BIBLIOTECA

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NACIONAL

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MINISTÉRIO DA CULTURA
Ministro:
Celso Furtado
FUNDAÇÃO NACIONAL PRÓ-LEITURA
Presidente:
Wladimir Murtinho
BIBLIOTECA NACIONAL
Diretora-Geral:
Maria Alice Barroso

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PARA UMA HISTÓRIA
DO NEGRO NO BRASIL

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BIBLIOTECA NACIONAL · RIO DE JANEIRO · 1988

ISBN 85-7017-051-3
Projeto
Ilustração

Gráfico:

Ana Lúcia de Abreu Azevedo

da capa: Escrava, desenho de Johann Moritz Rugendas

A realização do evento se tornou possível graças aos incentivos da Lei 7505/86
-- Lei Sarney -- através de recursos doados pela Fundação Nestlé de Cultura à
Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional.

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Para uma história do negro no Brasil. -- Rio de Janeiro : Biblioteca Nacional, 1988.
64 p. ; il. ; 20cm.
Catálogo da exposição realizada na Biblioteca Nacional de 9 de maio a 30 de junho de 1988.
ISBN 85-7017-051-3 (broch.)
1. Escravidão -- Brasil - - História -- Exposições.
2. Negros -- Brasil -- História -- Exposições. I. Biblioteca Nacional (Brasil)
CDD-016.981

BIBLIOTECA NACIONAL
Av. Rio Branco, 219
CEP 20042 -- Rio de Janeiro -- RJ
Impresso no Brasil

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SUMÁRIO

Apresentação

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A Escravidão no Brasil

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O Fim do Tráfico Negreiro
O Movimento Abolicionista
Em Busca da Cidadania

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APRESENTAÇÃO

A série de exposições que vêm sendo realizadas na Biblioteca Nacional demonstra a riqueza do acervo de documentos que estainstituição possui como
também o cuidado -- e a capacidade -- de sua equipe técnica de oferecer ao
público toda uma variada gama de peças didática e esteticamente estruturadas
para a exibição em torno do tema enfocado.
Há quem defina o que vem a ser uma biblioteca nacional pelo fato da instituição
ser detentora do depósito legal de todo documento impresso. Dessa peculiaridade deriva a obrigatoriedade de editar a bibliografia do país. Não se poderá
negar, porém, que a mais marcante característica de uma biblioteca nacional é
a extensão do seu acervo, que passa a ser único devido não só ao depósito legal
como também à antiguidade das peças que foram constituindo o seu acervo
através dos tempos.
Por quaisquer das características acima referidas, a Biblioteca Nacional do Brasil, situada no Rio de Janeiro, pode ser identificada, já que vem ela cumprindo,
desde a sua criação, em 1810, o papel de preservadora da identidade do povo
brasileiro.
Existe quem se ressinta do fato de Brasília, a capital do país, ainda não possuir
uma biblioteca nacional: mas a informatização do acervo da Biblioteca Nacional
do Rio de Janeiro -- já em processamento -- vai possibilitar que a informação
flua, com agilidade, não só para as bibliotecas de Brasília como para as existentes nas demais cidades brasileiras. Na verdade, o desenvolvimento tecnológico derrubou as barreiras da localização geográfica das coleções de livros -- o
que se desloca, através da comunicação das bases de dados, é o texto e não a
obra.

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A presente exposição, Para uma história, do negro no Brasil, possivelmente
será uma das mais completas neste ano em que se comemoram os 100 anos
da Abolição. Todas as Divisões, todas as Seções da Biblioteca Nacional refluíram para este trabalho, num esforço comum de possibilitar ao pesquisador a
mais ampla riqueza de documentos.
Microfilmada, esta exposição percorrerá o país, evidenciando como a tecnologia contemporânea nos meios de informação pode contribuir para a integração
nacional.
O presente catálogo reúne 140 peças, entre livros, periódicos, manuscritos, estampas e fotos, selecionadas a partir de um vasto acervo de documentos que
registram a épica resistência do negro e das consciências bem formadas à tirania das forças reacionárias e exploradoras do trabalho humano.
Ao oferecer ao pesquisador sua contribuição para a História do Negro no Brasil,
a Biblioteca Nacional integra-se às comemorações do Ministério da Cultura no
ano do Centenário da Lei Áurea.

Maria Alice Barroso
Diretora-Geral
BIBLIOTECA NACIONAL

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A ESCRAVIDÃO NO BRASIL

"Sem negros não há Pernambuco", afirmava no século XVI o Padre Antônio
Vieira. E outro jesuíta, André João Antonil, escrevia, no século XVI11, no seu Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas: "os escravos sâo as
mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no Brasil não é possível
fazer, conservar e aumentar a fazenda, nem ter engenho corrente".
O Brasil, em razão de sua dimensão e da ausência de preocupação coma reprodução biológica dos negros, foi o maior importador de escravos das Américas.
Estudos recentes estimam em quase 10 milhões o número de negros transferidos para o Novo Mundo, entre os séculos XV e XIX. Para o Brasil teriam vindo
em torno de 3.650.000.
Diversos grupos étnicos ou "nações", com culturas também distintas, foram
trazidos para o Brasil. A Guiné e o Sudão, ao norte da linha do Equador, o Congo
e Angola, no centro e sudoeste da África, e a região de Moçambique, na costa
oriental, foram as principais áreas fornecedoras. Das duas primeiras vieram, entre outros, os afantis, axantis, jejes, peuls, hauçás (muçulmanos, chamados
malês na Bahia) e os nagôs ou iorubás. Estes últimos tinham uma grande influência política, cultural e religiosa em ampla área sudanesa. Eram de cultura
banto os negros provenientes do Congo e de Angola -- os cabindas, caçanjes,
muxicongos, monjolos, rebolos--, assim como os de Moçambique.
Os escravos trabalhavam na agricultura, nos ofícios e nos serviços domésticos
e urbanos. Os negros do campo cultivavam para a exportação -- atividade que
dava sentido à colonização -- a cana-de-açúcar, o algodão, o fumo, o café, além

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de se encarregarem da extração dos metais preciosos. Os negros de oficio
especializaram-se na moagem da cana e no preparo do açúcar, em trabalhos de
construção, carpintaria, olaria, sapataria, ferraria, etc. No século XIX, nâo foram
poucos os escravos que trabalharam como operários em nossas primeiras fábricas. Quanto aos negros domésticos, escolhidos em geral entre os mais
"sociáveis", cuidavam de praticamente todo o serviço das casas-grandes e habitações urbanas: carregar água,.retirar o lixo, além de transportar fardos e os
seus senhores em redes, cadeiras e palanquins.
No século XIX generalizou-se ainda a atividade dos negros de ganho e dos negros de aluguel. Os primeiros buscavam serviços na rua, trabalhando como
ambulantes, por exemplo, com a condição de dividir com os seus senhores a
renda obtida. Os segundos eram alugados a terceiros também para variados
serviços. Era comum vê-los nas ruas falando alto, oferecendo-se para trabalhos, chamando a atenção dos pedestres ao se aproximarem com fardos pesados, entoando cantos de trabalho. Ê, cuê... / Ganhado... / Ganha dinhero / Pra
seu sinhô.
Nas minas e lavouras de exportação, nestas últimas na época de safra, era comum o escravo trabalhar até 14 ou 16 horas, alimentando-se e vestindo-se mal
e se expondo ao clima. Em geral amontoavam-se em senzalas impróprias para
a habitação e careciam de cuidados médicos, sendo freqüentemente vítimas
de doenças que se tomavam endêmicas, como a tuberculose, disenteria, tifo,
sífilis, verminose, malária. A média de vida útil, por isso, variava de sete a dez
anos.
Não há motivos para se duvidar da brutalidade das condições gerais de vida e da
violência dos castigos recebidos. A legislação portuguesa e brasileira, a documentação iconográfica e os relatos deixados pelos brancos e, em número muito menor, pelos negros (a mesma legislação impedia o acesso à educação)
dão forte testemunho a respeito.

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Os castigos, no entanto, como observa Katia Mattoso, na obra Ser Escravo no
Brasil, não se constituíam numa prática diária, nem tinham sempre a mesma
intensidade. Estes castigos -- imobilização no tronco, açoites, marcas a ferro
quente, esmagamento de dedos, corte de orelhas -- costumavam ser mais violentos na lavoura, sobretudo nos períodos em que era indispensável o trabalho
contínuo, e diante de faltas graves.
Além de trabalho, obediência e respeito às leis e dispositivos disciplinares, os
senhores exigiam dos escravos fidelidade, humildade e aceitação dos valores
brancos. Os negros deviam aprender a língua portuguesa e a religião católica,
único bem moral que recebiam dos brancos. Logo que chegavam ao Brasil, os
africanos eram batizados e recebiam nomes cristãos, sendo em geral perseguida a prática dos cultos africanos
Mas a vida dos escravos em nosso país não se resumia à mera condição de
força de trabalho, de instrumento passivo dos grupos dominantes, supostamente os únicos agentes da história. Se deviam submeter-se às condições impostas por uma sociedade exploradora e violenta, coube também aos negros
escravos criar uma estratégia de sobrevivência e, até mesmo, uma nova identidade, que lhes permitisse viver o seu dia-a-dia.
Aos negros, em suma, restava a resistência impetuosa à violência que sofriam
ou a adaptação tática às regras do jogo. A primeira, representada pela sabotagem do trabalho, abortos provocados, assassinato de senhores e feitores, fugas, feitiçarias, suicídios, organização de quilombo e insurreições, constitui a
manifestação aberta da contradição, a dinâmica do conflito.
Os quilombos, por exemplo, formaram-se em praticamente todas as regiões do
Brasil. O quilombo dos Palmares, organizado na serra da Barriga, Alagoas, em
1630, foi o mais importante de todos. Seus milhares de habitantes, os quilombolas, sustentaram a liberdade até 20 de novembro de 1695, quando as forças
chefiadas pelo bandeirante Domingos Jorge Velho mataram Zumbi, o último

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grande líder de Palmares. Em 1835, eclodiu em Salvadora revolta dos malês, o
maior e mais bem organizado levante de escravos contra a dominação branca.
A adaptação tática, como observam hoje diversos historiadores, corresponde
ao "tempo da normalidade", mais longo e constante. Neste último caso, o negro, " p o r estratégia, invenção ou sorte ia vivendo da melhor maneira
possível"'.
São exemplos dessa resistência diária, e só, aparentemente, não conflituosa do
negro: a formação de poupanças para a compra da alforria, a invenção de planos para se libertar (como os de uma escrava e sua filha, que se fizeram passar
por libertas homônimas já falecidas), a solidariedade das sociedades de auxílio
mútuo e de emancipação ou, ainda, recorrendo em juízo por terem sido importados depois da Lei de 1831, que proibia a continuidade do tráfico de negros
para o Brasil.
Desse modo, a presença do negro na sociedade escravista brasileira não pode
ser medida apenas pela influência na criação de hábitos e pela participação no
trabalho e na formação da cultura nacional, mas também por sua atuação quotidiana no processo penoso e difícil de conquista da liberdade e de recuperação
de sua identidade.

'GRAHAM, Sandra. Luso-Brazilian Review. Apud SILVA, Eduardo. Entre Zumbi e Pai-Joäo, o escravo que négocia. J o r n a l d o Brasil, Rio de Janeiro, 18 ago. 1985. p. 3. Caderno Especial.

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ALLUGA-SE. Diário de Pernambuco, Pernambuco, 19 maio 1829. p. 434.

ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. "Instruçoens, e Diário da Viagem q fez
ao centro d'Africa, o Governador q foi dos Rios de Sena Francisco José d'Lacerda e Almeida, no anno de 1798."
Cópia da época. 67 p. com 23 mapas
aquarelados.
Coleção
Martins.
AMAS de leite. Diário de Pernambuco, Pernambuco, 19 maio 1829. p. 434.

ANDREONI, João Antônio. Cultura, e Opulência do Brasil porsuas Drogas, e
Minas... Obra de Andre Joaõ Antonil. Lisboa, Na Officina Real Deslandesiana,
Annode 1711. 8 f. + 205 p.
7. ed.

AVISO do Visconde de Anadia ao Conde da Ponte comunicando que o Príncipe
Regente aprovou a resolução de destruir os quilombos ou ajuntamentos de
pretos nos subúrbios da cidade da Bahia. Mafra, 27 jun. 1807.
Original. 1 f.

AVISOS. Em 20 de Agosto do anno proximo passado fugio hum escravo preto,
por nome Mattheus... Gazeta do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 7 jan. 1809.
p.4.

BRIGGS, Frederico Guilherme. Negro fujoã (sic). Rio de Janeiro, Rivière &
Briggs, 1829-32.
Litogr.
aquarelada.

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