Pequena cronologia do desenvolvimento contábil no Brasil: Os primeiros pensadores, a
padronização contábil e os congressos brasileiros de contabilidade

Ivam Ricardo Peleias *
João Bacci**
Resumo
Este trabalho oferece uma retrospectiva
histórica sobre o desenvolvimento da
Contabilidade no Brasil, entre os séculos
XIX e XX, e contemplou: para o século
XIX, os movimentos iniciais para a
regulamentação e consolidação da
profissão contábil, a criação dos primeiros
cursos de ensino comercial, as obras
pioneiras editadas e a implantação de um
sistema de Contabilidade Pública em São
Carlos, Estado de São Paulo. Para a
primeira metade do século XX, abordou os
esforços pelo reconhecimento da profissão,
as primeiras discussões e ações para a
padronização contábil, e os Congressos
Brasileiros de Contabilidade. A pesquisa é
exploratória e descritiva, baseada em
fontes primárias e secundárias, trabalhos
acadêmicos, periódicos editados por
órgãos de classe e obras históricas. Busca
ilustrar a evolução da Contabilidade no
Brasil, apresentando cronologicamente as
primeiras ações para a regulamentação da
profissão e para o ensino comercial, as
contribuições de alguns pensadores
contábeis do século XIX e início do século
XX, as discussões e esforços na busca da
padronização contábil, e as contribuições
obtidas com os primeiros Congressos
Brasileiros de Contabilidade, oferecendo
um melhor entendimento sobre o
desenvolvimento histórico da profissão
contábil em nosso País.
Palavras-Chaves: profissão contábil no
Brasil, desenvolvimento contábil no Brasil,
padronização contábil e congressos
brasileiros de contabilidade.
Abstract
This work offers a historical retrospect on
the development of the Accounting in
Brazil, between centuries XIX and XX,

and contemplated: for century XIX, the
initial movements for the regulation and
consolidation of the countable profession,
the creation of the first courses of
commercial education, the pioneering
workmanships edited and the implantation
of a system of Public Accounting in Are
Carlos, State of São Paulo. For the first
half of century XX, it approached the
efforts for the recognition of the
profession, the first quarrels and action for
the accounting standardization, and the
Brazilian Congresses of Accounting. The
research is exploratória and descriptive,
based in primary and secondary sources,
academic, periodic works edited by
classroom
agencies
and
historical
workmanships. Search cronologicamente
to illustrate the evolution of the
Accounting in Brazil, presenting the first
actions for the regulation of the profession
and
commercial
education,
the
contributions of some countable thinkers
of century XIX and beginning of century
XX, the quarrels and efforts in the search
of the accounting standardization, and the
contributions gotten with the first Brazilian
Congresses of Accounting, offering one
better agreement on the historical
development of the countable profession in
our Country.
Key Words: accouting profession in
Brazil, countable development in Brazil,
accounting standardization and Brazilian
congresses of accounting.
* Professor Doutor do Curso de Mestrado
de Contabilidade e Controladoria da
Unifecap.
**
Mestre
em
Contabilidade
Controladoria pela Unifecap.

e

Ivam Ricardo Peleias - João Bacci

1 - Introdução
O desenvolvimento da Contabilidade sempre esteve associado à evolução da
humanidade. Esta associação é ressaltada e abordada por estudiosos, sob distintas
perspectivas. A opinião de alguns pensadores, e os aspectos por estes identificados são a
seguir apresentados:
Melis (1950:3) destaca que:
A Contabilidade, e sua principal e mais característica manifestação ­ a conta ­ é
tão antiga quanto é a civilização construída pelos homens ... A história da
Contabilidade é, em certo ponto, uma conseqüência da história da civilização,
tanto em suas vicissitudes como nas mais altas manifestações da referida
civilização, sobretudo no campo econômico.

Da mesma forma, Vlaemminck (1961:XIII) analisa o desenvolvimento histórico da
Contabilidade, estabelecendo uma correlação de sua evolução com a Economia:
A Contabilidade é indubitavelmente uma técnica auxiliar da Economia. Como
conseqüência aparece, se expande e se degenera ou se retrai ao compasso da
evolução econômica das civilizações, nas diversas regiões e distintas épocas de
sua história. Trataremos de nos manifestar sobre o paralelismo entre a evolução
econômica geral e a evolução de um dos métodos a serviço da economia das
empresas: a técnica das contas.

Para Iudícibus (1993:31):
em termos de entendimento da evolução histórica da disciplina, é importante
reconhecer que raramente o "estado da arte" se adianta muito em relação ao grau
de desenvolvimento econômico, institucional, e social das sociedades analisadas,
em cada época. O grau de desenvolvimento das teorias contábeis e de suas
práticas está diretamente associado, na maioria das vezes, ao grau de
desenvolvimento comercial, social e institucional das sociedades, cidades ou
nações.

Em obra de sua autoria, Sá (1997:16) informa que "A Contabilidade nasceu com a
civilização e jamais deixará de existir em decorrência dela; talvez, por isso, seus progressos quase
sempre tenham coincidido com aqueles que caracterizam os da própria evolução do ser humano".

Em trabalho de cunho histórico, Schmidt (2000:12) assevera que:
dentro de um aspecto arqueológico, a Contabilidade manifestou-se há quase dez
séculos, portanto, muito antes do próprio homem ter desenvolvido o espírito de
civilidade. Assim como o homem progrediu, a Contabilidade, como uma
ferramenta indispensável para o progresso da humanidade, perseguiu esse
progresso. A epítome do enredo evolutivo da Contabilidade leva ao desfecho de
que, assim como qualquer ramo do conhecimento intimamente relacionado com o
contexto social, a História do Pensamento Contábil (HPC) é produto do meio
social em que o usuário está inserido, tanto em termos de espaço como em termos
de tempo.

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Pequena cronologia do desenvolvimento contábil no Brasil: Os primeiros
pensadores, a padronização contábil e os congressos brasileiros de contabilidade
Provas do desenvolvimento da Contabilidade associado á evolução da sociedade são
as primeiras preocupações com o ensino comercial, o surgimento e a atuação dos pensadores
contábeis, os esforços e a necessidade de padronização (cuja conseqüência natural é
formulação de regras e a padronização das demonstrações contábeis), a criação dos órgãos de
classe e os eventos realizados por estes organismos.
Estes movimentos ocorreram também no Brasil, de forma embrionária nos séculos
XVI, XVII e XVIII1, e com maior intensidade a partir do século XIX2, principalmente pela
vinda da Família Real e como conseqüência de diversos acontecimentos históricos ocorridos
no País, em seus estágios políticos de Reino Unido, Império e República. Este artigo se
propõe a identificar cronologicamente as primeiras ocorrências no ensino comercial3 no
século XIX, o surgimento de pensadores contábeis brasileiros, as discussões pioneiras e as
primeiras ações para a padronização contábil e a realização dos Primeiros Congressos
Brasileiros de Contabilidade.
2 - Breve retrospectiva sobre o desenvolvimento profissional contábil no Brasil ­ do
século XIX à década de 20 do século XX
Os resultados obtidos com esta pesquisa indicam que os primeiros grandes
movimentos para a profissão contábil no Brasil ocorreram, no início do século XIX, com a
chegada da Família Real. Algumas ocorrências havidas neste século, julgadas relevantes para
este trabalho, serão a seguir apresentadas, em ordem cronológica4.
Os primórdios do estudo comercial no Brasil datam de 1804, quando José da Silva
Lisboa, intitulado Visconde de Cairu, faz publicar a obra "Princípios de Economia Política".
Este autor forneceria ainda outra contribuição no início do século XIX, a ser apresentada
seguindo a cronologia adotada.
Por meio de alvará publicado em 23 de agosto de 1808, cria-se a Real Junta de
Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação. Este documento determinou a adoção do
sistema de partidas dobradas, para controle dos bens. A adoção deste sistema teve como causa
principal o reconhecimento de seu uso pelos países da Europa.
O ano de 1809 apresenta dois fatos relevantes:
·

o primeiro, a promulgação do Alvará de 15 de julho, criando oficialmente o ensino de
Contabilidade no país, por meio das aulas de comércio, intituladas "aulas práticas";

·

o segundo, a apresentação, pelo Visconde de Cairu, de um sistema de Direito Comercial,
juntamente com a realização dos primeiros estudos sobre Economia Política no Brasil.

Em 1833, Estevão Rafael de Carvalho escreve a obra "A Metafísica da Contabilidade
Comercial", na qual divulgava o método das partidas dobradas, e propunha a elevação da
Contabilidade à condição de Ciência5. Segundo Ericeira (2003:54) esta obra teve ampla
divulgação; entretanto, não houve interessados em sua aquisição. A publicação em formato de
livro viria a ocorrer em 1837, ano no qual seu autor cumpria mandato como deputado federal.
Em 1846, por meio do Decreto no. 456, de 23 de julho, foi fixado o regulamento das
"aulas de comércio", com duração estabelecida em dois anos, e cujos exames finais
abordavam as disciplinas de Matemática, Geografia, Economia Política, Direito Comercial,
Prática das Principais Operações e Atos Comerciais. Este diploma legal alterou a
denominação das "aulas práticas" para "aulas de comércio".
A promulgação do primeiro Código Comercial Brasileiro por meio da Lei no. 556, de
25 de junho de 1850, trouxe a obrigatoriedade de as empresas manterem a escrituração
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contábil, seguirem uma ordem uniforme para os registros contábeis e o levantamento, ao final
de cada ano, dos balanços gerais.A determinação do uso das partidas dobradas reforça a
necessidade do ensino comercial, e em 1856 surge o Instituto Comercial do Rio de Janeiro,
que a partir e 1863 passou a oferecer a disciplina "Escrituração Mercantil", buscando
qualificar seus alunos ao exercício da escrituração contábil.
Em 22 de agosto de 1860 é promulgada a Lei no. 10836, que corrigiu alguns problemas
do Código Comercial de 1850, e determinou para as empresas da época, a obrigatoriedade de
publicar e de remeter ao governo, nos prazos e pelo modo estabelecido em seus regulamentos,
os balanços, demonstrações e documentos por este determinados. Esta lei foi regulamentada
pelo Decreto no. 2679, de 03 de novembro do mesmo ano, que definiu as datas máximas para
a publicação de balanços e para quais órgãos as empresas deveriam enviar as referidas
demonstrações contábeis. De acordo com Iudícibus e Ricardino Filho (2002:7) a Lei no. 1083
é de fato a primeira Lei das Sociedades por Ações no Brasil, e tornou públicos os padrões
contábeis nacionalmente adotados, até que a Lei no. 2627/40 apresentasse outras disposições.
Em 1870, o Decreto Imperial no. 4.475 reconheceu oficialmente a Associação dos
Guarda-Livros da Corte, tornando o guarda-livros uma das primeiras profissões liberais
regulamentadas no Brasil. Em 1890, a Escola Politécnica do Rio de Janeiro passa a oferecer a
disciplina "Direito Administrativo e Contabilidade", relacionada à escrituração mercantil,
associando, pela primeira vez no Brasil, a Contabilidade ao Direito.
Em 1884, em São Carlos, interior de São Paulo, o Cel. Paulino Carlos de Arruda
Botelho contrata o Engenheiro Estanislau Kruszynski, polonês de nascimento, para professor
de seus filhos. Kruszynski era um estudioso de Ciências Econômicas e profundo conhecedor
de Contabilidade, e coube a ele a primazia de iniciar nesta cidade cursos de Contabilidade
Agrícola, Mercantil e Industrial, baseados no método das partidas dobradas, e na teoria de
personalização das contas, conhecida como "Logismografia7" de Giuseppe Cerboni e
Giovanni Rossi.
Nesta cidade instalou-se em 1892, um sistema de Contabilidade pública8, de
característica patrimonial, financeira e orçamentária, usando o método das partidas dobradas,
delineado por Kruszynki para a Prefeitura Municipal, e executado por Carlos de Carvalho,
que primeiramente atuou como guarda­livros e posteriormente Contador da Municipalidade.
Mancini (1978:4) destaca este fato, relatado no "Almanaque de São Carlos" de 1894,
folhas 42 e 43, em artigo escrito pelo advogado e economista Cincinato Braga, ex-presidente
do Banco do Brasil, Promotor Público de São Carlos e deputado federal em várias
legislaturas. Parte do artigo é transcrita a seguir:
Até fins de setembro de 1.892 não tinha a nossa Câmara escrituração feita de
acordo com os preceitos da Contabilidade mercantil. Até esse tempo eram
apresentados mensalmente balancetes que davam tão somente conta da entrada e
saída de dinheiro no correr de cada mês, sendo, conseqüentemente, impossível
fazer-se idéia clara ou exata do movimento total da recebedoria.
Atendendo o grande desenvolvimento a que atingiu esta repartição, o Dr. Eugênio
de Andrade Egas, na qualidade de Intendente, resolveu organizar aí a
Contabilidade apropriada, na qual se desse conta de todos os negócios públicos.
Foi nomeado, pois, guarda-livros dessa importantíssima repartição o Sr. Carlos de
Carvalho, o qual, depois de haver prestado o devido compromisso, começou a
escriturar os livros hoje ali existentes, seguindo o método de partidas dobradas, e
apresentando mensalmente um balancete no qual figuram o ativo e passivo da
Municipalidade e do qual se vê claramente a marcha dos negócios públicos, isto
é, como se emprega o dinheiro do contribuinte.
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Pequena cronologia do desenvolvimento contábil no Brasil: Os primeiros
pensadores, a padronização contábil e os congressos brasileiros de contabilidade
Convém dizer que não havendo antes um método regular de escriturar livros, o
Sr. Carlos de Carvalho tomou como base um bem elaborado esquema
apresentado pelo hábil contabilista Ten. Estanislau Kruszynski, o qual calculara a
receita e a despesa da Municipalidade no primeiro trimestre do exercício de
1.892, adotando para esse importante e bem feito trabalho, o belo sistema de
escrituração usada na Itália, nas repartições públicas e conhecido pelo nome de
Logismografia de Cerboni, nome do seu inventor.

Em seu texto, Mancini relata que o método implantado por Kruszynski e
operacionalizado por Carvalho em São Carlos obteve pleno êxito e, no início do século XX
(por volta de 1905) foi implantado no Tesouro do Estado, por meio da reforma da escrituração
estadual. O mesmo sucesso ocorrido em São Carlos deu-se no Estado de São Paulo, e o
método tornou-se o padrão adotado no Brasil, com a criação da Contadoria Central da
República, em 1922.
A regulamentação da profissão contábil, a criação das primeiras instituições de ensino
comercial, e a aplicação da escrituração contábil nos negócios privados e públicos ofereceram
as condições para o surgimento de mais obras impressas sobre Contabilidade no País. Em
1897 surge "Curso de Escrituração Mercantil", editada por Antonio Tavares da Costa, citada
em diversos jornais do Rio de Janeiro, conforme apresentado por Mancini (1978:2):
Gazeta Comercial e Financeira ­ 24-07-1.897: sendo o primeiro trabalho neste
gênero que se apresenta no Brasil, não podemos deixar de lê-lo com a mais
religiosa atenção ....;
Jornal do Comércio ­ 15-08-1897: sôbre escrituração mercantil não existia obra
propriamente didática, mas um montão de coisas preparadas e amassadas para
guarda-livros feitos. Saber ensinar esta matéria, por meio de palavras é difícil, e
escrevê-lo, mais difícil ainda ...; ... é sabido que não existe em língua vernácula
livro algum sobre escrituração mercantil, por meio do qual possa qualquer
indivíduo preparar-se para o difícil e complicado cargo de livros ...;
Jornal do Comércio ­ 11-09-1897: o nosso comércio constituindo aliás uma
classe numerosa e respeitável, sofre muitas vezes a falta de competência de seus
auxiliares e estes por sua vez prejudicam-se individualmente pela ausência de um
preparo teórico-prático da escrituração mercantil e das matérias que mais
diretamente entendem com as operações mercantis. A causa deste estado é,
primeiramente, a falta de professores e, em segundo lugar, a de compêndios
próprios àquele fim ....

Merecem destaque outros divulgadores e defensores do pensamento contábil, a seguir
apresentados, que entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX
empenharam-se para o desenvolvimento e a consolidação da Contabilidade no Brasil:
·

Sebastião Ferreira Soares9, escritor e defensor da Contabilidade como uma ciência exata e
de informação, que em 1852 fez publicar, segundo ele próprio, a primeira obra nacional
sobre Contabilidade Pública no Brasil, intitulado "Tratado de Escripturação Mercantil por
Partidas Dobradas Aplicado às Finanças do Brasil";

·

Carlos de Carvalho, de tendências contistas, discípulo de Estanislau Kruszynski, autor da
obra "Estudos de Contabilidade", composta de quatro volumes, cuja segunda edição data
de 1915, foi um dos precursores do estudo da Contabilidade e divulgador de seus
aspectos práticos e científicos. "Estudos de Contabilidade" procurava demonstrar os
problemas relativos à escrituração contábil e da implantação do sistema de partidas
dobradas. Estas preocupações de Carvalho podem ser corroboradas pela afirmação de
Schmidt (2000:219):

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percebe-se a tendência contista de Carlos de Carvalho, pois sua principal
preocupação estava centrada no problema da escrituração contábil, especialmente
no que se refere à implantação do sistema de partidas dobradas.

·

Frederico Hermann Jr.10, de tendência patrimonialista, divulgava o pensamento
econômico-contábil, defendeu o patrimônio como objeto de estudo da Contabilidade e
propôs sua inclusão no quadro geral das Ciências11. Foi professor, membro fundador do
Sindicato dos Contabilistas de São Paulo, autor de diversas obras, atuou em grandes
empresas de sua época e fundou uma empresa de serviços contábeis nas áreas de
Contabilidade, Auditoria e Organização;

·

Francisco D'Auria, autor de várias obras, foi professor, escritor, membro fundador do
Sindicato dos Contabilistas de São Paulo, serviu aos governos estadual e federal,
participou da criação a FEA/USP. Defendeu filosoficamente a Contabilidade como
Ciências Pura, e possuía tendências patrimonialistas, o que pode ser atestado por meio da
citação de Masi (1958:8), apud Schmidt (2000:220):
sempre foi patrimonialista, não há dúvida, como se verifica pela leitura de sua
obra principal, denominada Primeiros Princípios de Contabilidade Pura12 que em
sua parte central, na sua opinião, revela-se patrimonialista.

Também em Mancini (1978:59) é possível verificar a tendência patrimonialista de
D'Áuria:
Francisco D'Auria, afirma que os elementos patrimoniais ativos, alem de
constituírem riqueza da administração, podem ser fonte de renda. Por esta razão
estão ligados à parte financeira da administração. A falta de vigilância destes
elementos pode ocasionar diminuição de riqueza ou renda, ou aumento de
despesa para os restituir à sua integralidade.

3 - Os esforços pioneiros pelo reconhecimento da profissão
3.1 ­ Os primeiros esforços
D'Áuria e Herrmann Jr. participaram ativamente no reconhecimento da profissão
contábil no País. Em suas obras, entendiam ambos ser a Contabilidade uma ciência. Além
deste posicionamento, contribuíram para a criação da "Revista Brasileira de Contabilidade"
em 16 de dezembro de 1911. O primeiro número do periódico foi editado em 01 Janeiro de
1912, trazendo na sua página 18 a seguinte observação13:
Sociedade Anonyma "Revista Brasileira de Contabilidade" - Em 16 do mez de
dezembro último, constituiu-se legalmente, nesta capital, uma Sociedade
Anonyma com o titulo acima. O objetivo dessa sociedade é a publicação desta
Revista. A sociedade é administrada por três directores e quatro administradores.
Esses cargos ficaram assim distribuídos: Diretores Carlos de Carvalho, Horacio
Berlinck e José da Costa Sampaio. Administradores: Francisco D'Auria, Carlos
Levy Magano, Raymundo Marchi e Emilio de Figueiredo e como redator o Sr.
Carlos de Carvalho.

Em seu editorial é apresentado o seguinte objetivo para a publicação:
Se a ordem deve preponderar na organisação technica de uma empresa, deve
também existir na sua administração; se a contabilidade não é uma causa directa
da riqueza, constitue, entretanto, um considerável elemento de absoluto successo
das empresas em geral.

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Pequena cronologia do desenvolvimento contábil no Brasil: Os primeiros
pensadores, a padronização contábil e os congressos brasileiros de contabilidade
O primeiro número da revista trouxe, à página 2, um ensaio de classificação científica
sobre contas comerciais, escrito por José da Costa Sampaio, aqui considerado um dos
primeiros estudos científicos sobre Contabilidade produzido no Brasil.
Herrmann Jr. e D'Áuria participaram ativamente na criação das primeiras entidades de
classe dos contabilistas: o Instituto Paulista de Contabilidade (atual Sindicato dos
Contabilistas de São Paulo), da Academia Paulista de Contabilidade e da Revista Paulista de
Contabilidade com seu primeiro número editado em junho de 1922, substituindo a Revista
Brasileira de Contabilidade14, com o objetivo de publicar não só artigos técnicos, mas também
defender as causas nobres que redundarem em benefício dos contadores e guarda livros
brasileiros.
Em seu primeiro número às paginas 3, 4, 5 e 6 foi publicado um artigo escrito por
Raul Vaz, em prol dos contabilistas, do ensino e da luta pela regulamentação da profissão, do
qual alguns trechos são a seguir transcritos:
...o que devemos fazer não é contractar profissionais extrangeiros, mas sim, tratar
de amparar o ensino commercial dando-lhe o verdadeiro molde, e que no presente
é sem rodeios, a legalização da classe.
Legalisada a profissão de contadores e guarda-livros teremos amparado o ensino
commercial e serão favorecidos:
a) os contadores formados por escolas, cujo programma seja o mais conveniente
possível para formar rapazes para o commércio;
b) os governos, que terão nessa classe, independente de remuneração, os seus
fiscaes, porque havendo penalidades, como sejam multa, annulacão de titulo e
prisão, os profissionaes, toda a vez que o commerciante procurar insinua-los para
praticarem um acto que viesse prejudicar o fisco, recusariam categoricamente
receiosos de serem punidos;
os Srs. Commerciantes, que assim sabiam perfeitamente que tinham auxiliares de
responsabilidade e que portanto o seu patrimônio estava em boas mãos.
Portanto, o único remédio efficaz para a remodelação do ensino commercial do
paiz está na legalisacão da classe, sem o que nada se conseguirá.
.... convém ponderarmos que já existe projecto de lei para legalisacão dos guardalivros ..."
Desta forma temos a luta pelo reconhecimento, pela regulamentação e pela
valorização da Contabilidade como ensino e como profissão como numa batalha
sem tréguas para ser vencida.

À mesma época, em 1920, tramitava no Senado Federal projeto de lei de autoria do
Senador Raymundo de Miranda, determinando que toda a escrituração comercial fosse
realizada pelo sócio autorizado pelo contrato social ou por guarda-livros habilitados.
Os movimentos até aqui relatados tiveram como conseqüência a fundação de órgãos
de classe por todo o Brasil, que viessem a defender os interesses da profissão contábil, então
em franco desenvolvimento. Apresenta-se a seguir uma cronologia dos esforços para o
reconhecimento e regulamentação da profissão até a edição do Decreto-Lei nº 9295/46,
refletidos na criação de diversos órgãos de classe e na ocorrência dos primeiros congressos
brasileiros de Contabilidade:
·

1916 ­ criação do Instituto Brasileiro de Contadores Fiscais e a Associação dos
Contadores em São Paulo;

·

1916 - criação do Instituto Brasileiro de Contabilidade no Rio de Janeiro;

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·

1919 ­ fundação do Instituto Paulista de Contabilidade;

·

1924 ­ ocorre o I Congresso Brasileiro de Contabilidade;

·

1927 - fundação do Instituto Mineiro de Contabilidade;

·

1928 ­ criação do Instituto Fluminense de Contabilidade;

·

1929 ­ fundação em São Paulo da Associação Internacional de Contabilidade;

·

1931 ­ fundação da Câmara dos Peritos Contadores no Instituto Brasileiro de
Contabilidade;

·

1931 ­ fundação da Associação Pernambucana de Contabilidade;

·

1931 ­ fundação do Instituto Matogrossense de Contabilidade;

·

1932 ­ fundação da Associação Mineira de Contabilidade;

·

1932 ­ ocorre o II Congresso Brasileiro de Contabilidade;

·

1933 ­ fundação do Instituto Riograndense de Contabilidade;

·

1934 ­ ocorre o III Congresso Brasileiro de Contabilidade;

·

1937 ­ ocorre o IV Congresso Brasileiro de Contabilidade.

3.2 ­ Os esforços do Senador João Lyra ­ década de 20 do século XX
No esforço para o reconhecimento da profissão, algumas personalidades atuaram para
que isto ocorresse. Merecem destaque o Senador João Lyra, Francisco D'Auria, Raul Vaz e
Frederico Hermann Junior, cuja luta foi registrada em manifestações por meio de discursos e
pronunciamentos. Apresenta-se a seguir um resumo sobre a personalidade que empreendeu os
maiores esforços para a regulamentação da profissão, e que viria a ser o patrono da classe: o
Senador João Lyra Tavares, nascido em 23 de novembro de 1871, em Goiana, Pernambuco, e
falecido em 1939, cujo "curriculum vitae" foi publicado no Boletim do CRC-SP, no. 116, do
primeiro trimestre de 1997, à página 20:
Foi guarda-livros e chefe de escritório da firma em que trabalhava. Como
comerciante, teve uma atuação destacada em Pernambuco. Fundou em seu Estado
uma Associação de Guarda-livros e foi membro da Associação Comercial de
Recife.
Atuou na política, foi historiador e economista, autor de obras didáticas e
estudioso de geografia. Em 1.914, a convite do então Ministro Rivadavia Corrêa,
esteve pela primeira vez na cidade do Rio de Janeiro, Capital da República, onde
tomou parte da comissão escolhida para estudar a reorganização da contabilidade
do Tesouro nacional. No ano seguinte, João Lyra Tavares foi eleito Senador pelo
Rio Grande do Norte, cargo que ocupou até o fim de sua vida. No Senado foi
membro eminente da Comissão de Finanças e, sempre ressaltou os benefícios que
a sociedade brasileira teria com o reconhecimento de uma classe de contadores
públicos.

Lyra foi convidado para assumir a Presidência do Conselho Perpétuo de Contadores,
eleito em 27 de dezembro de 1925. Foi homenageado em cerimônia realizada no Hotel
Terminus, em São Paulo, em 25 de abril de 1926, como prova do reconhecimento da classe
contábil paulista ao seu trabalho junto ao Senado em prol da profissão contábil. Em certo
momento de seu discurso, no qual mencionou Carlos de Carvalho, afirmou:
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Pequena cronologia do desenvolvimento contábil no Brasil: Os primeiros
pensadores, a padronização contábil e os congressos brasileiros de contabilidade
trabalhemos, pois, bem unidos, tão convencidos de nosso triunfo, que desde já
consideramos 25 de abril o dia dos Contabilistas Brasileiros.

3. 3 ­ As primeiras discussões sobre padronização contábil ­ 1926
A padronização e a harmonização contábeis são preocupações mundiais, que buscam
dentro do contexto da economia global um entendimento único dos termos, princípios,
normas e formas de apresentação das Demonstrações Contábeis, para que os diversos usuários
possam realmente entendê-las e interpretá-las, em um contexto de transparência, mensuração
e "disclosure15" comum a todos.
Segundo Castro Neto (1998:58):
A Harmonização Contábil pode ser conceituada como o processo de padrões
contábeis internacionais para algum tipo de acordo tal que as Demonstrações
Contábeis de diferentes países sejam preparadas segundo um conjunto comum de
princípios de mensuração e disclosure.

No Brasil estas ações são empreendidas pelos órgãos de classe e entidades contábeis:
Conselho Federal de Contabilidade (CFC), Instituto dos Auditores Independentes do Brasil
(IBRACON), juntamente com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em sintonia com
órgãos internacionais.
A primeira exigência legal brasileira sobre padronização veio com a Lei no. 1083 e o
Decreto no. 2679, ambos de 1860 e já abordados neste trabalho. Entretanto, a primeira
discussão sobre harmonização e padronização contábil no Brasil com a participação da classe
contábil ocorreu em 1926, e as primeiras alterações na regulamentação ocorreram em 1940,
com os Decretos- Leis nos. 2.416/40 e 2627/4016, com inovações significativas: o primeiro
com normas sobre a Contabilidade Pública dos Estados e Municípios, e segundo tratando das
sociedades anônimas.
Os benefícios desta padronização foram fundamentais na análise comparativa das
demonstrações contábeis das empresas, pois permitiriam a construção de séries históricas,
evidenciando os resultados da atividade empresarial ao longo do tempo. Outro benefício
importante seria com relação ao estudo da Contabilidade, contribuindo para que as
instituições de ensino superior pudessem oferecer à sociedade profissionais com maiores
qualificações técnicas.
3.4 ­ As décadas de 30 e de 40 do século XX ­ a exigência da assinatura dos livros e
documentos contábeis por profissional da Contabilidade, a equiparação de direitos e a
criação do sistema CFC/CRC's
As décadas de 30 e 40 do século XX foram palco de ações relativas à exigência da
assinatura do profissional contábil em livros e documentos das empresas, de novas ações
governamentais que buscassem a padronização contábil, da equiparação de direitos em função
da regulamentação exigida pelo novo cenário e da criação dos principais órgãos de classe da
profissão contábil no País.
O Decreto Lei no. 21.033/32 estabeleceu as novas condições para o registro de
contadores e guarda-livros e tornou obrigatória a assinatura dos livros comerciais, cumprindo
determinações do Código Comercial e da Lei de Falências vigentes à época. Determinou
ainda outras regalias e exigências para o exercício da profissão contábil. Este diploma legal
proporcionou o reconhecimento dos mesmos direitos e títulos concedidos pelo Decreto no.
20.158,17 de 30 de junho de 1931, aos que:
·

prestaram exames de habilitação nos moldes deste decreto:

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Ivam Ricardo Peleias - João Bacci

·

foram professores de contabilidade em ensino comercial, oficial ou oficializado, que
publicaram obras de contabilidade julgadas de mérito pelo Conselho Consultivo do Ensino
Comercial, e que exerceram antes de 09/07/31 o cargo de guarda-livros, ou contadores em
repartições públicas, tendo assinado antes da mesma data balanços de bancos,
companhias, empresas, sociedades, cooperativas ou instituições de caridade, e outras,
publicados em órgãos oficiais de imprensa da União ou dos Estados;

·

tenham assinado laudos periciais, que sejam possuidores de atestado de idoneidade
profissional, ou exercido, por no mínimo cinco anos, a profissão em estabelecimentos
organizados e registrados na Junta Comercial dos Estados e outras equiparações.

As ações citadas, regulamentadas e equiparadas pelo Decreto Lei no. 21.033/32,
permitiram a diversos profissionais atuantes antes de sua promulgação o direito de exercerem
a profissão regulamentada de Contador.
O ano de 1940 teve duas ações governamentais, que contribuíram para a padronização
contábil no País:
·

O Decreto-Lei no. 2416, de 17 de julho, que estabeleceu as normas sobre a Contabilidade
para os Estados e Municípios, definiu o modelo padrão de balanço orçamentário, e as
normas financeiras aplicáveis à gestão dos recursos públicos;

·

O Decreto-Lei no. 2627, de 01 de outubro, que tratou das empresas de capital aberto, cujas
ações eram negociadas na Bolsa de Valores da então capital federal, a Cidade do Rio de
Janeiro. Dentre outros aspectos, este diploma legal apresentou os critérios de avaliação do
ativo, do uso do custo histórico, da amortização, da constituição de fundos para a
desvalorização do imobilizado, de forma pioneira os critérios aplicáveis ao ativo diferido,
e também da formação da reserva legal, como forma de preservação do capital das
empresas. De acordo com a pesquisa realizada por Iudícibus e Ricardino Filho,
mencionada nas referências bibliográficas, esta foi a segunda Lei das Sociedades
Anônimas no Brasil.

Em 27 de maio de 1946 é promulgado o Decreto Lei no. 9295/46, criando o CFC ­
Conselho Federal de Contabilidade, e os CRC's ­ Conselhos Regionais de Contabilidade.
Estes órgãos, operando sob a coordenação do CFC, atuam na fiscalização do exercício da
profissão contábil, colaboram na definição de normas e procedimentos contábeis, por meio da
promulgação das Normas Brasileiras de Contabilidade, funcionam como tribunais de ética e
definem, regulamentam e baixam normas e padrões de interesse da profissão contábil, além de
definirem e efetuarem o recolhimento das taxas relativas ao registro e exercício profissional.
4 ­ Os primeiros congressos brasileiros de contabilidade e sua colaboração no
desenvolvimento da profissão
Serão a seguir destacadas as principais ações ocorridas nestes eventos da classe
contábil brasileira18, ocorridos na primeira metade do século XX, que contribuíram para o
desenvolvimento e aperfeiçoamento da profissão, e para a valorização dos profissionais de
contabilidade.
4.1 - I congresso brasileiro de contabilidade
O Primeiro Congresso Brasileiro de Contabilidade ocorreu na cidade do Rio de
Janeiro, então Distrito Federal, de 16 a 24 de agosto de 1924, liderado pelo Senador João de
Lyra Tavares, presidente do evento, tendo como Secretário do Congresso Carlos Setúbal e
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Pequena cronologia do desenvolvimento contábil no Brasil: Os primeiros
pensadores, a padronização contábil e os congressos brasileiros de contabilidade
Presidente de Honra Raphael de Abreu Sampaio Vidal, foi organizado pelo Instituto
Brasileiro de Contabilidade.
O objetivo deste evento foi estudar todos os assuntos atinentes à Contabilidade e à
profissão, para aperfeiçoamento técnico e evolução da classe, procurando definir a
Contabilidade e sua forma de escrituração.Foi dividido em quatro temários e quatro
comissões: 1ª. Comissão: Contabilidade; 2ª. Comissão: Ensino Técnico; 3ª. Comissão:
Exercício Profissional e 4ª. Comissão: Comércio e Legislação. Os temas foram discutidos em
sete sessões ordinárias, assim distribuídos:
·

1a Sessão Ordinária: discutiu a tese: "Definição de Contabilidade", de João Luiz dos
Santos, e foi relatada por Francisco D'Auria;

·

2ª. Sessão Ordinária: proposta de Ubaldo Lobo de reestruturação do tribunal de Contas
com o trabalho "Código de Contabilidade, o empenho de despesa e a eficiência dos
órgãos de Contabilidade";

·

3ª. Sessão Ordinária: discutiu a utilidade do Razão, do Diário e do Copiador;

·

4ª. Sessão Ordinária: discutiu teses sobre as cinco contas gerais19;

·

5ª. Sessão Ordinária: apresentou e discutiu trabalhos voltados ao ensino da Contabilidade,
da regulamentação da profissão, dos temas voltados ao comércio e a legislação cujas
teses eram:
o O ensino e sua discriminação; Introdução do esperanto na Contabilidade;
Regularização da Profissão do Guarda-livros; Exercício profissional; Deveres do
negociante em relação à sua escrita; Cálculos dos direitos da Importação; Reforma do
Sistema Monetário Brasileiro; Reforma do Código Comercial e Contabilidade das
Falências.

·

6ª. Sessão Ordinária: palestra proferida por Horácio Berlinck sobre os pontos principais
que se relacionam com o seguro social, com o título Da Acturia;

·

7ª. Sessão Ordinária: aprovou proposta para que o Instituto Brasileiro de Contabilidade
organizasse os anais do congresso e a Federação Brasileira de Contabilidade.

Durante o evento foi desenvolvida grande campanha para a regulamentação da
atividade contábil, capitaneada pelo Senador João Lyra, e pela reforma do ensino comercial,
que viria a ocorrer por meio do Decreto no. 20.158, de 30 de junho de 193120, já mencionado
neste trabalho. Ainda durante o Congresso foram formuladas algumas definições que
enriqueceram e valorizaram o evento, a seguir apresentadas:
·

ESCRITURACÃO: o registro metódico dos fatos administrativos de ordem econômica;

·

CONTABILIDADE: é a ciência que estuda e pratica as funções de orientação, de controle
e de registro, relativos aos atos e fatos de administração econômica;

·

CONTABILISTA: versado nos estudos de Contabilidade; o que executa trabalhos de
Contabilidade;

·

CONTABILIZAR: organizar de acordo com os princípios de Contabilidade;

·

UNIGRAFIA: escrituração por partidas simples;

·

DIGRAFIA: escrituração por partidas dobradas;

·

DIGRAFISTA: o que faz lançamentos por partidas dobradas.

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Ivam Ricardo Peleias - João Bacci

4.2 ­ Os congressos subseqüentes
O sucesso alcançado com o I Congresso Brasileiro de Contabilidade motivou a
realização de outros eventos, nos quais continuaram a discussão e os esforços para o
aperfeiçoamento da profissão, para a valorização dos profissionais da área, e para a
consolidação da regulamentação aplicável à profissão e à prática contábil. Um breve resumo
dos eventos ocorridos até o final da década de 50 do século XX21 é apresentado a seguir:
·

II congresso - 1932: realizado novamente na cidade do Rio de Janeiro, com discussões
em torno de uma maior unidade da classe em prol de um crescimento e evolução da
atividade e na busca de novas conquistas;

·

III congresso - 1934: ocorreu em São Paulo, e se notabilizou pela organização,
importância das teses apresentadas na busca da especialização, na luta pela
regulamentação e pela elevação do ensino da Contabilidade ao nível superior, foi liderado
por Frederico Hermann Junior;

·

IV congresso - 1937: foi realizado na cidade do Rio de Janeiro, e buscou estudar as
modernas aplicações da Contabilidade, reforçar a luta pela melhoria do ensino técnico, a
reivindicação de direitos considerados inerentes à profissão Contábil, e contribuir para
elevar e melhorar a Legislação Comercial, a Contabilidade e a profissão. Seu temário foi
o seguinte:
1. Definição de Contabilidade como Ciência, estudar a padronização dos Balanços;
2. Ensino Técnico: Integração do curso de Contador nas Universidades Brasileiras e
criação de Faculdades de Contabilidade;
3. Exercício Profissional, Regulamentação Profissional;
4. Comércio e Legislação: criadas quatro comissões a saber:
· 1ª Comissão: Contabilidade;
· 2ª Comissão: Ensino Técnico;
· 3ª Comissão: Exercício Profissional;
· 4ª Comissão: Comércio e Legislação.

·

V congresso - 1950: realizado em Belo Horizonte ­ MG, objetivou votar o código de
ética, instalar a Academia Brasileira de Ciências Contábeis, perpetuando a memória de
grandes vultos da Contabilidade; promover o estudo de problemas ligados à Doutrina
Contábil, ao exercício profissional, ao ensino técnico e superior, à legislação fiscal e
fazendária. Pela primeira vez, o evento contou com trabalhos de origem estrangeira, entre
eles de Portugal, pela Sociedade Portuguesa de Contabilidade e pela França pelo Dr.
Henri Dubuisson. Neste Congresso pela primeira vez foi concedido o título de Contador
Emérito, ao professor Ubaldo Lobo, pelos relevantes trabalhos em favor da Contabilidade
e pela excepcional cultura.
Durante o evento foi apresentada Moção pelo Sindicato dos Contabilistas do Rio de
Janeiro, aprovada pelos congressistas, indicando o Senador João Lyra como "Patrono dos
Contabilistas Brasileiros", cujas justificativas foram os relevantes serviços prestados à
classe, seu prestígio profissional e pessoal, moral e saber.

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Pequena cronologia do desenvolvimento contábil no Brasil: Os primeiros
pensadores, a padronização contábil e os congressos brasileiros de contabilidade
Outro fator que tornou este evento dos mais importantes da década de 50 do século XX
foi a aprovação do Código de Ética Profissional cuja matéria a respeito e o próprio código
foram publicados no Jornal Tribuna Contábil nº 2 de agosto de 1950, cuja notícia é a
seguir apresentada:
O ponto alto do certame contábil foi, sem dúvida, a elaboração do Código de
Ética Profissional dos Contabilistas do Brasil, considerado pela classe como
conquista de suma importância e que, de há longos anos, desde o III Congresso
de Contabilidade vem sendo ventilado em todas as reuniões de Contabilistas, sem
nunca ter chegado a uma solução. Finalmente, no Congresso de Belo Horizonte,
chegou-se a um resultado, concluindo-se pela aprovação definitiva do mesmo.

Foram apresentadas ainda algumas moções reivindicando:
· a promoção de Convenções Nacionais de Contabilistas;
· a criação de Associações Profissionais, Sindicatos e Federações Regionais;
· recomendação de que os Conselhos Regionais limitem sua ação ao campo da
Fiscalização do Exercício Profissional;
· de que os Conselhos suprimam o Registro e a Fiscalização dos escritórios de
Contabilidade, passando a registrar e fiscalizar unicamente os profissionais (esta
moção foi rejeitada pelo plenário) e
· recomendações e pleno acolhimento a respeito da participação dos Contabilistas na
vida nacional.
·

VI congresso - 1953: ocorreu em Porto Alegre ­ RS, tinha como objetivo normalizar os

Balanços das empresas, para dotar os estudos e a sociedade de instrumentos adequados à
medição da venda e da fortuna nacional. O tema principal foi a Padronização de
Balanços.
Outros temas relevantes debatidos durante o evento foram: Composição dos Conselhos
Consultivos das entidades públicas e privadas e a obrigatoriedade de Contadores nos
Conselhos Fiscais das entidades.
O Relatório final da Comissão Especial de Padronização de Balanços definiu os
princípios básicos de padronização, com validade até a instituição da Lei nº 6404/76 ­
atual Lei das S/As..
Houve outras edições deste evento, sem uma regularidade cronológica definida. A
partir de 1988, o Congresso Brasileiro de Contabilidade passou a ocorrer a cada quatro anos,
em cidades de diferentes Estados brasileiros.
Considerações finais
A evolução da contabilidade sempre esteve atrelada ao desenvolvimento da
humanidade, e tal fato histórico também ocorreu no Brasil, com maior vigor a partir do século
XIX, como este trabalho pretendeu demonstrar. A pesquisa identificou obras que mencionam
o uso de rudimentos contábeis na então colônia durante o século XVIII. Entretanto, ainda não
foram encontrados registros históricos que indiquem grande desenvolvimento contábil no País
até o início do século XIX.
A partir da mudança econômica, política e social desencadeada com a vinda da
Família Real para o Brasil, e a conseqüente evolução da então Colônia, que depois se tornou
Reino Unido, Império e finalmente República, à Contabilidade foram apresentados vários
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desafios, superados de acordo com os fatos relatados. É possível identificar que as primeiras
regulamentações criaram as necessidades iniciais para o ensino comercial, e a demanda por
profissionais melhor qualificados foi o ponto de partida para as primeiras ações rumo à
organização da profissão e criação dos órgãos de classe.
Observou-se que, à medida que o desenvolvimento se intensificou com os passar dos
anos e, principalmente, a partir do século XX, novas situações se apresentaram, exigindo
respostas mais rápidas e consistentes da Contabilidade e de seus profissionais.
Este processo continua nos dias atuais, cuja intensidade é ainda maior, em função da
velocidade e do impacto que as mudanças atualmente causam. Na verdade, o desafio de
adaptação à realidade é permanente e cada vez maior, e o sucesso da Contabilidade e de seus
profissionais em grande parte está ligado à capacidade de percepção e de oferecimento de
respostas aos desafios que lhes forem apresentados. Este dinamismo marca o
desenvolvimento da sociedade, e por conseqüência da Contabilidade e de seus profissionais.
Referências bibliográficas
BACCI, J. Estudo exploratório sobre o desenvolvimento da contábil brasileiro ­ uma
contribuição ao registro de sua evolução histórica, São Paulo, 2002, Dissertação de
Mestrado - Centro Universitário Álvares Penteado.
CASTRO NETO, J. L. Contribuição ao estudo da prática harmonizada de contabilidade
na União Européia, São Paulo, 1998, Tese de Doutorado ­ Faculdade de Economia,
Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo.
CONSELHO REGIONAL DE CONTABILIDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO.
Boletim do CRC-SP, São Paulo, no. 116 ­ janeiro-fevereiro-março/1997.
D'ÁURIA, F. Primeiros princípios de contabilidade pura. manuscritos originais. São Paulo
­ Centro Universitário Álvares Penteado ­ 1949
ERICEIRA, F.J. O estado da arte da contabilidade no Estado do Maranhão, vis-a-vis seu
desenvolvimento econômico, São Paulo, 2003, Dissertação de Mestrado ­ Faculdade de
Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo.
FUNDAÇÃO BRASILEIRA DE CONTABILIDADE. A história dos congressos brasileiros
de contabilidade. Revista Fundação Brasileira de Contabilidade. Brasília: Fundação
Brasileira de Contabilidade, 2000.
HENDRIKSEN, E. S., VAN BREDA, M. Teoria da contabilidade. São Paulo: Atlas, 1999
HERRMANN JR., F. Contabilidade superior. 8. ed. São Paulo: Atlas, 1970
IUDÍCIBUS, S. de. Teoria da contabilidade. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1993
IUDÍCIBUS, S. de, RICARDINO FILHO, A. A. A primeira lei das sociedades anônimas
no Brasil. São Paulo. Revista de Contabilidade e Finanças ­ FIPECAFI-FEA/USP, ano XII,
no. 29, maio-agosto/2002, pp. 7-25
MANCINI, J. Estanislau Kruszynski. São Carlos: Editora Indústria e Comércio Gráfico "O
Expresso", 1978
MASI, V. Francisco D'Áuria e a contabilidade contemporânea. Revista Paulista de
Contabilidade, São Paulo, 379, pp. 8-9 ­ 1958, apud Schmidt, P. História do pensamento
contábil. Porto Alegre: Bookman , 2000
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Pequena cronologia do desenvolvimento contábil no Brasil: Os primeiros
pensadores, a padronização contábil e os congressos brasileiros de contabilidade
MELIS, F. Storia della ragioneria ­ contributo alla conoscenza e interpretazione delle
fonti piú significative della storia econômica. Dott. Cesare Zuffi ­ Editore. Bologna: Itália,
1950
PINHEIRO, J. C. P., PINHEIRO, A. V. Sebastião Ferreira Soares: um contador no
Império, Brasília, Conselho Federal de Contabilidade ­ ano XXVII ­ no. 112 ­ maiojunho/1998 ­ pp. 19-31
REVISTA BRASILEIRA DE CONTABILIDADE. Periódico de Contabilidade, Finanças,
Industria e Commercio ­ anno I, num 1, São Paulo, 01/01/1912
SÁ, A. L. de. Aspectos contábeis no período da inconfidência mineira. Escola de
Administração Fazendária ­ Centro de Pesquisa ­ Casa dos Contos ­ Centro de Estudos do
Ciclo do Ouro, Ouro Preto: MG, 1980
SÁ, A. L. de. História geral e das doutrinas da contabilidade. São Paulo: Atlas, 1997
SAES, F. A. M., CYTRINOWICZ, R. O ensino comercial na origem dos cursos superiores
de economia, contabilidade e administração. São Paulo, Revista Álvares Penteado ­ V. 3 ­
no. 6 ­ junho/2001 ­ pp. 37-59
SCHMIDT, P. História do pensamento contábil. Porto Alegre: Bookman, 2000
VLAEMMINCK, J.-H. Historia geral y de las doctrinas de la contabilidad. Editorial
E.J.E.S.. Madrid: España, 1961
1

O Brasil foi colônia de Portugal durante os séculos XVI, XVII, XVIII e início do século XIX, sendo possível
inferir que o lento desenvolvimento da Contabilidade no País durante este período esteve fortemente associado a
esta condição política.
2
A obra "Aspectos Contábeis no Período da Inconfidência Mineira", citada nas referências bibliográficas,
contém exemplos sobre o uso da escrituração contábil na Província de Minas Gerais durante o século XVIII.
Entretanto, o material coletado, analisado e usado para este trabalho aponta para um maior vigor no
desenvolvimento da Contabilidade no Brasil a partir do século XIX.
3
Este artigo não aborda o desenvolvimento do ensino comercial e de Contabilidade no País, apesar de este
aspecto ser uma das primeiras manifestações no início do século XIX, que serviu como ponto de partida para
outros fatos históricos no desenvolvimento da Contabilidade brasileira.
4
Os eventos e sua cronologia foram colhidos em diversas obras, cuja referência bibliográfica ao longo do texto
comprometeria a descrição da seqüência dos acontecimentos. Por isto, optou-se por mencionar todos os trabalhos
consultados nas referências bibliográficas, e usar no texto apenas as citações indispensáveis. Durante a pesquisa
foram identificadas outras obras que realizaram levantamentos semelhantes; entretanto, para este trabalho foram
considerados relevantes os eventos apresentados ao longo do texto
5
Uma análise mais minuciosa de alguns trechos de "A Metafísica da Contabilidade Comercial" pode ser
encontrada nas páginas 53 a 62 da dissertação de mestrado de Ericeira, citada nas referências bibliográficas.
6
O trabalho de Iudícibus e Ricardino Filho, citado nas referências bibliográficas, traz pesquisa completa sobre a
Lei no. 1083, de 22 de agosto de 1860.
7
Mais informações sobre a Logismografia e os trabalhos de Giuseppe Cerboni e Giovanni Rossi podem ser
obtidos nas obras de Melis, Vlaemminck, Sá e Schmidt, citadas nas referências bibliográficas.
8
Apesar de os trabalhos de Sebastião Ferreira Soares serem anteriores aos esforços de Estanislau Kruszynski e
de Carlos de Carvalho, é de supor que o trabalho desenvolvido em São Carlos tenha sido o primeiro sistema de
Contabilidade pública implantado no Brasil. Esta hipótese pode ser levantada pela leitura da obra de Pinheiro e
Pinheiro, na qual há a transcrição de diversos trechos dos trabalhos realizados por Ferreira, identificando a
desordem no controle das contas públicas durante o século XIX.
9
O trabalho de Pinheiro e Pinheiro, citado nas referências bibliográficas, traz um resumo sobre a vida e obra
deste pioneiro da prática e da literatura contábil no Brasil.
10
Frederico Herrmann Jr. foi o fundador da Editora Atlas S/A.
11
Esta proposição está na obra "Contabilidade Superior", 8a. Edição, p. 28, citada nas referências bibliográficas.
12
O original desta obra, escrito à mão, e consultado para esta pesquisa, encontra-se na biblioteca do Centro
Universitário Álvares Penteado ­ UNIFECAP ­ São Paulo - SP. Esta biblioteca possui outros originais escritos
por D'Áuria.
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13

O exemplar original da primeira edição, consultado para esta pesquisa, encontra-se na biblioteca do Sindicato
dos Contabilistas de São Paulo, e foi doado por Francisco D´Áuria, conforme dedicatória anotada na capa,
datada de 1922.
14
O primeiro exemplar da Revista Brasileira de Contabilidade foi publicado em 1912, e sua publicação foi
suspensa em 1920. Vou a ser publicada em 1929, e foi novamente suspensa em 1932. Era editada pelo Sindicato
dos Contabilistas de São Paulo, e a partir de 1971 passou a ser editada pelo Conselho Federal de Contabilidade.
15
O disclosure refere-se à evidenciação das demonstrações contábeis. Este assunto pode ser mais bem estudado
nas obras de IUDÍCIBUS e HENFRIKSEN & VAN BREDA, citadas nas referências bibliográficas.
16
Segundo Iudícibus & Ricardino Filho, o Decreto Lei no. 2627/40 foi a segunda lei das Sociedades Anônimas
no Brasil.
17
Este decreto objetivou reorganizar o ensino Comercial, criando o título de Bacharel em Ciências Econômicas,
e regulamentou a profissão de Contador, ainda em nível técnico.
18
Exemplares de anais do I, II e III Congressos Brasileiros de Contabilidade podem ser encontrados na
biblioteca do Centro Universitário Álvares Penteado ­ UNIFECAP ­ São Paulo ­ SP.
19
A discussão desta tese foi baseada na Teoria Contista de Edmond Degranges (pai). Mais informações sobre
Degranges e sua obra podem ser obtidas nas obras de Melis, Vlaemminck, Sá e Schmidt, citados nas referências
bibliográficas.
20
O trabalho de Saes e Cytrinowicz, citado nas referências bibliográficas, faz uma análise mais detalhada do
Decreto no. 20.158/31, e do desenvolvimento do ensino comercial no Brasil.
21
A obra "A História dos Congressos Brasileiros de Contabilidade", citado nas referências bibliográficas,
contém o resumo de todos os Congressos Brasileiros de Contabilidade realizados.

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