ARTIGO DE REVISÃO

Rev Bras Clin Med. São Paulo, 2012 mai-jun;10(3):226-30

A história da tuberculose no Brasil: os muitos tons (de cinza) da
miséria*
The history of tuberculosis in Brazil: the many shades (gray) of the misery
Marina de Souza Maciel1, Plínio Duarte Mendes2, Andréia Patrícia Gomes3, Rodrigo Siqueira-Batista4
*Recebido do Departamento de Medicina e Enfermagem da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Viçosa, MG, e do Curso de
Graduação em Medicina do Centro Universitário Serra dos Órgãos (UNIFESO), Rio de Janeiro, RJ.

RESUMO

SUMMARY

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A história da tuberculose
(TB) no Brasil possui características próprias de acordo com o
contexto político, social e científico vigente. O presente artigo
teve por objetivo apresentar os aspectos de maior destaque atinentes à história da TB no Brasil, tecendo-se comentários relativos às principais conformações adquiridas pela moléstia em distintos intervalos temporais, do período colonial aos dias atuais.
CONTEÚDO: A TB instalou-se no Brasil desde a colonização
do país, disseminando-se entre as classes menos favorecidas. Durante o século XIX, a concepção da doença como "mal romântico" foi extremamente difundida, sobretudo entre os poetas da
época. A partir do século XX a doença passa a ser claramente
percebida como um preocupante problema de saúde, em termos
individuais e coletivos. A partir de então, um conjunto de ações
adotadas contribuíram para a importante redução da mortalidade
da TB no país.
CONCLUSÃO: O estudo da história da TB torna-se importante por oferecer subsídios para a elaboração de novas estratégias
de controle, além de apontar para a não repetição equívocos, os
quais ecoam, historicamente, até os dias atuais.
Descritores: História, Saúde pública, Tuberculose.

BACKGROUND AND OBJECTIVES: The history of tuberculosis (TB) in Brazil has its own characteristics according to
certain political, social and scientific current. This study aimed
to present the most outstanding aspects related to the history of
TB in Brazil, with comments relating to the major conformations acquired by the disease at different time intervals, from the
colonial period to today.
CONTENTS: The TB has settled in Brazil since its colonization,
spreading in underprivileged classes. During the 19th century, the
disease conception as "romantic sickness" was extremely widespread, especially among the poets of the time. At 20th century
the illness was finally understood as a worrying health problem,
both in individual and collective aspects. Since then, a set of actions were taken and all have contributed to the important TB
mortality reduction in the country.
CONCLUSION: The study of history of TB is important, since
it may provide a substrate for the development of new strategies
for the control of the disease, while pointing to the non-repetition of mistakes, which echoes, historically, until today.
Keywords: History, Public health, Tuberculosis.

1. Médica Residente de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil
2. Médico Graduado pelo Centro Universitário Serra dos Órgãos (UNIFESO)/
Teresópolis, RJ, Brasil
3. Doutora em Ciências, FIOCRUZ. Professora Adjunta do Departamento de Medicina e Enfermagem da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Viçosa, MG, Brasil
4. Doutor em Ciências, FIOCRUZ. Professor Adjunto do Departamento de Medicina e Enfermagem da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva
(PPGBIOS), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Viçosa, MG, Brasil
Apresentado em 13 de junho de 2011
Aceito para publicação em 23 de março de 2012
Conflito de interesses: Nenhum.
Endereço para correspondência:
Dra. Marina de Souza Maciel
Rua Rio de Janeiro, 1302/703 ­ Lourdes
30160-041 Belo Horizonte, MG.
Fone: (21) 2642-7291
E-mail: [email protected]
© Sociedade Brasileira de Clínica Médica

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INTRODUÇÃO
À luz dos conhecimentos atuais, baseados em evidências arqueológicas e históricas, admite-se que os primeiros casos do acometimento humano pela tuberculose (TB), a "peste branca", tenham
ocorrido em múmias egípcias, há mais de 5000 anos a. C., as
quais apresentavam anormalidades típicas do comprometimento vertebral pela TB (o Mal de Pott), além de tecidos contendo
o DNA do Mycobacterium tuberculosis1. É provável, no entanto,
que os membros do complexo M. tuberculosis, incluindo não só
o M. tuberculosis, mas as suas variantes Mycobacterium africanum,
Mycobacterium canettii e Mycobacterium bovis, tenham tido um
ancestral africano comum há 35.000-15.000 anos2.
Na América do Sul, achados arqueológicos apontam para a presença de TB pulmonar em uma múmia peruana que morreu há
1.100 anos a.C.1,3, da qual foram extraídos e estudados, a partir de
técnicas de reação em cadeia da polimerase (em inglês Polymerase
Chain Reaction = PCR), fragmentos de tecido, detectando-se sequências compatíveis com o DNA do Mycobacterium tuberculosis.
Admite-se que esta seja a primeira confirmação diagnóstica acerca
da existência de TB na era pré-colombiana no continente americano. Contudo, propõe-se que a TB tenha assumido condição de

A história da tuberculose no Brasil: os muitos tons (de cinza) da miséria

epidemia na população indígena, inclusive a existente no Brasil,
somente a partir da colonização européia1,4, determinando consequências econômicas e sociais para a sociedade brasileira até os
dias atuais5. O impacto da TB no Brasil, bem como a história das
políticas de controle por parte do Estado, possui características
próprias de acordo com determinado contexto político, social e
científico vigente.
Com base nestas considerações, o presente artigo teve como objetivo apresentar elementos relevantes da história da tuberculose
no Brasil. Neste sentido, apresentam-se dados descritos em revisão da literatura dirigida aos aspectos históricos da doença no
país, tecendo-se comentários relativos às principais conformações
adquiridas pela moléstia em distintos intervalos temporais, do
período colonial aos dias atuais. Para isto, foram consultadas as
bases de dados Scielo e a Pubmed, até 23 de agosto de 2011,
utilizando-se como descritores: tuberculose/tuberculosis, história/
history e Brasil/Brazil (Tabela 1). Além disso, foram empregados
livros e publicações do Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS), relativos ao tema. A tabela 1 explicita a
estratégia de pesquisa bibliográfica, tendo sido encontrados 136
citações, das quais 19 textos foram selecionados de acordo com
os critérios de inclusão definidos de modo a contemplar o objetivo proposto pelo estudo. Deste modo, foram eleitos trabalhos
que abordassem aspectos atinentes à TB no Brasil do século XVI
ao século XX, incluindo, sobretudo, os textos relativos às representações da doença e ao desenvolvimento das políticas públicas
de seu controle. Seis textos foram escolhidos a partir da lista de
referências dos 19 manuscritos optados. O total de artigos selecionados (25) foi lido e as informações organizadas em diferentes
seções ­ 1. A tuberculose no Brasil: do descobrimento até o século XIX, 2. A tuberculose no Brasil no século XIX e primórdios
do XX: uma visão romântica, 3. tuberculose no Brasil: o século
XX - apresentadas a seguir.
A TUBERCULOSE NO BRASIL: DO DESCOBRIMENTO
ATÉ O SÉCULO XIX
Durante a colonização portuguesa se estabeleceram, no Brasil,
jesuítas e colonos infectados pela "peste branca". O contato permanente dos doentes com os índios proporcionou o adoecimento
e a morte de muitos nativos. Sugere-se que o Padre Manuel da
Nóbrega, chegado ao Brasil em 1549, tenha sido o primeiro indivíduo conhecido portador de tuberculose no país6. Referências
a quadros clínicos compatíveis com a doença foram encontradas
nas cartas de Inácio Loyola (1555) e de José de Anchieta (1583)
destinadas ao reino de Portugal7, nas quais se relata que "os índios,
ao serem catequizados, adoecem, na maior parte, com escarro, tosse
e febre, muitos cuspindo sangue, a maioria morrendo com deserção
das aldeias"3.
Durante o Brasil Império, há estimativas de que a mortalidade
por TB, em 1855, se aproximava de 1/150 habitantes6. Neste

momento, o setor público de saúde começou a conceder maior
destaque a esta doença, através da participação do Dr. Francisco
de Paula Cândido, o qual, presidindo a Junta Central de Higiene
do Império, obteve aprovação no Parlamento para a adoção de
medidas sanitárias para o controle da TB. Neste contexto, visando à abordagem das condições de higiene das habitações coletivas, ditas "cortiços" e das epidemias de TB, varíola, febre amarela
e disenterias, então habituais no Rio de Janeiro, diversas leis para
assuntos habitacionais e questões sanitárias foram instituídas a
partir de 1870. Com efeito, entre os anos de 1876 e 1886, contabilizaram-se cinco decretos e um aviso ministerial estabelecendo
novas regras para os serviços de saúde nas cidades7.
Similarmente ao que ocorreu na Europa durante a Revolução Industrial, a epidemia de TB no Brasil tornou-se realidade na maior
parte das cidades, sendo denominada "a praga dos pobres", dada
sua íntima relação com moradias insalubres, apresentando pequeno espaço interior e repleção de pessoas, com falta de higiene e
com alimentação deficiente, elementos observados na população
mais acometida8. Complicando ainda mais este cenário, descreve-se que ao longo do século XIX, a atenção à saúde era insuficiente
e as questões relacionadas à higiene e à urbanização, nas grandes
cidades, ficavam em grande medida a cargo das autoridades locais. Ademais, a saúde pública era gerida em consonância com
os interesses econômicos e políticos da elite9,10. Sendo assim, as
práticas sanitárias visavam controlar doenças que pudessem comprometer diretamente a expansão econômica capitalista. A repercussão social destes fatos seria observada no final do século XIX
e início do século XX, quando a TB passou a ser considerada a
principal causa de morte no Rio de Janeiro11.
No âmbito assistencial, as Santas Casas de Misericórdia tiveram
papel pioneiro e solidário na atenção aos pacientes tuberculosos,
desde o período do Brasil colônia, até a criação dos sanatórios
e dos dispensários a partir do ano de 19206,12. Fundamentadas
em uma concepção humanitária de assistência, as irmandades
desempenhavam o papel de amparar os pobres, ofertando-lhes
alimentação e descanso13.
Neste interregno, mantinham-se elevadas taxas de morbimortalidade pela doença, contexto que se perpetuaria até meados do
século XX, época na qual, efetivamente, as mesmas começariam a
declinar, com o advento da terapia farmacológica14.
A TUBERCULOSE NO BRASIL NO SÉCULO XIX e PRIMÓRDIOS DO XX: UMA VISÃO ROMÂNTICA
Do ponto de vista epidemiológico, no século XIX, a TB representou importante causa de mortalidade no Brasil, descrevendo-se cerca de 700 óbitos a cada 100.000 habitantes15. A despeito
disso, a TB era vista de forma `positiva' pela sociedade da época16.
De fato, até a metade do século XIX, o tuberculoso era percebido
por seus contemporâneos em uma posição de refinamento, quiçá
motivado pelo ideário romântico, especialmente entre intelec

Tabela 1 ­ Estratégia de pesquisa bibliográfica.
Bases Consultadas
Scielo
Pubmed

Nº de Citações Obtidas
26
110

Artigos Excluídos
21
96

Estudos selecionados de acordo com os critérios de inclusão (número total)
19*

*Alguns artigos selecionados estavam citados na Scielo e na Pubmed; por conseguinte, optou-se por mencionar-se, aqui, o número total de artigos escolhidos.

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Maciel MS, Mendes PD, Gomes AP e col.

tuais e artistas. Neste contexto, a visão lírica da doença permitia
aos artistas expressarem seu sentimento de ambivalência, ora pelo
sofrimento que a doença gerava, ora pela peculiaridade que a ela
lhes garantia16. Tal distinção surgia "como se as belas-artes atraíssem o bacilo ou o bacilo, junto com a febre e as pontadas, desencadeasse o amor das artes, mormente o das letras" (Queiroz, 1949,
apud Montenegro, 1971, p. 22)17. Embora fossem conhecidas
as repercussões dramáticas quanto aos prejuízos à saúde, poetas
como Casimiro de Abreu e Rachel de Queiroz, esta aos 16 anos
de idade, chegaram a ansiar pela tísica, tendo em vista os dotes
intelectuais e interessantes que a doença supostamente proporcionava. Cansado do que chamou de "monotonia da boa saúde",
Casimiro, em carta de 1858, manifestou o desejo em contrair
a doença: "Queria a tísica com todas as suas peripécias, queria ir
definhando liricamente, soltando sempre os últimos cantos da vida e
depois expirar no meio de perfumes debaixo do céu azulado da Itália,
ou no meio dessa natureza sublime que rodeia o Queimado"17.
Também Machado de Assis manifestou-se acerca da tísica: "os poetas em todos os tempos tiveram sempre uma queda para as criaturas
descoradas" (citado por Montenegro, 1971, p. 27)17. Casimiro de
Abreu e outros poetas brasileiros, dentre eles destacam-se José de
Alencar, Cruz e Souza e Augusto dos Anjos, tiveram um desfecho
fatal pela TB. Manuel Bandeira desponta como mais importante
personagem da literatura brasileira a relacionar a tísica ao desenvolvimento da vocação literária. Adoeceu aos 18 anos e descreveu
a maneira como a doença se apresentou: "A moléstia não chegou
sorrateiramente, como costuma fazer, com emagrecimento, febrinha,
um pouco de tosse, não: caiu [...] de sopetão e com toda a violência,
como uma machadada de Brucutu"17. Embora Bandeira não tenha
sido mais uma vítima fatal da TB, morreu aos 82 anos de hemorragia digestiva em decorrência de uma úlcera duodenal18,19, o
espectro da doença e a espera da morte sempre foram uma constante em suas obras.
A partir do século XX, no entanto, ocorre o declínio da associação entre a tuberculose e a criação artística, a partir de quando a
doença passa a ser identificada, de forma mais clara, como preocupante problema de saúde, por sua persistência e propagação,
particularmente entre as populações desfavorecidas. Relacionado
a esse novo cenário, observou-se, também, a mudança de concepção sobre a enfermidade, passando de "mal romântico" a "mal
social", contexto que acabou convergindo para a estigmatização
social do enfermo11, a qual se perpetua, em grau distinto, até os
dias atuais.
A TUBERCULOSE NO BRASIL: O SÉCULO XX
A TB no século XX caracterizou-se por altas taxas de mortalidade, sobretudo até o final dos anos 40. A partir de então, começaram a ser utilizados medicamentos para o tratamento da doença.
Marcada como uma das principais causas de óbito nas capitais,
superada, geralmente, por diarreias e pneumonias, estima-se que
nesse período a TB tenha sido responsável por aproximadamente
10% dos óbitos ocorridos na cidade de São Paulo14.
A ausência de participação efetiva do poder público para o controle da TB20 permitiu o surgimento, entre médicos e sociedade
civil, das primeiras instituições criadas especialmente para abordar o problema, seguindo modelos europeus. Nesse contexto, em
228

1899, foram fundadas a Liga Brasileira Contra a Tuberculose no
Rio de Janeiro, atual Fundação Ataulpho de Paiva e a Liga Paulista Contra a Tuberculose14. As Ligas atuaram na propagação de
métodos de tratamento e de profilaxia vigentes no meio médico-social europeu, destacando-se: 1. campanhas de educação sanitária, 2. atendimento aos pobres e 3. estímulo à criação de sanatórios, dispensários e preventórios20.
A participação do setor público naquilo que ficou conhecido
como luta contra a TB se iniciou efetivamente com Oswaldo
Cruz, então Diretor Geral de Saúde Pública, no início do século
XX, ao reconhecer a necessidade da atenção das autoridades sanitárias em relação à doença. Instituiu-se, então, o Plano de Ação
Contra Tuberculose, visando à implantação de condutas profiláticas e terapêuticas, atingindo, contudo, pouca repercussão4,21.
Um evento importante para a história da TB no século XX foi a
Reforma Carlos Chagas, a qual dá início, em 1920, a uma fase
de maior comprometimento do Estado no controle da TB. Foi,
então, criada a Inspetoria de Profilaxia da Tuberculose, cuja finalidade era estabelecer o diagnóstico e o tratamento dos casos de
TB, além de se empenhar na prevenção da doença4,22,23.
Sob supervisão da Liga Brasileira Contra a Tuberculose iniciou-
se, em 1927, a vacinação com o Bacilo de Calmette e Guérin
(BCG) em recém-nascidos. Posteriormente, em 1930, houve um
incremento na formação de profissionais preparados para as ações
dirigidas ao controle da TB, a partir da inclusão do ensino de
Tisiologia no currículo da Faculdade Nacional de Medicina, por
Clementino Fraga20.
Em 1936, o médico brasileiro Manoel Dias de Abreu, desenvolveu um novo método diagnóstico que combinava a radiografia
de tórax e a fotografia, o qual ficou oficialmente conhecido como
"abreugrafia". O procedimento difundiu-se mundialmente como
um exame de rastreio para TB, visto que permitia aplicação em
larga escala, com custos inferiores aos da radiografia convencional14,20. No Brasil, passou a ser exigido, juntamente com o certificado de vacinação para varíola, como requisito para obtenção do
atestado de saúde (utilizado na admissão, no controle periódico
de saúde dos trabalhadores e para o ingresso em algumas escolas).
Com o decorrer dos anos, no entanto, o exame sofreu críticas
concernentes à baixa especificidade e às dificuldades no seguimento dos casos de dúvida diagnóstica14. No final da década de
1970, diante das queixas relativas ao método, a abreugrafia foi
substituída pela realização sistemática de baciloscopia em sintomáticos respiratórios como estratégia de rastreamento de pacientes portadores de TB, uma vez que esta apresenta menor custo
e mais fácil operacionalização. Progressivamente, a realização do
exame deixou de ser exigida para o fornecimento dos atestados de
saúde, até que, em 1990, o Ministério do Trabalho e Previdência
Social determinou a exclusão da abreugrafia da lista de exames
médicos obrigatórios relacionados à saúde do trabalhador14.
No ano de 1941, surgiu o Serviço Nacional de Tuberculose
(SNT), com o objetivo de estudar as questões referentes à enfermidade, bem como colaborar para o desenvolvimento de métodos de ação preventiva e assistencial. Mais tarde, em 1946, sob
coordenação do Diretor do SNT, Raphael de Paula Sousa, foi
criada a Campanha Nacional Contra a Tuberculose (CNCT),
tendo como escopo coordenar as ações governamentais e privadas
de controle da TB desenvolvidas no país. Este feito teve grande
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A história da tuberculose no Brasil: os muitos tons (de cinza) da miséria

impacto na época, tendo em vista suas repercussões na atenção
à saúde a partir da ampliação da estrutura hospitalar em todo
o país, uniformidade das ações de saúde e descentralização dos
serviços20,22.
Entretanto, o marco do tratamento e do controle da TB ocorreu
em 1943, com a descoberta da estreptomicina pelo americano
Selman Waksman, o que lhe garantiu o Prêmio Nobel em Medicina em 1952. Abriram-se, assim, nas décadas seguintes, perspectivas para a busca e a utilização de novos fármacos, incluindo
a isoniazida, a pirazinamida, o etambutol e a rifampicina. Além
destes medicamentos, até hoje utilizados na primeira linha para o
tratamento da doença, o ácido para-amino salicílico e a tiacetazona, dentre outros, surgiram como fármacos de segunda escolha24.
Os esquemas terapêuticos e seus respectivos tempos de duração,
adotados para o tratamento da TB no Brasil ao longo dos anos,
podem ser acompanhados na tabela 2.
Tabela 2 ­ Esquemas terapêuticos utilizados ao longo dos anos.
Ano
1944
1952
1964*
1965
1971
1979
2009

Esquemas Terapêuticos
Estreptomicina
SH
SHP
3SHP/3HP/6H
3SHT/HT
2HRZ/4HR
2RHZE/4RH

Duração (meses)
24
18
18
12
12
6
6

Estreptomicina (S), Isoniazida (H), Ácido para-amino salicílico (P), Tiacetazona
(T), Pirazinamida (Z), Rifampicina (R) e Etambutol (E). *A partir do ano de
1964, a CNCT padronizou os esquemas terapêuticos para o tratamento da tuberculose em todo o Brasil25.
Fonte: Fundação Oswaldo Cruz. Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca.
Educação a Distância. Controle da tuberculose: uma proposta de integração ensino-serviço. Fundação Oswaldo Cruz. Escola Nacional de Saúde Pública
Sergio Arouca. Educação a Distância; coordenado por Maria José Procópio. Rio de
Janeiro: EAD/ENSP, 2008.

Com a evolução dos esquemas terapêuticos há paulatina redução do tempo de duração do tratamento, passando de 24 meses
(1944) para seis meses (1979), o que pode ter contribuído, em
parte, para a maior adesão ao tratamento medicamentoso.
O impacto da terapêutica farmacológica na história da TB pode
ser observado pela diminuição da mortalidade por TB em São
Paulo: redução de 7,5% ao ano até 198526. Sem embargo, o sucesso terapêutico não foi acompanhado pelo controle da doença,
conforme era esperado. Contrariamente, a TB ressurgiu como
uma das principais doenças infecciosas no mundo contemporâneo, sendo declarada em 1993, pela OMS, como um grave problema de saúde global24. Ademais, após o surgimento da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) em 1981, observou-se
um incremento no número de casos de TB em indivíduos infectados pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV)6.
A utilização inadequada dos medicamentos - seja pelo número
de tomadas, pelo emprego de esquemas de baixa potência ou
pelo abandono do tratamento - tem contribuído para o surgimento de importante resistência do M. tuberculosis aos fármacos. Este, contudo, não é um problema novo; de fato, no Brasil,
os primeiros registros de resistência datam de 1958-1959, nos
pacientes em tratamento na cidade do Rio de Janeiro, então

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Estado da Guanabara. Característica semelhante foi observada
em outras capitais brasileiras, expondo um problema de impacto
nacional. A partir da década de 1960, várias medidas foram implantadas visando o melhor controle da doença, como a padronização do esquema para os casos novos com estreptomicina, ácido
paraminosalicílico e isoniazida27. Em um estudo que comparou a
evolução das taxas de resistência na época, foi verificada queda de
9,6% na década de 1970 para 7,4% na década de 198028.
Mais recentemente, o advento da tuberculose multirresistente
(TB-MR ­ em inglês: multidrug-resistant tuberculosis) e da tuberculose extensivamente resistente (TB-XR ­ extensively drug-resistant tuberculosis) tem complicado ainda mais o cenário da
moléstia. A TB-MR consiste na infecção por bacilos resistentes
à rifampicina e à isoniazida, ao passo que a TB-XR refere-se à
presença de cepas multirresistentes que também são resistentes às
fluoroquinolonas e a qualquer medicamento injetável considerado de segunda linha para o tratamento (amicacina, kanamicina
ou capreomicina)25,29. Tais bacilos associam-se à maior falha terapêutica, ao pior prognóstico, a mais efeitos colaterais pelo uso de
esquemas alternativos e, assim, ao maior custo agregado25.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora notória durante o século XX, a redução da mortalidade
por TB não foi mantida nas últimas décadas4. Dentre as razões
para tal situação destacam-se: 1. a desigualdade social e seus determinantes, 2. o advento da AIDS, 3. a multirresistência do bacilo causador da moléstia, 4. o envelhecimento da população e 5.
os movimentos migratórios. No entanto, a TB é uma doença passível de tratamento e, quase sempre, de cura, para a qual existem
medidas preventivas e terapêuticas eficazes. Felizmente, frente à
atual conjuntura, ações têm sido propostas com o propósito de
reverter tal contexto, como o fortalecimento da estratégia de Tratamento Supervisionado (TS), a capacitação de profissionais dos
diversos níveis de atenção à saúde que assistem aos pacientes acometidos pela doença e a investigação diagnóstica de sintomáticos
respiratórios, isto é, das pessoas que apresentam tosse há mais de
três semanas30-32. Estas iniciativas representam estratégias eficazes para a detecção precoce do indivíduo com TB, objetivando,
assim, a pronta instituição terapêutica e o menor surgimento de
resistência33-34. Três distintas dimensões (humanitária, de saúde
pública e econômica) são atualmente justapostas para controle
global da TB, o que permite maior otimismo frente a esta nova
abordagem interdisciplinar da doença. Neste sentido, o estudo
da evolução da TB torna-se importante - para a compreensão
dos díspares tons de cinza com os quais a doença tinge a história
da Humanidade -, uma vez que poderá oferecer subsídios para
a elaboração das políticas públicas de saúde visando o controle
da doença, além de apontar para a não repetição de erros como
a estigmatização social do doente35, a qual ecoa, historicamente,
até os dias atuais.
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