Introdução à História
Marítima Brasileira

11

2

Diretoria de Ensino da Marinha
Serviço de Documentação da Marinha

Introdução à História
Marítima Brasileira

2006
3

I61

Introdução à história marítima brasileira. -- Rio de Janeiro: Serviço
de Documentação da Marinha, 2006.
181p. : il.
Bibliografia: p.180.
ISBN 85-7047-076-2
1. Brasil. ­ História naval. I. Serviço de Documentação da
Marinha. II. Título.
CDD 22.ed. ­ 359.00981

4

COMANDANTE DA MARINHA
Almirante-de-Esquadra Roberto de Guimarães Carvalho
SECRETÁRIO-GERAL DA MARINHA
Almirante-de-Esquadra Kleber Luciano de Assis
DIRETOR DE ENSINO DA MARINHA
Vice-Almirante Lucio Franco de Sá Fernandes
DIRETOR DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL DA MARINHA
Vice-Almirante (EN-RM1) Armando de Senna Bittencourt
SERVIÇO DE DOCUMENTAÇÃO DA MARINHA
Capitão-de-Mar-e-Guerra Francisco Eduardo Alves de Almeida
Departamento de História Marítima e Naval
Capitão-de-Fragata (T) Mônica Hartz Oliveira Moitrel
Departamento de Arquivos da Marinha
Capitão-de-Fragata (T) Maria Rosângela da Cunha
Departamento de Publicações e Divulgação
Capitão-de-Corveta (T) Ivone Maria de Lima Camillo
Colaboradores
Vice-Almirante (EN-RM1) Armando de Senna Bittencourt
Capitão-de-Mar-e-Guerra Francisco Eduardo Alves de Almeida
Capitão-de-Fragata (T) Mônica Hartz Oliveira Moitrel
Capitão-Tenente (T) Carlos André Lopes da Silva
Primeiro-Tenente (T) Ricardo dos Santos Guimarães
Professor Paulo Fernando Dias Vianna
Revisão Pedagógica
Capitão-Tenente (T) Andréa Paula Fernandes Delduque
Revisão Bibliográfica
Capitão-de-Fragata (T) Valéria Regina de Almeida Morandi
Revisão Ortográfica
Denise Coutinho Koracakis
Jacir Roberto Guimarães
Manuel Carlos Corgo Ferreira
Revisão Técnica
André Figueiredo Rodrigues
Iconografia
Márcia Prestes Taft
1oSG (MT) Marcelo Guimarães Cruz
Projeto Gráfico e Capa
Edna S. Costa
Acompanhamento Gráfico
Capitão-Tenente (T) Ana Cristina Requeijo

5

6



S U M Á R I O



APRESENTAÇÃO
INTRODUÇÃO

9
11

CAPÍTULO I

A História da Navegação
­ Sinopse
­ Os navios de madeira: construindo embarcações e navios
­ O desenvolvimento dos navios portugueses
­ O desenvolvimento da navegação oceânica: os instrumenos e as cartas de marear
­ A vida a bordo dos navios veleiros

16
18
19
20
22

CAPÍTULO II

A Expansão Marítima Européia e o Descobrimento do Brasil
­ Sinopse
­ Fundamentos da organização do Estado português e a expansão ultramarina
­ O reconhecimento da costa brasileira
­ As expedições guarda-costas
­ A expedição colonizadora de Martim Afonso de Sousa

24
26
38
39
40

CAPÍTULO III

Invasões Estrangeiras ao Brasil
­ Sinopse
­ Invasões francesas no Rio de Janeiro e no Maranhão
­ Invasores na foz do Amazonas
­ Invasões holandesas na Bahia e em Pernambuco
­ Corsários franceses no Rio de Janeiro no século XVIII
­ Guerras, tratados e limites no Sul do Brasil

44
47
50
50
58
58

CAPÍTULO IV

Formação da Marinha Imperial Brasileira
­ Sinopse
­ A vinda da Família Real
­ Política externa de D. João e a atuação da Marinha: a co quista de Caiena e a
ocupação da Banda Oriental
­ Guerra de Independência

66
68
68
73

7

CAPÍTULO V

A Atuação da Marinha nos Conflitos da Regência
e do Início do Segundo Reinado
­ Sinopse
­ Conflitos internos
­ Conflitos externos

82
86
89

CAPÍTULO VI

A Atuação da Marinha na Guerra da Tríplice Aliança
contra o Governo do Paraguai
­ Sinopse
­ O bloqueio do Rio Paraná e a Batalha Naval do Riachuelo
­ Navios encouraçados e a invasão do Paraguai
­ Curuzu e Curupaiti
­ Caxias e Inhaúma
­ Passagem de Curupaiti
­ Passagem de Humaitá
­ O recuo das forças paraguaias
­ O avanço aliado e a Dezembrada
­ A ocupação de Assunção e a fase final da guerra

104
108
113
115
116
116
117
118
118
119

CAPÍTULO VII

A Marinha na República
­ Sinopse
­ Primeira Guerra Mundial
­ Segunda Guerra Mundial

124
128
141

CAPÍTULO VIII

O Emprego Permanente do Poder Naval

8

­ O Poder Naval na guerra e na paz

162

GLOSSÁRIO

173

BIBLIOGRAFIA

180

Apresentação
Este livro foi produzido em resposta à necessidade de uma introdução à História Marítima
brasileira para os alunos das escolas de aprendizes-marinheiros da Marinha do Brasil.
Demonstra-se aqui o quanto o Brasil dependeu do mar. Uma simples análise disto permite
concluir o quanto seu futuro também dependerá da defesa de seus interesses referentes aos
recursos marinhos. O desenvolvimento da consciência marítima no País é, portanto, de enorme
importância e espera-se que a edição deste livro contribua para tal. Ele resultou do trabalho de
uma equipe constituída por pessoas do Departamento de História do Serviço de Documentação
da Marinha (SDM), com formação universitária em História, e pelos diretores deste Serviço e da
Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural da Marinha (DPHCM).
Das decisões tomadas na elaboração do livro, destaca-se a de não abordar os assuntos de
maneira superficial, porque a História se torna interessante e atraente quando se aprofunda a
descrição dos fatos e suas análises. Disponibilizar para o leitor um texto mais detalhado do que se
poderia esperar, em face do tempo previsto para a duração das aulas desta matéria e além do que
poderia ser exigido nos testes, foi, portanto, proposital. Tornou-se, porém, conseqüentemente
necessário preceder cada capítulo por uma sinopse, com a finalidade didática de ressaltar o que é
importante e facilitar a leitura e o estudo. Essas sinopses contêm tudo que deve ser exigido do
aluno principiante. O texto desenvolvido no capítulo lhe permite aprofundar seu conhecimento,
aprimorar sua cultura e desenvolver sua consciência marítima, o gosto pela História e pela leitura.
Talvez, futuramente, também ele possa empregar este livro como seu primeiro livro de referência.
Esta configuração, com as sinopses no início do texto dos capítulos e não um resumo ao final
de cada um deles, pode parecer inusitada para um livro didático, mas é usual em jornalismo. As
pessoas estão habituadas a ela nos meios de comunicação e a equipe a considerou adequada.
É desejável que, ao se educar, o aluno estude História e aprenda. É esse conhecimento que
permitirá a ele se situar, durante sua vida, com racionalidade no instante presente, consciente da
existência de um passado, que criou aquele momento, e de um futuro, que depende dos erros e
acertos de decisões a serem tomadas. A História não se repete, mas é insensatez não levar em
conta as experiências do passado, registradas por ela, diante de situações semelhantes, ao se
decidir racionalmente como agir.

ARMANDO DE SENNA BITTENCOURT
Vice-Almirante (EN-RM1)
Diretor do Patrimônio Histórico e Cultural da Marinha

9

10

O mar sempre teve uma importância fundamental na
história do Brasil. Do mar, de Portugal, veio Pedro Álvares
Cabral, em 1500, para encontrar o nosso País. Do mar, vieram
as invasões francesas, holandesas e as incursões inglesas nos
séculos XVI e XVII. O mar também foi o principal meio em
que se transportaram colonos e funcionários administrativos
portugueses para o Brasil durante o período colonial.
Durante a Guerra da Independência do Brasil, a então
recém-criada Esquadra brasileira teve papel primordial nas
mãos do Primeiro Almirante Lorde Thomas Cochrane,
bloqueando os portos conflagrados e combatendo os
lusitanos. As tropas de Dom Pedro I, que lutaram contra as
juntas governativas da Bahia, Maranhão, Pará e Banda Oriental
­ aliadas das Cortes (parlamento) portuguesas ­ foram
transportadas pelo mar.
No período regencial1, o mar novamente foi o caminho
natural para o transporte de tropas para as províncias
insurgentes que ameaçavam se separar do Império. Naquela
ocasião, as estradas que ligavam as principais cidades do Brasil
eram muito rudimentares, daí a enorme importância
estratégica que o mar adquiriu mais uma vez.
Com a Proclamação da República e o aumento da
tecnologia náutica, a importância do mar ficou ainda mais
evidente. Do mar aumentaram as nossas importações e
escoaram os nossos produtos para o exterior. Também do
mar vieram nossos inimigos: os submarinos alemães que
atacaram os navios mercantes que transportavam nossas
mercadorias, tanto na Primeira como na Segunda Guerra
Mundiais. Naquela oportunidade houve a necessidade
premente de se proteger as comunicações marítimas.
Aparece aqui o primeiro conceito importante. Procure
escrever em um papel à parte essa nova definição. Entendese por comunicações marítimas os caminhos existentes no
mar para o comércio exterior ou interno, isto é, as rotas por
onde trafegam os navios, desde seus portos de origem até os
de destino. Elas não são vias físicas, somente se materializando
quando existirem navios, tanto de transporte ou de guerra,
navegando com suas cargas.
Cada nação atribui determinada importância às



INTRODUÇÃO

De 7 de abril de 1831, quando D. Pedro I abdicou do trono, até 23 de junho de 1840, quando a
Assembléia votou a maioridade de D. Pedro II, aclamando-o Imperador do Brasil.
1

11



12

comunicações marítimas segundo o seu grau de
dependência. Sua importância econômica e militar
determinará o esforço a ser realizado para a manutenção
dessas rotas abertas e livres de ataque do inimigo. Para o País
a proteção dessas comunicações tem sido fundamental.
Hoje em dia o mar assume uma importância cada vez
maior para o Brasil. Nosso comércio é transportado quase
que exclusivamente por ele. Do mar extraímos o petróleo,
tão importante para o desenvolvimento do País, e os peixes,
que servem de alimento aos brasileiros e proporcionam
melhores condições de vida aos nossos pescadores.
Enfim, o mar é fundamental para a sobrevivência do País.
Devemos cada vez mais desenvolver o nosso Poder Marítimo
para nos projetarmos no cenário internacional. Surge o
segundo conceito de nossa discussão: o que vem a ser o Poder
Marítimo de uma nação? Anote aí mais uma vez.
Poder Marítimo é a capacidade que resulta da
integração dos recursos que dispõe o Brasil para a utilização
do mar e também das águas interiores, quer como instrumento
de ação política e militar, quer como fator de desenvolvimento
econômico e social, visando a conquistar e a manter os
objetivos nacionais.
Esse conceito pode parecer teórico demais, mas não é.
Vejamos agora quais os elementos constitutivos desse Poder
Marítimo.
Esses elementos, que constituem o nosso Poder
Marítimo, são componentes das expressões do poder da
Nação, relacionados com a capacidade de utilização do mar e
hidrovias interiores. Há situações em que um certo recurso
ou organização é componente do Poder Marítimo quando
vinculado ao uso do mar e deixa de sê-lo fora dessa situação.
Assim, tudo ou quase tudo que se relaciona com o mar faz
parte do Poder Marítimo.
Quais os elementos que constituem o nosso Poder
Marítimo?
­ A Marinha Mercante, com suas facilidades, serviços
e organizações relacionadas com os transportes marítimo
e fluvial. Dessa maneira, o navio mercante, a companhia
de navegação e os representantes marítimos fazem parte
desse Poder.



­ A infra-estrutura hidroviária, incluindo-se os portos,
os terminais, os meios e as instalações de apoio e controle.
Assim, todos os portos brasileiros fazem parte desse Poder.
­ A indústria naval com seus estaleiros de construção e
reparos e setor de navipeças.
­ A indústria bélica de interesse do aprestamento
naval.
­ A indústria de pesca com suas embarcações, terminais
e indústrias de processamento de pescado.
­ As organizações e os meios de pesquisa e desenvolvimento tecnológico de interesse para o uso do mar e águas
interiores e de seus recursos, aí se incluindo as universidades
e os centros de pesquisa voltados para o mar.
­ As organizações e os meios de exploração (sondagem,
pesquisa, estudo) e explotação (retirada de recursos para fins
de utilização) dos recursos do mar, seu leito e subsolo, inclusive
as que operam embarcações de apoio offshore (movimento
terra para o mar).
­ O pessoal que desempenha atividades relacionadas
com o mar e hidrovias interiores e os estabelecimentos
destinados à formação e ao treinamento.
­ O Poder Naval.
O que seria esse elemento? Anote mais um conceito no
seu caderno de estudos.

Parte da arte da guerra que trata do planejamento
e da realização de: a) projeto e desenvolvimento,
obtenção, armazenamento, transporte, distribuição,
reparação, manutenção e evacuação de material
(para fins operativos ou administrativos); b) recrutamento, incorporação, instrução e adestramento,
designação, transporte, bem-estar, evacuação,
hospitalização e desligamento de pessoal; c) aquisição ou construção, reparação, manutenção e operação de instalações e acessórios destinados a ajudar o desempenho de qualquer função militar;
d) contrato ou prestação de serviços.
2

Você deve ter notado que mostramos os elementos
constitutivos sem apresentar o nosso elemento militar.
Dessa maneira, o Poder Naval é o componente militar
do Poder Marítimo, capaz de atuar no mar e nas águas
interiores na conquista e manutenção dos objetivos
estabelecidos pelo Estado brasileiro. Pronto, parece que
conseguimos fechar todos os elementos, correto? Que tal
discutirmos um pouco mais o Poder Naval?
O Poder Naval compreende os meios navais,
aeronavais e de fuzileiros navais, as bases e posições de apoio,
suas estruturas de comando e controle, logística 2 e
administração, bem como as forças e os meios de apoio não
constitutivos da Marinha do Brasil, quando vinculados ao
cumprimento da missão da Marinha e submetidos a algum
tipo de orientação, comando ou controle de autoridade naval.
Podemos, assim, observar que um Poder Naval, para
ser eficaz, necessita ser capaz de atuar em grandes áreas, por
um período de tempo ponderável e nelas adotar atitudes tanto
defensivas quanto ofensivas, com aproveitamento de suas

13



14

características de mobilidade, permanência, versatilidade e
flexibilidade.
Vejamos o que significa cada uma dessas características.
A mobilidade representa a capacidade de deslocar-se
prontamente e a grandes distâncias, mantendo elevado nível
de prontidão em condições de emprego. Assim, quando uma
força naval se desloca rapidamente para uma área conflagrada
a característica por ela utilizada é a mobilidade.
A permanência indica a possibilidade de operar
continuamente por longos períodos em áreas distantes e de
grandes dimensões com independência.
A versatilidade permite regular o poder de destruição e
alterar a postura militar, mantendo a aptidão para executar
uma grande gama de tarefas. Um exemplo dessa característica
é a utilização de uma força naval como instrumento de
combate, ao mesmo tempo em que ela pode transformar-se
em instrumento da paz por meio de apoio a populações
atingidas por sinistros naturais, como furacões e tsunamis.
A última característica importante para um Poder Naval
com credibilidade é a flexibilidade, que pode ser sintetizada
pela capacidade de organizar grupamentos operativos de
diferentes valores, em função da missão recebida. Por
exemplo, um grupo de navios varredores pode limpar as minas
de um campo marítimo, assim como pode, devido ao seu
armamento, realizar uma patrulha no mar territorial
reprimindo a pesca ilegal.
Agora você já sabe o que é Poder Naval.
Com esses conceitos bem estabelecidos, a partir desse
momento você irá passear pela História Marítima Brasileira.
Inicialmente vamos investigar a História da Navegação,
abordando a evolução dos navios, dos instrumentos náuticos
e das chamadas cartas de marear.
Nos capítulos dois e três, discutiremos a expansão
marítima européia e o descobrimento do Brasil, abordando a
conjuntura político-social ibérica durante o chamado período
colonial brasileiro. Nesses capítulos serão descritos o
reconhecimento da costa brasileira pelos primeiros
navegadores que aqui chegaram, o envio de expedições
guarda-costas ao litoral da terra descoberta e a atuação de
invasores que atacaram em nossas costas. A reação a essas
incursões dependeu do emprego do Poder Naval português,
em alguns casos com apoio espanhol.



No capítulo quatro, iremos analisar a formação da
Marinha Imperial e sua importância para o Brasil. Nesse
ponto discutiremos a transmigração da Família Real
portuguesa para o Brasil, devido à invasão dos exércitos
de Napoleão Bonaparte na Península Ibérica, com a
conseqüente abertura dos portos e a discussão das
questões de fronteira nas áreas das Guianas e da Banda
Oriental. Em seguida, será apresentada a Guerra da
Independência, sob o ponto de vista naval e suas repercussões
para a história do País.
O capítulo cinco discutirá a atuação da Marinha nos
conflitos internos e externos, abordando a Guerra
Cisplatina, as revoltas regenciais e a guerra contra Oribe e
Rosas. No capítulo seguinte, será apresentada a Guerra da
Tríplice Aliança contra o Governo do Paraguai, conflito
importante na história da Marinha do Brasil. Nessa parte
serão discutidas questões logísticas e estratégicas da guerra
e suas conseqüências para o Poder Naval brasileiro.
No capítulo sete, serão analisados o panorama político
que levou à República e a situação da Marinha durante
aquele episódio e, em seguida, discutidas questões relativas
à Marinha no final do século XIX e meados do XX ­
incluindo nessa parte a atuação na Primeira Guerra Mundial,
a Marinha entre guerras e, por fim, a participação na
Segunda Guerra Mundial.
No capítulo oito, serão apresentadas considerações
sobre o emprego permanente do Poder Naval a partir da
Segunda Guerra Mundial e as principais tendências seguidas
pela Marinha até o final do século XX. Por fim, serão discutidas
as possibilidades de atuação do Poder Naval e os desafios
que se apresentam para o desenvolvimento de nosso Poder
Marítimo .
Comecemos a passear pela História Marítima com os
olhos da Marinha.

15


A canoa construída de diversas tábuas é um bom
exemplo. Ela não depende do tamanho de um único tronco, pode ser construída com a borda mais
alta para enfrentar as ondas e até pode ser reforçada internamente com elementos estruturais para
ser mais resistente.
1

Aquarela de Robson Carvajall
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Bote de couro de animais
Aquarela de Robson Carvajall
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

16

Sinopse
Os rios, lagos, mares e oceanos eram obstáculos que os seres
humanos do passado muitas vezes precisavam ultrapassar. Primeiro,
eles se agarravam a qualquer coisa que flutuasse. Depois, sentiram
a necessidade de transformar materiais, para que estes, flutuando,
pudessem sustentar melhor sobre a água. Assim, ao longo do
tempo, em cada lugar surgiu uma solução, que dependeu do
material disponível: a canoa feita de um só tronco cavado; a
canoa feita da casca de uma
Canoa feita de um só tronco
única árvore; a jangada de Modelo de embarcação da Coleção Alves Câmara
vários troncos amarrados; o Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
bote de feixes de juncos ou de
papiro (plantas que nascem
junto a rios e lagos); o bote de
couro de animais; e outros.
Todas essas soluções simples, no entanto, não permitiam
transportar muita coisa, ou eram difíceis de manejar, ou mesmo
perigosas em águas agitadas. Era necessário desenvolver
embarcações construídas de diversas partes, para que elas fossem
maiores e melhores.1
Durante o século XV, os portugueses decidiram que
deveriam prosperar negociando diretamente com o Oriente
através do mar. Até então, as mercadorias do Oriente, inclusive as
especiarias (pimenta, cravo,
canela e gengibre, que eram
necessárias para conservar os
alimentos), eram trazidas por
caravanas de camelos guiados
pelos árabes até portos do Mar
Mediterrâneo, onde eram compradas pelos italianos, que
revendiam na Europa. Para
alcançar um bom êxito, nesse
Aquarela de pele de animal
ambicioso projeto de interesse
nacional de Portugal, foi necessário explorar a costa da
África no Oceano Atlântico e
encontrar a passagem, ao sul do



continente africano, para o Oceano Índico; chegar à Índia e lá
negociar diretamente as mercadorias; trazê-las para Portugal em
navios capazes de transportar quantidades relativamente grandes
de carga; e defender esse comércio. Isso exigiu desenvolvimentos
científicos e tecnológicos para os navios e para a navegação.
Os portugueses desenvolveram e utilizaram caravelas para
explorações; naus como navios mercantes para o comércio; e
galeões como navios de guerra. Mas isso só não bastava para chegar
com sucesso ao porto de destino.
A navegação, quando se mantém terra à vista, é feita
observando pontos geográficos de terra para saber a posição do
navio em relação à costa. Quando não se avista mais a terra, o mar
e o céu se encontram no horizonte a toda volta, é necessário saber
em que direção o navio segue e a posição em que se está em
relação à superfície do globo terrestre.
Foi necessário, portanto, desenvolver instrumentos capazes
de indicar a direção (bússola) do navio, a latitude (astrolábio) e a
longitude (cronômetro).
Veremos neste capítulo o desenvolvimento dos navios na
época das Grandes Navegações e os instrumentos utilizados para
as singraduras realizadas.
Sigamos, portanto, nessa derrota...

17


A tecnologia da utilização da madeira é complicada. É preciso conhecer que qualidade de madeira
usar, obedecer à época e à hora certa para cortar
as árvores; armazenar as toras corretamente, secas ou submersas, e trabalhá-las conforme suas características físicas. O construtor naval passeava
pelas florestas escolhendo as árvores que tinham
as curvas adequadas para fazer os elementos estruturais e eram necessárias centenas delas para
construir
um navio.
Além disto,
c a d a p a rt e da embarcação
precisava de
uma espécie
vegetal diferente e estas espécies Adequação da madeira
Fonte: O Arsenal de Marinha do Rio
não eram as de Janeiro na História (1783-1822)
mesmas em de Juvenal Greenhalg
cada região.
A que servia para mastros não podia ser utilizada
em costado, a que era boa para a parte submersa
do casco nem sempre servia para conveses, por
exemplo.
As galés, que eram construídas pelo método de
"costado rígido", tinham as formas do casco muito
semelhantes. Isto resultava do método empregado, de construir o costado primeiro, que até nem
precisava de um projeto. O problema do método
de "costado rígido" é que ele não permite construir um navio exatamente com a forma do casco
desejada por um projetista, para que ele possa ter
maior capacidade de carga e suportar melhor a navegação no oceano.
2

Foi preciso desenvolver um método que permitisse controlar a forma do casco durante a construção, para que ele pudesse enfrentar melhor as
grandes ondas do oceano. Isso se resolveu construindo primeiro a estrutura. A quilha e as cavernas do navio são montadas em primeiro lugar, formando o que parece ser o "esqueleto" do navio.
Depois é que se montam as tábuas do costado, fixando-as aos elementos estruturais. Este método
é chamado de "esqueleto rígido".
3

Nau São Sebastião em construção no Arsenal
de Marinha da Corte em 1764
Desenho de Armando Pacheco
Fonte: O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro
na História (1783-1822) de Juvenal Greenhalg

18

Os navios de madeira: construindo
embarcações e navios
O primeiro método de construção de embarcações, utilizado
desde a canoa de tábuas, é chamado de "costado rígido". Construíase primeiro o costado da embarcação, juntando as tábuas pelas
bordas e, depois, acrescentavam-se, os reforços estruturais
internos e externos. O costado podia ser liso ou trincado, conforme
se juntavam as tábuas, topo a topo ou sobrepondo suas bordas. O
resultado deste método é um casco resistente, com ênfase
estrutural no costado, bom para resistir a colisões e para encalhar,
se necessário, nas praias. Ainda hoje se constroem pequenas
embarcações assim e, na Antigüidade, era como se construíam
as galés.
As galés eram
embarcações movidas
principalmente por
remos, algumas com
muitos remadores,
embora pudessem
também ter velas.
Foram muito utilizadas
por povos navegadores
do passado, como os
cretenses, os gregos, os
Modelo de galé trirreme grega
romanos, os bizantinos
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
e os nórdicos.
Chama-se de navio uma embarcação grande. Há mais de
dois mil anos, já se construíam navios. Empregava-se a madeira,
pois ela foi o primeiro material que se mostrou mais adequado
para a construção naval.2 Somente após o desenvolvimento industrial
alcançado no século XIX, há cerca de 150 anos, é que o ferro e,
depois, o aço, passaram a ser matérias-primas importantes para a
construção naval.
Chegou-se ao método de "esqueleto rígido"3 após uma longa
evolução que durou mais
de mil anos, passando por
métodos chamados de híbridos, em que algumas
cavernas eram montadas
antes do costado, para
possibilitar algum controle
da forma final do casco.
Embora o método de
esqueleto rígido tivesse se
desenvolvido no litoral do



Mar Mediterrâneo (fora de Portugal), ele foi empregado pelos
portugueses para construir os navios que iniciaram, no século
XV, a aventura das Grandes Navegações, que não somente levou
ao Descobrimento do Brasil, mas também transformou o
mundo. Os oceanos, que antes eram obstáculos entre os povos
da Terra, tornaram-se vias de comunicação entre eles.

Península Ibérica representa hoje Portugal e
Espanha.
4

Desenho da quilha e
de outras partes de uma
caravela de 12 rumos

Figuras do casco, cobertas
e lemes de uma caravela
de 12 rumos

Modelo de galeão de
300 toneladas

Modelo de
Caravela de
três mastros.
Acervo do
Serviço de
Documentação
da Marinha

Fonte: Livro das Traças de Carpintaria de Manuel Fernandez
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

O desenvolvimento dos
navios portugueses
As caravelas provavelmente tiveram sua origem em
embarcações de pesca, que já existiam na Península Ibérica4 desde
o século XIII. Tinham, em geral, velas latinas5. As velas latinas são
próprias para navegar com qualquer vento e, por isso, adequadas
às explorações da costa da África. Principalmente foi com as
caravelas que os portugueses exploraram o litoral africano durante
o século XV. Devido ao desenvolvimento dos navios e de técnicas
e instrumentos náuticos foi possível chegar ao extremo sul do
continente africano, ao Cabo da Boa Esperança, permitindo
contornar a África, passando do Oceano Atlântico para o Oceano
Índico, e chegar ao Oriente.
A partir de então apareceu a nau, navio maior destinado à
navegação e ao transporte de mercadorias. Tem-se notícias que
naus de três mastros, com o velame completamente desenvolvido,
eram utilizadas pelos portugueses desde o século XV6.
Por se enfatizar a prática mercantil, as naus eram mal armadas
militarmente, levando poucos canhões para sua defesa e das rotas
marítimas que comandavam, abrindo espaço para a concorrência
estrangeira. Até então Portugal vinha utilizando caravelas bem
armadas como navio de guerra, mas, desde o início do século XVI,
sentira a necessidade de desenvolver o galeão, navio de guerra
maior e com mais canhões, para combater os turcos no Oriente
e os corsários 7 e piratas europeus ou muçulmanos no Atlântico.
O galeão foi a verdadeira origem do navio de guerra para
emprego no oceano. Foi construído para fazer longas viagens
e combater longe da Europa.

A vela latina é a que tem a verga longitudinal à
linha de centro do navio, como as dos pequenos
barcos a vela que atualmente competem nas
regatas.
5

Suas velas principais têm as vergas transversais à
linha de centro do navio e têm a forma de um
trapézio, mas são chamadas de redondas. O nome
não tem a ver com seu formato, mas com o fato de
serem semelhantes às velas dos navios mercantes
da Antigüidade, chamados de navios redondos (que
eram muito largos, ou, em linguagem marinheira,
tinham uma boca grande em relação a seu comprimento). A vela redonda era boa com vento de popa,
mas exigia ângulos bem mais abertos do que a vela
latina quando navegando contra o vento.
6

Modelo de Nau
Acervo do Serviço de Documentação
da Marinha
Navio Corsário ­ Navio, com manutenção, armamento e operação a cargo de particular, que recebia autorização de um país em conflito, através do
documento chamado Patente de Corso, para operar sob sua bandeira exclusivamente contra os inimigos do concedente, atacando o comércio marítimo do adversário e, eventualmente, depredando
estabelecimentos terrestres. Sustentava-se com o
que fosse conseguido nos apresamentos, o que
tornava a operação um "negócio".
7

19



Modelo de Galeão do século XVI
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

O desenvolvimento da navegação
oceânica: os instrumentos e
as cartas de marear

Bússola ou agulha de marear
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

20

Para que Portugal pudesse realizar a expansão marítima
efetiva nos séculos XV e XVI foi preciso que se aperfeiçoasse a
navegação, de modo a que se tornasse transoceânica e não apenas
costeira, como se praticava.
Quando começaram as Grandes Navegações, já eram
conhecidos a bússola, inventada pelos chineses, também chamada
de agulha de marear ou agulha magnética, e, dentre os instrumentos
de observação, o astrolábio.
A bússola é composta por uma agulha
imantada que se alinha em função do campo
magnético natural da terra, podendo-se
saber a direção em que está o pólo norte
magnético, propiciando ao navio traçar seu
rumo, sua direção.
Para saber exatamente a posição em
que se está em relação ao globo
terrestre, é necessário calcular a latitude
e a longitude do local. O cálculo prático
da longitude, a bordo de navios, depende
de se conhecer, com precisão, a hora.
Porém, a inexistência de relógios
(cronômetros) que não fossem afetados pelos
movimentos do navio causados pelas ondas fez
com que a hora não pudesse ser calculada no mar
até o século XVIII, quando foram desenvolvidos
cronômetros adequados para serem utilizados a bordo dos
navios. A latitude não era difícil de se calcular e era através dela



e da estimativa de quanto o navio havia se deslocado, que
os navegadores da época das Grandes Navegações sabiam
aproximadamente onde estavam. Evidentemente, erros de
navegação ocorreram com conseqüências desastrosas.
No Hemisfério Norte, a estrela Polar, que ocupa uma posição
muito próxima do pólo norte celeste, permite nos crepúsculos ­
ao nascente e ao poente, quando se avista ao mesmo tempo o
horizonte e as estrelas de maior brilho no céu ­ um cálculo mais
seguro da latitude. Basta medir sua altura em relação ao horizonte.
Navegar mantendo a mesma altura significa manter a mesma
latitude. Deslocando-se para o Sul ou para o Norte, essa altura
varia. Era assim, e com a ajuda de umas pedras translúcidas que
polarizavam a luz nos dias nublados, que os nórdicos navegavam
sem agulha de marear. Viajando para o Oeste, alcançaram a
Islândia e a América do Norte (muitos séculos antes de
Cristóvão Colombo chegar à América em 1492).
No Hemisfério Sul, a estrela Polar, que marca o pólo norte
celeste, não é visível, e a estrela Alfa do Cruzeiro do Sul (a mais
brilhante desta constelação), que ocupa a posição no céu mais
próxima do pólo sul celeste, não está suficientemente próxima
para ser uma referência para a navegação. A melhor forma de
calcular a latitude nesse hemisfério era observando o Sol em sua
passagem meridiana, ou seja, medindo em graus sua altura, quando
ele passa pelo ponto mais alto do céu, no local onde se está. Os
navegadores da época das Grandes Navegações faziam isto muito
bem, utilizando instrumentos náuticos. O astrolábio era o mais
importante deles e servia, neste caso, para medir o ângulo entre o
Sol em sua passagem meridiana e a vertical. Outros instrumentos
utilizados mais tarde, como o quadrante e o sextante, mediam a
altura do Sol através do ângulo em
relação ao horizonte.
As cartas náuticas eram muito
imprecisas e passaram por um difícil
processo de desenvolvimento. As
que foram inicialmente elaboradas
pelos portugueses eram conhecidas
como portulanos. A partir do final do
século XVI, passou-se a utilizar a
Projeção de Mercator8. Esta projeção
Astrolábio
Acervo do Serviço de
é utilizada até os dias de hoje nas
Documentação da
cartas náuticas. Nela os meridianos
e paralelos são representados por linhas retas, que se interceptam
formando ângulos de 90 graus. Isto causa consideráveis distorções
nas latitudes mais elevadas, porém tem a vantagem de os rumos e
as marcações de pontos de terra serem linhas retas, facilitando a
plotagem nas cartas. Como a Terra é aproximadamente esférica

Gerardus Mercator, um importante fabricante de
mapas e cartas náuticas, nasceu em 1512, onde hoje
é território belga, e faleceu em 1594.
8

O astrolábio é um instrumento astronômico
inventado pelo grego Hiparco, no século II a.C., e
aperfeiçoado pelos astrônomos portugueses. Ele
se constituía de uma roda de madeira com escala
em graus, um pino central (a alidade) com orifícios
nas duas extremidades (as pínulas). O piloto fazia
a alidade girar até os raios do Sol atravessarem os
orifícios das pínulas. O número então indicado na
roda revelava a altura do sol acima do horizonte,
permitindo ao piloto estabelecer a latitude em que
seu navio se encontrava naquele momento.
Com o balanço, o astrolábio provocava erros na
medição da altura do Sol.

21



(na verdade um geóide), a distância mais curta entre dois pontos
não é uma linha reta na Projeção de Mercator, mas isto é somente
um pequeno inconveniente e a curva que representa a menor
distância pode ser calculada pelo navegador.

Compasso de ponta-seca e dois
compassos de cartear - um
completo e parte de outro - até
hoje usados para comparar
medidas e distâncias sobre
as cartas náuticas.

Relógio de sol, de algibeira, preciso
somente na latitude para
a qual foi construído.
O estojo de marfim continha,
originalmente, a rosa, a agulha
magnética e a escala horária com
gnômon rebatível, de bronze.

A vida a bordo dos navios veleiros

A vida a bordo dos navios veleiros era muito difícil. O trabalho
a bordo, com as manobras de pano, muitas vezes durante
tempestades, exigia bastante esforço físico e era arriscado. A
comida, sem possibilidade de se ter uma frigorífica, era deficiente,
principalmente em vitaminas, o que causava doenças como o
beribéri (pela carência de vitamina B) e o escorbuto (carência de
vitamina C). Durante os longos períodos de mau tempo, não havia
como secar as roupas. A higiene a bordo também deixava muito a
desejar. Muitos morreram nas longas viagens oceânicas.
Cabe observar que a vida em terra também não era fácil. O
trabalho podia ser fatigante e o ambiente insalubre. Desconheciase a causa de muitas doenças. Havia pouco conhecimento sobre
uma dieta alimentar adequada, a medicina da época era muito
deficiente e os antibióticos ainda não existiam. Morria-se por
infecções causadas por bactérias, que seriam curadas sem grandes
dificuldades nos dias de hoje.
O escorbuto merece destaque, pois foi uma doença que
causou a morte de muitos marinheiros nas longas estadias no mar,
quando a dieta dependia apenas de peixe, carne salgada e biscoito
(feito de farinha de trigo, o último alimento que se deteriorava a
bordo dos veleiros). O escorbuto é causado pela falta de vitamina
C na dieta. As gengivas incham e sangram, os dentes perdem sua
fixação, aparecem manchas na pele, sente-se muito cansaço. Com
o tempo, vem a morte. Em uma viagem da Marinha inglesa (força
naval comandada pelo Comodoro George Anson), em 1741, dos
dois mil homens que partiram da Inglaterra, somente 200

22



regressaram. A maioria morreu por causa do escorbuto. Por volta
de 1800, descobriu-se que esse mal poderia ser evitado
acrescentando à dieta suco de limão, rico em vitamina C, pois sua
ingestão diária, em pequenas doses, evita o escorbuto, tornando
mais saudável a vida a bordo dos navios.

23



A Expansão Marítima Européia
e o Descobrimento do Brasil
Sinopse
Este capítulo aborda as condicionantes físicas e políticas que
levaram os portugueses a se aventurarem pelo "mar tenebroso" - como
antigamente era chamado o Oceano Atlântico - em busca de caminhos
alternativos para o comércio com o Oriente. Examinamos no capítulo
anterior o desenvolvimento da construção naval e dos instrumentos
náuticos que permitiram tal feito e agora vamos conhecer um pouco
da história de Portugal e de seus navegadores.
O pioneirismo português, ao assumir a liderança do processo
de expansão marítima européia no final do século XIV, encontra
explicação em dois acontecimentos decisivos: o país estava com suas
fronteiras estabelecidas, após as guerras da Reconquista (que resultou
na expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica) e firmava-se, então,
como o primeiro Estado europeu moderno, politicamente centralizado,
após a vitória militar contra os reinos vizinhos de Leão e Castela. Tal
processo de centralização do poder foi fator muito importante para
que o reino português pudesse lançar-se a aventura ultramarina, e
quebrar o monopólio exercido pelas cidades de Gênova e Veneza sobre
as rotas de comércio com a Ásia e estabelecer contato direto com as
fontes produtoras. Para isso, em muito contribuiu a estrutura naval já
existente, cujo desenvolvimento foi estimulado pela coroa portuguesa.
Na verdade, a expansão ultramarina ensejou uma aliança entre setores
mercantis e a nobreza, tendo o Estado o controle e direção de tal
empreendimento.
A primeira conquista portuguesa no ultramar foi a cidade de
Ceuta, ao norte da África onde hoje fica situado o Marrocos. Na
seqüência, Diogo Cão explorou a costa africana entre os anos de 1482
e 1485. Bartolomeu Dias atingiu o sul do continente africano e
ultrapassou o Cabo das Tormentas em 1487 (onde hoje fica a África do
Sul) que, após este acontecimento, passou a chamar-se Cabo da Boa
Esperança. Vasco da Gama, em 1498, chegou a Calicute, Sudoeste da
Índia, estabelecendo a rota entre Portugal e o Oriente. Em 1500, a
frota de Pedro Álvares Cabral chegou às terras do Brasil, consolidando
o império ultramarino português.
Descoberta as terras que Portugal denominou Brasil, tornou-se
imperioso seu reconhecimento e povoamento. Veremos, a partir daqui,

24



quais as expedições que partiram para o reconhecimento do litoral das
novas terras e as providências para povoá-la e defendê-la.
Como "Navegar é preciso", vamos partir para o reconhecimento
de novas terras...
As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram;...
Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,...
(Trechos de um dos poemas de Luís Vaz de Camões, da obra Os Lusíadas, editada em 1572).

Nau
Pintura a óleo de Carlos Kirovsky
Acervo do Clube Naval

25



Até o final da Idade Média não existiam nações
como Portugal, Espanha, França e Inglaterra,
por exemplo. Grande parte do território europeu naquela época era dividido em feudos governados por nobres (senhor feudal), onde os
indivíduos (vassalos) consideravam-se naturais
da cidade em que haviam nascido, como Londres, Lisboa, Madri. É importante saber que o
conceito de Nação e o de Estado não se confundem. O Estado é constituído por um conjunto
de instituições e poderes políticos tendo como
base um território. O conceito de Nação pode
ser definido como um agrupamento humano,
em geral numeroso, cujos membros, fixados
em um território, são ligados por laços históricos, culturais, econômicos e lingüísticos. Um
Estado pode ser formado por várias nações,
como o caso da ex-União Soviética e da antiga
Iugoslávia.
1

Fundamentos da organização
do Estado português e a
expansão ultramarina

A condição fundamental para o processo de formação das
nações européias1 foi a crise do feudalismo, que teve início em
meados do século XIII. Esta crise foi resultante da relativa paz que
vivia o continente europeu, que permitiu a criação dos burgos (fora
dos limites do senhor feudal, que lhes
dava proteção em troca da
vassalagem), que viriam a se
transformar em vilas ou cidades com
relativa autonomia. Isto provocou o
enfraquecimento dos senhores
feudais, reduzindo o poder da nobreza
e, conseqüentemente, abrindo espaço
para a retomada do poder político
pelos reis.
REINO
Os soberanos, à medida que
REINO DE CASTEL
DE
obtinham recursos financeiros, em
PORTUGAL
troca de privilégios, fortaleciam seus
exércitos e submetiam os antigos
feudos e as novas vilas e cidades à sua
autoridade, incorporando esses
territórios ao que viria ser seus reinos.
Era o embrião do futuro Estado
REINO DE GR
Nacional.
Intensas lutas precederam e
OCEANO
consolidaram o Estado português.
CEUTA
ATLÂNTICO
Iniciou com a expulsão dos mouros da
Península Ibérica em 1249 (os
ÁFRICA
mouros invadiram a Península Ibérica
no ano de 711 2 ), no movimento
denominado Reconquista, quando Portugal consolidou seu
território e firmou-se como "o primeiro Estado europeu
moderno", segundo o historiador Charles Boxer. Mas somente
após a vitória sobre os Reinos de Leão e Castela, em 1385, na
Batalha de Aljubarrota, e a assinatura do tratado de paz e aliança
perpétua com o Reino de Castela, em 1411, a paz foi selada.
Portugal iniciou seu processo de expansão ultramarina
conquistando aos mouros a cidade de Ceuta, no norte da África.
A partir daí, virou-se para o mar, onde se tornou dominante. Como
não poderia deixar de ser, esta empreitada envolveu somas
altíssimas e, para financiá-la, a coroa portuguesa se valeu do
aumento de impostos e recorreu a empréstimos de grandes
comerciantes e banqueiros (inclusive italianos).

.

Tarik
Fonte: http://pt:wikipedia.org
A 30 de abril de 711, o exército de Tarik,
general berbere muçulmano, desembarcou no
rochedo que posteriormente se chamou Djebel
el-Tarik, ou seja, Monte de Tarik, e que hoje é
conhecido como Gibraltar. Depois de ter todo o
exército em terra, conta-se que mandou queimar os navios e disse aos seus soldados:
"Irmãos pelo Islã! Temos agora o inimigo pela
frente e o mar profundo por detrás. Não podemos voltar para o nosso lar porque queimamos
os nossos barcos. Agora só nos resta derrotar o
inimigo ou morrer de forma covarde, afogandonos no mar. Quem me seguirá?"
2

26

LLA

RANADA

A região que hoje é conhecida como Portugal foi
originalmente habitada por populações iberas de origem indoeuropéia. Mais tarde, foi ocupada, sucessivamente, por fenícios
(século XII a.C.), gregos (século VII a.C.), cartagineses (século III
a.C.), romanos (século II a.C.) e, posteriormente, pelos visigodos
(povo germânico, convertido ao cristianismo no século VI),
desde 624.
Em 711, a região foi conquistada
pelos muçulmanos, impulsionados por
sua política de expansionismo, tendo
como base uma coligação formada por
REINO DE
NAVARRA
árabes, sírios, persas, egípcios e
berberes, estes em maioria, todos
unidos pela fé islâmica e denominados
mouros. Quase a totalidade da
REINO DE
península caiu em mãos dos mouros
ARA GÃ O
que, em seu avanço, só foram
bloqueados quando tentaram invadir a
França.
A resistência aos invasores só
ganhou força a partir do século XI,
após a formação dos reinos cristãos ao
norte, como Leão, Castela, Navarra e
MAR
Aragão. A guerra deflagrada contra os
MEDITERRÂNEO
mouros contou com o apoio de grande
parte da aristocracia européia,
atraída pelas terras que a conquista
lhes proporcionaria.
Durante o reinado de Afonso VI
Península Ibérica
(1069-1109),
de Leão e Castela,
após a consolidação
a partir de 1072, dois nobres
do Estado português
franceses ­ Raimundo e Henrique de
Borgonha ­ receberam como recompensa pelos serviços
prestados na campanha a mão das filhas do rei, além de terras
como dote. D. Raimundo recebeu as terras a norte do Rio Minho,
o Condado de Galiza, e D. Henrique o Condado Portucalense.
Estas terras não se constituíam em reinos independentes e seus
proprietários deviam prestar vassalagem ao rei de Leão.
A origem do próprio Estado português se deu com a
formação do Condado Portucalense, sob o domínio de D. Henrique
de Borgonha. Este nobre, tendo o senhorio de ampla região entre
os Rios Minho e Mondego, procurou reforçar, através da luta contra
os mouros, seu poderio sobre os demais senhores de terras
daquela área, bem como conseguir autonomia frente aos



Lusitânia

27



Uma carta régia de 13 de dezembro de 1143
colocou o novo reino sob a proteção da Santa
Sé, o que lhe garantia a mediação do papado em
caso de ruptura do Tratado de Zamora e a criação de bispados sem interferência leonesa. Esse
processo se concluiu em 1179, quando o Papa
Alexandre III, pela bula Manifestis Probatum,
de 23 de maio do mesmo ano, reconheceu
Dom Afonso Henriques como rei de Portugal.
3

interesses do vizinho Reino de Leão, a cujo soberano, como já foi
dito, devia vassalagem.
O caráter inicial da formação dos reinos ibéricos, definido
pelos aspectos militar e religioso desenvolvidos nas lutas contra
os mouros, marcou as tendências principais da constituição
desses Estados.
De um lado, o processo de expulsão do inimigo muçulmano
deu prioridade ao aspecto militar, o que criou a necessidade de
unificação do comando das forças cristãs, papel exercido pelos
senhores de terras mais poderosos das diversas regiões da
península. Por outro lado, o profundo caráter religioso tomado
pela Reconquista, identificada com as cruzadas contra os infiéis
muçulmanos, fez com que a Igreja de Roma tivesse grande interesse
no sucesso das forças cristãs.
As vitórias alcançadas pelos exércitos de D. Henrique
mostraram à Santa Sé a importância que estes vinham adquirindo
no sucesso das lutas militares. Assim, os interesses do senhorio do
condado e os do papado iam aos poucos convergindo para o
reconhecimento da autonomia portucalense ante o Reino de Leão.
O Tratado de Zamora, firmado em 1143 entre o Duque
portucalense D. Afonso Henriques (1128-1185), filho de Henrique
de Borgonha, e D. Afonso VII, imperador de Leão, determinou o
reconhecimento por parte deste último da independência do antigo
condado, agora Reino de Portugal.3
Os diferentes reinos cristãos

Mapa da evolução da Reconquista cristã
Fonte: http://pt:wikipedia.org

28

Outro fator a ser ressaltado diz respeito às ordens militares
(ordens de cavalaria sujeitas a um estatuto religioso e que se
propunham a lutar contra os mulçumanos) no processo da
Reconquista. Tais ordens, fundadas com o intuito de auxiliar os
doentes e peregrinos que iam à Terra Santa e, sobretudo, para
combater militarmente os adeptos da fé mulçumana, participaram
das batalhas contra os mouros na Península Ibérica.
Seus contingentes, em muitos casos, formaram a base dos
exércitos cristãos. Em conseqüência dessa atuação, várias ordens
receberam doações de terras nos reinos ibéricos. Em Portugal, as
ordens dos Templários, de Avis e de Santiago foram as mais
beneficiadas por tais privilégios.
As ordens, no entanto, não se destacaram apenas pelo seu
aspecto militar. Contribuíram significativamente para o povoamento
do território português, a partir das regiões que lhes foram
distribuídas. Em torno de castelos e fortalezas, com efeito,
desenvolveram atividades agrícolas que levaram à fixação da
população.
Além disso, foi igualmente importante nesse processo de
ocupação territorial a participação das ordens religiosas cujos
membros não atuavam das lutas militares. Os mosteiros e capelas
destas ordens, dentre as quais se destacou a dos beneditinos,
tornaram-se pólos de atração pela segurança que ofereciam a
inúmeras famílias. Da mesma forma, desde a Reconquista, as ordens
tomaram a peito a colonização de zonas desertas ou dizimadas
pela guerra, criando novos focos de povoamento e estimulando a
exploração da terra.



Ordens militares e religiosas

Ilustração de uma batalha na fase da Reconquista
Fonte: http://pt:wikipedia.org

O papel da nobreza
Além de setores diretamente ligados à Igreja, assinala-se
também intensa vinculação da nobreza portucalense na formação
do Estado Nacional lusitano. Este setor social, cujo poder se
originava na propriedade da terra, também participou de forma
decisiva nas guerras da Reconquista, apoiando o esforço militar da
realeza. Esta, num primeiro momento, concedeu privilégios
bastante amplos à nobreza. Mais tarde, contudo, pretendeu limitar
tais privilégios, impondo medidas que beneficiavam a centralização
do poder.
Uma das providências tomadas nesse sentido foi a autonomia
concedida pelo poder central aos concelhos (que correspondem
aos municípios nos dias de hoje), onde começavam a ter influência
as aspirações de comerciantes e mestres de ofício. O apoio do rei
aos concelhos visava a enfraquecer o poder da nobreza fundiária
em sua própria base territorial, impedindo assim que os senhores

29



Durante o reinado de D.Dinis foi publicado código
voltado para a proteção das classes menos
favorecidas contra abusos de poder, e estimulada
uma "reforma agrária" que incluiu a redistribuição
de terras e fundação de várias comunidades rurais.
A cultura foi um de seus interesses pessoais e,
como apreciador da literatura, escreveu vários livros abordando temas como administração e vários
volumes de poesia. Nesse período, Lisboa foi considerada um importante centro cultural, culminando com a fundação da Universidade de Coimbra
pela Magna Charta Priveligiorum.
4

de terras fizessem prevalecer livremente seus interesses nas áreas
que comandavam, sem levar em conta as determinações régias.
Outro mecanismo de limitação do poder da nobreza
foi o estabelecimento das inquirições. A partir de uma
interrupção nas lutas militares contra os mouros, entre os séculos
XII e XIII, a coroa portuguesa buscou avaliar a situação da
propriedade de terras no reino.
Durante a Reconquista, a nobreza laica e eclesiástica
aproveitou-se da falta de controle régio para alargar seus domínios
territoriais e privilégios, prejudicando em alguns casos os direitos e
rendimentos da coroa. Para coibir tal situação, o poder real utilizouse das inquirições, pelas quais se formavam comissões de
inquérito (alçadas) a fim de investigar se os direitos reais
devidos estariam sendo cumpridos e até mesmo verificar o direito
legal às propriedades.
Tal mecanismo se completava com as confirmações, processo
pelo qual o rei sancionava não só a propriedade da terra como o
próprio título nobiliárquico do senhor em questão. Esses poderes
submetiam, de certa maneira, a nobreza eclesiástica e civil à coroa,
já que passavam a depender desta para a preservação tanto do
título quanto da propriedade.

A importância do mar na formação de Portugal

D. Dinis
Fonte: http://pt:wikipedia.org

Paralelamente aos problemas político-territoriais apontados,
é digno de destaque que, além da agricultura, o comércio marítimo
e a pesca eram as mais importantes atividades praticadas em
Portugal, país de solo nem sempre fértil e produtivo. A atividade
pesqueira destacou-se como fundamental para complemento da
alimentação de sua população.
Situado em posição geográfica estratégica, à beira do Oceano
Atlântico e próximo ao Mediterrâneo, era de se esperar que
desenvolvesse grande devotamento à navegação e,
conseqüentemente, à construção naval. Natural, também, que a
Marinha portuguesa fosse utilizada em caráter militar, o que ocorreu
a partir do século XII.
No reinado de D. Sancho II (1223-1245) podem ser
assinaladas as primeiras tentativas de implantação de uma frota naval
pertencente ao Estado, ordenando, inclusive, a construção de locais
específicos nas praias para reparo de embarcações.

Desenvolvimento econômico e social
Durante o reinado de D. Dinis (1279-1325)4, sexto rei de
Portugal (primeiro a assinar documentos com nome completo e,
presumidamente, primeiro rei não analfabeto daquele país),
iniciativas bastante relevantes foram adotadas para o fomento da

30



cultura, da agricultura, do comércio e da navegação. Denominado
O Lavrador ou Rei Agricultor e ainda Rei Poeta ou Rei Trovador, D.
Dinis foi um monarca essencialmente administrador e não
guerreiro. Envolvendo-se em guerra contra Castela, em 1295,
desistiu dela em troca das Vilas de Serpa e Moura. Pelo Tratado de
Alcanizes (1297) formou a paz com Castela, ocasião em que foram
definidas as fronteiras atuais entre os países ibéricos.
Preocupado com a infra-estrutura do país, ordenou a
exploração de minas de cobre, estanho e ferro, fomentou as trocas
comerciais com outros países, assinou o primeiro tratado comercial
com a Inglaterra, em 1308, e instituiu a Marinha Real. Nomeou
então o primeiro almirante (que se tem conhecimento) da Marinha
portuguesa, Nuno Fernandes Cogominho, para cuja vaga foi
contratado, em 1317, o genovês Pezagno (ou Manuel Pessanha).
Data dessa época a chegada dos portugueses às Ilhas Canárias.
Deve-se também à sua iniciativa a intensificação da
monocultura do pinheiro bravo (Pinhal de Leiria), em princípio,
com a finalidade de criar uma barreira vegetal que protegesse as
terras agrícolas do avanço das areias costeiras e, também, como
reserva florestal para o fornecimento de madeira destinada à
construção naval e à exportação.
O cultivo era extremamente racional: sempre que havia corte
de árvores, novas mudas eram plantadas de imediato, recorrendose a enormes sementeiras 5 . Esta ação manteve o pinhal
praticamente intacto e foi bastante utilizado durante os séculos
XV e XVI, no período dos descobrimentos marítimos. Além de
fornecer madeira para a construção naval, o pinho fornecia um
subproduto importantíssimo para conservação e calafeto dos cascos
das embarcações: o chamado pez, alcatrão vegetal de grande poder
de vedação. É notável que o Pinhal de Leiria exista até os dias de
hoje, constituindo uma das maiores manchas naturais da região do
norte do distrito de Leiria.
No reinado de D. Fernando I (1367-1383), último soberano
da dinastia de Borgonha, foi baixada a Lei de Sesmarias, de 28 de
maio de 1375. Tendo como medida coercitiva mais rígida a
expropriação das terras não produtivas, essa lei foi mais uma
tentativa de solucionar a carência de mão-de-obra no campo,
causada pela fuga das populações para os centros urbanos, devido
à peste negra6. O resultado foi uma séria crise de abastecimento
de gêneros alimentícios no reino.
A Lei de Sesmarias, que mais tarde seria aplicada no Brasil,
teve pouco efeito prático. Seus artigos, apesar de conterem
ameaças aos proprietários de terras, atuaram no sentido de
fortalecê-los, pois obrigavam os trabalhadores a permanecerem
nos campos, mesmo em troca de baixa remuneração.
Ainda durante o reinado de D. Fernando I, a construção naval
recebeu grande incentivo, mediante a isenção de impostos e a

Hoje, técnica muito parecida é defendida por
ambientalistas para ser implantada na exploração de
madeira da região amazônica, considerada internacionalmente como "ecologicamente correta".
5

Durante o reinado de Dom Afonso IV (13251357), Portugal foi atingido pela peste negra
(peste bubônica, transmitida pelas pulgas que
infestam ratos). Esta foi a maior, a mais trágica
epidemia que a História registra, tendo produzido um morticínio sem paralelo. Foi chamada
peste negra pelas manchas escuras que apareciam na pele dos enfermos. Como outras epidemias, teve início na Ásia Central, espalhando-se
por via terrestre e marítima em todas as direções. Em 1334 causou 5 mil mortes na Mongólia e
no norte da China. Houve grande mortandade na
Mesopotâmia e na Síria, cujas estradas ficaram
juncadas de cadáveres dos que fugiam das cidades. No Cairo os mortos eram atirados em
valas comuns e em Alexandria os cadáveres
ficaram insepultos. Calcula-se em 24 milhões
o número de mortos nos países do Oriente.
Em 1347 a epidemia alcançou a Criméia, o arquipélago grego e a Sicília. Em 1348 embarcações
genovesas procedentes da Criméia aportaram
em Marselha, no sul da França, ali disseminando
a doença. Em um ano, a maior parte da população de Marselha foi dizimada pela peste. Em
1349 a peste chegou ao centro e ao norte da
Itália e dali se estendeu a toda a Europa.
Em sua caminhada devastadora semeou a desolação
e a morte nos campos e nas cidades. Povoados
inteiros se transformaram em cemitérios. Calculase que a Europa tenha perdido a metade de sua
população. Em Portugal, o impacto da epidemia também foi muito grande, tendo como conseqüência
natural a drástica redução da mão-de-obra em todos os níveis. Os trabalhadores que sobreviveram exigiram salários superiores aos que vigoravam antes da peste, gerando forte reação dos proprietários de terras, que apelaram para o rei. Como resultado, o Rei Afonso IV (1325-1357), em 1349, ordenou que os
proprietários e autoridades competentes determinassem as medidas necessárias: foram
fixados salários abaixo do que os trabalhadores esperavam; tornaram obrigatória a aceitação da proposta por todos os trabalhadores
e também obtiveram o direito de recrutar a
mão-de-obra à força. Apesar deste elenco de
medidas, passados três anos, os proprietários de terras permaneciam insatisfeitos com
as dificuldades de recrutar trabalhadores pelo
salário fixado. Em face do insucesso das medidas coercitivas, agravou-se a crise de abastecimento no país.
6

31



Porém, o estabelecimento de um novo imposto, a
sisa, ao incidir sobre as trocas comerciais realizadas
no Reino, constituiu a principal fonte de recursos
para o Tesouro Real. A coroa, em conseqüência,
estabeleceu uma política de incentivo às atividades
mercantis. No entanto, se esta política de fato beneficiou o setor mercantil único capaz de, naquele
momento, propiciar o sustento da nobreza, por
outro lado o subordinou aos próprios interesses do
Estado. Do mesmo modo, as decisões quanto aos
investimentos na empresa mercantil marítima eram
tomadas por funcionários reunidos nos diversos
conselhos régios, e não pelos diretamente envolvidos na questão.
7

32

concessão de vantagens e garantias aos construtores navais, tais
como a autorização aos construtores de embarcações com mais
de cem tonéis que cortassem a madeira necessária nas matas reais
com isenção de impostos. Também ficou isenta de impostos, a
matéria-prima importada destinada à construção naval. Em 1380,
o monarca criou a Companhia das Naus, que funcionava como
uma empresa de seguros destinada a evitar a ruína financeira dos
homens do mar. Como resultado, incrementaram-se o comércio
marítimo, a exportação de produtos da agricultura e a importação
de tecidos e manufaturas. As rendas da Alfândega de Lisboa,
considerado porto franco, aumentaram significativamente e era
intensamente freqüentado por estrangeiros.
Outra importante iniciativa de D. Fernando foi a instalação
da Torre do Tombo, o Arquivo Nacional Português, onde se
guardavam documentos importantes que preservavam a memória
e a história de Portugal. Foi-lhe dado este nome porque ficava
sediado numa torre do Castelo de São Jorge, e tombo, porque
significava lançar em livro, inventariar, registrar.
D. Fernando I envolveu-se em três guerras contra Castela e
passou a ser malvisto pela opinião pública por seu casamento com
Dona Leonor Teles (cujo casamento anterior fora anulado). Após
a morte de D. Fernando, os portugueses não aceitaram a regência
da rainha viúva em nome da filha, a Infanta Dona Beatriz, casada
com um potencial inimigo, o rei de Castela. Este fator, somado à
continuidade da crise de abastecimento, deflagrou a Revolução de
Avis.
Após deliberação das Cortes, foi aclamado rei o Mestre da
Ordem de Avis, D. João I (1385-1433), filho bastardo do oitavo rei
de Portugal D. Pedro I (1357-1367), a quem caberia inaugurar uma
nova dinastia.
Vitoriosa em Lisboa, a revolta transformou-se em movimento de
fidalgos e plebeus em guerra contra Castela, cujo rei declarou
pretensão à coroa portuguesa. Os castelhanos foram vencidos
em várias batalhas e, embora tenham bloqueado Lisboa, foram,
afinal, fragorosamente derrotados na Batalha de Aljubarrota (1385).
A paz só foi selada em 1411.
Outra conseqüência importante dos fatos apontados foi a
renovação da aristocracia portuguesa. Os setores que haviam
apoiado Castela tiveram seus bens confiscados pela coroa, a qual
os doou em parte aos seus aliados. Com tal divisão na nobreza,
houve até mesmo casos em que pais perderam os bens para seus
próprios filhos.
Além disso, o apoio dos grupos mercantis a D. João I fez
com que as aspirações de tais grupos passassem a ser valorizadas
pelo poder régio. A situação econômica do reino, ao sair
vitoriosa da revolução, era uma das mais graves. A alta do custo
de vida e a queda do valor da moeda colocaram o tesouro
português em situação bastante difícil.7



A nobreza também teve suas bases de poder atingidas pelo
movimento de centralização régia, com a colocação em prática da
Lei Mental. Por meio dessa lei, baixada por D. Duarte (1433-1438)
em 8 de abril de 1434, os bens doados pela coroa à nobreza só
poderiam ser herdados pelo filho varão legítimo mais velho. Isso
permitiu à coroa retomar uma série de propriedades antes doadas
às famílias nobres, reforçando seu poder e, de alguma maneira,
minando as bases do poderio senhorial.
Tal processo de centralização do poder foi o elemento
essencial que permitiu ao reino português lançar-se na expansão
ultramarina. Deve-se destacar ainda que os limites da extração das
rendas obtidas com a agricultura fizeram a coroa voltar seus olhos
às atividades comerciais e marítimas.
O monopólio exercido pelas cidades italianas de Gênova e
Veneza sobre as rotas de comércio com a Ásia levou os grupos
mercantis portugueses a procurar outra alternativa para a realização
de seus negócios e, conseqüentemente, para obtenção de lucros.
A saída seria a tentativa de contato direto com os comerciantes
árabes, evitando o intermediário genovês ou veneziano. Para isso
muito contribuiu a estrutura naval já existente no reino, cujo
desenvolvimento foi estimulado pela coroa.
A expansão marítima portuguesa caracterizou-se por duas
vertentes. A primeira, de aspecto imediatista, realizada ao norte
do continente africano, visava à obtenção de riquezas acumuladas
naquelas regiões através de prática de pilhagens. A tomada de Ceuta,
no norte da África (Marrocos), em 1415, seria um dos exemplos
mais representativos deste tipo de empreendimento e marca o
início da expansão portuguesa rumo à África e à Ásia8.
Em menos de um século, Portugal dominou as rotas
comerciais do Atlântico Sul, da África e da Ásia, cuja presença foi
tão marcante nesses mercados que, nos séculos XVI e XVII, a língua
portuguesa era usada nos portos como língua franca ­ aquela que
permite o entendimento entre marinheiros de diferentes
nacionalidades. Na segunda vertente, o objetivo colocava-se mais
a longo prazo, já que se buscava conquistar pontos estratégicos
das rotas comerciais com o Oriente, criando ali entrepostos
(feitorias) controlados pelos comerciantes lusos. Foi o caso da
tomada das cidades asiáticas. Tal modo de expansão também ficou
marcado pelo aspecto religioso (cruzadas), pois mantinha-se a idéia
de luta cristã contra os muçulmanos.9
A expansão ultramarina permitiu, assim, uma convergência
de interesses entre os setores mercantis e a nobreza, tendo o
Estado o papel de controle e direção de tal empreendimento. O
monopólio do comércio dos produtos asiáticos e o tráfico de
escravos africanos (mão-de-obra para as regiões produtoras de
matérias-primas) enriqueciam não só os grupos mercantis, como
geravam vultosas receitas para o tesouro régio, as quais a coroa,

A mentalidade vigente na Europa no século XV se
caracterizava por uma visão do mundo desconhecido como alguma coisa muito perigosa. Acreditavase que nos oceanos viviam monstros terríveis, correntes traiçoeiras e intransponíveis à espera dos
marinheiros. Uma mistura de conhecimentos geográficos com crendices e lendas que atormentava
os homens do mar. Quando os navegadores dobraram o Cabo Bojador no reconhecimento da costa
africana, isto foi considerado um grande feito, tendo em vista a visão existente do que existiria além
naquele mar desconhecido. Doze anos levaram os
portugueses na tentativa de ultrapassá-lo. Os cronistas da época assim se referiam: "Depois deste
cabo não há gente ou povoação alguma; a terra não
é menos arenosa que os desertos da Líbia, onde
não há água, nem árvore, nem erva verde; e o mar
é tão baixo, que a uma légua de terra não há fundo
mais que uma braça. As correntes são tamanhas
que o navio que lá passe jamais nunca poderá
tornar...Ora qual pensais que havia de ser o capitão
de navio a que pusessem semelhantes dúvidas diante, e mais por homens a que a razão de dar fé e
autoridade em tais lugares, que ousasse de tomar
tal atrevimento, sob tão certa esperança de morte
como lhe ante os olhos se apresentaram?"Nessa
época vivia-se muito pouco se compararmos com
os dias de hoje. A média de vida era de 30 anos, e
um homem saudável de 60, uma raridade. Daí talvez o fato de indivíduos assumirem a vida do mar
motivados pelo espírito aventureiro e também conscientes da grande incerteza de retorno.
8

Ordem de Cristo
É necessário ressaltar a importante atuação das
ordens militares no processo de expansão ultramarina, especialmente da riquíssima Ordem de Cristo. Constituída em 1319, com os bens lusitanos
pertencentes à Ordem dos Templários (1119-1311),
a Ordem de Cristo tornou-se aos poucos detentora de um grande poder no reino, o que despertou
o interesse da coroa em absorver suas posses,
quando do movimento, já referido, de centralização
político-administrativa. Mais tarde, a obtenção do
grão-mestrado da Ordem de Cristo por Dom João
III (1521-1557), em 1522, permitiu ao monarca
garantir a si próprio os poderes oriundos da influência da própria ordem.
9

33



Vasco da Gama
Fonte: http://pt:wikipedia.org

34

em certa medida, repassava à nobreza através da doação de
mercês, bens móveis e de raiz, bem como de privilégios.
Cronologicamente e resumidamente, assim se deu o referido
processo expansionista:
· Entre 1421 e 1434, os lusitanos chegaram aos Arquipélagos da
Madeira e dos Açores e avançaram para além do Cabo Bojador.
Até esse ponto, a navegação era basicamente costeira.
· Em 1436 atingiram o Rio do Ouro e iniciaram a conquista da
Guiné. Ali se apropriaram da Mina, centro aurífero explorado pelos
reinos nativos em associação aos comerciantes mouros, a maior
fonte de ouro de toda a história de Portugal até aquela data.
· Em 1441, chegaram ao Cabo Branco.
· Em 1444, atingiram a Ilha de Arguim, no Senegal, onde instalaram
a primeira feitoria em território africano e iniciaram a
comercialização de escravos, marfim e ouro.
· Entre 1445 e 1461, descobriram o Cabo Verde, navegaram pelos
Rios Senegal e Gâmbia e avançaram até Serra Leoa.
· Entre 1470 e 1475, exploraram a costa da Serra Leoa até o Cabo
de Santa Catarina.
· Em 1482, atingiram São Jorge da Mina e avançaram até o Rio
Zaire, o trecho mais difícil da costa ocidental africana. O navegador
Diogo Cão explorou a costa da África Ocidental entre 1482 e 1485.
· No período 1487/1488, Bartolomeu Dias atingiu o Cabo das
Tormentas, no extremo Sul do continente ­ que passou a ser
chamado de Cabo da Boa Esperança ­ e chegou ao Oceano Índico,
conquistando o trecho mais difícil do caminho das Índias.
· Em 1498, Vasco da Gama chegou a Calicute, na costa Sudoeste
da Índia, estabelecendo a rota entre Portugal e o Oriente.
Durante o reinado de D. João II, iniciado em 1481, a
expansão ultramarina atingiu o auge com os feitos dos navegadores
Diogo Cão e Bartolomeu Dias. Abriram-se, desse modo, novas e
extraordinárias perspectivas para a nação portuguesa. O negócio
das especiarias do Oriente, levadas para a Arábia e para o Egito
pelos árabes e dali transportadas aos países europeus, por
intermédio de Veneza ­ que enriquecera com o tráfico ­, vai se
concentrar em novas rotas, deslocando o foco do comércio
mundial do Mediterrâneo para o Oceano Atlântico.
Foi justamente um genovês, Cristóvão Colombo, quem
abalou as pretensões de D. João II na sua política expansionista, ao
descobrir a América em 1492. No retorno de sua famosa viagem,
Colombo avistou-se com o rei de Portugal comunicando-lhe a
descoberta. Anteriormente, o mesmo Colombo já havia oferecido
seus serviços ao soberano português, que recusou a oferta baseado
em informações dadas pelos cosmógrafos do reino, levando o
genovês a dirigir-se a Castela, onde obteve apoio financeiro para
sua famosa viagem.



Abalado com as notícias trazidas por Colombo, D. João II
cogitou em mandar uma expedição em direção às terras recémdescobertas, convencido de que lhe pertenciam por direito. Pouco
depois, a questão foi arbitrada por três bulas10 do Papa Alexandre
VI, que concederam à Espanha os direitos sobre as terras achadas
por seus navegadores a ocidente do meridiano traçado a cem léguas
a oeste das Ilhas dos Açores e de Cabo Verde.
Os portugueses discordaram da proposta e novas
negociações resultaram na assinatura do Tratado de Tordesilhas
(cidade espanhola) em 7 de junho de 1494, que garantiu à coroa
portuguesa as terras que viessem a ser descobertas até 370 léguas
a oeste do Arquipélago de Cabo Verde. As terras situadas além
desse limite pertenceriam à Espanha.
D. João II morreu em 1495 e coube ao seu sucessor, D.
Manuel, dar continuidade ao projeto expansionista. Durante sua
gestão aconteceu a famosa viagem de Vasco da Gama, que partiu
do Rio Tejo em julho de 1497, dobrou o Cabo da Boa Esperança,
transpôs o Rio Infante, ponto extremo da viagem de Bartolomeu

Documentos emitidos pelos papas de caráter
internacional e oficial.
10

Mapa das Grandes Navegações
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

35



Dias, reconheceu Moçambique, Melinde, Mombaça e, em maio
de 1498, após quase um ano de viagem, chegou a Calicute, na
Índia.
A façanha de Vasco da Gama colocou Portugal em contato
direto com a região das especiarias, do ouro e das pedras preciosas,
e, como conseqüência, a conquista do quase total monopólio de
tais produtos na Europa, abalando seriamente o comércio das
repúblicas italianas. A conquista da rota marítima para as Índias
assumiu, na época, importância revolucionária e suas conseqüências
imediatas empalideceram até mesmo o maior acontecimento da
história moderna das navegações: o descobrimento da América
por Cristóvão Colombo.

A descoberta do Brasil

Frota de Cabral
Livro das Armadas. c. 1568.
Academia das Ciências, Lisboa

36

Vasco da Gama retornou a Portugal
em julho de 1499 sob clima de grande
excitação motivado pela descoberta da
nova rota para a Índia. Pouco depois, a
9 de março de 1500, partiu em direção
ao oriente uma portentosa frota de 13
navios (dez provavelmente eram naus e
"três navios menores", que seriam
caravelas, incluída aí, uma naveta de
mantimentos).
De seu comandante, Pedro Álvares
Cabral, sabe-se que nasceu na Vila de
Belmonte em 1467 ou 1468, segundo
filho de Fernão Cabral, senhor de
Belmonte, e de Dona Isabel de Gouveia.
Na juventude teria prestado bons
serviços à coroa nas guerras da África e
por isso recebia 13.000 réis anuais. De
qualquer modo, sabe-se da dúvida de D.
Manuel na escolha do comandante da
expedição, que no primeiro momen-to
recaiu sobre Vasco da Gama.
Cabral teria na época cerca de 30
anos e levava consigo marinheiros
ilustres, como Bartolomeu Dias e
Nicolau Coelho, além de numerosa
tripulação, perto de 1.500 homens,
alguns degredados e oito frades franciscanos, os primeros religiosos mandados por Portugal a tais lugares.
Uma das recomendações feitas a



Cabral era que tivesse particular cuidado com o sistema de ventos
nas proximidades da costa africana, fruto da experiência de Vasco
da Gama. Na manhã do dia 14 de março, a frota atingiu as Ilhas
Canárias, fazendo 5.8 nós de velocidade média. No dia 22, avistou
São Nicolau, uma das ilhas do Arquipélago de Cabo Verde. Na
manhã seguinte, desgarrou a nau comandada por Vasco de
Ataíde, que foi procurada exaustivamente e dada como
perdida.
Prosseguindo a navegação sempre em rumo sudoeste, foram
avistadas ervas marinhas, indicando terra próxima. No dia 22 de
abril, foram avistadas as primeiras aves e ao entardecer avistaram
terra. Ao longe, um monte alto e redondo foi denominado Pascoal
por ser semana da Páscoa. Na manhã seguinte, avançaram as
caravelas sondando o fundo e fundeando a milha e meia da praia
próxima à foz de um rio mais tarde denominado Rio do Frade.
Após reunião com os comandantes, foi decidido enviar a terra um
batel sob o comando de Nicolau Coelho para fazer contato com
os homens da terra, quando se deu o primeiro
encontro entre portugueses e indígenas.
Durante a noite soprou vento forte, seguido
de chuvarada, colocando em risco as embarcações.
Consultados os pilotos, decidiu Cabral sair em busca
de local mais abrigado, chegando em Porto Seguro,
hoje Baía Cabrália. Alguns tripulantes desceram a
terra, não conseguindo se fazer entender nem ser
entendidos pelos habitantes que falavam uma língua
desconhecida.
No domingo de Páscoa, rezou-se a missa e
foi decidido mandar ao reino, pela naveta de
mantimentos, a notícia do acontecimento. Nos dias
posteriores, os marinheiros ocuparam-se em
cortar lenha, lavar roupa e preparar aguada, além
de trocar presentes com os habitantes do lugar. Em
1o de maio, Pedro Álvares Cabral assinalou o lugar
onde foi erigida uma cruz, próximo ao que hoje
conhecemos como Rio Mutari. Assentadas as armas
reais e erigido o cruzeiro em lugar visível, foi erguido
um altar, onde Frei Henrique de Coimbra celebrou
a segunda missa.
Pedro Álvares Cabral
No dia 2 de maio, a frota de 11 navios
Fonte: http://pt: wikipedia.org
levantou âncoras rumo a Calicute, deixando na praia
dois degredados, além de outros tantos grumetes,
se não mais, que desertaram de bordo. Antes de atingirem o Cabo
da Boa Esperança, quatro navios naufragaram e desgarrou-se a
nau comandada por Diogo Dias, que percorreu todo o litoral

37



Américo Vespúcio (1454-1512) ­ Navegador italiano que estava a serviço de Portugal. Foi representante dos Médicis em Sevilha. Teve em sua homenagem o novo continente batizado com nome de
América pelo cosmógrafo Martin Waldseemüller em
sua Cosmographie Introductio.
11

africano, reencontrando a frota na altura de Cabo Verde, quando
esta retornava a Portugal.
Com seis navios, Cabral alcançou à Índia, em setembro de
1500. Em Calicute, as negociações foram difíceis, surgindo
desentendimentos com os indianos, quando portugueses foram
mortos em terra (inclusive o escrivão da Armada, Pero Vaz de
Caminha) e o porto bombardeado. Em seguida, a Armada ancorou
em Cochim e Cananor, onde foi bem recebida, abastecendo-se de
especiarias antes da viagem de retorno, iniciada no dia 16 de
janeiro de 1501. No trajeto de volta, um navio perdeu-se
no regresso e, dos que sobraram da esquadra, cinco
retornaram ao reino. Em 23 de junho, a Armada adentrou
o Rio Tejo concluindo sua jornada.

O reconhecimento da costa brasileira
A expedição de 1501/1502

Américo Vespúcio
Fonte: http://pt:wikipedia.org/wikiimagem:
amerigo_vespucci.jpg
12

16 de agosto (1501) ­ Cabo de São Roque (RN)
28 de agosto ­ Cabo de Santo Agostinho (PE)
14 de setembro ­ Cabo de São Jorge (PE)
29 de setembro ­ Rio de São Miguel (AL)
4 de outubro ­ Rio de São Francisco (SE)
1 de novembro ­ Baía de Todos os Santos (BA)
14 de novembro ­ Rio de São João (BA)
13 de dezembro ­ Rio de Santa Luzia (BA)
21 de dezembro ­ Serra de São Tomé (RJ)
1 de janeiro (1502) ­ Rio de Janeiro
6 de janeiro ­ Angra dos Reis (RJ)
13 de janeiro ­ Rio Jordão (RJ)
17 de janeiro ­ Rio de Santo Antônio (RJ)
20 de janeiro ­ Porto de São Sebastião (RJ)
22 de janeiro ­ Rio e Porto de São Vicente (SP)
29 de fevereiro ­ Rio de Cananéia (SP)
Cristão-novo era o judeu que se converteu ao cristianismo por ocasião da Inquisição
ocorrida na Europa.
13

Coleção História Naval Brasileira, I Volume ­
Tomo I.
14

38

Preocupado em realizar o reconhecimento da nova terra,
D. Manuel enviou, antes mesmo do retorno de Cabral, uma
expedição composta por três caravelas comandadas por Gonçalo
Coelho, tendo a companhia do florentino Américo Vespúcio11. A
expedição partiu de Lisboa em 13 de maio de 1501 em direção às
Canárias, de onde rumou para Cabo Verde. Nessa ilha se encontrou
com navios da Esquadra de Cabral que regressavam da Índia. Em
meados do mês de junho, partiu para sua travessia oceânica,
chegando à costa brasileira na altura do Rio Grande do Norte.
Na Praia dos Marcos (RN), deu-se o primeiro desembarque,
tendo sido fincado um marco de pedra, sinal da posse da terra. A
partir de então, Gonçalo Coelho deu partida a sua missão
exploradora navegando pela costa, em direção ao sul, onde avistou
e denominou pontos litorâneos, conforme calendário religioso da
época12. O périplo costeiro da expedição teve como limite sul a
região de Cananéia, localizada no atual litoral Sul do Estado de São
Paulo.

A expedição de 1502/1503
Essa segunda expedição foi resultado do arrendamento da
Terra de Santa Cruz (nome inicial das nossas terras) a um consórcio
formado por cristãos-novos 13, encabeçado por Fernando de
Noronha, e que tinha a obrigação, conforme contrato, de mandar
todos os anos seis navios às novas terras com a missão de descobrir,
a cada ano, 300 léguas a vante e construir uma fortaleza.
Segundo o Almirante Max Justo Guedes14, essa viagem foi
realizada entre o segundo semestre de 1502 e o primeiro semestre

de 1503. A rota traçada pela
expedição possivelmente seguiu o
percurso normal até Cabo Verde,
cruzou o Atlântico, passando pelo
Arquipélago de Fernando de
Noronha, concluindo sua navegação nas imediações de Porto
Seguro.

A expedição de 1503/1504
Segundo as informações do
cronista Damião de Góis, essa
expedição partiu de Portugal em
10 de junho de 1503, era
composta por seis naus, e
novamente foi comandada por
Gonçalo Coelho. Ao chegarem
em Fernando de Noronha,
naufragou a capitânia. Neste local
deu-se a separação da frota. Após
aguardar por oito dias o
aparecimento do restante da
frota, dois navios (num dos quais
se encontrava embarcado
Américo Vespúcio) rumaram para
a Baía de Todos os Santos, pois
assim determinava o regimento
real para qualquer navio que se perdesse da companhia do
capitão-mor.
Havendo aguardado por dois meses e quatro dias alguma
notícia de Gonçalo Coelho, decidiram percorrer o litoral em direção
ao sul, onde se detiveram durante cinco meses em um ponto cujas
coordenadas indicam ter sido no litoral do Rio de Janeiro, onde
ergueram uma fortificação e deixaram 24 homens. Logo depois
retornaram a Portugal aportando em 18 de junho de 1504.
Gonçalo Coelho com o restante da frota regressou a Portugal,
ainda em 1503.

As feitorias foram os primeiros estabelecimentos
europeus ao longo da costa brasileira, não constituíam núcleos de povoamento e sim depósitos provisórios das riquezas retiradas da terra.
15

As expedições guarda-costas
A costa do pau-brasil prolongava-se desde o Rio de Janeiro
até Pernambuco, onde foram sendo estabelecidas feitorias15, nas
quais navios portugueses realizavam regularmente o carregamento
desse tipo de madeira para o reino. Esse negócio rendoso começou
a atrair a atenção de outros países europeus que nunca aceitaram
a partilha do mundo entre Portugal e Espanha, dentre eles a França.

39



O sobrenome de Jaques não é de origem
francesa e sim devido aos membros dessa família serem oriundos de Jaca, cidade espanhola do
Alto Aragão.
16

Uma de suas primeiras providências foi
transladar, por motivo de segurança, a feitoria
do Rio de Janeiro para Itamaracá, em
Pernambuco.
17

Martim Afonso de Sousa contou com a presença e o auxilio de seu irmão Pero Lopes de
Sousa, que registrou em diário os principais
acontecimentos da viagem.
18

Martim Afonso de Sousa
Fonte: O Descobrimento do Brasil de
Max Justo Guedes

40

Os franceses começaram a freqüentar nosso litoral
comercializando o pau-brasil clandestinamente com os índios.
Portugal procurou, a princípio, usar de mecanismos diplomáticos,
encaminhando várias reclamações ao governo francês na esperança
de que o mesmo coibisse esse comércio clandestino.
Notando que ainda era grande a presença de contrabandistas
franceses no Brasil, D. Manuel resolveu enviar o fidalgo português
Cristóvão Jaques16, com a missão de realizar o patrulhamento
da costa brasileira 17 .
Cristóvão Jaques realizou viagens ao longo de nossa costa
entre os períodos de 1516 a 1519, 1521 a 1522 e de 1527 a 1528,
onde combatendo e reprimindo as atividades do comércio
clandestino.
Em 1528, foi dispensado do cargo de capitão-mor da
Armada Guarda-Costa, regressando para Portugal.

A expedição colonizadora de
Martim Afonso de Sousa
Em 1530, Portugal resolveu enviar ao Brasil uma expedição
comandada por Martim Afonso de Sousa visando à ocupação da
nova terra18. A Armada partiu de Lisboa a 3 de dezembro e era
composta por duas naus, um galeão e duas caravelas que, juntas,
conduziam 400 pessoas. Tinha a missão de combater os franceses,
que continuavam a freqüentar o litoral e contrabandear o paubrasil; descobrir terras e explorar rios; e estabelecer núcleos de
povoação.
Em 1532, fundou no atual litoral de São Paulo a Vila de São
Vicente e logo a seguir ­ no limite do planalto que os índios
chamavam de Piratininga ­ a Vila de Santo André da Borba do
Campo. Da Ilha da Madeira, Martim Afonso trouxe as primeiras
mudas de cana que plantou no Brasil, construindo na Vila de São
Vicente o primeiro engenho de cana-de-açúcar.
Ainda se encontrava no Brasil quando, em 1532, Dom João
III decidiu impulsionar a colonização, utilizando a tradicional
distribuição de terras. O regime de capitanias hereditárias consistiu
em dividir o Brasil em imensos tratos de terra que foram
distribuídos a fidalgos da pequena nobreza, abrindo à iniciativa
privada a colonização.
Martim Afonso de Sousa retornou a Portugal em 13 de março
de 1533, após ter cumprido de maneira satisfatória sua missão de
fincar as bases do processo de ocupação das terras brasileiras.

Fonte: História da Colonização Portuguesa no Brasil
Direção e coordenação de Carlos Malheiros Dias

41

C

R

O

N

O

L

O

G

I

A



42

DATA

EVENTO

1415

Conquista da cidade de Ceuta pelos portugueses.

1421 e 1434

Os lusitanos chegam aos Arquipélagos da Madeira e dos Açores e avançam para
além do Cabo Bojador. Até esse ponto, a navegação era basicamente costeira.

1436

Os lusitanos atingem o Rio do Ouro e iniciam a conquista da Guiné. Ali se
apropriam da Mina, centro aurífero explorado pelos reinos nativos em associação
aos comerciantes mouros, a maior fonte de ouro de toda a história de Portugal.

1441

Chegam ao Cabo Branco.

1444

Atingem a Ilha de Arguim, onde instalam a primeira feitoria em território
africano, e iniciam a comercialização de escravos, marfim e ouro.

1445 e 1461

Descobrem o Cabo Verde, navegam pelos Rios Senegal e Gâmbia e avançam até
Serra Leoa.

1470 a 1475

Exploração da costa da Serra Leoa até o Cabo de Santa Catarina.

1482 e 1485

O navegador Diogo Cão explorou a costa da África.

1487

Bartolomeu Dias atingiu o Cabo das Tormentas, no extremo sul do continente ­
que passou a ser chamado de Cabo da Boa Esperança ­ e chegou ao Oceano
Índico, conquistando o trecho mais difícil do caminho da Índia.

1492

Cristóvão Colombo chegou à América.

1494

Assinatura do Tratado de Tordesilhas.

1498

Vasco da Gama chegou a Calicute, na costa sudoeste da Índia.

1500

Descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral.

1519

Fernão de Magalhães chegou às Filipinas passando pelo extremo sul do
continente americano.

F I X A Ç Ã O
1 ­ O que possibilitou a Portugal se dedicar à sua expansão marítima?
2 ­ Segundo o texto que acabamos de ler, qual expedição foi a responsável por fincar as
bases do processo de ocupação das terras brasileiras por Portugal?
3 ­ Quem eram os cristãos-novos que formaram um consórcio com a finalidade de explorar
economicamente as "terras brasileiras" recém-descobertas por Portugal?

SAIBA MAIS:
GUEDES, Max Justo. O descobrimento do Brasil. Rio de Janeiro: Diretoria do Patrimônio Histórico
e Cultural da Marinha, 1998.
HISTÓRIA naval brasileira. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 1975 - . v.1. t.1.
wikipedia: http://pt:wikipedia.org

43


As tintas vermelha e roxa tiradas da madeira eram
utilizadas para tingir tecidos.

Invasões Estrangeiras ao Brasil
Sinopse

1

Le teinturier en rouge de Nuremberg
Fonte: Pau-Brasil de Eduardo Bueno

44

Diversos intrusos desafiaram os interesses ultramarinos de
Portugal durante os séculos XVI e XVII. Os franceses foram os
primeiros e, desde o início do século XVI, navios de armadores
franceses freqüentavam a costa brasileira, comerciando com os
nativos os produtos da terra: pau-brasil1; pele de animais
selvagens; papagaios e macacos; resinas vegetais e outros. Portugal
reagiu, como vimos no capítulo anterior, enviando expedições
guarda-costas e iniciando a colonização do Brasil.
No início da colonização portuguesa no Brasil, os franceses
estabeleceram duas colônias: em 1555, no Rio de Janeiro, e em
1612, no Maranhão. Portugal reagiu às duas invasões, projetando
seu Poder Naval, com bom êxito, para expulsar os invasores.
Na foz do Amazonas, ingleses, holandeses e
irlandeses estabeleceram feitorias privadas; sendo preciso
o emprego da força para expulsá-los.
O comércio holandês com o Brasil data da primeira
metade do século XVI. Em 1580, ocorreu a união das coroas de
Portugal e Espanha e o rei da Espanha, Felipe II, passou a ser,
também, o rei de Portugal. Os holandeses iniciaram sua guerra
de independência contra a Espanha no final do século XVI, mesmo
assim continuaram a comercializar, com o auxílio de mercadores
portugueses, produtos brasileiros, como o açúcar, algodão e
pau-brasil.
A Holanda era um país de bons comerciantes e hábeis
marinheiros. Os holandeses possuíam uma fortíssima consciência
marítima e utilizavam seu Poder Marítimo com muita habilidade.
Eles não pretendiam ficar sem o rico mercado do açúcar
brasileiro, devido ao conflito com a Espanha e conseqüentemente
Portugal. Em 1621, eles criaram a West-Indische Compagnie, a
Companhia das Índias Ocidentais. Logo, Salvador, capital da
colônia do Brasil, seria alvo de uma invasão desta companhia.



O objetivo maior da Companhia das Índias Ocidentais era
manter o relacionamento comercial com o Brasil e, se possível, a
conquista do Nordeste. A tentativa não tarda, e, em 1624, é feito
o ataque a Salvador (BA), ocupada por breve período, pois o
invasor é logo expulso por uma Esquadra luso-espanhola.
Os holandeses, em seguida, ocuparam Pernambuco,
realizando conquistas ao sul, em Alagoas e Sergipe, bem como
ao norte, na Paraíba, Rio Grande do Norte e mais áreas,
permanecendo no Nordeste por 24 anos.
Ocorreram, nesse período, muitos combates no mar, como
a "Batalha Naval de 1640", que envolveu cerca de cem navios,
entre holandeses e luso-espanhóis, em embates que duraram
cinco dias na costa do Nordeste.
Nessa luta para expulsar os holandeses, o esforço em terra
foi fundamental. O Poder Naval português foi capaz de manter
Salvador como base de operações e somente com a presença de
uma força naval em Pernambuco é que foi possível obter a
rendição definitiva dos invasores.
No século XVIII, com o envolvimento de Portugal na
Guerra de Sucessão de Espanha, na Europa, o Rio de Janeiro
foi atacado por dois corsários franceses. Com a descoberta do
ouro das Minas Gerais, no final do século XVII, o Rio de Janeiro
vinha se tornando uma cidade próspera durante o início do
século XVIII. Mais tarde, devido às riquezas das minas, tornouse a capital da colônia.
Pretensões expansionistas também podem ser visualizadas
no interesse que Portugal tinha nas riquezas espanholas do oeste
sul-americano na região do Rio da Prata ­ acesso às minas de
prata de Potosi, na Bolívia. A ocupação espanhola na região foi,
portanto, fundamental para deter os interesses portugueses.
Mesmo assim, era por ela que a prata boliviana era
contrabandeada para o Brasil.
Buscando expandir seus domínios em direção ao Sul do
continente, Portugal rompeu o Tratado de Tordesilhas, assinado
com os espanhóis em 1494, quando, em janeiro de 1680, o
governador do Rio de Janeiro, D. Manuel Lobo, fundou, na
margem esquerda do Rio da Prata, a Colônia do Santíssimo
Sacramento. Este fato desencadeou uma série de
desentendimentos, lutas e tratados de limites, em que o emprego
do Poder Naval português foi muito importante, como veremos
neste capítulo.

45



O interesse no estudo desse período é mostrar que foi nele
que definiram as fronteiras Sul do território brasileiro, que
mudavam conforme o poderio militar e os tratados firmados entre
portugueses e espanhóis.
Por tudo isso, estudemos as lutas que permitiram ao
nosso País manter-se íntegro territorialmente.
Boa aventura...

Mapa português representando
o Brasil Colonial, provavelmente do século XVII

46

Essas duas invasões não foram iniciativas do governo da
França, cuja estratégia estava voltada para seus interesses na própria
Europa, mas sim iniciativas privadas. Em ambas, faltou o apoio do
Estado francês, no momento em que, atacadas pelos portugueses,
necessitaram de socorro. Por outro lado, a colonização do Brasil
foi interesse de Portugal, que pretendia proteger a rota de seu
comércio com a Índia. Todos os recursos do Estado português
estavam disponíveis para expulsar os invasores e proteger os
núcleos de colonização portuguesa.

Rio de Janeiro



Invasões francesas no Rio de Janeiro
e no Maranhão

Bretanha, região administrativa do oeste da França, com uma larga costa litoral entre o Canal da
Mancha e o Oceano Atlântico.
2

França Antártica. Instalada na ilha onde atualmente
funciona a Escola Naval.
3

Em 1553, Nicolau Durand de
Villegagnon foi nomeado vice-almirante da
Bretanha2, e desenvolveu um plano para
fundar uma colônia na Baía de Guanabara
(RJ), onde habitavam nativos da tribo
Tupinambá, aliados dos franceses. O Rei da
França, Henrique II, aprovou esse plano de
iniciativa privada, prometeu apoio e
forneceu financiamento e dois navios para
a viagem.
Villegagnon chegou à Baía de
Guanabara em 1555, instalou o núcleo da colônia ­ que chamou
de França Antártica3 ­ na ilha que atualmente tem seu nome e
construiu uma fortificação, dando-lhe o nome de Forte de Coligny,
em homenagem ao almirante francês que lhe apoiara. A ilha era
pequena e não tinha água, mas era uma excelente posição de
defesa. Em terra firme, perto do atual Morro da Glória, instalou
uma olaria para fabricar tijolos e telhas, fez plantações e deu início
a uma povoação, que chamou de Henryville, homenageando o
Rei da França Henrique II. A povoação em terra firme, não teve
bom êxito e o progresso da colônia, como um todo, deixou a
desejar.
Villegagnon, que anteriormente já mostrara sua bravura e
competência como militar em diversas ocasiões, encontrou muitas
dificuldades para recrutar pessoas para a colônia. Um núcleo de
colonização precisaria de profissionais (exemplo: sapateiros,
alfaiates, barbeiros, carpinteiros, oleiros, pedreiros, médicos,
soldados entre outros) necessários à sobrevivência na colônia.
As pessoas que vieram com Villegagnon formavam um grupo
heterogêneo: católicos e protestantes (em uma época de sérios
conflitos religiosos), soldados escoceses e ex-presidiários
Nicolau Durant de Villegagnon

47


Ordem de Malta, ordem militar cristã, com sua
origem nas Cruzadas.
4

Esses nomes ficaram em nossa nomenclatura de
cidades, como Ubatuba (muita ubá) e Igarassu (igara
grande). A ubá era mais leve, porém, afundava
quando se enchia de água. Os tupinambás aventuravam-se fora da barra com suas canoas, às vezes em
incursões guerreiras contra tribos inimigas, navegando longas distâncias sem perder a terra de vista.
5

Os selvagens vão para a Guerra
Fonte: Viagem ao Brasil de Hans Staden
Araribóia em tupi guarani quer dizer "cobra
feroz". Araribóia liderou a tribo tupi dos índios
termiminós. Após a expulsão dos franceses, em
gratidão, recebeu a sesmaria de Niterói e se converteu ao cristianismo adotando o nome de
Martim Afonso.
6

Como havia pouco espaço para o desenvolvimento
de uma cidade no local de sua fundação, a sede do
Rio de Janeiro foi, logo depois da expulsão dos
invasores, transferida para o morro que passou a
ser chamado do Castelo. Era uma posição defensiva
para a nova cidade. Com o tempo, para cumprir sua
função, com comércio e negócios, a cidade ocupou
a praia entre o Morro do Castelo e o Morro de São
Bento, formando-se a Rua Direita. Passou a existir,
portanto, uma cidade baixa, em contraposição à
cidade alta, no Castelo. Na parte baixa, ela se espalhou, aos poucos, surgindo outras ruas paralelas e
transversais e uma praça, a atual Praça Quinze de
Novembro, que, mais tarde passaria a ser o Centro da Cidade, ainda nos tempos de colônia, com a
residência do governador e outros prédios de administração.
7

48

(caracterizando extremos de aceitação de disciplina). A pior falha,
no entanto, foi a presença de poucas mulheres européias no grupo,
o que fez com que muitos colonos procurassem as índias para se
relacionarem. Esta atitude era difícil para Villegagnon entender, por
sua formação religiosa de Cavaleiro de Malta4, com voto de
castidade, não admitindo sexo fora do casamento.
Houve um excesso de conflitos, principalmente após a
chegada de um grupo de protestantes calvinistas, com o propósito
de estudar a possibilidade de fazer da França Antártica uma
colônia protestante.
Os franceses contavam com a amizade dos tupinambás. Eles
comerciavam com os franceses por meio de trocas (escambo) ­
recebiam machados, facas, tesouras, espelhos, tecidos coloridos,
anzóis e outros objetos. Em troca, forneciam o pau-brasil, que
cortavam na floresta e traziam para a colônia, além de outros
produtos da terra e alimentos. Os tupinambás construíram grandes
canoas de um só tronco (igara) ou da casca de uma árvore (ubá)5.
Eles lutaram bravamente ao lado dos franceses, pois detestavam
os portugueses que eram amigos de seus inimigos.
A reação portuguesa ocorreu quando o Governador Mem
de Sá, em 1560, atacou o Forte de Coligny com uma força naval
(soldados e índios) que trouxera da Bahia, arrasando-o. Depois
partiu para São Vicente sem deixar uma guarnição na Guanabara.
Os franceses fugiram para o continente, abrigando-se junto a seus
aliados tupinambás e, logo depois que os portugueses se foram,
restabeleceram suas fortificações.
Mem de Sá concluiu que era necessário ocupar
definitivamente o Rio de Janeiro para garantir a expulsão dos
invasores. Dessa vez enviou, em 1563, seu sobrinho Estácio de Sá
à testa da nova força naval, com ordens para fundar uma povoação
na Baía de Guanabara e derrotar definitivamente os franceses.
Estácio de Sá obteve a ajuda de uma tribo tupi inimiga dos
tupinambás, os maracajás ou temiminós, liderados por Araribóia6.
Participaram, também, como aliados dos portugueses, índios da
tribo tupiniquim de Piratininga, trazidos de São Vicente (SP).
Estácio de Sá fundou a cidade de São Sebastião do Rio de
Janeiro, em 1565, entre o Morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar7.
Era um local apertado, protegido pelos morros e de fácil defesa,
de onde se controlava a entrada da barra da Baía de Guanabara.
Logo, começaram a combater os franceses e os tupinambás. Houve
grandes combates, inclusive um de canoas nas águas da baía e um
ataque ao atual Morro da Glória, onde Estácio de Sá foi ferido por
uma flecha, no rosto, vindo a falecer em conseqüência deste
ferimento.
Derrotados na Guanabara, os franceses e seus aliados
tentaram, ainda, estabelecer uma resistência em Cabo Frio, mas
acabaram vencidos. Os franceses que se renderam foram enviados
de navio para a França.

Os franceses continuaram com o tráfico marítimo na costa
brasileira. Seu eixo de atuação, porém, deslocou-se para o norte,
ainda sem povoações portuguesas. Após diversas ações,
estabeleceram-se, em pequeno número, em diversos pontos do
litoral. Desde o final do século XVI, o Maranhão passou a ser um
local regularmente freqüentado por navios franceses. Na atual Ilha
de São Luís havia uma pequena povoação de franceses, em boa
convivência com os índios, também tupinambás, que habitavam o
local.
Em 1612, partiu da França a expedição chefiada pelos sócios,
Daniel de la Touche de la Ravardière e Nicolau de Harlay de Sancy,
com poderes de tenentes-generais do rei da França. Quando
chegaram, construíram o Forte de São Luís.
Na França, o bom relacionamento do momento com a
Espanha fez com que o governo não colaborasse significativamente
com recursos para o reforço da colônia.
Em 1614, uma força naval comandada por Jerônimo de
Albuquerque, nascido no Brasil, chegou ao Maranhão para
combater os franceses. Este grupamento pode ser considerado a
primeira força naval comandada por um brasileiro.
Chegando ao Maranhão, os portugueses iniciaram a
construção de um forte, que chamaram Santa Maria. Logo os
franceses se apoderaram de três dos navios que estavam
fundeados. Animados com o bom êxito alcançado, resolveram,
uma semana depois, atacar o forte português. Planejaram um ataque
simultâneo de tropas que desembarcariam e de tropas que
atacariam o forte pela retaguarda, vindas de terra. Os portugueses,
no entanto, foram mais ágeis e contra-atacaram separadamente,
com vigor, as duas forças francesas, vencendo-as.
Os franceses, resolveram propor um armistício, para
conseguir reforços na França ou obter uma solução diplomática.
Os portugueses aceitaram.
A trégua foi favorável aos portugueses, que obtiveram
reforços no Brasil. La Ravardière não conseguiu novamente o apoio
de seu governo e o tratado de paz em vigor, naquele momento,
previa que em casos como esse os riscos e perigos cabiam aos
particulares, sem que a paz entre os Estados fosse perturbada.
Além do mais, o rei de Portugal8 não ratificou a trégua e ordenou
que se expulsassem os franceses do Maranhão. Providenciou
reforços e mandou o governador de Pernambuco organizar uma
nova expedição. O comando coube a Alexandre de Moura, que
partiu em uma força naval.
Os franceses foram cercados no Maranhão, por mar e por
terra, e, sem esperança de reforços, para evitar que os portugueses
os tratassem como piratas, renderam-se em 1615.



Maranhão

Fundação da Cidade do Rio de Janeiro
Óleo sobre tela de Antônio Firmino Monteiro
Acervo da Câmara Municipal do Rio de Janeiro
E também rei da Espanha, nesse período da História conhecido como União Ibérica.
8

49



Invasores na foz do Amazonas
Após a ocupação do Maranhão, os portugueses resolveram
dirigir sua atenção para os invasores da foz do Amazonas, enviando
uma expedição que fundou o Forte do Presépio, origem da cidade
de Belém, para servir de base para suas ações militares. De lá, eles
passaram a atacar os estabelecimentos dos ingleses, holandeses e
irlandeses, enforcando os que resistiam e escravizando as tribos
de índios que os apoiavam. Esta violência e a criação de uma flotilha
de embarcações (que agia permanentemente na região apoiando
as ações militares e patrulhando os rios) garantiram o bom êxito e
asseguraram a posse da Amazônia Oriental para Portugal.

Invasões holandesas na Bahia
e em Pernambuco
Holandeses na Bahia

Esquadra holandesa em Salvador
Fonte: http://pt:wikipedia.org

50

A invasão holandesa de Salvador (BA) foi planejada pela
Companhia das Índias Ocidentais com o propósito de lucro, a ser
obtido com a exploração da cultura do açúcar. Levantado o capital
para o empreen-dimento, os
holandeses reu-niram uma
força naval de 26 navios, com
509 canhões e tripulados por
1.600 ma-rinheiros e 1.700
soldados. O comando coube
ao Almirante Jacob Willekens.
Os navios partiram de
diversos portos da Holanda e
reuniram-se em uma das ilhas
do Arquipélago de Cabo
Verde. Em 8 de maio de 1624,
chegaram à Baía de Todos os
Santos; no dia seguinte, iniciaram o ataque a Salvador.
Os holandeses atacaram os fortes que defendiam a
cidade. Os navios que transportavam tropas se dirigiram para
o Porto da Barra, onde desembarcaram. A cidade foi saqueada.
Somente alguns dias depois organizou-se reação contra os
invasores.
Estabelecidos em Salvador, os holandeses foram, aos poucos,
diminuindo os efetivos de sua força naval, com o retorno de
diversos navios para a Holanda.
Em Lisboa e Madri, a notícia sobre a tomada da cidade de
Salvador chegou cerca de dois meses e meio depois da invasão.
De maneira imediata, o governo luso-espanhol começou a



preparar uma força naval capaz de recuperar a cidade antes que
os holandeses se consolidassem na região. Na Holanda, sabendose dos preparativos espanhóis, acelerou-se a prontificação dos
reforços que deveriam garantir a ocupação da Bahia.
A preparação de forças navais que projetassem poder militar
a tão longa distância exigia um enorme esforço. Era necessário
um planejamento cuidadoso dos recursos financeiros, materiais e
humanos. A força deveria ser composta por variados navios: os de
guerra, como os galeões e as fragatas; as naus e as urcas9, que
serviam tanto como embarcações mercantes quanto navios
militares; e as caravelas, que serviam ao transporte. Havia, também,
diversos outros navios menores, como patachos, iates velozes e
embarcações que complementavam a capacidade das forças navais.
Considerando as populações da época ­ Holanda teria cerca de
1,5 milhão de habitantes e Portugal menos que isto ­ não era fácil
conservar em segredo a preparação de uma força naval. Espiões
mantinham as cortes européias informadas e seus informes eram
avaliados e utilizados para preparar contra-ofensivas. Ocorreram
verdadeiras corridas de forças navais para alcançar a costa
brasileira. Chegar primeiro podia ser uma decisiva vantagem.
Os luso-espanhóis conseguiram ficar prontos antes dos
holandeses e, em 22 de novembro, partia de Lisboa uma armada
composta por 25 galeões, dez naus, dez urcas, seis caravelas, dois
patachos e quatro navios menores, tendo a bordo 12.500
marinheiros e soldados. Como comandante-geral, vinha D. Fadrique
de Toledo Osório, Marquês de Villanueva de Valdueza10.
A armada luso-espanhola chegou a Salvador em 29 de março
de 1625. Era a maior força naval que até aquela data atravessara o
Atlântico. Cerca de 20 navios holandeses se abrigavam sob a
proteção dos fortes e a cidade de Salvador era defendida por tropas
holandesas. Iniciou-se o ataque luso-espanhol e, a 1º de maio, os
holandeses renderam-se. Dias depois de se entregarem, apareceu
na barra o socorro holandês, de 34 naus. Percebendo a retomada
da cidade, não se animaram a tentar a luta.

As urcas, muito utilizadas pelos holandeses, tinham uma forma de casco específica, com a popa
arredondada.
9

Esta expedição foi denominada a Jornada dos
Vassalos por ser composta de vários fidalgos, tanto
portugueses quanto espanhóis, voluntários para
defender a causa da coroa ibérica.
10

Ex-governador do Brasil (1624-5) e por muito
tempo de Pernambuco.
11

A ocupação do Nordeste brasileiro
Em 1629, a Companhia das Índias Ocidentais resolveu
dirigir seus esforços para Pernambuco em vez de tentar
reconquistar a Bahia.
Conduzia a nova expedição uma armada de 56 navios,
fortemente artilhados, trazendo 3500 tripulantes e 3000
soldados. Comandava a força naval holandesa o General-doMar Wendrich Corneliszoon Lonck. Olinda e Recife (PE) foram
conquistadas em 1630.
Soube-se dos preparativos com antecedência em Madri e
Lisboa. O General Matias de Albuquerque11, que então estava na

51


Na realidade, uma força naval de porte semelhante ao da Jornada dos Vassalos, que restaurara a
Bahia, poderia ter vencido os holandeses e reconquistado Pernambuco. Além de forças insuficientes, os luso-espanhóis não souberam aproveitar as
oportunidades que tiveram de surpreender Recife
nas ocasiões em que estava mal guarnecida.
12

A primeira, comandada por Don Antônio de
Oquendo, que chegou em 1631; a segunda, comandada por Don Lope de Hoce, tendo como comandante da Armada de Portugal Don Rodrigo Lobo,
que chegou em 1635; e a terceira, comandada pelo
Conde da Torre, Don Fernando de Mascarenhas,
que chegou em 1639.
13

52

Europa, regressou ao Brasil para organizar a reação, mas pouco
pôde ser feito de efetivo, restando, para os defensores, iniciar a
defesa em terra depois da ocupação.
As providências luso-espanholas para recuperar Pernambuco,
durante o período de união das duas coroas, encontraram
dificuldades crescentes de recursos e não lograram a mobilização
das forças necessárias. O tesouro espanhol, cada vez mais debilitado,
não foi capaz de arcar com um empreendimento semelhante ao
da armada que libertara a Bahia em 162512. Cabe observar que era
necessário proteger com escoltas as frotas que levavam a produção
de açúcar para Portugal e as que levavam a produção mineral das
colônias espanholas para a Espanha. Entre 1631 e 1640, dentro do
período da união com a Espanha, foram enviadas três esquadras
luso-espanholas ao Brasil.13
Os holandeses também enviaram forças navais, com reforços
de tropas, para proteger suas conquistas no Brasil. Ocorreram,
conseqüentemente, encontros que resultaram em diversos
combates navais. Destacam-se, entre eles, o Combate Naval dos
Abrolhos, em 3 de setembro de 1631, e os ocorridos
intermitentemente durante cinco dias, de 12 a 16 de janeiro, na
Batalha Naval de 1640.
No Combate Naval dos Abrolhos, os luso-espanhóis,
comandados por D. Antônio de Oquendo de Zandátegui, tinham
17 galeões, 23 navios mercantes carregados com açúcar, 12
caravelas com tropas e três patachos. Os holandeses, comandados
por Adriaen Janszoon Pater, lutaram com 18 navios.
A missão de Oquendo era desembarcar as tropas que trazia
de Pernambuco e da Paraíba; comboiar os navios mercantes que
levariam ao reino a produção de açúcar e outros produtos do Brasil,
até que estivessem livres de ataques das forças holandesas; e
alcançar o Caribe para comboiar a Frota da Prata para a Espanha.
Depois de escalar em Salvador, a força naval luso-espanhola
partiu para cumprir sua missão. Devido ao vento contrário, navegou
para sueste para depois rumar para Pernambuco. Foram
interceptados pela força naval holandesa na altura do Arquipélago
dos Abrolhos.
Oquendo formou seus galeões em coluna e deu ordem aos
navios do comboio para se posicionarem fora do combate. Os
holandeses tinham planejado abordar cada um dos maiores galeões
luso-espanhóis com dois navios. Seguiu-se um terrível combate,
com tentativas e sucessos de abordagens e bordadas bem próximas
de artilharia. Como resultado, os holandeses perderam dois navios,
inclusive o capitânia, que incendiou e explodiu, e um outro ficou
seriamente avariado. Os luso-espanhóis tiveram dois navios
afundados, um navio foi apresado pelos holandeses e outro
regressou a Salvador devido às grandes avarias sofridas. Nesse
combate, morreram ou desapareceram cerca de 700 homens,
aproximadamente 280 ficaram feridos e 240 foram aprisionados.



Na Batalha Naval de 1640, 66 navios e embarcações lusoespanhóis, transportando tropas da força naval comandada pelo
Conde da Torre14, combateram navios holandeses (inicialmente
30, depois 35) comandados por Willem Loos.
O Conde da Torre saiu de Salvador com o propósito de
desembarcar tropas em Pernambuco. Os holandeses pretendiam
evitar que ocorresse esse desembarque. As forças navais se
encontraram no dia 12 de janeiro e travaram combates durante
cinco dias, tendo se combatido, de fato, em quatro deles. A iniciativa
coube aos holandeses que visavam a atingir, com seus tiros, os
cascos dos galeões luso-espanhóis, que se defendiam atirando nos
mastros e velas, procurando imobilizar os inimigos. Os holandeses
evitaram as abordagens.
Durante o combate, o Almirante Willem Loos, comandante
holandês, teve a cabeça mutilada por um tiro de canhão, logo após
o início da batalha. Coube ao seu imediato assumir a frente na
liderança da frota.
No intervalo dos combates, os holandeses foram abastecidos
com pólvora e munições por embarcações vindas de terra. Também
receberam reforços de mais cinco navios.
Para os luso-espanhóis, a Batalha de 1640 foi uma derrota
estratégica. Após cinco dias, as tropas não haviam desembarcado
em Pernambuco. Os combates levaram a força naval do Conde da
Torre para o norte, ao longo do litoral do Nordeste. Com resultado
insatisfatório, já que a força holandesa muito pouco fora desfalcada,
o Conde da Torre decidiu pelo desembarque das tropas no atual
Estado do Rio Grande do Norte e regressar a Salvador com sua
força naval.
Os holandeses, por sua vez, conseguiram manter o domínio
do mar e se aproveitaram dele para bloquear os portos principais
e atacar o litoral do Nordeste do Brasil, expandindo sua conquista.

D. Fernando de Mascarenhas, governador e capitão-general do Estado do Brasil (1631-1640).
14

A insurreição em Pernambuco
Em 1o de dezembro de 1640, ocorreu a Restauração de
Portugal, ou seja, a separação de Portugal da Espanha, com o fim
da união das coroas ibéricas, e a aclamação do Duque de Bragança
como rei, com o nome de D. João IV.
Em junho de 1641, assinou-se uma trégua de dez anos com
os holandeses em Haia. Essa trégua interessava à Companhia das
Índias Ocidentais, que via seus lucros consumidos pelas ações
militares, e aos portugueses, que estavam em guerra com a Espanha
e precisavam reduzir as frentes de combate.
Às vésperas do armistício, os holandeses trataram de alargar
suas conquistas, ocuparando o Sergipe e o Maranhão, no Brasil, e
Angola e São Tomé, na África.
Após a Restauração de Portugal, foi enviado um novo
governador-geral para o Brasil, Antônio Teles da Silva. Embora

53


Não eram só holandeses, havia muitos alemães e
outros protestantes do norte da Europa nas forças
da Companhia das Índias Ocidentais.
15

É discutível a disposição de Salvador de Sá em se
engajar nessa aventura. Teles da Silva o acusou de
não querer cooperar. Quando se explicou com D.
João IV, mais tarde, suas justificativas foram aceitas,
provavelmente porque estavam coerentes com a
política do rei.
16

54

oficialmente o governo português respeitasse a trégua, para evitar
uma guerra declarada contra a Holanda, sigilosamente aprovava a
insurreição no Brasil, e o novo governador desempenhou papel
de destaque no apoio a essa causa, podendo-se identificá-lo como
seu organizador-chefe. Iniciou-se, assim, em Pernambuco, a
campanha da insurreição contra os holandeses.
Em 1644, Teles da Silva resolveu reunir uma força naval para
auxiliar os revoltosos, com base no que havia disponível. Os três
navios mais fortes eram naus, armadas com 16 canhões cada.
Tripulações despreparadas faziam com que essa força improvisada
não fizesse frente aos profissionais holandeses e mercenários15. O
comando foi dado ao Coronel Jerônimo Serrão de Paiva.
Haviam chegado ao Brasil, em fevereiro de 1645, dois galeões
portugueses, o São Pantaleão, de 36 canhões, e o São Pedro de
Hamburgo, de 26 ou 30 canhões. Eram parte da escolta da primeira
frota comboiada que, após carregar no Rio de Janeiro, regressou a
Salvador, com o propósito de, em seguida, partir para Portugal. O
almirante dessa frota era Salvador Correia de Sá e Benevides, filho
de um fluminense e uma espanhola, que tinha propriedades no
Rio de Janeiro.
Decidiu o Governador Teles da Silva executar, com auxílio
de Salvador de Sá, um plano para ocupar Recife. Deveriam os
galeões se juntar aos navios de Serrão de Paiva e, caso os holandeses
permitissem ou se a população se revoltasse, tentar desembarcar
na cidade.
Na noite de 11 de agosto, 37 navios portugueses, incluindo
os dois galeões, fundearam em frente a Recife. Vigorava a trégua
e, portanto, oficialmente, as hostilidades não estavam autorizadas.
Os navios holandeses permaneceram no porto, aguardando
o desenrolar dos acontecimentos e, em terra, estavam dispostos
a resistir a qualquer tentativa de desembarque.
Salvador de Sá, que estava com a mulher e os filhos a bordo
do São Pantaleão, mandou entregar uma carta sua, juntamente com
outra de Serrão de Paiva, declarando que estavam ali para ajudar
os holandeses no restabelecimento da paz em Pernambuco. Não
houve resposta imediata. Convocado um conselho a bordo do
São Pantaleão, concordaram os comandantes dos navios
portugueses que não havia condições favoráveis para atacar ou
manter um bloqueio de Recife 16.
No dia 13, o mau tempo obrigou os navios a buscarem o
alto-mar. Durante todo o dia 12, no entanto, tinham sido admirados
pelo povo pernambucano e o que, depois, ficou conhecido como
a Jornada do Galeão, acabou sendo, somente, um ato de emprego
político do Poder Naval pelos portugueses, influenciando as mentes
e as atitudes, sem uso de força.
No dia seguinte chegou a carta-resposta holandesa.
Estranhava o auxílio oferecido e pedia que se retirassem de Recife.



Durante o mau tempo, Serrão de Paiva separou-se de Salvador de
Sá e, depois de alguma insistência em permanecer em alto-mar no
litoral de Pernambuco, resolveu se abrigar na Baía de Tamandaré17.
Salvador de Sá seguiu para Lisboa com o comboio.
Em 9 de setembro de 1645, o Almirante holandês Lichthardt
resolveu atacar Serrão de Paiva. Os portugueses contavam com
sete naus, três caravelas e quatro embarcações, com uma
tripulação de mil homens aproximadamente, e estavam fundeados.
Lichthardt investiu a barra com oito navios holandeses e foi abordar
os navios portugueses dentro da baía.
A resistência se limitou ao bravo Serrão de Paiva e a poucos
homens de seu navio. A maioria dos marinheiros e soldados se
lançou ao mar, nadando para a praia. Seguiu-se uma verdadeira
carnificina de fugitivos e uma derrota fragorosa, com muitos mortos,
prisioneiros, inclusive o Serrão de Paiva ferido, e navios queimados
ou apresados e levados para Recife. Os documentos e a
correspondência sigilosa, comprometedores quanto ao
envolvimento das autoridades portuguesas na revolta, caíram nas
mãos dos holandeses.
Com o domínio do mar novamente assegurado, os
holandeses puderam movimentar suas tropas de reforço, sem risco
de oposição no mar. Assim, puderam organizar ataques para
diminuir a pressão que os insurretos já exerciam sobre seus
principais pontos estratégicos.
Em fevereiro de 1647, os holandeses atacaram e ocuparam
a Ilha de Itaparica, com uma força naval comandada pelo Almirante
Banckert. O propósito era ameaçar Salvador.
O ataque a Itaparica incentivou D. João IV a iniciar a
preparação de uma força naval para enviar ao Brasil. As dificuldades
financeiras e materiais eram muito grandes para o empobrecido
Portugal. Foi necessário conseguir empréstimos de particulares, a
serem amortizados com o imposto sobre o açúcar do Brasil.
D. João IV designou Antônio Teles de Menezes comandante
da "Armada de Socorro do Brasil", fazendo-o Conde de Vila Pouca
de Aguiar e nomeando-o governador e capitão-general do Estado
do Brasil, em substituição a Teles da Silva. Compunha-se essa
esquadra de 20 navios: 11 galeões, uma urca, duas naus, duas
fragatas e quatro navios menores. Partiu de Lisboa em 18 de
outubro de 1647, chegando a Salvador em 24 de dezembro.
Enquanto isso, em 7 de novembro, saiu de Lisboa, com
destino ao Rio de Janeiro, uma força naval comandada por Salvador
de Sá, com o propósito de libertar Angola, na África.
A missão da esquadra do Conde de Vila Pouca de Aguiar não
era expulsar os holandeses de Pernambuco ou atacar Recife, mas
proteger Salvador e expulsar os invasores da Ilha de Itaparica. A

Origem do nome do título do Patrono da Marinha, Joaquim Marques Lisboa. Naquele local seu
irmão mais velho fora enterrado por ocasião da
Confederação do Equador em 1824.
17

55



56

perda de Salvador seria, sem dúvida, desastrosa para Portugal e
para a causa dos revoltosos.
Na Holanda, sabendo-se da Armada portuguesa de socorro
ao Brasil, organizou-se uma força naval sob o comando do ViceAlmirante Witte Corneliszoon de With. Os navios saíram aos
poucos dos portos e somente em março de 1648 alcançaram
Recife. Encontraram uma situação desfavorável: as forças
holandesas tinham se retirado de Itaparica e restava em poder da
Companhia, além de Recife, a Ilha de Itamaracá e os Fortes do Rio
Grande do Norte e da Paraíba.
Ao chegar a Recife, o Almirante Witte de With encontrou
indefinições sobre que ação tomar no mar. A decisão da Companhia
era lançar suas forças de terra, reforçadas pelas tropas trazidas
por De With, para vencer os rebeldes luso-brasileiros, aliviando a
pressão que já exerciam sobre Recife.
Em 19 de abril de 1648, travou-se a Primeira Batalha dos
Guararapes e os holandeses, mais numerosos e com fama de
estarem entre os melhores soldados da Europa de então, foram
derrotados no campo de batalha.
Restava para a Companhia agir no mar, bloqueando os portos
brasileiros, tentando capturar a Frota do Açúcar e atacando pontos
do litoral. O bloqueio, apesar de exigir dos marinheiros longas
estadias no mar, com conseqüentes problemas sanitários e
alimentares, tinha como incentivo a possibilidade de fazer presas,
havendo participação da tripulação no resultado financeiro da venda
dos navios e das cargas apresadas.
Fez-se ao mar De With, tendo atenção ao bloqueio de
Salvador, onde a poderosa força naval do Conde de Vila Pouca de
Aguiar se mantinha inativa. Em dezembro, aproveitou para atacar
os engenhos de açúcar situados nas margens da Baía de Todos os
Santos, sem ser molestado pela força naval portuguesa, que
mantinha seus navios protegidos pela artilharia das fortificações de
terra de Salvador.
Em novembro de 1648, chegou a notícia da vitória de
Salvador de Sá, com a rendição dos holandeses em Angola, no que
poderia se chamar de primeira projeção brasileira de poder para o
exterior, pois o Rio de Janeiro foi a base para a libertação de Angola
e muitos brasileiros participaram da luta, inclusive índios. Isso
levantou o ânimo dos portugueses para continuar a luta no Brasil.
Ficou evidente que somente com a organização de comboios,
fortemente escoltados, seria possível manter as rotas de navegação
entre Portugal e Brasil. Criou-se, então, a Companhia Geral do
Comércio do Brasil.
Em fevereiro de 1649, a Companhia das Índias Ocidentais
resolveu repetir, em terra, o ataque às forças rebeldes, em
Guararapes. Novamente os holandeses foram derrotados, ficando

A derrota dos holandeses em Recife
Apesar de ainda manterem o domínio do mar, o ânimo dos
tripulantes estava diminuindo, ocasionando motins, destituição de
comandantes e o regresso de navios amotinados para a Holanda.
Queixava-se De With, em cartas ao governo holandês, da
dificuldade de se realizar as manutenções necessárias em seus
navios, das condições precárias de vida de seus marinheiros e da
necessidade de reforços, para que não se perdesse o Brasil. No
final de 1649, o próprio De With passou a solicitar seu regresso
para a Holanda e, logo depois partiu, à revelia da Companhia das
Índias. Em dezembro, os outros navios dos Estados Gerais
Holandeses se amotinaram e iniciaram seu regresso para a Europa,
sem autorização.
Em fevereiro de 1650, a primeira frota da Companhia Geral
do Comércio do Brasil portuguesa, com 18 navios de guerra,
chegou ao Brasil. Não tinha ordens para atacar Recife. D. João IV
ainda temia uma guerra com a Holanda na Europa e preferia manter
a situação informal no Brasil, procurando obter resultados através
de negociações diplomáticas e da guerra de insurreição. Perdia-se,
novamente, uma oportunidade, pois os holandeses, já sitiados em
terra, não mais contavam com a força naval de De With.
Em abril de 1650, os holandeses no Recife receberam o
reforço de 12 navios, o que permitiu recuperar o domínio do mar
e bloquear o Cabo de Santo Agostinho, local por onde as forças
de terra luso-brasileiras recebiam suas provisões. A força do Conde
de Vila Pouca de Aguiar ainda estava em Salvador, porém com
ordem de somente entrar em combate se atacada. No final daquele
ano, partiu para Portugal, escoltando a frota da Companhia do Brasil.
Vieram ao Brasil outras frotas da Companhia portuguesa e
os holandeses conseguiram enviar outras forças navais, mas os dias
do domínio holandês estavam contados. A Companhia das Índias
Ocidentais não lograra alcançar um bom êxito econômico e
financeiramente estava muito mal. Recife continuava estrangulado
pelos insurretos luso-brasileiros.
Por décadas, o Poder Marítimo holandês havia preponderado
nos oceanos, mas, em meados do século XVII, reapareceu a
concorrência séria da Grã-Bretanha, que teve como conseqüência
a Guerra Anglo-Holandesa de 1652-54. Tornou-se, portanto,
inviável para os holandeses manter o domínio permanente do mar
na costa do Brasil.
Em dezembro de 1653, a quarta frota da Companhia do Brasil
portuguesa chegou ao Brasil. O comandante da frota, Pedro Jaques
de Magalhães, decidiu bloquear Recife e apoiar os revoltosos luso-



óbvio para eles que sem um novo socorro da Europa nada mais
poderia ser feito em terra.

57



brasileiros. As posições holandesas foram, sucessivamente, sendo
conquistadas e a rendição de Recife finalmente ocorreu no final de
janeiro de 1654.
O longo êxito dos holandeses no Brasil foi resultante do
esmagador domínio do mar que conseguiram manter durante
quase todo o período da ocupação. Mesmo quando Recife já estava
cercado e era inviável vencer em terra, ainda conseguiram, por
longos anos, suprir a cidade por mar.
Podemos afirmar que, na longa guerra travada entre
holandeses e portugueses, os holandeses foram derrotados no
Brasil, venceram na Ásia e houve empate na África e na Europa.

Corsários franceses no Rio de Janeiro
no século XVIII
A França utilizou a estratégia de empregar corsários para,
através de ações que visavam ao lucro, causar danos nos mares a
seus inimigos. Eles não eram piratas, pois tinham uma patente de
corso, que lhes dava autorização real para agir. Tinham, portanto,
o direito de ser tratados como prisioneiros de guerra, enquanto
os piratas podiam ser enforcados se apanhados.
As riquezas do Rio de Janeiro atraíram a cobiça de dois
franceses. O primeiro foi Duclerc, que acabou derrotado depois
de invadir a cidade. Preso, acabou assassinado, por razão pouco
esclarecida, mas não relacionada com seu ataque. O segundo foi
Duguay-Trouin, que veio com uma considerável força naval,
conquistou a Ilha das Cobras, depois o Morro da Conceição e, de
lá, logrou ocupar a cidade que, ameaçada de ser incendiada, rendeuse. Saqueou o Rio de Janeiro e somente o deixou após receber
um resgate.

Guerras, tratados e limites
no Sul do Brasil
A fronteira do Sul do Brasil demorou a ser definida devido à
ferrenha disputa travada entre Portugal e Espanha que tinham
interesse em dominar a estratégica região platina. Para consolidar
o domínio da região, os dois reinos travavam diversas batalhas ­
nas quais o poder naval de ambos os lados foi muito empregado ­
e vários acordos foram firmados.
Tratado de Lisboa (1681) ­ Já no primeiro ano de sua
fundação, em 1680, a Colônia de Sacramento foi atacada e
reconquistada aos espanhóis pelo governador de Buenos Aires,
sendo devolvida aos portugueses em 1683, após a assinatura do
Tratado de Lisboa, em 1681.

58



Tratado de Utrecht (1715) ­ A morte do Rei da Espanha
Carlos II, em novembro de 1700, levou as maiores potências
européias a engajarem-se no conflito que ficou conhecido como
Guerra de Sucessão de Espanha, que durou quase 15 anos e teve
seus reflexos estendidos para o continente americano. Nesse
conflito, Portugal e Espanha ficaram em lados opostos e, como
conseqüência, a Colônia de Sacramento foi novamente ocupada
pelos espanhóis em 1705.
O Tratado de Utrecht ­ celebrado em 1715 entre as duas
nações ­ legitimou a presença portuguesa na região do Prata com
a restituição aos lusos da Colônia de Sacramento.

Bloqueio Naval ­ Impedir a entrada ou saída de
navios mercantes e de guerra de um porto, base ou
área confinada, pela ameaça de atacá-los com forças
navais superiores. O bloqueio naval poderá ser comercial ou militar. O bloqueio comercial, mais que
isolar e não permitir o abastecimento por via marítima do adversário, impede o comércio marítimo
no porto bloqueado. O bloqueio militar destina-se a
manter no porto ou confinada numa área restrita a
força naval adversária, sem que esta possa perturbar o bloqueio comercial.
18

Tratado de Madri (1750) ­ O conflito ocorrido entre as
cortes portuguesa e espanhola entre 1735 e 1737 motivou a
terceira investida hispânica sobre a Colônia de Sacramento.
Cumprindo ordem do governador de Buenos Aires, em junho de
1735, navios espanhóis já empreendiam um bloqueio naval18 à
colônia lusa enquanto quatro mil soldados realizavam um sítio
por terra.
No Rio de Janeiro, o governador interino,
Brigadeiro José Silva Paes, preparou e enviou, às
pressas, uma força naval para socorrer a colônia.
Assim que chegou à região do Prata, essa força
naval dissipou o bloqueio que os navios espanhóis
vinham impondo à Colônia de Sacramento.
Em Portugal, o recebimento da notícia do
assédio espanhol à colônia lusa levou o rei a ordenar
o preparo de uma força naval que foi constituída
por duas naus e uma fragata. Essa força suspendeu
de Lisboa em março de 1736 e, ao chegar ao Rio
de Janeiro, recebeu reforços. Juntou-se a ela o
Brigadeiro Silva Paes, contendo ordens de socorrer a Colônia de Sacramento e, se possível,
reconquistar Montevidéu (fundada e abandonada
pelos luso-brasileiros e novamente fundada pelos
espanhóis) e fortificar o Rio Grande de São Pedro.
A força naval portuguesa no Prata combateu
os espanhóis, apoiou a Colônia de Sacramento e
estabeleceu o domínio do mar na região. Após
alcançar seus objetivos, parte dessa força regressou
ao Rio de Janeiro.
O Brigadeiro Silva Paes permaneceu no Sul e, após ameaçar
um ataque a Montevidéu ­ que não ocorreu devido ao grande
risco dos navios ficarem encalhados ­, decidiu partir para o Rio
Grande de São Pedro e cumprir a missão de fortificá-lo. Ao chegar,
tratou o Brigadeiro de organizar suas defesas e mandou construir
o forte que denominou Jesus, Maria e José. Estavam assim criadas

Tratado de Madri - 1750
Fonte: Livro Fronteiras do Brasil
no Regime Colonial de José Carlos
de Macedo Soares

59


Esse conflito ficou conhecido como a Guerra
Guaranítica (1753-1756) e foi contada no poema O
Uraguai, de José Basílio da Gama.
19

as condições para o início da povoação da região, que recebeu,
mais tarde, casais açorianos para ocupar a terra.
Mesmo após a assinatura por portugueses e espanhóis do
armistício de 1737, o cerco terrestre à Colônia de Sacramento
continuou, demonstrando a grande instabilidade que existia nas
relações entre as duas colônias.
Procurando solucionar suas questões de limites, Portugal e
Espanha resolveram assinar, em 1750, o Tratado de Madri, que,
dentre outras medidas, estabeleceu a posse da Colônia de
Sacramento para a Espanha e a de Sete Povos das Missões para
Portugal. Esse tratado foi fruto do trabalho de Alexandre de
Gusmão, secretário de D. João V, junto ao qual teve grande
influência. Foram nomeadas duas comissões para demarcarem
a fronteira, uma para o norte ­ onde Portugal teve como
representante Francisco Xavier de Mendonça Furtado (irmão do
Marquês de Pombal) ­ e outra para o sul, sendo o representante
português Gomes Freire de Andrade. A troca estabelecida pelo
Tratado não foi efetuada, pois os índios que viviam nas Missões se
recusaram a deixar o local, empreendendo uma resistência armada,
levando os luso-espanhóis a responderem com ação militar
conjunta que, em 1756, por meio da força, ocuparam a região19.
Tratado do Pardo (1761) ­ Celebrado entre portugueses
e espanhóis, anulou os efeitos do Tratado de Madri e estabeleceu
que a Colônia de Sacramento voltasse a ser de Portugal. Durante
a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), Portugal e Espanha voltaram
a ficar em lados opostos quando, em 1761, a Espanha assinou um
tratado de aliança com a França, o que levou a Grã-Bretanha a
declarar guerra aos espanhóis. Como conseqüência, Portugal, que
apoiava os britânicos, foi invadido em 1762 por forças hispânicas e
conseqüentemente a guerra se propagou para o Sul do Brasil.
Na região do Prata, o governador de Buenos Aires ordenou
ao comandante do cerco, que estava sendo feito à Colônia de
Sacramento, que fosse restabelecido o tiro de canhão como limite
reconhecido para a praça e "convidasse" o governador da Colônia
de Sacramento a desocupar imediatamente as Ilhas de Martin Garcia
e dos Hermanos. Ainda delegou ao Capitão Francisco Gorriti a
incumbência de viajar até a Vila de Rio Grande para entregar, ao
comandante da mesma, um ofício, em que exigia a desocupação
daquelas terras, já que, com a nulidade do Tratado de Madri, as
terras voltavam a pertencer à Espanha. O Governador de Buenos
Aires, D. Pedro Antônio Cevallos, tinha ambicioso projeto de
dominação do Sul do Brasil, e preparou-se militarmente para atacar
a Colônia de Sacramento, recebendo reforços da Espanha em
navios, material de artilharia e munição.
A Colônia de Sacramento dispunha para sua defesa de uma
pequena tropa, que não excedia 500 homens, e o Governador
Vicente da Silva Fonseca respondia às intimações de Cevallos

60

Tratado de Santo Ildefonso (1777) ­ Com a morte
de D. José I, em fevereiro de
1777, assumiu o trono de
Portugal D. Maria I. Na tentativa
de resolver as questões de
limites entre Portugal e Espanha, foi assinado em 1o de
outubro de 1777 o Tratado de
Santo Ildefonso. Por este tratado, ficou estabelecido a restituição a Portugal da Ilha de
Santa Catarina, porém os lusos
perderam a Colônia do Santíssimo Sacramento e a região
dos Sete Povos das Missões. Este
tratado deixou os espanhóis
com o domínio exclusivo do Rio
da Prata, sendo deveras desvantajoso para Portugal.



procurando ganhar tempo, enquanto aguardava reforços. Em
outubro de 1762, a Colônia de Sacramento foi atacada pela
quarta vez e, não obstante a resistência oferecida pelos
portugueses, capitulou.
Os espanhóis continuaram avançando sobre terras ocupadas
pelos luso-brasileiros e com superioridade de forças tomaram o
Rio Grande de São Pedro em 1763. Apesar de ter sido restabelecida
a paz entre as duas nações após a assinatura do Tratado de Paris, e
o governador de Buenos Aires restituir a Colônia de Sacramento,
este continuou com a ocupação do Rio Grande de São Pedro, que
pretendia tornar definitiva tendo como base o Tratado de
Tordesilhas. Não obstante a reclamação dos portugueses por via
diplomática, foi necessário empreender uma ação militar, na qual
tropas luso-brasileiras, comandadas pelo Tenente-General João
Henrique Boehm (alemão a serviço de Portugal), juntamente com
o emprego da Esquadra portuguesa, reconquistaram o Rio Grande
de São Pedro em abril 1776.
Em 1777, os espanhóis protestaram contra a tomada do Rio
Grande pelos portugueses e, após insucessos diplomáticos,
decidiram enviar uma poderosa expedição sob o comando de D.
Pedro de Cevallos, nomeado primeiro vice-rei do Rio da Prata.
Coube ao Marquês da Casa de Tilly o comando da força naval
espanhola, que era composta de 19 navios de guerra e 26 de
transporte. Embora providências tenham sido tomadas, no sentido
de combater tal ameaça pelo Marquês de Pombal, os espanhóis
ocuparam a Ilha de Santa Catarina e pela quinta vez atacaram a
Colônia de Sacramento.

,

Tratado de Santo Ildefonso -1777
Fonte: Livro Fronteiras do Brasil
no Regime Colonial, de José Carlos
de Macedo Soares

61



62

Tratado de Badajós (1801) ­ A estabilidade entre as
relações luso-espanholas foi afetada quando Napoleão Bonaparte,
desejoso de castigar Portugal por participar, com seus navios, de
cruzeiros ingleses no Mediterrâneo e visando a trazer os
portugueses para zona de influência francesa, forçou a Espanha a
declarar guerra a Portugal em 1801. O rompimento das relações
entre os dois países na Europa durou poucas semanas, sem ações
militares dignas de registro, ficando o episódio conhecido como a
Guerra das Laranjas. Na América, porém, a chegada da notícia
sobre o conflito entre as duas coroas desencadeou o rompimento
de hostilidades entre as populações da fronteira. No Rio Grande
de São Pedro, tropas foram aprestadas para defenderem as
fronteiras, ainda em processo demarcatório, e os luso-brasileiros
invadiram e conquistaram os Sete Povos das Missões, do lado
espanhol, enquanto os hispano-americanos invadiram o Sul de Mato
Grosso.
O Tratado de Badajós pôs fim à guerra de França e Espanha
contra Portugal, tendo a Espanha por direito de guerra, conservado
a praça de Olivença, na Europa, e a Colônia de Sacramento. Portugal
recuperou no sul da América o território dos Sete Povos das
Missões.

C

R

O

N

O

L

O

G

I

A



DATA

EVENTO

1555

Chegada de Nicolau Durand de Villegagnon ao Rio de Janeiro, instalação da

1560
1565
1580-1640
1612
1614
1615
1621
1624
1625
1630
1631
1640
1641
1648
1649
1654
1681
1715
1750
1761
1777
1801

França Antártica.
Ataque da força naval portuguesa ao Forte Coligny.
Fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro por Estácio de Sá.
Expulsão dos franceses do Rio de Janeiro.
União Ibérica.
Parte da França uma expedição com o intento de fundar outra colônia no
Brasil, desta vez no Maranhão.
Formada a primeira força naval comandada por brasileiro nato (Jerônimo de
Albuquerque), para combater os franceses no Maranhão.
Rendição e expulsão dos franceses do Maranhão pelas forças lusas.
Criação da Companhia das Índias Ocidentais pelos holandeses.
Chegada da força naval holandesa a Salvador e início do ataque.
Chegada da armada luso-espanhola (denominada Jornada dos Vassalos) a
Salvador e expulsão dos holandeses.
Invasão holandesa em Pernambuco.
Combate Naval de Abrolhos.
Restauração Portuguesa. Batalha Naval de 1640.
Assinatura de Tratado de Trégua entre Portugal e Holanda. Invasão holandesa
em Sergipe, Maranhão, Angola e São Tomé.
Rendição dos holandeses em Angola.
Holandeses são derrotados em Guararapes.
Rendição dos holandeses em Recife, término da ocupação holandesa.
Tratado de Lisboa.
Tratado de Utrecht.
Tratado de Madri.
Tratado do Pardo.
Tratado de Santo Ildefonso.
Tratado de Badajós.

63

F I X A Ç Ã O
1 ­ O Brasil, ao longo dos séculos XVI e XVII, foi invadido por estrangeiros no intuito de
formar colônias. Qual era a nacionalidade deles e em que período ocuparam terras
brasileiras?
2 ­ O que foi a Jornada dos Vassalos?


Como foi estabelecida a fronteira sul das terras portuguesas no continente americano?

4 ­ Na sua opinião, qual foi a importância das forças navais para a manutenção de nossa
unidade territorial no período estudado?

SAIBA MAIS:
ALBUQUERQUE, Antonio Luiz Porto e. História do Brasil. Rio de Janeiro: Serviço de
Documentação da Marinha, 1985.
HISTÓRIA naval brasileira. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 1975v.2. t.1B e t.2.

.

VIANNA, Hélio. História do Brasil: período colonial, Monarquia e República. 14.ed. São Paulo:
Melhoramentos, 1980.

64

65



O Decreto de Berlim, assinado em 1806, estabelecia o bloqueio continental. Tratava-se de medidas
protecionistas, pelas quais países europeus associados e aliados à França deviam abster-se de importar
mercadorias inglesas.
1

Pela Convenção Secreta de Londres, de 1807,
entre Inglaterra e Portugal, decidiu-se, dentre outras providências, a mudança da sede da monarquia
portuguesa para o Brasil e a assinatura de novo
tratado de comércio quando da sua chegada.
2

Charruas e algumas fustalhas (embarcação comprida e estreita, de pequeno calado, proa lançada e
armada de esporão, dotada de 10 a 26 bancos de
remadores, mastro envergando vela bastarda, e
tendal à popa).
3

A Força Naval era composta das Naus Príncipe
Real, Afonso de Albuquerque e Medusa, da Nau inglesa Bedford, da Fragata Urânia, do Bergantim Três
Corações e Transporte Imperador Alexandre.
4

66

Formação da Marinha Imperial Brasileira
Sinopse
Emergindo das dificuldades do período revolucionário (17891799), a França erguia-se perante a Europa aristocrática com o
"Grande Exército" chefiado por Napoleão Bonaparte. As notáveis
vitórias militares francesas subjugaram a maior parte do Velho
Mundo e esse expansionismo teve repercussões intensas na própria
América, abrindo caminho para a emancipação política das colônias
ibéricas.
As guerras napoleônicas (1804-1815) foram caracterizadas
por dois aspectos: o primeiro na luta de uma nação burguesa contra
uma Europa aristocrática; e o segundo na luta entre França e
Inglaterra. Com a derrota da Marinha francesa na Batalha de
Trafalgar (1805) para a Marinha inglesa, muito superior, decide
Napoleão investir contra seus inimigos continentais (Áustria e
Prússia) e, ao tomar Berlim, iniciou guerra econômica à Inglaterra,
estabelecendo em 1806 um "bloqueio continental"1. Os demais
Estados europeus foram concitados a aderir ao bloqueio, dentre
eles Portugal.
Portugal sempre manteve laços comerciais com a Inglaterra
e a sua não-adesão ao bloqueio2 foi determinante para a decisão
de sua invasão por Exército francês sob o comando do General
Junot. Ao saber da chegada do Exército invasor de Napoleão, o
Conselho de Estado com o Príncipe Regente D. João acordaram
na retirada para o Brasil de toda a Família Real.
A 29 de novembro de 1807, a Família Real embarca rumo
ao Brasil. O comboio de transportes que conduziu todo o aparato
(15.000 pessoas dentre militares e civis) era de 30 navios, e várias
embarcações3. Foi protegido por uma escolta inglesa composta
por 16 naus.
A 22 de janeiro de 1808, a Nau Príncipe Real, onde o Príncipe
Regente D. João encontrava-se embarcado, chegou à Bahia. A 28,
D. João proclamava a independência econômica do Brasil com a
publicação da famosa carta régia que abriu ao comércio estrangeiro
os portos do país; e a 7 de março de 1808 D. João, à testa de uma
força naval composta por três naus, um bergantim e um transporte4,
entrou na Baía de Guanabara. A bordo também vinham os



integrantes da Brigada Real da Marinha encarregados da artilharia
e da defesa dos navios.5
Vamos ver neste capítulo o que ocorreu quanto ao
estabelecimento da Marinha na Corte e a política externa de D.
João, caracterizada pela invasão da capital da Guiana Francesa,
Caiena, e a ocupação da Banda Oriental, atual Uruguai.
No campo interno veremos a Revolta Nativista de 1817,
movimento separatista ocorrido em Pernambuco, onde a Marinha
atuou na sua repressão, bloqueando o porto de Recife.
Com o retorno de D. João VI para Portugal, permaneceu no
Brasil seu filho D. Pedro, que passou a sofrer pressão vinda da
Corte de Portugal para que regressasse a Lisboa. Como
conseqüência, temos o Dia do Fico (09/01/1822) e, posteriormente,
após novas pressões, D. Pedro proclama a nossa Independência.
Para concretizar a nossa Independência e levar a todos os
recantos do litoral brasileiro a notícia do dia 7 de setembro, foi
necessário organizar uma força naval capaz de atingir todas as
províncias, e fazer frente aos focos de resistência à nova ordem.

O desembarque no Rio de Janeiro da Brigada Real
da Marinha, em 7 de março de 1808, é considerado
o marco zero da história dos Fuzileiros Navais.
5

Vamos, então, iniciar esta viagem.....

Embarque da Família Real
óleo s/tela de Francisco Bartolozzi
Acervo do Museu Histórico Nacional

67



Salvo o Conselho Supremo, o Arquivo, a Contadoria e a Fábrica de Pólvora, as demais repartições
citadas eram verdadeiros desdobramentos das já
existentes em Portugal.
6

O primeiro estaleiro organizado oficialmente foi a
Ribeira das Naus de Salvador, depois Arsenal de
Marinha da Bahia, fundado no final do século XVI.
Apesar das dificuldades, o estaleiro de Salvador
desenvolveu-se rapidamente, tornando-se o mais
importante centro de construção naval do Brasil
durante todo o período colonial, e mesmo até meados do século XIX. Além de Salvador e do Rio de
Janeiro, a construção naval desenvolveu-se também
em vários outros pontos do nosso litoral: Belém,
Recife, Maranhão, Pernambuco, Alagoas, São Paulo
e Santa Catarina; sendo que os de Recife e Belém
existiram como arsenais de Marinha.
7

A vinda da Família Real
A Corte no Rio de Janeiro
Junto com a Família Real
todo o aparato burocrático e
administrativo foi transferido
para o Rio de Janeiro. Dentre
as primeiras decisões de D.
João, já no dia 11 de março de
1808, está a instalação do
Ministério dos Negócios da
Marinha e Ultramar, q u e
Desembarque da corte portuguesa no
continuou a ter o mesmo
Rio de Janeiro, 7 de março de 1808.
regulamento instituído pelo
Óleo sobre tela de Miranda Júnior.
Alvará de 1736.
A seguir, foram sucessivamente criadas ou estabelecidas várias
repartições necessárias ao funcionamento do Ministério da Marinha,
tais como: Quartel-General da Armada, Intendência e Contadoria,
Arquivo Militar, Hospital de Marinha, Fábrica de Pólvora e Conselho
Supremo Militar6.
A Academia Real de Guardas-Marinha, que também
acompanhou a Família Real, teve sua instalação nas dependências
do Mosteiro de São Bento, se tornando desta feita o primeiro
estabelecimento de ensino superior no Brasil.
No tocante à infra-estrutura já existente no Rio de Janeiro,
observamos que o Arsenal Real da Marinha, localizado então ao
pé do morro do Mosteiro de São Bento, cuja criação data de 29
de dezembro de 1763, teve sua capacidade ampliada para poder
apoiar a recém-chegada Esquadra7.

Política externa de D. João e a atuação
da Marinha: a conquista de Caiena e a
ocupação da Banda Oriental
Diante da invasão do território continental português pelas
tropas do General Junot, D. João assinou, a 1o de maio de 1808,
manifesto declarando guerra à França, considerando nulos todos
os tratados que o imperador dos franceses o obrigara a assinar,
principalmente o de Badajós e de Madri, ambos de 1801, e o de
neutralidade, de 1804. Os limites entre o Brasil e a Guiana Francesa
voltaram a ser questionados.
Como a guerra não poderia ser levada a cabo no território
europeu, e sendo importante a ocupação de território inimigo em
qualquer guerra, o objetivo ideal se tornou a colônia francesa.

68



Determinou então a Corte ao Capitão-General da Capitania do
Grão-Pará, Tenente-Coronel José Narciso Magalhães de Meneses,
que ocupasse militarmente as margens do Rio Oiapoque. Ordem
recebida, tratou de arregimentar pessoal e material, se valendo
inclusive (diante dos escassos recursos existentes nos cofres da
capitania) de subscrição popular.
Em outubro de 1808, a força estava pronta. Sob o comando
do Tenente-Coronel Manuel Marques d'Elvas Portugal, compunhase de duas companhias de granadeiros, duas companhias de
caçadores e uma bateria de artilharia, totalizando 400 homens com
armas. Para conduzir essa força ao lugar de destino, aprestou-se
uma esquadrilha composta por dez embarcações8. A 3 de
novembro, a esquadrilha foi acrescida de três navios vindos da
Corte: Corveta inglesa Confidence (comando do Capitão-de-Mare-Guerra James Lucas Yeo) e Brigue Voador (comando do CapitãoTenente José Antônio Salgado), Brigue Infante D. Pedro (comando
do Capitão-Tenente Luís da Cunha Moreira)9. Juntos traziam um
reforço de 300 homens. Tinham ordens de ocupar o território
da Guiana Francesa e submeter Caiena.

Escuna General Magalhães (capitânia); Cúteres Vingança e Leão; três barcas-canhoneiras; Sumaca Ninfa;
dois obuseiros; Iate Santo Antônio; e a Lancha São
Narciso.
8

O Almirante Luís da Cunha Moreira teve carreira
brilhante, sendo após a proclamação da Independência nomeado Ministro da Marinha, se tornando
portanto o primeiro ministro brasileiro nato da nossa Marinha. Em Caiena, praticamente seu batismo
de fogo, se destacou em combate, sendo ferido
por golpe de sabre, cuja cicatriz o acompanhou por
toda vida.
9

Invasão de Caiena, 1808-1809
Óleo sobre tela de Álvaro Martins

A 1o de dezembro, desembarcaram as nossas tropas no
território inimigo, ficando o comando da expedição assim
repartido: o Tenente-Coronel Manuel Marques dirigiria as forças
terrestres; os navios ficariam sob as ordens do Comandante Yeo.
Este, com os navios menores (os demais foram bloquear Caiena
por mar), subiu o Oiapoque e foi dominando, sem maior resistência,
os pontos fortificados que ia encontrando. Quatro escunas
francesas foram aprisionadas, incorporadas e rebatizadas de
Lusitana, D. Carlos, Sydney Smith e Invencível Meneses.

69



De Portugal veio uma Divisão de Voluntários
Reais, sob o comando do Tenente-Coronel Carlos
Frederico Lecor, embarcados em dez navios. O
comboio, que entrou no Rio de Janeiro no dia 30 de
março de 1816, trazia a última tropa de Lisboa.
10

José Gervásio Artigas se intitulava Chefe dos
Orientais e Protetor dos Povos Livres.
11

Fragatas Graça e Príncipe Real, Charrua
Voador, Brigues Lebre, Providente e Atrevido.
12

70

O governador de Caiena, Victor Hughes, tratou, em vão, de
preparar a resistência, levantando baterias, fortificando os melhores
pontos estratégicos e guarnecendo os fortes. As forças de ataque
foram ganhando terreno, apertando cada vez mais o cerco à capital
Caiena, até sua rendição final, a 12 de janeiro de 1809. A importância
dessa operação recai na condição de ter sido o primeiro ato
consistente de política externa de D. João realizada por meio
militar, contando com forças navais e terrestres anglo-luso-brasileira.
A ocupação portuguesa da Guiana Francesa durou mais de
oito anos. Embora temporária, foi de grande valia para a fixação
dos limites do País, porquanto, na ocasião de sua devolução, em
1817, ficaram tacitamente estabelecidos os limites do Oiapoque.

A Banda Oriental
Outro movimento importante de D. João na política externa
foi a ocupação da Banda Oriental. Na operação, foi de grande
importância o papel que desempenhou a Marinha, não só no
transporte das tropas, desde Portugal10 (já liberado do domínio
francês), como também em todo o desenrolar da ocupação.
O movimento de independência da América espanhola
provocou o aparecimento de novas nações americanas, cada qual
com lideranças individuais. Foi o caso do Uruguai, então chamado
de Banda Oriental, que se recusava a fazer parte das Províncias
Unidas do Rio da Prata, encabeçada por Buenos Aires. Seu líder
José Gervásio Artigas11 arregimentou as camadas populares contra
o domínio espanhol e para o ideal da anexação promovido por
Buenos Aires. Neste intento invadiu as fronteiras portenhas e
brasileiras, o que ocasionou o acordo entre as duas últimas para
uma ação conjunta contra Artigas.
A 12 de junho de 1816, partiu do Rio de Janeiro uma Divisão
Naval, composta de uma fragata, uma corveta, cinco naus (das
quais uma era inglesa e outra francesa) e de seis brigues, capitaneada
pela Nau Vasco da Gama, onde achavam-se embarcados o Chefede-Divisão Rodrigo José Ferreira Lobo, responsável pelas atividades
navais da expedição, e o Tenente-Coronel Carlos Frederico Lecor,
então nomeado Governador e Capitão-General da Praça e
Capitania de Montevidéu.
A Divisão Naval foi se
reunir com o 1o Escalão,
c o m p o s t o p o r seis navios12, que já havia seguido
para Santa Catarina em
janeiro.
Aportando a Divisão
na Ilha de Santa Catarina a
Embarque na Praia Grande
Fonte: O Exército na História do Brasil:
26 de junho, decidiu Lecor
Reino Unido e Império
seguir por terra com sua



tropa para o Rio Grande do Sul e, então, iniciar a invasão, visto que
as condições climáticas só eram favoráveis à navegação no Rio
da Prata em outubro. Seguiu então à frente dos seus 6 mil
comandados, margeando o mar até as proximidades de
Maldonado. A Esquadra, por sua vez, rumou em direção ao Rio
da Prata, devendo antes estacionar naquele porto.
Do Rio de Janeiro, a 4 de agosto, partiu nova flotilha,
composta por quatro navios 13 com a missão de operar em
combinação com a Divisão dos Voluntários Reais. A 22 de
novembro de 1816, deu-se o desembarque em Maldonado pelas
forças navais de Rodrigo José Ferreira Lobo. Com a ocupação do
cidade, e a vitória pelas forças terrestres em Índia Morta, o caminho
para Montevidéu ficou livre. Lecor encontrava-se acampado no
passo de São Miguel, quando recebeu uma deputação de
Montevidéu que apresentou-lhe as chaves da cidade e seu
submisso respeito e completa adesão ao governo de D. João VI.
Nessa época, o governo das Províncias do Rio da Prata não
mais apoiava a intervenção armada do Brasil na Banda Oriental,
deixando-nos em campo sozinhos.
Não foi imediata a completa submissão da Banda Oriental.
Ainda por alguns anos, fez José Artigas tenaz resistência à
dominação portuguesa, até sua derrota final na Batalha de
Taquarembó, a 22 de janeiro de 1820.
Durante esse período, os partidários de Artigas valiam-se de
corsários que, com base na Colônia de Sacramento14, ocasionavam
grandes prejuízos ao comércio de nossa Marinha Mercante. Com
recursos navais reduzidos para liquidar a nova ameaça, o comando
português empregou tropas terrestres para tentar destruir as bases
inimigas. Assim, o Tenente-Coronel Manuel Jorge Rodrigues,
auxiliado por forças navais, atacou e conquistou Colônia, Paissandu
e outros locais às margens do Uruguai, tendo em Sacramento
conseguido aprisionar vários corsários que aí se encontravam.
Para as operações realizadas no Rio Uruguai, foi constituída
uma pequena flotilha, sob o comando do Capitão-Tenente Jacinto
Roque Sena Pereira, formada pela Escuna Oriental e Barcas Cossaca,
Mameluca e Infante D. Sebastião. Esta flotilha prestou auxílio
inestimável às forças de terra, tanto na tomada de Arroio de La
China, quanto na tomada de Calera de Barquin, Perucho Verna e
Hervidero. Em Perucho Verna, doze embarcações inimigas, uma
lancha artilhada e um escaler foram apresados.
No mar, o último episódio em que a força naval atuou,
ocorrido em 15 de junho de 1820, foi o aprisionamento do corsário
General Rivera, com a recuperação dos mercantes Ulisses e
Triunfantes, pela Corveta Maria da Glória, comandada pelo Capitãode-Fragata Diogo Jorge de Brito.
A 31 de julho de 1821, em assembléia formada por deputados
representantes de todas as localidades orientais, foi aprovada por

Era composta da Corveta Calipso (capitânia), sob
o comando do Capitão-de-Mar-e-Guerra D. José
Manuel de Meneses; Escuna Tártara, comando do
Primeiro-Tenente Vitorino A. J. Gregório; Brigue
Real Pedro, comando do Segundo-Tenente José da
Costa Couto; e Transporte Patrimônio, comando do
Mestre Antonio Francisco Firmo.
13

Também nos portos de Buenos Aires e de
Baltimore (EUA), armaram-se a princípio muitos
corsários contra nós; porém devido a reclamações
do governo português, tal irregularidade cessou.
14

71



unanimidade a incorporação da Banda Oriental à Coroa portuguesa,
fazendo parte do domínio do Brasil com o nome de Província
Cisplatina.

Situação geral inicial da guerra com Artigas
e a marcha de Lecor ao longo da Costa.
Fonte: O Exército na História do Brasil:
Mapas, Esquemas e Esboços

72

Em paralelo ao que ocorria no Sul, teve a Corte que se
mobilizar para fazer frente ao movimento separatista que eclodiu
em Pernambuco, em março de 1817.
As primeiras providências para o restabelecimento da ordem
legal em Pernambuco foram tomadas pelo Conde dos Arcos,
Governador da Bahia, que fez armar em guerra alguns navios
mercantes, e mandou seguir para Pernambuco sob o comando do
Capitão-Tenente Rufino Peres Batista. A esquadrilha era composta
por três navios15, e tinha como missão o bloqueio do porto do
Recife.
A 2 de abril partiu da Corte uma Divisão sob o comando do
Chefe-de-Esquadra Rodrigo José Ferreira Lobo, composta por três
navios16, enquanto que da Bahia seguiram por terra dois regimentos
de cavalaria e dois de infantaria. A 4 de maio outra Divisão Naval,
sob o comando do Chefe-de-Divisão Brás Caetano Barreto
Cogomilho, partiu do Rio de Janeiro17.
O cerco da cidade de Recife por terra e o bloqueio efetuado
por mar fizeram com que os rebeldes abandonassem a cidade a
20 de maio, dando fim ao movimento separatista.

Guerra de Independência
Elevação do Brasil a Reino Unido
Do mesmo modo que a transferência para o Brasil da sede
do reino português foi motivada pela ameaça representada pelo
expansionismo francês na Europa, seria esperado o retorno do
Rei D. João VI a Lisboa e a restauração do pacto colonial18 após
a paz européia. Com a queda de Napoleão e o movimento de
restauração das monarquias absolutistas encabeçado pelo
Congresso de Viena19, os portugueses esperavam que seu rei
retornasse para Portugal e trouxesse a Corte de volta para Lisboa.
Entretanto, o monarca permaneceu no Rio de Janeiro e, para
viabilizar esta situação, elevou o Brasil a uma condição equivalente
de Portugal com a formação do Reino Unido de Portugal, Brasil e
Algarves.
Enquanto os comerciantes e fazendeiros brasileiros
desfrutavam do afrouxamento dos laços coloniais, a sociedade
portuguesa via-se deixada em segundo plano, com o território
luso sendo administrado por uma junta sob controle de um
militar britânico.



A Revolta Nativista de 1817
e a atuação da Marinha

Corveta Carrasco, Brigue Mercúrio e uma
escuna.
15

Brigues Benjamin, comando do Capitão-Tenente
Fernando José Melo; e Aurora, comando do Capitão-de-Fragata José Felix Pereira de Campos; e
pela Escuna Maria Teresa, comando do CapitãoTenente Nuno José de Sousa Manuel de Melo.
16

Era constituída pela Nau Vasco da Gama (capitânia),
e dos transportes Santiago Maior, comando do Capitão-Tenente José de Oliveira; Almirante, comando
do Segundo-Tenente Luís Antonio Ribeiro; Harmonia, comando do Primeiro-Tenente Isidoro da Costa Chaves; Feliz Eugenia, comando do SegundoTenente Francisco José Damásio; Joaquim Guilherme, comando do Capitão Bernardo José Carreirão;
Olímpia, comando do Capitão-Tenente José
Domingues; Ateneu, comando do Primeiro-Tenente
Estevão do Vale; Bela Americana, comando do Primeiro-Tenente Cipriano J. Pires; e Bonfim, comando do Segundo-Tenente José da Fonseca Figueiredo.
Mais tarde a Divisão foi acrescida da Fragata Pérola,
comando do Capitão-Tenente José Maria Monteiro.
17

Pacto Colonial foi o nome dado às relações entre
a metrópole e a colônia, que implicavam sempre na
subordinação da segunda à primeira. O pacto colonial implicava que todo o comércio dos produtos
produzidos na colônia só poderia ser feito com a
metrópole. De maneira inversa, todos os produtos
que os colonos quisesse importar só poderia ser
vendido pela metrópole, isto se chama monopólio
comercial ou exclusivismo mercantil.
18

O Congresso de Viena (1814-1815) foi a reunião
dos representantes dos países que derrotaram a
França de Napoleão para restaurar a organização
política dos países da Europa afetados pela Revolução Francesa e pela invasão das tropas de Napoleão.
Os principais objetivos dos representantes das grandes potências que derrotaram a França (Inglaterra,
Prússia, Áustria e Rússia) era refazer o mapa político europeu, promovendo a volta do Antigo Regime,
e das monarquias absolutistas derrubadas por
Napoleão.
19

73



Bandeira do Reino Unido de Portugal, Brasil
e Algarves

O retorno de D. João VI
para Portugal
Tal estado de "abrasileiramento" da monarquia portuguesa,
somado ao clamor por uma flexibilização do absolutismo vindo de
setores da sociedade portuguesa, fez estourar na Cidade do Porto
um movimento revolucionário liberal. Logo a revolução se espalhou
por todo o Portugal, fomentando a instalação de uma Assembléia
Nacional Constituinte denominada de "Cortes", que visava a
instaurar uma monarquia Constitucional. O estado revolucionário
da antiga metrópole provocou o retorno do Rei em 26 de abril de
1821, deixando seu filho D. Pedro como Príncipe Regente. Tentava,
assim, a dinastia de Bragança manter sob controle, e longe dos
ventos liberais, as duas partes de seu reino.
Mesmo com o retorno do Rei, as Cortes reunidas em Lisboa
mantiveram-se atuantes na imposição de uma monarquia
constitucional a D. João VI. Contudo, o posicionamento das Cortes
em relação ao Brasil era completamente contrário ao seu discurso
liberal: vinha no sentido de reativar a subordinação política e
econômica posterior a 1808, reerguendo o pacto colonial. A
oposição que as Cortes faziam à dinastia de Bragança em Portugal
e suas crescentes imposições ao Príncipe Regente provocaram
reações de D. Pedro. Em 9 de janeiro de 1822, no que ficou
conhecido como Dia do Fico, D. Pedro declarou que permaneceria
no Brasil apesar da determinação das Cortes para que retornasse
a Lisboa. Concomitantemente, o Príncipe nomeou um novo
Gabinete de Ministros, sob a liderança de José Bonifácio de Andrada
e Silva, que defendia a emancipação do Brasil sob uma monarquia
constitucional encabeçada pelo Príncipe Regente.
A pressão das Cortes pela restauração do pacto colonial com
o conseqüente esvaziamento das suas atribuições de regente
levaram D. Pedro a defender a autonomia brasileira perante a
restauração da condição de colônia pretendida pelas Cortes.

A Independência
Princesa D. Leopoldina, esposa de D. Pedro,
investida das funções de Princesa Regente do
Brasil, reúne o Conselho de Estado em 2 de
setembro de 1822 e ouve de José Bonifácio de
Andrada e Silva os argumentos pela imediata
proclamação da Independência do Brasil.
Motivada por esta reunião,a princesa teria
enviado a carta que, lida às margens do Ipiranga,
levou D. Pedro ao definitivo rompimento com
Lisboa.
Óleo sobre tela de Georgina de Albuquerque.
Acervo do Museu Histórico Nacional.

74

Em 7 de setembro de 1822, o Príncipe
D. Pedro declarava a
Independência do Brasil.
Porém, só as províncias
do Rio de Janeiro, São
Paulo e Minas Gerais
atenderam de imediato
à conclamação emanada
das margens do Ipiranga.



Até pela proximidade
geográfica, estas mantiveram-se fiéis às decisões
emanadas do Paço 20
mesmo após a partida de
D. João VI. As capitais das
províncias ao Norte do
País mantiveram sua ligação com a metrópole,
pois as peculiaridades da
navegação a vela e a falta
de estradas as punham
mais próximas desta do
que do Rio de Janeiro.
Mormente o expressivo
número de patriotas no
Retrato do Imperador D. Pedro I, cuja coroação
interior destas províncias,
ocorreu em 1 de dezembro de 1822.
Óleo sobre tela de Manoel de Araújo Porto-Alegre.
nas capitais e nas poucas
Acervo do Museu Histórico Nacional.
principais cidades, a elite
Fonte: http://www.museuhistóriconacional.com.br
de comerciantes era
majoritariamente portuguesa e adepta da restauração colonial realizada pelo movimento
liberal português. Durante a "queda-de-braço" empreendida entre
as Cortes e D. Pedro, foram reforçadas as guarnições militares
das províncias do Norte e Nordeste para manter a vinculação
com Lisboa.
A resistência mais forte estava justamente em Salvador,
Bahia, onde essa guarnição era mais numerosa. No sul, a recémincorporada Província Cisplatina viu as guarnições militares que lá
ainda estavam dividirem-se perante a causa da Independência,
enquanto o comandante das tropas de ocupação, General Carlos
Frederico Lecor, colocou-se ao lado dos brasileiros, seu
subcomandante, D. Álvaro da Costa de Souza Macedo, e a maior
parte das tropas defenderam o pacto com Lisboa.
A situação que se descortinava no Brasil parecia cada vez
mais desfavorável ao processo de Independência. Mesmo que as
forças brasileiras, constituídas de militares e milícias patrióticas
forçassem e sitiassem as guarnições portuguesas, o mar era uma
via aberta para o recebimento de reforços. Por esta via, Portugal
aumentou sua força com tropas, suprimentos e navios de guerra à
guarnição de Salvador comandada pelo Governador das Armas da
Província Brigadeiro Inácio Luís Madeira de Melo.

Paço Imperial foi a sede administrativa
do governo durante o período do reinado de
D. João VI e por todo o Império, localiza-se na
Praça XV de Novembro, no centro da cidade
do Rio de Janeiro.
20

o

Paço Imperial
Fonte: http://portal.iphan.gov.br

A Formação de uma Esquadra Brasileira
O governo brasileiro, por intermédio de seu Ministro do
Interior e dos Negócios Estrangeiros José Bonifácio de Andrada e
Silva, percebeu que somente com o domínio do mar conseguiriam

75



O conceito de dissuasão será exposto no
Capítulo VIII ­ O Emprego Permanente do
Poder Naval.
21

Nau Pedro I.
Navio capitânia da primeira Esquadra do Brasil
independente. Exemplo maior dos vários navios
da Marinha portuguesa que se encomtravam no
porto do Rio de Janeiro em mal estado de
conservação e foram reparados pelo Arsenal de
Marinha da Corte (Arsenal de Marinha do Rio de
Janeiro). Na Marinha Portuguesa era nomeada
Martin de Freitas e fez parte da Esquadra que
transportou a Família Real para o Brasil em
1808.
Óleo sobre tela de Eduardo de Martino
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha.

76

manter a unidade territorial brasileira, pois eram por meio do mar
que as províncias litorâneas, onde estava concentrada a maior parte
da população e da força produtiva brasileira, se interligavam e
comercializavam seus produtos. A rápida formação de uma Marinha
de Guerra nacional constituía-se no melhor meio de transportar
e concentrar tropas leais e suprimentos para as áreas de embate
com os portugueses.
Este conjunto de navios de guerra, a Esquadra, impediria que
chegassem aos portos das cidades brasileiras ocupadas pelos
portugueses os reforços que Portugal enviasse, interceptando e
combatendo os navios que os trouxessem. Privando as guarnições
portuguesas de mais soldados e armas vindos por mar, as
bombardeando com canhões embarcados e transportando
soldados brasileiros para reforçar os patriotas que lutavam
contra os portugueses no interior, a Marinha Brasileira contribuiu
para a Independência do Brasil, permitindo que do território da
colônia portuguesa na América emergisse um só país, com um
grande território.
O nascimento da Marinha Imperial, portanto, se deu nesse
regime de urgência, aproveitando os navios que
tinham sido deixados no porto do Rio de Janeiro
pelos portugueses, que estavam em mal estado de
conservação, e os oficiais e praças da Marinha
portuguesa que aderiram à Independência. Os navios
foram reparados em um intenso trabalho do Arsenal
de Marinha do Rio de Janeiro e foram adquiridos
outros, tanto pelo governo como por subscrição
pública. E as lacunas encontradas nos corpos de
oficiais e praças foram completadas com a
contratação de estrangeiros, sobretudo experientes
remanescentes da Marinha inglesa. A
necessidade de se dispor da Força Naval como
um eficiente elemento operativo e como um fator de
dissuasão 21para as pretensões de reconquista portuguesa fez com
que o governo imperial brasileiro contratasse Lorde Thomas
Cochrane, um brilhante e experiente oficial de Marinha inglês,
como Comandante-em-Chefe da Esquadra.

Operações Navais
A 1o de abril de 1823, a Esquadra brasileira comandada por
Cochrane, deixava a Baía de Guanabara com destino à Bahia, para
bloquear Salvador e dar combate às forças navais portuguesas que
lá se concentravam sob o comando do Chefe-de-Divisão Félix dos
Campos. A primeira tentativa de dar combate aos navios
portugueses foi desfavorável à Cochrane, tendo enfrentado, além
do inimigo, a indisposição para luta dos marinheiros portugueses
nos navios da Esquadra, muitos dos quais guarneciam os canhões
com uma inabilidade próxima ao motim. Depois de reorganizar



suas forças e expurgar os elementos desleais, e a despeito das
Forças Navais portuguesas, Cochrane colocou Salvador sob
bloqueio naval, capturando os navios que provinham o
abastecimento da cidade, que já se encontrava sitiada por terra
pelas forças brasileiras.
Pressionados pelo desabastecimento, as tropas portuguesas
abandonaram a cidade em 2 de julho, em um comboio de mais de
70 navios, escoltados por 17 navios de guerra. Este foi
acompanhado e fustigado pela Esquadra brasileira, destacando-se
a atuação da Fragata Niterói, comandada pelo Capitão-de-Fragata
John Taylor, que, apresando vários navios, atacou o comboio
português até a foz do Rio Tejo.
Primeira Esquadra do Brasil independente,
capitaneada pela Nau Pedro I que largou do
Rio de Janeiro em 1o de abril de 1823
com destino à Bahia.
Aquarela do Almirante Trajano Augusto de
Carvalho.
Acervo do Serviço de Documentação da
Marinha.

Fragata Niterói persegue os navios
portugueses que se retiram da Bahia.
Aquarela do Almirante Trajano Augusto de
Carvalho.
Acervo do Serviço de Documentação da
Marinha

Lorde Thomas Cochrane, Conde de Dundonald
(Grã-Bretanha) e Marquês do Maranhão (Brasil),
comandante da Esquadra Brasileira na Guerra
da Independência.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

O próximo passo para expulsão dos portugueses do
Norte-Nordeste brasileiro era o Maranhão, onde Cochrane,
utilizando-se de um hábil ardil, fez da Nau Pedro I, sua capitânia,
a ponta de lança de uma grande força naval que viria próxima,
transportando um vultoso Exército nacional que tomaria São
Luís. Porém, tudo não passava de um blefe para levar a
deposição da Junta Governativa que se mantinha fiel à Lisboa, o
que aconteceu em 27 de julho de 1823.
Seguiu-se a utilização do mesmo ardil no Grão-Pará,
conduzido pelo Capitão-Tenente John Pascoe Grenfell, no comando
do Brigue Maranhão. Tais estratagemas, que conduziram a aceitação
da Independência brasileira pelas elites formadas em sua maioria
de portugueses em São Luís e em Belém, não se deram tão
facilmente como um vislumbre superficial do evento histórico

77



permite concluir, a luta pelo poder provincial entre brasileiros e
portugueses recém-adeptos da Independência levou que o
contingente da Marinha naquelas cidades atuasse tanto num
sentido apaziguador, mesmo diplomático, como trazendo a
ordem pela força das armas.
As operações navais na Cisplatina assemelharam-se às
realizadas na Bahia, sendo empreendido um bloqueio naval
conjugado com um cerco por terra a Montevidéu, isolando as
tropas portuguesas comandadas por D. Álvaro Macedo. Em março
de 1823, a Força Naval no Sul, comandada pelo Capitão-de-Mare-Guerra Pedro Antônio Nunes, foi reforçada com a chegada de
navios vindos do Norte-Nordeste do Império, a tempo de se opor
à tentativa portuguesa de romper o bloqueio em 21 de outubro. A
batalha que se seguiu, embora violenta, terminou sem a vitória de
nenhum dos oponentes, mas configurou-se como uma vitória
estratégica das forças brasileiras com a manutenção do bloqueio.
O desabastecimento provocado pelo bloqueio e pelo cerco por
terra, somado a desalentadora notícia
que Montevidéu era a última resistência
GUERRA DE INDEPENDÊNCIA
portuguesa na ex-colônia, provocou a
Deslocamento das Forças Navais brasileiras
evacuação do contingente português da
que possibilitou a expulsão das forças portuguesas
Cisplatina em novembro de 1823.

Confederação do Equador
Ainda no reinado de D. Pedro I, uma
revolta na Província de Pernambuco
colocou em perigo a integridade territorial
do Império. A Marinha atuou contra a
Confederação do Equador a partir de abril
de 1824, que congregou, no seu ápice,
também as províncias da Paraíba, Rio
Grande do Norte e Ceará. Porém, o
aumento do combate à revolta só se deu
com o envio da Força Naval comandada
por Cochrane, onde foi embarcada a 3a
Brigada do Exército Imperial, com 1.200
homens, comandada pelo Brigadeiro
Francisco Lima e Silva. As tropas foram
desembarcadas em Alagoas e seguiriam
por terra para a província rebelada;
enquanto a Força Naval alcançou Recife
em 18 de agosto de 1824, instituindo
severo bloqueio naval. Com a Marinha e
o Exército atuando conjuntamente, as
forças rebeldes de Recife foram
derrotadas em 18 de setembro.

78

C

R

O

N

O

L

O

G

I

A



DATA

EVENTO

29/11/1807

Saída de Lisboa da Família Real.

22/01/1808

Chegada da Família Real em Salvador.

29/01/1808

Abertura dos portos ao comércio estrangeiro.

07/03/1808

Chegada da Família Real ao Rio de Janeiro.
Desembarque da Brigada Real de Marinha no Rio de Janeiro,
marco zero da história dos Fuzileiros Navais.

11/03/1808

Instalação do Ministério dos Negócios da Marinha e Ultramar no Rio de Janeiro.

01/05/1808

D. João assina manifesto declarando guerra à França.

01/12/1808

Desembarque das tropas luso-brasileiras em território da Guiana
Francesa.

12/01/1809

Caiena, capital da Guiana Francesa se rende.

12/06/1816

Saída da Divisão Naval para a Banda Oriental.

22/11/1816

Desembarque em Maldonado.

02/04/1817

Parte da Corte a Divisão Naval com a missão de bloquear Recife,
durante a Revolta Nativista de 1817.

20/05/1817

Fim do movimento nativista de Pernambuco.

26/04/1821

Regresso de D. João VI para Portugal.

31/07/1821

Incorporação da Banda Oriental à Coroa de Portugal.

09/01/1822

Dia do Fico, o Príncipe Regente D. Pedro declara que não
obedecerá às determinações das Cortes portuguesas e que permanecerá
no Brasil.

07/09/1822

Independência do Brasil.

10/11/1822

Primeira vez em que é içada a Bandeira Imperial em navio da nova Esquadra.
Aniversário da Esquadra.

79

DATA

EVENTO

01/04/1823

A Esquadra brasileira, sob o comando do Primeiro-Almirante Cochrane,
deixou o porto do Rio de Janeiro rumo à Bahia.

02/07/1823

Larga do porto de Salvador comboio de navios levando as tropas
portuguesas para Portugal.

27/07/1823

Adesão à causa da Independência pela Província do Maranhão.

15/08/1823

Adesão à causa da Independência pela Província do Grão-Pará.

21/10/1823

Tentativa de rompimento do bloqueio naval brasileiro pelos navios fiéis
a Portugal estacionados na Província Cisplatina. Vitória estratégica da
Força Naval brasileira.

18/11/1823

Capitulação de Montevidéu e retirada das tropas portuguesas da
Província Cisplatina.

18/09/1824

As forças rebeldes de Recife foram derrotadas.

FIXAÇÃO
1- O que motivou a vinda da Família Real para o Brasil?
2- Quais foram as duas ações iniciais de política externa empreendida por D. João?
3- Do que se tratou a Revolta de 1817 e qual atuação da Marinha nesse episódio?
4- Proclamada a Independência, como o novo governo resolveu a questão
da falta de pessoal para guarnecer os navios?
5- Na sua opinião, qual a relação de uma Marinha forte no período em estudo e
a extensão do litoral brasileiro ?

80

SAIBA MAIS
ALBUQUERQUE, Antonio Luiz Porto e. História do Brasil. Rio de Janeiro: Serviço de
Documentação da Marinha, 1985.
DIEGUES, Fernando. A revolução brasílica: o projeto e a estratégia da Independência. Rio de
Janeiro: Objetiva, 2004.
HISTÓRIA geral do Brasil. Org. de Maria Yedda Linhares. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1990.
HISTÓRIA naval brasileira. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 1975- . v.2.
t.2. e v.3. t.1.
MAIA, João do Prado. A Marinha de Guerra do Brasil na colônia e no império: (tentativa de
reconstituição histórica). Rio de Janeiro: J. Olympio, 1965.
PÁGINAS NA INTERNET
Museu Histórico Nacional: http://www.museuhistoriconacional.com.br/
Museu do Primeiro Reinado: http://www.sec.rj.gov.br/webmuseu/mpr.htm
Centro de Informações de História do Brasil ­ Educação MultiRio: http://
www.multirio.rj.gov.br/historia/index.html
Biblioteca Virtual sobre História do Brasil ­ Grupo de Estudos da História do Brasil:
http://br.geocities.com/grupohistoriadobrasil/Biblioteca.htm
História do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro: http://www.mar.mil.br/amrj/historia
historia.html
Marinha do Brasil: http://www.mar.mil.br
Serviço de Documentação da Marinha: http://www.sdm.mar.mil.br

81


A constituição de 1824 tinha como principal característica a criação do Poder Moderador (exercido
exclusivamente por D. Pedro I, que podia dissolver
a Câmara dos Deputados, convocar as Forças Armadas e nomear ministros, presidentes de províncias, senadores e juízes), que tinha o direito de
intervir nos outros três poderes: Executivo,
Legislativo e Judiciário.
1

Esta divisão entre o Imperador e o Partido Português contra o Partido Brasileiro se tornou mais
radical pela crise econômica que o Brasil tinha entrado logo no começo de sua história como Estado
autônomo, causada pelos gastos com o reconhecimento da Independência e com a guerra empreendida pela posse da Província Cisplatina, da qual trataremos mais tarde.2

Os donos das casas comerciais que tratavam do
movimento de produtos importados e exportados
pelos portos brasileiros eram, em sua maioria, portugueses de nascimento. Esses estabelecimentos
intermediavam a exportação da produção agrícola
das grandes propriedades, como o algodão e o açúcar. Também eram os intermediários na importação da mão-de-obra que trabalhava nas plantações;
os escravos trazidos da África.
3

82

A Atuação da Marinha nos Conflitos
da Regência e do Início do Segundo Reinado
Sinopse
A peculiar Independência brasileira, que pôs à frente do
processo de emancipação da ex-colônia o herdeiro do trono real
português, produziu uma divisão na política brasileira que marcaria
o reinado de D. Pedro I: a separação entre brasileiros, liberais, que
defendiam a monarquia constitucional, e portugueses, que propunham
a concentração de poder nas mãos do Imperador.
O Imperador D. Pedro I tornava-se cada vez mais autoritário,
buscando o apoio da facção dos portugueses que defendiam maior
poder ao monarca. Já a facção dos brasileiros queria que o poder
do Estado brasileiro fosse dividido entre o Imperador e a Assembléia
Legislativa, constituída de representantes eleitos da sociedade, que
redigiria a Carta Constitucional e faria as leis. Ou seja, defendiam
que a monarquia de D. Pedro fosse uma monarquia constitucional.
A Assembléia Constituinte foi reunida, em maio de 1823,
para redigir a primeira Constituição brasileira. A maioria dos
deputados constituintes queria uma Constituição que limitasse os
poderes do Imperador. Tal fato desagradava D. Pedro e os
homens que o apoiavam, já que o monarca queria no Brasil
uma monarquia absolutista.
O conflito entre D. Pedro e os deputados constituintes
acabou quando o Imperador dissolveu a Assembléia Constituinte
em 1823. Em seguida, nomeou um Conselho de Estado composto
por dez membros, com a tarefa de redigir um projeto de
Constituição. Resultando na imposição uma Constituição,
outorgada em 1824, que praticamente resgatava o regime
absolutista1. A atitude autoritária do Imperador aumentou em muito
a oposição liberal a ele, representada pelo Partido Brasileiro2.
Foram vários anos de disputa política entre os Partidos
Português e Brasileiro, e de críticas, cada vez mais violentas, ao
Imperador vindas dos políticos do Partido Brasileiro e de todos
que defendiam que o poder do Estado não ficasse concentrado
nas mãos de D. Pedro. Também desagradava muito aos brasileiros
a influência que os portugueses residentes no país tinham junto ao
Imperador, ampliando o poder dos portugueses adesistas na
sociedade brasileira, pois monopolizavam o comércio exterior nas
capitais das principais províncias, motivo de insatisfação do resto
da população3.



O embate entre portugueses e brasileiros na Assembléia Geral
Legislativa transpareceu na imprensa, que atacou o absolutismo
do Imperador, e foi para as ruas, onde partidários do monarca
entraram em choque com defensores do Partido Brasileiro.
Preocupava D. Pedro I não somente a oposição ao seu reinado,
que crescia entre os brasileiros, mas também a situação política
em Portugal, onde tinha pretensão de ascender ao trono.
Pressionado pela população, em 7 de abril de 1831, D. Pedro I
abdicou do trono em favor de seu filho, D. Pedro de Alcântara,
que tinha apenas cinco anos de idade. Como o herdeiro não tinha
idade para assumir o trono, instalou-se no Brasil um governo
regencial. O Poder Executivo seria composto por três membros,
uma regência trina, conforme determinava a Carta Constitucional.
Posteriormente, a regência seria constituída de uma só pessoa, a
regência una.
No período regencial, o conturbado ambiente político da
Corte se refletiu nas províncias do Império em movimentos
armados que explodiram por todos os principais centros regionais,
desde 1831 até os anos de consolidação do reinado de D. Pedro
II. A Marinha da Independência e da Guerra Cisplatina, constituída
por elevado número de navios de grande porte, foi sendo
transformada em uma Marinha de unidades menores, próprias para
enfrentar as conflagrações nas províncias e ajustadas às limitações
orçamentárias.
Revoltas deflagradas em diversas províncias foram abafadas
pelo governo regencial com a utilização da Marinha e do Exército.
A Marinha se fez mais presente nos combates no Pará
(Cabanagem), no Rio Grande do Sul (Guerra dos Farrapos ou
Revolução Farroupilha), na Bahia (Sabinada), no Maranhão e Piauí
(Balaiada) e em Pernambuco (Revolta Praieira), esta já anos após a
coroação de D. Pedro II.
Em todas estas revoltas, a Marinha não enfrentou nenhum
grande inimigo no mar. Embora na Guerra dos Farrapos os rebeldes
tenham formado uma pequena flotilha de embarcações armadas,
que foi prontamente combatida e vencida, a Marinha se fez
presente no rápido transporte de tropas do Exército Imperial da
Corte e de outras províncias até as áreas conflagradas. Também
dependeu do transporte por mar, em grande parte realizado pela
Marinha, o abastecimento das tropas que lutavam nas províncias
rebeladas, pois não existiam estradas que ligassem a Corte às
províncias do Norte e do Sul.
A Marinha também cumpriu ações de bloqueio nos portos
ocupados pelos rebeldes, evitando que recebessem qualquer
abastecimento vindo do mar, como armas e munições desviadas
de outras províncias ou compradas no estrangeiro. Finalmente,
militares da Marinha Imperial atuaram diversas vezes em
desembarques, lutando com grupos rebelados lado a lado com
tropas do Exército, da Guarda Nacional e milicianos.

83

Fragata Imperatriz, navio com 54 canhões que operou na
Marinha Imperial entre 1824 a 1845. Com 46 metros de
comprimento e 12,20 metros de boca, era um exemplo
tipico dos grandes navios que formavam a Esquadra brasileira
no Primeiro Reinado.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha.

Escuna Rio da Prata (esquerda) e Corveta Dorrego. Detalhe do desenho de
Gaston Roullet.
A Escuna Rio da Prata, com 23 metros de comprimento e armada com dez
canhões, representa os pequenos navios de guerra utilizados para auxiliar no
sufocamento das diversas insurreições que se abateram sobre as províncias do
Império do Brasil durante o período regencial.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha.

No contexto externo, os dois grandes conflitos que o Império
brasileiro se envolveu, desde sua Independência até o início das
hostilidades que levariam à guerra contra o Paraguai, foram a Guerra
Cisplatina, entre 1825 e 1828, e a Guerra contra Manuel Oribe e
Juan Manuel de Rosas, em 1850 e 1852. A área marítimo-fluvial
em que se desenrolaram a maioria das operações navais destes
dois conflitos, separados no tempo por quase um quarto de século,
foi a mesma, o estuário do Rio da Prata, que separa o Uruguai da
Argentina.
Na Guerra Cisplatina, Brasil e as Províncias Unidas do Rio
da Prata, atual Argentina, lutaram pela posse do território
uruguaio, ainda não independente. Nesta guerra, que custou
muito à economia de um país recém-formado como o Brasil, a
Marinha lutou longe de sua base principal, o Rio de Janeiro,
contra a Marinha argentina que, embora menor, atuava muito
perto de sua principal base de apoio, Buenos Aires, e
conhecendo o teatro de operações repleto de obstáculos
naturais à navegação, o Rio da Prata.
A Marinha Imperial brasileira, além das atividades de
abastecimento das tropas em combate, operou de modo ofensivo
no Rio da Prata. A Força Naval brasileira efetuou um bloqueio naval4

84



sobre Buenos Aires visando a isolar a capital adversária de
abastecimento vindo do exterior e impedir que embarcações
argentinas transportassem tropas e armamento para reforçar
argentinos e orientais que lutavam contra as tropas brasileiras no
território uruguaio.
Além do bloqueio, a Força Naval brasileira combateu a
Esquadra argentina até seu desmembramento, privando o
adversário do principal e primeiro braço do Poder Naval. Os navios
da Marinha que não foram deslocados para aquela guerra não
deixaram de se envolver no conflito. A Marinha defendeu as linhas
de comunicação marítimas, dando combate aos corsários armados
pela Argentina e pelos rebeldes uruguaios que atacaram a
navegação mercante brasileira ao longo de toda a nossa costa.
A próxima guerra que o Brasil se envolveria no Rio da Prata
seria contra Juan Manuel de Rosas, governador da Província de
Buenos Aires e Manuel Oribe, presidente da República Oriental
do Uruguai e líder do Partido Blanco. Tendo como seus aliados os
governadores das províncias argentinas de Entre Rios e Corrientes
e o Partido Colorado uruguaio, o Império brasileiro se interpôs a
uma tentativa de união de seus vizinhos do sul, que enfraqueceria
a posição brasileira no Rio da Prata e se tornaria uma ameaça na
fronteira do Rio Grande do Sul, há pouco pacificado e impedido de
se separar do Brasil na Guerra dos Farrapos.
Coube à Marinha um grande momento neste curto conflito:
a Passagem de Tonelero. Pela primeira vez se utilizando navios a
vapor em um conflito externo, a Força Naval brasileira ultrapassou sob
os disparos dos canhões das
tropas Juan Manuel de Rosas
o ponto fortificado adversário
MARINHA IMPERIAL BRASILEIRA
CONFLITOS INTERNOS E EXTERNOS DE 1831 A 1852
no Rio Paraná, o Passo de
Tonelero, e conduziu as tropas
aliadas rio acima para uma
INTERNOS
posição de desembarque
CABANAGEM
favorável, onde foi possível o
ataque e a pos-terior vitória
BALAIADA
sobre as tropas adversárias.

REVOLTA PRAIEIRA
SABINADA
GUERRA DOS FARRAPOS

EXTERNOS
GUERRA CISPLATINA
GUERRA CONTRA
ORIBE E ROSAS

85


Vice-Almirante Frederico Mariath, como capitãode-fragata, substituiu o Chefe-de-Divisão John
Taylor no comando da Força Naval que combateu
a Cabanagem. Também atuou na Guerra dos
Farrapos, comandando a Força Naval do Império
brasileiro no Rio Grande do Sul (1838-1839) e na
Província de Santa Catarina (1839).
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha.

Conflitos internos
Cabanagem
A primeira sublevação ocorrida no período regencial foi a
Cabanagem, no Grão-Pará, que se generalizou em 1835 com a
ocupação da capital da província, Belém. O governo central enviou
uma força interventora constituída de elementos da Marinha e do
Exército Imperial que, após primeira tentativa frustrada de
reconquistar a capital, desembarcou e a ocupou sem a resistência
dos rebeldes. Contudo, os cabanos retomaram o fôlego para a
luta com o crescimento da revolta no interior e retomaram a
capital em agosto de 1835.
Durante o conflito, as forças militares atuaram contra focos
rebeldes espalhados por um território inóspito e desconhecido, a
floresta amazônica. A Marinha bloqueou o porto de Belém,
dificultando o seu abastecimento, bombardeou posições rebeldes,
desembarcou tropas do Exército e embrenhou-se nos rios
amazônicos para dar combate aos mais isolados focos de revolta.
O desgaste que as forças militares impuseram aos cabanos levouos ao abandono da capital em maio de 1836 continuando a resistir
no interior. A luta se estendeu até 1840, com a ação conjunta da
Força Naval e das tropas do Exército debelando a resistência
dos cabanos por todo o Pará.

Litografia da primeira metade do século XIX
mostrando o porto da cidade do Pará,
atual Belém do Pará.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha.

86

A Guerra dos Farrapos, rebelião no sul do Império que durou
dez anos, de 1835 a 1845, atingiu uma região de fronteira já
conturbada por conflitos externos. A Marinha novamente atuaria
em cooperação com o Exército no transporte e abastecimento
das tropas e apoiando ações em terra com o fogo dos canhões
embarcados.
Porém, na Guerra dos Farrapos os navios de guerra
estiveram envolvidos em pequenos combates navais com os
farroupilhas. Os combates não ocorreram em mar aberto, mas
em águas restritas, como as Lagoas dos Patos e Mirim. O primeiro
combate naval da Guerra dos Farrapos opôs o Iate Oceano, da
Marinha Imperial, e o Cúter Minuano, dos revoltosos, na Lagoa
Mirim, quando o navio rebelde foi posto a pique.
A pequena Força Naval que os farroupilhas mantinham na
Lagoa dos Patos foi completamente vencida em agosto de 1839,
quando o Chefe-de-Divisão John Pascoe Grenfell, comandante das
Forças Navais no Rio Grande, apresou dois lanchões rebeldes em
Camaquã. A rebelião rio-grandense estendeu-se para Santa
Catarina, onde os farroupilhas formaram uma pequena Força Naval
com navios mercantes apresados e lanchões remanescentes das
operações na Lagoa dos Patos e Mirim, que foi vencida pela Marinha
em um combate no porto de Laguna. Foi neste conflito regional
que pela primeira vez a Marinha brasileira empregou um navio
movido a vapor em operações de guerra.



Guerra dos Farrapos

Sabinada
A Sabinada, revolta que eclodiu contra a autoridade da
Regência na Bahia, em novembro de 1837, foi combatida pela
Marinha Imperial com um bloqueio da província e o combate a
uma diminuta Força Naval montada pelos rebeldes com navios
apresados. A revolta foi finalmente sufocada em 1838.

Balaiada
A Balaiada, agitação que tomou conta das Províncias do
Maranhão e do Piauí, entre 1838 e 1841, reuniu a população pobre
e os escravos contra as autoridades constituídas da própria
província. Em agosto de 1839, seguiu para o Maranhão o CapitãoTenente Joaquim Marques Lisboa, futuro Marquês de Tamandaré,
nomeado comandante da Força Naval em operação contra
os insurretos.
Após estudar a região, armou pequenas embarcações que,
enviadas para diversos pontos dos principais rios maranhenses,

87



combateriam os rebeldes isoladamente ou apoiariam forças em
terra. A partir de 1840 e até o final da Balaiada, o Capitão-Tenente
Joaquim Marques Lisboa atuaria em cooperação com o então
Coronel Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, que
comandava a Divisão Pacificadora do Norte, reunida para debelar
a revolta. A união dos futuros patronos das forças singulares de
mar e terra no combate à Balaiada simboliza uma situação
recorrente em todos os conflitos internos durante a Regência e o
Segundo Império: a atuação conjunta da Marinha e do Exército na
manutenção da ordem constituída e da unidade do Império.

Revolta Praieira

Vice-Almirante Joaquim José Ignácio, Visconde de
Inhaúma. Como capitão-de-fragata comandou a
Força Naval do Império brasileiro que combateu
os rebeldes praieiros. Tinha como capitânia a
Fragata Constituição, porém sua Força Naval era
composta de pequenos navios, brigues-escunas,
escunas e barcas a vapor.
Acervo do serviço de Documentação da Marinha

88

A Revolta Praieira estourou em Pernambuco em novembro
de 1848. Iniciada na capital, tomou corpo nas vilas e engenhos da
zona da mata e interior pernambucanos. Para combatê-la, tropas
leais ao governo provincial deixaram Recife, a capital da província,
para engajar as forças praieiras que estariam no interior. Ao ver a
capital desguarnecida, forças praieiras atacaram-na, em 2 de
fevereiro de 1849. O pequeno contingente militar que guarnecia a
cidade foi imediatamente apoiado pela Força Naval fundeada no
porto. Contingentes de marinheiros e fuzileiros navais
desembarcaram dos navios para reunir-se aos defensores da capital
na batalha, enquanto os canhões da Marinha fustigaram as investidas
dos revoltosos. A atuação da Marinha nesta revolta, embora breve,
evitou que a capital provincial caísse nas mãos dos rebeldes.

Aspectos do porto de Recife, Pernambuco, no século XIX. Deste porto, os pequenos navios de
guerra da Força Naval comandada pelo Capitão-de-Fragata Joaquim José Ignácio, partiam para combater
as forças da Revolta Praieira nos pequenos portos e ancouradores no Norte e no Sul da Província de
Pernambuco.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha.

Guerra Cisplatina
O Brasil recém-independente envolveu-se numa guerra com
as Províncias Unidas do Rio da Prata, atual Argentina, pela posse
da então Província brasileira da Cisplatina, atual República Oriental
do Uruguai, anexada ainda por D. João VI, em 1821. Esta guerra
pouco aparece nos livros de história e, mesmo tendo durado quatro
anos, entre 1825 e 1828, é desconhecida para a maioria dos
brasileiros.
O interesse pelo domínio daquelas terras não era novo. O
Império do Brasil e a Argentina herdaram as aspirações e as disputas
dos colonizadores portugueses e espanhóis pela margem esquerda
do estuário do Rio da Prata. Nos séculos XVII e XVIII, o centro da
disputa era a Colônia de Sacramento, o enclave português na região.
No início do século XIX, com os movimentos de independência
na América espanhola e portuguesa, a conflagração atingiu o Brasil
e a Argentina, no conflito conhecido como Guerra Cisplatina.
A guerra não envolvia só a disputa pela posse do território
da Província Cisplatina que, além do gado criado nos pampas e de
dois portos comerciais importantes (Montevidéu e Maldonado),
não continha recursos naturais de monta, mas tinha como objetivo
o controle do Rio da Prata, área geográfica de suma importância
estratégica desde o início da colonização européia na América do
Sul. No estuário do Rio da Prata desembocavam dois grandes rios
(Uruguai e Paraná), que constituíam o caminho natural para a
penetração no continente sul-americano, representando uma
estrada fluvial para a colonização, o acesso aos recursos naturais
e a viabilização das trocas comerciais por todo o interior da
América do Sul.
Apesar do controle português e, depois de 1822, brasileiro,
a Cisplatina, ou Banda Oriental, mantinha uma população de
ascendência e hábitos hispânicos, culturalmente distantes dos
brasileiros. Os cisplatinos, liderados por Juan Antonio Lavalleja,
iniciaram um levante buscando sua independência, procurando
apoio das Províncias Unidas do Rio da Prata, o único Estado
Nacional à época constituído na Bacia do Rio da Prata que poderia
rivalizar com o Império brasileiro.
O Estado argentino, naquela época, era formado por várias
províncias com alto grau de autonomia, que reconheciam a
liderança exercida pela Província de Buenos Aires. A confederação
de províncias argentinas tinha um interesse comum na sublevação
dos cisplatinos contra o Império brasileiro: a possibilidade de
incorporação da Banda Oriental aos seus domínios. Por isso, deram
apoio político, militar e financeiro à revolta, passando,
posteriormente, a envolver-se oficialmente na luta.



Conflitos externos

89


Selo uruguaio comemorativo dos 175 anos da Batalha
de Ituzaingó (ou Batalha do Passo do Rosário).
Fonte: http//pt:wikipedia.org

90

Para se opor à sublevação, nitidamente suportada pela
Argentina, o Brasil desenvolveu uma campanha militar na Banda
Oriental entre os anos de 1825 e 1828. Além de tropas, deslocou
vários meios navais da Esquadra recém-formada na Guerra de
Independência para o Estuário da Prata, comandadas pelo ViceAlmirante Rodrigo Lobo. Com o fortalecimento das forças de
Lavalleja na Banda Oriental, as Províncias Unidas do Rio da Prata
oficializaram seu apoio à revolta, declarando anexada a Banda
Oriental ao território argentino, o que significava uma declaração
de guerra ao Governo Imperial brasileiro.
Destacaremos aqui a participação brasileira na guerra naval,
que teve como seu principal palco o Estuário do Rio da Prata. A
ênfase no aspecto naval não indica que as operações de guerra
conduzidas pelos Exércitos em terra tenham sido menos
importantes para a história da Guerra Cisplatina. O Exército
Brasileiro e as forças de Lavalleja, somadas ao Exército argentino,
confrontaram-se em diversas batalhas, mas até o final da guerra,
em 1828, nenhum dos oponentes alcançou uma nítida vantagem
na guerra terrestre.
A batalha mais significativa da Guerra Cisplatina, a Batalha do
Passo do Rosário, ou Ituzaingó, como os argentinos e uruguaios a
chamam, ocorrida em 20 de fevereiro de 1827, teve resultados
tão indecisos como toda a guerra terrestre que se travou na
Província Cisplatina. Nenhum dos lados conseguiu impor-se sobre
o outro, não sendo possível apontar vitoriosos nem derrotados.
Contudo, a função desta obra é destacar a participação da Marinha
brasileira na nossa história. Assim, descreveremos as operações
navais realizadas na Guerra Cisplatina.
A Marinha Imperial brasileira na Guerra Cisplatina lutou com
a Força Naval argentina, mas também atuou contra os corsários
que, com Patentes de corso emitidas pelas Províncias Unidas do
Rio da Prata e pelo próprio Exército de Lavalleja, atacavam os
navios mercantes brasileiros por toda a nossa costa.
O embate entre a Esquadra brasileira e a Esquadra argentina
teve lugar no estuário do Rio da Prata e nas suas proximidades ­
região com grande número de bancos de areia que dificultava a
navegação. Isto ajudou os argentinos a desenvolver uma variação
naval da guerra de guerrilha. Os navios argentinos atacavam e,
quando repelidos, escapavam da perseguição dos navios brasileiros
pelos estreitos canais que se formavam entre os vários bancos de
areia da região, em sua maioria desconhecidos dos marinheiros
brasileiros.
Como primeira ação de guerra, a Força Naval brasileira no
Rio da Prata, comandada pelo Vice-Almirante Rodrigo Lobo,
estabeleceu um bloqueio naval no Rio da Prata, pretendendo
impedir qualquer ligação marítima entre as Províncias Unidas e os
rebeldes de Lavalleja, e dos dois adversários com o exterior. O



inimigo a ser confrontado pela Força Naval brasileira era liderado
pelo experiente irlandês William George Brown, comandante
da pequena Esquadra sediada em Buenos Aires, desde as lutas
pela independência daquele país. O adversário, apesar de contar
com um menor número de navios de guerra, tinha suas ações
facilitadas não só pelo conhecimento da conformação
hidrográfica4 do estuário do Rio da Prata, como também por
permanecer operando próximo ao seu porto base, o
ancoradouro de Los Pozos, em Buenos Aires, onde seus navios
eram abastecidos e reparados.
Nos primeiros meses da guerra, o bloqueio naval imposto
pela Esquadra brasileira provocou o primeiro embate entre as
forças navais. O Combate de Colares ocorreu em 9 de fevereiro
de 1826, quando a Esquadra argentina, composta de 14 navios,
deixou seu ancoradouro para empreender uma ação de desgaste
à Força Naval brasileira em bloqueio, também composta de 14
navios. As forças navais adversárias, dispostas em colunas, trocaram
tiros de canhão a grande distância uma da outra, causando p e r d a s
h u m a n a s e avarias
materiais reduzidas
de parte a parte. A
Esquadra argentina
se retirou para o
refúgio de Los Pozos
e a Força Naval
brasileira foi fundear
entre os Bancos de
Ortiz e Chico.
O passo posteCombate Naval de Colares.
Aquarela do Almirante Trajano Augusto de Carvalho.
rior do comandante
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
das forças argentinas teria conseqüências muito mais significativas para os
destinos da guerra no mar e em terra se bem-sucedido. Seu
alvo era a Colônia de Sacramento, uma praça fortificada situada
na margem esquerda do Rio da Prata e guarnecida por 1.500
homens chefiados pelo Brigadeiro Manoel Jorge Rodrigues,
complementados por uma pequena força de quatro navios,
comandada pelo Capitão-de-Fragata Frederico Mariath. Sete
navios da Esquadra argentina, capitaneados pela Fragata 25 de
Mayo, romperam o bloqueio brasileiro ao largo de Buenos Aires
e fizeram vela para a Colônia de Sacramento, simultaneamente
aquela praça era cercada por tropas.
Devido ao maior poder de combate da Força Naval
Argentina perante a flotilha brasileira que defendia a Colônia, as
tripulações e os canhões dos navios brasileiros foram
desembarcados e incorporados às defesas de terra. Em 26 de
fevereiro de 1826, os navios argentinos e as tropas de cerco

Hidrografia é a topografia marítima, ciência utilizada para a produção de plantas da costa e ilhas,
chamadas de cartas náuticas.
4

91


Expediente comum nas guerras no mar no tempo dos navios a vela, utilizando-se da bandeira
de outra nação um navio de guerra ocultava sua
identidade perante o inimigo. Este ardil foi utilizado pelo Capitão-de-Fragata John Taylor quando no comando da Fragata Niterói na épica perseguição aos navios portugueses em retirada, na
Guerra da Independência.
5

92

iniciaram o bombardeio, respondido pelas fortificações da Colônia
do Sacramento, que inutilizaram um dos navios adversários.
Repelido o primeiro ataque, os defensores da Colônia do
Sacramento enviaram uma escuna para pedir auxílio às forças navais
brasileiras estacionadas em Montevidéu, esperando que o socorro
chegasse o mais rápido possível àquela praça sitiada.
O Vice-Almirante Rodrigo Lobo não acudiu de imediato a
cidade acossada pelo inimigo. Na noite de 1o de março, a Força
Naval argentina, reforçada por seis canhoneiras, tentou
desembarcar 200 homens naquela praça. Depois de severa luta,
os atacantes argentinos foram repelidos, com a perda de duas
canhoneiras e muitos homens, não sem antes conseguirem
incendiar um dos nossos navios. Os navios argentinos só desistiram
do cerco em 12 de março, escapando da Esquadra brasileira, que
chegara com atraso em defesa de Sacramento.
A Força Naval argentina empreendia ações mais ousadas
contra a Esquadra brasileira. De uma troca de tiros sem muitas
conseqüências, em fevereiro, tentou a conquista de uma praça
fortificada na margem esquerda do Rio da Prata que, se conquistada,
transformaria-se em um importante ponto de abastecimento das
tropas uruguaias e argentinas.
Uma das missões da Esquadra argentina era justamente a
manutenção do abastecimento dos exércitos que lutavam na
Província Cisplatina. Como obstáculo, antepunha-se a Esquadra
brasileira comandada pelo Almirante Rodrigo Lobo que, apesar da
ineficiência desse início de bloqueio naval (pelos primeiros embates
navais da guerra, observa-se que a Esquadra argentina
movimentava-se com relativa facilidade), mantinha-se superior em
número às forças navais comandadas por Brown.
O Comandante da Esquadra argentina William Brown reuniu
sua capitânia, a Fragata 25 de Mayo, e dois brigues em uma audaciosa
ação para capturar navios que se dirigissem a Montevidéu, tentando
aumentar o tamanho de sua Esquadra e tomar alguma carga de
valor em navios mercantes. Em 10 de abril de 1826, conseguiu
capturar a pequena Escuna Isabel Maria. No dia seguinte, ao
perseguir um navio mercante, a Fragata 25 de Mayo aproximou-se
muito do porto de Montevidéu, onde foi reconhecida pelos navios
da Esquadra brasileira, mesmo arvorando a bandeira francesa5.
Saiu em sua perseguição a Fragata Niterói, comandada pelo
Capitão-de-Mar-e-Guerra James Norton, ambos, navio e
comandante, veteranos da Guerra de Independência e recémchegados para reforçar a Força Naval brasileira no Rio da Prata.
Acompanharam o encalço à capitânia argentina quatro outros
pequenos navios, mas o combate se concentrou nos navios de
maior porte, com a Fragata Niterói trocando disparos com a Fragata
25 de Mayo e com um dos brigues que a acompanhava. Com o cair
da noite, os navios argentinos, com graves avarias, retiraram-se

Combate de Montevidéu.
Em primeiro plano a Fragata Niterói,
à direita o navio capitânia argentino,
a Fragata 25 de Mayo no momento
em que perde o joanete do mastro
grande.
Aquarela do Almirante Trajano
Augusto de Carvalho.
Acervo do Serviço de Documentação
da Marinha.

Tencionava abordar e capturar a Fragata Niterói, o mesmo navio
que frustrou sua incursão anterior. Na noite de 27 de abril, sete
navios argentinos rumaram para próximo de Montevidéu, onde
os navios brasileiros se reuniam, e tentaram identificar seu alvo.
Enganados pela escuridão, investiram contra a Fragata Imperatriz
que, tendo percebido a aproximação do inimigo, se preparara para
o combate. Os navios argentinos 25 de Mayo e Independencia
tentaram a abordagem, mas foram repelidos pela tripulação da
Imperatriz. O comandante do navio brasileiro, Capitão-de-Fragata
Luís Barroso Pereira, liderou seus homens na renhida luta até
tombar morto no convés, atingido por disparos do inimigo. Foi
uma das duas vítimas fatais da Imperatriz no combate.
A 3 de maio de 1826, a Esquadra comandada por Brown foi
avistada pelos navios brasileiros quando tentava escapar do bloqueio
naval ao seu porto. Os navios
argentinos tentaram alcançar o
Banco de Ortiz na esperança de
atrair os perseguidores, que,
com navios de maior porte,
encalhariam naquele banco de
areia, tornando-se alvos imóveis
para seus canhões.
Contudo, no combate que
ficou conhecido como o do
Banco de Ortiz, foi justamente
a Fragata argentina 25 de Mayo a
primeira a ficar encalhada, logo
seguida pela nossa Fragata
Niterói. Os dois navios



para Buenos Aires, dando por encerrado o embate que ficou
conhecido como o Combate de Montevidéu.
Após o malogro da tentativa de capturar navios ao largo do
porto de Montevidéu, William Brown planejou outra ação para
reforçar sua esquadra com navios brasileiros capturados.

Momento em que a Fragata argentina 25 de Mayo
aborda a Fragata Imperatriz.
Aquarela do Almirante Trajano Augusto de Carvalho
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha.

93



94

imobilizados empenharam-se em um duelo de artilharia. A Niterói
conseguiu livrar-se do encalhe. A seguir, a 25 de Mayo também
escapou do Banco de Ortiz e se reuniu ao restante da Esquadra
argentina. O Combate do Banco de Ortiz acabou sem grandes
perdas para ambos os adversários, mas mostrou o perigo que os
bancos de areia do Estuário do Rio da Prata representavam para
as Esquadras em luta.
Em 13 de maio de 1826, o Almirante Rodrigo Pinto Guedes,
o Barão do Rio da Prata, substituiu o Almirante Rodrigo Lobo, que
tinha se mostrado pouco capaz no comando da Força Naval do
Império do Brasil em operações de guerra no Rio da Prata. A
primeira medida tomada pelo Almirante Pinto Guedes foi
estabelecer uma nova disposição das forças navais que reforçasse
o bloqueio naval. Dividiu suas forças em quatro divisões, sob o
comando de oficiais capazes e experientes, devendo em todas as
oportunidades engajar o inimigo, obrigando-o a aceitar a luta. A 1a
Divisão, reunindo os maiores e mais poderosos navios que estavam
no Rio da Prata, formaria a linha exterior do bloqueio, impedindo
que navios entrassem no Rio da Prata para abastecer a Argentina e
seu Exército lutando na Cisplatina e tentando capturar os corsários
que transitassem pela região. A 2a Divisão, constituída de navios
mais leves, manobreiros e numerosos, operaria no interior do
estuário, efetuando um rigoroso bloqueio naval entre a Colônia
de Sacramento, Buenos Aires e a Enseada de Barregã, isolando a
Esquadra argentina no seu ancoradouro e tentando impedir o
abastecimento por mar da capital argentina. A 3a Divisão, composta
de pequenos navios adequados à navegação fluvial, defenderia a
Colônia do Sacramento e patrulharia os Rios Uruguai, Negro e
Paraná, que formavam a fronteira natural entre as Províncias Unidas
do Rio da Prata e a Província Cisplatina, impedindo que as forças
de Lavalleja e o Exército argentino fossem supridos desde o
território argentino. A 4a Divisão era formada por navios em reparo,
e foi mantida em Montevidéu, para atuar como uma força de
reserva. A reorganização das forças navais brasileiras mostrou sua
eficiência na contenção dos movimentos da Esquadra adversária.
Em 15 de maio de 1826, as três linhas de bloqueio
determinadas pelo novo comandante da Força Naval brasileira no
Rio da Prata já se achavam em posição. Em 23 de maio, a Esquadra
argentina decidiu testar a resistência da Força Naval brasileira
responsável pelo bloqueio de Buenos Aires, a 2a Divisão da Esquadra
Imperial, chefiada pelo Capitão-de-Mar-e-Guerra James Norton.
Os navios brasileiros engajaram-se no Combate das Balizas
Exteriores, mesmo com o risco de encalharem nos bancos de
areia em torno de Buenos Aires. Os navios argentinos perceberam
a resolução da força bloqueadora e voltaram ao seu ancoradouro,
em Los Pozos. Dois dias depois, o navio capitânia da 2a Divisão, a
Fragata Niterói, navegando sozinha, atraiu a Esquadra argentina para



o combate, mas, novamente, a troca de tiros não causou danos
significativos a nenhum dos lados.
Mesmo a nova estratégia de bloqueio, mais agressiva, não se
mostrava eficiente na destruição dos navios argentinos, que se
mantinham protegidos no ancoradouro de Los Pozos.
No começo de junho de 1826, buscando um engajamento
decisivo, o Almirante Rodrigo Pinto Guedes planejou atacar a
Esquadra inimiga dentro de Los Pozos. Para isso, a 2a Divisão foi
reunida à 3a Divisão da Esquadra Imperial, composta por navios
menores que poderiam transpor os bancos de areia que protegiam
o ancoradouro de Buenos Aires.
Em 7 de junho, antes que as duas forças brasileiras se
reunissem, cinco navios de transporte argentinos, escoltados por
navios de guerra, largaram de Buenos Aires com soldados e
suprimentos para apoiar as tropas argentinas que lutavam junto
aos cisplatinos. Ao mesmo tempo, o resto da Esquadra argentina,
comandada por Brown, fez vela para atrair a atenção da força
brasileira. Nem a 2a Divisão, junto a Buenos Aires, nem a 3a, ainda
em águas da Colônia de Sacramento, alcançaram os navios de
transporte argentinos.
Em 11 daquele mês, as 2a e 3a Divisões, comandadas por
Norton, executaram o plano de ataque e investiram contra a
Esquadra argentina em Los Pozos. Novamente, os bancos de areia
protegeram os navios argentinos. O comandante da Força Naval
brasileira, Norton, desistiu do ataque que seria infrutífero. Apesar
dos insucessos da ação planejada, a Escuna Isabel Maria, apresada
pelos argentinos, foi recuperada.
Considerando o malogro do último ataque brasileiro à
Esquadra argentina como sua vitória, Brown preparou uma nova
investida à 2a Divisão, determinado a livrar Buenos Aires do bloqueio
naval. Protegidos pela noite, em 29 de julho de 1826, 17 navios da
Esquadra argentina tentaram surpreender os navios sob o comando
do Capitão-de-Mar-e-Guerra James Norton. Porém, alertados por
uma escuna que fazia a vigilância, os brasileiros responderam ao
ataque. O combate tornou-se confuso; a mesma noite que
escondia os atacantes, prejudicava a precisão dos disparos e a
identificação do inimigo. A possibilidade de atingir navios amigos
determinou que ambos os lados suspendessem a luta.
Ao alvorecer, o combate recomeçou. O Comandante da
Esquadra argentina Brown conduziu seu navio capitânia, a Fragata
25 de Mayo, na direção dos navios brasileiros, mas só foi
acompanhado pela Escuna Rio de La Plata. Os dois navios argentinos
receberam todo o peso dos disparos dos canhões brasileiros e
ficaram completamente inutilizados. O chefe das forças argentinas
foi obrigado a transferir-se sob fogo para um navio argentino que
ousou aproximar-se. O restante da Esquadra argentina retirou-se
para a segurança de seu ancoradouro. O Combate de Lara-Quilmes

95



foi a última tentativa da Esquadra argentina de destruir os navios
da 2a Divisão da Esquadra Imperial e desmantelar o bloqueio naval
brasileiro em torno de Buenos Aires.
Depois dessa expressiva vitória das forças navais brasileiras,
no começo do ano de 1827, a 3a Divisão, composta pelos menores
navios da Esquadra brasileira, comandada pelo Capitão-de-Fragata
Jacinto Roque Sena Pereira, foi derrotada no Combate de Juncal.

Combate Naval de Lara-Quilmes (30 de julho de 1826).
Desenho de Gaston Roullet, segundo indicações do Barão do Rio Branco.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

No final do ano anterior a 3a Divisão recebeu ordens de subir o
Rio Uruguai para auxiliar as operações do Exército Imperial
Brasileiro na Cisplatina. Sabendo daquela movimentação, o
comandante da Esquadra argentina reuniu uma força composta
de 16 navios adaptados à navegação fluvial para destruir a 3a Divisão
brasileira e permitir o livre trânsito de reforços vindos das Províncias
Unidas para os seus exércitos na Cisplatina.
Em 29 de dezembro de 1826, a Força Naval argentina atacou
a
a 3 Divisão, fundeada na foz do Rio Iaguari, mas foi repelida pelo
intenso fogo da artilharia dos pequenos navios de Sena Pereira e
recuou, descendo o Rio Uruguai. Embora tivesse repelido o ataque
argentino, a 3a Divisão brasileira se viu presa dentro do Rio Uruguai,
uma vez que os navios inimigos postaram-se na foz daquele rio.
Foi organizada uma Força Naval com unidades da 2a Divisão
para combater os argentinos que bloqueavam a 3a Divisão no
interior do Rio Uruguai, chamada de Divisão Auxiliadora. Apesar
da urgência no socorro, a progressão desta Força Naval foi lenta e
difícil, devido ao grande número de bancos de areia que tornavam
aquelas águas pouco profundas e inadequadas para navios de maior
porte, como os que compunham a 2a Divisão brasileira.
A Corveta Maceió, a capitânia e o maior navio da divisão,
ficou isolada dos outros navios brasileiros perto de um banco de
areia conhecido como Playa Honda. A Maceió era o alvo perfeito

96



para as forças argentinas, sempre em busca de navios para reforçar
sua já diminuída Esquadra. Cinco navios inimigos aproximaram-se
da corveta, que estava acompanhada apenas da Escuna Dois de
Dezembro, e tentaram a abordagem. A tripulação da Maceió repeliu
o inimigo com o fogo de seus 20 canhões. Por fim, os navios
argentinos recuaram, mas a missão da Divisão Auxiliadora ainda
não terminara. Os navios brasileiros da 3a Divisão permaneciam
presos no Rio Uruguai.
No início de fevereiro de 1827, a 3a Divisão desceu o Rio
Uruguai para combater a Força Naval argentina que o bloqueava.
Com ajuda da Divisão Auxiliadora, planejou-se colocar o inimigo
entre os canhões das duas divisões brasileiras.
Em 8 de fevereiro, começava o Combate de Juncal, nome
tomado da Ilha fluvial de Juncal, segmento do Rio Uruguai onde os
navios da 3a Divisão foram derrotados pela Força Naval argentina,
pois não receberam o esperado apoio da Divisão Auxiliadora, que
permaneceu longe do local da batalha.
O bloqueio naval mais rigoroso realizado desde maio de
1826 pela 2a Divisão da Esquadra Imperial mantinha a maior
parte do tempo a Esquadra argentina confinada em seu
ancoradouro. Porém, a Esquadra brasileira não conseguia uma
vitória definitiva frente ao inimigo, não evitando pequenas
incursões que, algumas vezes, mostravam-se desastrosas, como
o combate fluvial em Juncal.
Já nesse período da guerra no mar, o governo de Buenos
Aires concentrava seu esforço na guerra de corso, que afetava o
comércio marítimo do Império brasileiro. Mesmo a Esquadra
argentina, já muito debilitada depois do Combate de LaraQuilmes, cedia seus navios para campanhas de corso na costa
brasileira. E foi com esse propósito que os quatro principais
navios argentinos tentaram romper o bloqueio brasileiro na noite
de 6 de abril de 1827.
A Força Naval argentina, composta pelos Brigues República,
Congresso e Independência, e pela Escuna Sarandi, comandada pelo
próprio comandante da Esquadra argentina, William Brown, foi
interceptada pelos navios da 2a Divisão quando tentava contornar
o bloqueio naval brasileiro.
Neste último grande encontro entre as forças adversárias,
conhecido como Combate de Monte Santiago, a 2a Divisão
brasileira, reforçada pelos navios das outras duas divisões
bloqueadoras, fustigou os navios argentinos com os seus canhões,
que, encurralados entre a força brasileira e os bancos de areia,
foram sendo destroçados. Os Brigues República e Independência
foram abordados e capturados pelos brasileiros. O Brigue Congresso
e a Escuna Sarandi, navios menores e mais leves, conseguiram passar
pelos bancos de areia e refugiaram-se em Buenos Aires, ainda assim
bastante atingidos pelos canhões brasileiros e com muitos mortos
e feridos a bordo.

97


Combate Naval de Monte Santiago (7 e 8 de
abril de 1827).
Desenho de Gaston Roullet segundo as indicações
do Barão do Rio Branco.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha.

98

Foi o golpe final contra a Esquadra argentina e a
demonstração de que o bloqueio naval organizado pelo Almirante
Rodrigo Pinto Guedes foi efetivo no combate ao inimigo.
As grandes perdas argentinas no Combate de Monte
Santiago, em abril de 1827, ratificaram a opção pela guerra de
corso. Durante todo o conflito, as Províncias Unidas armaram
corsários. Alguns corsários eram armados no porto de Buenos
Aires e conseguiam romper o bloqueio naval brasileiro; outros
vinham das bases de corsários de Carmen de Patagones e San Blas,
em território das Províncias Unidas do Rio da Prata, e havia mesmo
os que, recebendo as patentes de corso do governo de Buenos
Aires em portos do exterior,
daí largavam para acossar os
navios mercantes nas costas
brasileiras.
A guerra de corso empreendida contra o nosso
comércio marítimo (à época,
como hoje, essencial para
economia nacional) foi mais
efetiva contra o esforço de
guerra brasileiro do que a
Esquadra argentina. A operação ofensiva que a Marinha
Imperial brasileira realizou com
o bloqueio naval no Prata
coexistiu com a ação defensiva na vigilância das extensas águas
territoriais brasileiras, defendendo nosso comércio marítimo dos
corsários.
Exemplos da ação da Marinha Imperial no combate aos
corsários foram as duas incursões da Esquadra sediada no Rio da
Prata às bases corsárias de Carmen de Patagones e San Blas, na
região da Patagônia. Ambas ocorreram em 1827 e pretendiam
destruir esses verdadeiros ninhos de corsários e recapturar alguns
dos navios mercantes que estes tinham tomado.
Contudo, as condições hidrográficas da costa argentina da
Patagônia, completamente desconhecida dos brasileiros, e,
especialmente na incursão a Carmen de Patagones, a falta de
informação sobre as defesas a serem enfrentadas determinaram o
fracasso das duas expedições.
Entretanto, o combate aos corsários foi mais efetivo no
bloqueio naval empreendido a outra de suas "bases", a localizada
no Rio Salado. Outros corsários também foram batidos no mar
pela Marinha Imperial, como o Brigue Niger, capturado em março
de 1828, e o Brigue General Brandsen, destruído por navios
brasileiros após longa campanha de corso.

A indefinição da campanha terrestre e o esgotamento
econômico e militar de ambos os contendores levaram o Brasil a
aceitar a mediação da Grã-Bretanha para o fim da guerra. A
Convenção Preliminar de Paz foi assinada entre o Império do Brasil
e as Províncias Unidas do Rio da Prata em 27 de agosto de 1828.
O acordo estipulava que ambos os lados renunciariam a suas
pretensões sobre a Banda Oriental, que se tornaria um país
independente: a República Oriental do Uruguai.
O término da Guerra Cisplatina não seria o fim dos conflitos
na região. A Marinha Imperial brasileira permaneceria guarnecendo
a segurança do Império do Brasil no Rio da Prata.

Aprisionamento do navio corsário Gobernador Dorrego em 24 de agosto de 1828, no que foi último combate naval antes da vigência da
Convenção Preliminar de Paz. O corsário Gobernador Dorrego foi uma fragata mercante francesa de nome Mandarine que adquiriu patente
de corso das Províncias Unidas do Rio da Prata e, sob o comando de Jean Soulin, juntou-se a dois outros navios corsário, o General Rondeau
e Argentina, para empreender uma campanha de corso sobre as costas da Província do Rio Grande do Sul. Foram interceptados pela Esquadra
brasileira ainda no Rio da Prata e o Gobernador Dorrego, depois de ter sua mastreação destruída pela Fragata Piranga, Corveta Bertioga (que
aparece a direita na pintura), Brigue Caboclo e Escuna Rio da Prata, foi capturado e incorporado à Marinha Imperial.
Aquarela do Almirante Trajano Augusto de Carvalho.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha.

99


Chefe-de-Esquadra John Pascoe Grenfell,
comandante da Força Naval que irrompeu pelo
passo fortificado de Tonelero.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

100

Guerra contra Oribe e Rosas
Terminada a revolta que sublevou as Províncias do Rio
Grande e de Santa Catarina, o Império brasileiro pôde retomar
a vigilância na fronteira sul e ater-se ao conflito que crescia na
área do Rio da Prata. Mesmo com o fim da Guerra Cisplatina e
a independência da República Oriental do Uruguai, as lideranças
políticas argentinas continuavam com a pretensão de restituir o
mando de Buenos Aires sobre o território do Vice-Reinado do
Prata.
O projeto de anexação do Uruguai ao território argentino
encontrou em Juan Manuel de Rosas liderança máxima da
Confederação Argentina desde 1835 e em Manuel Oribe, líder
do partido de oposição ao governo uruguaio (o Partido Blanco),
seus executores.
O Império brasileiro, que se opunha frontalmente à anexação,
apoiava o governo constituído do Uruguai, exercido pelo Partido
Colorado. A situação política no Uruguai aproximava-se a de uma
guerra civil, com tropas partidárias de Oribe e apoiadas por Rosas
cercando a capital, Montevidéu.
Em 1851, o Governo brasileiro procedeu uma aliança com
o governo uruguaio e com um oposicionista de Rosas, o governador
da Província argentina de Entre Rios, Justo José de Urquiza, para
defender o Uruguai do ataque das forças de Rosas e Oribe.
A ação da Marinha novamente seria realizada em estreita
colaboração com o Exército Imperial. O comando da Força Naval
foi entregue ao Chefe-de-Esquadra John Pascoe Grenfell, veterano
das lutas na Independência e na Cisplatina.
Somente com a intervenção da força terrestre, as tropas
que cercavam Montevidéu capitularam e Manuel Oribe foi
derrotado. A Esquadra brasileira, disposta ao longo do Rio da Prata,
impediu que as tropas vencidas pudessem evacuar para a margem
direita, o lado argentino.
Tendo pacificado o Uruguai, a força brasileira e seus aliados
platinos voltaram-se contra Rosas, que mantinha-se como uma
ameaça à estabilidade da região. Nessa nova ação militar coube à
Marinha a tarefa de transportar as tropas aliadas pelo Rio Paraná
até a localidade de Diamante, para ali desembarcá-las.
A Força Naval brasileira, composta por quatro navios com
propulsão a vapor e três navios a vela, tinha como obstáculo o
Passo de Tonelero, nas proximidades da Barranca de Acevedo,
onde o inimigo instalara uma fortificação guarnecida por 16 peças
de artilharia e 2.800 homens. Devido à pouca largura do rio naquele
trecho, os navios brasileiros seriam obrigados a passar a menos de
400 metros daquela fortificação, recebendo o peso da artilharia
inimiga. A solução encontrada pelo Chefe-de-Esquadra Grenfell



foi o emprego conjunto dos navios a vela e a vapor na operação
de transposição daquele obstáculo.
Os navios a vela, mais artilhados (pois tinham artilharia
postada por todo seu costado, substituída nos navios a vapor pelas
rodas laterais), foram rebocados pelos navios a vapor, mais rápidos
e ágeis nas manobras.
Tonelero foi vencida em 17 de dezembro de 1851, com as
tropas desembarcando em Diamante com sucesso.
Naquela localidade, os navios a vapor auxiliaram também na
transposição do rio pelas tropas oriundas das províncias argentinas
aliadas que tinham marchado até aquela posição.
O Exército de Buenos Aires foi derrotado pelas tropas
brasileiras e de seus aliados platinos, em fevereiro de 1852. A
Passagem de Tonelero representou a única operação ofensiva
realizada pela Marinha Imperial naquele conflito.
Contudo, o emprego da Força Naval no transporte de tropas
para a área do conflito e, notadamente depois de Tonelero, na
transposição das tropas aliadas da margem uruguaia para território
argentino, no Rio da Prata e Rio Paraná, constituiu fator essencial
para o sucesso das ações militares desenvolvidas pelos aliados
contra Rosas e Oribe.

Planta esquemática representando a Passagem de Tonelero.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

101

C

R

O

N

O

L

O

G

I

A



DATA

EVENTO

1825 a 1828

Guerra Cisplatina.

1835 a 1838

Cabanagem (Província do Pará).

1835 a 1845

Guerra dos Farrapos (Província do Rio Grande do Sul).

1837 a 1838

Sabinada (Província da Bahia).

1838 a 1841

Balaiada (Províncias do Maranhão e Piauí).

1848 a 1849

Revolta Praieira (Província de Pernambuco).

1850 a 1852

Guerra contra Oribe e Rosas.

102

F I X A Ç Ã O
1­ Quais foram duas das principais ações efetuadas pela Marinha Imperial brasileira no
combate às revoltas internas da Regência e início do reinado de D. Pedro II?
2­ Durante o reinado de D. Pedro I, quais eram as duas principais forças políticas contrárias?
3­ Cite uma das atividades militares desenvolvidas pela Marinha Imperial Brasileira na Guerra
Cisplatina.
4­ Qual foi a área de atuação da Marinha comum aos dois conflitos externos que o Brasil se
envolveu no período entre o reinado de D. Pedro e o início do reinado de seu herdeiro,
D. Pedro II?
5­ Por que uma das atividades essenciais que a Marinha provia em qualquer operação militar
durante as várias revoltas eclodidas nas províncias durante o período das regências era o
transporte e abastecimento das tropas que combatiam os rebeldes?

SAIBA MAIS
ALBUQUERQUE, Antonio Luiz Porto e. História do Brasil. Rio de Janeiro: Serviço de
Documentação da Marinha, 1985.
HISTÓRIA geral do Brasil. Org. de Maria Yedda Linhares. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1990.
HISTÓRIA naval brasileira. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 1975v.3. t.2.
MAIA, João do Prado. A Marinha de Guerra do Brasil na Colônia e no Império: (tentativa de
reconstituição histórica). Rio de Janeiro: J. Olympio, 1965.
MARTINS, Hélio Leôncio ; BOITEUX, Lucas Alexandre. Campanha naval na Guerra Cisplatina.
In: HISTÓRIA naval brasileira. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 1975v.3. t.1.
PÁGINAS NA INTERNET
Museu Histórico Nacional: http://www.museuhistoriconacional.com.br/

103



A Atuação da Marinha na Guerra da Tríplice
Aliança contra o Governo do Paraguai
Sinopse
A livre navegação nos rios e os limites entre o Brasil e o
norte do Paraguai eram motivos de discordância entre os dois
países. Não se chegou a um acordo satisfatório até a conclusão
da Guerra da Tríplice Aliança. Para os brasileiros, era muito
importante acessar, sem empecilhos, a Província de Mato
Grosso, navegando pelo Rio Paraguai. Sabendo disto, os
paraguaios mantinham a questão dos limites, que reivindicavam
associada à da livre navegação. O litígio existia, principalmente
em relação a um território situado à margem esquerda do Rio
Paraguai, entre os Rios Apa e Branco, ocupado por brasileiros.
Apesar dessas questões, o entendimento entre o Brasil e o
Paraguai era cordial, excetuando-se algumas crises que não
chegaram a ter maiores conseqüências. Interessava
principalmente ao Império que o Paraguai se mantivesse fora
da Confederação Argentina, que muitas dificuldades lhe vinha
causando, com sua permanente instabilidade política.
Com a morte de Carlos López, ascendeu ao governo do
Paraguai seu filho, Francisco Solano López, que ampliou a política
externa do País, inclusive estabelecendo laços de amizade com o
General Justo José de Urquiza, que liderava a Província argentina
de Entre Rios, e com o Partido Blanco uruguaio. Essas alianças,
sem dúvida, favoreciam o acesso do Paraguai ao mar.
Com a invasão do Uruguai por tropas brasileiras, na
intervenção realizada em 1864, contra o governo do Presidente
uruguaio Manuel Aguirre, do Partido Blanco, Solano López
considerou que seu próprio país fora agredido e declarou guerra
ao Brasil. Aliás, ele havia enviado um ultimato ao Brasil, que fora
ignorado. Como foi negada pelos portenhos permissão para que
seu exército atravessasse território argentino para atacar o Rio
Grande do Sul, invadiu a Província de Corrientes, envolvendo a
Argentina no conflito.

104



O Paraguai estava se mobilizando para uma possível guerra
desde o início de 1864. López se julgava mais forte ­ o que
provavelmente era verdadeiro, no final de 1864 e início de 1865
­ e acreditava que teria o apoio dos blancos uruguaios e do
argentino Urquiza. Tal não ocorreu. Ele superestimou o poderio
econômico e militar do Paraguai e subestimou o potencial do
Poder Militar brasileiro e a disposição para a luta do Brasil.

Paraguai: da independência à Guerra da Tríplice Aliança
Ex-colônia espanhola na América do Sul, o Paraguai foi diretamente beneficiado pela
política expansionista de Napoleão Bonaparte na Europa. A Espanha era aliada da França nas
Guerras Napoleônicas, inclusive permitindo que as tropas de Napoleão atravessassem seu território para invadir Portugal, em 30 de novembro 1807, um dia após a Família Real e a Corte
portuguesa terem rumado para o Brasil.
Enquanto a invasão de Portugal se sucedia, Napoleão forçou a abdicação do Rei Carlos IV
de Espanha e de seu herdeiro, D. Fernando, conduzindo ao trono espanhol o seu irmão José
Bonaparte. Os espanhóis revoltaram-se contra os usurpadores franceses, obtendo apoio das
tropas inglesas estacionadas no Norte de Portugal. As tropas anglo-portuguesas expulsariam os
franceses em 1813 e Fernando VII restauraria o trono em 1814, pelo Tratado de Valença.
Neste ínterim, com o trono espanhol ocupado por estrangeiros, o isolamento da metrópole favoreceu aos patriotas hispano-americanos das colônias espanholas na América que desejavam a independência das terras em que viviam. O Paraguai declara a sua independência, derrubando as autoridades espanholas locais a 15 de maio de 1811 e derrotando, neste mesmo ano,
tropas argentinas que queriam sua adesão às Províncias Unidas do Rio da Prata (atual Argentina).
Daí para a frente, as relações com a Argentina seriam complicadas.
Assumiu o governo do Paraguai uma junta composta por três membros. Em 1817, um dos
membros da junta, Dr. José Gaspar Rodriguez de Francia, por maioria no Congresso, passou a ser
o Ditador Perpétuo do Paraguai. O Dr. Francia adotou uma política de isolamento em relação ao
resto do mundo. Consolidou a independência do país e, enquanto governou, ela não foi contestada
oficialmente. O Brasil foi o primeiro país que a reconheceu.
Por seu turno, a Argentina não apenas não reconhecia a independência do Paraguai, como
também não autorizava quaisquer relações exteriores através de território argentino. Mesmo os
estrangeiros em missão oficial eram obrigados a chegar a Assunção sem transitar por território
argentino. O acesso ao mar também era fundamental para o Paraguai.
Em 1844, Carlos López foi aclamado Presidente da República do Paraguai por um
período de dez anos. Durante seu governo, incentivou a abertura ao comércio internacional
e o país começou a participar dos acontecimentos políticos da região. Já no ano seguinte,
firmou uma convenção de aliança ofensiva e defensiva com a Província de Corrientes, declarou guerra a Rosas e enviou 4 mil homens, comandados por um de seus filhos, o jovem
Francisco Solano López, para Corrientes. Solano López viria a ser o ditador paraguaio
que provocou a Guerra da Tríplice Aliança.

105


Entre outros itens importantes, o Tratado da Tríplice
Aliança estabelecia que o Comando da Força Naval
do Brasil em Operações contra o Governo do
Paraguai não ficaria subordinado ao Comando
Geral.
1

Tratado da Tríplice Aliança
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
Como, aliás, ocorrera na Campanha do Mississipi,
durante a Guerra Civil Americana. No vale do Rio
Mississipi, onde os rios eram as principais vias de
comunicação, houve semelhanças com o conflito
sul-americano.
2

O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (Arsenal
de Marinha da Corte) passara por uma modernização em meados do século XIX. Alguns de seus
engenheiros, como Napoleão Level e Carlos
Braconnot, haviam estagiado em estaleiros europeus e eram capazes de projetar navios movidos
por hélice e sistemas de propulsão a vapor. Diversos dos navios do início da guerra foram
projetados e construídos no País.
3

Os seguintes atos de
hostilidade do Paraguai
levaram à assinatura
do Tratado da Tríplice
Aliança contra o Governo do
Paraguai, pelo Brasil,
Assinatura da Tríplice Aliança entre o General
Argentina e Uruguai 1, em
Venâncio Flores (Uruguai), Dr. Francisco
o
1 de maio de 1865:
Otaviano (Brasil) e o Presidente da Argentina
Bartolomeu Mitre
· o apresamento do Vapor
brasileiro Marquês de Olinda, que viajava para Mato Grosso
transportando o novo presidente dessa província, em 12 de
novembro de 1864, em Assunção;
· a invasão do Sul de Mato Grosso por tropas paraguaias, em 28
de dezembro de 1864; e
· a invasão de território da Argentina por tropas paraguaias, em
13 de abril de 1865, ocupando a Cidade de Corrientes e
apresando os vapores argentinos Gualeguay e 25 de Mayo.
A aliança com os argentinos era, na opinião de um dos
observadores estrangeiros, uma "aliança de cão e gato". Havia
muitas desavenças recentes e ao Brasil não interessava subordinar
sua Força Naval a um comandante argentino. A Argentina possuía,
durante essa guerra, apenas uma pequena Marinha e o esforço
naval foi quase totalmente da Marinha do Brasil. O Império não
queria criar uma situação em que um estrangeiro pudesse decidir
o destino de seu Poder Naval. Poder que sempre desempenhara
um papel importante, de diferenciador nos conflitos da região
do Rio da Prata.
Isto significava, também, que no início da guerra, as
operações envolvendo forças navais e terrestres seriam
operações conjuntas, sem unidade de comando2.
No início da Guerra da Tríplice Aliança, a Marinha do Brasil
dispunha de 45 navios armados. Destes, 33 eram navios de
propulsão mista, a vela e a vapor, e 12 dependiam exclusivamente
do vento. A propulsão a vapor, no entanto, era essencial para
operar nos rios. Todos tinham casco de madeira. Muitos deles
já estavam armados com canhões raiados de carregamento
pela culatra3.
Navios da Marinha Imperial Brasileira fundeados
na Baía de Guanabara em 1865.
Foto de George Leuzinger
Acervo do Instituto Moreira Salles, 1998

106



Os navios brasileiros, no entanto, mesmo os de propulsão
mista, eram adequados para operar no mar e não nas condições
de águas restritas e pouco profundas que o teatro de operações
nos Rios Paraná e Paraguai exigia; a possibilidade de encalhar era
um perigo sempre presente. Além disso, esses navios, com casco
de madeira, eram muito vulneráveis à artilharia de terra,
posicionada nas margens.
Era uma época de freqüentes inovações tecnológicas no
hemisfério norte e a Guerra Civil Americana trouxera muitas
novidades para a guerra naval e, especificamente, para o combate
nos rios. Sua influência, logo depois dessa primeira fase de navios
de madeira, na Guerra da Tríplice Aliança fez-se sentir,
principalmente, com o aparecimento dos navios protegidos por
couraça de ferro, projetados para a guerra fluvial, e a mina naval.
Todos os navios da Esquadra paraguaia, exceto um4, eram
navios de madeira, mistos, a vela e a vapor, com propulsão por
rodas de pás. Embora todos eles fossem adequados para navegar
nos rios, somente o Taquary era um verdadeiro navio de guerra;
os outros, apesar de convertidos, não foram projetados para tal.
Os paraguaios desenvolveram a chata com canhão como
arma de guerra. Era um barco de fundo chato, sem propulsão,
com canhão de seis polegadas de calibre, que era rebocado até
o local de utilização, onde ficava fundeado. Transportava apenas
a guarnição do canhão e sua borda ficava próximo da água,
deixando à vista um reduzidíssimo alvo. Via-se somente a boca
do canhão acima da superfície da água.
Discriminadas as forças, sigamos então no conflito.
A seguir serão destacados os pontos de maior relevância
da nossa Força Naval...

O Pirabebe, um pequeno navio fluvial, tinha a
estrutura de ferro e era a hélice.
4

107


Batalha Naval do Riachuelo
Óleo sobre tela de Victor Meireles
Acervo do Museu Histórico Nacional

108

O bloqueio do Rio Paraná e a
Batalha Naval do Riachuelo
O Paraguai enviou duas
colunas de tropas invasoras, uma
destinada ao Rio Grande do Sul e
outra para o sul, em território
argentino, acompanhando o Rio
Paraná.
Foi designado comandante das
Forças Navais Brasileiras em Operação
o Almirante Joaquim Marques Lisboa,
Visconde de Tamandaré. A estratégia
naval adotada foi a de negar o acesso
Almirante Tamandaré
ao território paraguaio através do
Acervo do Serviço de
bloqueio. Tamandaré, logo no início,
Documentação da Marinha
tratou também de organizar a difícil
logística que o teatro de operações exigia. Os rios eram as principais
vias de comunicação da região, e navios e embarcações teriam
que transportar os suprimentos para as tropas, o carvão para servir
como combustível dos próprios navios e,
muitas vezes, soldados, cavalos e armamento.
Com o avanço das tropas paraguaias ao
longo do Rio Paraná, ocupando a Província
de Corrientes, Tamandaré resolveu designar
seu chefe de estado-maior, o Chefe-deDivisão Francisco Manoel Barroso da Silva,
para assumir o comando da Força Naval
brasileira, que subira o rio para efetivar o
bloqueio do Paraguai. Ele queria mais ação.
Barroso partiu em 28 de abril de 1865, na
Fragata Amazonas, e assumiu o cargo em Bela
Vista. Sua primeira missão foi um ataque à
Cidade de Corrientes, então ocupada pelos
paraguaios. O desembarque das tropas
aliadas em Corrientes ocorreu com bom
êxito no dia 25 de maio.
Não era, sabidamente, possível manter a posse dessa cidade
na retaguarda das tropas invasoras, principalmente naquele
momento da luta, em que os paraguaios mantinham uma ofensiva
vitoriosa, e foi preciso, logo depois, evacuá-la. Mas, o ataque deteve
o avanço paraguaio para o Sul. Ficou evidente que a presença da
Força Naval brasileira deixava o flanco direito dos invasores, que
se apoiava no Rio Paraná, sempre muito vulnerável. Para os
paraguaios, era necessário destruí-la e isto levou Solano López a
planejar a ação que levaria à Batalha Naval do Riachuelo.

Parnaíba, Mearim, Araguari, Iguatemi e Ipiranga, estava fundeada ao
sul da Cidade de Corrientes, próximo à margem direita, em um
trecho largo do rio. De lá avistaram, pouco depois das oito horas
da manhã, a força paraguaia comandada pelo Capitão-de-Fragata
Pedro Inácio Mezza, com os navios: Tacuary, Paraguary, Igurey, Ipora,
Jejuy, Salto Oriental, Marquês de Olinda e Pirabebe; rebocando seis
chatas artilhadas.



Os preparativos para o ataque aos navios brasileiros foram
realizados sob a orientação direta do próprio López. O plano
consistia em surpreender os navios brasileiros fundeados, abordálos e, após a vitória, rebocá-los para Humaitá. Por isso, os navios
paraguaios estavam superlotados com tropas.
Tirando o máximo proveito do terreno ao longo do Rio
Paraná, ele mandou, também, assentar canhões nas barrancas da
Ponta de Santa Catalina, que fica imediatamente antes da foz do
Riachuelo5, e reforçar com tropas de infantaria o Rincão de
Lagraña6, que lhe fica rio abaixo.
Da extremidade Sul do Rincão de Lagraña, que tem uma
barranca mais elevada, os paraguaios podiam atirar, de cima, sobre
os conveses dos navios brasileiros que escapassem, descendo o
Paraná. O local era perfeito para uma armadilha, pois o canal
navegável era estreito e tortuoso, com risco de encalhe em bancos
submersos, o que forçava as embarcações a passarem próximo à
margem esquerda7.
Na noite de 10 para 11 de junho de 1865, a Força Naval
brasileira comandada por Barroso, constituída pela Fragata
Amazonas e pelos Vapores Jequitinhonha, Belmonte, Beberibe,

17 quilômetros distante ao Sul da cidade de
Corrientes, portanto, em território argentino ocupado pelo Paraguai.
5

Assim chamado porque era uma estância do Governador Lagraña.
6

Existem, também, diversas ilhas nesse trecho do
rio, as principais são as Palomeras, baixas e cobertas com vegetação. Elas ficam entre o canal que era
utilizado nessa época e a margem direita, que é
ocupada pelo Chaco, região alagadiça e inóspita.
7

Plano da Batalha Naval do Riachuelo feito pelo
Primeiro Tenente Antônio Luiz Von Hoonholtz
(futuro Barão de Teffé), comandante da
Canhoneira Araguari.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

109


Coube a iniciativa desse primeiro combate aos
paraguaios. A força brasileira somente conseguiu
pressão nas caldeiras para se movimentar às
10h50min, aproximadamente.
8

"O Brasil espera que
cada um cumpra o seu
dever."

"Sustentar o fogo que a
vitória é nossa."

Sinais de Barroso

110

Mezza se atrasara
devido a problemas na
propulsão de um de seus
navios, o Ibera, que acabou
sendo deixado para trás. As
chatas que rebocava tinham
Em destaque o Vapor Araguari
uma pequena borda-livre,
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
fazendo água quando os
navios aumentavam a velocidade procurando recuperar o tempo
perdido.
Ele decidiu não largar as chatas, pois sua presença na batalha
era uma determinação de López, e, chegando tarde, desistiu de
iniciar o combate com a abordagem. Julgava que não havia
surpreendido os brasileiros e é acusado de ter, assim, perdido sua
melhor chance de vitória. A surpresa, na realidade, foi maior até
do que se poderia supor. Era uma manhã de domingo, parte das
guarnições estava em terra para trazer lenha, com o propósito de
poupar carvão. É sempre difícil manter um estado prolongado de
alerta quando as ameaças não se fazem freqüentemente sensíveis.
Alertada, a Força Naval brasileira se preparou para o iminente
combate, as tripulações assumindo seus postos, despertando o
fogo das fornalhas das caldeiras com carvão e largando as amarras.
Às 9h25min, dispararam-se os primeiros tiros de artilharia. Passou,
logo em seguida, a força paraguaia, em coluna, pelo través da
brasileira, ainda imobilizada, indo, logo depois, rio abaixo, para as
proximidades da margem esquerda, logo após o local onde
estavam as baterias de terra. Fechou-se, assim, a armadilha em
uma extensão de uns seis quilômetros, ao longo de um trecho do
Paraná, junto à foz do Riachuelo8.
Pouco tempo depois, a coluna brasileira, com o Belmonte à
frente, seguido pelo Jequitinhonha e por outros navios, avistou as
barrancas de Santa Catalina. Somente mais adiante, já com as
barrancas pelo través, era possível ter a visão completa da curva
do Rincão de Lagraña, rio abaixo da foz do Riachuelo, onde estavam
parados os navios e as chatas da força paraguaia. A vegetação
impedia que se soubesse que as barrancas de Santa Catalina
estavam artilhadas.
Barroso resolveu deter a Amazonas, reservando-a para
interceptar uma possível fuga dos paraguaios rio acima. Alguns
navios brasileiros não entenderam a manobra e ficaram indecisos.
Como conseqüência, o Jequitinhonha encalhou num banco, sob as
baterias de terra, e o Belmonte, à frente, prosseguiu sozinho,
recebendo o fogo concentrado da artilharia do inimigo e tendo
que encalhar, propositadamente, após completar a passagem para
não afundar, devido às avarias sofridas em combate.
Para reorganizar sua força naval, Barroso avançou com a
Amazonas, assumiu a liderança dos navios que estavam a ré do
Belmonte e, seguido por eles, completou a passagem sob o fogo

­ "....Subi, minha resolução foi de acabar de uma vez, com tôda a
esquadra paraguaya, que eu teria conseguido se os quatro vapôres que
estavam mais acima não tivessem fugido. Pus a prôa sôbre o primeiro, que
o escangalhei, ficando inutilisado completamente, de agoa aberta, indo
pouco depois ao fundo. Segui a mesma manobra contra o segundo, que
era o Marques de Olinda, que inutilisei, e depois o terceiro, que era o
Salto, que ficou pela mesma fórma. Os quatro restantes vendo a manobra
que eu praticava e que eu estava disposto a fazer-lhes o mesmo, trataram
de fugir rio acima. Em seguimento ao terceiro vapor destruído, aproei a
uma chata que com o choque e um tiro foi a pique.
Exmº Sr. Almirante, todas estas manobras eram feitas pela
Amazonas, debaixo do mais vivo fogo, quer dos navios e chatas, como das
baterias de terra e mosquetaria de mais de mil espingardas. A minha tenção
era destruir por esta forma toda a Esquadra Paraguaya, do que andar para
baixo e para cima, que necessariamente mais cedo ou mais tarde havíamos de
encalhar, por ser naquella localidade o canal mui estreito.
Concluída esta faina, seriam 4 horas da tarde, tratei de tomar as
chatas, que ao approximar-me d'ellas eram abandonadas, saltando todos
ao rio, e nadando para terra, que estava a curta distância.
O quarto vapor paraguayo Paraguary, de que ainda não fallei, recebeu
tal rombo no costado e caldeiras, quando desceram, que foi encalhar
em uma ilha em frente, e toda a gente saltou para ella, fugindo e
abandonando o navio".



dos canhões paraguaios e da fuzilaria de terra. Afastou-se,
depois, descendo o Rio Paraná com apenas seis dos seus nove
navios, porque o Parnaíba, com o leme avariado, também não
conseguira passar. Completou-se assim, às 12h10min, a primeira
fase da batalha.
Então, Barroso mostrou toda a sua coragem, decidindo
regressar para o interior da armadilha de Riachuelo. Foi necessário
descer o rio até um lugar onde o canal permitia fazer a volta com
os navios e, cerca de uma hora depois, ele estava novamente em
frente à ponta sul do Rincão de Lagraña.
Até aquele instante, o resultado era altamente insatisfatório
para o Brasil. O Belmonte fora de ação, o Jequitinhonha encalhado,
para sempre, e o Parnaíba sendo abordado e dominado pelo
inimigo, apesar de resistência heróica de brasileiros, como o GuardaMarinha Guilherme Greenhalgh e o Marinheiro Marcílio Dias, que
lutaram até a morte.
Tirando, porém, vantagem do porte da Amazonas e contando
com a perícia do prático argentino que tinha a bordo, Barroso
usou seu navio para abalroar os paraguaios e vencer a batalha. Foi
um improviso, seu navio não tinha a proa propositadamente
reforçada para ser empregada como aríete.
Repetindo aqui as próprias palavras do Chefe-de-Divisão
Barroso, na parte que transmitiu ao Visconde de Tamandaré, assim
se deu a batalha (grafia de época):

Guarda-Marinha Greenhalgh
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Imperial Marinheiro Marcílio Dias
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

111



Quatro navios paraguaios conseguiram fugir e, com a
aproximação da noite, os navios brasileiros que os perseguiam
regressaram, para evitar encalhes em território inimigo. Além disto,
apesar de não comentarem, na época, não seria sensato abordar
um navio lotado com tropas.
Antes do pôr-do-sol de 11 de junho, a vitória era brasileira.
Foi uma batalha naval, em alguns aspectos, decisiva.

Tamandaré explicou sua ordem de recuar a força
naval pela necessidade dela estar sempre próxima à
frente do exército inimigo.
9

López ordenara o regresso da coluna que avançara junto ao Rio Paraná, logo após a derrota das
forças que invadiram o Rio Grande do Sul, em
Uruguaiana. Só então foi possível recuperar, definitivamente, a cidade de Corrientes. Em dezembro
de 1865, os Exércitos Aliados estavam acampados
em locais próximos a essa cidade e a Força Naval
brasileira, sob o comando de Barroso, também
estava fundeada nas imediações.
10

Francisco Solano López
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Barão de Teffé - Antonio Luiz Von Hoonholtz
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

112

Batalha Naval do Riachuelo
Óleo sobre tela de Eduardo de Martino
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

A Esquadra paraguaia foi praticamente aniquilada, e não teria
mais participação relevante no conflito. Estava garantido o bloqueio
que impediria que o Paraguai recebesse armamentos e, até mesmo,
os navios encouraçados encomendados no exterior.
Comprometeu, também, a situação das tropas invasoras e, pouco
tempo depois, a guerra passou para o território paraguaio.
Barroso, sem dúvida, foi o responsável pelo bom êxito de
sua força naval em Riachuelo. O futuro Barão de Teffé declarou
que o vira, do Araguari, em plena batalha, destemido, expondo-se
sobre a roda da Amazonas, com a barba branca, que deixara crescer,
ao vento e sentira por ele um grande respeito e admiração.
A cidade de Corrientes continuava ocupada pelo inimigo e a
Força Naval brasileira, que mostrara sua presença, fundeada
próxima a ela, precisou iniciar, alguns dias após o 11 de junho, a
descida do rio, que estava baixando.
Os paraguaios haviam retirado suas baterias, que estavam
na Ponta de Santa Catalina, e as instalaram, primeiro em
Mercedes, depois em Cuevas, criando dificuldades para o
abastecimento dos navios brasileiros, que era realizado pelo rio.
Sob todos esses aspectos, incluindo a diminuição do nível do
Rio Paraná, que aumentava o risco de encalhe, a posição da
Força Naval, avançada em território ainda ocupado por tropas
do Paraguai, mostrava-se muito vulnerável9.
Barroso passou com seus navios por Mercedes e Cuevas,
enfrentando a artilharia paraguaia, e somente regressou passados
alguns meses, apoiando o avanço das tropas aliadas, que progrediam
aproveitando o recuo do inimigo10.



Passagem de Mercedes

Passagem de Cuevas

Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Tudo levava à ilusão de que a Tríplice Aliança venceria a guerra
em pouco tempo, mas tal não ocorreu. O que parecia fácil
estagnou. O Paraguai era um país mobilizado para a guerra que,
aliás, foi ele que iniciou, achando que tinha vantagens.
Humaitá ainda era uma fortaleza inexpugnável enquanto não
estivessem disponíveis os novos meios navais que estavam em
obtenção pelo Brasil: os navios encouraçados.
Para avançar ao longo do Rio Paraguai, era necessário vencer
diversas passagens fortificadas, destacando-se, inicialmente, Curuzu,
Curupaiti e Humaitá. Navios oceânicos de calado inapropriado para
navegar em rios, de casco de madeira, sem couraça, como os da
Força Naval brasileira que combatera em Riachuelo, não teriam
bom êxito. Era evidente que o Brasil necessitava de navios
encouraçados para o prosseguimento das ações de guerra. Os
obstáculos e fortificações de Humaitá eram uma séria ameaça,
mesmo para estes navios.

11

Incidente com a Inglaterra, ocorrido em 1863.

O Encouraçado Brasil foi o primeiro navio
encouraçado da Marinha do Brasil.
12

Navios encouraçados e
a invasão do Paraguai
Os navios encouraçados começaram a chegar à frente de
combate em dezembro de 1865. O Encouraçado Brasil,
encomendado após a Questão Christie11 na França, foi o primeiro
que chegou a Corrientes em dezembro de
186512.
No Arsenal de Marinha da Corte, no Rio
de Janeiro, iniciara-se a construção de outros
navios encouraçados, especificados para lutar
naquele teatro de operações fluviais. O projeto
e a construção estavam a cargo de brasileiros,
como os engenheiros Napoleão Level e Carlos
Braconnot. Destacou-se, também, o Capitãode-Fragata Henrique Antônio Baptista,
especialista em armamento, que também
chefiara o recebimento e trouxera o
Encouraçado Brasil da França.
Durante a guerra, foram incorporados à
Encouraçado Brasil ­ Aquarela do Almirante Trajano Augusto de Carvalho
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
Armada brasileira 17 navios encouraçados,

113



114

incluindo alguns classificados como monitores, que obedeciam a
características de projeto inovadoras, desenvolvidas poucos anos
antes na Guerra Civil Americana.
Em 21 de fevereiro de 1866, Tamandaré chegou a Corrientes
e assumiu o comando da Força Naval, mantendo Barroso como
seu chefe de estado-maior. Em 17 de março, os navios
suspenderam para iniciar as operações rio acima. Quatro dos
encouraçados já estavam disponíveis nessa força. Um deles tinha
o nome de Barroso, e outro o de Tamandaré. Era uma grande
homenagem, em vida, aos dois ilustres chefes.
A ofensiva aliada para a invasão do Paraguai necessitava
de apoio naval. Passo da Pátria foi uma operação conjunta de
forças navais e terrestres. Coube, inicialmente, à Marinha fazer
os levantamentos hidrográficos, combater as chatas paraguaias
e bombardear o Forte de
Itapiru e o acampamento
inimigo. Em março de 1866,
já estavam disponíveis nove
navios encouraçados, inclusive três construídos no
Brasil: Tamandaré, Barroso e
Rio de Janeiro. A reação da
artilharia paraguaia ceifou
vidas preciosas, como a do
Encouraçado Barroso
Tenente Mariz e Barros,
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
comandante do Tamandaré.
Houve, depois, perfeita cooperação entre as forças, na grande
operação de desembarque que ocorreu em 16 de abril de 1866.
Enquanto parte da Força Naval bombardeava a margem direita do
Rio Paraná, de modo a atrair a atenção do inimigo, os
transportes avançaram e entraram no Rio Paraguai.
Os navios transportaram inicialmente cerca de 45 mil
homens, de um efetivo de 66 mil (38 mil brasileiros, 25 mil
argentinos e 3 mil uruguaios), artilharia, cavalos e material. O
General Osório foi o primeiro a desembarcar em território inimigo.
Com a invasão, os paraguaios abandonaram Itapiru e Passo da Pátria
e, após tentativas infrutíferas de derrotar o invasor em Estero
Bellaco e Tuiuti, concentraram suas defesas nas fortificações que
barravam o caminho: Curuzu, Curupaiti e Humaitá.

Em 31 de agosto de 1866, as tropas comandadas pelo
General Manoel Marques de Souza, o Barão de Porto Alegre,
desembarcaram na margem esquerda para atacar Curuzu e, no
dia seguinte, os navios começaram a bombardear a fortificação.
Em 2 de setembro, o navio encouraçado Rio de Janeiro foi
atingido por duas minas flutuantes e afundou com perda de vidas
humanas.
Curuzu foi conquistada pelo Barão de Porto Alegre, apoiado
pelo fogo naval, em 3 de setembro.
O próximo ataque foi a Curupaiti. O Presidente argentino,
General Bartolomeu Mitre, comandante das Forças da Tríplice
Aliança, assumiu pessoalmente o comando da operação. Apesar
do intenso bombardeio naval, o ataque aliado, ocorrido em 22 de
setembro, levou à maior derrota da Tríplice Aliança nessa guerra.
Seguiram-se acusações e críticas, que causaram uma crise
entre Mitre e Tamandaré. O preparo da operação, sem dúvida,
fora insuficiente e as dificuldades do ataque incorretamente
avaliadas. Como Mitre permaneceria exercendo o comando geral
dos Exércitos Aliados, o governo brasileiro aceitou o pedido de
afastamento feito anteriormente por Tamandaré. Ele e
Barroso foram substituídos, não mais participando das
operações dessa guerra.



Curuzu e Curupaiti

Aquarela do Almirante Trajano Augusto de Carvalho retratando o Encouraçado Rio de janeiro
no momento em que afundava durante o ataque a Curuzu.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha.

115


Caxias e Inhaúma eram amigos e sua amizade e
confiança mútua contribuíram para o excelente resultado das operações combinadas. Ambos possuíam, também, uma boa experiência política, o que
ajudou no, às vezes, difícil relacionamento com os
aliados da Tríplice Aliança.
13

Caxias e Inhaúma
O Marquês de Caxias, General Luís Alves de Lima e Silva,
futuro Duque de Caxias e Patrono do Exército Brasileiro, foi
designado para o cargo de Comandante-em-Chefe das Forças
Brasileiras em Operações contra o Governo do Paraguai.
O comando da Força Naval coube ao Chefe-de-Esquadra
Joaquim José Ignácio, futuro Visconde de Inhaúma, que assumiu
seu cargo, substituindo Tamandaré, em 22 de dezembro de 1866.
Ele estava subordinado a Caxias, mas não a Mitre.
Caxias empregou com maestria a Força Naval de Inhaúma,
para apoiar sua ofensiva ao longo do Rio Paraguai, até a ocupação
da cidade de Assunção; bombardeando fortificações; fazendo
reconhecimentos pelo rio; transportando tropas de uma margem
para a outra, para contornar o flanco inimigo; e fazendo o apoio
logístico necessário13.

Passagem de Curupaiti

Duque de Caxias
Acervo do Serviço de
Documentação da Marinha

Visconde de Inhaúma
Acervo do Serviço de
Documentação da Marinha

116

Há meses que a Força Naval bombardeava diariamente
Curupaiti, tentando diminuir seu poder de fogo e abalar o moral
dos defensores.
Em 15 de agosto de 1867, já promovido a Vice-Almirante,
Joaquim Ignácio comandou a Passagem de Curupaiti, enfrentando
o fogo das baterias de terra e
obstá-culos no rio. Pelo feito,
re-cebeu, logo depois, o título
de Barão de Inhaúma. Participaram da passagem dez navios
encouraçados que, em seguida, fundearam um pouco
abaixo de Humaitá e
Passagem de Curupaiti
começaram a bombardeá-la. Aquarela do Almirante
Trajano Augusto de Carvalho
A posição desses navios, Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
porém, expunha-os aos tiros
das fortificações paraguaias e Inhaúma considerava que ainda não
era o momento de forçar Humaitá. Caxias apoiou esta decisão.
O apoio logístico a essa Força Naval operando entre
Curupaiti e Humaitá era muito difícil e exigiu que os brasileiros
fizessem o caminho pela margem direita do Rio Paraguai, no Chaco.
Logo depois construiu-se uma pequena ferrovia nesse caminho,
para transportar as provisões necessárias.
Para apoiar o material das forças em combate, construíra-se
um arsenal em Cerrito, próximo à confluência dos Rios Paraguai e
Paraná. Graças a ele, foi possível fazer essa estrada de ferro.
Ultrapassar Humaitá com uma força naval e mantê-la rio
acima exigiria também uma base de suprimentos rio acima. Caxias,



após reorganizar as forças terrestres brasileiras, iniciou, em julho
de 1867, a marcha de flanco e ocupou Tayi, no Rio Paraguai, acima
de Humaitá, que serviria depois para apoiar os navios.
Em dezembro de 1867, os três primeiros monitores
construídos no Arsenal de Marinha da Corte chegaram à frente de
combate. Esses monitores, por suas características, seriam
importantes para o prosseguimento das operações.
Em 14 de janeiro de 1868, Mitre precisou reassumir a
presidência da Argentina e passou definitivamente o comando-emchefe dos Exércitos da Tríplice Aliança para Caxias.

Passagem de Humaitá
Na madrugada de 19 de fevereiro de 1868, iniciou-se a
Passagem de Humaitá.
A Força Naval de Inhaúma intensificou o bombardeio e a
Divisão Avançada, comandada pelo Capitão-de-Mar-e-Guerra
Delfim Carlos de Carvalho, depois Almirante e Barão da
Passagem, avançou rio acima.
Essa divisão era formada por seis
navios: os Encouraçados Barroso,
Tamandaré e Bahia e os Monitores Rio Grande, Pará e Alagoas.
Eles acometeram a passagem formando três pares compostos, cada um, por um encouraçado e um monitoramarrado ao
seu contrabordo.
Após a passagem, três dos
seis navios tiveram que ser
encalhados, para não afundarem
devido às avarias sofridas no
percurso. O Alagoas foi atingido
por mais de 160 projéteis.
Estava, no entanto, vencida
Humaitá, que aos poucos seria
desguarnecida pelos paraguaios.
Solano López decidiu que era
necessário retirar-se com seu
exército para uma nova posição
defensiva, mais ao norte.

Planta geral mostrando
a posição da Esquadra na
Passagem de Humaitá.

117


Almirante Saldanha da Gama
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha.
14

O recuo das forças paraguaias
Na madrugada de 3 de março de 1868, López se
retirou de Humaitá com cerca de 12 mil homens. Os aliados
fecharam o cerco.
Em 25 de julho, os últimos defensores abandonaram
Humaitá, que foi ocupada pelos aliados. Era preciso reforçar o
cerco para evitar que eles se juntassem ao grosso do
Exército paraguaio. Para isso, os aliados criaram uma flotilha
de escaleres, lanchas e canoas para bloquear a passagem dos
fugitivos pela Lagoa Verá.
Os combates que ali ocorreram, corpo-a-corpo, entre as
tripulações de embarcações, constituíram um dos conjuntos de
episódios mais dramáticos da guerra. Participaram deles, com
grande bravura, jovens oficiais brasileiros, como os Tenentes
Saldanha da Gama14 e Júlio de Noronha, entre outros. Ao final,
renderam-se 1.300 paraguaios.

O avanço aliado e a Dezembrada
Superado o obstáculo de Humaitá, Caxias pôde avançar para
o norte. Era necessário que a Força Naval acompanhasse o
movimento das forças terrestres aliadas e, no dia 16 de agosto de
1868, Inhaúma começou a subir o Rio Paraguai. A partir de então,
os navios participaram das operações prestando o apoio
determinado por Caxias.
Logo, Caxias alcançou Palmas e iniciou seus planos para atacar
a nova posição do inimigo, em Piquissiri. Ele próprio efetuou vários
reconhecimentos empregando os navios e decidiu por não realizar
uma ação frontal. Para atacar os paraguaios pela retaguarda, era
preciso utilizar a margem direita, onde se situava o Chaco, um
alagadiço quase intransponível, exposto às inundações.
A genial manobra do Piquissiri, que contornou a posição do
inimigo, foi uma operação em que a Força Naval exerceu um papel
relevante. Foi construída uma estrada pelos pântanos do Chaco,
ultrapassando diversos cursos d'água, para que as tropas, que
cruzaram o rio nos navios, avançassem pela margem direita até
um ponto em que podiam embarcar novamente, para serem
transportadas para a margem esquerda, acima das posições
inimigas. Em 4 de dezembro, a Força Naval apoiou o desembarque
das tropas em Santo Antônio, sobre a retaguarda paraguaia.
O ataque de Caxias para o Sul é conhecido como a
Dezembrada. Ocorreu uma sucessão de combates terrestres, dos
quais se destacam Itororó, Avaí e Lomas Valentinas. Ao final, as
forças paraguaias estavam derrotadas e López fugiu.

118



Não se rendendo, apesar de seu exército estar praticamente
aniquilado, ele conseguiu prolongar a guerra por mais de um ano,
na região montanhosa do Norte de seu país, na chamada Campanha
da Cordilheira, causando enormes sacrifícios a todos os envolvidos,
principalmente ao povo paraguaio15.

A ocupação de Assunção e
a fase final da guerra
Como não havia mais obstáculos até Assunção, ela foi
ocupada pelos aliados e a Força Naval fundeou em frente à cidade,
em janeiro de 1869.
Em fevereiro, o Chefe-de-Esquadra Elisário Antônio dos
Santos assumiu o comando da Força Naval. Ficaram no Paraguai
os navios de menor calado, mais úteis para atuar nos afluentes.
Uma Força Naval subiu o Rio Paraguai até território brasileiro, em
Mato Grosso. Houve um último combate no Rio Manduvirá. Seguiuse a Campanha da Cordilheira, em que a Marinha não mais
confrontou o inimigo.
Em 1870, o Paraguai estava derrotado e seu povo dizimado.
A Guerra foi muito importante para a consolidação dos
Estados Nacionais na região do Rio da Prata. Foi durante o conflito
que a unidade da Argentina se consolidou. Para o Brasil, foi um
grande desafio que mobilizou o País e uniu sua população. Foi lá
que os brasileiros das diferentes regiões do País se conheceram
melhor, passando a se respeitar e a se entender.

A Guerra da Tríplice Aliança contra o governo do
Paraguai só foi superada na América em número de
mortes pela Guerra Civil Americana.
15

119

C

R

O

N

O

L

O

G

I

A



120

DATA

EVENTO

12/11/1864

O governo paraguaio apreende o Navio Mercante brasileiro
Marquês de Olinda, quando este navegava 30 milhas acima de
Assunção, rumo ao Mato Grosso levando o novo presidente dessa
província.

28/12/1864

Forças paraguaias invadem a Província do Mato Grosso, atacando e
ocupando o Forte Coimbra.

27/01/1865

O Império do Brasil declara oficialmente que responderá às
hostilidades do Paraguai.

05/04/1865

Parte de Buenos Aires uma Força Naval brasileira para bloquear o
Rio Paraná.

13/04/1865

O Governo paraguaio declara guerra à Argentina e forças paraguaias
atacam Corrientes.

01/05/1865

Assinado em Buenos Aires o Tratado da Tríplice Aliança, entre os
governos do Brasil, Argentina e Uruguai.

20/05/1865

O Chefe-de-Divisão Francisco Manoel Barroso da Silva assume o
comando das duas divisões navais brasileiras incumbidas do bloqueio.

10/06/1865

Forças paraguaias invadem a Província do Rio Grande do Sul.

11/06/1865

Batalha Naval do Riachuelo.

21/02/1866

O Vice-Almirante Tamandaré, Comandante-em-Chefe da Esquadra
brasileira, chega à cidade argentina de Corrientes.

16/04/1866

Inicia-se a travessia de Passo da Pátria.

27/07/1866

Início do reconhecimento, pelos navios da Esquadra, da área da
Fortaleza de Curuzu.

31/08/1866

As tropas brasileiras, comandadas pelo Barão de Porto Alegre,
desembarcam para a tomada do Forte de Curuzu, apoiadas pelo
fogo dos navios.

02/09/1866

A Marinha perde o Encouraçado Rio de Janeiro, posto a pique pela
explosão de duas minas flutuantes.

03/09/1866

Tomada da Fortaleza de Curuzu.

22/09/1866

A Esquadra bombardeia pesadamente o Forte de Curupaiti, enquanto
tentavam conquistá-lo. Percebendo a impossibilidade de tomar a praça,
ordena a retirada. Foi a maior derrota da Tríplice Aliança nessa guerra.

22/12/1866

O Chefe-de-Esquadra Joaquim José Ignácio recebe do Almirante
Tamandaré o comando da Esquadra Brasileira em Operações no Paraguai.

13/01/1867

A Esquadra brasileira inicia os bombardeios ao Forte de Curupaiti.

15/08/1867

O Vice-Almirante Joaquim José Ignácio comanda a 1a Passagem de Curupaiti.

13/02/1868

Os Monitores Pará, Rio Grande e Alagoas forçam durante a noite a Passagem
de Curupaiti, indo reunir-se aos encouraçados que se destinavam a passar
Humaitá. (2a Passagem de Curupaiti).

19/02/1868

Inicia-se a Passagem de Humaitá. (1a Passagem de Humaitá).

21/03/1868

A Fortaleza de Curupaiti é conquistada.

02/05/1868

A Divisão Avançada da Esquadra, composta dos Encouraçados Bahia, Barroso
e Tamandaré e dos Monitores Rio Grande e Pará, transporta para a Península
do Araça as tropas que cortarão as comunicações do inimigo concentrado
em Humaitá, impedindo o recebimento de socorro.

21/07/1868

Os Encouraçados Cabral, Silvado e Piauí forçam a Passagem de Humaitá,
para se reunirem à Divisão do Chefe Delfim. (2ª Passagem de Humaitá).

25/07/1868

As tropas aliadas conquistam a Fortaleza de Humaitá.

01/08/1868

Combate na Lagoa Verá entre chalanas paraguaias e escaleres dos navios
brasileiros.

16/08/1868

Início da Dezembrada.

30/08/1868

O Barão da Passagem, Chefe-de-Divisão Delfim Carlos de Carvalho,
comandando uma divisão composta do Encouraçado Bahia, e dos Monitores
Alagoas, Ceará, Pará, Piauí e Rio Grande, entra pelo Rio Tebiquari para
proteger a passagem do Exército.

121

122

01/10/1868

Os Encouraçados Bahia, Barroso, Tamandaré e Silvado forçam as baterias
de Angostura, ao mesmo tempo que os encouraçados restantes
bombardeam o acampamento inimigo.

19/11/1868

A Esquadra bombardea as fortificações de Angostura ­ manobra do
Pissiquiri.

04/12/1868

A Esquadra inicia a passagem do Exército do Chaco para a Barranca de
Santo Antônio.

01/01/1869

Tropas brasileiras, sob o comando o Coronel Hermes da Fonseca, ocupam
Assunção, que se encontrava deserta.

16/01/1869

O Vice-Almirante Joaquim José Ignácio, gravemente enfermo, deixa o
comando da Esquadra brasileira em Operações no Paraguai e regressa ao
Rio de Janeiro.

06/02/1869

O Chefe-de-Esquadra Elisário Antônio dos Santos assume o comando da
Força Naval.

18/04/1869

O Comandante-em-Chefe da Esquadra no Paraguai ordena a perseguição
e a captura de embarcações paraguaias no Rio Manduvirá e afluentes.

FIXAÇÃO
1 ­ Quais foram os atos de hostilidade do Paraguai que levaram à assinatura do Tratado da
Tríplice Aliança em 1o de maio de 1865?
2 ­ Quais eram os países que compunham a Tríplice Aliança?
3 ­ Qual o nome dos três comandantes-em-chefe da Força Naval Aliada?
4 ­ Qual o nome dos dois rios onde ocorreu grande parte do conflito?
5 ­ Como podemos caracterizar a guerra antes e depois de Riachuelo?
6 ­ Por onde se deu a invasão do território paraguaio?

SAIBA MAIS
BITTENCOURT, Armando de Senna. Visitando Riachuelo e revendo controvérsias: 132 anos
depois. Revista Marítima Brasileira, Rio de Janeiro, v.117, n.7/9, p.41-57, jul./set. 1997.
MARTINS, Hélio Leôncio. A estratégia naval brasileira da Guerra do Paraguai: com algumas
observações sobre ações táticas e o apoio logístico. Revista Marítima Brasileira, Rio de Janeiro,
v.117, n.7/9, p.59-86, jul./set. 1997.

123



Encilhamento se refere ao processo
especulativo que ocorreu na Bolsa de Valores
do Rio de Janeiro. Podem ser incluídos no
Encilhamento outros problemas econômicos que
ocorreram no período, especialmente a brusca
desvalorização cambial, provocando grande número de falências e recessão econômica. Essa
política foi idealizada por Rui Barbosa, Ministro
da Fazenda de então.
1

O Almirante Júlio de Noronha assumiu o Ministério da Marinha em 1902, durante o governo de Rodrigues Alves, passando a pasta, em
1906, ao Almirante Alexandrino Faria de Alencar.
2

124

A Marinha na República
Sinopse
Os primeiros anos da República foram marcados pela
progressiva desmobilização da Esquadra brasileira. As revoltas que
assolaram a Nação e o desgaste econômico conhecido como
Encilhamento1 provocaram o gradativo desmantelamento das
unidades da Força Naval. A situação interna do País se refletia nos
orçamentos insuficientes que negavam à Marinha os recursos
necessários à modernização dos meios flutuantes e à criação de
uma infra-estrutura de apoio.
Essa situação se manteve por toda a década final do século
XIX. A sucessão de quatro ministros da Marinha em apenas seis
anos contribuiu negativamente para a elaboração de um programa
naval condizente com o litoral e os interesses a serem defendidos.
Em 15 de novembro de 1902, o Almirante Júlio de Noronha2
assumiu a pasta da Marinha, encontrando uma Força Naval
composta de navios reformados, sendo, na sua maioria, modelos
obsoletos frente às classes mais modernas que estavam em
processo de construção pelas potências industriais da época.
Em 1904, o Ministro das Relações Exteriores, Barão do Rio
Branco, percebeu que a Marinha, apesar de querer se equipar com
os melhores meios, não alcançava um nível aceitável de Força
Armada para o porte do Brasil. Apresentou então ao Almirante
Júlio de Noronha pessoas interessadas em oferecer navios ou
indicar estaleiros para a construção daqueles que fariam parte do
Programa Naval que o almirante imaginava.
Procurando satisfazer a justa aspiração brasileira em constituir
uma Marinha bem aparelhada, o Deputado Dr. Laurindo Pitta
apresentou à Câmara, em julho de 1904, um projeto que continha
o programa naval do Almirante Júlio de Noronha, o qual poderia
atender a tais expectativas. Em um discurso entusiasmado, propôs
a aprovação de orçamento que financiasse os navios requisitados.
Pitta encabeçou então uma grande luta nos bastidores da política
nacional com a finalidade de obter a aprovação, no Congresso
Nacional, do projeto que reorganizaria toda a Esquadra brasileira.
Sendo o projeto finalmente aprovado, quase que por
unanimidade, ele se transformou no Decreto no 1.296, de 14
de novembro de 1904.



Segundo o próprio Laurindo Pitta, em seu discurso, por
ocasião da apresentação do seu projeto de reaparelhamento naval,
encouraçados, cruzadores, torpedeiras não eram invenções
modernas, eram aperfeiçoamentos que a ciência e a indústria
adaptavam aos navios. O encouraçado era o pesado e bem artilhado
navio de linha, o cruzador era a leve e ligeira fragata e o torpedeiro,
o brulote3, destinado a incendiar as antigas naus.
O Programa de 1904, de autoria de Júlio de Noronha,
apresentava a vantagem de ser um plano de conjunto, ou seja,
incluía a criação de um moderno arsenal e um porto militar, que
juntamente com os navios formaria um tripé de sustentação da
Marinha brasileira. Foi o Almirante Júlio de Noronha quem fez
nascer a campanha de remodelação da Esquadra, que deveria
impressionar principalmente a opinião pública e que gerou os
resultados necessários para a reforma da nossa Marinha.
O programa incluía os modelos de navios que, no momento,
equipavam as melhores Esquadras do mundo, logo a seguir
empregados nas Batalhas de Port Arthur e Tsushima, travadas
durante a Guerra Russo-Japonesa. O estudo estratégico das
experiências proporcionadas por essas batalhas (1905) e o
lançamento do Encouraçado Dreadnought4, pela Marinha britânica
(1906), que aparecia como o navio mais poderoso do mundo,
inspiraram debates em torno do
Programa de 1904. O Deputado José
Carlos de Carvalho e o Almirante
Alexandrino Faria de Alencar, então
senador, foram os grandes
defensores da remodelação do
Programa Júlio de Noronha.
Em 15 de novembro de 1906,
assumiu a Presidência da República o
Conselheiro Afonso Pena e, com ele,
o seu novo ministério, sendo a pasta
da Marinha ocupada pelo Almirante
Alexandrino Faria de Alencar. Não
Almirante Alexandrino Faria de Alencar
demorou que este conseguisse do
Congresso a reforma do Programa
de 1904. A alteração mais marcante trazida pelo novo programa
do Almirante Alexandrino foi a adição de três novos encouraçados
do tipo dreadnought de 20 mil toneladas, cuja aprovação resultou
no Decreto no 1.567, de 24 de novembro de 1906.
Nesse programa, foi cancelado o projeto de um novo
arsenal. Em seu lugar, optou-se por modernizar as instalações
da Ilha das Cobras, porém, admitia-se a construção de bases
secundárias em Belém e em Natal, e um porto militar de
pequeno porte em Santa Catarina.

Brulote ­ Embarcação carregada de matérias
inflamáveis e explosivas destinada a levar fogo
aos navios inimigos.
3

Encouraçado Dreadnought ­ Idealizado pelo
Almirante Lorde Fisher, Primeiro Lorde do Mar
da Marinha britânica. Tinha como características forte armamento com canhões de até 12
polegadas, grande deslocamento, motores de
propulsão mais eficientes e poderosa blindagem.
4

125



Recebeu o nome de Agincourt na Marinha inglesa, sob as ordens do Almirante Sir John Jellicoe na
Batalha da Jutlândia, travada entre a Grã-Bretanha
e a Alemanha durante a 1a Guerra Mundial.
5

Cruzador Bahia
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Submarinos F1,F3 e F5
Acervo do Serviço de
Documentação da Marinha

126

Como conseqüência direta do Programa Alexandrino, a
Esquadra de 1910, assim chamada por haver chegado ao Brasil
nesse ano a maior parte de seus componentes, representou um
verdadeiro revigoramento militar e tecnológico da Marinha
brasileira. Dessa forma, o Brasil passou a possuir uma frota de altomar ofensiva, podendo levar a outros rincões o Pavilhão Nacional
e, principalmente, apoiar a ação diplomática do governo brasileiro
em qualquer local que se fizesse necessário.
A incorporação de navios Encouraçado Minas Gerais
como os Encouraçados Minas Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
Gerais e São Paulo, pertencentes
à classe dos dreadnoughts mais
poderosos do mundo, encheu
de orgulho e confiança os brasileiros. Além dessas embarcações,
também chegaram os Cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul e os
Contratorpedeiros Amazonas, Pará, Piauí, Rio Grande do Norte,
Paraíba, Alagoas, Sergipe, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso.
Contratorpedeiro Pará
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Posteriormente ao ano de 1910, o Contratorpedeiro Maranhão,
os Submarinos F1, F3, F5 e Humaitá, o Tender Ceará e outros
navios auxiliares complementaram os efetivos navais da Marinha.
O terceiro encouraçado previsto pelo Programa Alexandrino
era o Rio de Janeiro, lançado ao mar em 22 de janeiro de 1913. A
demora em sua construção se deveu à necessidade de se introduzir
novas modificações que o
tornassem ainda mais poderoso.
Este navio não chegou a ser
incorporado à Armada brasileira.
Foi adquirido pela Marinha turca
e depois pela Marinha inglesa,
tendo participado da Batalha da
Jutlândia 5 .
A Esquadra brasileira passou a
ser organizada, essencialmente,
em divisões de encouraçados e



cruzadores, e flotilhas de contratorpedeiros e de submarinos.
Porém, com o início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o
Ministro da Marinha Alexandrino de Alencar determinou que as
principais unidades operativas de superfície fossem reorganizadas
em três divisões a fim de patrulhar as águas costeiras dentro de
cada área de responsabilidade, sendo criadas as Divisões Navais do
Sul (São Francisco do Sul), Centro (Rio de Janeiro) e Norte (Belém).
Dessa maneira, a Marinha iria enfrentar os seus dois principais
desafios no Século XX. As duas grandes guerras mundiais.

As duas grandes guerras
Eclodido o conflito na Europa em 1914, que veio a ser conhecido por Primeira Grande Guerra, o Brasil
permaneceu neutro nos primeiros três anos de guerra. O bloqueio submarino sem restrições aos países Aliados,
firmado pelo governo alemão em 31 de janeiro de 1917, trouxe não só mal-estar a todos os países neutros, como
também preocupação ao Governo brasileiro, que dependia fundamentalmente do mar para escoar a sua produção
e importar produtos que necessitava.
O Brasil apresentou inicialmente seu protesto formal à Alemanha, seguido do rompimento das relações
comerciais. Mantínhamos ainda nossa neutralidade, postura que veio a ser modificada em 11 de abril de 1917,
devido ao afundamento do Navio Mercante Paraná ao largo da costa francesa, quando o governo brasileiro
rompeu as relações diplomáticas com o governo alemão. Após o ataque a mais três dos nossos mercantes, em 26
de outubro de 1917 o Brasil reconheceu e proclamou o estado de guerra com o Império alemão.
A participação da Marinha brasileira na Primeira Grande Guerra formalizou-se com o envio para o teatro
de operação da Divisão Naval em Operação de Guerra (DNOG), sob o comando do Almirante Pedro Max
Fernando de Frontin. Era composta pelos seguintes meios navais: Cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul;
Contratorpedeiros Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Santa Catarina; Cruzador-Auxiliar Belmonte; e Rebocador
Laurindo Pitta, e tinha como missão o patrulhamento da área entre Dakar­São Vicente­Gibraltar na costa da
África. A tripulação da DNOG foi gravemente atingida pela "gripe espanhola", mas mesmo com muitas baixas
sofridas, cumpriu a missão a ela determinada.
Outra participação significativa da Marinha foi a designação de 12 oficiais aviadores para servirem junto
à Royal Air Force (RAF). Foram depois empregados no patrulhamento do Canal da Mancha.
Na Segunda Guerra Mundial, também mantivemo-nos neutros a princípio. Com a vinculação de interesses
comuns que tínhamos com os Estados Unidos, concretizada pelo Tratado do Rio de Janeiro, no qual nos
comprometíamos a formar ao lado de qualquer nação americana que fosse atacada, com eles nos solidarizamos
quando do ataque japonês a Pearl Harbour, em 7 de dezembro de 1941. Como represália, nossa Marinha
Mercante começou a ser agredida pelos submarinos alemães. A primeira perda foi o Navio Mercante Cabedelo,
em fevereiro de 1942. Seguiram-se outros afundamentos, terminando com o ataque fulminante do U-507, que
em cinco dias, levou a pique seis embarcações nacionais dedicadas à linha de cabotagem nas costas de
Sergipe, com 507 vítimas, inclusive soldados do Exército.
Este ato levou o Brasil a declarar guerra, a 31 de janeiro de 1942, às potências do Eixo ­ Alemanha, Itália
e Japão. Imediatamente a Marinha mobilizou-se, criando a Força Naval do Nordeste (com navios já em operação
e meios recebidos do Acordo Lend Lease com os Estados Unidos). Essa Força foi comandada pelo Almirante
Alfredo Soares Dutra, subordinada operativamente à Quarta Esquadra norte americana.
Era missão da Marinha, cumprida desde o primeiro dia de guerra até o armistício, a proteção de comboios
internacionais e nacionais, garantindo a segurança de mais de três mil navios, de muitas nacionalidades, contra a
ameaça submarina germânica. Cada passagem de um comboio ao seu destino era considerado uma vitória
Garantiu-se o suprimento, vital na época, de combustível, insumos e alimentos, sem que o Brasil sofresse as
agruras da guerra.

127



128

Primeira Guerra Mundial
Antecedentes
No ano de 1914, as relações entre as principais nações
européias estavam tensas. Nos últimos 60 anos havia ocorrido a
Segunda Revolução Industrial e várias potências econômicas
surgiram ameaçando a supremacia da Grã-Bretanha, com destaque
para os Estados Unidos, Itália, Rússia, Alemanha e Japão. Isto
significava que todos esses países tinham como produzir, mas
precisavam de matérias-primas e de mercados para vender
a sua produção.
Se na primeira Revolução Industrial o grande fato
impulsionador foi a invenção da máquina a vapor, na segunda a
eletricidade foi o mecanismo que revolucionou os meios de
produção. Outro grande fator de crescimento econômico foi o
aumento da disponibilidade de ferro e aço. A mecanização da
indústria se elevou, proporcionando o conseqüente aumento do
número de máquinas e motores menores, que viriam dotar os
bens de consumo duráveis, os maiores símbolos da sociedade
moderna.
Naquele ano de 1914 vigorava a Paz Armada, uma situação
em que todas as nações procuravam se armar para inibir o
adversário de atacá-las. Duas grandes alianças político-militares
predominavam: a Tríplice Aliança, formada pelo Império AustroHúngaro, Itália e Alemanha, e a Tríplice Entente, formada pela
França, Inglaterra e Rússia. Pequenas frentes de luta surgiam nas
áreas em disputa. Todos queriam se apossar de territórios. Um
terrorista sérvio conseguiu assassinar o Arquiduque Francisco
Ferdinando, herdeiro do trono austríaco, em um atentado em
Sarajevo, na Bósnia. Esta morte imediatamente provocou a guerra
entre a Áustria e a Sérvia; a Rússia, fiadora da Sérvia, iniciou um
confronto com a Áustria, provocando a intervenção alemã e unindo
a França e a Inglaterra. Aliados de um ou outro lado entraram na
Guerra.Iniciava-se a Primeira Guerra Mundial.
De 1914 até o seu final, a guerra assumiu seu lado mais cruel.
Milhões de vidas foram ceifadas na chamada guerra de trincheiras,
quando as tropas limitavam-se a defender determinadas
posições estratégicas.
Em 1917, os Estados Unidos da América (EUA) entraram
no conflito. No mesmo ano, eclodiu a revolução socialista na
Rússia e seus dirigentes assinaram com a Alemanha o Tratado de
Brest-Litovsky, se retirando da guerra.
Em 1917, o Brasil entrou no conflito quando a campanha
submarina alemã atingiu seus navios mercantes, afundados em razão
do bloqueio alemão a Grã-Bretanha.
O Brasil enviou então uma Divisão Naval para operar com a
Marinha britânica entre Dakar e Gibraltar em 1918.



A Alemanha, depois de uma fracassada ofensiva no teatro
de operação ocidental, se viu exausta com as perdas sofridas, vindo
a assinar o Armistício com os aliados no mês de novembro de 1918.

O preparo do Brasil
A disposição do Brasil em manter-se neutro no conflito foi
evidenciada desde o primeiro minuto de combates na Europa em
1914. Naqueles dias conturbados, prevalecia no País uma tendência
natural de simpatia a favor dos aliados, principalmente porque a
elite nacional via na educação e na cultura francesas seus principais
paradigmas. A neutralidade foi a marca brasileira nos três primeiros
anos de guerra, mesmo quando Portugal foi a ela arrastada em
março de 1916.
O bloqueio sem restrições firmado pelo governo alemão
em 31 de janeiro de 1917 trouxe não só mal-estar a todos os
neutros, mas também preocupação ao governo brasileiro que
dependia fundamentalmente do mar para escoar
a produção de café para a Europa e os Estados
Unidos, nossos principais compradores.
Ademais, importávamos muitos produtos da
Inglaterra, que naquela altura lutava
desesperadamente nos campos franceses e
enfrentava, com preocupação, os ataques dos
submarinos alemães a seu tráfego marítimo.
O Brasil apresentou, inicialmente, seu
protesto formal à Alemanha, sendo logo depois
obrigado a romper relações comerciais com
esse país, mantendo-se, contudo, ainda, na mais
rigorosa neutralidade.
O que veio a modificar a atitude brasileira
foi o afundamento do Navio Mercante Paraná
ao largo de Barfleur, na França, apesar de
ostentar a palavra Brasil pintada no costado e
a Bandeira Nacional içada no mastro. Naquela
oportunidade, a população na capital Rio de
Janeiro atacou firmas comerciais alemãs,
criando grande desconforto para o governo de
Wenceslau Braz6. Seguiu-se então o rompimento das relações
diplomáticas com o governo alemão em 11 de abril de 1917. Um
fato importante que influiu na decisão de se romper relações com
o Império Alemão foi a atitude de protesto dos Estados Unidos
com o bloqueio irrestrito, tendo sofrido por isso o torpedeamento
de dois de seus navios. Tais acontecimentos motivaram a declaração
de guerra norte-americana. Mantínhamos até esse ponto laços
comerciais profundos com esse país e claras simpatias com os
aliados.

O Presidente Wenceslau Braz assumiu o governo
em 15 de novembro de 1914 e o transferiu quatro
anos depois ao Vice-Presidente Delfim Moreira,
que substituiu o titular Rodrigues Alves, doente e
que viria a falecer pouco tempo depois.
6

Presidente Wenceslau Braz
assinando a declaração de guerra em 26 de
outubro de 1917, tendo ao seu lado o Ministro
das Relações Exteriores, o Sr. Nilo Peçanha.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

129



130

No mês de maio, o segundo navio brasileiro, o Tijuca, foi
torpedeado nas proximidades de Brest na costa francesa. Seis dias
depois seguiu-se o Mercante Lapa. Antes ele fora abordado por
um submarino alemão, mandando que a tripulação deixasse o vapor
para depois torpedeá-lo. Esses três ataques levaram o Presidente
Wenceslau Braz a decretar o arresto de 45 navios dos impérios
centrais aportados no Brasil e a revogação da neutralidade. Muitos
deles encontravam-se danificados por sabotagem dos próprios
tripulantes. Isso não impediu que o Brasil utilizasse 15 deles e
repassasse 30 por afretamento para a França. Um fato curioso foi
o arresto da Canhoneira alemã Eber, surta no porto de Salvador.
Tratava-se de navio militar e não de vapor mercante, como os 45
navios arrestados. Antes de ser abordada por autoridades
brasileiras, e percebendo essa medida, os tripulantes queimaram
esse vaso de guerra e conseguiram se transferir para outro navio
mercante que se evadiu dos portos nacionais com o armamento e
os homens especializados, que seriam ainda úteis à Marinha alemã
no conflito.
Quatro meses se passaram até que um novo navio brasileiro
fosse atacado e afundado, dessa feita foi o Vapor Tupi nas mediações
do Cabo Finisterra. O caso tornou-se grave na medida em que o
comandante e o despenseiro foram aprisionados por um
submarino alemão e nunca mais se teve notícia de seus destinos.
Oito dias depois, 26 de outubro de 1917, o Brasil reconhecia
e proclamava o estado de guerra com o Império alemão.
Como estava o Brasil naquela oportunidade para enfrentar
os germânicos?
O governo brasileiro tinha consciência de que a grande
ameaça seria o submarino alemão, ávido por atacar os nossos
navios mercantes que mantinham o comércio com outros países
em pleno desenvolvimento. Além disso, naquela oportunidade, não
existiam estradas ligando o Sul e Sudeste com o Norte e Nordeste.
Todas as comunicações entre essas regiões eram feitas por mar,
daí nossa grande vulnerabilidade estratégica. Tanto a Marinha
Mercante como a de Guerra seriam as grandes protagonistas
brasileiras nesse confronto.
A Marinha Mercante brasileira era modesta, no entanto,
desde os primeiros anos do século, os governos que se sucederam
procuraram aparelhá-la, o que foi auspicioso, pois teríamos na
guerra um teste fundamental para a manutenção de nosso fluxo
comercial. No início do conflito ­ quando o Brasil ainda mantinha
irrestrita neutralidade ­, diversos países envolvidos na guerra, ávidos
para cobrir as perdas provocadas por afundamentos, ofereceram
propostas de compras de muitos de nossos mercantes.
Propostas de compras do Lloyd Brasileiro, maior companhia
de navegação do período, foram comuns. Entretanto, o governo



nacional, premido pela necessidade de manter o comércio com
outros países e de escoar o nosso principal produto, o café,
principalmente para os Estados Unidos, impediu todas essas
tentativas de arrendamento. Ao final essa ação veio a ser
fundamental para o Brasil.
Nossa Marinha de Guerra era centrada na chamada
Esquadra de 1910, com navios relativamente novos construídos
na Inglaterra sob o Plano de Construção Naval do Almirante
Alexandrino Faria de
Alencar, Ministro da
Marinha, como anteriormente mencio- Cruzadores leves e velozes que tinham a tarefa de
nado. Eram ao todo esclarecer em apoio a linha de batalha formada por
encouraçados e cruzadores de batalha.
dois encouraçados tipo
dreadnought, o Minas
Gerais e o São Paulo,
dois cruzadores tipo
scouts 7, o Rio Grande
do Sul e o Bahia, que
viria a ser perdido tragicamente na Segunda
O Encouraçado Minas Gerais fundeado na cidade de Salvador Guerra Mundial, e dez
contratorpedeiros de
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
pequenas dimensões.
Esses meios eram todos movidos a vapor, q u e i m a n d o
carvão.
Desde o início da participação brasileira no conflito, o
governo nacional decidiu-se pelo envio de uma divisão naval para
operar em águas européias, o que representaria um grande
esforço para a Marinha.
Uma outra contribuição significativa foi a designação de 13
oficiais aviadores, sendo 12 da Marinha e um do Exército para se
aperfeiçoarem como pilotos de caça da RAF no teatro europeu.
Depois de árduo adestramento em que
dois pilotos se acidentaram, sendo um
fatal, eles foram considerados qualificados
para operações de combate, tendo sido
empregados no 16o Grupo da RAF, com
sede em Plymouth, em missões de
patrulhamento no Canal da Mancha.
A propósito, a Escola de Aviação
Naval Brasileira, localizada na Ilha das
Enxadas, na Baía de Guanabara, e a Flotilha
de Aviões de Guerra haviam sido criadas
no dia 23 de agosto de 1916, comportando inicialmente apenas três aviões
Curtiss que chegaram ao Brasil dois meses
Aviadores brasileiros na Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial
antes. A Aviação Militar, por outro lado,
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
operava no Campo dos Afonsos, onde
funcionava a Escola de Aviação Militar.
7

131



Hidroavião Curtiss pertencente à Escola de Aviação Naval brasileira
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Um fato inusitado e curioso que na época provocou grande
sucesso promocional foi o primeiro vôo do Presidente da República
Wenceslau Braz em hidroavião da Armada, em 2 de abril de 1917,
um dia antes do torpedeamento de primeiro navio brasileiro, o
Paraná, nas costas francesas. O mais interessante foi que Wenceslau
havia comparecido à formatura dos novos pilotos na Ilha das
Enxadas e não estava previsto o vôo realizado com o primeiro
mandatário da República. Ao ser provocado pelo Ministro da
Marinha, Wenceslau Braz aceitou o convite para um vôo sobre o
Rio de Janeiro e Niterói. Imediatamente colocou o capacete e a
túnica a ele oferecida e se posicionou no avião para início da
aventura. Por cerca de 30 minutos, o Presidente se deliciou com
aquele sobrevôo, para o espanto dos repórteres que esperavam
o seu regresso.
No principal porto do país, o do Rio de Janeiro, centro
econômico e político mais importante, instituiu-se uma linha de
minas submarinas cobrindo 600 metros entre as Fortalezas da Laje
e Santa Cruz. Duas ilhas oceânicas preocupavam as autoridades
navais devido a possibilidade de serem utilizadas como pontos de
refúgio de navios inimigos. As de Trindade e Fernando de Noronha.
A primeira foi ocupada militarmente em maio de 1916 com um
grupo de cerca de 50 militares. Uma estação radiotelegráfica
mantinha as comunicações com o continente e freqüentemente
Trindade era visitada por navios de guerra para o seu
reabastecimento. Quanto a Fernando de Noronha, lá existia um
presídio do Estado de Pernambuco. A Marinha, então, passou a
assumir a defesa dessa ilha, destacando um grupo de militares
para guarnecê-la. Não houve nenhuma tentativa de ocupação
por parte dos alemães.

132



Com o estado de guerra declarado, os ataques aos mercantes
brasileiros continuaram. Em 2 de novembro, nas proximidades da
Ilha de São Vicente, na costa africana, foram torpedeados mais
dois navios, o Guaíba e o Acari. Depois de atingidos, seus
comandantes conseguiram os encalhar, salvando-se a carga, não
impedindo, no entanto, que vidas brasileiras fossem perdidas.
Outro ataque, já no ano de 1918, aconteceu ao Mercante
Taquari da Companhia de Comércio e Navegação, na costa inglesa.
Desta feita o navio foi atingido por tiros de canhão, tendo tempo
de arriar as baleeiras que, no entanto, foram metralhadas,
provocando a morte de oito tripulantes.
Esses ataques insuflaram ainda mais a opinião pública brasileira
que, influenciada por campanhas jornalísticas e declarações de
diversos homens públicos, exigiu um comprometimento maior
com a causa Aliada, com a participação efetiva no esforço bélico
contra as Potências Centrais8.
Desde o início do conflito, a participação da Marinha no
confronto baseou-se no patrulhamento marítimo do litoral
brasileiro com três divisões navais, como já mencionado, distribuídas
nos portos de Belém, Rio de Janeiro e São Francisco do Sul. Esse
serviço tinha por finalidade colocar a navegação nacional, a aliada e
a neutra ao abrigo de possíveis ataques de navios alemães de
qualquer natureza nas nossas águas.
A Divisão Naval do Norte era composta dos Encouraçados
guarda-costas Deodoro e Floriano, dos Cruzadores Tiradentes e
República, de dois contratorpedeiros, três avisos e duas
canhoneiras. Sua sede era Belém.
A Divisão Naval do Centro compunha-se dos Encouraçados
Minas Gerais e São Paulo e de seis contratorpedeiros, com sede no
Rio de janeiro.
Por fim, a Divisão Naval do Sul era composta dos Cruzadores
Barroso, Bahia e Rio Grande do Sul, de um iate e dois
contratorpedeiros, com sede em São Francisco do Sul.
A Marinha possuía também três navios mineiros; uma flotilha
de submersíveis, com um tênder, três pequenos submarinos
construídos na Itália e uma torpedeira; as Flotilhas do Mato Grosso,
Amazonas e de aviões de guerra; e, por fim, navios soltos.

As potências centrais eram compostas pelo Império Alemão, pela Austro-Hungria e pela Turquia.
8

133



O Cruzador-Auxiliar Belmonte fora um dos navios
alemães apresados logo após a declaração de guerra
pelo Brasil. Levava o nome de Valesia.
9

Cruzador Rio Grande do Sul
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Contratorpedeiro Piauí
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

134

A Divisão Naval em Operações de Guerra
O governo de Wenceslau Braz decidiu enviar uma divisão
naval para operar sob as ordens da Marinha britânica, na ocasião a
maior e mais poderosa do mundo. Logicamente, os navios
escolhidos deveriam ser da Esquadra adquirida oito anos antes na
própria Inglaterra, pois eram os mais modernos que o Brasil
possuía. No entanto, devido aos avanços tecnológicos provocados
pela própria guerra, esses navios se tornaram obsoletos
rapidamente. Em que pese tal fato, a escolha da alta administração
naval recaiu nos dois cruzadores (Rio Grande do Sul e Bahia), em
quatro contratorpedeiros (Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Santa
Catarina), um rebocador (Laurindo Pitta) e um cruzador-auxiliar
(Belmonte)9, ao todo oito navios.
Contra quem iríamos lutar? A Alemanha, apesar de
possuir uma Esquadra menor que a Inglaterra, possuía uma
frota muito agressiva e motivada, que se batera com valentia
até aquele momento.
No início da guerra os alemães se
lançaram à guerra de corso utilizando
navios de superfície, no estilo de
corsários independentes que atacavam
os mercantes navegando solitários.
Essa estratégia, com o decorrer da
guerra, foi abandonada. Preferiu-se a
guerra submarina, que mostrou-se
muito mais eficiente. Esses submarinos
não chegaram a atuar nas nossas costas
como aconteceu na Segunda Guerra
Mundial, no entanto atacaram nossos
navios nas costas européias e os
afundaram sem trégua.
Há que se notar que a Marinha
brasileira era dependente de suprimentos vindos do exterior. Não
existiam estaleiros capacitados, nem
fábricas de munição e estoques
Divisão Naval em Operações de Guerra
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
logísticos adequados. Dessa forma, a
preparação da Divisão Naval em
Operações de Guerra (DNOG), como ficou conhecida essa
pequena força, foi muito dificultada por limitações que não eram
só da Marinha, mas também do Brasil. Como critério de escolha,
abriu-se o voluntariado para os seus componentes e foi escolhido
um contra-almirante ainda muito jovem, com 51 anos de idade,
habilidoso e com grande experiência marinheira, na ocasião
comandante da Divisão de Cruzadores com base no porto de



Santos, o Almirante Pedro Max Fernando de Frontin, irmão do
engenheiro Paulo de Frontin10.
A principal tarefa a ser cumprida por essa divisão seria
patrulhar uma área marítima contra os submarinos alemães,
compreendida entre Dakar no Senegal e Gibraltar, na entrada do
Mediterrâneo, com subordinação ao Almirantado inglês.
A preparação dos navios ainda no Brasil requereu muitos
recursos de toda a ordem. Entre os pontos a serem corrigidos
estava a deficiência de abastecimento, principalmente a escassez
de combustível, o carvão. Dava-se preferência a um tipo de carvão
proveniente da Inglaterra, o tipo cardiff ou dos Estados Unidos da
América. O carvão nacional, por possuir grande quantidade de
enxofre, era contra-indicado e esse ponto nevrálgico preocupou
os chefes navais durante toda a comissão da DNOG.
Depois de três meses de adestramento contínuo com as
tripulações, os navios suspenderam do Rio de Janeiro em grupos
pequenos para se juntarem na Ilha de Fernando de Noronha.
Inicialmente, os contratorpedeiros deixaram a Guanabara no dia 7
de maio de 1918, seguidos no dia 11
pelos dois cruzadores. Em 6 de julho,
suspendeu do Rio de Janeiro o
Cruzador Auxiliar Belmonte e, dois dias
depois, o Rebocador Laurindo Pitta.
Esses navios ficaram responsáveis de
transportar o carvão necessário para a
DNOG, daí sua grande importância
logística.
No dia 1o de agosto a Divisão unida
suspendeu de Fernando de Noronha
com destino a Dakar, passando por
Freetown.
O propósito dessa primeira
derrota até Freetown era destruir
os submarinos inimigos que se
encontravam na rota da DNOG. O
armamento naquela ocasião para se
neutralizar esses submarinos era
bastante primitivo, não se comparando
com nada que se viu na Segunda Guerra
Mundial. Existiam hidrofones primitivos e bombas de profundidade
de 40 libras, que eram lançadas pela borda no local provável onde
se encontrava o submarino. É interessante mencionar que o
próprio submarino, naquela oportunidade, não possuía capacidade
de permanecer mergulhado durante longo período de tempo, o
que era uma grande limitação. Normalmente, os ataques contra
mercantes eram realizados utilizando-se os canhões localizados

O Engenheiro Paulo de Frontin teve destacado
papel nas reformas urbanas empreendidas pelo
Prefeito Pereira Passos no Rio de Janeiro, tendo
sido nomeado chefe da Comissão Construtora da
Avenida Central em 1903.
10

Almirante Pedro Max Fernando de Frontin
Comandante da DNOG
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Rebocador Laurindo Pitta
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

135



Pandemia que teve o seu ápice no segundo semestre de 1918, não só na África, mas em todo o
mundo, inclusive no Brasil.
11

136

em seus conveses. A maior possibilidade de se destruir esses
submarinos acontecia quando o inimigo vinha à superfície para
destruir o alvo ou por canhão ou mesmo com o uso de torpedos.
Nessa travessia inicial, alguns rebates de "prováveis submarinos"
foram dados, porém não tiveram confirmação.
Outro ponto interessante na travessia Fernando de
Noronha­Freetown era a faina de transferência de carvão em altomar. Esses recebimentos aconteciam em quaisquer condições de
tempo e de mar e obrigavam a atracação dos navios ao CruzadorAuxiliar Belmonte e a utilização do Rebocador Laurindo Pitta para
auxílio nas aproximações. Foram manobras perigosas que
demandaram muita capacidade marinheira dos tripulantes, além
da natural vulnerabilidade durante os abastecimentos, quando os
submarinos inimigos poderiam aproveitar a baixa velocidade dos
navios para o ataque torpédico. A tensão reinante durante esses
eventos era enorme, sem contar com as difíceis condições em
que eram realizadas. Os navios ficavam literalmente negros de
carvão e todos trabalhavam do nascer do sol até o término do
abastecimento.
Depois de oito dias de travessia, a DNOG chegou ao porto
de Freetown, onde se agregou ao Esquadrão britânico. Nessa
cidade, os navios permaneceram por 14 dias, reabastecendo-se e
sofrendo os reparos necessários à continuação da missão.
Em 23 de agosto de 1918, a Divisão suspendeu em direção a
Dakar, tendo essa derrota sido muito desconfortável para as
tripulações dos navios devido ao mau tempo reinante. Na véspera
da chegada a esse porto africano, no período noturno, foi avistado
um submarino navegando na superfície. Imediatamente foi atacado
pela força brasileira, no entanto o submarino conseguiu lançar um
contra-ataque contra o Cruzador-Auxiliar Belmonte, quase atingindo
seu intento, uma vez que a esteira fosforescente do torpedo foi
perfeitamente observada a 20 metros da popa do navio brasileiro.
A 26 de agosto, os navios aportavam em Dakar e aí começariam
as grandes provações dos tripulantes nacionais.
Todo esse martírio teria início quando o navio inglês Mantua
iniciou uma rotina observada por nossos marinheiros que o viam
suspender de quando em vez para o alto-mar regressando em
seguida. Logo após, soube-se que essas saídas eram para lançar
ao mar os corpos dos homens de sua tripulação que haviam
contraído a terrível "gripe espanhola"11. Possivelmente o Mantua
foi o responsável pela transmissão da moléstia que vitimaria diversos
tripulantes que nunca retornariam ao Brasil.
No início de setembro as primeiras vítimas brasileiras eram
atingidas pela gripe mortal. Os sintomas eram quase sempre os
mesmos. Fraqueza generalizada, seguida de grande aumento de
temperatura, com transpiração excessiva. Depois de três ou quatro
dias de grande mal-estar, seguia-se tosse com expectoração



sangüínea e congestão pulmonar. Alguns iniciavam as convulsões e
os soluços, outros se debatiam em agonia, todos ávidos por água
para debelar a sede incontrolável. Dentro de pouco tempo a morte
se abatia derradeira e incontrolável.
A permanência em Dakar deveria ser curta. No entanto,
devido a gravidade da situação sanitária com a gripe, os navios lá
permaneceram mais tempo. A tudo isso somou-se o impaludismo
e as febres biliares africanas. Dos navios atingidos pelas doenças, o
mais afetado foi o Cruzador-Auxiliar Belmonte que, entre seus 364
tripulantes, contaram-se 154 doentes. Substituições foram
solicitadas ao Brasil, que vieram no Paquete Ásia para completar
os claros com as moléstias apontadas.
Foram vitimados 156 brasileiros12 da DNOG pela "gripe
espanhola".
Os navios britânicos e brasileiros em Freetown e Dakar
ficaram inoperantes em face das condições
sanitárias reinantes, estando a defesa do
estreito entre Dakar e Cabo Verde somente
a cargo de dois pequenos navios
portugueses. Com grande esforço pessoal,
a DNOG conseguiu logo depois designar o
Piauí e o Paraíba para a u x i l i a r e m o s
portugueses naquela área de operações.
Em 3 de novembro, a DNOG largou
de Dakar em direção a Gibraltar, sem o Rio
Grande do Sul, o Rio Grande do Norte, o
Belmonte e o Laurindo Pitta, os dois primeiros
avariados e os dois seguintes designados para
outras missões. Sete dias depois os navios
da Divisão faziam sua entrada em Gibraltar.
No dia seguinte, o Armistício foi assinado, dando a Grande Guerra
como terminada. Nossa missão de guerra findara, no entanto nossa
Divisão prolongou sua permanência na Europa, já que foi convidada
para participar das festividades promovidas pelos vitoriosos. Por
cerca de seis meses nossos navios permaneceram em águas
européias participando das comemorações pela vitória, e visitando
países que tomaram parte naquele grande conflito.
A vitória dos aliados seria confirmada em Paris, em 28 de
junho de 1919, quando se reuniram os representantes de 32 países
e assinaram o Tratado de Versalhes, que foi imposto à Alemanha
derrotada.
Em 9 de junho de 1919, depois de parar Recife por breves
dias, os navios da DNOG entravam na Baía de Guanabara, portosede da Divisão Naval. Acabara assim, a participação da Marinha
na Primeira Guerra Mundial.

Total de marinheiros brasileiros enterrados no
cemitério de Dakar. Outros vieram a falecer mais
tarde, não podendo-se, desta feita, precisar o número exato de perdas por causa da gripe.
12

Cemitério São João Batista
Mausoléu erguido em homenagem aos mortos
da Divisão Naval em Operações de Guerra
(DNOG)
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

137



Relatório do Ministro da Marinha, Almirante
Protógenes Pereira Guimarães encaminhado ao
presidente da República em junho de 1932.
13

Incluíam-se nesse programa três submarinos adquiridos na Itália (Tupi, Timbira e Tamoio) dois navios hidrográficos (Jaceguai e Rio Branco), um navioescola (Almirante Saldanha), três contratorpedeiros
(Marcílio Dias, Mariz e Barros e Greenhalgh), dois
monitores (Paraguassu e Parnaíba) e um navio-tanque fluvial (Potengi), entre outros.
14

Almirante Protógenes Pereira Guimarães
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

138

Chegada da DNOG no Rio de Janeiro.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

O Período entre Guerras
O período entre guerras, que abarcou os anos de 1918 até
1939, caracterizou-se pelo abandono a que foi submetida não só a
Marinha de Guerra como praticamente toda a atividade nacional
relacionada com o mar. A ausência de mentalidade marítima do
povo brasileiro revelou-se em toda a sua intensidade.
No entanto, iniciativas modestas, ainda durante a Grande
Guerra, como a criação da Escola Naval de Guerra (depois Escola
de Guerra Naval), da Flotilha dos Submarinos, com os três
pequenos submarinos da Classe F, e da Escola de Aviação Naval,
indicaram a necessidade de se avançar na melhoria das condições
de prontidão da nossa Força Naval.
A Revolução de 1930 representou para a Marinha um divisor
de águas entre duas épocas distintas. Em relatório do Ministro da
Marinha no ano de 1932, em que foi feita uma análise da situação
da Marinha, encontra-se registrada a seguinte declaração: "Estamos
deixando morrer a nossa Marinha. A Esquadra agoniza pela idade
[a maior parte dos navios era da Esquadra de 1910], e, perdido
com ela o hábito das viagens, substituído pela vida parasitária e
burocrática dos portos, morrem todas as tradições(...) Estamos
numa encruzilhada: ou fazemos renascer o Poder Naval sob bases
permanentes e voluntariosas, ou nos resignamos a ostentar a nossa
f r a q u e z a p r o v o c a d o r a (. . .) e s t a m o s c o m p l e t a m e n t e
desaparelhados...."13.
O programa naval estabelecido em 1932, e ajustado em
193614, elaborado sem obedecer nenhum planejamento estratégico
ou político, criou uma Força Naval modesta, um pouco melhor



equilibrada, dentro das possibilidades financeiras e técnicas do País,
podendo ministrar adestramento satisfatório e de intervir em
operações limitadas, mais no campo interno que externo. Devemos
reconhecer, no entanto, que tal modesta iniciativa foi um marco
de coragem, pois utilizou a incipiente indústria brasileira na tentativa
de se reconstituir em termos nacionais um Poder Naval com alguma
credibilidade.
Em 1935, foi iniciada uma grande reforma no Encouraçado
Minas Gerais, que constou da substituição de suas caldeiras e do
aumento do alcance de seus canhões de 305 mm.

Os seis navios da classe Carioca.
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

As atividades de minagem e varredura tinham sido mantidas
em segundo plano desde o fim da Grande Guerra, utilizando-se
navios mineiros varredores improvisados. Em 1940, obedecendo
ao novo programa naval então aprovado, decidiu-se pela
construção no Brasil de uma série de navios mineiros varredores,
todos pertencentes à classe Carioca.
Em 1940, a nossa Força de Alto-Mar era assim constituída:

139



Esquadra:
­ Divisão de Encouraçados: Minas Gerais e São Paulo.
­ Divisão de Cruzadores: Rio Grande do Sul e Bahia.
­ Flotilha de Contratorpedeiros: Maranhão, Piauí, Rio Grande do
Norte, Sergipe, Santa Catarina e Mato Grosso.
­ Flotilha de Submarinos: Humaitá, Tupi, Timbira e Tamoio.
­ Trem: Tênderes Belmonte e Ceará; Navios-Tanques Novais de
Abreu e Marajó; Rebocadores Aníbal de Mendonça, Muniz Freire,
Henrique Perdigão e DNOG.
Flotilha de Navios Mineiros Varredores:
­ dez navios.
Flotilha da Diretoria de Hidrografia e Navegação:
­ três navios hidrográficos e dois navios faroleiros.
Navio isolado:
­ Navio-Escola Almirante Saldanha.

Navio-Escola Almirante Saldanha
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Flotilha Fluviais:
Dispondo o Brasil de imensas bacias potamográficas, as forças
fluviais sempre representaram um papel importante em nossa
concepção estratégica. Em 1940, elas eram assim constituídas:
­ Flotilha do Amazonas: Canhoneira Amapá e Rebocador
Mário Alves.

140



­ Flotilha de Mato Grosso: Monitores Parnaíba, Paraguaçu e
Pernambuco; Avisos Oiapoque e Voluntários; e Navio-Tanque Potengi.
Pode-se perceber, claramente, a vulnerabilidade de nosso Poder
Naval para o enfrentamento da guerra A/S (anti-submarino). Não
possuíamos sensores adequados, nem adestramento para a luta
contra os submarinos. A doutrina A/S era baseada ainda nas lições
apreendidas na Primeira Guerra Mundial, muito diferente do que
vinha ocorrendo nas águas do Atlântico Norte e Mediterrâneo
desde 1939.

Linhas de cabotagem ­ Linhas de comunicação
marítima ao longo da costa, geralmente ligando portos nacionais.
15

A situação em 1940
Como vimos, no início da década de 1940 o nosso Poder
Naval possuía limitações operacionais importantes. No início da
Segunda Guerra Mundial, em 1939, na Europa, o Brasil contava
com praticamente os mesmos navios da Primeira Guerra Mundial.
A verdade é que não se equipam e treinam forças navais
sem verbas condizentes, que eram seguidamente preteridas pelo
governo Getúlio Vargas.
As grandes preocupações do nosso Estado-Maior da Armada
eram a defesa de nossa enorme e desprotegida costa marítima e,
fundamentalmente, a proteção das linhas de comunicação, vitais
para a conservação de nossas artérias comerciais com o exterior
e para a manutenção das linhas de cabotagem15. Devemos observar
que no ano de 1940 esse tipo de transporte era fundamental, pois
não existia uma única comunicação terrestre entre Belém e São
Luís, entre Fortaleza e Natal e entre Salvador e Vitória.

Segunda Guerra Mundial
Antecedentes
Derrotada na Primeira Guerra Mundial, a Alemanha foi
obrigada a restituir a Alsácia e a Lorena à França, ceder as minas
de carvão, suas colônias, submarinos e navios mercantes. Além
disso, deveria pagar aos vencedores uma indenização em dinheiro,
ficando proibida de possuir Força Aérea e de fabricar alguns tipos
de armas. Era proibido também possuir um Exército superior a
100 mil homens.
Estas medidas do Tratado de Versalhes atingiram duramente
a economia alemã, afligindo seu povo, que passou a nutrir um
sentimento de aversão às principais potências da época. Estavam
constituídos os elementos que os nazistas necessitavam para
alcançar o poder. Muitas dessas restrições, sob o comando de Hitler,

141



começaram a ser ignoradas. A Alemanha crescia e, por isso,
necessitava de mercado para os seus produtos e de colônias onde
pudesse adquirir matérias-primas.
Por outro lado, também dispostos a destruírem a ordem
colonial vigente, Japão e Itália adotaram, na década de 1930, uma
política expansionista contra a qual a Liga das Nações mostrou-se
impotente. Cobiçando as matérias-primas e os vastos mercados
da Ásia, o Japão reiniciou sua investida imperialista em 1931,
conquistando a Manchúria, região rica em minérios que pertencia
à China. Em outubro de 1935, a Itália de Mussolini invadiu a Etiópia.
Em 1936, a Alemanha nazista começou a mostrar suas intensões
ocupando a Renânia (região situada entre a França e a Alemanha),
indo juntar-se à Itália fascista e intervir na Guerra Civil Espanhola a
favor do General Franco. Neste ano de 1936, Itália, Alemanha e
Japão assinaram um acordo para combater o comunismo
internacional (Pacto Anti-Comintern), formalizando o Eixo RomaBerlim-Tóquio.
Em agosto de 1939, a Alemanha e a União Soviética firmaram
entre si um Pacto de Não Agressão, que estabelecia, secretamente,
a partilha do território polonês entre as duas nações. Hitler se
sentiu à vontade para agir, invadindo a Polônia e dando início à
Segunda Guerra Mundial, que se alastrou por toda a Europa.

Início das hostilidades e ataques
aos nossos navios mercantes
A Marinha Mercante brasileira somava 652.100 toneladas
brutas de arqueação no início da guerra. Mesmo pequena e
composta de navios antiquados, se comparada com as grandes
potências de então, ela exercia papel fundamental na economia
nacional, não só no transporte das exportações brasileiras, mas
também na navegação de cabotagem que mantinha o fluxo
comercial entre as economias regionais, isoladas pela deficiência
das nossas redes rodoviárias e ferroviárias.
No decorrer da guerra, foram perdidos por ação dos
submarinos alemães e italianos 33 navios mercantes, que somaram
cerca de 140 mil toneladas de arqueação (21% do total) e a morte
de 480 tripulantes e 502 passageiros.
Os primeiros ataques à nossa Marinha Mercante ocorreram
quando o Brasil ainda se mantinha neutro no conflito europeu. Em
22 de março de 1941, no Mar Mediterrâneo, o Navio Mercante
(NM) Taubaté foi metralhado pela Força Aérea alemã, tendo sido
avariado apesar da pintura em seu costado da Bandeira Brasileira.
Com a entrada dos Estados Unidos da América naquele conflito,
os submarinos alemães passaram a operar no Atlântico ocidental,

142

Navio Mercante Cabedelo



ameaçando os navios de bandeiras neutras que tentassem adentrar
portos norte-americanos.
A primeira perda brasileira foi o NM Cabedelo, que deixou o
porto de Filadélfia, nos Estados Unidos, com carga de carvão, em
14 de fevereiro de 1942. Naquele momento ainda não existia o
sistema de comboios nas Antilhas. O navio desapareceu
rapidamente sem dar sinais, podendo ter sido torpedeado por um
submarino alemão ou italiano. Ele foi considerado perdido por ação
do inimigo, uma vez que o tempo reinante era bom e claro.

No torpedeamento desse navio aconteceu um
fato inusitado: segundo relato do comandante, às
19h30min, um avião sobrevoou o navio para iluminálo. Hoje, sabe-se que os alemães tinham uma aeronave espiã, com base em território norte-americano, para orientar os submarinos para os ataques.
16

Seguiu-se o torpedeamento do NM Buarque, em 16 de
fevereiro de 1942, pelo Submarino alemão U-432, comandado pelo
Capitão-Tenente Heins-Otto Schultze, a 60 milhas do Cabo
Hatteras, quando levava para os Estados Unidos 11 passageiros,
café, algodão, cacau e peles. O navio, do tipo misto, era do Lloyd
Brasileiro, tendo se salvado toda a tripulação de 73 homens16.
Em 18 de fevereiro de 1942 foi a vez do NM Olinda,
torpedeado pelo mesmo U-432, ao largo da Virgínia, Estados
Unidos. O submarino veio à superfície, mandando o mercante
parar, dando ordem de abandonar o navio. Esperou que todos
embarcassem nas baleeiras e, a tiros de canhão, pôs a pique o
Olinda. A tripulação, de 46 homens, foi salva pelo USS Dallas.
Seguiram-se, em 1942, os torpedeamentos dos mercantes
Arabutã, em 7 de março; Cairu, em 8 de março; Parnaíba, em 1o
de maio; Gonçalves Dias, em 24 de maio; Alegrete, em 1o de junho;
Pedrinhas e Tamandaré, em 26 de
junho, todos ocorridos ou na
costa norte-americana ou no
Mar das Antilhas, área que os
submarinos alemães atuaram no
início do envolvimento dos
Estados Unidos no conflito,
quando ainda eram precárias
Navio Mercante Alegrete
as patrulhas anti-submarinas
norte-americanas.

143



Capitão-de-Corveta Harro Schacht

144

A única exceção nesse período foi o NM Comandante Lira,
torpedeado no litoral brasileiro, ao largo do Ceará, pelo Submarino
italiano Barbarigo. Foi o único navio a ser salvo, graças ao pronto
auxílio dado pelo Rebocador
da Marinha brasileira Heitor Rebocador Heitor Perdigão
Perdigão e por alguns navios
norte-americanos.
O NM Barbacena e NM
Piave, torpedeados pelo Submarino alemão U-155 ao largo da
Ilha de Trinidad, em 28 de julho
de 1942, foram as últimas perdas
ocorridas por ação do inimigo enquanto o Brasil ainda se mantinha
formalmente como país neutro.
Em 28 de janeiro de 1942, o Brasil rompeu relações
diplomáticas com os países que compunham o Eixo. A colaboração
militar entre o Brasil e os Estados Unidos, que desde meados de
1941 já era notória, intensificou-se com a assinatura de um acordo
político-militar em 23 de maio de 1942.
Neste período deslocava-se para o saliente nordestino
brasileiro a Força-Tarefa 3 da Marinha norte-americana, tendo o
governo Vargas colocado os portos de Recife, Salvador e,
posteriormente, Natal à disposição das forças norte-americanas.
As atitudes cada vez mais claras de alinhamento do Brasil
com os países aliados levaram o Alto Comando alemão a planejar
uma operação contra os principais portos brasileiros.
Posteriormente, por ordem de Hitler, esta ofensiva submarina foi
reduzida em tamanho, mas não em intensidade, com o envio de
um submarino ao litoral com ordens para atacar nossa navegação
de longo curso e de cabotagem.
No cair da tarde de 15 de agosto de 1942, o Submarino
alemão U-507, comandando pelo Capitão-de-Corveta Harro
Schacht, torpedeou o Paquete
Baependi, que navegava ao largo Submarino U-507
da costa de Alagoas com destino
ao Recife. O velho navio foi ao
fundo levando 270 almas de um
total de 306 tripulantes e passageiros embarcados, inclusive
parte da guarnição do 7o Grupo
de Artilharia de Dorso do
Exército Brasileiro que iria reforçar as defesas do Nordeste.
Algumas horas depois, o U-507 encontrou o Paquete
Araraquara navegando escoteiro e inteiramente iluminado e o
afundou com dois torpedos, vitimando 131 das 142 pessoas a bordo.
Na madrugada do dia 16, foi a vez do Paquete Aníbal Benévolo,
também utilizado nas linhas de cabotagem.



Em 17 de agosto, na altura do Farol do Morro de São Paulo,
ao Sul de Salvador, o U-507 torpedeou o Paquete Itagiba, que tinha,
entre os seus 121 passageiros, o restante do 7o Grupo de Artilharia
de Dorso.
Nesse mesmo dia, o NM Arará foi torpedeado quando
recolhia náufragos dos primeiros alvos do submarino germânico.
A última vítima do Comandante Schacht foi a Barcaça Jacira,
pequena embarcação que foi posta a pique em 19 de agosto.
A ação de cinco dias do submarino alemão U-507 levou a
pique seis embarcações dedicadas às linhas de cabotagem,
vitimando 607 pessoas, chocando a opinião pública brasileira e
levando o governo a declarar o estado de beligerância com a
Alemanha em 22 daquele mês e, finalmente, o estado de guerra
contra esse país, a Itália e o Japão em 31 de agosto de 1942.
Com comboios organizados ainda de maneira incipiente,
foram afundados os navios mercantes Osório e Lages, em 27 de
setembro de 1942, seguindo-se o afundamento do pequeno NM
Antonico, que navegava escoteiro ao largo da costa da Guiana
Francesa. Este ataque alemão ficou tragicamente gravado na mente
dos protagonistas, pois o U-516 com sua artilharia metralhou os
náufragos nas baleeiras, após o pequeno navio ter sido posto a
pique, matando e ferindo muitos deles. Ainda em 1942, foram
perdidos os NM Porto Alegre e Apalóide.
A organização dos comboios nos portos nacionais, que
reuniam navios mercantes da navegação de longo curso e de
cabotagem, escoltados por navios de guerra brasileiros e norteamericanos e a intensa patrulha anti-submarino empreendida pelas
forças aeronavais aliadas levaram a uma drástica diminuição nas
perdas dos navios de Bandeira Brasileira, com oito torpedeamentos, comparados aos 24 ocorridos ao longo do ano anterior.

Comboio na costa brasileira
Acervo do Serviço de
Documentação da Marinha

145

MORTES NA MARINHA MERCANTE (1941­1943)
Nº DE
ORDEM

NAVIOS

Nº DE
TRIPULAN.

Nº DE
PASSAG.

SALVOS

MORTOS OU
DESAPARECIDOS

TOTAL DOS MORTOS
OU DESAPARECIDOS

Trip.

Pass.

Trip.

Pass.

-

-

-

1

-

1
54

1

Taubaté

22 de mar. de 1941

2

Cabedel o

Desconhecida

54

-

-

-

54

-

3

Buarque

16 de fev. de 1942

74

11

74

10

-

1

1
-

4

Ol i nda

18 de fev. 1942

46

-

46

-

-

-

5

Arabutã

7 de mar. 1942

51

-

50

-

1

-

6

Cai ru

8 de mar. 1942

75

14

28

8

47

6

7

Parnaí ba

1 de mai. 1942

72

-

65

-

7

7

8

Comandante
18 de mai. de 1942
L i ra

52

-

50

-

2

-

9

Gonaçal ves
Di as

24 de mai. de 1942

52

-

46

-

6

-

10

Al egrete

1 de jun. de 1942

64

-

64

-

-

-

11

Pedri nhas

26 de jun. de 1942

48

-

48

-

-

-

-

12

Tamandaré

26 de jul. de 1942

52

-

48

-

4

-

4

13

Pi ave

28 de jul. 1942

35

-

34

-

1

-

1

14

Barbacena

28 de jul. de 1942

61

1

55

1

6

-

6

15

Baependi

15 de ago de 1942

73

233

18

18

55

215

270

16

Araraquara

15 de ago de 1942

74

68

8

3

66

65

131

17

Aní bal
Benévol o

16 de ago de 1942

71

83

4

-

67

83

150

18

Itagi ba

17 de ago de 1942

60

121

50

95

10

26

36

19

Arará

17 de ago de 1942

35

-

15

-

20

-

20

20

Jaci ra

19 de ago. de 1942

5

1

5

1

-

-

-

21

Osóri o

27 de set. de 1942

39

-

34

-

5

-

5

22

Lajes

27 de set.de 1942

49

-

46

-

3

-

3

23

Antoni co

28 de set. de 1942

40

-

24

-

16

-

16

24

Porto Al egre

3 de nov.. de 1942

47

11

46

11

1

-

1

25

Apal ói de

22 de nov. 1942

57

-

52

-

5

-

5

26

Brasi l ói de

18 de fev. de 1943

46

4

46

4

-

-

-

27

Afonso Pena

2 de mar de 1943

89

153

56

61

33

92

125

28

Tutói a

30 de jun. de 1943

37

-

30

-

7

-

7

29

Pel otasl ói de

4 de jul de 1943

42

-

37

-

5

-

5

30

Shangri -l á

22 de jul de 1943

10

-

-

-

10

-

10

31

Bagé

31 de jul de 1943

107

27

87

19

20

8

28

32

Itapagé

26 de set. de 1943

70

36

52

32

18

4

22

33

Campos

23 de out. de 1943

57

6

47

4

10

2

12

1.744

769

1.265

267

480

502

982

T. Ge ral

146

D AT A D O
AT AQ U E

1
53
7
2

6
-



A maioria dos navios mercantes brasileiros vitimados por
submarinos alemães em 1943 navegava fora dos comboios. O NM
Brasilóide navegava escoteiro quando foi torpedeado em 18 de
fevereiro de 1943; já o NM Afonso Pena, indevidamente, abandonou
o comboio do qual fazia parte e foi afundado em 2 de março; o
NM Tutóia foi atingido em 20 de junho, também viajando isolado.
O NM Pelotaslóide, fretado ao governo norte-americano para
transporte de material bélico, foi afundado na entrada do canal
para o Porto de Belém quando esperava o embarque do prático,
estando escoltado por três caça-submarinos da Marinha brasileira.
O NM Bagé compunha um comboio quando, na tarde de 31 de
julho, foi obrigado a seguir viagem isolado, pois suas máquinas
produziam fumaça em demasia, fazendo com que o comboio
pudesse ser localizado por submarinos do Eixo a grandes distâncias,
colocando em risco os outros navios comboiados. Naquela mesma
noite foi torpedeado. Os dois últimos torpedeamentos de navios
mercantes brasileiros foram o Itapagé, em 26 de setembro, e o
Campos, em 21 de outubro de 1943, todos os dois navegando
escoteiros.

Navio Mercante Bagé
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

147



Caça-Submarinos Juruema
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Contratorpedeiro Bauru
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

148

A Lei de Empréstimo e Arrendamento e
modernizações de nossos meios e defesa
ativa da costa brasileira
A Lei de Empréstimo e Arrendamento ­ Lend Lease ­ com
os Estados Unidos permitia, sem operações financeiras
imediatas, o fornecimento dos materiais necessários ao
esforço de guerra dos países aliados. Ela foi assinada a 11de
março de 1941.
Em acordo firmado a 1o de outubro de 1941, o Brasil obteve,
nos termos dessa lei, um crédito de 200 milhões de dólares, o
qual, por ordem do presidente da República, coube ao Exército
100 milhões e à Marinha e à Força Aérea 50 milhões cada. Da cota
destinada à Marinha, um total de 2 milhões de dólares foi
despendido com o armamento dos navios mercantes.
Ao rompermos relações diplomáticas como Eixo, a
Marinha do Brasil desconhecia as novas táticas anti-submarino e
estava, conseqüentemente, desprovida do material flutuante e dos
equipamentos necessários para executá-las, como bem
mostramos anteriormente.
Os progressos verificados nos entendimentos entre o Brasil
e os Estados Unidos, depois dos torpedeamentos dos primeiros
navios na costa leste norte-americana e nas Antilhas, permitiram
incluir na agenda de discussões o fornecimento ao Brasil de
pequenas unidades de proteção ao tráfego e de ataque a
submarinos.
Os primeiros navios recebidos pelo Brasil, depois da
declaração de guerra, foram os caça-submarinos da classe G
(Guaporé e Gurupi), entregues em Natal, a 24 de setembro
de 1942.
Em seguida, foram incorporados à Marinha do Brasil, em
Miami, oito caça-submarinos da classe J (Javari, Jutaí, Juruá,
Juruema, Jaguarão, Jaguaribe,
Caça-Submarinos Gurupi
Jacuí e Jundiaí).
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
No ano de 1943, foram
entregues mais seis unidades
da classe G (Guaíba, Gurupá,
Guajará, Goiana, Grajaú e
Graúna).
Nos anos de 1944 e 1945,
mais oito unidades foram
entregues, dessa vez os excelentes contratorpedeiros-de-escolta que já operavam em
nossas águas (Bertioga, Beberibe, Bracuí, Bauru, Baependi,
Benevente, Babitonga e Bocaina).



Após o término da guerra na Europa, a Marinha recebeu
dos Estados Unidos, a 16 de julho de 1945, em Tampa, na Flórida,
o Navio-Transporte de Tropas Duque de Caxias.
Mais tarde, a cessão desses navios ao Brasil foi tornada
permanente, com o compromisso de não os entregarmos a outros
países, sendo então fixado o seu aluguel em 5 milhões de dólares,
descontando-se o que nos era devido pelo arrendamento de navios
brasileiros aos Estados Unidos, pela cessão do mercante misto
alemão Windhunk aos norte-americanos e pelos navios perdidos
durante a guerra.
Nada se conhece sobre indenizações norte-americanas, em
troca das facilidades concedidas à sua Marinha em nossos portos,
nem pelo uso do território nacional para instalação de suas bases
aéreas e navais. Simplesmente, ficamos de posse das benfeitorias
realizadas e dos materiais existentes em seus armazéns.
Quanto às construções navais aqui no Brasil, tivemos a
incorporação de contratorpedeiros da classe M (Mariz e Barros,
Marcílio Dias e Greenhalgh) e das Corvetas Matias de Albuquerque,
Felipe Camarão, Henrique Dias, Fernandes Vieira, Vidal de Negreiros
e Barreto de Menezes.
Declarada a guerra, foi desenvolvido um
trabalho intenso para adaptar nossos antigos
navios, dentro de suas possibilidades, para a
campanha anti-submarino. Os seguintes serviços
foram executados:
­ Cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul: instalados
sonar e equipamento para ataques antisubmarino (duas calhas para lançamento de
bombas de profundidade de 300 libras);
­ Navios mineiros varredores classe Carioca:
reclassificados como corvetas. Retirados os trilhos
para lançamento de minas e instalados sonar e
equipamentos para ataques anti-submarino (dois
morteiros K e duas calhas para lançamento de
bombas de profundidade de 300 libras);
­ Navios Hidrográficos Rio Branco e Jaceguai:
mesmas instalações das Corvetas classe Carioca e
mais duas metralhadoras de 20mm Oerlikon;
­ Navio-Tanque Marajó: instalado um canhão de
120mm na popa e uma metralhadora de 20mm
Oerlikon;
­ Tênder Belmonte: reinstalados dois canhões de
120 mm;
­ Contratorpedeiros classe Maranhão e restante
de classe Pará: instaladas duas calhas para

Contratorpedeiro Greenhalgh
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Corveta Carioca
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

149



lançamento de bombas de profundidade de 300 libras; e
­ Rebocadores e demais navios-auxiliares, armados com uma ou
duas metralhadoras de 20 mm Oerlikon.
Essas aquisições pelo Lend Lease e os aperfeiçoamentos
impetrados em nossa Força Naval vieram aumentar em muito nossa
capacidade de reagir de forma adequada aos novos desafios que
se afiguravam. Seria injusto não mencionar que o auxílio norteamericano foi vital para que pudéssemos nos contrapor aos
submarinos alemães.
Além disso, algumas providências de caráter administrativo,
de treinamento e modificações materiais foram se tornando
necessárias.
Como primeira medida de caráter orgânico, foram instalados
os Comandos Navais, criados pelo Decreto no 10.359, de 31 de
agosto de 1942, com o propósito de prover uma defesa mais eficaz
da nossa fronteira marítima, orientando e controlando as operações
em águas a ela adjacentes, não só as relativas à navegação comercial,
como às de guerra propriamente ditas e de assuntos correlatos. A
área de cada Comando abrangia determinado setor de nossas
costas marítimas e fluviais.
Foram instalados os seguintes comandos:
Comando Naval do Norte, com sede em Belém, abrangendo
os Estados do Acre, Amazonas, Pará, Maranhão e Piauí.
Comando Naval do Nordeste, com sede em Recife, abrangendo
os Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco
e Alagoas.
Comando Naval do Leste, com sede em Salvador, abrangendo
os Estados de Sergipe, Bahia e Espírito Santo.
Comando Naval do Centro, com sede no Rio de Janeiro,
abrangendo os Estados do Rio de Janeiro e São Paulo.
Comando Naval do Sul, com sede em Florianópolis, abrangendo
os Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Comando Naval do Mato Grosso, com sede em Ladário,
abrangendo as bacias fluviais de Mato Grosso e Alto Paraná.
Esses Comandos, ordenando suas atividades conforme a
concepção estratégica da guerra no mar (da preparação logística e
do emprego das forças ou outros elementos de defesa nas zonas
que lhes eram atribuídas, e obedecendo às diretrizes gerais
estabelecidas pelo Estado-Maior da Armada, a quem se achavam
subordinadas), constituíram uma organização da maior importância

150

Defesas Locais



na conduta eficaz das operações navais. Sua existência facilitou o
desenvolvimento dos recursos disponíveis nas respectivas áreas
de influência, mobilizando elementos para o apoio logístico e para
a defesa local.
O chefe do Estado-Maior da Armada entrou em
entendimento com seus colegas do Exército e da Aeronáutica para
organizar um serviço conjunto de vigilância e defesa da costa,
tendente a prevenir a possibilidade de aproximação e desembarque
inimigos.

Um desses exemplos foi Duguay-Trouin em 1711,
na Baía de Guanabara.
17

Desde julho de 1942, por meio da Circular no 40, do dia 14,
em atendimento às Circulares Secretas nos 9 e 33, respectivamente
de 22 de janeiro e 12 de junho de 1942, o Estado-Maior da Armada
determinou que se observassem as instruções que orientavam as
atividades de cada capitania de porto ou delegacia, em benefício da
Segurança Nacional.
A ação do Estado-Maior da Armada estendeu-se ao serviço
de carga e descarga dos navios mercantes nos portos, tendo, para
esse fim, coordenado sua ação com a do Ministério da Viação e
Obras Públicas e com a Comissão de Marinha Mercante.
Preocupou-se, também, com as luzes das praias e edifícios
próximos aos portos, ou em regiões que pudessem silhuetar os
navios no mar, alvos dos submarinos inimigos.
Imaginava-se que o Alto Comando alemão traçaria planos
para realizar ataques maciços aos portos brasileiros. Em agosto de
1942, chegou a ser ventilada pelo Alto Comando Naval alemão a
autorização para investida em nossas águas de vários submarinos.
No entanto, somente o U-507 foi designado para operar em nossas
águas. A 20 de agosto de 1943, pela Circular no 5, o Comando da
Força Naval do Nordeste alertou para a possibilidade de
desembarque de elementos isolados, tendo como objetivo realizar
atos de sabotagem contra portos, depósitos, comunicações e
outros pontos vitais do território brasileiro.

Defesa Ativa
Na História há numerosos exemplos de navios corsários que
surgiram de surpresa diante de um porto para danificarem suas
instalações ou amedrontarem suas populações17. Do ponto de vista
militar, os efeitos dessas incursões são reduzidos, sendo a ação, na
maioria das vezes, executada para desorganizar a vida da localidade
e obter efeitos morais.
Com o advento do submarino, o perigo tornou-se maior,
com a possibilidade de torpedeamento de navios surtos nos portos.

151

Por esses motivos, foi organizada a defesa ativa, atuando em pontos
focais da costa, com a finalidade de repelir qualquer ataque aéreo
ou naval inimigo, por meio de ações coordenadas da Marinha de
Guerra, do Exército e da Aeronáutica. Adotaram-se seguintes
medidas de defesa ativa adotadas:

Encouraçado Sâo Paulo
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Rio de Janeiro ­ Instalação de uma rede de aço protetora no
alinhamento Boa Viagem ­ Villegagnon e coordenação do serviço
de defesa do porto com as fortalezas da barra. A rede era fiscalizada
por lanchas velozes, e a sua entrada aberta e fechada por
rebocadores. O patrulhamento interno cabia aos navios da chamada
Flotilha "João das Bottas" (constituída de navios mineiros e de
instrução), rememorando a flotilha de pequenas embarcações
comandada pelo Segundo-Tenente João Francisco de Oliveira
Bottas, que fustigou os portugueses encastelados em Salvador e
na Baía de Todos os Santos na Guerra de Independência.
Externamente, ou onde fosse necessário, atuavam os antigos
contratorpedeiros classe Pará, oriundos do programa de
reaparelhamento naval de 1906, recebidos em 1910, com mais de
30 anos de intensa operação. A responsabilidade da defesa ficou
afeta ao Comando da Defesa Flutuante, subordinado ao Comando
Naval do Centro.
Em junho de 1944, afastado o perigo de um ataque de
submarinos aos navios surtos no porto, suspendeu-se a patrulha
externa feita pelos veteranos contratorpedeiros, sendo mantida
apenas a vigilância interna, a cargo de um rebocador portuário.
Um especialista norte-americano, o Tenente Jacowski,
estabeleceu planos para a utilização de bóias de escuta submarina,
a serem adotadas de acordo com as necessidades. Em julho de
1943, teve início o serviço de varredura de minas do canal da barra,
realizada pelo USS Flincker, substituído mais tarde pelo USS Linnet.
Observamos aí, mais uma vez, o auxílio direto norte-americano
ao nosso plano de defesa local;
Recife ­ O Encouraçado São Paulo, amarrado no
interior do arrecife, provia a defesa da artilharia e
supervisionava a rede antitorpédica. A varredura
de minas era feita por navios mineiros varredores
norte-americanos. Estava estacionado no Recife
um grupo de especialistas em desativação de
minas, as quais, por vezes, davam à costa, sendo
estudadas cuidadosamente antes de serem
destruídas.
As minas encontradas à deriva eram
destruídas pelos navios de patrulha com tiros de
canhão. O Terceiro Grupamento Móvel de
Artilharia de Costa e o Segundo Grupo do

152

Terceiro Regimento de Artilharia Antiaérea do Exército
coordenavam-se com os elementos da Marinha, o que permitia
uma cobertura completa da costa;
Salvador ­ A defesa principal do porto cabia ao Encouraçado Minas
Gerais, com sua artilharia controlada em conjunto com as baterias
do Exército, situadas na Ponta de Santo Antônio e na Ilha de
Itaparica. Em abril de 1943, os Monitores Parnaíba e Paraguaçu foram
movimentados de Mato Grosso para Salvador, por solicitação do
Comandante Naval do Leste. Depois de sofrerem
algumas modificações no Rio de Janeiro (em
especial no armamento), ficaram em condições
de operar na Baía de Todos os Santos.
Aparelhos de radiogoniometria de alta
freqüência cruzavam as marcações com
equipamentos semelhantes no Recife, a fim de
localizar submarinos;

Monitor Parnaíba
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Natal ­ Os serviços de proteção do porto
estavam a cargo do Comando da Base Naval de
Natal. Também eram acionadas unidades do
Exército (que mantinham baterias na barra) e da
Força Aérea Brasileira;
Vitória ­ A proteção do porto ficou entregue ao Exército, havendo
a Marinha cedido alguns canhões navais de 120 mm para artilhar
a barra;
Ilhas oceânicas ­ Na Ilha da Trindade foi estacionado um
destacamento de fuzileiros navais, em 20 de março de 1942, levado
pelo Navio-Transporte José Bonifácio.
A defesa do Arquipélago de Fernando de Noronha, situado
em ponto focal no Atlântico, ficou entregue ao Exército, que o
artilhou fortemente, levando contingentes em
comboios escoltados por navios da Marinha. A
ocupação se deu logo depois que o Brasil rompeu
relações diplomáticas com o Eixo, sendo o
primeiro grupo de militares transportados, junto
com material de guerra, em um comboio, em 15
de abril de 1942;

Navio-Transporte José Bonifácio
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Santos ­ Os Rebocadores São Paulo (eram dois
com o mesmo nome, sendo um chamado de iate)
foram artilhados; outras embarcações menores
requisitadas faziam serviço de vigilância;
Rio Grande ­ Foi artilhado o Rebocador Antonio
Azambuja. Como reforço às defesas locais, foram

153

criadas Companhias Regionais do Corpo de Fuzileiros Navais em
Belém, Natal, Recife e Salvador.
Ao se lembrar da participação da Marinha na Segunda Guerra
Mundial, a primeira imagem que surge é a conhecida Força Naval
do Nordeste. Como era afinal a sua composição e tarefas?

A Força Naval do Nordeste
A missão da Marinha do Brasil na Segunda Guerra Mundial
foi patrulhar o Atlântico Sul e proteger os comboios de navios
mercantes que trafegavam entre o Mar do Caribe e o nosso litoral
sul contra a ação dos submarinos e navios corsários germânicos e
italianos.
A capacidade de combate da Marinha do Brasil no alvorecer
do conflito era modesta se comparada com as grandes Esquadras
em luta no Atlântico Norte e no Pacífico. O nosso pessoal e nossos
meios não estavam preparados para se engajar com o inimigo oculto
sob o mar, que assolava o transporte marítimo em nosso litoral.
Ingressaríamos em uma guerra anti-submarino sem
equipamentos para detecção e armamento apropriados, porém
este obstáculo não impediu que navios e tripulações estivessem
patrulhando nossas águas, mesmo antes do envolvimento oficial
do governo brasileiro no conflito, apesar de todos os perigos.
A criação da Força Naval do Nordeste, pelo Aviso no 1.661,
de 5 de outubro de 1942, foi parte de um rápido e intenso processo
de reorganização das nossas forças navais para adequar-se à
situação de conflito. Sob o comando do Capitão-de-Mar-e-Guerra
Alfredo Carlos Soares Dutra, a recém-criada força foi inicialmente
composta pelos seguintes navios: Cruzadores Bahia e Rio Grande
do Sul, Navios Mineiros Carioca, Caravelas, Camaquã e Cabedelo
(posteriormente reclassificados como corvetas) e os CaçaSubmarinos Guaporé e Gurupi.
Ela seria posteriormente acrescida do Tênder Belmonte, caçasubmarinos, contratorpedeiros-deescolta, contratorpedeiros classe M,
submarinos classe T, constituindo-se na
Força-Tarefa 46 da Força do Atlântico Sul,
reunindo a nossa Marinha sob o comando
operacional da 4a Esquadra Americana.
A atuação conjunta com os norteamericanos trouxe novos meios navais e
armamentos adequados à guerra antisubmarino, bem como proporcionou
treinamento para o nosso pessoal.
O combate, porém, nos custou
muitas vidas. As perdas brasileiras na guerra Contra-Almirante Soares Dutra
marítima somaram 31 navios mercantes e

154

três navios de guerra, tendo a Marinha do Brasil perdido 486
homens. Nesse ponto seria interessante descrever em maiores
detalhes as perdas de nossas unidades de combate durante a Batalha
do Atlântico.
A primeira perda da Marinha de Guerra foi a do NavioAuxiliar Vital de Oliveira, torpedeado por submarino alemão pelo
través do Farol de São Tomé, em 19 de julho de 1944. Às 23h55min,
foi sentida forte explosão na popa, abrindo grande rombo, por
onde começou a entrar água em enormes proporções. Segundo
algumas testemunhas, o afundamento do navio deu-se em apenas
três minutos. A maior parte dos sobreviventes foi resgatada no
dia seguinte por um barco pesqueiro e por outros dois navios
da Marinha, o Javari e o Mariz e Barros. Morreram nesse ataque
99 militares.
Quarenta e oito horas após o torpedeamento do Vital de
Oliveira, a cerca de 12 milhas a nordeste da barra de Recife,
perdeu-se a Corveta Camaquã, afundada devido a violento mar.
Discutem-se até hoje os motivos que levaram esse navio a seu
afundamento. O Comandante
Navio-Auxiliar Vital de Oliveira
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
Antônio Bastos Bernardes,
sobrevivente do sinistro,
afirmou alguns anos após esse
acidente que o emborcamento
se deu por "fortuna do mar".
Seja como for, pereceram
nessa oportunidade 33
pessoas.
Por fim, o pior desastre enfrentado pela Marinha durante a
Segunda Guerra Mundial foi a perda do Cruzador Bahia, no dia 4
de julho de 1945. E s s a t r a g é d i a foi exacerbada pelo
conhecimento dos terríveis sofrimentos dos náufragos,
abandonados no mar durante muitos dias, por incompreensível
falha de comunicações.
Três infortúnios e cerca de 486 mortos, incluindo os falecidos
em outros navios e em navios mercantes afundados, mais que os
mortos brasileiros em combate na Força Expedicionária
Brasileira que lutou na Itália.
Pouco discutida é a
Cruzador Bahia
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha
atuação da Quarta Esquadra
Norte-Americana, subordinada
ao Vice-Almirante Jonas Ingram.
Figura notável que teve o
mérito de congregar forças
heterogêneas em um comando unificado, eficiente e coeso,
auxiliado pelos Almirantes

Caça-Submarino Gurupi
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

Corveta Camaquã
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

155



Oliver Read e Soares Dutra, comandantes das principais forçastarefas.
Essa força norte-americana compreendeu, em seu maior
efetivo, seis cruzadores, 33 contratorpedeiros, diversas esquadrilhas
de patrulha, bombardeiros e dirigíveis, além de caça-submarinos,
patrulheiros, tênderes, varredores, auxiliares e rebocadores.
Um dos principais pontos desse relacionamento Brasil­
Estados Unidos foi a integração operacional entre as duas Marinhas.
Foram aperfeiçoados procedimentos comuns e táticas eficazes
na luta anti-submarino.
Em 7 de novembro de 1945, concluída a sua missão, a Força
Naval do Nordeste regressou ao Rio de Janeiro em seu último
cruzeiro, tendo contribuido para a livre circulação nas linhas de
navegação do Atlântico Sul.

E o que ficou?
Não se pode analisar a participação da Marinha de Guerra
brasileira na Segunda Guerra Mundial sem apontar alguns dados
que delimitam todo o seu esforço para manter nossas linhas de
comunicação abertas.
Foram comboiados cerca de 3.164 navios, sendo 1.577
brasileiros e 1.041 norte-americanos, em 575 comboios.
Considerando esse número de navios e as perdas em comboios,
chegamos à conclusão de que cerca de 99,01% dos navios
protegidos atingiram os seus destinos.
Foram percorridos pelos escoltas, sem contar os ziguezagues
realizados para dificultar a detecção submarina e o tiro torpédico,
um total de 600.000 milhas náuticas, ou seja, 28 voltas em redor
da Terra pelo Equador.
A Esquadra americana comboiou no Atlântico 16 mil navios,
o que corresponde a 16 mercantes por cada navio de guerra. A
Marinha do Brasil comboiou mais de tres mil navios, o que
corresponde a 50 mercantes por cada navio de guerra brasileiro.
Foram atacados 33 navios mercantes brasileiros, com um
total de 982 mortos ou desaparecidos na Marinha Mercante. Em
tonelagem bruta, foram perdidos 21,47% da frota nacional.
O navio de guerra que mais tempo passou no mar foi o
Caça-Submarinos Guaporé, num total de 427 dias de mar, em
pouco mais de três anos de operação, o que perfez uma média
anual de 142 dias de mar.
O navio que participou no maior número de comboios foi a
Corveta Caravelas, com 77 participações.
Com todos esses dados, o que efetivamente significou para
a nossa Marinha de Guerra a sua participação no conflito mundial?

156



A primeira conclusão a que se pode chegar é a que adquirimos
maior capacidade para controlar áreas marítimas e maior poder
dissuasório. No entanto, deve ser admitido que tal situação foi fruto
do auxílio norte-americano. Se estivéssemos sozinhos nessa
empreitada, poderíamos ficar em situação delicada, principalmente
na manutenção de nossas linhas de comércio marítimo.
A segunda conclusão aponta para uma mudança de
mentalidade na Marinha, com a assimilação de novas técnicas de
combate e a incorporação de meios modernos para as forças
navais. Essa mudança de mentalidade fez a Marinha tornar-se bem
mais profissional.
A terceira foi a oportunidade de a Marinha "sentir o odor do
combate", participar de ações de guerra e adquirir experiências da
refrega, das adversidades, do medo e da dor com a perda de navios
e companheiros. Essa experiência
de combate foi fundamental para
forjar os futuros almirantes, oficiais
e praças da Marinha, acostumados
com a vida dura da guerra antisubmarino e da monotonia e do
estresse dos comboios.
A quarta conclusão é a
percepção de que a logística ocupa
lugar de importância na manutenção de uma força combatente
operando eficientemente. Esse tipo
de percepção refletiu-se na construção da Base Naval de Natal e
outros pontos de apoio logístico do
nosso litoral. Nisso os Estados
Unidos foram os grandes mestres.
A quinta foi a nossa aproximação com os norte-americanos.
Essa associação nos alinhou diretamente com suas doutrinas e com
uma exacerbada ênfase na guerra anti-submarino. Essa percepção
só foi mudada a partir da denúncia, em 1977, do Acordo Militar
assinado com esse país em 1952. Com esta denúncia, optamos
por uma tecnologia relativamente autóctone.
E, por fim, a guerra no mar mostrou-nos que, no caso do
Brasil, em uma conflagração generalizada, as nossas linhas de
comunicação serão os alvos prioritários em nossa defesa, pois ainda
somos dependentes do comércio marítimo.

Corveta Caravelas
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

157



Desfile das tripulações da Força Naval do Nordeste e da Força
Naval do Sul em 7 de setembro de 1945 na Avenida Rio
Branco (RJ)
Acervo do Serviço de Documentação da Marinha

158

C

R

O

N

O

L

O

G

I

A



DATA

EVENTO

Julho de 1904

Apresentação na Câmara dos Deputados do programa de reaparelhamento
naval do Almirante Júlio de Noronha pelo Deputado Laurindo Pitta.

Nov. de 1906

Aprovação do programa de reaparelhamento naval do Almirante Júlio de
Noronha modificado pelo Almirante Alexandrino de Alencar.

Ago. de 1914

Começa a Primeira Guerra Mundial.

17 /01/ 1917

A Alemanha estabelece bloqueio sem restrições ao comércio
marítimo com os Aliados.

11/04/ 1917

Rompimento das relações diplomáticas entre o Brasil e a Alemanha.

26/10/ 1917

Declaração de guerra entre o Brasil e a Alemanha.

01/08/ 1918

DNOG suspende de Fernando de Noronha com destino à África.

09/11/ 1918

Termina a Primeira Guerra Mundial.

09/06/1919

DNOG regressa ao Rio de Janeiro.

01/09/1939

Começa a Segunda Guerra Mundial.

11/03/1941

Assinatura da Lei de Empréstimos e Arrendamentos ­ Lend Lease ­ com
os Estados Unidos da América.

28/01/1942

Brasil rompe relações diplomáticas com os países do Eixo.

31/08/1942

Declaração de guerra entre o Brasil e a Alemanha ­ Criação
dos Comandos Navais na costa brasileira e Mato Grosso.

05/10/1942

Criação da Força Naval do Nordeste.

19/07/1944

Torpedeamento do Navio-Auxiliar Vital de Oliveira no través do
Farol de São Tomé.

21/07/1944

Afundamento da Corveta Camaquã próximo a Recife.

08/05/1945

Termina a Segunda Guerra Mundial.

04/07/1945

Afundamento do Cruzador Bahia entre o Nordeste e a África.

07/11/1945

A Força Naval do Nordeste regressa ao Rio de Janeiro.

159

FIXAÇÃO


O Programa de Reaparelhamento da Marinha de 1904, além da aquisição de navios,
incluía alguns melhoramentos fundamentais para um Poder Naval que se desejava no
Brasil. Quais eram esses melhoramentos? Quem foi o idealizador desse Programa?
Quem o modificou? Por que? Quais as alterações propostas?



Como estava a Marinha preparada para enfrentar os germânicos na Primeira Guerra
Mundial? Qual foi a principal contribuição da Marinha na luta contra as potências centrais?
Descreva em quinze linhas essa contribuição.



Por que o Brasil declarou guerra ao Eixo na Segunda Guerra Mundial? Como era
constituída a Marinha brasileira e quais as Defesas Ativas do Rio de Janeiro? Quais as
perdas na Marinha de Guerra nesse conflito?



O que foi o Programa Lend Lease?



O que efetivamente significou para a Marinha do Brasil a sua participação na Segunda
Guerra Mundial? Descreva em 15 linhas as suas conclusões.

SAIBA MAIS:
HISTÓRIA naval brasileira. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 1975- .
v.5. t.1B e t.2.
PÁGINAS NA INTERNET

Marinha do Brasil: www.mar.mil.br
Mundo Educação: www.mundoeducacao.com.br/primeira-guerra-mundial
Cultura Brasileira: www.culturabrasil.pro.br/segundaguerra.htm
Naufrágios.com: www.naufragios.com.br/subbra.htm

160

161


Símbolo da Organização das Nações Unidas

Símbolo da Organização dos Estados Americanos

162

O Emprego Permanente do Poder Naval
O Poder Naval na guerra e na paz
Sem o Poder Naval não haveria este Brasil que herdamos de
nossos antepassados. Conforme se verifica neste livro, o Poder
Naval português, por algum tempo o luso-espanhol, e, mais tarde,
após a Independência, o brasileiro, foram empregados com a
violência necessária nos conflitos e nas guerras que ocorreram no
passado. Toda vez que alguém utilizou a força para impor seus
próprios interesses encontrou a oposição de um Poder Naval que
defendeu com eficácia o território e os interesses que possibilitaram
a formação do Brasil.
Cabe observar que, em geral, o que qualquer nação mais
deseja é a paz. Mesmo os países que promoveram as guerras do
passado queriam alcançar a paz. A paz, porém, da forma que
desejavam, impondo aos outros o que lhes convinha.
A Alemanha mandou seus submarinos afundarem os navios
mercantes brasileiros porque não queria que o Brasil, apesar de
ser ainda neutro na Segunda Guerra Mundial, continuasse a fornecer
matérias-primas para seus inimigos. Algumas dessas matérias-primas
eram muito importantes para o esforço de guerra deles. O
interesse do Brasil era continuar comerciando com quem desejasse
e transportando as mercadorias livremente em seus navios, mas
isto não era bom para os alemães, que precisavam vencer a guerra
para alcançar a paz da forma que desejavam, o mais breve possível.
Na paz que a Alemanha queria, suas conquistas territoriais deveriam
ser reconhecidas pelos outros países e sua expansão, julgada por
ela importante para o futuro dos alemães, imposta aos povos
vencidos.
A guerra resulta de conflitos de interesses. Ela ocorre porque
não há um árbitro supremo para resolver completamente as
questões entre os países. Existem organizações internacionais,
como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização
dos Estados Americanos (OEA), por exemplo, que muito ajudam
para evitar a violência e manter essas questões no campo da
diplomacia. Verifica-se, no entanto, que o poder delas é limitado,
porque as nações são ciosas de sua soberania. Cada país precisa
se precaver, cuidando da defesa de seus interesses, para que



os outros nunca pensem em empregar meios violentos para
resolver os conflitos.
Não seria lógico pensar que alguém possa empregar a
violência sem que imagine ter uma boa probabilidade de êxito,
sofrendo apenas perdas aceitáveis. Cabe ao Poder Militar de um
país ­ do qual o Poder Naval é também um dos componentes ­
criar permanentemente uma situação em que seja inaceitável,
para os outros, respaldar seus interesses conflitantes com o
emprego de força. Isto é, o nosso Poder Militar deve
permanentemente dissuadir1 os outros países de usar a violência
e é, conseqüentemente, o guardião da paz ­ daquela paz que nos
interessa, evidentemente.
No caso do Brasil, por exemplo, na paz
que desejamos, a Amazônia é território nacional;
o comércio internacional deve ser livre, assim
como o uso do transporte marítimo nas rotas
de nosso interesse; a maior parte do petróleo
continua sendo extraída do fundo do mar, sem
ingerências de outros países; a enorme área
compreendida pela Zona Econômica Exclusiva
e pela Plataforma Continental brasileira,
chamada de Amazônia Azul2, é controlada pelo
País; não ocorrem exigências anormais no
pagamento de nossa dívida externa; entre outras
coisas. A dissuasão é, portanto, uma das
principais formas de emprego permanente do
Poder Militar em tempo de paz, existindo outras,
como veremos adiante.
Na paz, ou no que se denomina paz no
mundo, o confronto entre os países, resultante
de conflitos de interesses, ocorre evitando, ao
máximo, o uso da violência, porém, disputando
politicamente, econo-micamente e em todas as
outras manifes-tações da potencialidade
nacional. Nesse contexto, o potencial ofensivo
intrínseco dos instrumentos do Poder Militar faz
com que seu emprego, mesmo indireto, possa
excitar reações em países observadores. Tais
reações podem simplesmente resultar de excitação acidental ou
refletir resultados intencionalmente desejados por quem exerce
esse emprego indireto do Poder Militar, chamado de persuasão
armada.
Como a paz é relativa, a persuasão armada não exclui nem
o uso da força, de maneira limitada, desde que entendido como
simbólico pelo país agredido. As grandes potências internacionais,
como os Estados Unidos da América, a Rússia e outros utilizam
permanentemente seus poderes militares.

Dissuadir ­ desestimular a ação contrária aos
interesses.
1

A Amazônia Azul é a área marítima costeira
compreendida pela Zona Econômica Exclusiva
(ZEE) ­ uma faixa de 200 milhas de extensão, contadas a partir da linha de baixa-mar ­ e a Plataforma
Continental (PC), onde existir ­ uma extensão do
território continental que se prolonga mar adentro.
Essa PC, representada na figura azul mais escuro e
após a ZEE (azul mais claro), foi reivindicada junto à
ONU e foi levantada em trabalho conjunto da Marinha, Petrobras e universidades lideradas pela MB.
Aceita integralmente a proposta brasileira, nossas
águas costeiras abrangerão uma área um pouco inferior à Amazônia Legal, daí ser chamada de
Amazônia Azul.
2

163



Dos componentes do Poder Militar, o Poder Naval pode ser
empregado para exercer persuasão armada, em tempo de paz,
no que se denominou, na década de 1970, de "emprego político
do Poder Naval". Ele pode ser empregado em condições
inigualáveis com outros poderes militares, graças a seus atributos
de: mobilidade, versatilidade de tarefas, flexibilidade tática,
autonomia, capacidade de projeção de poder e alcance geográfico
­ que já foram referidos no primeiro capítulo deste livro. Concorre
para isso o conceito de liberdade dos mares, que possibilita aos
navios de guerra se deslocar livremente em águas internacionais,
atingindo locais distantes e lá permanecendo, sem maiores
comprometimentos, em tempo de paz.
Antes da invasão do Afeganistão em outubro de 2001, por
exemplo, os americanos deslocaram para águas internacionais,
próximas do local do conflito, uma poderosa força naval. Influíam
assim nos países da região, sinalizando apoio aos aliados,
dissuadindo as ações dos que lhes eram hostis e favorecendo o
apoio dos indecisos, em suma, criando intencionalmente uma
variedade de reações.
O sentido indireto da palavra persuasão é significativo, pois é
através da reação dos outros que ela se manifesta. Então, é
essencial que eles percebam o emprego das forças navais,
modificando seu ambiente político e, conseqüentemente, afetando
suas decisões, por se sentirem apoiados, dissuadidos ou mesmo
compelidos a uma reação específica. Exerce-se, portanto, a
persuasão armada estimulando resultados que dependem de
reações alheias, políticas e/ou táticas, às vezes conflitantes e em
princípio imprevisíveis. Existe sempre a possibilidade de se
configurarem situações inesperadas, até pelo resultado, não
intencional, da excitação
de terceiros. Daí a importância de uma permanente
avaliação em qualquer ação
de emprego político do
Poder Naval.

Manobra no mar do
Navio-Tanque Gastão Motta
e Fragata União

164

Os tipos de persuasão naval, específicos do emprego do
Poder Naval em tempo de paz, classificados quanto aos modos
em que os efeitos políticos se manifestam são:
­ sustentação;
­ dissuasão;
­ coerção.
Na sustentação e na dissuasão, a persuasão se manifesta
comportamentalmente em termos de se sentir apoiado ou
contrariado em suas intenções, de acordo com o próprio significado
dos termos empregados. Os aliados se sentem apoiados e quem é
hostil se sente inibido de agir, portanto, dissuadido.
A coerção, por sua vez, pode ser positiva ou compelente,
quando a uma ação já iniciada é forçada uma determinada linha de
ação, modificando-a, ou negativa, também chamada de deterrente,
quando inibe uma determinada atitude, impedindo que seja tomada.
Na crise da década de 1960, chamada de Guerra da Lagosta,
por exemplo, a França enviou navios de guerra, em tempo de paz,
para proteger seus barcos de pesca, que capturavam lagostas na
plataforma continental brasileira. O governo brasileiro determinou
que diversos navios da Marinha do Brasil se dirigissem para o local
da crise, mostrando que o País estava disposto a defender seus
direitos, se necessário com o emprego da força. Logo os navios
franceses retornaram e o conflito de interesses voltou para o
campo da diplomacia ­ de onde nunca deveria ter saído. A
persuasão naval exercida pelo emprego do Poder Naval
brasileiro foi de coerção deterrente3, porque inibiu o apoio que
intencionalmente os franceses pretendiam dar a seus barcos
de pesca.
No passado, muitas
vezes as nações detentoras
de Poder Naval utilizaram
seus navios de guerra e
forças navais com o propósito de sustentação ou de
dissuasão. A simples existência de um Poder Naval
preparado para a guerra
pode fazer com que aliados
se sintam apoiados em suas
decisões políticas nas
relações internacionais e
inimigos sejam dissuadidos de
suas intenções agressivas.
Evidentemente, os
efeitos da persuasão armada



Classificação

Coerção deterrente ­ a ação fez com que o
oponente desistisse de sua atitude.
3

Contratorpedeiro Araguari, que compôs junto
com os contratorpedeiros Pará, Pernambuco,
Paraná e Greenhalgh, a Força Naval que se dirigiu
para o local onde se encontravam os navios
franceses na chamada Guerra da Lagosta.

165


Treinamento de fuzileiros
navais brasileiros

166

podem se manifestar em diferentes níveis de intensidade. A relação
entre as forças empregadas para a persuasão naval e a intensidade
dos efeitos que elas estimulam não é nem direta nem proporcional.
A resultante final da persuasão depende da integração das inibições
e incitações provocadas pela ameaça ou apoio, que são, por sua
vez, função de decisões tomadas sob pressões políticas,
condicionadas por fatores psicossociais e culturais e pela interação
entre os líderes e a opinião pública. A percepção, portanto, além
de relativa, é essencial à análise da persuasão.

A percepção do Poder Naval
Como toda percepção, a do Poder Naval depende das
capacidades que são visíveis ao observador. Esse observador está
embebido num contexto político, doméstico, regional e
internacional, que não apenas molda suas reações, como também
influi na própria percepção.
Enquanto numa guerra preponderam as qualidades reais dos
meios empregados, que decidem os resultados das ações militares,
em situação de paz ou conflitos de natureza limitada, as ameaças
são medidas em termos de previsões e comparações. Essas
previsões se baseiam nos dados quantitativos e qualitativos ao
alcance do observador, de sua capacidade de perceber, portanto.
Os países desenvolvidos têm, em
geral, maior capacidade para avaliar as
verdadeiras ameaças resultantes do
Poder Militar, inclusive do Poder Naval,
que é um de seus componentes. Sabem
utilizar seus meios de comunicação para
divulgar notícias que valorizam a
capacidade de seus armamentos. O
mesmo não ocorre com países em
desenvolvimento, que podem até ter sua
percepção bastante influenciada por
essas notícias, tendo em vista suas
próprias limitações de análise.
Conseqüentemente, as avaliações das
forças navais podem levar a conclusões
bastante distorcidas em relação à
capacidade real em combate, mas, em
tempo de paz, são estas avaliações
subjetivas que importam e que
produzem resultados.
São "invisíveis" aos leigos em guerra
naval, por exemplo, a complexidade
sistêmica dos navios modernos,
necessárias às respostas rápidas e



eficazes, quando em combate. Por outro lado, são "visíveis" os
mísseis, os canhões e o próprio porte e aspecto externo do navio.
Na realidade, é importante que o navio tenha suficiente flexibilidade
para possibilitar seu emprego político, mas a função política de
tempo de paz não deve levar à preparação de um Poder Naval
apenas aparente.
O prestígio de uma Marinha sempre foi um dos atributos
mais importantes para a percepção do Poder Naval. O prestígio
está principalmente baseado nas capacidades "visíveis" e pode levar
à necessidade de demonstrar permanente superioridade. A Marinha
Real da Grã-Bretanha, por exemplo, durante a época em que
dominava os mares, fazia questão de manter o seu prestígio.
O Cruzador russo Askold, por exemplo, era o único navio
de cinco chaminés do mundo e, em 1902, visitou o Golfo Pérsico.
Sua visita causou profunda impressão, devido à percepção de
potência mecânica que o número de chaminés transmitia. Em
resposta, os britânicos desviaram o Cruzador HMS Amphritite para
Mascate (capital de Omã). Para eles, a disputa de prestígio com a
Rússia no Oriente era importante. Seu comandante providenciou
mais duas chaminés de lona para seu navio, totalizando seis e
restaurando o prestígio local da Marinha Real.
Possivelmente, a percepção mais importante do emprego
político de uma força naval não está na aparência da força em si,
nem no prestígio da Marinha a que pertence, mas na percepção
do quanto é realmente importante o objetivo pretendido para
quem aplica a persuasão armada. A disposição de usar a força e
de sofrer as perdas conseqüentes deste ato é essencial e deve ser
claramente perceptível. A percepção da capacidade de alcançar o
objetivo pela força também é muito importante. Pode ocorrer
que não exista essa capacidade, ou que não se possa alcançar o
objetivo sem um sacrifício superior ao seu valor, ou basta que
assim seja avaliado pelo país alvo, para que os resultados não sejam
atingíveis através do emprego político do Poder Naval.
É interessante observar que, atualmente, os mísseis arsuperfície e superfície-superfície colocaram países relativamente
fracos em condições de causar danos consideráveis a uma força
naval próxima a suas costas. Tal fato, porém, não impede que uma
força naval possa exercer persuasão, porque não é sua capacidade
absoluta que importa, mas sim o que ela significa como
representante do Poder Naval e da vontade de seu país de alcançar
o objetivo suportando as perdas prováveis, se tal for assim
percebido.
Na crise provocada pelos mísseis que a União Soviética
pretendia instalar em Cuba, em 1962, a Marinha dos Estados Unidos
mostrou determinação suficiente para que os soviéticos decidissem
que os navios que transportavam os mísseis deveriam regressar.
Foi portanto uma ação de coerção deterrente do emprego político

167



do Poder Naval americano, pois modificou uma ação que já estava
em andamento, em face de terem percebido que os americanos
estavam dispostos a usar a força para não ter seu território ao
alcance dos mísseis de Cuba.
Considerando o conflito pela posse das Ilhas Falklands/
Malvinas, em 1982, os argentinos deixaram de ser dissuadidos pelo
Poder Naval britânico e invadiram as ilhas, porque julgaram que o
valor daquelas ilhas não compensava o esforço de projetar o poder
da Marinha da Grã-Bretanha àquela distância no Atlântico Sul, em
face das perdas humanas e materiais que provavelmente teria. Por
seu turno, a ocupação militar das ilhas falhou porque o governo
britânico levou a questão ao ponto de defesa da honra do
Reino Unido.
O ambiente doméstico do país que é alvo da persuasão é
básico no contexto político das decisões que governam sua eficácia.
É fundamental que os líderes desse país aceitem serem persuadidos
e até cooperem, servindo de intermediários com a opinião pública,
para que o objetivo da persuasão seja considerado uma necessidade
imposta e a atitude tomada como pragmática.

O emprego permanente do Poder Naval
A teoria do emprego político do Poder Naval mostra a
possibilidade do uso permanente das forças navais em tempo de
paz, em apoio aos interesses de uma nação. Isso é verdade tanto
para os países desenvolvidos quanto para os países em
desenvolvimento e a intensidade e tipos de emprego são apenas
funções do ambiente regional onde se situam e das vulnerabilidades
que possuem.
Para os países mais pobres, o armamento moderno
possibilita condições excepcionais, em relação ao passado. O
conflito das Falklands/Malvinas, em 1982, apesar do desfecho
desfavorável à Argentina, é um exemplo que não pode deixar de
ser citado, porque poderia, até, ter outro resultado, se houvesse
submarinos argentinos eficazes e suficientes.
Táticas podem ser descritas para a persuasão naval. Essas
táticas são as diversas formas de emprego das forças navais para
alcançarem resultados políticos em tempo de paz. Elas são:
· demonstração permanente do Poder Naval;
· posicionamentos operativos específicos;
· auxílio naval;
· visitas operativas a portos; e
· visitas específicas de boa vontade.
A demonstração permanente do Poder Naval permite,
através de ações como deslocamentos e manobras com forças,
inclusive estrangeiras, participação em missões de paz da
Organização das Nações Unidas; reforços e reduções de nível de

168

O Poder Naval brasileiro é empregado em tempo de paz de
diversas maneiras, podendo-se destacar:
­ as operações com Marinhas aliadas, como a Operação Unitas,
com a Marinha dos Estados Unidos e de países sul-americanos; a
Operação Fraterno, com a Armada da República Argentina; e muitas
outras;
­ a participação em diversas missões de paz, transportando as tropas
ou através de seus fuzileiros navais, como em São Domingos,
Angola, Moçambique, Nicarágua e Haiti;
­ e as viagens de instrução do navio-escola e as visitas a portos
estrangeiros, "mostrando a bandeira".
Cabe também ressaltar o apoio que a Marinha do Brasil presta
a outras Marinhas aliadas, na América do Sul e no continente
africano.



forças; aumento ou redução da prontificação para combate; e obter
efeitos desejados como: aumentar a intensidade da persuasão;
desencorajar; demonstrar preocupação em crises entre terceiros;
exercer coerção ou apoio de maneira limitada ou restrita, entre
outros.
Os posicionamentos operativos específicos, situando navios
ou forças navais próximo a um local de crise constituem apenas
um caso especial da demonstração permanente e as ações podem
ser semelhantes.
O auxílio naval inclui a instalação de missões navais, o
fornecimento de navios e o apoio de manutenção.
As visitas a portos estrangeiros, para reabastecimento,
descanso das tripulações, ou mesmo, específicas de boa vontade,
no que se denomina "mostrar a bandeira", podem transmitir a
imagem do prestígio da Marinha, aumentando a influência e
acumulando vantagens psicossociais sobre o país visitado.

Placa existente, em 2006, no portão de entrada da
Base de Fuzileiros Navais no Haiti. Acadêmica
Rachel de Queiroz.
O nome da Base é em homenagem à escritora,
autora da frase estampada em português e francês
(língua oficial do Haiti).

169

A análise do passado demonstra a necessidade do emprego
permanente do Poder Naval. Para o Brasil, é importante manter
um Poder Naval capaz de inibir interesses antagônicos e de
conservar a paz como desejada pelos brasileiros.

Navio Veleiro Cisne Branco

Navio-Escola Brasil

170



G L O S S Á R I O



CLASSIFICAÇÃO GERAL DE NAVIOS DE GUERRA
Brigue ­ Do inglês brigantine, do francês brick: navio a vela, com dois mastros espigando mastaréus
e envergando pano redondo, com velas de entremastro e gurupés e um latino quadrangular no
mastro da mezena.
Bergantim ­ Do italiano brigantino, embarcação pirata do Mediterrâneo, do inglês brigantine, do
francês, brigantin. Antiga embarcação a vela e remo, esguia e veloz, de convés corrido, com um ou
dois mastros de galé e oito a dez bancos para remadores. Posteriormente, navio a vela de dois
mastros, cada um espigando dois mastaréus (mastro suplementar preso ao mastro real) e envergando
pano redondo, com velas no entremastro e gurupés, armado com 10 a 20 peças de artilharia.
Caravela ­ De caravo, do inglês caravel, do francês caravelle: navio de casco alto na popa e baixo na
proa, de proa aberta ou coberta, arvorando de um a quatro mastros de velas bastardas (latinas e
triangulares) e armado com até dez peças de artilharia. Sua tonelagem variava de 60 a 160t. Algumas
caravelas tinham velas redondas no mastro do traquete; foram os navios mais utilizados pelos
portugueses nos descobrimentos marítimos dos séculos XV e XVI; tinham pouco calado, bolinavam
bem e eram de fácil manobra.
Caravo ­ Embarcação a vela, de porte variável, muito utilizado pelos mouros no Mediterrâneo.
Corveta ­ Do francês corvette: navio de guerra semelhante à nau, menor e mais armado que ela,
com três mastros, sem acastelamentos, armado apenas com uma bateria de canhões, coberta ou
descoberta, porém mais veloz. Apareceu em fins do século XVIII para substituir a fragata e o brigue
em missões de reconhecimento ofensivo, para o qual este era demasiado fraco e aquela forte demais,
e desempenhava missões de aviso, de transporte e munição.
Durante a Segunda Guerra Mundial foram empregadas pelos aliados para patrulha anti-submarino
e escolta a comboios. As corvetas construídas após a guerra eram basicamente navios de patrulha
adaptados a diversas finalidades, inclusive salvamento e reboque. Eram navios pequenos, de 500 a
1.100t, e velocidade de 12 a 18 nós. Atualmente, principalmente devido aos altos custos das fragatas
e contratorpedeiros, as corvetas estão readquirindo sua importância, com várias Marinhas envolvidas
em programas de construção de navios desta classe. As modernas corvetas da Marinha brasileira
(Classes Inhaúma e Barroso) são dotadas de boa capacidade anti-submarina, mísseis antinavio, canhão
de duplo emprego (antiaéreo e superfície), sistemas de defesa antiaérea e antimíssil de curta distância
e podem operar um helicóptero. Devido a sua complexidade e armamento, algumas Marinhas as
classificam como fragatas leves.
Cruzador ­ Navio de combate, de tamanho médio, grande velocidade, proteção moderada, grande
raio de ação, boa mobilidade, e armamento de calibre médio e tiro rápido, destinado a efetuar
explorações, coberturas, escoltas de comboios (contra-ataque) de superfície, guerra de corso,
bombardeios de costa, etc.
Os cruzadores descendem das antigas fragatas. A Revolução Industrial, que permitiu, em meados
do século XIX, a substituição quase simultânea da vela pela máquina a vapor e da madeira pelo ferro,
resultou em profundas modificações nos métodos da guerra naval. Em 1860, começaram a surgir as

173

primeiras fragatas dotadas de couraça, assumindo logo depois um papel preponderante na linha de
batalha, e sentiu-se a necessidade de dar às fragatas mais velozes e menos armadas uma função de
observação avançada.
Na Guerra Civil Americana (1861-1865) apareceu o cruzador ligeiro, um navio levemente
armado, sem proteção, destinado a dar caça aos navios de comércio e reprimir o contrabando.
Pouco depois surgia o cruzador protegido, dotado de uma coberta protetora e subdivisões
internas adequadas.
Entretanto, somente em 1889 é que começaram a aparecer os modernos cruzadores,
tendo a Inglaterra nesse ano mandado construir navios que classificavam três tipos: cruzadores
de 1a, 2a e 3a classes.
No princípio do século XX, a Inglaterra construiu os cruzadores de batalha. Na Batalha da
Jutlândia, em 1916 (Primeira Guerra Mundial), três cruzadores de batalha ingleses foram afundados
com quase toda a tripulação: o Invencible, o Infatigable e o Queen Mary. Todos eles explodiram
depois de alguns impactos e admitiu-se que os projéteis tenham atingido os paióis de munição devido
à sua leve couraça. O mesmo fato repetiu-se em 1941 (Segunda Guerra Mundial) com o Hood, inglês
e considerado o maior navio do mundo na época, liquidado com a terceira salva do Encouraçado
alemão Bismarck.
Os tratados assinados em 1919 proibiam a Alemanha de construir navios de guerra com mais
de 10.000t de deslocamento. Tendo isto em vista, esse país construiu três navios, o Almirante Graff
Spee, o Almirante Scheer e o Deutschland (alterado em 1940 para Lutzow), aos quais classificou como
panzerschiffe (navio encouraçado). Até 1939, pouco se sabia sobre eles fora da Alemanha, e a imprensa
os cognominou de encouraçados de bolso. Aparentemente, tinham 10.000t de deslocamento, mas
eram na realidade supercruzadores de 12.000t, armados com seis canhões de 11 polegadas (280mm)
e oito de 5,9 polegadas (150mm).
O Graff Spee foi vencido na Batalha do Rio da Prata, Argentina, em 1939 (onde se refugiou
avariado e foi afundado pelo próprio comandante), por uma Força Naval composta de um cruzador
pesado de 8.400t , o Exeter, e dois cruzadores leves, o Ajax e o Achilles.
Os cruzadores construídos até a Segunda Guerra Mundial eram classificados em cruzadores
pesados e cruzadores ligeiros. É lógico admitir que os cruzadores pesados eram maiores e mais
poderosos, mas a base desta classificação não era o tamanho, e sim o armamento, sendo considerados
pesados os que tinham canhões de mais de seis polegadas em sua bateria principal e ligeiros aqueles
cujos canhões eram menores. Havia ainda os cruzadores de batalha, navios que, em comparação
com os encouraçados, tinham canhões de mesmo calibre, mas, em menor número, possuíam maior
velocidade e menor couraça.
Os cruzadores pesados (CP) possuíam uma bateria principal de oito a dez canhões de oito
polegadas, dispostos em torres duplas encouraçadas, ou nove canhões em torres tríplices. Sua bateria
secundária era constituída de oito a doze canhões de cinco polegadas e a bateria antiaérea por um
grande número de armas automáticas para tiro a curta distância; possuíam proteção de couraça e
alguns CP levavam hidroaviões ou helicópteros.
Em 20 de julho de 1959, a Marinha norte-americana lançou ao mar o Long Beach, de 14.000t,
classificado como cruzador nuclear de mísseis guiados. Primeiro navio de guerra de superfície de
propulsão nuclear do mundo, com velocidade superior a 45 nós, desenhado para operar contra
quaisquer inimigos na guerra nuclear ou convencional. Possuía os mais modernos equipamentos
para detectar e destruir submarinos, aviões e mísseis inimigos da época.
O cruzador nuclear de mísseis guiados California, de 9.500t, lançado ao mar em 1971,
semelhante ao Long Beach, foi o primeiro navio de guerra a ser armado com canhões de cinco
polegadas desguarnecidos.

174

O primeiro cruzador de mísseis guiados da classe Ticonderoga foi lançado ao mar em 1981,
constituindo-se no mais moderno e poderoso cruzador da atualidade, podendo contar com uma
excelente capacidade de detecção nos três ambientes de guerra, além de equipamentos de guerra
eletrônica de última geração e boa capacidade de defesa contra ataque nuclear, químico e biológico.
Contratorpedeiro ­ Navio de combate destinado a combater as torpedeiras. Ver verbete: torpedos,
torpedeiras, contratorpedeiros.
Contratorpedeiro-de-Escolta ­ Contratorpedeiro construído na Segunda Guerra Mundial pelos
Aliados, especialmente para escoltar comboios. É menor que o contratorpedeiro comum, de menor
velocidade e com armamento preponderantemente anti-submarino.
Contratorpedeiro-líder ­ Contratorpedeiro maior do que o comum, com acomodações para um
comandante de força e seu estado-maior, utilizado como líder de flotilha; contratorpedeiro de esquadra.
Encouraçado ­ Do inglês ironclad, battleship, do francês cuirassê: navio de combate desenvolvido
no século XIX, armado de canhões de grosso calibre, fortemente protegido por couraças nos pontos
vitais, e por subdivisão interna do casco em compartimentos estanques. Até a Segunda Guerra Mundial
era o navio de combate mais poderoso, deslocando de 30 a 50 mil toneladas, e destinado a constituir
a espinha dorsal da linha de batalha, no combate entre Esquadras. Durante a Segunda Guerra Mundial,
os encouraçados foram empregados para canhonear fortificações costeiras, nas operações anfíbias;
depois cederam a primazia aos navios-aeródromos.
Na Marinha do Brasil: Encouraçados Minas Gerais e São Paulo do tipo Dreadnought, lançados ao
mar em 1910 e desativados na década de 1950.
Os primeiros navios encouraçados foram as fragatas francesa Gloire e inglesa Warrior, construídas
em 1860. Eram navios a vela e vapor, tendo seus números canhões nas cobertas, que ficavam
protegidas pela couraça. Na Gloire, a couraça estendia-se por todo o comprimento do casco, desde
o convés até dois metros abaixo da linha-d`água em plena carga, e tinha a espessura de 120mm nas
obras vivas e 110mm nas obras mortas. A Warrior tinha uma cinta couraçada estendendo-se por 60
metros na parte central do casco, limitada na proa e a ré por duas anteparas transversais de couraça.
O calibre dos canhões foi aumentando gradualmente com a espessura das couraças até que, com o
surgimento das primeiras torpedeiras, entre 1875 e 1880, houve necessidade de se adotar nos
encouraçados uma artilharia de calibre médio e tiro rápido.
Na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905) apareceram os encouraçados maiores, bem armados,
com canhões de grosso, médio e pequeno calibre. Em 1906, a Inglaterra revolucionou a arquitetura
naval com a construção do tipo Dreadnought, em que se suprimia a artilharia médio calibre, aumentavase o deslocamento para 18.000t e a velocidade para 21 nós. Logo em seguida, em 1910, o mesmo
país sentia necessidade de restaurar a bateria secundária ao construir para o Brasil os Encouraçados
Minas Gerais e São Paulo, os maiores navios daquela época, cujo tipo evoluiu nos encouraçados da
Segunda Guerra Mundial.
Até aquela época, o encouraçado era considerado o navio mais poderoso, reunindo máximo
poder ofensivo. Em ações da Esquadra, ele permanecia na linha de batalha atacando os maiores
navios inimigos com tiros de canhão de grosso calibre, apoiado por cruzadores, navios-aeródromos
e contratorpedeiros.

175

Os encouraçados têm sido utilizados para bombardeio pesado e contínuo de instalações de
terra e portos inimigos, inclusive para apoio de operações anfíbias. Na Segunda Guerra Mundial, eles
também faziam parte da escolta dos grandes comboios.
Até a última grande guerra, o armamento dos encouraçados constituía-se de:
1) uma bateria principal com canhões de 304mm a 406mm, geralmente dispostos em torres
tríplices e que lançavam projéteis pesando cerca de uma tonelada a mais de 20 milhas de
distância;
2) uma bateria secundária com canhões de 122mm ou 147mm, em numero de 15 a 20, dispostos
em torres duplas;
3) bateria antiaérea com armas automáticas de pequeno calibre.
A modernização dos encouraçados que estão em serviço inclui: substituição de parte de sua
bateria secundária e antiaérea por lançadores de mísseis de cruzeiro e antinavio; instalações de novos
sensores, sistema de defesa antimíssil, sistema de direção de tiro e equipamentos de guerra eletrônica
passiva e ativa; e capacitação para operar três helicópteros de porte médio.
O encouraçado é, em síntese, uma plataforma flutuante móvel de canhões de grosso calibre e
longo alcance. A couraça constitui a principal proteção contra tiros de canhão. A espessura da couraça
varia nas diferentes partes do casco, devendo a espessura máxima ser aproximadamente igual ao
calibre dos canhões dos navios semelhantes de outras nações. Considera-se que a couraça deve
resistir à penetração dos projéteis de calibre igual a sua espessura, quando lançados das distâncias
usuais de tiro.
A couraça é de maior espessura nas torres e na cinta, onde é mais provável o impacto direto
dos projéteis em ângulo favorável à penetração. Na torres dos canhões e na torre de comando, a
espessura pode atingir 457mm.
A couraça lateral é uma cinta encouraçada de pouco mais de uma altura de coberta, estendendose ao longo da parte central do casco, que compreende suas partes vitais, na linha-d'água e um
pouco abaixo.
A couraça horizontal protege o casco contra as bombas aéreas e tiros de canhão de grande
elevação; consta de um convés encouraçado de 152 a 205mm e um convés protegido, abaixo do
primeiro, com cerca de 101mm de espessura. Os pavimentos destas coberturas ajudam a absorver
a energia de choque do projétil.
Outras partes do casco, como os compartimentos dos aparelhos de governo, estações de
direção de tiro, passagens principais e tubulações colocadas acima da coberta encouraçada são também
protegidas por chapas de couraça. O peso da couraça pode atingir 40% do peso total do navio.
A proteção contra explosões submarinas (torpedos, bombas e minas) é realizada por duas ou
três anteparas longitudinais, constituindo compartimentos de segurança laterais, chamados coferdans
ou contraminas. Esses compartimentos são cheios de óleo, de água, ou são conservados vazios. A
espessura das chapas dos coferdans, óleo e a água absorvem grande parte do choque e do calor da
explosão; os espaços vazios tendem a absorver a compressão dos gases resultantes da explosão,
reduzindo seus efeitos antes de ser atingida a antepara interna.
Encouraçado de bolso ­ Do inglês pocket batteship: nome cunhado pela mídia para designar os
encouraçados de 10.000 toneladas, construídos e empregados pelos alemães durante a Segunda
Guerra Mundial. Ex: Graff Spee.
Fragata ­ (Do italiano) Embarcação menor que o bergantim com popa menos elevada. Navio de
guerra semelhante à nau, menor e menos armado que ela, porém mais veloz e de melhor manobra.
Não tinha castelo e sua mastreação era de galera. Apareceu na primeira metade do século XVII,
como aviso e, com o tempo, chegou a ter 60 peças de artilharia e deslocamento de 1.800t (no
último quartel do século XIX houve fragatas mistas, a vela e a vapor).

176

(Do português) Embarcação de boca aberta e popa chata, com um mastro que enverga vela
latina quadrangular e duas velas de proa, 200 a 300t de capacidade de carga, usada no Rio Tejo para
transporte de mercadorias.
Modernamente, navio de combate maior e mais bem armado que a corveta, empregado para
patrulha anti-submarina e escolta de comboio e de forças-tarefas, cujo principal armamento são
mísseis. São dotadas de numerosos sensores eletrônicos. No Brasil, fragatas da classe Niterói, com
duas das seis incorporadas construídas no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ).
As fragatas estão ligadas aos contratorpedeiros. Cumprem os mesmos tipos de tarefa e têm
características semelhantes. Estes navios, hoje, se confundem. Pode-se dizer que, em geral, as fragatas
têm menor deslocamento, menor velocidade e menor quantidade de armamento que os
contratorpedeiros, mas isso está longe de ser uma regra geral e varia de Marinha para Marinha.
Podem atuar em qualquer ambiente da guerra naval, sendo empregadas, principalmente, em ataques
contra navios de superfície; guerra anti-submarino; defesa antiaérea e antimíssil; apoio a operações
anfíbias; operações de esclarecimento e como piquete radar; escolta de comboios; e guerra de
corso contra navegação mercante e combate ao narcotráfico.
As fragatas americanas da classe Oliver Hazard Perry utilizam mísseis guiados na defesa antiaérea,
antimíssil e para ataque a navios de superfície. A primeira unidade dessa classe foi comissionada em
1977. Os navios têm propulsão a turbina a gás e são equipados com mísseis Standard e Harpoon,
armamento de 76 e 20mm e dois tubos triplos de torpedos, além de vários equipamentos utilizados
na guerra eletrônica. Elas também podem operar com dois helicópteros orgânicos.
Galé ­ (Do inglês galley), do francês galée ­ Embarcação de guerra da Antigüidade greco-romana
e bizantina, comprida e estreita, impelida basicamente por grandes remos (15 a 30 por bordo,
manejado cada um por três a cinco remadores sentenciados a trabalhos forçados) e, eventualmente,
por duas velas bastardas1 içadas em mastros próximos à proa. Era dotada de esporão, que constituía
o seu principal instrumento de ataque a navios inimigos.
Galera ­ Navio mercante a vela, com gurupés, três mastros2, cada um com dois mastaréus, cruzando
vergas (velas redondas) e, eventualmente, com velas latinas quadrangulares.
Galeão­ (Do inglês galeno, do francês galion) ­ Embarcação de alto-bordo, com dois ou três
mastros envergando velas redondas e gurupés com velas de proa; empregada no transporte de
ouro e prata da América para a Espanha e Portugal nos séculos XVI, XVII e XVIII. Era armado
com numerosos canhões.
Monitor ­ Navio de combate, de calado reduzido, borda-livre muito pequena, armado com canhões
de médio ou grosso calibre, em geral instalados numa torre giratória na parte de vante e na mediana,
para emprego em operações fluviais ou de bombardeio de costa. A vela fora abolida, e o casco do
monitor era todo de ferro, bastante baixo, com uma borda livre de 40cm apenas; as únicas estruturas
acima da borda eram a torre, uma pequena estação de governo e as chaminés.

Vela bastarda: pano quadrangular, cujas dimensões são tão pequenas que o pano parece triangular, e que é estendida em uma verga
muito comprida, inclinada no mastro.

1

2

Excepcionalmente, existiam galeras com quatro ou cinco mastros.

177

Durante a Guerra Civil Americana a partir de 1861, os confederados construíram uma bateria
encouraçada auto-impulsionada chamada Merrimack. Embora pouco de novo apresentasse em relação
às canhoneiras francesas da Criméia, revelou-se uma ameaça que foi enfrentada pelo Monitor, do
engenheiro naval sueco John Ericsson. Embarcação de ferro, com bordo livre baixo de 52m de
comprimento cobrindo um casco convencional de 37m. Não havia nenhuma superestrutura além de
chaminés, escotilhas, pequena estação de governo e, a obra-prima de Ericsson, uma única torre
rotativa que continha dois canhões de antecarga de 11 polegadas. A disposição da torre sobre o
convés permitia a redução do número de canhões, por atirarem eles pelos dois bordos.
Nau ­ Até fins do século XV, navio de porte relativamente grande, com acastelamentos à proa e à
popa, arvorando geralmente um só mastro com vela redonda (ou "pano"). Daí até fins do século
XVI, princípios do XVII, as naus foram aumentando de tamanho, tornaram-se muito bojudas (boca
com cerca de 1/3 do comprimento da quilha), passaram a arvorar até três mastros (traquete, grande
e mezena) envergando pano redondo, e uma vela latina quadrangular à popa além de gurupés, e
tinham até três ou quatro cobertas com duas a três baterias de canhões; dependendo destas, variava
o número de peças de artilharia que portavam. Com o passar dos anos, foi-se modificando o seu
velame. Eram embarcações imponentes, em geral ricamente ornamentadas, mas de difícil manejo.
Nau de Guerra ­ Destinada a proteger o comércio marítimo e fazer a guerra no mar, armada de 60
a 120 peças de artilharia, podendo ser de 1a classe (mais de 100 canhões), de 2a classe (90 a 100
canhões) ou de 3a (40 a 80 canhões).
Nau de linha ­ Armada com 74 canhões ou mais, assim chamada porque integrava a linha de batalha
nos combates navais de vulto.
Torpedos, torpedeiras, contratorpedeiros ­ Os primeiros torpedos surgiram no início do século
XIX, sob a forma de uma carga explosiva rudimentar, que deveria ser transportada por pequenas
embarcações para ser colocada sob o casco de um navio fundeado, onde explodiria com uma espoleta
de tempo. Apareceram também os torpedos rebocados por um cabo de aço, mas a dificuldade da
aproximação sem ser notado pelo inimigo retardou o desenvolvimento da nova arma. Apesar disto,
alguns navios foram afundados desta maneira até 1864, quando o escocês Robert Whitehead construiu
o primeiro torpedo de autopropulsão.
Com o desenvolvimento do torpedo, começaram a aparecer navios destinados à sua utilização,
as torpedeiras. Os primeiros navios deste tipo, que empregaram torpedos Whitehead, foram
construídos de 1875 a 1880. Eram embarcações costeiras, com aproximadamente 30t de
deslocamento e que atacavam principalmente à noite ou com nevoeiro, pois seus torpedos de seis
nós de velocidade só percorriam 100 metros de distância.
O sucesso das torpedeiras fez aparecer o navio destinado a combatê-las. Maior, mais rápido e
armado com canhões de médio calibre para emprego contra a chapa fina das torpedeiras, ficou
conhecido como contratorpedeiro (destróier).
Na Guerra Hispano-Americana (1898), as torpedeiras e contratorpedeiros assumiram papel
predominante, mas os últimos, logo dotados também de torpedos, mostraram-se tão eficientes em
todas as formas de combate que foram também tomando o lugar dos próprios navios a que eram
destinados a combater, reduzindo a importância das torpedeiras. Os contratorpedeiros foram
aumentando de ano a ano, em tamanho, velocidade e poderio, e hoje são navios destinados não
somente a atacar navios de sua espécie, mas também podem ser empregados com eficiência contra
todos os demais navios, tornando-se os mais decididos adversários de submarinos. Nas duas guerras
mundiais, esses navios tiveram grande desenvolvimento e foram usados com muito sucesso.

178

Os maiores contratorpedeiros dos últimos anos são os da classe Spruance. Construídos de
forma modular, em uma linha de montagem muito avançada, têm 170m de comprimento, 8.040t de
deslocamento, propulsão a turbina a gás e velocidade acima de 30 nós. Seu armamento inclui mísseis
de cruzeiro, antiaéreos, antinavios, armas para guerra anti-submarino, canhões e helicópteros.
Atualmente, além de serem navios bastante versáteis, os contratorpedeiros são também os
mais numerosos navios de guerra do mundo. São navios de grande velocidade, podendo desenvolver
até mais de 30 nós, com grande mobilidade, pequena autonomia, tamanho moderado e pequena
proteção estrutural. Seu armamento principal consta de mísseis de curto e longo alcance, torpedos,
canhões e helicópteros.
Apesar de executarem todos os tipos de tarefas, são empregados principalmente em proteção
de um grupo de batalha nucleado por um navio-aeródromo; guerra anti-submarino; ataques contra
navios de superfície e alvos em terra; defesa antiaérea e antimíssil; apoio a operações anfíbias;
operações de esclarecimento e como piquete radar; e escolta a comboios.
Os contratorpedeiros modernos possuem mísseis de cruzeiro de longo alcance, canhões de
4,5 ou 5 polegadas de tiro rápido, mísseis antinavio, lançadores de torpedo, mísseis para defesa
antiaérea a curta, média e longa distâncias, helicópteros capazes de levar torpedos e mísseis e grande
capacidade de trocar informações com navios da força por meio de link de dados. A Marinha americana
possui ainda contratorpedeiros com grande capacidade de defesa nuclear e utilização de tecnologia
stealth, a qual dificulta a identificação do mesmo pelo inimigo, utilizando para isso diferentes tecnologias,
como uso de superfície e bordas em ângulo (evitando-se ângulos retos), para diminuir a sua superfície
refletora de radar, sistemas de resfriamento de equipamentos e compartimentos diminuindo a
assinatura infravermelha. Um exemplo disso seria o resfriamento dos gases das turbinas, que, antes
de atingirem o exterior do navio, aquecem a água dos grupos destilatórios e, conseqüentemente, se
resfriam antes de chegarem ao meio ambiente, dificultando assim a detecção do navio por sistemas
infravermelho.
A utilização de equipamentos elétricos, tais como cabrestante e guinchos, nas partes internas
do navio são muito eficientes para diminuir a assinatura acústica e, com isso, dificultar a detecção por
submarinos. Todo e qualquer artifício utilizado para evitar a detecção do navio pelo inimigo pode ser
considerado tecnologia stealth.

179



B I B L I O G R A F I A



ALBUQUERQUE, Antonio Luiz Porto e . História do Brasil. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação
da Marinha, 1985.
__________________. Considerações sobre o poder naval do Brasil na década de 1860/70. In:
Navigator: subsídios para a história marítima do Brasil, Rio de Janeiro, n.2, dez. 1970.
BITTENCOURT, Armando de Senna. Caxias e Inhaúma. Revista Marítima Brasileira, Rio de Janeiro,
v.123, n.10/12, out./dez. 2003.
BOXER, Charles Ralph. Império marítimo português: 1415-1825. São Paulo: Companhia das Letras,
2002.
CAMINHA, Herick Marques. Dicionário marítimo brasileiro. Rio de Janeiro: Clube Naval, 1996.
___________________. Organização e administração do Ministério da Marinha na República. Brasília:
Fundação Centro de Formação do Servidor Público; Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da
Marinha, 1989.
CARVALHO, Alvanir Bezerra. Construção de modelo de chatas-canhoneiras. Revista Marítima
Brasileira, Rio de Janeiro, v.115, n.10/12, p.111-126, out/dez, 1995.
COSTA, Francisco Felix Pereira. História da guerra do Brasil contra as Repúblicas do Uruguai e Paraguai.
Rio de Janeiro: Livraria Guimarães, 1870. v.3.
FORTES, Diogo Borges. Passo da Pátria: operação anfíbia. Revista Marítima Brasileira, Rio de Janeiro,
v.68, n.10/12, out./dez. 1949.
GANSHOF, F. L. O que é feudalismo? 3.ed. São Paulo: Ed. Europa-América, 1974.
GUEDES, Max Justo. Barão do Rio Branco e a modernização da defesa. Revista Marítima Brasileira,
Rio de Janeiro, v.123, n.7/9, p.99-116, jul./set. 2003.
_________________. Independência ou morte. Revista Marítima Brasileira, Rio de Janeiro, v.90, n. 7/
9, jul./set. 1970.
_________________. O Descobrimento do Brasil. Rio de Janeiro: Diretoria do Patrimônio Histórico
e Cultural da Marinha, 1998.
HISTÓRIA geral da civilização brasileira. Direção de Sérgio Buarque de Holanda e Pedro Moacyr
Campos. 5.ed. São Paulo: Difel, 1976. t.1.
HISTÓRIA geral do Brasil: da colonização portuguesa à modernização autoritária. Org. de Maria
Yedda Linhares. Rio de Janeiro: Campus, 1990.
HISTÓRIA naval brasileira. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1975- .

180

IMPÉRIO. In: BRASIL história: (texto e consulta). 2.ed. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1979. v.2. p.115-27.
MAIA, João do Prado. A Marinha de Guerra do Brasil na Colônia e no Império: (tentativa de reconstituição
histórica). Rio de Janeiro: J. Olympio, 1965.
MARTINS, Helio Leôncio. A estratégia naval brasileira da Guerra do Paraguai: (com algumas
observações sobre ações táticas e o apoio logístico Revista Marítima Brasileira, Rio de Janeiro, v.117,
n.7/9, jul./set. 1997.
_______________; BOITEUX, Lucas Alexandre. Campanha naval na Guerra Cisplatina. In: HISTÓRIA
naval brasileira. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1975- . v.3, t.1.
MEIRELLES, Teotônio. A Marinha de Guerra brasileira em Paissandu e durante a Guerra do Paraguai. Rio
de Janeiro: Tipografia Teatral e Comercial, 1876.
MENDONÇA, Lauro Nogueira Furtado de. Humaitá. Navigator: subsídios para a história marítima
do Brasil, Rio de Janeiro, n.2, p.72-82, dez. 1970.
REINO Unido e Brasil. In: O EXÉRCITO na história do Brasil. Salvador, Odebrecht, 1998. v.2.
ROCHA, Manuel Carneiro da. Diário da Campanha Naval do Paraguai: 1866. Rio de Janeiro: Serviço de
Documentação da Marinha, 1999.
SCAVARDA, Levy. A Marinha no final de uma campanha gloriosa: de Humaitá a Assunção. Navigator:
subsídios para a história marítima do Brasil, Rio de Janeiro, n.2, dez. 1970.
TEIXEIRA, Rafael Danton Garrastazu. Resumo da Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Typographia,
1982.
TELLES, Pedro Carlos da Silva. História da construção naval no Brasil. Rio de Janeiro: FEMAR/LAMN,
2001.
VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. História geral do Brasil. 9.ed. São Paulo: Ed. Melhoramentos,
1978. 3v.
VIANNA, Hélio. História do Brasil: período colonial, Monarquia e República. 14.ed. São Paulo: Ed.
Melhoramentos, 1980.
VIANNA, Paulo Fernando Dias et alii. Fiscais e meirinhos: a administração no Brasil Colonial. Rio de
Janeiro: Arquivo Nacional/Ed. Nova Fronteira/ Pró-Memória/INL, 1985.

181