A HISTÓRIA DAS VACINAS: UMA TÉCNICA MILENAR
"Deus não pode querer que sua obra seja maculada, permitindo que se inocule
no homem a linfa de um ser inferior, como é a vaca."
Papa Pio VII

AO PERCEBEREM QUE OS SOBREVIVENTES de um ataque

Antigos instrumentos
de variolização.
Acervo Casa de Oswaldo Cruz.

de varíola não voltavam a sofrer da doença, muitos povos tentaram provocar a moléstia
numa forma mais branda. Os primeiros registros desta prática, que recebeu o nome
de variolização, remontam aos chineses. Era conhecida entre diversos povos da
África e da Ásia, como hindus, egípcios, persas, circassianos, georgianos, árabes.
Na Turquia, no início do século XVIII, duas inoculadoras de origem grega ficaram
famosas ­ uma delas, a Tessaliana, chegou a imunizar cerca de 40 mil pessoas.
As técnicas diferiam: algodão, com pó de crostas ou pus inserido
no nariz, vestir roupas íntimas de doentes, incrustar crostas em arranhões,
picar a pele com agulhas contaminadas, fazer um corte na pele e colocar
um fio de linha infectado ou uma gota de pus.
Embora a variolização pareça ter sido praticada em algumas regiões da França,
na Escócia, no País de Gales e na Itália, atribui-se sua introdução na Europa à Lady Mary
Wortley Montagu, mulher do embaixador britânico na Turquia, que fez inocular seus
filhos. De Londres, a prática se espalhou pelo continente, popularizada pela adesão
da aristocracia. Foram imunizados as princesas reais Amélia e Caroline, na Inglaterra,
Luís XVI, na França, Catarina II, na Rússia.

A VARIOLIZAÇÃO LOGO CHEGOU ÀS AMÉRICAS.

Instrumentos de variolização,
obtidos em 1966 no Malawi.
Foto de I.D. Ladnyi. Acervo
Organização Mundial da Saúde.

Instrumentos de
variolização utilizados
no Afeganistão.
Acervo Johns Hopkins University.

Jesuítas inocularam índios no Brasil, e Zabdiel Boylston imunizou 243 pessoas
durante uma epidemia em Boston, em 1721. Na mesma cidade, em 1764,
novo surto de varíola levou à criação de dois hospitais particulares para
inoculação. John Adams, mais tarde presidente dos Estados Unidos,
submeteu-se ao tratamento. Este era prolongado ­ três a quatro semanas de
internação e de duas a três em convalescença. Após ver seus exércitos ao norte
devastados pela varíola, mudando o curso da guerra, George Washington
ordenou a variolização compulsória de suas tropas em 1777.
Desde sua introdução na Europa, a variolização sempre enfrentou uma
oposição ferrenha, que se agravou com a comprovação de que cerca de 2%
dos inoculados morriam e muitos desenvolviam formas graves da doença.
Com isso, em muitos locais, a prática foi suspensa.

George Washington,
retratado por Gilbert
Stuart, variolizou suas
tropas. Galeria Nacional
de Washington.

A PRIMEIRA VACINA
EDWARD JENNER,

A vacinação no tempo
do Consulado, França.
Acervo Casa de Oswaldo Cruz.

um médico inglês, observou que
um número expressivo de pessoas
mostrava-se imune à varíola. Todas eram
ordenhadoras e tinham se contaminado
com cowpox, uma doença do gado
semelhante à varíola, pela formação de pústulas,
mas que não causava a morte dos animais. Após uma série de
experiências, constatou que estes indivíduos mantinham-se
refratários à varíola, mesmo quando inoculados com o vírus.
Em 14 de maio de 1796, Jenner
inoculou James Phipps, um menino
de 8 anos, com o pus retirado de
uma pústula de Sarah Nelmes, uma
ordenhadora que sofria de cowpox
O garoto contraiu uma infecção
extremamente benigna e, dez dias depois,
estava recuperado. Meses depois, Jenner
inoculava Phipps com pus varioloso.
O menino não adoeceu.
Cena de vacinação, meados do século XIX,
Era a descoberta da vacina.
Acervo Casa de Oswaldo Cruz.
A partir de então, Jenner começou a
imunizar crianças, com material retirado diretamente das pústulas dos
animais e passado braço a braço. Em 1798, divulgava sua descoberta
no trabalho Um Inquérito sobre as Causas e os Efeitos da Vacina da Varíola.
Jenner enfrentou sérias resistências. A classe médica demonstrava
ceticismo. Os variolizadores fizeram ferrenha oposição. Grupos
religiosos alertavam para o risco da degeneração da raça humana
pela contaminação com material bovino: a vacalização
ou minotaurização, como foi chamada.
Mas, em pouco tempo, a vacina conquistou a Inglaterra.
Em 1799, era criado o primeiro instituto vacínico em Londres
e, em 1802, sob os auspícios da família real, fundava-se a
Sociedade Real Jenneriana para a Extinção da Varíola.
"Jenner! Não posso negar nada a Jenner", afirmou Napoleão, atendendo a um pedido de libertação
de priosioneiros ingleses. Quadro de Jacques Louis David. Galeria Nacional de Washington.

A DESCOBERTA DE JENNER LOGO SE
ESPALHOU pelo mundo. A partir de 1800, a Marinha britânica

começou a adotar a vacinação. Napoleão Bonaparte introduziu-a em seus
exércitos e fez imunizar seu filho. Nas Américas, chegou pelas mãos do
médico Benjamin Waterhouse, de Harvard, popularizando-se, a partir de
1801, quando o presidente Thomas Jefferson foi vacinado.
O imunizante chegou a Portugal, em 1799, dentro de um pequeno
frasco. D. Pedro, futuro imperador do Brasil, e seu irmão foram inoculados.
Em 1804, o marquês de Barbacena trouxe a vacina para o Brasil,
transportando-a pelo Atlântico, por seus escravos, que iam passando a
infecção vacinal, um para o outro, braço a braço, durante a viagem.
A oposição à vacina jamais cessou. Camponesas francesas recusavam-se
a imunizar seus filhos na esperança de que a varíola lhes trouxesse tal
degradação física, que os tornasse inaptos para o serviço militar e, portanto,
para a guerra. Vacinadores eram obrigados a pagar para conseguir
voluntários que se deixassem inocular, conservando o vírus vacinal.
Para muitos, a imunização causava repulsa, porque o fluido
vacinal era conservado em jovens confiados à caridade pública,
muitos portadores de doenças venéreas e outras moléstias.
Foram registrados casos de sífilis, erisipela e hepatite B (esta
última uma doença ainda desconhecida) associados à vacina.
Mas nada contribuiu tanto para a resistência à
vacinação quanto as epidemias de varíola na década
de 1820, quando um grande número de imunizados
adoeceu. Descobriu-se, então, que a proteção não
era eterna. Era preciso revacinar-se.
Além disso, a conservação da linfa braço a braço
não só adulterava o fluido vacinal, como, com o tempo,
fazia com que este perdesse sua potência. A solução foi
retornar ao vírus original: o da cowpox ou varíola das vacas.
Apesar de toda a oposição, a vacinação aos poucos
foi se generalizando, mesmo que sob pressão
governamental. Ela se tornou obrigatória na Baviera,
em 1807, na Dinamarca, em 1810, na Suécia, em 1814,
em vários Estados germânicos, em 1818, na Prússia,
em 1835, e, finalmente, na Inglaterra, em 1853.

Ao lado, mão da
ordenhadora Sarah Nelmes.
Desenho de John Neidl.

Jenner vacinando
o filho.
Acervo Casa
de Oswaldo Cruz.

REVOLUÇÃO NA CIÊNCIA
A 6 DE JULHO DE 1885, chegava

Louis Pasteur.
Acervo Casa de Oswaldo Cruz.

ao laboratório de
Louis Pasteur um menino
alsaciano de 9 anos, Joseph
Meister, que havia sido mordido por um
cão raivoso. Pasteur, que vinha desenvolvendo
pesquisas na atenuação do vírus da raiva, injetou
na criança material proveniente de medula de um
coelho infectado. Ao todo, foram 13 inoculações,
cada uma com material mais virulento.
Meister não chegou a contrair a doença.
A 26 de outubro, o cientista francês
comunicava à Academia de Ciências a
descoberta do imunizante contra a raiva,
que chamou de vacina em homenagem a Jenner.
Louis Pasteur já era
famoso quando salvou
Meister. Desenvolvera
pesquisas sobre
fermentação, elaborando um método para
conservação da cerveja, a pasteurização.
Formulou a teoria da origem microbiana das
doenças. Comprovou que o carbúnculo era
causado por um microorganismo e descobriu
o estafilococo. Desenvolveu imunizantes contra
a cólera das galinhas e o
carbúnculo do gado.
As vacinas de Pasteur
A Raiva Vencida. L'Ilustration.
Acervo Casa de Oswaldo Cruz.
foram as primeiras obtidas seguindo
uma metodologia científica. Fundador
da moderna microbiologia e da medicina
experimental, Pasteur revolucionou a ciência ao
desenvolver um imunizante produzido à vontade
por um método que podia ser generalizado.
Emile Roux. Acervo Casa de Oswaldo Cruz.

TRÍPLICE
Em 1888, Emile Roux e Alexander Yersin descobriram que
o bacilo da difteria produzia uma toxina poderosa, responsável pelos
sintomas da doença. Em 1891, Emil Behring injetava doses subletais desta
toxina, provocando o aparecimento de moléculas antitóxicas (anatoxinas),
capazes de proteger contra a infecção e de ser transferidas para outros
animais, imunizando-os. Ao aplicar este produto num caso agudo de
difteria, deu início à soroterapia que logo empregou também no tétano,
junto com Shisaburo Kitasato. Por esta descoberta, Behring recebeu
o primeiro Prêmio Nobel de Medicina.
Em 1897, Paul Erhlich desenvolveu métodos para a padronização
das toxinas. E. Loewenstein e Alexander Glenny provaram, em 1904,
que toxinas poderiam ser inativadas por substâncias químicas, no caso
formol, mantendo seu potencial imunizante, mas sem causar infecção.
Essa descoberta levou ao desenvolvimento dos primeiros toxóides:
diftérico e tetânico. Coube a Gaston Ramon desenvolver
uma vacina antitetânica, a partir do toxóide tetânico.
Louis Sauer, Pearl Kendrick e Grace Eldering desenvolveram os
primeiros imunizantes contra coqueluche (pertussis). Em 1942, Kendrick
descobriu que sua vacina funcionava melhor na presença dos toxóides
diftérico e tetânico, já que os três componentes agiam
como adjuvantes entre si. Combinou-os então para
formar a vacina DPT ou tríplice bacteriana ­ a primeira
a imunizar contra mais de um microorganismo.

BCG
Em 1909, Albert Calmette e Camille Guerin,
do Instituto Pasteur, comunicavam à Academia de
Ciências Francesa o desenvolvimento de um bacilo de
virulência atenuada, proveniente de sucessivas culturas
em bile de boi, com capacidade imunizante contra a
tuberculose. Era o BCG, que, após uma série de testes,
passou a ser regularmente utilizado como vacina.
Primeiro imunizante bacteriano atenuado, o BCG
foi introduzido no Brasil em 1925 e é atualmente
aplicado em crianças recém-nascidas.

Ao lado, Pasteur
reconheceu o
papel dos
microorganismos
na fermentação.
Acervo Casa de
Oswaldo Cruz.

A vacina BCG foi
introduzida no país pela
Liga Brasileira contra a
Tuberculose. Acervo Casa
de Oswaldo Cruz.

IMUNIZANTE TROPICAL
EM 1936, MAX THEILER E HENRY SMITH,

Inoculação em ovos.
Acervo Casa de Oswaldo Cruz.

Um dos primeiros
liofilizadores, desenvolvido por
Camus e Fasquelles e utilizado
a partir de 1917. Foto de R.
Netter. Acervo Organização
Mundial da Saúde.

Bulk vacinal. Acervo Bio-Manguinhos.

da Fundação Rockefeller, chegaram à cepa 17D da febre
amarela, vírus atenuado por passagens em cérebro de ratos
e em embrião de pinto. No ano seguinte, a vacina foi testada
pela primeira vez no Brasil. Em 1940, foi desenvolvido estudo
de campo no sul de Minas Gerais, com a imunização
de mais de 5 mil pessoas. A pesquisa deu subsídios
para os últimos ajustes na forma final do imunizante.
A vacina contra a febre amarela é a primeira no mundo
a usar o sistema de lotes-sementes, isto é, os lotes originais
do vírus atenuado são submetidos a uma nova passagem
em ovos embrionados, dando origem
a lotes secundários que servirão de
fonte para a produção do imunizante.
Desde o final da década de 30,
a vacina contra a febre amarela vem
sendo fabricada em Manguinhos.
Hoje, a Fiocruz é a maior produtora
mundial deste imunizante.

VACÍNIA
Os problemas decorrentes da linfa
humana levaram à difusão da vacina
antivariólica de origem animal,
aperfeiçoada a partir das descobertas
da microbiologia. Conseguia-se a vacínia
(vírus vacinal), raspando-se a pele de vitelos
com cowpox (varíola de vaca). O produto
obtido era, então, filtrado, para evitar
a contaminação por outros agentes
patogênicos. A vacínia ­ Poxvirus officinale
­ é um mutante obtido no laboratório pela passagem seriada
do vírus da varíola de vaca em pele de vitelo ou de coelho.
Foram realizadas várias tentativas de cultura do vírus vacínico
fora do vitelo, mas a produção da vacina contra a varíola só sofreu uma
grande modificação com a introdução da técnica de cultivo de vírus em
embrião de pinto. Mais tarde, ela passou a ser liofilizada, isto é, ter sua
umidade retirada, transformando-se numa pastilha e sendo reconstituída
no momento da aplicação. Este processo deu maior estabilidade à vacina.
No Brasil, a vacina cultivada em ovo embrionado foi implantada pelo
então Instituto Oswaldo Cruz, que já dominava essa tecnologia, usada
na produção do imunizante contra a febre amarela.
Foram diversas as técnicas de vacinação contra a varíola:
escarificação (incisão na pele), pressão múltipla (esfregar uma agulha
paralelamente à pele), punção múltipla (várias picadinhas com uma
agulha), broca (rodar um tubo capilar cortado com a vacina
sobre a pele), injeção intradérmica e pistola.

Extração da linfa variólica
da barriga do vitelo.
Acervo Casa de Oswaldo Cruz.

NOVOS AVANÇOS
NENHUM IMUNIZANTE CONTRIBUIU TANTO
para a popularização das vacinas como o contra a
poliomielite. Conhecida desde a Antiguidade, a doença
passou a assumir importância como problema de saúde
pública no final do século passado, ao irromper de forma
epidêmica nos Estados Unidos e na Europa. O impacto causado
pela visão de crianças paralíticas levou a população americana
a uma mobilização sem precedentes nas Marchas do Dime, em
que pessoas saíram às ruas, em todo o país, pedindo um dime
(moeda de 10 centavos) para a pesquisa de uma vacina contra
a pólio. Bilhões de dólares foram arrecadados.
Em 1949, Jonas Salk desenvolveu uma vacina a partir de vírus
inativados (mortos), que foi testada em 45 mil crianças nos Estados
Unidos, em 1954. Foi o primeiro imunizante no mundo a ser
produzido em cultura de tecidos (células de rim de macaco)
e reunir mais de uma subespécie de vírus (poliovírus I, II e III).
No mesmo ano, Albert Sabin desenvolveu a vacina atenuada
contra a pólio, a primeira a ser aplicada por via oral. Por mimetizar o
mecanismo de infecção do vírus selvagem, com
a excreção do microorganismo atenuado no
ambiente, a vacina Sabin facilita a obtenção
de altos níveis de imunidade coletiva.

Marcha do Dime.
Acervo Casa de Oswaldo Cruz.

HEPATITE B
Vírus da poliomielite.
Acervo Organização
Mundial da Saúde.

Envasamento da vacina antipólio.
Foto de Luiz Hagen.
Acervo Bio-Manguinhos.

O desenvolvimento da tecnologia do DNA
recombinante abriu caminho para uma nova
geração de imunizantes. O primeiro a ser
comercializado foi a vacina contra hepatite B.
O primeiro passo é a seleção de um pedaço do
genoma do vírus, capaz de estimular o sistema de defesa do organismo,
mas não de infectar e causar a doença. Utilizando ferramentas da
engenharia genética, esta seqüência é inserida num microorganismo
não patogênico para o homem (no caso, o fungo Saccharomyces
cerrevisae ou a bactéria Escherichia coli). Assim, o micróbio vetor
passa a expressar (produzir) uma proteína do vírus da hepatite B,
provocando a formação de anticorpos.

Albert Sabin. Acervo
Casa de Oswaldo Cruz.