A outra historia do descobrimento do
Brasil
Carlos Fausto, Departamento de Antropologia do Museu Nacional - Fonte: Revista Ciência Hoje
das Crianças; edição 101, págs 16 a 19. 2000.
http://chc.cienciahoje.uol.com.br/multimidia/revistas/reduzidas/101/?revista=101

Parece absurdo, mas é isso o que aprendemos na escola: os portugueses
descobriram o Brasil, onde já viviam os índios. Ficamos tão acostumados a
pensar assim, que não nos perguntamos como isso é possível. Os
historiadores também não costumavam fazer essa pergunta.
Sabiam que os índios viviam aqui antes da chegada de Cabral, mas falavam
do descobrimento como se o Brasil fosse uma terra virgem. Será possível que
um lugar já habitado possa ser virgem, isto é, intocado?
Bem, só se ele não for habitado por pessoas. Quando falamos em floresta
virgem, por exemplo, não estamos dizendo que ela não é habitada por animais,
mas, sim, que ela não foi alterada pelo homem. Quando afirmamos que "essas
terras virgens foram descobertas por Cabral", estamos tratando seus
habitantes originais, os índios, como se eles não fossem pessoas, mas, sim,
parte da paisagem natural.
A palavra 'descobrimento', portanto, está no lugar de outro termo que não
costumamos utilizar: 'conquista'. Na verdade, as terras que viriam a ser o
território do Brasil não foram descobertas, mas conquistadas pelos portugueses
aos povos indígenas.
Quando os europeus chegaram à costa brasileira, encontraram diversos
grupos indígenas, cujos costumes e línguas eram muito parecidos.
No conjunto, esses grupos ficaram conhecidos como Tupi-Guarani, embora
possamos distinguir dois grandes blocos: os Tupi, que dominavam o litoral
desde o sul do estado de São Paulo até, pelo menos, o Ceará; e os Guarani,
que viviam mais ao sul, na bacia dos rios Paraná-Paraguai e em nossa costa
meridional.
Não se deve pensar, porém, que os Tupi e os Guarani formavam, cada
qual, uma grande nação. Ao contrário, eles estavam divididos em diferentes
grupos, geralmente inimigos entre si. E os europeus souberam bem se
aproveitar das brigas internas dos Tupi-Guarani, unindo-se a alguns grupos
para atacar outros. A aliança entre brancos e índios dava-se pela oferta de
presentes (como machados de metal, facas, espelhos, tecidos trocados por

farinha, caça, filhotes de animais e madeira), pela participação comum em
atividades de guerra e pelo casamento de índias com brancos.
Muitas vezes, os conquistadores estimulavam a inimizade entre os índios
para dominar o território com mais facilidade. Mesmo quando os Tupi
conseguiam reunir um número considerável de aldeias para atacar áreas sob
domínio português, tinham de enfrentar índios fiéis aos colonizadores. Assim,
embora fossem maioria, os índios acabaram sendo derrotados.
Não foi só como parceiros na guerra e na troca que os europeus
encontraram um lugar no mundo indígena. Talvez porque chegassem pelo mar,
em grandes navios, trazendo objetos desconhecidos, como armas de fogo e
ferramentas de metal, os Tupi associaram os europeus a seus grandes pajés,
que andavam de aldeia em aldeia, curando, profetizando e falando de uma
terra de abundância. Esses pajés eram chamados pelos Tupi de Caraíba e os
europeus ficaram conhecidos por esse nome. Até hoje, muitos grupos
indígenas chamam os não-índios de Caraíba.
Os jesuítas - padres enviados ao Brasil com a missão de convencer os
índios a se tornarem católicos - aproveitaram-se dessa associação do europeu
com os grandes pajés nativos, para facilitar seu trabalho. O discurso e as
práticas dos padres, como José de Anchieta, concorriam com os dos pajés.
Muitos grupos indígenas foram convencidos a abrigar-se nos aldeamentos
jesuítas sob a proteção espiritual dos missionários. Outros fugiram para o
interior, para escapar tanto dos padres como dos soldados portugueses.
Esse medo tinha razão de existir. Alguns autores estimam que havia cerca
de um milhão de índios na costa brasileira, em 1500. Um século depois, essa
população havia praticamente desaparecido. A maior parte morreu nas guerras
de conquista, por maus-tratos e pelas doenças trazidas pelos conquistadores.
O DESPOVOAMENTO DO BRASIL
Nem todos os habitantes da costa morreram. Muitos fugiram para o interior;
este, porém, já estava povoado. Tanto a Amazônia, como o Brasil Central
estavam ocupados por diversos grupos indígenas, a maioria deles com
costumes e línguas muito diferentes dos Tupi. Essa fuga para o interior
provocou uma reação em cadeia (como quando derrubamos peças de dominó
enfileiradas). Ao invadir os territórios de outros povos, os Tupi do litoral
causavam novas guerras e transmitiam as novas doenças adquiridas no
contato com os europeus.
Os portugueses, por sua vez, passaram a buscar escravos cada vez mais
longe da costa. As famosas bandeiras paulistas e os bandeirantes são os
representantes mais conhecidos desse processo de colonização violenta do

interior, que levou não ao povoamento do Brasil, como se costuma dizer, mas a
seu despovoamento, matando e escravizando dezenas de milhares de índios.
Entre 1580 e 1640, as expedições paulistas concentraram-se na captura
dos Guarani - que viviam no interior dos atuais estados de São Paulo, Paraná,
Santa Catarina e Rio Grande do Sul - para forçá-los a trabalhar na lavoura.
Com o esgotamento dessa fonte de mão-de-obra, os paulistas voltaram-se
para a região dos rios Araguaia e Tocantins, que já vinham explorando
irregularmente desde o começo daquele século.
As mortes causadas pelas doenças serviam de combustível às expedições
de escravização. Criava-se um círculo vicioso: a falta de mãode-obra indígena
nas imediações das vilas aumentava as ações de escravização no interior; a
escravização expunha cada vez mais as populações indígenas às epidemias;
com as epidemias, tornava-se necessário a realização de novas expedições no
interior. Foi assim que o Brasil foi sendo despovoado. Ali, onde havia uma
população indígena numerosa, foram-se criando vazios populacionais,
territórios livres para serem ocupados pelos colonizadores.
Mas não pense que isto tudo é passado. Ainda hoje, os cerca de 300 mil
índios vivendo no Brasil têm de lutar para garantir a posse de suas terras
contra a invasão de madeireiros, fazendeiros e garimpeiros ­ estes
colonizadores dos nossos dias, que descobriram novos métodos para retirar os
índios de suas terras e as riquezas que nelas existem.