CASIMIRO MANUEL MARTINS AMADO

HISTÓRIA
DA PEDAGOGIA
E DA EDUCAÇÃO
Guião para acompanhamento das aulas

UNIVERSIDADE DE ÉVORA
2007

2

APRESENTAÇÃO
Logo nos primeiros anos de docência da disciplina de História da Pedagogia e
da Educação apercebemo-nos que o trabalho, quer dos estudantes quer do professor,
ficaria imensamente facilitado se as aulas pudessem funcionar com um acervo de textos
fundamentais à disposição de todos. De imediato, elaborámos uma Antologia (do grego
anthos, flor!) reunindo os textos mais representativos da História da Pedagogia e da
Educação. Posteriormente, conseguimos acrescentar-lhe um conjunto de elementos de
natureza didáctica que fazem do novo material aquilo a que desde o ínício designámos
como "Guião para Acompanhamento das Aulas".
Aqui se incluem não só os textos a estudar detalhadamente nas aulas práticas,
mas também alguns outros que ilustram os temas tratados nas aulas teóricas. Trata-se,
portanto, de um instrumento de trabalho indispensável para o estudo pessoal e para uma
presença participativa nas aulas.
Lamentavelmente, o mercado editorial português é muito pobre na
disponibilização de obras de referência geral no âmbito da História da Pedagogia e da
Educação. Essa é mais uma das razões por que, em nosso entender, se justifica este
nosso esforço no sentido de tornar acessível aos nossos alunos um conjunto de textos
fundamentais para o estudo desta disciplina. Assim poderão entrar em contacto directo
com os textos daqueles que, em cada época, escreveram e reflectiram sobre a educação,
quer do ponto de vista das práticas efectivas quer do das doutrinas pedagógicas que
foram sendo formuladas.
Trata-se, é verdade, de uma selecção que contempla apenas alguns dos
principais textos, tanto mais que se pretendeu apresentar todos os textos em português,
para maior facilidade de leitura.
Abrimos este Guião com um Quadro Geral no qual procurámos, inspirados nos
vários quadros sincrónicos elaborados por J. Palmerò (Histoire des institutions et des
doctrines pédagogiques par les textes, ed. SUDEL, Paris, 1958), fornecer uma visão de
conjunto da História da Pedagogia e da Educação. Todos os textos levam indicada a sua
proveniência quer em termos de autoria quer de tradução. Um conjunto significativo foi
colhido no manual de História da Educação (edição policopiada, Coimbra, 1987)
elaborado pelo Prof. Doutor Joaquim Ferreira Gomes, que os traduziu da obra de
J. Palmerò atrás referida. Os textos de Quintiliano, Clemente de Alexandria, e
Montaigne foram extraídos da obra de Maria da Glória de Rosa, A História da
Educação através dos textos (Cultrix, S. Paulo, s/d). Da Antologia de textos
pedagógicos do século XIX português, organizada por Alberto Ferreira (F. C.
Gulbenkian, Lisboa, 1971, 1973, 1975) extraímos os textos de Alexandre Herculano.
Todos os restantes textos levam, conforme já dissemos, também indicada a sua origem.
Não seria necessário frisá-lo, mas para que não restem dúvidas temos de deixar
bem claro neste momento que o nosso intuito foi principalmente de ordem didáctica.
Por isso, na linha do que fizemos no Guião da disciplina de Pedagogia Geral, cuidámos
de organizar tudo em função do ensino e da aprendizagem da História da Pedagogia e
da Educação, de acordo com os objectivos estabelecidos no Programa e Planeamento
Didáctico. Em cada unidade de aprendizagem foi feita a formulação explícita dos
Objectivos a atingir, e em cada uma se encontra também uma secção de Actividades de
Controle da Aprendizagem que permitirão ao aluno confrontar-se com os exercícios
propostos, procurar resolvê-los e utilizar quer as aulas quer o horário de atendimento do
docente para dirimir as suas dúvidas e dificuldades.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

3

É claro que não se tem a pretensão de com estes materiais esgotar aqui o
tratamento das matérias. Por isso, em cada unidade de aprendizagem vai indicada
Bibliografia complementar para aprofundamento das matérias estudadas.
O nosso objectivo foi, simplesmente, elaborar uma ferramenta de trabalho
básica, capaz de guiar todos os alunos, garantindo o melhor proveito das aulas para o
aluno que as frequenta, mas também o acompanhamento mais fácil das mesmas para o
que as não frequenta. Apesar das suas deficiências e limitações, estamos convencidos
de que, tal como está, o aluno tem nas suas mãos um instrumento fundamental para o
seu estudo pessoal. Quando frequentar as aulas deverá ter consigo o Guião, devendo ter
procedido previamente à leitura, no mínimo, da parte referente ao Resumo, aos
Objectivos e à Antologia respeitantes à unidade lectiva em causa.
Finalmente, um pedido de desculpas por todas as gralhas que escaparam à
revisão dos textos que digitalizámos e que agora se apresentam com uma facilidade de
leitura que não tinham quando eram fotocopiados. A maior homogeneidade visual e o
maior conforto na leitura espero que contribuam para aligeirar o esforço hermenêutico
que persiste ainda por falta de notas explicativas que ajudem o leitor na compreensão
dos textos. Deverão ser acrescentadas futuramente.
Estou ciente de que este Guião poderá ainda ser melhorado graças às sugestões
que vierem a ser feitas pelos seus utilizadores. Desde já as agradeço, em meu nome e no
dos meus futuros alunos e vossos futuros colegas.

Universidade de Évora, Fevereiro de 2007
Casimiro Amado

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

4

HISTÓRIA DA PEDAGOGIA E DA EDUCAÇÃO
CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS
1. O mundo greco-romano
1.1. A Grécia antiga: condicionalismos político-sociais.
1.2. Dois modelos de educação:
1.2.1. A educação estatal de Esparta.
1.2.2. O ideal educativo ateniense.
1.3. O fenómeno educativo da sofística.
1.4. O magistério socrático.
1.5. A teorização platónica da educação.
1.6. O realismo educativo de Aristóteles.
1.7. A "Paideia" helenística.
1.8. A educação romana.
2. O cristianismo
2.1. Novo ideal educativo e novas instituições de ensino.
2.1.1. O período apostólico.
2.1.2. O período patrístico.
2.1.3. O período monástico.
.1.4. O período escolástico.
2.1.4.1. A formação profissional nas corporações.
2.1.4.2. A organização das Universidades medievais.
2.1.4.3. O método escolástico.
2.1.4.4. A criação da Universidade portuguesa.
3. Renascimento e Humanismo
3.1. A cultura humanista e a nova pedagogia.
3.2. A pedagogia "activa e funcional" de Montaigne.
3.3. Rabelais e o confronto entre dois tipos de educação.
3.4. Experimentalismo e humanismo pedagógico em Portugal.
4. Reforma e Contra-Reforma
4.1. A Reforma Protestante e a educação: Lutero.
4.2. A Contra-Reforma: a Companhia de Jesus.
4.2.1. A criação da Universidade de Évora.
4.3. A pedagogia comeniana.
5. Do Iluminismo aos finais do século XIX
5.1. O Iluminismo.
5.2. Rousseau.
5.3. Pestalozzi e Froebel.
5.4. O Iluminismo em Portugal.
5.4.1. Verney e Sanches.
5.4.2. A obra do Marquês de Pombal.
5.5. A Revolução Francesa.
5.6. As ideias pedagógicas do Romantismo: Fichte.
5.7. A Revolução Industrial e seus reflexos na educação.
5.8. A educação e a pedagogia em Portugal, no século XIX.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

5

5.8.1. As reformas do liberalismo: Herculano e Garrett.
5.8.2. Antero de Quental e a ilustração do operário.
5.8.3. Adolfo Coelho e a educação popular.
5.8.4. Os métodos de Castilho e João de Deus.
6. O século XX e as Escolas Novas
6.1. Montessori e Decroly
6.2. A Escola de Genebra
6.3. A Escola Nova alemã
6.4. Kerschensteiner e Dewey
6.5. A Escola Nova em Portugal
7. Educação e Pedagogia no Portugal Contemporâneo
7.1. O debate pedagógico no final da Monarquia.
7.2. O debate pedagógico durante a I República.
7.2.1. Teorias, temas e problemas em confronto.
A reforma do ensino.
7.3. O debate pedagógico durante o "Estado Novo".
7.3.1. O debate pedagógico nos primeiros anos do regime.
7.3.2. A política educativa do "Estado Novo".
7.3.4. A "primavera" marcelista e a obra do ministro Veiga Simão.
7.4. A situação pedagógica-educativa no Portugal de hoje: a Lei de Bases do Sistema
Educativo.
7.5. A Reforma Educativa.
8. As grandes linhas pedagógicas do mundo contemporâneo
8.1. No contexto português
8.2. No contexto europeu
8.3. No contexto mundial

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

6

Introdução à disciplina
. Educação e Pedagogia. Pedagogia e Ciências da Educação. Ciências da Educação e
formação de professores. A História da Pedagogia e da Educação na formação de
professores.
Resumo: A nossa primeira tarefa será reflectir sobre os objectivos do
ensino-aprendizagem da disciplina de História da Pedagogia e da Educação no quadro
da formação de professores, tendo presente o lugar que esta ciência ocupa no âmbito das
Ciências da Educação. Conhecedores da várias propostas para o estabelecimento dum
quadro geral dos saberes acerca da educação, trataremos de compreender a relação entre
os mesmos e a definição do currículo de formação dos profissionais da educação.
Objectivos:
- Conhecer a origem etimológica do termo "Pedagogia".
- Explicar em que circunstâncias surgiu a noção de "Ciências da Educação".
- Compreender as razões dos que consideram "Pedagogia" e "Ciências da Educação"
como sinónimas.
- Compreender as razões dos que não consideram "Pedagogia" e "Ciências da
Educação" como sinónimas e defendem a superioridade de cada uma das noções.
- Definir o que são as "Ciências da Educação" e quais são.
- Explicar em que consiste o risco de as mesmas se tornarem "saberes em mosaico" e
indicar como ele pode ser superado.
- Explicar em que medida a educação é uma arte e simultaneamente uma técnica.
- Explicar como a formação em Pedagogia/Ciências da Educação pode contribuir para a
formação de um educador profissional.
- Compreender o papel que a História da Pedagogia e da Educação pode e deve
desempenhar no quadro da formação dos docentes.
ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
"A pedagogia é a teoria prática da educação". (Durkheim)
"A educação é a matéria da pedagogia". (Durkheim)
"A pedagogia é a ciência e a arte da educação". (Émile Planchard)
"Perante as ambiguidades do termo Pedagogia, (...) certos pensadores de ontem
e de hoje mostraram a sua preferência por uma noção que é simultaneamente mais
extensa e menos ambiciosa: a de Ciências da Educação. (...) Empreendimento de
equipas de especialistas que se encontram na encruzilhada das diversas ciências
humanas, as Ciências da Educação realizam incontestavelmente uma promoção da
pedagogia, assegurando-lhe condições de objectividade e de rigor científico. Mas,
devido à diversidade dos seus objectos e à complexidade das técnicas que utilizam, as
Ciências da Educação estão ameaçadas de constituir "saberes em mosaico",

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

7

artificialmente justapostos e cujos resultados só podem ser efectivamente totalizados
através de uma filosofia da educação". (Paul Juif e Fernand Dovero)
"As ciências da educação são constituídas pelo conjunto das disciplinas que
estudam as condições de existência, de funcionamento e de evolução das situações e dos
factos de educação". (Gaston Mialaret)
"A Pedagogia é uma ciência da educação, juntamente com as outras ciências da
educação, embora distinguindo-se delas por causa do seu carácter científico e, por
conseguinte, formando um grupo à parte. As ciências da educação incluem a Pedagogia:
mas a Pedagogia não inclui as "Ciências da Educação". (...) tenhamos em conta que a
pedagogia deve fundamentar-se nas "Ciências da educação"...". (J. M. ª. Quintana
Cabanas)
"Os educadores têm menos necessidade de técnicas, de receitas ou de truques
talhados à medida do que de um profunda concepção (...). Isto implica que o educador,
segundo as palavras de Harold Taylor, seja um student of teaching. Aprender
habilidades para a acção imediata não basta quando se ignoram os princípios sobre os
quais se baseiam estas habilidades. (...) Os educadores técnicos são já demasiado
numerosos. Aquilo de que se precisa são educadores que pensem, que reflictam - que
saibam". (Lucien Morin)
"[A História da Pedagogia e da Educação] permite (...) tornar mais inteligível a
pedagogia actual, pelo conhecimento do passado. Graças a ela descobrimos as origens,
às vezes longínquas, das nossas tradições educacionais. (...) Às vezes, esse legado do
passado pesa ainda ponderavelmente na prática educativa (...). (...) essa história estuda o
passado não somente para melhor compreender o estado presente das instituições, dos
métodos e das concepções educacionais, mas, também, para prever qual será o futuro
pedagógico das nossas sociedades, segundo uma atitude mental prospectiva (...). A lição
do passado» é experiência que deve auxiliar os educadores a evitar os erros cometidos, e
a promover as experiências pedagógicas". (Maurice Debesse)
"A história [da Pedagogia e da Educação] não é portanto um simples olhar
deitado sobre o passado; pode ser uma das ferramentas poderosas da compreensão do
presente e pertence deste modo de direito à família das ciências da educação. " (Gaston
Mialaret)
Texto para Análise: TEXTO 1
TEXTO 1
Capítulo II - QUADRO GERAL DAS CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO
Os capítulos precedentes colocaram em evidência, parece-nos, a complexidade das
situações e dos fenómenos que pertencem ao domínio da educação, bem como a
necessidade de fazer apelo a um grande número de disciplinas científicas, para tentar
discernir os factores que entram em jogo e as relações ou as leis que regem o conjunto
do sistema.
Classificaremos as ciências da educação em três categorias:

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

8

- as que estudam as condições gerais e locais da educação;
- as que estudam a situação de educação e os próprios factos de educação;
- as da reflexão e da evolução.
I - Disciplinas que estudam as condições gerais e locais da educação
Podemos distinguir cinco disciplinas que abordam os problemas sob este
ângulo: a história da educação, a sociologia escolar, a demografia escolar, a economia
da educação, a pedagogia comparada.
QUADRO GERAL
Quadro enumerativo das ciências da educação
1. Ciências que estudam as
condições gerais e locais da
instituição escolar:
História da educação
Sociologia escolar
Demografia escolar
Economia da educação
Educação comparada

2. Ciências que estudam a
relação pedagógica e o próprio
acto educativo:

3. Ciências da reflexão e da
evolução:

Ciências que estudam as condições
imediatas do acto educativo:
- Fisiologia da educação
- Psicologia da educação
- Psicossociologia dos pequenos
grupos
- Ciências da comunicação.

Filosofia da educação.

Ciências
da
didáctica
diferentes disciplinas.

Planificação da educação e teoria dos
modelos.

das

Ciências dos métodos e técnicas.
Ciências da avaliação.

1. A história da educação e da pedagogia. - É entre todas as ciências da educação
uma das mais antigas e, assim, uma das mais desenvolvidas, apesar das suas lacunas e
das suas insuficiências actuais que os especialistas lamentam. Respondendo à afirmação
de Augusto Comte segundo a qual um processo só pode ser compreendido por meio da
sua história, é possível afirmar que uma tentativa de explicação dos sistemas e dos
métodos que esquece completamente as dimensões históricas está votado ao fracasso.
A história da educação responde a várias necessidades· :
«Permite em primeiro lugar tornar mais inteligível a pedagogia actual pelo
conhecimento do passado. Descobrimos, graças a ela, as origens frequentemente
longínquas das nossas tradições educativas. Por exemplo, o sistema do mandarinato da
antiga China; a arte de interrogar o aluno de que a maiêutica de Sócrates1 nos oferece o
célebre modelo; a escola organizada como estabelecimento fechado, já nas escolas de
escribas da Antiguidade e sobretudo nas escolas monásticas da Idade Média; a prática
generalizada dos trabalhos escritos dos alunos a partir da pedagogia dos jesuítas; o
ensino mútuo assegurado por monitores, tal como existia em particular na Índia e como
Charles Bell espalhou primeiramente em Inglaterra no início do século passado, etc.
1

Na filosofia socrática, a arte de fazer descobrir ao interlocutor por meio de uma série de perguntas, as
verdades que contém em si. N. T.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

9

Esta herança do passado pesa por vezes ainda fortemente sobre a prática educativa, nos
países de velha civilização.»
A história da educação permite-nos então compreender a evolução, os processos
de mudança, as etapas, as acelerações, os afrouxamentos, e permite-nos fazer um
balanço mais claro e sobretudo mais inteligível da situação da educação actual. Dá-nos
também, pelas comparações que vai permitir, elementos de reflexão e de compreensão
indispensáveis à cultura geral do educador.
A história da educação abrange vários ramos que, evidentemente, se completam,
mas que nem todos atingiram o mesmo nível de desenvolvimento. Há em primeiro
lugar a história do pensamento pedagógico, das ideias em educação, das concepções
gerais. É muitas vezes preciso distingui-la daquilo a que chamamos a história dos factos
e das instituições de educação. René Hubert fazia já notar que «as doutrinas não estão
necessariamente soldadas aos factos, dado que tendem sempre para os transformar»; e
M. Debesse acrescenta: «Elas representam uma potência de invenção do género humano
ao mesmo tempo que um fermento de transformação». Ê claro que a tese da educação
que se encontra na República de Platão não é a da educação ateniense da época e, mais
perto de nós, a teoria contida no Émile de Rousseau não corresponde à prática da
educação no século XVIII. Não é menos verdade que esta história das ideias
pedagógicas (inseparável a nosso ver da história geral das ideias) tem um grande
interesse para melhor compreender, nem que fosse pela visão em negativo da realidade
que elas muitas vezes representam, a educação real de uma época.
Uma segunda orientação é, efectivamente, a história dos métodos e das técnicas
pedagógicas. Não se pode dizer que este seja o aspecto mais desenvolvido da história da
educação. Seria, porém muito importante poder analisar a evolução dos materiais
pedagógicos, por exemplo, em função da evolução pedagógica, técnica, social,
filosófica. A história dos livros de leitura é característica a este respeito. A influência do
racionalismo cartesiano traduz-se pelo método silábico de aprendizagem da leitura
codificada no século XVII por Ch. Demia; no século XVIII, sob a dupla influência da
filosofia sensualista e dos progressos técnicos da impressão, surgem as «ilustrações»; os
textos e as apresentações modificam-se em seguida sob a influência das teorias
modernas da filosofia psicológica e, mais particularmente, sob a influência da Teoria da
Forma... Tais análises históricas permitiriam distinguir as coerências e as incoerências
da prática da educação, o sentido exacto a atribuir a esta ou àquela prática, melhor
compreender pelo conhecimento das raízes históricas, a acção pedagógica actual.
Pode também assinalar-se a terceira orientação: a da história das instituições
pedagógicas. É razoável pensar que em cada etapa da história de uma sociedade o
estabelecimento desta ou daquela instituição ou a modificação das que existem
respondia a uma necessidade. O esclarecimento destas necessidades de mudança
permite compreender a significação exacta desta ou daquela parte do sistema. É pois
útil conhecer estes factos para, no decorrer de uma análise actual das situações,
distinguir o que pertence ao passado, o que pode ser abandonado como já não
possuindo a sua razão de ser, o que deve ser conservado se a função continua a existir.
A história não é portanto um simples olhar deitado sobre o passado; pode ser
uma das ferramentas poderosas da compreensão do presente e pertence deste modo de
direito à família das ciências da educação.
MIALARET, Gaston, As ciências da educação, Lisboa, Moraes Editores, 1976, pp. 18-35.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

10

ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
I. Questionário
1. O que é a Pedagogia? Qual a sua relação com as Ciências da Educação?
2. Explique em que circunstâncias surgiram as Ciências da Educação.
3. Em que caso podem as designações Pedagogia e Ciências da Educação ser tomadas
como tendo o mesmo significado?
4. Em que medida faz sentido a polémica "Pedagogia versus Ciências da Educação"?
5. Explique as razões dos que preferem "Pedagogia" a "Ciências da Educação". Têm
razão?
6. Explique as razões dos que preferem "Ciências da Educação" a "Pedagogia". Têm
razão?
7. Comente:
"... as Ciências da Educação (...) devido à diversidade dos seus objectos e à
complexidade das técnicas que utilizam, estão ameaçadas de constituir "saberes em
mosaico", artificialmente justapostos." (Paul Juif e Fernand Dovero)
8. Diga por que é grande o risco que as Ciências da Educação correm de constituirem
"saberes em mosaico" (Juif & Dovero), e explique como se pode combatê-lo.
9. Sendo a educação também uma arte, para que serve a formação pedagógica dos
professores?
10. Aprecie criticamente a pergunta "A Pedagogia é uma ciência ou uma arte".
11. Qual o lugar da Pedagogia quando a educação for concebida como mera arte?
12. Qual o lugar da História da Pedagogia e da Educação no quadro das Ciências da
Educação?
13. Que papel pode a História da Pedagogia e da Educação desempenhar na formação
dos profissionais da educação?
II. Elabore textos articulando os seguintes conceitos e expressões. Intitule-os.
14. "Ciências da Educação", "arte de educar", "formação pedagógica", "História da
Pedagogia e da Educação".

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

11

BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
CABANAS, José María Quintana, "Pedagogía, Ciencia de la Educación y Ciencias de
la Educación", in AAvv, Estudios sobre Epistemología y Pedagogía, Salamanca, Ed.
Anaya, 1983, pp. 75-107.
CARVALHO, Adalberto Dias de, Epistemologia da Ciências da Educação, Porto,
Afrontamento, 1988, pp. 69-97.
CARRASCO, Joaquín García, As Ciências da Educação, Pedagogos para quê?, Porto,
Brasília Editora, 1987, pp. 80-98.
JUIF, Paul, e DOVERO, Fernand, Guia do estudante das ciências pedagógicas, Lisboa,
Estampa Editora, 1974, pp. 11-24.
MIALARET, Gaston, As ciências da educação, Lisboa, Moraes Editores, 1976, pp. 718; 37-92.
PLANCHARD, Émile, Introdução à Pedagogia, Coimbra, Coimbra Editora, 1979, pp.
11-24.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

12

Introdução à disciplina
. História, História da Educação e História da Pedagogia.
. Quadro Geral da História da Pedagogia e da Educação.
Resumo: Reflectiremos agora sobre o que é a ciência da História, quais os seus
métodos, e quais os principais problemas epistemológicos que se colocam no seu seio.
Trataremos, em seguida, de esclarecer a diferença e a articulação entre a História da
Educação e a História da Pedagogia. Finalmente, analisaremos um Quadro Geral da
História da Pedagogia e da Educação.
Objectivos:
- Compreender o que é a História enquanto actividade científica que visa satisfazer
necessidades universais do ser humano.
- Compreender a inevitabilidade de a ciência da História ser contaminada pelos usos tão
polémicos quanto inevitáveis dessa ciência.
- Compreender os problemas epistemológicos que se levantam em virtude dessa
contaminação.
- Compreender o que vem a ser a abordagem da realidade, particularmente da realidade
educativa e pedagógica, com "espírito histórico".
- Identificar as principais transformações da ciência da História desde o positivismo aos
nossos dias.
- Compreender a diferença e a articulação entre a História da Educação e a História da
Pedagogia.
- Compreender em que medida a História da Educação e a História da Pedagogia
dependem do devido enquadramento na História Geral bem como dependem das
posições filosófico-epistemológicas do historiador.
- Formar, desde já, uma imagem global do conjunto da História da Educação e da
História da Pedagogia.
ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
a) Os usos da História e, em particular, os da História da Pedagogia e da Educação.
"... a história faz parte dos utensílios pelos quais a classe dirigente mantém o seu
poder. O aparelho de Estado procura controlar o passado simultaneamente ao nível da
política prática e ao nível da ideologia. O Estado, o poder, organizam o tempo passado e
fabricam a sua imagem em função dos seus interesses políticos e ideológicos". Jean
Chesneaux
"Quem controla o passado, domina o futuro". George Orwell
"Um povo conta a si próprio a história que pode compreender em cada alteração
decisiva do seu caminho". Alfred Dubuc
[Referindo-se a uma certa historiografia da educação] "A história da educação
(...) cabia-lhe, no melhor dos casos, justificar a opção doutrinal de carácter pedagógico
de quem a leccionava, ou fazer a apoteose de uma instituição. Por mais simpática que tal

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

13

opção se revelasse, ela não podia deixar de influir na selecção dos factos e dos
personagens considerados dignos de memória, o que, a seu turno, influenciava os
resultados ambicionados. No quadro dos seus objectivos de formação docente, esperavase obter, através deste ensino, uma espécie de contaminação ou de impregnação teórica
dos futuros professores". Rogério Fernandes
b) Natureza e fins da História da Pedagogia e da Educação.
"[A História da Pedagogia e da Educação] ... a ela se aplicam as regras do
método histórico: respeito aos textos, crítica dos documentos, precisão das referências,
rigor da análise e preocupação da objectividade. A história da pedagogia não é
considerada como realidade em si. Faz parte da história da civilização, no quadro da
história geral. (...) A evolução pedagógica não passa de aspecto particular da evolução
histórica geral. Estuda-se sob o efeito de quais causas complexas, ou tangida por quais
factos memoráveis, crise política, invenção técnica, doutrina nova, essa evolução
ocorreu; por quais processos e através de quais dificuldades se realizou. Procura-se,
assim, discernir o sentido dessa evolução, prever que rumo irá tomar amanhã. Pois essa
história estuda o passado não somente para melhor compreender o estado presente das
instituições, dos métodos e das concepções educacionais, mas, também, para prever
qual será o futuro pedagógico das nossas sociedades, segundo uma atitude mental
prospectiva (...)". Maurice Debesse
"Não há doutrina pedagógica concebível, grande reforma exequível, sem
conhecimento geral dos factos e das teorias do passado. (...) Uma história da pedagogia
é, com efeito, a seu modo, uma história do espírito humano, pois é a descrição das
formações sucessivas que ele recebeu, como das que, nas diversas épocas, os grandes
pensadores desejaram que recebesse. (...). Dá, ao cabo, esta lição de que as doutrinas
não são necessariamente presas aos factos, pois tendem sempre a transformá-los; é,
assim, uma permanente demonstração do poder de invenção inerente ao espírito
humano, que procura realizar-se tanto pela educação quanto por todas as outras
manifestações da sua actividade; corrobora a fé em seu valor e em seu destino". René
Hubert.
"(...) estamos, em realidade, diante de uma dupla história: a do pensamento
pedagógico, de um lado, e a da prática pedagógica, do outro. (...) Cumpriria distingui-las
radicalmente como o fez René Hubert em sua Histoire de la Pédagogie, ou associá-las
como o haviam feito os seus predecessores ? Qualquer das maneiras tem argumentos
por fazer valer". Maurice Debesse
"«Scholéin agein» não é não fazer nada, deixar-se arrastar nas doçuras de um
inútil farniente; é, e a nuance é importante, não participar nas actividades produtivas
dos bens de consumo. Daí resulta que a noção económica de energia e de produtividade
desempenha um papel considerável na história da escola. Ver-se-á esta desenvolver-se e
estender-se a camadas cada vez mais numerosas da população, à medida que os
progressos da ciência e da técnica libertarem os homens das tarefas necessárias ou úteis
à sua vida "material". A obrigação escolar, o ensino generalizado não é o resultado de
uma qualquer generosidade ou de um qualquer sentido do humano de que teriam estado
privados os nossos antepassados; inscreveu-se como uma possibilidade no dia em que
as crianças puderam, até uma idade cada vez mais elevada, ser subtraídas ao ciclo da
actividade económica". Arnould Clausse

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

14

Textos para Análise: TEXTO 2, TEXTO 3 e TEXTO 4

TEXTO 2
A História e o "espírito histórico"
"Durante muito tempo, os estudos históricos foram uma curiosidade, um
entretém de coleccionador e até um refúgio da sensaboria do quotidiano. Em nossos
dias, o conhecimento da História é um dos pilares em que assenta qualquer formação
cultural válida.
Sem ele faltaria à visão que temos do mundo a dimensão do Tempo. É no Tempo
e no Espaço que todas as coisas se situam, e sem ambas estas coordenadas as coisas
ficariam suspensas no maravilhoso. Um objecto, uma instituição, uma crença, colocados
fora do Tempo só podem imaginar-se ou existentes desde todo o sempre,
inalteravelmente, ou nascidos do nada num miraculoso instante.
Assim foi que antes que a mentalidade histórica penetrasse a linguística, se
julgou que as línguas tinham sido directamente ensinadas aos homens por Deus, como
os pais as ensinam às crianças. Na Moral e no Direito creu-se que os mandamentos e as
leis tinham sido escritos e promulgados pessoalmente por Deus e por Ele entregues ao
Seu povo. Nas Ciências Naturais pensou-se que as espécies animais e vegetais tinham
sido criadas, também por arbítrio divino, de uma vez para sempre e na sua forma
definitiva. Igualmente se julgou que as instituições sociais, por vontade de Deus
ou por decreto incompreensível da Natureza, tinham sido e seriam sempre tais como as
conheceram os homens de cada geração: que sempre houvera e sempre
haveria escravos; que sempre houvera e haveria senhores e servos, ricos e pobres; que
um determinado sistema económico, como o da concorrência entre empresários, vigente
durante o século XIX numa pequena região do mundo, era tão «natural» e tão definitivo
como a lei da gravitação universal.
É o espírito histórico que destrói estas crenças, mostrando-nos a constante
evolução e transformação das línguas, da Moral, do Direito, das sociedades, das
espécies, a incessante passagem de umas formas a outras, a sua multiplicação,
diversificação e enriquecimento. Com ele deixou de haver coisas eternas e começos
absolutos. Tudo é momento na sucessão dos momentos. Tudo tem antecedentes e
consequentes, e, como diz Heraclito, ninguém pode banhar-se duas vezes na mesma
água de um rio. Tudo tem em si o germe da morte, que é também o da vida. Tudo está
no Tempo.
O espírito histórico consiste justamente neste saber ver as coisas na sua
dimensão temporal. Mesmo no campo reduzido das ciências físicas, não é possível sem
ele uma visão científica da realidade. Não se pode ser biólogo sem se partir do
pressuposto de que todas as formas vivas têm antecedentes, nem tão-pouco astrónomo
sem se compreender que o sistema solar tem uma história. Metodologicamente, a noção
de que o conhecimento científico se desenvolveu no tempo com avanços, paragens e
saltos tem cada vez maior relevância na formação do cientista, e por isso tende cada vez
mais a fazer parte da sua bagagem a história da ciência que pratica.
SARAIVA, António José, Dicionário crítico, Editorial Querco,
Lisboa, 1984, pp. 91-92.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

15

TEXTO 3
História da Educação e História da Pedagogia
"(...) estamos, em realidade, diante de uma dupla história: a do pensamento
pedagógico, de um lado, e a da prática pedagógica, do outro. (...) Cumpriria distinguilas radicalmente como o fez René Hubert em sua Histoire de la Pédagogie, ou associálas como o haviam feito os seus predecessores ? Qualquer das maneiras tem argumentos
por fazer valer.
Com efeito, o estudo separado dos factos e das doutrinas evita confusões muito
frequentes entre a teoria e a prática: A República, de Platão, não é a educação ateniense
do século IV a.C., e tampouco o De pueris, de Erasmo, é o quadro da educação na
renascença. Como se sabe, o mais das vezes as doutrinas pedagógicas se opõem à
prática da sua época. Testemunha disso é o Émile, de J.-J. Rousseau, que se levanta
violentamente contra a "educação palradeira" dos colégios do século XVIII, e lhe opõe
os princípios de uma educação segundo a Natureza. Observa R. Hubert que "as
doutrinas não estão necessariamente ligadas aos fatos, pois tendem sempre a transformálos". Representam um poder de invenção do génio humano e, ao mesmo tempo, um
fermento de transformação. Pode-se até dizer que existe, paralelamente à evolução das
práticas educativas, porém dela distinta, uma evolução das doutrinas, e ver, na
pedagogia, um capítulo da história das ideias, que compreende, também, a das ideias
políticas, económicas, estéticas, e apresenta, no conjunto, certa unidade.
Apesar dessas vantagens, parece, entretanto, impossível cortar assim em duas a
história da pedagogia. A distinção entre factos e teorias não tem senão carácter relativo,
pois factos e teorias se condicionam e se esclarecem mutuamente. O próprio Émile não é
completamente compreendido sem a pedagogia de seu tempo. Com mais razão ainda
quando se trata de doutrinas que bem mais codificam um estado de coisas do que
inovam: é o que acontece com o Traité des études, de Rollin, no início do século XVIII.
Além disso, a ligação entre a teoria e a prática é feita pelos próprios educadores, cuja
pedagogia se inspira em elementos de doutrina, na influência do meio onde vivem,
assim como em sua experiência pessoal.
Em minha opinião, portanto, a história da pedagogia deve associar os dois
domínios e mostrar-lhes a interacção. Uma dicotomia, independentemente das
repetições que pode acarretar, contém algo de arbitrário". Maurice Debesse

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

16

TEXTO 4

QUADRO GERAL DA HISTÓRIA DA PEDAGOGIA E DA EDUCAÇÃO
ÉPOCA / DATA

LOCAL

EDUCAÇÃO

desde IX a.C.

Esparta

* física, militar

VII-V a.C.

Atenas

* ginástica e música

V a.C.

Atenas

* ed. sofística

IV a.C.

Atenas

IV a.C.

Atenas

ARISTÓFANES,
As Nuvens

III-I a.C.

Mundo
helenístico

PEDAGOGIA

GRÉCIA

* "enkyklios paideia"

PLATÃO,
A República
ARISTÓTELES,
A Política
estóicos e epicuristas

ROMA
até III a.C.

Roma

* ed. agrícola, moral
e militar

Catäo

II a.C.-II d.C.

Roma

* ed. "humanística"

II d.C.-V d.C.

Império
Romano

* ed. pública
QUINTILIANO, A educação do orador

Cícero
(infl. grega)

EDUCAÇÄO CRISTÄ E MEDIEVAL
I - IV Império
Romano

* ed. catequística

desde V

O Mestre
Europa

VIII

Império
Carolíngio

XI

Europa

XII-XV

Padres da Igreja

CLEMENTE DE ALEXANDRIA,

O pedagogo

SANTOAGOSTINHO,

*ed. monástica

*"Renascimento
carolíngio"
CARLOS MAGNO, Capitular de 789
* escolas
episcopais
Europa
* ed. cavaleiresca
* ed. profissional
(corporaçöes de ofícios)
* Universidades

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

17

ÉPOCA / DATA

LOCAL

EDUCAÇÃO

PEDAGOGIA

RENASCIMENTO E HUMANISMO
Sécs. XV - XVI

França

Pantagruel

Colégio de França
Colégio de Guyenne

RABELAIS,
Gargântua e
MONTAIGNE,
Ensaios, Cap. XXV

Países Baixos

Colégio de Deventer

Erasmo de Roterdão

Portugal

Colégio das Artes

André de Resende

REFORMA E CONTRA-REFORMA
Séc. XVI

Mundo
protestante

* ed. pública e universal
LUTERO, Aos príncipes cristãos

Mundo
católico

COMPANHIA DE JESUS, Ratio Studiorum
(Jesuítas)

Portugal

Universidade de Évora

Mundo
católico

Oratorianos

SÉCULO XVII

Boémia
(República Checa)

COMÉNIO,
Didáctica Magna

SÉCULO XVIII
Genève
("Suíca")

ROUSSEAU,
Emílio ou da Educação

França

Revoluçäo Francesa
CONDORCET,
Instrução Pública eOrganização do Estado

Portugal

Reformas
Pombalinas

RIBEIRO SANCHES,
Cartas sobre a instrução da mocidade
LUÌS ANTÓNIO VERNEY,
O Verdadeiro Método de estudar

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

18

ÉPOCA / DATA

LOCAL

EDUCAÇÃO

PEDAGOGIA

SÉCULO XIX
Suíça

Pestallozzi

Alemanha

Froebel

Portugal

Revoluçäo liberal

A. Garrett

ALEXANDRE HERCULANO,

Instrução Pública
A. F. Castilho
Joäo de Deus
SÉCULO XX ­ PORTUGAL
1910-1926

I República

1926-1974

Estado Novo

1974-1986

Pós- 25 de Abril

1986-

L.B.S.E. e
Reforma

JOÄO DE BARROS,
Educação e democracia
A. PIMENTA,
Educar e Instruir

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

19

ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
I. Questionário
1. Que necessidades universais do ser humano são satisfeitas pela actividade científica
que designamos como "História"?
2. Quais são os usos tão polémicos quanto inevitáveis dessa ciência?
3. Que problemas epistemológicos que se levantam em virtude dessa contaminação?
4. No caso da História da Pedagogia e da Educação, quais são os principais riscos a
enfrentar na perspectiva desses usos?
5. O que vem a ser uma abordagem da realidade, particularmente da realidade educativa
e pedagógica, com "espírito histórico"?
6. Quais as principais transformações da ciência da História desde o positivismo aos
nossos dias?
7. Distinga e relacione a História da Educação e a História da Pedagogia.
8. Em que medida a História da Educação e a História da Pedagogia devem ser tratadas
no quadro da História Geral?
9. Em que medida a História da Educação e a História da Pedagogia dependem das
posições filosófico-epistemológicas do historiador? Exemplifique.
10. Que filosofia da história da educação se pode deduzir a partir da etimologia grega
de "escola"?
II. Elabore um texto articulando os seguintes conceitos. Intitule-o.
. "História", "História da Pedagogia e da Educação", "Ideologia".
BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
CALVO, Maria del Carmen Benso, "Notas para um planteamiento actual de la História
de la Educación", Revista Española de Pedagogia, Madrid, Ano XI, 157, Jul-Set
1982, pp.119- 126.
CLAUSSE, Arnould, A Relatividade Educativa, Livraria Almedina, Coimbra, 1976, pp.
11-31.
LÉON, Antoine, Introdução à História da Educação, Publicações D. Quixote, Lisboa,
1983.
MIALARET, G., DEBESSE, M., Tratado das Ciências Pedagógicas, Companhia
Editora Nacional, S. Paulo, 1974, vol. 2., pp. XVII-XXV.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

20

1. O mundo greco-romano
1.1. A Grécia antiga: condicionalismos político-sociais.
1.2. Dois modelos de educação:
1.2.1. A educação estatal de Esparta.
1.2.2. O ideal educativo ateniense.
Resumo: Entraremos agora no estudo do panorama educativo e pedagógico da
Antiguidade greco-romana. Reconhecendo a cultura e a civilização gregas como fontes
primeiras da civilização ocidental, consideraremos aqui os dois protótipos de
organização social e educativa que correspondem às duas realidades tão distintas quanto
opostas das Cidades-Estado de Atenas e Esparta. No caso de Atenas deter-nos-emos no
momento imediatamente anterior à entrada em cena dos sofistas e dos filósofos, novos
mestres defensores, quer na teoria quer na prática, de um novo tipo de educação da
juventude.
Objectivos:
- Conhecer os condicionalismos geográficos, económicos, políticos, sociais e religiosos
da Grécia antiga.
- Compreender a teoria do "milagre grego", e por que entrou em crise.
- Distinguir os tipos ateniense e espartano de organização político-social, mesmo antes
da instauração da "democracia" ateniense.
- Compreender os condicionalismos que determinam a natureza militarista da sociedade
e da educação espartanas.
- Identificar as características da educação ateniense na sua fase arcaica ou homérica.
- Identificar as características da educação ateniense na sua fase antiga, resumidas na
noção de ("kalokagathia").
ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
"A mais de dois milénios de distância, passa-se, sem transição histórica, mas
segundo a lógica mais estrita, de Esparta para a Alemanha hitleriana em que, mutatis
mutandis, as coisas se apresentam da mesma maneira. (...) Hitler escreveu: «O Estado
nacional deve, em primeira linha, orientar o seu esforço pedagógico, não para a simples
absorção de conhecimentos, mas para a formação de corpos sãos. Não `e senão em
segunda linha que vem... a formação das faculdades espirituais. E aqui ainda, vem em
primeira linha o desenvolvimento do carácter, particularmente a cultura do carácter, da
força de vontade e de decisão (...); não é senão depois, em último lugar, que vem o
ensino científico»". Arnould Clausse
"A antiga educação ateniense era mais artística que literária, e mais desportiva
que intelectual". Henri-Irénée Marrou

Textos para Análise : TEXTO 5 e TEXTO 6

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

21

TEXTO 5
A EDUCAÇÃO EM ESPARTA

O reqime escolar em Esparta
"Depois de ter falado das ideias de Licurgo a favor das crianças antes do seu
nascimento, vou entrar em pormenores sobre a educação dos rapazes. Naque1es países
da Grécia que se vangloriam de educar melhor a juventude, logo que as crianças são
capazes de entender a que se lhes diz, tem-se a preocupação de lhes dar escravos como
professores; tem-se a preocupação de as enviar para as escolas públicas, a fim de que
aprendam os rudimentos da linguagem, a música e os exercícios da palestra
(= exercícios físicos). Além disso, enfraquecem-se os seus pés, por meio de calçado;
debilitam-se os seus corpos, fazendo-as mudar de vestidos com as estações; enfim, não
se conhece outra medida das suas necessidades além da capacidade dos seus estômagos.
Licurgo, em vez de dar escravos como professores a cada uma das crianças em
particular, nomeou para as dirigir um dos principais magistrados, chamado por esse
motivo paidónomo. É ele que tem o poder de reunir as crianças e de punir severamente
aquelas que se entregam à moleza. Foram-lhe dados também adolescentes armados de
vergastas para castigar aqueles que o merecerem ser. Daí a grande reserva e
subordinação entre a juventude.
Em vez de procurar a delicadeza dos pés, para os endurecer, proibiu o calçado,
persuadido de que, caminhando com os pés nus, as crianças se tornariam mais ligeiras
para a corrida, mais aptas para o salto, para transpor obstáculos, para escalar montes
escarpados, para descer os declives mais rápidos.
Inimigo do luxo nos vestidos, quis acostumá-las a não ter senão um para todo o
ano; era, segundo ele, um meio de as endurecer contra o frio e contra o calor.
Regulamentou as refeições de maneira que os rapazes aprendessem, pela sua
própria experiência, a não sobrecarregar o estômago e a não ir além do seu apetite.
Quando chegar a ocasião, dizia ele, os homens assim educados suportarão mais
facilmente a fome; na guerra, poderão, seguindo as ordens dos seus chefes, viver
durante mais tempo com uma módica ração, contentar-se sem dificuldade com as
comidas mais grosseiras. Pensava, além disso, que os alimentos que tornam os corpos
secos, nervosos, contribuem muito mais para a beleza da figura e para o vigor da
constituição que aqueles que produzem a gordura.
No entanto, a fim de que eles não tivessem que passar fome, se se não
encarregou de lhes fornecer o necessário, permitiu-lhes ao menos que a isso provessem
eles mesmos, roubando os objectos de que tinham necessidade. Sem dúvida, não se
acusará Licurgo por não ter proporcionado outros meios, quando permitiu os roubos
astuciosos para subsistir. Acaso não tem o ladrão que quer fazer uma presa, que vigiar
durante a noite, imaginar os estratagemas durante o dia, armar uma emboscada, ter
gente à espreita?
Treinando as crianças em todas essas manobras, o seu objectivo era, portanto,
evidentemente, torná-las mais hábeis para procurarem o que lhes era necessário e mais
aptas para a guerra. Mas porque é que Licurgo, considerando o furto um mérito,
submeteu ao chicote aquele que fosse apanhado a roubar? Que admira! Acaso em todas
as escolas não há castigos para aqueles que seguem mal os princípios que se lhes
ensine? O que se pune entre os espartanos, não é o roubo, mas a feita de jeito.
Era uma boa acção roubar os pães de cima do altar de Diana-Ortia; no entanto,
aquele que se deixasse apanhar era condenado a ser fustigado pelos seus camaradas.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

22

Qual era então o objectivo do legislador senão mostrar que se pode comprar uma glória
e um prazer duradoiros ao preço de uma dor passageira? Outra lição a tirar daí é que,
nas ocasiões em que é necessária a rapidez, o homem indolente não consegue nenhuma
vantagem, e até sofre com isso.
O legislador de Esparta não quis que as crianças estivessem sem vigilante,
mesmo na ausência do mestre. O primeiro que se apresenta toma então o seu lugar, para
ordenar às crianças o que julga honesto e para punir aquelas que daí se desviam. Com
um regulamento tão sensato, tornou ainda as crianças mais dóceis: Com efeito, quer na
juventude, quer na idade viril, todos os espartanos respeitam singularmente os
magistrados.
E a fim de que as crianças não ficassem sem monitor, na hipótese de se não
encontrar nenhum homem feito, ordenou que seria o mais hábil de cada classe que a
comandaria. Assim, as crianças jamais ficavam sem chefe.
Quando os rapazes passam da classe das crianças para a dos adolescentes, o uso
dos outros gregos é retirá-las então das mãos dos professores e dos mestres, para as
libertar de toda a autoridade e torná-las perfeitamente independentes. Licurgo seguiu
um método contrário. Convencido de que a adolescência é naturalmente orgulhosa,
impetuosa, insolente, sujeita a toda a efervescência das paixões, sujeitou-a, por um lado,
aos exercícios mais laboriosos, e, por outro lado, imaginou mil meios de a ocupar
constantemente; e, declarando que aqueles que se dispensassem das ocupações
prescritos pelas leis seriam excluídos dos empregos honrosos, tornou os magistrados, os
pais ou os amigos dos jovens atentos a prevenir neles toda a acção insolente que os
exporia ao desprezo geral dos seus concidadãos.
Além disso, querendo imprimir fortemente a modéstia nos corações, ordenou
que se caminhasse nas ruas em silêncio, com as mãos sob as vestes, sem voltar a cabeça
para um lado ou para o outro, com os olhos sempre fixos para diante de si. E não
contribuiu isso para fazer conhecer que a modéstia pode ser apanágio do homem ainda
mais que da mulher? É certo que eles não fazem mais barulho que as estátuas; os seus
olhos permanecem quase imóveis; enfim, eles são mais modestos que as próprias
virgens. Quando se encontram na sala das refeições, contentam-se em responder às
perguntas que se lhes fazem. Tais os cuidados que Licurgo teve para com as crianças".
XENOFONTE, A República de Esparta

A rivalidade como meio educativo
"Licurgo pensou que se suscitasse combates de virtude entre os adolescentes,
torná-los-ia capazes de todos os prodígios de coragem e de virtude. Eis como ele os pôs
em combate uns com os outros: Os éforos escolhem na classe dos adolescentes três dos
guerreiros mais robustos e mais corajosos para comandar um grupo, sob o nome de
hipaguetes. Cada um deles escolhe cem cavalheiros, motivando a escolha de uns e a
exclusão dos outros.. Os que foram excluídos tornam-se inimigos do comandante do
esquadrão e daqueles que ele preferiu. Observam-se uns aos outros, prontos a denunciar
aqueles que, por indolência, se entregam a acções consideradas pouco honestas.
Sem dúvida que, de todos os combates, é o mais útil ao Estado e o mais
agradável aos deuses, pois daí resultam lições públicas de virtude, e cada um em
particular esforça-se por ultrapassar os seus companheiros, pronto a concorrer com
todas as suas capacidades para o bem geral. Desse modo, conservam também
necessariamente as suas forças; com efeito, a rivalidade que reina entre eles leva-os a

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

23

baterem-se em qualquer parte que se encontram. Todo o espartano tem o direito de
apartar os combatentes; e aquele cujo encarniçamento torne indócil é conduzido aos
éforos pelo monitor. Estes condenam-nos a uma multa, para lhe ensinarem fortemente a
não se deixar dominar pela cólera até ao ponto de desobedecer às leis".
XENOFONTE, Op. Cit.

A educação das raparigas em Esparta
"Ele (Licurgo) quis que as raparigas se fortalecessem, exercitando-se na corrida,
na luta, a lançar o disco e o dardo, a fim de que os filhos que elas viessem a conceber
ganhassem fortes raízes em corpos robustos, para lutar com mais vigor, e que elas
próprias, olhando o parto sem receio, resistissem com mais coragem e facilidade às
dores. Tirou às raparigas a moleza da sua vida, a sua educação à sombra e a fraqueza do
seu sexo: acostumou-as a aparecer nuas em público, como os rapazes, a dançar, a cantar
em certas solenidades, em presença destes, e sob o seu olhar. Por vezes, elas
atiravam-lhes alguma piada bem a propósito, censurando aqueles que tinham cometido
alguma falta, e dando louvores àque1es que os haviam merecido : duplo aguilhão que
excitava, no coração dos rapazes, a emulação do bem e o amor da virtude... A nudez das
raparigas nada tinha de impúdico: o pudor estava lá e ninguém pensava na
intemperança; ao contrário, isso contribuía para as habituar à simplicidade, para lhes dar
uma emulação de vigor e de força; era isso que elevava os seus corações acima dos
sentimentos do seu sexo, mostrando-lhes que elas podiam partilhar com os homens o
preço da glória e da virtude.
Deste modo, as mulheres espartanas podiam pensar e dizer com confiança aquilo
que se atribui a Gorgo, mulher de Leónidas. Uma mulher estrangeira dizia-lhe:
- Vós, as mulheres Lacedemónias, sois as únicas que mandais nos homens.
- É que nós somos as únicas, respondeu ela, que colocamos homens no mundo."
PLUTARCO (séc. I d. C.), Vida dos homens ilustres

TEXTO 6
A EDUCAÇÃO ATENIENSE
Esparta e Atenas
"De facto, se a cidade dos Lacedemónios fosse devastada, e ficassem apenas
os templos e os alicerce das construções, creio bem que , ao fim de bastante tempo,
se suscitariam muitas desconfianças entre os vindouros quanto à sua glória; e,
contudo, eles governam dois quintos do Peloponeso e têm a hegemonia sobre a sua
totalidade, e ainda, fora dele, sobre muitos aliados. No entanto, como a cidade deles
não é um centro único, e não possui templos nem construções opulentas, antes se
distribui a sua população por aldeias, à maneira antiga da Grécia, pareceria muito

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

24

insignificante. Ao passo que, se aos Atenienses acontecesse o mesmo, se lhes
atribuiria o dobro do poder que realmente têm, em face da sua aparência."
TUCÍDIDES (séc. V a. C.), Livro I, X, 2

Elogio da constituição ateniense
"O regime político que nós seguimos não inveja as leis dos nossos vizinhos,
pois temos mais de paradigmas para os outros do que de seus imitadores. O seu
nome é democracia, pelo facto de a direcção do Estado não se limitar a poucos,
mas se estender à maioria; em relação às questões particulares, há igualdade
perante a lei; quanto à consideração social, à medida em que cada um é
conceituado, não se lhe dá preferência nas honras públicas pela sua classe, mas pelo
seu mérito; nem tão-pouco o afastam pela sua pobreza, devido à obscuridade da sua
categoria, se for capaz de fazer algum bem à cidade.
Administramos livremente os assuntos da comunidade, bem como o que toca à
mesquinha e recíproca observação da vida quotidiana, sem estarmos encolerizados
com o próximo, se faz alguma coisa a seu belprazer, e sem lhe lançar em rosto
censuras que não são um castigo, mas que importunam. Mas, ao passo que vamos
vivendo a nossa vida particular sem causarmos incómodos, na nossa vida pública,
temos receio de fazer transgressões, pois damos ouvidos aos que se conservam no
poder e às leis, especialmente àquelas que foram estabelecidas para socorro dos
oprimidos e às que, mesmo sem serem escritas, causam em quem as transgredir
uma vergonha que todos reconhecem.
Além disso, pusemos à disposição do espírito muitas possibilidades de nos
repousarmos das fadigas. Temos competições e sacrifícios tradicionais pelo ano
fora, belas casas particulares, cujo encanto próprio expulsa dia a dia os
aborrecimentos. Devido à grandeza da cidade, afluem aqui todos os produtos da
terra inteira, e acontece que disfrutamos dos bens locais com não menos
familiaridade que dos dos outros países.
Distinguimo-nos dos nossos adversários, no que respeita a assuntos bélicos, no
seguinte: franqueamos a todos a nossa cidade, e não há ocasião alguma em que,
numa proscrição de estrangeiros, cerceemos seja a quem for qualquer oportunidade
de aprender ou de ver um espectáculo, cuja observação pudesse ser útil a algum
inimigo, se não lho ocultássemos. Não confiamos mais nos preparativos e nas
ciladas do que na coragem que brota de nós mesmos para a acção.
E, na educação, os outros, logo desde a juventude praticam exercícios penosos,
procurando alcançar a força viril; nós, porém, que levamos uma vida sem
constrangimento, não corremos com menos ardor ao encontro de perigos à altura
das nossas forças. Eis uma prova deste facto: os Lacedemónios sozinhos não fazem
uma expedição ao nosso território, mas somente com todos os seus aliados, ao
passo que nós sem dificuldade invadimos os outros, e em terra alheia vencemos a
maior parte das vezes os que defendem o seu próprio país. Jamais a um inimigo se
depararam as nossas forças reunidas, por uma parte delas empregada na marinha,
outra em terra, enviada em empresas múltiplas. Mas, se acaso se defrontam com
uma das suas parcelas, e superam alguns dos nossos, logo se vangloriam de nos pôr
todos em fuga; e, somos nós que vencemos, afirmam que foram derrotados pela
totalidade das nossas forças. Se, pois, com mais desprendimento do que esforço, e
com uma energia mais derivada dos nossos hábitos do que descrita pelas leis,

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

25

quisermos expor-nos ao perigo, sucede-nos que não padecemos antecipadamente as
dores que estão para vir, e, quando chega a ocasião, não nos mostramos menos
corajosos do que os que vivem em contínuo estado de esforço. Por isto é a cidade
digna de admiração, e por outras razões ainda.
Amamos o belo com simplicidade e prezamos a cultura sem moleza. Servimonos da riqueza mais como meio de trabalho do que como objecto de presunção
oratória, e a pobreza não é tida por vergonha, mas mais vergonhoso é não a evitar,
trabalhando.
Os mesmos indivíduos cuidam das questões familiares e das políticas, e a
outros, aos que se dedicam aos seus ofícios, não falta um conhecimento suficiente
dos assuntos públicos, Somos os únicos que entendemos que quem não compartilha
de nenhuma destas preocupações não é indiferente, mas sim inútil, e por nós
julgamos as questões públicas, ou, pelo menos, estudamo-las convenientemente,
não por pensarmos que as palavras prejudicam a acção, mas sim que é mais nocivo
não ensinar primeiro pela discussão, antes de chegar o tempo de actuar.
Diferentemente dos outros, temos ainda a norma de ousarmos o máximo, mas
reflectir profundamente sobre a empresa a que nos votamos. Enquanto que aos
outros a ignorância traz a coragem, e o cálculo acarreta a hesitação.Com razão se
podem julgar mais corajosos os que conhecem com toda a clareza os riscos e
prazeres e, por causa deles, não se alheiam do perigo. Também na generosidade de
conduta somos o oposto da maioria. Não é por recebermos benefícios dos amigos,
mas por lhes fazermos bem, que os conservamos. O benfeitor é um amigo mais
firme, porque está mais empenhado em conservar o favor em débito, pela sua
benevolência para com aquele a quem o concedeu. O agraciado, por sua vez,
mostra-se mais cordato, sabendo que pagará o favor, não por gentileza, mas para
satisfazer uma dívida. E somos os únicos que ajudamos alguém, não tanto com a
mira nas vantagens, como com a confiança própria de homens livres.
Em resumo, direi que esta cidade, no seu conjunto, é a escola da Grécia, e cada
um de nós em particular, ao que me parece, se mostra mais apto, para as mais
variadas das formas de actividade e para, com a maior agilidade, unida à graça, dar
provas da sua perfeita capacidade física. É a própria força da cidade que, em
virtude destas qualidades, que possuímos, bem demonstra como o que acabo de
dizer não é um discurso forjado para estas circunstâncias, mas a verdade dos factos.
Sozinha dentre as que existem, é posta à prova e mostra-se superior à fama que
possui, e é a única que, quando invadida, não causa irritação ao inimigo pelo
carácter dos que o derrotam, nem censura aos que ficam submetidos, por serem
governados por homens indignos. Grandes são as provas do nosso poderio, e
nenhuma por documentar; seremos pois admirados pelos presentes e pelas gerações
futuras; não careceremos de um Homero como encomiasta, nem de ninguém que
deleito de momento com os seus versos, mas cuja ficção arbitrária dos factos virá a
ser desmentida pela verdade. Mas forçámos todo o mar e toda a terra a ser
permeável à nossa audácia e erigimos em toda a parte padrões eternos de derrotas
como de vitórias.
Foi por uma cidade assim que pereceram nobremente em combate os que
julgaram não dever consentir que os privassem dela. E os que ficaram é natural que
queiram sofrer por sua causa."
TUCÍDIDES, Livro II, XXXVI-XIII

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

26

A antiga educação ateniense
"­ Logo que a criança começa a compreender o que lhe dizem, a ama, a mãe, o
pedagogo e até o próprio pai se esforçam por que ela se torne o mais perfeita
possível. A cada acção ou palavra lhe ensinam ou apontam o que é justo e o que
não é, que isto é belo e aquilo vergonhoso, que uma coisa é piedosa, e outra ímpia,
e "faz isto", "não faças aquilo". E, ou ela obedece de boa mente, ou então,
corrigem-na com ameaças e pancadas, como se fosse um pau torto e recurvo.
Depois, mandam-na à escola, com a recomendação de se cuidar mais da educação
das crianças que do aprendizado das letras e da cítara. Os mestres, por sua vez,
empenham-se nisso, e, depois de elas aprenderem as letras e serem capazes de
compreender o que se escreve, como anteriormente o que se dizia, põem-nas a ler
nas bancadas as obras dos grandes poetas, e obrigam-nas a decorar esses poemas,
nos quais se encontram muitas exortações, e também muitas digressões, elogios e
encómios da valentia dos antigos, a fim de que a criança se encha de emulação, os
imite e se esforce por ser igual a eles.
Os mestres de cítara, por sua vez, fazem outro tanto, cuidando do bom senso e
de evitar que os jovens procedam mal. Além disso, depois de saberem tocar,
aprendem as obras dos grandes poetas líricos, que executam na cítara. Assim
obrigam os ritmos e harmonias a penetrar na alma das crianças, de molde a civilizálas, e, tornando-as mais sensíveis ao ritmo e à harmonia, adestram-nas na palavra e
na acção. Na verdade, toda a vida humana carece de ritmo e de harmonia. Além
disso, ainda se mandam as crianças ao pedótriba, a fim de possuírem melhores
condições físicas, para poderem servir e um espírito são, e não serem forçadas à
cobardia, por fraqueza corpórea, quer na guerra, quer noutras actividades. Assim
fazem os que têm mais posses; e: os de mais posses são os mais ricos. Os filhos
desses começam a ir à escola de mais tenra idade, e saem de lá mais tarde.
Depois de estarem livres da escola, o Estado, por sua vez, obriga-os a
aprender as leis e a viver de acordo com elas, a fim de que eles não procedam ao
acaso. Tal como o mestre-escola que, para os que não sabem escrever, traça as
letras com o estilete e lhes entrega a tabuínha e os força a desenhar o traçado dos
caracteres, assim também a cidade, depois de ter delineado as leis, criadas pelos
bons e antigos legisladores, os força a mandar e a serem mandados do acordo com
elas. E quem as transgredir é castigado, e o nome desse castigo, na nossa cidade
como noutras partes, é prestar contas, como se fosse prestar contas à justiça.
Perante tais cuidados com a virtude particular e pública, ainda te admiras, ó
Sócrates, e pões objecções à possibilidade de a virtude se ensinar? Não há nada que
admirar; mais de estranhar seria que e1a se não pudesse ensinar."
PLATÃO, Protágoras, 325c;-326e
ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
I. Questionário
1. Quais os condicionalismos geográficos, económicos, políticos, sociais e religiosos da
Grécia antiga?
2. O que defendia a teoria do "milagre grego"? Por que entrou em crise?

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

27

3. Em que medida as diferenças que separam os tipos ateniense e espartano de
organização político-social se reflectem na educação de cada uma das cidades ?
4. Quais os condicionalismos que determinam a natureza militarista da sociedade e da
educação espartanas.
5. Em que medida a educação espartana é um exemplo claro da articulação íntima entre
uma sociedade e a educação que nela se faz.
6. Relativamente à educação ateniense diga quais as fases que teve anteriormente aos
sofistas.
7. Caracterize a educação ateniense na sua fase arcaica ou homérica.
8. Comente: "O ideal da educação antiga (...) resume-se numa palavra: a
Kalokagathia (...)." Henri-Irénée Marrou
9. O que significa exactamente a noção de ("kalokagathia")?.
10. Poderá a antiga pedagogia ateniense funcionar como ideal para a escola actual? Em
que aspectos?
II. Elabore um texto articulando os seguintes conceitos. Intitule-o.
. "educação espartana", "Kalokagathia".

BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
CLAUSSE, Arnould, A relatividade educativa. Esboço de uma história e de uma
filosofia da escola, Coimbra, Liv. Almedina, 1976, pp. 48-55.
DOBSON, J. F., La educación antigua y su significado actual, Editorial Nova, Buenos
Aires, 1947.
JAEGER, Werner, - Paideia, a Formação do Homem Grego, Editora Aster, Lisboa,
1979, pp. 98-120.
MARROU, Henri-Irénée, Histoire de l'Éducation dans l'Antiquité, Paris, Seuil, 1965,
pp. 31-86.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

28

1.3. O fenómeno educativo da sofística.
1.4. O magistério socrático.
Resumo: A revolução operada por Sócrates e pelos Sofistas na educação ateniense será
o assunto desta lição. Graças ao testemunho precioso de Aristófanes acerca dessa
revolução, podemos perceber como ela tocou no âmago da forma ateniense de encarar a
Paideia. Esta revolução foi tão profunda que, a bem dizer, até aos nossos dias ainda não
nos desviámos significativamente da opção intelectualista e verbalista então tomada. As
nuances da oposição colorida entre Sócrates e os Sofistas como, logo mais, entre Platão
e Isócrates, não escondem que aquilo a que assistimos aqui é ao enterro do ideal da
.
Objectivos:
- Identificar os componentes da "antiga educação" ateniense, particularmente o
destaque da educação física.
- Compreender que essa educação física se articulava com os restantes componentes, na
perspectiva de uma educação integral.
- Compreender que quer a antiga quer a nova educação ateniense eram privilégio de
uma reduzida elite social.
- Compreender as razões que determinaram a necessidade de uma "educação nova" na
Atenas do século IV a.C.
- Compreender que, apesar de adversários em alguns aspectos, Sócrates e os Sofistas
partilham uma atitude comum em termos de prioridades educativas dos jovens.
- Compreender o carácter literário e verbalista da nova educação ateniense.
- Compreender o mal-estar criado na sociedade ateniense mais conservadora pela
revolução operada por Sócrates e pelos Sofistas na educação da juventude. (Leitura
indispensável de As Nuvens, de Aristófanes)
- Identificar as fases do método socrático, compreender o seu significado pedagógico e
analisar a sua sobrevivência na pedagogia dos nossos dias.
- Compreender como, a certa altura, o debate pedagógico se transfere da oposição entre
a "antiga educação" e a "nova" para a oposição entre duas variantes desta última, uma
centrada na Retórica e outra na Filosofia.

ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
"Não é exagero nenhum falar de uma revolução operada pelos Sofistas no
domínio da educação grega". H.-I. Marrou

Textos para Análise : TEXTO 7, TEXTO 8 e TEXTO 9

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

29

TEXTO 7

ARISTÓFANES

As Nuvens* (433 a. C.)
PERSONAGENS: Estrepsíades (pai), Fidípides (filho), Sócrates, Raciocínio Justo,
Raciocínio Injusto, Discípulos de Sócrates, Criado de Estrepsíades, Dois credores,
Coro das Nuvens, dividido em dois meios coros, e dirigido pelo Corifeu.
(O pai leva o filho a Sócrates para que ele o ensine...)
FID. (Deixando-se levar) ­ Bem ... Talvez ainda te venhas a arrepender... Demos tempo
ao tempo...
ESTR. ­ Ora ainda bem que te deixas convencer. (A Sócrates, que está ainda dentro de
casa) Chega aqui, Sócrates, chega aqui, sai cá para fora, que te trago aqui o meu
filho. (Entra Sócrates) Ele bem não queria, mas lá o convenci.
SÓCR. ­ É natural... não passa dum putozeco, nunca esfolou o cabedal aqui
dependurado nos nossos engenhos1...
FID. ­ Esfolado ficarias tu, se te dependurasses2... no galho.
ESTR. ­ Diabos te levem! Isso são coisas que se façam, rogar pragas ao senhor
professor?
SÓCR. ­ Ora vejam só: «dependuraasses»! Que maneira mais ridícula de pronunciar,
assim com os beiços escancarados... Como é que um tipo destes pode alguma vez
na vida aprender a safar-se duma condenação, a fazer uma citação em tribunal, ou
a convencer com falinhas mansas? E no entanto, por um talento apenas, Hipérbolo
aprendeu tudo isso.
ESTR. ­ Não faças caso, trata de o ensinar, que o moço, no fundo, é esperto: era ainda
catraio, assim tamanhinho, e já moldava casinhas, esculpia barquinhos, construía
*

"SÓCRATES: (...) as Nuvens celestes, as grandes deusas dos homens ociosos: são elas que nos
proporcionam o saber, a dialéctica e o entendimento, bem como o parlapié, a linguagem farfalhuda, o
discurso de bota-abaixo e o ... gamanço." As Nuvens, 315;
SÓCRATES: (...) estás disposto, de agora em diante, a não aceitar qualquer outra divindade que não
sejam as nossas, isto é, o Caos, as Nuvens e a Língua, estas três e só estas ?" As Nuvens, 420
1
Jogo de palavras que tentei manter. Creio ter somente acrescentado «no galho".
2
Jogo de palavras que tentei manter. Creio ter somente acrescentado «no galho".

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

30

carrinhos, e das cascas de romãs fazia rãs que era um encanto vê-lo. Tenta, pois,
ensinar-lhe aqueles dois raciocínios, o mais forte, ou lá o que é, e o mais fraco... o
tal que pega numa causa injusta e amanda abaixo o mais forte. E se não puderem
ser os dois, pelo menos o raciocínio injusto, dê por onde der.
SÓCR. ­ Pois o moço vai receber lições dos dois Raciocínios em pessoa. Com licença.
(Entra em casa)
ESTR. ­ (A Sócrates, enquanto este se retira) ­ Toma bem sentido: é preciso é que ele
fique apto a refutar tudo o que é justo.
(De casa de Sócrates saem os dois Raciocínios)1
RACIOCÍNIO JUSTO
Salta para aqui! Se tens assim tanta coragem, mostra-te aos espectadores.
RACIOCÍNIO INJUSTO
Onde quiseres. Com muita gente a assistir, ainda me é mais fácil dar cabo de ti.
R. J. ­ Dar cabo de mim, tu? Quem julgas tu que és?
R. I. ­ Um Raciocínio.
R. J. ­ Sim, mas o mais fraco.
R. I. ­ Pois venço-te na mesma, lá por te gabares de ser mais forte.
R. J. ­ E com que artimanhas?
R. I. ­ Inventando ideias cá muito minhas, ideias novas.
R. J. ­ Realmente, tais processos estão em moda, graças a cretinos como esses ai
(Aponta para os espectadores)
R. I. ­ Cretinos, não: gente atilada.
R. J. ­ Vou dar cabo de ti, miserável.
R. I. ­ E como, não me dizes?
R. J. ­ Expondo o que é justo.
R. I. ­ E eu contradigo-te e mando-te abaixo. Para já, pés juntos que não existe justiça.
R. J. ­ Afirmas que não existe...?!
R. I. ­ Senão vejamos: onde existe ela?
R. J. ­ No seio dos deuses.
R. I. ­ Então como diacho2 é que, existindo aí justiça, Zeus ainda não pereceu, ele que
pôs a ferros o próprio pai?
R. J. ­ Ó miséria das misérias! Tenho de reconhecer peste vai alastrando. Dêem-me
uma bacia.
R. I. ­ És um velho imbecil, desaparafusado.
R. J. ­ E tu és um panasca, um cara-de-sem-vergonha...
R. I. ­ Isso para mim são rosas.
R. J. ­ ... um palhaço...
R. I. ­ Oh que coroa de lírios!
R. J. ­ ... um parricida.
R. I. ­ Nem te dás conta que me estás a bordar a ouro.
R. J. ­ Se fosse dantes, não era a ouro, não, mas a... chumbo.
R. I. ­ Pois sim, mas agora isso é um ornamento.
1

Inicia-se aqui o agõn («luta»), que é uma das partes estruturais da comédia antiga.

2

«como diacho...» ­ A tradução é fiel, embora numa forma pouco... canónica. O original diz: «Como (é
que), na verdade...».

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

31

R. J. ­ És muito atrevido.
R. I. ­ E tu muito antiquado.
R. J. ­ Por tua culpa, nenhum moço quer ir à escola. Mas deixa estar... tempo virá em
que os Atenienses tomarão consciência das patacoadas que ensinas aos parvos.
R. I. ­ Não tens onde cair morto.
R. J. ­ E tu lá te vais safando em beleza... E pensar eu que ainda há pouco eras pobre de
pedir, como Télefo de Mísia, e mascavas umas citações de Pandéleto, que ias
tirando do alforge.
R. I. ­ Ah! Que sabedoria...
R. J. ­ (Interrompendo-o) ­ Ah! Que desatino! ...
R. I. ­ (Retomando a frase) ­ ...essa que recordaste.
R. J. ­ ...esse teu, mas também da cidade que te alimenta, corruptor da mocidade.
R. I. ­ (Voltando ao tema principal) ­ Seja lá como for, não instruirás este moço, meu
bota-de-elástico.
R. J. ­ Isso é que era bom... pelo menos se se trata de salvá-lo, e não de o exercitar
apenas em conversa fiada.
R. I. (A Fidípides) ­ Passa para cá e deixa mas é o tipo malucar. (Tenta pegar no braço
a Fidípides)
R. J. (Avançando ameaçador) ­ Ai de ti, se te atreves a tocar-lhe com um dedo.
CORIFEU (Intervindo) ­ Deixem-se de brigas e de insultos, e exponha cada um de vós
­ (Ao R. J.) tu o que ensinavas às gerações passadas, e tu (Ao R. I.) a nova
pedagogia, que é para que o moço, uma vez ouvidas as alegações de ambas as
partes, tire conclusões e opte por uma das escolas.
R. J. ­ Isso mesmo é o que eu pretendo.
R. I. ­ E eu também.
CORIFEU ­ Então vejamos: quem vai falar primeiro?
R. I. ­ Dou-lhe, a prioridade. E depois, na base do que ele disser, crivo-o, com um
parlapié cá muito meu, com uns conceitos... E por fim, se o gajo ainda mexer,
dou-lhe o golpe de misericórdia, deixo-lhe a fúcia e os olhos todos picados de
sentenças, como picados de vespas.
CORO ­ É chegado o momento de os dois contentores, confiados na suma habilidade
da sua argumentação, dos seus pensamentos e das suas reflexões sentenciosas,
usarem da palavra, a ver qual deles se sai mais airosamente. Eis pois aberto o
certame de sabedoria, pela qual os nossos amigos travam uma batalha decisiva.
CORIFEU (Ao R. J.) ­ Ó tu, que coroaste os nossos antepassados com tantos e tão belos
princípios morais, solta a tua voz a teu gosto e revela-nos a tua natureza íntima.
R.. J. ­ Vou então expor em que consistia a pedagogia antiga, naqueles tempos em que
eu florescia pugnando pela justiça, quando a moderação era de norma. Para já, não
era habitual ouvir-se um puto murmurar sequer uma palavra. Além disso, quando
se dirigiam para a escola de música, marchavam nas ruas em boa ordem, cada
grupo de seu bairro, sem manto e em formatura, ainda que nevasse como farinha.
Aí o professor, obrigando-os a manter as pernas afastadas, fazia-os decorar
cantigas, como aquela:
«Pálade, terrível destruidora de cidades» ou aqueloutra:
«Um clangor que trespassa os ares»;
e os moços sustentavam a harmonia tradicional recebida de seus antepassados. E
se algum deles se fazia engraçado ou ensaiava uns requebros esquisitos, como
hoje em dia está em moda executar à maneira de Frínis essas difíceis modulações,

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

32

apanhava logo uma valente coça, por atentado às Musas. Por outro lado, na aula
de ginástica, os moços tinham de estar sentados com as pernas estendidas, não
fossem os mirones topar alguma parte obscena; e depois, ao levantarem-se,
deviam alisar o terreno, evitando desse modo deixar aos seus apaixonados alguma
marca de virilidade. Nesse tempo, nenhum moço se atreveria a perfumar-se
abaixo do umbigo, de maneiras que à superfície das partes íntimas despontava
uma penugem, uns pelos macios, como nos pêssegos. E nenhum homem se
aproximava sequer do seu apaixonado com falinhas melífluas, prostituindo-se a si
próprio com olhos de carneiro mal morto1. Também não era permitido, à mesa,
servirem-se da cabeça do rabanete, nem gamar a erva-doce ou o aipo dos mais
velhos, nem alambazarem-se, nem rir às gargalhadas, nem cruzar as pernas.
R. I. ­ Tudo isso não passa de velharias, coisas que datam das festas de
Zeus-Padroeiro2, quando os senhores atenienses usavam pregadores no cabelo,
celebravam os sacrifícios dos bois e entoavam os ditirambos do velho Cidides.
R. J. ­ Pois sim, mas foi com tal pedagogia que se formaram os heróis de Maratona, ao
passo que tu ensinas a geração actual "a abafar-se nos mantos logo de manhã, que
até me falta o ar, quando, nas Panateneias, vejo algum a dançar, assim, (Gesto)
com o escudo descaído à altura da pixota, sem ponta de respeito por Atena
Tritogenia. (A Fidípides) Portanto, ó rapazito, não hesites em me escolher a mim,
o raciocínio mais forte. Além do mais, aprenderás a detestar a Ágora e a evitar os
balneários; a envergonhar-te das poucas-vergonhas; e, se alguém te censura a ficar
vermelho como um pimentão3; a levantar-te do assento e ceder o teu lugar aos
mais velhos que por ali apareçam; a não ser torto com teu pai, a não cometer
qualquer acção desonrosa susceptível de te encher a cara de vergonha; a não te
atirares a alguma corista, arriscando-te a que uma putéfia qualquer, apanhando-te
assim feito basbaque, te lance uma maçã de amor e, com esses gestos, faça em
cacos a tua reputação; a não respingar com o teu pai, a não lhe chamares velho
Jápeto, com o que descaridosamente lhe lembrarias a sua idade avançada, não
obstante ser precisamente por esse facto que ele te trata como um passarinho.
R. I. ­ Ouve, meu rapaz: se dás trela a esse tipo, por Dioniso que ficarás tal e qual como
os filhotes4 de Hipócrates e passarão a chamar-te «menino da mamã»5.
R. J. ­ Pois sim, mas também é certo que passarás o tempo nos ginásios, nédio e viçoso,
em vez de cirandares pela Praça cacarejando monstruosidades bicudas que nem
cardos6, como a malta de agora, ou em vez de te esfarrapares todo por causa dum
daqueles processozitos que requerem ronha, lábia e calo7. Pelo contrário, irás lá
abaixo à Academia e, por entre alas de oliveiras sagradas, praticarás a corrida,
com uma fina coroa de cana na cabeça e na companhia dum rapaz da tua idade,
mocito ajuizado, rescendendo a rosmaninho, a serenidade e a álamo de folhas
caducas, disfrutando da estação da Primavera, quando o plátano sussurra com o
ulmeiro. (Em tom mais rápido) Se fizeres o que te digo, se prestares atenção aos
meus conselhos, ficarás com peito vigoroso, tez luzidia, ombros largos, língua
1

«prostituindo-se com os olhos» ­ Estritamente, é só isto que diz o original. «Olhos de carneiro mal
morto» é coisa do tradutor.
2
«festas de Zeus-Padroeiro...», etc. ­ A tradução de todo o passo pretendia evitar mais explicações...
3
«ficar vermelho como um pimentão» ­ O texto diz apenas «ficar vermelho» ou «ficar em fogo», «ficar
afogueado».
4
«filhotes» ­ A palavra grega, «filho» (hyiós) sugere uma outra que significa «porco», animal que, para
os gregos, era especialmente o símbolo da estupidez, e não da... porcaria. Tentei manter parte do jogo,
por meio da palavra « filhote» = «cria».
5
«menino da mamã» ­ Literalmente: «mel da mamã».
6
«monstruosidades bicudas que nem cardos» ­ No original, uma só palavra ­ o que representa para o
tradutor um bom... bico-de-obra.
7
«que requerem ronha, lábia e calo» ­ V. nota precedente.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

33

curta, cu avantajado, pixota pequena. Se, pelo contrário, procederes como a malta
de agora, ganharás, para começar, uma cor amarelenta, ombros estreitos, peito
enfezado, língua comprida, cu pequeno e pixa grande, proposta de lei mais
comprida que a légua da Póvoa1, Mais: este fulano até te convencerá a considerar
bom o que é mau, e mau o que é bom. E para cúmulo de tudo isto, há-de
conspurcar-te com o vício desse panasca do Antímaco2.
CORO ­ Ó tu, que cultivas um ideal tão sólido3 e glorioso, como é suave e sensato o
odor que se desprende de tuas palavras! Sim, deviam ser bem felizes os seres que
viviam nos tempos de antanho4, (Ao R. I.) Quanto a ti, senhor duma arte subtil e
brilhante, tens de dizer algo de novo, pois o nosso homem já ficou aprovado.
CORIFEU ­ Com toda a evidência, tens de lançar mão de fortes argumentos contra ele,
se é que queres vencê-lo e não seres condenado ao ridículo.
R.I. ­ Para dizer a verdade, já desde há um bom bocado que até as entranhas se me
queriam rebentar, tal a gana de mandar abaixo todas essas baleias com
argumentação contrária. Efectivamente, eu fui apelidado, entre os pensadores, de
«tese ou argumento mais fraco», precisamente pelo facto de ter sido o primeiro a
imaginar a forma de contradizer as leis e a justiça. Ora, isto de um homem tomar o
partido das teses mais fracas e, não obstante, conseguir vencer, é coisa para valer
um balúrdio5. (A Fidípides) Abre bem os olhos e vê como eu vou refutar essa tal
pedagogia em que ali o cavalheiro está tão confiado. Em primeiro lugar, afirma
ele que não permitirá que tomes banho de água quente. (Ao R. J.) Ora bem: em
que é que te fundamentas para assim censurares os banhos quentes ?
R. J. ­ Muito simplesmente por se tratar duma prática nefasta, que amolece os homens.
R. I. ­ Alto aí, que já te apanhei na gaiola, já não me podes fugir. Ora diz-me: entre os
filhos de Zeus, qual deles te parece possuir uma alma mais viril ? Vá, diz lá, e
qual afrontou maior quantidade de provações ?
R. J. ­ Cá por mim, não creio que exista alguém mais valoroso que Hércules.
R. I. ­ E então... Já viste alguma vez «termas de Hércules»6 serem frias ? E no entanto,
quem houve mais viril que Hércules ?
R. J. ­ Sim... é isso... é isso mesmo que faz que o balneário esteja sempre apinhado de
moços a dar ao taramelo todo o santo dia, ao passo que as palestras se encontram
às moscas7.
R. I. ­ Além disso, tu censuras os moços por passarem o tempo na Ágora, à volta da
tribuna8. Ora eu aplaudo. De facto, se isso fosse mau, certamente que Homero
nunca chamaria «agoreta» ou «tribuno» a Nestor e a todos os letrados em geral.
Reporto-me agora à questão da língua, a qual, segundo aqui o cavalheiro, os
1

«mais comprida que a légua da Póvoa» ­ Será necessário dizer que os gregos não tinham léguas nem
Póvoas ?
2
«com o vício desse panasca do Antímaco» ­ Literalmente: «com a panasquice de Antímaco».
3

«tão sólido» ­ Literalmente: «belo-e-alto-como-torre» (kallípyrgos). Creio que a palavra grega, aliás criada por Aristófanes, sugere uma outra também
inexistente, mas igualmente criável: kallípygos, «de-belas-nádegas». Se a observação é pertinente, o caso mereceria um estudo especial, além de
acrescentar mais um problema de tradução.
4

«nos tempos de antanho» ­ Literalmente: «nos tempos dos (nossos) antepassados». É claro que «tempos
de antanho» tem, no contexto, um sabor próprio.
5
«um balúrdio» ­ literalmente: «dez mil estateres». O estáter de prata valia 4 dracmas, e o de ouro 20, o
que dá, respectivamente, 40 000 ou 200 000 dracmas ­ quantia de toda a maneira muito elevada. Creio,
no entanto, que estamos perante aquilo a que se chama a «numeração indeterminada» (cf. «Já te disse mais
de mil vezes...»). Se não temesses (desta vez) o anacronismo, traduziria por «muitos contos de réis».
6
«termas de Hércules» ­ Era esta a designação que os gregos davam às nascentes de água quente, termas
ou caldas.
7
«... dar ao taramelo todo o santo dia» ... «às moscas» ­ A ideia é mesmo essa...
8
«na Ágora, à volta da tribuna» ­ Esta última expressão não consta do original; servia apenas para, sem
nota explicativa, ajudar a compreender o jogo de palavras que se segue: «agoreta» ou ... (como
acrescento) «tribuno».

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

34

jovens não devem exercitar ­ o que eu contesto. E mais sustenta que devem ser
bem comportados... Quanto a mim, são dois males, qual deles o maior. Sim, onde
já viste alguma vez o bom comportamento trazer benefícios a alguém? Vá, fala,
diz de tua justiça, rebate a minha posição.
R. J. ­ Casos desses são às porções. Por exemplo Peleu, que pelo seu bom
comportamento ganhou um punhal.
R. I. ­ Um punhal?! Sim senhor... que rico prémio ganhou o pobre diabo ...O Hipérbolo
das candeias abichou para cima dum balúrdio1 em paga das suas vigarices... o que
não ganhou foi um punhal, não, por Zeus!
R. J. ­ E além disso, também como recompensa pelo seu bom comportamento, Peleu
desposou Tétis.
R. I. ­ Pois sim, pois sim ...mas logo a seguir ela deixou-o, deu à sola. Realmente, o
sujeito, no que toca ao «trabalhinho» nocturno, debaixo dos lençóis, não «atacava»
nada, não fazia meiguices... e tal... Ora a verdade é que bicho-mulher gosta do
«ataque»... do marmelanço2. Em resumo: és um bota-de-elástico. (A Fidípides) E
tu, chavalito, toma bem sentido nas chatices que o bom comportamento implica,
de quantos prazeres da vida irias ficar privado: rapazinhos, mulheres, jogos de
amor, petiscadas, pinguinha, gargalhadas... Sim... para que queres tu a vida, se te
vês privado desses gozos? ...Mas adiante... Passemos às fatalidades da natureza
humana. Por exemplo: puseste o pé na argola, quer dizer, apaixonaste-te... e tal...
tiveste uma ligação adúltera... e zás: foste caçado. Pronto, tás feito, e tudo por
falta de lábia. Pelo contrário, se te juntares a mim, vai gozando a natureza, pula,
ri, e não cuides que tal ou tal acto é vergonhoso. Assim mesmo. E se por acaso
fores surpreendido em adultério, replicarás ao marido que não fizeste nada de mal;
depois, atira com as culpas para cima de Zeus ... que também ele se deixou vencer
pelo amor e pelas mulheres... Como é que tu, simples mortal, havias de ser mais
forte que um deus ?
R. J. ­ O quê ? Então e se ele, quer dizer, o adúltero, por te ter dado ouvidos, for
enrabanado3 e lhe queimarem os pêlos do rabiosque com cinza quente4 ? terá o
desgraçado algum argumento que prove que não é... rabicha5?
R. I. ­ E que tem que seja rabicha? Que mal lhe virá daí ?
R. J. ­ Diz antes: que mal ainda maior que este lhe poderia vir daí ?
R. I. ­ Ora bem: que dirás tu, se eu te conseguir bater nessa questão ?
R. J. ­ Como e calo... Que remédio...
R. I. ­ Ora então diz-me cá uma coisa: aonde é que vão buscar os advogados do
Ministério Público6?
R. J. ­ Aos rabichas.
R. I. ­ Certo. E os tragediógrafos, aonde vão buscá-los?
R. J. ­ Aos rabichas.
R. I. ­ Dizes bem. E os oradores, vão buscá-los aonde?
1

«para cima dum balúrdio» ­ Literalmente: «mais que muitos talentos». Como se vê, mesmo no original
refere-se uma quantia indeterminada.
2
Toda esta fala do Raciocínio Injusto é traduzida com um certo à-vontade, embora (creio) sem deixar de
ser suficientemente fiel.
3
«enrabanado» ­ A palavra grega diz algo como «enrabanado com um rábano». A tradução parece não
estar muito mal.
4
Era a punição normal do adúltero apanhado em flagrante.
5
«rabicha» ­ No original, «de-cu-avantajado» (eyrýproktos)... consequência do «tratamento» a que fora
sujeito. No entanto, a palavra ganhara o sentido geral de «depravado» ­ e é este o sentido que se pretende
dar-lhe nos passos seguintes.
6
«advogados do Ministério Público» ­ É evidente o anacronismo; mas não vale a pena estar a esmiuçar.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

35

R. J. ­ Aos rabichas.
R. I. ­ Portanto, reconheces que não tens razão, não é? E já agora, entre os espectadores
quais constituem a maioria? Olha bem.
R. J. ­ Estou a olhar.
R. I. ­ E que vês tu?
R. J. ­ Que... Ena pai! ...são de longe mais numerosos os rabichas. Por exemplo, este
aqui, que eu conheço, e aquele além, e esse aí de grande trunfa...
R. I. ­ E então, que tens a dizer?
R. J. (Aos espectadores) ­ Perdemos a partida! (Virando-se para a escola de Sócrates)
Ó gente sem vergonha! ...Pelos deuses, tomem lá o meu manto, que me passo já
para o vosso lado. (Entra na escola)
R. I. ­ (A Estrepsíades) ­ E agora? Queres levar o teu filho contigo, ou preferes que to
ensine a exprimir-se?
ESTR. ­ Sim, ensina-o, chega-lhe nos lombos5, e sobretudo não te esqueças de lhe afiar
bem a língua, de modo que dum lado, fique apto para os processozitos de chacha,
e, do outro, que fique com a queixada bem afiada para coisas mais grossas.
R. I. ­ Não te dê cuidado, hás-de levá-lo daqui feito num sofista refinado.
FID. (À parte) ­ Pois sim, amarelento e miserável, estou mesmo a ver...
CORIFEU (Aos três) ­ Retirai-vos. (A Estr.) E tu ...desconfio de que te vais arrepender.
(Aos espectadores e ao júri)6
O que os senhores juízes terão a ganhar, se porventura, e como aliás é de
justiça, concederem a este coro o seu voto favorável ­ eis o que nos propomos
expor. Antes de mais, sempre que, na estação apropriada, decidirdes dar aos
vossos campos uma primeira lavra, nós choveremos primeiro para vós, e só
depois para os outros. Em seguida, protegeremos as vossas searas e as vossas
vinhas, de modo que não sofram nem de seca nem de chuva demasiada. Se,
porém, algum mortal nos ofender, a nós que somos deusas, é bom que tome nota
da quantidade de males que lhe causaremos: não colhera das suas terras nem
vinho nem o que quer que seja, porquanto, mal as oliveiras ou as cepas comecem
a florescer, arrasaremos tudo, tal a violência das nossas fundadas. E se toparmos
algum desses a fabricar tijolo, começaremos a chover e mandar-lhe-emos tal
granizada, que lhe desfaremos as telhas do telhado. E se estiver para se casar, ele
ou um parente, ou um amigo, choveremos toda a noite, que o cavalheiro antes
quereria estar no seco Egipto, do que pensar mal de nós.
ESTR. (Saindo de casa, a contar pelos dedos) ­ Quinto... quarto ...terceiro ...depois o
segundo ...e depois (Muito triste)... aquele dia que, dentre todos, eu mais temo,
que mais me arrepia e me horroriza: o que vem logo a seguir ao segundo, quer
dizer, o dia da lua velha e nova. Sim, pois é nesse dia que todo e qualquer sujeito
a quem devo dinheiro jura a pés juntos que vai depositar uma caução em tribunal,
garantindo que me arruinará, que rebentará comigo. Eu bem lhes suplico
moderação e justiça: «O homem, não me exijas agora esta conta, adia-me o
pagamento daquela, deixa lá a outra.»: Não vale de nada, dizem que por esse
andar nunca mais recebem, e vai daí, injuriam-me, chamam-me vigarista e
ameaçam pregar comigo em tribunal. (Em tom superior). Pois então que preguem,
5

«chega-lhe nos lombos» ­ Literalmente: «castiga-o».
Começa aqui um pequeno intervalo na acção. Depois da saída dos Raciocínios, de Sócrates, de
Estrepsíades e de Fidípides, o corifeu dirige-se aos espectadores e especialmente ao júri. Creio que se
justificava, de facto, um pouco de repouso.
6

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

36

tanto se me dá como se me deu... desde que Fidípides esteja formado na arte da
bem-falância. Mas depressa o saberei: vou bater à porta do pensadouro. (Bate)
Moço! Eh moço! Eh moço!
SÓCR. (Vem à porta) ­ Ora viva, meu caro Estrepsíades.
ESTR. ­ Igualmente. Mas para já, pega aí, (Oferece-lhe dinheiro) pois é preciso untar
bem o senhor professor. Então, diz-me cá: o meu rapaz... esse que há pouco
admitiste... aprendeu bem aprendido o tal raciocínio?
SOCR. ­ Se aprendeu!...
ESTR. ­ Bravo! (Extasiado) Ó omnipotente Vigário1!
SÓCR. ­ Tão bem, tão bem, que te safarás seja de que processo for .
ESTR. ­ Mesmo que houvesse testemunhas na altura em que pedi emprestado?
SÓCR. ­ Ainda melhor... Fossem elas mil...
ESTR. ­ Nesse caso, cantarei de galo: Ióóóh!... Chorai agiotas do óbolo, vós, o vosso
capital e os juros dos juros. De hoje em diante, já não me podereis fazer mal, a
mim, que tenho um filho formado neste instituto, um filho brilhante, com uma
língua bífida, minha fortaleza, salvador da minha casa, flagelo dos meus inimigos,
libertador dos grandes males paternos. (A Sócrates) Vai já a correr chamá-lo, dizlhe que saia, que venha cá. (Sócrates entra em casa. Estrepsíades fica sozinho em
cena) Ó meu filho! Meu menino! Sai dessa casa, atende ao chamamento de teu
pai!
SÓCR. (Saindo com Fidípides) ­ Eis o nosso homem.
ESTR. ­ Ó meu querido! Meu querido2!
SÓCR. ­ Vai e leva-o contigo. (Sócrates retira-se)
ESTR. ­ Ióóóh! Ióóh! Meu filho! Ióóh! Iuuuh! Iuuuh!... Como me consola, acima de
tudo, ver-te com essa cor amarelenta!
[O pai já usou a habilidade sofística do filho para se livrar dos credores. Mas vai ser
agora vítima dessa mesma habilidade...]
ESTR. ­ Piras-te ou não? Vou-me a ti e pico-te o rabiosque, meu cavalo de trela. (O
credor foge) Ah já foges?! Estava mesmo para te despachar, a ti mais as tuas
rodas e as tuas parelhas de cavalos.
CORO ­ Vede no que dá a paixão do mal:
aqui o nosso velhote,
vítima de tal paixão,
Pretende furtar-se ao pagamento
do que pediu emprestado.
É claro que não passa de hoje
sem que lhe aconteça alguma coisa
que faça que este sofista,
pelas maldades que empreendeu,
apanhe de repente um dissabor.
Realmente, desconfio
que muito em breve vai ter
aquilo que há muito procurava:
1

«Ó omnipotente Vigário !» ­ A ideia de «vigarice» está, de facto, no original.
O original é que é pirososo...

2

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

37

um filho hábil em proferir
sentenças contrapostas à justiça,
capaz de vencer todos aqueles
com quem tem negócios, nem que seja
à custa de discursos perversos.
Mas, quem sabe...
Talvez prefira que o filho fosse mudo ...
ESTR. (Saindo de casa a correr, perseguido por Fidípides) ­ Ui-ui! Ui-ui!
Ó vizinhança!
Ó parentes! Ó patrícios!
Socorrei-me, que me batem desta boa maneira!
Desgraçado de mim! ...
Ai minha cabeça! Ai meus queixos!
(A Fidípides) O meu malandro,
então agora bates no teu pai?
FID. ­ Bato, pois, meu pai.
ESTR. ­ Vejam: confessa que me está a bater.
FID. ­ Pois confesso.
ESTR. ­ Malandro, assassino, ladrão.
FID. ­ Isso, isso, chama-me outra vez esses nomes e muitos mais: não sabes quanto me
apraz ouvir tantas injúrias?!
[... o filho vai argumentar e justificar por que bateu ao seu próprio pai]
CORO ­ Parece-me bem que os corações dos mais jovens palpitam na expectativa do
que o moço vai contrapor. Realmente, se este, depois de ter feito o que fez, ainda
tiver lata para convencer1 o pai, então a pele dos velhos não valerá sequer um
grão-de-bico.
CORIFEU (A Fidípides) ­ Agora, ó «agitador» e «desencantador» de palavreado novo,
é a tua vez de achar argumentos convincentes, capazes de fazer crer na justiça das
tuas palavras.
FID. ­ Que coisa mais doce, esta de estar familiarizado com as modernas correntes do
pensamento e com as suas subtilezas, poder desdenhar das leis estabelecidas! Sim,
quando eu me dedicava exclusivamente ao hipismo, não era capaz de dizer três
palavras seguidas sem cometer um erro; agora, porém, desde que ali aquele grande
homem pôs fim a tal estado de coisas, sou um barra em conceitos subtis, em
dialéctica e em meditação, estou certo de poder demonstrar que é justo um filho
castigar o pai.
ESTR. ­ Por Zeus!... Mal por mal,2 dedica-te antes ao hipismo: para mim, sempre é
melhor sustentar uma quadriga mais os cavalos, do que ser massacrado com
porrada.
FID. ­ Tá bem... Mas voltemos ao ponto onde me tinhas interrompido. Para começar,
vou pôr-te uma questão: quando eu era menino, tu costumavas bater-me?
ESTR. ­ Costumava, pois, mas era para teu bem e interesse.
1

«tiver lata para convencer» ­ Literalmente: «tagarelando, convencer». Como se vê, a tradução não anda
longe do sentido do texto.
2
«Mal por mal» ­ Fantasia do tradutor.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

38

FID. ­ Então diz-me cá: não é justo que, para teu bem, eu te pague da mesma moeda e
te bata, uma vez que querer bem é isso mesmo, bater? Em boa verdade, porque é
que o teu corpo havia de estar isento de porrada e o meu não? E no entanto, eu cá
também nasci livre, n'é? «As crianças é que choram» ­ dirás. Mas achas que um
pai não deve chorar? Vais replicar- me que é da lei tratar assim as crianças; a isso
poderei contrapor, como diz o provérbio1, que «os velhos são crianças duas
vezes», e que, portanto, é mais natural chorarem os velhos que os novos, tanto
mais quanto menos justificáveis são os seus erros.
ESTR. ­ Mas nenhum artigo2 da lei determina que o pai seja tratado desse modo.
FID. ­ Acaso não era um simples homem aquele que primeiro propôs tal lei, um
homem como tu e como eu, que pela palavra conseguiu convencer os nossos
antepassados a aceitá-la? Por que raio me seria a mim menos permitido propor
também uma lei nova, segundo a qual, daqui para o futuro, seria legítimo os filhos
baterem igualmente nos pais? Quanto às sovas que levámos, de parte a parte, até à
aprovação da nova lei, passa-se uma esponja por cima e fica assente que quem
apanhou apanhou, e não adianta reclamar. Ora repara nos galos e noutros animais
do género, como se vingam dos pais; e no entanto, em que é que eles diferem de
nós, a não ser pelo facto de não redigirem decretos?
ESTR. ­ Então, já que imitas em tudo os galos, porque é que também não comes
esterco e não dormes no poleiro?
FID. ­ Ó pá3... não é a mesma coisa. Nem Sócrates aprovaria.. .
ESTR. ­ Seja como for, não me batas; caso contrário... depois não te venhas queixar.
FID. ­ Como é isso?
ESTR. ­ Sim, se eu estou no meu direito de te castigar, também tu o estarás em relação
ao teu filho, se tiveres algum.
FID. ­ E se não tiver, terá sido em vão tudo o que eu chorei... E tu nessa altura já terás
morrido com a barriga cheia de gozo.4
ESTR. ­ Ó gente da minha idade, estou em crer que ele tem razão no que diz...
Também me parece que é de concordar com os filhos no que for razoável. Sim, é
natural que nós as amarguemos, caso não procedamos justamente.
FID. ­ Agora considera lá mais outra opinião.
ESTR. ­ Com essa é que vou ficar arrumado.
FID. (Misterioso) ­ Olha que não... Talvez até deixes de ficar furioso por te acontecer o
que aconteceu.
ESTR. ­ Como é isso? Vá, explica-me que vantagens me proporcionarás com mais
essa.
FID. ­ Como te fiz a ti, também baterei na minha mãe.5
ESTR. ­ Que é que estás a dizer? Que é que estás a dizer? Isso seria um crime ainda
maior.
FID. ­ E que dirás tu, se eu pegar na tese mais fraca e com a minha argumentação te
convencer que se pode bater na mãe?
ESTR. ­ Ora... O que hei-de dizer, caso faças uma tal coisa, senão que mais te valera
atirares-te dum precipício, juntamente com Sócrates mais a tese fraca?! (Volta-se
para o coro) Por vossa causa, Nuvens, e por vos ter confiado os meus problemas,
é que estou a padecer tudo isto.
1

«como diz o provérbio» ­ Também não consta do original.
«nenhum artigo» ­ Literalmente: «em nenhuma parte».
3
«Ó pá»... Em grego, é mais ou menos isso...
4
«com a barriga cheia de gozo» ­ Tradução algo livre.
5
Fidípides contava com os sentimentos vingativos do pai em relação àquela que, segundo ele, havia sido a
causa de tudo. Pelos vistos, engana-se.
2

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

39

CORO ­ Pelo contrário, tu é que tens a culpa do que te sucedeu, pois te meteste em
acções desonestas.
ESTR. ­ Então porque é que não mo dissestes antes, em vez de desencabecionar um
campónio, ainda por cima velho?
CORO ­ É assim que nós costumamos proceder, de cada vez que vemos alguém
atolado em acções desonestas: não descansamos enquanto não o empurramos para
o abismo, que é para aprender a respeitar os deuses.
ESTR. ­ Ai de mim! ...Isso é perversidade da vossa parte, ó Nuvens, mas há que
reconhecer que é bem feito. Sim, que eu não devia negar-me a pagar as minhas
dívidas. (A Fidípides) Agora, meu caro, vem daí comigo, vamos dar cabo desse
patife de Querefonte mais de Sócrates, que nos andaram a intrujar, a ti e a mim.
FID. ­ Não, não seria capaz de fazer mal aos meus mestres.
ESTR. ­ Ah isso é assim! Respeita Zeus Paternal.
FID. ­ Olha este... «Zeus Paternal»! Como estás fora de moda! Mas será que Zeus
existe?
ESTR. ­ Pois claro que existe.
FID. ­ Pois não existe, não e não: quem governa agora é Tornado, depois de ter expulso
Zeus.
ESTR. ­ Ah isso é que não expulsou: eu é que acreditava nisso ... por causa aqui deste
vaso... torneado (Aponta para o vaso) Oh miserável de mim, que cuidei que tu,
simples vaso, eras um deus!1
FID. ­ Pois bem, fica para aí a divagar e a dizer parvoíces. (Sai)
ESTR. ­ Oh! Que grande estupidez a minha! ...Como estava maluquinho, quando, por
causa de Sócrates, reneguei os deuses! (Dirige-se a uma estátua de Hermes)
Então, meu caro Hermes, não fiques zangado comigo, não me esmagues, mas
antes perdoa-me, pois fui desencaminhado pela verborreia. Sê meu conselheiro:
achas que os devo perseguir com um processo em forma... ou quê? (Aproxima-se
da estátua, como que escutando)... Sim, aconselhas bem, dissuadindo-me de lhes
tramar um processo, e que em vez disso devo, sem demora, pegar fogo à casa
desses labiosos. (Chama um criado) Xântias! Vem cá, vem cá, chega aqui, pega
numa escada, traz também uma picareta. Depois sobe lá acima ao telhado do
pensadouro e manda tudo abaixo... Vá, faz isso por amor de teu amo, até pregares
com toda a casa em cima dos gajos. (Xântias apresta-se para executar as
ordens)... Por minha parte... Alguém que me traga uma tocha acesa, que vou
providenciar para que ainda hoje mas paguem... um por um, por muito
espertalhões que sejam.
1º DISC. (Do interior da casa) ­ Socorro! Socorro!
ESTR. ­ A tua missão, ó facho, é desencadear um grande incêndio.
DISC. (Assomando à porta) ­ Ó homem duma figa, que estás tu a fazer?
ESTR. ­ O que estou a fazer? Nada... Estou só a dialog..., quer dizer, a dia... subtilizar2
com os barrotes da casa.
2º DISC. (Acorrendo desvairado) ­ Raios! Quem é que está a pegar fogo à nossa casa?
ESTR. ­ Aquele a quem ficastes com o manto.
2º DISC. ­ Ai que nos matas! Ai que nos matas!
ESTR. ­ Pois é isso mesmo que eu pretendo... a menos que a picareta atraiçoe as
minhas esperanças ou então que antes disso eu dê um trambolhão e quebre o
pescoço.
1

Desfaz-se aqui a confusão sobre o significado de dînos: a) «remoinho», «tornado»; b) «espécie de vaso (torneado»). V. nota 80.

2

«...a dialog..., quer dizer, a dia...subtilizar» ­ Esperar-se-ia, de facto, «dialogar» (dialégomai). Em vez disso, Aristófanes cria a palavra
«dia...subtilizar»; no texto, dialeptologoûmai: dia - «uns com os outros»; leptós «fino», «subtil»; logoûmai «dissertar».

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

40

SÓCR. (Assomando à janela e olhando para cima) ­ Eh! Tu aí, que diabo estás a fazer
em cima do meu telhado?
ESTR. ­ «Caminho nos ares olhando o sol cá do alto».2
SÓCR. ­ Ai de mim! Ai desgraçado, que vou morrer sufocado!
2º DISC. ­ E eu, triste de mim, vou morrer esturricado!
ESTR. ­ É assim mesmo: tinham alguma coisa que ofender os deuses e investigar a
sagrada sede da Lua? (A Xântias) Vai-te a eles, força, chega-lhes nesses lombos,
que não faltam os motivos, mas em primeiro lugar porque ­ sabes muito bem ­
não faziam senão ofender os deuses.
(Grande algazarra. Sócrates e os discípulos fogem da casa em chamas e em
ruínas, enquanto Estrepsíades os espanca e persegue até fora de cena.)
CORIFEU ­ Conduzam-nos lá para fora, que por hoje já basta de representação.3
ARISTÓFANES, As Nuvens, Ed. Inquérito, Lisboa, 1984
(Prefácio, tradução e notas de Custódio Magueijo)

TEXTO 8
SÓCRATES (469 a.C. ­ 399 a.C.) e o método socrático

1. A Ironia Socrática, método de purificação
O estrangeiro
Alguns acabaram por pensar, depois de madura reflexão, que a ignorância é.
sempre involuntária e que aquele que se crê sábio não consentirá nunca em aprender
2

«Caminho nos ares olhando o sol cá do alto» ­ Foi com esta frase de Sócrates que Estrepsiades havia
tido o primeiro contacto com o filósofo. Agora é a sua 'vez de a utilizar... mas num contexto bem
diferente.
3
O tradutor não pôde deixar de imaginar o corifeu mostrando aos espectadores (atenienses e tudo) uma
tabuleta com a seguinte inscrição: THE END.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

41

qualquer das coisas em que imagina ser hábil, e que, por conseguinte, acarretando
muitas dificuldades, o género de educação que é a admoestação tem resultados
medíocres.
Teeteto
Têm razão em pensar assim.
O estrangeiro
Por consequência, eles abordam a questão de outra maneira, para fazer
desaparecer neles esta presunção.
Teeteto
De que maneira?
O estrangeiro
Eles interrogam o seu homem sobre as coisas que ele crê conhecer sensatamente
quando na verdade não diz nada que valha; depois, quando se perde, é-Lhes fácil
reconhecer as opiniões dele; juntam-nas a todas na sua crítica, confrontam-nas umas
com as outras e mostram assim que elas se contradizem quanto aos mesmos objectos,
quanto às mesmas relações e aos mesmos pontos de vista. Aqueles que se vêem assim
confundidos ficam descontentes consigo mesmos e tornam-se brandos para com os
outros, e esta prova livra-os das opiniões orgulhosas e cortantes que tinham deles
próprios, o que é de todas as libertações a mais agradável de aprender e a mais segura
para aquele que ela concerne. É que, meu filho, aqueles que os purificam pensam como
os médicos do corpo. Estes estão convencidos de que o corpo não poderia beneficiar da
alimentação que se lhe dá, antes de ter sido expulso aquilo que o perturba. Também
aqueles consideraram que a alma não poderia retirar utilidade alguma dos
conhecimentos que se lhe dão, até que seja submetida à crítica, que ao refutá-la se faça
com que se envergonhe dela mesmo, que se lhe tirem as opiniões que obstaculizam ao
ensino, que se a purifique assim e que se a faça reconhecer que ela sabe aquilo que sabe
e nada mais.
PLATÃO, O Sofista, 230a-230 d.

TEXTO 9
2. A Maiêutica, arte de fazer os espíritos gerarem

Sócrates
Estás com as dores do parto, meu caro Teeteto, porque a tua alma não está vazia,
mas cheia.
Teeteto

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

42

Não sei, Sócrates, digo-te apenas aquilo que sinto.
Sócrates
Muito bem, jovem inocente, nunca ouviste dizer que sou fillho de uma muito
valente e venerável parteira, Fenárete?
Teeteto
Sim, já ouvi dizer isso.
Sócrates
Já ouviste dizer também que exerço a mesma arte?
Teeteto
De forma alguma.
Sócrates
Muito bem, ficas a sabê-lo, mas não me vendas aos outros. Eles ignoram,
camarada, que possuo esta arte, e é por isso que não dizem nada sobre isso, quando
falam de mim. Pelo contrário, dizem que sou um original e que provoco embaraços às
pessoas. Já ouviste falar disto também?
Teeteto
Sim.
Sócrates
Dir-te-ei a causa disso?
Teeteto
Sim, di-la.
Sócrates
Relembra-te de tudo o que diz respeito à arte das parteiras e compreenderás mais
facilmente o que vou dizer. Sabes, penso que nenhuma delas ajuda o parto de outras
mulheres enquanto for capaz de conceber e de parir, e que só exercem este ofício desde
que estejam já incapazes de terem filhos?
Teeteto

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

43

Certamente.
Sócrates
Este uso provém, diz-se, de Artemísia, que foi encarregada de presidir aos
partos, sem nunca ter parido. Mas ela não permitiu às mulheres estéreis serem parteiras,
porque a natureza humana é demasiado frágil para exercer uma arte de que não tem
experiência; assim, foi às mulheres que já passaram a idade de ter filhos que ela confiou
este encargo, para honrar a semelhança que têm com ela.
Teeteto
É verosímil.
Sócrates
Também não é verosímil e necessário que as parteiras conheçam melhor que os
outros se uma mulher está grávida ou não?

Teeteto
Certamente.
Sócrates
As parteiras podem ainda, por meio de drogas ou encantações, avivar as dores do
parto e abrandá-las à vontade, provocar o parto àquelas que têm dificuldade, e mesmo
provocar o aborto do feto, se o julgam necessário.
Teeteto
É exacto.
Sócrates
Não observaste ainda, entre os seus talentos, que elas são medianeiras muito
hábeis, porque sabem perfeitamente que mulher é preciso acasalar a um homem para
terem os filhos mais perfeitos?
Teeteto
Não, é uma coisa que não sabia em absoluto.
Sócrates
Pois, mas repara que elas estão mais orgulhosas disso do que de saber cortar o
cordão. Reflecte, então: crês tu que pertence à mesma arte ou a artes diferentes cuidar e

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

44

colher os frutos da terra e conhecer em que terra é preciso plantar tal planta ou tal
semente?
Teeteto
Não pertencem a artes diferentes, mas à mesma.
Sócrates
E para a mulher, caro amigo) acreditas que a arte de semear e a de colher sejam
diferentes?
Teeteto
Isso não parece verosímil.
Sócrates
Não, com efeito. Mas porque há uma maneira infeliz e sem arte de acasalar o
homem e a mulher, que se chama prostituição, as parteiras, que são pessoas respeitáveis,
evitam intervir nos casamentos; receiam incorrer na desaprovação que impregna a
prostituição. Contudo, é certo que pertence às verdadeiras parteiras e só a elas
harmonizar convenientemente os casamentos.

Teeteto
Parece que sim.
Sócrates
Portanto, esse é o ofício das parteiras: ele é inferior ao meu. Com efeito, não acontece às
mulheres parirem quer seres quiméricos quer seres verdadeiros, o que não é fácil de
reconhecer. Se isso lhes acontecesse, o maior e o mais belo trabalho das parteiras seria
distinguir o verdaeiro do falso. Não o crês?
Teeteto
Sim.
Sócrates
A minha arte de parteiro compreende, portanto, todas as funções que
desempenham as parteiras; mas ela difere da delas na medida em que liberta homens e
não mulheres e vigia as suas almas em trabalho de parto e não os corpos. Mas a
principal vantagem da minha arte é que torna capaz de discernir, seguramente, se o
espírito do jovem engendra uma quimera e uma falsidade ou um fruto real e verdadeiro.
Aliás, tenho isso em comum com as parteiras, sou estéril em matéria de sabedoria, e a
censura que me fizeram várias vezes de interrogar os outros sem nunca me declarar
sobre nada, porque não tenho em mim sabedoria alguma, é uma censura que não falta à
verdade. E eis a razão: é que Deus me coage a fazer com que os outros dêem à luz, mas
não me permitiu engendrar. Portanto, eu próprio não sou sábio de forma alguma e não
posso apresentar qualquer achado de sabedoria que a minha alma tenha dado à luz. Mas
aqueles que se juntam a mim, mesmo que alguns de entre eles pareçam ao princípio

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

45

completamente ignorantes, fazem todos, ao longo do seu comércio comigo, se Deus lhes
permite, progressos maravilhosos, não somente a seu juízo, mas ao dos outros. E é claro
como o dia que eles nunca aprenderam nada comigo, e que encontraram eles próprios
em si e engendraram muitas coisas belas. Mas, se eles as engendraram, foi graças a
Deus e a mim.
E aqui está o que o prova. Já vários, desconhecendo a minha assistência e
atribuindo-se a eles mesmos os seus progressos sem me ter em conta, deixaram-me mais
cedo do que seria preciso, quer fosse por eles próprios quer por instigação de outros.
Longe de mim, sob a influência de maus mestres, abortaram todos os gérmenes que
levavam, e os que eu engendrara, alimentaram-nos mal e deixaram-nos morrer, porque
faziam mais caso de mentiras e de aparências vãs que da verdade, e acabaram por
parecer ignorantes aos seus próprios olhos como aos olhos dos outros. Aristides, filho de
Lisímaco, foi um desses, e ainda há outros. Quando regressam e me imploram com
instâncias extraordinárias para que os receba na minha companhia, o génio divino que
me fala interdita-me de reatar o comércio com alguns de entre eles, permite-o com
outros, e estes beneficiam como da primeira vez. Aqueles que se ligam a mim
parecem-se ainda neste ponto com as mulheres com dores de parto: são presa das dores
e dia e noite estão cheios de inquietudes mais vivas que as das mulheres. Ora, quanto a
estas dores, a minha arte é capaz tanto de as avivar como de as fazer cessar. Eis o que
faço aos que me frequentam. Mas, Teeteto, há aqueles cuja alma não me parece estar
cheia. Quando cheguei à conclusão de que já não têm qualquer necessidade de mim,
intercedo por eles com toda a benevolência e, graças a Deus, conjecturo de forma feliz
que companhia lhe será benéfica. Associei, assim, vários a Pródico, e vários a outros
homens sábios e divinos.
Se assim me alonguei atrás, excelente Teeteto, é que suspeito, como tu próprio o
duvidas, de que a tua alma está cheia e que tu estás nos trabalhos de parto. Confia-te a
mim, portanto, como ao filho de uma parteira que é parteiro ele também, e quando eu te
puser questões aplica-te a responder-lhes o melhor que sabes. E se, ao examinar esta ou
aquela das coisas que dirás, julgar que não passa de um fantasma sem realidade e se,
então, a arrancar de ti e a rejeitar, não te entristeças como o fazem, por causa dos seus
filhos, as mulheres que são mães pela primeira vez. Já vi muitos deles, meu admirável
amigo, de tal forma zangados comigo que estavam mesmo prontos a morder-me, por
lhes ter tirado qualquer opinião extravagante. Eles não acreditam que é por benevolência
que o faço. Estão longe de saber que nenhuma divindade deseja mal aos homens e que,
também eu, não é de forma alguma por malvadez que ajo como o faço, mas porque não
me é permitido de forma alguma aquiescer ao que é falso, nem esconder o que é
verdadeiro.
Portanto, retoma a questão no princípio e tenta dizer o que pode ser a ciência.
Evita dizer, sempre, que não és capaz; porque, se Deus o quer e te dá a coragem para
isso, serás capaz.

PLATÃO, Teeteto, 148 e-151 d.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

46

ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
I. Questionário
1. Identifique os componentes da "antiga educação" ateniense.
2. Em que medida a educação física se articulava com os restantes componentes, na
perspectiva de uma educação integral?
3. Por que motivo a antiga como a nova educação ateniense eram privilégio de uma
reduzida elite social?
4. Que razões que determinaram a necessidade de uma "educação nova" na Atenas do
século IV a.C.?
5. Explique como, apesar de adversários em alguns aspectos, Sócrates e os Sofistas
partilham uma atitude comum em termos de prioridades educativas dos jovens.
6. Explicite o carácter literário e verbalista da nova educação ateniense.
7. De que forma se traduz em As Nuvens, de Aristófanes, o mal-estar criado na
sociedade ateniense mais conservadora pela revolução operada por Sócrates e pelos
Sofistas na educação da juventude?
8. Resuma o enredo de As Nuvens.
9. Aristófanes toma partido entre a educação antiga e a nova? Se sim, por qual delas?
10. Qual o espaço físico característico da antiga educação? E da nova?
11. Qual o órgão do corpo humano que é apresentado como o símbolo da nova
educação?
12. O texto revela-nos as seguintes características e valores da antiga educação
ateniense: primado da educação física, sobriedade e moderação, obediência e "respeito",
vergonha e disciplina. Encontre uma passagem, pelo menos, referente a cada uma delas.
13. O texto revela-nos as seguintes características da educação sofística: relativismo
gnoseológico, intelectualismo, verbalismo, carácter convencional das leis humanas,
optimismo antropológico. Encontre uma passagem, pelo menos, referente a cada uma
delas.
14. Quais as fases do método socrático?
15. Em que medida esse método sobrevive na pedagogia dos nossos dias?
16. A que tipo de oposição dá lugar em Atenas a oposição entre a "antiga educação" e a
"nova educação"?

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

47

II. Elabore um texto articulando os seguintes conceitos. Intitule-o.
. "intelectualismo", "verbalismo", "sofística".

BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
DOBSON, J. F., La educación antigua y su significado actual, Editorial Nova, Buenos
Aires, 1947.
JAEGER, Werner, - Paideia, a Formação do Homem Grego, Editora Aster, Lisboa,
1979, pp. 311-357; 384-407; 457-550.
MARROU, Henri-Irénée, Histoire de l'Éducation dans l'Antiquité, Paris, Seuil, 1965,
pp. 87-106.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

48

1.5. A teorização platónica da educação.
1.6. O realismo educativo de Aristóteles.
Resumo: Proceremos agora à análise do pensamento pedagógico dos dois maiores
filósofos da Grécia antiga, Platão e Aristóteles. Apesar de o segundo ser discípulo do
primeiro, isso não obstou a que as respectivas doutrinas se diferenciassem e tenham
mesmo podido funcionar doravante como paradigma de posições de princípio
filosóficas de sinal oposto. Não sendo a reflexão acerca da educação o centro do seu
pensamento, o certo é que ela desempenha um papel fulcral nas suas concepções acerca
da sociedade e da política.
Objectivos:
- Conhecer o contexto em que Platão viveu e no qual pensou acerca da educação.
- Compreender a especificidade do pensamento filosófico e pedagógico de Platão,
designadamente o seu idealismo e a sua perspectiva aristocrática e conservadora da
ordem social.
- Compreender a doutrina platónica das Ideias e quais as implicações pedagógicas da
sua articulação com a "teoria da reminiscência".
- Compreender as implicações pedagógicas da doutrina platónica das "partes da alma"
na sua articulação com a doutrina que ele defende acerca das 3 classes em que se divide
a sociedade.
- Compreender a teoria platónica do "eros pedagógico".
- Sistematizar as propostas de Platão de organização da educação na cidade ideal.
- Analisar a concepção platónica do processo educativo e dos efeitos da educação, à luz
das metáforas utilizadas na sua "Alegoria da Caverna".
- Compreender a ideia platónica do "filósofo-rei" na sua relação com a concepção de
educação expressa na "Alegoria da Caverna".
- Ajuizar em que medida as concepções pedagógicas de Platão podem ser fermento de
reflexão sobre a realidade educativa dos nossos dias.
- Conhecer o contexto em que Aristóteles viveu e no qual pensou acerca da educação.
- Compreender a especificidade do pensamento filosófico e pedagógico de Aristóteles,
crítico do idealismo platónico bem como de toda a forma de extremismos.
- Compreender a forma como Aristóteles considera "político" todo o viver humano e,
concretamente, defende o carácter público da educação dos membros de uma
comunidade.
- Sistematizar as minuciosas propostas legislativas de Aristóteles no campo da
educação.
- Compreender a ideia aristotélica de uma educação "progressiva e gradual".
- Ajuizar em que medida as concepções pedagógicas de Aristóteles podem ser fermento
de reflexão sobre a realidade educativa dos nossos dias.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

49

ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
"Imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo
com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em
forma de caverna..." Platão
"É preciso considerar se deveria haver algum código de regulamentação para a
educação das crianças; depois, se a educação deve estar a cargo da cidade ou de
indivíduos particulares (como sucede actualmente na maioria das cidades); em terceiro
lugar, que educação adoptar". Aristóteles

Textos para Análise : TEXTO 10, TEXTO 11 e TEXTO 12

TEXTO 10

PLATÃO (427 a.C. ­ 347 a.C.)

"Alegoria da Caverna"
­ Depois disto ­ prossegui eu ­ imagina a nossa natureza, relativamente à
educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens
numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz,
que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância,
algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no
mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões;
serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás
deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

50

construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos «robertos»
colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
­ Estou a ver ­ disse ele. ­ Visiona também ao longo deste muro, homens que
transportam toda a espécie de objectos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de
animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os
transportam, uns falam, outros seguem calados.
­ Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas ­ observou
ele.
­ Semelhantes a nós ­ continuei ­. Em primeiro lugar, pensas que, nestas
condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras
projectadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
­ Como não ­ respondeu ele ­, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a
vida?
­ E os objectos transportados? Não se passa o mesmo com eles?
­ Sem dúvida.
­ Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te
parece que eles julgariam estar a nomear objectos reais, quando designavam
o que viam?
­ É forçoso.
­ E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum
dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa,
senão que era a voz da sombra que passava?
­ Por Zeus, que sim!
­ De qualquer modo ­ afirmei ­ pessoas nessas condições não pensavam que
a realidade fosse senão a sombra dos objectos.
­ É absolutamente forçoso ­ disse ele.
­ Considera pois ­ continuei ­ o que aconteceria se eles fossem soltos das
cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as
coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o
forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a
luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar
os objectos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém
lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava
mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? E
se ainda, mostrando-lhe cada um desses objectos que passavam, o forçassem
com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em
dificuldades e suporia que os objectos vistos outrora eram mais reais do que
os que agora lhe mostravam?
­ Muito mais ­ afirmou.
­ Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos
e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar, e julgaria
ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
­ Seria assim ­ disse ele.
­ E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e
íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não
seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e depois
de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada
daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objectos?
­ Não poderia, de facto, pelo menos de repente.
­ Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em
primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

51

dos homens e dos outros objectos, reflectidas na água, e, por último, para os próprios
objectos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu,
durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se
fosse o Sol, e o seu brilho de dia.
­ Pois não!
­ Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não
já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu
lugar.
­ Necessariamente.
­ Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os
anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que
eles viam um arremedo.
­ É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
­ E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber
que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que
ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
­ Com certeza.
­ E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que
distinguisse com mais agudeza os objectos que passavam, e se lembrasse melhor quais
os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam
juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer ­
parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou
que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo
«servir junto de um homem pobre, como servo da gleba»1, e antes sofrer tudo do que
regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
­ Suponho que seria assim ­ respondeu ­ que ele sofreria tudo, de preferência a
viver daquela maneira.
­ Imagina ainda o seguinte ­ prossegui eu
­ Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto,
não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
­ Com certeza.
­ E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que
tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de
adaptar a vista ­ e o tempo de se habituar não seria pouco ­ acaso não causaria o riso, e
não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia
a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se
pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?
­ Matariam, sem dúvida ­ confirmou ele.
­ Meu caro Gláucon, este quadro ­ prossegui eu ­ deve agora aplicar-se a tudo
quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à
caverna da prisão, e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao
mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma
ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. O
Deus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se
avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos
a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da
qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência,
e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública.
1

Odisseia, XI. 489-490. Estes versos, já citados no princípio do Livro III (386c), pertencem ao lamento proferido pela sombra de
Aquiles, quando Ulisses o felicita por continuar a ser rei no Hades.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

52

­ Concordo também, até onde sou capaz de seguir a tua imagem.
­ Continuemos pois ­ disse eu
­ Concorda ainda comigo, sem te admirares pelo facto de os que ascenderam
àquele ponto não quererem tratar dos assuntos dos homens, antes se
esforçarem sempre por manter a sua alma nas alturas. É natural que seja
assim, de acordo com a imagem que delineámos.
­ É natural ­ confirmou ele.
­ Ora pois! Entendes que será caso para admirar, se quem descer destas
coisas divinas às humanas fizer gestos disparatados e parecer muito ridículo,
porque está ofuscado e ainda não se habituou suficientemente às trevas
ambientes, e foi forçado a contender, em tribunais ou noutros lugares, acerca
das sombras do justo ou das imagens das sombras, e a disputar sobre o
assunto, sobre o que supõe ser a própria justiça quem jamais a viu?
­ Não é nada de admirar.
­ Mas quem fosse inteligente ­ redargui ­ lembrar-se-ia de que as
perturbações visuais são duplas, e por dupla causa, da passagem da luz à
sombra, e da sombra à luz. Se compreendesse que o mesmo se passa com a
alma quando visse alguma perturbada e incapaz de ver não riria sem razão,
mas reparava se ela não estaria antes ofuscada por falta de hábito, por vir de
uma vida mais luminosa ou se por vir de uma maior ignorância a uma luz
mais brilhante não estaria deslumbrada por reflexos demasiadamente
refulgentes; à primeira deveria felicitar pelas suas condições e pelo seu
género de vida; da segunda ter compaixão e se quisesse troçar dela, seria
menos risível essa zombaria do que se se aplicasse àquela que descia do
mundo luminoso.
­ Falas com exactidão ­ afirmou.
­ Temos então ­ continuei eu ­ de pensar o seguinte sobre esta matéria se é
verdade o que dissemos: a educação não é o que alguns apregoam que ela é.
Dizem eles que ?????? arranjam a introduzir ciência numa alma em que ela
não existe, como se introduzissem a vista em olhos cegos.
­ Dizem, realmente.
­ A presente discussão indica a existência dessa faculdade na alma e de um
órgão pelo qual aprende; como um olho que não fosse possível voltar das trevas para a
luz, senão juntamente com todo o corpo, do mesmo modo esse órgão deve ser desviado,
juntamente com a alma toda, das coisas que se alteram, até ser capaz de suportar a
contemplação do Ser e da parte mais brilhante do Ser. A isso chamamos o bem. Ou não?
­ Chamamos.
­ A educação seria, por conseguinte, a arte desse desejo, a maneira mais fácil e
mais eficaz de fazer dar a volta a esse órgão, não a de o fazer obter a visão, pois já a
tem, mas, uma vez que ele não está na posição correcta e não olha para onde deve, darlhe os meios para isso.
­ Acho que sim.
­ Por conseguinte, as outras qualidades chamadas da alma podem muito bem
aproximar-se das do corpo; com efeito, se não existiram previamente, podem
criar-se e depois pelo hábito e pela prática. Mas a faculdade de pensar é, ao
que parece, de um carácter mais divino, do que tudo o mais; nunca perde a
força e, conforme a volta que lhe derem, pode tomar-se vantajosa e útil, ou
inútil e prejudicial. Ou ainda não te apercebeste como a deplorável alma dos
chamados perversos, mas que na verdade são espertos, tem um olhar
penetrante e distingue claramente os objectos para os quais se volta, uma vez

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

53

que não tem uma vista fraca, mas é forçado a estar ao serviço do mal, de
maneira que, quanto mais aguda for a sua visão, major é o mal que pratica.
­ Absolutamente.
­ Contudo, se desde a infância se operasse logo uma alma com tal natureza,
cortando essa espécie de pesos de chumbo, que são da família do mutável e que, pela
sua inclinação para a comida e prazeres similares e gulodices, voltam a vista da alma
para baixo; se, liberta desses pesos, se voltasse para a verdade, também ela a veria
nesses mesmos homens, com a maior clareza, tal como agora vê aquilo para que está
voltada.
­ É natural.
­ Ora pois! Não é natural, e não é forçoso, de acordo com o que
anteriormente dissemos, que nem os que não receberam educação nem
experiência da verdade jamais serão capazes de administrar satisfatoriamente
a cidade, nem tão-pouco aqueles a quem se consentiu que passassem toda a
vida a aprender ­ os primeiros, porque não têm nenhuma finalidade na sua
vida, em vista da qual devam executar todos os seus actos, particulares e
públicos; os segundos, porque não exercerão voluntariamente essa
actividade, supondo-se transladados, ainda em vida, para as Ilhas dos BemAventurados1?
­ É verdade. ­ É nossa função, portanto, forçar os habitantes mais bem dotados a
voltar-se para a ciência que anteriormente dissemos ser a maior, a ver o bem e a
empreender aquela ascensão e, uma vez que a tenham realizado e contemplado
suficientemente o bem, não lhes autorizar o que agora é autorizado.
­ O quê?
­ Permanecer lá e não querer descer novamente para junto daqueles prisioneiros
nem partilhar dos trabalhos e honrarias que entre eles existem, quer sejam modestos,
quer elevados.
­ Quê? Vamos cometer contra eles a injustiça de os fazer levar uma vida
inferior, quando lhes era possível ter uma melhor?
­ Esqueceste-te novamente, meu amigo, que à lei não importa que uma classe
qualquer da cidade passe excepcionalmente bem, mas procura que isso aconteça à
totalidade dos cidadãos, harmonizando-os pela persuasão ou pela coacção, e fazendo
com que partilhem uns com os outros do auxílio que cada um deles possa prestar à
comunidade; ao criar homens destes na cidade, a lei não o faz para deixar que cada um
se volte para a actividade que lhe aprouver, mas para tirar partido dele para a união da
cidade.
­ É verdade, tinha-me esquecido, realmente.
­ Repara ainda, ó Gláucon, que não causaremos prejuízo aos filósofos que
tiverem aparecido entre nós, mas teremos boas razões para lhes apresentar, por os
forçarmos a cuidar dos outros e a guardá-los. Diremos, pois, que as pessoas da mesma
espécie nascidas noutras cidades é natural que não tomem parte nas suas dificuldades;
efectivamente, fizeram-se por si mesmos, a despeito da respectiva constituição política;
e tem razão, quem se formou por si e não deve a alimentação a ninguém, em não ter
empenho em pagar o sustento a quem quer que seja. Mas a vós, nós formámos-vos, para
vosso bem e do resto da cidade, para serdes como os chefes e os reis nos enxames de
abelhas, depois de vos termos dado uma educação melhor e mais completa do que a
1

As Ilhas dos Bem-Aventurados eram, para os Gregos, um lugar de delícias no além. A mais antiga descrição dessa utopia figura em
Hesíodo, Trabalhos e Dias 166-173, que imagina essa felicidade em função da mentalidade do agricultor: ausência de cuidados,
produção rica e espontânea da terra. Embora tal concepção se vá espiritualizando em outros autores, é em Platão, a partir do mito
do Górgias, que ela aparece definitivamente dotada de um conteúdo ético, tornando-se o lugar de prémio dos que praticaram o
bem. É de notar que neste trecho perpassa, numa leve ironia, a noção de que a vida de estudo é a suprema felicidade.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

54

deles, e de vos tornarmos mais capazes de tomar parte em ambas as actividades1. Deve,
portanto, cada um por sua vez descer à habitação comum dos outros e habituar-se a
observar as trevas. Com efeito, uma vez habituados, sereis mil vezes melhores do que os
que lá estão e reconhecereis cada imagem, o que ela é e o que representa, devido a
terdes contemplado a verdade relativa ao belo, ao justo e ao bom. E assim teremos uma
cidade para nós e para vós, que é uma realidade, e não um sonho2, como actualmente
sucede na maioria delas, onde combatem por sombras uns com os outros e disputam o
poder, como se ele fosse um grande bem. Mas a verdade é esta: na cidade em que os que
têm de governar são os menos empenhados em ter o comando, essa mesma é forçoso
que seja a melhor e mais pacificamente administrada, e naquela em que os que detêm o
poder fazem o inverso, sucederá o contrário.
­ Absolutamente ­ confirmou ele.
­ Pensas que, ao ouvir isto, os nossos educandos não ficarão convencidos, não
quererão participar nos trabalhos da cidade, cada um por sua vez, embora passem a
maior parte do tempo uns com os outros na região pura3?
­ É impossível, porquanto fazemos imposições e justas a pessoas que também
são justas. Mais do que tudo, cada um irá para o poder constrangido, ao contrário dos
governantes actuais de todos os Estados.
­ Assim é, meu amigo. Se descobrires uma vida melhor do que governar, para os
que devem governar, podes conseguir um Estado bem administrado. Pois só nesse
mandarão aqueles que são realmente ricos, não em dinheiro, mas naquilo em que deve
abundar quem é feliz ­ uma vida boa e sensata. Se, porém, os mendigos e os
esfomeados de bens pessoais entram nos negócios públicos, pensando que é daí que
devem arrebatar o seu beneficio, não é possível que seja bem administrado.
Efectivamente, gera-se a disputa pelo poder, e uma guerra dessas, doméstica e interna,
deita-os a perder, a eles e ao resto da cidade. ­ Exactamente.
­ Ora tu sabes de qualquer outro género de vida que despreze o poder político,
sem ser o do verdadeiro filósofo?
­ Por Zeus, que não!
­ Ora a verdade é que convém que vão para o poder aqueles que não estão
enamorados dele; caso contrário, os rivais entrarão em combate.
­ Como não?
­ Então que outras pessoas forçarás a ir para guardiões do Estado, senão àqueles
que, sendo mais conhecedores dos métodos da melhor administração da cidade,
usufruem de outras honras e de uma vida melhor do que a do político?
­ Nenhumas outras.
­ Queres então examinar já de que maneira se formarão homens dessa qualidade
e como é que uma pessoa os fará ascender até à luz, tal como aqueles que se diz que
saíram do Hades, para se elevarem até aos deuses4?

1

Entenda-se: a politica e a filosofia.

2

Alusão ao verso homérico: «não é um sonho, mas uma visão autêntica, que há-de cumprir-se» (Odisseia XIX, 547).

3

A expressão do original, , não tem conotação precisa. Há algo de místico no seu emprego em
Platão, como nota Adam, que recorda a insistência na palavra no Fédon (79d, 109b). A estes exemplos podemos acrescentar os
do mito do Fedro.
4
Tem-se discutido muito sobre a espécie de figuras míticas compreendidas nesta alusão. Entre as mais prováveis, enumeraremos
Dioniso (cujo túmulo se mostrava em Delfos e cuja recepção no Olimpo aparece frequentemente em vasos gregos) e sua mãe
Sémele (cf. Pausânias II. 31.2 e 37.5), e ainda Asclépios e Hércules, que, de heróis, ascenderam a deuses. A dualidade da
escatologia do herói tebano já se encontra, aliás, no final do Canto XI da Odisseia, numa parte considerada «recente», em que se
afirma que a sua sombra está no Hades, mas ele toma parte nos banquetes olímpicos (601-604).

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

55

­ Como não hei-de querê-lo? ­ Isso não seria como o jogo de atirar um caco1,
mas um voltar da alma de um dia que é como trevas para o verdadeiro dia, ou seja, a sua
elevação até à realidade, que diremos ser a verdadeira filosofia.
­ Absolutamente.
PLATÃO, A República, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Livro VII.
TEXTO 11
OUTROS TEXTOS PLATÓNICOS

Instrução pública, gratuita, obrigatória e desportiva para os dois sexos
"Dissemos já, ao falar dos ginásios e das escolas públicas, que deveriam
construir-se três na cidade e que, fora da cidade, deveriam construir-se 3 estádios com
terrenos de desportos suficientemente amplos para que aí se possa atirar com o arco,
lançar o dardo e exercitar a juventude... Que a frequência escolar não esteja sujeita ao
capricho do pai e abandonada se este a recusa. Não. Todo o cidadão, toda a criança,
segundo as suas faculdades, deve receber uma instrução obrigatória, pois é filha da sua
pátria antes de o ser dos seus pais".
(PLATÃO, As Leis)
O ideal grego: a educação é uma harmonia das faculdades do corpo e do espírito
"Portanto, daquele que tempera perfeitamente a sua actividade desportiva por
uma actividade intelectual, daquele que melhor atinge esse equilíbrio moral, temos
razão em dizer que realiza em si uma música e uma harmonia perfeitas, mais perfeitas
ainda que o acorde que se pode realizar entre cordas".
(PLATÃO, A República)
I
Três espécies de homens
"Vós sois todos irmãos na Cidade, mas o deus que vos formou fez entrar oiro na
composição daqueles de entre vós que são capazes de comandar; por isso, são mais
preciosos. Misturou prata na composição dos auxiliares, ferro e bronze na dos
trabalhadores e dos outros artífices. Normalmente, gerareis crianças semelhantes a vós
mas como todos vós sois pais, pode acontecer que do oiro nasça uma vergôntea de prata,
1

O significado exacto da expressão, que possivelmente se tomou proverbial a partir deste texto, foi
objecto de controvérsia já entre os antigos. De qualquer modo, refere-se ao jogo da ??????????, que
Adam descreve assim: Os jogadores dividiam-se em dois partidos, separados por uma linha. Um dos
rapazes atirava ao chão um caco, preto de um lado e branco do outro, gritando ??? ????? ?? ??? ?????
(«noite ou dia» ­ correspondente ao nosso «cara ou coroa»). Conforme ficava para cima o branco ou o
preto, um partido deitava a correr e o outro perseguia-o. O sentido da frase seria, portanto, que a educação
não era um caso rápido e fortuito como o desse jogo. É de notar que a exclamação referida aparece
adaptada na continuação da frase.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

56

da prata uma vergôntea de oiro, e que as mesmas transformações se produzam nos
outros metais. Assim, antes de tudo, e sobretudo, o deus ordena aos magistrados que
vigiem atentamente as crianças e verifiquem bem o metal que se encontra misturado
com a sua alma, e se os seus próprios filhos têm qualquer mistura de bronze e de ferro,
que sejam sem piedade para com eles, e lhes atribuam o género de honra devido à sua
natureza, relegando-os para a classe dos artífices e dos trabalhadores; mas se, destes
últimos, nasce uma criança cuja alma contém oiro ou prata, o deus quer que ela seja
honrada, sendo educada, quer na categoria de guardião, quer na de auxiliar, porque um
oráculo afirma que a cidade perecerá quando for defendida pelo ferro ou pelo bronze".
(PLATÃO, A República, Livro III).

TEXTO 12

ARISTÓTELES (384 a.C. ­ 322 a.C.)

Política, Livro VII
16. A regulamentação das uniões; cuidados com a infância.
Aceitando que o legislador deveria ocupar-se, desde o início, de que os corpos
dos cidadãos a educar sejam os mais saudáveis, segue-se que a atenção inicial deve ser
dedicada à união conjugal e ao período e condições em que homem e mulher devem ter
relações sexuais. Ao legislar, deve atender aos caracteres dos cônjuges e seu período de
actividade sexual, a fim de que as suas idades coincidam e não exista divergência entre
as suas capacidades físicas, podendo um ainda gerar e a outra não, ou com a mulher
ainda capaz de conceber e o homem impotente; isto originaria discórdia e dissensão
entre ambos. A segunda coisa a ter em conta é a sucessão dos filhos: a diferença de
idade entre as crianças e os seus Pais não deve ser demasiado grande; os pais demasiado
idosos não podem desfrutar dos filhos nem beneficiá-los; e a diferença também não
deve ser demasiado pequena porque isso traz dificuldades consideráveis; as crianças
respeitam menos os pais se os tratam como pessoas da mesma idade, o que provoca
discussões domésticas. A terceira coisa a atender (e foi o que causou esta digressão) é

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

57

providenciar que os corpos dos recém-nascidos estejam conformes à vontade do
legislador.
Ora, todos estes objectivos podem ser assegurados por uma certa disposição.
Como, regra geral, o período de procriação termina para os homens, aos setenta anos, e
para as mulheres, aos cinquenta (1), o começo da vida conjugal deveria ser fixado com
este intervalo, no que se refere à idade (2). A união entre progenitores novos é
prejudicial para a procriação (3). Em todo o mundo animal, os descendentes de pais
novos têm imperfeições (4). Tendem a ser do sexo feminino e são de pequena estatura.
Necessariamente ocorre o mesmo resultado entre os humanos. A prova é que em todas
as cidades onde é costume os homens e mulheres casarem-se novos, os habitantes
desenvolvem-se de modo imperfeito e são de pequena estatura.
Podemos acrescentar que as mães jovens têm trabalhos de parto mais árduos e
morrem muitas vezes ao dar à luz. Esta foi a razão, segundo alguns, da resposta do
Oráculo (5) aos Trizénios: referia-se à grande mortalidade causada pelo casamento de
raparigas em tenra idade (o que nada tinha a ver com as colheitas). Também convém, no
interesse da temperança, celebrar o casamento das mulheres quando já têm uma certa
idade, porquanto parece que são mais lascivas as mulheres que, desde jovens, tiveram
vida conjugal. O desenvolvimento físico dos homens também fica comprometido
quando iniciam a actividade sexual enquanto o sémen está em desenvolvimento (6); o
sémen tem o seu período de crescimento, período que está determinado exactamente ou
com uma ligeira variação no decurso do desenvolvimento.
As mulheres deveriam, então, iniciar a vida conjugal pelos dezoito anos e os
homens pelos trinta e sete. Se estas idades forem respeitadas, a união terá lugar quando
os corpos ainda se encontram no auge, e acabará oportunamente para ambos com o fim
simultâneo da capacidade de procriação (7). Ademais, os filhos, se nascerem dentro do
prazo razoavelmente previsto, sucederão aos pais quando começarem a entrar no auge
da vida e quando o período de vigor dos pais está a chegar ao fim, por volta dos setenta
anos.
Acabámos de estabelecer a idade apropriada para a união conjugal. No que diz
respeito à estação do ano, é melhor seguir a prática observada pela maior parte hoje em
dia, fixando o inverno como o tempo acertado para a relação (8). Os pais deveriam
estudar o que dizem médicos e naturalistas sobre a procriação. Os médicos tratam
adequadamente das melhores ocasiões, na perspectiva da condição física. Os naturalistas

1

Sobre a duração do período de fecundidade da espécie humana, cf. ARISTÓTELES, História dos
animais, VII, 6, 585 b ss.
2
Aristóteles sugere urna diferença de vinte anos entre os dois elementos do casal, de tal forma que ambos
atinjam simultaneamente o limiar máximo do período de fecundidade, ou seja o homem quando tiver
cerca de 70 anos e a mulher quando tiver aproximadamente 50.
3
Cf. ARISTÓTELES, História dos animais, V, 14, 544 b 14-18.
4
Vide um elenco dessas imperfeições (como por exemplo, atrofia ou hipertrofia de orgãos, ausência de
membros, disfunções mentais, esterilidade, etc.), em NEWMAN, 111, 463.
5
Uma aposição marginal que surge em alguns manuscritos permite um acesso á resposta do dito oráculo, a
saber me temne nean aloka, isto é, "não abras um novo sulco; não lances o arado em terra nova; deixai-a
em pousio": Aristóteles terá feito uso do carácter ambíguo do atributo qualificativo nean (já que tanto
pode significar simultaneamente "nova", "não trabalhada", "virgem"), para enfatizar os riscos fisiológicos
e psicológicos da perda de virgindade demasiado cedo.
6
Trecho de contornos textuais imprecisos; cf. a propósito NEWMAN, III, 465-466.
7
Há neste passo uma inexplicável discrepância de critérios para aferir a idade propícia para o casamento,
visto que Aristóteles em História dos animais, VII, I, 582 a 16I 8 sugere a idade de 18 anos como
momento propício para a mulher começar a engravidar.
8
Opinião defendida por Pitágoras, de acordo com as indicações de DIÓGENES DE LAÉRCIO, VIII, 9;
apesar disso, o mês de Gamelion (equivalente a Janeiro) era o preferido para casar em Atenas.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

58

podem esclarecer acerca dos ventos favoráveis (sustentam que o vento Norte é melhor
que o do Sul).
Sobre qual compleição física dos pais será mais benéfica para os filhos(1),
trataremos com maior oportunidade e minúcia quando chegarmos ao tema da formação
das crianças (2); por agora bastará fornecer algumas indicações gerais. Uma compleição
atlética não é vantajosa para os objectivos gerais da vida cívica nem para a saúde nem
para a procriação (3). Também é imprópria uma compleição que exige demasiados
cuidados ou que seja demasiado delicada; a melhor compleição é a intermédia. Devem
possuir uma compleição exercitada, sim, mas em tarefas não violentas nem em tarefas
exclusivas, como é o caso dos atletas; devem orientar-se para actividades de homens
livres, o que se aplica, por igual, a homens e mulheres.
Também é necessário que as mães grávidas, tomem atenção aos seus corpos,
exercitando-se e alimentando-se suficientemente. O legislador pode alcançar facilmente
este alvo, ordenando-lhes que elas façam uma peregrinação diária com o propósito de
venerar as deusas (4) que presidem ao nascimento. As mentes, diferentemente dos
corpos, devem permanecer livres de fadiga, porquanto as crianças absorvem da mãe o
seu alimento, tal como as plantas o fazem da terra.
Passemos ao problema das crianças que, após o nascimento, devem ser criadas
ou expostas para morrer. Deve proibir-se a criação de disformes mas proibir também a
exposição de filhos a mais, nas cidades em que os hábitos proíbam ultrapassar um dado
limite. A atitude correcta é limitar a procriação; se as crianças forem concebidas além
do limite fixado, deverá praticar-se o aborto antes que a vida e a sensibilidade se
desenvolvam no embrião. (O aborto lícito ou ilícito depende do que se definir como
sensibilidade e vida) (5)
Posto que definimos as idades com que os homens e as mulheres deveriam
começar a vida conjugal, ou seja, quando devem começar a união, determinemos
durante quanto tempo se deve prolongar o período de procriação como acto público (6).
Os filhos de pais demasiado velhos tais como os filhos de pais demasiado jovens,
nascem física e mentalmente imperfeitos; as crianças geradas em idade avançada dos
pais são débeis. Podemos, então, fixar o tempo de procriação com referência à plenitude
1

Cf. PLATÃO, Leis, II, 674b; V, 747d; ARISTÓTELES, Acerca da geração dos animais, IV, 2, 766 b 34.
Aristóteles nunca chegará a reatar a abordagem deste ponto.
3
Cf. XENÓFANES, frgm. 2 Diels.
4
Ou seja, as deusas Ilítia e Anémis; cf. PLATÃO, Teeteto, 149b; Leis, VII, 789e.
5
Trecho muito controverso do ponto de vista clinico e moral. Ao admitir a eliminação na
circunstãncia-limite de graves deformações congénitas (o que não deixa de constituir de facto um
inconfundível e díscutível pressuposto eugénico), Aristóteles dá, todavia, do ponto de vista da evolução
hístórica da sensibilidade ética, um passo em frente em relação à posição de Platão (cf. Leis, V, 737e;
740c-d), o qual sugere de forma velada a proibição da procriação e o recurso à eliminação de nascituros
por forma a impedir que os nascimentos ultrapassem a cifra de 5.040 por cidade. Embora não preconize
de modo explicito o recurso às práticas abortivas, o certo é que a posição platónica, inspirada e secundada
por outras, deixa transparecer uma posição benévola em relação à prática do infanticídio, mas por razões
demográfico-económicas, numa altura em que se entendia que uma natalidade excessiva comprometia o
precário equilíbrio entre a massa populacional e a distribuição da riqueza (cf. República, V, 460b: sob
inspiração das medidas sócio-económicas consignadas na lei e na constituição do regime espanano, como
se prova em PLUTARCO, Licurgo, XVI, I). Razões génicas constituem a única circunstância admitida
por Aristóteles, e ainda assim apenas exequível nos primeiros 40 dias de vida embrionária intra-uterina
desde a concepção até à aquisição da função vegetativa, lapso temporal durante o qual, por falta de
conhecimentos e instrumentos científicos adequados, se julgava que o embrião ainda não adquirira a
diferenciação e a autonomia dos órgãos indispensáveis para realizar funções vitais básicas: cf. História
dos animais, VII, 3, 583 b 10-13).
6
A procriação é com efeito considerada um serviço público (leiturgia) revertível em favor do bem comum:
cf. nessa linha PLATÃO, República, V, 460e.
2

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

59

intelectual. Esta verifica-se, na maioria dos homens (como disseram os poetas (1), que
dividem a vida humana em períodos de sete anos) (2) pelos cinquenta anos. Quando o
varão ultrapassar esta idade em quatro ou cinco anos, deve renunciar à procriação. Dessa
idade em diante apenas deverá ter relações sexuais por razões de saúde, ou outra causa
similar.
Quanto ao marido e à mulher surpreendidos a cometer adultério (3), devem ser
absolutamente condenados, durante todo o período em que forem casados e chamados
marido e mulher. Se detectados a cometer adultério durante o período de concepção das
crianças, devem ser punidos com uma perda de direitos cívicos (4) proporcional à ofensa
cometida.
17. As diversas fases na educação dos jovens.
Quando as crianças nascem, terá muita importância para o seu vigor físico, o tipo
de alimentos que lhes for dado. Da observação dos demais animais e dos povos bárbaros
que procuram obter uma compleição do corpo adequada à guerra, resulta evidente que
uma dieta abundante em leite é a melhor para as crianças, e com o menor vinho
possível, porque este é nocivo (5). É aconselhável que façam todos os exercícios
possíveis à infância; para evitar qualquer deformação dos seus membros ainda frágeis,
alguns povos bárbaros ainda usam talas que mantêm os corpos direitos (6). É bom
habituar as crianças à dureza do frio desde tenra infância, prática útil tanto para a saúde
como para as actividades guerreiras. Por esta razão, alguns povos bárbaros têm o hábito
de mergulhar os seus filhos, ao nascer, nas águas frias de um rio, ou, como os Celtas, de
fazê-los andar com vestuário ligeiro. Sempre que for possível implantar um hábito numa
criança, é melhor começar desde a infância, e continuar gradualmente. A constituição
física das crianças, devido ao calor latente, adapta-se bem para resistir ao frio. São estes,
e outros similares, os cuidados a ter com as crianças na infância.
O estádio seguinte na vida das crianças dura até os cinco anos de idade; não
convém iniciá-los em nenhuma aprendizagem nem trabalho obrigatório, para não obstar
ao crescimento. Mas necessitam de movimento para evitar que o corpo se torne frouxo,
o que se pode obter com actividades diversas e, sobretudo, com jogos. Os jogos não
devem ser laboriosos nem efeminados mas de modo a tomar a criança livre. Os
encarregados de educação devem determinar que espécie de contos e histórias as
crianças podem ouvir nestas idades (7). Tudo isto deve preparar o caminho para as
ocupações futuras; os jogos das crianças devem ser, na maior parte, uma imitação das

1

Cf. SÓLON, frgm. 19 Diels.
O número 7 (entendido ora como múltiplo ora como divisor) exerce na antiguidade, e concretamente nos
tratados aristotélicos de índole biológica (cf. História dos animais, V, 20, 553 a 7; VI, 17,570 a 30; VII,
1,581 a 12) uma poderosa influência que se desdobra em dois níveis intermutáveis: por um lado ao nível
místico dos modelos aritmológicos da escola pitagórica e por outro lado ao nível clínico das virtualidades
terapêuticas adoptadas pela tradição hipocrática superiormente representada por Alcméon de Crotona (cf.
Acerca do septenário, in Corpo Hipocrático, VIII, 634).
3
Cf. PLATÃO, Leis, VI, 784e; VIII, 841d.
4
Acerca da perda de estatuto cívico (atimia), cf. supra Pol., III, I, 1275 a 21: nota (5).
5
Acerca dos distúrbios neuro-patológicos provocados pela ingestão do vinho por crianças, cf.
ARISTÓTELES, Acerca do sono, 3, 457 a 14; História dos animais, VII, 12, 588 a 6.
6
Cf. PLATÃO, Leis, VII, 789e.
7
Cf. PLATÃO, República, II, 376 ss., onde a pedagogia inspirada em Homero e Hesíodo é
particularmente visada, por se entender que as narrativas mitológicas desvirtuam a realidade divina,
mediante um processo de projecção antropomórfica de atitudes humanas.
2

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

60

coisas que, mais tarde serão actividades sérias (1). Erra o legislador, nas Leis (2), ao
procurar reprimir os gritos e os choros das crianças; são coisas que ajudam ao
desenvolvimento e, nesse sentido, são uma espécie de exercício fisico. Tal como conter
a respiração (3) dá aos adultos forças para trabalhos duros, o mesmo ocorre com as
crianças quando choram.
Os encarregados de educação devem exercer um controlo sobre a maneira como
as crianças passam o tempo. Em particular, devem evitar que as crianças passem tempo
com escravos. Como até aos sete anos têm que ser criadas em casa, é lógico que, sendo
tão pequenas, aprenderão coisas indignas a partir do que vêem ou ouvem. Deveria ser o
primeiro dever do legislador, por conseguinte, banir o uso da linguagem ordinária. O
uso da má linguagem de qualquer tipo, é a porta de entrada para o mau agir. Os jovens,
especialmente, deveriam ser afastados da audição, ou impedidos de usar tal tipo de
linguagem (4). E se alguém for surpreendido, apesar de todas as proibições, a falar ou a
agir indecentemente, já sendo livre (5), mas ainda não autorizado a assistir às refeições
comuns, deveria ser sujeito a castigo corporal e outros vexames; se for adulto, deverá
sofrer um vexame indigno de um homem livre, como merece a sua conduta indigna.
A par da proscrição do uso da linguagem indecente, é óbvio que proibimos a
exibição de quadros bem como representações indecentes. Devem os governantes
proibir toda a estatuária ou pintura que reproduza qualquer tipo de indecência, excepto
nos festivais das divindades onde o uso da linguagem grosseira é permitido por lei (6).
(Aqui, podemos notar que a lei também permite aos homens que atingiram a
maturidade, honrar os deuses em seu próprio nome e representando os seus filhos e
mulheres).
A assistência a sátiras e comédias (7) deveria ser proibida pelo legislador aos
jovens, até atingirem a idade em que são autorizados a partilhar com os mais velhos o
direito de se reclinar e tomar vinho nas refeições comuns. Por essa altura, a educação têlos-á tomado imunes ao mal que resultam de tais actuações.
Por agora, demos um relato resumido desta questão. Devemos dar-lhe toda a
nossa atenção e tratá-la com maior detalhe numa ocasião futura (8), quando abordarmos
os argumentos contra e a favor e que forma deverão tomar. Aqui só tocámos no assunto
de acordo com a necessidade imediata da ocasião. Talvez seja de referir a observação de
Teodoro (9), o actor trágico, que nunca permitiu a outro actor, por mais vulgar que fosse,
entrar primeiro em cena, porque (como ele dizia) "os espectadores gostam dos
primeiros que ouvem". Ora isto também sucede nas nossas relações com as pessoas e
com as coisas: preferimos sempre o que contactámos em primeiro lugar. Por isso, devese manter os jovens afastados de tudo o que for vil, e especialmente de tudo o que sugira
depravações ou hostilidade.
1

Cf. PLATÃO, Leis, I, 643b.
PLATÃO, Leis, VII, 791e; 792a.
3
Todo o passo gravita em tomo da ideia de symphyton pneuma, que poderíamos traduzir líteralmente por
"sopro congénito", designando no contexto da biologia aristotélica a fonte geratriz e energética da vida
orgânica: cf. ARISTÓTELES, Acerca do sono, 2, 455 a 17; Acerca do movimento dos animais, 10, 703 a
9; Acerca da geração dos animais, II, 4, 737 b 36.
4
Cf. PLATÃO, Leis, V, 729b.
5
Ou seja, antes dos 21 anos.
6
Aristóteles tem em mente os cultos religiosos (mistérios e iniciações relacionados com os binómios vidamorte, fecundidade-degeneração) a divindades como Dioniso e Deméter, celebrados em torno da
simbologia fálica, e que normalmente culminavam em excessos orgiásticos.
7
Escritos de cariz satírico, próprios para serem declamados em cena durante as festas dionisíacas; sobre a
influência do metro jâmbica na origem da comédia, cf. ARISTÓTELES, Poética, 4, 1449 a 11.
8
Aristóteles não chega a cumprir esse intuito.
9
Actor a quem Aristóteles alude em Retórica, III, 2, 1404 b 22.
2

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

61

Após os cinco anos, as crianças deveriam passar os dois anos seguintes, até à
idade dos sete, a assistir às lições que mais tarde terão que aprender (1).
Os períodos de educação são dois (2): desde a idade de sete anos até à puberdade;
desde a puberdade até aos vinte e um anos. Os que dividem (3) a idade do homem em
períodos de sete anos estão basicamente certos. Mas devemos preferir as divisões feitas
pela natureza, porque toda a arte e educação pretendem suprir as deficiências naturais
(4). É preciso considerar se deveria haver algum código de regulamentação para a
educação das crianças; depois, se a educação deve estar a cargo da cidade ou de
indivíduos particulares (como sucede actualmente na maioria das cidades); em terceiro
lugar, que educação adoptar.
LIVRO VIII
1. Plano geral da educação cívica.
Ninguém questiona que a educação dos jovens deva constituir preocupação
premente do legislador. Efectivamente, nas cidades onde a educação não tem lugar, isso
redunda em prejuízo dos regimes. A educação deve ser exercida de acordo com cada
regime, pois importa defender o carácter próprio de cada um, tal como foi estabelecido
desde o começo (5). Por exemplo, o carácter democrático em relação à democracia, e o
oligárquico em relação à oligarquia; o mais excelente princípio é sempre causa do mais
excelente regime. Ora, tal como para o desempenho de cada faculdade ou arte são
imprescindíveis uma aprendizagem prévia e um hábito, a prática das virtudes exige o
mesmo.
Tendo toda a cidade um único fim, é evidente que a educação deve
necessariamente ser uma e a mesma para todos, e que o cuidado posto nela deve ser
tarefa comum e não do foro privado, como se tomou prática corrente (6) (pois que cada
um se preocupa em particular com a educação dos seus filhos, dando-lhes um ensino
privado, segundo parece melhor a cada qual). O exercício daquilo que é comum deve ser
também realizado em comum. Tão pouco nenhum cidadão deve julgar-se útil por si
próprio, mas sim em função da cidade (7), visto que cada um é uma parte dela, e o
cuidado de cada parte deve, por natureza, reflectir-se na preocupação pelo todo. Estes
considerandos podem reportar-nos aos Espartanos que encaram a educação das crianças
como questão da maior e decisiva importância, e dela fazem um objectivo público (8).
Toma-se evidente, portanto, que os assuntos relativos à educação devem ser objecto de
legislação, e são assunto do interesse de toda a cidade.
2. Os estudos liberais.
1

Cf. PLATÃO, República, V, 466e; 467a.
Este modo de dividir as etapas pedagógicas de acordo com os níveis etários de amadurecimento do
indivíduo diverge da divisão clássica assumida pela maior parte das cidades gregas, que dividiam a vida
do educando em três fases: a fase compreendida do nascimento até aos 6-7 anos; a fase compreendida dos
7 aos 18 anos; e finalmente a fase compreendida dos 18 aos 20 anos, onde se atingia a idade da efebia; cf.
a propósito destas divisões etárias o diálogo pseudo-platónico Axíoco, 366d; 367a.
3
Aristóteles tem em mente Sólon: vide supra Pol., VII, 16, 1335 b 33: nota (172).
4
A propósito dessa relação de complementaridade entre educação (paideia) e natureza (physis), cf.
ARISTÓTELES, Física, II, 8, 199 a 15.
5
Cf. supra Pol., I, 13, 1260 b 13 ss; V, 9, 1310 a 12-18; vide a propósito PLATÃO, República, VIII, 544d.
6
Cf. PLATÃO, Leis, VII, 804 c-d.
7
Cf. PLATÃO, Leis, XI, 923 a-b.
8
Cf. PLAT ÃO, Leis, X, 903 b.
2

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

62

Que a educação deva ser assumida, e como deve ser realizada, são aspectos que
não devem ser ignorados. Este assunto tem presentemente gerado controvérsia, na
medida em que nem todos estão de acordo acerca do que deve ser ensinado aos mais
novos, no que se refere à virtude, e no que diz respeito à vida melhor (1). Também não é
evidente se é mais adequado que a educação vise as capacidades intelectuais ou o
carácter da alma (2). Iniciar a indagação a partir do estado actual da educação, só gera
mal-entendidos, pois não é evidente para ninguém se a educação deve incutir o que é
útil para a vida, ou o que é adequado à prática da virtude, ou mesmo aquilo que não tem
utilidade alguma; todas estas alternativas têm os seus partidários. Além do mais,
também não há consenso no que conduz à virtude: em boa verdade, devido a não
possuírem todos ao mesmo tempo uma evidência imediata do que seja a virtude,
discordam também no que seja o seu exercício (3).
Ninguém coloca reservas, é certo, ao tacto de se dever ensinar as coisas úteis
absolutamente indispensáveis (4), embora não todas. Sendo distintas as tarefas próprias
dos homens livres e as tarefas dos não livres, é evidente que importa realizar tarefas que
não aviltem os que delas se ocupam. E devemos considerar aviltantes todas as tarefas,
artes e disciplinas que não preparam o corpo, a alma, e a mente do homem livre, para o
exercício e a prática da virtude. É por isso que chamamos aviltantes os ofícios que
debilitam o corpo, tais como as actividades assalariadas que mantêm a mente presa e
degradada (5). Há ainda uns tantos estudos liberais de que os homens livres se podem
ocupar em certa medida, já que um estudo demasiado intensivo desses saberes
provocaria os efeitos nocivos que acabámos de referir (6). Reveste-se, portanto, da maior
importância o objectivo que alguém se propõe ao realizar ou ao aprender seja o que for:
na verdade, a prática de certos actos por si mesmos, por causa dos amigos ou em nome
da virtude, em nada degrada o homem livre; o que parece fazê-lo comportar-se como
um escravo ou assalariado é, isso sim, o realizá-los com frequência e em função de
outros. Os estudos ancestrais actualmente vigentes implicam ambas as possibilidades
(7).

3. Gramática, ginástica e música.

1

Embora a vida mais excelente não se confunda com o cultivo da virtude, o exercício desta é um meio
indispensável para atingir a vida perfeita: sobre esta interrelação cf. ARISTÓTELES, Ética a Nicómaco,
X, I, 1172 a 24.
2
A expressão to tes psykhes ethos (tal como o seu equivalente ta ethe) traduzível literalmente por hábito
da alma, designa neste contexto as disposições psicológicas que formam no seu conjunto o carácter de
cada indivíduo.
3
Embora ninguém conteste a necessidade intrínseca da virtude na condução da vida prática, as opiniões
divergem quanto à essência, aos meios, e aos modos de alcançá-la: cf. PLATÃO, Laques, 190b.
4
Platão, por exemplo, entendia que a educação devia facultar a aprendizagem de conhecimentos
elementares de aritmética, geometria e até de astronomia: cf. PLATÃO, Leis, VII, 817e-818a.
5
Os sofistas, que se faziam remunerar principescamente em troca dos seus ensinamentos, são os visados
neste passo; ora, para Aristóteles um mestre nada deve exigir aos seus discípulos como retribuição do seu
trabalho: cf. ARISTÓTELES, Ética a Eudemo, VII, 10, 1243 b 22; Ética a Nicómaco, IX, I, 1164 b 2.
6
Escudado no princípio metafísico de que "o todo é prévio às partes" (vide ARISTÓTELES, Metafísica,
1019 a I, 10; 1034 b 31; 1035 b 24), Aristóteles entende que o cidadão exemplar deve possuir a vísão
conjunta do todo da comunidade política, evitando a tentação fragmentária da especialização; cf. a mesma
recomendação socrática em XENOFONTE, Memórias dos ditos de Sócrales, IV, 7 (integ.); PLATÃO,
Leis, VII, 810b.
7
Distinção já abordada em supra Pol., VII, 14, 1333 a 6-12.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

63

São praticamente quatro os estudos liberais que se podem ensinar: a leitura e a
escrita (8), a ginástica, a música e desenho. A leitura e a escrita e o desenho, por serem
úteis para a vida e terem múltiplas aplicações; a ginástica porque incute bravura. Quanto
à música, é caso para perguntar por que razão se inclui na educação. No presente, a
maioria cultiva-a pelo prazer que dá; porém os que a integraram desde o início na
educação, fizeram-no porque, como repetidas vezes referimos (9), a natureza procura
não apenas operar correctamente, mas também orientar bem o ócio, o que ­ digamo-lo
uma vez mais ­ constitui o princípio de todas as coisas. Com efeito, se trabalho e ócio
são indispensáveis (embora o ócio seja preferível ao trabalho e até à finalidade deste)
pesquisemos como deve ser usado o tempo de lazer. Não certamente a jogar, porque
então o jogo constituiria forçosamente a finalidade da nossa vida (10), o que é impossível
(é, aliás, durante a labuta quotidiana que os jogos são melhor empregues, pois o trabalho
árduo exige pausas (11), e os jogos são próprios para dar descanso (12), sendo que o
trabalho implica cansaço e esforço). Nesse sentido, importa fomentar os jogos, mas
sempre acautelando O momento oportuno da sua utilização e aplicando-os como se de
uma terapêutica se tratasse, porquanto o movimento da alma que deles resulta produz
relaxamento, e o prazer que deles se retira facilita o descanso. Por outro lado, o ócio
parece conter em si mesmo prazer, felicidade e ventura. Os que trabalham não podem
fruir disto, mas apenas os que se entregam ao ócio, já que, na verdade, o que trabalha
fá-lo relativamente a um determinado fim de que não tira proveito. Ora a felicidade é
um fim em si próprio, pois todos julgam que não surge acompanhada de dor mas de
prazer. No entanto as opiniões divergem quando se trata de definir que prazer é esse,
pois cada qual o determina de acordo com a sua disposição. Uma coisa é certa: o melhor
prazer é o do melhor homem e o que provém das fontes mais excelentes. Toma-se claro,
portanto, que devem ser aprendidas e ensinadas coisas em função da diagogia (13), e que
esses ensinos e aprendizagens devem ser úteis em si mesmos, ao passo que as matérias
que se referem ao trabalho são necessárias e úteis em função de outras coisas.
É por isso que aqueles que inicialmente introduziram a música na educação não
o fizeram por verem nisso qualquer necessidade (pois não há mesmo nenhuma) ou
qualquer utilidade, tal como acontece com a leitura e a escrita em relação às actividades
comerciais, economia, ensino, e mesmo em relação às diversas actividades políticas, ou
como acontece com o desenho para apreciar melhor as produções dos artífices, ou com a
ginástica em relação ao bem estar e à boa forma do corpo. Ora, não vemos, com efeito, a
música visar estes resultados. Parece óbvio, portanto, que no intuito de ocupar o ócio se
tenha introduzido a música na educação, considerando-a divertimento à altura dos
homens livres. É nesse sentido que Homero refere no seu poema "apenas ele deve ser
convocado para o magnífico festim" (7), aludindo de seguida aos outros hóspedes que
8

O termo ta grammata designa de modo abrangente a actividade da leitura e da escrita, assim como
rudimentos de aritmética; cf. PLATÃO, Leis, VII, 810b.
9
Designadamente em supra Pol., II, 9, 1271 a 41 ss.; VII, 14, 1333 a 16 -1334 b 3; e infra VIII, 5 ss. (no
que respeita ao papel pedagógico da música). ('4) Cf. supra Pol., VII, 14, 1334 a 2-10.
10
Cf. ARISTÓTELES, Ética a Nicómaco, X, 6, 1176 b 27 ss.
11
Sobre o sentido de descanso anímico (anapausis) em vista da execução mais perfeita de uma tarefa, cf.
supra Pol., VII, 14, 1333 a 31: nota (139).
12
Ou seja, no descanso (anapausis) e ócio (skhole) o indivíduo obtém a felicidadade e a alegria em si
mesma (auto), sem necessidade, por conseguinte, de ser potenciada pelo prazer (hedone) obtido por
intermédio do jogo (paidia); por seu turno a ocupação (askholia: em sentido literal, não-ócio, logo
negócio) é um meio instrumental para se atingir um estado de vida feliz (ao contrário do lazer que possui
uma finalidade intrínseca).
13
Sobre o sentido inerente às formas de saber contemplativo (diagoge: isto é o saber que não serve como
meio mas que possui o fim em si mesmo), cf, supra Pol., VII, 14, 1333 a 31: nota (139).
7
Tudo aponta para HOMERO, Odisseia, XVII, 382-386: todavia, a citação não se encontra no passo
homérico referido, a não ser que se trate do verso 383 -o que se aproxima mais do sentido expresso por
Aristóteles; NEWMAN, III, 516 sugere modificações e reajustes hermenêuticos interessantes. A

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

64

"convidam o aedo que a todos agradará" (1). E noutro passo afirma Ulisses que a
melhor diversão é a que celebram os homens "escutando o aedo, gozando no palácio o
festim ao lado uns dos outros" (2).
Não há dúvida que existe uma determinada educação que deve ser ministrada
não porque seja necessária aos filhos, mas porque é liberal, e formativa. Se essa
educação implica um ou mais saberes, quais são e como devem ser ensinados, é algo a
que retomaremos posteriormente (3). Por enquanto apenas podemos dizer que joga a
nosso favor (4) um testemunho antigo no que se refere à educação tradicional, pois não
há dúvida que a música deve implicar isso mesmo. Cumpre também referir que, às
crianças, devem ser ensinadas alguns saberes úteis, como por exemplo a leitura e a
escrita, não tanto pela sua utilidade, mas porque por seu intermédio podemos aceder a
muitas e diversificadas aprendizagens. Do mesmo modo devem aprender o desenho não
propriamente para evitar erros nos contratos particulares e não se enganar na compra e
venda de bens, mas sobretudo porque o desenho conduz à contemplação da beleza do
corpo humano; a busca reiterada da utilidade não é digna de espíritos magnânimos (5) e
livres.
Dada a evidência de que a educação se deve basear mais no hábito do que
propriamente na inteligência, e preocupar-se mais com o corpo do que com a mente (6),
é manifesto que as crianças devem ser entregues aos cuidados de um mestre de ginástica
e de um preparador físico (7); aquele dotará os corpos de boa forma, este treina-os para
os exercícios.

4. A educação física
De entre as cidades que, no presente, mais parecem preocupar-se com a
educação das crianças (8), grande parte procura dotá-las de uma disposição atlética, em
detrimento das formas e do desenvolvimento harmonioso do corpo. Os Espartanos,
apesar de não incorrerem nessa falta, embrutecem-nas com trabalhos árduos, como se
isso fosse o mais conveniente para o culto da bravura (9). Todavia, e já o referimos por
diversas vezes, a educação não deve pôr, única e exclusivamente, o seu cuidado neste
objectivo, porque apesar de o visar nunca o alcançará em pleno. Não vemos, com efeito,
que a bravura acompanhe os mais selvagens, quer entre os animais quer entre os povos

expressão "apenas ele" contida no passo citado refere-se ao aedo (compositor-recitador de textos líricos
ou épicos).
1
HOMERO, Odisseia, XVII, 385 (embora a citação aristotélica do passo homérico não seja rigorosa).
2
HOMERO, Odisseia, IX, 5-6.
3
Tal propósito não chega todavia a ser cumprido.
4
O sentido da frase é difícil de determinar em virtude das múltiplas interpretações que sugere (embora o
termo pro hodou, literalmente "caminho em frente", sugerindo progresso, avanço, desenvolvimento,
ocorra com a mesma conotação em ARISTÓTELES, Metafísica, VIII (H),4, 1044 a 24); cf. NEWMAN,
III' 517.
5
Aristóteles dedica várias páginas ao estudo da virtude da magnanimidade (megalopsykhia: literalmente
megalos, grandeza + psykhe, alma, ou seja generosidade ou elevação de carácter), em fica a Nicómaco,
IV, 7-9 (integ.).
6
Cf. supra Pol., VII, 15, 1334 b 8-28.
7
A ginástica superior (gymnastike), destinada a preparar o corpo para a competição atlética, distingue-se
do mero exercício físico (paidotribike) destinado apenas a manter o corpo em boa forma.
8
Aristóteles tinha em mente os exemplos ocorridos em Tebas e Argos.
9
Vide supra Pol., II, 9, 1271 a 4I-b 10; VII, 14, 1333 b 5 ss.; 15, 1334 a 40 ss., onde se sugere que a
bravura militar não deve constituir o fim da educação, mas sim o inverso, a educação é deve constituí r o
objectivo superior do treino militar.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

65

bárbaros. Acompanha, sim, aqueles que mais se assemelham ao carácter do leão (1).
Existem muitos povos bárbaros com tendência para matar e alimentar-se dos seus
semelhantes, como os Aqueus e Heníocos que habitam em redor do Ponto (2), e mesmo
outros povos do continente, tanto ou mais selvagens do que estes, que vivem do saque
mas não possuem bravura. É de todos conhecido que, outrora, os Espartanos se
superiorizaram aos demais povos, ainda que tenham sido os únicos a cultivar o gosto
pelas agruras da vida. Hoje em dia, contudo, cedem perante os demais tanto na ginástica
como na guerra. É que antes não se distinguiam dos outros povos por sujeitarem as
crianças à espécie referida de programa gímnico, mas apenas pelo facto de as treinar,
coisa que não sucedia com os povos seus inimigos.
Assim sendo, é o espírito bem formado e não o rude, que deve assumir maior
protagonismo, porque nem o lobo nem qualquer outra fera enfrentaria um belo risco,
mas sim o homem bom (3). Os que sobrecarregam as crianças com demasiados
exercícios, privando-as de aprender aquilo que é necessário, na verdade reduzem-lhes as
capacidades, pois tomam-nas úteis para exercer uma só função de cidadão, e mesmo
essa fica inferior a outras, como atrás se referiu. É preciso avaliar os Espartanos não pela
obra realizada outrora, mas pela do presente, pois agora têm concorrentes na arte de
educar e antes não tinham. Estamos de acordo, portanto, no que concerne à
conveniência da ginástica, e de que modo ela é útil. Até à adolescência deve praticar-se
ginástica com moderação, evitando uma alimentação pesada e exercícios violentos, a
fim de que nada obste ao pleno desenvolvimento físico (4). E a prova nada insignificante
de que essas práticas podem redundar em prejuízo do corpo, é que, de entre os
vencedores dos Jogos Olímpicos normalmente apenas vislumbramos dois ou três
Espartanos bem sucedidos, contando com adultos e crianças (de facto, a exigência do
treino físico a que foram sujeitos desde tenra idade acabou por esgotar-lhes as forças).
Depois de três anos dedicados à aprendizagem de outros estudos (5), a partir da
adolescência, é tempo de se entregarem a exercícios árduos e de se sujeitarem a uma
alimentação disciplinada (6). A mente e o corpo não devem ser duramente exercitados
ao mesmo tempo; na verdade, trata-se de duas práticas opostas, visto que o trabalho do
corpo é um obstáculo para a mente, e o da mente também o é para o corpo.
ARISTÓTELES, Política, Ed. Veja, Lisboa, 1998

ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
Questionário
1. Em que contexto Platão viveu e pensou acerca da educação?
2. Explicite o significado filosófico da opção idealista de Platão.
1

Cf. ARISTÓTELES, História dos animais, I, I, 448 b 16; IX, 44, 629 b 8 ss.
Cf. ARISTÓTELES, Ética a Nicómaco, VII, 6, 1148 b 21.
3
Cf. ARISTÓTELES, Ética a Nicómaco, III, 9,1115 a 29.
4
Em completo desacordo com PLATÃO, República, VII, 536e.
5
A saber, gramática, música e desenho, tal como de resto é sugerido em PLATÃO, Leis, VII, 809 e ss.
6
Cf. PLATÃO, República, VII, 537b.
2

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

66

3. Em que medida Platão tem uma perspectiva aristocrática e conservadora da ordem
social?
4. O que defende Platão na sua "doutrina das Ideias"?
5. Quais as implicações pedagógicas da articulação dessa doutrina com a "teoria da
reminiscência"?
6. Quais as implicações pedagógicas da doutrina platónica das "partes da alma" na sua
articulação com a doutrina que ele defende acerca das 3 classes em que se divide a
sociedade?
7. Sintetize a teoria platónica do "eros pedagógico".
8. Indique as propostas de Platão para a organização da educação na cidade ideal.
9. Qual a concepção platónica do processo educativo e dos efeitos da educação que se
depreende das metáforas por si utilizadas na "Alegoria da Caverna"?
10. Explicite a forma como, através de sucessivas metáforas, Platão apresenta "Alegoria
da caverna" (Livro VII da República de Platão) o processo educativo.
11. Aprecie a caracterização do processo educativo levada a cabo por Platão na
"Alegoria da Caverna".
12. Que metáforas utiliza Platão para expressar a sua forma de entender a educação ?
13. Explique em que medida essas metáforas são válidas no caso do processo de
ensino-aprendizagem da Matemática, da História, da Língua Portuguesa, etc..10- Como
se articula a ideia aristotélica do "filósofo-rei" com a concepção de educação expressa
na "Alegoria da Caverna"?
14. Em que medida as concepções pedagógicas de Platão podem ser fermento de
reflexão sobre a realidade educativa dos nossos dias?
15. Em que contexto Aristóteles viveu e pensou acerca da educação?
16. Explicite o significado filosófico e pedagógico da opção realista de Aristóteles.
17. Articule o facto de Aristóteles considerar "político" todo o viver humano com a sua
defesa do carácter público da educação dos membros de uma comunidade.
18. Enumere as minuciosas propostas legislativas de Aristóteles no campo da educação.
19. Explicite a ideia aristotélica de uma educação "progressiva e gradual".
20. Em que medida as concepções pedagógicas de Aristóteles podem ser fermento de
reflexão sobre a realidade educativa dos nossos dias?

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

67

BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
DOBSON, J. F., La educación antigua y su significado actual, Editorial Nova, Buenos
Aires, 1947.
JAEGER, Werner, - Paideia, a Formação do Homem Grego, Editora Aster, Lisboa,
1979.
MARROU, Henri-Irénée, Histoire de l'Éducation dans l'Antiquité, Paris, Seuil, 1965,
pp. 107-130.
NETTLESHIP, Richard Lewis, La educación del hombre segun Platón, Ed. Atlántida,
Buenos Aires, 1945
SCHEUERL, Hans, Antropología Pedagógica, Ed. Herder, Barcelona, 1985, pp. 42-62.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

68

1.7. A "Enkyklios Paideia" helenística
1.8. A educação romana

Resumo: A importância do período helenístico na história da formação da
civilização ocidental não é geralmente reconhecida como mereceria. De facto, muito
mais do que mera fase intermédia entre a Grécia clássica e a Roma imperial na qual
emerge o cristianismo, essa época foi, de facto o almofariz em que se fundiram e
misturaram os elementos culturais de origem variada que este último acabaria por
consagrar numa síntese superior. O carácter sincrético da civilização helenística estará,
pois, na génese da cultura ocidental elaborada com base em materiais não tanto de
origem grega quanto persa ou babilónica, judaica quanto romana e cujo legado nós
recebemos via cristianismo.
O entendimento da especificidade histórica do mundo helenístico não é, porém,
obviamente, o nosso principal fito, pois nos interessa principalmente o estudo da
história da educação e da pedagogia neste período histórico. São os seus traços
principais que procuraremos entender nesta aula, com uma referência alargada também
à história da educação e da pedagogia romanas.

Alexandre Magno (

- 323 a.C.)

Objectivos:
A "Paideia" helenística
- Conhecer o processo de enfraquecimento das cidades-estado gregas que conduziu ao
domínio da Grécia por Filipe da Macedónia (338 a.C. - batalha de Queroneia).
- Conhecer o processo de formação do império de Alexandre Magno, continuador da
expansão territorial iniciada pelo seu pai e chega ao Indo em 326 a. C.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

69

- Compreender a política de fusão de civilizações promovida por Alexandre Magno e
na sequência da qual se origina a "civilização helenística", síntese da cultura grega e da
cultura dos povos orientais conquistados militarmente.
- Conhecer o processo de desagregação e divisão do Império após a morte prematura de
Alexandre. Distinguir os principais traços característicos da civilização emergente: a
sua estruturação em redor de grandes pólos urbanos (Pérgamo, Antioquia,
Alexandria...); a constituição de sociedades oligárquicas em que o cosmopolitismo
substitui a cidadania, e a educação se torna "humanista".
- Compreender o ideal educativo do mundo helenístico plasmado na "enkyklios
paideia", formação do homem livre em que a instrução é mais um adorno do que uma
ferramenta útil, espartilhada por rotinas didácticas absolutamente formais (o
pensamento é equiparado a mera virtuosidade verbal, ao serviço de verdades que já não
é preciso descobrir, pois a verdade já foi dita pelos "clássicos").
- Identificar as principais características da educação helenística ao nível da educação
"primária", da "secundária" e da superior. Confirmação do declínio da ginástica,
afirmação crescente e hegemónica da gramática e da retórica, desvalorização escolar
das disciplinas "científicas". Elitismo da educação superior e privatização da alta
cultura sob a protecção de mecenas que apadrinham os sábios frequentadores do Museu
ou da Biblioteca, daí resultando um grande desenvolvimento científico à margem da
escola (Arquimedes, etc).
A educação romana
- Distinguir as três fases de evolução da educação em Roma: período antigo, período
helénico, e período imperial.
- Compreender como as distintas realidades sociais e políticas de cada uma dessas fases
da história de Roma determinaram diferentes necessidades e diferentes possibilidades
educativas.
- Identificar as figuras mais relevantes da pedagogia romana, representantes de cada
uma dessas fases: Catão, Cícero, e Quintiliano.
Analisar os aspectos fundamentais do pensamento pedagógico de Quintiliano tal
como exposto na obra De Institutione Oratoria, procurando entender o seu significado
na altura em que foi formulado e o interesse que a sua análise pode ainda hoje
representar para nós.
­

ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
A "Enkyklios Paideia" helenística
"Após Alexandre, a educação antiga atinge a sua forma clássica e quase
definitiva. O papel da cultura física diminui em proveito dos elementos intelectuais e,

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

70

dentro destes, o aspecto filosófico e o aspecto estético cedem o passo aos elementos
literários. (...) [A "Paideia"] repousa na posse pacífica de um capital de valores
considerados como definitivamente adquiridos." Arnould Clausse
"... a educação helenística não é somente uma forma transitória, um instante
qualquer numa evolução contínua; ela é a Forma, estabilizada na sua maturidade,
segundo a qual se manifestou a tradição pedagógica da antiguidade. (...) pode definir-se
o ideal da educação helenística como um humanismo..." Henri-Irénée Marrou
"A cultura clássica é essencialmente uma formação estética, artística, literária e
não científica. (...) Pois o humanismo repousa de facto sobre a autoridade de uma
tradição que se recebe dos seus mestres e que, por sua vez, se transmite indiscutida. (...)
o ideal da cultura clássica é, em suma, simultaneamente anterior e transcendente a toda
a especificação técnica. Anterior: o espírito uma vez formado é uma força admirável,
perfeitamente livre, totalmente disponível não importa que tarefa particular. (...) Por
outro lado, o ideal clássico transcende a técnica: humano à partida, o homem cultivado,
mesmo se se torna um especialista altamente qualificado, deve preocupar-se em
permanecer antes de tudo um homem." Henri-Irénée Marrou
A educação romana
"[A educação romana] Reduzia-se, na época arcaica, como em todas as
sociedades de nível idêntico, à simples transmissão dos gestos rituais como das técnicas
tradicionais necessárias à prática da agricultura e ao ofício das armas. Depois, foi
sempre limitada a mui pouco: ensinava-se a criança a ler, escrever e contar; ensinavase-lhe a lei das Doze Tábuas (...), e parece que essa instrução elementar foi comumente
espalhada. Os filhos das grandes famílias instruíam-se, em seguida, nas coisas da
guerra, nos campos, e nas coisas da política assistindo às sessões do Senado. A cultura
propriamente dita não se fez desejável senão quando Roma, pela metade do século III,
já adentrada no caminho das conquistas, tendo submetido especialmente a região
helenizada da península itálica, sentiu que faltava alguma coisa à sua glória para que
igualasse, nesse domínio, os povos que vencera. Após a queda de Tarento (272),
começou a acolher-se à escola desses povos. Pedagogos gregos foram empregados nas
grandes famílias." René Hubert
"A Grécia vencida conquistou a fera vencedora". Horácio
"Segundo o conceito dos romanos, o orador era o homem por excelência. Numa
fórmula conhecida, Catão definiu-o «como um homem de bem (vir bonnus), hábil na
arte de falar».
(...)
Nada de extraordinário, pois, que Quintiliano propusesse formar o futuro orador
desde o berço, e que se preocupasse em escolher-lhe uma ama sem linguagem viciosa,
«porque um vaso conserva sempre o perfume que recebeu em primeiro lugar». As
funções que na sociedade moderna desempenham o púlpito, a imprensa, a tribuna, o
foro, o congresso, a escola e também a universidade estavam reservadas naquele tempo
ao orador. Como não prepará-lo desde o berço para o que ia ser a vida inteira? Um
imperador que não soubesse expressar-se com eloquência parecia, só por isso, indigno

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

71

de reinar e, quando se soube que era Séneca quem escrevia os discursos de Nero, foi
um escândalo monstruoso." Anibal Ponce
Texto para Análise : TEXTO 13
TEXTO 13

QUINTILIANO (±35 d.C - ±95 d.C)

De Institutione Oratoria (±95 d.C)
De que modo se reconhecem os talentos nas crianças e quais os que devem ser
tratados
1. Trazido o menino para o perito na arte de ensinar, este logo perceberá sua
inteligência e seu carácter (1). Nas crianças, a memória é o principal índice de
inteligência, que se revela por duas qualidades: aprender fàcilmente e guardar com
fidelidade (2). A outra qualidade é a imitação que prognostica também a aptidão para
aprender (3), desde que a criança reproduz a o que se lhe ensina, e não apenas adquira
certo aspecto, certa maneira de ser ou certos ditos ridículos (4). 2. Não me dará
1

"Esta observação psicológica que Quintiliano aplica em toda sua obra, tanto a respeito dos alunos, como
dos mestres, é um de seus mais felizes acertos." Luzuriaga, História da Educação e da Pedagogia, trad.
bras., São Paulo, Companhia Editôra Nacional, 1955, p. 73.
2
A facilidade para captar e reter o que se ensina é uma das mais prometedoras características da
inteligência. Cf. capítulo VII, nota nº 36, p. 202.
3
O segundo sinal de bons dotes para o estudo é a docilidade em reproduzir os bons ensinamentos.
4
Quintiliano acha que nem todas as tarefas necessitam da explicação e guia do mestre. Algumas realizamse mesmo sem sua interferência, como memorizar e compor. É necessário deixar, com discrição, o aluno
ir caminhando através de suas próprias forças.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

72

esperança de boa índole uma criança que, em seu gosto pela imitação, não procurar
senão fazer rir. Porque, primeiramente, será bom aquele que, na verdade, for talentoso;
senão eu o julgarei antes retardado do que mau. O bom mesmo se afastará muito
daquele lerdo e inerte. 3. Este meu (menino bom) compreenderá sem dificuldades
aquelas coisas que lhe forem ensinadas e também perguntará algumas vezes; entretanto,
mais acompanhará do que correrá à frente. Estes espíritos que, de bom grado, eu
chamaria de precoces, não chegarão jamais à maturidade (1). 4. Estes são os que
facilmente fazem pequenas coisas e, levados pela audácia, imediatamente ostentam
tudo o que podem; mas, o que podem, em definitivo, é o que se encontra a seu alcance
imediato; desfilam palavras, umas após outras, com ar destemido; proferem-nas, sem
nenhuma vergonha; não vão muito longe, mas vão depressa. 5. Não existe neles
nenhuma força verdadeira, nem se apoiam totalmente em raízes profundas; como
sementes esparsas à flor do solo, rapidamente se dissipam e, como pequenas ervas,
amarelecem os frutos em suas hastes fracas, antes da colheita. Estas coisas agradam na
infância, por causa do contraste com a idade; a seguir, o progresso pára e a admiração
diminui. 6. Logo que tiver feito essas considerações, o mestre deverá perceber de que
modo deverá ser tratado o espírito do aluno. Existem alguns que relaxam, se não se
insistir com eles incessantemente. Outros se indignam com ordens; o medo detém
alguns e enerva outros; alguns não conseguem êxito senão através de um trabalho
contínuo; em outros, a violência traz mais resultados. Dêem-me um menino a quem o
elogio excite, que ame a glória e chore, se vencido (2). 7. Este deverá ser alimentado
pela ambição; a este a repreensão ofenderá, a honra excitará; neste jamais recearei a
preguiça.
8. A todos, entretanto, deve-se dar primeiro um descanso, porque não há
ninguém que possa suportar um trabalho contínuo; mesmo aquelas coisas privadas de
sentimento e de alma, para conservar suas forças, são afrouxadas por uma espécie de
repouso alternado (3); além do mais, o trabalho tem por princípio a vontade de aprender,
a qual não pode ser imposta. 9. É por isso que aqueles cujas forças são renovadas e
estão bem dispostos têm mais vigor e um espírito mais ardente para aprender, enquanto,
quase sempre, se rebelam contra a coacção. 10. O gosto pelo jogo entre as crianças, não
me chocaria; é este um sinal de vivacidade e nem poderia esperar que uma criança triste
e sempre abatida mostre espírito activo para o estudo, pois que, mesmo ao tempo deste
ímpeto tão natural a esta idade, ela permanece lânguida (4). 11. Haja, todavia, uma
medida para os descansos; senão, negados, criarão o ódio aos estudos e, em demasia, o
hábito da ociosidade. Há, pois, para aguçar a inteligência das crianças, alguns jogos que
não são inúteis (5) desde que se rivalizem a propor, alternadamente, pequenos
problemas de toda espécie. 12. Os costumes também se revelam mais simplesmente
entre os jogos, de modo que não parece existir uma idade tão tenra que não aprenda
desde logo o que seja mau ou bom (6); mesmo porque a idade mais fácil para formar a
1

Desconfia das crianças-prodígio.
Quintiliano percebia que é próprio desta idade primeira atrever-se a muitos empreendimentos, gozar com
os descobrimentos, lançar-se ao esforço com valentia e optimismo.
3
A necessidade de descanso não é somente uma exigência física, senão em caso de trabalho intelectual,
um imperativo psíquico que não pode ser esquecido.
4
A criança que se entrega espontaneamente ao jogo demonstra saúde. Modernamente, os psicólogos
emprestam grande importância ao jogo considerando-o como "uma ocupação muito séria" para a criança.
É por meio dele "que se faz grande parte do trabalho da infância". Arthur J. Jersild, Psicologia da
criança, trad. bras., Belo Horizonte, Editora Itatiaia Limitada, 1966, p. 453.
5
Aprova os jogos dirigidos e de engenho.
6
Um dos mais bem pensados princípios da pedagogia de Quintiliano é o de que nunca é demasiado cedo
para iniciar a educação. Acha que os três primeiros anos da vida são aptos tanto para a formação dos
costumes como para a do entendimento. É uma posição singular dentro da Antiguidade que não admitia a
instrução antes dos sete anos de idade. Os primeiros conhecimentos dependem da memória e essa já
2

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

73

criança é esta que não sabe simular e cede facilmente aos preceitos: quebra-se com
efeito, não se endireita aquelas coisas que tomaram definitivamente um aspecto mau (1).
13. Então, nada fazer com paixão, nada com arrebatamento, nada impotentemente; eis,
de imediato, o aviso que é preciso dar à criança. Sempre se deve ter em mente o
conselho virgiliano:
"Nos primeiros anos o hábito tem muita força" (2). 14. Na verdade, gostaria
pouco que as crianças fossem castigadas, ainda que houvesse permissão, e Crisipo não
desaprovasse. Primeiramente, porque é baixo e servil e certamente uma injúria, o que
seria lícito se se mudasse a idade (3). Além do mais, porque se alguém tem um
sentimento tão pouco liberal que não se corrija com uma repreensão, também resistirá
às pancadas como o mais vil dos escravos. Finalmente, não haverá mesmo necessidade
desse castigo, se houver ao lado das crianças um assistente assíduo de estudos. 15. Mas,
hoje é geralmente a negligência dos pedagogos que parece continuar entre as crianças;
porque não as forçam a bem fazer, punem-nas porque não fizeram. Enfim, se coagirdes
uma criança com pancadas, que fareis para o jovem que, por outro lado, não terá nada a
temer e que deve aprender coisas mais importantes (4)? 16. Acrescente-se que muitas
coisas vergonhosas e quase humilhantes de serem ditas aconteceram às crianças a serem
castigadas, muitas vezes por dor e por medo; a vergonha confrange a alma, abate-a,
leva-a a fugir e a detestar a própria luz. 17. Se já foi menor o cuidado em escolher os
costumes dos vigilantes e mestres, é vergonhoso dizer em que acções infames homens
nefandos cairão com o abuso deste direito de castigar; e este medo das pobres crianças
dá também ocasião para o medo de outras. Não me demorarei nesta parte: o que se
entende já é suficiente. Basta dizer isto: ninguém deve ter muitos direitos sobre uma
idade demasiado fraca e exposta a ultrajes (5).

Se é necessário que se ensine de acordo com a natureza de cada um
1. Considera-se geralmente, e com razão, como um predicado do mestre notar
diligentemente as qualidades de espírito dos alunos que está encarregado de formar, e
saber para onde, de preferência, a natureza os conduz. Porque há nisto uma variedade
incrível e a variedade de espíritos não é menor que a dos corpos.
2. É o que se pode também entender daqueles oradores que diferem tanto entre
si pelo estilo, que não há um que se assemelhe a outro, ainda que a maior parte se
comporte à imitação de seus autores favoritos. 3. Eis porque se tem geralmente julgado
útil dirigir a instrução de maneira a ajudar, através dela, o desenvolvimento das
disposições naturais e a favorecer, principalmente, a tendência inata dos espíritos. Da
mesma forma que um perito mestre de palestra, entrando num ginásio cheio de
crianças, depois de ter estudado de mil maneiras o corpo e o espírito delas, descobre
aparece antes dos sete anos.
Exactamente porque o caminho da virtude é difícil, é preciso favorecer seu desenvolvimento desde a mais
tenra idade. Incentivar, de alguma maneira, sua vontade de agir recta e honradamente, tendo sempre em
mente que "não parece existir uma idade tão tenra que não aprenda desde logo o que seja mau ou bom".
1
Os maus hábitos adquiridos na infância são mais difíceis de desterrar.
2
Desde o começo, ensinar a criança a não trabalhar apaixonada ou desenfreadamente. E Quintiliano toma
emprestado de Virgílio uma frase categórica.
3
Afasta-se aqui de Crisipo, mestre da escola estóica a quem sempre segue, para condenar os castigos
corporais que este não reprova.
4
Se o mestre levasse as crianças a cumprir suas obrigações, não haveria necessidade de castigo.
5
A pedagogia romana, assim como a grega, era severa e brutal. A férula era o meio normal para o mestre
firmar sua autoridade. O mérito de Quintiliano está em reagir contra isso.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

74

para qual tipo de luta cada uma deve ser preparada, 4. assim o professor de Eloquência,
depois de ter estudado com sagacidade as disposições de espírito, seja num estilo
simples e polido, seja num estilo acre, grave, doce, áspero, nítido e acomodado e
prefira, principalmente, o estilo urbano, 5. assim também acomodará cada um naquele
género que lhe é próprio, pois a natureza, se cultivada, adquire mais força enquanto
que, conduzida para um caminho contrário às suas disposições, não produzirá
resultados satisfatórios nos ramos em que é menos apta e, deixando-os de lado, mostrase mais débil nisso. 6. Isto em parte me parece verdadeiro, da mesma forma que se é
livre para exprimir-se um conselho, mesmo contrário às ideias correntes, desde que
apoiado na razão. É absolutamente necessário observar as qualidades próprias do
espírito. 7. Ninguém me afastará desse pensamento que tais coisas devem ser levadas
em conta para escolherem-se os estudos aos quais cada um se deverá aplicar. Com
efeito, haverá um mais idóneo para a História, outro mais afeito à Poesia, outro ainda
mais útil ao estudo do Direito e outros, talvez, devam ser enviados para o campo.
Assim, o professor de Ginástica designará uns para a corrida, outros para o pugilato,
para a luta ou qualquer outro combate atlético que são próprios dos jogos sagrados. 8.
Na verdade, aquele que se destinar ao fatum deve trabalhar não em uma determinada
parte, mas em todas as que são de sua arte, mesmo naquelas que lhe pareçam muito
difíceis. Realmente, a doutrina será totalmente vazia, se a natureza for suficiente por si
só.
9. Se censurarmos asperamente um espírito corrupto e orgulhoso, como é a
maioria, por causa disso o abandonaremos? Se é magro e despido não o alimentaremos
e vestiremos? Se algumas vezes é permitido cortar alguma coisa por que não é
permitido acrescentar? 10. Eu não luto contra a natureza (1). Penso que não se deve
negligenciar o que é bom se for inato, mas aumentar e acrescer o que lhe falta (2). N a
verdade, Isócrates, aquele ilustríssimo professor, cujos escritos atestam as suas
qualidades de espírito, tanto quanto seus discípulos atestam sua qualidade de professor,
quando julgava Éforo e Teopompo (3), dizia que uns têm necessidade de freios, outros
de esporas (4). Considerou que seu ensinamento devia favorecer a fleuma nos mais
lentos e a rapidez nos mais velozes? ou julgou que as duas naturezas ganhariam mais
combinando-se?
12. Entretanto, admito que os espíritos medíocres devem ser tratados como tais
e conduzidos somente para aquilo a que a natureza os chamou; assim, pois, farão bem a
única coisa de que são capazes (5). Se, porém, a natureza mostrar-se mais liberal e
justificar a esperança de formar-se um orador, não se deve omitir nenhuma virtude de
eloquência. 13. Porque mesmo se, como é certo, nosso aluno tem mais inclinação para
um lado, não será entretanto absolutamente rebelde aos outros e, pela aplicação, poderá
sair-se tão bem nestes como naqueles onde é, por natureza, excelente (6). Se o mestre de
1

Por pertencer à corrente estóica, Quintiliano professa uma confiança ilimitada nas possibilidades e
bondade da natureza.
2
O ensino jamais deverá despojar a natureza do que for valioso: seu papel será o de reforçá-la e completála.
3
Éforo foi historiador grego, nascido nos primeiros anos do século IV a. C., morrendo em 334.
Teopompo foi um poeta cómico grego do fim do século V e começo do século IV a. C., contemporâneo
de Aristófanes. Éforo e Teopompo foram os mais distintos discípulos de Isócrates. Este, caracterizando o
espírito pesado de Éforo, dizia que tinha necessidade de esporas, enquanto Teopompo carecia de bridão.
4
Quintiliano mostra como conduzir os diversos tipos de temperamento para obter deles o máximo
rendimento.
5
As relações entre natureza e arte, inteligência e doutrina devem resolver-se através de um acoplamento
hierárquico que, em primeiro lugar, subordine a arte à natureza.
6
O início do processo educativo supõe uma selecção que exclua, com bondade, porém com firmeza, os
incapazes. Esta selecção deverá ser regulada por uma cuidadosa prudência, já que somente em casos

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

75

Ginástica começar a formar um pancraciasta (1), não lhe ensinará tão-somente a ferir
com o punho ou com o pé, ou a prender certos adversários no meio do corpo; ensinarlhe-á, certamente, todos os procedimentos dessa luta. Haverá, talvez, quem não possa
fazer alguns desses exercícios; então deverá aplicar-se principalmente no que for capaz.
14. Mas devem ser evitadas estas duas coisas: uma, não tentar fazer o que se não possa
fazer; outra, não afastar o jovem daquilo que ele faz com perfeição, para aplicá-lo em
outra coisa na qual é menos hábil. Mas se houver alguém que ensine, lembre-se daquele
velho, Nicóstratos, que, no que diz respeito à sua arte, usava sempre o mesmo modo de
ensinar e transformava o atleta naquilo que ele próprio foi: invencível na luta e no
pugilato, dois exercícios nos quais obtinha a vitória num mesmo dia.
15. E com muita razão, quanto cuidado deve tomar o mestre para formar
o futuro orador!
Realmente, não é suficiente falar apenas com concisão,
subtileza ou veemência, da mesma maneira que não é suficiente a um mestre de
canto sobressair-se unicamente nos sons agudos, médios ou graves, e até
mesmo em pequenas fracções desses tons. Na verdade, a eloquência é como a
cítara: não será perfeita a não ser que todas as cordas estejam bem afinadas,
desde a mais baixa até a mais alta ( 2 ).
Quintilien, Institution Oratoire, I, texte revu et traduit par Henry
Bornecque, Paris, Editions Garnier Frères, 1954, pp. 45 a 51 e 211 a
217. (Tradução portuguesa in ROSA, Maria da Glória de, A História
da Educação através dos textos, Cultrix, S. Paulo, 1971, pp. 76-83)

ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
I. Questionário
A "Paideia" helenística
1.Em que medida foi Alexandre Magno o continuador de um processo iniciado por seu
pai? Que processo?
2.Sob Alexandre Magno, que tipo de relação se estabelece entre a civilização dos
vencedores e a civilização dos vencidos? Que civilização daí resulta? Onde tem a sua
capital?
excepcionais o mestre achar-se-á ante indivíduos totalmente rebeldes à educação.
1
O termo vem de pancratium, do latim, pangkration, do grego. Combate ginástico que compreende a luta
e o pugilato. O pancrácio foi introduzido nos jogos olímpicos da XXVIIIª olimpíada. Tinha-se o direito
de empregar nele todos os recursos da luta: pressão dos braços, camba-pé, murros e pontapés. Mas os
adversários tinham os punhos nus, sem luvas; era proibido morder. A luta continuava mesmo quando os
dois atletas tinham rolado em terra e até que um deles se confessasse vencido. Este exercício era perigoso
e, por vezes, mortal. Popular na Grécia, foi usado durante muito tempo em Roma no tempo de Calígula.
2
Convém relembrar que para Quintiliano, bem como para o pensamento romano da época, a educação do
orador, realizada através da Retórica, é a do homem mais excelente que se possa imaginar, uma vez que a
profissão do orador aparece também como a mais formosa de quantas possa contribuir para o progresso
da nação. Para Quintiliano, e todos os estóicos, a aptidão verdadeiramente racional é o exercício da
virtude. Daí, a Retórica não estará de acordo com a razão, se não orientar formalmente para o bem.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

76

3. Quais os principais traços característicos da civilização que emerge após a morte de
Alexandre Magno?
4.Qual o ideal educativo do mundo helenístico? Em que consistia a "enkyklios
paideia"?
5.Como se exprimem o verbalismo e o formalismo característicos da educação
helenística?
6.O que resulta em termos educativos do facto de neste período se considerar que a
verdade já foi dita pelos "clássicos"?
7.Quais as principais características da educação helenística ao nível da educação
"primária"? E da "secundária"? E da superior?
8.De que forma se expressa a privatização da "alta cultura" no mundo helenístico?
A educação romana
9.Quais as fases de evolução da educação em Roma?
10. Em que medida as distintas realidades sociais e políticas de cada uma dessas fases
da história de Roma determinaram diferentes necessidades e diferentes possibilidades
educativas?
11. Quais as figuras mais relevantes da pedagogia romana, representantes de cada uma
dessas fases? Por que o são?
12. Quais são os traços fundamentais do pensamento pedagógico de Quintiliano tal
como exposto na obra De Institutione Oratoria? O seu significado na altura em que foi
formulado tem alguma afinidade com o que a sua análise pode ainda hoje representar
para nós?
II. Elabore um texto articulando os seguintes conceitos. Intitule-o.
12."Educação helenística", "Educação Romana", "Humanismo".
BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
CLAUSSE, Arnould, A Relatividade Educativa, esboço de uma história e de uma
filosofia da escola, Livraria Almedina, Coimbra, 1976, pp. 20-41.
HUBERT, René, História da Pedagogia, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1967,
p. 21-25.
LARROYO, Francisco, História Geral da Pedagogia, Editora Mestre Jou, S. Paulo,
1970, pp. 185-235.
MARROU, Henri-Irénée, Histoire de l'Éducation dans l'Antiquité, Paris, Seuil, 1965,
pp. 151-450.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

77

PONCE, Anibal, Educação e luta de classes, Editorial Vega, Lisboa, 1979, pp. 71-100.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

78

2. O cristianismo
2.1. Novo ideal educativo e novas instituições de ensino.
2.1.1. O período apostólico.
2.1.2. O período patrístico.
Resumo: A civilização ocidental caracteriza-se, antes de mais, por ser cristã naquilo
que a determinou no essencial, mesmo se vive desde há algumas décadas um fenómeno
de descristianização massiva, com uma grande parte dos seus novos membros a não
receberem, ao contrário do que sucedeu durante séculos, uma educação de base cristã,
para além de viverem em sociedades nas quais a crença religiosa foi relegada para o
plano das consciências individuais e deixou de ser uma herança sociológica
indiscutível. Estas novas circunstâncias - que não são uma novidade na História, pois
tempos houve em que as crianças do século III e IV deixaram de conhecer os deuses
romanos venerados pelos seus pais e avós... - devem ser tidas em conta na hora de
fazermos o balanço do que representou o cristianismo em termos educativos e
pedagógicos para o Ocidente.
A braços com a definição da ortodoxia e sua clarificação no diálogo com a
cultura antiga, os cristãos dos primeiro séculos, geralmente perseguidos até
Constantino, preocuparam-se fundamentalmente com a educação cristã apenas na
vertente do catecumenato criando escolas de "catequese" e escolas de catequistas. De
facto, no período apostólico e no período patrístico, confiam às instituições do Império
a educação mundana dos seus filhos, limitando-se a levantar objecções no sentido de
corrigir o que ofendia a sua fé. O episódio que representou a legislação escolar do
imperador Juliano ­ proibindo os cristãos de ensinarem nas escolas do Império ­ é
apenas a principal evidência das dificuldades com que o cristianismo se impôs no
terreno da educação pública, e tanto mais significativo quanto ele se situa no ano 362,
ou seja, cinquenta anos após o Édito de Constantino e com quase quatro séculos de
história cristã.
Objectivos:
- Conhecer a forma como o cristianismo emergiu no seio do judaísmo, compreendendo
em que residiu a ruptura bem como aquilo em que mantêm afinidade.
- Compreender a delicada situação do cristão dos primeiros séculos aguardando para
breve a Segunda Vinda de Cristo e terminando por de "apocalíptico" se converter em
"integrado", mormente graças ao Édito de Constantino.
- Compreender como o cristianismo levou os seus primeiros séculos num processo de
fundação e definição doutrinária em que a nova fé tem como principal interlocutor a
filosofia grega. Entender o papel dos Padres da Igreja nesse âmbito.
- Identificar os principais pontos de influência da fé cristã no terreno educativo e
pedagógico.
- Analisar a doutrina defendida por Clemente de Alexandria em O Pedagogo, protótipo
da apropriação cristã da filosofia grega, neste caso, em considerações acerca da
educação ideal que deve ter Cristo como único Mestre.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

79

- Analisar a "doutrina da iluminação divina" exposta por Santo Agostinho em O
Mestre, exemplo bem claro das dificuldades de conciliação entre alguns aspectos da fé
cristã e elementos fundamentais da cultura antiga.
- Compreender o significado pedagógico da "doutrina da iluminação divina" enquanto
intermediação entre uma teoria do conhecimento e uma teoria da relação educativa.
ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
"Não há religião nenhuma que, mais do que o cristianismo, faça participar a
educação na obra da salvação, faça da educação um instrumento da salvação. A
natureza humana foi manchada pela queda. A educação (...) constitui para o
cristianismo o conjunto dos meios pelos quais é possível agir sobre uma natureza, para
a ajudar a conseguir a sua salvação. (...) O cristão recusa a natureza e não espera
encontrar a sua felicidade neste mundo. Ele não dispõe de outro meio a não ser a
educação para seguir a via da salvação". Jacques Ulmann

"A natureza humana foi manchada pela queda. (...) A natureza,
abandonada aos seus próprios meios, está desamparada (.. .). A educacão ganha então
todo o seu significado. Ela constitui para o cristianismo o conjunto dos meios através
dos quais é possível agir sobre uma natureza, para a ajudar a conseguir a sua salvação
desenvolvendo os gérmens do Bem que o amor de Deus pelos homens introduziu neles
e lhes permitiu desenvolver. O fim da educação sendo o de assegurar ao homem o seu
destino superior, e não podendo este destino ser atingido sem educação, esta vai
revestir-se para o cristianismo de uma importância verdadeiramente fundamental".
Jacques Ulmann
"A alma e o corpo nunca foram postos no mesmo plano pelo cristianismo. A
alma foi sempre tida pelo cristianismo como superior em dignidade e valor. Mas a alma
e o corpo também nunca foram dissociados, como muito frequentemente se pretende."
Jacques Ulmann
"Os primeiros cristãos viveram no ambiente cultural do mundo helenístico e
frequentaram as escolas instituídas pelo governo imperial ou mantidas pelos mestres
particulares e, no Ocidente, viveram das tradições romanas como qualquer outro
cidadão do Império, ainda que se distinguissem pelas suas convicções e pelas suas
práticas religiosas que, nos primeiros séculos, os tornaram vítimas da incompreensão e
das perseguições dos imperadores". Ruy Afonso da Costa Nunes
"(...) foi exactamente o alto feito educacional de Clemente de Alexandria, nas
pegadas do mártir São Justino, ter concorrido para harmonizar a paidéia grega com o
espírito cristão, a filosofia pagã com o Evangelho, procurando demonstrar que a
filosofia não é "pagã" por natureza, mas uma decorrência da natureza intelectual do ser
humano e, por conseguinte, uma dádiva de Deus ao homem, como as artes e as
ciências, dons subjectivos, mas dons como os bens externos representados pela
variedade e pela beleza das criaturas, como o mar, as montanhas, as flores e as estrelas.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

80

Com esta convicção, Clemente de Alexandria aprofunda a ideia de São Justino quanto
ao Logos que se fez homem e é o princípio de toda a sabedoria, e procura demonstrar
que a plenitude da razão e da vida espiritual só se encontram na vida cristã". Ruy
Afonso da Costa Nunes
"Quando rastreamos os textos agostinianos à procura do seu pensamento a
respeito da aprendizagem, três conclusões, parece-nos, acabam por se nos impor.
Primeiro, advertimos que o santo Doutor evoluiu intelectualmente quanto a esse tema,
tendo de início se deixado enlevar pela doutrina platónica da reminiscência, mas sem a
haver adotado jamais em toda a amplitude, uma vez que depois do Baptismo renunciou
definitivamente à admissão da preexistência da alma, que na concepção platónica
justifica a doutrina da reminiscência. Essa posição filosófica foi superada por Santo
Agostinho com a sua doutrina da Iluminação.
A segunda conclusão que se nos impõe é a de que a doutrina da Iluminação já se
insinuava para Agostinho através dos textos bíblicos, patrísticos e filosóficos, sendo
esta influência filosófica marcantemente neoplatónica. Por fim, a terceira conclusão a
que se chega naturalmente é a de que para Santo Agostinho só Deus é Mestre e que os
professores, na realidade, nada ensinam, limitando-se a provocar os estudantes, a
motivar os alunos para o conhecimento." Ruy Afonso da Costa Nunes
Textos para Análise : TEXTO 14 e TEXTO 15
TEXTO 14
CLEMENTE DE ALEXANDRIA (150-215)

Cristo, O Pedagogo, segundo Clemente de Alexandria

VII. O Pedagogo e sua pedagogia
Mostramos já que somos todos chamados filhos pela Escritura e que, além do
mais, assim que nos propomos a seguir Cristo, recebemos o nome alegórico de
"filhinhos" e que só o pai do Universo é perfeito ­ porque o Filho está nele, e o Pai está
no Filho1. Se seguimos nosso plano, devemos agora expor qual é o nosso Pedagogo:
1

Em outro local da obra, Clemente já dissera que a Pedagogia é "a formação dos filhos, como o seu nome
indica. Resta a considerar quais são estes filhos dos quais a Escritura fala assim simbolicamente e, em

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

81

chama-se Jesus1. Algumas vezes, ele se dá o nome de "pastor" e diz: "Eu sou o bom
pastor"2; faz uma comparação com os pastores que guiam suas ovelhas e Ele, o
Pedagogo, que guia seus filhos ­ o pastor pleno de solicitude para com todos os
filhinhos, porque estes últimos, na sua simplicidade, são chamados alegoricamente de
ovelhas. "E todos, está escrito, serão um só rebanho e haverá um só pastor"3. O
Pedagogo é, pois, naturalmente, o Logos porque nos conduz, a nós, seus filhos, para a
salvação. Assim, o Logos disse muito claramente pela bôca de Oséias: "Eu sou vosso
educador"4. Quanto à pedagogia, é a religião: ela é ao mesmo tempo o ensinamento do
serviço de Deus, educação em vista do conhecimento da verdade e boa formação que
conduz ao céu.
O nome "Pedagogia" abarca realidades múltiplas: pedagogia de quem recebe
directriz e instrução; pedagogia de quem dá direcção e ensinamento; pedagogia, em
terceiro lugar, a formação concebida ela mesma; pedagogia ainda as matérias ensinadas,
como, por exemplo, os preceitos5. Quanto à pedagogia de Deus, é a indicação do
caminho recto da verdade em vista da contemplação de Deus, a indicação de uma santa
conduta numa eterna perseverança. À imagem do general que dirige sua falange,
vigiando pela salvação de seus mercenários, ou do pilôto que manobra seu barco com
vontade de salvar seus passageiros, o Pedagogo indica às crianças um modo de vida
salutar, através da solicitude para conosco; de uma maneira geral, tudo que podemos
racionalmente pedir a Deus6, obteremos obedecendo ao Pedagogo. Ora, não é sempre
que o piloto cede aos ventos; algumas vezes, entretanto, ele avança a proa e enfrenta as
borrascas; da mesma maneira o Pedagogo não submete sempre o filho aos ventos que
sopram em nosso mundo e não o empurra na direcção deles, como o barco, porque ele
se esfacela numa vida animalesca e licenciosa; é somente quando é empurrado pelo
sopro da verdade que, bem equipado, o Pedagogo se apoia, com todas as suas forças,
sobre as barras do leme do filho ­ quero dizer: "suas orelhas7" ­ e isto, até o momento
onde Ele fará aportar o filhinho, são e salvo, ao porto celeste. Porque se a educação
herdada de nossos pais ­ como nós assim dizemos ­ passa depressa, a formação
recebida de Deus é uma aquisição eterna8. O pedagogo de Aquiles, diz-se, era Fénix; o
dos filhos de Cresos, Adrasto; o de Alexandre, Leónidas; o de Felipe, Nausito. Mas, o
seguida, propor-lhes o Pedagogo. Os filhos somos nós". Le Pédagogue, I, Introduction et notes de HenriIrénée Marrou, Paris, Les Éditions du Cerf, 1960, p. 133.
1
Clemente usa aqui o nome de Jesus, em lugar de falar simplesmente do Verbo.
2
São João, X. 14.
3
São João, X, 16.
4
Os., V. 2. A passagem de Oseias significa: "vou castigá-los a todos". Clemente jogou com a
ambiguidade dos termos; aproximou o masar do hebreu ("castigo", "punição", de carácter pedagógico) à
paidéia do grego.
5
Aqui o ensinamento do pedagogo é puramente moral.
6
"E tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, vo-lo farei, para que o Pai seja glorificado no Filho." São
João, XIV, 13.
7
Existem a respeito textos pitorescos de origem egípcia: "As orelhas do adolescente estão colocadas nos
seus ombros; ele escuta quando apanha". "Tu me educaste quando eu era criança", declara a seu mestre o
aluno reconhecido; "tu me batias nas costas e tua doutrina penetrava em minhas orelhas". Henri-Irénée
Marrou, Histoire de l'éducation dans l'antiquité, Paris, Editions du Seuil, 1955, p. 22.
8
Clemente procura definir a função do pedagogo: conduzir a criança para um tipo de vida, calcado num
caminho que levará à salvação. O pedagogo dá conselhos sobre a maneira de comportar-se em casa,
continua sua instrução através de conversas familiares, antes de introduzir seu aluno na escola do mestre.
"Da mesma maneira que para os males do corpo tem-se necessidade do médico, para isto em que a alma é
fraca é preciso um pedagogo, porque ele cura nossas paixões: iremos, em seguida, ao mestre que nos
guiará, preparando nossa alma para torná-la pura, a fim de que possa acolher os conhecimentos, fazendo-a
capaz de receber a revelação do Logos. Então, empenhado de conduzir-nos à perfeição, pela marcha
ascendente da salvação, o Logos, que é em tudo amigo dos homens, põe em acção um bem feito programa
para dar-nos uma educação eficaz: primeiramente, nos converte; em seguida, educa-nos como um
pedagogo; em último lugar, ensina-nos." Clément D'Alexandrie, op. cit., p. 113.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

82

primeiro, Fénix, era um mulherengo1; o outro, Adrasto, um banido2; Leónidas não
suprimiu o orgulho do Macedónio3, da mesma forma que Nausito não curou o homem
de Pela de sua bebedeira e o Trácio Zópiro não logrou êxito em refrear a libertinagem
de Alcibíades. É verdade que Zópiro era um escravo resgatado pelo dinheiro4 e que
Sikino, o pedagogo do filho de Temístocles, era um doméstico preguiçoso5: conta-se
que ele dançava e inventou uma dança apelidada sikiniana. Não ignoramos menos os
pedagogos dos persas, chamados "reais": escolhidos pelos seus méritos, em número de
quatro, entre todos os persas, os reis deste país propunham-nos a seus filhos; mas estes
não aprenderam com eles senão a atirar com o arco6; em contrapartida, desde sua
puberdade, estas crianças tinham relações com suas irmãs, sua mãe e com inúmeras
mulheres, legítimas ou concubinas, treinadas que eram à vida sexual como varões!
Nosso Pedagogo é o Santo Deus Jesus, o Logos que conduz a Humanidade
inteira; nosso pedagogo é Deus, Ele próprio, que ama os homens. No Cântico, o
Espírito Santo fala assim deles: "Ele (o Senhor) encontrou-o (Jacob) numa terra deserta,
na solidão ululante dos lugares ermos; cercou-o e cuidou dele, guardando-o como a
pupila de seus olhos. Como a águia que provoca seus filhos a voar, esvoaçando sobre
eles, (assim o Senhor) estendeu suas asas e o tomou, e o levou sobre suas asas. Só o
Senhor foi o seu guia, e nenhum outro deus estava com ele"7. É de maneira clara, penso,
que a Escritura designa assim o Pedagogo, descrevendo a formação que nos dá. Em
outro lugar, falando em seu próprio nome, Ele se reconhece a si mesmo como o
Pedagogo: "Eu sou o Senhor teu Deus, que te fiz sair do Egipto"8. Quem, pois, tem o
poder de conduzir para dentro ou para fora, senão o Pedagogo? Este apareceu a Abraão
e disse-lhe: "Eu sou o Deus Todo-Poderoso. Anda em minha presença e sê perfeito"9; e
tornou-o, pouco a pouco, seu filho fiel, segundo uma salutar pedagogia, dizendo-lhe:
"... sê perfeito, estabelecerei minha aliança entre mim e tua descendência"10; há uma
1

Conversando com Aquiles, diz-lhe Fénix: "... longe de ti, querido filho, eu não quedaria, ainda que um
deus me prometesse pessoalmente apagar a velhice, tornar-me jovem e robusto, como eu era quando, pela
primeira vez, deixei a Hélade de formosas mulheres, fugindo à cólera de meu pai Amintor, filho de
Órmeno. Zangara-se comigo por amor de uma concubina de formosos cabelos, que ele amava,
desprezando minha mãe". Homero, Ilíada, trad. bras., São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1961, p.
165. Grifos nossos.
2
Adrasto, filho de Talau e Lisímaca, (filha de Abante e Pólibo de Sicione), neto de Biante, bisneto de
Amitáon. A lenda no-lo apresenta, habitualmente, como rei de Argos, onde, ao mesmo tempo, dominam
três estirpes: Os Biandites, os Melampodides e os Prétides. Acontece, porém, que num tumulto, Talau é
morto pelo Melampodide Anfiarau. Adrasto foge, então, para junto de Pólibo em Sicione, e quando este
morre, sem descendência masculina, torna-se seu herdeiro.
3
"Havia, naturalmente, muitas pessoas encarregadas de cuidar dele (Alexandre), com os títulos de
governantes, pedagogos, professores; a todos presidia Leónidas, homem de carácter austero, parente de
Olímpias; ele não rejeitava o nome de pedagogo, encargo honroso e brilhante, mas os outros, por causa de
sua dignidade e parentesco, chamavam-lhe governante e preceptor de Alexandre." Plutarco, Vidas,
Alexandre V, trad. de Jaime Bruna, São Paulo, Editora Cultrix, MCMLXIII, p. 141.
4
"Pour toi au contraire, Alcibiade, Périclès t'a donné comme gardien, dans ton enfance, un de ses esclaves
que l'âge rendait tout à fait inutilisable, Zopyre le Trace". Platon, Oeuvres Complètes, Alcibiade, Tome I,
122 b, texte établi et traduit par Maurice Croiset, Paris, Société d'Edition "Les Belles Lettres", 1953, p.
90.
5
"Thémistocle, alors, voyant que l'opinion des Péloponnésiens allait prévaloir sur la sienne, sortit sans
qu'on s'en aperçut du conseil et expédia au camp des Mèdes un homme sur une barque, à qui il prescrivit
ce qu'il aurait à dire. Cet homme avait nom de Sikinnos, il était de la maison de Thémistocle et pedagogue
de ses fils." Hérodote, Histoires, VIII, 75, texte établi et traduit par Ph. ­ B. Legrand, Paris, Société
d'Edition "Les Belles Lettres", 1953, p. 74.
6
Mas, Clemente esquece-se de que eles ensinavam também a não mentir.
7
Deut., XXXII, 10, 11 e 12.
8
Êx., XX, 2.
9
Gén., XVII, 1.
10
Gén., XVII, 2 e 7.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

83

comunicação, pelo mestre, de sua amizade. É evidente que Ele foi, da mesma maneira,
o pedagogo de Jacob; diz-lhe: "Eu estou contigo, para te guardar onde quer que fores, e
te reconduzirei a esta terra, e não te abandonarei, sem ter cumprido o que prometi"1. E a
narrativa acrescenta que combatia com ele: "Jacob ficou só; e veio alguém que lutou
com ele até o romper do dia"2. Era Ele o homem que combatia, que lutava a seu lado,
que treinava Jacob contra o mal. E como o Logos era uma vez, o treinador de Jacob e o
pedagogo da Humanidade, a Escritura diz: "Jacob perguntou-lhe: "Peço-te que me digas
qual é o teu nome". - "Por que me perguntas o meu nome?" respondeu Ele"3. Com
efeito, Ele reservou o nome novo para o povo jovem, muito pequeno.
O Senhor Deus estava ainda sem nome, porque não se havia transformado em
homem. Portanto, Jacob deu àquele lugar o nome de Visão de Deus, "porque, disse ele,
eu vi a Deus face a face, e conservei a vida"4. A face de Deus é o Logos, através do qual
Deus se veste de luz e revela-se. E foi, então, que Jacob recebeu o nome de Israel, logo
que viu o Senhor Deus. Foi Deus, o Logos, o Pedagogo, que numa outra vez, mais
tarde, disse-lhe: "Não temas descer ao Egipto"5. Vêde como o Pedagogo segue o
homem justo, como também treina o homem que se exercita, ensinando-lhe a vencer o
adversário através de estratagemas.
É ainda Ele, certamente, que ensina a Moisés o papel de Pedagogo. O Senhor
diz-lhe, com efeito: "Aquele que pecou contra mim, este apagarei do meu livro. Vai
agora e conduze-o (o povo) aonde eu te disse"6.
Por estas palavras, ensina sua pedagogia. Porque era Ele o Senhor que, por
intermédio de Moisés, era, na realidade, o pedagogo do povo antigo, enquanto é, em
pessoa, o guia do novo povo, face a face7.
"Vê agora", diz ele a Moisés, "meu anjo marchará diante de ti"8, colocando-o
diante dele para ensiná-lo, e guiá-lo o poder do Logos. Mas, seu papel de Senhor Ele se
Lhe reserva, dizendo-lhe: "No dia de minha visita, eu punirei seu pecado"9, que
significa: no dia em que Eu for instituído como juiz, far-lhes-ei pagar o preço de suas
faltas. Porque Ele é, ao mesmo tempo, o Pedagogo e o juíz que dita os julgamentos
contra aqueles que transgridem seus mandamentos; em seu amor pelos homens, o
Logos não deixa sob silêncio seus pecados; ao contrário, Ele os reprova a fim de que
eles se convertam. "O Senhor quer o arrependimento de pecador mais que sua morte"10.
E nós, como filhinhos, enquanto ouvimos falar das faltas alheias, temos medo de ser
ameaçados de castigos iguais e abstemo-nos de faltas semelhantes. Qual era, pois, sua
falta? É que "em sua cólera,. eles mataram os homens, em seu furor, enervaram touros.
Maldita seja sua cólera"11. Quem, pois, nos poderá educar com mais amor que Ele?
1

Gén., XVII, 2 e 7.
Gén, XXXII. 24.
3
Gén., XXXII. 28 e 29.
4
Gén., XXXII, 30.
5
Gen., XLVI, 3.
6
Êx., XXXII, 33.
7
A expressão ajusta-se a São Paulo: "Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então
veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como sou conhecido eu
mesmo" I.Cor., XIII, 12.
8
Êx., XXXII, 34. Também está escrito: "Vou te enviar um anjo adiante de ti para te proteger no caminho e
para te conduzir ao lugar que te preparei. Está de sobreaviso em sua presença, e ouve o que ele te diz. Não
lhe resistas; pois ele não vos perdoaria vossa falta, porque meu nome está nele." Ex., XXIII, 20 e 21.
9
Êx., XXXII, 34.
10
A expressão ajusta-se a várias passagens de Ezequiel: "Terei eu prazer com a morte do malvado? Não é
antes que ele mude de proceder e que viva?" XVIII, 23. "Pois eu não sinto prazer com a morte de quem
quer que seja! Convertei-vos, e vivereis!" XVIII, 32. "Diz-lhe isto: por minha vida não me comprazo com
a morte do pecador, mas antes com a sua conversão, de modo que tenha a vida", XXXIII, 11.
11
Gén., XLIX, 6 e 7.
2

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

84

Primeiramente, para o povo antigo, houve a antiga aliança; a Lei conduzia o povo como
faz um pedagogo, no temor; o Logos era um anjo1; mas, para o povo novo e jovem,
uma nova e jovem aliança foi concluída, o Logos engendrou-a2, o temor transformou-a
em amor e este anjo místico, Jesus, foi dado à luz.
É sempre Ele, o mesmo Pedagogo, que dizia outrora: "... temerás o Senhor, teu
3
Deus" e que nos recomenda agora: "Amarás o Senhor teu Deus"4. Assim a nós ordena
Ele, igualmente: "cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito,
protegei o oprimido"5. É minha nova aliança, gravada na antiga letra; assim, não se
deve fazer objecção à novidade do Logos.
No livro de Jeremias, o Senhor disse: "Não digas: sou apenas uma criança"6,
"antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia; antes de teu nascimento, eu já te
havia consagrado"7. Talvez esta palavra profética se enderece a nós, de forma
modificada: já antes da criação do mundo8, éramos conhecidos de Deus como
destinados à fé, mas não somos ainda senão filhinhos muito pequenos, porque a
vontade de Deus acaba de cumprir-se; nós somos os recém-nascidos9, se se considera a
eleição e a salvação.
Também acrescenta ele: "... te havia designado profeta das nações"10. Ele
proclamava assim que Jeremias devia ser o profeta e que o título de "muito jovem" não
devia ser sentido como uma objecção por aqueles que são chamados "filhinhos". A Lei
é a antiga graça que o Logos nos deu por intermédio de Moisés11.
Ela foi dada não por Moisés, pelo Logos. Moisés, seu servo12, servia de
intermediário; eis porque ela não durou senão algum tempo. "... a graça e a verdade
vieram por Jesus Cristo"13. Observai as palavras que emprega a Escritura: para a Lei,
ela diz somente que ela "foi dada"; mas, a verdade, que é uma graça do Pai, é obra
eterna do Logos e a Escritura não diz mais que ela é "dada": ela vem por intermédio de
Jesus, "e sem Ele nada foi feito"14. Moisés, então, cede de uma maneira profética, o
lugar ao Pedagogo perfeito, o Logos; anuncia seu nome assim como sua pedagogia, e
apresenta ao povo seu pedagogo, tendo entre as mãos os mandamentos da obediência:
"O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um Profeta como eu, saído de
vossos irmãos"15. É Jesus, filho de Javé, quem designa simbolicamente Jesus, o filho de
Deus. O nome de Jesus, assim designado por antecipação na Lei, é um esboço do
Senhor. Moisés continua, em seguida a dar a ordem que será aproveitável para o povo:
1

"Assim a Lei se nos tornou pedagogo encarregado de levar-nos a Cristo, para sermos justificados pela
fé." Gál., 111, 24.
2
"Escrevo-vos, filhinhos, porque conheceis o Pai. Escrevo-vos pois, porque conheceis o Príncipe.
Escrevo-vos, moços, porque sois fortes e porque a palavra de Deus permanece em vós e porque tendes
vencido o maligno." I São João, I, 14.
3
Deut., VI, 2.
4
Mat., XXII, 37 e Deut., VI, 5.
5
Is., I, 17.
6
Jer., I, 7.
7
Jer., I, 5.
8
"... Escolhendo-nos nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante de seus
olhos". Ef., I, 4. "... o Cordeiro Imaculado e sem defeito algum; aquele que foi predestinado antes da
criação do mundo e que nos últimos tempos foi manifestado por vosso amor." I Ped., I, 19 e 20.
9
"... eleitos segundo a presciência de Deus Pai." I Ped., I, 20.
10
Jer., I, 5.
11
São João, I, 17.
12
Expressão bíblica: "Por isso o povo temeu o Senhor, e creu nele e em seu servo Moisés." Êx., XIV, 31.
13
São João, I, 17. I.
14
São João, I, 23.
15
Deut., XVIII, 15 e 18.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

85

"Mas o que recusar ouvir"1 este profeta, ele o ameaça. É assim que nos anuncia
profeticamente o nome do Pedagogo Salvador.
Assim, a profecia atribui-lhe uma vara2; é a vara do pedagogo, do chefe,
símbolo de autoridade: aqueles a quem o Logos da persuasão não cura, a ameaça os
curará; aquele a quem a ameaça não curar, a vara fá-lo-á; aqueles a quem a vara não
curar, o fogo apossar-se-á deles. A Escritura diz: "Uma vara sairá do tronco de Jessé"3.
Considere-se a solicitude, a sabedoria e o poder do Pedagogo: "Ele não julgará
pelas aparências e não decidirá pelo que ouvir dizer, mas Ele julgará os fracos com
equidade e fará justiça aos pobres da terra"4. E, pela boca de David, diz: "O Senhor
castigou-me duramente, mas à morte não me entregou"5; o fato de ter sido corrigido
pelo Senhor e de tê-lo tido por pedagogo livra, com efeito, da morte.
O mesmo profeta diz: "Tu as governarás com ceptro de ferro"6. O Apóstolo,
inspirado no mesmo movimento, escreveu aos Coríntios: "Que preferis? Que eu vá ter
convosco com a vara, ou com a caridade e em espírito de mansidão?"7). A Escritura diz
ainda por um outro profeta. "O Senhor estenderá desde Sião teu ceptro poderoso"8, e
ainda, em outro lugar: "Vosso bordão" ­ o bordão do Pedagogo ­ "e vosso báculo são o
meu amparo"9. Tal é o poder do Pedagogo: faz-se respeitar, chama e leva ao caminho
da salvação.
XII. O Pedagogo, em disposições análogas às de um pai, utiliza-se de severidade e
bondade
A conclusão de tudo que temos já exposto é de que nosso pedagogo, Jesus, deunos o esquema da vida verdadeira e calcou a educação do homem em Cristo. Sua
característica própria não é de uma excessiva severidade nem tampouco um
relaxamento excessivo sob o efeito da bondade: deu seus mandamentos imprimindolhes uma tal característica que nos permite executá-los.
É bem isto, parece-me, que primeiramente modelou o homem com a terra, que o
regenerou pela água, que o fez crescer pelo espírito10, que o educou pela palavra, que o
dirige por seus santos preceitos para adopção filial e salvação, e isto para transformar e
modelar o homem da terra num homem santo e celeste, e para que seja assim
plenamente realizada a palavra de Deus: "Façamos o homem à nossa imagem e
semelhança"11.
Cristo realiza plenamente esta palavra dita por Deus, enquanto os outros
homens são entendidos no sentido de uma só imagem. Quanto a nós, filhos de um Pai
bondoso, filhos de um Pedagogo, realizamos a vontade do Pai, escutamos o Logos,
imprimimos em nós a vida realmente salutar de nosso Salvador. Praticando desde já
1

Deut., XVIII, 19.
Material obrigat6rio do mestre, mais que do pedagogo propriamente dito. Lembrar que a escola antiga
recorria, com frequência, aos castigos corporais.
3
Is., IX, 1.
4
Is., XI, 3 e 4.
5
Salm., CCCXVII, 18.
6
Salm., 11, 9.
7
I Cor., IV, 21.
8
Salm., CIX, 2.
9
Salm., XXII, 4.
10
"O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro e da terra e inspirou-lhe no rosto um sopro de vida, e
o homem se tornou um ser vivente." Gén., II, 7. Este texto é também citado em I Cor., XV, 45. Não se
fala, pois, em água. Clemente introduz aí uma alusão ao baptismo.
11
Gén., I, 26.
2

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

86

sobre a Terra a vida celeste que nos diviniza1, recebemos a unção da alegria sempre
jovem, do perfume de pureza, considerando o modo de vida do Senhor como exemplo
radioso de incorruptibilidade e segundo os traços de Deus2. A Ele somente cabe o
cuidado com isso e Ele se preocupa em considerar como, e de que maneira, a vida dos
homens será melhor.
Para dar-nos uma vida simples e sem afectação, Ele nos propõe o modo de vida
de um viajante, fácil de levar e fácil de deixar, para ir até a vida eterna e feliz3. Ensinanos que cada um de nós é, por si mesmo, seu próprio tesouro de provisões. "Não vos
preocupeis com o dia de amanhã"4, diz; aquele que se engaja no séquito de Cristo deve
optar por uma vida simples, sem servidor, levada sem inquietações. Porque não é para
um tempo de guerra, mas para um tempo de paz, que recebemos nossa educação. Em
tempo de guerra, é preciso fazer muitos preparativos e o bem-estar reclama a
abundância. A paz e o amor, ao contrário, estes dois irmãos simples e cordatos, não têm
necessidade de armas nem de preparativos extraordinários: o Logos, tal é seu alimento,
o Logos que recebeu a tarefa de mostrar o caminho e educar; Ele, junto do qual
aprendemos a simplicidade, a modéstia, todo o amor à liberdade dos homens e do bem,
quando para dizê-lo numa palavra ­ adquirimos a semelhança com Deus, através de um
parentesco com a virtude. Trabalhai sem perder a coragem. Sereis o que não esperais e
mesmo o que não poderíeis imaginar5. Da mesma forma que há um modo de vida dos
filósofos, outro dos retores6, outro ainda dos lutadores, assim, igualmente, há uma
nobre disposição da alma, concorde com uma vontade livre voltada para o bem, oriunda
da pedagogia de Cristo. E para os actos de nosso comportamento, essa educação
confere-lhe uma bela nobreza: marcha, repouso, alimentação, sono, leito, dieta e toda a
educação; porque a formação do Logos, tal qual é, não tende ao excesso, mas à
moderação.
É assim ainda que o Logos foi chamado Salvador, Ele que inventou para os
homens estes remédios espirituais, a fim de dar-lhes um senso moral justo e
conduzi-los à salvação; espera o momento favorável, denuncia os erros, mostra a causa
das paixões, corta as raízes dos desejos irracionais, ordena o de que é preciso abster-se
e traz aos doentes todos os antídotos salutares. Esta é a maior e mais real das obras de
Deus: salvar a Humanidade.
Enquanto o médico não dá nenhum remédio para a saúde, os doentes queixamse: como não teríamos nós o maior reconhecimento pelo divino Pedagogo, já que Ele
não guarda silêncio, não negligencia assinalar as desobediências que conduzem à ruína,
denunciando-as ao contrário, cortando os elos que conduzem a estas desobediências, e
ensinando os preceitos convenientes à vida correcta? Tenhamos, então, por Ele, o maior
reconhecimento. Porque o animal racional7, quero dizer, o homem, que diremos que
deva fazer senão contemplar o divino? Mas, é preciso também, digo eu, contemplar a
natureza humana e viver segundo as indicações da verdade, amando acima de tudo o
Pedagogo e seus preceitos, porque eles concordam e se harmonizam entre si. Sobre este
modelo, também nós, devemos harmonizar-nos ao Pedagogo e viver a vida verdadeira,
fazendo a conciliação entre o Logos e nossos actos.

1

Clemente enfatiza a salvação, a divinização. Conseguir-se-á tal objetivo, na medida em que se imitar a
vida de Cristo.
2
Retoma ao tema da imitação de Cristo.
3
Sugere um esquema de conduta.
4
Mat., VI, 34.
5
Influência do estoicismo.
6
Os dois tipos característicos da cultura intelectual antiga.
7
Definição de homem, aceita por Clemente.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

87

Clément D'Alexandrie, Le Pédagogue, L. I., Introduction et notes de
Henri-Irénée Marrou, Paris, Les Éditions du Cerf, 1960, pp. 207 a 221
e 285 a 289. (Tradução portuguesa in ROSA, Maria da Glória de, A
História da Educação através dos textos, Cultrix, S. Paulo, 1971, pp.
89-100)

TEXTO 15
SANTO AGOSTINHO (354-430)

O Mestre (De Magistro)
CAPÍTULO XII
[PALAVRA. SENSAÇÃO E lNTELECÇÃO]
"AGOSTINHO - (...) todas as coisas que percebemos, ou as percebemos pelos
sentidos do corpo ou pela mente. Denominamos as primeiras, sensoriais; as segundas,
inteligíveis; ou para falar à maneira dos nossos autores, denominamos carnais, as
primeiras; espirituais, as segundas. Interrogados sobre as primeiras, damos resposta, se
estão diante de nós essas coisas que sensoriamos; por exemplo, quando nos perguntam,
estando nós a observar a lua nova, qual é ou onde se encontra. Neste caso, se aquele que
pergunta o não vê, acredita nas palavras, e muitas vezes não acredita; aprender, de
modo nenhum aprende, a não ser que também ele veja o que se lhe diz. Se assim for,
aprende pelas coisas mesmas e pelos sentidos, e não já pelas palavras que ressoaram,
pois as palavras que ressoaram ao que não está a ver, são as mesmas que ressoaram ao
que está a ver.
Quando porém somos interrogados, não sobre os objectos que sensoriamos no
presente, mas sobre aqueles que outrora sensoriámos, já não falamos então das próprias
coisas, mas das imagens impressas em nós por elas, e confiadas à memória. Como
podemos dizer verdadeiras essas coisas, estando a ver coisas falsas, ignoro-o em
absoluto, se não é que narramos tê-las visto e sensoriado, e não que as vemos e
sensoriamos. Trazemos assim essas imagens nos recessos da memória, como uma
espécie de ensinamentos das coisas anteriormente sensoriadas, e contemplando-as no
espírito, em boa consciência não mentimos quando falamos.
Esses ensinamentos porém são para nós. Efectivamente, aquele que ouve, se
sensoriou e presenciou essas coisas, não as aprende pelas minhas palavras, mas ele
mesmo as reconhece por meio das imagens que traz consigo. No caso porém de ainda as

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

88

não ter sensoriado, quem não compreenderá que ele propriamente não aprende, mas crê
nas palavras?
Quando porém se trata de coisas que vemos por meio da mente, isto é, por meio
do intelecto e da razão, falamos realmente de coisas que contemplamos presentes nessa
luz interior da Verdade, de que é iluminado e goza aquele que se denomina «homem
interior». Mas ainda então o nosso ouvinte, se também ele as vê por meio dessa visão
íntima e pura, conhece pela sua contemplação o que eu digo, e não pelas minhas
palavras.
Por conseguinte, ao dizer coisas verdadeiras, nem sequer o ensino a ele, que
intui essas coisas verdadeiras, pois não é ensinado pelas minhas palavras, mas pelas
coisas mesmas que lhe são manifestas, descobrindo-lhas Deus interiormente. E assim,
se fosse interrogado sobre elas, também ele poderia responder. Que há de mais absurdo
do que julgar ser ele ensinado pela minha locução, ele que se fosse interrogado, antes de
eu falar poderia expor essas mesmas coisas? Com efeito, o facto de o interrogado negar
alguma coisa, e urgido por outras perguntas a vir a admitir, como frequentemente
acontece, isso deve-se à fraqueza da pessoa que contempla, a qual não é capaz de
divisar nessa luz a totalidade dum assunto. Leva-se a fazê-lo por partes, ao interrogá-la
sobre aquelas mesmas partes que constituem esse conjunto, ao qual ela não conseguia
contemplar na totalidade. Se é levada a isso pelas palavras de quem a interroga, estas
não são de ensino, mas de inquirição, e feita segundo a medida que tem a pessoa
interrogada, de aprender interiormente.
É como se eu te perguntasse isto mesmo de que se está tratando, a saber, se nada
se pode ensinar com palavras, e a questão te parecesse absurda à primeira vista, por não
a poderes ver no seu conjunto. Neste caso, seria preciso interrogar segundo as forças
que tens para ouvir interiormente esse Mestre. E assim eu diria: onde aprendeste
aquelas coisas, que ao ouvir-me falar declaras que são verdadeiras, que estás certo
delas, e garantes conhecer? Talvez me respondesses ter sido eu que as ensinei. Eu então
acrescentaria: se te dissesse que tinha visto um homem a voar, porventura as minhas
palavras deixar-te-iam tão certo, como se me ouvisses dizer que os homens sapientes são
melhores que os nescientes:

Com certeza negarias, respondendo que o primeiro não o acreditavas, ou que
embora o acreditasses, o ignoravas; mas que o segundo o sabias com absoluta certeza.
Por aqui já entenderias certamente que nada aprenderas com as minhas palavras,
nem quanto àquilo que tendo-o eu afirmado, tu ignorarias, nem quanto ao que sabias
perfeitamente. Com efeito, interrogado tu sobre cada parte, jurarias até que a primeira te
era desconhecida, e a segunda, conhecida. Quanto ao conjunto da questão a que nos
referimos, e tu havias negado, reconhecerias a verdade do seu todo, quando conhecesses
como claras e certas as partes de que ela consta, isto é, que todas as coisas de que
falamos, ou o ouvinte ignora se são verdadeiras, ou não ignora que são falsas, ou sabe
que são verdadeiras. Da primeira das três alternativas é próprio crer, ou opinar, ou
duvidar; da segunda, contradizer e rejeitar; da terceira, confirmar. Em nenhum caso
portanto se trata de aprender. Fica assim demonstrado que nem aquele que depois das
nossas palavras, ignora um assunto, nem aquele que conhece ter ouvido falsidades, nem
aquele que se fosse interrogado, poderia responder as mesmas coisas que se tinham dito,
aprenderam nada com as minhas palavras.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

89

CAPÍTULO XIV
[O MESTRE E A CONSCIÊNCIA]
AGOSTINHO - Proclamam acaso os professores que se aprenda e fixe o que
eles pensam, e não as doutrinas mesmas, que eles julgam comunicar falando? Pois
quem será tão estultamente curioso que mande o seu filho à escola, para que ele aprenda
o que o professor pensa? Ora depois de terem [os professores] explicado por palavras
todas essas doutrinas, que declaram ensinar, incluindo a da virtude e a da sapiência,
então aqueles que são chamados discípulos, consideram consigo mesmos se se disseram
coisas verdadeiras, e fazem-no contemplando, na medida das próprias forças aquela
Verdade interior de que falámos. É então que aprendem. Tendo averiguado
interiormente que foram ditas coisas verdadeiras, pronunciam louvores, ignorando que
não louvam propriamente homens que ensinam, mas sim ensinados; se é que também
esses professores conhecem o que dizem.
Os homens enganam-se, chamando mestres àqueles que o não são, porque
geralmente entre o tempo da locução e o do conhecimento, não se interpõe nenhum
intervalo; e dado que tais homens aprendem interiormente logo depois da insinuação de
quem fala, julgam ter aprendido do exterior, por meio daquele que insinuou.
Sobre toda a utilidade das palavras, que se bem se considerar, não é pequena,
indagaremos noutra altura, se Deus permitir. Por agora, adverti-te de que não lhes
devemos atribuir mais importância do que é justo, de maneira a não acreditarmos
apenas, mas começarmos também a entender com quanta verdade foi escrito, e com
autoridade divina: «não chamemos mestre a ninguém na terra, pois que o único Mestre
de todos nós está nos Céus» (Mateus 23, 8-10). O que quer dizer - nos Céus - Ele
próprio o ensinará, Ele que também pelos homens, por meio de sinais e de fora, nos
incita a que nos voltemos para Ele no nosso interior, para sermos ensinados. A vida
venturosa é conhecê-lo e amá-lo. Todos proclamam que a buscam, mas poucos são os
que podem alegrar-se de a ter verdadeiramente encontrado.
Quereria agora me dissesses o que pensas de toda esta minha exposição. Se
sabes que são verdadeiras as coisas que se disseram, também terias dito que as sabias, se
fosses interrogado sobre cada afirmação particular. Vês portanto de quem as aprendeste;
de mim, realmente não, a quem responderias tudo isso, se to perguntasse. No caso
porém de não saberes se são verdadeiras, então nem eu nem Ele te ensinou; mas eu,
porque nunca posso ensinar; Ele, porque tu ainda as não podes aprender.
ADEODATO - Quanto a mim, advertido pelas tuas palavras, aprendi que o
homem, pelas palavras, não é mais que incitado a aprender, e que é de muito pouco
valor o facto de que grande parte do pensamento de quem fala se manifesta pela
locução. Se realmente se dizem coisas verdadeiras, só o ensina Aquele que quando nos
falavam de fora, nos advertiu de que Ele habitava no interior. Eu O amarei desde agora
tanto mais ardentemente, quanto mais estiver adiantado em aprender.
Entretanto estou muito grato por esta tua exposição, em que usaste seguidamente
da palavra, sobretudo por ela ter prevenido e resolvido tudo o que eu estava disposto a
objectar. Além disso, não foi por ti deixado de parte absolutamente nada do que me
causava dúvida, e acerca do qual esse oráculo secreto não me respondesse, segundo o
que era afirmado pelas tuas palavras.
Santo Agostinho, "O Mestre", in AAvv, Opúsculos selectos da
Filosofia Medieval, Faculdade de Filosofia, Braga, 1990, pp.
113-116; 121-123.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

90

ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
I. Questionário
1. Em que aspectos rompe o cristianismo com o judaísmo e em que outros se mantém
próximo?
2. Quando passam os cristãos dos primeiros séculos de "apocalípticos" a "integrados"?
3. Por que razões os primeiros cristãos não criaram escolas próprias além das escolas de
catequese e das escolas de catequistas?
4. Qual o papel dos Padres da Igreja em termos de fundação e definição doutrinária da
fé cristã?
5. Quais os principais aspectos em que, por princípio, o cristianismo arrasta
consequências em termos educativos e pedagógicos?
6. Qual a doutrina pedagógica defendida por Clemente de Alexandria em O Pedagogo?
7. Em que medida a solução explicativa agostiniana para o problema do conhecimento
e da aprendizagem é um bom exemplo das dificuldades de conciliação entre alguns
aspectos da fé cristã e elementos fundamentais da cultura antiga?
II. Elabore um texto articulando os seguintes conceitos. Intitule-o.
8. "Cristianismo", "Cultura antiga", "Diálogo", "Síntese", "Transformação".

BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
LARROYO, Francisco, História Geral da Pedagogia, Editora Mestre Jou, S. Paulo,
1970, pp. 257-270.
MARROU, Henri-Irénée, Histoire de l'Éducation dans l'Antiquité, Paris, Seuil, 1965,
pp. 451-471.
NUNES, Ruy Afonso da Costa, História da Educação na Antiguidade Cristã, Editora
da Universidade de S. Paulo, S. Paulo, 1978.
ROSA, Maria da Glória de, A História da Educação através dos textos, Cultrix, S.
Paulo, 1971
ROUGIER, Louis, Le conflit du christianisme primitif et de la civilisation antique,
Editions Copernic, s.l., 1977

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

91

2.1.3. O período monástico.
2.1.4. O período escolástico.
2.1.4.1. A formação profissional nas corporações.
2.1.4.2. A organização das Universidades medievais.
2.1.4.3. O método escolástico.
2.1.4.4. A criação da Universidade portuguesa.

Resumo: Tendo começado por bastar-se com a criação de escolas de catequese e de
escolas de catequistas, o cristianismo acabaria, entretanto, por, em breve, estruturar
novas instituições educativas - as escolas monásticas - perseguindo também
finalidades eclesiásticas em primeiro lugar, mas com um impacte decisivo mais vasto
na história da cultura e da civilização do Ocidente. Depois, no período medieval caberá
também à Igreja dar origem às Universidades surgidas geralmente a partir das escolas
episcopais ou catedrais, mas satisfazendo interesses novos e respirando já o espírito
corporativo característico da burguesia emergente. A nossa tarefa será, então, reflectir
sobre o que de essencial marcou a história da educação e da pedagogia ocidentais entre
a desagregação do Império Romano e o Renascimento.
Objectivos:
- Conhecer as hipóteses historiográficas explicativas da desagregação do Império
Romano.
- Compreender o papel desempenhado pelos mosteiros com suas escolas (interna e
externa) e suas oficinas de cópia de manuscritos na salvaguarda dos tesouros culturais
da Antiguidade.
- Avaliar o significado da excepção carolíngia em termos de fomentadora de um
"Renascimento" cultural em plena Alta Idade Média.
- Analisar o processo de criação das Universidades medievais nas diversas modalidades
que assumiu, com destaque para a que consistiu na evolução "natural" a partir das
escolas episcopais ou catedrais.
- Compreender as fórmulas educativas adoptadas pelas corporações de ofícios e na de
formação dos cavaleiros.
- Compreender as afinidades entre o sistema formativo das universidades e essas
fórmulas.
- Compreender em que consistia o "método escolástico".
- Analisar as iniciativas mais relevantes no campo da educação em Portugal, desde os
mosteiros de Santa Cruz de Coimbra e de Santa Maria de Alcobaça à criação da
Universidade.
ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
"Entretanto, a partir do século IV, vemos aparecer um tipo de escola cristã,
completamente orientada para a vida religiosa e que já não tem nada de antiga; mas esta
escola, já de inspiração totalmente medieval, fica muito tempo a ser o bem próprio de

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

92

um meio particular e irradia pouco para fora. Trata-se da escola monástica." Henri-Irénée
Marrou
"A vida espiritual da Idade Média mantém-se numa atitude receptiva diante da
cultura antiga: submete-se à autoridade dos pensadores clássicos, deseja-se ensinar a
Ciência e a Filosofia e não investigar e filosofar por conta própria. Dai que o método
característico da Escolástica seja o dedutivo em sua forma silogística, tão própria para
expor e apresentar verdades já verificadas, porém muito limitado par o descobrimento
de novas ideias. Outro aspecto da formação escolástica é sua preocupação em resolver
as contradições existentes entre as autoridades reconhecidas; tudo com o propósito final
de fazer ver que não existe conflito entre o saber e a fé, entre a Filosofia e a Teologia,
entre a razão e a revelação. Sociologicamente considerada, é a Escolástica um tipo de
vida intelectual, um estilo de pensar e de filosofar que se estende por mais de seis séculos
(IX-XV). Francisco Larroyo
"A influência das universidades na Idade Média foi grande, tanto politicamente

como culturalmente. (...) Com elas houveram de contar muitas vezes não só os reis, mas
até os próprios Papas, em suas controvérsias. Culturalmente, representaram o ápice da
sabedoria da época até à Renascença, época na qual começam a declinar por ater-se às
tradições escolásticas e não admitir senão mui tardiamente as ciências novas." Lorenzo
Luzuriaga

Textos para Análise : TEXTO 16, TEXTO 2 e TEXTO 3
TEXTO 16

CARLOS MAGNO e o Renascimento cultural e educativo dos séculos VIII e IX

Capitular de 789
"Nós, Carlos, pela graça de Deus rei dos Francos e dos Lombarbos, patrício dos
Romanos, dirigimos uma saudação amável ao abade Baugulf, aos seus monges e aos
nossos fiéis clérigos que lhe estão confiados. Fazemos saber à vossa devoção agradável

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

93

ao Senhor que, com os nossos fiéis, julgamos útil que os bispos e os monges, cujo
governo a benevolência de Cristo nos entregou, procurem não só levar uma vida regular
e conservar a nossa santa religião, mas ainda meditar as belas-letras e ministrar a
instrução àqueles que, graças a Deus, são capazes de aprender, segundo a capacidade de
cada um. Com efeito, do mesmo modo que uma regra estrita ocasiona completa a
dignidade moral, assim a aplicação a ensinar prepara o encadeamento dos discursos, de
tal modo que quem quer ser agradável ao Senhor vivendo bem, deve também
preocupar-se em agradável, falando bem. Ele diz, com efeito: "Justificar-te-á pelas tuas
palavras; pelas tuas palavras também te condenarás". Embora seja melhor agir bem que
saber, todavia, é preciso saber antes de agir. Cada um deve, portanto, aprender o que
deseja executar, e a alma compreenderá tanto melhor o que terá a fazer, quanto a
linguagem, louvando o Senhor todo poderoso, estiver ao abrigo de todo o erro
mentiroso. Na verdade, se todos os homens desejam evitar a mentira, com muito maior
razão devem evitar a sua possibilidade aqueles que foram especialmente escolhidos
para se consagrarem de modo particular ao culto da verdade. Ora, nestes últimos anos,
têm-nos enviado frequentemente, de vários mosteiros, escritos onde se via quais os
assuntos de que os nossos irmãos tratavam nos seus santos e piedosos discursos: na
maioria desses escritos, encontrámos ideias justas expressas numa linguagem bárbara,
pois uma linguagem grosseira, que se descurou polir, não podia traduzir exteriormente,
sem diminuição, as inspirações profundas de uma piedade sincera. Daí o receio que
começamos a ter de que talvez, se se tem menor cuidado em escrever, a preocupação de
bem compreender as Sagradas Escrituras se torne também menor do que seria para
desejar. Todos nós sabemos muito bem que, se os erros de palavras são perigosos, os do
juízo são-no muito mais ainda. Por consequência, exortamo-vos não somente a não
descurar o estudo das letras, mas ainda a pôr todos os vossos cuidados a aprender
humildemente e na intenção de ser agradável a Deus, para melhor e mais facilmente
penetrar os mistérios das Sagradas Escrituras. Ora, como nelas se encontram
ornamentos, tropos e outras figuras semelhantes, é evidente que cada um compreenderá
tanto mais depressa o seu sentido espiritual, quanto melhor instruído for primeiramente
pelo ensino das letras. Mas não deve encarregar-se dessa tarefa senão aqueles que
possuem a vontade e a capacidade de aprender e o desejo de ensinar aos outros... Nós
vos pedimos, se quereis ser-nos agradável que envieis exemplares desta carta a todos os
vossos sufragâneos e colegas no episcopado e a todos os mosteiros".
Programa de educação no século IX
"Carlos Magno quis que seus filhos, os rapazes como as raparigas, fossem
primeiramente iniciados nas artes liberais, ao estudo das quais ele próprio se aplicava;
depois, a seus filhos, chegada a idade, fez aprender a montar a cavalo, segundo o
costume franco, o manejar as armas e a caçar; quanto às suas filhas, para evitar que
entorpecessem na ociosidade, fêlas exercitar no trabalho da lã assim como no manejo
da roca e do fuso, e fez-lhes ensinar tudo o que pode formar uma mulher de bem...
Tomou um tal cuidado com a educação dos seus filhos e das suas filhas que, em casa,
jamais ceava sem eles e, sem eles, jamais se punha a caminho. Os seus filhos
cavalgavam a seu lado; as suas filhas seguiam atrás, fechando a marcha, com alguns
guarda-costas encarregados de velar por elas".
EGINHARDO, Vida de Carlos Magno
O exemplo do Imperador

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

94

"... Durante as refeições, escutava um pouco de música ou alguma leitura.
Liam-lhe a história e as crónicas da Antiguidade. Gostava também que lhe lessem as
obras de Santo Agostinho e, em particular, aquela que tem por título A Cidade de
Deus ... Cultivou apaixonadamente as artes liberais e, cheio de veneração por aqueles
que as ensinavam, cumulou-os de honras. Para o estudo da gramática, seguiu as lições
do diácono Pedro de Pisa, então na velhice; para as outras disciplinas, o seu mestre foi
Alcuíno, diz Albino, diácono também, um saxão originário da Grã-Bretanha, o homem
mais sábio que então existia. Consagrou muito tempo e trabalho a aprender com ele a
retórica, a dialéctica e sobretudo a astronomia. Aprendeu o cálculo e aplicou-se com
atenção e sagacidade a estudar o curso dos astros. Esforçou-se também por aprender a
escrever e tinha o hábito de colocar sob as almofadas do seu leito tabuínhas e folhas de
pergaminho, a fim de aproveitar esses momentos de lazer para se exercitar a traçar
letras; mas aplicou-se a isso demasiado tarde, e o resultado foi medíocre".
EGINHARDO, Op. Cit.

ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
I.Questionário
1.Quais as principais hipóteses historiográficas explicativas da desagregação do
Império Romano?
2.Por que foram as escolas dos mosteiros, apesar das suas limitações, de uma
importância decisiva na história da cultura ocidental?
3.Em que medida Carlos Magno conseguiu promover um verdadeiro "Renascimento"
cultural e educativo?
4.O que eram e para que serviam as escolas episcopais ou catedrais?
5.Que modalidades houve de criação das Universidades medievais?
6. Qual era o modelo formativo adoptado pelas corporações de ofícios ? E como se
fazia a formação dos cavaleiros?
7.Que afinidades existem entre o sistema formativo das universidades e essas fórmulas?
8.Em que consistia o "método escolástico"?
9. Quais as iniciativas mais relevantes no campo da educação em Portugal durante a
Idade Média?
II. Elabore um texto articulando os seguintes conceitos. Intitule-o.
10. "Universidade", "Corporações de Ofícios", "Graus"

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

95

BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
CLAUSSE, Arnould, A Relatividade Educativa, esboço de uma história e de uma
filosofia da escola, Livraria Almedina, Coimbra, 1976, pp. 61-66;71-81.
CLAUSSE, Arnould, "A Idade Média", in AAvv, Tratado das Ciências Pedagógicas
2. História da Pedagogia, Companhia Editora Nacional / Editora da Universidade de S.
Paulo, S. Paulo, 1977, pp. 81-186
HUBERT, René, História da Pedagogia, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1967,
p. 25-36.
LARROYO, Francisco, História Geral da Pedagogia, Editora Mestre Jou, S. Paulo,
1970, pp. 271-341.
MARROU, Henri-Irénée, Histoire de l'Éducation dans l'Antiquité, Paris, Seuil, 1965,
pp. 472-499.
PONCE, Anibal, Educação e luta de classes, Editorial Vega, Lisboa, 1979, pp.
101-144.
RICHÉ, Pierre, De l'éducation antique à l' éducation chevaleresque, Flammarion,
Paris, 1968.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

96

3. Renascimento e Humanismo
3.1. A cultura humanista e a nova pedagogia.
3.2. A pedagogia "activa e funcional" de Montaigne.
3.3. Rabelais e o confronto entre dois tipos de educação.
3.4. Experimentalismo e humanismo pedagógico em Portugal.
Resumo: Com o Renascimento o Ocidente entra numa nova era em que o homem volta
a estar no centro, sem que, no entanto, o fenómeno religioso deixe de ser algo marcante,
tal como se verifica logo mais com a Reforma e a Contra-Reforma que mergulharão a
Europa em lutas e guerras de raíz religiosa. Para além das considerações históricas
contextualizadoras, neste momento interessa-nos analisar o significado real do
humanismo renascentista em termos educativos. Na verdade, mau grado a profunda
auto-crítica de alguns dos seus expoentes, os novos caminhos continuam marcados pelo
intelectualismo, pelo verbalismo e pelo formalismo característicos da escolástica
medieval e em geral da educação ocidental pós-sofística.
Objectivos:
Conhecer os diversos indícios anunciadores do advento de uma nova era e do final da
que mais tarde seria designada como "Idade Média".
­Compreender o significado do "Renascimento" e do "Humanismo".
­Analisar as características da atitude humanística face aos "clássicos" e o que daí
resulta em termos educativos.
­Compreender as razões do fracasso do humanismo renascentista em matéria de
educação.
­Identificar os humanistas que melhor tiveram consciência desse fracasso e analisar os
seus argumentos: Erasmo, Montaigne e Rabelais.

ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
"Os homens do Renascimento sentem-se indivíduos independentes e livres;
querem admitir da tradição medieval somente o que pode demonstrar suas credenciais
de verdade objectiva; gera-se neles una alta consciência do seu próprio valor; a fé e a
obediência, a renúncia e a humildade trocam-se por orgulho e ousadia, vontade de poder
e de aventura.
De início, o ideal educativo apresenta-se como imitação dos grandes estilistas
romanos, e dá lugar à ciceromania (Cícero era e é o modelo perfeito da mais pura
latinidade). O homem ilustre é o que compõe discursos com cadências murmurantes,
períodos simétricos, cheios de citações clássicas. A superstição do silogismo sucumbia
à superstição da retórica." Francisco Larroyo

Textos para Análise : TEXTO 17, TEXTO 18 e TEXTO 19

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

97

TEXTO 17

ERASMO de Roterdão (1466- 1536)

Crítica dos professores escolásticos
"... Vou falar, pois, daqueles que, entre os homens, têm a aparência da sabedoria,
e que correm atrás daquilo a que chamam o ramo de oiro.
Comecemos pelos pedantes que ensinam a gramática. Seria, sem dúvida, a
espécie de homens mais miserável, a mais de lamentar e que apareceria a rnais odiada
dos deuses, se eu [a loucura] não suavizasse, por um certo género de loucura, as
misérias do triste oficio que eles desempenham. Expostos sem cessar aos tormentos
mais cruéis, a fome e o mau cheiro fazem-lhe uma guerra contínua. Enterrados nas suas
escolas, ou antes nas suas galeras e nas suas prisões, teatros horrorosos das suas
execuções bárbaras, envelhecem no trabalho, no meio de uma trupe de crianças,
tornam-se surdos à força de gritar, e a porcaria carcome-os e mirra-os. Apesar disso,
felizes pelos meus benefícios, julgam-se os primeiros de todos os homens...
Mas o que os torna ainda muito mais felizes que tudo isso, é a grande ideia que
têm da sua erudição. Atulham a cabeça das crianças com um montão de impertinências
ridículas, e, todavia, com que desprezo, com que desdém, não olham os Palémon, os
Donato e todos aqueles do seu oficio que têm verdadeiramente mérito ! O que é de
admirar é que conseguem, não sei como, comunicar aos estúpidos pais dos seus alunos
a ideia que eles têm do sou próprio mérito. Um outro prazer que proporciono ainda a
esses pedantes, é quando eles descobrem, por acaso, em qualquer manuscrito bolorento,
o nome da mãe de Anchises ou alguma palavra desconhecida do vulgo, ou quando
desenterram qualquer pedra velha com vestígios de uma inscrição. Grandes deuses: Que
alegria ! Que triunfo ! Que glória ! Que elogios! Dir-se-ia Cipião que acaba de terminar
a guerra da África, ou Dario depois da conquista da Babilónia".
ERASMO, Elogio da loucura,

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

98

Como adaptar os proqramas à idade da criança
"(...) Depende de vós evitar, tanto quanto possível, o trabalho e, por
consequência, a fadiga. Que é preciso para isso ? Ensinar a esses tenros espíritos não
muitas coisas, mas apenas coisas excelentes e apropriadas a uma idade em que apenas
se apreende o que é atraente, e não o que é complicado. O que é preciso ainda é uma
maneira de instruir cujo atractivo faça do estudo um divertimento e não um castigo.
Esta idade quer ser seduzida pelo encanto, pois não pode ainda compreender quanto
proveito, honra e alegrias pode a instrução proporcionar-lhe mais tarde. Para o
conseguir, o mestre contará em parte com a sua doçura e a sua afabilidade, e em parte
com aquela habilidade engenhosa que lhe fará imaginar diferentes processos próprios
para tornar o estudo atraente à criança e a fadiga insensível..."
ERASMO, De Pueris statim ac liberaliter instituendis

TEXTO 18

RABELAIS (1494-1553)

François Rabelais, Gargântua e Pantagruel ( 1532-1534)
LIVRO I ­ GARGÂNTUA
CAPÍTULO XIV - COMO GARGÂNTUA FOI EDUCADO NAS LETRAS
LATINAS POR UM SOFISTA
Depois daquela conversa, o bom Grandgousier ficou admiradíssimo,
deslumbrado com o alto sentido e maravilhoso entendimento de seu filho Gargântua, e
disse assim aos seus servidores:
­ Filipe, rei da Macedónia, conheceu o bom sentido de seu filho Alexandre ao
vê-lo manejar um cavalo, pois esse animal era tão terrível e desenfreado que ninguém se

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

99

atrevia a montá-lo; tinha derrubado todos os seus cavaleiros, partindo o pescoço a um, a
outro as pernas, o crânio a outro e os maxilares a outro ainda.
Ao observá-lo no hipódromo (que é o lugar onde se faz passear e saltar os
cavalos), Alexandre verificou que o furor do cavalo provinha apenas do espanto que lhe
causava a sua própria sombra. Então montou-o e fê-lo correr contra o sol, de modo a
que a sombra ficasse para trás e, desse modo, conseguiu que o cavalo se mostrasse dócil
e se deixasse dominar completamente.
O pai viu nisso o divino entendimento do filho e mandou-o educar bem por
Aristóteles, considerado então como o maior dos filósofos gregos. E eu digo-lhes que,
pela conversa que acabei de ter com o meu filho, reconheci no seu entendimento uma
certa divindade; tal como o vi, agudo, subtil, profundo e sereno, chegará a grandes
alturas se o educarmos bem.
Quero portanto entregá-lo a um homem sábio que o ensine segundo a sua
capacidade. Para ele não me pouparei a gastos.
Começou então a educar Gargântua um grande doutor sofista chamado Tubal
Holofernes, que lhe ensinou a cartilha, que ele chegou a dizer de cor e de trás para
diante quando tinha cinco anos e três meses. Depois fê-lo ler o Donato, o Faceto, o
Teodoleto e o Alanus in parabolis, e assim chegou aos treze anos, seis meses e duas
semanas.
Durante esse tempo ensinou-o também a escrever goticamente, e escreveu todos
os seus livros, pois a arte da imprensa não estava ainda em uso.
Trazia vulgarmente um grande catrapácio que pesava mais de sete mil quintais;
a sua pena era tão grossa como os grossos pilares de Enay, e o tinteiro, suspenso de
fortes correntes de ferro, tinha a capacidade de um tonel de armazém.
Fê-lo ler logo o De Modis Significandi, com os comentários de Hurtebise, de
Fasquin, de Tropditeux, de Gualehault, de João de Veau, de Billónio, de Brelinguandus
e de muitos outros. Assim o tempo foi passando até aos dezasseis anos e onze meses.
Aprendeu-os tão bem que nos exames os dizia para a frente e para trás e provou
claramente a sua mãe que De modis disgnificant non era scientia.
Depois leu o Computo e quando tinha dezoito anos e dois meses o preceptor
morreu.
Em mil quatrocentos e vinte morreu

De um mal venéreo que lhe apareceu.
Depois disso teve outro mestre catarroso chamado Jobelin Bridé, que o mandou
ler o Hugutio, o Herbrad Grecismo, o Doutrinal, as Partes, o Quid est, o
Supplementum, e Mamotreto de Moribus in imensa servandi, o Séneca de quattuor
virtutibus cardinalis, Passavantus cum comento, e o Dormi Secure, nos dias festivos. E
muitos outros da mesma qualidade. Depois de tais leituras ficou tão sabido como antes
de as começar.

CAPÍTULO XV - COMO GARGÂNTUA FOI RECOMENDADO A OUTROS
PEDAGOGOS
Por fim, seu pai compreendeu que mesmo quando estudava verdadeiramente e
empregava no estudo todo o seu tempo, aproveitava muito pouco e, o que era pior, ia-se
tornado néscio, pedante e vaidoso. Queixou-se disso a D. Filipe de Marais, vice-rei de
Papeligósia, de quem ouviu que tinha sido melhor não o ter mandado estudar do que
aprender com tais livros e tais preceptores, pois o saber deles era apenas tolice e a sua

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

100

ciência disparates falsificadores dos bons e nobres espíritos e corruptores de toda a
juventude. Para provar que assim era, acrescentou: «Pegai em qualquer desses jovens
dos tempos presentes que estudaram apenas um par de anos; no caso de não ter melhor
conversa, melhor juízo, melhores palavras que o seu filho, melhor engenho e melhor
trato com as pessoas, considerai-me como um carniceiro de Brena.»
O conselho agradou a Grandgousier, que tratou imediatamente de o pôr em
prática.
À noite, à ceia, o senhor de Marais apresentou um pajenzinho de Ville-Gongis,
chamado Eudemon, tão bem penteado, vestido e adornado, tão comedido no trato, que
mais parecia um anjo do que um homem. E disse a Grandgousier:
­ Vê este jovem? Não tem ainda doze anos! Vejamos se lhe parece bem a
diferença que existe entre o saber dos seus sisudos mestres dos tempos antigos e os dos
jovens do tempo presente.
O projecto agradou a Grandgousier e mandou o pajem falar.
Então Eudemon pediu licença ao vice-rei, seu amo, para o fazer. Com o boné na
mão, a testa descoberta, a boca vermelha, a vista segura e o olhar fixo em Gargântua,
com modéstia juvenil pôs-se em pé e começou a gabar primeiramente as suas virtudes e
seus bons costumes, depois o seu saber, depois a sua nobreza e por último a sua beleza
corporal. Depois, meigamente, exortou-o a venerar seu pai e a obedecer-lhe, pois tanto
se preocupava com o seu bem e a sua educação, pediu então que o aceitasse como o
último dos seus servidores, pois o único dom que pedia aos céus era a graça de lhe
agradar e de lhe prestar alguns agradáveis serviços.
Tudo isto foi dito acompanhado de gestos tão próprios, com pronúncia tão clara,
com voz tão eloquente e linguagem tão rica, num latim tão puro, que mais parecia um
Graco, um Cícero ou um Emílio da Antiguidade que um jovenzinho deste século. Mas
Gargântua rompeu a chorar como um bezerro, ocultou o rosto no boné e foi tão possível
arrancar dele uma palavra como um peido de um burro morto.
O pai encolerizou-se tanto que quis matar o mestre Jobelin; mas o senhor de
Marais conteve-o com uma afortunada observação, conseguindo assim moderar a sua
ira. Mandaram então pagar os salários ao mestre, dar-lhe de beber teologicamente e
mandaram que se fosse embora com todos os diabos. «Pelo menos ­ dizia Grandgousier
­ a partir de hoje já não comerá mais à minha custa e, se por ventura morrer, que a
morte dele seja como a do Inglês.»
Depois de Jobelin ter saído de casa, Grandgousier f'alou com o vice-rei a
respeito do professor que devia escolher, e entre eles combinaram entregar essa missão
a Ponócrates, pedagogo de Eudemon. Todos juntos iriam a Paris saber quais eram os
estudos dos rapazes da França naquele tempo.
CAPÍTULO XXIII - COMO GARGÂNTUA FOI SUBMETIDO POR
PONÓCRATES A UMA DISCIPLINA QUE O FAZIA APROVEITAR TODAS AS
HORAS DO DIA
Quando Ponócrates conheceu a viciosa maneira de Gargântua viver, decidiu
educâ-lo de outra maneira; mas durante os primeiros dias tudo lhe tolerou, considerando
que a Natureza só com grande violência admite as mudanças repentinas. Para começar o
seu trabalho com mais acerto suplicou a um sábio daquele tempo, chamado Teodoro,
que lhe indicasse, se fosse possível, a melhor maneira de levar Gargântua a novos
caminhos.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

101

O médico purgou-o canonicamente com o heléboro de Antierya, e com esse
medicamento limpou-o de todas as alterações e perversos costumes do cérebro. Por este
meio também Ponócrates o fez esquecer tudo quanto havia aprendido com os seus
antigos preceptores, como fazia Timoteu com alguns dos seus discípulos que tinham
estudado antes com outros mestres de música.
Com o fim de lograr melhor o seu propósito, proporcionou-lhe a companhia de
pessoas cultas que espicaçaram o seu engenho e lhe despertaram o amor pelo estudo.
Depois fez-lhe tal plano de trabalho que não lhe permitia deixar de aproveitar
nem uma só hora do dia. Todo o seu tempo se dedicava às letras e ao honesto saber.
Acordava Gargântua por volta das quatro horas da manhã. Enquanto se lavava
liam-lhe algumas páginas da Sagrada Escritura, em voz alta e clara, com pronúncia
adequada à matéria, trabalho esse reservado a um pajenzinho de Basché, chamado
Anagnostes. Em conformidade com o lema e tema desta lição, muitas vezes venerava,
adorava, rogava e suplicava o bom Deus, de quem a leitura lhe tinha mostrado a
majestade e os juízos maravilhosos.
Ia depois a lugares escusos para fazer as excreções naturais das digestões, e ali o
seu preceptor repetia-lhe o que haviam lido, aclarando-lhe os pontos mais obscuros e
difíceis.
No regresso viam se o estado do céu tinha mudado: desde a tarde anterior e
verificavam em que signo iam entrar nesse dia o sol e a lua. Feito isto, vestia-se,
penteava-se, enfeitava-se e perfumava-se, e enquanto fazia estas operações, repetiamlhe as lições do dia anterior. Ele mesmo as dizia de cor e apresentava casos práticos,
cuja discussão durava às vezes duas e três horas, mas ordinariamente terminava ao
mesmo tempo que o seu penteado.
Em seguida escutavam compridas leituras durante três horas, saindo depois para
conversarem e discutirem sobre o que tinham ouvido: se iam a Bracque ou aos prados,
ali jogavam à bola, à tacada, à palma, exercitando galhardamente o corpo como antes
haviam exercitado a alma. Presidia a todos os jogos a mais ampla liberdade, pois
terminavam a partida quando o achavam conveniente e terminavam vulgarmente
quando começavam a cansar-se e a suar. Enxugavam-se então muito bem, mudavam de
camisa e, passeando devagar, iam ver se o almoço estava pronto.
Enquanto preparavam a mesa, recitavam com clareza e eloquência as frases
aprendidas durante as lições.
Entretanto chegava o senhor apetite e com tão plausível oportunidade
sentavam-se à mesa.
Ao princípio liam gratas histórias de antigas proezas, até que chegava o
momento de beber vinho; então, se achavam bem, continuavam a leitura, ou discutiam
alegremente sobre a virtude, eficácia, propriedade e natureza de tudo o que lhes iam
servindo: o pão, o vinho, a água, o sal, as carnes, os pescados, as frutas, as verduras, as
uvas e as composições de todas essas coisas.
Por este meio aprendeu, em pouco tempo, as passagens com isto relacionadas de
Plínio, Ateneu, Dioscórides, Júlio Pólux, Galeno, Porfírio, Oppiano, Políbio, Heliodoro,
Aristóteles, Elian e outros. Por vezes, mandavam trazer à mesa os livros que
comprovavam as citações, mesmo quando a sua memória retinha perfeitamente estas
noções com tal precisão que nenhum médico de então os teria igualado.
Repetiam então as lições aprendidas de manhã e, terminado o almoço com
algum doce de laranja, limpavam os dentes com um pedaço de lentisco, lavavam as
mãos e os olhos com água clara e fresca e davam graças a Deus com belos cânticos
feitos para louvar a munificência e magnanimidade divinas.
Vinham nessa altura as cartas, não para jogar mas para aprender mil gentilezas e
novas invenções, tendo todas por base a aritmética. Com este procedimento, Gargântua

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

102

tornou-se afecto a essa ciência numeral e todos os dias, depois de almoçar e de cear,
passavam um bocado agradável com os dados e o baralho, chegando a adquirir tal
domínio da teoria e da prática que Tunstal, o inglês que tão amplamente escreveu sobre
isto, confessou que se sentia uma criança de peito em comparação com ele nessas
coisas.
E não apenas naquela, mas nas demais ciências matemáticas, como a geometria,
a astronomia e a música, porque enquanto faziam a digestão do que comiam,
construíam mil alegres instrumentos e figuras geométricas e à vez praticavam as regras
astronómicas.
Depois, distraiam-se cantando quatro ou cinco partituras ou um tema
improvisado. Quanto aos instrumentos musicais, aprendeu a tocar o alaúde, a harpa, a
flauta alemã de nove chaves, a espinela e o trombone.
Concluída a digestão, eliminava os excrementos naturais e voltava ao seu
escritório principal, durante três horas ou mais, tanto para repetir a leitura matutina,
como para prosseguir no livro começado, como para compor e formar passagens de
literatura latina.
Depois saiam de casa com um jovem gentil-homem de Turena, chamado
Gymnasta, o escudeiro que lhe ensinava a arte de montar a cavalo. Mudava de traje e
montava e então um corcel, uma égua ou um cavalo ligeiro e fazia cem corridas,
voltejava no ar, saltava paliçadas e corria em círculo à direita e à esquerda. Aí, quebrava
não uma lança, pois o maior disparate é dizer: «Quebrei dez lanças no torneio ou na
batalha.» Isso um carpinteiro faria muito bem; a maior glória será com uma só lança
partir dez lanças ao inimigo. Com a sua lança acerada, flexível e forte, Gargântua
quebrava um muro, perfurava um arnez, abatia uma árvore, levantava uma sela ou tirava
uma manopla. Tudo isto ele fazia armado de ponto em branco.
Se se tratava de caracolar e de fazer habilidades sobre um cavalo, ninguém podia
igualá-lo; o voltejador de Ferrara não passava de um símio a seu lado.
Aprendeu especialmente a saltar com destreza de um cavalo para outro sem
tocar em terra, montava sem estribos, com a lança na mão e sem rédeas, guiava os
cavalos a capricho, pois todas essas coisas eram postas em prática pela disciplina
militar.
Outros dias exercitava-se com a acha; tão bem a brandia em todos os sentidos,
tão ligeiramente fendia e cortava em redondo, que foi reconhecido como campeão desta
arma.
Brandia também o pique, lutava com a espada, dando cutiladas com as duas
mãos, manejava a adaga, o estilete e o punhal. Com todas essas armas era um perfeito
esgrimista.
Caçava cerdos, javalis, gamos, lobos, lebres, perdizes, faisões e abetardas.
Jogava à bola e erguia-a no ar com a mesma destreza com as mãos e com os pés.
Lutava, corria e saltava não a três passos, nem à alemã, porque, segundo dizia
Gymnasta, tais saltos são inúteis e de nenhum proveito para a guerra. De um salto
saltava um fosso, voava por cima de um roble, elevava-se seis passos sobre uma
muralha e trepava a uma janela da altura de uma lança.
Nadava em águas profundas a favor ou contra a corrente, de costas, com todo o
corpo, só com os pés; com uma mão no ar, levando nessa mão um livro aberto
percorreu toda a orla do Sena sem que aquele se molhasse, arrastando com os dentes a
sua capa, como fazia Júlio César.
Depois, com uma mão agarrava-se com força a um baixel, subia e lançava-se à
água de cabeça, sondava as profundidades, reconhecia as rochas, submergia nos
abismos e nos golfos, voltava ao baixel, dirigia-o com cuidado segundo a corrente ou
indo contra ela, detinha-o nas eclusas, guiava o leme com uma mão e com a outra

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

103

manejava um grande remo, estendia as velas, subia aos mastros pelas cordas, corria por
bombordo, ajustava a bússola e manobrava a bolina.
Saindo da água, de um salto trepava ao cume de uma montanha, subia às árvores
como um gato, saltava de maneira a que os seus membros nada sofriam com a queda.
Lançava o dardo, a pedra, a barra, o disco e a alabarda; manejava o arco,
dobrava com as mãos as balestras mais fortes e atirava de frente, por cima da cabeça, de
cima para baixo, de baixo para cima, ou de costas, como os Parthos.
Amarrava um cabo do alto de uma torre até ao solo e por ele subia com as mãos
e descia tão rapidamente como se estivesse a caminhar pelo chão.
Colocava uma grossa vara entre duas árvores e agarrando-se a ela com as mãos
ia de um lado para o outro com grande velocidade, sem tocar com os pés no chão.
Para desenvolver o tórax e os pulmões gritava como todos os diabos. Uma vez,
ouvi-o chamar Eudemon da porta de S. Victor para Montmartre. Stenthor, na batalha de
Tróia, não deu um grito tão grande.
Para temperar os nervos construíram-lhe dois grandes salmões de chumbo que
pesavam cada um oito mil e setecentos quintais, a que ele chamava os meus brinquedos.
Pegava cada um numa mão e elevava-os no ar, sobre a sua cabeça, mantendo-se assim
imóvel durante três quartos de hora ou mais pois a sua força era inimitável. Jogava à
barra com os mais fortes e quando o atacavam mantinha-se tão firmemente sobre os pés
que ninguém podia vencê-lo, como se diz que fazia Milon e, assim mesmo, imitando-o,
fechava o punho que continha uma pepita de granada e oferecia-a a quem conseguisse
tirar-lha.
Passando assim este tempo, enxugava-se, esfregava-se, refrescava-se, mudava de
roupa; voltavam depois para casa, passeando lentamente, pisando as ervas e
examinando as árvores e as plantas para compreender as observações que sobre isso
haviam escrito na Antiguidade, como Teofrasto, Dioscórides, Marino, Plínio, Nicandro,
Macer e Galeno.
Colhiam plantas e braçadas de ramos levando-os para casa um pajenzinho
chamado Rizótomo, juntamente com as foices, tesouras, enxadas pás e outros utensílios
necessários para a jardinagem.
Quando chegavam, enquanto preparavam a ceia, repetiam algumas passagens do
que tinham lido e sentavam-se à mesa.
A refeição anterior era sóbria e frugal, pois comiam apenas para acalmar o
estômago; mas a ceia era copiosa, visto que sentiam necessidade de recuperar forças e
de se alimentarem. Esta é a boa dieta prescrita pela arte da medicina séria, apesar de um
bando de médicos imbecis, enlouquecidos pelos sofistas, aconselharem o contrário.
Durante essa refeição continuavam as leituras da refeição anterior até se
cansarem. Depois, sustentavam agradáveis conversas a respeito de coisas úteis ou sobre
temas literários.
Depois de dar graças, dedicavam-se a cantar ou a tocar instrumentos
harmoniosos, ou então entretinham-se com esses pequenos passatempos que se
obtinham com cartas ou com dados e assim permaneciam alegres e contentes até à hora
de dormir. Noutras ocasiões, saíam para visitar literatos ou estrangeiros de cuja chegada
tivessem tido conhecimento.
Em plena noite, antes de se recolherem, saiam até um lugar descoberto para
examinar o céu; viam os cometas, se os havia, e as figuras, aspectos, situações,
oposições e conjunções dos astros.
Depois, com o seu preceptor, recapitulava resumidamente, à maneira dos
pitagóricos, tudo quanto tinham lido, visto, aprendido, feito e escutado durante o dia.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

104

Por último, rogavam a Deus Criador, adorando-o, ractificando-lhe a sua fé e
glorificando-o pela sua imensa bondade; e dando-Ihe graças por todo o passado,
recomendavam-se à sua divina clemência para o porvir.
Feito isto entregavam-se ao repouso.
LIVRO II ­ PANTAGRUEL
CAPÍTULO VIII - PANTAGRUEL, ESTANDO EM PARIS, RECEBE UMA
CARTA DE GARGÂNTUA; CONTEÚDO DA CARTA
Pantagruel estudava muito, como sabeis, e aproveitava bem o tempo porque
tinha capacidade, entendimento e memória na medida de doze odres e doze tonéis de
azeite. Estando dedicado à sua tarefa, recebeu um dia uma carta do pai, cujo conteúdo se
segue:
«Meu querido filho: entre os dons, graças e prerrogativas, que o Soberano
Criador, Deus Todo Poderoso, concedeu à natureza humana, em seu princípio, a mais
singular e excelente parece-me aquela pela qual, sendo mortais, podemos adquirir uma
espécie de imortalidade e no decorrer da nossa vida transitória perpetuar o nosso nome
por meio da geração proveniente de um matrimónio legítimo. Assim, de certo modo énos restituído aquilo que nos foi tirado pelo primeiro pecado dos nossos pais, dos quais
se diz que por não terem sido obedientes aos mandatos divinos morreriam, e com a sua
morte seria reduzida a nada a magnífica contextura natural do homem.
«Por este meio de propagação seminal fica e permanece nos filhos o que se
perde nos pais, e nos netos o que se perde nos filhos e assim sucessivamente até à hora
do juízo final, quando Jesus Cristo tenha entregue a seu Pai o seu reino pacifico, livre
de todo o mal e contaminação do pecado, porque então cessarão todas as gerações e
contaminações, ficarão os elementos fora das suas transmutações continuas, porque a
paz tão desejada se verá consumada e perfeita e todas as coisas terão chegado ao
términus da sua perfeição.
«Aqui está a razão porque eu dou graças a Deus, meu conservador, por me ter
permitido ver como a minha decrepitude floresce na tua mocidade. Assim, quando
aprouver, Àquele que tudo destina e rege, a minha alma deixar esta habitação humana,
não me considerarei totalmente morto ao passar de um lugar a outro, pois em ti
permanecerá a minha imagem neste mundo visível, vivendo e conversando com amigos
meus, como eu poderia fazê-lo, conversa que, mediante a ajuda e graça divinas,
transcorreu, não sem pecado (pois pecamos todos os dias e continuamente pedimos a
Deus que perdoe as nossas faltas), mas sem censura.
«Em ti, pois, vive a imagem do meu corpo; mas, se de maneira análoga, não se
vislumbrarem as virtudes da alma, não te podia considerar como guarda e tesoureiro da
imortalidade do nosso nome e o prazer que teria em ver-te seria bem pequeno ao
considerar que a pior das minhas partes, que é o corpo, ficava, e a melhor, que é a alma,
pela qual fica o nome e a benção dos homens, aparecesse abastardada e degenerada; não
digo isto por ter desconfianças da tua virtude, que até agora sempre demonstraste, mas
sim para te incitar a caminhar sempre de bem a melhor.
«Isto que agora te escrevo é não só para que vivas agora em virtude, mas para
que além disso te regozijes de o ter feito e tenhas alento para o continuares a fazer
sempre da mesma forma, para o que te pode ajudar o facto de saberes que eu também
procedi assim. Podes crer que não há para mim maior tesouro no Mundo do que ver-te,
uma vez na vida, perfeito em absoluto, tanto em virtude, honestidade e bom nome,
como em saber liberal, e deixar-te, quando morrer, como um espelho que represente a

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

105

pessoa de teu pai, e se não conseguires ser tão excelente como eu te sonho, ao menos
que sejas o mais aproximado deste ideal que a realidade permita.
«Fez isto mesmo comigo o meu querido pai Grandgousier, de grata memória,
pondo todos os meios possíveis à minha disposição para que eu chegasse a dominar
com perfeição o saber político, e o meu estudo e trabalho corresponderam tão bem que
viu realizado o seu desejo, se bem que, como deves compreender, o tempo não fosse tão
idóneo nem cómodo para as letras como hoje, e eu não tivesse tido tanta abundância de
preceptores como tu. A época era tenebrosa e tudo se ressentia da calamidade dos godos
que destruíram toda a nossa boa literatura; mas pela bondade divina, a luz e a dignidade
da minha juventude foram empregadas no estudo, apesar de ao principio ter sido
recebido com dificuldade entre os estudantes, na idade viril fui considerado (e não sem
motivo) como um dos homens mais sábios do século.
«Não digo isto para me vangloriar, se bem que escrevendo pudesse fazê-lo,
como sabes que disse Marco Túlio no seu livro Velhice, e confirmando a frase de
Plutarco na sua obra intitulada: "Como uma Pessoa se Pode Gabar sem Dificuldade",
senão para ser levada a fazer mais do que até então fez.
«Agora, todo o estudo se concentra no conhecimento das línguas mortas. O
grego, sem o saber do qual um homem não pode chamar-se sábio, o hebreu, o caldeu e o
latim. Os impressos tão elegantes e correctos, hoje em uso, que por inspiração divina
foram inventados no meu tempo, como por outro lado a artilharia de inspiração
diabólica, fazem com que o mundo esteja cheio de sábios, de preceptores doutíssimos,
de amplas bibliotecas e tenho por certo que no tempo de Cícero, Platão ou Papiniano,
havia para o estudo a comodidade que hoje há. De futuro não haverá quem, antes de sair
para a praça, não se tenha fortificado na oficina de Minerva e prevejo que os
vagabundos, verdugos, aventureiros e palafreneiros de amanhã, sejam mais ilustrados
que os doutores e pregadores de hoje.
«Que dito! Até as mulheres e as meninas aspiram a esse maná celestial da boa
doutrina, enquanto no meu tempo me foi proibido estudar a literatura grega e me
ensinaram a desprezá-la. Como Gatão, só mais tarde a estudei. Hoje deleito-me lendo a
"Moral" de Plutarco, os belos "Diálogos" de Platão, "Os Monumentos" de Pausânias e
as "Antiguidades" de Atheneo, esperando a hora em que Deus queira chamar-me e
levar-me desta terra.
«Por tudo isto, meu filho, aconselho-te a que empregues bem a juventude e
aproveites na virtude e no estudo. Estás em Paris e tens o teu preceptor Epistemon: a
primeira para te distraíres e instruíres agradavelmente, o segundo para te dar saudáveis
exemplos e ensinar-te.
«Quero que aprendas perfeitamente as línguas: primeiro o grego, como queria
Quintiliano; depois o latim; em seguida o hebreu para a Literatura Sagrada e por último
o caldeu e arábido, com o mesmo objectivo. Quanto ao grego, que formes o teu estilo à
maneira de Platão; quanto ao latim, à de Cícero. Que não haja história que não
conheças, para o que te ajudará a Cosmografia. Das artes liberais, Geometria,
Aritmética e Música, já te deram noções quando eras pequeno, na idade de cinco ou seis
anos; continua a estudá-las e estuda todas as regras da Astronomia. Põe de lado a
Astrologia adivinhatória e a arte de Lullius, como coisas tontas e vãs. De direito civil
quero que saibas todos os textos e os computes com a ajuda da filosofia.
«Depois examina cuidadosamente os livros dos médicos gregos, árabes e latinos,
sem desprezar os talmudistas e cabalistas e no estudo da Anatomia poderás adquirir
conhecimento perfeito do organismo humano.
«Durante algumas horas do dia deves também examinar os santos livros:
primeiro, em grego, o Novo Testamento e as cartas dos Apóstolos; depois, em hebreu, o
Antigo Testamento.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

106

«Procura, em suma, reunir grande quantidade de ciência, pois quando cresceres e
te fizeres homem, precisarás de sair da tranquilidade e repouso do estudo para
aprenderes equitação e o manejo das armas para poderes socorrer a nossa casa e ajudar
todos os amigos em todos os azares e contra os assaltos dos malfeitores. Quero também
que em breve demonstres o teu saber em controvérsias públicas, tanto com homens de
letras que haja em Paris, como com outros.
«Mas como, segundo dizia o sábio Salomão, a sabedoria não entra nunca nas
almas malévolas e ciência sem consciência não é mais que ruína da alma, convém-te
servir, amar e rogar a Deus, dirigir-lhe todos os teus pensamentos e todas as tuas
esperanças e pela fé e pela caridade deves juntar-te a Ele de maneira a afastares-te do
pecado. Evita os enganos do Mundo. Não entregues o teu coração à vaidade. Ama o teu
próximo como a ti mesmo, e serve-o. Venera os teus preceptores, foge das más
companhias e não utilizes em vão as graças de que Deus te dotou. Quando vires que
adquiriste toda a instrução de que necessitas, vem para o meu lado para que eu te veja e
te possa abençoar antes de morrer.
«Meu filho, que a paz e a graça de Deus Nosso Senhor, estejam contigo. Amen.
«Utopia, décimo sétimo dia do mês de Março.
Teu pai,
Gargântua.»
Quando Pantagruel recebeu esta carta dispôs-se a aproveitar mais do que nunca;
vendo-o estudar e aprender dir-se-ia que os livros eram para o espírito dele como a
lenha para o fogo; pois sem cessar se fazia forte e poderoso.
RABELAIS, François, Gargântua e Pantagruel, Ed. Amigos do
Livro, Lisboa, s.d., pp. 57-61; 77-83; 195-199.
TEXTO 19
Michel de MONTAIGNE (1533-1592)

Ensaios (1580-1588)
CAPÍTULO XXV ­ Do Pedantismo
Sofri muitas vezes, em minha infância, ao ver sempre nas comédias italianas o
professor como um bobo e o nome de magister não ter muito honrosa significação entre

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

107

nós. Porque, entregue à sua orientação e guarda, que podia fazer senão aborrecer-me
com essa reputação? Procurava bem os escusar da desigualdade natural que existe entre
o vulgo e as raras e excelentes pessoas, em julgamento e saber; tanto mais quanto são os
hábitos de uns inteiramente diversos de outros. Mas aborrecia-me notar que os homens
mais esclarecidos eram exactamente os que menos admiravam os professores, como o
nosso bom Du Bellay:
"Odeio sobretudo um saber pedantesco" (1).
E isto é um costume antigo. Plutarco diz que, entre os romanos, "grego" e
"escolástico" eram palavras censuráveis e pejorativas.
Depois, com a idade, achei que isso tinha razão de ser, e que "magis magnos
clericos non sunt magis sapientis" (os maiores clérigos não são os mais sábios) (2). Mas
pode acontecer que uma alma rica do conhecimento de tantas coisas não se tome mais
viva e esperta, e que um espírito grosseiro e vulgar acumule, sem se corrigir, os
discursos e julgamentos dos mais excelentes espíritos que o mundo produziu ­ embora
sobre isso eu coloque ainda dúvidas.
Para abrigar tantos pensamentos de outros cérebros, tão grandes e fortes, é
necessário (dizia-me uma jovem, a primeira das nossas princesas) (3) que o seu próprio
cérebro oprima-se, constranja e diminua para dar lugar ao que recebe de outrem.
Eu diria, de bom grado, continuava, que como as plantas morrem por excesso de
seiva, e as lâmpadas por excesso de azeite, assim a acção do espírito por excesso de
estudo e de matéria, o qual, tomado e embaraçado por uma imensa variedade de coisas,
perde o meio para libertar-se.
Mas, a razão parece ser outra, porque quanto mais nossa alma se enche, mais se
enriquece; e os velhos tempos dão-nos exemplos de homens hábeis no governo das
coisas públicas, de grandes conselheiros de Estado também grandes sábios.
Quanto aos filósofos, desinteressados de toda ocupação pública, foram também
algumas vezes, na verdade, desprezados pela liberdade dos autores cómicos de seu
tempo, uma vez que suas opiniões e maneiras tornavam-nos ridículos. Quereis fazê-los
juízes dos direitos de um processo, das acções de um homem? Eles são bem prestos.
Investigam ainda se há vida e movimento; se o homem é diferente do boi; o que é agir e
sofrer; que espécies de bestas são as leis e a justiça. Falam de um magistrado ou
conversam com ele? São de uma liberdade irreverente e incivil. Ouvem louvar seu
príncipe ou um rei? São pastores para eles, ociosos como os pastores, ocupados apenas
em ordenhar e tosquiar seus animais, mais rudemente, porém. Estimai alguém por
possuir duas mil jeiras de terra? Riem-se, acostumados que estão a abraçar todo o
mundo como sua propriedade. Orgulhai-vos de vossa pobreza por contardes sete avós
gloriosos? Eles os estimam pouco, pois, concebendo só a imagem universal da natureza,
contam quantos antepassados cada um de nós teve entre ricos, pobres, reis, servos,
gregos e bárbaros. E ainda que fôsseis descendentes de Hércules, achariam vaidade
fazer-vos valer deste presente da fortuna. Assim os desdenhava o vulgo, como ignorante
das coisas primeiras e comuns, como presunçosos e insolentes. Mas, esta pintura
platónica (4) está longe de retratar os mestres. Invejavam-se os filósofos porque,
estando acima do comum dos homens, desprezavam as acções públicas, educados numa
1

Versos extraídos de Regrets, colectânea de poemas, de Joachim du Bellay (1522-1560), onde exprimiu,
com delicadeza, durante longa estada em Roma, a nostalgia de sua terra natal.
2
Palavras do Frei Jean de Entommeures, em Gargântua, de Rabelais.
3
Alusão à irmã de Henri de Navarre, Catherine de Bourbon, considerada "a primeira de nossas princesas",
depois que Marguerite de Valois se tornou rainha de Navarra.
4
Refere-se ao Teeteto, de Platão.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

108

vida particular e inimitável, regulados por princípios superiores e fora de uso normal.
Quanto aos professores, desdenham-se-nos, como estando abaixo do comum dos
homens, incapazes de cargos públicos, levando uma vida de costumes baixos e vis. que
os coloca depois do vulgar.
Odi homines ignava opera, philosopha sententia (Odeio os homens incapazes de
operar, filósofos de palavra somente) (1).
Quanto aos filósofos, grandes em ciência, digo que foram maiores ainda nos
actos. Assim aquele geómetra de Siracusa (2) que, tendo sido arrancado da
contemplação para inventar alguma coisa prática para a defesa de seu país, imaginou
súbito uma sequência de engenhos espantosos cujos efeitos ultrapassavam todas as
criações humanas. Desdenhou, todavia, ele mesmo, toda esta manufactura, jogos de sua
sabedoria, pensando ter ela corrompido a dignidade de sua arte. Assim, eles, se algumas
vezes passaram da teoria à acção, elevaram-se tão alto, que se diria terem seu coração e
sua alma maravilhosamente alimentado e enriquecido no estudo das coisas. Mas alguns,
vendo o cargo de governantes políticos ocupados por homens incompetentes, afastaramse; e quando se perguntou a Crates (3) até que momento se deveria filosofar, recebeu-se
esta resposta: ­ Até que não haja mais burriqueiros conduzindo nossos exércitos".
Heráclito abdicou a realeza em favor de seu irmão; e aos efésios, que o reprovaram por
ter passado seu tempo a brincar com seus irmãos diante do templo, disse: ­ "Não será
melhor fazer isto, que governar os negócios públicos em vossa companhia?" Outros,
tendo colocado a imaginação acima da fortuna e do mundo, achavam as cadeiras da
justiça e os tronos dos reis, baixos e vis. Empédocles recusou a realeza que os
agrigentinos lhe ofereciam (4). Tales (5) condenando. algumas vezes, seus concidadãos
por se preocuparem muito com os interesses particulares e com o enriquecimento, eles
lançam-lhe em rosto que assim falava à moda da raposa, por não poder fazer o mesmo.
Em vista disso, teve vontade, por passatempo, de tentar a experiência; e, tendo por este
golpe rebaixado seu saber a serviço do lucro e do dinheiro, organizou um tráfego que,
em um ano, trouxe tantas riquezas que apenas os mais experimentados no ofício podiam
lucrar igual, em toda sua vida.
Narra Aristóteles (6) que alguns falavam desse Tales, Anaxágoras (7) e
semelhantes, que eram sábios mas não eram prudentes, pois não se ocupavam o
suficiente das coisas úteis. Não distingo bem essa diferença de palavras, mas isto não
serve absolutamente de escusa à minha pessoa; e, vendo a módica e necessitada fortuna
com que se satisfaziam, seríamos induzidos a pronunciar que eles não são nem sábios
nem prudentes, usando a mesma expressão.
Abandono essa primeira razão, e creio que é preferível dizer que este mal vem
de uma maneira errada de encarar as ciências. E pelo modo como as aprendemos, não é
de admirar que nem os escolares nem os mestres se tornem, por isso, mais hábeis,
1

Marcus Pacúvio (220-130 a.C.) um dos mais antigos poetas dramáticos de Roma, mais filósofo, em
realidade, que poeta. Sobrinho de Énio.
2
Arquimedes (287-212 a.C.), criador de fórmulas para achar-se a superfície e volume do cilindro e da
esfera e inventor da alavanca, da roldana, das rodas dentadas, etc. Devido a sua engenhosidade, conseguiu
prolongar, por três anos, a resistência de Siracusa, assediada pelos romanos.
3
Filósofo Grego, do IV século a. C., pertencente à escola cínica e discípulo de Diógenes.
4
Empédocles, filósofo e médico de Agrigento, do século V a.C., foi muito considerado pelos seus
contemporâneos. O exemplo de Montaigne parece mal colocado porque a lenda mostra Empédocles
como um orgulhoso suicida que se lançou na cratera do Etna para que se não achassem vestígios de seu
corpo e se pensasse que havia subido ao céu; o vulcão, depois de tê-lo devorado expeliu suas sandálias
como querendo revelar a fraude desse suicídio.
5
Filósofo e matemático grego (640-548 a .C. ), nascido em Mi!eto e pertencente à escola jónica.
6
Na obra Ética a Nicómaco.
7
Filósofo grego (500-428 a.C.), pertencente à escola jónica.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

109

embora se façam cada vez mais doutos, Na verdade, os cuidados e despesas de nossos
pais visam apenas a mobiliar-nos a cabeça de ciência; de bom senso e de virtude, nada
de novo. Gritai ao nosso povo, a propósito de um transeunte: ­ "Lá vai um homem
sábio!" E de outro: ­ "Lá vai um homem bom !". Ninguém deixará de voltar os olhos e
o respeito para o primeiro. Seria necessário um terceiro gritador: ­ "Oh! cabeças
pesadas" (1)! Perguntamo-nos de boa vontade: ­ "Sabe grego ou latim? Escreve em
prosa ou verso?" Mas se ele se tornou melhor ou mais prudente ­ o que é principal ­
isto é secundário. É preciso inquirir quem sabe melhor, não quem é mais sábio (2).
Esforçamo-nos para preencher a memória e deixamos a consciência e o
entendimento vazios. Assim como os pássaros vão à procura do grão e o trazem no bico
sem o experimentar, para serem provados por seus filhotes, assim nossos mestres vão
pilhando a ciência nos livros, alojando-a na ponta da língua, tão-somente para vomitá-la
e lançá-la ao vento.
É admirável que tal tolice se encontre, muitas vezes, em meu próprio exemplo.
Não faço o mesmo na maior parte desta composição? Vou roubando aqui e ali, dos
livros, as sentenças que me agradam, não para guardá-las, porque não possuo
reservatórios, mas para transportá-las para aqui, onde, verdadeiramente, elas não são
mais minhas do que do primeiro lugar onde estavam. Somos, isto eu creio, sábios da
ciência do presente, não da ciência do passado, tão-pouco da do futuro.
Mas, o que é pior, nossos estudantes e aqueles a quem ensinarão não se nutrem
nem se alimentam muito mais que isso; a ciência passa assim de mão em mão, com o
único objetivo de entreter os outros e contar estórias, como moeda recolhida, inútil a
qualquer uso, e empregada apenas para calcular e depois atirar-se fora.
Apud alios loqui didicerunt, non ipsi secum (Aprenderam a falar com os outros,
não consigo próprios) (3). Non est loquendum, sed gubernandum. (Não se trata de falar,
mas de velar o leme) (4).
A natureza, para mostrar que não há nada selvagem naquilo que ela conduz, faz
nascer nos países onde as artes são menos cultivadas, muitas produções de espírito, que
se equiparam com as melhores. Sobre este meu propósito, é delicioso o provérbio
gascão, a respeito dos tocadores de gaita de fole: Bouha prou bouha, mas a remuda
lous dits qu' em; souffler prou souffler, mais nous en sommes à remuer les doits (Soprar
é muito fácil, mas a dificuldade está em mexer os dedos).
Sabemos dizer: ­ "Cícero disse assim; eis os costumes de Platão; estas são as
próprias palavras de Aristóteles". Mas que dizemos de nós próprios? que pensamos?
que fazemos? Diria igualmente bem um papagaio. Estas acções fazem-me lembrar
daquele rico romano, que tinha sido cauteloso, despendendo grandes somas, para
recrutar homens capazes em todos os géneros de ciência, que ele mantinha
continuamente ao redor de si; e quando tinha, por acaso, oportunidade de falar, entre
seus amigos, de uma coisa ou de outra, aqueles supriam seu lugar e iam logo perto dele
fornecer-lhe, ou uma frase, ou um verso de Homero, cada um segundo sua
especialidade; e chegou a pensar que este saber fosse seu, porque ele o tirava da cabeça

1

No original: "0 les lourdes testes!" Essa expressão foi traduzida como "cabeças de pote" em Montaigne.
Op. cit., p. 206. Significa cabeças que se enchem, à semelhança de um pote, e acabam por ficar pesadas
com o excesso de conhecimentos que nelas se despejam.
2
O ideal da educação, hoje, é o do homem que sabe e, também, é bom. Não basta apenas ser sábio,
contudo, não basta ser somente bom.
3
Cícero.
4
Séneca.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

110

de seu pessoal, como aqueles cujos conhecimentos habitam em suas sumptuosas
livrarias.
Conheço um que ao ser indagado sobre o que sabe, pede-me um livro para
mostrar-mo; e não ousaria dizer-me que tem o traseiro sarnento, antes de estudar em seu
dicionário o que é sarnento e traseiro.
Tomamos as opiniões dos outros, e eis tudo. É preciso fazê-las nossas.
Parecemos propriamente aquele que, necessitando de fogo, vai pedi-lo na casa do
vizinho e, encontrando um braseiro bonito e grande, lá permanece para aquecer-se, sem
se lembrar mais de trazer um pouco para sua casa. De que nos adianta ter a barriga cheia
de carne se não a digerimos? se não a assimilamos? se não nos faz crescer e fortificarnos? Pensamos, por acaso, que Lúculo (1), que as letras conduziram e formaram tão
grande capitão, sem experiência, as tenha aprendido à nossa moda?
Deixamo-nos levar tantas vezes pelo braço dos outros que aniquilamos nossas
forças. Quero armar-me contra o terror da morte? Sirvo-me de Séneca. Quero arranjar
consolo para mim ou para outro? peço emprestado a Cícero. Teria tirado tudo de mim
mesmo, se a isso me houvessem exercitado. Não aprecio, absolutamente, esse saber
relativo e mendigado.
Michel de Montaigne, Essais, livre premier, chap. XXV, "Du
pédantisme", Paris, Société Les Belles Lettres, 1946, pp. 186 a 192.
(Tradução portuguesa in ROSA, Maria da Glória de, A História da
Educação através dos textos, Cultrix, S. Paulo, 1971, pp. 129-135)

ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
I. Questionário
1.Como se anuncia a chegada de uma nova era e o final da "Idade Média"?
2.Qual o significado de "Renascimento"? E de "Humanismo"?
3.O que caracteriza a atitude humanística face aos "clássicos"? Que resulta daí em
termos educativos?
4.Por que razões fracassou o humanismo renascentista em matéria de educação?
5.Quais os humanistas que melhor tiveram consciência desse fracasso?
6.Que argumentos utilizam eles ( Erasmo, Montaigne e Rabelais) na crítica que fazem à
educação do seu tempo? E que ideal pedagógico propõem?

1

General romano que dirigiu a guerra contra Mitrídates.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

111

II. Elabore um texto articulando os seguintes conceitos. Intitule-o.
7. "Renascimento", "Clássicos", "Ciceromania", "Escolástica".
BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
CLAUSSE, Arnould, A Relatividade Educativa, esboço de uma história e de uma
filosofia da escola, Livraria Almedina, Coimbra, 1976, pp. 167-190.
DEBESSE, Maurice, "A Renascença", in AAvv, Tratado das Ciências Pedagógicas 2.
História da Pedagogia, Companhia Editora Nacional / Editora da Universidade de S.
Paulo, S. Paulo, 1977, pp. 187-268.
HUBERT, René, História da Pedagogia, Companhia Editora Nacional, S. Paulo,
1967, p. 214-230.
LARROYO, Francisco, História Geral da Pedagogia, Editora Mestre Jou, S. Paulo,
1970, pp. 345-378.
PONCE, Anibal, Educação e luta de classes, Editorial Vega, Lisboa, 1979, pp.
145-152.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

112

4. Reforma e Contra-Reforma
4.1. A Reforma Protestante e a educação: Lutero
4.2. A Contra-Reforma: a Companhia de Jesus
4.2.1. A criação da Universidade de Évora

Resumo: Apesar de tanto a Reforma como a Contra-Reforma terem sido fenómenos
originariamente de ordem religiosa, o certo é que eles tiveram repercussão a outros
níveis e entre eles se conta, de facto, o plano da educação e da pedagogia. O facto de
persistirem ainda entre os historiadores as controvérsias em termos de avaliação do real
impacte da Reforma Protestante no campo educativo e em relação às virtudes e defeitos
da pedagogia jesuítica é bem indicativo da importância do estudo do impacte da
Reforma e da Contra Reforma e do seu significado educativo e pedagógico.
Relativamente à criação da Universidade de Évora, no século XVI, se deve ser analisada
por nós também no contexto da Contra-Reforma, não deveremos, no entanto, descurar o
entendimento do seu significado no quadro da história nacional e do momento cultural,
social e político da Évora de Quinhentos.

Objectivos:
- Conhecer o processo que desencadeou a Reforma Protestante.
- Compreender em que sentido alguns escritos de Lutero claramente estabelecem o
princípio da instrução pública e o carácter universal de um mínimo educativo.
Princípios que só se estabelecerão no mundo católico no século XVIII com o
Iluminismo.
- Compreender o significado religioso do princípio do "livre-exame" e as suas
implicações a nível educativo.
- Identificar os mecanismos de que Roma lançou mão no sentido de uma
"Contra-Reforma".

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

113

- Conhecer os objectivos da criação da Inquisição e do Índex, bem como da realização
do Concílio de Trento.
- Compreender as circunstâncias em que foi criada a Companhia de Jesus e a
importância que a actividade educativa adquiriu no seu seio.
- Conhecer os elementos característicos do "método jesuítico" e proceder a uma análise
especialmente dos seus aspectos mais controversos.
- Compreender as circunstâncias da vida política nacional em que foi criado o Colégio
do Espírito Santo (1553) e, logo depois (1559), a Universidade de Évora.
- Compreender o contexto local da cidade de Évora no século XVI.
- Conhecer os aspectos fundamentais do funcionamento e a envergadura atingida pela
instituição criada em 1559 desde esta data até ao seu encerramento em 1759.
- Conhecer os momentos fundamentais da história do edifício do Colégio do Espírito
Santo desde o encerramento da Universidade em 1759 até à re(abertura) da
Universidade em 1979.

ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)

"Lutero não fez mais do que chocar o ovo posto por Erasmo."
"As actividades educacionais de Lutero têm sido louvadas em termos
superlativos por uns e igualmente atacadas por outros. (...) Um agudo conflito, quanto à
importância de Lutero para a educação popular, divide os historiadores da educação".
Frederick Eby
"Com o Iluminismo aconteceu nos países católicos algo de semelhante àquilo
que, no século VXI, com a Reforma, aconteceu nos países protestantes: foi-se radicando
a ideia de que as responsabilidades do ensino deviam ser assumidas pelo Estado".
Joaquim Ferreira Gomes
"Durante muito tempo, (...) [a pedagogia dos jesuítas] foi objecto de paixões
partidárias(...) Hoje, os pontos de vista e os julgamentos ainda estão longe de ser
concordes. Mas o esforço para a objectividade é mais fácil, num clima intelectual
apaziguado". Maurice Debesse
"O Ratio Studiorum, que não é um tratado de pedagogia mas um programa e um
código, contém um conjunto de regras a ser cumpridas pelo provincial, pelo reitor, pelo
prefeito dos estudos, pelos professores das faculdades superiores, pelo professor de
Sagrada Escritura, de Filosofia, etc., etc., ..." Joaquim Ferreira Gomes, História da
Educação, Coimbra, 1987, Ed. Policopiada, p.329.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

114

"O que apresentar a melhor composição receberá a mais alta dignidade, os que
se lhe seguirem receberão os outros postos de honra aos quais, para maior aparência de
erudição, se atribuam títulos tirados da república ou do exército grego ou romano. Para
alimentar a emulação, por via de regra poderá a aula dividir-se em dois campos (...).
Ratio Studiorum

Textos para Análise : TEXTO 20, TEXTO 21 e TEXTO 22
TEXTO 20

LUTERO (1483-1536)

Destruir a escolástica e imitar os antigos
"Declaro que preferiria que se fechassem definitivamente os ginásios e os
mosteiros, de preferência a ver utilizar a maneira de ensinar e a maneira de viver que até
hoje aí estiveram em uso. Preferiria que todos os jovens nada aprendessem e não
pudessem falar, de preferência a vê-los em tal escola, sob a autoridade de tais
preceptores. Eis a minha opinião e o meu voto: que essas estrebarias de burros de dois
pés e essas escolas diabólicas sejam destruídas e arrasadas, ou então que, por uma
piedosa metamorfose, sejam transformadas em escolas cristãs.
Não sabeis como faziam os romanos? Qual o modo como educavam as crianças?
Entre os quinze e os dezoito anos, instruíam-nos diligentemente nas letras gregas e
latinas, assim como em todas as artes chamadas liberais; depois, exercitavam-nos na
guerra e faziam-nos participar nas funções públicas. Foi esta educação que produziu
homens sabedores, eminentes, dignos da recordação dos séculos..." (LUTERO, Aos
príncípes cristãos)
A escola é missão do Estado
"Uma coisa merece a atenção de todos aqueles que, preocupados com o estudo
das línguas e com a multiplicação das escolas, querem deter as murmurações malévolas
que chovern sobre a Alemanha: não devem entravar os estudos por espírito de

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

115

economia, não devem hesitar perante as despesas indispensáveis para criar vastas
bibliotecas ricas em livros de todas as espécies, principalmente nas cidades populares
que estão em condições de se imporem sacrifícios. E isto a fim de proporcionar não
somente os meios de se instruírem pela leitura aqueles que têm a missão de
conduzir-nos, quer nos negócios públicos quer nas coisas sagradas; mas também para
que, desta maneira, todos os bons livros sejam preservados de perecer, assim como as
ciências e as línguas ...
Há várias razões para não deixar aos pais o cuidado da educação. Em primeiro
lugar, a maioria deles são suficientemente pouco pessoas de bem para se dispensarem
disso, supondo mesmo que tenham capacidade para o fazer : assemelham-se à avestruz
que abandona os seus ovos, dão a vida aos filhos e deixam que eles se eduquem ao
acaso. E, no entanto, essas crianças, tornadas homens, são nossos concidadãos, têm a
mesma pátria, a mesma cidadania. Como é que a razão aceitaria, melhor, como é que a
caridade cristã suportaria que elas crescessem ao abandono, corrompidas por todos os
vícios, desprovidas de toda a educação honesta, como um campo abandonado, cheio de
cardos e de ervas daninhas? Elas levarão pouco tempo a corromper o resto da juventude.
Se nos recusarmos a educá-las, toda a nação aguentará o seu peso: foi o que aconteceu a
Sodoma, a Gomorra e a algumas outras cidades, segundo o testemunho da História
Santa..." (LUTERO, Op. Cit.)

Esboço de um programa de educação
"Não é evidente a todos que um adolescente pode, em nossos dias, aprender em
três anos mais coisas do que outrora conheciam todas as Universidades e todos os
mosteiros ? Viu-se jovens estudar durante vinte anos, segundo os velhos métodos, para
com dificuldade chegarem a balbuciar um pouco de latim, sem nada conhecerem, aliás,
da sua língua materna.
Deus prodigalizou os seus benefícios ao século XVI. Não deve deixar perder-se
essas riquezas; é preciso espalhá-las e aumentá-las. Todos os dias, vemos nascer e
crescer crianças sob o nosso olhar, e não há quem se preocupe com isso? Acaso
queremos nós, os Alemães, permanecer para sempre loucos e estúpidos, como nos
chamam os povos vizinhos?
A primeira das nossas acções deve ser cultivar as línguas, o latim, o grego e o
hebreu; pois as línguas são os envólucros que encerram o espírito, os vasos que contêm
as verdades divinas. Se deixarmos perder as línguas, o sentido das Escrituras
obscurecer-se-á cada vez mais e o licor celeste perder-se-á. Isto não quer dizer que todo
o pregador deva poder ler as Sagradas Escrituras no original, mas importa que, haja
entre nós doutores capazes de ir até à fonte. Mesmo que não houvesse alma, nem céu,
nem inferno, mesmo então seria indispensável abrir escolas para este mundo cá de
baixo, como no-lo demonstra a história dos gregos e dos romanos. Tenho vergonha dos
nossos cristãos quando os oiço dizer : "a instrução é boa para os eclesiásticos, mas não é
necessária para os leigos". Com tais afirmações, eles justificam cabalmente o que os
outros povos dizem dos alemães. Com que então seria indiferente que o príncipe, o
senhor, o conselheiro, o funcionário fosse um ignorante ou um homem instruído capaz
de desempenhar cristãmente os deveres do seu cargo?! Vós compreendeis bem que são
necessárias em todos os lugares escolas para as raparigas e para os rapazes, a fim de que
o homem se torne apto para exercer convenientemente o seu ofício, e a mulher, capaz de

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

116

dirigir o seu lar e de educar cristãmente os seus filhos. E pertence a vós, senhores, tomar
entre mãos esta obra, pois, se se deixa este cuidado aos pais, pereceremos desta vez,
antes que isso se realize. E que se não objecte que, faltará tempo para instruir as
crianças, pois encontra-se com facilidade tempo para lhes ensinar a dançar e a jogar as
cartas.
Se eu tivesse filhos para os educar, queria que aprendessem, além das línguas e
da história, a música e as matemáticas. Não posso recordar-me sem dor que tive que ler,
não os poetas e as histórias da Antiguidade, mas os livros dos sofistas bárbaros, com
grande perda de tempo, com prejuízo para a minha alma, de tal maneira que ainda hoje
me é difícil purgá-la dessas nódoas e dessa escória...
... Imploro que a criança vá à escola ao menos uma ou duas horas por dia, e é
necessário que se conservem as mais dotadas para fazer delas professores e professoras.
Atolámo-nos já suficientemente na ignorância e na corrupção; fomos já suficientemente
os "alemães ignaros"; chegou a hora de nos pormos ao trabalho. É necessário, pelo uso
que fizermos da nossa inteligência, mostrar a Deus que apreciamos os seus benefícios".
(LUTERO, Op. Cit.)

TEXTO 21

RATIO STUDIORUM (1599)

Santo Inácio de Loyola (1491-1556)
"Academia para a preparação de professores: Para que os mestres dos cursos
inferiores não comecem a sua tarefa sem preparação prática, o Reitor do colégio donde
costumam sair os professores de humanidades e gramática escolha um homem de
grande experiência de ensino. Com ele, vão ter os futuros mestres, em se aproximando o
fim dos seus estudos, por espaço de uma hora, três vezes na semana, a fim de que,
alternando preleções, ditados, escrita, correções e outros deveres de um bom professor,
se preparem para o seu novo ofício".
"Procure também que, por vezes, os nossos retóricos recitem discursos ou
poemas, em latim e em grego, no refeitório ou no salão, sobre assunto religioso que
edifique os de casa e os de fora e os anime a mais alta perfeição no Senhor".
"O assunto das tragédias e comédias, que convém sejam raras e só em língua
latina, deve ser sagrado e piedoso; nada deve haver nos entreactos que não seja em latim
e conveniente; personagens e hábitos femininos proibidos".

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

117

"Cada ano pode haver uma distribuição pública de prémios, contanto que corram
as despesas por conta de homens ilustres e sejam moderadas, em proporção com o
número de aulas e a natureza do colégio...".
"Em todas as disputas a que comparecem os professores de teologia ou de
filosofia, ocupará a presidência o Prefeito; dará aos que disputam o sinal de terminar; e
distribuirá o tempo de tal modo que a todos toque a sua vez de falar. Não permita que
nenhuma dificuldade sobre a qual se discute, fique, terminada a discussão, tão escura
como antes, mas procure que, uma vez ventilado um assunto, seja ele cuidadosamente
explicado pelo que preside. Nem deverá ele resolver as objecções, mas dirigir os
arguentes e os defendentes; e deste ofício se desempenhará com mais dignidade se
conseguir, não argumentando (ainda que uma vez ou outra convenha fazê-lo) mas
interrogando, que melhor se esclareça a dificuldade".
"No fim da aula, alguns alunos, cerca de dez, repitam entre si por meia hora o
que ouviram e um dos discípulos, da Companhia, se possível, presida à decúria".
"É de grande importância que não só aos nossos estudantes mas também aos
alunos internos, e, se possível, também aos externos, o Prefeito, por meio dos
Professores ou dos outros Prefeitos dos respectivos colégios lhes determine um horário
que reserve um bom tempo ao estudo privado".
"Procure que as declamações mensais dos retóricos, nas suas aulas, sejam
abrilhantadas pela presença não só dos retóricos e humanistas, senão também dos alunos
das classes superiores".
"A fim de que mais profundamente se gravem os exercícios literários, procure,
com o parecer do Reitor que, não só as classes de Retórica e humanidades mas também
de Gramática se fundem Academias, nas quais, em dias certos, segundo as normas fixas
indicadas no fim deste livro, se realizem por turnos, prelecções e outros exercícios de
um bom estudante".
"Segundo o costume de diferentes regiões, nomeie em cada classe um censor
público, ou, se não soar bem o nome de censor, um decurião-chefe ou pretor, ,e para que
seja mais respeitado pelos condiscípulos deverá ser distinguido com algum privilégio e
terá o direito de impor, com a aprovação do mestre, algumas penas menores aos
companheiros. Será ainda seu ofício observar se algum discípulo passeia pelo pátio
antes do sinal, se entra em outra aula, ou deixa a própria aula ou lugar. Leve também ao
conhecimento do Prefeito a falta de cada dia...".
"Por causa dos que faltarem ou na aplicação ou em pontos relativos aos bons
costumes e aos quais não bastarem as boas palavras e exortações, nomeie-se um
Corrector, que não seja da Companhia...".
"Ao sair, entregue cada um ao Prefeito do Ginásio ou ao seu substituto a própria
prova escrita com empenho e marcada com um sinal livremente escolhido, mas sem
nome; ao mesmo entregue também outro papel, onde, com o mesmo sinal se inscreva o
nome e cognome do autor, mas cuidadosamente sigilado de modo que senão possa ler o
nome".
"O desafio, que poderá organizar-se ou por perguntas do professor e correcção
dos émulos, ou por perguntas dos émulos entre si, deve ser tido em grande conta e posto
em prática sempre que o permitir o tempo, a fim de alimentar uma digna emulação, que
é de grande estímulo para os estudos. Poderá bater-se um contra um, ou grupo contra
grupo, sobretudo dos oficiais, ou um poderá provocar a vários; em geral um particular
poderá desafiar um oficial e se vencer conquistará a sua graduação, ou outro prémio ou
símbolo de vitória, conforme o exigir a dignidade da classe e o costume da região".
"Cada mês ou de dois em dois meses, deverão ser escolhidos os oficiais e
também, se parecer conveniente, premiados, salvo se na Retórica se julgasse, em algum

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

118

lugar, menos necessário. Para esta escolha haja uma prova escrita em prosa, outra, se se
julgar conveniente nas classes superiores, em poesia ou em grego, durante todo o tempo
da aula, a menos que nas classes inferiores não fosse preferível deixar meia hora para o
desafio. O que apresentar a melhor composição receberá a mais alta dignidade, os que
se lhe seguirem receberão os outros postos de honra aos quais, para maior aparência de
erudição, se atribuam títulos tirados da república ou do exército grego ou romano. Para
alimentar a emulação, por via de regra poderá a aula dividir-se em dois campos, cada
um com os seus oficiais, uns opostos aos outros, tendo cada aluno o seu émulo. Os
primeiros oficiais de ambos os campos ocuparão o lugar de honra".
"Nomeie também o professor os decuriões que deverão tomar as lições de cor,
recolher os exercícios para o professor, marcar "num caderno os erros de memória, os
que não trouxeram o exercício, ou não entregaram as duas cópias e observar tudo o mais
que lhes indicar o professor".
(Ratio Studiorum, cit. por LEONEL FRANCA, O método
pedagógico dos jesuítas, pp. 134-189.)

TEXTO 22

ALGUMAS NOTAS RELATIVAS À HISTÓRIA DA
UNIVERSIDADE DE ÉVORA
Foi no dia 1 de Novembro de 1559 que a Universidade de Évora foi solenemente
inaugurada. O Cardeal-Rei, seu fundador e impulsionador, curiosamente, não estava
presente, retido por afazeres mais urgentes. Mas as cerimónias oficiais e as festas na
Universidade e na cidade nem por isso tiveram menos brilho.
Na igreja da Universidade (actual Sala dos Actos) foi celebrada a missa
inaugural, no final da qual o mestre Simão Vieira proferiu em latim a Oração de
Sapiência. De seguida, foi lida a Bula do Papa Paulo IV instituindo a Universidade de
Évora, e, no final de tudo, entoou-se o Te Deum.
Seguiram-se as festas tendo a representação - com a duração de três horas - da
tragédia latina "El Rei Saúl", da autoria do mesmo Simão Vieira, constituído um
momento alto, tão alto que os telhados de onde se avistava a representação estiveram
pejados de espectadores que não queriam perder pitada. Foram três dias e três noites de
festa por toda a cidade, sem dúvida, uma das maiores festividades de sempre a que a
Évora terá assistido.

A SALA DOS ACTOS
A actual Sala dos Actos da Universidade de Évora foi a igreja do Colégio do
Espírito Santo, e depois, a partir de 1559, a primeira igreja da Universidade. Ali, foi
celebrada, em 1 de Novembro de 1559, a missa inaugural com leitura da Bula do Papa
Paulo IV, ali ecoou o cântico litúrgico, ali pregaram os padres professores da
Universidade e tantos outros que, de passagem, a honraram a com a sua visita, como S.
Francisco de Borja, Geral da Companhia de Jesus.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

119

Quando, em 1573, terminou no Largo do Colégio a construção da nova e actual
igreja do Espírito Santo a antiga igreja passou a servir como Sala dos Actos solenes da
Universidade.
Nela eram conferidos todos os graus com excepção do de doutor (em Teologia)
que era conferido na igreja. Mas, para além das cerimónias da vida académica, a sala foi
também palco de inúmeras sessões solenes entre as quais se destaca a recepção feita, em
10 de Agosto de 1635, ao futuro D. João IV, um dos grandes acontecimentos que em
Évora prepararam e anunciaram a restauração da independência.
Com o encerramento da Universidade em 1759, a sala caiu no abandono, e
principiou a degradação que chegaria a extremos nos finais do século passado. Em 1843
ainda foi ali que a cidade recebeu D. Maria II. Porém, já antes desta visita a sala tinha
sido espoliada dos seus 14 quadros idos para Lisboa a pretexto de figurarem no Museu
Nacional. Quando a cobertura ruiu, em 1868, perdeu-se o magnífico tecto, da autoria do
pintor Francisco Lopes, ao qual o Padre Manuel Fialho chamara de "céu do céu".
Durante quase trinta anos a sala ficou exposta ao vento e à chuva até receber nova
cúpula em 1897 por iniciativa do então reitor do Liceu Dr. António Maria Jales. Não
tinham, porém, terminado os maus momentos da sala, e a partir de 1905 foi outro reitor
do Liceu quem promoveu maior adulteração, nomeadamente ordenando a substituição
do seu pavimento em mármore de Alvito por vulgar soalho de madeira, e a retirada das
bancadas doutorais de ambos os lados. Ficaram as pedras amontoadas no pátio do
Claustro até que algumas foram guardadas numa arrecadação da lenha. Assim, em 1910,
a sala estava apta a tornar-se um ginásio e a servir de salão das festas liceais.
Foi só a partir de 1930 que à antiga Sala dos Actos recomeçou a ser restituída a
sua beleza. Sob o impulso do novo Reitor do Liceu, Dr. António Bartolomeu Gromicho,
procedeu-se ao restauro da sala segundo estudos e projecto do Eng. António do Couto.
Os mármores das bancadas que ainda restavam foram devolvidos aos seus lugares, e os
que faltavam, tal como aconteceu com os azulejos desaparecidos ou danificados, foram
substituídos por outros criados no estilo dos existentes. Foi colocado um novo tecto em
madeira e um novo pavimento em substituição do soalho. Foi assim que em finais dos
anos 30 a sala adquiriu o aspecto com que a conhecemos hoje.
Apesar das obras de restauro que foram realizadas, nunca a sala readquiriu a
beleza e a riqueza que apresentava à data do encerramento da Universidade em 1759.
Muito se perdeu por incúria e outro tanto por malvadez. É o caso da afamada formosa
cátedra reitoral feita com madeiras do Brasil e apoiada sobre três leões. Desapareceu,
roubada aos pedaços por uma janela por não poder sair inteira pelas portas sem que
desse nas vistas. Dos quadros perderam-se todos com excepção dos de D. Sebastião e do
Cardeal-Rei D. Henrique. Conhecemos os que faltam pela descriçao feita pelo Padre
Manuel Fialho, que descreveu também as pinturas do tecto.
Da história da Sala dos Actos após a restauração da Universidade de Évora não
cumpre tratar aqui agora. Ela tem continuado a ser ao longo destes quase vinte anos a
sala dos grandes actos da vida da instituição, a sala em que se realizam as principais
provas académicas, onde se comemora solenemente o Dia da Universidade, e também a
sala de visitas em que a Universidade tem acolhido grandes figuras a quem tem
homenageado com a concessão do grau de doutor honoris causa desde Leopold Senghor
até D. Ximenes Belo.
Os que se têm dedicado ao estudo da história da Sala dos Actos quase todos têm
insistido na pertinência de se proceder a um restauro mais completo baseado nas
descrições que temos daquilo a Sala foi na sua época áurea. O Dr. Bartolomeu
Gromicho, por exemplo, ainda em 1950 sonhava com devolver-lhe o magnífico tecto
pintado e suas figuras alegóricas, os seus 14 quadros, a cátedra e os seus leões, a
decoração complementar das paredes, etc.. Tudo deveria ser refeito por mão de artistas

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

120

idóneos dispostos a abdicar do seu estilo e a integrarem-se no espírito das obras
desaparecidas. Propostas deste teor serão certamente discutíveis à luz das actuais
sensibilidades face ao património. O certo, porém, é que hoje só temos esta Sala dos
Actos porque em determinada altura se procedeu ao seu restauro segundo critérios que
nunca foram nem serão consensuais.
Para além desse polémico restauro material ficam-nos, contudo, ainda duas
hipóteses de reconstituição da antiga Sala dos Actos.
A primeira consiste em, lidas as descrições da antiga beleza da sala, e avivada a
memória para os seus grandes momentos, fecharmos os olhos. Vemos, então, aqui o
Cardeal fundador presidindo ao Te Deum, ali o jovem D. Sebastião ainda ignorante do
seu destino, e acolá o Duque de Bragança, espicaçado a tomar a nação nas mãos pelo
sermão do Padre Francisco Freire de Estremoz. Num turbilhão de música, sermões, e
fumo de incenso, enebriados, saímos para nos sentarmos no Claustro aspirando o ar
fresco da manhã.
A outra hipótese consistiria em utilizar as virtualidades do multimedia para
recriarmos a antiga Sala dos Actos sem lhe tocarmos e nos sujeitarmos à crítica dos
mais e dos menos doutos. Uma sugestão, talvez para a Fundação Luis de Molina.
Casimiro Amado
Publicado no Jornal da Universidade de Évora, Ano I, nº 1, Julho de 1998

A BIBLIOTECA
Na Antiga Universidade de Évora a Biblioteca ombreava com a Sala dos Actos e
o Refeitório em beleza e grandiosidade.
Nessa fase da vida da Universidade, designada de Livraria, a Biblioteca
funcionou em dois locais distintos. Primeiro, na actual sala hoje geralmente destinada às
reuniões do Senado e demais Órgãos da Universidade. De notar que as pinturas a fresco
que a ornamentam são já posteriores à extinção da Antiga Universidade, datando de
cerca de 1800.
Depois, em 1626, provavelmente devido ao crescimento do número de livros e
também ao aumento do número de alunos matriculados na Universidade, iniciou-se a
construção de uma nova sala que servisse como Livraria. Foi tal o empenho colocado
no seu apetrechamento e na sua decoração que, merecidamente, lhe seria aposta mais
tarde sobre a porta de entrada a inscrição "Sala das Belas Artes". Apenas por volta de
1631 entrou em funcionamento dotada de cadeiras, estantes e demais mobiliário tudo
em pau santo, bem como de um altar com a imagem da Virgem. Após 1759, com o
encerramento da Universidade, foi despojada de praticamente tudo desde os livros ao
mobiliário. De valioso salvou-se o tecto, de estuque, feito em 1708, com pinturas a
fresco. Contudo, as mesmas foram-se arruinando até que alguns painéis caíram já na
década de cinquenta do nosso século. Da sala, onde então funcionava o Arquivo do
Registo Civil, foi feito um completo restauro pela Direcção Geral dos Monumentos
Nacionais, ficando a partir de 1959 novamente a servir de Biblioteca, desta feita do
Liceu. Com a restauração da Universidade de Évora foi também aí que funcionou
durante anos a Biblioteca. O aumento de espécies bibliográficas determinou que esta se
fosse alargando a novos espaços, e a sala "das Belas Artes" ficou comportando apenas
as publicações periódicas e servindo de sala de estudo. Uma bela sala de estudo, sem
dúvida.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

121

Relativamente à Biblioteca da Antiga Universidade de Évora não sabemos o que
foi feito dos milhares de livros impressos e manuscritos que comportava quando foi
encerrada, admitindo-se, contudo, que parte deles possa ter sido recuperada por Frei
Manuel do Cenáculo. Encontramos no seu Regulamento que era um Capítulo dos
próprios Estatutos da Universidade um instrumento precioso não só para
compreendermos como na Antiga Universidade funcionava a Biblioteca, mas também
para ajuizarmos dos cuidados que na época mereciam os livros.
Casimiro Amado
Publicado no Jornal da Universidade de Évora, Ano I, nº 2, Outubro de 1998

Dos Primeiros Estatutos da Universidade de Évora
Cap. 10º Da Liuraria
1. Auera nas escolas huma casa pera liuraria da
Universidade, na qual estarão liuros de todas as faculdades em
abastança postos em estantes e prezos por cadeas e
emcadernados em tauoas com suas brochas, com seus titulos de
boa letra.
2. O Bedel tera cuidado da casa da dita liuraria, abrindoa
e fechandoa com diligencia duas vezes no dia. No inuerno se
abrira às horas da menhãa, e fecharse á às 11; e à tarde se
abrira às duas horas e fecharse á às 5. E no uerão se abrira às 3
horas e se fechara às 6. E nestas horas estara elle presente, ou
alguma pessoa em seu lugar, pera que os estudantes, que neste
tempo quiserem ir la a estudar pellos ditos liuros, o possão
fazer.
3. O dito guarda da liuraria tera grande uigia sobre os
ditos liuros, que senão furtem nem se tratem mal, e serão sobre
elle carregados em receita e todas as cousas da liuraria pello
escriuão da Uniuersidade em hum liuro sobre si, pera que de
conta de tudo o que faltar e porse ha hum edito à porta da dita
liuraria, assinado pello Reitor, em que mande a todos os
estudantes, e mais pessoas da Uniuersidade, que entrem na dita
casa, que não tirem liuro algum nem parte delle, nem ponhão
cota nenhuma nos ditos liuros, e que quando sairem os serrem e
fechem com todas as brochas que os ditos liuros tiuerem. E que
emquanto estiuerem na dita casa procurem ter modestia e
quietação pera senão estrouarem huns aos outros; e quem o
contrairo fizer sera castigado, segundo que ao Reitor parecer.
4. Tera cuidado o dito guarda de alimpar os ditos liuros e
sacudilos do pô huma vez na semana, e mandar uarrer a casa
duas vezes na semana, pello menos; e quando achar menos
algum liuro, o fara logo saber ao Reitor, pera que mande fazer
diligencia pera se saber quem o leuou, e pera se cobrar e castigar

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

122

quem nisso tiuer culpa. E tendoa o guarda, e não se achando o
liuro, se comprara outro semelhante do seu salario.
5.A dita liuraria sera cada ano uisitada no principio das ferias
pello Reitor com ajuda dos lentes que lhe parecer o poderão
mais pera isso ajudar; e o dito Reitor com os ditos estando
presente o escriuão da Uniuersidade, e o guarda da dita liuraria
uera os liuros de cada faculdade como estão tratados. E se achar
que estam damnificados por culpa dos que nelles estudarão, o
Reitor mandara pello guarda amoestrar que o não fação, e
mandara reprender disso aos estudantes nas liçõens, e não
bastando os mandara castigar conforme a culpa que tiuerem. E
achando o guarda culpado, o Reitor o reprendera e multara
como lhe parecer, comunicandoo com as pessoas com que fizer
a dita uisitação.
Transcrito por Armando de Gusmão e publicado com notas
marginais e outras (que aqui omitimos) in A Cidade de
Évora, II, (7-8), Junho-Setembro de 1944, pp. 21-23.

O REFEITÓRIO
O Refeitório (actual Sala 129) da Antiga Universidade de Évora foi construído
no último quartel do século XVI, tendo recebido a sua primeira cobertura em 1589. Com
o passar dos anos a sala sofreu diversas transformações sem, contudo, alguma vez ter
perdido os seus traços originais. A abóboda que hoje temos é já a terceira, mas as oito
majestosas colunas dóricas de mármore são as que recebeu de início. Tem-se como certo
que são provenientes do arco triunfal romano que até 1570 existiu na Praça (hoje) do
Giraldo, arco esse que o Cardeal-Rei mandou demolir com indicação de que se
aproveitassem as colunas no edifício universitário em construção.
A sala do Refeitório, com os seus 325 m2, destaca-se pela sua monumentalidade
austera. Numa época em que ainda não existia a arte moderna do self-service as
refeições reuniam a família universitária, não só para saciar a fome mas também - à falta
de televisão... - para escutar as leituras que na tribuna se faziam durante parte do
repasto. O Refeitório era, pois, mais, muito mais do que uma cantina universitária dos
nossos dias.
Outras duas dependências lhe estavam naturalmente anexas: a Cozinha e a Casa
do Lavabo ou Lavatório. A primeira, espaçosa, com suas grandes mesas de mármore resta hoje apenas uma, tendo outra sido retirada ainda há poucos anos - tem o seu espaço
actualmente ocupado pelo Bar. A Casa do Lavabo ou Lavatório, com a respectiva fonte,
aí continua no mesmo lugar ao fundo das escadas que descem do piso superior e à
entrada de quem vem do Pátio da Cisterna. Era na fonte que os comensais procediam à
lavagem das mãos antes e depois das refeições. Hoje, seca e muda, a fonte nada diz aos
que por ali passam a caminho do Bar que substituiu a Cozinha, ou da Sala 129, onde já
não se vai para saciar a fome do corpo, mas para pedir ao silêncio e ao gelo branco das
suas pedras inspiração para mais uma Prova de Frequência ou de Exame.
E se a fonte falasse, e ao menos dissesse ...
Casimiro Amado
Publicado no Jornal da Universidade de Évora, Ano I, nº 2, Outubro de 1998

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

123

1999 - 25 anos da restauração da Universidade
Aproximam-se as comemorações da restauração da Universidade de Évora há 25
anos atrás. Foi pelo Decreto-lei 482/79 que, 220 anos após os seu encerramento forçado
por ordem do Marquês de Pombal, ela renasceu para uma nova fase da sua existência
que chega agora ao quarto de século.
Na realidade, a restauração ocorrida em 1979 foi o culminar de um processo que
desde os finais da década de cinquenta foi evoluindo no sentido de a tornar possível. No
jornal eborense "A Defesa" desde 1957 que os Cónegos Drs. Sebastião Martins dos Reis
e José Augusto Alegria desenvolve uma campanha com vista ao restabelecimento da
Universidade, campanha que se inscreve na proximidade das comemorações dali a dois
anos do quarto centenário da abertura da Universidade e do segundo do seu
encerramento. 1959 seria, portanto, a ocasião de o Alentejo voltar a ter a sua
Universidade, eventualmente ao cuidado da mesma Companhia de Jesus. A polémica
desenvolve-se não só no referido jornal, mas também no palco político com sucessivas
iniciativas do Conselho Municipal de Évora e da Câmara Municipal e do seu Presidente
de então Dr. João Luís Vieira da Silva. Foi precisamente este quem lançou a sugestão de
que a Universidade se fundasse com destino à investigação e estudos especializados de
sociologia e economia agrária, argumentando que se tratava de ramos em que não se
concorria com as universidades já existentes no país. A oposição à restauração da
Universidade provinha no plano político fundamentalmente do Dr. Bartolomeu
Gromicho, Reitor do Liceu e Deputado pelo círculo de Évora à Assembleia Nacional, o
qual se opunha pricipalmente para defender a manutenção do Liceu nas suas instalações
de então, para mais aliviadas com a saída da Casa Pia para o Convento de S. Bento de
Cástris. A Câmara Municipal reagiu facilitando a rápida construção de um novo edifício
destinado ao Liceu Feminino.
Entretanto, 1959, o ano da comemoração dos centenários, foi o palco de diversas
iniciativas de que o Congresso Científico foi a mais importante ao reunir universitário e
investigadores de mais de uma dúzia de países. Como no plano prático nada se alterasse,
foi enviada uma exposição ao Ministro da Educação Nacional que respondeu com a
impossibilidade de criação de uma Universidade, ou até mesmo de uma Faculdade em
Évora. Pensava-se, isso sim, já na criação de Institutos Superiores de tipo politécnico
que aliviassem a pressão sobre as Universidades, mas tratava-se apenas de uma ideia em
estudo. Os articulistas de A Defesa não desarmaram nunca, e geralmente sob
pseudónimo, apesar de se tratar de eclesiásticos, mantiveram sempre acessa a chama da
reivindicação. E em 1962 quase Évora conseguiu atrair a Faculdade Pontifícia de
Filosofia que a Companhia de Jesus tinha instalada em Braga em condições deficientes.
A cidade de Braga reagiu e Évora teve de esperar um pouco mais pela sua hora.
Ela chegou em 1963 com a criação da Fundação Eugénio de Almeida. Os seus
Estatutos previam que auxiliasse a criação e manutenção de um Instituto de Estudos
Superiores em Évora, orientado pela Companhia de Jesus. Não era ainda a Universidade
de Évora, mas sim os estudos superiores que regressavam a Évora pela mão de um
mecenas - o Conde de Vilalva, Engº Vasco Maria Eugénio de Almeida - e da
Companhia de Jesus. O Estado nada gastaria para o efeito, já que o Instituto Superior de
Estudos Sociais de Évora, cuja criação foi ministerialmente autorizada em Março de
1964, funcionaria em edifício cedido pela Fundação - o Palácio da Inquisição que
recentemente deixara de ser o Hotel Alentejo - e com um corpo docente recrutado pela
Companhia. As aulas começaram nos finais de Outubro, mas o processo foi algo
atribulado sendo disso reflexo o facto de a inauguração oficial que simbolicamente
devia ter sido feita em 1 de Novembro não ter chegado a realizar-se. Eram dois os

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

124

cursos ministrados: Economia (Direcção e Administração de Empresas) e Sociologia
(Ciências Sociais).
Em 1971, quando o Ministro Veiga Simão anuncia o seu plano de Reforma do
Ensino Superior, o facto de já existirem em funcionamento desde há anos os dois cursos
superiores do ISESE pesam como argumento a favor da inclusão de Évora entre as
cidades onde deveriam ser criados novos cursos superiores agora de iniciativa pública. E
em Dezembro de 1972 foi finalmente anunciada a criação do Instituto Universitário de
Évora após uma dura batalha em que diversas capitais de distrito disputaram a
localização dos três Institutos que o Governo decidira criar. O novo Instituto, legalmente
instituído pelo Decreto 402/73 de 11 de Agosto, integrará os cursos do ISESE e
arrancará com novos cursos superiores de Agricultura, Pecuária, e Gestão Agrícola, a
criar na Escola de Regentes Agrícolas. O Instituto seria, portanto, composto por duas
escolas, uma particular e outra oficial, e em 4 de Janeiro de 1974 tomou posse o Reitor,
Prof. Ário Lobo de Azevedo, e a Comissão Instaladora.
No período que medeia entre 1974 e a criação da Universidade em 1979 a
história da instituição conheceu vicissitudes várias ao sabor dos tempos controversos
que a região e o país viveram, designadamente no que toca ao funcionamento do ISESE.
Finalmente, em 14 de Dezembro de 1979 foi restaurada a Universidade de Évora
Casimiro Amado
Publicado no Jornal da Universidade de Évora, Ano , nº , de 199

Decreto-Lei nº 482/79, de 14 de Dezembro
A Lei nº 5/73, de 25 de Julho, distinguiu dois tipos de
estabelecimentos de ensino superior oficial: os do ensino
universitário, genericamente designados por Universidades, e os
de ensino não universitário, designados por Institutros
Politécnicos, Escolas Normais Superiores e outros equiparados,
tendo aos primeiros sido dada a faculdade de conferirem os
graus académicos de bacharel, licenciado e doutor e aos
segundos a de conferirem unicamente o grau de bacharel.
Tal destrinça viria a ser mantida no Decreto-Lei nº
402/73, de 11 de Agosto, diploma onde os Institutos
Universitários, continuando embora a conferir os mesmos graus
que as Universidades propriamente ditas e a estar incursos na
aplicação do diploma orientador do ensino superior na parte a
estas respeitante, são essencialmente definiddos como
instituições de ensino universitário que se individualizam por
terem uma vocação dominante ou um grau de
pluridisciplinaridade limitado.
Presentemente, há, no entanto, que reconhecer que o
perfil institucional do Instituto Universitário de Évora já não
corresponde ao que no Decreto-Lei nº 402/73 de 11 de Agosto,
é apresentado como característico dos Institutos Universitários.
Isto porque o conjunto dos cursos de licenciatura que nele hoje
são professados inviabiliza, pelo seu número e diversidade
qualitativa, a possibilidade de o referido Instituto permanecer

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

125

incluído no rol das instituições de ensino universitário com uma
vocação dominante ou grau de disciplinaridade limitado.
Nestas circunstâncias, mais não cumpre que proceder ao
devido enquadramento legal da situação de facto existente, já
que outro não é o meio ajustado de ir ao encontro da realidade
concretamente criada naquela instituição de ensino
universitário.
Assim:
O Governo decreta, nos termos da alínea a) do nº 1 do artigo
201º da Constituição, o seguinte:
Artigo único. É criada, em lugar do Instituto Universitário de
Évora, que fica extinto, a Universidade de Évora, para a qual se
consideram transferidos, com dispensa de quaisquer
formalidades, todos os direitos e obrigações de que aquele é
titular.
Maria de Lourdes Ruivo da Silva Matos Pintasilgo - Luís
Eugénio Caldas Veiga da Cunha.
Promulgado em 30 de Novembro de 1979.
Publique-se.
O Presidente da República, ANTÓNIO RAMALHO
EANES.

ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
I. Questionário
1. Que acontecimentos desencadearam a Reforma Protestante?
2. Em que escritos e com que argumentos defende Lutero o princípio da instrução
pública e o carácter universal de um mínimo educativo?
3. Qual o significado religioso do princípio do "livre-exame"?
4. Quais as suas implicações a nível educativo?
5. Como reagiu Roma à Reforma Protestante ?
6. Com que objectivos foram criados a Inquisição e do Índex?
7. Com que fim e com que resultados se realizou o Concílio de Trento?
8. Em que circunstâncias foi criada a Companhia de Jesus?
9. Que importância adquiriu a actividade educativa no seu seio?

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

126

10. Quais as principais características do "método jesuítico" tal como é exposto na
Ratio Studiorum?
11. Quais os seus aspectos mais controversos?
12. Em que circunstâncias da vida política nacional foi criado o Colégio do Espírito
Santo (1553) e, logo depois (1559), a Universidade de Évora?
13. Qual a importância política e cultural da cidade de Évora no século XVI?
14. Que faculdades tinha a antiga Universidade de Évora?
15. Que instituições tinha agregadas a si?
16. Que envergadura atingiu ?
17. Para que fins serviu o edifício do Colégio do Espírito Santo desde o encerramento
da Universidade em 1759 até à re(abertura) da Universidade em 1979?
II. Elabore um texto articulando os seguintes conceitos. Intitule-o.
. "Reforma Protestante", "educação pública", "educação universal".

BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
ABBAGNANO, N., e VISALBERGHI, A., História da Pedagogia ­ II, Livros
Horizonte, Lisboa, 1981, 318-335.
CLAUSSE, Arnould, A Relatividade Educativa, esboço de uma história e de uma
filosofia da escola, Livraria Almedina, Coimbra, 1976, pp. 141-146.
DEBESSE, Maurice, "A Renascença", in AAvv, Tratado das Ciências Pedagógicas 2.
História da Pedagogia, Companhia Editora Nacional / Editora da Universidade de S.
Paulo, S. Paulo, 1977, pp. 212-217; 231-2358.
HUBERT, René, História da Pedagogia, Companhia Editora Nacional, S. Paulo,
1967, p. 42-52.
LARROYO, Francisco, História Geral da Pedagogia, Editora Mestre Jou, S. Paulo,
1970, pp. 379-393.
MESNARD, Pierre, "A Pedagogia dos Jesuítas (1548-1762)", in CHÂTEAU, Jean
(Dir.), Os grandes pedagogos, Livros do Brasil, Lisboa, s/d, pp. 58-124.
PONCE, Anibal, Educação e luta de classes, Editorial Vega, Lisboa, 1979, pp.
153-161.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

127

4.3. Educação e pedagogia no século XVII
4.3.1. A pedagogia comeniana

Resumo: O século XVII surge-nos, do ponto de vista da história da educação e das
ideias pedagógicas, caracterizado por uma tríade que faz dele um momento decisivo no
sentido da ruptura com a matriz estrutural da educação e da pedagogia ocidentais tal
como se tinham definido a partir da sofística grega e confirmado no período helenístico.
Essa tríade envolve a defesa do realismo, de uma educação voltada para o estudo das
coisas em lugar do verbalismo característico da educação ocidental, a consideração da
educação sob o ponto de vista do método ­ levando à criação da Didáctica tomada como
o saber pedagógico por excelência -, e a afirmação das línguas nacionais como línguas
de educação e cultura. Motivos sobejos para considerar este século um patamar decisivo
a caminho da Educação Nova que no século seguinte espreita já na pedagogia
rousseauísta e que acabará por gradualmente se impor nos séculos XIX e XIX. No
entanto, paradoxalmente, os mesmos pedagogos que no século XVII renovam a
educação são ­ como argutamente observa Snyders - os instituidores da escola
tradicional no que ela tem de exagero do "método" e da "ordem".
A figura de Coménio sobressai neste contexto não só por nele a referida tríade
de princípios ser lei mas porque ele terá sido não apenas um dos maiores pedagogos de
todos os tempos, mas provavelmente o primeiro pedagogo de sempre, ou seja, o
primeiro pensador cuja produção intelectual tem a educação como fulcro e como
matéria.
Objectivos:
- Identificar as três características principais do século XVII em temos educativos e
pedagógicos: defesa do realismo, do método e da utilização das línguas nacionais.
- Compreender o significado do realismo em termos pedagógicos no contexto da
afirmação da filosofia empirista.
- Compreender a valorização do método em termos pedagógicos no contexto de idêntica
valorização no âmbito das ciências da natureza (Novum Organum, de Bacon) e da
filosofia (Discurso do Método, de Descartes).
- Comprender o significado da criação de uma nova ciência pedagógica ­ a Didáctica - à
qual se pretende reduzir todo o saber acerca da educação.
- Conhecer as implicações da abordagem metodológica, tais como a criação de um
sistema de horário escolar com rotação acentuada das disciplinas, em termos mais
gerais, com a "escola-relógio" de Coménio.
- Conhecer as regras fundamentais propostas pelo fundador da Didáctica (Ranke).
- Conhecer os principais elementos biográficos e bibliográficos relativos a Coménio.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

128

- Compreender como as preocupações de ordem religiosa são decisivas no pensamento
pedagógico de Coménio.
- Compreender, nesta perspectiva, a sua defesa de que "tudo seja ensinado a todos",
com atenção ao âmbito do referido "tudo".
- Identificar o entendimento comeniano do método na educação ao nível dos princípios
como ao nível dos momentos a seguir.
- Compreensão do curriculum escolar formativo proposto por Coménio e identificação
dos diversos tipos de escolas implicados.
- Identificação dos contributos educativos e pedagógicos fundamentais da Congregação
do Oratório e dos Irmãos das Escolas Cristãs.
ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
"O século XVII sacode a Europa com um forte movimento intelectual. Supera-se
definitivamente a ciência dos antigos; na Terra descobrem-se novos países; no céu,
novas estrelas; nas ciências novas leis. Por isto já não se pode manter o velho tipo de
educação predominantemente filológico e humanista. Onde a vida fala, não se pode
impor a autoridade da letra." Francisco Larroyo
"Assim como os novos métodos abalam a tradição da ciência, assim também se
pretende suprir a rotina tradicional de ensino com métodos racionais. Estes afectam,
primeiro, a reforma do ensino de idiomas; depois, a das matérias científicas, buscando
uma ordem e norma que respondam à natureza das coisas. Assim surge uma nova
Didáctica como a parte da teoria da Educação, que trata de metodizar o processo de
aprendizagem". Francisco Larroyo
"... a Didáctica Magna (...) é, sem dúvida, o primeiro tratado sistemático de
pedagogia, de didáctica e até de sociologia escolar. Como que compendiando todo o
ideário pedagógico de Coménio, foi sobretudo ela que lhe mereceu ser considerado o
«Bacon da pedagogia» e o «Galileu da educação»." Joaquim Ferreira Gomes
"Em João Amós Coménio se reúnem todas as tentativas de reforma pedagógica
do século XVII. Para isso contribuiu grandemente a intensa renovação da vida social
naquela época, pois a vida da educação constitui uma trama de acontecimentos
inseparavelmente unidos à cultura da época; e os grandes teóricos da Pedagogia são os
que inventam as novas instituições pedagógicas que vêm satisfazer as exig~encias dos
novos tipos históricos de educação". Francisco Larroyo

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

129

Textos para Análise : TEXTO 23
TEXTO 23

COMÉNIO (1592-1670)

Didáctica Magna (1657)
SAUDAÇÃO AOS LEITORES
1. Didáctica significa arte de ensinar. Acerca desta arte, desde há pouco tempo,
alguns homens eminentes, tocados de piedade pelos alunos condenados a rebolar o
rochedo de Sísifo, puseram-se a fazer investigações, com resultados diferentes.
2. Alguns esforçaram-se por arranjar compêndios apenas para ensinar mais
facilmente, esta ou aquela língua. Outros procuraram encontrar os métodos mais breves
para ensinar, mais rapidamente, esta ou aquela ciência ou arte. Outros fizeram outras
tentativas. Quase todos por meio de algumas observações externas recolhidas com o
método mais fácil, ou seja, com o método prático, isto é, a posteriori, como lhe
chamam.
3. Nós ousamos prometer uma Didáctica Magna, isto é, um método universal de
ensinar tudo a todos. E de ensinar com tal certeza que seja impossível não conseguir
bons resultados. E de ensinar rapidamente, ou seja, sem nenhum enfado e sem nenhum
aborrecimento para os alunos e para os professores, mas antes com sumo prazer para
uns e para outros. E de ensinar solidamente, não superficialmente e apenas com
palavras, mas encaminhando os alunos para uma verdadeira instrução, para os bons
costumes e para a piedade sincera. Enfim, demonstraremos todas estas coisas apriori,
isto é, derivando-as da própria natureza imutável das coisas, como de uma fonte viva
que produz eternos arroios que vão, de novo, reunir-se num único rio; assim
estabelecemos um método universal de fundar escolas universais.
4. Na verdade, a promessa que fazemos é enorme e corresponde a um desejo
muito vivo, mas podemos fàci1mente imaginar que haverá pessoas que nela verão mais
um sonho que um propósito fundado na realidade. No entanto, quem quer que tu sejas,
leitor, suspende o teu juízo, até que tenhas conhecido a substância das coisas; então
terás a liberdade, não somente de julgar, mas também de te pronunciares. Com efeito, eu
não desejo, para não dizer que não ambiciono, arrastar ninguém, com os artifícios da
persuasão, a dar o seu assentimento a uma coisa que não oferece qualquer certeza. Mas,

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

130

com toda a alma, advirto, exorto e suplico, a quem quer que olhe o nosso trabalho, que
nele fixe o seu próprio olhar e que o fixe com toda a sua penetração, pois é o único meio
de se não deixar perturbar pelas opiniões fascinantes de outrem.
5. O assunto é realmente da mais séria importância e, assim como todos devem
augurar que ele se concretize, assim também todos devem examiná-lo com bom senso, e
todos, unindo as suas próprias forças, o devem impulsionar, pois dele depende a
salvação de todo o género humano. Que presente mais belo e maior podemos nós
oferecer à Pátria que o de instruir e educar a juventude, principalmente quando, pelos
costumes e pelas condições dos tempos actuais, a juventude, como diz Cícero1, entrou
num tal caminho que, com os esforços de todos, deve ser travada e refreada? Filipe
Melanchton, com efeito, escreveu que a educação perfeita da juventude é coisa um
pouco mais difícil que tomada de Tróia2. E S. Gregório Nazianzeno pensa da mesma
maneira quando diz: , , ,
isto é, a arte das artes está em formar o homem, o qual o mais versátil e o mais
complexo de todos os animais3.
6. Ensinar a arte das artes é, portanto, um trabalho sério e exige perspicácia de
juízo, e não apenas de um só homem, mas de muitos, pois um só homem não pode estar
tão atento que lhe não passem desapercebidas muitíssimas coisas.
7. É por isso que, com razão, peço aos meus leitores, mais ainda, em nome da
salvação do género humano, suplico a todos aqueles que tiverem ocasião de lançar um
olhar sobre a minha obra: primeiro, que não imputem presunção o facto de ter havido
alguém que, não apenas tenha tentado, mas ousado prometer levar a bom termo tão
grande empresa, pois esta foi empreendida com um objectivo salutar. Segundo, que não
desesperem se a experiência não resultar logo ao primeiro ensaio, e não der
completamente os resultados desejados. É necessário, com efeito, que primeiro
germinem as mentes das coisas; estas virão a seguir, gradualmente, segundo a sua
natureza. Por mais imperfeita que seja minha tentativa e não chegue a atingir o objectivo
que eu me havia proposto, o meu exemplo trará, todavia, ao menos, a prova de que foi
percorrida uma longa etapa que jamais havia sido percorrida e que o cume a escalar está
mais próximo que até aqui. Enfim, peço aos meus leitores que prestem atenção, sejam
corajosos e julguem com liberdade e perspicácia, como convém nas coisas da máxima
importância. Dito isto, é meu dever, por um lado, indicar em poucas palavras aquilo que
me proporcionou a ocasião de empreender este trabalho, e, por outro lado, resumir as
principais características das novidades que ele contém, antes de o entregar, com inteira
confiança, à boa fé e às ulteriores investigações de todos aqueles que julgam com
sensatez.
8. Esta arte de ensinar e de aprender, levada ao ponto de perfeição que parece
agora esforçar-se por atingir, foi, em boa parte, desconhecida nos séculos passados e,
por esse facto, os estudos e as escolas curvavam ao peso de fadigas e de caprichos, de
hesitações e de ilusões, de erros e de faltas, de tal maneira que apenas podiam adquirir, à
força de lutar, uma instrução sólida, aqueles que tinham a felicidade de possuir uma
inteligência divina.
9. Mas, desde há algum tempo, Deus começou a propiciar-se do século nascente,
verdadeiramente novo, direi quase uma aurora, e suscitou, na Alemanha, alguns homens
de bem que, desgostosos com a confusão dos métodos utilizados nas escolas, se
puseram a investigar um método mais curto e mais fácil para ensinar as línguas e as
artes; depois dos primeiros vieram outros, e precisamente por isso alguns obtiveram
1

CÍCERO, De divinatione, Lib. II, c. 2, § 4.
Melanchthon a Camerarius, em 19 de Setembro de 1544. Corpus Reformatorum (Ph. Melanch. Opera Omnia, Halle, 1834 e ss.),
V, 481.
3
S. GREGÓRI0 NAZIANZENO, Oratio sec. Apolog.., 16 (MIGNE, Patrologia Graeca, vol. 35, col. 425).
2

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

131

sucesso maior que outros, como se revela evidente pelos livros e ensaios didácticos por
eles publicados.
10. Quero referir-me a Ratke1, Lubin2, Helwig3, Ritter4, Bodin5, Glaum6,
Vogello7, Wolfstirn8, e àquele que deveria ser nomeado entre os primeiros, João
Valentim Andrea9 (o qual, assim como pôs a claro os males da Igreja e do Estado, assim
também, aqui e além, nos seus escritos puros como oiro, mostrou os males das escolas
e, em vários lugares, indicou os remédios), e a outros, se os há, os quais nos são ainda
desconhecidos. A própria França começou a rebolar esse rochedo, quando Jean-Cécile
Frey10 publicou, em Paris, em 1629, uma excelente didáctica, sob o título Novo e
rapidíssimo método que conduz às ciências divinas, às artes, às línguas e aos discursos
improvisados.
11. Tendo-se-me apresentado a ocasião de toda a parte, pus-me a ler os livros
desses escritores; e se dissesse quanto prazer experimentei e como foram grandemente
aliviadas as dores em mim provocadas pela ruína da minha pátria e pelo triste estado de
toda a Germânia, ninguém me acreditaria. Comecei, na verdade, a esperar que a
Providência divina não fazia coincidir em vão todos esses infortúnios, uma vez que, à
ruína das velhas escolas correspondia, ao mesmo tempo, a eclosão de escolas novas no
quadro de projectos novos. Com efeito, quem projecta construir um novo edifício
começa habitualmente por aplanar o terreno, indo até à demolição do velho edifício,
pouco cómodo e a ameaçar ruína.
12. Este pensamento despertava em mim uma bela esperança acompanhada de
um doce prazer; mas, a seguir, apercebi-me de que, pouco a pouco, a esperança se
diluia, uma vez que, querendo desentulhar o terreno completamente, de baixo até cima,
julgava não ser capaz de tão grande empresa.
13. Por isso, desejando possuir informações mais completas sobre certos pontos
e dar a minha opinião sobre alguns outros, escrevi a um, a um outro e depois a um
terceiro dos autores atrás citados, mas em vão, pois, por um lado, quase todos
guardaram ciosamente segredo a respeito das suas descobertas e, por outro lado, as
minhas cartas foram-me devolvidas sem resposta, porque os destinatários eram
desconhecidos no endereço indicado.
Schriften, Leipzig, 1892-93).
2
EILHARDUS LUBINUS (IS6S-1621), Novi Jesu Christi Testamenti Graeco-Latino-Germanicae editionis pars prima... Cum
praeli- minari... epistola, in qua de Latina lingua compendiose a pueris addiscenda exponitur,1617. Coménio cita pela 2.&
edição: Rostock, 1626 (Cf. Opera Didactica Omnia, pars II, col. 71 e ss.).
3
CHRISTOPH HELWIG (1581-1617) escreveu, de colaboração com Ratke, uma Didáctica, publicada postumamente:
Christophori Helvici... libri didactici grammaticae universalis Latinae, Graecae Hebraicae, Chaldaicae, una cum generalis
Didacticae delineatione et speciali ad colloquia familiaria applicalione, Giessen, 1619.
4
STEPHANUS RITTER, Nova Didactica, das ist wohlmeinender und in der Vemunft wohlhegriindeler Unterricht, durch was
Mittel und Weis die Jugend die lateinische Sprach mit viel weniger als sonsten anzuwendeten Müh und Zeit fassen und begreifen
möge, 1621.
5
ELIAS BODINUS, Bericht von der Natur-und vernunftsmessigen Didactica oder Lehrkunst: Nebenst hellen und sonnenklaren
Beweiss, wie heutigen T ages der studirenden Jugend die rechten fundamenta verruckt und entzogen werden, Hamburgo, 1621.
6

PHILIPP GLAUM, Disputatio Castellana de methodo docendi artem quamvis intra octiduum, Giessen, 1621.
EZECHIEL VOGEL, Ephemerides totius linguae latinae unius anni spatio duabus singulorum dierum profestorum horis juxta
praemissam didacticam ex vero fundamento facili methodo docendae et discendae, 2.a ed., Leipzig, 1631. (Cf. Opera Didactica
Omnia, pars II, col. 81).
8
JACOB WOLFFSTIRN, Schola privata, hoc est nova et compendiosissima ratio informandae pueritiae a primis litterarum
(linguae Latinae et Germanicae) elementis usque ad perfectam grammatici sermonis cognitionem, Bremen, 1619. (2.ª ed., 1641).
9
JOH. VAL. ANDREA (1586-1654). Dos escritos deste teólogo de Württemberg, têm interesse pedagógico: Theophilus sive
Consilium de Christiana religione sanctius colenda, vila temperantius instituenda et literatura rationabilius docenda, Stuttgart,
1649; e a Utopia «Christianopolis» -Reipublicae Christianopolitanae descriptio, Estrasburgo, 1619.
10
JANUS CAECILIUS FREY, Via ad divas scientias artesque, linguarum notitiam, sermones extemporaneos nova et
expeditissima, Paris, 1628.
7

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

132

14. Só um deles, o eminente J. V. Andrea, me respondeu, dizendo que, de bom
grado, me daria quaisquer esclarecimentos, e encorajando a ousadia do meu
empreendimento. Foi assim que, picado, por assim dizer, pela espora, me pus de novo a
pensar mais frequentemente neste trabalho e que, finalmente, um ardente amor do bem
público me obrigou a tentar a empresa, começando pelos fundamentos.
15. Postas, portanto, de lado as descobertas, as opiniões, as observações e as
advertências dos outros, decidi-me a refazer tudo por mim mesmo e a examinar o
assunto e a procurar as causas, os métodos, os processos e os fins daquilo que, com
Tertuliano1, chamamos, se isso nos é lícito, aprendizagem (discentia).
16. Daí nasceu este meu tratado, onde o tema é, assim o espero, desenvolvido
mais longamente e mais claramente do que nunca o foi até ao presente. Escrito
inicialmente em vernáculo, para uso do meu povo, sai agora, a conselho de alguns
homens eminentes, vertido em latim, para que, se possível, aproveite a todos.
17. Com efeito, a caridade manda que o que Deus manifestou para salvação do
género humano (assim fala o eminente Lubin da sua Didáctica2), se não esconda dos
mortais, mas se manifeste a todo o mundo. Efectivamente, é da natureza de todos os
bens (continua o mesmo Lubin) que sejam comunicados a todos; e quanto mais é a
riqueza e se põe em comum, tanto melhor é e tanto mais cabe a todos.
18. É também uma lei de humanidade que, se se conhece qualquer meio de ir em
auxílio do próximo para o tirar das suas dificuldades, não se deve hesitar; sobretudo
quando se trata, não de um homem só, mas de muitos, e não apenas de muitos homens,
mas de muitas cidades, províncias e reinos e, digo até, do género humano inteiro, como
é o caso presente.
19. Se, todavia, houver algum espírito tão impertinente que pense que é coisa
estranha à vocação de um teólogo estudar os problemas escolares, saiba que esse
escrúpulo pesou tão fortemente sobre o meu coração a ponto de o fazer sangrar.
Apercebi-me, porém, de que não poderia libertar-me dele de outra maneira senão
prestando homenagem a Deus e pedindo publicamente conselho a todos acerca de tudo
aquilo que uma intuição divina me sugeriu.
20. Deixai-me, ó almas cristãs, falar-vos com toda a confiança! Quem me
conhece muito de perto sabe muito bem que sou homem de fraca inteligência e quase de
nenhuma instrução; e sabe também que choro os infortúnios da nossa época e desejo
vivamente suprir, se isso é possível, quer com as minhas invenções, quer com as dos
outros (todas as invenções derivam, de resto, do nosso bom Deus), a tudo o que nos falta
de mais importante.
21. Se, portanto, encontrei agora alguma boa ideia, ela não deve ser minha, mas
d' Aquele que costuma obter louvores da boca das crianças3, e que, para se mostrar de
facto fiel, veraz e benigno, dá a quem pede, abre a quem bate e oferece a quem procura
(Luc., 11,9), porque até nós cumulamos de dons aqueles por quem deles fomos também
cumulados. O meu Cristo sabe que tenho um coração tão simples que não há para mim
diferença alguma entre ensinar e ser ensinado, advertir e ser advertido, entre ser mestre
dos mestres (se me é lícito falar assim) e discípulo dos discípulos (se acaso posso
esperar algum progresso).
22. Por isso, as observações que o Senhor me concedeu fazer, eis que as ponho
em público e em comum com todos.
23. Se alguém encontrar melhor, faça o mesmo, para não ser acusado pelo
Senhor de colocar os seus dinheiros no cofre e de os esconder, pois o Senhor quer que
1

TERTULLIANUS, De anima liber, 24.
EILHARDUS LUBINUS (1565-1621), Novi Jesu Christi Testamenti... Cum praeliminari... epistola, in qua de latina língua
compendiose a pueris addiscenda exponitur, p. 16c.
3
Salmo 8, 3.
2

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

133

os seus servos negoceiem, para que os dinheiros de cada um deles, postos no banco,
rendam outros dinheiros (Luc., 19).
É lícito, foi lícito e sempre será lícito procurar as coisas grandes. E nunca será
em vão o trabalho começado em nome do Senhor.
A TODOS AQUELES QUE PRESIDEM ÀS COISAS
HUMANAS, AOS MINISTROS DE ESTADO, AOS
PASTORES DAS IGREJAS, AOS DIRECTORES DAS
ESCOLAS, AOS PAIS E AOS TUTORES, SEJA DADA
A GRAÇA E A PAZ DE DEUS, PAI DE NOSSO
SENHOR JESUS CRISTO, NO ESPÍRITO SANTO
1. Deus, no princípio do mundo, criou o homem, plasmando-o com a terra, e
colocou-o num paraíso de delícias, por Ele plantado no Oriente, não só para que o
guardasse e cultivasse (Génesis, 2, 15), mas também para que ele próprio fosse para o
seu Deus um jardim de delícias.
2. Na verdade, assim como o paraíso era a parte mais amena do mundo, assim o
homem era a mais amada das criaturas. O paraíso foi plantado a Oriente; o homem, à
imagem d' Aquele que teve origem desde o princípio, desde os dias da eternidade. No
paraíso, cresceram todas as plantas belas para serem vistas, e deliciosas para serem
comidas, escolhidas entre todas aquelas que estavam espalhadas, aqui e além, por toda a
terra; no homem, foram acumulados, por assim dizer, como num só monte, todos os
elementos do mundo, todas as formas e todos os graus das formas, para que
manifestasse toda a arte da divina sabedoria. O paraíso tinha a árvore da ciência do bem
e do mal; o homem tem a mente para distinguir e a vontade para escolher o que existe
de bem ou de mal. No paraíso, existia a árvore de vida; no homem, existe também a
árvore da imortalidade, ou seja, a sabedoria de Deus, a qual colocou no homem raízes
eternas (Eclesiástico, I, 16). Desse lugar de delícias, saía um rio, que regava o paraíso e
depois se dividia em quatro ramos principais (Génesis, 2, 10); no coração do homem,
confluem vários dons do Espírito Santo, que vão irrigá-lo, e depois, do seu seio, brotam
rios de água viva (S. João, 7, 38), isto é, no homem e por obra do homem, difunde-se,
de vários modos, a sabedoria de Deus, como rios que se derramam em todas as
direcções. Isto é atestado também pelo Apóstolo, quando afirma que, por meio da Igreja,
se torna manifesta aos principados e às potestades dos céus a multiforme sabedoria de
Deus (Efésios, 3, 10).
3. Verdadeiramente, portanto, cada homem é para o seu Deus um paraíso de
delícias, se se mantém no lugar que lhe foi marcado. De modo semelhante, também a
Igreja, que é a comunidade de todos os homens consagrados a Deus, é, muitas vezes,
comparada, na Sagrada Escritura, ao paraíso, ao jardim e à vinha de Deus.
4. Mas que desventura foi a nossa! Estávamos no paraíso das delícias corporais e
perdemo-lo; e, ao mesmo tempo, perdemos o paraíso das delícias espirituais, que
éramos nós mesmos. Fomos expulsos para as solidões da terra, e tornámo-nos nós
próprios uma solidão e um autêntico deserto escuro e esquálido. Com efeito, fomos
ingratos para com aqueles bens, dos quais, no paraíso, Deus nos havia cumulado com
abundância relativamente à alma e ao corpo; merecidamente, portanto, fomos
despojados de uns e de outros, e a nossa alma e o nosso corpo tomaram-se o alvo das
desgraças.
(...)

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

134

15. Um dos primeiros ensinamentos, que a Sagrada Escritura nos dá, é este: sob
o sol não há nenhum outro caminho mais eficaz para corrigir as corrupções humanas
que a recta educação da juventude. Com efeito, Salomão, depois de ter percorrido todos
os labirintos dos erros humanos e de se ter lamentado porque se não podiam corrigir as
perversidades e enumerar os defeitos dos homens, volta-se finalmente para os jovens,
suplicando-lhes «que se lembrem do seu Criador nos dias da juventude e O temam e
observem os mandamentos, porque isto é o essencial para o homem» (Eclesiastes,
12, 13). E noutro lugar diz: «Instrui o jovem no caminho que deve seguir, e ele não se
afastará dele, mesmo quando for velho» (Provérbios, 2 e, 6). E por isso David diz:
«Vinde filhos, ouvi-me, eu vos ensinarei o temor de Deus» (Salmo 33, 11). Mas também
o próprio David celeste e o autêntico Salomão, o Filho eterno de Deus, enviado do céu
para regenerar a humanidade, nos ensinou, como que levantando o dedo, o mesmo
caminho, quando disse: «deixai vir a mim as criancinhas, e não as afasteis de mim,
porque é delas o reino dos céus» (Marcos, 10,14). E a nós disse: «Se não vos
converterdes e vos não tornardes como meninos, não entrareis no reino dos céus»
(Mateus, 18,3).
(...)
18. Cristo ordena que nós, adultos, nos convertamos para que nos façamos como
criancinhas, isto é, para que desaprendamos os males que havíamos contraído com uma
má educação e aprendido com os maus exemplos do mundo, e regressemos ao primitivo
estado de simplicidade, de mansidão, de humildade, de castidade, de obediência, etc. E,
na verdade, uma vez que não há coisa mais difícil que desabituar-se daquilo a que se
estava habituado (com efeito, o hábito é uma segunda natureza, e a natureza, ainda que
se expulse com a. forca, volta sempre a aparecer), daí resulta que não há coisa mais
difícil que voltar a educar bem um homem que foi mal educado. Na verdade, uma
árvore, tal como cresce, alta ou baixa, com os ramos bem direitos ou tortos, assim
permanece depois de adulta e não se deixa transformar. Os pedaços de madeira,
curvados para fazer as rodas, endurecidos ali no seu posto, quebram de preferência a
tomarem-se direitos, como a experiência o mostra de modo evidente. Acerca dos
homens habituados a fazer o mal, Deus afirma o mesmo: «Acaso um Etíope pode mudar
a cor da sua pele e um leopardo as suas malhas? Acaso podeis fazer o bem, vós que não
aprendestes senão a fazer o mal?» (Jeremias, 13,2.3).
19. Daqui se infere esta conclusão necessária: se se devem aplicar remédios às
corruptelas do género humano, importa fazê-lo de modo especial por meio de uma
educação sensata e prudente da juventude. Importa fazer precisamente como quem quer
renovar um pomar, o qual tem necessariamente de plantar novas arvorezinhas e de as
tratar com muito cuidado, para que cresçam belas e grandes; com efeito, para
transplantar árvores velhas e nelas infundir fecundidade, não basta a força da arte.
Portanto, as mentes simples e não ainda ocupadas e estragadas por vãos preconceitos e
costumes mundanos, são as mais aptas para amar a Deus.
(...)
22. Educar, pois, providamente a juventude é providenciar para que os espíritos
dos jovens sejam preservados das corruptelas o mundo e para que as sementes de
honestidade neles lançadas sejam, por meio de admoestações e exemplos castos e
contínuos, estimuladas para que germinem felizmente, e, por fim, providenciar para que
as suas mentes sejam imbuídas de um verdadeiro conhecimento de Deus, de si mesmas
e da multiplicidade das coisas; para que se habituem a ver a luz à luz de Deus, e a amar
e a venerar, acima de tudo, o Pai das luzes.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

135

UTILIDADE DA ARTE DIDÁCTICA
Que a didáctica se baseie em rectos princípios interessa:
1. Aos pais que, até agora, na maioria dos casos, ignoravam que deveriam
esperar de seus filhos. Contratavam preceptores, pediam-lhes, acarinhavam-nos com
presentes e até os mudavam, quase sempre em vão e às vezes com algum fruto.
Conduzido, porém, o método didáctico a uma certeza infalível, será impossível, com a
ajuda de Deus, não obter sempre o efeito esperado.
2. Aos professores, a maior parte dos quais ignorava completamente a arte de
ensinar; e por isso, querendo cumprir o seu dever, gastavam-se e, à força de trabalhar
diligentemente, esgotavam as forças; ou então mudavam de método, tentando, ora com
este ora com aquele, obter um bom sucesso, não sem um enfadonho dispêndio de tempo
e de fadiga.
3. Aos estudantes, porque poderão, sem dificuldade, sem tédio, sem gritos e sem
pancadas, como que divertindo-se e jogando, ser conduzidos para os altos cumes do
saber.
4. Às escolas, porque, corrigido o método, poderão, não só conservar-se sempre
prósperas, mas ser aumentadas até ao infinito. Com efeito, serão verdadeiramente um
divertimento, casas de delícias e de atracções. E quando (pela infalibilidade do método)
de qualquer aluno se fizer um professor (do ensino superior ou do primário), nunca será
possível que faltem pessoas aptas para dirigir as escolas e que os estudos não estejam
prósperos.
5. Aos Estados, segundo o testemunho de, Cícero1 atrás citado. Com o qual
concorda o seguinte passo (referido por Stobeo) de Diógenes, discípulo de Pitágoras:
«Qual é o fundamento de todo o Estado? A educação dos jovens. Com efeito, as videiras
que não são bem cultivadas nunca produzem bom fruto»2.
6. À Igreja, pois somente a recta organização das escolas pode ter como
resultado que às igrejas não faltem professores instruídos, e aos professores instruídos
não faltem alunos apropriados.
7. Finalmente, interessa ao Céu que as escolas sejam reformadas de modo a
ministrarem aos espíritos uma cultura exacta e universal, não sendo assim de admirar
que, com o fulgor da luz divina, mais facilmente sejam libertados das trevas aqueles a
quem o som da trombeta divina não consegue acordar. Efectivamente, embora se pregue
o Evangelho aqui e além, e oxalá seja pregado até ao fim do mundo, todavia. como em
qualquer reunião pública, nas feiras, nas pensões ou em qualquer outro tumultuoso
ajuntamento da gente, costuma acontecer que não se faz ouvir somente ou
principalmente quem pronuncia óptimos discursos, mas, conforme alguém se encontra
com outro ou lhe está vizinho, de pé ou sentado, assim o ocupa ou detém com as suas
ninharias; de igual modo acontece no mundo. Cumpram os ministros da palavra o seu
dever com todo o zelo possível: falem, exortem, supliquem; todavia, não serão ouvidos
pela parte mais importante da população. Muitos, na verdade, não frequentam as
reuniões sacras, a não ser num ou noutro caso; outros vão, mas com os olhos e os
ouvidos fechados, porque, a maioria das vezes, interiormente ocupados em outras
coisas, estão pouco atentos ao que ali se faz. Mas admitamos também que estejam
atentos e que consigam ver o objectivo das sagradas admoestações; é certo, todavia, que
não recebem nem uma impressão nem uma comoção tão forte como seria conveniente,
porque o costumado torpor da alma e o já contraído hábito do vício engrossam,
1

CíCERO, De divinatione, 11, 2, 4.

2

JOÃO STOBAIOS, Anthologion (Florilegiu), cap. 95: . Edição de A. MEINEKE, Leipzig, 1855, II,
103, onde, todavia, o termo é atribuído, não a Diógenes, mas ao discípulo de Protágoras, Díotógenes. Coménio

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

136

fascinam e endurecem de tal modo as suas mentes, que não podem libertar-se daquela
espécie de letargo. Permanecem, portanto, na costumada cegueira e nos seus pecados,
como que amarrados a grilhões, de tal maneira que, ninguém, excepto apenas Deus, os
pode libertar dos males inveterados e ruinosos; como disse um dos Santos Padres, é
quase um milagre que um pecador inveterado se resolva a fazer penitência. Mas porque,
por outro lado, onde Deus fornece abundantes meios, pretender milagres é tentar Deus1,
impõe-se aceitar que, também no nosso caso, o problema não se põe de modo diverso.
Cremos, portanto, que é nosso dever pensar nos meios pelos quais toda a juventude
cristã seja mais fervidamente impelida para o vigor da mente e para o amor das coisas
celestes. E se conseguirmos obter este efeito, veremos que o reino dos céus nos
infundirá a sua força, como nos tempos passados.
Ninguém, portanto, distraia os seus pensamentos, os seus desejos, as suas
energias e as suas forças deste santíssimo propósito. Quem nos concedeu a boa vontade,
conceder-nos-á também a realização do fim; mas convém suplicar à misericórdia divina,
pedir-lho todos sem excepção, e confiar que a nossa esperança se realize. Trata-se aqui,
com efeito, da salvação dos homens e da glória do Altíssimo.
João Valentim Andrea
Desesperar do bom êxito é inglório;
Desdenhar dos conselhos alheios é injurioso2.

Capítulo X - NAS ESCOLAS, A FORMAÇÃO DEVE SER UNIVERSAL
1. Importa agora demonstrar que, nas escolas, se deve ensinar tudo a todos. Isto
não quer dizer, todavia, que exijamos a todos o conhecimento de todas as ciências e de
todas as artes (sobretudo se se trata de um conhecimento exacto e profundo). Com
efeito, isso, nem, de sua natureza, é útil, nem, pela brevidade da nossa vida, é possível a
qualquer dos homens. Vemos, com efeito, que cada ciência se alarga tão amplamente e
tão subtilmente (pense-se, por exemplo, nas ciências físicas e naturais, na matemática,
na geometria, na astronomia, etc. e ainda na agricultura ou na silvicultura, etc.) que pode
preencher toda a vida, mesmo de inteligências grandemente dotadas que acaso queiram
dedicar-se à teoria e à prática, como aconteceu com Pitágoras na matemática3, com
Arquimedes na mecânica, com Agrícola na mineralogia4, com Longólio na retórica (o
qual se ocupou de uma só coisa, para que viesse a ser um perfeito ciceroniano)5.
Pretendemos apenas que se ensine a todos a conhecer os fundamentos, as razões e os
objectivos de todas as coisas principais, das que existem na natureza como das que se
fabricam, pois somos colocados no mundo, não somente para que façamos de
espectadores mas também de actores. Deve, portanto, providenciar-se e fazer-se um
esforço para que a ninguém, enquanto está neste mundo, surja qualquer coisa que lhe
seja de tal modo desconhecida que sobre ela não possa dar modestamente o seu juízo e
dela se não possa servir prudentemente para um determinado uso, sem cair em erros
nocivos.
2. Deve, portanto, tender-se inteiramente e sem excepção para que, nas escolas,
1
2

Mateus, 12, 39; Lucas, 11, 29.
J. V. ANDREA, Theophilus, (ed. de Leipzig, 1706, p. 16).

3

Aqui Coménio tem em vista, sem dúvida, não apenas a obra matemática de Pitágoras, mas a sua
interpretação do Universo como harmonia e número.
4
G. AGRÍCOLA (1494-1555), Bermannus sitie de re metallica libri XII, Basileia, 1530 (ed. crítica,
Berlim, 1910).
5
CHR. LONGOLIUS (circa 1488-1522), humanista francês, travou célebre disputa com Erasmo sobre se
devia imitar-se à letra a linguagem de Cícero, ou se era preferível adaptar o latim à evolução das várias
épocas. Foi ridicularizado por Erasmo no diálogo «Ciceronianus». Cfr. ALLEN, Erasmi Epistolae,
especialmente a 914 e a 935.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

137

e, consequentemente, pelo benéfico efeito das escolas, durante toda a vida: I. se
cultivem as inteligências com as ciências e com as artes; II. se aperfeiçoem as línguas;
III. se formem os costumes para toda a espécie de honestidade; IV. se preste
sinceramente culto a Deus.
3. Efectivamente, disse uma palavra de sábio aquele que afirmou que as escolas
são oficinas de humanidade1, contribuindo, em verdade, para que os homens se tomem
verdadeiramente homens, isto é (tendo em vista os objectivos atrás estabelecidos): I.
criatura racional; II. criatura senhora das outras criaturas (e também de si mesma); III.
criatura delícia do seu Criador. O que acontecerá se as escolas se esforçarem por
produzir homens sábios na mente, prudentes nas acções e piedosos no coração.
4. Por conseguinte, estas três coisas deverão ser implantadas em todas as escolas
para benefício de toda a juventude.

Capítulo XI ­ ATÉ AGORA NÃO TEM HAVIDO ESCOLAS QUE
CORRESPONDAM PERFEITAMENTE AO SEU FIM
1. Parecerei excessivamente presunçoso com esta afirmação ousada. Mas vou
abordar o assunto de frente, constituindo o leitor como juiz e não representando eu
próprio senão o papel de actor. Chamo escola perfeitamente correspondente ao seu fim
aquela que é uma verdadeira oficina de homens, isto é, onde as mentes dos alunos sejam
mergulhadas no fulgor da sabedoria, para que penetrem prontamente em todas as coisas
manifestas e ocultas (como diz o Livro da Sabedoria, 7, 2.1), as almas e as inclinações
da alma sejam dirigidas para a harmonia universal das virtudes, e os corações sejam
trespassados e inebriados de amores divinos, de tal maneira que, já na terra, se habituem
a viver uma vida celeste todos aqueles que, para se embeberem de verdadeira sabedoria,
são enviados às escolas cristãs. Numa palavra: onde absolutamente tudo seja ensinado
absolutamente a todos («ubi Omnes, Omnia, Omnino, doceantur»).
2. Mas qual é a escola que, até hoje, se propôs este grau de perfeição? Não
falemos sequer em alguma que o tenha atingido. Mas para que não pareça que
acalentamos ideias platónicas e sonhamos com uma perfeição que não existe em parte
alguma, nem talvez possa esperar-se nesta vida, mostraremos, com outro argumento,
que as escolas devem ser como disse, e que, todavia, até agora, não têm sido assim.
3. Lutero, na sua exortação às cidades do Império, para que constituíssem
escolas (em 1525), entre outras coisas, emitiu estes dois votos: Primeiro, «que, em todas
as cidades, vilas e aldeias, sejam fundadas escolas, para educar toda a juventude de
ambos os sexos (precisamente como, no capítulo IX, mostrámos dever fazer-se), de tal
maneira que, mesmo aqueles que se dedicam à agricultura e às profissões manuais,
frequentando a escola, ao menos duas horas por dia, sejam instruídos nas letras, na
moral e na religião». Segundo, «que sejam instruídos com um método muito fácil, não
s6 para que se não afastem dos estudos, mas até para que para eles sejam atraídos como
para verdadeiros deleites», e, como ele diz, «para que as crianças experimentem nos
estudos um prazer não menor que quando passam dias inteiros a brincar com pedrinhas,
com a bola, e às corridas». Assim falava Lutero2.
4. Conselho verdadeiramente sábio e digno de tão grande homem. Mas quem
1

Nas Opera Didactica Omnia, Coménio escreveu que isto fora afirmado por um profecta: «Verbo, totum
hominem esse formandum ad humanitatem, reparandamque in nobis totam divinam imaginem, ad
archetypi sui similitudinem: ut schola haec esse incipiat vere, quod esse debebant omnes, humanitatis
officina, coelique et terrae plantarium, ut per prophetam loquitur Deus» (Pars III, col. 3-4).
2

MARTINHO LUTERO, An die Burgermeyster und Radherrn allerley Stedte ynn Deutschen landen, 1524. W. A., XV, p. 44-47.
(Clemen II, 456 e ss.)

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

138

não vê que, até agora, permaneceu um simples voto ? Onde estão, com efeito, essas
escolas universais ? Onde está esse método atraente ?
5. Vemos precisamente o contrário: nas aldeias e nos pequenos povoados, não
foram ainda fundadas escolas.
6. E. onde existem. não são indistintamente para todos, mas apenas para alguns.
ou seja, para os ricos, porque, sendo dispendiosas, nelas não são admitidos os mais
pobres, salvo casos raros, ou seja, quando alguém faz uma obra de misericórdia. No
entanto, é provável que, de entre os pobres, inteligências muitas vezes excelentes
passem a vida e morram sem poder instruir-se, com grave dano para a Igreja e para o
Estado.
7. Além disso, na educação da juventude, usou-se quase sempre um método tão
duro que as escolas são consideradas como os espantalhos das crianças, ou as câmaras
de tortura das inteligências. Por isso, a maior e a melhor parte dos alunos, aborrecidos
com as ciências e com os livros, preferem encaminhar-se para as oficinas dos artesãos,
ou para qualquer outro género de vida.
8. Àqueles que ficam na escola (ou constrangidos pela vontade dos pais e do.s
benfeitores. ou aliciados pela esperança de, com os estudos, conseguirem um dia um
pouco de autoridade, ou impelidos por uma força espontânea da natureza para uma
educação liberal), a esses, ministra-se uma cultura, é certo, mas sem a seriedade e a
prudência necessárias, anacrónica e má sob todos os aspectos. Efectivamente, aquilo que
sobretudo se devia implantar na alma dos jovens, isto é, a piedade e a moralidade.
descura-se de modo particular. E afirmo que estas duas coisas, em todas as escolas
(mesmo nas Universidades, que deviam ser o ponto mais alto da cultura humana), têm
sido as mais descuradas, e, em consequência disso, a maioria das vezes, saiem de lá, em
vez de cordeiros mansos, ferozes burros selvagens e mulas indómitos e petulantes; e, em
vez de uma índole modelada pela virtude, trazem de lá um conjunto de boas maneiras
que de moral têm apenas o verniz, e os olhos, as mãos e os pés adestrados para as
vaidades mundanas. Na verdade, a quantos destes homúnculos, polidos durante tanto
tempo com o estudo das línguas e das artes, virá à mente ser, para todos os outros
homens, exemplo de temperança, de castidade, de humildade, de humanidade, de
gravidade, de paciência, de continência, etc.? E de onde nasce o mal senão do facto de
que se não exige às escolas que ensinem a viver honestamente? Isto é testemunhado pela
disciplina dissoluta de quase todas as escolas, pelos costumes relaxados de todas as
classes sociais e pelos infinitos lamentos, suspiros e lágrimas de muitas pessoas
piedosas. E há ainda alguém que possa defender o estado das escolas? A doença
hereditária, descida até nós a partir das duas primeiras criaturas, domina-nos de tal
modo que, posta de parte a árvore da vida, voltamos desordenadamente os nossos
apetites só para a árvore da ciência. E as escolas, secundando estes apetites
desordenados, até agora não têm procurado senão a ciência.
9. E, mesmo isto, com que método e com que resultado? De modo a reter os
estudantes durante cinco, dez, ou mais anos, em coisas que a mente humana é capaz de
aprender em um ano. O que se poderia inculcar e infundir suavemente nos espíritos, é
neles impresso violentamente, ou melhor, é neles enterrado e ensacado. O que poderia
ser posto diante dos olhos de modo claro e distinto, é apresentado de modo obscuro,
confuso e intrincado, como que por meio de enigmas.
10. Deixo de lado que, nas presentes circunstâncias, quase nunca os espíritos são
alimentados com coisas verdadeiramente substanciosas, mas, na maior parte dos casos,
são atulhados com palavras ocas (palavras de vento e linguagem de papagaio) e com
opiniões que pesam tanto como a palha e o fumo.
11. O próprio estudo da língua latina (abordo-o de passagem, apenas para citar
um exemplo), ó bom Deus, como é intrincado, como é penoso, como é longo!

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

139

Quaisquer serventes, criados ou moços de recados, entregues aos trabalhos da cozinha,
aos serviços militares ou a outros serviços vis, aprendem mais depressa uma língua
qualquer, ou até duas ou três, embora diferente da sua língua materna, que os alunos das
escolas aprendem só o latim, embora tenham todo o tempo livre e se entreguem ao
estudo com todas as suas forças. E como é desigual o resultado ! Os primeiros, após
alguns meses, falam correntemente em língua estrangeira; os segundos, mesmo depois
de quinze ou vinte anos, na maior parte dos casos não são capazes de dizer senão certas
coisas em latim, a não ser que se socorram de gramáticas e de dicionários como os
coxos de muletas; e, mesmo essas coisas, não sem hesitar e titubear. De onde pode vir
este deplorável dispêndio de tempo e de esforço, senão de um método defeituoso?
12. A respeito deste método, escreveu, com razão, o eminente Eilhard Lubin,
doutor em Teologia e professor na Universidade de Rostock: «O método corrente de
educar as crianças nas escolas parece-me inteiramente como algo que alguém,
empregando todo o seu esforço e toda a sua capacidade, fosse encarregado de pensar a
maneira ou o método com o qual os professores conduzissem e os alunos fossem
conduzidos ao conhecimento da língua latina apenas com imensas fadigas, com enorme
tédio e com infinitas penas, e apenas após um longuíssimo espaço de tempo. Quanto
mais penso neste erro, ruminando no meu espírito atormentado, tanto mais sinto o
coração apertar-se e arrepios percorrerem os meus ossos». E, logo a seguir, acrescenta:
«Enquanto, comigo mesmo, penso frequentemente nestas coisas, confesso que, mais de
uma vez, fui levado a pensar e a crer firmemente que estas coisas foram introduzidas nas
escolas por um génio maligno e invejoso, inimigo do género humano»1. Assim fala este
mestre. De entre muitos outros testemunhos de pessoas de valor, quis citar apenas este.
13. Mas, afinal, que necessidade há de procurar testemunhos? Quantos de nós,
terminados os estudos, salmos das escolas e das academias, apenas com umas vagas
tintas de uma verdadeira cultura ! Eu próprio, mísero homúnculo, sou um desses muitos
milhares que passaram e gastaram miseravelmente a ameníssima primavera da vida e os
anos florescentes da juventude nas banalidades da escola. Ah! quantas vezes, mais tarde,
quando comecei a ver as coisas um pouco melhor, a recordação do tempo perdido me
arrancou suspiros do peito, lágrimas dos olhos e gritos de dor do coração. Ah! quantas
vezes essa dor me levou a exclamar: «oh! se Júpiter me voltasse a dar os anos
passados!»2.
Mas estes desejos são vãos, pois o dia que passa não voltará mais. Nenhum de
nós, que estamos já carregados de anos, voltará a rejuvenescer de modo a poder dar à
vida uma nova direcção e a preparar-se melhor para ela com a instrução. Para nós, já
não há remédio. Resta-nos apenas uma coisa, uma só coisa é possível: que tudo aquilo
que pudermos fazer em proveito dos nossos vindoiros, o façamos, ou seja, demonstrado
em que erros nos lançaram os nossos professores, lhes mostremos o caminho de evitar
esses erros. E isto se fará no nome e sob a direcção daquele «que é o único que pode
enumerar os nossos defeitos e endireitar as nossas ideias tortas» (Eclesiastes, I, 15).
Capítulo XII ­ AS ESCOLAS PODEM SER REFORMADAS
1. É penoso e difícil, e considerado quase impossível, curar as doenças inveteradas.
Todavia, se alguém encontra um remédio eficaz, acaso o doente rejeita-o? Ou não
deseja antes aplicá-lo, o mais depressa possível, principalmente se sente que o médico é
1

EILHARDUS LUBINUS, Novi Jesu Christi Testamenti Graeco-Latino-Germanicae editionis pars prima... Cum
praeliminari...epistola in qua consilium de Latina lingua compendiose a pueris addiscenda exponitur, 1617, p. 7-8 b.
2

EILHARDUS LUBINUS, NoviJjesu Christi Testamenti Graeco-Latino-Germanicae editionis pars prima... Cum
praeliminari...epistola in qua consilium de Latina lingua compendiose a pueris addiscenda exponitur, 1617, p. 7-8 b.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

140

guiado, não por uma. opinião temerária, mas por uma razão sólida? Eis-nos, por isso,
chegados ao momento de, relativamente ao nosso ousado propósito, mostrar: primeiro,
quais são as nossas promessas; segundo, em que se fundamentam.
2. Prometemos uma organização das escolas, através da qual:
I. Toda a juventude (excepto a quem Deus negou a inteligência) seja formada.
II. Em todas aquelas coisas que podem tornar o homem sábio, probo e santo.
III. Que essa formação, enquanto preparação para a vida, esteja terminada antes
da idade adulta.
IV. Que essa mesma formação se faça sem pancadas, sem violências e sem
qualquer constrangimento, com a máxima delicadeza, com a máxima doçura e como
que espontaneamente. (Da mesma maneira que um corpo vivo cresce em estatura, sem
que tenha necessidade de mover os seus membros nem para um lado nem para o outro.
pois basta que prudentemente seja alimentado, ajudado e exercitado, para que, por si,
pouco a pouco, cresça em estatura e em robustez, quase sem se aperceber disso, do
mesmo modo, se se alimenta, ajuda e exercita o espírito prudentemente, essa
intervenção converte-se, por si mesma, em sabedoria, em virtude e em piedade).
V. Que todos se formem com uma instrução não aparente, mas verdadeira, não
superficial mas sólida; ou seja, que o homem, enquanto animal racional, se habitue a
deixar-se guiar, não pela razão dos outros, mas pela sua, e não apenas a ler nos livros e a
entender, ou ainda a reter e a recitar de cor as opiniões dos outros, mas a penetrar por si
mesmo até ao âmago das próprias coisas e a tirar delas conhecimentos genuínos e
utilidade. Quanto à solidez da moral e da piedade, deve dizer-se o mesmo.
VI. Que essa formação não seja penosa, mas facílima, isto é, não consagrando
senão quatro horas por dia aos exercícios públicos e de tal maneira que um só professor
seja suficiente, para instruir, ao mesmo, tempo, centenas de alunos, com um esforço dez
vezes menor que aquele que actualmente costuma, dispender-se para ensinar cada um
dos alunos.
3. Mas quem acreditará nestas coisas antes de as ver? É bem sabido que, antes de
qualquer invenção, todos os homens têm tendência para se admirar, pensando como essa
invenção possa ser possível; e, depois que foi inventada, admiram-se pensando como é
que já o não fora há mais tempo. Quando Arquimedes prometeu ao rei Hierão lançar ao
mar, com uma só mão, um navio tão grande que cem homens não podiam remover, foi
recebido com um sorriso; mas, depois, viram com admiração1.
4. Nenhum rei, excepto o de Castela2, quis dar ouvidos ou a menor ajuda a
Colombo, que esperava descobrir novas ilhas a ocidente, para que tentasse aprova. A
história recorda que os próprios companheiros de navegação, tomados de indignação e
de desespero, estiveram prestes a lançar Colombo ao mar e a regressar sem haver
realizado a empresa. No entanto, foi descoberto aquele tão vasto novo mundo, e agora
todos se admiram como foi possível que tivesse permanecido desconhecido durante
tanto tempo.
Capítulo XIII - O FUNDAMENTO DA REFORMA DAS ESCOLAS É A ORDEM
EXACTA EM TUDO
1. Se procurarmos que é que conserva no seu ser o Universo, juntamente com
todas as coisas particulares, verificamos que não é senão a ordem, a qual é a disposição
1

Acerca do barco de Hierão, que Arquimedes pôs em movimento, escreveram PLUTARCO, Marcellus, 14 e ATHENAIOS,
Deipnosophistae, V, 206 d.
2

Fernando de Castela. Provavelmente, Coménio colheu estes dados no livro de G. BENZONI, Historia del Mondo Nuovo, Veneza,
1565.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

141

das coisas anteriores e posteriores, maiores e menores, semelhantes e dissemelhantes,
consoante o lugar, o tempo, o número, as dimensões e o peso devido e conveniente a
cada uma delas. Por isso, alguém disse, com elegância e verdade, que a ordem é a alma
das coisas. Com efeito, tudo aquilo que é ordenado, durante todo o tempo em que
conserva a ordem, conserva o seu estado e a sua integridade; se se afasta da ordem,
debilita-se, vacila, cambaleia e cai. O que é evidente por toda a espécie de exemplos
tirados de toda a. natureza e da arte.
15. A arte de ensinar nada mais exige, portanto, que uma habilidosa repartição
do tempo, das matérias e do método. Se a conseguirmos estabelecer com exactidão, não
será mais difícil ensinar tudo à juventude escolar, por mais numerosa que ela seja, que
imprimir, com letra elegantíssima, em máquinas tipográficas, mil folhas por dia, ou
remover, com a máquina de Arquimedes1, casas, torres ou qualquer outra espécie de
pesos, ou atravessar num navio o oceano e atingir o novo mundo. E tudo andará com
não menor prontidão que um relógio posto em movimento regular pelos seus pesos. E
tão suave e agradavelmente como é suave e agradável o andamento de um tal autómato.
E, finalmente, com tanta certeza quanta pode obter-se de qualquer instrumento
semelhante, construído segundo as regras da arte.
16. Procuremos, portanto, em nome do Altíssimo, dar às escolas uma
organização tal que corresponda, em todos os pontos, à de um relógio, construído
segundo as regras da arte e elegantemente ornado de cinzeladuras variadas.
Capítulo XVII ­ FUNDAMENTOS PARA ENSINAR E APRENDER COM
FACILIDADE
1. Examinámos os meios, graças aos quais o educador da juventude pode atingir
com segurança o seu objectivo; vejamos agora de que modo aqueles mesmos meios
devem ser aplicados às inteligências, para que o seu emprego se faça com facilidade e
com prazer.
2. Se observarmos as pegadas da natureza, toma-se-nos evidente que a educação
da juventude se processará facilmente, se:
I. Começar cedo, antes da corrupção das inteligências.
II. Se fizer com a devida preparação dos espíritos.
III. Proceder das coisas gerais para as coisas particulares.
IV. E das coisas mais fáceis para as mais difíceis.
V. Se ninguém for demasiado sobrecarregado com trabalhos escolares.
VI. Se em tudo se proceder lentamente.
VII. E se os espíritos não forem constrangidos a fazer nada mais que aquilo
que desejam fazer espontaneamente, segundo a idade e por efeito do método.
VIII. Se todas as coisas forem ensinadas, colocando-as imediatamente sob os
sentidos.
IX. E fazendo ver a sua utilidade imediata.
X. E se tudo se ensina sempre com um só e o mesmo método.
Assim, repito-o, tudo se processará segundo um andamento suave e agradável.
Mas regressemos de novo às pegadas da natureza.

1

Cfr. o capítulo XII. 3 e o cap. XIII, 8.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

142

Capítulo XVIII ­ FUNDAMENTOS PARA ENSINAR E APRENDER
SOLIDAMENTE
1. As lamentações de muitos e os próprios factos atestam que são poucos os que
trazem da escola uma instrução sólida, e numerosos os que de lá saem apenas com um
verniz ou uma sombra de instrução.
2. Se procurarmos as causas disso, encontramos duas: ou porque as escolas,
descurando as coisas mais importantes, se ocupam de banalidades e de frivolidades; ou
então porque os alunos, tendo passado a correr por cima de muitas matérias, mas não se
tendo detido demoradamente em nenhuma delas? voltaram a desaprender aquilo que
haviam aprendido. E este segundo defeito é tão comum, que poucos são aqueles que
dele se não lamentam. Efectivamente, se a memória estivesse sempre pronta a pôr à
nossa disposição tudo o que, alguma vez, lemos, ouvimos e compreendemos, como
seriamos considerados pessoas instruídas! Em todas as ocasiões em que fôssemos
postos à prova, nada nos escaparia! Mas, porque é o contrário que se verifica, sem
dúvida que andamos a transportar água com um crivo...
3. Mas haverá remédio para este mal? Sem dúvida, se, introduzidos de novo na
escola da natureza, investigarmos por que vias ela produz criaturas de longa duração.
Será possível encontrar o modo pelo qual alguém pode saber, não só aquelas coisas que
aprende, mas ainda mais do que as que aprende, isto é, não somente aquelas coisas que
aprende dos professores e dos vários autores, correspondendo bem ao seu ensino, mas
também as que ele próprio aprende, reflectindo sobre os fundamentos das coisas.
4. Conseguir-se-á isso,
I. Se não se estudar senão assuntos que virão a ser de sólida utilidade.
II. E se todos esses assuntos forem estudados os separar.
III. E se todos eles repousarem em fundamentos sólidos.
IV. E se esses fundamentos mergulharem bem fundo.
V. E se, depois, todas as coisas não se apoiarem senão sobre esses
fundamentos.
VI. Se todas as coisas que devem ser distinguidas forem minuciosamente
distinguidas.
VII. Se todas as coisas que vêm a seguir se baseiam nas que estão antes.

VIII. Se todas as coisas que têm entre si uma relação estreita, se mantêm
constantemente relacionadas.
IX. Se todas as coisas forem ordenadas em proporção da inteligência, da
memória e da língua.
X. Se todas as coisas forem consolidadas com exercícios contínuos.
Examinemos cuidadosamente cada uma destas dez condições.
Capítulo XXVII - AS INSTITUIÇÕES ESCOLARES DEVEM SER DE
QUATRO GRAUS, EM CONFORMIDADE COM A IDADE E COM O
APROVEITAMENTO
1. Os artesãos começam por fixar aos seus aprendizes um certo tempo (dois
anos, três anos, etc., até sete anos, conforme a sua arte é mais subtil ou mais complexa),
e, dentro desse espaço de tempo, o curso das lições deve estar terminado; e cada um,
depois de instruído em tudo o que diz respeito àquela arte, de aprendiz torna-se oficial
da sua arte, e depois mestre. Convém, portanto, fazer o mesmo nas nossas escolas, e
estabelecer para as artes, para as ciências e para as línguas, um determinado espaço de

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

143

tempo, de modo que, dentro desse período, os alunos terminem todo o curso geral dos
estudos e saiam dessas oficinas de humanidade homens verdadeiramente instruídos,
verdadeiramente morigerados e verdadeiramente piedosos.
2. Para, obter este escopo, tomamos, para exercitar os espíritos, todo o tempo da
juventude (efectivamente, no nosso caso, não se trata de aprender uma só arte, mas o
complexo de todas as artes liberais, juntamente com todas as ciências e algumas
línguas), desde a infância até à idade viril, ou seja 24 anos, repartidos em períodos
determinados, os quais se devem dividir tomando por guia a natureza. Efectivamente, a
experiência mostra que o corpo do homem, em geral, cresce em estatura, até à idade de
vinte e cinco anos, e não até mais tarde; depois, robustece-se, adquirindo vigor. E este
crescer lento (com efeito, o corpo de certos animais, muito maior, em alguns meses, ou
então em um ano ou dois, atinge o seu máximo desenvolvimento) é de crer que a divina
providência, o tenha, reservado à natureza humana, precisamente para que o homem
tenha todo o tempo necessário para se preparar para realizar as funções da vida.
3. Dividiremos, portanto, em quatro partes distintas os anos da idade ascendente:
infância, puerícia, adolescência e juventude, atribuindo a, cada uma destas partes seis
anos e uma escola peculiar, de modo que:
I. O regaço materno seja a escola da infância;
II. A escola primária (ludus literarius), ou escola pública de língua
vernácula, seja a escola da puerícia;
III. A escola de latim ou o ginásio seja a escola da adolescência;
IV. A Academia e as viagens sejam a escola da juventude. E é necessário
que a escola materna exista em todas as casas; a escola de língua
vernácula, em todas as comunas, vilas e aldeias; o ginásio, em todas as
cidades; a Academia em todos os reinos e até nas províncias mais
importantes.
4. Embora estas escolas sejam diversas, não queremos, todavia, que nelas se
aprendam coisas diversas, mas as mesmas coisas de maneira diversa, ou seja, todas
aquelas coisas que podem tomar os homens verdadeiramente homens, os cristãos
verdadeiramente cristãos, os sábios verdadeiramente sábios, mas segundo a idade e o
grau da preparação antecedente, e conduzindo sempre mais acima.

COMÉNIO, João Amós, Didáctica Magna, Tratado da arte
universal de ensinar tudo a todos, Fundação Calouste
Gulbenkian, Lisboa, 1976, pp. 45-56; 62-67; 73-76; 145-146;
155-161; 163-165.

ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
I. Questionário
1. Quais as três características principais do século XVII em temos educativos e
pedagógicos?
2. Qual o significado do realismo em termos pedagógicos?

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

144

3. Como se articula o "realismo pedagógico" no contexto da afirmação da filosofia
empirista?
4. Em que medida a valorização do método em termos pedagógicos ocorre no contexto
de idêntica valorização no âmbito das ciências da natureza e da filosofia.
5. Que nova ciência pedagógica foi criada no século XVII à qual se pretende reduzir
todo o saber acerca da educação?
6. Que implicações
didáctico-metodológica?

teve

no

terreno

educativo

a

nova

abordagem

7. Quais as regras fundamentais propostas pelo fundador da Didáctica (Ranke)?
8. Onde nasceu e viveu Coménio e quais as suas obras principais ?
9. Que princípios de ordem filosófica e religiosa enformaram o pensamento pedagógico
de Coménio?
10. Em que sentido defende Coménio que "tudo seja ensinado a todos"?
11. Quais os princípios fundamentais do método comeniano?
12. Que momentos sucessivos devem ser observados na educação de acordo com o
método proposto por Coménio?
13. Que curriculum escolar propõe Coménio e em que tipo de escolas deve ser levado a
cabo?
14. Quais os contributos educativos e pedagógicos fundamentais da Congregação do
Oratório?
15. Quais os contributos educativos e pedagógicos fundamentais dos Irmãos das Escolas
Cristãs?
II. Elabore um texto articulando os seguintes conceitos. Intitule-o.
16. "Realismo" "Didáctica", "pedagogia comeniana".

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

145

BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
ABBAGNANO, N., e VISALBERGHI, A., História da Pedagogia ­ II, Livros
Horizonte, Lisboa, 1981, 374-397.
GOMES, Joaquim Ferreira, "Introdução", in COMÉNIO, João Amós, Didáctica
Magna, Tratado da arte universal de ensinar tudo a todos, Fundação Calouste
Gulbenkian, Lisboa, 1976, pp. 5-41.
HUBERT, René, História da Pedagogia, Companhia Editora Nacional, S. Paulo,
1967, p. 230-236.
LARROYO, Francisco, História Geral da Pedagogia, Editora Mestre Jou, S. Paulo,
1970, pp. 405-433.
PIOBETTA, J. P., "Joahann Amos Comenius (1592-1670)", in CHÂTEAU, Jean (Dir.),
Os grandes pedagogos, Livros do Brasil, Lisboa, s/d, pp. 125- 143.
SNYDERS, Georges, "Os séculos XVII e XVIII", in DEBESSE, Maurice, e
MIALARET, Gaston, Tratado das Ciências Pedagógicas 2. História da Pedagogia,
Companhia Editora Nacional / Editora da Universidade de S. Paulo, S. Paulo, 1977, pp.
306-323.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

146

5. Do Iluminismo aos finais do século XIX
5.1. O Iluminismo.
5.2. A Revolução Francesa.
5.3. Rousseau.
5.4. Pestalozzi e Froebel.

Resumo: O século XVIII foi já designado como o "século pedagógico". Claro que a
atribuição de tal estatuto se compreende no quadro de uma apreciação feita a partir do
momento histórico em que nos encontramos. De facto, essa classificação é merecida na
medida em que foi decisivo na génese da pedagogia moderna por ter determinado novos
rumos quer do ponto de vista quantitativo quer do ponto de vista qualitativo.
No primeiro caso, consideraremos o Iluminismo e a forma como nele, por
princípio, se valoriza a educação enquanto instrumento qualificador da Razão,
capacidade humana por excelência. Apesar de a conciliação entre Iluminismo como
doutrina filosófica e Absolutismo como doutrina política ter obrigado a uma
esquizofrenia problemática plasmada na fórmula "despotismo esclarecido" ou, no
campo da educação, ter resultado na defesa de uma restrição da instrução a uns poucos
por parte de quem, em princípio, seria defensor da universalização da educação. A
Revolução Francesa acabará por corresponder à vitória sobre a esquizofrenia e o
projecto condorcetiano é, nessa medida, o anúncio do futuro em que um mínimo de
instrução será considerada um direito de todos. Claro que logo será ollhada também
como um dever de todos os cidadãos perante a sociedade, ou não tivesse sido a
Revolução um instrumento precioso na afirmação da burguesia e do capitalismo.
No plano da qualidade da educação, é também, sem dúvida, plenamente
justificado o título de "século pedagógico". Não foi Rousseau a fonte a partir da qual
brotou toda a renovação pedagógica dos séculos XIX e XX, de tal forma que somos
hoje todos mais ou menos "filhos de Rousseau"? Será, portanto, a figura de Rousseau
aquela em que nos deteremos analisando o Emílio procurando nele os elementos
fundamentais da sua proposta de uma educação qualitativamente nova e bem diferente
da perspectiva tradicional. Ruptura com a antropologia cristã marcada por um
pessimismo essencial relativamente à natureza humana, determinador de uma
concepção da educação como actividade de correção dessa natureza decaída, ruptura
com uma psicologia que tomava a criança como homunculus e não reconhecia à
infância especificidade a merecer um cuidado educativo apropriado. Finalmente,
confirmação da vontade de ultrapassagem do verbalismo pelo realismo com a defesa de
pontos de vista muito próximos dos de John Locke.
Finalmente, analisaremos as realizações educativas e as contribuições teóricas
dos dois primeiros grandes seguidores de Rousseau: Pestalozzi e Froebel.

Objectivos:
-

Compreender por que motivos o século XVIII foi designado como o "século
pedagógico".

-

Compreender o sentido da distinção entre um plano quantitativo e um plano
qualitativo no domínio da educação.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

147

-

Identificar o que caracteriza essencialmente o Iluminismo enquanto doutrina
filosófica.

-

Compreender o que há de contranatura na conciliação entre Iluminismo e
Absolutismo.

-

Compreender as consequências dessa esquizofrenia no terreno educativo e
pedagógico.

-

Perceber a importância da Revolução Francesa enquanto superadora desse impasse.

-

Analisar o contributo de Condorcet em termos de defesa da nova perspectiva
quantitativa acerca da educação.

-

Compreender o papel da Revolução Francesa enquanto acontecimento e processo
indispensável à afirmação da burguesia e do capitalismo.

-

Compreender a importância de Rousseau em termos do seu contributo para a
renovação pedagógica dos séculos XIX e XX.

-

Identificar em Emílio ou da Educação os elementos fundamentais da sua proposta
de uma educação qualitativamente nova e bem diferente da perspectiva tradicional.

-

Compreender a forma como rompe com a antropologia cristã marcada por um
pessimismo essencial relativamente à natureza humana.

-

Compreender a novidade da posição de Rousseau em termos antropológicos e em
termos do que daí deriva ao nível da sua forma de conceber a educação.

-

Compreender em que sentido defende Rousseau que a primeira educação deve ser
uma "educação negativa".

-

Compreender a sua ruptura com a psicologia que tomava a criança como
homunculus e não reconhecia à infância especificidade a merecer um cuidado
educativo apropriado.

-

Analisar a forma como em Emílio ou da Educação Rousseau defende o fim do
verbalismo e reclama a defesa de uma educação realista, com a defesa de pontos de
vista muito próximos dos de John Locke.
- Analisar as realizações educativas e as contribuições teóricas dos dois primeiros
grandes seguidores de Rousseau: Pestalozzi e Froebel.

ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
"O século XVIII é o século pedagógico por excelência. A educação ocupa o
primeiro plano nas preocupações dos reis, pensadores e políticos. Surgem duas das

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

148

maiores figuras da pedagogia e da educação: Rousseau e Pestalozzi. Desenvolve-se a
educação pública estatal e inicia-se a educação nacional.
Filosoficamente, é "o Século das Luzes", "da Ilustração", da Aufklärung.
Nesse movimento aparecem mescladas as idéias do sensualismo e do idealismo, do
empirismo e do racionalismo de séculos anteriores. Seus pensadores não são grandes
filósofos originais como os do século anterior, Descartes, Leibniz ou Locke, nem como
os que haviam de vir, Kant, Fichte ou Hegel; são antes divulgadores, que expõem as
idéias didática e literariamente. Sua expressão é encontrada nos "enciclopedistas", tais
como Diderot, D' Alembert, Voltaire e outros muitos. Todos coincidem no reconhecer a
supremacia da razão.
Politicamente, é, na primeira parte, a época do absolutismo e, mais
concretamente, do "despotismo esclarecido", que deseja o bem do povo, mas sem o
povo. É a época dos reis aman- tes da ilustração (...). Na segunda parte, é a época da
Revolução Francesa, que muda essencialmente o giro da história, com o acesso do povo
ao governo, e da difusão, na Europa, do regime parlamentar começado na Inglaterra.
Pedagogicamente, é o século de instrução sensorialista e racionalista, do
naturalismo e do idealismo na educação, assim como da educação individual e da
educação nacional. Desenvolve-se, assim, um movimento dialético, de tensões e
oposições que se resolvem em reconhecimento da personalidade plena, da educação
integral, cabal, humana, representada essencialmente pela pedagogia de Pestalozzi."
Lorenzo Luzuriaga
"Sintetizando, poderíamos dizer que na educação do século XVIII observamse os seguintes movimentos:
1.°) Desenvolvimento da educação estatal, da educação do Estado, com maior
participação das autoridades oficiais no ensino.
2.°) Começo da educação nacional, da educação do povo pelo povo ou por seus
representantes políticos.
3.°) Princípio da educação universal, gratuita e obrigatória, no grau da escola
primária, que fica estabelecida em linhas gerais.
4.°) Iniciação do laicismo no ensino, com a substituição do ensino de religião
pela instrução moral e cívica.
5.°) Organização da instrução pública em unidade orgânica, da escola primária
à universidade.
6.°) Acentuação do espírito cosmopolita, universal que une pensadores e
educadores de todos os países.
7.°) Sobretudo; a primazia da razão, a crença no poder racional na vida dos
indivíduos e dos povos.
8.°) Ao mesmo tempo, reconhecimento da natureza e da intuição na educação."
Lorenzo Luzuriaga

"Com o Iluminismo aconteceu nos países católicos algo de semelhante àquilo
que, no século XVI, com a Reforma, aconteceu nos países protestantes: foi-se radicando
a ideia de que as responsabilidades do ensino deviam ser asssumidas pelo Estado".
Joaquim Ferreira Gomes
"Tudo está bem ao sair das mãos do Autor da coisas. Tudo degenera entre as
mãos do homem". Rousseau

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

149

"A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens. (...)
A infância tem maneiras de ver, de pensar, de sentir que lhe são próprias, nada sendo
menos sensato que querer substituir-lhe as vossas (...) Tratai o vosso aluno segundo a
sua idade".
Rousseau
"Ousarei eu expor aqui a maior. a mais importante, a mais útil regra de toda a
educação? Não é ganhar tempo, é perdê-lo. (...) O mais perigoso intervalo da vida
humana é o que vai do nascimento até à idade dos 12 anos. É o tempo em que germinam
os erros e os vícios, sem que se disponha ainda de qualquer instrumento para os destruir
(...). A primeira educação deve ser puramente negativa. Ela consiste, não em ensinar a
virtude ou a verdade, mas em preservar o coração do vício e o espírito do erro (...).
Considerai todos os adiamentos como vantagens; é ganhar muito avançar para o termo
sem nada perder (...). Rousseau
"[As crianças] não podem aprender coisa alguma de que não sintam a
vantagem actual e presente, quer de divertimento, quer de utilidade (.. .). Tem-se grande
trabalho para achar os melhores métodos de ensinar a ler e inventam-se para tal
artificios vários. Que tristeza! Um meio mais seguro que todos esses, e de que ninguém
se lembra, é o de suscitar o desejo de aprender a ler. Dai à criança esse desejo, e
abandonai depois os artifícios; todos os métodos lhe poderão servir". Rousseau
"O valor da dialéctica de Rousseau reside principalmente no facto de ter
obrigado os contemporâneos, e tantos outros pedagogos até aos nossos dias, a observar a
infância. Até ele, toda a gente descurara a infância, mesmo aqueles que tinham
instituído reformas educacionais (...). Estava sempre em causa criar o homem a partir da
criança, prepará-la para o estado adulto e nada mais ver nela do que o futuro homem.
[...] Situa-se neste mesmo ponto, mais uma vez, a revolução pedagógica que confere
uma originalidade indiscutível à posição de Rousseau: ter descoberto, ter afirmado que a
infância era um estado indispensável, um estado com valor próprio, com finalidade
própria e predestinado sem dúvida, a longo prazo, a ser seguido pelo estado adulto, mas
com uma utilidade diversa de o preparar ou preparando-o apenas na medida em que o
antecede". Roger Cousinet
"É inútil recordar as ideias que a pedagogia moderna tem em comum com as
teorias de Rousseau. Mas importa não se deixar ser vítima de uma ilusão grosseira.
Primeiro, a pedagogia moderna, historicamente falando, não deve nada a Rousseau; ela
desenvolveu-se espontaneamente século e meio após Jean-Jacques, com base em
exigências sociais libertadas por forças económicas, políticas e culturais novas. Durante
todo esse período de gestação e de elaboração, Rousseau foi completamente ignorado ou
considerado como um sonhador perigoso (...)". Arnould Clausse

Textos para Análise : TEXTO 24 e TEXTO 25

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

150

TEXTO 24

CONDORCET (1743-1794)

Instrução Pública e Organização do Ensino (1791-1792)
I. Considerações gerais
Facultar a todos os indivíduos da espécie humana os meios de proverem às suas
necessidades, de conseguirem o seu bem-estar; assegurar a cada um este bem-estar,
torná-lo cônscio defensor dos seus direitos e esclarecido cumpridor dos seus deveres;
garantir-lhe a facilidade de aperfeiçoar a sua indústria, de se habilitar para o
desempenho de funções sociais a que tem o direito de ser chamado, de desenvolver
completamente os talentos que recebeu da Natureza; estabelecer entre os cidadãos uma
igualdade de facto e realizar a igualdade política reconhecida pela lei, ­ tal deve ser o
primeiro objectivo duma instrução nacional e, sob este aspecto, ela é para os Poderes
Públicos, um dever de justiça.
A Comissão de Instrução Pública submeterá à Assembleia Nacional, projectos de
lei concernentes às festas nacionais, ao ensino da ginástica e ao complemento da
educação feminina.
Este projecto refere-se apenas à ilustrução oferecida a todos os cidadãos e é
somente extensivo às Escolas de Artilharia, de Engenharia, de Marinha, de pontes e
calçadas, dos surdos-mudos e dos cegos.
Dirigir o ensino, de maneira que a perfeição das artes aumente a felicidade dos
cidadãos e o bem-estar dos que as cultivam; que um maior número de homens se
habilite ao desempenho de funções necessárias à sociedade, e que os progressos sempre
crescentes dos conhecimentos abram uma fonte inesgotável de socorros às nossas
necessidades, de remédios aos nossos males, de possibilidades de ventura individual e
de prosperidade comum; cultivar, enfim, em cada geração, as faculdades físicas,
intelectuais e morais e contribuir desta forma para o aperfeiçoamento geral e
progressivo da espécie humana, derradeira meta que deve visar toda a instituição social,
tal será ainda o objectivo da instrução e este é, para o Poder público, um dever imposto
pelo interêsse comum da sociedade e pelo da Humanidade inteira.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

151

Considerada, porém, sob este duplo aspecto, a enorme missão que nos foi
imposta, sentimos desde início que seria possível destacar do sistema geral da instrução
uma parte considerável, sem prejudicar o conjunto e que será necessário separá-la, para
acelerar a realização do nosso sistema. Diz ela respeito à distribuição e organizaçlo geral
dos estabelecimentos de ensino público.
Com efeito, ­ sejam quais forem as opiniões sobre a extensão precisa de cada
grau de ensino; sobre a maior ou menor autoridade atribuída aos pais, ou concedida aos
mestres; sobre a reunião dos alunos em pensionatos estabelecidos pelos serviços
públicos; sobre os meios de conjugar a instrução propriamente dita com o
desenvolvimento das faculdades físicas e morais, ­ a organização poderá talvez ser a
mesma.
Mas, por outro lado, a necessidade de marcar a localização dos estabelecimentos,
de fazer preparar os livros elementares, muito tempo antes que estes estabelecimentos
entrem em actividade, ­ obrigam a apressar as medidas legais, respeitantes a esta parte
de trabalho que nos está confiado.
Entendemos que, neste plano da organização geral, o nosso primeiro cuidado
deve consistir em tornar a educação, não só tão igual e tão universal, mas também tão
completa, como as circunstâncias o permitam; que é preciso dar a todos, igualmente, o
máximo de instrução possível, mas não recusar a ninguém a instrução mais elevada,
embora a massa inteira dos indivíduos não possa partilhar dela; estabelecer a primeira,
porque é útil aos que a recebem e a segunda, porque o é àqueles mesmos que não
venham a recebê-la.
Sendo a condição primeira de toda a instrução o ensinar apenas verdades, os
estabelecimentos que o Poder público lhe consagra devem ser tão independentes, quanto
possível, de toda a autoridade política.
Como, porém, esta independência não pode ser absoluta, resulta do mesmo
princípio que é preciso fazê-los depender da Assembleia dos Representantes do Povo,
porque, de todos os poderes, é este o menos corruptível, o mais refractário a ser
arrastado por interesses particulares, o mais submetido ao influxo da opinião geral dos
homens ilustrados e, sobretudo, porque, sendo aquele donde emanam essencialmente
todas as iniciativas é, consequentemente, o menos inimigo do .progresso das luzes e o
menos oposto aos melhoramentos a que este progresso deve conduzir.
Temos observado, por fim, que a instrução não deve abandonar os indivíduos no
momento em que saem das escolas; que deve abraçar todas as idades; que nenhuma
haverá em que não seja útil e possível aprender, e que esta segunda instrução é tanto
mais necessária, quanto mais encerrada em estreitos limites haja sido a primeira.
É esta uma das causas principais da ignorância em que se encontram hoje
mergulhadas as classes pobres da sociedade. Ter-lhes-á faltado menos a possibilidade de
receberem uma primeira instrução, do que a possibilidade de conservarem os seus
benefícios.
Não queremos mais que um só homem, no império, possa dizer de futuro: ­ A
lei assegura-me uma inteira igualdade de direitos, mas recusa-me os meios de os
conhecer. Não devo depender senão da lei, mas a minha ignorância torna-me escravo do
que me rodeia. Ensinaram-me bem, na minha infância, o que tinha necessidade de saber,
mas, forçado a trabalhar para viver, brevemente se me apagaram estas primeiras noções
e resta-me apenas a dor de sentir, na minha ignorância, não a vontade da Natureza, mas
a injustiça da sociedade.
Entendemos que o Poder público devia dizer aos cidadãos pobres : ­ A fortuna
de vossos pais apenas pôde proporcionar-vos os conhecimentos mais indispensáveis ;
mas asseguram-se-vos os meios fáceis de os conservar e ampliar. Se a Natureza vos deu

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

152

talento, podeis desenvolvê-lo, a fim de que não se perca, nem para vós nem para a
pátria.
Assim, a instrução deve ser universal, isto é, estender-se a todos os cidadãos.
Deve ser repartida com toda a igualdade que permitam os limites necessários do
orçamento, a distribuição dos homens pelo território e o tempo mais ou menos longo
que as crianças puderem consagrar-lhe.
Nos seus diversos graus, ela deve abraçar o sistema completo do saber humano e
assegurar aos homens, em todas as idades, a facilidade de conservarem os seus
conhecimentos e de adquirirem outros novos.
Enfim, nenhum Poder público deve ter autoridade, nem mesmo direito, de
impedir o desenvolvilmento de verdades novas, ou o ensino de teorias contrárias a uma
política de partido, ou aos seus interesses particulares.
Tais foram os princípios que guiaram no nosso trabalho.
II. O ensino primário
Distinguimos três graus de instrução, sob os nomes de escolas primárias, escolas
secundárias, institutos, liceus e Sociedade Nacional das Ciências e das Artes.
Nas escolas primárias, ensina.se o que a cada indivíduo é necessário para se
guiar por si mesmo e gozar a plenitude dos seus direitos.
Esta instrução servirá, inclusivamente, aos que aproveitem as lições destinadas a
tornar os homens capazes das funções públicas mais simples, às quais é conveniente que
todo o cidadão possa ser chamado, como as de jurado e as dos cargos municipais.
Todo o agrupamento populacional que encerre quatrocentos habitantes terá uma
escola e um professor.
Como não seria justo que, nos departamentos, cujos habitantes estão dispersos
ou reunidos por grupos pequenos, o povo não tivesse vantagens iguais, estabelecer-se-á
uma escola primária, em todos os distritos onde se encontrem aldeias distanciadas mais
de mil toesas1, dum lugar que exceda quatrocentos habitantes.
Ensinar-se-á nestas escolas a ler e a escrever, o que implica necessariamente
algumas noções gramaticais. Agregar-se-ão a este estudo as regras da aritmética e os
métodos simples para medir um terreno e um edifício ; uma descrição elementar dos
produtos do país e dos rudimentos da agricultura e das artes; o desenvolvimento das
primeiras ideias morais e das regras de conduta que delas derivam; finalmente, os
princípios de ordem social que possam colocar-se ao alcance da inteligência infantil.
Estas diversas noções serão distribuídas por quatro cursos, cada um dos quais
deve ocupar um ano às crianças de capacidade média.
Este período de quatro anos que permite uma distribuição cómoda para uma
escola em que apenas pode ser colocado um professor, corresponde também, com
bastante exactidão, ao espaço de tempo que, para as crianças de famílias mais pobres,
transcorre entre a época em que começam a ser capazes de aprender e aquela em que
podem ser empregadas num trabalho útil, submetidas a uma aprendizagem regular.
Cada domingo, o professor fará uma conferência pública à qual assistirão os
cidadãos de todas as idades; e assim teremos, com esta instituição, um meio fácil de
proporcionar aos jovens aqueles conhecimentos necessários, que não puderam fazer
parte da sua primeira educação.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

153

Ali se desenvolverão os princípios e os conceitos da moral, com mais extensão,
assim como a parte das leis nacionais, cuja ignorância impediria a um cidadão o
conhecimento e exercício dos seus direitos.
Assim, nestas escolas, as primeiras verdades da ciência social precederão as suas
aplicações.
Nem a Constituição francesa, nem ainda a Declaração dos Direitos serão
apresentados a nenhuma classe de cidadãos, como tábuas descidas do céu, que é preciso
adorar e crer. O seu entusiasrno não será fundado em preconceitos nem em hábitos de
infância e poder-se-á dizer-lhes: ­ Esta Declaração dos Direitos que vos ensina o que
deveis à sociedade e o que tendes direito a exigir-lhe; esta Constituição que deveis
manter à custa da própria vida, não são senão o desenvolvimento daqueles princípios
simples, ditados pela Natureza e pela Razão, cuja verdade eterna aprendestes a conhecer
desde os vossos primeiros anos.
Enquanto houver homens que não obedeçam unicamente à razão e recebam as
suas opiniões duma opinião estranha, em vão se quebrarão todas as algemas e em vão
procurariam ser úteis estas verdades impostas; o género humano nem por isso ficaria
menos dividido em duas classes: ­ a dos homens que raciocinam e a dos homens que
crêem; a dos senhores e a dos escravos.
Continuando assim a instrução durante toda a vida, impedir-se-á que os
conhecimentos adquiridos nas escolas se varram rapidamente da memória, manter-se-ão
os espíritos numa actividade útil, instruir-se-ão os povos em novas leis, em
conhecimentos agrícolas, em métodos domésticos que lhes interessa não ignorar;
poder-ser-lhes-á indicar, enfim, a maneira de se instruirem por si mesmos, como seja
procurando palavras no dicionário, servindo-se do índice dum livro, seguindo narrações
ou descrições, notas ou extrac tos sobre uma carta, um plano ou um desenho.
Estes meios de aprender que numa educação mais extensa se adquirem somente
com o hábito, devem ser directamente ensinados, numa instrução limitada a tempo mais
curto e a um pequeno número de lições.
Não nos temos referido, nem a respeito de crianças nem a respeito de adultos,
senão ao ensino directo, porque é o único cuja marcha, distribuição e extensão urge
conhecer, antes de determinar a organização dos estabelecimentos de instrução pública.
Outros processos serão o objecto doutra parte do nosso trabalho.
Assim, por exemplo, as festas nacionais, recordando aos habitantes dos campos,
aos cidadãos das aldeias as épocas gloriosas da liberdade, consagrando a memória dos
homens cujas virtudes honraram a sua vida e celebrando os actos de abnegação ou de
valor que foram praticados, ensiná-los-ão a conduzir-se dentro dos deveres, cujo
conhecimento se lhes ministrou.
Por outro lado, no regímen interno das escolas, ensinar-se-á cuidadosamente às
crianças a ser boas e justas; levar-se-ão a praticar entre si os princípios que lhes tenham
sido incutidos, e assim, ao passo que se lhes faça adquirir o hábito de conformarem com
eles a sua conduta, aprenderão a entendê-los melhor e a sentir mais profundamente a sua
verdade e a sua justiça1.
1

Seria muito fácil nas escolas, nos jogos do Ginásio e nas festas, exercitar as crianças na prática dos
sentimentos que mais convém fortificar na sua alma, tais como a justiça, o amor à igualdade, à
indulgência, à humanidade e à elevação de carácter. .
É possível ainda familiarizá-las com algumas das funções sociais, como as eleições, o
funcionamento duma assembleia, etc. Mas é preciso evitar que vejam nestas fórmulas, um papel cujo
desempenho se lhes impõe, e que se lhes faça contrair o hábito da hipocrisia exterior, ou um carácter
pedante.
Como as crianças têm apenas interesses muito pouco complicados, e ocupações muito simples,
observam atentamente tudo quanto as rodeia e, se alguma vez notam que as enganam, obrigando-as a

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

154

Far-se-á compor, tanto para os adultos como para as crianças, livros apropriados
que possam ler sem fadiga e que um interesse, quer de utilidade próxima, quer de
prazer, os levará a procurar.
Colocai ao alcance dos homens mais simples uma instrução agradável e fácil e
sobretudo uma instrução útil e eles a aproveitarão.
As dificuldades desanimadoras da maior parte dos estudos e a vacuidade
daqueles a que os preconceitos tem feito dar preferência é o que afasta os homens da
instrução.
Não será esquecida a ginástica, mas ter-se-á todo o cuidado em dirigir os seus
exercícios, de maneira que se possam desenvolver todas as forças com igualdade, para
destruir os efeitos dos hábitos forçados que as diversas espécies de trabalho provocam.
Se se acusa este plano de abarcar uma instrução demasiado extensa, poderemos
responder que, com livros elementares bem feitos e destinados a serem postos entre as
mãos das crianças; com o cuidado de dar aos professores obras compostas para eles, em
que possam instruir-se de maneira adequada a desenvolver os princípios, a adaptar-se à
inteligência dos alunos, a tornar-lhes o trabalho mais fácil, não haverá a temer que a
extensão deste ensino exceda os limites da capacidade normal das crianças.
Existem, de resto, meios de simplificar os métodos, de pôr as verdades ao
alcance dos espíritos menos argutos; e foi de harmonia com o conhecimento destes
meios, e de acordo com a experiência, que se traçou o quadro das noções elementares
que é necessário a todos os homens facultar e que lhes é possível adquirir. Poderíamos
também ser acusados, pelo contrário, de estreitar demasiado o âmbito da instrução
destinada à generalidade dos cidadãos. A necessidade porém de nos limitarmos a um só
professor por cada estabelecimento; a de colocar as escolas perto da população escolar;
os poucos anos que os filhos das famílias pobres podem consagrar ao estudo, ­
obrigaram.nos a encerrar esta primeira instrução em limites estreitos. Mas seria fácil
alargá-los, quando a melhoria das condições de vida do povo, a distribuição mais
equitativa das fortunas, consequência necessária das leis, e os progressos dos métodos
de ensino tenham feito chegar o momento oportuno; quando, enfim, a diminuição da
dívida e dos gastos supérfluos permita consagrar a fins verdadeiramente úteis uma
porção maior das receitas públicas1.
fazer seriamente bagatelas, acabam por devolver, com usura, a zombaria ao professor.
Além disso, uma burla que se faz uma vez a uma criança alegre e viva, perpetua-se no
estabelecimento, de geração em geração, e basta, para ridicularizar aos olhos dos alunos uma instituição
que, usada de boa fé, teria sido muito útil.
Os sentimentos naturais, tais como a compaixão, a amizade para com os pais, os irmãos e os
companheiros de recreio, e a gratidão, desenvolvem-se desde muito cedo nas crianças.
O hábito destes sentimentos conduz a ideias morais e, da combinação destas ideias, nascem os
preceitos aos quais submetemos a nossa conduta, por interesse próprio e, principalmente, para não
experimentarmos um desgosto íntimo, que resulta naturalmente da sua violação.
Tal é a ordem da Natureza que é fácil seguir na instrução. Curtas histórias serviriam para dirigir e
desenvolver os sentimentos morais e para os robustecer, pela atenção.
Viria em seguida uma análise das ideias morais mais sãs, e não haveria necessidade, nem de
ensinar, nem de demonstrar os preceitos, mas somente de chamar para eles a atenção, porque se
encontrariam de antemão no espírito das crianças, com o sentimento que garante a observação.
1

Quando estiver terminado o trabalho sobre as medidas, e todas as quantidades estiverem submetidas à
divisão decimal, o conhecimento das quatro regras simples, com dois ou três princípios de cálculo das
fracções decimais, bastará para todas as operações aritméticas, necessárias à vida civil.
É útil para todos os homens poderem medir uma distância, calcular um campo, medir com a toesa
um muro e avaliar o trabalho duma escavação ou dum desmonte; mas o indivíduo que só faz estas
operações para" seu uso, e não para os outros, não tem necessidade de conhecer os métodos mais simples
nem os meios de evitar os mais pequenos erros. Portanto, só tem necessidade, para adquirir estes
conhecimentos, de proposições de geometria multo elementares e que se demonstram, por assim dizer, à
simples vista.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

155

III. Escolas secundárias
As escolas secundárias são destinadas às crianças, cujas famílias podem
prescindir de mais largo tempo do seu trabalho e consagrar à sua educação um maior
número de anos e alguns rendimentos.
Cada distrito e, mais ainda, cada povoação de 4000 habitantes terá uma destas
escolas secundárias. Uma combinação análoga àquela de que falámos para as escolas
primárias, assegura uma distribuição equitativa destes estabelecimentos. O ensino será o
mesmo em todos, mas terão um, dois, ou três professores, segundo o número de alunos
que lhes for calculado.
Formarão a base do seu ensino algumas noções de matemática, de história
natural e de química, necessárias às artes, um desenvolvimento mais extenso dos
princípios da moral e da ciência social e lições elemelrtares de comércio.
Os professores farão conferências semanais, públicas. Cada escola, terá uma
pequena biblioteca, um pequeno gabinete, em que se coloquem alguns instrumentos
meteorológicos, modelos de máquinas e de ferramentas e alguns exemplares de história
natural, e isto constituirá para os adultos um novo meio de se instruírem.
Certamente que estas colecções serão a princípio insignificantes, mas
aumentarão com o tempo, receberão donativos e completar-se-ão por meio de trocas;
desenvolverão o gosto pela observação e pelo estudo e este gosto contribuirá, bem cedo,
para o seu progresso.
Este grau de instrução pode ainda, sob certos aspectos, ser considerado como
universal, ou, mais propriamente, como necessário para estabelecer, no ensino universal,
uma igualdade absoluta.
Os lavradores, na verdade, são realmente excluídos dele, quando não se julguem
bastante ricos para proporcioná-lo a seus filhos; mas os filhos dos camponeses,
destinados aos mesteres, devem naturalmente acabar a sua aprendizagem nas vilas
para o uso, que percebessem a proposição e que a fixassem, como um facto que podem comprovar pela
vista.
Ninguém negará, sem dúvida, a facilidade e a utilidade de ensinar a conhecer as plantas comuns
mais úteis e as mais prejudiciais, os animais da região, as terras, as pedras que ela contém; enfim,
proporcionar alguns princípios simples de agricultura e de jardinagem,
São necessárias noções elementares de física, embora só fosse para evitar bruxas e fabricantes ou
narradores de milagres. Desejaria que os professores explicassem algumas, de tempos a tempos, em lições
semanais e públicas: um pato de vidro que corre para o pedaço do pão que se lhe oferece num canivete; a
resposta a uma pergunta que se lhe faz encontrar num livro inteiramente em branco; o fogo que se
apresenta na ponta duma lança; a fogueira que se ateia, humedecendo o combustível; o sangue que se
liquefaz; os milagres de Elias e de .S. Januário e outros mil deste género não seriam muito difíceis de
repetir.
Este meio de destruir a superstição é um dos mais simples e dos mais eficazes. Não mais um
homem se deixaria iludir em nome dum poder caprichoso, uma vez convencido de que a Natureza inteira
está submetida a leis gerais e necessárias.
Como todas estas noções são o resultado das leituras que obrigam a escrever, aconteceria
necessariamente que as crianças contrairiam um hábito suficiente para adquirir essa facilidade, sem a qual
a leitura ou a escrita são um trabalho penoso.
Adquiririam com um pequeno esforço os conhecimentos gramaticais ou a ortografia necessária,
para que a língua e a escrita da maioria dos cidadãos se aperfeiçoem pouco a pouco; e é importante para a
manutenção da verdadeira igualdade, que a língua deixe de separar os homens em duas classes.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

156

vizinhas e receberão, nas escolas secundárias, pelo menos, a soma dos conhecimentos
que lhes forem mais necessários.
Por outro lado, os lavradores têm, durante o ano, épocas de repouso, uma parte
das quais podem consagrar à instrução, enquanto que os operários estão privados desta
espécie de folga.
Assim, a vantagem dum estudo isolado e voluntário compensa para uns a
possibilidade que têm os outros de receberem lições mais extensas e, sob este aspecto, a
igualdade é antes mantida que prejudicada pelo estabelecimento das escolas
secundárias.
Mais ainda: à medida que as manufacturas se aperfeiçoam, as suas operações
dividem-se cada vez mais ou tendem, sem cessar, a encarregar cada indivíduo dum
trabalho puramente mecânico e reduzido a um pequeno número de movimentos simples,
trabalho que ele executa melhor e mais prontamente, mas apenas em consequência do
hábito e, no qual, o seu espírito deixa quase inteiramente de actuar.
Assim, o aperfeiçoamento da arte converter-se-ia, para uma parte da espécie
humana, numa causa de estupidez; faria nascer em cada nação uma classe de homens
incapazes de se elevarem acima dos interesses mais grosseiros e produziria uma
desigualdade humilhante e um gérmen de perturbações perigosas, se uma instrução mais
extensa não oferecesse aos indivíduos desta mesma classe um recurso contra o efeito
infalível da monotonia das suas ocupações diárias.
As vantagens que as escolas secundárias parecem dar às cidades não são pois
senão um novo meio de estabelecer a igualdade mais completa.
As conferências semanais propostas para estes dois primeiros graus, não
devem ser olhadas como um fraco meio de instrução.
Quarenta ou cinquenta lições por ano podem encerrar uma grande extensão
de conhecimentos, os mais importantes dos quais repetidos anualmente, e os outros, de
dois em dois anos, acabarão por ser inteiramente compreendidos e fixados, para que não
possam ser esquecidos.
Ao mesmo tempo, outra grande parte deste ensino se renovará
continuamente, porque terá por objecto, quer processos novos de agricultura ou de artes
mecânicas, observações e novos detalhes, quer a exposição das leis gerais, à medida que
sejam promulgadas, e o desenvolvimento das operações do governo, quando sejam dum
interesse universal.
Despertará a curiosidade, aumentará a vantagem destas lições, interessará o
espírito público e despertará o gosto pelo trabalho.
Não se tema que a profundidade deste ensino afaste o povo.
Para o homem ocupado em trabalhos corporais o repouso é um prazer, e uma
ligeira mobilidade de espírito é um verdadeiro descanso.
Isto é para ele o que o movimento do corpo é para o sábio consagrado a
estudos sedentários: ­ um meio de não deixar embotar aquelas faculdades que as suas
ocupações habituais não exercitam bastante.
O homem dos campos, o artífice das cidades não desdenharão os ensinamentos
cujas vantagens hajam conhecido uma vez, por experiência própria ou dos vizinhos.
Se a princípio os atrai apenas a curiosidade, bem cedo os reterá o interesse. A
frivolidade, o desinteresse pelas coisas sérias, o desdém pelo que apenas é útíl, não são
vícios dos homens pobres, e esta pretensa estupidez, nascida do envilecimento e da
humilhação, desaparecerá bem depressa, quando os homens livres encontrarem junto
deles os meios de quebrar a última e mais vergonhosa das algemas1.
1

Em geral as classes pobres da sociedade têm menos vícios do que hábitos grosseiros e funestos aos que
os contraem. Uma das primeiras causas destes hábitos vem da necessidade de escapar ao enfado, nos
momentos de repouso, e de só lhe poder escapar, por sensações e não por ideias.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

157

IV. Os Institutos
O terceiro grau da instrução abarca os elementos de todos os conhecimentos
humanos.
A instrução, considerada como parte da educação geral, é neles absolutamente
completa. Encerra o necessário para o homem se poder habilitar ao desempenho das
funções públicas que exigem mais conhecimentos, de se consagrar com êxito a estudos
mais profundos. Ali se formarão os professores das escolas secundárias e se
aperfeiçoarão os das escolas primárias, já formados nas do segundo grau.
O número dos institutos foi elevado a cento e dez e estabelecer-se-ão em todos
os departamentos.
Neles se ensinará não somente o que é útil saber ao homem e ao cidadão, seja
qual for a profissão a que se destine, mas ainda o que pode sê-lo para cada grande ramo
destas profissões, como a agricultura, as artes mecânicas e a arte militar. E ainda se
juntarão os conhecimentos médicos necessários aos simples praticantes, às parteiras e
aos práticos veterinários.
Observando a lista dos professores, notar-se-á talvez que as matérias não se
distribuem ali segundo uma divisão filosófica, que as ciências físicas e matemáticas
ocupam um grande espaço, enquanto que os conhecimentos dominantes no antigo
ensino parecem ter sido esquecidos.
Julgamos porém dever distribuir as ciências segundo os métodos que empregam
e, por conseguinte, segundo a soma de conhecimentos que existe mais ordinariamente
nos homens instruídos, ou que lhes é mais fácil completar.
Talvez uma classificação filosófica das ciências tivesse sido, na sua aplicação,
extremamente embaraçadora e quase impraticável.
Com efeito, dever-se-ão tomar por base as diversas faculdades do espírito?
Mas o estudo de cada ciência põe-nas todas em actividade e contribue para as
desenvolver e aperfeiçoar.
Quase até as exercitamos todas, ao mesmo tempo, em cada uma das operações
intelectuais.
Como poderemos atribuir tal parte dos conhecimentos humanos à memória, à
imaginação, à razão, se quando pedimos, por exemplo, a uma criança que demonstre
num quadro uma proposição de geometria, ela não pode fazê-lo, sem empregar ao
mesmo tempo a memória, a imaginação e a razão?
Poreis sem dúvida o conhecimento dos homens na classe que afecta a memória;
colocareis depois a história natural ao lado da história das nações e o estudo das artes
junto ao estudo das línguas; separá-los-eis da química, da política, da fisica e da análise
metafísica, ciências às quais estão ligados estes conhecimentos dos factos, pela natureza
das coisas e pelos próprios métodos de as tratar.
Tomar-se-á por base a natureza dos objectos?
Mas o mesmo objecto, conforme a maneira de o considerar, pertence a ciências
inteiramente distintas.
Daqui vem, entre quase todos os povos, o uso imoderado de bebidas ou drogas estupefacientes,
substituído entre outros pelo do jogo, ou por hábitos deprimentes duma falsa voluptuosidade.
Se, pelo contrário, uma instrução suficiente permitir ao povo opor a curiosidade ao enfado, esses
hábitos devem naturalmente desaparecer e, com eles, o embrutecimento ou a grosseria que deles derivam.
Assim, a instrução é ainda, sob este ponto de vista, salvaguarda mais segura dos costumes do povo.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

158

Estas ciências, assim classificadas, exigem qualidades especiais que a mesma
pessoa raramente reúne. Teria sido difícil encontrar e porventura formar homens, em
estado de se adaptarem a estas divisões do ensino.
As mesmas ciências não se refeririam às mesmas profissões, as suas partes não
inspirariam igual interesse aos mesmos espíritos e estas divisões acabariam por fatigar
professores e alunos.
Qualquer outra base filosófica que se escolhesse encontrar-se-ia sempre
embaraça da por obstáculos do mesmo género.
Por outro lado, seria preciso dar a cada divisão uma certa extensão e manter
entre elas uma espécie de equilíbrio.
Ora, numa divisão filosófica, só seria possível chegar a isto, reunindo pelo
ensino o que houvesse sido separado pela classificação.
Havemos pois imitado em nossas distribuições a marcha que o espíríto humano
tem seguido nas suas indagações, sem pretender sujeitá-la a tomar outra, de harmonia
com a que nós mesmos daríamos ao ensino.
O génio quere ser livre; toda a servidão o fatiga, e frequentemcnte o vemos
conservar ainda, quando está em toda a sua pujança, a marca dos ferros que lhe haviam
pôsto no momento em que o seu primeiro gérmen se desenvolvia nos exercícios da
infância.
Assim, reconhecida a necessidade duma distribuição de estudos, preferimos
aquela que se estabelecera livremente, no meio dos progressos rápidos que todos os
géneros de conhecimento fizeram, de há meio século para cá.
X. Gratuitidade do ensino em todos os graus
Nestes quatro graus de instrução, o ensino seria totalmente gratuito.
O acto constitucional assim o determina para o primeiro grau, e o segundo, que
pode considerar-se também como geral, não podia deixar de ser gratuito, sem
estabelecer uma desigualdade favorável à classe mais rica que paga as contribuições em
proporção das suas receitas e só pagaria o ensino, em razão do número de crianças que
mandaria às escolas secundárias.
Quanto aos outros graus, importa à prosperidade pública dar às crianças da
classe pobre, que são as mais numerosas, a possibilidade de desenvolver as suas
faculdades. É um meio, não só de assegurar à pátria mais cidadãos em estado de a servir
e à ciência mais homens ca pazes de contribuir para o seu progresso, mas ainda de
diminuir essa desigualdade que nasce da diferença das fortunas e fundir entre si as
classes que esta diferença tende a separar.
A ordem da natureza não estabeleceu na sociedade outra desigualdade, além da
que é fundada na instrução e na riqueza e, alargando a instrução, atenuaremos ao mesmo
tempo os efeitos destas duas causas de distinção.
A vantagem da instrução, menos exclusivamente ligada com a da opulência,
far-se-ia menos sensível e não poderia já ser perigosa; a de nascer rico será compensada
pela igualdade e ainda pela superioridade dos conhecimentos que devem obter
naturalmente aqueles que têm mais um motivo para os adquirir.
Por outro lado, nem os liceus nem os institutos atraem um número igual de
alunos, e resultaria da não gratuitidade uma diferença demasiado grande, nas condições
dos professores.
As cidades ricas e as regiões férteis teriam todos os professores hábeis e
juntariam esta vantagem a todas as outras.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

159

Como existem ramos de ciência, e nem sempre os menos úteis, que exigirão um
concurso mais fácil, seria preciso estabelecer diferença nos ordenados dos professores,
ou deixar subsistir, entre eles, uma desigualdade excessiva que prejudicaria aquela
espécie de equilíbrio entre os diversos ramos de conhecimentos humanos, tão necessário
aos seus progressos reais.
Observemos ainda que o aluno dum instituto ou dum liceu, em que a instrução é
gratuíta, pode seguir ao mesmo tempo um grande número de cursos, sem aumentar a
despesa aos pais; que é então senhor de variar os seus estudos e de ensaiar o seu gosto e
as suas fôrças. Ao passo que, se cada novo curso implicasse uma nova despesa, ver-se-ia
forçado a encerrar a sua actividade em limites mais estreitos e a sacrificar, com
frequência, à sua economia uma parte da sua instrução; e deste inconveniente apenas são
vítimas as famílias pouco abastadas.
Por outro lado, visto que é preciso pagar ordenados fixos aos professores, e que a
contribuição que se exigiria dos alunos deveria ser necessàriamente muito pequena,
sê-lo-ia também a economia, e o gasto voluntário que daqui resultaria cairia menos
sobre as famílias opulentas, que sobre aquelas que se impõem sacrifícios para dar aos
filhos, cujos primeiros anos revelaram talento, os meios de os cultivarem e utilizarem
para a sua fortuna.
Enfim, a emulação que faria nascer entre os professores o desejo de multiplicar
os alunos, cujo número aumentaria os stus proventos, não obedece a sentimentos
bastante elevados para que se possa lamentar a sua ausência.
Não seria para temer que resultassem bem mais rivalidades entre os centros de
ensino; que os professores antes procurassem brilhar, do que instruir; que o seu método
e as suas opiniões fôssem calculadas apenas segundo o desejo de atrair a si um maior
número de alunos; que cedessem ao temor de os afastar, combatendo certos prejuízos e
manifestando-se contra certos interesses?
Depois de termos libertado a instrução de toda a autoridade libertemo-la do jugo
da opinião comum; deve antecipar-se a ela, corrigi-la, formá-la e não segui-la e
obedecer-lhe.
Para além das escolas primárias, a instrução deixa de ser rigorosamente
universal.
Mas parece-nos que atingiríamos o duplo objectivo de assegurar à pátria todos os
talentos que podem servi-la e de não privar nenhum indivíduo da vantagem de
desenvolver os que recebeu, se as crianças que revelaram maior capacidade, num grau
de instrução, fossem chamadas a frequentar o grau superior e mantidas à custa do
tesouro nacional, sob o nome de alunos da pátria.
Segundo o plano da Comissão, 3.500 crianças, aproximadamente, receberiam
uma quantia suficiente para seu sustento; 1.000 seguiriam os cursos dos institutos; 600
os dos liceus; 400, aproximadamente, sairiam deles, todos os anos, para desempenhar na
sociedade cargos úteis, ou para se consagrarem às ciências, e nunca em nenhum outro
pais o Poder público teria aberto à classe pobre da população uma fonte tão abundante
de prosperidade e de instrução, nem jamais haveria empregado meios mais poderosos de
manter a igualdade nacional.
Não nos limitamos a estimular o estudo das ciências; não se esqueceu a modesta
indústria que pretende apenas abrir um caminho mais fácil, a uma profissão laboriosa;
procurou-se que houvesse também recompensa para a assiduidade, para o amor ao
trabalho, até mesmo para a bondade, quando nenhuma qualidade brilhante se fizesse

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

160

destacar, e outros alunos da pátria receberiam dela a sua aprendizagem nas artes duma
utilidade geral1.
Nas escolas primárias e secundárias, os livros elementares serão o resultado dum
concurso, aberto a todos os cidadãos, a todos os homens com vontade de contribuir para
a instrução pública; mas escolher-se-iam os autores dos livros elementares, para os
institutos.
Não se prescreverá aos professores dos liceus mais do que ensinar a ciência, cujo
nome terá o curso de que estão encarregados; mas a extensão dos livros elementares,
destinados aos institutos, o desejo de ver homens célebres encarregar-se deles, a pouca
esperança de que o tentassem senão estivessem seguros de que o seu trabalho será
aceite, a dificuldade de julgar todos estes motivos, levaram nos a não estender a estes
elementos o método dum concurso.
1

A gratuitidade do ensino deve ser considerada, principalmente, na sua relação com a igualdade social.
Nas despesas públicas, o pobre contribui em proporção, e ainda menos que em proporção, das suas
possibilidades se as contribuições estiverem estabeleci das segundo um sistema equitativo, e aproveita as
vantagens duma instrução gratuita, numa maior proporção.
Examinemos estas vantagens, supondo que se realize o plano da Comissão:
1º- Os pais de família aproveitam-na, em razão do número dos seus filhos, nos dois graus de
instrução que podem considerar-se como universais.
2º- Os cidadãos pobres, quer sejam da cidade onde existem os institutos, quer sejam do distrito,
aproveitam também estes estabelecimentos para aqueles de seus filhos que nascerem com aptidões. Com
efeito, como pela combinação dos diferentes cursos a instrução se divide, quanto à sua extensão e quanto
à sua natureza, segundo a vontade dos alunos e de quem os dirige, nada impediria de reservar, nas
condições duma aprendizagem, a liberdade de seguir um dos cursos do Instituto.
3º- O mesmo pode dizer-se dos liceus. Um jovem aplicado e com facilidade inata pode ganhar a
sua subsistência e reservar-se bastante tempo para se aperfeiçoar nos conhecimentos a que seria levado
por um verdadeiro talento.
Assim, a gratuitidade em todos os graus de ensino estende as suas vantagens sobre um número de
indivíduos maior, do que à primeira vista se julgaria, porque estes exemplos, bastante raros outrora,
tornar-se-ão comuns, por efeito da igualdade republicana e da destruição dos preconceitos burgueses ou
aristocráticos.
4º- Atendendo à utilidade que cada indivíduo obtém pelo simples facto de existir na sociedade
mais instrução comum, mais conhecimentos e mais talentos, não será justo que o celibatário contribua
como o pai de família, visto que os aproveita igualmente?
E quanto aos restantes encargos da instrução, que pesam sobre os pais de família, não bastarão
para os compensar as vantagens que estes obtêm na educação dos seus filhos?
5º- Examinando geograficamente a França ver-se-á que se a instrução ficar abandonada a si
mesma, não poderá repartir-se, senão com funesta desigualdade.
As grandes cidades e as regiões ricas encontrariam meios de estender e aumentar as suas
vantagens já demasiado reais; as outras partes da República, ou careceriam de professores, ou só os teriam
maus.
Esta grande desigualdade de instrução destroi quase toda a sua utilidade. Enquanto deixardes
uma grande parte da população presa da ignorância e, portanto, à mercê da sedução, dos preconceitos e
das superstições, não realizareis o objectivo que vos deveis propor: o de mostrar, enfim, ao mundo uma
nação em que a liberdade e a igualdade sejam para todos um bem real de que sabem gozar e cujo preço
conhecem.
Não conciliareis jamais a liberdade com a paz; jamais estabelecereis aquela obediência às leis, a
única digna dos homens livres, a que se funda num respeito voluntário, sobre a razão e não sobre a força.
Tereis sempre duas populações diferentes na instrução, nos costumes, no carácter e no espírito público.
Pelo contrário, a igualdade de instrução deve diminuir as outras desigualdades naturais, porque
nas regiões menos favorecidas os espíritos dirigem-se para os meios de fazer desaparecer estas
desigualdades e os próprios detalhes da instrução, que podem variar segundo o interesse e as
necessidades, contribuirão também para isso.
Uma constituição popular, fundada na igualdade, deve ligar necessariamente os cidadãos à sua
terra; mas a falta de instrução afastaria dela a gente rica na sua juventude, e os hábitos contraídos nas
cidades mais cultas poderiam retê-la aí com frequência.
O sistema duma instrução igual e por toda a parte semelhante não é menos útil para estabelecer
sobre uma base inquebrantável a unidade nacional, Ao passo que, abandonada a instrução às vontades
individuais, serviria apenas para intensificar estas diferenças de costumes, de opiniões, de gostos e de

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

161

Dissemos a nós mesmos: ­ Sempre que um homem justamente célebre, em
qualquer ramo de ciência, quiser fazer para esta ciência um livro elementar e considere
este trabalho como uma prova do seu zelo pela instrução pública e pelo progresso da
cultura, essa obra será boa.
Trata-se aqui dum homem célebre na Europa e, neste caso, não há que temer
enganos na escolha.
Se, pelo contrário, se propõe um concurso quem garantirá que se obtenha um
bom livro elementar ? Como escolher, entre dez obras, por exemplo, o que seria um
curso elementar de matemática ou de física, em dois volumes ? Teríamos a certeza de
que os julgadores suportariam o aborrecimento deste exame, ou de que, suportando-o,
julgariam bem? Alguns pontos de vista filosóficos, algumas ideas fixas e engenhosas
carácter que tanto importa fazer desaparecer.
6º- Atingimos o ponto em que se pode sem risco deixar que a instrução se organize a si mesma?
Atingimos aquele em que a autoridade pública pode organizá-la duma forma útil?
Se examino o estado actual da cultura na Europa, vejo toda a economia das ciências físicas e, por
uma consequência necessária, a das artes de que são a base, e até a das ciências morais e políticas,
apoiadas sobre os princípios certos que são por sua vez o resultado de factos gerais indiscutíveis; vejo,
apesar da diversidade de governo, de instituições, de costumes e de preconceitos, os homens ilustrados da
Europa parecerem de acordo, a respeito das verdades que podem formar os elementos destas ciências,
assim como sobre o método de as ensinar.
A arte da tinturaria, os que se exercitam sobre os diversos metais, os que fabricam as diversas
espécies de tecidos em uso, quer para as nossas necessidades imediatas, quer para outros trabalhos; todas
as artes cujos processos variam nos diversos países, têm, sem embargo, princípios gerais e reconhecidos,
que os homens ilustrados tem sabido discernir no meio de todas estas variedades, nascidas, em cada país,
da rotina e da sua situação geográfica.
E pois possível estabelecer, sobre a opinião geral dos homens ilustrados, uma instrução
elementar, conforme à verdade e dirigida por um bom método; e depois de termos separado da moral as
opiniões religiosas, e o ensino dos princípios da política universal e da exposição do direito público
nacional, é impossível que esta instrução corrompa as opiniões sobre a moral e sobre a política, como é
impossível que engane sobre a física ou a química.
Mas, como esta mesma certeza não existe nem pode existir para o sistema de qualquer ciência,
exceptuadas as matemáticas, o Poder público não deve influir sobre o ensino dos liceus, senão
estabelecendo um meio de escolher os professores, que apenas tenha em atenção os seus talentos, sem se
influenciar pelas suas opiniões.
Seria perigoso, pelo contrário, abandonar a direcção da instrução elementar, porque não há uma
mentalidade geral suficientemente esclarecida para que não possamos recear que seja desorientada quer
pelos preconceitos quer pelo ódio a estes, puerilmente exagerados.
Por outra parte, é evidente que esta direcção cairia realmente na dependência dos ricos e então
não serviria, como convém que sirva, para a conservação da liberdade.
Entre os antigos, a instrução era muito cara e só se encontrava, em geral, ao alcance dos ricos.
Qual era o resultado? Uma inclinação para a aristocracia, notável em todos os historiadores.
Basta saber como nos representam as tentativas feitas para destruir em Roma a Influência desta
desigualdade que devia com o tempo aniquilar a República.
Distribuição das terras nacionais, hoje mesmo reservadas, modificação na forma das deliberações
e extensão do direito de cidade, todas estas operações, desde o momento que tendam para a igualdade, são
sempre apresentadas, não como mal preparadas e envolvendo algumas Injustiças, mas como sediciosas e
inspiradas pelo espirito de facção e de banditismo.
Finalmente, quem pode assegurar que a própria superstição não se apodere das novas escolas,
como se apoderou depois da destruição do Império do Ocidente?
7º- Teme-se que sejam esquecidas as escolas estabelecidas sobre princípios filosóficos e este
receio prova a sua necessidade. Mas, sendo gratuitas não existirá este perigo e mesmo quando certas
ciasses de homens pareçam desdenhá-las o seu próprio interesse lhas recordará.
A gratuitidade e os serviços palpáveis que prestam levarão lá os filhos dos cidadãos sem fortuna,
e os ricos sabem quanto interessa a seus filhos que uma educação comum lhes prepare em breve relações
úteis nas classes trabalhadoras e pobres.
O povo inglês apenas confere os mandatos à Câmara dos Comuns, mas isto basta, porque, apesar
das distinções aristocráticas, estabelece uma maior igualdade de facto do que na maioria dos países
europeus.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

162

que observarem numa obra não farão inclinar a balança a seu favor, com prejuízo do
método e da clareza ?
Nos três primeiros graus de instrução, apenas se ensinam elementos mais ou
menos extensos; é este, para cada ciência e para cada uma das suas divisões, um limite
que não se deve ultrapassar.
É preciso pois que o Poder público indique os livros que se hão-de adoptar; mas,
nos liceus, onde deve ensinar-se a ciência integral, é o professor que deve escolher o
método.
Daqui resultam vantagens inapreciáveis: ­ a de impedir que a instrução se
corrompa; a de ter a certeza de que, se por um concurso de circunstâncias políticas, os
livros elementares têm sido infectados de doutrinas nocivas, o ensino livre dos liceus
impedirá os efeitos desta corrupção; o de não temer que possa ser abafada a linguagem
da verdade.
(E Condorcet conclui assim : )
O plano que apresentamos à Assembleia foi combinado, mediante o exame do
estado actual da cultura na França e na Europa; mediante o que as observações de
muitos séculos puderam ensinar-nos, sobre a marcha do espírito humano nas ciências e
nas artes; enfim, segundo o que pode esperar-se e prever-se destes novos progressos.
Buscámos o que pudesse contribuir mais seguramente a dar-lhe uma marcha mais firme
e a tornar mais rápida a sua evolução.
Virá sem dúvida um tempo em que as sociedades sábias, instituídas pela
autoridade, serão supérfluas, e desde esse momento perigosas, e no qual, até mesmo
todos os estabelecimentos públicos de instrução chegarão a ser inúteis; será aquele
tempo em que não mais haverá que temer algum erro geral; em que terão perdido seu
influxo todas as causas que chamam o interesse ou as paixões, em socorro dos
preconceitos; aquele em que a instrução se terá espalhado igualmente por todos os
8º- Receia-se que os professores pagos esqueçam os seus deveres.
Não se lembram porém de que não há distinções hereditárias nem cargos conferidos
vitaliciamente ou por grande número de anos e que, assim, um professor bom cumpridor dos seus deveres
é um cidadão respeitável e respeitado, sendo todavia um homem que exerce por dinheiro um mester muito
pouco considerado.
A falta de emulação não é de temer. Os professores das escolas primárias e secundárias aspiram
aos lugares dos institutos e os professores destes aos dos liceus. Estes últimos seriam considerados, no
nosso sistema actual, como uma verdadeira honra.
Não é de temer a negligência se as funções não são absolutamente perpétuas. Os leitores do
Colégio de França, nas matérias em que tinham auditório, e os professores do Jardim das Plantas nunca
esqueceram as suas funções, mesmo durante o antigo regime, principalmente nos primeiros anos da sua
nomeação.
O projecto apresentado à Assembleia Legislativa foi elaborado, menos segundo princípios
filosóficos, que sobre o estado actual das ciências na Europa e seus progressos, e sobre a experiência.
Mas, para aplicar a experiência a uma lei nova, foi necessário separar os factos do influxo de
causas que não subsistem.
Uma disposição muito adequada a manter a emulação e honrar os professores das escolas
inferiores consistiria em ordenar que, passado curto tempo, os professores dos institutos fossem apenas
escolhidos entre aqueles que tivessem exercido funções de magistério nas escolas primárias e secundárias,
e os professores dos liceus entre os que tivessem ensinado nos institutos, com uma única excepção em
favor dos sábios estrangeiros, excepção esta que só o corpo legislativo poderia decidir.
Numa palavra, sem instrução nacional gratuita para todos os graus, seja qual for a combinação
que se escolha, teremos ignorância geral ou desigualdade; teremos sábios, filósofos e políticos ilustrados,
mas a massa popular conservar-se-á inculta e numa época de luzes continuaremos governados por
preconceitos.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

163

lugares dum mesmo território e por todas as classes duma mesma sociedade e em que
todas as ciências e todas as aplicações da ciência estarão igualmente libertas do jugo de
todas as superstições e do veneno das falsas doutrinas; em que cada homem, enfim,
encontrará nos seus próprios conhecimentos e na rectidão do seu espírito armas
suficientes para quebrar todos os laços do charlatanismo. Mas esse tempo vem ainda
longe.
O nosso objectivo deverá ser preparar e acelerar o advento dessa época, e,
trabalhando em formar estas novas instituições, ocuparmo-nos incessantemente em
apressar o instante feliz em que elas venham a ser inúteis.
CONDORCET, Instrução Pública e Organização do Ensino,
Educação Nacional, Porto, 1943, pp.

TEXTO 25

ROUSSEAU (1712-1778)

Emílio ou da educação (1762)
A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens. Se
queremos perverter esta ordem, produziremos frutos precoces que não terão nem
maturidade nem sabor, e não tardarão em corromper-se; teremos jovens doutores e
crianças velhas. A infância tem maneiras de ver, de pensar, de sentir que lhe são
próprias, nada sendo menos sensato que querer substitui-las pelas vossas, e seria o
mesmo exigir que uma criança tivesse cinco pés de altura como o juízo de dez anos.
Com efeito, para que lhe serviria a razão nessa idade? Ela é o freio da força, e a criança
não tem necessidade desse freio [...].
Tratai o nosso aluno segundo a sua idade.
É bem estranho que, desde que existe a preocupação de educar crianças, se não
tenha imaginado outro instrumento para as conduzir além da emulação, do ciúme, da
inveja, da vaidade, da avidez, do vil temor, de todas as paixões mais perigosas, mais
próprias para corromper a alma, mesmo antes que o corpo esteja formado. A cada

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

164

instrução precoce que se pretende fazer entrar na sua cabeça, semeia-se um vício no
fundo do seu coração. Insensatos professores pensam fazer maravilhas tornando-as más
para lhes ensinar o que é a bondade, e depois dizem-nos gravemente: é assim o homem.
Sim, é assim o homem que vós construístes [...].

Ponhamos como máxima incontestável que os primeiros movimentos da
natureza são sempre acertados: não há perversidade original no coração humano, nele
não se encontra um único vício de que não possamos dizer como e por onde ele entrou.
A única paixão natural ao homem é o amor de si mesmo, ou o amor-próprio tomado
num sentido lato. Este amor-próprio em si ou relativamente a nós é bom e úti1; e como
ela não tem relação necessária para com outrem, ele é, sob este aspecto, naturalmente
indiferente; não se torna bom ou mau senão pela aplicação que dele se faz e pelas
relações que se lhe atribuem [...].
Ousarei eu expor aqui a maior, a mais importante, a mais útil regra de toda a
educação? Não é ganhar tempo, é perdê-lo. Leitores vulgares, perdoai-me os meus
paradoxos: é necessário fazê-los quando se reflecte; e, seja o que for que possais dizer,
prefiro ser homem de paradoxos a homem de preconceitos. O mais perigoso intervalo
da vida humana é o que vai do nascimento até à idade dos 12 anos. É o tempo em que
germinam os erros e os vícios, sem que se disponha ainda de qualquer instrumento
para os destruir; e quando o instrumento chega, as raízes são tão profundas que já não
há possibilidade de as arrancar [...].
A primeira educação deve ser puramente negativa. Ela consiste, não em ensinar
a virtude ou a verdade, mas em preservar o coração do vício e o espírito do erro [...].
Considerai todas as dilações como vantagens; é ganhar muito avançar para o
termo sem nada perder; deixai amadurecer a infância nas crianças. Enfim, torna-se-lhes
necessária alguma lição? Não lha deis hoje, se podeis protelar até amanhã sem
perigo [...].
De que serve inscrever na cabeça dos meninos um simples catálogo de palavras
que não representam nada para os seus espíritos? Pois quando chegarem a aprender as
cousas não aprenderão também os vocábulos? Porque lhes daremos o trabalho inútil de
os aprenderem por duas vezes? Que perigosos preconceitos lhes não inspiramos ao
fazê-los tomar como sendo ciência um acúmulo de palavras que são só palavras, pois
que não têm para eles verdadeiro sentido? É desde a primeira palavra com que o
espírito do menino se dá por pago, e da primeira coisa que o menino aprendeu sob
simples palavra de qualquer pessoa, que o seu juízo se pode dar por perdido.
Se nada devemos exigir aos meninos por obediência, segue-se que não podem
aprender coisa alguma de que não sintam a vantagem actual e presente, quer de
divertimento quer de utilidade; de outra forma que motivo os levaria a aprender a
coisa ? A arte da escrita, a arte de falar aos ausentes e de os ouvir, a arte de lhes
comunicar de longe, sem medianeiro, os nossos sentimentos, as nossas vontades, os
nossos desejos, é arte cuja utilidade nos é possível fazer sentir às criaturas de todas as
idades. Por que prodígio se tornou um tormento para os meninos uma arte tão útil e tão
agradável ? É que os constrangeram a aplicar-se a ela sem vontade, utilizando-a para
serventias de que eles não compreendem cousa alguma.
Não pode o menino ter vontade de aperfeiçoar o instrumento com que o
torturam; mas fazei com que o instrumento sirva aos seus prazeres, e em breve se
aplicará a ele sem que o queirais.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

165

Tem-se grande trabalho para achar os melhores métodos de ensinar a ler e
inventam-se para tal artifícios vários. Que tristeza ! Um meio mais seguro que todos
esses, e de que ninguém se lembra, é o de suscitar o desejo de aprender a ler. Dai à
criança esse desejo, e abandonai depois os artifícios; todos os métodos lhe poderão
servir.
O interesse presente, eis aí o grande móbil, o que leva seguramente e muito
longe.
Transformemos as sensações em ideias, mas não saltemos subitamente dos
objectos sensíveis aos intelectuais; é pelos primeiros que devemos chegar aos segundos.
Nas primeiras operações do espírito, sejam sempre os sentidos os nossos guias... Não
lhes deis livros senão o do mundo, nem outra informação que não seja a dos factos. Da
criança que lê não direi eu que pensa; não faz mais do que ler; não se está instruindo: só
aprende palavras.
Chamai a atenção do vosso discípulo para os vários fenómenos da natureza, - e
em breve lapso o tornareis curioso; porém, para alimentar a curiosidade do aluno não
vos apresseis nunca a satisfazer-lha. Ponde os problemas ao seu alcance, e deixai que os
resolva por si. Que não saiba nada, por conseguinte, pelo simples motivo de que lho
dissestes, mas sim porque de si próprio compreendeu a coisa; que não aprenda a
ciência, senão que a invente. Se substituirdes um dia no seu espírito a razão pela
autoridade, deixará de facto de raciocinar; será simples escravo das opiniões alheias.
ROUSSEAU, Emílio ou da educação,

PESTALOZZI (1746-1887)

FROEBEL (1782-1852)

ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
I. Questionário
1. Por que motivos foi o século XVIII designado como o "século pedagógico"?

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

166

2. Em que sentido se pode fazer a distinção entre um plano quantitativo e um plano
qualitativo no domínio da educação?
3. O que caracteriza essencialmente o Iluminismo enquanto doutrina filosófica?
3. Onde reside a dificuldade em conciliar Iluminismo e Absolutismo?
4. Que consequências teve essa "esquizofrenia" no terreno educativo e pedagógico
durante o século XVIII?
5. Que importância teve a Revolução Francesa na superação desse impasse?
6. Que ideias defende Condorcet as quais conduzirão a uma transformação
quantitativa da educação nas sociedades ocidentais?
7. Compreender o papel da Revolução Francesa enquanto acontecimento e processo
indispensável à afirmação da burguesia e do capitalismo.
8. Por que somos todos nós, hoje, em maior ou menor grau, "filhos de Rousseau"?
9. Em que aspectos essenciais foi Rousseau decisivo para a renovação pedagógica
ocorrida nos séculos XIX e XX?
10. Onde e como, em Emílio ou da Educação, Rousseau rompe com a antropologia
cristã?
11. O que resulta ao nível da sua forma de conceber a educação dessa nova antropologia
rousseauísta?
12. Em que sentido defende Rousseau que a primeira educação deve ser uma "educação
negativa"?
13. O que afirmava a psicologia tradicional que tomava a criança como homunculus?
14. Que concepção da infância e da educação da criança resultava daí?
15. Onde e como, em Emílio ou da Educação, Rousseau afirma a especificidade da
infância e a necessidade lhe votar cuidados educativos apropriados?
16. Onde e como, em Emílio ou da Educação, Rousseau defende o fim do verbalismo e
reclama a defesa de uma educação realista?
17. Quais as realizações educativas e as contribuições teóricas dos dois primeiros
grandes seguidores de Rousseau (Pestalozzi e Froebel)?
II. Elabore textos articulando os conceitos seguintes. Intitule-os.
18. "Iluminismo", "Absolutismo", "Revolução Francesa", "Condorcet", "Educação
universal".

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

167

19. "Rousseau", "homunculus", "optimismo antropológico", "realismo educativo".

BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
ABBAGNANO, N., e VISALBERGHI, A., História da Pedagogia ­ II, Livros
Horizonte, Lisboa, 1981, 471-510; 589-615.
CHÂTEAU, Jean, "J.-J. Rousseau ou a pedagogia da vocação (1712-1778)", in
CHÂTEAU, Jean (Dir.), Os grandes pedagogos, Livros do Brasil, Lisboa, s/d, pp. 187231.
HUBERT, René, História da Pedagogia, Companhia Editora Nacional, S. Paulo,
1967, p. 56-78; 245-267.
LARROYO, Francisco, História Geral da Pedagogia, Editora Mestre Jou, S. Paulo,
1970, pp. 525-544; 587-594; 605-615.
LUZURIAGA, Lorenzo, História da Educação e da Pedagogia, Companhia Editora
Nacional, São Paulo, 1963, pp. 149-157; 161-179; 200-203.
MEYLAN, Louis, "Henri Pestalozzi (1746-1827)", in CHÂTEAU, Jean (Dir.), Os
grandes pedagogos, Livros do Brasil, Lisboa, s/d, pp. 232- 250.
PONCE, Anibal, Educação e luta de classes, Ed. Vega, Lisboa, 1979, pp. 175-191.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

168

CASIMIRO MANUEL MARTINS AMADO

HISTÓRIA
DA PEDAGOGIA
E DA EDUCAÇÃO
Guião para acompanhamento das aulas
II PARTE

UNIVERSIDADE DE ÉVORA
2007

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

169

6. Educação e Pedagogia em Portugal, do Iluminismo à I República
6.1. O Iluminismo em Portugal
6.1.1. Luís António Verney e Ribeiro Sanches.
6.1.2. A obra do Marquês de Pombal.

Resumo: O século XVIII foi em Portugal, como em geral na Europa, um período
decisivo para a posteridade quer no campo educativo quer no pedagógico. A nossa
atenção centrar-se-á, primeiro, na análise dos contributos teóricos de Luís António
Verney e de Ribeiro Sanches, dois ideólogos inspiradores das reformas que
efectivamente o Marques de Pombal levou a cabo criando, como se impunha na lógica
do Absolutismo, um sistema nacional de ensino, e, depois, na do alcance destas
reformas ao nível dos vários graus e subsistemas educativos.
Objectivos:
- Conhecer os traços gerais da implantação do Iluminismo em Portugal, designadamente
o papel dos "estrangeirados".
- Compreender em que sentido a actuação política do Marquês de Pombal é típica do
"despotismo esclarecido".
- Distinguir "educação pública" e "educação universal", no quadro da definição da
política pombalina relativa aos "estudos menores".
- Conhecer as diversas iniciativas reformadoras do pombalismo no terreno da educação,
nos diversos níveis de ensino, do elementar ao superior, no período que se estende de
1759 a 1772.
- Conhecer as ideias defendidas por Luís António Verney no Verdadeiro Método de
Estudar, em favor de uma reforma geral do ensino em Portugal.
- Compreender em que aspectos essas ideias foram acolhidas nas reformas pombalinas
e quais não foram aceites.
- Conhecer as ideias defendidas por Ribeiro Sanches nas Cartas sobre a educação da
Mocidade, em favor de uma reforma geral do ensino em Portugal.
- Compreender em que aspectos essas ideias foram acolhidas nas reformas pombalinas.
ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
"Nem todos os indivíduos deste Reino, e seus Domínios, se hão-de educar com
o destino dos Estudos Maiores, porque deles se devem deduzir os que são
necessariamente empregados nos serviços rústicos, e nas Artes Fabris, que ministrarão

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

170

o sustento dos Povos , e constituem os braços e mãos do Corpo Político, bastariam às
pessoas destes grémios as instruções dos Párocos".
Carta de Lei de 6 de Novembro de 1772.
"Alguns autores do século XIX e princípios do século XX confundiram a acção
governativa de Pombal no que respeita à criação de uma rede de escolas régias,
gratuitas, com o desejo que lhe atribuíam de estabelecer um sistema de educação
popular. (...)
Com a criação das escolas régias de ler, escrever e contar, o Marquês de Pombal
não tinha em vista alfabetizar as classes populares mas tão-só beneficiar a nobreza de
toga, os proprietários fundiários e a burguesia em geral. (...) Embora se entendesse que
aquelas escolas deviam abranger todo o Reino, não se aceitava que se destinassem a
todos os meninos, independentemente da sua condição social. Portanto, a quem se
dirigia este ensino régio? Aos rapazes que iriam seguir as artes liberais, aos que iriam
preencher lugares na Administração pública, aos que iriam trabalhar no comércio e em
algumas artes mecânicas bem como a alguns filhos de cultivadores proprietários e
arrendatários". Áurea Adão
"As reformas pombalinas do ensino não foram de oposição clara à Igreja e a
tudo o que era religioso; procuraram, isso sim, que esta instituição perdesse a
capacidade de administrar o sistema escolar. O que se pretendia era a centralização de
todo o ensino no poder régio e nos seus funcionários não abandonando, todavia, os
princípios religiosos. Não se impôs uma laicização do corpo docente nem tão-pouco
foram afastados os conceitos religiosos dos conteúdos do ensino". Áurea Adão
"... nos últimos decénios do século XVIII, possuir conhecimentos elementares
continuava a não representar uma primeira necessidade para a maior parte da
população. Nas regiões rurais, a escola pouco importava para aqueles que estavam
imersos em uma cultura oral e que nada vislumbravam para além do horizonte da sua
aldeia. O essencial consistia na transmissão por imitação de um saber prático e técnico a
usar na vida quotidiana; os pais mantinham-se muito pouco sensíveis à ideia de uma
possibilidade de promoção social por meio de aprendizagem escolar". Áurea Adão
"[Luís António Verney] Foi, dentre todos, o mais notável dos iluministas
portugueses, aquele que teve participação mais excitante na transformação da vida
mental portuguesa.
Verney considerava como primordial e urgente, como ponto de partida
indispensável para a transformação dessa vida mental, uma reforma geral do ensino, dos
métodos pedagógicos, dos compêndios, dos programas, da preparação dos mestres, sem
o que se tornaria inútil qualquer projecto de promoção de Portugal ao nível europeu.
Para Verney, porém, havia um obstáculo que, à partida, impedia o andamento de
qualquer processo transformador da sociedade portuguesa e que seria preciso derrubar,
fragmentar até total aniquilamento. Tal obstáculo era a Companhia de Jesus. (...)
Colocou-se Verney na posição intelectual de crítico da pedagogia inaciana (...)".
Rómulo de Carvalho
"Foi no ensino onde os conselhos de Ribeiro Sanches vieram a ser mais
fielmente perfilhados pelo imortal estadista [o Marquês de Pombal]. Depois da
expulsão da Companhia de Jesus, na lei de 3 de Setembro de 1759 ­ arguindo-os de
«rebeldes e traidores» ­ criou os estudos-menores nas cabeças de comarca, baseados no
escorço deste médico e na didáctica de Verney. Criou em Lisboa o Colégio dos Nobres,

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

171

cuja contextura é perfeitamente a indicada (salvo os retoques) nas Cartas sobre a
educação da mocidade. E, na latíssima reforma da universidade de Coimbra, inclusa
nos estatutos de 28 de Agosto de 1772, vemos sugestões deste escritor convertidas em
normas de ensino obrigatórias". Joaquim Ferreira

Textos para Análise : TEXTO 26 e TEXTO 27

TEXTO 26
RIBEIRO SANCHES (1699-1783)

Cartas sobre a Educação da Mocidade (1760)

Da natureza da educação da mocidade e do objecto que deve ter no Estado onde é nascida

Não tratarei aqui daquela educação particular que cada pai deve dar a seus filhos,
nem daquela que ordinariamente tem a mocidade nas escolas. Seria supérfluo este
trabalho à vista do perfeito livro que compôs aquele Varro português Martinho de
Mendonça de Pina e Proença, intitulado Apontamentos para a educação de um menino
nobre, e de vários autores que trataram da educação nas escolas, que relata Morhofio no
seu Polyhiflor Litterarius. O meu intento é propor tal ensino a toda a mocidade dos
dilatados domínios de Sua Majestade, que no tempo da ocupação e do trabalho e no
tempo do descanso lhe seja útil, e à sua pátria: propondo a virtude, a paz e a boa fé por
alvo desta educação, e a doutrina e as ciências como meio para adquirir estas virtudes
sociáveis e cristãs. Nunca me sairá do pensamento formar um súbdito obediente e
diligente a cumprir as suas obrigações, e um cristão resignado a imitar sempre do modo
que alcançamos aquelas imensas acções de bondade e de misericórdia.
A educação da mocidade não é mais que aquele hábito adquirido pela cultura e
direcção dos mestres, para obrar com facilidade e alegria acções úteis a si e ao Estado
onde nasceu. Mas para se cultivar o ânimo da mocidade, para adquirir a facilidade de
obrar bem e com decência, não basta o bom exemplo dos pais, nem o ensino dos

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

172

mestres é necessário que no Estado existam tais leis que premeiem a quem for mais bem
criado, e que castiguem a quem não quer ser útil nem a si nem à sua pátria.
Logo me perguntarão se toda a mocidade do reino deve ser educada por mestres,
se o Estado há-de contar entre esta mocidade o filho do pastor, do jornaleiro, do
carreteiro, do criado, do escravo e do pescador? Se convém que nas aldeias e lugares de
vinte ou trinta fogos haja escolas de ler e de escrever? Se convém ao Estado que os
curas, os sacristães e alguns devotos, cujo instituto é ensinar a mocidade a ler e a
escrever, tenham escolas públicas ou particulares de graça ou por dinheiro, para ensinar
a mocidade que, pelo seu nascimento e suas poucas posses, é obrigada a ganhar a vida
pelo trabalho corporal? Com tanta miudeza me detenho nesta classe de súbditos, porque
observo nos autores tão pouca ponderação do seu estado; e é, portanto, donde depende o
mais forte baluarte da república e o seu maior celeiro e armazém.
Os que querem e persuadem que a classe dos súbditos referidos aprendam todos
a ler e a escrever e aritmética vulgar, dizem ­ para provar a sua resolução ­ que tanto
mais se cultiva o entendimento, tanto mais se abranda o coração; que a piedade e a
clemência são tanto maiores virtudes, quanto são maiores os conhecimentos das
obrigações, com que nascemos, de adorar o Supremo Criador, de obedecer a nossos
pais e superiores e de amar os nossos iguais.
É verdade. Mas estes autores, levados do seu bom coração, assentam estas
máximas como se todos os homens houvessem de habitar o paraíso terrestre, ou não lhe
ser necessário ganhar toda a sua vida o seu limitado sustento com o trabalho de suas
mãos e com o suor do seu rosto. Que filho de pastor quererá ter aquele ofício de seu pai,
se à idade de doze anos soubesse ler e escrever? Que filhos de jornaleiro, de pescador,
de tambor, e outros ofícios vis e mui penosos, sem os quais não pode subsistir a
república, quererão ficar no ofício de seus pais, se souberem ganhar a vida em outro
mais honrado e menos trabalhoso? O rapaz de doze ou quinze anos que chegou a saber
escrever uma carta não quererá ganhar a sua vida a trazer uma ovelha cansada .s costas,
a roçar de pela manhã até à noite, nem a cavar.
Há poucos anos que nos Estados del-rei de Sardenha se promulgou uma lei que
todos os filhos dos lavradores fossem obrigados a ficarem no ofício de seus pais, dando
por razão que todos desamparavam os campos e que se refugiavam para as cidades,
onde aprendiam outros ofícios: lei que parece mal concebida, e que jamais terá
execução. Se os filhos dos lavradores desamparam a casa de seus pais, é porque têm
esperança de ganharem a sua vida com a sua indústria e inteligência, e já lhe não são
necessárias as simples mãos para sustentar-se. Sabem ler e escrever: tiveram nas aldeias
onde nasceram, escolas pias de graça ou por mui vil preço; e do mesmo modo as
mulheres, que ensinam os seus filhos a escrever, quando não têm dinheiro para pagar
mestres. E esta é a origem por que os filhos dos lavradores fogem da casa de seus pais: o
remédio seria abolir todas as escolas em semelhantes lugares.
Queixam-se em França que depois cento e trinta anos se despovoam os campos,
e que todos buscam as cidades ou se expatriam a buscar fortuna em outros climas: a
causa é a infinidade de escolas de ler e escrever na mínima aldeia de dez ou doze casas.
Há certas ordens religiosas sem clausura espalhadas por cada paróquia que têm esta
incumbência. Todo o rapaz e rapariga sabe ler, escrever o seu catecismo e o seu
Testamento Novo na língua materna: vendo-se com esta educação na idade de doze ou
quinze anos, não querem ficar em um ofício laborioso, penível e às vezes infame. Por
isso, dizia o Cardeal de Richelieu já do seu tempo: «que todo o proveito que retirava o
Estado de tanta escola de ler e escrever consistia no rendimento do correio...».
Nenhum reino necessita de maior rigor na supressão total do ânimo de ler e
escrever, nem ainda permitido aos eclesiásticos de graça, do que o nosso: o clima cria
aqueles espíritos altivos, mais para dominar que para servir; até nos animais domésticos

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

173

se observa esta indocilidade. A mãe do jornaleiro não cessará, cada dia que vê ir seu
filho à escola, de lembrar-lhe que tem um tio frade ou cura em tal lugar. O rapaz já quer
ser frade; e como só no eclesiástico se acha honra sem fazer o pai despesa, bastam as
Inquirições para chegar àquele estado, e ficar a casa do pai sem sucessor.
Todo o rapaz ou rapariga que aprendeu a ler e a escrever, se há-de ganhar o seu
sustento com o seu trabalho, perde muito da sua força enquanto aprende, e adquire um
hábito de preguiça e de liberdade desonesta. Como são os mestres de ler e escrever
homens rudes, ignorantes, sem criação nem conhecimento algum da natureza humana,
têm aqueles meninos três horas pela manhã e três de tarde, assentados, sem bulir,
sempre tremendo e temendo. Perdem a força dos membros, aquela desenvoltura natural,
porque a agitação, o movimento e a inconstância é própria da idade da meninice; e não
convém uma educação tão mole a quem há-de servir à república, de pés e de mãos, por
toda à vida.
Assim o ministro ou o tribunal que havia de ter inspecção da educação da
mocidade, parece havia de ordenar: «que em nenhuma aldeia, lugar ou vila onde não
houvesse duzentos fogos não fosse permitido, a secular nem eclesiástico, ensinar por
dinheiro ou de graça a ler ou a escrever».
Mas já vejo que clamariam os bispos e os párocos e também muitos devotos que,
pela lei proposta, era tratar a mocidade plebeia em bestas silvestres, destituída do ensino
da religião cristã, não podendo ler nem entender o catecismo; e que ficavam sem
principio algum de humanidade, nem de virtude ou obediência.
Se estes, que assim arguirem, soubessem a obrigação dos párocos e sacristães; se
soubessem que o trabalho corporal, ter o ânimo ocupado é a maior virtude; se
soubessem que, adquirindo aquele hábito de trabalhar desde a primeira meninice, lhes
serviria da melhor instrução por toda a vida: se retratariam, e não clamariam.
Nos domingos e dias de festa devia o pároco e o sacristão ensinar a doutrina
cristã a estes meninos; e com a sua diligência ficaria o menino instruído na obrigação de
cristão. E não seria necessária a escola para aprender o catecismo, porque esta obrigação
pertence à Igreja e não ao mestre de ler nem de escrever ­ ainda que abaixo se lhe
imporá esta obrigação.
Se uma vez o Estado abraçar fazer executar a lei acima, conceberá no mesmo
instante que o trabalho e a indústria se devem considerar como base do Estado civil.
É-lhe necessária a providência de procurar pela agricultura e pelas artes onde o povo
adquira o seu sustento; é-lhe necessário estabelecer, pelo menos, um comércio interior e
comunicação de vila a vila, de comarca a comarca, para promover a circulação: que,
sem ela, não continuará o trabalho do povo, nem a Indústria. Em uma palavra, era
necessário para estabelecer a proibição das escolas de ler, nas aldeias, gastar o Estado
uma certa parte do seu rendimento na erecção e fundamentos do trabalho e da indústria.
Não necessitaria esta classe do povo de outra educação do que os pais e mães
estivessem empregados no trabalho; e seus filhos, não tendo outro recurso para
ganharem a vida, seguiriam aquele caminho que exercitavam os progenitores e os
tutores. Quem trabalha faz um acto virtuoso, evita o ócio ­ vício o maior, contra a
religião e contra o Estado. E S. Bento achou o trabalho de mãos de tanta virtude, que o
pós por regra de sete horas cada dia. Isto é o que basta para a boa educação da mocidade
plebeia. Além disso, o povo não faz boas nem más acções que por costume e por
imitação; e raríssimas vezes se move por sistema nem por reflexão: será cortês ou
grosseiro, sisudo ou ralhador, pacífico ou insultador, conforme for tratado pelo seu cura,
pelo seu juiz; pelo escudeiro ou lavrador honrado. O povo imita as acções dos seus
maiores. A gente das vilas imita o trato das cidades à roda; as cidades o trato da capital;
e a capital o da corte. Deste modo, que a mocidade plebeia tenha ou não tenha mestre,

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

174

os costumes que tiver serão sempre a imitação dos que virem nos seus maiores, e não do
ensino que tiveram nas escolas. Todo o ponto é que as leis do Estado estejam de tal
modo decretadas, que não falte à mais ínfima classe dos súbditos o trabalho, e que se
despenda nisto o que se despende nos hospitais gerais e nas confrarias.
Mas não se imaginem os bispos, nem os devotos que, pela lei acima, ficam
excluídos de aprender a ler e a escrever os filhos dos lavradores e oficiais que tiverem
cabedal para sustentá-las nas pensões ou seminários que proporemos abaixo, erigidos
nas vilas ou lugares que excederem duzentos vizinhos. Com esta providência, seria
louvada a lei que não houvesse escolas nas aldeias.
SANCHES, Ribeiro, Cartas sobre a educação da Mocidade,
Ed. Domingos Barreira, Porto, s/d., pp. 125-131.

TEXTO 27
LUÍS ANTÓNIO VERNEY (1713-1792)

Verdadeiro Método de Estudar (1746)
CARTA PRIMEIRA (a)
[INTRODUÇÃO AO CONJUNTO DE TODA A CORRESPONDÊNCIA]
Meu amigo e senhor: Nesta última carta que recebo de V. P., entre várias coisas
que me propõe, é a principal o desejo que tem de que eu lhe diga o meu parecer sobre o
método dos estudos deste Reino; e lhe diga seriamente se me parece racionável para
formar homens que sejam úteis para a República e Religião; ou que coisa se pode
mudar, para conseguir o dito intento. Além disto, quer também que eu lhe dê alguma
ideia dos estudos das outras Nações que eu tenho visto.
[I - INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA LÍNGUA PORTUGUESA. Ideia de
Gramática e história dos estudos gramaticais.]
Começo, pois, nesta carta, pela Gramática, que é a porta dos outros estudos, da
qual depende a boa eleição dos mais.
(a)

Eis o sumário de que esta carta vinha precedida nas edições primitivas: Motivo desta correspondência, e como se deve
continuar. Mostra-se, com o exemplo dos Antigos, a necessidade de uma Gramática Portuguesa para começar os estudos. Dá-se
uma ideia da melhor Ortografia Portuguesa, e responde-se aos argumentos contrários. Que o vocabulário do Padre Bluteau se
deve reformar, para utilidade da Mocidade.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

175

A Gramática é a arte de escrever e falar correctamente. Todos aprendem a sua
língua no berço; mas, se acaso se contentam com essa notícia, nunca falarão como
homens doutos. Os primeiros mestres das línguas vivas comumente são mulheres ou
gente de pouca literatura, de que vem que se aprenda a própria língua com muito erro e
palavra imprópria, e, pela maior parte, palavras plebeias. É necessário emendar com o
estudo os erros daquela primeira doutrina.
(...) Se a um rapaz que começa explicassem e mostrassem, na sua própria língua,
que há Verbo, Caso, Advérbio etc.; que há formas particulares de falar, de que se
compõe a sintaxe da sua língua; se, sem tantas regras, mas com mui simples
explicações, fizessem com que os principiantes reflectissem que, sem advertirem,
executam as regras que se acham nos livros, e isto sem género algum de preceitos, mas
pelo ouvirem e exercitarem; seguro a V. P. que abririam os olhos por uma vez, e
entenderiam as coisas bem, e se facilitaria a percepção das línguas todas.
[II - PLANO DOS ESTUDOS DE LÍNGUA PORTUGUESA.
Didáctica aconselhável. ­ Observações sobre a redacção de cartas. ­ Valor da
Gramática do P. Argote.]
Isto suposto, julgo que este deve ser o primeiro estudo da Mocidade, e que a
primeira coisa que se lhe deve apresentar é uma Gramática da sua língua, curta e clara;
porque, neste particular, a voz do Mestre faz mais que os preceitos. E não se devem
intimidar os rapazes com mau modo ou pancadas, como todos os dias sucede; mas, com
grande paciência, explicar-lhe as regras, e, sobretudo, mostrar-lhe, nos seus mesmos
discursos, ou em algum livro vulgar e carta bem escrita e fácil, o exercício e a razão de
todos esses preceitos.

CARTA SEGUNDA(a)
[I -INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA GRAMÁTICA LATINA.
a) Crítica do método usual.]
Depois do estudo da Gramática Vulgar, segue-se o da Latina, e desta direi a V.
P. o meu parecer na presente carta. Quando entrei neste Reino, e vi a quantidade de
Cartapácios e Artes que eram necessárias para estudar somente a Gramática, fiquei
pasmado.
Ora convêm todos os homens de bom juízo e que têm visto países estrangeiros e
lido sobre isto alguma coisa, convêm, digo, que qualquer gramática de uma língua, que
não é nacional, se deve explicar na língua que um homem sabe. Se V. P. quisesse
aprender Grego, e para este efeito lhe dessem uma gramática toda grega, e um Mestre
que somente falasse Grego, poderia, à força de acenos, vir a entender alguma palavra:
mas não seria possível que aprendesse Grego. O mesmo sucederia em qualquer outra
língua estrangeira.

CARTA TERCEIRA(a)
(a)

Sumário que a precede nas edições primitivas: Danos que resultam da Gramática Latina que comummente se ensina. Motivos
por que, nas escolas de Portugal, não se melhora de método. Nova ideia de uma Gramática Latina facilíssima, com que, em um
ano, se pode aprender fundamentalmente Gramática. etc.
(a)
Sumário que a antecede nas edições primitivas: Abusos que se introduziram em Portugal no ensinar a língua latina. Mau modo
que os Mestres têm para instruir a Mocidade. Propõe-se o método que se deve observar, para saber com fundamento e facilidade
o que é pura Latinidade. Necessidade da Geografia, Cronologia e História, para poder entender os livros latinos. Apontam-se os

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

176

[I -INTRODUÇÃO A0 ESTUDO DA LATINIDADE.
a) Considerações gerais.]
Meu amigo e senhor: Tardei em escrever a V. P. porque tive legítimas
ocupações. Continuando, pois, o fio das minhas reflexões, da Gramática, passo para a
Latinidade, porque me persuado que este mesmo caminho deve seguir o estudante que
quer ter perfeita notícia da língua latina. Esta notícia certamente não se consegue com a
pura Gramática, mas com a contínua lição de bons autores e reflexão sobre as suas
melhores obras. Aliud est grammatice, aliud latine loqui, advertiu já no seu tempo
Quintiliano. E com muita razão; porque a escrupulosa sujeição às regras da Gramática
impede saber falar a língua. A Gramática é a porta pela qual se entra na Latinidade; e
quem pára no vestíbulo, não pode ver as singularidades do palácio.
Daqui fica claro que, com tal método, pouco se pode saber de Latim. É lástima
que os Professores não cheguem a conhecer, por uma vez, o ridículo deste costume.
Todos os primeiros estudos naturalmente desagradam, porque são cansados. E para que
havemos enfastiar mais os pobres rapazes? (...) E não acha V. P. que é uma crueldade
castigar rigorosamente um rapaz, porque não entende logo a língua latina, que de si
mesmo é dificultosa e ainda o parece mais na confusão com que lha explicam? Isto é o
mesmo que meter um homem em uma casa sem luz, e dar-lhe pancadas, porque não
acerta com a porta.
V. P. está em uma Universidade onde é fácil desenganar-se com os seus olhos.
Entre no Colégio das Artes, corra as escolas baixas, e verá as muitas palmatoadas que
se mandam dar aos pobres principiantes. Penetre, porém, com a consideração o interior
das escolas; examine se o Mestre lhe ensina o que deve ensinar; se lhe facilita o
caminho para entendê-la; se não lhe carrega a memória com coisas desnecessaríssimas;
e achará tudo o contrário. O que suposto, todo este peso, está fora da esfera de um
principiante. Ora, não há lei que obrigue um homem a fazer mais do que pode, e que
castigue os defeitos que se não podem evitar. Não nego que deve haver castigo; mas
deve ser proporcionado. Um estudante que impede que os outros estudem, que faz
rapaziadas pesadas etc., é justo que seja castigado, e, havendo reincidência, que seja
despedido. Seria bom que, nessa sua Universidade, se desse um rigoroso castigo, ainda
de morte, aos que injustamente acometem os novatos e fazem outras insolências. A
brandura, com que se tem procedido neste particular, talvez foi causa do que ao depois
se fez e ainda se faz. Nesse particular seria eu inexorável; porque a paz pública, que o
Príncipe promete aos que concorrem para tais exercícios, pede-o assim; e, em outros
Reinos, executam-no com todo o rigor. Falo somente do castigo que se dá por causa de
não acertar com os estudos. A emulação, a repreensão, e algum outro castigo deste
género, faz mais que os que se praticam. É necessário ter muita paciência com os
rapazes, e ensiná-los bem, (...)

QUARTA QUARTA (a)
[I -INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO GREGO E DO HEBRAICO.
a) Estado destes estudos em Portugal. ]
autores de que os Mestres se devem servir na Latinidade; e como devem servir-se deles e explicá-los com utilidade; as melhores
edições. Aponta-se o modo de cultivar a memória e exercitar o Latim nas escolas.
(a)
Sumário que a precede nas edições primitivas: Necessidade das línguas orientais, principalmente grega e hebraica, para
entender as letras humanas, mas muito principalmente para a Teologia. Modo de as aprender, Utilidade da língua francesa e
italiana para ser erudito com facilidade e sem despesa.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

177

Meu amigo e senhor: Talvez esperava V. P. que eu, nesta carta, passasse
direitamente à Retórica, e começasse a discorrer sobre aquela matéria que nos ocupou
bastante tempo, e nos deu ocasião para fazer muitas e mui úteis reflexões. Também essa
era a minha intenção, se me não ocorresse outra coisa, que julgo ser igualmente
necessária e que não nos ocupará senão uma carta e não mui longa. Falo do estudo das
línguas orientais, que muitos desprezam, porque não têm juízo para conhecer o bom,
resolução para o empreender, e método para o conseguir. Eu não falarei de todas, mas
das duas mais principais, e que todos os homens doutos reputam que são sumamente
necessárias, e como tais se ensinam em quase todos os estudos da Europa culta. Tais
são a grega e hebraica.
São estas duas línguas em Portugal totalmente desconhecidas, ainda nas
Universidades, o que é mui observável, porque Universidade deve compreender todo o
género de estudos. Os Espanhóis conheceram muito bem esta necessidade e vemos
que nas principais das suas Universidades ensinam não só estas, mas outras orientais.
Mas em Portugal observo que não há notícia delas.
[b) Necessidade e importância destes estudos.]
Mas a verdade é que aos Teólogos é indispensavelmente necessário sabê-lo,
senão a todos, ao menos aos que se internam na Teologia e a ensinam. (...) Por agora, só
digo que, assim como ao Teólogo é necessário entender Latim para ler a Vulgata latina,
assim também é necessário entender os textos originais de que essa Vulgata se tirou.

CARTA QUINTA (a)
[I - INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA RETÓRICA: EXAME DA ORATÓRIA
PORTUGUESA DE PÚLPITO.
a) Considerações gerais: Origem e utilidade da Retórica.]
Finalmente, é tempo de passarmos à Retórica, para com ela completar os
estudos das escolas baixas. Sei que V. P. tem gosto de ouvir-me falar dos outros, e me
faz a mercê, nesta sua, dizer que imprime as minhas cartas na memória; mas sei
também que, de todos os estudos das Humanidades, de nenhum tem mais empenho que
da Retórica, pois, se bem me lembro das nossas conversações, conheci então em V. P.
um ardente desejo de me ouvir falar nesta matéria, e de querer instruir-se dos
particulares estilos de Retórica, e muito principalmente dos sermões de outros países;
porque me disse que não lhe agradava o estilo deste Reino, o qual muitas vezes seguira
por necessidade. Nesta carta direi brevemente o que me ocorre sobre os defeitos, e
também sobre o modo de os evitar.
A Retórica nasceu na Grécia, como todos os outros melhores estudos, e de lá se
espalhou pelas mais partes da Europa.
E, na verdade, não há coisa mais útil que a Retórica; mas não há alguma que
com mais negligência se trate neste Reino. Se V. P. observar o que os Mestres ensinam
nas escolas, achará que é uma embrulhada que nenhum homem, quanto mais rapaz,
pode entender. Primeiramente, ensinam a Retórica em Latim. Erro considerável, porque
nada tem a Retórica com o Latim, sendo que os seus preceitos compreendem e se
(a)

Sumário que a antecede nas edições primitivas: Discorre-se da utilidade e necessidade da Retórica, Mau método com que se
trata em Portugal. Vícios dos Pregadores. Que são totalmente ignorantes de Retórica. Que absolutamente deve deixar o antigo
estilo quem quer saber Retórica.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

178

exercitam em todas as línguas. Daqui nasce o primeiro dano, que é que os rapazes não a
entendem, porque ainda não entendem Latim; e nasce também o primeiro engano, que é
persuadirem-se os ditos rapazes que a Retórica só serve para as orações latinas. Assim
me responderam muitos, não só rapazes, mas também sacerdotes. Do que eu concluí
que saem da Retórica como nela entraram; e, examinando as Retóricas que eles
aprendem, fiquei também persuadido serem elas tais, que não podiam produzir outro
fruto.
Mas, por pouco que se examine o que é Retórica, achar-se-á que é Arte de
persuadir, e, por consequência, que é a única coisa que se acha e serve no comércio
humano, e a mais necessária para ele. Onde, quem diz que só serve para persuadir na
cadeira ou no púlpito, conhece pouco o que é Retórica. Confesso que nos púlpitos e
cadeiras faz a Retórica gala de todas os seus ornamentos; mas não se limita neles; todo
o lugar é teatro para a Retórica. Não agrada um livro, se não é escrito com arte; não
persuade um discurso, se não é formado com método; finalmente, uma carta, uma
resposta; todo o exercício da língua, necessita da direcção da Retórica.
O discurso de um homem despido de todo o artifício não pode menos que ser
um Caos. Poderá ter, boas razões, excogitar provas mui fortes, mas, se as não sabe
dispor com ordem; quem poderá entendê-lo? quem se persuadirá delas? A disposição
das partes dá nova alma ao todo; convida a conhecer as proporções; mostra a relação e
dependência que umas têm das outras; coloca na sua justa proporção o que de outra
sorte não se poderia entender.
Os rapazes que estudam nestes países não sabem nada de Retórica, porque lha
não ensinam.

CARTA SEXTA(a)
[II -PLANO DUMA RETÓRICA MODERNA.
a) Primeiras considerações.]
Não entenda V. P. que hei-de faltar à promessa, pois, não só com prontidão, mas
com muito gosto, executarei nesta carta o que prometi na última, e direi o como se
devem entender as coisas que disse, para emendar os defeitos que nestes Retóricos
vulgares se encontram, e que eu apontei na carta passada. Digo, pois, que o primeiro e
mais importante ponto que deve advertir quem quer formar o bom gosto literário é fugir
totalmente destas Retóricas comuns, não só manuscritas, mas também impressas. Estou
persuadido que elas são a primeira ruína dos estudos; porque inspiram mui maus
princípios e não ensinam o que devem.
(...) Os rapazes que estudaram aquilo persuadem-se que são Retóricos da
primeira esfera; que podem com a ajuda de quatro adjectivos e sinónimos, e quatro
descrições afectadíssimas, arengar de repente em qualquer matéria. Entendem que não
há oração que não observe a disposição que eles lêem na sua Retórica. Julgam que não
há discurso oratório sem todas aquelas mexerufadas. Finalmente, como não lhe
explicam o verdadeiro uso da Retórica e artifício da verdadeira eloquência, persuademse que só nos discursos académicos tem ela lugar. De que nasce que, depois de
perderem bem tempo nas escolas a que chamam de Retórica, ficam totalmente
ignorantes dela.
(a)Sumário que a antecede nas edições primitivas: Continua-se a mesma matéria da Retórica. Fazem-se algumas reflexões sobre o que é verdadeira Retórica e origem dela. Que coisa sejam figuras, e como devemos usar delas.
Diversidade dos estilos e modo de os praticar; e vícios dos que os não admitem e praticam. Qual seja o método de persuadir. Qual o método dos panegíricos e outros sermões. Como se deve ensinar Retórica aos rapazes, e ainda
aos mestres. Algumas reflexões sobre as obras do P. António Vieira.
Como já dissemos em nota anterior, consideramos as Cartas V e VI como uma única que foi desdobrada, e por isso damos numeração seguida às nossas rubricas, abrindo aqui por II.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

179

Isto suposto, é necessário desterrar uma, e admitir outra sorte de Retórica. Já
assentámos que a Retórica deve ser em Português para os que nasceram em Portugal;
porque assim se entendem os preceitos, e na sua mesma língua se mostram os
exemplos. Não havemos de carregar os rapazes com dois pesos: entender a língua e
entender a Retórica. Também não havemos fingir os homens como não são, imaginando
rapazes mm agudos e espertos. Tudo isto é ilusão. Os rapazes são de diversas
capacidades, e muitos são rudes. Comummente aprendem Retórica quando ainda não
entendem bem Latim. E, assim, é necessário falar-lhe em Português; muito mais,
porque, ou queiram ser Pregadores, ou Advogados, ou Históricos etc., tudo isto se faz
cá em Português, e é loucura ensinar em Latim uma coisa que, pela maior parte, se háde executar em Vulgar. Esta é a primeira regra do Método: facilitar á inteligência.

CARTA SÉTIMA(a)
[I - INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA POESIA: A) EXAME DA POESIA
PORTUGUESA NO PONTO DE VISTA DO ENGENHO.
a) Alguns prejuízos sobre Poesia. As várias classes do Engenho.]
No fim da sua carta, repete V. P. uma circunstância que já me pediu em outra
sua: vem a ser que diga alguma coisa da Poesia. Eu me lembro mui bem da sua petição,
a qual não deixei por esquecimento, mas com suma advertência, visto que só depois da
Retórica se deve tratar da Poesia, a qual nada mais é que uma Eloquência mais ornada.
Só me resta uma dificuldade, quero dizer: se poderei eu desempenhar o que V. P. me
encomenda. Eu tenho pouca notícia de Poetas portugueses, ou não tenho toda a que é
necessária para formar juízo exacto deles. Desde que li a1guns, os desprezei quase
todos, porque me não agradaram.
(...) Digo, pois, que o estilo dos Poetas deste seu Reino e desta sua língua
pouquíssimo me agrada, porque é totalmente contrário ao que fizeram os melhores
modelos da Antiguidade e ao que ensina a boa razão. A razão disto é porque os que se
metem a compor não sabem que coisa é compor; onde, quando muito, são
Versificadores, mas não Poetas.
(...) Envergonham-se de poetar em Português e têm por pecado mortal ou coisa
pouco decorosa fazê-lo na dita língua. Imaginações e prejuízos ridículos!
(...) O que é tão claro, que ninguém pode menos que rir-se de ver que um
Português se envergonha de poetar na sua língua, fazendo-o em Latim. Como se na
língua latina não se pudessem dizer todas as loucuras que já se dizem na portuguesa! De
que vem, que, segundo o estilo das escolas, um Português é obrigado a não saber que
coisa é Poesia.
[ e) Conclusão.]
A Poesia não é coisa necessária na República : é faculdade arbitrária e de
divertimento. E assim, não havendo necessidade de fazer versos, ou fazê-los bem ou
(a)

Sumário que a antecede nas edições primitivas: Fala-se da Poesia. Os Portugueses são meros versejadores. Prejuízos dos
Mestres, de não poetarem em Vulgar. Que coisa seja engenho bom e mau. Espécies de obras de mau engenho, em que caíram
alguns Antigos, mas principalmente os Modernos. Necessidade do Critério e Retórica em toda a sorte de Poesia. Primeiro defeito
de Poesia: a inverosimilidade. Exemplos. Segundo defeito: os argumentos ridículos. Reflexões particulares sobre as composições
pequenas portuguesas, que não podem dar nome a um homem. Defeitos da Nação, provados com exemplos. Reflexões sobre o
Epigrama, Latino, Elogios, Inscrições Lapidares, Eglogas, Odes, Sátiras, Poemas Epicos. Que os Portugueses não conheceram
as leis do Poema Épico. Prova-se com Camões, Chagas, Botelho de Morais. Aponta-se o método com que se devem regular os
rapazes no estudo da Poesia. Nova ideia de uma Arte Poética útil para a Mocidade.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

180

não fazê-los, por não se expor às risadas dos inteligentes. Se eu visse que o estudante
não tinha inclinação à composição, explicaria brevemente as leis poéticas, que é uma
erudição separada da composição e que todos podem aprender, ao menos para
entenderem as obras, e o deixaria empregar no que lhe parecesse. Desta sorte, livres os
estudantes daquele cativeiro, podiam empregar-se em coisas úteis, e dar outro lustre à
República.

CARTA OITAVA(a)
[INTRODUÇÃO AO CONJUNTO DAS CARTAS SOBRE ASSUNTOS
FILOSÓFICOS: A) FILOSOFIA ESCOLÁSTICA E FILOSOFIA MODERNA.
[Estado dos Estudos Filosóficos em Portugal.]
Lembro-me que, na nossa última conversação, me disse V. P. que as escolas de
Filosofia deste Reino necessitavam ainda maior reforma que as outras, porque o mau
método das escolas baixas alguma coisa se pode emendar com o tempo; porém uma vez
que o estudante começou a provar o ergo e atqui, e a brincar com eles, e excogitar
sofismas e metafísicas obscuras, de tal sorte se ocupa com aquele negócio, que não é
possível pôr-lhe remédio; de que nasce a confusão na Medicina, Teologia e mais
Ciências. Corno V. P. reconhece de antemão esta verdade, me animo a dizer-lhe
sinceramente o meu parecer.
Eu verdadeiramente não sei se as escolas de Filosofia deste Reino têm pior
método que as escolas baixas. Sobre isso havia muito que dizer. O que sei, porém, é que
nestes países não se sabe de que cor seja isto a que chamam boa Filosofia. Este
vocábulo, ou por ele entendamos ciência, ou, com rigor gramático, amor da ciência, é
vocábulo bem grego nestes países. Verá V. P. que se dá este nome a coisas bem
galantes: Universais, Sinais, Proemiais, e outras coisas destas. Os pobres rapazes
passam os seus três e quatro anos lendo arengas mui compridas; e saem dali sem
saberem o que leram, nem o com que se divertiram.
[b) Os vários aspectos da resistência à Filosofia Moderna.]
Mas isto seria nada: o melhor da festa está na satisfação com que ficam de terem
estudado tudo aquilo. Se alguém lhe contradiz um ponto; se alguém quer tomar o
trabalho de lhe mostrar que nada daquilo vale um figo; ou que Aristóteles não falou
naquele sentido; ou que a Filosofia se deve tratar de outra maneira, e que assim a
"tratam naqueles países que dão leis ao mundo em matéria de erudição, e ainda em
Roma, nas barbas do Papa, etc.; ­ acabou-se tudo, e vem o mundo abaixo com gritarias.
A tal proposição é urna heresia, contrária diametralmente à Escritura e às definições dos
Concílios e Padres, e ao costume da Igreja Católica, que canonizou as obras de
Aristóteles e também a doutrina dos Árabes. Galilei, Descartes, Gasendo, Newton, e
outros destes que a não seguiram, cheiram a Ateístas, ou, pelo menos, estão um palmo
distantes do erro. Estas Filosofias só reinam em países de Herejes. Os estrangeiros que
(a)

Sumário que a antecede nas edições primitivas: Trata-se da Filosofia. Mau método com que se ensina em Portugal. Advertência
das outras Nações em procurar a Ciência. Necessidade da História Filosófica para se livrar de prejuízos. ldeia da Série
Filosófica. Danos e impropriedades da Lógica vulgar. Dá-se uma ideia da boa Lógica.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

181

defendem isto são quatro bêbados, que impugnam o que não entendem, e não entendem
o que proferem. Isto, e outras coisas semelhantes, tenho eu ouvido algumas vezes.
[c) O desconhecimento da Filosofia Moderna exemplificado com Descartes.)
Eles confundem todos os autores modernos, e, sem mais exame, os acusam dos
mesmos erros, e, com estranha dialéctica, os condenam de ignorância. Como se um
homem doutíssimo não pudesse uma vez dizer um despropósito! Os que têm erudição
esquisita sabem que no mundo houve um Descartes; e algum deles, mais raro que
mosca branca, leu alguma coisa dos Princípios ou Meditações Metafísicas. E aqui é ela:
sobe à cadeira e vomita mais decisões contra o pobre Descartes, do que ele não disse
palavras.
(...) Dizem mil falsidades que nunca sucederam; fingem definições, que nunca
se sonharam; confundem a doutrina revelada com as opiniões da Escola; e querem que
os SS. PP. aprovassem profeticamente a Escolástica, que se inventou alguns séculos
depois deles mortos. Esta é a célebre cantilena destes Mestres, principalmente deste
Reino, a qual provém da grande ignorância em que se vive da História antiga e moderna
e dos estilos dos outros países, do pouco conhecimento que têm de livros, e, finalmente,
de quererem ser mestres em uma matéria em que ainda não foram discípulos.
[d) O preconceito da inferioridade cultural do estrangeiro.)
Sei que a maior parte dos homens vive mui satisfeita dos estilos e singularidades
do seu país; mas não sei se há quem requinte este prejuízo com, tanto excesso como os
Espanhóis e Portugueses. Observo que os Franceses, Ingleses, Holandeses, (que não são
dos que têm pior opinião, e com razão, de si) aproveitam-se com todo o cuidado dos
excessos que lhe levam as outras Nações.
(...) Isto é verdadeiramente conhecer o merecimento de cada coisa. Mas observo
também que este método é ignorado nas Espanhas, e mui principalmente em Portugal,
onde vejo desprezar todos os estudos estrangeiros, e com tal empenho, como se fossem
maus costumes ou coisas muito nocivas.
(...) Quando se vêem obrigados com exemplos a reconhecer que os Estrangeiros
lhe levam considerável excesso, respondem rindo que assim é; mas que somente é em
coisas inutilíssimas.

CARTA NONA(a)
[I ­ INTRODUÇÃO À ANÁLISE DA METAFÍSICA.
a) Considerações sobre a matéria da carta anterior.]
Meu amigo e senhor: Quando recebi a última de V. P. em data de 15 de
Fevereiro, tinha já começado outra para lhe mandar, e era sobre a Física.
(...) Homens conheço eu, aos quais, se V. P. disser que a forma silogística não é
a coisa mais necessária no mundo, se escandalizarão mais do que se ouvissem alguma
heresia. Estes, que beberam o silogismo em idade tenra, não querem ouvir falar de outra
coisa: uns, por malícia, porque não sabem falar em outra matéria; outros, por
ignorância, porque nunca examinaram a questão, e estes são os mais.
(a)

Sumário que a antecede nas edições primitivas: Mostra-se o mau método de tratar a Metafísica neste Reino e danos que daqui
resultam. Explica-se que coisa é Metafísica, e se mostra que é inseparável da Lógica e Física; e que superfluamente querem
chamar-lhe ciência separada. Que não há tal Metafísica como eles imaginam. Dá-se juízo das obras do Padre Feijóo.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

182

CARTA DÉCIMA(a)
[I - INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA FÍSICA.
a) Física Escolástica e Forma Aristotélica: ­ I. Natureza das
questões da Física Escolástica. ­ 2. O conceito escolástico da
Forma em face dos textos de Aristóteles, S. Tomás e Cícero. ­ 3. O
conceito escolástico da Forma em face das definições da Igreja.]
[I.] Meu amigo e senhor: Depois de algum tempo de descanso, é justo que
continue o exercício já começado, e desempenhe a minha palavra. Direi, pois, a V. P.
alguma coisa da principal parte da Filosofia que é a Física, (...).
(...) Já disse a V. P. em outra carta que física era o conhecimento da natureza de
todas a coisas, o que se alcança por meio das suas propriedades e da redução aos
pr6prios princípios. E daqui cuido podia poupar o trabalho de lhe dizer o conceito que
deve formar da Física deste Reino. Mas, como V. P. quer que lhe diga distintamente o
que entendo, e esta carta é consagrada a isso, fá-lo-ei brevemente. O que suposto, digo
que neste Reino não se sabe que coisa é Física, ainda aqueles que falam muito nela.
Querendo V. P. lançar os olhos sobre aquilo a que aqui chamam Física, entenderá
melhor o que lhe digo. Toda esta Física se reduz a tratar da Matéria, Forma e Privação
in abstracto, dos apetites da Matéria, das divisões das Negações, e outras destas coisas
em comum. Depois disso, das Causas também em comum, porque, ainda que prometam
tratar delas em particular, nada menos fazem que isso que prometem, e todo o tempo se
passa em disputar palavras gerais. Com isto se ocupa a Física dos Peripatéticos. Ora é
bem claro que tudo isto são arengas que nada significam, e é disputar de nomes, (...).
[b) Física Escolástica e Experiência: ­ 1. Como a Escolástica
utiliza a Experiência. ­ 2. Exemplos: o caso do Vácuo,. a
circulação do sangue. ­ 3. Improcedência duma tal Física.]

[I.]
(...) Tantos anos de "disputas, tantas subtilezas, não deitam uma oitava de
verdadeiro espírito filosófico, quero dizer, de um juízo prudente e crítico, capaz de
fazer observações úteis e discorrer com fundamento sobre as causas de qualquer efeito
natural. A três ou quatro palavras se reduz toda a sua Filosofia Natural. Pasma um
homem de ver a facilidade com que explicam qualquer fenómeno que se oferece. Fala
V. P. do Raio, e respondem-lhe que se compõe de matéria, forma e privação: a matéria
são os vapores ígneos, nos quais se introduziu a forma de fogo, que o fez romper para a
terra. Isto é quanto pode dizer, segundo os seus princípios, um Peripatético. Diz a
verdade; mas não chega a explicar que coisa é Raio, nem nos faz a mercê de dizer por
que razão a forma de fogo, que em todos os indivíduos é a mesma, na chama suba para
cima, e no raio caia para baixo. E que se chamem" filósofos estes tais! e que condenem
os que observam miudamente a natureza! Se a Física é o conhecimento da natureza,
(a)

Sumário que a antecede nas edições primitivas: Mostra-se que coisa é Física. Que em Portugal não entendem o que é, nem
sabem tratar a Física. Prejuízos dos Peripatéticos; .e danos que resultam da Física da Escola, Excesso da Filosofia moderna, e
principalmente da Física, sobre a antiga. Diversidade entre os mesmos Modernos.. e qual sistema se deve preferir. Necessidade
da Geometria e Aritmética para entender a Física, a qual se deve estudar nas obras das Academias. Prejuízo dos Portugueses de
não quererem ensinar muitas coisas em Vulgar. Dá-se o modo de ordenar um Curso de Física. Dá-se uma ideia de estudar com
método e brevidade toda a Física.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

183

quem mais observou a natureza com discursos aéreos? Tanto sabe um puro Peripatético
dos efeitos naturais quanto sabe um cego de cores: ambos falam do que não viram, um
porque não tem olhos, e outro porque os não quer ter.
(...) Para discorrer bem sobre a natureza é necessário ter juízo claro, com todos
os requisitos para observar bem: observar muito e bem, ou saber-se servir dos que o
fizeram, e fundar os seus raciocínios em princípios evidentes, quais são os matemáticos.
[2.] Nem vale o dizerem que alguns mais modernos recebem as experiências.
Isto são arengas; porque, neste particular, não há meio. Quem recebe as experiências, e,
em virtude delas, quer discorrer, deve renunciar o Peripato; quem abraça o Peripato
deve renunciar as experiências. São coisas totalmente opostas, que uma destrui a outra.
(...)
[4.] Quem não segue esta estrada, perde o seu tempo. Nós não temos
conhecimento imediato das naturezas; unicamente temos dois meios para o conseguir:
observar as propriedades e ver se, mediante alguma resolução, podemos chegar a
conhecer os princípios de que se compõe esta ou aquela entidade física. Este deve ser o
primeiro emprego do Físico: observar e discorrer. Não devemos querer que a natureza
se componha segundo as nossas ideias; mas devemos acomodar as nossas ideias aos
efeitos que observamos na natureza.
[c) Física Escolástica e Autoridade: ­ 1. O preconceito da
Autoridade. ­ 2. Limites dos conhecimentos dos Antigos. ­ 3.
Vastidão e aprofundamento dos conhecimentos dos Modernos.]
[1.] Se os homens quisessem depor os prejuízos e servir-se dos seus olhos,
reconheceriam a verdade do que aqui aponto; mas a preocupação nos Peripatéticos é tal,
que não lhe deixa abrir os olhos para ver o que devem. Que importa que Aristóteles, ou
todos os Filósofos da Grécia, dissessem que o Ar era leve, se estou vendo experiências
que provam que é pesado?
[2.] Quero ainda supor que esses Filósofos fossem os maiores homens do
mundo; nada disso basta para que eu não ceda à evidência e despreze a sua autoridade.
Mas que souberam esses Filósofos em comparação do que nós hoje sabemos?
[3.] Todos estes homens merecem louvor por aquilo que nos deixaram escrito, e
porque chegaram a conhecer alguma coisa que nós hoje temos demonstrada, e talvez
nos indicaram a estrada em outras, etc.. Eu acho, nos antigos Filósofos, espalhados
alguns pensamentos que nós hoje recebemos como certos; mas sem método, sem razão,
sem demonstração, e, pela maior parte, por via de conjectura. Contudo isso, não se
devem comparar, e muito menos preferir., aos nossos Filósofos modernos. Eles não
tinham os Telescópios para observar os astros, os Engiscópios para os invisíveis, e os
mais instrumentos sem número de que o método moderno enriqueceu a Física. Todas
estas máquinas, ou se inventaram no século passado, ou neste presente, e todos os dias
se vão inventando. E que utilidade não resultou destas experiências? que desenganos
não temos alcançado mediante estas observações?
(...) Antigamente os Filósofos não viam nos animais senão aquilo que podem
observar os carniceiros; nas árvores, aquilo que sabem os carpinteiros; não tinham mais
conhecimento das plantas do que pode ter um jardineiro; nem dos metais sabiam outra
coisa senão o que sabe um fundidor. Mas hoje os Filósofos fazem anatomia em todas
estas coisas; e explica-se a disposição orgânica de muitas destas partes como se explica
a disposição de um relógio. Este modo de examinar a natureza tem aberto os olhos aos
Filósofos, e tem-lhe mostrado que da disposição maquinal de várias partes dependem
alguns movimentos que se atribuíam a causas ocultas.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

184

(...) Não quero com isto dizer que os que observam a natureza tenham clara ideia
das essências das coisas; estou mui longe disso. Conheço que muitas coisas se têm
descoberto; mas que muitas mais ficam por descobrir, reservadas para os nossos
vindoiros. O que digo é que este meio é o único para descobrir a verdade, com esta
circunstância de mais: que ou nos descobre a verdade, ou não nos lisonjeia com uma
ciência mentirosa; pois nele claramente se distingue o que é verdadeiro, daquilo que é
verosímil e que é falso.
[d) Da Física Escolástica à Física Moderna: ­ 1.
Obscuridade e clareza. ­ 2. As duas espécies de Física Moderna: a
corrente hipotética e a corrente experimental. ­ 3. Física sem
sistema.]
[1.] E, na verdade, nunca pude sofrer estes que se servem de palavras pouco
usuais e inteligíveis, nem distinguem o verdadeiro do falso, o claro do duvidoso, mas
recolhem-se ao sagrado de certas palavras, como os Hebreus à sua Cabala e os Egípcios
às suas Crónicas, e até parece que têm medo de se explicar. Este é o comum vício dos
aristotélicos: toda a sua Física é mistério; são altíssimas contemplações, cobertas com o
véu de palavras pouco comuns e fora do significado usual. Se V. P. traduz em bom
Português uma opinião peripatética, perde a metade da sua força; se a chega a explicar,
e lhe pede a razão de cada parte, perde-a toda. Que sorte de Filosofia é esta que não se
pode explicar?
(...) A Física nada mais é que as consequências que tira a razão dos efeitos
naturais, e estas devem-se explicar de sorte que os que têm juízo as entendam. Eu logo
suspeito mal de um homem quando vejo que busca rodeio de palavras para me
persuadir alguma coisa. Se a razão é boa, não necessita adornos; se o não é, não se deve
usar na Física, nem em nenhuma ciência. Se eu falo a um homem em matéria, forma e
privação, actos primeiros e segundos, acções educativas, etc., isto é uma salada tal, que
estou certo não entenderá palavra. Pelo contrário, se lhe aponto ou mostro as
experiências que se fizeram nesta ou naquela matéria, e lhe explico as consequências
que daqui se tiram, cuido que me há-de entender; e, se for homem que se aplica,
facilmente se capacitará do que lhe digo. Por este princípio digo da Física o que já disse
a V. P. da Lógica: que Física que não se entende deve-se desprezar, e coisas que não se
provam não se devem admitir. O Físico deve falar claro; propor as suas razões em
qualquer língua de sorte que todos o entendam; e, sobretudo, deve estar tão advertido
nas provas que recebe, que sejam como a moeda corrente, que corre em todo o país.
[2.] Mas, ainda neste particular, devo advertir a V. P. que há grande diversidade
entre uns e outros Modernos. Os primeiros que sacudiram o jugo de Aristóteles, como
Cartésio e Gasendo, ainda que fossem Anti-Aristotélicos nos fundamentos, muito se
inclinavam ao Peripato no método.
(...) Depois, rafinando os homens os seus pensamentos, e achando que não se
deve admitir nada sem prova, desprezaram todas as hipóteses, e uniram-se à experiência
e ao que dela se tira. Antes quiseram confessar que ignoravam muitas coisas, que dar
razões que nada valessem. Foi grande protector deste método o famoso Newton, nos
fins do século passado.
[3.] Este é o sistema moderno: não ter sistema; e só assim é que se tem
descoberto alguma verdade. Livre de paixão, cada Filósofo propõe as suas razões sobre
as coisas que observa: as que são claras e certas, abraçam-se; as duvidosas, ou se
rejeitam, ou se recebem no grau de conjecturas, enquanto não aparecem outras
melhores; e assim é que se forma o corpo da doutrina. Estes Peripatéticos, quando
ouvem dizer que um homem não tem sistema nem autor determinado a quem siga,

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

185

fazem grande galhofa. Mas nisso mesmo mostram não saberem que coisa é Física;
porque, se o soubessem, deveriam estimar quem se vale do seu juízo, e não quem o
cativa. O fim do Físico é descobrir a verdadeira causa dos efeitos naturais: e, para
conseguir este fim, não deve fazer caso do que dizem os outros, sim do que mostra a
experiência.

CARTA DÉCIMA SEXTA (a)
[I ­ ESTUDOS ELEMENTARES.
a) Elementos da Fé e normas de civilidade; ler, escrever e contar.]
Meu amigo e senhor: A incumbência que V. P. me dá nesta sua carta cuido que
já está desempenhada em todas as que lhe tenho escrito; pois em cada uma disse, não só
como se deve estudar, mas quanto bastava para saber de que modo se deve regular o
estudo na escola. Contudo isso, o favor que V. P. me faz de não querer dar passo sem a
minha direcção, bem merece que eu tome algum trabalho para lhe responder; e, assim,
repetirei em breve o que de passagem disse em várias cartas.
Direi, pois, a V. P. que os estudos, para serem regulados, devem começar desde
o tempo que os meninos começam a ler e escrever. Ponho por agora de parte a instrução
que lhe devem dar antes que comecem a ler. Já se sabe que lhe devem ensinar os
elementos da Fé; digo, as coisas mais principais: acostumá-los a obedecer e serem
corteses etc.. E isto, mais com boa maneira, que com rigorosos castigos, o que
certamente não entendem muitos Pais e Mestres. Porém, o que V. P. quer saber é a
aplicação literária, da qual digo que deve começar aos sete anos. Ensinar a escrever aos
rapazes antes do dito tempo é perder o seu tempo, como a experiência me tem
mostrado. Na idade de sete anos é que devem ensinar-lhe a escrever, não se cansando
muito em que faça bom carácter. Basta que não seja mau, e que escreva fàcilmente e
correctamente, pois, com o tempo, se pode reformar a letra. Depois, ensinar-lhe as
quatro primeiras operações de Aritmética, que são necessárias em todos os usos da vida.
[b) O analfabetismo em Portugal; " as escolas necessárias.]
Nisto há grande descuido em Portugal, achando-se muita gente, não digo ínfima,
mas que veste camisa lavada, que não sabe ler, nem escrever; outros que, suposto
saibam alguma coisa, não contejam, o que causa sumo prejuízo em todos os estados da
vida. Privam-se estes homens do maior divertimento que pode ter um homem quando
está só, que é divertir-se com o seu livro. Fazem-se escravos de todos os outros, pois,
para ajustar contas, conservar correspondências, dependem dos mais. Fora de Portugal,
vive-se de outra sorte: são tão raros os plebeus que não saibam escrever, como aqui os
que o sabem. O mochila, o carniceiro, o sapateiro, todos se divertem com os seus livros.
Esta necessidade é tão clara, que todos a experimentam; e assim não podemos assaz
condenar os Pais que se descuidam nesta matéria. Devia também haver em cada rua
grande, ou ao menos bairro, uma escola do Público, para que todos os pobres pudessem
mandar lá os seus filhos, o que se pratica em várias partes.
(...) Isto é para os Pais que não podem, por si, ensinar os filhos; porque os que
podem não têm desculpa em não fazê-lo.
(a)

Sumário que a antecede nas edições primitivas: Aponta-se o método de regular os estudos em todas as escolas, começando da
Gramática, até à Teologia. Fazem-se algumas reflexões particulares sobre o modo de exercitar utilmente os rapazes na
Gramática. em que se reprovam alguns estilos introduzidos em Portugal. Modo útil de exercitar os Médicos e Cirurgiões. O
mesmo sobre as Leis, Cânones e Teologia; onde se aponta como se devem exercitar os Confessores. Dá-se uma ideia do modo de
instruir as Mulheres, e não só nos estudos, mas na economia, com utilidade da República.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

186

[II ­ ESTUDOS DE GRAMÁTICA, LATINIDADE E RETÓRICA.
a) Programa do Curso : ­ 1. Escola preparatória de Língua
Portuguesa.­ 2. Primeiro ano de Gramática.­ 3. Segundo Ano de
Gramática. ­ 4. Latinidade. ­ 5. Retórica.]
[I.] Suponho, pois, que os meninos sabem já ler e escrever, apontarei a V. P. o
modo de regular os estudos públicos. Dos que se fazem em casas particulares, não
tenho que dizer, pois devem conformar-se com os públicos no método, muito mais por)
que têm mais tempo para o fazerem. Deve haver em todos os Colégios e Universidades
públicas, primeira escola em que se ensine a Língua Portuguesa. Nesta escola devem os
meninos estudar a sua língua por alguma Gramática.
(...) Depois, as principais regras de Sintaxe, ou união das partes, e sua regência.
As miudezas e anomalias devem-se reservar para outro tempo, para não carregar a
memória dos rapazes com tanta coisa. Mostrará também, em um livro impresso, o
exercício das regras; e os rapazes darão razão das partes todas da oração. Em terceiro
lugar, deve saber a Ortografia da sua língua. E este estudo da Gramática Portuguesa se
deve fazer em três meses, os quais bastam para o que se quer, visto que, por todo o ano
da Gramática Latina, se deve explicar a Língua Portuguesa, meia hora cada dia, lendo
algum capítulo, e explicando o Mestre o que deve.
[2.] Feita esta preparação, pode o estudante passar à Gramática Latina. (...)
Deverá, pois, o estudante, nos nove meses do dito primeiro ano, ver as duas primeiras
partes da Gramática Latina, que são Analogia e Sintaxe.
[3.] No segundo ano, deve estudar as outras \duas partes da Gramática, que são
Ortografia e Quantidade das sílabas.
[4.] No princípio do terceiro ano, passará a outros autores, segundo a ordem que
apontei nas minhas cartas, os quais se devem traduzir pela manhã. Quando os rapazes
se vão adiantando, devem fazer mais sólidas reflexões de Gramática.
(...)
Também neste ano devem continuar o estudo da História: nos primeiros seis
meses, explicar as fábulas, e costumes das Nações Grega e Romana, uma hora cada
manhã; nos últimos seis meses, explicar a História dos antigos Impérios e Repúblicas
fora dos Romanos. Nisto da História deve o Mestre proceder com advertência. Não é
fácil que os estudantes, neste tempo em que devem dar conta de outras coisas, se
apliquem inteiramente à História; nem o Mestre deve ser tão rigoroso, que queira digam
palavra por palavra o que ele lhe explica. Mas, se o Mestre souber fazer a sua
obrigação, pode adoçar este estudo de sorte tal que, com pouco trabalho, se tire grande
utilidade.
[5.] Da Latinidade deve passar o estudante para a Retórica, o que se deve fazer
no quarto ano, no qual se pode aperfeiçoar na composição e inteligência da latinidade.
Se o moço tiver estudado como dizemos, pode, nos três anos ditos, ter mais notícia de
Latim do que muitos que se ocuparam nele anos bastantes; e pode, por si só, entender
os outros livros com o socorro do seu Dicionário. Mas por isso aconselho que vá à
Retórica, para que saiba, não só o que é falar com palavras próprias, mas também falar
elegantemente. A Retórica já se sabe que deve ser em Português; e o estudante há-de
primeiro compor em Português, e depois em Latim, como em seu lugar disse.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

187

Neste ano de Retórica, deve começar a Gramática Grega; pois, sendo esta língua
tão necessária em todos os estudos, devem os estudantes sair das escolas com alguma
notícia dela; e este ano é próprio para isso, visto que os estudantes têm já conhecimento
da Latinidade e sua Gramática, que facilita o estudo da Grega.
[b) Observações: -1. Normas de ensino. -2. Estabelecimento de
Conclusões. -3. Reprovação de representações teatrais. -4.
Concursos, orações e sessões públicas. -5. Reprovação de castigos
corporais. -6. Recrutamento de mestres. -7. Cadeiras e Mestres
necessários ao Programa destes estudos.]
[I.] Tenho, porém, algumas coisas que advertir neste particular. A primeira é que
não se devem admitir na mesma escola estudantes que se apliquem a diversas coisas,
porque produz grande confusão. É necessário que todos os moços estudem. a . mesma
coisa, e não se admitam na mesma escola uns mais adiantados que outros, pois desta
sorte ouvirão todos e entenderão o que o Mestre explica. Tenho conhecido que os
decuriões são a causa de que não se aprenda bem. Eles sabem pouco mais que os
soldados simples; e, assim, não podem ensinar bem aos outros. Sei que os Mestres os
admitem para não se cansarem; mas podiam buscar outros meios.
(...) O que podem fazer nas Universidades e públicos estudos é dividir estes
principiantes em duas escolas, para que, tendo cada Mestre menos, pudesse dar melhor
conta deles. E dentro da mesma escola podia o Mestre dividi-los em decúrias; e em
cada uma delas mandar que um depois do outro fosse dizendo a lição; e prometer algum
prémio aos outros nove que assistem, se acaso lhe dessem algum quinau. Neste meio
tempo, o Mestre passeia pela escola, e chega-se umas vezes à. um círculo, e outras a
outro, e assim facilmente reconhece o estado das diferentes classes da escola. Ou ter
também algum subalterno que entendesse Latim, o qual cuidasse na metade da escola, e
o Mestre na outra metade. Além disso, sendo os discípulos obrigados a trazerem de casa
escrita a lição, facilmente se conhece se a sabem ou não. Nas escolas maiores, em que
se explica o Latim, não pode haver decuriões: é necessário que o Mestre explique as
coisas bem, o que não sabem fazer os decuriões. As lições conhecem-se pelo que eles
trazem escrito; e o Mestre pode perguntar a lição a quem lhe parecer. Mas, como nas
escolas sempre há algum que tem mais capacidade que os outros, este basta para vigiar
o que fazem os mais, principalmente animando-o com alguma recompensa das
costumadas, honras da escola etc..
[3.] Condenam os homens de juízo certos exercícios públicos, que aqui se
praticam, de Tragédias, Proclamações etc., porque o Mestre e discípulos são obrigados
a perderem muito tempo com uma coisa inútil, que impede os estudos principais. E eu
acrescento que são indignos de todo o homem ingénuo. Quem há-de aparecer no teatro,
vestido comicamente para agradar ao público, chamem-lhe como quiserem, é um
verdadeiro comediante, cujo emprego, desprezado em todos os séculos do mundo, é
indigno de pessoas bem criadas; além de outras reflexões que se podiam fazer. Também
é para notar que estas representações, pela maior parte, são latinas; e é coisa digna de
riso que, sendo esta língua morta, introduzam neste tempo representações latinas.
[4.] Louvo aquele exercício que os doutos Jesuítas praticam cada ano de
proporem os prémios aos que compõem, num dia determinado, algum poema ou oração
latina. (...) Também seria de grande utilidade \ que os rapazes dissessem alguma oração
em público, em alguns dias de festa, para os acostumar cedo a não terem vergonha do

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

188

auditório. Para isto, deviam os Mestres instruí-los com cuidado particularmente, antes
de falarem em público.
[5.] Também se deve advertir aos Mestres que tenham mais empenho em serem
amados e respeitados dos discípulos, do que temidos pelo castigo. Não é pequeno abuso
neste país castigar os rapazes quando não sabem logo a lição, sem distinguir se provém
de ignorância ou de malícia. Estes rigorosos castigos pela maior parte produzem tal
aversão aos estudos, que não se pode vencer em todo o discurso da vida. Falar a alguns
destes no estudo é falar-lhe na morte. Provém isto, primeiramente, da feia carranca com
que pintam os estudos, mandando-lhe estudar uma quantidade de c9isas sem saberem
que serventia têm, e dando-lhe muita pancada, se as não repetem bem. Isto é uma
crueldade, como já apontei a V. P. em outra carta. O Mestre deve explicar bem as
matérias e facilitar os estudos; deve, além disso, obrigar os estudantes com maneiras
agradáveis, e insinuar-se no seu ânimo. Não há coisa que não faça um homem, se lhe
sabem inspirar a paixão própria. Muitos obram pelo interesse do prémio; outros, pela
glória da doutrina e por um louvor dado em público. Estas são as armas de que deve
servir-se o Mestre: deve procurar de ser amado e, no mesmo tempo, respeitado. O
estudante que não é sensível à desonra de se ver repreendido publicamente, e outras
coisas destas, não o será às palmatoadas. Além disso, se o estudante é muito rude, as
palmatoadas não lhe dão juízo; se o não é, há outro modo de o regular. Confesso a V. P.
que, com grande gosto e admiração minha, vi muitas vezes moços bem desinquietos
mudarem de vida, tomados com boa maneira, e somente com conversarem com alguma
pessoa que insensivelmente lhe inspirava pensamentos heróicos. Em uma palavra, o
castigo deve ser a última coisa, e bem raras vezes; e deve o Mestre entender que o
procurar todas as outras vias não é somente obrigação leve, mas grave. Para isso é que
os Pais lhe entregam os Filhos, e para isso é que a Providência o destinou àquele
emprego: para que busque os meios próprios de conduzir os meninos ao fim de serem
bons e estudarem bem.
[6.] Neste particular, ainda há outra coisa que advertir, e vem a ser que, nestas
escolas, principalmente de Latinidade e Retórica e Poética, não devem ensinar Mestres
moços que saem das escolas, mas homens feitos. Um rapaz sabe pouco; e assim não
pode ensinar, nem muito, nem bem; além disso, não tem toda a prudência necessária,
nem tanta experiência do mundo, que saiba regular os ânimos de tantas criaturas.
Especialmente se deve procurar um homem que não seja colérico, porque, com cólera,
ninguém ensina bem, mas algum homem prudente e de muita pachorra. Em Portugal, os
Mestres adiantados não querem aplicar-se a estes estudos, a que chamam baixos, e
mandam para eles os rapazes. Isto é conhecer muito mal que coisa são Humanidades. A
Eloquência e Latinidade é tão nobre como a Filosofia etc., e em outros países
empregam-se nestes estudos homens grandes, e não de passagem, mas toda a sua vida.
E por isso há homens grandes, o que aqui raras vezes se acha; e encontram-se também
muitíssimos discípulos eruditíssimos em todo o género de letras humanas, o que V. P.
de nenhuma sorte achará neste Reino; pois os que sabem alguma coisa, sabem pouco, e
esse pouco aprenderam-no em sua casa, e com grande trabalho, o que nasce de que nas
escolas ensinam mal. Onde, parece-me que seria grande utilidade da República que
estas escolas, ao menos de Retórica e Poética, se dessem a homens consumados, e que
estivessem nelas anos.
[7.] Falando agora do número das Cadeiras, digo que, além dos quatro Mestres
das quatro partes da Gramática e do Mestre da Latinidade, da Retórica, e Poética, deve
haver, nas Universidades públicas, Mestres de Línguas Orientais, em escola separada, a

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

189

saber, Grego, Hebreu, Caldeu, Siríaco e Arábio, os quais todos podiam ensinar na
mesma escola: dois de manhã, e três de tarde, cada um sua hora. Na terceira hora de
manhã, outro Leitor devia explicar Retórica magistralmente, quero dizer: um ano,
explicar Cícero, de Inventione, outro, de Oratore ad Fratrem, ad Brutum, Topica, de
Oratoriis Partitionibus etc.; outro ano, explicar Longino, de_Sublimi; depois, Demétrio
Faléreo, alguns livros de Quintiliano etc.. Assim se faz em algumas Universidades.
Porque ainda que nos. Colégios se ensine Retórica no quarto ano, aquela escola é para
os rapazes, aos quais só se podem explicar as coisas mais gerais; mas não se explicam
os autores antigos, o que, porém, se deve fazer na Cadeira de Retórica das
Universidades. Mas este de Retórica bastava que explicasse 3 dias na semana; nos
outros dois dias podia outro Mestre, na mesma hora, explicar os princípios da Poesia,
digo, a Poética de Aristóteles. Também o Leitor de Grego da Universidade, não só deve
explicar os rudimentos da Gramática, mas na segunda meia hora explicar cada ano
algum autor, v. g. Demóstenes ou Isócrates, alguns epigramas melhores da Antologia
etc.. O mesmo digo do Leitor de Hebraico, o qual é justo que explique, ou algum livro
da Escritura, ou, ainda melhor, algum tratado dos Rabinos, que seja breve e fácil, v. g.
Maimónides etc.. O de Caldeu devia explicar Daniel etc. e a maneira de escrever dos
Rabinos, etc.. Os mais Leitores podiam explicar os melhores autores da matéria que
tratam. Isto digo das Universidades em que as coisas se tratam com dignidade. Nos
outros estudos, como Colégios etc., o mesmo Mestre que ensina Latim, deve ensinar o
Grego; e, não o sabendo, buscar outro capaz, porque, sem notícia do Grego, não devem
sair das Humanidades.

[VIII ­OBSERVAÇÕES FINAIS.
[b) Sobre Colégios para Nobres. ]
Concluo, lembrando a V. P. que, em outros Reinos, têm-se fundado Seminários
seculares para os Nobres, onde os rapazes aprendem, não só as Ciências, mas as partes
de cavalheiros e artes liberais: dançar, tanger, cavalgar etc.. Têm horas determinadas
para o estudo; nas outras, estuda cada um aquela arte liberal que quer; e com grande
destreza e prudência manejam as inclinações daqueles meninos. De tarde, acabado o
estudo, vão passar em ranchos de dez ou doze, com o prefeito. Muitos destes
Seminários são governados por alguns Religiosos, v.g. Jesuítas, das Escolas Pias,
Barnabitas etc., todos Clérigos Regulares; outros, por Sacerdotes Seculares; e os
colegiais vestem de abade de curto. Esta instituição é famosa. Ali Fidalgos e Príncipes
metem os seus filhos; não têm os apertos que cá vemos em Portugal; e saem homens
feitos, ou, ao menos, muito eruditos e cultos. Prouvera a Deus que cá se introduzisse
este costume, para civilizar a Mocidade.
Isto é o que me parece basta dizer agora sobre a disposição dos estudos altos,
não só porque V. P. compreende mui bem todas estas coisas sem que eu lhas diga, mas
também porque nas cartas que tenho mandado (se é que as conserva), unindo-as a esta,
achará tudo o que desejava saber nesta matéria: e, assim, não direi mais.

[IX -APÊNDICE SOBRE O ESTUDO DAS MULHERES.
a)Introdução: -I. A pretensa inferioridade intelectual da mulher. -2.
Sua necessidade de estudos.]

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

190

[I.] Mas, antes que acabe, tocarei um ponto que se deve unir aos estudos que
apontámos; e vem a ser o estudo das Mulheres. Parecerá paradoxo a estes Catões
Portugueses ouvir dizer que as Mulheres devem estudar; contudo, se examinarem o
caso, conhecerão que não é nenhuma parvoíce ou coisa nova, mas bem usual e
racionável. Pelo que toca à capacidade, é loucura persuadir-se que as Mulheres tenham
menos que os Homens. Elas não são de outra espécie no que toca a alma; e a diferença
do sexo não tem parentesco com a diferença do entendimento. A experiência podia e
devia desenganar estes homens. Nós ouvimos todos os dias mulheres que discorrem tão
bem como os homens; e achamos nas histórias mulheres que souberam as Ciências
muito melhor que alguns grandes Leitores que nós ambos conhecemos. Se o acharem-se
muitas que discorrem mal fosse argumento bastante para dizer que não são capazes,
com mais razão o podíamos dizer de muitos homens. Compare V. P. uma Freira moça
da Corte com um Galego de meses, e verá quem leva vantagem. De que nasce esta
diferença? Da aplicação e exercício, que um tem e outro não tem. Se das mulheres se
aplicassem aos estudos tantas quantos entre os homens, então veríamos quem reinava.
[2.] Quanto à necessidade, eu acho-a grande que as mulheres estudem. Elas,
principalmente as mães de família, são as nossas mestras nos primeiros anos da nossa
vida: elas nos ensinam a língua; elas nos dão as primeiras ideias das coisas. E que coisa
boa nos hão-de ensinar, se elas não sabem o que dizem? Certamente que os prejuízos
[preconceitos] que nos metem na cabeça na nossa primeira meninice são sumamente
prejudiciais em todos os estados da vida; e quer-se um grande estudo e reflexão para se
despir deles. Além disso, elas governam a casa, e a direcção do económico fica na
esfera da sua jurisdição. E que coisa boa pode fazer uma mulher que não tem alguma
ideia da economia? Além ,disso, o estudo pode formar os costumes, dando belíssimos
ditames para a vida; e uma mulher que tem alguma notícia deles pode, nas horas
ociosas, empregar-se em coisa útil e honesta, no mesmo tempo que outras se empregam
em leviandades repreensíveis. Muito mais, porque não acho texto algum da Lei, ou
Sagrada, ou Profana, que obrigue as Mulheres a serem tolas, e não saberem falar. As
Freiras já se sabe que devem saber mais alguma coisa, porque hão-de ler livros latinos.
Mas eu digo que ainda as casadas e donzelas podem achar grande utilidade na notícia
dos livros. Persuado-me que a maior parte dos homens casados que não fazem gosto de
conversar com suas mulheres, e vão a outras partes procurar divertimentos pouco
inocentes, é porque as acham tolas no trato; e este é o motivo que aumenta aquele
desgosto que naturalmente se acha no contínuo trato de marido com mulher. Certo é
que uma mulher de juízo exercitado saberá adoçar o ânimo agreste de um marido
áspero e ignorante, ou saberá entreter melhor a disposição de ânimo de um marido
erudito, do que outra que não tem estas qualidades; e, desta sorte, reinará melhor a paz
nas famílias. O mesmo digo das donzelas a respeito dos parentes, Enfim, esta matéria é
de tanta consideração para a República, que um homem tão pio e douto como M. de
Fénelon, Arcebispo de Cambrai, compôs um belíssimo tratado sobre esta matéria (e
depois dele alguns Autores Franceses e Italianos, que eu li), em que ensina como se
deve regular este estudo, e as utilidades que dele se podem tirar. Ao que eu podia
acrescentar algumas experiências e reflexões minhas, feitas sobre as aplicações que
observei em algumas mulheres.
VERNEY, Luís António, Verdadeiro Método de estudar,
Livraria Sá da Costa, Lisboa,

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

191

ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
I. Questionário
1. Que papel desempenharam os "estrangeirados" na implantação do Iluminismo em
Portugal?
2. Em que sentido a actuação política do Marquês de Pombal é típica do "despotismo
esclarecido"?
3. Porque é imperioso distinguir "educação pública" de "educação universal" no quadro
da definição da política pombalina relativa aos "estudos menores"?
4. Quais foram as diversas iniciativas reformadoras do pombalismo no terreno da
educação, nos vários níveis de ensino, do elementar ao superior, no período que se
estende de 1759 a 1772?
5. Que ideias defendeu Luís António Verney no Verdadeiro Método de Estudar, em
favor de uma reforma geral do ensino em Portugal?
6. Em que aspectos essas ideias foram acolhidas nas reformas pombalinas, e em que
outros elas não foram aceites?
7. Que ideias defendeu Ribeiro Sanches nas Cartas sobre a educação da Mocidade, em
favor de uma reforma geral do ensino em Portugal?
8. Em que aspectos essas ideias foram acolhidas nas reformas pombalinas?
II. Elabore um texto articulando os seguintes conceitos. Intitule-o.
9. "Reformas pombalinas da educação", "Verney", "Ribeiro Sanches".

BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
ADÃO, Áurea, Estado Absoluto e ensino das primeiras letras. As Escolas Régias (17721794), Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1997.
ANDRADE, António Alberto Banha de, Contributos para a história da mentalidade
pedagógica portuguesa, Imprensa Nacional ­ Casa da Moeda, Lisboa, 1982,
pp.
ANDRADE, António Alberto Banha de, Verney e a projecção da sua obra, Instituto de
Cultura Portuguesa/M.E.C., Lisboa, 1988.
BÁRBARA, A. Madeira, Subsídios para o estudo da educação em Portugal da
Reforma pombalina à 1ª República, Lisboa, Assírio e Alvim, 1979, pp.
21-31.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

192

CARVALHO, Rómulo de, A História da Educação em Portugal. Desde a Fundação da
Nacionalidade até ao Fim do Regime de Salazar-Caetano, Fundação
Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1988, pp. 385-483.
FERNANDES, Rogério, O pensamento pedagógico em Portugal, Instituto de Cultura
Portuguesa/M.E.C., Lisboa, 1988, pp. 41-92.
NEVES, Pedro Almiro, A escolarização dos saberes elementares em Portugal nos
finais do Antigo Regime (1772-1820), Instituto Superior da Maia, Maia,
1996.

6. Educação e Pedagogia em Portugal, do Iluminismo à I Republica
6.2. A educação e a pedagogia em Portugal, no século XIX.
6.2.1. As reformas do liberalismo: Herculano e Garrett..
6.2.2. Antero de Quental e a ilustração do operário.
6.2.3. Adolfo Coelho e a educação popular.
6.2.4. Os métodos de Castilho e João de Deus.

Resumo: A educação e a pedagogia em Portugal, no século XIX, pode dizer-se que
ficam marcadas pelo contraste existente entre a elevação dos discursos e dos articulados
legais, por um lado, e a fragilidade dos progressos no terreno da realidade, por outro.
Ainda assim, essa elevação constituirá no futuro, aí incluído o nosso presente, uma fonte
preciosa de estímulo no sentido de construirmos uma educação pública e universal em
moldes que honrem a Humanidade e o País que somos. A I República seria, entretanto,
como veremos, uma tentativa já algo estruturada, mas ainda incipiente, para instaurar
esse ideal entre nós.
Objectivos:
- Compreender o sentido geral da evolução educativa em Portugal desde a revolução de
1820 à implantação da República.
- Identificar os principais contributos pedagógicos dos pensadores nacionais no campo
da educação ao longo do século XIX, com destaque para Alexandre Herculano,
Almeida Garrett, Antero de Quental, Adolfo Coelho, João de Deus e António Feliciano
de Castilho.
ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
"Ao longo de todo o século XIX assiste-se em Portugal a um movimento de
fluxo e refluxo de avanços e retrocessos em todos os graus do ensino. Deste modo se
explica a sucessão prodigiosa de reformas escolares, quase nunca executadas, e também
de livros, folhetos, artigos, discursos, proclamações, etc., onde a educação aparece
como tema fulcral. Na sua quase totalidade, os intelectuais e políticos portugueses de
oitocentos discorreram, na Imprensa ou na Tribuna, sobre as questões relativas à
educação nacional, nem que fosse como pretexto para os seus exercícios de espírito.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

193

O desenvolvimento do capitalismo português, na sua unidade fundamental e na
diversidade das suas orientações, não determinou entre nós um a1to desenvolvimento
das forças produtivas.
O sistema escolar português não ultrapassou, por isso mesmo, os limites dos
estreitos interesses económicos e culturais da burguesia." Rogério Fernandes
"... a inércia foi a nota mais característica da política de ensino do primeiro
liberalismo português. As Cortes e as suas Comissões de Instrução, a quem caberia a
responsabilidade de tomar medidas inovadoras, nada ou pouco fizeram. Algumas
propostas de transformação, umas mais superficiais e no seguimento de uma filosofia
reformista de tipo pombalino e outras de tipo revolucionário, mais inspiradas nas
concepções francesas, encontraram nos lugares de decisão a oposição ou o silêncio. Não
havia, pois, um ambiente político propício a que fossem praticadas medidas
verdadeiramente transformativas. E, quanto aos autores dessas propostas, uns ou se
integraram no sistema; talvez mesmo recusando as posições avançadas que haviam
tomado, ou foram por ele exterminados; outros, porém, vieram a ocupar cargos políticos
que lhes possibilitariam defender de novo as suas ideias e procurar pô-las em prática,
mas nem sempre o fizeram, ou porque o não quiseram ou porque não puderam, pois
ocupar o poder não significa o mesmo que ter o poder. (...)
(...) Só Passos Manuel, o estudante de Direito redactor do Amigo do Povo, de
1823, o companheiro de Garrett e o revolucionário setembrista de 36, manteve a
coerência - foi durante o seu curto governo que surgiram os liceus e instituições de
ensino técnico, que se extinguiu o Colégio dos Nobres e se criaram as escolas
politécnicas, e que as Faculdades de Cânones e de Leis deram lugar à Faculdade de
Direito. Foi a única reforma realmente significativa da instrução pública no decorrer do
liberalismo. Atacada em alguns pontos pelo cabralismo, apesar de algumas medidas de
reforma por ele levadas a efeito, só teve sequência em medidas do tecnocrático
fontismo. A velha estrutura escolar, ainda que alguns progressos se verificassem,
sobretudo no que diz respeito ao alfabetismo, persistiu durante largo tempo."
Luís Reis Torgal e Isabel Nobre Vargues

Textos para Análise : TEXTO 28 e TEXTO 29

ALEXANDRE HERCULANO (1810-1877)

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

194

TEXTO 28
Da Educação e Instrução das Classes Laboriosas (1838)
Ainda não houve em Portugal uma só providência governativa a bem da
verdadeira instrução. A verdade desta proposição se encontra em todas as reformas de
instrução pública feitas no nosso país desde o tempo do marquês de Pombal. Não
remontamos mais longe, porque escusado fora esperá-lo antes da época desse homem,
tão grande tirano e imoral. Ainda hoje, se exceptuarmos as escolas do ensino primário,
instituídas não pelo governo, mas por uma sociedade, que se tem feito a bem da
instrução popular? Nada, absolutamente nada. Daí provém que a mudança de
instituições políticas e as reformas legislativas são vãs e inúteis, e as empresas
comerciais, fabris e de todo o género de progresso industrial desbaratam-se e morrem;
daí provém que o povo nada tem melhorado com o gozo da liberdade, porque esta, para
produzir fruto, carece de bons costumes, e os bons costumes só nascem da instrução
geralmente derramada. Confiar à superstição e à credulidade a morigeração pública é
encarregar a um cego o guiar uma criança. Não se creia que o povo era melhor e mais
religioso há cinquenta anos; era, sim, mais hipócrita, ou mais crédulo, porque o
despotismo, amparando superstições e abusos, pouco lhe importava que se cresse em
Deus, contanto que não houvesse quem ousasse rir das mais absurdas práticas do culto
externo, cuja introdução e voga deploravam, e deploram ainda hoje, os verdadeiros
cristãos. Actualmente o povo pode escarnecer em alta voz desses erros; mas
desgraçadamente falta-lhe a luz pura do Evangelho, que não viu, porque nunca lha
ministraram, nunca lhe deixaram ler a palavra do Mestre, temendo (blasfemos!) que o
Verbo transviasse o homem! E acusa-se o povo, e diz-se que ele está corrompido? ­
Quem o guiou pelo caminho da perdição, senão os mesmos que hoje são os seus mais
violentes acusadores? ­ Envenenaste-lo no berço e quereis que seja sadio na virilidade?
Ou ficaria uma nação perpetuamente serva, para que nunca se rasgasse essa venda
tenebrosa de miseráveis práticas e de credulidade, que fazia as vezes da crença
puríssima que ensinou o Filho do Homem ? ­ O género humano, que sempre caminha
avante, deixaria acaso após si esta porção de seus membros chamada Nação Portuguesa?
Não, porque ninguém pode contestar os decretos da Providência nem os progressos da
humanidade.
Antes de se haverem espalhado na Europa as luzes e os conhecimentos, o povo
nada era, e servia única mente para satisfazer as paixões torpíssimas daqueles que
gozavam do exclusivo privilégio do mando. Foi a instrução quem enobreceu certas
classes, que até aí eram abjectas e grosseiras, como ainda o continuaram a ser outras
classes inferiores. Delas saíram os homens que hoje governam e os que plenamente
gozam dos benefícios da civilização. Estas classes bem longe estão de quererem voltar
ao seu primitivo aviltamento e miséria. Porque se recusaria, pois, às classes inferiores, a
fruição das mesmas vantagens e a possibilidade de melhorar a sua situação? Não é isto
menoscabar todos os sentimentos de humanidade, e calcar aos pés a moral e a religião
que fingimos professar?
Não nos esqueçamos de que todo o bem estar social nasceu da ilustração, e que
as multidões, que temos em menos conta do que devíamos, contribuíram grandemente
para essas mudanças. Não foi acaso com a ajuda do povo que os reis esmagaram a hidra
do feudalismo; que a Inglaterra fundou um sistema de governo ao qual deve a sua
prosperidade secular; que vários monarcas puderam reformar o clero; e que, enfim, os
princípios, hoje assentados entre os homens instruídos e virtuosos, se estabeleceram e
firmaram? E, então, porque há-de esta classe produtora e laboriosa ser excluída dos

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

195

benefícios da instrução e dos cómodos e satisfação que ela gera?
Alcançar ilustração e ciência foi sempre o primeiro dever do homem. As
palavras de Salomão a este respeito não se dirigem a esta ou àquela classe em particular;
seguindo o exemplo dele, convertamo-las em c um preceito moral e religioso para todos
homens. Não só devemos procurar elevar-nos a nós acima dos animais, mas também
fazer com que se elevem do mesmo modo todos os nossos semelhantes. Privada dos
socorros da instrução, a criatura humana é uma espécie de fera; e até por experiência
vemos que, nesse estado, é a pior de todas elas. E criaria a Providência o homem para o
assemelhar aos tigres e leões, e não o destinaria a mais nobres e altos fins ?
Há quem diga que o povo não deve ser ilustrado porque pretenderia ser mais do
que é. Mas era isto mesmo que dizia o clero, nos séculos bárbaros, dessa classe chamada
média e dos nobres. Mas ela e eles saíram do seu estado de abjecção intelectual, e nem
por isso se transtornou a ordem da sociedade, antes se melhorou, poliu e fortificou.
Outros repetem, sem saberem o que dizem, que os conhecimentos superficiais, únicos
possíveis para o comum dos cidadãos, são coisa muito danosa. É esta uma ficção que
hoje ninguém poderia sustentar : valerá o mesmo dizer que aquele que nada possui é
mais feliz do que o outro que possui alguma coisa, ou, por diversa maneira, que a
miséria é de antepor à mediocridade da fortuna.
Crê-se, porventura, que a ordem e a tranquilidade pública se mantêm mais
facilmente no meio de um vulgo ignorante e grosseiro do que entre homens laboriosos,
que, além dos conhecimentos próprios de seus ofícios e misteres, saibam quais são os
seus direitos e obrigações, e conheçam alguma coisa do mundo e das suas leis e
sucessos? ­ Quem assim pensa vai bater contra a história de todos os séculos. Um povo
empegado na ignorância e bruteza será mais fácil oprimi-lo do que governá-lo; ou antes,
diremos que é necessário regê-lo com vara de ferro, para que se não converta em uma
besta-fera; ao passo que o povo ilustrado facilmente se governa, sendo ao mesmo tempo
impossível oprimi-lo.
Entendemos por educação e instrução popular a cultivação do espírito, e não o
ensino das artes fabris ou mecânicas, a que muita gente dá aquele nome. Negar o
aperfeiçoamento intelectual aos homens, deixá-los na bruteza e na ignorância, é um acto
imoral, um menoscabo de deveres sagrados, e, por consequência, um crime.
Está assentado que, sendo em toda a parte o homem escravo do hábito, o seu
procedimento, quer na vida privada, quer no trato com os outros homens, há-de ser
dirigido por preceitos constantes e forçosos, e guiado principalmente pelo exemplo. Será
regular este proceder, se ele vir que reina a justiça; religioso, se a santidade da religião
não for profanada. Mas, apesar disso, o homem não passará de máquina, se carecer de
instrução e raciocínio. É, portanto, preciso cultivar-lhe o espírito.
Concedamos que o hábito e o exemplo possam fazer as vezes do saber e da
educação; que remédio aplicaremos aos maus exemplos e aos hábitos viciosos? É claro
que o seu efeito inevitável será o propagar o mal. Para o prevenir é, pois, necessário, não
só ensinar aos homens o que é justo e honesto, mas também, cultivando-lhes o
entendimento, acostumá-los a atingir a razão porque o justo e o honesto o são, e a
avaliar quais consequências tenha esta ou aquela opinião ou acto imoral. Única barreira
é esta que se possa opor aos desvarios que gera a ignorância. A história nos patenteia
qual tenha sido a influência da moral política e dogmática no procedimento dos homens;
todavia, nunca existiu dogma algum que adoptado fosse pela maioria do género
humano, havendo certos princípios de moral que em toda a parte são acatados e
seguidos. Mas estes, preciso é entendê-los e estar certo de que são verdadeiros; e isto
não se alcança sem a ajuda da instrução.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

196

As pessoas pouco cogitadoras, e destas é o maior, número, não consideram que
os proveitos e cómodos de que a Europa actualmente goza (incalculáveis, se os
pretendermos comparar com os que dantes gozava) nasceram todos da cultivação das
ciências e das artes, e que essas vantagens cresceram na mesma proporção em que se
foram derramando, por mais avultado número de indivíduos, a boa educação e a
instrução. Não é ensinando, anos a fio, um artífice a executar maquinalmente todos os
dias a mesma coisa, que se fará dele um oficial de habilidade. E como há-de ele
aperfeiçoar-se, ou sequer fazer a menor mudança, num trabalho que está acostumado a
fazer do mesmo modo, a bem dizer, desde que se entende? Podem argumentar-lhe que é
possível trabalhar melhor, indicar-lhe os modos de o alcançar : baldadas diligências! ­
E porquê? Porque será querer mudar com palavras a organização física e moral do
indivíduo; será querer fazer um milagre. Para afeiçoar o barro, aproveitai-o enquanto
está brando, que, depois de cozido, não há dar-lhe nova forma.
Todas as pessoas que têm administrado fábricas, ou lavouras, sabem que as
maiores dificuldades de semelhantes empresas provêm da ignorância dos operários, em
quem não se encontra, nem a capacidade, nem a inteligência necessárias para
compreenderem o que lhes explicam, nem a conveniente habilidade para executarem o
que lhes ordenam; acrescendo a isso as preocupações e o aferro a velhas usanças,
resultado infalível da falta de instrução. Seria coisa de pasmo o cálculo das perdas que
sofrem diariamente todos os géneros de indústria, só porque os artífices e trabalhadores
carecem de toda a instrução.
Quem pode dar remédio a tamanho mal ? O Governo, que tem obrigação de
estabelecer, em todos os concelhos, escolas onde se ensine mais alguma coisa ao povo
do que a ler e escrever mal, quando ainda isto se ensina. Paga o povo miúdo quase todos
os impostos, ou directa ou indirectamente: seria, por isso, justo que em proveito dele se
despendesse alguma coisa. A instrução é hoje uma das primeiras necessidades;
despenda-se, portanto, uma porção do rendimento público com a instrução popular.
Persuadam-se os regedores dos povos que uma nação que não está a par do seu tempo é
forçosamente uma nação miserável.

TEXTO 29
Instrução Pública (1838)
Há cinco anos que em Portugal se trabalha por levantar um edifício nacional, de
sumo interesse público, no qual têm sido empregados bons e maus arquitectos, mas:
todos eles se hão enganado na traça da sua obra. Todos têm cometido o mesmo erro, que
o fará desabafar, quando se haja de levar a cabo.
Tal erro consiste em edificarem sobre um terreno de vasa e em adornarem
primorosamente as quadras e aposentos, sem abrirem no exterior entradas por onde haja
acesso para o edifício.
Este edifício é o da instrução pública.
Desde 1833 os diversos Ministérios têm cuidado nesta construção, que chegou
mais tarde a ser posta por obra: o Instituto aparece, instituição a mais perfeita no seu
género de quantas temos visto e que os ódios civis afogaram à nascença; ela, porém,
tinha, em nosso entender, o defeito comum; a instrução superior é sempre, relativamente
a uma nação, complementar e a instrução primária não existia; contudo, em abono da

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

197

verdade, devemos dizer que já muito se pensava em dar existência a esta.
Depois da morte do Instituto, que, quanto à sua organização, tinha por si o voto
de quase todos os homens de letras portugueses, apareceram outros projectos de
instituições da mesma natureza, mais ou menos imperfeitos, diremos até mais ou menos
ridículos. Entretanto, todos eles conservavam o carácter exclusivo de reformas da
instrução superior.
O lodo em que estes diversos edifícios têm assentado é a ignorância das
multidões. Nós carecemos mais de ilustrar o povo do que de fazermos sábios.
E como aparecerão estes se faltam os rudimentos da instrução? Como será a
árvore robusta e frondosa, se nos primeiros anos da sua existência a deixarmos vegetar
sem amanho, em terreno estéril e árido?
A porta por onde se entra no santuário da Ciência é a boa educação primária.
O filósofo Cousin, mandado à Prússia pelo governo francês para examinar o
estado do ensino público em aquele país, à sua volta declarou, no relatório que fez, que
a França estava ainda atrasadíssima neste ramo. E acaso a França é inferior à Prússia em
sábios e literatos? Não, por certo; mas sem dúvida o é nas instituições de ensino
primário. Assim, entre os dois povos há uma grande diferença de instrução popular, e,
por consequência, de moralidade.
A superioridade da Alemanha, em geral, sobre os outros países da Europa, no
método de ensino primário é incontestável. Os resultados disto são:
Que os povos da Alemanha são os mais bem morigerados de todos, porque a
ilustração é o verdadeiro fundamento da moral.
Que as mudanças políticas, que exige o espírito do século, vão-se fazendo nos
diversos estados da Alemanha sem convulsões, nem ruído, porque é o progresso dos
males públicos quem os torna inevitáveis.
Assim, em países alemães onde ainda existe o absolutismo, este é mais de forma
do que de essência; porque o povo, que sabe o que quer, olha para as cousas reais e não
faz grande caso das teorias. Estas são para as escolas; o povo vive ao ar livre da praça
pública. Enquanto as multidões estiverem em trevas, sejam as formas governativas quais
forem, sempre haverá ou poderá haver tirania. Desta não livra a instrução superior:
provam-no os reinados de Luís XIV, do Marquês de Pombal, de Pedro o Grande e de
Napoleão.
As melhores instituições, quando o povo carece de instrução necessária, ou que
esta não está suficientemente generalizada, são muitas vezes apenas germes de
perturbação, lançados na sociedade; porque geram necessidades que não podem
satisfazer-se; repartem direitos e deveres, de que, por ignorância, o povo não faz apreço,
ou a que falta por imoralidade. Tais instituições só então servem de enfraquecer os
governos, obrigando-os a multiplicar leis, por isso mesmo que as não podem fazer
executar, elas encontram, como observa Mr. de Girardin (de quem tomamos as ideias
expendidas neste parágrafo), em algumas imaginações vivas, as ideias que uma
população inteira devia insensivelmente absorver. Estas ideias fermentam e produzem
uma explosão: é deste modo que as instituições, que produzem mais forças do que lhes é
possível empregar, perecem pelo excesso delas, que são obrigadas a comprimir.
Voltaremos, uma e muitas vezes, a este assunto, que consideramos como o mais
importante de todos aqueles sobre que actualmente se pode falar ao público.
II. Instrução primária
Falámos já do mui grande e mui repreensível abandono em que, por tanto tempo,

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

198

se há deixado a instrução primária, atendendo-se tão somente à superior. O que
dissemos é o grito da nossa íntima consciência, da consciência daqueles que sabem que
a civilização aproveita mui pouco com os apuros da alta ciência, em comparação do que
ganha com a difusão da luz intelectual no meio das multidões. Das multidões se tiram os
eleitores, os jurados e as municipalidades, elementos principais da vida social. A ciência
profunda, severa, aristocrata anda por aposentos de sábios e eruditos, e de lá não sai,
porque fora como estranha e ininteligível fora desses recintos. A instrução necessária
para a vida positiva, quer-se fácil e melhor de todas, como diz um célebre escritor
francês: custa pouco e os seus resultados são sempre benéficos. Será, porventura, pão
grosseiro, mas é abundante, e sustenta e avigora o maior número de entendimentos, sem
produzir os funestos efeitos que produz frequentes vezes a instrução superior.
Com efeito, olhemos para as instituições destinadas a este género de ensino em
Coimbra, Lisboa e Porto. Poder-se-á calcular afoitamente em 2000 alunos o número dos
que entram anualmente nos diversos cursos superiores estabelecidos nos três pontos do
reino; demos que, destes, apenas uma quarta parte chegue a cabo de seus estudos;
suponhamos mais que, aos 30 anos, eles saem das aulas para entrarem no mundo, e que
a vida de um homem regula por 60 anos; no fim de trinta, terão concorrido na sociedade
15 000 legistas, médicos, matemáticos, cirurgiões, alunos de comércio, etc., que,
lançados no meio de uma população de 2500000 almas, não podem subsistir
conjuntamente; o único recurso que restará à maior parte deles serão os empregos
públicos, que não bastarão a todos. Daqui nascerão os ódios, os enredos, os queixumes e
as revoluções e, para os menos audazes ou menos hábeis, a miséria e a desesperação.
Mas devemos, por estes motivos, acabar com o ensino superior, para só
atendermos ao inferior? Não, por certo. Nós carecemos de legistas, de médicos, de
matemáticos, de cirurgiões; carecemos até de criarmos estudos superiores novos; mas o
que cumpre é não deixarmos torcer os destinos sociais de cada indivíduo. Siga a charrua
o que nasceu junto dela; as artes e a indústria, o filho do artista e do fabricante; cuide o
proprietário dos bens que seus pais lhe herdaram; mas nenhum destes seja doutor, só
porque teve meios de cursar a universidade ou as outras escolas superiores. Para isto só
queríamos a aristocracia... Mas de que aristocracia cuidais vós de que falámos ? Da do
nascimento? ­ Miserável opinião fora essa! ­ É a aristocracia da natureza, aquela que
nem a tirania de reis nem tirania da plebe poderão aniquilar, e que, ainda: que o não
pareça, em todos os tempos e lugares, dominará a sociedade. Mas esta nobreza não dá
razão de si com pergaminhos velhos, dá-a com provas irrefragáveis, que cada indivíduo
traz consigo mesmo, ou antes, estampada na sua alma. O tribunal destinado a julgar
dessa nobreza é o estudo preparatório para os cursos científicos; é este tribunal que nós
quereríamos severo e inexorável; é este tribunal que nós quiséramos cercado de terrores
como os mistérios de Eleusis.
Assim não se atulhariam os cursos superiores de inteligências medíocres e até
rudes, que muitas vezes são a vergonha da faculdade a que dizem pertencer. Assim, da
instrução superior, em vez de se colherem os males que apontámos só se colheriam
bens; enquanto a muitos indivíduos pouparíamos as funestas consequências de um
género de vida para que poucos estão naturalmente habilitados, e que, pelo seu carácter
especial, só quando forem poucos os concorrentes a ele poderá oferecer vantagens.
A muitos parecerá contradição o querermos restrições e embaraços nos estudos
preparatórios para as faculdades científicas, ao mesmo tempo que queremos o
derramamento da instrução inferior. Consistirá o erro destes em se persuadirem de que é
a instrução primária e popular o que hoje se tem em conta disso no nosso país.
Enganam-se. Sem exceptuarmos as escolas de primeiras letras, onde ainda se ensina a
ler e escrever pelo método de há cinquenta anos, onde se aprende a gramática da própria

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

199

língua como caminho para ir estudar depois a língua de um povo que desapareceu
inteiramente há mais de um milheiro de anos; sem exceptuar, numa palavra, coisa
alguma do que se ensina à mocidade até aos dezasseis ou dezoito anos, atrevemo-nos a
dizer que toda a educação intelectual é dada como introdução a mais elevados estudos.
Semelhante ensino tem só uma tendência individual; diz só respeito ao sujeito que o
recebe, porque só ele daí poderá tirar proveito; e isto não é a instrução popular: esta
dirige-se a fazer de qualquer homem, siga que profissão seguir, um cidadão ilustre e útil,
não só a si, mas também aos seus semelhantes e à Sociedade. O oficial de qualquer
ofício mecânico, o artista, o lavrador, o caixeiro, o soldado, homens destinados às letras
e às ciências, todos, sem excepção de pessoa, a devem receber. É esta uma obrigação
social da infância e mocidade, como na virilidade o é pagar tributos, ser soldado, jurado,
ou sofrer outro qualquer dos encargos públicos.
Tal é a face por onde principalmente encaramos a instrução primária, posto que
dela também resultem vantagens individuais. Mas é isto o que nós temos? De que serve
ao comum dos homens o latim e o grego das selectas, os tropos de Quintiliano, a
Filosofia caquética de Genovesi ou de Heineck ? ­ E que temos por essas aulas menores
em todo o Portugal senão esta forragem, de que, dez anos depois de a ter metido na
cabeça, ninguém se lembra, salvo de traduzir gaguejando algum trecho de latim ou
grego, traduzido e impresso em línguas vulgares de há muito tempo? ­ Será isto
instrução popular? Estamos convencidos de que não.
Já se vê que consideramos a instrução inferior dividida em duas partes distintas:
os preparatórios para a instrução superior e a instrução comum e popular. Disso
trataremos em subsequentes artigos.

III. Instrução preparatória
«Quem quer que negar que o grego e o latim sirvam para formar
estadistas, fabricantes, médicos, etc. ­ conte com ser alcunhado
com os nomes de espírito quimérico e de homem paradoxal.» Mill
Dividimos em um artigo antecedente, a instrução inferior em duas classes ­os
preparatórios para estudos superiores e o ensino popular, ou, antes, social. Este não
existe em nosso país; aquele existe, mas sem e satisfazer aos seus fins e às necessidades
do século: mais como um monumento do passado, do que como uma instituição do
presente.
Que a instrução social, a instrução conveniente para a mocidade de todas as
classes não existe, vimo-lo no artigo antecedente e melhor o veremos quando dissermos
no que esta deve consistir, comparando-a com o que realmente há. Agora trataremos do
estado da instrução, que se olha como fundamento para o estudo das ciências ou
faculdades superiores, dessa educação literária a que vulgarmente se dá o nome de
preparatórios.
Uma criança destinada a frequentar a universidade, sai da escola, onde aprendeu
a ler, escrever e os rudimentos da aritmética, tudo, comumente, mal, e entra o logo para
a aula de latim. Três anos, de ordinário, na época da vida a mais apta para os estudos
que requerem o uso da memória, se gastam com o desta língua, que, no fim de cada
curso de dez estudantes, um fica sabendo, e esse mesmo imperfeitamente. Três anos da
juventude, gastos em aprender mal latim, é uma calamidade que o pobre mancebo então

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

200

não conhece, mas cujos efeitos sente no futuro. Dizia um escritor francês: ­ le latin perd
la France. Não diremos que o latim perde Portugal, mas talvez ajude. Quantas coisas
úteis se aprenderiam nesse meio tempo, até como introdução ao estudo de ciências
maiores! ­ Mas passe embora o latim, contanto que não leve consigo tão larga porção de
vida. Nem nos digam que todo esse tempo é necessário: o grego ensina-se em um ano, e
o grego é muitíssimo mais difícil que o latim. Sabemos que nos podem opor que o grego
se aprende pró-forma, e que os estudantes sabem tanto grego no fim do ano em que lho
ensinam como no princípio. Concedemos; mas, aqui entre nós, não poderia fazer-se o
mesmo ao latim? ­ Falemos, porém, a sério: o que vem a ser todos estes latins e gregos
das aulas? ­ Decepções e misérias.
O estudo do latim é coisa santa e boa; mas o estudo do latim por tudo e para
tudo, e ensinado por métodos rançosos, quando se podia ensinar melhor e em menos
tempo; quando as pessoas que são encarregadas da educação literária da mocidade
sabem, ou devem saber o que sobre isto se tem escrito na Europa, é o que não podemos
sofrer. Longe de nós a ideia de banir inteiramente as línguas que, ainda no século XIX,
se chamam exclusivamente eruditas, não sabemos porquê. Queremos que se estudem e
cultivem e que, se possível for, haja quem saiba grego como Aquiles Estaço, ou latim
como o bispo Osório; porém não que se considerem estas línguas como elementos
necessários sem os quais se não pode ser abalizado em nenhum género de ciência.
Que obra notável, grega ou latina, haverá em matemática, por exemplo, que não
esteja vertida em alguma das línguas vulgares? E com que necessidade perderá o
geómetra uma boa parte da vida a estudar duas línguas que de nenhuma utilidade lhe
servem?
As línguas mortas devem entrar como material em curso de boas letras,
necessário onde houver estudos bem assentados, e que em Portugal não existe.
As línguas mortas são precisas ao teólogo, mas profundamente sabidas: o grego
e o hebraico são as línguas dos escritos fundamentais da fé, e uma boa exegese não pode
existir sem que haja conhecimento delas; porém o modo porque as ensinam entre nós é
somente ridículo. E examinai a maior parte dos nossos doutores de Teologia, e vereis o
que eles sabem da língua santa e da grega.
Falemos da Retórica e Poética.
A Retórica e Poética ensinada nas nossas aulas tem um tal carácter escolástico, é
rodeada de tal aridez, que nunca será capaz de formar nem um grande orador, nem um
poeta, antes contribuirá para destruir toda a seve do engenho. No século actual, em que a
literatura não é tanto uma glória individual como nacional, o génio poético deve ser
desenvolvido pelo ensino; mas isto só se alcançará com a fundação de um curso de boas
letras. Por outro lado, a eloquência nos governos representativos é necessária ao
magistrado, ao advogado e a todo aquele que, pela sua situação no mundo, pode vir a ser
ou par ou deputado; mas será o decorar as definições das figuras e tropos quem nos dará
oradores? ­ Mal pode a Retórica que hoje se ensina formar um orador sagrado, cuja
eloquência chamaremos (em nosso entender com propriedade) de convenção; mas nunca
o orador das câmaras ou dos tribunais onde, quando se regeneram leis, instituições,
ideias, é necessária a impetuosidade, a concisão, a lógica, mais do que os exórdios, as
divisões, as perorações e mais bitolas oratórias. A eloquência deve ser conduzida
(porque o orador nasce e não se faz) nos cursos de literatura, onde se proponham os
modelos, onde se façam observar os meios que empregaram os grandes oradores para
saírem com o seu intento, aonde sejam mais conhecidos Cícero e Demóstenes do que
Quintiliano e Barbosa.
A oratória que hoje se ensina produzirá talvez retóricos e pregadores, homens

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

201

que professem ou ensinem, sem contradição, e ouvidos com respeitoso silêncio; mas não
oradores que rebatam extemporaneamente os seus adversários, que subjuguem aos pés
da razão uma assembleia legislativa ou um tribunal de justiça.
Dos nossos cursos inferiores de Filosofia íamos a dizer muito; mas lembrou-nos
que este jornal corre por diferentes partes da Europa. Quem sabe onde nós estamos neste
ramo e onde vão as outras nações, avaliará os motivos do nosso silêncio. Ao menos as
queixas que fazemos acerca do estudo das línguas mortas e da retórica, fazem-se
também em outros países, se exceptuarmos alguns estados da Alemanha.
O vício essencial da nossa instrução preparatória é, primeiro que tudo, ser
exclusiva: quem quiser receber uma intelectual sem chegar à universidade, que pode
aprender? Latim e grego, retórica, uma coisa denominada filosofia, e olhar para as
figuras geométricas de Euclides. Fora disto nada existe, porque as aulas de outra
espécie, estabelecidas em Lisboa e no Porto, são apenas locais e não podem realmente
ser contadas senão como institutos particulares.
O segundo defeito da instrução preparatória, em que está cifrada toda a nossa
instrução inferior, é o não ter ligação nem com o passado, nem com o presente, nem
com o futuro; o não ter conexão com coisa nenhuma deste mundo; o ser dispendiosa,
sem ser produtora; o gastar muito tempo sem algo determinado; o não ensinar, enfim, ao
que a recebe, senão aquilo que não importa lhe esqueça, mas que é vergonha não ter
aprendido.
Suponhamos um lavrador, um negociante, um proprietário, um fabricante,
abastados, que mandam seus filhos às aulas estabelecidas no seu distrito. Depois de sete
anos, eles voltam à casa paterna, à vida civil: sabem latim, grego, retórica, e o seu
Genuense; mas o filho do proprietário não sabe aumentar um ceitil ao valor das suas
propriedades; o lavrador nem conhece a relha de um arado; o do fabricante ignora os
melhoramentos que há a fazer no ramo da indústria que lhe dá o pão; e o filho do
negociante pode dar quinaus ao seu pároco sobre a sua erudição, mas não conhecerá
quais são os géneros que importa ou exporta o seu país ou a sua província, nem será
capaz de redigir, talvez, uma carta, porque uma das coisas que não aprendeu foi a
própria língua.
É por isto que tantos afluem às grandes cidades em busca de empregos; é por isto
que a Universidade se vê atulhada de engenhos rudes, e que ali gastam, entregues muitas
vezes à dissolução, a substância da fazenda paterna, e que, se alcançam os graus das
diversas faculdades, morrem depois na obscuridade e na miséria. Até os bons espíritos,
os engenhos agudos, tendo passado grande porção da vida separados dos interesses do
mundo, quando voltam a este, nem o entendem, nem são por ele entendidos. Então, se
Deus lhes concedeu a omnipotência fatal do génio, da audácia e de uma constância de
bronze, eles revolvem a Sociedade; se não, a sociedade os esmaga. Nos países e nos
tempos da escravidão, a república das letras, separada dos interesses materiais da vida
civil, era uma necessidade. Então cumpria que o mundo das ideias se conservasse puro
das abjecções e tiranias que grassavam pelo mundo das realidades. Era dali que deviam
sair as mãos que erguessem os povos do lodo, e o raio que fulminasse os tiranos. Mas
hoje a ciência e a erudição entre as nações já livres deve ser ligada com a existência real,
servir aos progressos da civilização geral, aplicar-se aos factos; e não é de certo, dando à
mocidade uma educação intelectual, em nada conexa com o estado actual da Sociedade,
que se alcançarão esses fins.
Em que aulas inferiores é a mocidade instruída acerca das ciências políticas e
morais, e preparada, como entre os gregos e romanos, para a prática das virtudes
públicas e para exercer os direitos ou cumprir os deveres do cidadão. Saímos das escolas
sem entendermos a religião, sem regras de vida civil. Sem conhecermos as leis, os
costumes, os usos do nosso país, e sem uma única ideia assentada e exacta acerca dos

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

202

homens e das coisas. O mundo físico desconhecemo-lo tanto como o moral, e, por
consequência, não percebemos uma só das relações que unem ambos. Numa palavra,
ignoramos tudo o que há no globo em que habitamos e no Universo que nos rodeia.
E será esta a educação intelectual que convenha ao século em que vivemos e às
formas sociais que nos regem?
HERCULANO, ALEXANDRE, Composições Várias, pp. 33-51

ACTIVIDADES DE CONTROLE DA APRENDIZAGEM
I. Questionário
1. Qual o sentido geral da evolução educativa em Portugal desde a revolução de 1820 à
implantação da República?
2. Quais os principais contributos pedagógicos dos pensadores nacionais no campo da
educação ao longo do século XIX, designadamente, os de Alexandre Herculano,
Almeida Garrett, Antero de Quental, Adolfo Coelho, João de Deus e António Feliciano
de Castilho.

BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares/ Actividades de remediação)
BÁRBARA, A. Madeira, Subsídios para o estudo da educação em Portugal da
Reforma pombalina à 1ª República, Lisboa, Assírio e Alvim, 1979, pp.
33-83.
CARVALHO, Rómulo de, A História da Educação em Portugal. Desde a Fundação da
Nacionalidade até ao Fim do Regime de Salazar-Caetano, Fundação
Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1988, pp. 485-650.
FERNANDES, Rogério, O pensamento pedagógico em Portugal, Instituto de Cultura
Portuguesa/M.E.C., Lisboa, 1988, pp. 93-123.
ROCHA, Filipe, Fins e objectivos do sistema escolar português. I ­ Período de 1820 1
1926, Paisagem Editora, Porto, 1984.
TORGAL, Luís Reis, e VARGUES, Isabel Nobre, A Revolução de 1820 e a instrução
pública, Paisagem Editora, Porto, 1984.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

203

7. A educação e a pedagogia de meados do século XIX a meados do século XX.
7.1. As "escolas novas" e o Movimento da Educação Nova.
a) Na Europa e no Mundo
b) Em Portugal.

ANTOLOGIA

(Textos de introdução e sensibilização)
"Foi perante o alargamento da escola a novas classes sociais e como reacção aos
processos brutais e anticientíficos utilizados no ensino que, nos finais do século
passado, princípios do actual, nasceu a corrente conhecida por "Escola Nova" (...). Este
movimento inspirou decisivamente tudo o que se passou a nível do ensino no século
XX". Eduardo Reizinho
"Em que consiste pois este espírito da educação nova ? [...] Quando, sem estar
penetrado desse espírito, um professor se serve de um dos métodos ou técnicas
dependentes da educação nova, fá-lo em seu proveito pessoal. Para ele trata-se de
melhorar e mais frequentemente de facilitar o seu trabalho e obter assim nesta ou
naquela disciplina resultado que, além de superiores, lhe darão menos trabalho.
Permanece, porém, no primeiro plano de actividade educacional em relação à qual ele é
o motor e a educação a sua missão. De modo algum a classe de que se encontra
encarregado muda de fisionomia; é sempre constituída por um professor que ensina,
forma e prepara e que tem à sua frente os alunos que são ensinados, formados e
preparados. (...) é o oposto da educação nova tal como a considerámos na linha de
princípios proclamados por Rousseau". Roger Cousinet
"(...) perigosa é ainda a existência dos «falsos amigos» da educação nova que,
tendo conservado intacto o espírito da educação de outrora, se servem de um certo
número de processos novos colhidos aqui e ali para manter este espírito como auxílio
numa missão a que aliás nenhumas modificações trazem. É assim que este ou aquele
professor divide os alunos em várias equipas, dando a cada uma um exercício
gramatical ou de história depois do que afirma convictamente que introduziu o trabalho
de grupo na sua aula. Há um outro que intercala a sua exposição com perguntas
contínuas e pensa estar a utilizar um método activo. Um outro introduz um exercício de
expressão "livre" num determinado dia e hora. Há ainda quem organize um passeio
escolar com um programa de observação rigidamente fixado de antemão e confere a
este exercício imposto o nome mais pomposo e mais do "tipo educação nova" de estudo
do meio. E, como estes, poderíamos citar muitos mais exemplos. Se nos quiséssemos
dar ao trabalho de elaborar a lista de erros cometidos em nome da educação nova,
teríamos de dispor de muito tempo para o fazer". Roger Cousinet

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

204

TEXTO

SIGNIFICADO HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO NOVA
Poder-se-ia, remontando ao passado, encontrar antepassados longínquos da
Educação Nova até mesmo na Antiguidade, com o método socrático que pretendia que
os indivíduos buscassem a verdade pelos seus próprios meios, e passando por Rabelais,
Montaigne, pelo movimento da Renascença e pelos inovadores dos séculos XVII e
XVIII.
Mas, para nos referirmos à época contemporânea basta verificar que,
paralelamente à evolução económica, social e política, à aspiração democrática, à luta
para materializar os ideais de liberdade, de igualdade, de fraternidade universal e de paz
que transformam o nosso mundo, a educação tinha de evoluir e de se adaptar a essas
aspirações e necessidades novas, passando a fazer parte dos costumes, se tal lhe fosse
exigido.
É esse movimento, nascido no plano teórico com J.-J. Rousseau
­ reconhecidamente, o primeiro teórico dessas concepções ­ e que se desenvolveu, em
princípio, pela acção meritória de pioneiros isolados e corajosos, difundido
posteriormente na prática escolar e até nas normas familiares, que se denomina
Educação Nova.
Noutros países recebeu o nome de «Educação Progressiva». E talvez essa
designação exprima melhor o seu profundo significado histórico, na condição de não se
perder de vista a sua intenção democrática e social e de continuar a servir-se dos novos
conhecimentos e processos que a história é fértil em lhe trazer e, em particular, hoje, os
dados fornecidos pela psicologia, pela sociologia e pela ciência pedagógica tomada no
seu conjunto.
Mas também se torna necessário definir que, na superabundância das novas
iniciativas, na difusão aventurosa e inorgânica dessas ideias, muitas vezes se tomam por
Educação Nova práticas que mais não são do que caricaturas abusivas e falhas de
verdadeiro sentido pedagógico.
Frequentemente isso conduz ­ para lá da falta de informação e de preparação
dos pais no tocante às funções essenciais ­ a pensar-se que praticar a Educação Nova,
ser um pai à la page, é fazer tudo ao contrário do que se fazia até então. Ora, a
autodisciplina, a verdadeira liberdade, não são exactamente a ausência de disciplina, o
mero «deixa andar», que só conduzem à anarquia; do mesmo modo, o método activo da
redescoberta não consiste em abandonar a criança a si própria. Essa lógica do «sim» e
do «não», esse movimento pendular que faz negar todo o valor da memória para, alguns
anos mais tarde, voltar a descobri-lo, são absolutamente infecundos e indignos de
espíritos esclarecidos.
É preciso reconhecer, finalmente, que se os pioneiros criadores foram grandes,
os seus discípulos nem sempre tiveram a inteligência de continuar a obra de criação dos
seus mestres e que eles se fixam, frequentemente, numa imitação servil e em atitudes
estereotipadas e dogmáticas. Ora, todo e qualquer método assim utilizado
mecanicamente acaba por ser uma receita sem mais valor do que os métodos antigos.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

205

*
Julgo serem perigosas as atitudes de pura oposição, de dogmatismo, bem como
as visões demasiado parciais, É já tempo de a Educação Nova proceder a uma
harmonização dos seus princípios e a uma visão global dos seus fins, de definir,
finalmente, o seu verdadeiro espírito, que não reside nem nesta técnica nem naquele
método particular, mas sim nessa enorme vontade de adaptação aos recursos oferecida
pelo desenvolvimento das artes, da ciência e da técnica, e a um destino cada vez mais
humanizado da sociedade. Para tal, talvez seja vantajoso passar em revista a história da
Educação Nova.
A INSPIRAÇÃO DA EDUCAÇÃO NOVA: J. -J. ROUSSEAU
Talvez J. -J. Rousseau, que tanto inspirou os inovadores, se tenha prestado à
confusão pelo carácter oponente, voluntariamente paradoxal, apaixonado, que deu à sua
obra Émile, «romance pedagógico» ­ como alguns afirmam ­ ou origem de visão
profética do que será a psicologia da criança, do ser em evolução, da genética ? É, em
todo o caso, a obra que determinou a reviravolta histórica nas concepções da educação,
na atitude em relação à criança, tal como de 1789 e da invenção da máquina a vapor ­
pouco antes de 1789 ­ data o início das transformações que não cessaram de actuar nos
campos da política e da economia.
Conhece-se bem o sucesso universal desse livro, que valeu ao seu autor ser
condenado ao exílio em Genève. Conhece-se pior o que dele se pode extrair na prática,
talvez porque seja lido incompleta ou deficientemente. Dado que conheço poucos
artigos ou obras que, após terem elogiado as perspectivas geniais de determinadas
teorias do autor, não o acusem, finalmente, de haver arquitectado uma teoria puramente
utópica e impraticável; ou então ele é lido parcialmente, sendo retida apenas uma parte
do seu pensamento, caindo no esquecimento tudo o que ele escreveu em outras obras
não menos importantes.
«Comecem por estudar melhor os vossos alunos; porque, seguramente, não os
conhecem», escreve ele no prefácio. «Eis o estudo a que me apliquei mais, para que,
quando todo o meu, método for quimérico e falso, se possam sempre aproveitar as
minhas observações.» É, pois, o estudo do que é a criança antes de ser homem, da sua
natureza, das suas capacidades, dos seus interesses, das melhores motivações e métodos
a utilizar para o formar verdadeiramente, que ele empreendeu. É preciso conhecer a
apresentação sistemática que um Claparède fez das suas ideias na Educação Funcional
para se sentir o que ainda há nele de positivo e válido nos tempos que correm.
A ideia de uma psicologia da criança diferente da do adulto, mas não dissociada
dela, como alguns pensam, de uma educação adaptada à criança e à sua evolução, às
suas capacidades, necessidades, interesses, etapas a respeitar ­ pedagogia activa que
leva a criança, não a receber, mas a formar ela própria os seus conceitos, a construir o
seu saber, a apoiar-se sobre a sua experiência, sobre o que há de aproveitável na sua
natureza, e muitas outras ideias respeitantes ao futuro, estão patentes em Émile e
inspiraram, segundo ele, vários outros pensadores, como Kant, ou praticantes, como
Basedow, na Alemanha, no seu, Philanthropinum (1774), ou ainda Pestalozzi, na Suíça,
na sua escola de Yverdon inaugurada em 1805, na preocupação democrática de
contribuir para «o progresso intelectual e moral dos menos favorecidos», de todos
aqueles que, até então, não tinham tido, de facto, direito a uma verdadeira educação.
OS PRIMEIROS PIONEIROS: A TENDÊNCIA LÍRICA E CONTESTATÁRIA

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

206

Foi por alturas de 1850 que, emergindo do romantismo inicial, surgiram os
primeiros protestos contra a utilização que, durante séculos, tinha sido feita pelas
gerações adultas. A verificação das deficiências, digamos mesmo dos efeitos nocivos da
educação tradicional, ou a consciência profunda das novas necessidades, às quais
deveria corresponder uma educação mais respeitosa da criança, responsabilizando a
criança, «homem de amanhã», pelas suas ideias e sonhos, conduziu à revolta violenta
contra o sistema estabelecido, fazendo surgir a intenção, cada vez mais frequente, de se
tomar uma posição activa perante tudo o que anteriormente se fazia. Contra o
adestramento, a dependência indiscutível da criança e do adolescente ante regras e
valores impostos pela sociedade adulta à geração que desponta, a transmissão passiva do
saber e das ideias apresentadas como eternas, proclamam-se os direitos da criança, o
apelo à liberdade e à sua espontaneidade, a confiança na sua natureza; tem-se, assim, o
sentido de uma evolução necessária.
Estas intenções idealistas e subjectivas, embora semelhantes na sua inspiração,
são bastante diversas nas suas aplicações. Por outro lado, elas atingem apenas um
reduzido número de alunos, sendo aplicadas frequentemente em escolas particulares e,
portanto, reservadas às crianças mais ricas. Por vezes, é, pelo contrário, a criança
oriunda das camadas modestas, muito pobres, que se retende atingir. Em qualquer dos
casos, trata-se sempre de «libertar» a criança, de a deixar «expandir-se sozinha, ganhar
confiança na sua natureza. Como reacção contra o meio técnico e a vida moderna, tão
pouco adequados às crianças, as escolas são instaladas no campo e num ambiente
natural.
É Tolstoi quem proclama na Rússia que a «criança é a primeira imagem da
harmonia; na criança que vem ao mundo sã, o equilíbrio entre o belo, a verdade e o bem
é perfeito», Em 1858, cria na sua escola de Yasnaia-Poliana este programa de liberdade,
de educação e formação do carácter, do sentido do belo e do bem, para ele superior a
qualquer forma de instrução e ciência.
É na Áustria, Ellen Key convencida ­ como ela diz no seu livro O Século da
Criança, que, em seis anos, foi editado 64 vezes ­ de que «quando o pai vir na criança o
filho do rei a quem deverá servir fielmente, aquele terá adquirido todos os seus
direitos». Confiante numa liberdade e num individualismo totais, ela pensa que não há
senão que deixar que, lenta e tranquilamente, a natureza se ajude a si própria».
Mas, simultaneamente ou mais tarde, viriam a surgir, em alguns países mais do
que em outros ­ por exemplo, na Inglaterra e na Alemanha ­, tendências para a
socialização da criança, ensinando-a a viver com os outros, a trabalhar com os outros, a
formar o seu carácter, a organizar a escola em sistema comunitário de trabalho com
monitores, chefes de classes e de escola, à semelhança de uma «monarquia
constitucional ou de uma democracia militar», ou seja, à imagem de um mundo ideal
que se antevia.
Todas estas ideias, fortes na contestação, apresentavam-se como afirmações
isoladas e correspondiam a preocupações ou inspirações individuais dependentes do
carácter ou da sensibilidade particular dos seus autores.
AS TENTATIVAS DE ALARGAMENTO E DE COORDENAÇÃO DA EDUCAÇÃO
NOVA
Vê-se que a Educação Nova nasceu primeiramente da intenção e da acção
individual de pioneiros que sentiam profundamente as deficiências da educação
estabelecida, ou as novas necessidades de um mundo mais justo, mais humano, em que

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

207

todos os indivíduos teriam direito a desenvolver plenamente todas as suas
potencialidades, em que a infância e a juventude teriam um verdadeiro lugar e não esse
estado de adultos incompletos, inteiramente dependentes, submetidos à autoridade
absoluta, à obediência servil que talvez conviesse à civilização passada mas que deixou
de ser apanágio de uma sociedade democrática, feita de liberdade, de responsabilidade e
de disciplina consentida.
Esses pioneiros eram teóricos ou homens de acção que tiveram a coragem de se
rebelarem contra os costumes estabelecidos. Mas os realizadores que queriam fazer
passar as suas ideias à realidade limitavam-se a ver, como todos os homens de acção,
uma parte do que era necessário fazer. Os seus excessos ­ como os da Escola de
Hamburgo, que se manteve libertária até ao fim e criou «repúblicas de crianças» ­ foram
úteis e fecundos. É o que se pode chamar o período individualista, idealista e lírico da
Educação Nova.
Veio em seguida a idade dos sistemas, o de Decroly, Montessori,
Kerchensteiner, Dewey, Washburne, Ferrière, Dottrens, Cousinet, Freinet, que,
baseando-se em observações mais largas e mais seguras, tentaram estabelecer sistemas
educativos completos, apoiados em técnicas e métodos precisos e mesmo em
concepções mais elaboradas do homem e dos fins educativos. Esses sistemas não
ficaram menos isolados e, pelo menos aparentemente, mais opostos, pela própria
precisão que proporcionaram aos técnicos.
Sentiu-se, contudo, a necessidade de confrontar essas práticas e essas intenções,
o que constituiu a terceira etapa. Em 1899, por iniciativa de Ferrière ­ o apóstolo suíço
da E. N. ­ foi criado, em Genève, o Gabinete Internacional das Escolas Novas,
encarregado de estabelecer a sua lista, de criar laços entre as escolas e de recolher e
difundir os resultados obtidos. Em 1921, em Calais, foi fundada a Liga Internacional da
Educação Nova, que reúne grupos nacionais, como o Grupo Francês de Educação
Nova e que, de três em três anos, organiza congressos internacionais.
Mas as etapas sucessivas desse movimento testemunham uma diversidade e uma
evolução constantes. Em 1912, define-se a escola nova como «um internato familiar
situado no campo, onde a experiência pessoal da criança está na base da educação
intelectual com recurso aos trabalhos manuais (escola do trabalho) e da educação moral
pela prática da autonomia dos alunos».
Definiram-se os 30 pontos característicos da E. N. (...).
MIALARET, Gaston, (Org.), Educação Nova e Mundo
Moderno, Ed. Arcádia, Lisboa, 1971.

TEXTO
Os 30 princípios da "Educação Nova"
ORGANIZAÇÃO GERAL
1. A Escola Nova é um laboratório de pedagogia prática que se propõe servir de
sugestão às escolas oficiais. Baseia-se na psicologia da criança e nas condições da vida
moderna.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

208

2. A Escola Nova é um internato de atmosfera tão familiar quanto possível, só esse meio
sendo capaz de realizar uma educação integral.
3. A Escola Nova está instalada no campo, meio natural mais são e mais rico do ponto
de vista educativo; na proximidade da cidade, todavia, quando se trata de adolescentes,
de maneira a facilitar a sua educação estética.
4. A Escola Nova agrupa os alunos em pavilhões, de 10 a 15 ao máximo, sob a direcção
de um casal de educadores.
5. A Escola Nova pratica, a maioria das vezes, a coeducação que prepara casamentos
sãos e felizes.
EDUCAÇÃO FÍSICA E HIGIENE
6. A Escola Nova deve ter por dia ao menos uma hora e meia de trabalhos manuais que
tenham uma utilidade prática e educativa.
7. A marcenaria, a cultura do solo, a criação de animais, são as modalidades mais
desejáveis dessa actividade manual por causa do seu maior valor, sob todos os pontos de
vista.
8. A Escola Nova deve dar às crianças a possibilidade de executar trabalhos livres,
adaptados à individualidade de cada um.
9. A Escola Nova assegura a cultura do corpo pela ginástica natural.
10. A Escola Nova pratica viagens a pé ou de bicicleta, com acampamentos debaixo de
tendas e cozinha ao ar livre; esses elementos visam, ao mesmo tempo que a educação
física, a iniciação à geografia e à vida social.
FORMAÇÃO INTELECTUAL
11. A Escola Nova desenvolve o juízo mais que a memória, visando a cultura geral: esta
é baseada no método científico, na exploração do meio e na leitura pessoal.
12. A Escola Nova encara a especialização espontânea e depois reflectida, ao lado da
cultura geral.
13. A Escola Nova baseia o seu ensino sobre os factos e sobre as experiências; na
natureza, nos organismos humanos.
14. A Escola Nova recorre à actividade pessoal do educando pela associação do trabalho
concreto ao estudo abstracto, pela utilização do desenho como auxiliar das diversas
disciplinas.
15. A Escola Nova estabelece um programa partindo dos interesses espontâneos da
criança.
16. A Escola Nova recorre ao trabalho individual que consiste numa investigação, quer
entre os factos, quer nos livros, nos periódicos e que consiste numa classificação
segundo a ordem lógica.
17. A Escola Nova faz apelo ao trabalho colectivo que consiste numa disposição ou
elaboração lógica em comum de documentos particulares.
18. Na Escola Nova o ensino propriamente dito é limitado à parte da manhã.
19. A Escola Nova trata apenas uma ou duas matérias por dia.
20. Na Escola Nova tratam-se poucas matérias por mês e por trimestre, adoptam-se
horários individuais e agrupam-se as matérias segundo o avanço dos alunos.
FORMAÇÃO MORAL, SOCIAL E ESTÉTICA
21. A Escola Nova forma, em certos casos, uma república escolar onde se desenvolve
gradualmente o juízo crítico e o sentido da liberdade.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

209

22. Na Escola Nova procede-se à eleição democrática dos chefes, sendo assim os
professores libertos de toda a parte disciplinar.
23. A Escola Nova reparte entre os alunos os cargos sociais.
24. Na Escola Nova as recompensas e as sanções negativas consistem em colocar o
aluno em condições de melhor atingir o fim considerado como bom.
25. A auto-emulação substitui a emulação entre os alunos.
26. A Escola Nova deve apresentar uma atmosfera estética e acolhedora.
27. A música colectiva, o canto coral e a orquestra fazem parte da educação estética.
28. A educação da consciência moral consiste principalmente, nas crianças, em
narrações moralizadoras, em reacções espontâneas.
29. A maioria das escolas nova observa uma atitude religiosa sem sectarismo e praticam
a neutralidade confessional.
30. A Escola Nova prepara não só o futuro cidadão em vista da Nação, mas também em
vista da Humanidade.

Definição oficial de "Escola Nova"
"A Escola Nova é um internato estabelecido a nível familiar no campo, e onde a
experiência da criança serve de base à educação intelectual pelo emprego adequado dos
trabalhos manuais e à educação moral pela prática de um sistema de relativa autonomia
dos alunos". (Adolphe Ferrière)
Extraído de: PLANCHARD, Émile, Introdução à
Pedagogia, Coimbra Editora, Coimbra, 1979, pp. 193-199.

7. A educação e a pedagogia de meados do século XIX a meados do século XX
7.2. A pedagogia de Célestin Freinet e a Escola Moderna

ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

210

"Todos os dias a experiência conduz Freinet à mesma conclusão: o ensino
ministrado à maneira tradicional, que exige da criança uma atitude passiva e amorfa, não
tem o menor resultado. É claro que Freinet explica esse malogro pelas suas
insuficiências como educador. Sabe perfeitamente que, se tivesse uma voz forte e bem
timbrada, um olhar firme, uma presença física imponente (...)". Élise Freinet
"Através do contacto com as crianças, das relações de franca e simples
camaradagem que mantinha com elas, tinha compreendido definitivamente que
precisava de colher na própria vida das crianças os novos elementos para o seu trabalho
pedagógico e apoiar-se nos seus interesses mais profundos para satisfazer aquela sua
necessidade de actividade (...)" Célestin Freinet
"(...) não se poderia empregar a expressão "método Freinet", a não ser por abuso
de linguagem. Freinet insistiu sempre em definir a sua obra como um movimento e não
como um catálogo de princípios e de pormenores técnicos (...)" Roger Gilbert
"[Freinet] era adepto dos "métodos naturais": a aprendizagem, tanto quanto
possível, deve estar espontaneamente ligada à iniciativa dos alunos e aos seus trabalhos
práticos; as matérias não devem ser introduzidas friamente, como corpos de teorias
acabados e sistematizados, apresentados numa linguagem frequentemente estranha aos
alunos, fora dos seus entusiasmos diários e das suas interrogações". Eduardo Reizinho

TEXTO
Talvez Freinet tivesse suportado melhor a acção deplorável da defeituosa
instalação escolar e da pobreza, talvez se tivesse adaptado menos mal aos processos
tradicionais que o Director tanto elogiava, se não tivesse existido o grave problema de
uma saúde comprometida. Sentia uma imperiosa necessidade de procurar outras
soluções válidas para o seu caso e para as personalidades cujas respectivas
particularidades ia aprendendo a conhecer. Muito naturalmente, sem ambição nem
preconceitos, tentou adaptar um ensino livre de formalismos às suas possibilidades
físicas limitadas e às reacções dos seus pequenos alunos. Dia a dia, foi improvisando,
comparando o seu comportamento com o dos alunos.
Viu logo sem dificuldade que, por exemplo, as lições tradicionais que,
por impossibilidade respiratória, não podia dar convenientemente, eram tão cansativas
para os alunos como para ele próprio. Quando dispunha na secretária o material que
tinha preparado para uma lição qualquer sobre objectos, as crianças ficavam atentas,
cheias de curiosidade, na expectativa de uma espécie de exibição de prestidigitador.
Mas, logo que começava a explicação e que era preciso impor o silêncio para dar a lição
e ao mesmo tempo manter a disciplina, o esforço era de tal ordem, que o professor tinha
de se dar por vencido e o mesmo acontecia à curiosidade insatisfeita dos seus alunos
decepcionados.
Mas que fazer então numa aula, se se está impossibilitado de dar as
lições ? Não se pode passar o dia inteiro a ler a cartilha, a fazer cópia e a escrever
algarismos no caderno. Aliás, as crianças são rebeldes a estas actividades que envolvem
uma imobilidade física e mental. Elas acabam por se enervar e o professor por se
impacientar. Todos os dias a experiência conduz Freinet à mesma conclusão: o ensino

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

211

ministrado à maneira tradicional, que exige da criança uma atitude passiva e amorfa,
não tem o menor resultado. É claro que Freinet explica esse malogro pelas suas
insuficiências como educador. Sabe perfeitamente que, se tivesse uma voz bem
timbrada, um olhar firme, uma presença física imponente, haveria a hipótese de o
dinamismo próprio de um ser saudável dominar a situação. Mas dominar a situação não
é resolver o problema educativo. Ali bem perto, na sala em frente, o director enfrenta a
indocilidade das crianças com berros, reguadas na mesa, linhas para escrever, verbos
para copiar e, por vezes, com a expulsão violenta de algum indesejável para o meio do
corredor... Mas nem assim é bem sucedido.
Pôr o problema, reconhecer as suas dificuldades, aperceber-se dos dados
que o tornam assim tão complicado, não é obrigatoriamente arranjar-lhe uma solução
ideal. O papel de camarada-educador que Freinet escolheu nem sempre se concilia com
as exigências dos programas e o rigor dos horários. Depois dos momentos de
relaxamento amigável, é preciso retomar uma atitude rígida, dominar o rebanho e
regressar aos deveres escolares sempre decepcionantes para todos.
Esgotadíssimo fisicamente e face às dificuldades praticamente
insuportáveis que surgem quotidianamente, Freinet decide preparar-se para concorrer ao
lugar de inspector primário. Passará assim a ter o espírito mais ocupado e poderá levar
uma vida menos sedentária vivendo junto das crianças de quem já aprendeu a gostar.
Informa-se do programa e contacta pela primeira vez com o pensamento dos homens
que ao longo dos séculos dominaram a pedagogia.
Até agora, tinha apenas uma vaga ideia sobre Rabelais, Montaigne,
Pestalozzi, Rousseau, dos quais não se tinha podido abeirar por ter saído
precipitadamente da Escola Normal. Descobre nesses pioneiros uma segurança e um
vigor que contrastam estranhamente com a psicologia intelectualista e abstracta dos
autores incluídos no programa dos autores incluídos no programa do curso para
inspectores. Decide-se a tragar a purga dos tratados de Spencer, William James, Wundt,
Ribot, mas é com verdadeiro prazer que se detém na companhia de Gargântua e
Pantagruel e, sobretudo, na companhia desse admirável homem que é Pestalozzi, cujas
temeridades o dominam por completo.
O que vai melhorando são as suas relações com os alunos a nível escolar.
Como sabe que um dia irá deixar a sua turma, parece apegar-se ainda mais aos alunos,
abeirando-se deles para os ver viver, esforçando-se por ser indulgente, por estar atento
aos desejos expressos por cada um deles, procurando antes de mais compreender,
ajudar. Essa atitude espontânea traz-lhe todos os dias algumas alegrias que tornam mais
suportável a sua vida de enfermo e o levam cada vez mais à compreensão profunda da
criança. Também tem menos escrúpulos com o cumprimento do horário, com a
obediência ao programa e, pouco a pouco, fora dos caminhos usuais, vai adoptando um
novo comportamento face aos problemas pedagógicos da vida habitual da turma.
*
É Joseph, o amigo dos bichos, quem conduz resolutamente Freinet a uma
reconsideração permanente do problema pedagógico. Acabado o recreio, com a
apitadela do director, as duas turmas formam para regressar às aulas; e, enquanto a
coluna se põe em marcha, Joseph, que vinha atrás, sai a correr da forma [fila] e vai
ajoelhar-se diante de um muro. Esquadrinha as velhas pedras com o olhar ávido. O
director já desapareceu no corredor. Intrigado, Freinet observa Joseph que, com gestos
devotos, eleva os braços para a parede, à altura dos olhos.
­ Joseph !
Não dá resposta. O nosso noviço está na celebração da missa...
­ Joseph !

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

212

Então o pequeno volta para o professor o seu rosto preocupado e faz um
gesto apressado, que é simultaneamente uma ordem imperiosa para que ele se cale e
espere:
­ Chiu ! Vou já, vou já ! Entra, já vou ter contigo.
A tensão interior do miúdo é tão forte que Freinet compreende a
linguagem da mãozita impaciente logo à primeira vista, e, sem se voltar, entra na aula.
­ Sr. professor, falta o Joseph.
­ Sr. professor, ele fugiu. Antigamente estava sempre fugir.
Mas a porta abriu-se e Joseph apareceu radiante, soprando como se
tivesse acabado de ganhar uma luta.
­ Sr. professor, é que ali no buraco há uma lagarta com penas...
pequenininha, assim (indica o tamanho com o dedo), é azul, Sr. professor... Dei-lhe
comida...
A lição de leitura começa. Enquanto o ponteiro do mestre vai designando
as sílabas no quadro mural, Joseph, de olhos voltados para a janela, continua a velar
pela sua lagartinha que tem penas e que é de um azul tão lindo...
A lagarta do Joseph é um caso entre centenas deles que demonstram a
Freinet a necessidade de ter em conta o interesse da criança e de integrar esse no ensino,
para evitar continuamente a desintegração do pensamento infantil, flagelo da escola
tradicional.

FREINET, Élise, Nascimento de uma pedagogia
popular, Ed. Estampa, Lisboa, 1978, pp. 22-25.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

213

7. A educação e a pedagogia de meados do século XIX a meados do século XX.
7.3. A pedagogia libertária: de Tolstoi, por Hamburgo, a A. S. Neill e à escola de
Summerhill.

ANTOLOGIA

(Textos de introdução e sensibilização)
"Nunca fui influenciado pelos grandes educadores. Nunca li Dewey ou outro
qualquer. O meu caminho para a educação foi através da psicologia - à custa de Freud e
de Reich. Fiz eu próprio uma extensa análise e concluí, como muitas outras pessoas, que
a psicanálise alteraria o mundo para melhor. Não haveria mais crimes, mais
infelicidades - mas isto é uma tolice. Não tenho objecções contra a análise. Apenas
penso que está limitada àqueles que têm tempo e dinheiro para se recostarem num
canapé. Para a Humanidade isto não constitui uma esperança nem é processo. O outro e
único caminho é fazer com que as crianças sejam livres de modo a que não necessitem
de análise". A. S. Neill
"(...) preferia antes ver a escola produzir um varredor de ruas feliz do que
um erudito neurótico". A. S. Neill
"[Neill] (...) escolheu fazer uma escola em que possa ser livre e oferecer um
pouco de felicidade a algumas crianças, persuadido de que o seu sistema não poderá
desenvolver nem generalizar-se num tal quadro social". P. Laguillaumie

TEXTO
As crianças devem encontrar as coisas por si próprias. Não se lhes deve
dizer que Beethoven é melhor do que Ellington. Julgo que os pais intimidam demasiado
os filhos ao sugerirem-lhes que eles gostem mais de uma coisa do que doutra. As
crianças não devem ter de aceitar os gostos e ideias dos crescidos. A nossa escola regese pela autogovernação, e as crianças é que governam. Temos aqui quem não cumpra as
leis, como em qualquer sistema, mas elas acatam melhor as leis.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

214

*****
Não dizemos às crianças o que devem fazer; apenas lhes ensinamos a
técnica. Se um rapaz se aproximasse de mim com um pedaço de cobre e me dissesse:
«Que devo fazer?», dir-lhe-ia: «Não faço ideia; tu é que deves decidir.» Mas se me
dirigisse e perguntasse como se juntam duas peças de cobre, dir-lhe-ia: «Eu mostro-te.»
Só as crianças que provêm de escolas disciplinadas perguntam o que devem pintar ou o
que devem fazer. Se uma criança com 16 anos, que tivesse aqui estado desde os 5 anos,
se chegasse a mim e me perguntasse coisas dessas ficaria chocado, e nunca me choquei
pôr um motivo desses em quarenta e um anos.
*****
Protesto fortemente contra um professor que passa e vê uma criança a
brincar com lama e aproveita a oportunidade para falar da erosão das costas ou outro
disparate no género. A brincadeira deve ser completamente separada da aprendizagem.
Ponho fortes objecções aos sistemas que utilizam as brincadeiras para fazer com que as
crianças aprendam coisas. Para mim, a brincadeira não está, de forma alguma, ligada a
nada.
*****
Há pessoas que me têm dito que eu tenho um complexo paternal porque
me rebelei contra o sistema e por isso fundei uma escola à minha maneira. Estas
mesmas pessoas não parecem ser capazes de me dizer por que razão é que sendo nós
oito irmãos e irmãs eu tivesse sido o único a seguir este caminho. Não têm resposta para
isto e, devo acrescentar, eu também não.
*****
As crianças de hoje são criadas num mundo cheio de mentiras e de medo.
«Joãozinho, se for a Srª Smith quem bateu à porta, diz-lhe que não estou em casa.» Ou
então o Joãozinho parte uma chávena ao jantar e chegam-lhe e, no entanto, no dia
seguinte, o pai faz o mesmo e a mãe sorri. Que pensará essa criança? O meu cão,
Biscuit, é um cão simpático, um cão sossegado, mas se o prender durante duas semanas
ele dará patadas e dentadas às pessoas. Nós prendemos os nossos filhos. Gostaria de
saber quanta influência é exercida por uma mãe que tem um filho dentro de si, para
nascer um filho que ela realmente não deseja. Quanto da sua dureza não será passado ao
filho, a ponto de, quando a criança finalmente nasce, ele ou ela não ser já deformada?
Mentalmente deformada, quero dizer. Penso nisto constantemente.
*****
As crianças são honestas por natureza, e esperam que os outros também o
sejam. É uma coisa grande da infância. São abertas e honestas e, se lhes é permitido
experimentar a liberdade, assim permanecerão durante toda a vida, sem fecharem os
seus sentimentos para com os outros. Não terão receio de amar alguém.
*****
Se aqui chegassem essas horríveis histórias de quadradinhos, da América,
corria com elas. Não penso que seja decente pôr uma criança pequena perante toda essa
perversidade e insanidade a que chamamos humor, feito por homens doentes - repare homens pervertidos. Corria-as a pontapé, tal-qualmente não admitiria um tipo da
Gestapo no meu corpo docente. Há coisas contra as quais nos temos de proteger.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

215

*****
A vida deve ser vivida por si própria - não por dinheiro, não por sucesso,
não por Cadillacs. Tenho dito muita vez que gostaria mais que um antigo aluno fosse
um guarda-freio satisfeito do que um licenciado neurótico. Vejamos, ninguém pode ser
feliz toda a vida. Você não se sente feliz com uma dor de dentes, ou quando a sua
pequena preferida foge com outro qualquer. Por felicidade eu quero significar uma
espécie de sensação de que a vida é fundamentalmente boa, que a pessoa aprecia a vida
sem odiar e sem lutar com outrem para chegar algures. Penso que essa luta para chegar
algures é terrível. Nenhum sistema pode vangloriar-se de ser o supersumo. Eu nunca
afirmaria que todos os meus antigos alunos são perfeitos e integralmente equilibrados.
Como poderia fazê-lo? A única esperança, para nós, é deixarmos as crianças seguirem
por si próprias sem as doutrinarmos desta ou daquela maneira, mas remamos contra a
corrente. O comunismo é baseado na doutrinação subtil. O americanismo, no seu todo, é
de princípio a fim uma doutrinação subtil. Não sei porquê a América e a Rússia se
zangam tanto. São semelhantes em muitos aspectos, especialmente nos métodos de
ensino de crianças.
*****
Ninguém pode ser inteiramente livre. Há que obedecer a leis. Há que
guiar pela mão, na estrada. Há que obedecer aos polícias. O que quero significar por
liberdade é a liberdade interior. Se uma criança não quer aprender matemática é assunto
da criança, só dela, mas se a criança quer tocar trombeta quando as outras estão a dormir
então o assunto já é de todos. Em Summerhill tentamos distinguir entre ambos... Num
lar capaz, os filhos e os pais têm direitos iguais. Num mau lar, ou as crianças têm os
direitos todos, ou os pais têm os direitos todos.
*****
A ideia da imprensa popular sobre crianças livres é que elas partem
janelas todo o dia. Liberdade não é nada disso. Liberdade, em Summerhill, consiste em
cada um viver a sua vida sem interferência exterior. Quando as crianças chegam à
liberdade pela primeira vez, aos 12 ou 13 anos, elas não sabem o que ela é, e leva tempo
para se compenetrarem de que não podem, em Summerhill, fazer exactamente o que
lhes apetece.
*****
Não tento produzir aqui qualquer tipo de pessoa. Apenas tento fazer com
que as pessoas sejam elas próprias, sem interferências exteriores. Ninguém se deveria
atrever a dizer que está tentando produzir um certo tipo de pessoa. Ninguém é
suficientemente perfeito para tentar dizer a uma criança como deve viver ou o que deve
fazer. Acredito que se elas puderem governar-se a si próprias e estiverem libertas do
medo, libertas de obrigatoriedades, de modo a poderem desenvolver uma sinceridade e
um carácter próprios, o resto virá por si. A liberdade proporciona às pessoas uma
enorme dose de sinceridade. Não consigo imaginar um antigo aluno a aparecer na
televisão para dizer que não sei o quê lava mais branco que aqueloutro, pois ele saberia
que isso é uma mentira.
*****
Todos somos mentirosos. Ora bem, se você disser uma mentira não é
uma coisa terrível. Todos o fazemos. O que é terrível é viver em mentira. Há pessoas
que odeiam os patrões, odeiam os empregos, e sorriem para os fregueses mesmo quando
não querem sorrir. Quando uma criança mente, ela está, frequentemente, a imitar os

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

216

pais, ou os professores, ou outros adultos... Se uma criança parte qualquer coisa e teme a
mãe ou o pai, mente e diz que não foi ela, que foi o gato. Este tipo de mentira pode ser
eliminado se houver pais e professores que não façam as crianças ter medo deles.
*****
Os summerhillianos têm, de facto, dificuldades em ajustar-se ao mundo
exterior, de início - não tanto os de Londres, onde têm o seu grupo, mas quando temos
alunos de Birmingham ou Glasgow, eles queixam-se de que lhes é difícil encontrar
pessoas que sintam de maneira semelhante à deles. Mas eles podem adaptar-se muito
melhor e mais rapidamente do que as outras pessoas que conheço. Creio que as pessoas
livres terão um melhor sentido daquilo que as rodeia. Um dos meus alunos mais antigos,
o segundo que tive, esteve um ano inteiro numa fábrica de motores a meter porcas e
parafusos, odiando essa tarefa, mas perseverou, pois queria ser mecânico; hoje é-o, na
Escócia, e muito bom.
*****
As críticas de que eu trabalho menos a parte intelectual da criança do que
a parte emocional são, de certo modo, verdadeiras. Tenho de insistir no aspecto
emocional, pois sustento que, se as emoções forem livres, o intelecto cuidará de si
próprio. As nossas crianças passam nos exames oficiais após dois anos de estudo,
enquanto outras escolas levam cinco ou seis anos a prepará-las para os mesmos exames.
Elas são emocionalmente livres e podem concentrar-se no que estão a fazer. Não sou
contra a instrução. Sou contra o fazer da instrução a única coisa que existe nas escolas.
Qualquer jornal educativo vem cheio de instrução e nada acerca da vida. Vejamos, eu
próprio estive na Universidade e sou considerado um homem instruído. No entanto, não
julgo que o seja.
*****
Nunca fui influenciado pelos grandes educadores. Nunca li Dewey ou
outro qualquer. O meu caminho para a educação foi através da psicologia ­ à custa de
Freud e de Reich. Fiz eu próprio uma extensa análise e concluí, como muitas outras
pessoas, que a psicanálise alteraria o mundo para melhor. Não haveria mais crimes, mais
infelicidades -mas isto é uma tolice. Não tenho objecções contra a análise. Apenas
penso que está limitada àqueles que têm tempo e dinheiro para se recostarem num
canapé. Para a Humanidade isto não constitui uma esperança nem é processo. O outro e
único caminho é fazer com que as crianças sejam livres de modo a que não necessitem
de análise.
*****
Não sou freudiano. Fui muito influenciado por Freud. Também fui muito
influenciado por Homer Lane, um americano a quem chamo um génio a lidar com
crianças. Fui influenciado por Wilhelm Reich, mas muito mais tarde. Ele não afectou o
meu trabalho, mas era brilhante, o maior psicólogo depois de Freud. Chamam-me um
pioneiro ? Sou uma mistura de Freud, Lane, Wells, Shaw e todos os outros que li. Não
há ninguém que faça algo de original. Tudo quanto fiz foi aplicar o conhecimento de
homens conscientes do verdadeiro significado da educação. A maioria das escolas
ignora o facto de que devemos encarar as crianças como seres vivos que têm
consciência para escolher aquilo que desejam.
SNITZER, H., A educação pela liberdade. A experiência
pedagógica de A. S. Neill, Pub. D. Quixote, Lisboa, 1972

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

217

7. A educação e a pedagogia de meados do século XIX a meados do século XX.
7.4. A Pedagogia do Oprimido e a educação libertadora segundo Paulo

Freire (1921-1997)

ANTOLOGIA

(Textos de introdução e sensibilização)

TEXTO
Quanto mais analisamos as relações educador-educandos na escola, em qualquer
de seus níveis, ou fora dela, parece que mais nos podemos convencer de que estas
relações apresentam um carácter especial e marcante - o de serem relações
fundamentalmente narradoras, dissertadoras.
Há uma quase enfermidade da narração. A tónica da educação é
preponderantemente esta - narrar, sempre narrar.
A narração, de que o educador é o sujeito, conduz os educandos à memorização
mecânica do conteúdo narrado. Mais ainda, a narração os transforma em "vasilhas", em
recipientes a serem "enchidos" pelo educador. Quanto mais vá "enchendo" os
recipientes com seus "depósitos", tanto melhor educador será. Quanto mais se deixem
docilmente "encher", tanto melhores educandos serão.
Desta maneira, a educação se torna um acto de depositar, em que os educandos
são os depositários e o educador o depositante.
Em lugar de comunicar-se, o educador faz "comunicados" e depósitos que os
educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis, aí a
concepção bancária da educação, em que a única margem de acção que se oferece aos
educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los.
Na visão "bancária" da educação, o "saber" é uma doação dos que se julgam
sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações
instrumentais da ideologia da opressão - a absolutização da ignorância, que constitui o
que chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual esta se encontra sempre no
outro.
Na concepção "bancária" que estamos criticando...

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

218

a) O educador é o que educa; os educandos, os que são educados.
b) O educador é o que sabe; os educandos, os que não sabem.
c) O educador é o que pensa; os educandos, os pensados.
d) O educador é o que diz a palavra; os educandos, os que a escutam docilmente.
e) O educador é o que disciplina; os educandos, os disciplinados.
f) O educador é o que opta e prescreve sua opção; os educandos os que seguem a
prescrição.
g) O educador é o que actua; os educandos, os que têm a ilusão de que actuam,
na actuação do educador.
h) O educador escolhe o conteúdo programático; os educandos, jamais ouvidos
nesta escolha, se acomodam a ele.
i) O educador identifica a autoridade do saber com sua autoridade funcional, que
opõe antagonicamente à liberdade dos educandos; estes devem adaptar-se às
determinações daquele.
j) O educador, finalmente, é o sujeito do processo; os educandos, meros
objectos.
Se o educador é o que sabe, se os educandos são os que nada sabem, cabe àquele
dar, entregar, levar, transmitir o seu saber aos segundos. Saber que deixa de ser de
"experiência feito" para ser de experiência narrada ou transmitida.
Não é de estranhar, pois, que nesta visão "bancária" da educação, os homens
sejam vistos como seres da adaptação, do ajustamento. Quanto mais se exercitem os
educandos no arquivamento dos depósitos que lhes são feitos, tanto menos
desenvolverão em si a consciência de que resultaria a sua inserção no mundo, como
transformadores dele. Como sujeitos.
Quanto mais se lhes imponha passividade, tanto mais ingenuamente, em lugar de
transformar, tendem a adaptar-se ao mundo, à realidade parcializada nos depósitos
recebidos. A libertação autêntica, que é a humanização em processo, não é uma coisa
que se deposita nos homens. Não é uma palavra a mais, oca, mitificante. É práxis, que
implica na acção e na reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo.
Exactamente porque não podemos aceitar a concepção mecânica da consciência,
que a vê como algo vazio a ser enchido (...).
A educação que se impõe aos que verdadeiramente se comprometem com a
libertação não pode fundar-se numa compreensão dos homens como seres "vazios" a
quem o mundo "encha" de conteúdos; não pode basear-se numa consciência
espacializada, mecanicistamente compartimentada, mas nos homens como "corpos
conscientes" e na consciência como consciência intencionada ao mundo. Não pode ser a
do depósito de conteúdos, mas a da problematização dos homens em suas relações com
o mundo.
Neste sentido, a educação libertadora problematizadora, já não pode ser o acto de
depositar, ou de narrar, ou de transferir, ou de transmitir "conhecimentos" e valores aos
educandos, meros pacientes, à maneira da educação "bancária", mas um acto
cognoscente. Como situação gnoseológica, em que o objecto cognoscível, em lugar de
ser o término do acto cognoscente de um sujeito, é o mediatizador de sujeitos
cognoscentes, educador, de um lado, educandos, de outro, a educação problematizadora
coloca, desde logo, a exigência da superação da contradição educador-educandos. Sem

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

219

esta, não é possível a relação dialógica, indispensável à cognoscibilidade dos sujeitos
cognoscentes, em torno do mesmo objecto cognoscível.
O antagonismo entre as duas concepções, uma, a "bancária", que serve à
dominação; outra a problematizadora, que serve à libertação, toma corpo exactamente
aí. Enquanto a primeira, necessariamente, mantém a contradição educador-educandos, a
segunda realiza a superação.
Para manter a contradição, a concepção "bancária" nega a dialogicidade como
essência da educação e se faz antidialógica; para realizar a superação, a educação
problematizadora - situação gnoseológica - afirma a dialogicidade e se faz dialógica.
Em verdade, não seria possível à educação problematizadora, que rompe com os
esquemas verticais característicos da educação bancária, realizar-se como prática da
liberdade, sem superar a contradição entre o educador e os educandos. Como também
não lhe seria possível fazê-lo fora do diálogo.
É através deste que se opera a superação de que resulta um termo novo: não mais
educador do educando; não mais educando do educador, mas educador-educando com
educando-educador.
Desta maneira, o educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto
educa, é educado em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa.
Ambos, assim, se tornam sujeitos do processo em que crescem juntos e em que os
"argumentos da autoridade" já não valem.
Já agora ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si
mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo. Mediatizados
pelos objectos cognoscíveis que, na prática "bancária", são possuídos pelo educador que
os descreve ou os deposita nos educandos passivos.
Esta prática, que a tudo dicotomiza, distingue, na acção do educador, dois
momentos. O primeiro, em que ele, na sua biblioteca ou no seu laboratório, exerce um
acto cognoscente frente ao objecto cognoscível, enquanto se prepara para suas aulas. O
segundo, em que, frente aos educandos, narra ou disserta a respeito do objecto sobre o
qual exerceu o seu acto cognoscente.
O papel que cabe a estes, como salientámos nas páginas precedentes, é apenas o
de arquivarem a narração ou os depósitos que lhes faz o educador. Desta forma, em
nome da preservação da cultura e do conhecimento", não há conhecimento, nem
cultura.verdadeiros.
Não pode haver conhecimento, pois os educandos não são chamados a conhecer,
mas a memorizar o conteúdo narrado pelo educador. Não realizam nenhum acto
cognoscitivo, uma vez que o objecto que deveria ser posto como incidência de seu acto
cognoscente é posse do educador e não mediatizador da reflexão crítica de ambos.
A prática problematizadora, pelo contrário, não distingue estes momentos no que
fazer do educador-educando.
Não é sujeito cognoscente em um, e sujeito narrador do conteúdo conhecido em
outro.
É sempre um sujeito cognoscente, quer quando se prepara, quer quando se
encontra dialogicamente com os educandos.
O objecto cognoscível, de que o educador bancário se apropria, deixa de ser,
para ele, uma propriedade sua, para ser a incidência da reflexão sua e dos educandos.
Deste modo, o educador problematizador refaz, constantemente, seu acto
cognoscente, na cognoscibilidade dos educandos. Estes, em lugar de serem recipientes
dóceis de depósitos, são agora investigadores críticos, em diálogo com o educador,
investigador crítico, também.
Na medida em que o educador apresenta aos educandos, como objecto de sua

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

220

"ad-miração", o conteúdo, qualquer que ele seja, do estudo a ser feito, "re-ad-mira" a
"ad-miração" que antes fez, na "ad-miração" que fazem os educandos.
Somente o diálogo (...)
Sem ele não há comunicação e sem esta não há verdadeira educação. A que,
operando a superação da contradição educador-educandos, se instaura como situação
gnoseológica, em que os sujeitos incidem seu acto cognoscente sobre o objecto
cognoscível que os mediatiza.
Daí que, para esta concepção de educação como prática da liberdade, a sua
dialogicidade comece, não quando o educador-educando se encontra com os
educandos-educadores em uma situação pedagógica, mas antes, quando aquele se
pergunta em torno do que vai dialogar com estes. Esta inquietação em torno do
conteúdo do diálogo é a inquietação em torno do conteúdo programático da educação.
Para o "educador-bancário", na sua antidialogicidade, a pergunta, obviamente,
não é a propósito do conteúdo do diálogo, que para ele não existe, mas a respeito do
programa sobre o qual dissertará a seus alunos. E a esta pergunta responderá ele mesmo,
organizando seu programa.
Para o educador-educando, dialógico, problematizador, o conteúdo programático
da educação não é uma doação ou uma imposição informes a ser depositado nos
educandos, mas a não devolução organizada, sistematizada e acrescentada aos
indivíduos daquilo a que eles aspiram saber. (*)
A educação autêntica, repitamos, não se faz de "A" para "B" ou de "A" sobre
"B", mas de "A" com "B" mediatizados pelo mundo. Mundo que impressiona e desafia
a uns e a outros, originando visões ou pontos de vista sobre ele. Visões impregnadas de
anseios, de dúvidas, de esperanças ou desesperanças que implicitam temas
significativos, à base dos quais se constituirá o conteúdo programático da educação. Um
dos equívocos de uma concepção ingénua do humanismo, está em que, na ânsia de
corporificar um modelo ideal de "bom homem", se esquece da situação concreta,
existencial, presente, dos homens mesmos.
FREIRE, Paulo, Pedagogia
Afrontamento, Porto, 1975.

do

Oprimido,

Ed.

Consultar na Internet
http://www.paulofreire.org/
http://www.paulofreire.ufpb.br/paulofreire/index.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Freire

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

221

8. Educação e Pedagogia em Portugal, da I República aos nossos dias
8.1. O debate pedagógico no final da Monarquia.
8.2. Educação e pedagogia na I República.
8.2.1. Teorias, temas e problemas em confronto.
8.2.2. As reformas do ensino.
8.2.3. A Escola Nova em Portugal
Resumo:
I REPÚBLICA (1910-1926)

Educação
Educação Pré-escolar
a) A criação legal do "ensino infantil"
b) Os Jardins-Escola João de Deus

Ensino Primário
a) A reformas de 1911 e 1923
b) As Escolas Móveis
c) O Ensino Primário Superior
c) O associativismo do professorado primário

Ensino Secundário
a) As alterações legislativas de 1914
b) As reformas de 1917, 1918, 1919 e 1921

Pedagogia
a) A "educação republicana" de João de Barros
b) Faria de Vasconcelos e a "pedagogia experimental"
c) António Sérgio e Leonardo Coimbra
d) A "Escola Nova" em Portugal

ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
"O homem vale, sobretudo, pela educação que possui, porque só ela é capaz de
desenvolver harmonicamente as suas faculdades, de maneira a elevarem-se-lhe ao
máximo em proveito dele e dos outros. (...) Portugal precisa de fazer cidadãos, essa

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

222

matéria-prima de todas as pátrias, e, por mais alto que se afirme a sua consciência
colectiva, Portugal só pode ser forte e altivo no dia em que, por todos os pontos do seu
território, pulule uma colmeia humana, laboriosa e pacífica, no equilíbrio conjugado da
força dos seus músculos, da seiva do seu cérebro e dos preceitos da sua moral. A
República libertou a criança portuguesa subtraindo-a à influência jesuítica, mas precisa
agora de a emancipar definitivamente de todos os falsos dogmas (...). A máxima que,
neste momento, mais do que nunca, deve presidir à educação infantil cifra-se nestas
palavras: desenvolvimento do carácter pelo exercício permanente da vontade. Ora o
laboratório da educação infantil está, para as camadas populares, sobretudo na escola
primária, e é lá que verdadeiramente se há-de formar a alma da pátria republicana.
[...] E eis porque a República deu tamanha atenção ao problema da instrução primária e
com tanto desvelo distingue, e mais se propõe ainda distinguir, o professor de instrução
primária, que é um grande obreiro da civilização. É que se toma indispensável e urgente
que todo o português da geração que começa, seja um homem, um patriota e um
cidadão." Preâmbulo do Decreto de 29 de Março de 1911
"(...) a República fez da educação e da instrução duas bandeiras de batalha, e
com elas se tem preocupado e ocupado a cada instante. Instruir ! Educar! A todo o
momento os propagandistas lançam estas palavras mágicas para o meio do público. A
todo o momento evocam, por meio delas, um esplendor de civismo e de progresso
intelectual que não existe. a todo o momento ligam a sorte das novas instituições à
vitória das ideias que estas palavras significam! e porque o farão? Porque sentem que,
sem educar e sem instruir as novas gerações, dentro dum critério republicano, que seja
ao mesmo tempo um critério pedagógico, ninguém poderá garantir o futuro da
República e da Pátria. Porque sentem, e porque sabem que à influência depressora de
trezentos anos de educação jesuítica -desnacionalizando, desvirilizando, deprimindo as
almas e os corpos - é indispensabilíssimo opor uma influência de liberdade, de energia,
de vontade, de nacionalização inteligente, e de fortalecimento da nossa sensibilidade
(...). João de Barros
"Sente-se que, durante toda a I República, uma atitude generosa e romântica,
talvez mesmo utópica, esteve presente em muitas decisões, a aposta na dignificação do
homem e na sua promoção moral e social através da educação manifestou-se em
inúmeras situações. Por isso, o combate ao analfabetismo, a difusão da cultura popular
e o empenhamento na educação se transformaram numa bandeira que uniu na actuação
muitos republicanos". Luísa Cortesão
TEXTO
O homem vale, sobretudo, pela educação que possui, porque só ela é capaz de
desenvolver harmonicamente as suas faculdades, de maneira a elevarem-se-lhe ao
máximo em proveito dele e dos outros.
A educação exerce-se, como que automaticamente, durante toda a vida, só com a
diferença de que, na idade adulta, o homem confia a si mesmo a missão de seu próprio
educador, ao passo que, na idade infantil, precisa dum guia, que é conjuntamente a
família e o mestre.
Educar uma sociedade é fazê-la progredir, torná-la um conjunto harmónico e
conjugado das forças individuais, por seu turno desenvolvidas em toda a plenitude. E só
se pode fazer progredir é desenvolver uma sociedade fazendo com que a acção contínua,

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

223

incessante e persistente da educação, atinja o ser humano sob o tríplice aspecto: físico,
intelectual e moral.
Portugal precisa de fazer cidadãos, essa matéria-prima de todas as pátrias, e, por
mais alto que se afirme a sua consciência colectiva, Portugal só pode ser forte e altivo
no dia em que, por todos os pontos do seu território, pulule uma colmeia humana,
laboriosa e pacífica, no equilíbrio conjugado da força dos seus músculos, da seiva do
seu cérebro e dos preceitos da sua moral.
A República libertou a criança portuguesa subtraindo-a à influência jesuítica,
mas precisa agora de a emancipar definitivamente de todos os falsos dogmas, sejam os
de moral ou os de ciência, para que o seu espírito floresça na autonomia regrada, que é a
força das civilizações.
A máxima que, neste momento, mais do que nunca, deve presidir à educação
infantil cifra-se nestas palavras: desenvolvimento do carácter pelo exercício permanente
da vontade.
Ora o laboratório da educação infantil está, para as camadas populares,
sobretudo na escola primária, e é lá que verdadeiramente se há-de formar a alma da
pátria republicana.
A instrução foi sempre um dos principais elementos da educação. Sem instrução
a educação foi, em todos os tempos, deficiente, por falta de equilíbrio no seu significado
mais alto. Seria hoje, nesta época de progresso arrebatado, totalmente impossível. Há
homens duma moral idade excelsa que mal sabem ler, e há criaturas duma grande
cultura de espírito que são moralmente uns celerados. É certo; mas as excepções não
alteram a regra, e só pela instrução segura e experimental o homem pode adquirir o
esteio que há-de firmar o edifício moral da sua alma. A moral moderna é diferente da
antiga. Ela traz, à hora presente, uma porção de revolta tal que o velho mundo de
preconceitos oscila nos seus alicerces seculares. Para a interpretar e seguir é preciso
comparar os sentimentos dos homens, analisar o carácter dos povos e perscrutar os
próprios desígnios da História. E para isso é preciso saber ler, conhecer de maneira
elementar, ao menos, esse alfabeto maravilhoso, onde se estratifica a notícia dos
acontecimentos e se agita a opinião dos homens. O a b c, segundo a velha designação, é
por isso hoje o fundamento lógico do carácter, e, quem o ensina e evangeliza, o guia
supremo da consciência dos povos.
Mas na escola primária não se ministra apenas educação pelo facto de se facultar a
sua base essencial: a instrução. Ministra-se também educação directamente, nas suas
consequências e resultados, fornecendo à criança, pela prelecção, pelo conselho e pelo
exemplo, as noções morais do carácter.
Um relancear de olhos pelo esquema desta lei indica desde logo a feição do ensino
que se vai adoptar em Portugal.
Esse ensino é graduado, concêntrico e metódico, mantendo, numa harmonia
constante, o desenvolvimento orgânico e fisiológico, e o desenvolvimento intelectual e
moral.
Pelas disposições deste decreto, que o respectivo regulamento desenvolverá, a
criança cria, desde a escola infantil, hábitos fortes de energia e pureza, habilitando-se
praticamente para a conquista do pão e da virtude. Ao terminar o seu curso obrigatório,
o jovem português amará, dum amor consciente e raciocinado, a região onde nasceu, a
pátria em que vive, a humanidade a que pertence. Sem dar por isso, o seu espírito
encaminhar-se-á para a verdade, e o amor infinito não é mais do que a verdade suprema.
O amor, sem conhecimento, é a tirania, embora tirania benévola, das almas; é uma
espécie de aurora difusa, que pode deslumbrar os olhos mas não chega a esclarecer a
retina. Mas o amor com o conhecimento das coisas, o amor reflexivo e consciente, é a
liberdade altiva dos espíritos, a luz criadora que tudo alumia e fecunda.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

224

A criança, de hoje para o futuro, conhecerá os rudimentos das artes, da agricultura,
do comércio, da indústria, familiarizando-se, numa educação essencialmente prática,
com a terra e com os utensílios que o homem põe ao serviço da vida.
A criança, enfim, vai ser reintegrada na natureza, não para ficar abandonada às suas
forças tempestuosas, mas para as aproveitar no fim supremo de dar a si própria unidade
moral e aos seus semelhantes solidariedade afectiva.
E eis porque a República deu tamanha atenção ao problema da instrução primária e
com tanto desvelo distingue, e mais se propõe ainda distinguir, o professor de instrução
primária, que é um grande obreiro da civilização.
É que se toma indispensável e urgente que todo o português da geração que começa,
seja um homem, um patriota e um cidadão.
(Preâmbulo do decreto de 29 de Março de 1911 que aprova
a reorganização dos serviços de instrução primária)

(Leituras complementares)
ÁLVARES, Judite, et allii, "Na escola de ontem, na escola de hoje, que leituras? Breve
análise dos manuais de leitura da Iª República, do Estado Novo e período
pós-25 de Abril", Análise Psicológica, 3, Julho 1987, pp. 441-472
BÁRBARA, A. Madeira, Subsídio para o estudo da educação em Portugal da reforma
pombalina à I República, Assírio e Alvim, Lisboa, 1979
CARVALHO, Rómulo de, História do ensino em Portugal desde a fundação da
nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-Caetano, F. C. Gulbenkian,
Lisboa, 1986.
CORTESÃO, Luísa, Escola, sociedade que relação? , Porto, Edições Afrontamento,
1981
FERNANDES, Rogério, A pedagogia portuguesa contemporânea, Instituto de Cultura
Portuguesa, 1979
MONTEIRO, José Rodrigues, e Fernandes, Maria Helena Lopes, A educação e o ensino
no 1º quartel do século XX, Bragança, Escola Superior de .Educação,1985
SERRÃO, Joel," Perspectiva histórica -Estrutura social, ideologias e sistema de ensino",
in TAMEN, M. Isabel, e Manuela Silva, Sistema de ensino em Portugal, F.
C. Gulbenkian, Lisboa, 1981

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

225

8. Educação e Pedagogia em Portugal, da I República aos nossos dias
8.3. Educação e pedagogia na Ditadura Militar e no "Estado Novo".
8.3.1. O debate pedagógico no período da Ditadura Militar e primeiros anos
do regime.
8.3.2. A política educativa do "Estado Novo".
8.3.4. A "primavera" marcelista e a obra do ministro Veiga Simão.

II. DITADURA MILITAR (1926-1933) E "ESTADO NOVO" (1933-1974)

Educação
Educação Pré-escolar
a) Iniciativas na formação especializada dos educadores de infância
b) A criação da Obra das Mães para a Educação Nacional (1936)
c) A extinção do ensino infantil oficial (1937)
d) A educação pré-escolar entregue à iniciativa particular
e) A educação pré-escolar oficial dividido entre o Ministério da Saúde e
Assistência / Ministério dos Assuntos Sociais e o Ministério da Educação
Nacional

Ensino Primário
a) A redução da duração da escolaridade obrigatória
b) A crise do associativismo do professorado primário
c) A criação dos postos de ensino
d) O livro único
e) O Plano dos Centenários
f) O Plano Nacional de Educação de Adultos
g) O aumento da escolaridade obrigatória (1956-1960-1964)

Ensino Secundário
a) O Estatuto do Ensino Secundário de 1931
b) A criação da Mocidade Portuguesa (1936)
c) A Reforma do Ensino Técnico (1947)
d) criação do Ciclo Preparatório do Ensino Secundário e suas três modalidades
e) A "democratização do ensino" e a "Reforma Veiga Simão"
f) O associativismo do professorado

Pedagogia
O debate pedagógico
a) "Instrução"versus "Educação"
b) O analfabetismo `e um problema ?
c) Escola neutra e ensino religioso
d) Coeducação e separação dos sexos
e) A doutrina da escola única
f) O texto programático: "As Bases da Educação Nacional" (1936)

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

226

ANTOLOGIA
(Textos de introdução e sensibilização)
"O salazarismo (...). Nem a democracia nem o desenvolvimento económico
eram coisas positivas; as massas nunca poderiam exercer o poder e a industrialização
continha em si males e perigos. A educação do povo representava um ideal utópico e
demagógico (...)." Maria Filomena Mónica
"Os republicanos orgulhavam-se de ter substituído Deus pelo ABC. O Estado
Novo pretendeu, exactamente com o mesmo zelo, repor Deus no lugar do ABC." Maria
Filomena Mónica
" A visão salazarista da sociedade como uma estrutura hierárquica imutável
conduziu a uma concepção diferente do papel da escola: esta não se destinava a servir
de agência de distribuição profissional ou de defecção do mérito intelectual, mas
sobretudo de aparelho de doutrinação." Maria Filomena Mónica
"[Salazar] Ele era um entre os seus pares, com a particularidade de possuir
qualidades que o alçaram a posições culminantes da vida nacional, mas, mentalmente,
era apenas um deles (...)." Rómulo de Carvalho
TEXTOS
«[...] sabendo ler e escrever, nascem-lhes ambições: querem ir para as cidades
ser marçanos, caixeiros, senhores; querem ir para o Brasil. Aprenderam a ler! Que lêem?
Relações de crimes; noções erradas de política; livros maus; folhetos de propaganda
subversiva. Largam a enxada, desinteressam-se da terra e só têm uma ambição: serem
empregados públicos. Que vantagens foram buscar à escola? Nenhumas. Nada
ganharam. Perderam tudo. Felizes os que esquecem as letras e voltam à enxada. A parte
mais linda, mais forte, e mais saudável da alma portuguesa reside nesses 75 por cento
de analfabetos» Virgínia de Castro e Almeida, 1927
«Uma criança inteligente filha de um operário hábil e honesto, pode na profissão
de seu pai ser um trabalhador exímio, progressivo e apreciado, pode chegar a fazer parte
do escol da sua profissão e assim deve ser. Na mecânica da escola única, seleccionado
pelo professor primário para estudar ciências para as quais o seu espírito não tem a
mesma preparação hereditária que tem para o ofício, não passará nunca de um medíocre
intelectual.» Marcello Caetano, 1928
«Oiço muitas vezes dizer aos homens da minha aldeia: "Gostava que os
pequenos soubessem ler para os tirar da enxada." E eu gostaria bem mais que eles
dissessem: "Gostaria que os pequenos soubessem ler, para poderem tirar melhor
rendimento da enxada."' Precisamos convencer o povo de que a felicidade não se
consegue buscando-a através da vida moderna e dos seus artifícios, mas procurando a
adaptação de cada um às características do ambiente exterior.» Salazar, 1935

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

227

AINDA A ESCOLA ÚNICA
A ideia de obrigar toda a gente a frequentar uma só escola, onde o Estado dá as
leis em harmonia com um critério laico e radical, deve ser energicamente repelida por
perigosa e atentadora dos sagrados direitos da família e da sociedade.
Procura-se assim uma forma mitigada de tirar a educação dos filhos à autoridade
dos pais, por falta de coragem e desassombro para exigir a prática pura e simples do
sistema bolchevista, imitado dos velhos usos pagãos.
Na Rússia as crianças são entregues ao Estado que as educa à sua custa e sob a
sua exclusiva autoridade. E não é outra a aspiração da república dos professores que
hoje em França está instituída, com Herriot na Instrução.
A escola a fazer a selecção dos valores é bem uma ideia própria de um partido de
pedagogos com ambições políticas, do mesmo partido que tem feito a campanha a favor
de co-educação em todas as escolas e de que fazia parte o experimentador do regime nos
colégios internos.
Vamo-nos limitar a umas breves linhas de crítica à escola única, frisando mais
uma vez que se trata de um mito do partido radical francês destinado a manter o ardor
nas hostes e a captar as simpatias nas classes inferiores.
Primeiro que tudo pretende-se com a escola única guerrear o ensino religioso.
Não têm faltado partidários que o declarem e mesmo que assim não fosse não era difícil
descobri-lo. O ódio à Igreja, a campanha do laicismo, estão encobertos sob esta fórmula
inocente de reivindicação pedagógica e igualitária.
Mas o critério dos professores tem outros aspectos condenáveis, mesmo quando
se faça abstracção dessas pechas que enfermam a escola única.
Ocorre deste modo perguntar se os valores marcantes na vida social, na vida
política, na vida literária e científica, têm sido sempre os que a escola primária,
secundária ou superior distinguiu.
Muitas vezes os mestres nem deram pela sua inteligência, ou pelo seu talento, e
os condiscípulos consideraram-nos indivíduos inferiores, sem cotação mental.
Sucede também vir o aluno a revelar-se só num grau superior de ensino, depois
de passar por uma ou duas escolas, onde, por qualquer motivo, não marcou.
E a par disto, também é oportuno perguntar: será a única inteligência valiosa,
considerável e útil à sociedade a que se revela na aptidão para as ciências e para as
letras?
Ainda aqui é evidente que os professores seguem uma opinião errada quando se
deixam ir na corrente predominante, que despreza e inteligência prática em homenagem
à razão especulativa e se recusa a ver nos mesteres, nas ocupações rurais e industriais,
em tudo o que não é profissão liberal, um emprego digno de um homem com faculdades
de compreensão e raciocínio.
Mas não é assim. Uma criança inteligente filha de um operário hábil e honesto
pode, na profissão de seu pai, vir a ser um trabalhador exímio, progressivo e apreciado,
pode chegar a fazer parte do escol da sua profissão, e assim deve ser. Na mecânica da
escola única, seleccionado pelo professor primário para estudar ciências para as quais o
seu espírito não tem a mesma preparação hereditária que tem para o ofício, não passará
nunca de um medíocre intelectual, quando muito um homem sábio mas incapaz de
singrar na vida nova que lhe indicaram sem o ouvir.
Exemplos destes são às dezenas.
Tratando do problema da escola única, Paulo Bourget examina com especial
cuidado este ponto da influência de hereditariedade.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

228

Não é difícil de notar que há geralmente nas famílias uma ascensão da
inteligência prática e recolhida até ao talento fecundo e brilhante. As ideias, as noções,
as experiências vão-se elaborando através umas poucas de gerações até florir, em
determinada altura, na pessoa de um dos membros da linhagem. Depois, regra geral, há
uma queda. O que já fazia dizer a Homero, falando pela boca de Athena, que «poucos
filhos são comparáveis aos pais: a maior parte são piores e poucos são os melhores».
Note-se que na mesma passagem reconhece Homero a hereditariedade quando
diz que em Telémaco permanece a inteligência de Ulisses...
Mas voltando ao assunto: a selecção dos professores iria muito provavelmente
quebrar esse labor da inteligência prática, essa necessária e indispensável contribuição
do bom senso, essa armazenagem de experiências mais úteis no espírito do que estiver
fadado para os altos destinos.
Apresenta Bourget o exemplo de Pasteur. O seu bisavô era trabalhador do
campo, e, segundo se ouve, homem inteligente ­ sem ser intelectual. Provou-o na forma
como conduziu os seus negócios, na educação dos seus oito filhos, no prestígio que no
seu meio adquiriu. Se não fosse o trabalho obscuro do seu espírito, talvez Pasteur não
fosse possível, talvez o génio que havia de surgir daí a duas gerações tivesse abortado.
A gestação duma inteligência superior é trabalho de muitos anos, de séculos até.
Resume-se nela toda a experiência de uma família, concentra-se então tudo quanto
através das idades naquela linha de sucessão se foi acumulando no sub-consciente.
Até aqui os génios têm surgido quase sempre de classes bem humildes, o que
talvez não sucedesse em regime de selecção do Estado, de protecção do Estado, de
alimentação do Estado...
Mudem-se os métodos de educação e dê-se uma orientação mais racional ao
ensino escolar, favorecendo a instrução profissional e a formação de homens úteis e bem
aparelhados para a vida.
O que convém à sociedade, o que convém às Nações, são boas elites em cada
classe, diferenciadas entre si, embora unidas por um mesmo objectivo comum. Formar
uma só elite ­ a dos intelectuais ­ seria uma calamidade, seria até um cataclismo...
Marcello Caetano, A Voz, 26 /1/1928

********************************************
"Temos de nos convencer, de uma vez para sempre, de que o rendimento
nacional está, em larga medida, dependente do nível cultural do povo. [...} não se
concebe um plano de fomento económico que não inclua entre as suas finalidades a
recuperação cultural dos iletrados, ou não seja precedido ou acompanhado de um plano
de educação popular» (subsecretário de Estado da Educação Nacional, 1953)
«Seja como for, a existência de analfabetos, nivelando por baixo a educação
cívica, é um freio ao progresso técnico. E uma das facetas do atraso geral, caracterizado,
nos tempos que vão correndo pela fraca industrialização, diminuta produtividade e
baixo nível de vida» (ministro da Educação Nacional, 1955)

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

229

EDUCAR E INSTRUIR
Saiu aqui, neste jornal, há tempos, um artigo que expunha uma cena opinião
sobre o problema que o título deste nosso artigo formula. Ainda hoje não sabemos quem
o escreveu, nem o caso nos interessa. Concordamos, dum modo geral, com esse artigo,
pois ele, dum modo geral, reproduz o nosso modo de ver há muito tempo exposto -e por
mais duma vez. Numa papeleta provinciana, um velho panfletário, que é também um
panfletário velho, quer à fina força que nós sejamos o autor do artigo aqui publicado há
tempos, e vá, então, de nos alfinetar na sombra as injúrias, os insultos, os nomes feios
que são a manifestação lógica e espontânea do seu próprio carácter. Na sua linguagem
de tarimbeiro, espalha pelos seus artigos umas tantas citações que deixam encantados os
pobres magalas das letras, e nos fazem sorrir de piedade. O ponto central da discussão é
o de saber-se o que seja Educação e Instrução. Claro que não há uma noção dogmática,
infalível, das duas coisas, e se eu não posso impor como indiscutível que a Educação é
uma coisa e a Instrução é outra, também se não me pode impor a mim, à força de
insultos, que a Educação e a Instrução são uma e a mesma coisa.
Tenho dito e repetido que a Educação visa o carácter, e que a Instrução visa a
Inteligência. Tenho dito e repetido que mais vale um carácter puro, bom e são,
ignorante, do que uma Inteligência culta servida por um carácter perverso. Tenho dito e
repetido que o carácter é menos uma função da Inteligência, do que a Inteligência do
carácter. Tenho dito e repetido que é mais fácil a Inteligência corromper o carácter, do
que o carácter dominar a Inteligência. Quer dizer: quanto mais sólido for o carácter,
menos perigosa é a inteligência. O génio não é incompatível com o crime. A Santidade
não é incompatível com a Ignorância. S. Francisco de Assis tinha medo dos Doutos.
Nenhum Doutor teve medo dos santos. Através da história, a cultura intelectual dos
homens tem aumentado; o seu carácter tem enfraquecido. E concluí, um dia, que o povo
português, para a educação que possui, já tem instrução que chega, ou em excesso. Isto
não é pregar o analfabetismo: é dizer muito simplesmente que se querem alargar ou
intensificar mais a instrução deste povo comecem, primeiro, por aperfeiçoar a sua
educação.
Educar, instruir...
Para nós, são coisas diferentes.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

230

Não há insultos, injúrias, nomes feios e velhacarias que me convençam do
contrário, porque ainda ninguém me mostrou o poder apodítico dessas coisas tremendas.
E postas todas elas no prato duma balança, uma definição só, formulada por quem tenha
autoridade na matéria, tem, para mim, mais peso, e portanto, colocada no outro prato,
fá-lo descer.
Littré ­ uma besta! ­ diz isto, no seu notável Dictionnaire de la Langue
Française, vol. II, pag. 1303: «A instrução é relativa ao espírito, e entende-se dos
conhecimentos que se adquirem, e por meio dos quais nos tomamos hábeis ou sábios. A
educação é relativa, ao mesmo tempo, ao coração e ao espírito, e entende-se não só dos
conhecimentos que se fazem adquirir, mas também das direcções morais que se dão aos
sentimentos.
Para Littré, vê-se que a Instrução é uma coisa, e que a Educação pode abranger a
Instrução.
Mas é a Filosofia que nos pode fornecer o conceito-norma.
O Vocabulaire Téchnique et Critique de la Philosophie, publicação da Societé
Française de Philosophie, saído há um ano, diz, no seu vol. I pag. 384: «Instrução ­
Acção de comunicar, a outrem, conhecimentos; opõe-se a Educação, que se aplica
principalmente ao desenvolvimento dos hábitos de conduta, do carácter e da
moralidade».
Basta reflectir um pouco na origem etimológica dos dois termos, para se
apreciarem os seus elementos diferenciais.
Educar vem do latim, educare, o qual vem de e-ducere, conduzir.
Instuir vem de instruere, construir.
Não há ninguém que não saiba que um homem instruído não é o mesmo que um
homem educado. Posso ser um hábil engenheiro, e ser um péssimo cidadão. Posso, por
outro lado, ser um homem admirável como carácter, e ignorante absoluto. São, portanto,
coisas bem diversas ­ a Educação e a Instrução.
Uma óptima educação com uma alta instrução é o ideal. O Santo e o Génio. Mas
mais vale, para o mundo, um mundo de Santos Ignorantes, simplices et idiotae, como se
dizia antigamente, do que um mundo de santos sem carácter. «Mellor est profecto
humilis Rusticus, qui Deo Servit, lê-se na Imitatione Christi (liber I, cap. II 2) quam
superbus philosophus qui se neglecto cursum docti considerat».
Quando Victor Hugo proclamou que abrir uma escola era fechar uma cadeia
disse uma destas tolices de que só os homens como Victor Hugo são capazes. Abrir uma
escola, agora, não é fechar uma cadela: é abrir dez cadeias. Com os professores
primários filiados no comunismo, o problema da Instrução torna-se, em Portugal como
na França, alguma coisa de melindroso. Quero que se dê como base à Instrução, a
Educação. Como em Portugal se está num caminho de deseducação progressiva,
consequência, até certo ponto, da Instrução progressiva, preconizo que se repare mais na
necessidade da Educação do que na da Instrução.
E digo: este povo, para o que sente, já sabe demais. Intensifique-se a educação
religiosa; proteja-se a instituição doméstica; olhe-se a sério pelo estado dos costumes
deste povo ­ forme-se o carácter conveniente e, depois, voltamos à Instrução. O Padre
Cruz faz mais, num dia, pelo bem de Portugal, do que os mestres primários todos juntos
num ano. Ele não ensina a ler e a escrever: educa almas; arranca corações à perversidade
­ e quem sabe quantos lá foram lançados pela acção do A B C !
O homem que me insulta ­ atribuindo-me, aliás, um escrito que não é meu
(instrução, sem educação) ­ insurgia-se outro dia contra a Imprensa que relatava
minuciosamente o julgamento de Augusto Gomes. Ora essa! Não entendo. Se o saber
ler e escrever é preferível à ignorância e não é prejudicial ­ que mal faz que a Imprensa
conte aquelas escabrosidades todas? Que nós nos aflijamos, está bem, porque dizemos

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

231

que a Instrução sem Educação é um perigo; mas aqueles que dizem que não, porque
temem a acção da Imprensa? Foi o querer saber que fez o homem pecar... Insisto: não
preconizo o analfabetismo sistemático; digo que a Instrução é um instrumento perigoso
que não pode andar em todas as mãos. Como um explosivo. Como um veneno. Só num
carácter são ela é útil, ou, pelo menos, inofensiva.
A um carácter perverso não o modifica; e se o modifica, é para pior. O mal
ignorante é bruto; o mal instruído é hábil. Os efeitos do primeiro são mais limitados do
que os do segundo.
Alfredo Pimenta, A Voz, 25/12/1927

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

232

MINISTÉRIO DA INSTRUÇÃO PÚBLICA
Secretaria Geral
Decreto nº 21.014
É de manifesto interesse pedagógico proporcionar à
leitura das populações escolares ensinamentos de ordem moral
e patriótica, contidos em frases curtas, fáceis de compreender e
reter;
Convindo porém salvaguardar o critério de escolha das
referidas frases;
Usando da faculdade que me confere o nº 2º do artigo 2º
do decreto nº 12.740, de 26 de Novembro de 1926, por força do
disposto no artigo 1º do decreto nº 15.331, de 9 de Abril de
1928, sob proposta do Ministro da Instrução Pública:
Hei por bem decretar o seguinte:
Artigo 1º É obrigatória a inserção nos livros de leitura
adoptados oficialmente, dos excerptos publicados em anexo ao
presente decreto.
§ único. A obrigação respeita aos livros que de
futuroforem adoptados e a novas edições dos que já o estiverem
nesta data.
O Ministro da Instrução Pública assim o tenha entendido e
faça executar. Paços do Governo da República, 19 de Março de
1932 ­ ANTÓNIO ÓSCAR DE FRAGOSO CARMONA ­
Gustavo Cordeiro Ramos

Relação das frases a que se refere o Decreto nº 21.014
Para os livros de leitura da 4ª classe do ensino primário elementar
Obedece e saberás mandar.
Honra em tudo e por tudo teu Pai e tua Mãe.
Na família, o chefe é o Pai; na escola, o chefe é o Mestre; no Estado, o chefe é o
Governo.
Mandar não é escravizar: é dirigir. Quanto mais fácil for a obediência, mais suave é o
mando.
No barulho ninguém se entende, é por isso que na revolução ninguém se respeita.
Para chegares ao teu fim não acotoveles ninguém: ai dos que vencem à custa da
amargura dos outros.
A tua Pátria é a mais linda de todas as Pátrias: merece todos os teus sacrifícios.
Estuda e faz-te homem, para poderes ter opinião que os outros oiçam.
Não te envaideças do que sabes, mas repara sempre no que fazes.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

233

Escola do paraíso

Tem sido um êxito editorial. A mim, ofereceram-mo no Natal. Chama-se Livro
de Leitura da 3ª Classe e relê-lo é uma ordália. Põe à prova as nossas convicções,
como o bacalhau com couves na noite de Natal o nosso progressismo. Só que o
bacalhau deixou de constituir questão central da Nação desde que encareceu demais
para ser agasalho dos pobres. A 3ª Classe, essa, foi a grande aposta das repúblicas
passadas (a I e a II). Exclamava-se até: «Tem a 3ª Classe!»
Era quando Afonso Costa bramava que o sufrágio universal ¯ o voto dos
analfabetos ¯ seria o fim da República. E, se Afonso Costa assim. se indignava contra o
voto não instruído, é que a Escola fora concebida como dispositivo total de propaganda.
Pela criança se «civilizava» a família, se semeavam as famílias do amanhã.
Nisso, como em muitas coisas, o Estado Novo continuou a I República. Tão
nacionalista como ela, tão inflexivelmente seguro dos seus valores, foi apenas mais
eficiente ¯ tanto mais quanto soube agregar a si o catecismo e os padres. O programa
essencial era o mesmo: formar, moldar o espírito da criança nesses anos cruciais.
Cantava-se o Hino republicano (e algumas coisas piores como uma inenarrável
«Moleirinha, toc, toc, toc» saída das penas mais cambadas de Guerra Junqueiro).
Faziam-se redacções, donde se expurgavam implacavelmente expressões como «era
quando» (vide supra) e em que se valorizava o uso de adjectivos corno «luxuriosa» (em
Lisboa, dizia-se da vegetação de Sintra).
Não havia texto de leitura que não se pavoneasse impante de orações
subordinadas ¯ e relativas, de preferência começadas por «cujo». Amesquinhava-se a
capacidade criativa das crianças, e vendiam-se-lhes, desprevenidas, em nota de rodapé,
frases do género «Se soubesses quanto custa mandar, quererias toda a vida obedecer».
Mas ficavam com um cheirinho de que havia monumentos, o que era Alcobaça e
a Batalha e o castelo de S. Jorge. O que fez Deuladeu Martins e a Rainha Santa.
Aljubarrota e a Restauração. E a conhecer algumas versões do Romanceiro: «Ai triste
de mim coitada / Ai triste de mim mofina / Mandei buscar uma escrava / E trazem-me
uma irmã minha».
Podiam ficar, por azar, estadonovistas convictos (basta olhar em volta para ver
que não foram tantos assim). Mas saíam, em todo o caso, com a noção dum território e
dum passado, com a ideia dum dos possíveis sentidos de «luxuriosa» e capazes de ler
um texto de jornal sem se assustarem com a existência de orações subordinadas. E com
uma ideia de religião, mesmo que, como Alçada Baptista contava, pensassem que o
Deus incarnado era encarnado. É esta a ordália: detestar o Regime, mas sentir o vazio

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

234

duma Ideia que o tenha substituído, dum valor que forme na democracia e na tolerância
como o Livro de Leitura formava no culto dos heróis de outrora, reinventados de
fresco, e no encanto por uma sociedade de vindimas leves e mondas alegres, que afinal
nunca existiu. Como, nunca existiu a escola paradisíaca de pés descalços e sentimentos
altaneiros, nem nos edificios repetitivos das repúblicas nem nas ruas da Alfama de
Rodrigues Miguéis.
De António Sérgio a António José Saraiva, a Oposição, mais democrática ou
mais estalinista, sempre autoritária, pensou a educação como a grande aposta do futuro,
penhor de coesão nacional e de progresso. Algures, entre Veiga Simão e Sottomayor
Cardia, entre os cravos de Abril e a CEE de Janeiro, perdeu-se o rumo ¯ e o consenso
nacional que essa educação dirigista produzira durante sessenta anos. A escola deixou
de reproduzir activamente os «valores de classe»: deixou de ser um mecanismo,
limitado embora, de capilaridade social, para se transformar num reprodutor passivo dos
abismos sociais.
Não existe, creio, falácia mais hipócrita e mais convencida de si que a daqueles
paizinhos liberais que não dão educação religiosa aos filhos porque não querem
interferir na sua liberdade de escolha quando forem grandes. Como se a ausência de
educação religiosa não fosse uma educação em matéria de religião, e como se a pessoa
só começasse com os primeiros calores da puberdade. O nosso regime democracento vai
pelo mesmo: à força de não querer interferir nas consciências, deixa-as sem o mínimo
valor que lhes sirva de critério de escolha. Em abono se diga que é mais por preguiça
que por vontade.
R. R.
(Expresso, Sábado, 8 de Janeiro de 1994)

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

235

A cantina escolar
- Gostei tanto de ir hoje à escola, minha mãe! A senhora
professora estava muito contente, porquc inaugurou uma cantina,
onde os meninos pobres podem almoçar de graça. Se visse,
Mãezinha! As mesas muito asseadas, os pratos branquinhos, jarras
floridas e tudo tão alegre!
A sopa cheirava que era um regalo: e todos nós estávamos
satisfeitos ao ver os pobrezinhos matar a fome.
O filho do carpinteiro, a quem eu às vezes dava da minha
merenda, de vez em quando ria-se para nós, como que a dizer:
- Está óptima a sopinha!
Perguntei à senhora professora quem tinha feito tanto bem à
nossa escola e ela respondeu-me:
- Foi o Estado Novo, que gosta muito das crianças e para
elas tem mandado fazer escolas e cantinas, creches e parques.
Mas as famílias que possam também devem ajudar. Não te
esqueças de o dizer à tua mãe.

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

236

BIBLIOGRAFIA
(Leituras complementares)
ÁLVARES, Judite, et allii, "Na escola de ontem, na escola de hoje, que leituras? Breve
análise dos manuais de leitura da Iª República, do Estado Novo e período
pós-25 de Abril", Análise Psicológica, 3, Julho 1987, pp. 441-472
BÍVAR, Maria de Fátima, Ensino primário e ideologia, Lisboa, Seara Nova, 1975
CARVALHO, Rómulo de, História do ensino em Portugal desde a fundação da
nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-Caetano, F. C. Gulbenkian,
Lisboa, 1986.
CORTESÃO, Luísa, Escola, sociedade que relação?, Porto, Edições Afrontamento,
1981
FERNANDES, Rogério, A pedagogia portuguesa contemporânea, Instituto de Cultura
Portuguesa, 1979
MÓNICA, Maria Filomena, Educação e sociedade no Portugal de Salazar, Lisboa,
Editorial Presença, 1978
SERRÃO, Joel," Perspectiva histórica -Estrutura social, ideologias e sistema de ensino",
in TAMEN, M. Isabel, e Manuela Silva, Sistema de ensino em Portugal, F.
C. Gulbenkian, Lisboa, 1981

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007

237

8. Educação e Pedagogia em Portugal, da I República aos nossos dias
8.4. Do 25 de Abril de 1974 à Lei de Bases do Sistema Educativo.
8.5. A "Reforma Educativa".
Resumo:
III. DO 25 DE ABRIL DE 1974 À LEI DE BASES DO SISTEMA EDUCATIVO
(1974-1986)

Educação
Educação Pré-escolar
a) A reposição legal do "sistema público de educação pré-escolar" (1977)
b) A progressiva concentração da educação pré-escolar no Ministério da
Educação
- O crescimento lento da rede nacional de educação pré-escolar

Ensino Primário
a) Os novos Programas do Ensino Primário
b) O regime de fases
c) Estratégias de combate ao insucesso escolar

Ensino Secundário
a) A criação do Ensino Secundário Unificado (1975)
b) O acrescento de um ano terminal ao Ensino Secundário (1975)
c) Os Cursos Complementares de via única (1978) e a criação do Ensino
Técnico-Profissional (19839

Pedagogia
a) Os problemas do Insucesso Escolar e do Sucesso Educativo
b) Polémica em torno da unificação do Ensino Secundário

Casimiro Amado, História da Pedagogia e da Educação ­ Guião para acompanhamento das aulas, Univ. de Évora 2007