História da Mídia: são necessárias obras de síntese
Marialva Carlos Barbosa
Professora Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro
O desenvolvimento dos estudos sobre história da mídia, de maneira geral, ou enfocando
processos específicos, como história do jornalismo, da publicidade, da televisão, etc., é
inegável, sobretudo, nos últimos anos. Há, de fato, a proliferação de estudos, mas estes
assumem a maioria das vezes o caráter monográfico, enfocando um veículo de comunicação
ou quando muito uma dada região. A lógica que governa os estudos de história da mídia no
Brasil é a dos particularismos. Mas precisamos caminhar em direção à produção de obras de
síntese.
Nesse sentido, é sintomático que não tenhamos nenhuma obra sobre a História da
Comunicação no Brasil. Recentemente ao participar como membro de uma banca de seleção
docente dessa área de conhecimento, eu percebi (estarrecida) quais eram os autores e,
sobretudo, os territórios de produção de conhecimento que regiam a nossa reflexão sobre a
História da Comunicação. Há uma extensa bibliografia sobre história da comunicação, mas
na maioria observa-se a mesma lacuna: estudamos história da comunicação a partir de
mundos absolutamente estrangeiros. Os processos da Europa Ocidental são transpostos
para o território brasileiro, como se fosse possível fazer uma história que fosse válida para
todos os espaços sociais.
Comecei então o trabalho de escrever um livro que seja uma obra de síntese sobre a História
da Comunicação no Brasil e que, em breve, estará à disposição do público. Mas ele sozinho
não dará conta do universo histórico da comunicação no país. Precisamos de outras obras de
síntese também de história da publicidade, da televisão, das mídias digitais, etc. Não aquela
história linear e orientada, mas uma história que interprete os processos humanos no
tempo.
Quando estudamos história da comunicação, o que lemos são livros que se voltam para a
reconstrução desses processos, partindo, sobretudo, de um olhar eurocêntrico, não
contemplando as especificidades do que ocorreu no território brasileiro. Submetido a uma
historicidade própria, também a comunicação aqui ganhou aspectos particulares.
Repetidas vezes já enfatizamos que há diversas maneiras de se fazer história: pode-se
considerar que trás a integralidade do passado para o presente, ou pode-se, ao contrário,
apenas acreditar que é narrativa e interpretação possível. Isso não tira dela o seu caráter
científico: ao ter a outorga para falar do passado, presume-se que os tempos idos que coloca
em cena sejam o verdadeiro passado.
Essa expectativa de que a história revela o passado e o fato de o conhecimento histórico
pressupor um pacto que permite ao historiador descrever situações que existiram antes de
sua existência constroem a narrativa da história sem presunção de dúvidas para com o
passado. O passado buscado e narrado pelo historiador será assim, mesmo que apenas
verossímil, sempre o verdadeiro passado.

Essa cristalização das expectativas da história, aquilo que Ricoeur denomina representância,
implica sempre uma relação do texto construído pelo pesquisador com o seu referente, ou
seja, aquilo que utilizou para, em certa medida, dar luz ao passado: no caso do texto historio
esse referente é o rastro que perdura sob a forma de vestígios.
Do ponto de vista de uma história da comunicação, grosso modo, podemos dizer que as
abordagens se dividem em três paradigmas dominantes, considerando sempre a Europa
como lugar privilegiado da análise, como se os processos verificados no velho continente
pudessem ser transportados automaticamente para lugares culturais totalmente diversos
como é o caso do território brasileiro.
No primeiro, destacam-se as relações entre imprensa e política como eixo central e
demarcam-se a instauração da Imprensa Moderna pelo encontro entre a Revolução
Francesa e o jornalismo político. Estas são histórias que concebem a escrita (e a impressão)
como meio de comunicação determinante da cultura ocidental, concepção que, a rigor, faz
parte de um projeto iluminista e ilustrado. O momento axial que demarca como tudo
começou é a invenção da imprensa, ruptura que inaugura um novo período que possibilita o
avanço político graças ao papel que ela passa a ter na formulação e, sobretudo, na
amplificação das idéias.
No segundo, estão as chamadas histórias culturais da comunicação, nas quais a emergência
do folhetim (1840), concebido como novo gênero de entretenimento destinado a um
público de massa recentemente alfabetizado é o momento inaugural. Trata-se, a rigor, do
mesmo público que anos mais tarde se tornará o ouvinte das novelas de rádio e os
telespectadores das telenovelas que invadirão as telas da TV, ou seja, de todos os formatos
que recuperam a matriz inaugural melodramática do folhetim escrito. Concebendo os meios
de comunicação simultaneamente como indústria cultural e empresa comercial massiva,
enfatizam a expansão do público leitor, a partir do momento em que os jornais, num
primeiro momento, passam a se construir como objetos de interesse para os setores
populares.
E como último tipo de abordagem há as histórias da comunicação cujo foco recai nas
transformações possibilitadas pelas tecnologias. Adotando periodizações de longa duração,
procuram relacionar as mudanças tecnológicas às transformações na percepção do sujeito
histórico e social. Marcando sempre momentos singulares a partir da adoção das
tecnologias, demarcam a passagem das culturas orais primárias para as escriturárias, com a
invenção da escrita, como primeiro momento axial a ser analisado. A invenção da imprensa,
no século XV, possibilitando a construção do pensamento linear, permitindo definitivamente
o abandono das "artes da memória" em favor da sua inscrição em suportes que agora
poderiam ser impressos aos milhares seria o segundo momento de ruptura.
Essas três perspectivas de análise referem-se ao contexto europeu e, assim, seja a história
na dimensão política, seja a que destaca o ponto de vista cultural ou aquela que adota a
longa duração tecnológica são sempre histórias que remarcam a importância da explosão
dos processos educacionais (que significaram o aumento da taxa de alfabetismo), a difusão
maciça do letramento, a construção de uma mentalidade política centrada na razão
iluminista, processos históricos que foram profundamente diversos no contexto brasileiro.

Aqui não houve uma política de massificação educacional, não houve letramento em larga
escala, bem como também não houve uma razão iluminista. Nossos liberalismos foram
múltiplos e sempre adaptados ao sabor de interesses particulares. Passamos, a rigor, da
oralidade primária para a oralidade secundária sem passarmos pelo letramento. A maioria
da população continuou imersa nas práticas orais. O grau de alfabetização que, em 2004, em
Portugal atingia 93,3% da população, na Espanha, 97,8% ou no Chile 95,7%, no Brasil
chegava a 88,4% de seus mais de 190 milhões de habitantes. E o Censo de 2010 mostrava
que em algumas regiões brasileiras a taxa de analfabetismo ainda atingia mais de 20% da
população (IBGE, 2011).
Somos uma sociedade oralizada e a história da comunicação no Brasil é a compreensão
desse universo de práticas culturais dos modos orais de comunicação, que foram se
transformando na longa duração. Do burburinho das ladeiras e ruelas do século XVIII, que
causava aflição aos ouvidos e aos sentidos dos europeus, ao som que acompanha os
transeuntes das cidades modernas que insistem em falar em voz alta nos telefones celulares
construindo novos burburinhos urbanos há uma linha de continuidade. Passamos da
oralidade primária à secundária, no sentido empregado por Walter Ong, sem nos atermos no
letramento. Nem por isso somos inferiores. A visão do logos como pertencendo a um mundo
mais denso e de maior reconhecimento é também um projeto do iluminismo como um
negócio rentável para os europeus.
Só resta então pedir aos pesquisadores que se interessam pela história da mídia que
esperem um pouco mais pelo resultado desse trabalho de pesquisa sobre história da
comunicação, mas não esperem para passarem dos particularismos às generalizações na
produção do conhecimento histórico sobre os meios de comunicação. Como isso é uma
tarefa de grandes dimensões, a constituição de redes de pesquisadores parece ser o
caminho para conseguirmos este intento. Mas isso já é outra história...