História da
evangelização
do Brasil
DOS JESUÍTAS AOS NEOPENTECOSTAIS

ELBEN M. LENZ CÉSAR

História da
evangelização
do Brasil
DOS JESUÍTAS AOS NEOPENTECOSTAIS

Copyright © 2000 by Elben M. Lenz César
Projeto Gráfico:
Editora Ultimato
2ª Edição:
Agosto de 2000
Revisão:
Bernadete Ribeiro Tadim
Délnia M. C. Bastos
Capa:
Expressão Exata
Editora Ultimato

FICHA CATALOGRÁFICA PREPARADA PELA
SEÇÃO DE CATALOGAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO
DA BIBLIOTECA CENTRAL DA UFV
César, Elben M. Lenz, 1930-

C421h
2000

História da evangelização do Brasil; dos jesuítas aos
neopentecostais / Elben M. Lenz César. -- Viçosa :
Ultimato, 2000.
192p.
ISBN 85-86539-33-3
Inclui bibliografia
1. Evangelização - Brasil - História. 2. Missões - Brasil História. I. Título.
CDD 19.ed. 269.20981
CDD 20.ed. 269.20981

2000
Publicado com autorização e com todos os direitos reservados
EDITORA ULTIMATO LTDA.
Caixa Postal 43
365700-000 Viçosa, MG
Telefone: (31) 891-3149 - Fax: (31) 891-1557
E-mail: [email protected]

Para
Jônatas, Artur, Pedro, Josué,
Alice, Raquel, André, Clara e Davi
Que vocês sejam discípulos
e servos de Jesus Cristo.

Agradecimentos

Aos historiadores Abraão de Almeida (assembleiano), Arlindo
Müller (luterano), Duncan A. Reily (metodista), Ebenézer Soares
Ferreira (batista), Frank Arnold (presbiteriano), Frans Leonard
Schalkwijk (reformado), Joyce Every-Clayton (congregacional);
ao sociólogo Waldo César (luterano); aos missiólogos Antonia
Leonora van der Meer (reformada), Bertil Ekström (batista), Isaac
Costa de Souza (cristão evangélico) e Manfred Grellert (batista);
ao editor Eude Martins da Silva (assembleiano) e ao major David
W. Waste (do Exército de Salvação), por terem lido
antecipadamente os capítulos que falam sobre suas denominações
e feito preciosas sugestões.
À arquivista Ester Marques Monteiro (da Igreja Evangélica
Fluminense), por me ter enviado fotocópia de três livros há muito
esgotados.
Ao missiólogo Carlos Ribeiro Caldas Filho (presbiteriano), por
ter lido toda a obra e colaborado com pesquisas e sugestões.

Sumário

Apresentação .................................................................. 13

I. CRISTIANIZAÇÃO (SÉCULOS XVI A XVIII)
1. Bispo abençoa a armada de Pedro
Álvares Cabral ................................................................
2. Dom Manuel I engaveta o desafio missionário
Pero Vaz de Caminha ....................................................
3. A Europa pega fogo ........................................................
4. É preciso alcançar os não-alcançados da
Ilha de Vera Cruz ...........................................................
5. Inácio de Loyola envia os seis
primeiros missionários ..................................................
6. Calvinistas celebram na Baía de Guanabara
o primeiro culto protestante .........................................

19
de
22
25
28
31
37

7. A escravatura aumenta o número de
não-alcançados .............................................................

40

8. O "apóstolo do Brasil" não menciona
a ressurreição de Jesus em seu catecismo
bilíngüe .........................................................................

44

9. Holandeses transplantam para o Nordeste
brasileiro a Igreja Cristã Reformada ............................

49

10. Missionários não conseguem separar a fé
cristã das crenças indígenas e africanas ......................

55

II. EVANGELIZAÇÃO (SÉCULO XIX)
11. Protestantes demoram a vir para o Brasil ...................

63

12. A Bíblia chega ao Brasil 40 anos antes dos
missionários protestantes..............................................

68

13. Constituição de 1824 proíbe os
protestantes alemães de construir igrejas
com torre, sino e cruz ...................................................

72

14. Missionários de língua inglesa espalham-se
pelo Brasil ......................................................................

78

15. Missionário free-lancer vem para o Brasil ..................

82

16. Americano jovem e solteiro desembarca
como missionário no porto do Rio de
Janeiro ............................................................................

87

17. Metodistas começam em 1835, param em
1841 e recomeçam em 1867 .........................................

90

18. General põe fogo na Junta de Richmond ...................

95

19. Ex-alunos do Seminário Teológico
de Virgínia vêm para o Brasil ....................................... 100
20. Ex-padre troca o púlpito pela
evangelização pessoal .................................................. 104

III. PENTECOSTALIZAÇÃO (SÉCULO XX)
21. Operário italiano organiza em São Paulo
a mais fechada igreja evangélica brasileira ................
22. Missionários suecos fundam
a maior denominação evangélica brasileira ...............
23. Tenente-coronel diz que o homem de
negócio sonega o fisco e o comerciante
sonega a alfândega ......................................................
24. Galã de Holywood traz o Evangelho
Quadrangular para o Brasil .........................................
25. Pedreiro pernambucano funda em São
Paulo a mais aberta igreja pentecostal
brasileira ........................................................................
26. Jovem de 26 anos converte-se em São
Paulo e funda a igreja pentecostal mais
rígida do Brasil .............................................................
27. Nascida nos Estados Unidos em 1967, a
Renovação Carismática Católica chega ao
Brasil três anos depois .................................................
28. Edir Macedo abandona a umbanda e a loteria
e funda a Igreja Universal do Reino de Deus ............
29. Pentecostais e históricos precisam tomar
cuidado com o joio no meio do trigo ........................
30. O Brasil deixa de ser campo missionário
para ser agência missionária .......................................

113
117

123
129

134

139

143
148
155
160

Apêndice ....................................................................... 167
Índice onomástico ........................................................ 179
Bibliografia ................................................................... 187
Nota:
A história do Exército de Salvação encontra-se na 3ª parte por uma questão de
cronologia, e não porque se trata de uma denominação pentecostal.

Apresentação
As respostas aos desafios católico
de Pero Vaz de Caminha e
protestante de Henry Martyn

A

História da evangelização do Brasil não é adaptação de uma
dissertação acadêmica. Quer dizer, não é um trabalho científico.
Embora tenha o cuidado de ser rigorosamente fiel às muitas fontes
consultadas, o livro que o leitor tem em mãos contém uma série de
relatos ao mesmo tempo históricos e edificantes. Estamos
focalizando mais os instrumentos humanos dos quais Deus se serviu
de uma maneira e outra do que as instituições que eles fundaram
ou trouxeram para o Brasil ao correr dos 500 anos de história, a
partir da ocupação portuguesa.
Nem todos pensavam e agiam do mesmo modo, quase nunca
trabalharam lado a lado, não foram unânimes na exegese bíblica,
cometeram erros de estratégia missionária, tornaram-se culpados
de pecados de intolerância, não levantaram suficientemente suas
vozes contra a escravidão indígena e africana e outras injustiças
sociais, nem sempre exigiram arrependimento e conversão daqueles
aos quais ministravam. Todavia, ninguém pode negar que esses
missionários e missionárias, europeus e americanos do norte,

14

estrangeiros e nacionais, católicos e protestantes, não-pentecostais
e pentecostais, instruídos e iletrados, casados ou solteiros, eram
realmente vocacionados, amavam a Deus acima de tudo, deram-lhe
suas vidas e trouxeram para cá o evangelho de Jesus, promovendo e
ampliando o reino de Deus.
Não estamos contando a história das igrejas, mas a história da
evangelização do Brasil, desde os jesuítas até os neopentecostais,
esforçando-nos para fazê-lo com isenção de ânimo. Não contamos a
história das igrejas nem dos desdobramentos delas, como, por
exemplo, a história da Igreja Presbiteriana do Brasil, da Igreja
Presbiteriana Independente, da Igreja Presbiteriana Conservadora,
da Igreja Presbiteriana Renovada e da Igreja Presbiteriana Unida.
Cada denominação já tem livros de sua história. Não queremos
repetir o que já foi escrito. Contamos só o início de cada esforço
missionário, mencionando a figura dos pioneiros e o seu trabalho.
Não foi possível evitar por completo o ponto de vista evangélico do
autor, que está inserido na história. Faz parte da terceira geração de
um casal que aceitou o evangelho por meio do primeiro missionário
estrangeiro a se fixar no Nordeste brasileiro em 1873.
A História da evangelização do Brasil persegue dois notáveis
desafios missionários, separados entre si por três séculos. O primeiro
desafio é católico: encontra-se na carta de Pero Vaz de Caminha
dirigida a Dom Manuel I, o Venturoso, rei de Portugal. O segundo
desafio é protestante: encontra-se no precioso diário de Henry
Martyn. Os dois desafios são sintomáticos: enquanto Caminha, em
1500, talvez com 50 anos, menciona a necessidade de vir de Portugal
algum clérigo para batizar os índios, Martyn, em 1805, com 24 anos,
menciona a necessidade de vir, de qualquer lugar, algum missionário
para pregar "a doutrina da cruz". Os missionários católicos
esforçaram-se para batizar o maior número possível de indígenas,
negros e crianças brasileiras, com ou sem catequese suficiente.
Anchieta chegou a desenterrar um recém-nascido aleijado sepultado
ainda vivo pela mãe índia e o batizou.1 Os missionários protestantes
esforçaram-se para anunciar o sacrifício vicário de Jesus ao maior
número possível de brasileiros.
Grosso modo, é possível dividir a história da evangelização do
Brasil em três períodos distintos e naturais: nos séculos XVI, XVII e
XVIII, os missionários católicos cristianizaram o país; no século XIX,
os missionários protestantes evangelizaram o país; e, no século XX,

15

os missionários pentecostais pentecostalizaram o país (com o auxílio
dos carismáticos católicos). No início ocorreu a pré-evangelização,
no século seguinte, a evangelização propriamente dita e no último
século, a pós-evangelização.
Em todo o mundo, o século XVI foi o grande século missionário
católico, o século XIX, o grande século missionário protestante e o
século XX, o grande século pentecostal.
O que vai acontecer no século XXI pertence ao futuro, e não à
história. Queira Deus que seja algo superior, em número e em
profundidade, ao que foi feito até agora.

Elben M. Lenz César
MAIO DE 2000
Nota
CAXA, Quirício, RODRIGUES, Pero. Primeiras biografias de José de Anchieta.
São Paulo: Loyola, 1988. p. 154.

1

I.
CRISTIANIZAÇÃO
(SÉCULOS XVI A XVIII)

1.
Bispo abençoa a armada
de Pedro Álvares Cabral

R

eligiosidade é o que não faltava aos portugueses na época da
"descoberta" do Brasil. O próprio capitão-mor da armada de dez
naus e três caravelas, que transportava para a Índia cerca de 1.350
homens, era cavaleiro da Ordem de Cristo. Por coincidência, Pedro
Álvares Cabral tinha então a idade de Jesus quando este morreu (33
anos). A Ordem de Cristo era uma ordem militar e religiosa fundada
e instituída pelo papa João XXII em Avignon, na França, em março
de 1319, a pedido de Dom Dinis, sexto rei de Portugal. Foi essa
ordem que financiou, com os tesouros da Ordem dos Templários,
extinta em 1311, a expansão marítima portuguesa no final do século
XV.
Na véspera da partida da armada de Cabral, dia 8 de março de
1500, domingo, na capela da Ermita de São Jerônimo, à margem do
rio Tejo, em Lisboa, houve uma cerimônia religiosa, na qual o bispo
Diogo Ortiz benzeu a bandeira da Ordem de Cristo, passando-a em
seguida para Dom Manuel I e este para Pedro Álvares Cabral. Estavam
presentes a corte, os banqueiros que financiariam grande parte do
empreendimento e os capitães da frota.

20

Como acontecia em todas as viagens marítimas portuguesas,
havia capelães a bordo. No caso de Cabral, vieram oito franciscanos
e o frei Dom Henrique Soares de Coimbra, um frade para cada 150
tripulantes.
Ao depararem a costa brasileira, chamaram de Monte Pascoal a
pequena elevação isolada (536 metros) que avistaram dos navios,
situada a 50 quilômetros do mar, no litoral da Bahia. O nome era
apropriado, pois dentro de poucos dias se daria a celebração da
Páscoa. A terra que estava diante deles denominaram Ilha de Vera
Cruz. Nas expedições posteriores, fez-se a mesma coisa. Com o
calendário litúrgico nas mãos, iam batizando todos os acidentes
geográficos do litoral com os nomes religiosos: cabo de São Roque,
cabo de Santo Agostinho, rio São Francisco, baía de Todos os Santos,
cabo de São Tomé, ilha de São Sebastião, porto de São Vicente etc.
No quarto dia depois da "descoberta", no domingo 26 de abril,
Dom Henrique Soares de Coimbra celebrou a primeira missa em
território brasileiro. Cabral participou da cerimônia carregando
consigo a bandeira de Cristo. No dia seguinte, João Faras, mais
conhecido como Mestre João, médico e astrônomo da armada, desceu
à terra pela primeira vez (pois estava doente) e, à noite, batizou de
Cruzeiro do Sul a constelação cujas estrelas principais formam o
desenho de uma cruz. E no dia 1º de maio, sexta-feira, para
comemorar a paixão de Cristo, frei Henrique celebrou a segunda
missa, precedida de uma procissão, tendo à frente os estandartes
da Ordem de Cristo. Participaram da cerimônia mais de mil
portugueses e cerca de 150 nativos.
A religiosidade portuguesa da época incluía uma consciência
missionária generalizada e bem arraigada. Antônio Vieira dizia que
"os outros cristãos têm obrigação de crer a fé; o português tem
obrigação de a crer e, mais, de a propagar"1. O rei Dom João III, filho
de Dom Manuel I, lá pelo ano de 1549, confessou a Tomé de Sousa,
primeiro governador do Brasil, que a principal coisa que o moveu a
povoar as terras descobertas era "para que a gente delas se
convertesse à nossa santa fé católica" 2. Naturalmente, como
aconteceu com outras nações católicas e protestantes, essa
consciência missionária tinha relação com a expansão territorial,
com o colonialismo e com o aumento do poder político. É como
explica Charles Boxer: "A aliança estreita e indissolúvel entre a cruz
e a coroa, o trono e o altar, a fé e o império, era uma das principais

21

preocupações comuns aos monarcas ibéricos, ministros e
missionários em geral"3.
Embora tenha algum valor, a religiosidade precisa da companhia
de frutos verdadeiros. Basta lembrar Israel em determinadas
ocasiões, quando a expressão litúrgica era mais visível do que a
obediência aos mandamentos. Os profetas deixaram bem claro que
Deus não suporta "iniqüidade associada ao ajuntamento solene"
(Is 1.13). O tratamento dispensado ao índio e ao negro, o desejo de
enriquecimento rápido e o concubinato, entre outros escândalos,
colocam em dúvida a profundidade religiosa dos portugueses que
vieram para o Brasil.
Notas
1

VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados; moral, sexualidade e inquisição no
Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 26.

2

Id., ibid.

3

Id., ibid.