HISTÓRIA E MEIO AMBIENTE: CONSIDERAÇÕES SOBRE A FORMAÇÃO CONTINUADA EM
PESQUISA, ENSINO E APRENDIZAGEM
Paulo Henrique Martinez1
Resumo:

Um balanço da realização do projeto "História e Meio Ambiente: estudo das formas de
viver, sentir e pensar o mundo natural na América portuguesa e no Império do Brasil
(1500-1889)". O projeto visou a formação continuada de professores do ensino
fundamental e médio e de outros profissionais na área de História, a iniciação na
pesquisa das relações entre ser humano, natureza e sociedade e a elaboração de
material didático sobre o tema transversal "Meio Ambiente" para escolas da rede pública.
Alguns dos resultados são um banco de dados, uma coleção de recortes sobre questões
ambientais contemporâneas e seis painéis didáticos sobre a situação das águas, a
exploração da madeira, caça e pesca e a pesca da baleia no Brasil.

Palavras-chave: História, meio ambiente, PCN, formação, ensino.
1. INTRODUÇÃO
A problemática ambiental constitui, na atualidade, atraente recurso para a formação de
consciências críticas no estudo do passado e das relações sociais no presente. Estas demandas
estão contidas nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e para as quais a universidade
brasileira tem condições de interação e de intervenção social conseqüentes. A necessidade de
aprimorar a qualidade das atividades no curso de graduação em História, nível de licenciatura, dentro
e fora da sala de aula, foi a motivação pessoal e profissional para o projeto "História e Meio Ambiente:
estudo das formas de viver, sentir e pensar o mundo natural na América portuguesa e no Império do
Brasil (1550-1889)". A realização do projeto ofereceu condições para integrar distintas preocupações
no trabalho de formação intelectual e profissional de historiadores, permitindo aglutinar estudantes
em torno da iniciação nas práticas de pesquisa e do ensino de História2.
O objetivo principal do projeto foi elaborar material didático em consonância com as
proposições dos Parâmetros Curriculares Nacionais, especificamente sobre o tema transversal "Meio
Ambiente", e com as condições de ensino dos professores de História em escolas da rede pública. A
consecução desse objetivo exigiu a reunião de subsídios para confecção do material de ensino e

1 Professor

no Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras ­ UNESP ­ Campus de Assis.
Email: [email protected]
2
O projeto foi desenvolvido no Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, em Assis/SP.
Realizado entre março e dezembro de 2002, obedeceu às diretrizes dos Núcleos de Ensino da Pró-Reitoria de Graduação e
recebeu suporte financeiro da Fundação para o Desenvolvimento da UNESP na aquisição de material de expediente,
realização de atividades programadas e bolsas de estudo para alunos de graduação. Participaram sete estudantes:
Alessandra Filomena Kliass Machado, Andresa Zonta, João Rafael Moraes de Oliveira e Mariana Reis Feitosa, bolsistas da
FUNDUNESP, Marcela Hebeler Barbosa e Denílson Carignatto, do programa Bolsa de Apoio ao Estudante (BAE) e Marco
Aurélio de Oliveira Filho.

217

preparação de atividades didáticas e de avaliação. A pesquisa esteve orientada para a recorrência
de conflitos entre diferentes formas de percepção, sensibilidade e atitudes humanas diante da
natureza e os fundamentos materiais da sociedade brasileira e, também, para a apreensão e
interpretação desses fenômenos em uma perspectiva temporal de longa duração, que possibilitasse a
incorporação das dimensões do tempo longo e do tempo curto no desenvolvimento das análises. A
metodologia utilizada consistiu na organização de uma base de dados agregados, uma coleção de
recortes de imprensa, leitura e discussão coletiva de obras da historiografia nacional e estrangeira, de
teoria e metodologia da História, das propostas de ensino e aprendizagem dispostas nos PCN para a
área de História e o tema do Meio Ambiente. A pesquisa em relatos de viagens escritos entre os
séculos XVI e XIX proporcionou o maior volume de dados e informações. Estes foram os pontos de
partida para o estudo das relações entre os grupos sociais e o mundo natural na América portuguesa
e no Império do Brasil, no período 1500-1889, em busca de uma visão crítica da sociedade brasileira
e dos problemas ambientais na atualidade.
O procedimento adotado foi, então, o do trabalho coletivo de professor e estudantes,
dedicados a temáticas comuns e empreendendo conjuntamente a apreciação crítica de fontes e
documentos, a observação e coleta de dados e informações, a definição de metas, a avaliação do
cronograma de trabalho, reunião e classificação de material, o desenvolvimento de análises, a
organização de novos estudos, a redação de textos e um novo aprendizado na pesquisa em História.
A estruturação da equipe e o estabelecimento de rotinas de trabalho foram as maneiras escolhidas
para combinar e promover a formação na graduação, a iniciação em pesquisa e o contato com as
realidades atuais do ensino no Brasil. As estratégias operacionais foram múltiplas, com a realização
de leituras, participação em eventos, cursos e palestras, a elaboração e apresentação de painéis
didáticos, tratamento das fontes, a capacitação no uso de conceitos, métodos e técnicas de
observação, coleta, classificação e preservação de dados, informações e documentos, pesquisa e
debate de questões teóricas na historiografia contemporânea. O resultado palpável desse trabalho
em equipe foi a sensível melhoria no desempenho em cursos da graduação e a incorporação do
interesse pelas questões ambientais no estudo do passado e nos projetos intelectuais de parte dos
estudantes envolvidos.
2. HISTÓRIA E MEIO AMBIENTE
As questões ambientais despontam com grande força na atualidade e incidem imediata
e diretamente no trabalho realizado pelos historiadores na pesquisa, no ensino e na apreciação crítica
da sociedade brasileira. Um novo questionamento sobre os modos de vida humana e sua
reordenação, nesse início de século, sugere também a busca de novos métodos e abordagens na
investigação histórica. Estas preocupações tomam impulso em um momento cultural marcado pela
fragmentação e dispersão das atenções, objetos, métodos e fins na historiografia internacional e
218

nacional. No Brasil, a necessidade do estudo das temáticas do meio ambiente pelos historiadores
decorre, principalmente, das formulações propostas pelo Ministério da Educação para o ensino
fundamental e médio, aliada à ressonância dos graves problemas ambientais no mundo de hoje. Não
se trata de importação, pura e simples, de nova moda historiográfica dos países ricos do hemisfério
norte e de seus centros intelectuais. Vale lembrar que o estudo das questões ambientais no Brasil,
em perspectiva histórica, remete ao enfrentamento de uma inquietante e recorrente indagação. Como
um país abundante em recursos naturais tem seu quadro social secularmente maculado com a
desigualdade social e a espoliação econômica, corporificadas em fome, pobreza, desemprego,
violência institucionalizada, destruição e degradação ambiental, entre outras manifestações
aparentemente contraditórias?
A separação abstrata entre a natureza e a sociedade respondeu a uma necessidade
de afirmação do ser humano perante o mundo e seus semelhantes, valorizando a consciência e a
racionalidade. No limite temporal esta afirmação do homem sobre a natureza remonta ao século XIV,
com a formulação de noções de um outro dos próprios homens, adultos e crianças, e de um outro
tempo, o da Antigüidade, por exemplo. A idéia de uma formação do indivíduo pela educação
humanista, e que despontou nesse período, foi amplamente reforçada nos séculos seguintes,
sobretudo nos contextos do Renascimento e do Iluminismo3. A constituição das especialidades nas
ciências naturais e das ciências humanas, a partir do século XIX, realimentou esse distanciamento
constante e progressivo entre o mundo dos homens e o da natureza. No terreno das ciências sociais,
particularmente após a segunda guerra mundial, ocorreu uma intensa depuração no instrumental
analítico dos vestígios "naturalistas", presentes nos múltiplos determinismos, como os biológicos e
geográficos, na antropologia, na sociologia e na geografia, por exemplo4.
As recentes transformações no meio ambiente, com o impacto das ações humanas e
de novas tecnologias, igualmente sem precedentes em escala e intensidade, fizeram dessa questão
uma das maiores preocupações nas sociedades atuais. A segunda metade do século XX foi pontuada
por uma agenda de reuniões, convenções, programas e protocolos, de âmbito internacional e
nacional, dedicados ao estabelecimento de políticas públicas reparadoras e de preservação para o
meio ambiente5. Este cenário mundial de preocupações e tentativas de uma gestão mundial dos
problemas ambientais e as iniciativas localizadas nacionalmente impulsionaram o ingresso das
temáticas do meio ambiente nas universidades, inclusive brasileiras, com a criação de centros e
núcleos de pesquisa, de disciplinas e programas de cursos de especialização e pós-graduação. No
Brasil, as atenções sobre o meio ambiente, na esfera estatal e de governo, estiveram voltadas para a
criação e reestruturação de órgãos da administração pública dedicados ao planejamento, fiscalização
3

Cf. Claude Lefort, Desafios da escrita política. Trad. E. M. Souza. São Paulo. Discurso Editorial, 1999.
Cf. Antonio C. Robert Moraes, Meio ambiente e ciências humanas. São Paulo. Hucitec, 1994.
5
Cf. Wagner Costa Ribeiro, A ordem ambiental internacional. São Paulo. Contexto, 2.001.
4

219

e preservação, como secretarias de governo nos estados e municípios e comissões específicas nas
instâncias do poder legislativo, a partir da década de 1970. A Constituição brasileira de 1988
consagrou todo um capítulo ao meio ambiente e a realização de Relatórios de Impacto sobre o Meio
Ambiente (RIMA) tornou-se uma exigência legal obrigatória na implementação de projetos
econômicos e de infra-estrutura, públicos e privados.
Na esfera da sociedade, foi a partir da década de 1970 que tomaram corpo ações
individuais e coletivas mais contundentes, como as capitaneadas por José Lutzemberger, no Rio
Grande do Sul, Augusto Ruschi, no Espírito Santo, Fernando Gabeira, no Rio de Janeiro, e Chico
Mendes, no Acre, entre outros, com menor inserção na mídia. A organização de entidades e
movimentos ambientalistas também tomou forte impulso nesse período6. A criação do Partido Verde,
por iniciativa de militantes da esquerda brasileira da década de 1960, foi inspirada na organização e
atuação política dos partidos europeus, amparadas na crítica ao uso predatório dos recursos naturais,
à poluição das águas e do ar, a degradação da qualidade de vida nas cidades e a utilização da
energia nuclear, como na oposição à construção de usinas em Angra dos Reis7.
O Ministério da Educação colocou a problemática ambiental na mesa de trabalho do
historiador, ao estabelecer os Parâmetros Curriculares Nacionais para o sistema de ensino. Ao que
tudo indica para nela permanecer durante algum tempo. A reformulação do ensino proposta pelos
PCN incluiu, entre outros aspectos, o tratamento interdisciplinar de cinco grandes temas, pelas várias
disciplinas da grade curricular, os denominados "temas transversais". Isto significa que o ensino de
história deve, nos próximos anos, contemplar a problemática ambiental nas salas de aula, bem como
os demais temas: ética, saúde, orientação sexual e pluralidade cultural. Uma história ambiental
adquire, então, um grande significado e tem um papel a cumprir, ainda que sua principal
determinação seja externa aos anseios e desígnios dos historiadores. Seja como for, esta não lhes é
alheia. Resta, porém, equacionar a história ambiental no seio dos estudos históricos no Brasil,
organizando uma abordagem própria aos padrões e condições de trabalho, interesses e
necessidades dos nossos historiadores e compatível com a realidade do ensino fundamental e médio
nas escolas e universidades brasileiras8.

6

Sobre movimentos ambientalistas no Brasil, ver Saudades do Matão, de Teresa Urban. Curitiba. Editora da
UFPR/Fundação O Boticário/Fundação MacArthur, 1998.
7
Vale lembrar as eleições presidenciais de 1989, quando a candidatura Lula, do PT, lançou o nome do jornalista e escritor
Fernando Gabeira, fundador e dirigente do PV, para vice-presidente. Em 1986, Gabeira obtivera expressiva votação nas
eleições para o governo estadual do Rio de Janeiro. Nas eleições de 2002, o PV elegeu cinco representantes para a
Câmara dos Deputados, depois de amargar alguns anos sem participação no legislativo nacional.
8
Há mais de dez anos, em estimulante artigo, o professor Arthur Soffiati chamava a atenção para "A ausência da natureza
nos livros didáticos de História" e propunha algumas diretrizes de trabalho para sanar essa lacuna no Brasil. In. Revista
Brasileira de História. São Paulo, 9 (19): 43-56, 1989-1990.

220

3. A HISTORIOGRAFIA E A CONSTITUIÇÃO DE UMA HISTÓRIA AMBIENTAL NO BRASIL
Cabe indagar, então, a essência e o tipo de conhecimento histórico procurado na
realização da história ambiental. Que contribuição os historiadores podem trazer para a compreensão
da problemática ambiental? Como alcançá-la? Como desenvolvê-la para os estudantes nas salas de
aula? Em 1974, na apresentação que redigiu para um pequeno dossiê sobre essa questão,
Emmanuel Le Roy Ladurie, alertou para a necessidade de identificar "os verdadeiros problemas e
rejeitar as facilidades de um discurso vulgarizador", como forma de não comprometer o trabalho dos
historiadores9. Em artigo publicado no Brasil, no início da década de 1990, o norte-americano Donald
Worster concebeu a história ambiental como uma "ampliação da perspectiva da história" para além
das fronteiras nacionais e que atentasse para o lugar e o papel do meio ambiente na vida humana,
"uma história muito mais inclusiva". Neste sentido, por exemplo, uma história da pesca da baleia não
se encaixa, confortavelmente, em um recorte de história meramente nacional10.
O primeiro passo, então, é reconhecer que a temática ambiental não é externa ao
campo de interesse da historiografia, nem mesmo no Brasil. A história ambiental não traz um novo
objeto, desconhecido dos historiadores, mas sugere uma abordagem ditada pelos problemas
enfrentados pelas sociedades contemporâneas. As mudanças e as continuidades nas formas de
relacionamento entre os indivíduos e grupos humanos e o meio natural, as transformações no tempo
e no espaço das maneiras de viver, sentir e pensar a natureza, suas particularidades, traços
permanentes, variações e comparações têm sido alvos de interesse dos historiadores, ainda que
poucas obras dessa historiografia estejam disponíveis em edições brasileiras11, enquanto outras
estão acessíveis apenas em edições originais12.
Na reflexão dos historiadores brasileiros há trabalhos que enfocaram essas questões,
notadamente aquelas concernentes às implicações econômicas e sociais. Entendo que preocupações
com espírito construtivo são sempre necessárias, sobretudo, em se tratando de colher elementos
para fundamentação de novas pesquisas em História. A explicitação desses aspectos é também das
mais urgentes no estabelecimento de um perfil do historiador que pretenda trabalhar com a
problemática do meio ambiente e pensar as bases para uma história ambiental no Brasil. Acredito,

9

Annales ESC. Paris, 29 (3), 1974, p. 537.
"Para fazer história ambiental", In. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, FGV, 4 (8): 198-215, 1991.
11
Vale registrar aqui Senhores e caçadores, de E. P. Thompson (Trad. D. Bottmann. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1987), o já
clássico O homem e o mundo natural, de Keith Thomas (Trad. J. R. Martins Filho. São Paulo. Companhia das Letras, 1988),
O território do vazio: a praia e o imaginário ocidental, de Alain Corbin (Trad. P. Neves. São Paulo. Companhia das Letras,
1989), O espírito ocidental contra a natureza: mito, história e as terras selvagens (Trad. J. A. Drummond. Rio de Janeiro.
Campus, 1990), Imperialismo ecológico, de Alfred W. Crosby (Trad. J. A. Ribeiro e C. A. Malferrari. São Paulo. Companhia
das Letras, 1993), Paisagem e memória, de Simon Schama (São Paulo. Companhia das Letras, 1996), entre outros.
12
É o que ocorre, por exemplo, com os vários livros de Donald Worster, de História y médio ambiente, do espanhol M.
Gonzáles de Molina (Madrid. Universidad Complutense, 1993), e Pour une histoire de l´environnement, editado pelos
franceses Corinne Beck e Robert Delort (Paris. CNRS Editions, 1993). Sobre as obras de Worster e outros títulos relevantes
na historiografia ambiental norte-americana, ver José Augusto Drumond, "A história ambiental: temas, fontes e linhas de
pesquisa", In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, FGV, 4 (8): 177-197, 1991.
10

221

ainda, que novas modalidades de História e práticas historiográficas, e é disso que se trata quando
falamos em história ambiental, no Brasil, são antes complementares e desdobramentos do que
substitutas de outras formas de análise, hegemônicas no passado profissional dos historiadores. Na
avaliação de Carlo Ginzburg, por exemplo, os historiadores "cada vez mais se interessam pelo que
seus predecessores haviam ocultado, deixado de lado ou simplesmente ignorado"13.
Estudos sistemáticos sobre as relações dos habitantes da América portuguesa e do
Império do Brasil com a natureza são relativamente recentes. Entretanto, é possível compor um
elenco de obras que tiveram essas relações como objeto de estudo e pesquisa. Não caberia, aqui,
um balanço historiográfico ou o inventário do tema nos autores clássicos da historiografia e do
pensamento social brasileiro, o que não significa que ele não possa e não deva ser realizado.
Atentando para alguns autores e livros que enfocaram o meio ambiente, e sem a pretensão de um
levantamento completo e exaustivo, convém apontar algumas obras pioneiras e análises recentes
dotadas de interesse e realce, com vistas à incorporação crítica aos propósitos dessa reflexão.
Algumas são obras escritas em época anterior e fora dos marcos das questões ambientais
contemporâneas, mas podem fornecer comentários, pistas, sugestões, contrapontos e inspiração
para novas pesquisas. O norte-americano Donald Worster propõe três grandes campos de incidência
dos estudos de história ambiental. São eles, a incorporação de variáveis geográficas, biológicas,
químicas, geológicas e dos fenômenos naturais, seculares e milenares, nos domínios da pesquisa em
História e seu impacto sobre a vida humana; segundo, os aspectos sociais e econômicos decorrentes
da relação entre os homens e o meio natural; e, por fim, as dimensões psicológicas e de
racionalização da natureza pelos distintos agrupamentos humanos. Nestes compartimentos podem
ser aninhados alguns títulos da nossa historiografia, compondo, assim, um roteiro provisório de
estudos e cabeça de ponte para novas iniciativas de pesquisa e reflexão.
Uma história ecológica propriamente dita, ou seja, que leve em consideração aspectos
naturais, orgânicos e inorgânicos, no empreendimento de sua compreensão do passado ainda é
bastante tímida no Brasil. Poderia mencionar, talvez, Os sertões (1902), de Euclides da Cunha,
apesar de análises fortemente marcadas pelo naturalismo, mas atenho-me exclusivamente aos
trabalhos de história tout court. Warren Dean destacou-se como pioneiro da história do meio
ambiente brasileiro, classificando de "história ecológica" as pesquisas que realizou sobre a
exploração da borracha amazônica. Escrito por norte-americano, o livro está situado no rico acervo
de estudos empreendidos pelos brazilianists em uma perspectiva histórica. Destaca-se,
principalmente, pelo pioneirismo e diante da escassez dessas abordagens entre historiadores
nacionais14.

13
14

O queijo e os vermes. Trad. M. B. Amoroso. 3. ed.. São Paulo. Companhia das Letras, 2002, p 15.
A luta pela borracha no Brasil: um estudo de história ecológica. Trad. E. Brandão. São Paulo. Nobel, 1989.

222

Os trabalhos que examinaram as implicações sociais e econômicas da interação dos
grupos humanos com a natureza no Brasil são mais numerosos e diversificados. Quando pensados
em termos de exploração de recursos naturais e das relações sociais estabelecidas em torno destas
a contribuição da historiografia parece despontar com maior generosidade. Haveria que mencionar a
extensa e abundante bibliografia existente em nossa historiografia econômica dedicada ao estudo da
extração do ouro, diamantes, sal, madeira, das culturas da cana, tabaco, algodão, café e da borracha,
ou do petróleo? Entre os trabalhos de história econômica são bastante sugestivos, para uma leitura
com indagações e preocupações ambientais dos dias de hoje, os de Bernardino José de Souza,
sobre a extração do pau-brasil, entre os séculos XVI e XIX, e o de Myriam Ellis, sobre a pesca da
baleia15. O interesse reside, principalmente, nas possibilidades de conhecimento e esclarecimento
das práticas predatórias e perdulárias na exploração de recursos naturais no Brasil, abrindo espaço
para o debate de questões atuais como as da biodiversidade e sustentabilidade da atividade
econômica.
A história social também comparece com trabalhos exponenciais em torno das
relações entre grupos sociais, natureza e a organização social em estreita ligação com estas
mediações. Alguns trabalhos de autoria de Sérgio Buarque de Holanda, sobre a sociedade colonial
paulista e seus prolongamentos espaciais, nos séculos XVII e XVIII, contêm estimulantes reflexões
sobre as relações de vida, trabalho e as dificuldades de adaptação dos colonizadores portugueses ao
meio tropical16. Na mesma linha também podem ser vistos os trabalhos de Jozimar Paes de Almeida,
que fez uma descrição das transformações ambientais na região do médio Paranapanema,
provocados pela lavoura extensiva da cana; de Marco Antonio Villa, autor de uma história dos
impactos sociais e econômicos das secas na região nordeste e o de Luiz Geraldo Silva, sobre as
sociabilidades das populações do litoral pernambucano, envolvidas na construção de barcos, pesca e
navegação. Ou ainda, o livro de César Benevides e Nanci Leonzo, sobre o reduto conservacionista, e
privado, de caça, lazer e distinção social de Miranda Estância, em Mato Grosso17.
Na dimensão intelectual e moral, dos valores, sensibilidades, percepção, legislação,
visões de mundo, representações simbólicas, a historiografia brasileira também oferece abordagens
que merecem ser estudadas. Entre os autores do passado há os valiosos trabalhos de Afonso
D´Escragnole Taunay sobre a zoologia fantástica do Brasil no imaginário dos colonizadores e
visitantes das terras brasileiras. Esta perspectiva foi retomada, há pouco, em obra de Mary Del Priore.
No âmbito da reflexão do pensamento científico e político o trabalho de Maria Elice B. Prestes, sobre
15

O pau-brasil na história nacional. São Paulo/Brasília. Companhia Editora Nacional/MEC-INL, 1978. (Coleção Brasiliana,
162), Aspectos da pesca da baleia no Brasil colonial. São Paulo. Coleção Revista de História, 1958 e A baleia no Brasil
colonial: feitorias, baleeiros, técnicas, comércio iluminação. São Paulo. Melhoramentos/Edusp, 1969.
16
Por exemplo, Monções e Caminhos e fronteiras, em várias edições.
17
Respectivamente: A extinção do arco-íris: ecologia e história. Campinas. Papirus, 1988; Vida e morte no sertão: história
das secas no nordeste nos séculos XIX e XX. São Paulo. Ática, 2.000; A faina, a festa e o rito: uma etnografia histórica
sobre as gentes do mar (séculos XVII ao XIX). Campinas. Papirus, 2.001 e Miranda Estância: ingleses, peões e caçadores
no pantanal mato-grossense. Rio de Janeiro. FGV, 1999.

223

os estudos da natureza empreendidos pela administração colonial portuguesa na América, contribui
para a compreensão das relações entre os luso-americanos e o mundo natural. Em estudo
igualmente recente, José Augusto Pádua examinou a percepção crítica da degradação ambiental e
seus efeitos sociais pelo pensamento político brasileiro, de fins do século XVIII e no século XIX. São
importantes vias de acesso para novos questionamentos18.
Este rápido sobrevôo indica que o tratamento de aspectos da relação do ser humano
com o meio natural, no caso brasileiro, dispõe de alguns esforços preliminares de compreensão. Isto
significa que os estudos históricos não terão que partir, necessariamente, do zero ou de modelos
estrangeiros para a realização de suas tarefas atuais. Uma vez cientes dessa "retaguarda"
historiográfica, cumpre observar dois trabalhos altamente significativos e diretamente imbricados na
história ambiental. Refiro-me aos estudos A ferro e fogo, de Warren Dean, sobre a predação da mata
atlântica brasileira, e Os historiadores e os rios, de Victor Leonardi, sobre o "desaparecimento" da
cidade de Airão, no vale do rio Jaú, na Amazônia. As preocupações metodológicas de ambos, a
vastidão da pesquisa empírica de Dean e o refinamento analítico de Leonardi fazem desses trabalhos
ponto de partida obrigatório para qualquer abordagem das temáticas do meio ambiente na História19.
A história do predomínio humano sobre plantas e animais, a extração de minerais e as
mudanças provocadas nas paisagens no Brasil, dado seu caráter recente, produção esparsa e
multifacetada, desfrutou poucas oportunidades de sistematização que facilitassem seu ingresso no
ensino, ao menos nas atividades e recursos didáticos disponíveis20. O tratamento que o meio
ambiente recebeu dos historiadores anteriormente mencionados indica, também, a possibilidade de
um fecundo diálogo nas diferentes disciplinas, entre os métodos e abordagens da História, Geografia,
Antropologia e Biologia, fazendo do tema um campo fértil para o florescimento do conhecimento
histórico no intercâmbio com as ciências humanas e naturais. A diversidade de métodos e de fontes
disponíveis para abordagens de história ambiental impõe o interesse pelas confrontações
interdisciplinares e transdisciplinares. Esta interlocução entre historiadores e distintas áreas do
conhecimento, também sugerida nos PCN, torna imperativa a constituição de uma sólida base no
seio da própria História, no estudo do passado articulado ao esclarecimento e questionamento do
presente, entre outras estratégias de estudos.

18

Respectivamente: Monstros e monstrengos do Brasil. São Paulo. Companhia das Letras, 1998 (Organização Mary Del
Priore) e Zoologia fantástica do Brasil (séculos XVI e XVII). São Paulo. EDUSP, 1999; Esquecidos por Deus: monstros no
mundo europeu e ibero-americano (séculos XVI-XVIII). São Paulo. Companhia das Letras, 2.000; A investigação da
natureza no Brasil colônia. São Paulo. Annablume/FAPESP, 2.000 e Um sopro de destruição: pensamento político e crítica
ambiental no Brasil escravista (1786-1888). Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 2.002.
19
Trad. C. K. Moreira. São Paulo. Companhia das Letras, 1996 e Brasília. Paralelo 15/EdUnB, 1999, respectivamente.
20
Cf. Arthur Soffiati, op.cit..

224

4. ATIVIDADES DE PESQUISA, ENSINO E APRENDIZAGEM
O desenvolvimento de atividades de pesquisa e de ensino e aprendizagem cumpriu um
plano de trabalho disposto em duas fases distintas e complementares. Inicialmente, um período de
sete meses, tratou-se de constituir um acervo de dados e informações sobre as relações ser humano,
natureza e sociedade na América portuguesa e no Império do Brasil. A etapa seguinte, três meses,
consistiu na elaboração de material didático, interpretando criticamente os dados reunidos e
classificados, e na avaliação das atividades realizadas. Neste sentido, foram confeccionados painéis
didáticos, apresentados em duas oportunidades. Simultaneamente, outro esforço foi realizado, com
reuniões semanais da equipe para distribuição de tarefas, avaliação e execução do cronograma e dos
planos de trabalho, troca de informações e experiências e traçado de metas de curto e médio prazo.
Ao longo de dez meses, foi seguido um programa de leituras contendo artigos, livros e obras de
referência, com o objetivo de capacitar a equipe em ações específicas na execução da pesquisa.
Esta rotina permitiu articular os dois momentos de atividades do projeto. Encontros e seminários com
especialistas foram organizados para promover o debate de conceitos operacionais, métodos e
técnicas de pesquisa, historiografia, documentação e hipóteses de trabalho, sempre com base nos
dados, fontes e diretrizes teóricas iniciais.
O projeto "História e meio Ambiente" teve como referência teórica inicial o livro de Keith
Thomas, O homem e o mundo natural: mudanças de atitudes em relação às plantas e aos animais
(1500-1889)21. Este historiador britânico, ao partir da aparente dicotomia sociedade e natureza,
elucidou as imbricações entre distintas formas de percepção, como sensibilidades, raciocínios,
atitudes e comportamentos dos seres humanos perante os animais, plantas e paisagens da GrãBretanha nos tempos modernos. As novas sensibilidades humanas em relação à natureza,
observáveis entre 1500-1800, revelaram um forte interesse pelo mundo natural e, também, o
questionamento das relações que os homens nutriam com a natureza. A resultante comum a essas
duas atitudes foi o desabrochar de sentimentos tanto preservacionistas, quanto predadores do
"mundo natural" e que persistem nos dias que correm. Ao reconstituir esse quadro, Keith Thomas
revelou ser a relação sociedade e meio natural uma questão do presente, porém, enraizada em um
universo cultural do passado. Logo, constituiu-se em atraente e desafiadora problemática para o
exercício da reflexão crítica pelos historiadores nas práticas de ensino e aprendizagem.
O estabelecimento do Meio Ambiente como tema transversal nos Parâmetros
Curriculares Nacionais conferiu relevância a esse aspecto da vida social na vivência e formação das
gerações que cursam o ensino fundamental e médio nesse início de século. Os PCN para o ensino
de História, no 1º Ciclo (1ª e 2ª séries), orientam os professores para a abordagem dos vários temas
sobre problemáticas locais e no tempo presente, atentando para as mudanças e persistências em
relação ao passado histórico no espaço físico e social dos estudantes. Já no 2º Ciclo (3ª e 4ª séries),
21

Op. cit..

225

as formas de abordagem do passado sugerem contemplar distintos espaços em seus diferenciados
ritmos de tempo. Esta configuração das práticas de ensino de História requer a elaboração de
conteúdos, recursos, atividades e instrumentos de avaliação que possibilitem aos professores e
estudantes uma aproximação com estas formas de abordagem na construção de conhecimento do
passado. A inexistência de uma produção historiográfica volumosa e a ausência rotineira nos livros
didáticos das questões referentes ao meio ambiente, demandou a classificação e organização do
material disponível e a geração de novos conhecimentos sobre a história das relações entre os
homens e a natureza nos territórios portugueses na América e no Brasil. A realização do projeto
"História e meio ambiente" pretendeu, assim, colaborar com o trabalho de professores na adequação
de suas atividades aos propósitos dos PCN. Simultaneamente, buscou estimular a prática da
pesquisa nos cursos de graduação e a elaboração de projetos voltados para o ensino de História.
Na primeira fase de desenvolvimento do projeto, os esforços estiveram voltados para a
coleta e constituição de um banco de dados sobre o meio ambiente na história do Brasil. As fontes
primárias foram cerca de trinta títulos de relatos de cronistas e viajantes em territórios da colônia
portuguesa na América e no Império do Brasil. A opção por este núcleo documental decorreu do
repertório de impressões, sentimentos e representações simbólicas e culturais do meio natural e as
atitudes humanas diante deste no Novo Mundo. Este procedimento exigiu a formulação de
instrumentos de observação, coleta e armazenamento de dados primários. Uma Ficha para Coleta de
Dados foi concebida com campos específicos destinados ao registro do código da informação, data,
localidade, autor e título da obra consultada e a transcrição do trecho com as informações de
interesse do projeto. A coleta de dados esteve orientada por uma Estrutura de Códigos, disposta em
cindo grandes temas: fauna, flora, paisagens, minerais e clima. Estes grandes conjuntos
comportaram três variações específicas: formas de viver, de sentir e de pensar; dentro destas o
agrupamento de dados primários em cerca de cem códigos, contemplando, entre outros, alimentação,
artesanato, crenças, gestos, livros, atitudes e sentimentos, percepções, transporte, sexualidade,
canções, provérbios, culinária, medicina, legislação. O banco de dados do projeto classificou cerca de
cinco mil registros sobre o meio ambiente na história do Brasil e proporcionou elementos para a
formulação de atividades didáticas.
A organização de uma coleção de recortes de jornais diários de grande circulação teve
como finalidade obter um quadro geral das principais questões e a pauta dos problemas ambientais
no mundo atual. Artigos de opinião, reportagens, notas, editoriais, entrevistas e imagens foram
recolhidas e organizados em ordem cronológica e, posteriormente, classificados por grupos de temas
próximos aos códigos do banco de dados. A meta foi uma articulação entre os problemas do passado
e os do presente, semelhanças e diferenças entre esses problemas, ocorrência dos mesmos
problemas em distintas épocas e localidades, entre outras possibilidades de exame das informações.
Além disso, o registro de fenômenos, acidentes, ações de governos e da sociedade que desperte
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algum interesse pode ser completado com a busca em outras fontes de informação, como arquivos,
páginas na Internet e bibliografia. Esta coleção abarcou jornais do último trimestre de 2001 e todo o
ano de 2002, reunindo perto de oitocentos recortes, e permitiu que a classificação e análise dos
temas fossem feitas simultaneamente.
A montagem do banco de dados e a organização da coleção de recortes serviram
como treinamento dos estudantes nos passos da investigação cientificamente orientada, a
observação, coleta, classificação e análise de dados, interpretações teóricas, comparações e
exposição pública de análises e resultados. A constituição dessas bases de dados e informações
conduziu ao desdobramento da pesquisa básica em pesquisa aplicada. Ato contínuo foi uma
aproximação da investigação realizada na Universidade com as práticas de ensino na rede pública, a
articulação entre o saber histórico e saber histórico escolar e a reflexão crítica sobre a realidade dos
sistemas de ensino, escolar e universitário, no Brasil contemporâneo.
As características acima referidas foram predominantes na segunda fase de realização
do projeto, toda ela dedicada à elaboração de recursos e atividades de caráter didático para o ensino
de História no ensino fundamental e médio. Uma série de seis painéis, abordando a situação das
águas, a exploração da madeira, caça e pesca e pesca da baleia, foi produzida a partir do banco de
dados, da coleção de recortes de imprensa, das leituras teóricas, e metodológicas e da historiografia.
Os painéis têm dimensões aproximadas de um metro e contêm textos de autoria dos integrantes da
equipe, fragmentos dos relatos de viagem, trechos da imprensa e imagens. Estão articulados em
torno das respectivas temáticas e dos problemas propostos nos PCN, tais como a contraposição
entre passado e presente, tempo longo e tempo breve, semelhanças e diferenças, rupturas e
continuidades no tempo e no espaço, peculiaridades locais e traços universais, sociedades indígenas
e tradicionais e civilização industrial, entre outros aspectos.
Os painéis didáticos foram apresentados pela equipe em duas ocasiões, para públicos
distintos. O objetivo foi divulgar os resultados obtidos pela equipe na execução do projeto, bem como
colher os benefícios do diálogo, de críticas e sugestões que a exposição pública acarreta e que tanto
contribui para a formação profissional e intelectual de estudantes, professores e o exercício da
profissão de historiador. Inicialmente os painéis foram expostos durante a XX Semana de História, no
Departamento de história da FCL da UNESP, em Assis. O público esteve composto por alunos de
graduação, majoritariamente, e de pós-graduação em História, professores e profissionais com
atividades diversas. O Colégio Estadual Jayme Canet, de ensino médio, em Bela Vista do Paraíso, no
Paraná, acolheu a exposição dos painéis para quatorze classes. A experiência representou um teste
mais efetivo da validade dessa proposta pedagógica, permitindo mensurar a aceitação, limites,
potencialidades e dificuldades encontradas no formato e conteúdo do material, a necessidade de
clareza, objetividade e esclarecimentos complementares, situações de sucesso na comunicação e
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compreensão dos textos e análises. Enfim, foi o momento em que a equipe do projeto pôde encarar
a realidade das condições de trabalho dos professores na rede pública e das práticas de ensino de
História, observando o alcance das proposições presentes nos painéis.
Visando a avaliação do trabalho realizado e aprimorar o conhecimento da equipe para
o atendimento das especificações contidas nos PCN, foi programada uma jornada dedicada ao
Ensino de História e Meio Ambiente. A programação incluiu uma palestra sobre as diretrizes do MEC
para o tema transversal do Meio Ambiente, contidas no programa Parâmetros em ação, meio
ambiente na escola, voltado para o ensino fundamental, de 5ª a 8ª séries, uma oficina de elaboração
de textos de caráter didático e a avaliação dos painéis produzidos pela equipe do projeto. Nesta
oportunidade, compareceram estudantes e pesquisadores de outras instituições e que desenvolviam
projetos com distintas interfaces e afinidades, ampliando o leque de problemas, debates, métodos,
questionamentos teóricos e uso de fontes e documentos22.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados mais fecundos do projeto "História e meio ambiente" residem na
formação individual, intelectual e profissional em pesquisa e ensino dos integrantes da equipe. O
trabalho coletivo e suas implicações diretas na execução do cronograma de atividades lançaram os
estudantes do curso de História na UNESP, e que em breve obterão o grau de licenciatura, em uma
experiência comum de divisão de tarefas, união de esforços, senso de responsabilidade,
organização, planejamento, convívio e interação com a diversidade de idéias e de comportamentos,
compartilhando dificuldades e satisfações no desenvolvimento da programação das etapas do
projeto.
A formação intelectual foi estimulada com a aproximação das atividades de pesquisa,
já na graduação, a problemática da educação no Brasil, a interação das questões teóricas nos
estudos históricos com as práticas de ensino e de aprendizagem, as possibilidades de aproximação
universidade e escolas, a iniciação nos procedimentos de investigação que historiador pode realizar e
uma melhoria no desempenho e aproveitamento dos cursos. Alguns desafios da vida profissional
puderam ser conhecidos com a visualização, ainda que geral, do campo de trabalho dos historiadores
no Brasil. A consciência da necessidade de conhecer criteriosamente a historiografia, da prática da
reflexão teórica, do domínio rigoroso e seguro de métodos e técnicas de pesquisa e da formulação de
hipóteses de interpretação na elaboração de atividades didáticas ficou evidenciada ao longo da
execução do projeto. Igualmente, a valorização da avaliação sistemática de trabalhos realizados
coletivamente.
22

A Jornada de Ensino de História e Meio Ambiente ocorreu em 9 e 10 de dezembro de 2002. Realizada no Departamento
de História da UNESP, em Assis, contou com a participação da professora Rosana Núbia Sorbille, historiadora e consultora
do Ministério da Educação no programa Parâmetros em ação, meio ambiente na escola, e do professor Cristiano G. Biazzo
Simon, da área de Prática de Ensino de História, do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina/PR.

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Uma nova pauta de atividades foi formulada para ser desenvolvida a partir de 2003,
tendo como referência realizações e experiências obtidas na abordagem do Meio Ambiente nos
estudos de História. Em primeiro lugar, a constituição de um núcleo de formação continuada sobre
esse tema transversal junto ao curso de História. A formulação de estratégias de ação e de
funcionamento deverá ter as características de um laboratório e estarão voltadas para a realização de
experiências em pesquisa e ensino de História. Esta iniciativa deverá ser complementada com novas
propostas para a elaboração de recursos didáticos sobre as questões ambientais, destinadas aos
professores e estudantes do ensino fundamental, de 5ª a 8ª séries, e de acordo com o "Guia do
Formador" do programa Parâmetros em ação, meio ambiente na escola23. A montagem de módulos
de estudos, contendo textos, exercícios de análise e interpretação das realidades sociais no passado
e no presente, atividades de avaliação crítica, de educação ambiental e diálogo transdisciplinar são
algumas possibilidades de trabalho desses Parâmetros em ação. Está prevista, inicialmente, a
elaboração de quatro módulos de estudos referentes às relações ser humano, natureza e sociedade,
ao uso das águas, às questões de sustentabilidade e de biodiversidade.
A aglutinação de professores, estudantes e pesquisadores dedicados aos temas
ambientais no estudo da História e sua aproximação das realidades escolares e das comunidades
local e regional, em um núcleo de formação continuada, pretende catalisar debates, estudos,
pesquisas, reflexão teórica e, sobretudo, estabelecer um canal de comunicação e integração entre as
realizações nesta Universidade e as demandas sociais de pesquisa, ensino e aprendizagem na
atualidade. O exercício da pesquisa em História, com atividades voltadas para a formação continuada
de professores, práticas de ensino e aprendizagem, mobilizadas na elaboração de material didático,
serviços de extensão e cultura canalizados em iniciativas para a educação ambiental, devem ser
articulados na organização de um Laboratório de História e Meio Ambiente no Departamento de
História da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, em Assis.
A problemática ambiental constitui um novo campo de atuação, estudo, ensino e
pesquisa para os profissionais da história, sobretudo no Brasil, país gerado na intensa atividade
mercantil de inúmeros "frutos da terra" e que deve sua própria denominação à exaustiva exploração
de um recurso natural. Ainda hoje, a extração e comercialização de recursos naturais, legais e ilícitas,
não ocupam lugar destacado na economia brasileira? Estas características são suficientes para
interrogar os historiadores, tanto os profissionais atuantes, quanto aqueles que pretendem pôr o pé
na profissão. Vocês não têm algo a dizer?

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Brasil. Ministério da Educação. Brasília. MEC/Secretaria de Educação Fundamental, 2001.

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