HISTÓRIA DA LEITURA NO BRASIL: 1960 - 2000
Arnaldo Cortina1
1

Faculdade de Ciências Letras ­ Universidade Estadual Paulista (UNESP)
Caixa Postal 174 ­ 14800-901 ­ Araraquara ­ SP ­ Brasil
[email protected]

Abstract. After gathering selected bestsellers sold in Brazil, this paper aims to
map the profile of Brazilian readers in the last four decades of the 20th
century. Two Brazilian newspapers were surveyed for bestseller lists and the
relevant data collected during that period is critically analyzed to make up the
imagery of their Brazilian readers. Greimasian semiotics provides the
theoretical approach within which the thematic configuration of the books is
examined.
Keywords. Reading; reader; best-seller; discourse; utterance act.
Resumo. Por meio de um levantamento dos livros mais vendidos no Brasil,
este trabalho pretende delinear um perfil do leitor brasileiro durante as
quatro últimas décadas do século XX. Esse levantamento é fruto de uma
pesquisa realizada em dois diferentes jornais brasileiros. A partir da detecção
dos livros mais vendidos nesse período, propomos fazer uma interpretação
crítica dos dados, com o objetivo de construir o imaginário dos leitores
brasileiros que os escolheram para ler. O suporte teórico-metodológico a
partir do qual será realizada a análise da configuração temática dos livros
mais lidos é o da semiótica greimasiana.
Palavras-chave. Leitura; leitor; best-seller; discurso; enunciação.

Introdução
A proposta inicial deste trabalho consiste em produzir um perfil do leitor
brasileiro do final do século XX. Para executar tal tarefa, portanto, parti da construção
de um corpus que me revelasse quais foram os livros mais lidos por esse leitor e, por
meio de seu exame, observei as isotopias a partir das quais eram constituídos os
discursos desses livros mais lidos. A perspectiva teórico-metodológica a partir da qual
procurei descrever esse corpus foi a da semiótica da escola de Paris. Devido ao espaço
reduzido deste artigo não foi possível aprofundar as análises das obras mais lidas, nem
desenvolver a questão da imagem de leitor que os discursos dessas obras produziam, de
forma a instaurar a adesão do grande número de seus consumidores.
Quando iniciei a pesquisa, verifiquei que chegar a um levantamento dos livros
mais lidos no Brasil não era tarefa simples, pois demandava um grande trabalho de
coleta dos dados necessários à consecução dos propósitos do trabalho. Além do mais,
constatei que era impossível fazer o levantamento dos livros mais lidos. Esse era um
dado impossível de detectar. Minha única possibilidade era identificar quais eram os
livros mais vendidos para o público leitor brasileiros e, a partir disso, entender que os
mais vendidos eram os mais lidos. Depois de longa tarefa de levantamento dos dados

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para a constituição do corpus, em consultas a bibliotecas das cidades de Araraquara,
São Paulo e Rio de Janeiro privilegiei duas fontes que se mostram mais promissoras.
Inicialmente fiz o registro das listas dos livros mais vendidos, publicadas pelo
jornal Leia. Nascido em abril de 1978, o Leia foi um periódico mensal que circulou no
território nacional durante o período de abril de 1978 a setembro de 1991 e que tinha
como objetivo examinar a questão do livro no Brasil e, conseqüentemente, o que o leitor
brasileiro lia.
Como os dados coletados nesse periódico não davam conta do período
inicialmente estabelecido pela pesquisa, de 1960 a 2000, foi necessário recorrer a outra
fonte de informação. Na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro constatei que o Jornal
do Brasil veiculava uma lista de livros mais vendidos no Brasil num caderno publicado
aos sábados, intitulado "Idéias". Em consulta ao banco de dados da biblioteca constatei
que esse jornal, embora tivesse sido fundado em 1890, começou a publicar uma coluna
dos livros mais vendidos no Brasil a partir de agosto de 1966. Por meio de consulta aos
arquivos da Biblioteca Nacional e da biblioteca do Jornal do Brasil , no Rio de Janeiro,
cheguei então ao registro das listas dos livros mais vendidos publicados por esse jornal
durante o período de agosto de 1966 a dezembro de 2000. O registro dos mais vendidos
nesse jornal durante o período referido não é contínuo, pois há interrupções de
publicação dessas listas entre dezembro de 1969 e janeiro de 1971 e entre fevereiro de
1976 e abril de 1984.
Com o corpus da pesquisa constituído, por meio de coleta realizada nos dois
jornais referidos, que passou a corresponder ao período de 1966 a 2000, foi possível
proceder à tabulação de todos os dados para chegar às listas dos livros mais vendidos. O
resultado desse trabalho está registrado nos gráficos 1 e 2, em anexo. Eles reproduzem o
número de vezes que cada um dos livros, segundo o levantamento do período de tempo
estabelecido pela pesquisa, aparece entre as diversas listas dos mais vendidos publicadas
pelos jornais Leia e Jornal do Brasil.

Leitura dos gráficos dos livros mais vendidos no mercado editorial brasileiro
Se entendo a semiótica como um "conjunto significante que se suspeita, a título
de hipótese, possua uma organização, uma articulação interna autônoma" (Greimas e
Coutés, [1985?], p. 409) o qual se pretende conhecer e que pode ser caracterizada como
"natural", na medida em que compreende dois diferentes conjuntos significantes, "de
um lado as línguas naturais e, de outro, os `contextos extralingüísticos' que
consideramos como sendo semióticas do mundo natural" (Greimas e Courtés, [1985?],
p. 409-10), posso realizar também uma análise semiótica do conjunto de dados que o
corpus da pesquisa me apresenta, na medida em que entendo esse mesmo corpus como
um "conjunto significante" que configura o leitor brasileiro contemporâneo.
Assim, a partir dos dados retirados do corpus, passei a examinar os tipos de
obras elencadas, como elas se agrupam e se diferenciam umas das outras, qual a
temática que enfocam, enfim, como podem ser descritas.
Se observarmos as duas listas dos livros mais vendidos (mostradas nos gráficos
1 e 2 em anexo) constataremos que vinte e seis livros aparecem como os mais vendidos
durante o período de 1966 a 2000 no Brasil: (1) O alquimista, de Paulo Coelho; (2)
Virando a própria mesa, de Ricardo Semler; (3) O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder;
(4) Brida, de Paulo Coelho; (5) A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera; (6) As
brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley; (7) Você pode curar sua vida, de Louise
Hay; (8) O sucesso não ocorre por acaso, de Lair Ribeiro; (9) Operação cavalo de

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tróia, J. J. Benítez; (10) A profecia celestina, James Redfield; (11) Inteligência
emocional, de Daniel Goleman; (12) Olga, de Fernando Moraes; (13) A viagem do
descobrimento, de Eduardo Bueno; (14) Comunicação global, de Lair Ribeiro; (15)
Iacocca. Uma autobiografia, de Lee Iacocca e William Novak; (16) 203 maneiras de
enlouquecer um homem na cama, de Olívia St. Claire; (17) Minutos de sabedoria, de
Carlos Torres Pastorino; (18) O Xangô de Baker Street, de Jô Soares; (19) Se houver
amanhã, de Sidney Sheldon; (20) Só é gordo quem quer, João Uchôa Jr; (21) As
valquírias, de Paulo Coelho; (22) Incidente em Antares, de Érico Veríssimo; (23) O
amor nos tempos do cólera, de Gabriel Garcia Márquez; (24) As sete leis espirituais do
sucesso, Deepak Chopra; (25) O diário de um mago, de Paulo Coelho; (26) Amar pode
dar certo, de Roberto Shinyashiki.
Ao examinar essa lista, percebo que o leitor brasileiro é grande consumidor de
textos de auto-ajuda. Dos 26 livros citados nas duas listas, 14 podem ser considerados
de auto-ajuda, se incluo as histórias de esoterismo de Paulo Coelho. Portanto, mais da
metade de todos os livros mais vendidos no período têm a característica de literatura de
auto-ajuda.
Entre os textos classificados nessa categoria posso estabelecer algumas
distinções. Dos quatro livros de Paulo Coelho, (1) e (4) são narrativas cujas personagens
centrais, respectivamente, Santiago e Brida, estão às voltas com seus destinos. Em (1), a
idéia de uma lenda pessoal; em (4), a identificação com os princípios da seita da
tradição da Lua. Já os outros dois do mesmo autor, (21) e (25), são narrativas de caráter
memorialista, em que há o relato de iniciação do autor, ora à busca de seu Anjo da
Guarda ora à aquisição de um saber que o torne merecedor de um objeto mítico (uma
espada) com o qual se inscreve na ordem dos cavaleiros de RAM.
Dentre os dez outros livros que incluo na categoria de auto-ajuda, dois deles,
(10) e (24), seguem a mesma tendência dos de Paulo Coelho. Enquanto o de Redfield,
que consiste em uma narrativa cujo mote é um manuscrito antigo, trata da busca da
verdade espiritual, o de Chopra, cuja estrutura segue a forma padrão dos textos de autoajuda, qual seja, o de manual de instrução que pretende capacitar o leitor a adquirir um
saber que o levará a uma melhor integração consigo próprio, irá discutir as sete leis
espirituais para que as pessoas sintam-se realizadas na vida e tenham sucesso em todos
os seus empreendimentos.
Um terceiro sub-grupo desses livros de auto-ajuda pode ser estabelecido quando
aproximo (8), (11) e (14). Na mesma linha de Chopra, embora sem o apelo místico do
espiritualismo, os dois livros de Lair Ribeiro, (8) e (14), que seguem o formato de
manual de instrução, querem mostrar às pessoas como a resposta a todos os seus
problemas depende da força de seu pensamento e de sua vontade. O de Goleman (11),
por sua vez, num viés mais "técnico-mentalista" quer destacar a importância do QE
(coeficiente emocional) para mostrar como as pessoas capazes de trabalhar com as
emoções têm sempre mais sucesso na vida do que aquelas que se preocupam apenas
com o racional.
Como quarto sub-grupo da auto-ajuda destaco os livros (7), (17) e (26). O que os
une é o apelo à crença em um deus que tudo harmoniza no mundo. O primeiro deles, de
Hay, tenta mostrar a força da mente e o apelo a esse deus como formas de cura do
próprio corpo físico. O segundo, de Pastorino, com suas listas de "pensamentos e
conselhos energizantes" quer enfatizar também a capacidade que o homem tem de, por
meio dos "bons fluidos" que o pensamento tem sobre o corpo, enfrentar todas as
adversidades. O terceiro, de Shinyashiki, com a exaltação de um etéreo sentimento de

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amor místico-religioso, defende a melhor união entre os casais núcleo familiares e os
seres humanos em geral, nas suas diversas atividades.
Ainda na categoria da linha auto-ajuda, o livro (16) constitui outro sub-grupo.
Embora seja único, o texto de St. Claire representa uma vertente das listas dos livros
mais lidos pelo público brasileiro, pois discute o tema da sexualidade que, ao verificar o
corpus da pesquisa, constato ser um assunto recorrente e que levou várias outras obras a
diferentes posições nas listas dos mais vendidos (Sexus, de Henry Miller, em 1967; A
mulher sensual, de Joan Garrity, em 1971; Sexo no confessionário, de Clara di Meglio e
N. Valentini, em 1974; Prazeres do sexo, de Alex Comfort, em 1980; Sexo para
adolescente, de Martha Suplicy, em 1988; Manual do orgasmo. Sexo e prazer para
dois, de Marilene Cristina Vargas, em 1993, além de vários outros que podem ser
observados nas listas).
A preocupação com a questão da sexualidade não é nova e sempre esteve
presente no imaginário do leitor em diversas épocas e lugares, como se pode constatar
nos trabalhos de Darnton (1996 e 1998), de Goulemot (2000) e, no Brasil, no de El Far
(2004), que abordam a pornografia. Ocorre, porém, que os livros das listas dos mais
vendidos não se enquadram nessa categoria de pornográficos, pois a perspectiva que
assumem é a de discutir a sexualidade do homem moderno, quer seja do ponto de vista
social, antropológico, psicológico ou psicanalítico. Herdeiros da chamada revolução
sexual dos anos 60 no mundo Ocidental, eles procuram explorar diferentes aspectos da
sexualidade no mundo moderno, muitas vezes, com um intuito terapêutico.
O último livro que classifico como representante de um sexto sub-grupo da autoajuda é o (20). Essa obra de Uchôa Jr. aborda a questão do corpo em que o aspecto da
saúde e o da estética estão interligados. A vertente de literatura voltada para o tema do
"regime alimentar" tem crescido muito ultimamente, uma vez que se aponta a obesidade
como uma doença crônica nos países capitalistas do mundo Ocidental contemporâneo,
ao mesmo tempo em que os padrões de estética centram-se na figura esguia e jovem dos
modelos publicitários.
Os diferentes livros de auto-ajuda, por sua vez, consistem numa categoria de
textos que questiona uma vez mais a distinção entre os chamados livros de ficção e os
de não-ficção. Quer se valham da técnica da narração de um acontecimento quer
construam um texto de cunho dissertativo-expositivo em que apelam para um
determinado conceito de comprovação científica, os livros de auto-ajuda aproximam-se
da proposta do manual de instrução na medida em que pretendem ser a fonte a partir da
qual o leitor realiza um fazer. Do ponto de vista da terminologia semiótica, a literatura
de auto-ajuda constrói-se a partir de um contrato entre o enunciador e o enunciatário,
baseado na crença. O enunciador-autor é proprietário de um saber que propõe doar a seu
enunciatário-leitor. Como essa transferência de saber se dá pelo discurso, sua eficácia é
positiva na medida em que seja capaz de levar o leitor a acreditar naquilo que ela propõe
como verdade. O fato de essa modalidade de texto ser bastante consumida pelo público
leitor brasileiro é uma constatação de que o livro de auto-ajuda tem atingido seus
propósitos.
Por outro lado, porém, posso constatar que a grande presença de textos de autoajuda nas listas dos livros mais vendidos é uma conseqüência também de um anseio do
enunciatário-leitor. O que pretendo dizer com isso é que o leitor brasileiro da segunda
metade do século XX está mais preocupado com aquilo que lhe toca de forma mais
direta, qual seja, seus problemas e angústias existenciais, do que com a fruição de um
objeto estético. Obviamente isso não é uma constatação original, pois é característica

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desse leitor comum, estabelecer uma relação direta entre seu desejo imediato e aquilo
que ele consome. A preocupação com o componente estético da leitura só será de
interesse para um público específico que se preocupa com essa questão. Nesse sentido é
um público extremamente reduzido, um grupo fechado que corresponde ao da academia
ou ao que se poderia genericamente chamar de intelectuais. O que procuro afirmar aqui
é que o que o leitor das obras de auto-ajuda busca é satisfazer um desejo imediato de
bem-estar que esse tipo de livro possa lhe proporcionar. A crescente venda de literatura
de auto-ajuda, além de seu caráter de mercadoria, é um reflexo do mecanismo semiótico
nele envolvido. O sujeito é movido por um querer e busca no objeto que consome o
contato com um saber capaz de dar uma resposta que satisfaça seu desejo.
Uma segunda categoria de livros mais vendidos durante o período de
investigação desta pesquisa, que chamarei de "mundo dos negócios", compreende os
textos (2) e (15). Embora não estejam completamente desvinculados dos anteriores,
classificados como de "auto-ajuda", são narrativas de memórias dos autores e tratam de
um mesmo tema, qual seja, a administração de uma grande empresa e sua posição no
mercado dos negócios. Minha observação de que eles não estão completamente
desvinculados dos livros de auto-ajuda diz respeito ao fato de que ambos procuram
apontar, cada um a sua maneira, quais são as melhores formas de atuação no sistema
empresarial brasileiro, no caso de Ricardo Semler, e no norte-americano, no caso de Lee
Iacocca.
Num misto de texto narrativo e dissertativo-informativo, (2) e (15) discutem
diversas questões do mundo empresarial a partir de pontos de vista distintos. O texto de
Semler quer construir a imagem do empresário progressista, preocupado com o bemestar dos operários e funcionários de suas empresas, identificando sempre o papel social
que, segundo ele, é característico de toda e qualquer indústria. Já o de Iacocca vai falar
da competência e da capacidade administrativa motivado por um outro sentimento, o da
"vingança" em relação a seu ex-patrão, o dono das indústrias Ford, que o demitiu de um
alto cargo administrativo.
Segundo a perspectiva da semiótica, o texto (2) constrói-se por meio de um
programa narrativo cujo sujeito deve entrar em conjunção com um objeto-valor,
tematizado na competência e dinâmica administrativa. Esse objeto-valor, por sua vez,
deve mostrar-se desvinculado dos estados passionais próprios a uma administração
empresarial que valoriza apenas os interesses particulares de seus proprietários, qual
seja, a ganância pelo lucro, a cobiça de poder monetário. Ao mesmo tempo, há no texto
uma oposição entre modernidade e tradição, figurativizado na contraposição entre o
novo modelo de empresário (Ricardo Semler) e o velho modelo de empresário (pai de
Ricardo). A conjunção com o objeto-valor manifestado no programa narrativo
representa também a manifestação do sujeito que se constrói na narrativa.
Em (15), por sua vez, o programa narrativo básico consiste na busca de
conjunção com um objeto-valor que é representado pelo "sucesso". Enquanto resultado
de uma disjunção com o emprego que possuía na Ford, que foi o programa narrativo
anterior, o sujeito investe na busca do sucesso administrativo uma reparação da falta,
isto é, sua dignidade perdida. Em verdade o fazer de Iacocca redunda num programa de
sanção ao fazer de seu ex-patrão, o dono das indústrias Ford, caracterizado
anteriormente como percurso da vingança. Identificado como um sujeito oriundo de um
estrato social marginalizado, filho de emigrantes italianos, Iacocca quer construir a
imagem daquele que tem a força e a capacidade de realizar tudo o que pretende num
país de mercado competitivo no mundo dos negócios como o norte-americano.

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O fato de as obras (2) e (15) aparecerem nas listas dos livros mais vendidos
durante o período da pesquisa é um reflexo da expectativa do público leitor brasileiro
em relação aos comportamentos do mundo de negócios da atualidade. Como não são
livros técnicos sobre administração, mas textos que se valem de uma linguagem mais
adequada ao leitor genérico, propiciam a penetração numa camada mais vasta do
público leitor. Além disso, a tendência à defesa de uma associação entre modelo de
administração e âmbito social insere os textos nas preocupações leitor brasileiro.
Para o exame das obras mais consumidas pelo público leitor brasileiro destaco
um livro que corresponde isoladamente a uma terceira categoria, qual seja, a do livro de
história. Esse é o caso de (13) que propõe uma nova forma de abordar o descobrimento
do Brasil. Aliando um fazer informativo ao fazer pedagógico, o texto de Eduardo Bueno
pretende refletir sobre uma questão histórica anterior à colonização portuguesa no Brasil
como uma forma de reparar uma falta até então presente. Contra a idéia da casualidade
do descobrimento das terras brasileiras (13) proporá um exame dos fatos históricos,
baseado em documentos, que apontam para o planejamento das esquadras portuguesas
em direção a terras ainda não exploradas pelos europeus. A posição isolada desse livro
pode ser interpretada como um interesse pelos dados históricos do público leitor
relativamente à origem da nação brasileira. Segundo a perspectiva da semiótica esse é
um movimento pela aquisição do saber.
Com relação aos demais livros que compõem as duas listas dos mais vendidos,
num total de 9, excetuando-se os 17 acima referidos em três diferentes categorias,
proponho classificá-los em uma quarta categoria geral que chamarei de "romances de
ficção". Essa denominação, por sua vez, compreende uma subdivisão em seis subcategorias. A primeira corresponde ao romance histórico-místico, concretizado em (6); a
segunda, aos romances com enfoque político, caso de (5), (12) e (22); a terceira, ao
romance realista maravilhoso, representado por (23); a quarta, aos romances de ação,
como (9) e (19); a quinta, ao romance policial, texto (18); e a sexta e última subcategoria ao romance filosófico, como (3).
Os leitores de Marion Zimmer Bradley, livro (6), podem identificar na narrativa
a temática histórica dos bretões, a mística, na medida em que as personagens são magos
e feiticeiros, e a feminina, uma vez que a perspectiva da retomada da lenda se dá pela
ótica das mulheres. O jogo entre esses diversos elementos transporta o leitor para uma
atmosfera distante do tempo presente o que caracteriza o ato de leitura como uma forma
de passatempo. Os percursos de busca de objetos-valores, mediados por objetos-modais,
aproxima sua narrativa dos contos maravilhosos.
No caso dos leitores de Milan Kundera, Fernando Moraes e Érico Veríssimo,
respectivamente, livros (5), (12) e (22), a identificação do componente político das três
narrativas assume perspectivas diferentes. Em (5) é o discurso anti-comunista que irá
conduzir o enfoque sobre os sentimentos de opressão e de isolamento manifestados
pelas personagens centrais da narrativa, o que instaura um tom individualista ao enredo.
Já em (12), o caráter político-ideológico, em defesa dos valores comunistas, são
ressaltados e a narrativa que se constrói na forma da biografia toca também na
problemática do feminino, uma vez que sua personagem central é uma mulher que vive
as cruezas do mundo revolucionário e o da guerra. No texto (22) a conotação política é
figurativizada na forma do desmascaramento do poder oligárquico em uma cidade do
sul brasileiro. De certa forma o romance de Veríssimo aproxima-se da temática de outro
sub-grupo quando dá um tom de realismo maravilhoso a sua narrativa.

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Quanto aos leitores de Gabriel Garcia Márquez, obra (23), o que os atrai é a
ambientação de uma história de amor com enfoque do realismo mágico que identifica o
autor como um dos representantes da literatura hispano-americana. Mesmo que aborde
um acontecimento histórico, uma epidemia de cólera no final do século XIX, no Peru, a
narrativa traça um caminho de confluência entre o real e o irreal, o verossímil e o
inverossímil. Nesse sentido, o leitor identifica o caráter ficcional do texto por meio dos
elementos que o constituem.
As histórias de J. J. Benítez e Sidney Sheldon, livros (9) e (19), atraem os
leitores que gostam de narrativas de ação. No caso de (9) a exploração do tema da
viagem através do tempo, responsável por tantos livros e filmes, caracteriza a ficção
científica. Por outro lado, porém, (9) irá reconstituir, pela ótica de um homem do século
XX, acontecimentos narrados no evangelho cristão, o que coloca em discussão dogmas
religiosos, embora sem nenhuma pretensão de aprofundamento teórico-filosófico, pois o
que mais contam são as peripécias realizadas pelas personagens. Isso não ocorre com
(19), que representa o clássico da narrativa de best-seller por desenvolver uma série
intrincada de ações ambientadas em contextos em que se destacam valores como
ascensão social pela aparência, poder pelo dinheiro, corrupção de caráter, num mundo
maniqueísta que separa os bons dos maus. Esse é o texto ao qual recorre o leitor que se
diz à busca de leitura enquanto entretenimento, sem que haja nenhum tipo de reflexão.
Normalmente a leitura assim pensada assemelha-se ao jogo que proporciona
divertimento.
A narrativa de Jô Soares, que corresponde ao texto (18), explora a fórmula de
um dos mais consagrados campeões de vendas, o romance policial. O leitor desse tipo
de texto é aquele que também se interessa pelo texto que possa lhe proporcionar lazer e
divertimento. Num jogo intrincado de pistas falsas e verdadeiras, o leitor do romance
policial interage com o texto na tentativa de descobrir o criminoso da história que
deverá receber uma sanção negativa ao seu final. Aliadas a essa estrutura típica do texto
policial, muitas situações de sátira-humorística são criadas pelo autor.
Por fim, o romance de Jostein Gaarder, que corresponde ao texto (3), é
apreendido pelo público leitor como um texto de aquisição de saber. Sua estrutura
didático-expositiva parece tornar claros intricados pressupostos filosóficos do mundo
Ocidental. O efeito de sentido que causa no leitor é o de apreensão de conhecimento,
embora muitas vezes o texto banalize certos pontos de determinadas correntes de
pensamento para garantir essa didaticidade. Tornado um livro obrigatório em curso de
segundo grau de diversas escolas, o romance de Gaarder adquire um status de literatura
cult.
Levando em consideração a categoria do que classifiquei como romances de
ficção nas listas dos livros mais vendidos no Brasil durante o período de 1966 a 2000,
posso identificar que a instância do leitor se constrói a partir da visão da leitura como
um passatempo, pelo gosto que se instaura no leitor que deve escolher um determinado
livro para ler.
Do ponto de vista, porém, da construção interna desse leitor nos textos
enquadrados nessa última categoria, posso dizer que ele se configura a partir de uma
projeção figurativa. Dois são os mecanismos que instauram essa projeção nos textos de
leitura. De um lado há o leitor que busca uma identificação com um modelo de sujeito
engajado em determinado estereótipo de valorização de questões sociais, o que acontece
com os textos (12), (22) e, em menor escala, (5), ou de questões filosóficas, como é o
caso de (3). De outro, há o leitor que se interessa pelo plano narrativo da história e a

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entende como uma forma de aquisição de saber ao mesmo tempo em que é o resultado
de um querer manifesto na forma do lazer, o que ocorre com (6), (23), (9), (19) e (18).
De qualquer ótica que se observem as escolhas de leitura de um determinado
público constata-se que o que se pode identificar no plano mais geral, que é o dos livros
mais consumidos, é uma uniformidade do padrão do que se considera um bom ou mal
livro. Determinadas épocas elegem certos textos que refletem questões próprias a ela ou
que nelas se afirmam como importantes e o sujeito que quer se instaurar no diálogo
dessas vertentes irá eleger os mesmo livros para leitura.

Considerações finais
Não apresentei aqui, em função do espaço limitado deste artigo e do estágio em
que se encontra meu trabalho de pesquisa, uma análise mais profunda dessa figura do
leitor presente nos textos mais vendidos no Brasil durante o período de 1966 a 2000.
Pretendo ainda realizar diferentes formas de tabulação desse corpus para verificar em
que medida os resultados poderão se tornar mais interessantes.
Ao invés, portanto, de trabalhar apenas com os vinte e seis livros mais lidos
como fiz aqui, poderia comparar as listas dos mais vendidos por décadas para, por
exemplo, observar se ouve algum tipo de mudança na imagem desse leitor projetado
pelos textos mais vendidos, ao mesmo tempo em que observo como as expectativas de
leitura do leitor brasileiro foram se modificando ao longo do tempo.
Por meio dos dados levantados até agora, conforme pude mostrar neste trabalho,
observo que o leitor brasileiro dos últimos trinta e seis anos tem encontrado nos textos
da chamada literatura de auto-ajuda, senão uma resposta a suas expectativas, pelo
menos uma busca dessa resposta. Embora possa considerar que o mercado editorial
tenha lançado muitos volumes desse tipo de livros, para tratar dos mais amplos
problemas individuais do homem, a existência desse mercado é o que também
impulsiona o grande interesse das editoras.
Não acredito que o leitor comum não se interesse pela leitura de certos textos de
ficção como forma de lazer, o que justifica que textos como, por exemplo, (3), (5), (6),
(22) e (23) estejam na lista dos mais vendidos. Creio também que persista o interesse
desse leitor comum pelo romance policial, como é o caso de (18), ou pelo romance de
ficção-científica, caso, por exemplo, de (9), para falar de dois outros clássicos de bestseller. A razão de não aparecerem mais romances policiais ou de ficção-científica nas
listas dos mais vendidos deve-se ao fato de que muitos dos autores desses tipos de
romances escrevem muitos textos diferentes, o que faz com que certos leitores leiam
determinados livros e não outros do mesmo autor, diminuindo assim a possibilidade de
que apareçam com um livro específico na lista dos mais vendidos. Esse é o caso, por
exemplo, de Agatha Christie, na década de 70. Havia meses em que essa autora tinha até
três ou quatro livros na lista dos mais vendidos. Embora seu nome não apareça nos
gráficos aqui apresentados sobre as obras mais vendidas, seu nome figura, com folga, no
primeiro lugar entre os autores mais vendidos na década de 70. Observar os gráficos de
autores mais vendidos também pode ser uma forma de levantar o perfil do leitor
brasileiro contemporâneo na medida em que a comparemos com os livros mais
vendidos. Essa é uma tarefa que pretendemos ainda desenvolver.
Meu intuito em nenhum momento do trabalho consistiu em discutir a teoria
semiótica francesa, pois minha preocupação é muito mais prática do que teórica, uma
vez que pretendo valer-me dos conceitos dessa perspectiva teórico-metodológica para
analisar os textos fruto do levantamento realizado. Por outro lado, porém, acredito que

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minha pesquisa possa contribuir, de alguma forma, para expandir os horizontes dessa
teoria, relativamente aos componentes do discurso, principalmente no que diz respeito à
relação entre o enunciador e o enunciatário, questão não muito bem desenvolvida ainda
pelos semioticistas.
Pelo que pode ser observado dos resultados aqui apresentados, as análises dos
textos mais consumidos pelo leitor brasileiro nas últimas quatro décadas do século XX
não está suficientemente desenvolvida ainda, nem a caracterização sócio-cultural da
época. Esse é um trabalho que exigirá mais tempo, tanto para a leitura mais detalhada de
todo esse material quanto para a redação dos resultados, o que pretendo realizar daqui
para frente.

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___. As astúcias da enunciação. As categorias de pessoa, espaço e tempo. São Paulo:
Ática, 1996. (Ensaios 144)
GOULEMOT, Jean-Marie. Esses livros que se lêem com uma só mão. Leitura e leitures
de livros pornográficos no século XVIII. Trad. de Maria Aparecida Corrêa. São Paulo:
Discurso Editorial, 2000.
GREIMAS, Algirdas Julien. & COURTÉS, Joseph. Dicionário de semiótica. Trad. de
Alceu Dias Lima at al.São Paulo: Cultrix, [1985?]

Estudos Lingüísticos XXXV, p. 369-378, 2006. [ 377 / 378 ]

Anexo
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21 21 21 20 20 20
"O alquimista", Paulo Coelho, Eco
"Virando a própria mesa", Ricardo Semler, Best Seller
"O mundo de Sofia", Jostein Gaarder, Companhia das Letras
"Brida", Paulo Coelho, Rocco
"A insustentável leveza do ser", Milan Kundera, Companhia das Letras
"As brumas de Avalon", Marion Zimmer Bradley, Imago
"Você pode curar sua vida", Louise Hay, Best Seller
"O sucesso não ocorre por acaso", Lair Ribeiro, Rosa dos Tempos
"Operação cavalo de tróia", J J Benitez, Mercuryo
"A profecia celestina", James Redfied, Objetiva
"Inteligência emocional", Daniel Goleman, Objetiva
"Olga, Fernando de Moraes", Alfa-Ômega
"A viagem do descobrimento", Eduardo Bueno, Objetiva
"Comunicação global", Lair Ribeiro, Rosa dos Tempos
"Uma autobiografia", Lee Iacocca, Cultura
"203 maneiras de enlouquecer um homem na cama", Olívia Clare, Ediouro
"Minutos de sabedoria", Torres Pastoriano, Vozes
"O Xangô de Baker Street", Jô Soares, Companhia das Letras
"Se houver amanhã", Sidney Sheldon, Record
"Só é gordo quem quer", João Uchoa Júnior, Guanabara
"As valquírias", Paulo Coelho, Rocco
"Incidente em Antares", Érico Veríssimo, Globo
"O amor nos tempos do cólera", Gabriel Garcia Márquez, Record

Livros mais vendidos no Brasil ­ 1966-2000
Gráfico 1 ­ Levantamento geral Leia + JB

62
38 37 35 31 30 29
28 27 24 24 23 22 22 21 21 20 20 20
19 19
"O alquimista", Paulo Coelho, Eco
"O mundo de Sofia", Jostein Gaarder, Companhia das Letras
"Brida", Paulo Coelho, Rocco
"Diário de um mago", Paulo Coelho, Eco
"Você pode curar sua vida", Louise Hay, Best Seller
"O sucesso não ocorre por acaso", Lair Ribeiro, Rosa dos Tempos
"A profecia celestina", James Redfied, Objetiva
"Inteligência emocional", Daniel Goleman, Objetiva
"Virando a própria mesa", Ricardo Semler, Best Seller
"A viagem do descobrimento", Eduardo Bueno, Objetiva
"Comunicação global", Lair Ribeiro, Rosa dos Tempos
"203 maneiras de enlouquecer um homem na cama", Olívia Clare, Ediouro
"Minutos de sabedoria", Torres Pastoriano, Vozes
"O amor nos tempos do cólera", Gabriel Garcia Márquez, Record
"As brumas de Avalon", Marion Zimmer Bradley, Imago
"O Xangô de Baker Street", Jô Soares, Companhia das Letras
"1968: o ano que não terminou", Zuenir Ventura, Nova Fronteira
"As valquírias", Paulo Coelho, Rocco
"Incidente em Antares", Érico Veríssimo, Globo
"Amar pode dar certo", Roberto Shinyashiki, Gente
"As sete leis espirituais do sucesso", Deepak Chopra, Best Seller

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