HISTÓRIA
CONTEMPORÂNEA

Autor
Dennison de Oliveira

2009
Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

© 2007 ­ IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor
dos direitos autorais.

O48

Oliveira, Dennison de. / História Contemporânea. / Dennison
de Oliveira. -- Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2009.
104 p.

ISBN: 978-85-7638-747-3

1. História contemporânea. 2. Relações internacionais. 3. Globalização. 4. Economia I. Título.
CDD 909.8

Todos os direitos reservados.
IESDE Brasil S.A.
Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482 · Batel
80730-200 · Curitiba · PR
www.iesde.com.br

Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

Sumário
Introdução: o mundo ao alvorecer do século XX | 9
A predominância da Europa | 9
Os EUA, a Alemanha e o Japão como potências emergentes | 10
A Segunda Revolução Industrial | 11
O imperialismo | 12
As forças da tradição e da transformação | 14

Primeira Guerra Mundial | 17
A política de alianças e as causas imediatas da guerra | 17
O impasse militar: a guerra de trincheiras | 18
As novas tecnologias e a guerra no ar e no mar | 19
O desfecho da guerra | 20
Conseqüências do conflito | 21

Revoluções socialistas e movimento operário | 25
Os vários socialismos e suas origens | 25
O movimento operário | 26
A Revolução Russa | 28
Outras revoluções socialistas | 29
A social-democracia | 30

Modelos econômicos: o desenvolvimento do capitalismo | 33
O taylorismo e o fordismo | 33
A urbanização | 35
A divisão internacional do trabalho | 37
A crise de 1929 e as relações internacionais | 37

Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

Modelos econômicos: o desenvolvimento do comunismo | 41
A nova sociedade socialista | 41
A planificação e seus objetivos | 42
A industrialização, urbanização e educação | 43
A coletivização e o fim da propriedade privada | 44
Economia, política e sociedade sob a ordem comunista | 45

Segunda Guerra Mundial | 47
A ascensão do nazifascismo e do militarismo japonês | 47
A mundialização do conflito | 48
As novas tecnologias: a guerra no ar e no mar | 50
O desfecho da guerra | 51
Conseqüências do conflito | 53

Guerra Fria e bipolarização | 57
Origens da Guerra Fria | 57
A bipolarização e as superpotências | 58
As guerras localizadas e a bipolarização | 60
A Guerra Fria, a descolonização e o Terceiro Mundo | 61
O fim da Guerra Fria | 63

Socialismo: seus limites e possibilidades | 65
A economia planificada e seus êxitos | 65
As limitações do planejamento centralizado e suas manifestações | 66
As reações do autoritarismo soviético | 68
A era da "estagnação" | 69
O fim do socialismo | 70

Capitalismo: suas crises e superações | 73
O estado do bem estar social (welfare state) e o keynesianismo | 73
O fordismo como projeto de sociedade | 75
As tensões e contradições do fordismo e do welfare state | 76
Os excluídos do sistema e suas manifestações | 77
O declínio e crise do fordismo e do keynesianismo | 78

Neoliberalismo, globalização e mundialização do capital no final do século XX | 81
O choque do petróleo e suas implicações | 81
A nova sociedade capitalista: a "acumulação flexível" | 82
O "Estado mínimo" | 83
O neoliberalismo e suas bases sociais e culturais de apoio | 84
O fim do socialismo, o desenvolvimento das comunicações e a era da globalização | 85

Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

Terrorismo, guerras e conflitos | 87
Historicidade do terrorismo | 87
A questão palestina e o terrorismo | 88
As guerras árabe-israelenses | 89
Os grupos terroristas nos países do Primeiro Mundo | 90
As guerras no Iraque e Afeganistão | 91

Economia e sociedade no século XXI | 95
O fim da política | 95
Os EUA como única super potência | 96
A ascensão da China | 97
O aquecimento global e os problemas ambientais | 98
A questão demográfica | 99

Referências | 101
Anotações | 103

Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

Apresentação
Prezados alunos,
Este livro refere-se à História Geral e abrange os séculos XX e XXI. Nele, estão
contidos os principais eventos, tendências e instituições que mais influência
exerceram sobre a conformação da sociedade na qual vivemos. Por se tratar
de uma síntese, espera-se que ele sirva como material de introdução ao estudo
da História Contemporânea e também como guia para aprofundamento dos
assuntos aqui tratados.
Pretende-se que o texto de cada capítulo seja inteligível em si mesmo.
Contudo, é indispensável não perder de vista que tanto o viver social quanto
o tempo histórico são um todo contínuo e indivisível e, se o dividimos
formalmente, é apenas para fins de estudo. O leitor deve atentar para as
diferentes durações dos fenômenos históricos e sociológicos aqui descritos, as
quais recorrentemente transcendem o conteúdo abarcado em cada capítulo.
Além disso, é indispensável não perder de vista que a disciplina de História
exige um constante exercício de erudição. É necessário, tanto quanto possível
e, na medida dos interesses de cada um, ler as obras completas, confrontar
os originais com as diferentes leituras que deles são feitas e tentar se manter
atualizado com os contínuos avanços da ciência da História. Como qualquer
outro campo do conhecimento, a História está em constante evolução no que
se refere à elaboração de novas interpretações e à descoberta de novas fontes
e registros.
Mais do que um conjunto de informações e conteúdos, a História é um
método de entendimento e interpretação da realidade. A História não é e nem
pretende ser apenas e tão-somente o estudo do que já se passou, ou o estudo do

Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

passado. O que se pretende com este livro é contribuir para que o leitor desenvolva
uma forma de pensar historicamente o processo de constituição da sociedade na
qual vive e, desta forma, possa aperfeiçoar o entendimento dos fenômenos que lhe
são contemporâneos.

Dennison de Oliveira

Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

Introdução: o mundo ao
alvorecer do século XX
A predominância da Europa
O período imediatamente anterior à Primeira Guerra Mundial (1914-1918) é recorrentemente
descrito como sendo o do auge da predominância da Europa sobre o resto do mundo. Essa situação
pode ser aferida a partir do exame de algumas variáveis, como o tamanho da sua população, seu poder industrial, comercial, financeiro e o papel que diversos países do continente exerciam na prática
do imperialismo.
Em 1913, a Europa contava com uma população de 460 milhões de indivíduos, o que representava 26% dos habitantes do planeta. Além de enorme, essa população aumentava continuamente, sendo
os maiores crescimentos registrados nos grandes impérios da Europa Central: o russo (que aumentava
em dois milhões de indivíduos a cada ano) e o alemão (mais 850 000 novos habitantes a cada ano). Além
do expressivo crescimento demográfico da Europa, o continente também era perfeitamente capaz de
contribuir, por meio da emigração, para o aumento da população dos novos países da Oceania e das
Américas, que estavam em processo de colonização. Somente naquele ano, 400 000 italianos e 450 000
britânicos abandonaram a Europa rumo a países como Austrália, Argentina, Brasil, EUA etc.
Tendo sido o local de nascimento da Revolução Industrial (1760), a Europa, ainda no início do século XX concentra a maior parte do total das exportações mundiais de produtos industrializados (62%).
Em contrapartida, é a maior importadora de alimentos, combustíveis e matérias-primas. Nos países mais
desenvolvidos como a Grã-Bretanha, a Alemanha e a França, estes produtos compõem entre 75% e 80%
das suas importações. Também é na Europa, em especial na cidade de Londres, que se concentram a
quase totalidade dos serviços financeiros de alcance mundial. Por exemplo, a contratação de fretes marítimos, seguros navais, empréstimos internacionais, lançamentos de ações e constituição de novas firmas de alcance global são feitas quase que totalmente em algumas poucas cidades da Europa: Londres,
Amsterdã, Antuérpia, Berlim e Paris.
Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

10

|

História Contemporânea

O volume de capitais investidos em países estrangeiros também é um indicador da preponderância econômica e financeira da Europa. Do total de recursos investidos no exterior, 45% provém da GrãBretanha, 25% da França e 13% da Alemanha, em contraste com os EUA, responsáveis por apenas 5% do
total. Além disso, o papel dos EUA como praça financeira tem um alcance restrito. Seus bancos e instituições financiadoras não tem atuação global, limitando-se à operações apenas nas Américas.
E ainda, o papel central desempenhado pela Europa nas relações internacionais é realçado pelo
fato do continente ser sede das principais potências imperialistas. O maior destes impérios da época ­
ou de qualquer outra ­ sem dúvida era o britânico. Mas os impérios francês, russo, austro-húngaro, italiano e alemão também eram de enorme importância. Quase todos eles foram capazes de incorporar à
sua administração extensas áreas na África, na Ásia e na Oceania, fazendo com que as questões relacionadas a essas regiões fossem discutidas e decididas em conferências e congressos na Europa. Esse aspecto talvez seja o que melhor evidencia o papel central da Europa nas relações internacionais antes da
Primeira Guerra Mundial.
Finalmente, cabe mencionar o papel da Europa enquanto centro de desenvolvimento e disseminação de novas tendências artísticas e culturais. Data dessa época o auge da influência da Europa
nessas esferas de atividade humanas, constituindo-se em referência na pintura, na literatura, no
cinema etc.

Os EUA, a Alemanha e o Japão como potências emergentes
O início do século XX é marcado por uma nova etapa na história da industrialização, cuja característica principal é a disseminação dos processos industriais, quebrando o monopólio que a GrãBretanha exercia até então. Agora, ao lado dos britânicos, vários outros países, em ambos os lados do
Atlântico norte, disputavam entre si o mercado mundial de produtos industrializados. Destes, os mais
importantes são os EUA, a Alemanha e, secundariamente, a França, a Bélgica e a Holanda. Pouco tempo
depois, o Japão também se lançou na competição industrial e, subseqüentemente, militar, com as nações mais desenvolvidas.
A disseminação da industrialização decorreu, na maior parte, da busca de novas oportunidades
de lucro e de investimento britânicos. Ao longo de todo o século XIX, os britânicos ­ que já dominavam
o mercado mundial de bens de consumo ­ transformaram-se numa grande nação exportadora de bens
de capital1, vendendo ferrovias, máquinas para mineração, locomotivas, navios a vapor etc. para todo o
mundo. Simultaneamente, investiam nos países da Europa e dos EUA, financiando por meio de empréstimos a aquisição destes bens ou se associando aos empreendimentos locais na área de transportes, indústria, mineração, serviços públicos etc.
Em ambos os lados do Atlântico norte havia áreas propícias à industrialização que, se inicialmente se constituíam em mercados para os produtos britânicos, logo se converteram em seus concorrentes.
Destas, as mais notáveis eram os EUA e a Alemanha. Ambos os países tinham populações enormes, em
rápido processo de crescimento, constituindo-se em mercados internos interessantes para os empresários industriais locais explorarem. Gradualmente, tornou-se disponível uma extensa rede de transportes
1 Bens de capital são aqueles empregados no processo produtivo, como equipamentos e máquinas, em oposição aos de consumo final, ou
de consumo.
Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

Introdução: o mundo ao alvorecer do século XX

| 11

a vapor, marítimos e terrestres, fazendo com que a produção e a distribuição de mercadorias fosse muito fácil e lucrativa. Além de que ­ e isso é particularmente notável no caso alemão ­ ambos países contavam com uma população com níveis baixos de analfabetismo e alto nível de instrução formal, o que
favorecia e sustentava o aperfeiçoamento do processo produtivo e a busca de níveis cada vez mais altos de produtividade.
Finalmente, a imposição de tarifas protecionistas destinadas à taxação de produtos industrializados importados também serviu de estímulo para o investimento privado no setor. Assim, ao se iniciar o século XX, os EUA e a Alemanha já disputavam entre si a primazia industrial mundial da qual a
Grã-Bretanha parecia se afastar cada vez mais. Dos dois países emergentes, eram os EUA que tinham as
maiores vantagens comparativas. O tamanho da sua área e população permitia às empresas industriais
operarem num enorme mercado interno, que propiciava economias de escala que não podiam ser realizadas pelos seus concorrentes na Europa ou no Japão.
Do outro lado do mundo, o Japão, que até pouco tempo atrás mantinha seus portos fechados
sem qualquer contato com o estrangeiro, passava por um acelerado processo de modernização. Esse
processo se iniciou em 1868, com a restauração da centralização do poder político por parte da dinastia
Meiji. A observação cuidadosa do processo de submissão da China às potências imperialistas foi assimilada pelos japoneses com apreensão. As elites dirigentes do Japão compreenderam que a menos que
fossem fortalecidas as bases do poder nacional, por meio da criação de indústrias capazes de sustentarem e manterem aparelhadas as forças armadas, o Japão seguiria o caminho da China, tornando-se ele
próprio uma colônia informal das potências ocidentais.
Para atingir seus objetivos, o governo japonês se esmerou em copiar as instituições ocidentais,
adotando um programa que é recorrentemente descrito como sendo uma "modernização conservadora", isto é, um esforço para atualizar o setor produtivo e as forças armadas com pouca ou nenhuma
transformação social, em particular aquela que pudesse ameaçar o poder estabelecido (liberdades políticas, democratização da propriedade, instauração de um governo laico etc.) Apesar do enorme custo
social, o programa de modernização japonesa foi, em grande parte, cumprido: ao se iniciar o século XX,
o Japão contava com transporte, comunicações e um parque industrial capaz de equipar e manter em
estado de eficiência seu exército e marinha de guerra.
Já ao final do século XIX, os japoneses empreenderam guerra contra a China a fim de obter o mesmo tipo de vantagens comerciais de que já gozavam as potências européias. Em 1905, o Japão iniciou e
ganhou uma guerra contra o Império Russo, fazendo valer suas pretensões territoriais sobre territórios
que os russos ambicionavam na China e na Coréia. Tratou-se, enfim, do único país não-ocidental que foi
capaz de passar da condição de candidato à colônia para a de sede de um império ultramarino colonial.
Com o passar do tempo, contudo, suas pretensões coloniais fatalmente entrariam em rota de colisão
com os demais países imperialistas.

A Segunda Revolução Industrial
Ao final do século XIX e início do XX, assiste-se a uma notável mudança nas bases tecnológicas e
energéticas que até então vigiam no processo de industrialização, bem como na aplicação da ciência e
tecnologia aos processos econômicos, a qual ficou conhecida como a Segunda Revolução Industrial.
Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

12

|

História Contemporânea

Novas matrizes energéticas e novas tecnologias produtivas estavam sendo descobertas e adotadas. A Revolução Industrial na sua origem (1760) foi baseada na tecnologia da máquina a vapor, geralmente queimando carvão ou lenha para obter a pressão necessária ao seu funcionamento. Ao fim do
século XIX, essa tecnologia e sua respectiva matriz energética serão complementadas, em alguns casos
substituídas, pela generalização do uso dos motores elétricos e à explosão. Ganham destaque, conseqüentemente, as atividades econômicas relacionadas à produção e distribuição de eletricidade e dos
derivados de petróleo.
Para além das mudanças tecnológicas e da matriz energética, assiste-se também ao surgimento
de um número considerável de novas atividades produtivas, resultado da aplicação cada vez maior e
mais ampla das descobertas científicas à produção econômica. O processo é mais notável na indústria
química, responsável pelo desenvolvimento de novos produtos como corantes artificiais, fertilizantes,
alimentos industrializados etc. Mas também foi muito importante para o ramo do entretenimento, com
o surgimento da primeira diversão de massas da era moderna, o cinema. Da mesma forma na metalurgia, com a oferta de novas ligas metálicas que tornaram a bicicleta e o fogão a gás produtos de amplo
consumo popular. Podem-se citar também a indústria elétrica, responsável pela ampliação do consumo
de telefones, lâmpadas, eletrodomésticos etc. Tais mudanças é que levam vários estudiosos a designarem o período como sendo caracterizado por uma Segunda Revolução Industrial.
A Segunda Revolução Industrial também teve impacto sobre as formas de organização da indústria e da concorrência. De fato, o estabelecimento de unidades produtivas dedicadas à fabricação dos
novos produtos demandava um volume mais substancial de capital e dependia de um prazo de maturação dos investimentos muito maior. As exigências de um volume consideravelmente maior de capital
para o financiamento dos novos setores produtivos acabou por se constituir numa barreira de entrada
nesses novos ramos de negócio que poucas empresas eram capazes de superar. Assim, é possível afirmar que a Segunda Revolução Industrial tinha uma tendência muito mais forte à concentração da propriedade, sob a forma de cartéis, trustes e monopólios, do que a sua antecessora do século XVIII. Mais
ainda, a necessidade de um maior montante de capital para iniciar e sustentar os novos setores produtivos fez aumentar a dependência das indústrias em relação aos bancos e outras instituições financeiras.
Essa dependência fazia com que, recorrentemente, os bancos acabassem por se tornar sócios importantes dos novos empreendimentos industriais chegando, no limite, a serem seus verdadeiros controladores. Essa tendência foi tão marcante que podemos nos referir a este período como sendo marcado pela
superação do capitalismo industrial pelo capitalismo financeiro.

O imperialismo
As relações internacionais nos anos compreendidos entre 1875 e 1914, período anterior à Primeira
Guerra Mundial, foram marcadas pela anexação de extensos territórios na África, Ásia e Oceania por parte das potências européias e, em menor grau, pelos EUA e Japão. Praticamente toda a África, a Oceania
e as ilhas do Oceano Pacífico passaram formalmente à condição de colônias submetidas à soberania de
algum dos países europeus mais avançados. Os maiores impérios ultramarinos certamente foram, por
ordem, os da Grã-Bretanha, da França, da Alemanha, da Itália, dos Eua e do Japão. Destes, o maior era,
de longe, o da Grã-Bretanha. Sob a autoridade da Grã-Bretanha, vivia um quarto da população mundial,
espalhada por todos os continentes. O segundo maior império era o francês, que abrangia extensas áreEsse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

Introdução: o mundo ao alvorecer do século XX

| 13

as pouco povoadas da África e da Ásia. Os impérios alemão e italiano eram muito menores, resultado da
chegada tardia de ambos à assim chamada "corrida imperialista".
Ao lado da ocupação formal destas áreas, o imperialismo também foi praticado nesse período de
maneira informal. Nesses casos ficava clara a hegemonia exercida pela potência imperialista sobre áreas que, embora formalmente independentes, ficavam submetidas na prática às suas determinações.
Os casos mais evidentes deste imperialismo informal e seu correspondente contraste com a sua versão
formal certamente é o norte-americano. Depois de uma curta e vitoriosa guerra contra a Espanha ao
fim do século XIX, os EUA tomaram para si as Filipinas e uma pequena parte de Cuba ­ a Península de
Guantánamo ­ como suas colônias. Por outro lado, no período compreendido entre 1895 e 1917, as forças armadas dos EUA intervieram em praticamente todos os países da América Central e do Caribe, embora estes fossem, formalmente, nações independentes. Em todas estas intervenções, a motivação era
a mesma: garantir a integridade e a segurança dos investimentos e propriedades dos cidadãos norteamericanos naqueles países.
O país que foi o alvo mais recorrente das ações do imperialismo informal foi, certamente, a China.
Mergulhada na anarquia de uma guerra civil desde o fim do século XIX, a China não tinha um governo
central e nacional minimamente eficaz, o que a tornou incapaz de deixar de se submeter a todo tipo
de exigências e acordos ruinosos que lhe foi imposto por europeus, norte-americanos e, mais tarde, japoneses. A divisão daquele país em diferentes "áreas de influência" entre as potências capitalistas só foi
rompida a partir de 1931, com a tentativa dos japoneses em tomar para seu império todo território chinês.
A ocorrência simultânea da Segunda Revolução Industrial e da corrida imperialista suscitou incontáveis debates sobre a possível inter-relação entre esses dois fenômenos. Para os indivíduos que se identificavam com a orientação teórica desenvolvida por Karl Marx, tais como Lênin e Rosa Luxemburgo, o
imperialismo era um resultado direto das contradições do capitalismo. Fosse devido à queda da taxa de
lucros de empresas capitalistas, segundo Lênin, ou devido ao caráter limitado dos seus mercados internos, de acordo com Rosa Luxemburgo, o fato é que as potências do capitalismo industrial só poderiam
sustentar seu ritmo de crescimento apelando para a aquisição de colônias. Tais colônias se constituiriam tanto em um novo e ampliado mercado consumidor cativo quanto ofereceriam novas e exclusivas
oportunidades de investimentos nas áreas de mineração, transportes, serviços públicos urbanos etc. A
disputa pelas áreas passíveis de serem anexadas teria levado, ainda segundo Lênin, a diversos conflitos
entre as potências capitalistas. Nesses conflitos, incluiriam-se tantos os choques de fronteiras nas colônias quanto a Primeira Guerra Mundial.
Inversamente, intelectuais identificados com a defesa das virtudes do capitalismo, a partir de
uma orientação teórica liberal, refutavam a existência de qualquer nexo entre a corrida imperialista e
a Segunda Revolução Industrial. Destes pensadores, os mais importantes foram Veblen e Schumpeter.
Segundo eles, a corrida imperialista e a própria Guerra Mundial teriam sido resultado de iniciativas das
elites dirigentes do Estado que, assim agindo, pretendiam realizar objetivos que nada tinham a ver com
o capitalismo, mas com a conservação do seu próprio poder político. Para estes autores, eram elementos de origem nobre, cujas fontes de poder econômico eram a renda obtida pela propriedade fundiária
urbana e rural, que definiam e executavam ­ em associação com alguns poucos empresários privados
­ as políticas coloniais. Agindo desse modo atuavam de forma oposta ao do conjunto de interesses dos
empresários capitalistas, interessados fundamentalmente na quebra e no abandono de todas barreiras
ao livre comércio e o fim das restrições que os monopólios coloniais impunham ao mercado mundial.

Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

14

|

História Contemporânea

O debate entre autores de orientação marxista e liberal continua em aberto, sendo uma ou outra
orientação teórica mais ou menos convincente, dependendo do caso em exame. As considerações de ordem econômica parecem ter sido as mais relevantes no caso britânico. De fato, era graças ao enorme superávit comercial com a sua mais importante colônia ­ a Índia ­ que os britânicos conseguiam superar
algumas das suas maiores dificuldades no balanço de pagamentos. Já no caso francês e alemão não parecem ser predominantes as motivações afetas à superação de conflitos e às contradições inerentes à ordem
capitalista. Nesses casos, o reforço ou a conquista de posições estratégicas em escala global, o uso da conquista imperial como fator de reforço do prestígio político dos governantes, ou ainda, como elemento de
reforço da lealdade dos cidadão ao regime, parecem ter sido as motivações mais importantes.
A corrida imperialista foi marcada por todo tipo de violências e abusos contra as populações submetidas. O relato dos crimes do imperialismo é extenso e provavelmente continuará a ser ampliado.
Além disso, a imposição da autoridade colonial trouxe consigo também um choque cultural, derivado
da imposição de valores e práticas culturais dos colonizadores sobre os colonizados. Na sua forma mais
suave, esse processo resultou na "ocidentalização" dos costumes locais e, na sua versão mais agressiva,
na pura e simples destruição das formas tradicionais de organização da vida coletiva e da produção de
bens simbólicos.

As forças da tradição e da transformação
O século XX é marcado em escala mundial pela modernização. Tal processo é entendido como
um conjunto de transformações históricas que ocorre em três diferentes níveis: a superação da economia agrícola pela industrial; da sociedade rural pela urbana; e da universalização dos direitos e prerrogativas individuais em relação ao poder público. Esses processos tiveram início ao fim do século XVIII
com as Revoluções Industrial e Burguesa. A primeira deu início à perda de importância das atividades
rurais em relação às industriais; a segunda à superação do Estado absolutista e das relações feudais de
produção pela democracia política e as relações capitalistas de produção. Ao se iniciar o século XX parecia que estas transformações estavam prestes a se concluírem, mas na prática seriam necessárias ainda muitas décadas para tal.
É importante reconhecer que a modernização jamais operou de forma contínua ou linear, muito
embora elementos de diferentes orientações teóricas acreditassem sinceramente que isso de fato ocorria. Tratava-se dos partidários da noção de progresso, muito influentes na virada do século XIX para o XX.
Segundo eles, os avanços da ciência, da técnica e do conhecimento humano em vários níveis estariam
conduzindo a um contínuo aperfeiçoamento de todas as esferas de atividade humana. Ao fim e ao cabo
deste processo, a humanidade se veria livre de todas as restrições ao seu bem estar material e moral, gozando de paz e felicidade permanentes.

Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

Introdução: o mundo ao alvorecer do século XX

| 15

Pelo menos nos países mais desenvolvidos, os substanciais avanços obtidos até então haviam
permitido um enorme aumento da produtividade, garantindo à maioria das pessoas um mínimo que
lhes permitisse sobreviver. A descoberta, e posterior industrialização das vacinas, permitiram a erradicação de uma série de doenças que, até bem pouco tempo, seriam capazes de ceifar a vida de milhões de pessoas. A invenção de máquinas e equipamentos de transporte (locomotiva, automóvel,
aeronaves etc.) e comunicações (telégrafo, cabos submarinos, telefone etc.) prometia anular a restrição que as longas distâncias sempre impuseram ao desenvolvimento das trocas comerciais, científicas e culturais entre os povos.
Porém, deve-se levar em conta que a tendência à instauração de uma sociedade moderna operava de forma muito mais gradual do que se supunha e, mais ainda, contra ela operavam forças que visavam à preservação de elementos centrais na conjuntura anterior àquelas duas revoluções. Se pouca ou
nenhuma restrição havia ao avanço do conhecimento e ao cada vez maior domínio do homem sobre a
natureza, o mesmo não ocorria no que se refere à extensão dos direitos dos cidadãos frente ao Estado e
à instauração de uma forma de governo que permitisse uma maior participação popular nas questões
políticas. Mesmo na Europa, por exemplo, predominavam regimes monárquicos, formalmente de orientação parlamentarista. Mas o poder desses parlamentos frente aos monarcas e a própria forma pela qual
se definia quem podia votar ou ser votado variava enormemente.
Via de regra, os regimes monárquicos tinham ­ exceto na Grã-Bretanha ­ uma enorme prevalecência sobre as assembléias eleitas. No caso extremo ­ o russo ­ o parlamento ("Duma") tinha uma existência puramente formal, quase o mesmo se verificando no autoritário império alemão. Na França e na
Itália, a instabilidade e pouca duração dos gabinetes parlamentares é que acabava reforçando a autoridade do poder executivo ­ do presidente num caso e do rei no outro. Em qualquer cenário, inexistia o
direito universal de votar e ser votado. Restrições ao voto das mulheres, dos analfabetos ou dos que não
possuíam idade ou renda suficiente, para não mencionar a fraude pura e simples na criação de obstáculos ao registro dos eleitores, limitavam grandemente o caráter "representativo" dos políticos eleitos.
E mesmo estes quase que obrigatoriamente deveriam ou ser pessoas de muitos recursos, ou apelariam
para a corrupção para se manterem, já que inexistia remuneração pelo exercício dos cargos eletivos.
Essa situação só será revertida ­ por exemplo ­ na Inglaterra, em 1917. No geral, será necessário o duplo
impacto da crise de 1929 e da Segunda Guerra Mundial para que o processo de modernização política,
iniciado com as Revoluções Burguesas do século XVIII, finalmente chegue à sua conclusão lógica.
Também a transformação da economia de base agrícola pela industrial e da sociedade rural pela
urbana só se efetivará no segundo pós-guerra, ainda assim não em todos os países desenvolvidos e,
com muito mais lentidão, nas nações periféricas. No caso brasileiro, por exemplo, é somente em 1953
que o valor da produção industrial finalmente alcança a agrícola; e apenas em 1973 a soma da população urbana ultrapassa a rural. Finalmente, em 1989, é que o país adota o princípio da eleição direta para
todos os cargos públicos baseado no voto universal.

Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br

16

|

História Contemporânea

Atividades
1.

Sintetize as características comuns aos EUA e à Alemanha ao final do século XIX e início do XX que
permitiram a industrialização desses países.

2.

Descreva de que forma se deu a modernização do Japão a partir da segunda metade do século XX.

3.

Aponte as diferenças mais marcantes entre a Primeira e a Segunda Revoluções Industriais.

Dicas de estudo
O debate historiográfico mais relevante deste período é relativo ao peso político que as elites
de origem nobre ainda exerciam em relação à burguesia industrial. É de grande valia para o estudante
a leitura completa de duas obras, contendo interpretações antagônicas sobre a questão. Recomendase fortemente a leitura do livro de Eric Hobsbawn (A Era dos Impérios) em contraste com o trabalho de Arno Mayer (A Força da Tradição). A leitura consecutiva destes dois livros permitirá ao aluno
perceber de que forma diferentes orientações teóricas esposadas por autores diversos conduz a
resultados antagônicos.

Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A,
mais informações www.videoaulasonline.com.br