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JORNAL DA UNICAMP Campinas, 28 de setembro a 4 de outubro de 2009
Independência
ou Morte, obra de
Pedro Américo:
para Varnhagen,
a transição da
Colônia para
Império teria
ocorrido sem
rupturas

O Brasil `inventado' por Varnhagen
Historiador
aponta viés
etnocêntrico
no conjunto
da obra do
Visconde de
Porto Seguro
MANUEL ALVES FILHO
[email protected]

E

m seu livro História e Historiografia: Brasil pós-1964, o
professor José Roberto do Ama
ral Lapa, criador do Centro de
Memória da Unicamp (CMU),
registrou que "a história, como outras áreas
do saber na área de Ciências Humanas, é
muito sujeita aos ventos que sopram de lati
tudes as mais diferentes". Em outros termos,
o tarimbado historiador, que viria a falecer
em junho de 2000, aos 70 anos, alertava o
leitor para o fato de não haver uma verda
de única no que toca ao relato histórico.
Orientado por esta referência, entre outras,
o historiador Renilson Rosa Ribeiro decidiu
investigar em sua tese de doutoramento,
apresentada recentemente no Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da
Unicamp, como foram construídas as repre
sentações discursivas que acabaram por for
jar um tipo de memória oficial para o Brasil.
Do trabalho, orientado pelo professor Paulo
Miceli, emergiu a figura de Francisco Adol
fo de Varnhagen, mais conhecido como
Visconde de Porto Seguro. "Ele foi um dos
maiores artífices de uma visão histórica que
perdura até hoje, tanto nos livros didáticos
quanto no imaginário nacional", afirma.
O interesse de Ribeiro pelo tema remon
ta à sua dissertação de mestrado, quando
analisou o discurso de raça presente nos
manuais escolares produzidos no final
do século 19 e ao longo do século 20.
Durante a investigação, ele deparou com
a recorrência de temas quando os autores
se dedicavam a pensar a história do Brasil.
"Nas obras que tomei para análise, o perío
do colonial sempre era apresentado, com
maior ou menor destaque, como a semente
da nação. Isso me levou a querer investi
gar, com a orientação do professor Paulo
Miceli, como esse discurso, que normal
mente é apresentado como algo natural, foi
construído ao longo do tempo", explica.
A pesquisa de Ribeiro concentrou-se na
produção do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro (IHGB), fundado em 1838 com
o objetivo de "forjar uma memória para a
nação brasileira", que acabara de conquistar
a sua independência. Ao analisar os temas,

documentos e personagens vinculados ao
instituto, o historiador elegeu como objeto
principal de investigação a Revista do
IHGB, que circula até hoje e cujo primeiro
número foi editado em 1839. "Durante o
trabalho de prospecção, percebemos que um
personagem apresentava-se como emblemá
tico em relação ao tema do nosso interesse,
que vinha a ser Francisco Adolfo de Varnha
gen, o Visconde de Porto Seguro", relata.
Embora tenha nascido na região de
Sorocaba, interior de São Paulo, em 1816,
Varnhagen viveu durante muitos anos fora
do Brasil, sobretudo em Portugal, Espanha
e Áustria-Hungria. Ele somente teve reco
nhecida a sua nacionalidade brasileira na
década de 40 daquele século por meio de
um decreto imperial. "Depois que obteve
a cidadania brasileira, Varnhagen foi in
corporado à diplomacia nacional, servindo
em Portugal e na Espanha. Além disso,
por desenvolver pesquisas históricas, foi
convidado a integrar o IHGB, onde deu
início a uma série de trabalhos. Uma das
missões assumidas por ele foi realizar um
levantamento nos arquivos europeus sobre
o Brasil Colonial, de modo a produzir uma
memória nacional. O objetivo final era com
pilar, sistematizar, organizar, arquivar e, por
último, publicar as informações obtidas,
principalmente nas páginas da Revista do
IHGB", informa Ribeiro.
Tais pesquisas, prossegue o autor da tese,
forneceram subsídios para que Varnhagen
escrevesse mais tarde a sua mais importante
obra, História Geral do Brasil, publicada
em dois tomos (1854 e 1857) e considerada
uma espécie de livro-monumento. "Nessa
obra, Varnhagen apresenta uma proposta
de narrativa da história do Brasil, que tem
como cenário principal a atuação dos portu
gueses na formação da Colônia. Na narrati
va, ele registra que a transição do Brasil Co
lonial para o Brasil Imperial teria ocorrido
de forma tranqüila, sem rupturas. Também
valoriza o legado português, deixando em
plano secundário as figuras do índio e do
negro, num posicionamento com profundo
viés etnocêntrico", afirma o historiador.
A partir da publicação de História Geral
do Brasil, Varnhagen lançou-se no esforço
para fazer com que a obra fosse aceita como
uma produção oficial do IHGB. Para isso,
recorreu até mesmo a Dom Pedro II, a quem
pediu apoio. A despeito do seu empenho, o
livro foi recebido com profundo silêncio
pelos seus pares, e o instituto acabou por
não acolhê-lo. "Tal recusa o deixou ex
tremamente indignado e lhe valeu vários
ataques por parte dos autores românticos
e indigenistas que também integravam o
IHGB", diz Ribeiro. Mesmo não desfrutan
do do reconhecimento almejado entre seus
pares, Varnhagen, que recebeu o título de
nobreza somente no final da vida, foi alça
do, após sua morte, como um historiador
símbolo do instituto.
Essa nova condição, infere o autor da

Fotos: Reprodução/Divulgação

Francisco Adolfo de Varnhagen,
o Visconde de Porto Seguro:
valorização do legado português

tese, certamente deve ter contribuído para
que o Brasil "inventado" pelo Visconde
de Porto Seguro ganhasse crédito e longe
vidade. Nesse processo de construção da
memória nacional, reforça o pesquisador,
Varnhagen trabalhou com enredos temáti
cos encadeados cronologicamente. Assim,
nos seus escritos, as origens do Brasil re
montam à época do Descobrimento. É como
se a história do Brasil não existisse antes da
chegada dos portugueses. Na sequência, o
autor de História Geral do Brasil considera
a formação do povo, por meio da integração
entre negros, índios e brancos. Neste caso,
a herança portuguesa se sobrepunha às de
mais. "No livro, Varnhagen também traba
lha com um mito fundador, este relacionado
à invasão holandesa. Na visão dele, a união
das três raças para expulsar os elementos
estrangeiros teria sido o primeiro sinal de
nacionalidade", esclarece o pesquisador.
A abordagem cronológica desemboca,
enfim, no que o autor da tese de doutorado
classificou de "elos de continuidade", que
teriam sido forjados, no entender de Var
nhagen, na transição sem conflitos entre
o período Colonial e o Imperial. "Esses
enredos temáticos constituíram um modelo
de cronologia que se tornou constante nos
manuais e livros didáticos de História do
Brasil elaborados a partir da segunda meta
de do século 19 e ao longo do século 20. Se
consultarmos as obras de autores do naipe
de João Ribeiro, João Pandiá Calógeras,
Pedro Calmon, Vicente Tapajós, Boris Fur
tado, entre outros, será possível identificar
a presença da grade cronológica temática
esboçada por Varnhagen, ainda que inserida
em abordagens teóricas, metodológicas e
ideológicas distintas".
A mesma visão histórica, acrescenta
Ribeiro, costuma passear pelas falas de im
portantes personagens da atualidade, bem
como pelos enredos de obras televisivas e

O historiador Renilson Rosa Ribeiro: "Enredos temáticos
constituíram um modelo de cronologia que se tornou
constante nos manuais e livros didáticos"

cinematográficas. Um exemplo do uso atual
de elementos presentes na construção his
tórica de Varnhagen, ressalta o historiador,
pode ser encontrado no discurso do presi
dente Luiz Inácio Lula da Silva por ocasião
do anúncio da descoberta de uma gigantesca
reserva de petróleo na camada pré-sal. Lula
afirmou que os recursos que serão gerados
pelo combustível fóssil significarão "a nova
independência do Brasil". "Quando assis
timos a produções como Carlota Joaquina,
no cinema, ou Caramuru, na televisão,
também podemos identificar traços claros
da ideia da Colônia como berço do Brasil
independente", analisa.
Retornando à frase do professor Amaral
Lapa, que abre este texto e que também
está consignada na tese de Ribeiro, convém
situar a produção de Varnhagen no espaço e
no tempo, como adverte o pesquisador. Ele
pontua que, como qualquer historiador, o
Visconde de Porto Seguro identificava-se
com questões da sua época. "Isso implica
trazer o historiador-diplomata para o inte
rior dos debates travados naquele período
acerca do fazer histórico, como objetivos,
procedimentos e compromissos", detalha.
Desse modo, entende Ribeiro, Varnhagen
não pode ser considerado um mero reflexo
de um projeto político, mas sim um parti
cipante deste, na medida em que elaborou
suas leituras e interpretações do passado
pelas vivências e limites do seu tempo. "Em
outros termos, a narrativa da nação de Var
nhagen está permeada pelos termos de seu
lugar social e das práticas de seu ofício. E
foi neste espaço que ele interagiu e elaborou
sua obra". E completa: "Não se pode querer,
portanto, definir pretensiosamente por meio
de Varnhagen como o Brasil oitocentista
pensava o passado e o papel do historiador.
Sua obra não é uma janela aberta para toda
uma época, mas ela ajuda a compreender um
dos possíveis ângulos do seu tempo".