadores. A maioria dos mamíferos que hoje vivem
no Estado, já existiam naquela época. Fósseis de puma, capivara, anta, porcodo-mato, lhama, cervo-do-pantanal, veado-campeiro foram encontrados em
sedimentos correspondentes àquele período.
São conhecidas dezoito espécies de megamamíferos, muitas delas
tendo sido abundantes no Estado. Possivelmente todas chegaram a conviver
com os homens. Não se sabe a época de extinção de muitas delas em nosso
território, mas a julgar pela sua presença em sítios arqueológicos da Argentina,
datados de até seis mil anos antes de Cristo, acredita-se que também viveram
no Rio Grande do Sul nesse período. Descreveremos, a partir dos dados
publicados por Bombin (1975), Cartelle (1983), Cuisin (1979), Mendes (1977) e
Paula Couto (1979), estas espécies de megamamíferos. As cinco figuras que
ilustram o texto fornecem a visão da possível forma destes magníficos
mamíferos extintos, baseada em seus esqueletos e na forma de espécies
atuais aparentadas com aquelas. Nas figuras todos os animais foram
desenhados na mesma escala, para apreciar seus tamanhos em relação ao
homem, que foi representado como tendo 1,75 m, o que seria uma pessoa alta
para os padrões da época.
Aqui existiram cinco espécies de preguiças-terrestres; eram
semelhantes às preguiças atuais, de hábitos terrestres e atingiam
comprimentos de dois a seis metros. O corpo era coberto de pelos grosseiros,
como os das preguiças e tamanduás. Andavam sobre as quatro patas, que
eram torcidas, apoiando-se no solo com a face externa dos pés e com o dorso
das mãos. Disso resultava uma marcha pesada e lenta. Quando se erguiam
para comer folhas de árvores se apoiavam nas patas traseiras e na cauda
musculosa. O notrotério (Figura 1.2) tinha cerca de 2 m de comprimento, as
mãos tinham três dedos e os pés cinco, com garras estreitas e compridas.
Possivelmente treparia em árvores, para comer suas folhas. O selidotério
(Figura 2.1) tinha aproximadamente 2,5 m de comprimento e 1 m de altura no
garrote. A cabeça era alongada e as patas tinham quatro dedos. O glossotério
(Figura 5.1) com cerca de 3,5 m de comprimento era semelhante ao notrotério
e tinha três dedos em cada pata. Era uma espécie abundante no Estado. O
lestodonte (Figura 1.4) com 4,5 m de comprimento tinha o focinho muito
alargado e também era abundante aqui. O megatério (Figura 2.4) com cerca
de 6 m de comprimento, tinha o crânio, a mandíbula e os dentes semelhantes
aos de uma preguiça e a coluna vertebral e os membros semelhantes aos de
um tamanduá. Alimentava-se de folhas, brotos, caules de gramíneas e ramos
de árvores, bem como de raízes volumosas. Sua cauda era robusta e
musculosa. As mãos tinham quatro dedos, três deles dotados de garras e os
pés tinham três dedos, um deles com uma grande garra.
No Rio Grande do Sul viveram três espécies de gliptodontes, que eram
animais semelhantes aos tatus, com comprimentos de dois a quatro metros e
Documentos 5, Ano 2006

151

André Jacobus

meio. Possuíam uma carapaça não articulável, a cauda e a cabeça também
eram protegidas por placas rígidas. O gliptodonte (Figura 3.2) tinha cerca de 2
m de comprimento e 1,5 m de altura, com a carapaça muito espessa e
bombeada. A cauda era protegida por uma série de anéis móveis, com
diâmetros progressivamente menores, em direção à extremidade, terminando
em um curto tubo. A mão tinha quatro dedos com garras longas e fortes, o pé
tinha cinco dedos. O crânio era alto, largo e curto, a mandíbula alta.
Alimentava-se de vegetais e possivelmente de pequenos animais. Era uma
espécie abundante no Estado. O panocto (Figura 2.2) com aproximadamente
2,5 m de comprimento, tinha a carapaça bombeada, espessa e alongada, com
prolongamentos laterais na parte anterior. A cabeça era protegida por um
casquete convexo. A cauda tinha sete anéis de diâmetros decrescentes até a
extremidade, terminada por um tubo robusto, longo e muito achatado
lateralmente, provido de quatro grandes verrugas laterais, de cada lado. As
patas tinham quatro dedos e o crânio era alto e estreito. O dedicuro (Figura
1.1) com cerca de 4,5 m de comprimento e 1,5 m de altura, tinha a carapaça
hemisférica e alta. A cauda era longa, na base tinha sete anéis móveis e
terminava por um tubo de 1,3 m de comprimento, muito achatado e engrossado
na ponta por uma clava de espinhos córneos. A mão tinha três dedos e o pé
quatro. Aqui também viveu uma espécie de tatu-gigante, o pampatério (Figura
4.4), semelhante ao tatu-canastra, mas bem maior. Tinha cerca de 3 m de
comprimento.
A única espécie de carnívoro que aqui viveu, por nós conhecida, é um
representante dos felídeos, o esmilodonte (Figura 5.2), também conhecido por
tigre-dentes-de-sabre. Era bem maior do que um leão, atingindo 3,5 m de
comprimento. Tinha os membros anteriores bem mais robustos que os
posteriores, indicando um modo de captura das presas diferente do utilizado
pelos grandes felídeos atuais. Os dentes caninos superiores eram arqueados e
em forma de sabre bi-gume nos seus terços terminais. Tinham cerca de 20 cm
de comprimento e seus rebordos eram afilados e finamente serrilhados. A
mandíbula se abria até a vertical, de modo que os caninos superiores poderiam
ser usados como punhais.
Uma espécie que atualmente não tem nenhum representante do
mesmo grupo era a macrauquénia (Figura 3.1). Lembrando ao mesmo tempo
um cavalo e uma anta, tinha 3,5 m de comprimento e 1,5 m de altura no
garrote, sua cabeça apresentava uma pequena tromba. As patas tinham três
dedos e eram adaptadas a uma vida em regiões pantanosas e margens de
lagoas e mal adaptadas à corrida. Outra espécie que não tem representantes
atuais era o toxodonte (Figura 4.3), que lembrava um rinoceronte na aparência
e um hipopótamo nos hábitos. Tinha cerca de 4,5 m de comprimento e uma
notável corcova dorsal. Seus membros eram curtos e maciços, colunares, os
anteriores mais curtos que os posteriores e as patas tinham três dedos. Foi
uma espécie abundante no Estado.
152

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Alimentos Utilizados pelo Homem na Pré-História

Aqui viveram duas espécies de mastodontes, animais semelhantes aos
elefantes. O estegomastodonte (Figura 3.3) com cerca de 3,5 m de altura no
garrote e defesas quase retilíneas com 1,5 m de comprimento. O
haplomastodonte (Figura 4.2) tinha aproximadamente 2,5 m de altura no
garrote e defesas curvadas para cima com 1,3 m de comprimento.
No Estado viveram duas espécies de cavalos, uma pequena, o hipídio
(Figura 2.3), que era menor e mais pesado que um cavalo atual e
provavelmente vivia em ambiente montanhoso, e uma maior, o cavalo
americano (Figura 1.3), que era semelhante na forma e no tamanho ao cavalo
atual.
Aqui viveu um antepassado da lhama, a paleo-lhama (Figura 5.3), que
tinha cerca de 2.7 m de comprimento e 1,5 m de altura no garrote. Um
cervídeo, o morenelafo (Figura 4.1), que era semelhante na forma e no
tamanho a um cervo-do-pantanal, só que sua galhada era mais ramificada.
Em um sítio, pesquisado por Eurico T. Miller (1987), que indicaria a
presença dos primeiros povoadores do Estado, foi encontrado um crânio
extremamente fragmentado, atribuído ao glossotério, que forneceu uma data
de radiocarbono de 10.820 anos a.C. Até o momento não ficou provado que
este crânio estivesse associado aos vestígios arqueológicos desse sítio, o que
possibilitaria a dedução da sua captura pelos ocupantes do mesmo. Apenas se
sabe que estavam no mesmo nível. Outro detalhe que torna questionável a
captura do glossotério, pelos fabricantes daqueles artefatos líticos, é o fato de
ter sido encontrado somente o crânio, faltando a mandíbula e outros ossos de
seu esqueleto. O crânio não apresenta inquestionáveis marcas de corte,
produzidas por artefatos líticos, que apareceriam se o animal tivesse sido
descarnado por aqueles homens que ocuparam o local. No entanto, podemos
deduzir que houve a captura de animais, não necessariamente
megamamíferos, pelos primeiros povoadores do Estado. Outros sítios
pesquisados por Miller, situados nesse período, apresentam pontas-de-projétil
líticas, que são indícios inquestionáveis da realização de caçadas.
2. As Culturas sem Cerâmica
A partir do quinto milênio antes de Cristo o Estado foi progressivamente
ocupado por grupos de três culturas com tradições tecnológicas bem definidas,
nenhuma delas possuindo artefatos de cerâmica. As mesmas são descritas no
capítulo "O Mundo da caça, da pesca e da coleta", neste volume.
Da tradição Humaitá são desconhecidos, no Estado, restos de
alimentos, o que impede que se tenha uma visão mais precisa dos padrões de
alimentação dos portadores dessa cultura. Mas um sitio com vestígios
arqueológicos dessa tradição, encontrado na Província de Misiones (República
Argentina), forneceu restos de animais, que possibilitam a dedução de como os
grupos Humaitá do Estado usavam os animais. Segundo Rizzo (1968:13-14)
Documentos 5, Ano 2006

153

André Jacobus

foi constatada a captura de anta, veado-mateiro, de moluscos bivalves de água
doce e de aruá-do-mato (o grande caramujo comum nas hortas).
Dos recursos para a alimentação os indivíduos dessa tradição
disporiam de animais aquáticos e terrestres das mesmas espécies que ocorrem
no Estado e daquelas que ocorriam até o final do século passado. Também
disporiam de larvas de insetos, dos ovos de diversas aves e répteis, bem como
do mel de abelhas nativas. Dos recursos vegetais disporiam, além de folhas e
raízes, de cerca de setenta espécies de frutos nativos, que da listagem de
Mattos (1978) podemos citar os seguintes: quaresma, jabuticaba, cereja,
pitanga, guabiroba, goiaba, maracujá, butiá, jerivá, tucum, pinhão, tuna ou figoda-india e tarumã. Estes recursos animais e vegetais, distribuídos em diversos
ambientes, também estariam à disposição dos grupos de outras tradições précerâmicas, bem como aos das populações ceramistas.
Da tradição Umbu portadora de típicos artefatos para a caça, as
pontas-de-projétil e as bolas-de-boleadeira, são relativamente abundantes os
restos de alimentos encontrados nos sítios, principalmente naqueles situados
em abrigos-sob-rocha e em aterros. Dos restos vegetais são escassos os
materiais encontrados, quase sempre são coquinhos de jerivá ou butiá.
Antes de comentar a respeito dos restos de animais, por nós
analisados, recuperados em sítios das tradições que ocorreram no Estado,
devemos ressaltar algumas questões. Os percentuais dos restos de animais
indicam sua proporção relativa porque estão baseados no número total de
fragmentos identificáveis, e não no número de indivíduos capturados ou no
total dos restos recuperados. Isto é, nos baseamos na quantificação daqueles
fragmentos que possibilitaram a identificação do tipo de animal a que
pertencem. Esta proporção torna-se relativa porque alguns animais podem ter
seu esqueleto muito mais fragmentado do que outros, quer pela ação dos
homens pré-históricos quer pela ação dos sedimentos do sítio. O cálculo do
número de indivíduos capturados, pelos animais vertebrados, é muito
complexo, pois que se consegue ter a certeza da espécie animal à qual, um
fragmento pertence, quando esta faz parte de um gênero com mais de uma
espécie. Normalmente é possível identificar até o nível de família. Isto ocorre
devido ao escasso conhecimento do esqueleto dos animais que ocorrem no
país, divulgado pelos zoólogos. A identificação dos restos de aves é ainda mais
problemática, porque seus ossos são muito semelhantes entre os diferentes
grupos e também porque não se conservam com a mesma facilidade do que os
de outros vertebrados. Já para os invertebrados, no caso os moluscos e
crustáceos, esse cálculo é facilitado pelo tipo de restos recuperados, conchas
para os primeiros e pinças (dáctilo móvel e fixo) para os segundos.
Ao analisarmos um amostra de restos de animais encontrados em um
sitio de abrigo-sob-rocha, da tradição Umbu, localizado no vale do rio Maquiné
em Osório, identificamos cerca de 400 ossos de mamíferos e algumas dezenas
de outros animais. Quantativamente os mamíferos estavam assim
representados: 46% de tatus, 29% de cervídeos (veado-campeiro e veado154

Arqueologia do Rio Grande do Sul

Alimentos Utilizados pelo Homem na Pré-História

mateiro), 13% de carnívoros (graxaim, gato-do-mato e lontra), 6% de roedores
(preá, cutia, ratão-do-banhado e ouriço-cacheiro), 3% de porco-do-mato-cateto,
2% de anta, 2% de bugio e 0,5% de gambá. Também identificamos restos de
cágados, lagartos, peixes, aves e moluscos (aruá-do-mato, um bivalve de água
doce e seis espécies marinhas) (Jacobus, 1985:64-65 e 70). Certamente os
mamíferos mais capturados foram os cervídeos, pois segundo os registros da
escavação do sítio, (Miller, 1969), havia muitas tocas de tatus. Provavelmente
esses animais também foram caçados pelos ocupantes do sítio, mas a maioria
dos restos estavam inteiros, e não quebrados como acontece com restos de
alimentação, indicando que morreram no próprio sítio.
Dessa tradição também foram analisados alguns restos de alimentação
de um sítio em abrigo-sob-rocha, localizado no vale do rio Caí (Ribeiro, 1972).
Foram identificados restos de anta, veados, porcos-do-mato, tatus, graxaim,
jaguatirica, ovos de ema, lagartos e moluscos (uma espécie terrestre, o aruádo-mato, quatro de água doce e trás marinhas). Certamente serão identificadas
muitas outras espécies quando os restos de alimentos, cerca de 53 quilos,
recuperados nesse sitio sofrerem um real tratamento qualitativo e quantitativo.
De um sítio de aterro, da tradição Umbu, localizado junto ao arroio Chuí
em Santa Vitória do Palmar, analisamos cerca de 130 restos de animais. Os
mamíferos estavam assim distribuídos: 88% de cervídeos (veado-campeiro e
veado-mateiro), 11% de roedores (preá e ratão-do-banhado), 1% de tatus e 1%
de graxaim. Identificamos também alguns restos de miraguaia e de aves
(Jacobus, 1-985:64-65 e 69; Jacobus e Gazzaneo 1988).
Em dois sítios de aterro, localizados em Rio Grande, foram
identificados, por Maria Helena Abraão Schorr (1975:43-61), cerca de cinco mil
e duzentos restos de alimentos. Este total estava assim distribuído: 96% de
peixes (corvina, bagre, castanha e miraguaia), 1,5% de aves (espécies não
identificadas), 1% de crustáceos (siri-azul e siri-da-areia), 1% de moluscos
(espécies não identificáveis) e 0,5% de mamíferos (preá, ratão-do-banhado e
outras espécies não identificadas). observamos que esta quantificação é de
todos os restos de animais recuperados nos sítios, e não somente aqueles
identificáveis. A proporção de aves na realidade é muito menor, pois a maioria
dos restos são de répteis e outros de mamíferos (Jacobus e Gazzaneo, 1988).
Da tradição de caçadores-coletores litorâneos, os sambaquianos, são
abundantes os restos de alimentação, mas pouco conhecidos, pois a maioria
dos sítios pesquisados no Estado não tiveram seus dados publicados.
A equipe da PUC/RS realizou escavações em um grande sitio litorâneo
localizado em Itapeva (Torres). Analisamos cerca de 1.540 restos de animais
da primeira escavação, que totalizou 24 metros quadrados (Jacobus e Gil,
1987; Gazzaneo, Jacobus e Momberger, 1989). O sítio teve quatro ocupações,
das quais apresentamos os resultados das análises da segunda e terceira
ocupações. Do total de restos animais identificáveis da escavação, cerca de
980 (64%) pertenciam à segunda ocupação. os animais estavam assim
Documentos 5, Ano 2006

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André Jacobus

distribuídos: 93% de moluscos (aruá-do-mato e doze espécies marinhas), 5,5%
de peixes (miraguaia, corvina, bagre e castanha), 1% de mamíferos (veadocampeiro, cutia, lobo-marinho) e 0,5% de aves (pinguim-de-Magalhães e outras
espécies não identificadas). A terceira ocupação forneceu cerca de 375 (24%)
restos identificáveis, assim distribuídos: 47% de moluscos (nove espécies
marinhas), 32% de peixes (miraguaia, corvina, bagre e castanha), 15% de
mamíferos (anta, porco-do-mato-cateto, veado-campeiro, gambá, lobo-marinho
e ratão-do-banhado), 5% de aves (pinguim-de-Magalhães) e 1% de répteis
(cágado e lagarto). Note-se que considerando o peso dos animais capturados,
os moluscos não apresentam tanta importância como a proporção faz parecer.
3. As Culturas com Cerâmica
A região meridional do Estado foi ocupada, desde há dois mil anos
atrás, por uma cultura de tradição tecnológica possuidora de cerâmica,
denominada de tradição Vieira. Nos sítios dessa tradição são relativamente
abundantes os restos de animais, sendo raros os restos de vegetais.
Analisamos 83 restos de animais provenientes de quatro sítios de
aterro, dessa tradição, localizados em Camaquã (Jacobus e Gazzaneo, 1988;
Rüthschlling, 1989). Os restos estavam assim distribuídos: 58% de cervídeos
(veado-campeiro e cervo-do-pantanal), 31% de roedores (preá e ratão-dobanhado) e 11% de carnívoros (graxaim, lobo-guará, mão-pelada, lontra e
gato-do-mato).
Também analisamos os restos de animais de um sítio de aterro,
localizado junto ao arroio Provedores em Santa Vitória do Palmar. Foram
identificados 64 restos de animais, assim distribuidos: 94% de cervídeos
(veado-campeiro), 3% de gambá, 1,5% de graxaim e 1,5% de preá.
De três sítios de aterro, da tradição Vieira, localizados em Rio Grande,
foram analisados cerca de 107 mil restos de animais (Schorr, 1975:62-90).
Estes restos estavam assim distribuídos: 68% de peixes (corvina, bagre,
castanha e miraguaia), 17% de crustáceos (siri-azul e siri-da-areia), 6% de
aves, 5% de mamíferos (preá e ratão-do-banhado e outros não identificados) e
4% de Moluscos. As mesmas observações feitas para os sítios da tradição
Umbu, analisados por esta pesquisadora, servem para estes sítios.
O Planalto e as regiões setentrionais da Depressão Central e da
Planície Costeira foram ocupadas, desde há dois mil anos atrás, por grupos
portadores de uma tradição tecnológica possuidora de cerâmica, denominada
de tradição Taquara. Os restos de alimentos recuperados em seus sítios são
muito escassos.
Em dois sítios dessa tradição, localizados no vale do rio das Antas,
foram identificados restos de milho, pinhão e de porongos (Miller, 1971:45).
Em outro sitio, localizado no vale do rio Caí, entre os restos de animais foram
identificados os seguintes: anta, veados, porcos-do-mato, ratão-do-banhado,
cutia, tatus, lagartos, aves e moluscos (Ribeiro, 1975:13). Em sítios localizados
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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Alimentos Utilizados pelo Homem na Pré-História

no litoral, predominam os restos de moluscos bivalves de água doce
(comunicação pessoal de Jussara Louzada Ferrari).
Em todo o Estado as regiões, com uma altitude de até 400 m, que
ofereciam solos apropriados ao cultivo, foram ocupadas por populações com
uma tradição tecnológica possuidora de cerâmica, denominada de tradição
Tupiguarani. A grande maioria dos sítios são abertos, tornando quase
impossível a conservação dos restos de alimentos, sendo muito raros aqueles
que os apresentam.
Um sitio dessa tradição, localizado em Candelária, foi pesquisado pela
equipe do Museu do Colégio Mauá (Santa Cruz do Sul) e forneceu restos de
animais que totalizaram cerca de dez quilos, recuperados numa escavação de
353 metros quadrados. Os restos de mamíferos estão assim distribuídos: 42%
de cervídeos (veado-campeiro e cervo-do-pantanal), 16% de roedores
(capivara, paca, cutia, preá, ouriço-cacheiro e ratão-do-banhado), 13% de
primatas (bugio e mico), 10% de gambá, 5% de anta, 5% de porco-do-matocateto, 5% de carnívoros (gato-do-mato, mão-pelada, lontra, zorrilho, graxaim),
3% de coelho selvagem (tapiti) e 1% de tatus. Também aparecem restos de
peixes (corvina e bagre), de répteis (cágado, lagarto e jacaré), de aves, de rãs
e de moluscos (aruá-do-mato, uma espécie de água doce e uma marinha)
(Jacobus, 1985:64-65 e 70; Schmitz e outros, 1990:79-94).
Em outro sitio dessa tradição, localizado em Viamão, foram
identificados, entre mais de três quilos de restos de animais recuperados, os
seguintes mamíferos: veado-campeiro, cervo-do-pantanal, lontra, mão-pelada,
gato-do-mato, gambá, mico, preá, paca e porco-do-mato-cateto. Também
havia restos de aves, de lagartos e de bagre (Gazzaneo, 1990: 131-133).
Conclusão
Os grupos indígenas que ocuparam o Rio Grande do Sul, na préhistória, adquiriram as proteínas necessárias através de uma caça
generalizada, onde havia certas preferências, como por exemplo, de veados ou
de peixes. A captura de algumas espécies em vez de outras, poderia ser
determinada são somente pelos hábitos alimentares (tabus) dos diversos
grupos, mas também pelas disponibilidades e dificuldades de capturá-las.
Não havendo animais domesticados, que fornecessem proteínas
regular e seguramente, tanto os grupos caçadores-coletores e os horticultores
tinham uma economia predatória nesse sentido. O certo é que todas as
populações pré-históricas tinham um sistema de relacionamento com o
ambiente, que permitia a sua sobrevivência por dezenas de gerações, muito
mais eficientes do que aquele que apresentamos hoje, destruindo a fauna e a
flora do Estado.

Documentos 5, Ano 2006

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André Jacobus

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Figura 1: 1 - Dedicuro; 2 - Notrotério; 3 - Cavalo Americano; 4 - Lestodonte

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Figura 2: 1 - Selidotério; 2 - Panocto; 3 - Hipidio; 4 - Megatério

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Figura 3: 1 - Macrauquênia; 2 - Gliptodonte; 3 - Estegomastodonte

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Arqueologia do Rio Grande do Sul

Documentos 5, Ano 2006

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Figura 4: 1 - Morenelafo; 2 - Haplomastodonte; 3 - Toxodonte; 4 - Pampatério

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Figura 5: 1 - Glossotério; 2 - Esmilodonte; 3 - Paleo-lhama

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Arqueologia do Rio Grande do Sul