Rede São Paulo de

Cursos de Especialização para o quadro do Magistério da SEESP
Ensino Fundamental II e Ensino Médio

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Rede São Paulo de

Cursos de Especialização para o quadro do Magistério da SEESP
Ensino Fundamental II e Ensino Médio

São Paulo
2011

sumário

sumário

bibliografia
TEMAS

ficha

Sumário

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Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

1. Ensino da Arte no Brasil: uma história que vai da dependência à
antropofagia....................................................................................4
1.1 - A atualidade da Missão Francesa........................................................6
1.2 - Os liberais e o ensino de arte anti-elitista......................................... 11
1.3 - O Modernismo................................................................................. 15
1.4 - Pressões e mudanças: a ditadura de 1964.......................................... 26
1.5 - Os anos de 1980 e depois: o pós-modernismo.................................. 30

2. Concepções e tendências formativas........................................39
2.1 - Arte como um saber e a pedagogia tradicional.................................. 41
2. 2 - Arte como expressão e a pedagogia renovada................................... 43
2.3 - Arte como linguagem........................................................................ 46
2.4 - Arte como cultura e a pós-modernidade........................................... 47

Referencias bibliográficas ........................................................ 5 6
Ficha da Disciplina:................................................................. 6 0
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sumário

bibliografia

TEMAS

ficha

tema1

1. Ensino da Arte no Brasil: uma história
que vai da dependência à antropofagia

1
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Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

Vamos buscar compreender, nesta disciplina, como a história do ensino da arte no Brasil

está marcada pela dependência cultural. Sabemos que o primeiro produto cultural brasileiro
de origem erudita foi o Barroco. Trazido de Portugal, recebeu através da criação popular car-

acterísticas que podem ser consideradas de cunho nacional. Os artistas e artesãos brasileiros

à maneira antropofágica criaram um barroco com distinções formais em relação ao Barroco
europeu. O ensino da arte barroca tinha lugar nas oficinas através do fazer sob a orientação do
mestre. Estas oficinas eram a única educação artística popular na época.

Veremos inicialmente que a primeira institucionalização do ensino de arte foi a Missão

Francesa (1816) com o modelo neoclássico, um dos poucos modelos com atualidade no país de
origem no momento de sua importação para o Brasil. Quase sempre os modelos estrangeiros
foram tomados de empréstimo numa forma já enfraquecida e desgastada. A Missão Francesa
foi na realidade uma invasão cultural de cunho elitista.

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sumário

bibliografia

TEMAS

ficha

tema1

1

Em contraposição, no final do século XIX, no contexto republicano, os liberais introduzi-

ram o ensino do desenho na educação numa perspectiva anti-elitista como preparação de

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mão-de-obra para o trabalho nas indústrias, a partir do modelo norte-americano. A apropria-

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

ção deste modelo e seus desdobramentos é analisada no segundo tópico, pois foi exercido de

forma marcante e intensa até meados do século XX, deixando resquícios em livros didáticos e
no ideário educacional.

No entanto, já no início do século XX, o Modernismo transpôs para o campo educacional

a idéia de arte como expressão. Este é o tema do terceiro tópico, onde vamos buscar com-

preender as diversas interpretações das idéias de John Dewey nas reformas educacionais da

Escola Nova, quando as atividades artísticas passam a ser aceitas no meio educacional. A idéia
de arte como expressão induziu também, na segunda metade do século XX, experiências bem
sucedidas de arte para crianças e adolescentes como atividades extracurriculares. Foi neste
contexto favorável que na década de 1970 a Educação Artística passou a ser obrigatória no

ensino formal, carregando, entretanto, uma perspectiva conceitual e ideológica desfavorável
configurada pelo tecnicismo e pela polivalência.

No final do século XX o movimento de arte/educação se revigora em sintonia com a pós-

modernidade, resultado do amadurecimento de um campo de conhecimento que desenvolve

pesquisas e busca se aproximar do campo das práticas artísticas. Chegamos a nossa contempo-

raneidade que se caracteriza por múltiplas deglutições e apropriações de modelos, por trânsitos
entre culturas.

Temos aqui por razões didáticas um percurso histórico que segue uma cronologia, porém

precisamos compreender que esta nossa história não é apenas uma sucessão de fatos e acontecimentos isolados que se apresentam de forma linear e pertencem ao passado, mas uma

constelação de proposições, idéias e experiências sobre a arte e seu ensino que se sobrepõem
e co-habitam um mesmo espaço e continuam ativas hoje no ideário educacional. Esperamos
que ao revisitar a história do ensino da arte possamos melhor nos entender no contexto de hoje

e, sobretudo, nos ajude a construir possibilidades educacionais mais condizentes com nossos
valores neste conturbado cenário contemporâneo.

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sumário

bibliografia

TEMAS

ficha

tema1

1.1 - A atualidade da Missão Francesa

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Como sabemos, a primeira institucionalização sistemática do ensino de arte foi a Missão

Francesa, e um dos poucos modelos com atualidade no país de origem no momento de sua im-

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

portação para o Brasil. Quase sempre os modelos estrangeiros foram tomados de empréstimo

numa forma já enfraquecida e desgastada. A Missão francesa foi na realidade uma invasão
cultural.

Os integrantes da Missão Francesa que aqui chegaram em

1816 eram membros do Instituto de França que havia sido
aberto em 1795 para substituir as velhas academias de arte

suprimidas pela Revolução Francesa. Sob a supervisão e a

influência de Jacques Louis David1 (1748-1825), o mestre do

1. Jacques Louis David e o Neoclássico - para ter uma melhor compreensão do estilo Neoclássico que acompanhou o ideário da Missão Francesa
sugerimos buscar na Web imagens do
artista Jacques Louis David.

Neoclássico, o Instituto de França logo alcançou reputação

superior à École des Beaux-Arts e influenciou as escolas de toda a Europa por ser metodologicamente a instituição mais moderna de seu tempo. Portanto, o Neoclássico, através do qual se

expressavam os artistas da Missão Francesa quando para cá vieram organizar a nossa primeira
escola de arte, era o estilo de vanguarda naquele tempo na Europa.

Todavia, os planos apresentados por Joachim Le Breton (1760-1819), chefe da Missão

Francesa, para a Escola de Ciências Artes e Ofícios, criada por decreto de D. João VI em 1816,
eram de cunho mais popular do que a orientação seguida no Instituto de França onde ele

ensinava. O projeto repetia os mais atuais modelos de ensino de atividades artísticas ligadas a
ofícios mecânicos empregados na França por Bachelier em sua École Royale Gratuite de Des-

sin, que existe até hoje com o nome de École Nationale des Arts Décoratifs. Bachelier, que era

mestre de decoração em porcelana da fábrica de Sèvres, conseguiu combinar e conciliar em sua

escola (1767) métodos e objetivos de ensino de arte comuns às corporações e às academias. Ele
contornou a tradicional luta entre artistas e artesões, conseguindo apoio das academias para o

seu trabalho pedagógico, exigindo, por exemplo, que os mestres de desenho de sua escola tivessem obtido prêmios da academia. A experiência de Bachelier, muito comentada e aplaudida

na Europa, levou países como a Alemanha e a Áustria a introduzirem o desenho criativo no
treinamento das escolas para trabalhadores manuais, e as escolas de belas artes a considerarem
importante o ensino da geometria.

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bibliografia

TEMAS

ficha

tema1

Era este casamento feliz entre as belas artes e as indústrias que Le Breton pretendia repetir

1

no Brasil. Pelos planos de Le Breton nossa escola de arte seria uma entidade que não perde-

2

ria de vista o equilíbrio entre educação popular e educação da burguesia. Entretanto, quando

aquela escola começou a funcionar em 1826 sob o nome de Escola Imperial das Belas-Artes,
Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

não só o nome havia sido trocado, mas, principalmente sua perspectiva de atuação educacio-

nal, tornando-se o lugar de convergência de uma elite cultural que se formava no país para
movimentar a corte, dificultando, assim, o acesso das camadas populares à produção artística.
A Escola Imperial das Belas-Artes inaugurou a ambigüidade na qual

até hoje se debate a educação brasileira, isto é, o dilema entre educação

de elite e educação popular. Na área específica de educação artística incorporou o dilema já instaurado na Europa entre arte como criação e
como técnica.

Em 1855, Manuel José de Araújo Porto Alegre (1806-1879), baseado no ideário romântico,

pretendeu revigorar a educação elitista que vinha tendo lugar na então denominada Academia
Imperial das Belas-Artes através do contato com o povo. Pretendia sua reforma conjugar no

mesmo estabelecimento escolar duas classes de alunos, o artesão e o artista, frequentando juntos as mesmas disciplinas básicas. A formação do artista era alargada com outras disciplinas de

caráter teórico, especializando-se o artífice nas aplicações do desenho e na prática mecânica.
Entretanto, a permanência dos velhos métodos e de uma linguagem sofisticada fez com que

a procura popular por esses cursos fosse quase nula, assim como foi quase nula também a

matrícula nos cursos noturnos para a formação de artesão criados em 1860 na Academia.
Nestes últimos, a simplificação curricular era quase pejorativa. Em ambos os casos a inclusão
da formação do artífice naquela instituição era uma espécie de concessão da elite à classe obreira e por isso destinada ao fracasso.

Já o Liceu de Artes e Ofícios de Bethencourt da Silva (1831-1911), criado em 1856 no Rio

de Janeiro, mereceu de pronto um alto grau de confiança das classes menos favorecidas, como

atestou o grande número de matrículas já no primeiro ano de funcionamento. Coube aos liceus
de artes e ofícios, criados na maioria dos Estados, com pequenas variáveis do modelo do Liceu

de Bethencourt da Silva, a tarefa de formar não só o artífice mas os artistas que provinham das
classes operárias.

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sumário

bibliografia

TEMAS

ficha

tema1

Até 1870 pouco se contestou o modelo de ensino da arte da Academia Imperial das Belas-

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Artes, que foi em parte utilizado pela escola secundária. Nas escolas secundárias particulares

2

para meninos e meninas, imperava a cópia de retratos de pessoas importantes, de santos e

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

a cópia de estampas, em geral européias, representando paisagens desconhecidas aos nossos

olhos acostumados ao meio ambiente tropical. Estas paisagens levavam os alunos a valorar
esteticamente a natureza européia e depreciar a nossa pela rudeza contrastante.

É interessante notar que no século XIX poucos países do Novo Mundo instituíram o en-

sino da arte para meninos nas escolas de elite. O mais comum é que a arte tivesse lugar apenas

nas escolas de meninas de alta classe. No Brasil isto ocorreu porque a elite brasileira esteve no
período colonial mais ligada aos modelos aristocráticos do que aos modelos burgueses como
nos outros países americanos.

Segundo o modelo aristocrático, arte era indispensável na formação dos príncipes. D. João

VI deu o exemplo quando contratou Arnaud Pallière (1823-1887) para ensinar desenho aos
príncipes. Seguindo este padrão, a arte foi incluída em 1811 no currículo do colégio do Padre

Felisberto Antônio Figueiredo de Moura, uma escola para rapazes no Rio de Janeiro que determinou o modelo de educação para meninos de alta classe na época.

O conteúdo e a função da arte nestas escolas foi sugerido por Raul Pom-

péia no seu livro O Ateneu. A apresentação da exposição anual era o objetivo das aulas de arte e se constituía numa espécie de símbolo de distinção

para a escola. Vejam como Raul Pompéia, que foi desenhista e romancista,
nos transporta através da linguagem literária para o clima de uma exposição
escolar no século XIX, numa escola de meninos de classe alta.

Para a exposição dos desenhos foram retiradas as carteiras da sala de estudo, forradas de metim escuro as paredes e os grandes armários. Sobre

este fundo, alfinetaram-se as folhas de Carson, manchadas a lápis pelo

sombreado das figuras, das paisagens, pregaram-se nas molduras de friso
de ouro, os trabalhos reputados dignos desta nobilitação.

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bibliografia

TEMAS

ficha

tema1

Eu fizera o meu sucessinho no desenho, e a garatuja evoluíra no meu traço,

1

de modo a merecer econômios. A princípio, o bosqueiro simples, linear ex-

2

periência da mão; depois, os esbatimentos de tons que consegui logo com

um matiz de nuvem; depois, as vistas de campo, folhagem rendilhada em

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

bicos, pardieiros em demolição pitoresca da escola francesa, como ruínas

de pau pobre, armadas para os artistas. Depois de muito moinho velho,
muita vivenda de palha, muito casarão deslombado, mostrando misérias

como um mendigo, muita pirâmide de torre aldeã esboçada nos últimos

planos, muita figurinha vaga de camponesa, lenço em triângulo pelas costas, rotundas ancas, saias grossas em pregas, sapatões em curva, passei ao

desenho das grandes cópias, pedaços de rosto humano, cabeças completas,
cabeças de corcel; cheguei a ousadia de copiar com toda a magnificência
das sedas, toda a graça forte do movimento, uma cabra de Tibete !

Depois da distinção do curso primário, foi esta cabra o meu maior orgulho.
Retocada pelo professor, que tinha o bom gosto de fazer no desenho tudo

quanto não faziam os discípulos, a cabra tibetana, meio metro de altura,
era aproximadamente obra-prima. Ufanava-me do trabalho. Não quis a

sorte que me alegrasse por muito. Negaram-me a bela cabra a moldura dos
bons trabalhos; ainda em cima ­ considerem o desespero! exatamente no

dia da exposição, de manhã, fui encontrá-la borrada por uma cruz de tinta,

larga, de alto a baixo, que a mão benigna de um desconhecido traçara.
Sem pensar mais nada, arranquei à parede o desgraçado papel e desfiz em
pedaços o esforço de tantos dias de perseverança e carinho.

Quando os visitantes invadiram a sala, notaram na linha dos trabalhos

suspensas duas enigmáticas pontas de papel rasgado. Estranhavam, ignorando que ali estava, interessante, em último capítulo, a história de uma
cabra, de uma obra-prima que fora.

As exposições artísticas eram dois em dois anos, alternadamente com as

festas dos prêmios. Conseguia-se assim uma quantidade fabulosa de pa-

pel riscado para maior riqueza das galerias. Cobria-se o metim desde o

soalho até o teto. Havia de tudo, não só desenhos. Alguns quadros a óleo,

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bibliografia

do Altino, risonhas aquarelas acidentando a monotonia cinzenta do Faber,

TEMAS

ficha

tema1

1

do Conte, do fusain. Os futuros engenheiros aplicavam-se à aguadas de

2

arquitetura, aos desenhos coloridos de máquinas.

zudo, inclinando o funil das orelhas, cerdosas frontes hirsutas de javali,
que arreganhavam presas, perfis de audácia em colarinhos de renda, abdas

atrevidas de feltro, plumas revoltadas, fisionomias de marujo, selvagens,
arrepiadas, num sopro de borrasca, barbas incultas, carapuça esmurrada
sobre a testa, cachimbo aos dentes; entre todas estas caras, avultava uma
coleção notável de retratos do diretor.

O melindroso assunto fora inventado pela gentileza de um antigo mestre.
Preparou-se modelo; um aluno copiou com êxito; e depois, não houve
mais desenhista amável que não entendesse dever ensaiar-se na respeitável verônica. Santo Deus! que ventas arranjavam ao pobre Aristarco! Era

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

Entre as cabeças a crayon retinto, crinas de gineto, felpas de onagro lan-

até um esforço! Que olhos de blefarite! Que bocas de beiços pretos! Que

calúnia de bigodes! Que invenção de expressões aparvalhadas para o digno
rosto do nobre educador!

Não obstante, Aristarco sentia-se lisonjeado pela invenção. Parecia-lhe ter

na face a cocegazinha sutil do crayon passando, brincando na ruga mole da
pálpebra, dos pés-de-galinha, contornando a concha da orelha, calcando a
comissura dos lápis, entrevista na franja dos fios brancos, definindo a se-

vera mandíbula barbeada, subindo pelas dobras oblíquas da pele ao nariz,
varejando a pituitária, extorquindo um espirro agradável a desopilante.
Por isso eram acatados os desenhistas de verônica.
Os retratos todos, bons ou maus, eram alojados indistintamente nas molduras de recomendação. Passada a festa, Aristarco tomava ao quadro o de-

senho e levava para casa. Tinha-os já às resmas. Às vezes, em momentos de
spleen, profundo spleen de grandes homens, desarrumava a pilha; forrava

de retratos, mesas, cadeiras, pavimento. E vinha-lhe um êxtase de vaidade.
Quantas gerações de discípulos lhe havia passado pela cara! Quantos afa-

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sumário

bibliografia

gos de bajulação a efígie de um homem eminente! Cada papel daqueles era

TEMAS

ficha

tema1

1

um pedaço de ovação, um naco de apoteose.

2

E todas aquelas coisas feitas animavam-se e olhavam brilhantemente. "Vê,
Aristarco, como ninguém na terra, gozava a delícia inaudita, ele incom-

parável, único capaz de bem se compreender e de bem se admirar ­ de
ver-se aplaudido em chusma por alter-egos, glorificado por uma multidão
de si-mesmos. Primus inter pares.

Todos, ele próprio, todos aclamando-o (POMPÉIA, 1997, p. 135-138).
Contrários ao uso da arte na escola como adorno cultural, alguns liberais a partir de 1870,

e principalmente na década de 1880, defenderam a idéia de que uma educação popular para

o trabalho deveria ser o principal objetivo da arte na escola e iniciaram uma campanha para
tornar o desenho obrigatório no ensino primário e secundário. Devemos aos liberais o inicio

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

Aristarco, diziam em coro, vê, nós aqui somos tu, e nós to aplaudimos!" E

do ensino do desenho industrial na escola, isto é, do que hoje conhecemos como design. Se
propunham a dar um conhecimento técnico de desenho a todos os indivíduos de maneira
que, libertados da ignorância, fossem capazes de produzir suas invenções. Educar o `instituto

da execução' para evitar que ele se tornasse um impedimento à objetivação da invenção era o

princípio básico, isto é, primeiro aprender como trabalhar, depois aplicar as habilidades técnicas solucionando os problemas e dando forma concreta às criações individuais.

1.2 - Os liberais e o ensino de arte anti-elitista
Em torno de 1870, um surto de desenvolvimento econômico propiciou alguma abertura na

organização social e expansão de algumas idéias contestadoras. A criação do Partido Repub-

licano naquele ano abriu uma fase de severas e sistemáticas críticas contra muitos aspectos da

organização do Império, incluindo a situação educacional. Ao mesmo tempo, eram frequentes

os discursos feitos pelos abolicionistas acerca da necessidade de se estabelecer uma educação

para o povo e para os escravos, demonstrando a preocupação com o futuro deles depois de
libertos. Os principais temas educacionais discutidos eram a alfabetização e a preparação para

o trabalho. A necessidade de um ensino do desenho apropriado era referida como um importante aspecto da preparação para o trabalho industrial.

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sumário

bibliografia

Na busca de um modelo que estabelecesse a união entre criação e técnica, isto é, entre arte

TEMAS

ficha

tema1

1

e sua aplicação a indústria, os intelectuais e políticos (especialmente os liberais) brasileiros
se comprometeram profundamente com os modelos de Walter Smith para o ensino da arte

2

nos Estados Unidos que passaram a divulgar no Brasil. Os principais divulgadores de Walreforma do ensino primário e secundário (BARBOSA, 1941), e Abílio César Pereira Borges
através de seu livro Geometria popular (BORGES, 1959).

A popularização do ensino da arte, concebido como ensino do desenho, isto é, ensino pre-

paratório para o design, era o objetivo da orientação que o inglês Walter Smith imprimia aos

seus escritos e suas atividades como organizador do ensino da arte em Massachusetts (EUA).
Influenciado pelas idéias de Redgrave e Dyce, de quem foi aluno na South Kensington School of

Industrial Drawing and Crafts em Londres, da qual só resta hoje o Victoria and Albert Museum.
Smith chegou a se demitir do cargo de professor da Leeds School of Art quando a instituição

(1868) começou a subverter os objetivos para os quais havia sido criada, ou seja, vincular a
arte à educação popular, para enveredar pelo caminho do ensino da arte como verniz cultural

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

ter Smith no Brasil foram o jornal O Novo Mundo; Rui Barbosa, nos seus Pareceres sobre a

obedecendo aos caprichosos desejos da classe média.
O Novo Mundo2 destacou em várias notícias

e artigos o aspecto de democratização da arte

que caracterizava a ação de Walter Smith em
Massachusetts, para onde ele fora contratado
com carta branca para organizar o ensino da
arte como desenho industrial. Tinha O Novo
Mundo grande importância cultural no Brasil

2. Novo Mundo - Tratava-se de um jornal publicado
por José Carlos Rodrigues, em Nova York (1872-1889)
e escrito em Português. Muitos dos mais importantes
escritores brasileiros trabalharam neste periódico como
Machado de Assis e Sousândrade, que era também
secretário do jornal. O principal objetivo do jornal era
vender produtos americanos e o american way of life no
Brasil, apresentando as instituições sociais americanas
como modelos para a sociedade brasileira.

daquela época.

A mais elogiada instituição americana era a educação. No campo da educação, foi dado

especial relevo à divulgação da educação feminina e da arte/educação. Impregnado da moral

protestante, apresentava a arte e o trabalho como veículo de educação e valorizava a educação
para as artes industriais ao extremo.

André Rebouças escreveu para O Novo Mundo longos artigos defendendo a necessidade de

se tornar compulsório, como Smith havia conseguido em Massachusetts, o ensino do desenho
geométrico com aplicações à indústria.

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sumário

bibliografia

Um número especial de O Novo Mundo foi publicado acerca da Centennial Exhibition

TEMAS

ficha

tema1

1

de 1876 em Filadélfia, onde se destacavam os trabalhos apresentados pela Escola Normal de

2

Artes, criada e dirigida por Smith, assim como os trabalhos de 24 cidades de Massachusetts,
O Novo Mundo em geral destacava a importância dada por Smith aos exercícios geométricos

progressivos no ensino do desenho, a sua idéia de que todo mundo tinha capacidade para de-

senhar e a sua crença no ensino do desenho como veículo de popularização da arte através da

adaptação a fins industriais, colaborando para a qualidade e prosperidade da produção industrial.
Rui Barbosa subscreveu as idéias de Smith nos Pareceres sobre a reforma da educação primária

e secundária. Chegou mesmo a traduzir um longo texto do seu livro Art education: scholastic and

industrial (SMITH, 1872) que incluiu nos Pareceres como justificativa teórica para a supremacia que confere ao desenho em relação às outras disciplinas do currículo. É ainda em Walter
Smith que se baseou para traçar as recomendações metodológicas para o ensino do desenho.

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

todas elas orientadas em seu ensino de arte por Smith.

Inspirado nas idéias defendidas por Rui Barbosa, o educador Abílio César Pereira Borges

publicou uma Geometria popular que é uma espécie de sumário do Teacher's manual for free

hand drawing de Walter Smith (1873). O estudo propunha que o desenho começasse por

linhas verticais, horizontais, oblíquas, paralelas, enfim, pelo que Smith, citado por Borges,
chamava de alfabeto do desenho. Seguia-se o estudo dos ângulos, triângulos, retângulos, numa

gradação idêntica à proposta por Smith, acompanhando o traçado com definições geométricas
como o próprio Smith recomendava. Seguiam-se ditados e exercícios de memória idênticos

aos do livro de Smith. Depois de estudar quadrados e polígonos, ele introduzia ornamentos e
análises de folhas em superfície plana. Os exemplos botânicos eram organizados em forma de

diagramas exatamente como o livro de Smith. Ele ainda propunha o traçado de gregas, rosá-

ceas, repetições verticais, repetições horizontais, formas entrelaçadas. Alguns objetos simples
(vasos de água, bacias etc.) tendo formas geométricas como Smith prescrevia, eram propostos

para desenhar. Finalmente, eram apresentados ornamentos e elementos arquitetônicos em
diagrama (portais, arcos, colunas) de diferentes períodos, principalmente barrocos e neoclás-

sicos. Os ornamentos como motivos para o trabalho em ferro eram também usados por Smith.
Os elementos arquitetônicos não eram apresentados no seu manual mas foram recomendados
por ele no livro Art education: scholastic and industrial.

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sumário

bibliografia

O livro de Abílio César Pereira Borges teve, no mínimo, 41 edições e foi usado em escolas

TEMAS

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tema1

1

pelo menos até 1959. O objetivo do livro, explicitado por ele próprio, era propagar o ensino do

2

desenho geométrico e educar a nação para o trabalho industrial.

nativa deveria ser desenvolvida na escola através do estudo e cópia dos ornatos, pois estes

representavam a força imaginativa do homem em sua evolução a partir das idades primitivas.
No ensino do desenho, portanto, dominava o traçado de observação de modelos de ornatos em

gesso. Recomendavam que se devia começar pelos baixos-relevos compostos por linhas retas,
porque esta composição de ornatos era a mais sumária e correspondia à expressão ornamental
dos povos primitivos da Oceania e África, para depois passar para os modelos em curvas e

linhas caprichosas encontráveis na decoração de povos mais evoluídos, como os índios perua-

nos e mexicanos, e só então introduzir o alto-relevo representando figuras da fauna e da flora,
expressão mais complexa, características dos gregos no início de sua história.

Como os liberais haviam ganho a corrente positivista durante as lutas pela Reforma Re-

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

Já os positivistas, atrelados ao evolucionismo, defendiam a idéia de que a capacidade imagi-

publicana na Escola Nacional de Belas-Artes (1890), também eles conseguiram impor sua

diretriz ao ensino do desenho na escola secundária através da reforma educacional de 1901,
consubstanciada no Código Epitácio Pessoa. Esta lei transcreve sucintamente as propostas de

Rui Barbosa para o ensino do desenho, usando muitas vezes as mesmas palavras dos Pareceres.
É portanto o modelo de Walter Smith, cujos conteúdos já haviam entrado no circuito da

educação brasileira através de Abílio César Pereira Borges, que a partir de então teríamos
imperando nos ginásios brasileiros. São conteúdos que permaneceram quase imutáveis até

1958, atravessando várias reformas educacionais e ainda há resquícios deles nas aulas de arte.
Os exercícios foram preservados através dos livros didáticos de educação artística. Em quase

todos os livros de educação artística para o ensino fundamental, editados (décadas de 1970,
1980 e 1990), ainda encontramos gregas, rosáceas, frisas decorativas etc., um remanescente das
propostas de Walter Smith consagradas pelo Código Epitácio Pessoa.

É curioso imaginar que a aprendizagem destes elementos decorativos

tinha sentido no início do século, já que se pretendia através do desenho
preparar para o trabalho e a arquitetura era generosa na utilização de or-

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sumário

bibliografia

natos sobrepostos para cuja criação e execução as rosáceas seriam exer-

TEMAS

ficha

tema1

1

cício preparatório. Por outro lado, as paredes internas das casas ostenta-

2

vam complicadas faixas decorativas em suas pinturas. Ainda mais, estes
se justifica sua permanência como exercício escolar. Alguns voltariam

a ter sentido no contexto da pós-modernidade se os autores dos livros
didáticos tivessem consciência da recuperação atual de alguns modelos
visuais do início do século XX.

1.3 - O Modernismo
A Semana de 22, que introduziu o Brasil estrondosamente no Modernismo, não repercutiu

de imediato no ensino da arte. Quando a partir de 1927, o ensino da arte volta a ser objeto de
discussões isto se deveu principalmente a modernização educacional.

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

motivos eram também fartamente usados nas artes gráficas. Hoje pouco

Com a crise político-social contestatória da oligarquia e a tentativa de instauração de um

regime mais democrático, uma reflexão sobre o papel social da educação aflora novamente.
Desta vez é a educação primária e a escola que se tornam o centro das atenções reformistas
através do movimento que ficou conhecido pelo nome de `escola nova'. Defendia-se, então, o

mesmo princípio liberal de arte integrada no currículo, ou melhor, de arte na escola para todos.
Entretanto, enquanto os liberais tinham como objetivo o ensino dos aspectos técnicos do desenho para preparar para o trabalho, a `escola nova' defendia a idéia da arte como instrumento
mobilizador da capacidade de criar ligando imaginação e inteligência.

Os pressupostos teóricos para a valorização da arte na `escola nova' foram principalmente

inspirados em John Dewey e defendidos por seu ex-aluno Anísio Teixeira e incorporados às

Reformas Educacionais do Distrito Federal de Fernando Azevedo e pelas Reformas de Atílio Vivacqua no Espírito Santo, de Carneiro Leão em Pernambuco e Francisco Campos em
Minas Gerais.

As interpretações diversificadas das idéias de John Dewey conduziram a caminhos distintos

o ensino da arte no Brasil: à observação naturalista; à arte como expressão de aula; como intro-

jeção da apreciação dos elementos do desenho (deturpada na prática do desenho pedagógico).

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sumário

bibliografia

Algumas experiências como as de Mário de Andrade, criando ateliês para crianças nos

TEMAS

ficha

tema1

1

Parques Infantis e na Biblioteca Infantil, quando exerceu a função equivalente a de Secretário

2

de Cultura de São Paulo em 1936, ou as classes de arte de Anita Malfatti na Escola AmeriJornal A Tarde em São Paulo foram significativas mudanças cuja disseminação foi interrompida pelo golpe de Estado que instituiu a ditadura do Estado Novo.

Com a Ditadura muitos educadores foram perseguidos e uns poucos ex-reformadores se

aliaram a ditadura para defender outros interesses, não os da criança.

1.3.1 Influência de John Dewey
Os primeiro escritos de Dewey sobre arte e ensino da arte podem ser classificados como

naturalistas, e foram exatamente estes escritos que maior influência exerceram sobre a arte/

educação no Brasil. O divulgador desta fase do pensamento estético de Dewey foi Nereo
Sampaio, um professor de desenho da Escola Normal do Rio de Janeiro. Em 1929, Nereo

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

cana, hoje Mackenzie ou a criação de Escolas de Arte para crianças bem dotadas em arte pelo

Sampaio defendeu sua tese de cátedra, intitulada Desenho espontâneo das crianças: considerações
sobre sua metodologia, onde enunciava o chamado método espontâneo-reflexivo para o ensino
da arte, apontando como pressuposto teórico as idéias de Dewey expressas em The school and
society (1974). Neste livro, Dewey recomenda a estimulação dos impulsos naturais da criança

para o desenho através dos processos mentais de reconhecimento e reflexão. Nereo Sampaio

declarava que seu método consistia em deixar a criança se expressar livremente, desenhando de
memória e depois fazê-la analisar visualmente o objeto desenhado para, em seguida, executar

um segundo desenho integrando, neste último, elementos observados do objeto real. O autor
tenta resumir em sua tese as idéias de Dewey que embasavam seu método.

John Dewey foi quem, realmente, compreendeu o alto valor educa-

tivo da linguagem gráfica das crianças. No seu livro A escola e a socie-

dade, no capítulo sobre "a escola e a vida da criança", referindo-se aos

vários interesses ou instintos da criança, abordou a questão do desenho

com tal clareza, que o caminho pedagógico ficou nitidamente traçado.
Depois das palavras de Dewey o problema somente exigia as experiên-

cias necessárias à formação de sua metodologia. Vejamos em resumo o

16

sumário

bibliografia

pensamento de Dewey e a orientação que indicou. Diz ele: "é comum

TEMAS

ficha

tema1

1

vermos nas crianças o desejo de se expressarem pelo desenho e pela cor.

2

Se nos limitarmos a condescender com esse instinto, deixando que atue

diante a crítica, as sugestões e as perguntas, excitar a consciência do que

fez e do que deve fazer, porque o resultado será satisfatório. Por exemplo,
o desenho das árvores é convencional: uma linha vertical e os ramos em
retas inclinadas sobre a vertical de um e outro lado. Levemos a criança

a observar as árvores para compará-las com os desenhos feitos e, assim,

examinarem concisamente as condições de representação do seu trabalho.
Então, desenhará árvores observadas e não convencionais, porque a ob-

servação obriga ao trabalho combinado da memória e imaginação, pro-

duzindo expressões gráficas de árvores reais (SAMPAIO, 1929, p. 16-17).

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

indefinidamente, não há procedimento mais acidental. É necessário, me-

Nereo Sampaio fez algumas pesquisas, para validar sua metodologia com crianças de es-

colas primárias no Rio de Janeiro, conseguindo convencer acerca da eficiência de seu método
para desenvolver a qualidade da expressão.

A Reforma Educacional de Fernando de Azevedo, no Distrito Federal (1929), recebeu di-

reta influência do trabalho e idéias de Nereo Sampaio e cristalizou, através da recomendação

metodológica explícita, o desenho espontâneo, seguido de apreciação naturalista, que vem sendo

praticado em nossas escolas até hoje. Como sabemos, a Reforma Fernando de Azevedo teve
larga influência em todo o Brasil através do trabalho divulgador da ABE (Associação Brasileira
de Educação) e do livro escrito pelo próprio Fernando de Azevedo: A cultura no Brasil.

Outra iniciativa que muito influenciou a arte-educação brasileira foi a Reforma Francisco

Campos (1927-1929) em Minas Gerais. Esta reforma divulgou outra linha de interpretação
do pensamento de Dewey sobre ensino da arte, marcadamente a idéia de apreciação como

processo de integração da experiência. Não foi propriamente o texto geral desta reforma que

divulgou esta abordagem, mas principalmente as atividades desenvolvidas para sua implementação por um grupo de professores especialmente contratados da Bélgica e de Genebra (Insti-

tuto Jean-Jacques Rousseau). É curioso que entre os sete professores estrangeiros contratados,

17

sumário

bibliografia

duas eram professoras de arte ­ Jeanne

Milde e Artus Perrelet -, o que demon3

strava a importância dada à arte na es-

1

3. Sobre Jeanne Milde ver o texto de Patrícia de Paula Pereira,
Ensino de arte nos primórdios de Belo Horizonte: a contribuição

2

de Jeanne Milde no início do século XX, no livro organizado por
Ana Mae Barbosa, Ensino da arte: memória e história, p. 117-134.

Artus Perrelet tinha uma orientação metodológica para o ensino da arte basicamente influen-

ciada pelas idéias de John Dewey (1936), expressas em Democracia e educação e Affective thought.
A concepção de desenho de Perrelet como integração de corpo e

mente, experiência e raciocínio, gesto e visão, vida e símbolo, indivíduo

e meio ambiente, sujeito e objeto, era centrada na idéia de integração
orgânica da experiência.

Esta integração era proposta por Perrelet em seu livro O desenho a serviço da educação (tradu-

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

cola pela reforma mineira.

TEMAS

ficha

tema1

zido no Brasil em 1930), e, segundo seu método, se dará através da apreciação dos elementos

do desenho em movimento. A autora propunha, por exemplo, que se levasse a criança a perceber a função da linha curva em seu próprio movimento, ao apanhar uma flor no chão ou car-

regar um saco pesado, para depois desenhar o corpo em flexão procurando revelar a expressão

da linha sem preocupações de detalhes. Podemos dizer que ela foi precursora de algumas
idéias de Rudolf Arnheim4 quando afirmava que o impor-

tante na representação gráfica não é a descrição de detalhes

realísticos mas a expressão da linha. O seu livro está repleto de
desenhos expressivos, porém muito esquemáticos, porque era

exatamente à libertação da camisa-de-força da representação
realística que ela procurava levar suas crianças.

4. Rudolf Arnheim - O livro de Rudolf
Arnheim, Arte e percepção visual:
uma psicologia da visão criadora, escrito em meados do século XX, traduzido no Brasil em 1980 é ainda hoje
uma importante referência no campo
da arte e psicologia da percepção.

Sua influência no Brasil se deu a partir dos resultados dos trabalhos das crianças que ela
apresenta e não de suas idéias. Como o resultado dos trabalhos sob sua orientação era esquemático, começou-se a ensinar às crianças a desenhar esquematicamente, e surgiu nas escolas o desenho pedagógico que consistia em levar os alunos a copiarem da lousa esquemas de
figuras feitos pelo professor.

18

sumário

bibliografia

alegria, tristeza, etc.

1
2
Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

A proposta metodológica de Perrelet para o ensino do desenho era fundamentalmente a
percepção e introjeção apreciativa da função e expressão dos elementos do desenho. O traçado
de uma forma era secundário e fase final de um longo processo de sensibilização, reflexão e
ação, algo semelhante ao que hoje é feito nos projetos que procuram relacionar artes visuais
e expressão corporal, artes visuais e som etc. No seu livro há o exemplo de um trabalho com
ritmo que é feito ainda hoje em nossas escolas. Ela pede que as crianças desenhem partituras
usando sons recolhidos a partir de pesquisa no meio ambiente e de estados emocionais como

TEMAS

ficha

tema1

Figura 1 ­ A figura do livro de Perrelet mostra alguns resultados
gráficos do estudo do ritmo feito pelas crianças. (PERRELET,1930).
Através de uma deturpação do trabalho desenvolvido por Perrelet, o desenho pedagógico

tiranizou a capacidade de criação de nossas crianças durante pelo menos duas décadas.

Outra vertente da influência de Dewey na arte-educação veio de sua idéia de arte como ex-

periência consumatória. Identificou-se este conceito com a idéia de experiência final, conclusiva, não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos, nas Progressive Schools supostamente
inspiradas em Dewey.

A consolidação desta idéias veio da Reforma Carneiro Leão, em Pernambuco, mas foi ex-

trema, e ainda hoje largamente difundida no Brasil. No livro de José Scaramelli (1931), Escola

nova brasileira: esboço de um sistema, onde ele dá os pressupostos teóricos da Reforma Carneiro
Leão e muitos exemplos práticos de aulas, a função da arte está precisamente delineada, invocado de "arte como "experiência consumatória" de Dewey.

De acordo com as descrições de Scaramelli, a arte era usada para ajudar a criança a orga-

nizar e fixar noções apreendidas em outras áreas de estudo. A expressão através do desenho e

19

sumário

bibliografia

dos trabalhos manuais era a última etapa de uma experiência para completar a exploração de

TEMAS

ficha

tema1

1

um determinado assunto. A idéia fundamental era dar, por exemplo, uma aula sobre peixes ex-

2

plorando o assunto em vários aspectos e terminando pelo convite aos alunos para desenharem
jardinagem e levar as crianças a desenharem um jardim ou uma horta.

A prática de colocar arte (desenho, colagem, modelagem, drama-

tização etc.) no final de uma experiência, ligando-se a ela através do
conteúdo, vem sendo utilizada ainda hoje na educação infantil e ensino
fundamental no Brasil, e está baseada na idéia de que a arte pode ajudar

a compreensão dos conceitos porque há elementos afetivos na cognição
que são por ela mobilizados.

1.3.2 - Arte para crianças e adolescentes como atividade
extracurricular
É no fim da década de 1920 e início da década de 1930 que

encontramos as primeiras tentativas de escolas especializadas em

arte para crianças e adolescentes, inaugurando o fenômeno da

arte como atividade extracurricular. Em São Paulo, foi criada a
Escola Brasileira de Arte conhecida através de Theodoro Braga5

seu mais importante professor. Mas a idéia partiu da professora

da rede pública Sebastiana Teixeira de Carvalho e foi patrocinada

por Isabel Von Ihering, presidente de uma sociedade benefici-

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

peixes e fazerem trabalhos manuais com escamas, ou ainda dar uma aula sobre horticultura e

5. Theodoro Braga - Theodoro Braga artista e educador
atuante no Pará, onde nasceu em 1872, e em São Paulo, onde faleceu em 1953.
Trouxe para o campo do ensino de artes de sua época
preocupações com um ideário estético fundamentado na
cultura brasileira.

ente, A Tarde da Criança.

A Escola Brasileira de Arte funcionava em uma sala anexa ao grupo Escolar João Kopke

e lá as crianças das escolas públicas de oito a catorze anos, com talento (havia provas de desenho), podiam gratuitamente estudar música, desenho e pintura. A orientação era vinculada

à estilização da flora e fauna brasileiras. Theodoro Braga desenvolvia o que podemos chamar
de método art nouveau. Em vários artigos publicados em revistas e jornais do país Braga rever-

20

sumário

bibliografia

berava contra o método de copia de estampas e defendia um ensino voltado para a natureza.

TEMAS

ficha

tema1

1

Tarsila do Amaral em uma entrevista ao Correio da Tarde de 28 de janeiro de 1931 elogia o

trabalho de Theodoro Braga e de Anita Malfatti no ensino de arte, conferindo aos dois o

2

mesmo valor.

zie. Tinha uma orientação baseada na livre expressão e no espontaneísmo. Com o curso para
crianças, criado na Biblioteca Municipal Infantil pelo Departamento de Cultura de São Paulo
quando Mário de Andrade era seu diretor (1936-1938) esta orientação começou a se consolidar.

6. Mário de Andrade - Sobre a relação de Mário de Andrade com
a arte/educação ver o texto de

A contribuição de Mário de Andrade foi muito importante
6

para que se começasse a encarar a produção pictórica da criança
com critérios investigativos e à luz da filosofia da arte. O estudo

comparado do espontaneísmo e da normatividade do desenho in-

Rejane Galvão Coutinho, Mário
de Andrade e os desenhos infantis, no livro organizado por Ana
Mae Barbosa, Ensino da arte:
memória e história, p. 157-196.

fantil e da arte primitiva era o ponto de partida de seu curso de

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

Anita Malfatti mantinha cursos para crianças e jovens em seu ateliê e na Escola Macken-

filosofia e de história da arte, na Universidade do Distrito Federal.
Por outro lado, o escritor dirigiu uma pesquisa preliminar sobre a influência dos livros e

do cinema na expressão gráfica livre de crianças de 4 a 16 anos de classe operária e de classe

média, alunos dos Parques Infantis e da Biblioteca Infantil de São Paulo. Seus artigos de jornal muito contribuíram para a valorização da atividade artística da criança como linguagem
complementar, como arte desinteressada e como exemplo

de espontaneísmo expressionista a ser cultivado pelo ar-

tista. As atividades das escolas ao ar livre do México parecem ter influenciado grandemente sua interpretação do

desenho infantil e sua atuação cultural. Em sua biblioteca,
hoje no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade

7. Escuelas al Aire Libre do México para saber mais sobre o assunto ver o
texto de Ana Mae Barbosa, As Escuelas
de Pintura al Aire Libre do México: liberdade, forma e cultura, no livro organizado por Analice Dutra Pillar, A Educação
do Olhar no Ensino de Artes, p. 101-117.

de São Paulo, podemos encontrar revistas mexicanas da

época como a 30:30 e até o catálogo da exposição das Escuelas al Aire Libre do México7 que
viajou pela Europa.

O Estado Novo interrompe o desenvolvimento da Escola Nova, perseguiu educadores e

criou o primeiro entrave ao desenvolvimento da arte/educação. Solidificou alguns procedimentos antilibertários já ensaiados na educação brasileira anteriormente, como o desenho

21

sumário

bibliografia

geométrico na escola secundária e na escola primária, o desenho pedagógico e a copia de es-

TEMAS

ficha

tema1

1

tampas usadas para as aulas de composição em língua portuguesa.

2

É o início da pedagogização da arte na escola. Não veremos, a partir daí, por alguns anos,

de Andrade, e que só o pós-modernismo voltaria a fazer, mas uma utilização instrumental da

arte na escola para treinar o olho e a visão ou seu uso para liberação emocional e para o desenvolvimento da originalidade vanguardista e da criatividade, esta considerada como beleza
ou novidade.

1.3.3 - Arte para liberação emocional
É precisamente o argumento de que a arte é uma forma de liberação emocional, que perme-

ou o movimento de valorização da arte da criança no período que se seguiu ao Estado Novo.
A partir de 1947, começaram a aparecer ateliês para crianças em várias cidades do Brasil, em
geral orientados por artistas que tinham como objetivo liberar a expressão da criança, fazendo

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

uma reflexão acerca da arte/educação vinculada à especificidade da arte, como fizera Mário

com que ela se manifestasse livremente sem interferência do adulto.

Trata-se de uma espécie de neo-expressionismo que dominou a Europa e os Estados Uni-

dos do pós-guerrra e se revelou com muita pujança no Brasil que acabava de sair do sufoco
ditatorial.

Deste ateliês, os dirigidos por Guido Viaro (Curitiba), por Lula Cardoso Ayres (Recife) e

por Suzana Rodrigues8 (Museu de Arte de São Paulo) são exemplos significativos. O primeiro

existe até hoje com o nome de Centro Juvenil de Arte, é

mantido pela Prefeitura e continuava, pelo menos nos inícios de 1990, última vez que o visitei, fazendo um ótimo

trabalho. A escola de Lula Cardoso Ayres, criada em 1947,
teve curta existência e sua proposta básica era dar lápis,
papel e tinta à criança e deixar que ela se expressasse livre-

mente. Seguindo o mesmo princípio, outro pernambucano,

8. Suzana Rodrigues - para conhecer a
contribuição de Suzana Rodrigues ver o
texto de Rita Bredariolli, A liberdade como
método: um projeto moderno em ação
"pioneira" de ensino da arte no Museu
de Arte de São Paulo, no livro organizado por Ana Mae Barbosa, Ensino da arte:
memória e história, p. 197-216.

Augusto Rodrigues, criou em 1948 a Escolinha de Arte do

Brasil (o nome oficial da escola era "escolinha" e tinha uma conotação carinhosa), que começou
a funcionar nas dependências de uma biblioteca infantil no Rio de Janeiro.

22

sumário

bibliografia

A iniciativa de Augusto Rodrigues, à qual estiveram ligados Alcides da Rocha Miranda e

TEMAS

ficha

tema1

1

Clóvis Graciano, logo recebeu a aprovação e o incentivo de educadores envolvidos no movi-

2

mento de redemocratização da educação como Helena Antipoff e Anísio Teixeira, que retorseguir ser um próspero empresário. Depois que iniciou

seus cursos de formação de professores, a Escolinha de

Arte do Brasil teve uma enorme influência multiplicado-

ra. Professores, ex-alunos da Escolinha, criaram Escolinhas de Arte por todo o Brasil, chegando a haver vinte e
três Escolinhas somente no Rio Grande do Sul, consti-

9. Movimento Escolinhas de Arte (MEA)
- Ver texto de Fernando Azevedo, Movimento Escolinhas de Arte: em cena
memórias de Noêmia Varela e Ana Mae
Barbosa, no livro organizado por Ana Mae
Barbosa, Ensino da arte: memória e história, p. 217-258.

tuindo-se no Movimento Escolinhas de Arte (MEA)9.

Usando principalmente argumentos psicológicos, o MEA tentou convencer a escola comum

da necessidade de deixar a criança se expressar livremente usando lápis, pincel, tinta, argila etc.
Naquele momento parecia um discurso de convencimento no vazio, uma vez que os pro-

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

nara da Amazônia onde se refugiara da perseguição política do Estado Novo e chegara a con-

gramas editados pelas Secretarias de Educação e Ministério de Educação deveriam ser seguidos pelas escolas e acabavam tolhendo a autonomia do professor tanto quanto os Parâmetros
Curriculares Nacionais em Ação de hoje.

Houve, na época, uma grande preocupação com a renovação destes programas. Lúcio Costa

(autor do plano urbanístico de Brasília) foi chamado para elaborar o programa de desenho da
escola secundária (1948). Seu programa revela uma certa influência da Bauhaus, principal-

mente na preocupação de articular o desenvolvimento da criação e da técnica e desarticular
a identificação de arte e natureza, direcionando a experiência para o artefato. Este programa
nunca foi oficializado pelo Ministério de Educação e só começou a influenciar o ensino da
arte a partir de 1958.

Naquele ano, uma lei federal permitiu e regulamentou a criação de classes experimentais.

As experiências escolares surgidas nesta época visavam, sobretudo, investigar alternativas experimentando variáveis para os currículos e programas determinados como norma geral pelo
Ministério de Educação. A presença da arte nos currículos experimentais foi a tônica geral.

Merecem registro as experiências em arte/educação das seguintes escolas: Colégio An-

drews (Rio de Janeiro), Colégios de Aplicação (anexos às faculdades de Educação do Rio

23

sumário

bibliografia

de Janeiro, Pernambuco, Paraná etc.), Colégio Nova Friburgo (Rio

de Janeiro), Escolas Parque (Salvador e posteriormente Brasília),
Centro Educacional Carneiro Ribeiro (Bahia), Escola Guatemala

Vocacionais (São Paulo)10, Colégio Souza Leão (Rio de Janeiro),
Escola Ulysses Pernambucano (Recife), Grupo Escolar Regueira

10. Ginásios Vocacionais (São

1

Paulo) - Ver o texto de Ilsa Ka-

2

wall Leal Ferreira, As Escolas
Experimentais de São Paulo
na década de 1960, no livro
organizado por Ana Mae Barbosa, Ensino da arte: memória
e história, p. 275-292.

Costa (Recife), Grupo Escolar Manuel Borba (Recife), Ginásios
Estaduais Pluricurriculares Experimentais (São Paulo), Escola de

Demonstração dos Centros Regionais de Pesquisas Educacionais, Instituto Capibaribe (Recife), etc.

Estas escolas continuaram a aplicar alguns métodos renovadores de ensino introduzidos na

década de 1930, como o método naturalista de observação e o método de arte como expressão

de aula, agora sob a designação de arte integrada no currículo, isto é, relacionada com outros
projetos que incluíam várias disciplinas. Algumas experiências foram feitas, aproveitando idé-

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

(Rio de Janeiro), SESI (especialmente de Pernambuco), Ginásios

TEMAS

ficha

tema1

ias lançadas por Lúcio Costa em seu programa de desenho para a escola secundária de 1948.

Entretanto, a prática que dominou o ensino da arte nas classes experimentais foi a explo-

ração de uma variedade de técnicas, de pintura, desenho, impressão etc. O importante é que
no fim do ano o aluno tivesse tido contato com uma larga série de materiais e empregado

uma seqüência de técnicas estabelecidas pelo professor. Para determinar esta seqüência, os

professores se referiam à necessidade de se respeitar as etapas de evolução gráfica das crianças.
O livro de Viktor Lowenfeld, traduzido imediatamente

para o espanhol como Desarollo de la capacidad creadora

(traduzido no Brasil no início da década de 1970 como
Desenvolvimento da Capacidade Criadora), que estabelece as etapas da evolução gráfica, tornou-se então uma es-

pécie de bíblia dos arte/educadores de vanguarda. Sylvio

11. Sylvio Rabello - Para conhecer a contribuição do professor para o ensino da arte
ver o texto de Rejane Galvão Coutinho,
Sylvio Rabello: o educador e suas pesquisas sobre o desenho infantil, no livro organizado por Ana Mae Barbosa, Ensino da
arte: memória e história, p. 135-156.

Rabello11 um intelectual pernambucano, havia escrito um

livro no qual analisava as etapas do desenho da criança, porém passou despercebido pelos arte/

educadores. Herbert Read era também freqüentemente citado, mas pela análise dos programas
vemos que foi raramente utilizado como embasamento teórico.

Noêmia Varela, criadora da Escolinha de Arte do Recife e posteriormente, diretora técnica

24

sumário

bibliografia

da Escolinha de Arte do Brasil, por meio dos Cursos Intensivos de Arte/Educação que orga-

TEMAS

ficha

tema1

1

nizava no Rio, foi a grande influenciadora do ensino da arte em direção ao desenvolvimento

2

da criatividade, que caracterizou o modernismo em Arte/Educação. Três mulheres fizeram das
a primeira Escolinha com o artista plástico Augusto Rodrigues, era uma escultora americana

que conhecia as Progressive Schools e o movimento de arte/educação já bastante desenvolvido

nos Estados Unidos. A segunda destas mulheres que fizeram a Escolinha foi Lúcia Valentim,
que assumiu a direção da Escolinha de Arte do Brasil durante uma prolongada viagem de

Augusto Rodrigues ao exterior. Influenciada por Guignard de quem foi aluna, imprimiu uma
orientação mais sistematizada à Escolinha e se desentendeu com Augusto quando este retor-

nou ao comando. Entrou em cena, então, Noêmia Varela convidada por Augusto para assumir

a direção da Escolinha, passou a ser a orientadora teórica e prática com total responsabilidade
pela programação, na qual se incluía o já citado Curso Intensivo em Arte Educação que formou toda uma geração de arte/educadores no Brasil e muitos na América Latina Hispânica.

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

Escolinhas a grande escola modernista do ensino da arte no Brasil: Margaret Spencer, que criou

A visibilidade de Augusto Rodrigues foi muito maior que a destas três mulheres, assim

como foi maior do que a de sua própria ex-mulher Suzana Rodrigues, que criou o Clube
Infantil de Arte do Museu de Arte de São Paulo no mesmo ano (1948), mas meses antes de

Augusto ter criado a Escolinha de Arte do Brasil. Quanto a Margaret Spencer nada mais se
soube, ela foi apagada da história da arte/educação no Brasil. Augusto foi um excelente relações públicas de sua Escolinha, comandada na prática e orientada teoricamente por essas três

mulheres, das quais Noêmia Varela foi a que mais tempo permaneceu, administrando teoria e

prática na Escolinha de Arte do Brasil por mais de vinte anos. Hoje, graças às reconsiderações
feministas e às contínuas referências que Laís Aderne e eu sempre fizemos dela aos nossos
alunos e alunas, Noêmia Varela tem seu merecido lugar na história do ensino da Arte .

Augusto Rodrigues, era uma personalidade carismática, seduzindo pela eloquência e pela

iconoclastia. Frequentemente usava sua expulsão da escola como exemplo da ineficácia do siste-

ma escolar, pois fora bem sucedido na sociedade apesar da escola, fazendo as jovens professoras,
desiludidas do sistema, delirarem. Por outro lado, suas boas relações com a burguesia ou classe
alta protegeu a Escolinha de suspeitas durante a Ditadura Militar no Brasil (1964 ­1982).

Alguns livros sobre artes plásticas na escola, escritos por brasileiros, foram publicados nas

década de 1960 e inícios de 1970. Eram, entretanto, redutores, todos eles traziam como nú-

25

sumário

bibliografia

cleo central a descrição de técnicas e me parece que a origem desta sistematização de técnicas

TEMAS

ficha

tema1
TEMA3

1

foram as apostilas distribuídas pela Escolinha de Arte do Brasil nos anos 1950. As técnicas

2

mais utilizadas eram lápis de cera e anilina, lápis cera e varsol, desenho de olhos fechados,
carimbo de batata, bordado criador, desenho raspado, desenho de giz molhado etc.
Vejamos como era descrita uma destas técnicas na apostila da Escolinha.
Desenho com água sanitária
Material

papel de cor escura ou branco ­ anilina ­ água ­ sanitária ­
palitos de fósforo ­ pincéis

Em folha de papel colorida, ou pintada com uma ou várias
Processo

cores de anilina, desenha-se com um palito ou caneta molhados em água sanitária. Depois do desenho seco, o local onde

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

impressão, pintura à dedo, mosaico de papel, recorte e colagem coletiva sobre papel preto,

passou a água sanitária fica descolorido, aparecendo então a
linha branca sobre o fundo de cor.

Objetivos

Visa provocar experiência nova através do desenho, aguçar a
curiosidade para a pesquisa dos materiais e obtenção de um
desenho bem integrado na superfície.

A Lei de Diretrizes e Bases de (1961), eliminando a uniformização dos programas es-

colares, permitiu a continuidade de muitas experiências iniciadas em 1958, mas as idéias de
introduzir arte na escola comum de maneira mais extensiva não frutificou.

1.4 - Pressões e mudanças: a ditadura de 1964
A ditadura de 1964 perseguiu professores e escolas experimentais foram aos poucos des-

montadas sem muito esforço. Era só normatizar e estereotipar seus currículos tornando-as
iguais as outras do sistema escolar. Até escolas de educação infantil foram fechadas. A partir

daí, a prática de arte nas escolas públicas primárias foi dominada, em geral, pela sugestão de
tema e por desenhos alusivos a comemorações cívicas, religiosas e outras festas.

26

sumário

bibliografia

Entretanto, por volta de 1969, a arte fazia parte do currículo de todas as escolas particulares

TEMAS

ficha

tema1

1

de prestígio, seguindo a linha metodológica de variação de técnicas. Eram, porém, raras as

2

escolas públicas que desenvolviam um trabalho de arte. Na escola secundária pública comum,
tácio Pessoa em 1901.

Nos fins da década de1960 e início de 1970 (especialmente entre 1968 e 1972), em escolas

especializadas em ensino de arte, começaram a ter lugar algumas experiências no sentido de
relacionar os projetos de arte de classes de crianças e adolescentes com o desenvolvimento dos
processos mentais envolvidos na criatividade, ou com uma teoria fenomenológica da percep-

ção, ou ainda com o desenvolvimento da capacidade crítica ou da abstração e talvez mesmo
com a análise dos elementos do desenho.

Um certo contextualismo social começou também a orientar o ensino da arte especializada,

podendo-se detectar influências de Paulo Freire na experiência da Escolinha de Arte de São Paulo.

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

continuou imbatível o desenho geométrico com conteúdo quase idêntico ao do Código Epi-

Algumas escolas especializadas como a Escola de Arte Brasil (São Paulo), Escolinha de

Arte do Brasil (Rio de Janeiro), e Escolinha de Arte de São Paulo, Centro Educação e Arte
(São Paulo), o NAC ­ Núcleo de Arte e Cultura (Rio de Janeiro) tiveram ação multiplicadora
nos fins da década de 1960, influenciando professores que iriam atuar ativamente nas escolas a

partir de 1971, quando a Educação Artística se tornou componente obrigatório nos currículos

de 1º e 2º graus e na universidade nos cursos de Educação Artística e licenciatura em artes
plásticas, criados em 1973.

Hoje pode parecer estranho que uma ditadura tenha tornado obrigatório o ensino da arte

nas escolas públicas. Contudo, tratava-se de um mascaramento humanístico para uma lei ex-

tremamente tecnicista, a 5692, que pretendia profissionalizar os jovens na escola média. Como

as escolas continuaram pobres, sem laboratórios que se assemelhassem aos que eram operados
nas indústrias, os resultados para aumentar a empregabilidade dos jovens foram nulos. Por
outro lado, o fosso entre elite e pobreza se aprofundou, pois as escolas particulares continuaram preparando os estudantes para o vestibular, para a entrada na universidade, embora os

currículos apresentassem um discurso comprometido com a formação técnica, que de fato não
vieram acompanhados de políticas para tal formação. Enquanto isso o ensino médio público

nem preparava para o acesso à universidade nem formava técnicos assimiláveis pelo mercado.

27

sumário

bibliografia

No que diz respeito ao ensino da arte, cursos universitários de dois anos foram criados para

TEMAS

ficha

tema1

1

preparar professores aligeirados, que ensinassem todas as artes ao mesmo tempo, tornando a

2

arte na escola uma ineficiência a mais no currículo.

da polivalência. Segundo esta reforma, as artes plásticas, a música e as artes cênicas (teatro e

dança) deveriam ser ensinadas conjuntamente por um mesmo professor da primeira à oitava
séries do primeiro grau.

Em 1973, foram criados os cursos de licenciatura em Educação Artística com duração de

dois anos (licenciatura curta) para preparar estes professores polivalentes. Após este curso,
o professor poderia continuar seus estudos em direção à licenciatura plena, com habilitação
específica em artes plásticas, desenho, artes cênicas ou música. Educação Artística foi a nomenclatura que passou a designar o ensino polivalente de artes plásticas, música e teatro. O
Ministério de Educação, no mesmo ano (1971), organizou em convênio com a Escolinha de

Arte do Brasil, um curso para preparar o pessoal das Secretarias de Educação a fim de orientar

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

A Reforma Educacional de 1971 estabeleceu um novo conceito de ensino de arte: a prática

a implantação da nova disciplina. Deste curso fez parte um representante de cada Secretaria
Estadual de Educação, o qual ficou encarregado de elaborar o guia curricular de Educação
Artística do seu Estado.

Entretanto, poucos Estados desenvolveram um trabalho de preparação de professores para

aplicar e estender as normas gerais e as atividades sugeridas nos guias curriculares. Por outro

lado, a maioria dos guias apresentava um defeito fundamental: a dissociação entre objetivos e
métodos que dificultava o fluxo de entendimento introjetado na ação.

As Secretarias de Estado (educação e/ou cultura) que desenvolveram um trabalho mais

efetivo de reorientação e atendimento de professores de educação artística foram as do Rio
de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Não é, portanto, por acaso que tenham sido

possíveis, na década de 1970, experiências como a da Escola de Artes Visuais e do Centro

Educacional de Niterói, no Rio de Janeiro, e em Minas Gerais a do CEAT (Centro de Arte
da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte) e a Escola Guignard.

Em 1977, o MEC, diante do estado de indigência do ensino da arte, criou o Programa de

Desenvolvimento Integrado de Arte Educação - PRODIARTE. Dirigido por Lúcia Valen-

28

sumário

bibliografia

tim, seu objetivo era integrar a cultura da comunidade com a escola, promovendo o encon-

TEMAS

ficha

tema1

1

tro do artesão com o aluno e estabelecendo convênios com órgãos estaduais e universidades.

2

Nos inícios de 1979, dezessete unidades da Federação tinham iniciado a execução de projetos
1978 nos Estados da Paraíba (convênio com a Universidade Federal da Paraíba e Secretaria de
Educação), Rio Grande do Sul (convênio com DAC-SEC), Rio de Janeiro (convênio com Es-

colinha de Arte do Brasil e SEC-RJ) e Pernambuco (convênio com a Secretaria de Educação).
Estas propostas tinham sido explicitadas no Primeiro Encontro de Especialistas de Arte

e Educação em Brasília pelo MEC e UnB em 1973, organizado por Terezinha Rosa Cruz.
Outros encontros de arte/educação se sucederam, girando sempre em torno dos mesmos as-

suntos já debatidos naquele ano de 1973, com a vantagem de alargar o número de debatedores.
Um exemplo de sucesso quantitativo, em que se estendeu a um maior número de professo-

res as perplexidades antes discutidas por um pequeno grupo, foi o 1º Encontro Latino Ameri-

cano de Arte Educação que reuniu cerca de quatro mil professores no Rio de Janeiro (1977).

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

ligados ao PRODIARTE. Os programas de maior consistência foram os levados a efeito em

Neste encontro, ficou demonstrada a ausência e a carência de pesquisas sobre o ensino da arte.
As poucas pesquisas existentes eram: uma de caráter histórico, financiada pela Fundação Ford
e FAPESP (Ana Mae Barbosa) e outra que se resumia a mero recolhimento de depoimentos

(IDART ­ São Paulo). A FUNARTE e o INEP chegaram a colaborar com uma percentagem mínima de verba para registro, documentação ou descrição sistematizada de algumas
experiências intuitivas em arte-educação.

Apesar do grande número de professores, este Encontro evitou a reflexão política pois tinha

como organizadora a mulher de um político extremamente comprometido com a ditadura. Só em
1980 um outro encontro enfrentaria as questões políticas da arte/educação. Trata-se da Semana de
Arte e Ensino que reuniu no campus da Universidade de São Paulo mais de três mil professores e
resultou no organização do Núcleo Pro Associação de Arte Educadores de São Paulo.

São Paulo estava sob o domínio de um político de direita, Paulo Maluf, que sugeriu aos

professores de artes que passassem o ano treinando seus alunos a cantar algumas músicas para
serem apresentadas em um coral de dez mil crianças, acompanhadas por ele ao piano, num es-

tádio de futebol, no Natal. Como prêmio os professores que preparassem suas crianças teriam
cinco pontos de acesso à carreira docente, quando um mestrado valia dez pontos.

29

sumário

bibliografia

Os arte/educadores se revoltaram, mas a única associação de classe existente na época era

TEMAS

ficha

tema1

1

a Sobrearte (1970) considerada filial da International Society of Education through Art (In-

2

SEA), que não ajudou os professores paulistas, pois além de circunscrever sua ação princi-

me referi. A única solução foi criar a Associação de Arte Educadores de São Paulo (AESP)
que, aliada à Associação de Corais, foi vitoriosa na sua primeira luta, conseguindo anular a

promessa de maior salário para os professores que participassem do coral do Maluf no Estádio
do Pacaembu. A festa aconteceu mais ninguém saiu ganhando, dada a campanha crítica .

1.5 - Os anos de 1980 e depois: o pós-modernismo
A Semana de Arte e Ensino fortificou politicamente os arte/educadores e já em 1982/1983

foi criada na Pós-Graduação em Artes a linha de pesquisa em arte/educação na Universidade

de São Paulo constando de doutorado, mestrado e especialização, com a orientação de Ana
Mae Barbosa. Em breve duas brilhantes ex-alunas, Maria Heloisa de Toledo Ferraz e Regina

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

palmente ao Rio de Janeiro, era manipulada pela mulher de político da ditadura a qual já

Machado integraram a equipe, tendo a última assumido também o curso de especialização.
Outra linha de pesquisa em arte/educação veio a ser criada apenas em 1990 na Pós-Graduação
em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul por
Analice Dutra Pillar. Nos últimos anos, outras linhas de pesquisa em ensino de arte foram criadas em cursos de pós-graduação em artes. No entanto, para atender aos egressos das quase cem

licenciaturas em artes o número de vagas nas pós-graduações ainda é insuficiente, criando-se
um funil na formação dos arte/educadores, o que é um contra senso, pois o desenvolvimento

do ensino da arte no Brasil muito deve à pesquisa gerada nas pós-graduações. Outro fator que

influiu positivamente na qualidade do pensamento sobre o ensino de arte foi a ação política

desencadeada por vários congressos e festivais, dentre eles os festivais de Ouro Preto; o Festival de Inverno de Campos de Jordão de 1983, onde primeiro se trabalhou na arte/educação
com leitura ou análise de TV; o Congresso sobre história do Ensino da Arte, em que primeiro
se introduziu oficinas de arte e novas tecnologias na arte/educação (1984); o Simpósio sobre

Ensino da Arte e sua História (MAC/USP, 1989), assim como a atuação de associações regionais e estaduais reunidas na Federação de Arte Educadores do Brasil, a FAEB.

Para dar um exemplo da intensidade da produção em arte/educação no Brasil, oitenta pes-

quisas foram produzidas para mestrados e doutorados entre 1981 e 1993 e nos últimos anos

30

sumário

bibliografia

este número deve ter quintuplicado. Os assuntos são os mais variados e vão desde a preocupa-

TEMAS

ficha

tema1

1

ção com o desenho da criança até experiências com as novas tecnologias.

a Proposta Triangular. A Proposta Triangular foi sistematizada a partir
das condições estéticas e culturais da pós-modernidade. A pós-mod-

ernidade em arte/educação caracterizou-se pela entrada da imagem, sua
decodificação e interpretações na sala de aula junto com a já conquistada
expressividade.

Na Inglaterra essa pós-modernidade foi manifesta no critical studies, nos Estados Unidos a mais

forte manifestação foi o DBAE. O Disciplined Based Art Education é baseado nas disciplinas: estética, história e crítica, e numa ação, o fazer artístico. O DBAE foi o mais pervasivo dos sistemas

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

Muitas destas pesquisas analisam problemas inter-relacionados com

2

contemporâneos de arte/educação e vem influenciando todo o mundo, sobretudo a Ásia.

No Brasil a idéia de antropofagia cultural nos fez analisar vários sistemas e ressistematizar o

nosso que é baseado não em disciplinas, mas em ações: fazer ­ ler - contextualizar. Portanto, a

Proposta Triangular e o DBAE partem de pressupostos conceituais e metodológicos diversos,
são no máximo paralelos, pois se constituíram no que se entende por pós-modernismo na arte/
educação.

O critical studies é a manifestação pós-moderna inglesa no ensino da arte, como o DBAE

é a manifestação americana e a Proposta Triangular a manifestação pós-moderna brasileira,
respondendo às nossas necessidades, especialmente a de ler o mundo criticamente. Há cor-

respondências entre elas, sim. Mas, estas correspondências são reflexo dos conceitos pós-modernos de arte e de educação. A Proposta Triangular começou a ser sistematizada em 1983 no
Festival de Inverno de Campos de Jordão, em São Paulo e foi intensamente pesquisada entre

1987 e 1993 no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo e na Secretaria
Municipal de Educação sob comando de Paulo Freire e Mário Cortela.

Quando em 1997, o Governo Federal, por pressões externas, estabeleceu os Parâmetros

Curriculares Nacionais, a Proposta Triangular foi a agenda escondida da área de Arte. Nesses

31

sumário

bibliografia

Parâmetros foi desconsiderado todo o trabalho de revolução curricular que Paulo Freire de-

TEMAS

ficha

tema1

1

senvolveu quando Secretário Municipal de Educação (1989/1990) com vasta equipe de con-

2

sultores e avaliação permanente. Os PCNs brasileiros, dirigidos por um educador espanhol,
para a salvação da educação nacional. A nomenclatura dos componentes da aprendizagem
triangular designados como fazer arte (ou produção), leitura da obra de arte e contextualiza-

ção foi trocada para produção, apreciação e reflexão (da primeira a quarta séries) ou produção,
apreciação e contextualização (na quinta a oitava séries). Infelizmente os PCNs não estão
surtindo efeito e a prova é que o próprio Ministério de Educação editou uma série designada

Parâmetros em Ação, que é uma espécie de cartilha para o uso dos PCNs, determinando a
imagem a ser "apreciada" e até o número de minutos para observação da imagem, além do
diálogo a ser seguido.

A educação bancária de que Paulo Freire falava ronda a arte/educação hoje no Brasil. Mas,

apesar de equivocadas políticas educacionais temos experiências de alta qualidade tanto na

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

desistoricizam nossa experiência educacional para se apresentarem como novidade e receita

escola pública como na escola privada e principalmente nas organizações não-governamentais

que se ocupam dos excluídos, graças a iniciativas pessoais de diretores e de professores e mesmo de artistas.

Finalizando
Como podemos ver neste tópico, a história é sempre contada a partir de um ponto de vista,

neste caso, procuramos demonstrar como a história do ensino da arte no Brasil foi se constituindo a partir de apropriações de modelos estrangeiros, deglutidos e antropofagicamente

transformados por nossas necessidades. Desde a instauração da Academia Imperial de Belas

Artes, primeira instituição pública e formal de formação para as Artes Plásticas no Brasil, até

a formalização da Arte como área de conhecimento nos Parâmetros Curriculares Nacionais,
passando pelas diferentes iniciativas do final do século XIX e por todo o século XX, os mod-

elos de ensino da arte foram se tecendo e se sobrepondo, correspondendo as demandas políticas e culturais de cada época. Cada um desses modelos, para bem ou para o mal, se sustentam

em concepções de arte e de educação, explícitas ou implícitas. Cabe a nós, educadores de hoje,
analisar e avaliar a pertinência dessas concepções, procurando entender os contextos que as

32

sumário

bibliografia

TEMAS

ficha

tema1

constituem. Como diz Alfredo Bosi,

1

"Agora, de minha parte, eu continuo achando que, na história, o antes vem

2

antes do depois. Existe certa experiência cumulativa pelo tempo (...).

cada geração, digamos, inventou a roda. Você não sabe porque certos temas

voltam, e voltam de maneira diferente. Você fica sem apoios de comparação quando seu estudo é todo assim fragmentado" (BOSI, 2010, p. 14).
Fica para vocês a tarefa de mapear nesta história a sua própria história de formação!

ARTE EDUCAÇÃO
1550 ­ 1800
Barroco ensinado em oficinas através do
trabalho

EDUCAÇÃO GERAL
1550 ­ 1808

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

E, se você não conhece esse fluxo que vem do passado, fica parecendo que

Dominação jesuítica

1808-1870
Influência Francesa

1808-1870

Fundação da Academia Imperial de Belas Colégio Pedro II
Artes

Neoclassicismo

Modelo inglês para as escolas secundárias
brasileiras

Exercícios de cópias
1870-1914
Ensino do desenho na educação popular,
Educação para o trabalho
Walter Smith
Rui Barbosa

1870-1914
Partido Republicano
Liberalismo versus Positivismo
Reforma 1901
Início da influência americana (escola dos
missionários)

33

sumário

bibliografia

TEMAS

ficha

tema1

1914-1927
Pedagogia experimental
Início da livre expressão da criança

1

Pedagogia experimental

2

A escola voltada para a criança
Laboratórios de pesquisas nas Escolas
Normais

1927-1935

1927-1935

A modernidade

O Movimento Escola Nova ­ democratização

Mário de Andrade

Reformas estaduais

Anita Malfatti

Escola Normal

Influências de John Dewey ­ a arte como Educação infantil
experiência

Adaptação dos modelos de Dewey, Decroly,
Claparède

Primeiros livros sobre o desenho infantil

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

Estudo das características do desenho infantil

1914-1927

1935-1948
Período de retorno e diluição das propostas
anteriores

1935-1948
Ditadura de Getúlio Vargas afasta grupo de

Estereótipos na sala de aula

líderes da Escola Nova

Trabalhos manuais
Música e canto orfeônico
1948-1958
Supervalorização
expressão

da

Arte

como

livre 1948-1958
Redemocratização

Escolinha de Arte do Brasil

Voltam alguns princípios da Escola Nova

Herbert Read e

SENAC, SENAI, SESI

Viktor Lowenfeld
1958-1963

1958-1963

Classes experimentais com Arte

Paulo Freire

34

sumário

bibliografia

TEMAS

ficha

tema1

1

UnB LDB 1961

2

Organizações populares, de classe e estudantis

Regime militar-repressão

Educação Artística
Curso Polivalente nas Universidades para
formar professores

LDB 1971
Educação
tecnicista

profissionalizante

de

cunho

1980-1990
Críticas às práticas anteriores
Criação das associações de professores de
Arte

Encontros nacionais e internacionais
Reformas nos cursos universitários

1980-1990
Pedagogia sociopolítica
Estudos teóricos críticos

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

1964-1978

1964-1978

Escola Pública competente

Pós-Graduação na USP
1990

1990

Proposta Triangular

Construtivismo

PCNs ­ ARTE como disciplina

O conhecimento se constrói na relação =

Arte como conhecimento

Aluno ­ professor - processos sociais

Figura 2 - Marcos históricos do ensino de Arte (baseado em BARBOSA, 2001, p. 41-43)

Ampliando o conhecimento
Para complementar e aprofundar o percurso histórico que apresentamos nesta unidade,

sugerimos a leitura dos seguintes livros de Ana Mae Barbosa:

Ensino da Arte: memória e história. São Paulo: Perspectiva, 2008.
Este livro foi organizado por Ana Mae Barbosa e conta com o resultado de doze pesquisas que mapeiam importantes contribuições para a história do ensino da arte que
vão do ensino de arte jesuítico aos dias de hoje, mas principalmente discute o perí-

35

sumário

bibliografia

Arte-Educação no Brasil: das origens ao modernismo. São Paulo: Perspectiva, 1986.
O livro analisa as complexas relações culturais que influenciaram o ensino da arte nas
escolas brasileiras, desde a chegada ao nosso país da Missão Francesa até a eclosão do
Modernismo. Esta leitura é importante porque desnuda com espírito critico as idéias
filosóficas, econômicas, sociais, artísticas e educacionais, ou seja, os propósitos e finalidades determinantes da educação artística do período em questão.
John Dewey e o ensino da Arte no Brasil. São Paulo: Cortez, 2001.

1
2
Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

odo modernista da arte/educação. Encontram-se capítulos sobre alguns personagens
que participaram desta nossa história, como: Jeanne Milde, Sylvio Rabello, Mário de
Andrade e Noêmia Varela. Análises de como o projeto moderno de ensino da arte foi
sendo apropriado a partir de experiências renovadoras tanto na educação formal quanto em atividades extracurriculares. Os capítulos deste livro aprofundam os tópicos
apresentados no texto deste nosso material. A leitura, além de trazer pontos de vista
variados, pois são escritos por diferentes pesquisadores, é prazerosa e rica de possibilidades de desdobramentos para aqueles que gostam de história, cada capítulo encerra
apontando sugestões de pesquisas, ótimas dicas para trabalhos de final de curso!

TEMAS

ficha

tema1

Este livro é uma edição revisada e aumentada do Recorte e colagem: influência de
John Dewey no ensino da arte no Brasil (1982). Nesta revisão a autora reforça a importância das idéias de Dewey para o ensino da arte na contemporaneidade. O livro
analisa as diferentes interpretações dos conceitos do filósofo no contexto das reformas
educacionais da década de 1930 no Brasil. A leitura nos conduz a compreensão de
como algumas idéias sobre a expressão gráfica da criança passaram a fazer parte do
ideário educacional como normas, idéias que levam a proposições didáticas que estão
profundamente entranhadas nas práticas escolares de hoje. Importante para avaliar
processos de interpretação e apropriação de modelos, para pensar sobre como podem
ser relativos os processos de normatização de conceitos no campo educacional.

Referencias bibliográficas
[textos, artigos, livros e sites utilizados na elaboração da unidade]
· BARBOSA, A. M. Ensino da arte: memória e história. São Paulo: Perspectiva, 2009.
· BARBOSA, A. M. As Escuelas de Pintura al Aire Libre do México: liberdade, forma e cultura,
In: PILLAR, A. D. A educação do olhar no ensino de artes. Porto Alegre: Mediação, 1999. p. 101117.

36

sumário

bibliografia

· BARBOSA, R. Reforma do ensino secundário e superior: 1882. Rio de Janeiro: Ministério da

TEMAS

ficha

tema1

1

Educação e Saúde, 1941. (Obras Completas, v.9, t.1).

2

· ______. Reforma do ensino primário: 1883. Rio de Janeiro. Ministério da Educação e Saúde,

· BORGES, A. C. P. Geometria popular. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1959.
· DEWEY, J. Democracia e educação. Tradução de Godofredo Rangel e Anísio Teixeira. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1936.
· ______. Affective thought in logic and painting, In: ARCHAMBAULT, R. D. (Ed.). John
Dewey on education. Chicago: University of Chicago, 1974. p. 141-148.
· ______. The school and society. In: ARCHAMBAULT, R. D. (Ed.). John Dewey on education.
Chicago: University of Chicago, 1974. p. 259-310.
· PERRELET, L. A. O desenho a serviço da educação. Rio de Janeiro: Villas-Boas, 1930.

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

1947. (Obras Completas, v.10, 4 tomos).

· POMPÉIA, R. O ateneu. São Paulo: Melhoramentos, 1997.
· SAMPAIO, N. Desenho espontâneo das crianças: considerações sobre sua metodologia. Rio de
Janeiro: [S. n.], 1929.
· SCARAMELLI, J. Escola nova brasileira: esboço de um sistema. São Paulo: Livraria Zenith,
1931.
· SMITH, W. Art education: scholastic and industrial. Boston: Osgood & Co., 1872.
· ______. Teachers's manual of freehand drawing. Boston: Prang, 1874.

Bibliografia consultada
· BARBOSA, A. M. Teoria e prática da educação artística. São Paulo: Cultrix, 1975.
· ______. Arte educação no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1978.
· ______. Arte-Educação: conflitos/acertos. São Paulo: Max Limonad, 1984.

37

sumário

bibliografia

· ______ (Org.). História da Arte-Educação. São Paulo: Max Limonad, 1986.

TEMAS

ficha

tema1

1

· ______. Arte-Educação: leitura no subsolo. São Paulo: Cortez, 2000.

· ______. Tópicos utópicos. Belo Horizonte: Com/Arte, 1998.
· ______. John Dewey e o ensino da arte no Brasil. São Paulo: Cortez, 2001.
· ______ (Org.). Arte/Educação contemporânea. São Paulo: Cortez, 2005.
· ______ (Org.). Ensino da arte: memória e história. São Paulo: Perspectiva, 2008.
· BARBOSA, A. M.; SALES, H. M. (Org.). O ensino da arte e sua história. São Paulo: MAC-USP, 1990.
· FERRAZ, M. H.; FUSARI, M. F. Metodologia do ensino da arte. São Paulo: Cortez, 1993.

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

· ______. A imagem no ensino da arte: anos 80 e novos tempos. São Paulo: Perspectiva, 2009.

2

· FUSARI, M. F.; FERRAZ, M. H. A arte na educação escolar. São Paulo: Cortez,1992.
· PILLAR, A. D. (Org.). A educação do olhar no ensino das artes. Porto Alegre: Mediação, 1999.

38

sumário

bibliografia

2. Concepções e tendências formativas

TEMAS

ficha

tema2

1
2
Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

Nesta unidade, vamos fazer um esforço para depreender da história do ensino da arte as

principais concepções e tendências formativas. É um esforço de abstração, pois sabemos que os
modelos formativos surgem em condições socioculturais, econômicas e pedagógicas particulares. Ademais, como vimos no percurso histórico, no processo de apropriação os modelos convivem e se mesclam uns com os outros. Apesar de saber das dificuldades e da limitação desta

tarefa de abstração, acreditamos que vale a pena nomear cada modelo e buscar compreender

os fundamentos pedagógicos, estéticos e culturais que os justificam. A proposta é ordenar as

idéias para que cada um de nós se situe de maneira mais consciente na construção histórica,
esclarecendo como estamos atuando e como queremos construir essa nossa história. É ne-

cessário que seja assim, pois sabemos que detectar os fundamentos e analisar as conseqüências

de nossas práticas é a melhor maneira de aprender a ser críticos com o que fazemos e assim,
consequentemente, melhorar nossa ação docente.

39

sumário

bibliografia

Nesta tarefa, vamos nos apoiar em pesquisadores que estudaram os modelos formativos

TEMAS

ficha

tema2
REFERENCIAIS

1

de ensino de artes. Maria de Rezende Fusari e Maria Heloisa Ferraz no início da década de

2

1990 publicaram juntas o Arte na Educação Escolar onde apresentam e analisam as tendên-

dor espanhol, em seu livro mais recente publicado em 2005, Teorías y Prácticas en Educación
Artística, faz uma análise aprofundada e sistemática dos modelos predominantes, partindo das

concepções de arte como saber, arte como expressão, arte como linguagem e arte como sistema
cultural. Com nossa experiência como docente e formadora teceremos estas referências com

as informações históricas, apresentando inicialmente os modelos fundadores e no final da unidade consideraremos as perspectivas contemporâneas.

O primeiro tópico trata da pedagogia tradicional que fundamenta a história da educação, ver-

emos sua relação com as aulas de artes a partir da concepção de arte como um saber instituído. Este

modelo, como vimos na unidade anterior, se introduz no Brasil com a Academia de Belas Artes e
permanece ainda ativo, sobretudo, nos cursos universitários, onde nos formamos professores.

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

cias pedagógicas a partir de perspectivas filosóficas e educacionais. Imanol Aguirre, pesquisa-

A concepção de arte como expressão vai ser tratada no segundo tópico. Esta idéia perpassa

grande parte das proposta do período Modernista, das reformas educacionais baseadas na

Escola Nova às experiências de artes para crianças e adolescentes como atividades extracur-

riculares. Sob esta concepção se institui no Brasil o Movimento de Arte/Educação que divulga
entre nós a idéia da livre-expressão, tantas vezes distorcida e mal compreendida.

A arte como linguagem é analisada no terceiro tópico. Uma concepção que chegou tardia-

mente ao Brasil tendo se instalado com conforto nos cursos técnicos e universitários de formação artística de tendência mais funcionalista, como cursos de comunicação visual. Merece uma

avaliação atenciosa, pois a idéia de arte como linguagem é frequetemente usada em documen-

tos e currículos escolares, sem uma clara definição do que se entende por linguagem e onde se
situam os pressupostos de tal entendimento.

No quarto tópico apresentamos os fatores que impulsionam as proposições pós-modernas

de ensino de artes, como a educação para a cultura visual e a Proposta Triangular. O atual

currículo de Artes da Secretaria de Estado de Educação se inclui entre estas proposições. A

ideia é compreender o contexto onde se assentam as propostas que vamos estudar de forma
detalhada ao longo do curso.

40

sumário

bibliografia

Como já alertamos, faremos aqui um grande exercício de abstração, pois é difícil encontrar

TEMAS

ficha

tema2

1

um professor ou professora que use apenas um desses modelos em sua prática pedagógica. O

2

mais comum é encontrarmos um modelo mesclado com outro e mais outro. Entretanto, ao

tivos formativos, as estratégias metodológicas mais comuns, avaliando sua atualidade, suscitaremos o debate sobre o devir do ensino de arte, como sugere Imanol Aguirre.

2.1 - Arte como um saber e a pedagogia tradicional
A pedagogia tradicional é introduzida no Brasil no ensino da arte com a Academia de

Belas Artes no século XIX, percorre todo século XX e permanece ativa ainda hoje, sobretudo,
nos cursos universitários, onde nos formamos professores. Carrega uma concepção idealista
de educação que "induz a acreditar que os indivíduos são `libertados' pelos conhecimentos ad-

quiridos na escola e podem, por isso, organizar com sucesso uma sociedade mais democrática"
(FUSARI; FERRAZ, 1991, p. 22-23). Creditar à educação e ao conhecimento um poder tão

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

buscar as características de cada um, seus fundamentos estéticos e epistemológicos, seus obje-

determinante é uma atitude ingênua e pouco crítica. O sistema educacional é um dos sistemas
que compõem a sociedade, é um sistema entre outros, dependente portanto de uma vasta rede
de interesses e valores.

A idéia de um conhecimento adquirido já revela uma concepção de educação pautada em va-

lores instituídos, como um capital simbólico, usando aqui a terminologia de Pierre Bourdieu.
No campo do ensino da arte, a partir desta concepção o valor do capital simbólico se define

pelo valor do objeto artístico, valor esse predefinido pelas instituições que regem o próprio
campo da arte. Portanto, esta é uma concepção que visa a manutenção e reprodução de um
sistema elitista.

Imanol Aguirre nomeia esta concepção de logocentrista, ou seja, um modelo pedagógico

que coloca no centro da ação educativa o próprio fato artístico e seus produtos (o conheci-

mento), de forma que seu objetivo principal consiste em dotar os indivíduos de ferramentas
e conhecimentos precisos para conhecer e produzir tais artefatos (AGUIRRE, 2005, p. 205).

Os fundamentos didáticos que sustentam esta concepção, reforçam a importância da au-

toridade do professor, aquele que detém o conhecimento, e se ampara no valor formativo do
próprio modelo. Acredita que o processo de aquisição dos conhecimentos se dá através de

41

sumário

bibliografia

elaborações puramente mentais. São práticas que não levam em conta os aspectos sensoriais e

TEMAS

ficha

tema2

1

emocionais, são apartadas da vida cotidiana dos sujeitos implicados no ato educativo. A con-

2

figuração espacial e física de nossas escolas revelam ainda muito dessa concepção.

que pressupõe regras e princípios universais. Tem como fundamento metodológico a imitação

e a progressão das dificuldades para a aquisição da perfeição tanto das formas como da destreza para executar tais formas. É associada ao padrão de beleza neoclássico e se fundamenta na
historiografia da arte construída desde o Renascimento.

Todas as práticas advindas do ensino divulgado pela Academia de Belas Artes e também

pelo Conservatório de Música no século XIX se pautam neste modelo que se tornou também
referência para os professores das disciplinas de Desenho e de Música das escolas primárias

e secundárias da primeira metade do século XX. É através, sobretudo, do ensino de desenho

que essas práticas se tornaram conhecidas no meio educacional, como a ênfase no produto do
trabalho artístico através do domínio de técnicas e a destreza no uso dos instrumentos, como

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

No campo do ensino da arte a pedagogia tradicional se associa a teoria estética mimética

os compassos e esquadros.

Fusari e Ferraz (1992, p. 25) elencam algumas modalidades desse modelo presentes nos

programas da disciplina de Desenho e que ainda hoje nos soam familiares.

Desenho do natural (observação, representação e cópias de objetos);
Desenho decorativo (faixas, ornatos, redes, gregas, estudo de letras, barras decorativas, painéis);
Desenho geométrico (morfologia geométrica e estudo de construções geométricas) e
Desenho "pedagógico" nas Escolas Normais (esquemas de construções de desenho
para "ilustrar" aulas).

Como vimos no percurso histórico, esses conhecimentos tinham uma

funcionalidade no contexto cultural da época, instrumentalizavam para

o mundo do trabalho em uma sociedade que se preparava para a modernidade. Entretanto, como um modelo de cunho reprodutivista cum-

pre a função de manter a divisão social existente e reforça as clássicas

42

sumário

bibliografia

dicotomias entre as belas artes e o artesanato, as artes liberais e as artes

TEMAS

ficha

tema2

1

mecânicas, a arte erudita e a arte popular, etc. Aqui cabe nos perguntar-

2

mos quais são as demandas do contexto de hoje e como é possível aliar

2. 2 - Arte como expressão e a pedagogia renovada
Se a pedagogia tradicional que acabamos de analisar tinha uma forte vinculação com a

razão, a opção que agora trataremos reforça justamente os aspectos sensoriais, sentimentais e

emocionais da experiência estética, o sujeito da experiência é o centro desta concepção. Tem

suas raízes no romantismo do século XVIII e XIX, mas é no início do século XX que se configura como modelo educacional com o advento do que se passou a chamar Escola Nova.

Dermeval Saviani (apud FUSARI; FERRAZ, 1991, p. 31) faz uma esclarecedora e sintética

comparação entre o modelo tradicional e a pedagogia da Escola Nova, indicando que esta última

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

o domínio da técnica com a liberdade de expressão.

deslocou o eixo da questão pedagógica do intelecto para o sentimento;
do aspecto lógico para o psicológico; dos conteúdos cognitivos para os

métodos ou processos pedagógicos; do professor para o aluno; do esforço

para o interesse; da disciplina para a espontaneidade; do diretivismo para

o não-diretivismo; da quantidade para a qualidade; de uma pedagogia de
inspiração filosófica centrada na ciência da lógica para uma pedagogia de
inspiração experimental, baseada, principalmente, nas contribuições da

Biologia e da Psicologia (SAVIANI apud FUSARI; FERRAZ, 1991, p.
31, grifos das autoras).

No âmbito do ensino da arte estas idéias afloram no contexto brasileiro com toda potência

na concepção de educação através da arte disseminada através dos livros de Herbert Read e

Viktor Lowenfeld, divulgados pelo Movimento Escolinhas de Arte. Concepção que desloca o
foco do ensino da arte do produto para o processo; que busca justificar a importância da arte

na educação não pela arte em si, mas pelo que ela pode contribuir para a educação integral

do ser humano. Concepção que surge como esperança de renovação e de construção de uma
sociedade mais humana e democrática em meados do século XX depois dos grandes desastres

43

sumário

bibliografia

das guerras mundiais. Uma concepção também idealista, como a anterior, porém com funda-

TEMAS

ficha

tema2

1

mentos mais progressistas, hoje ainda bastante usada, sobretudo, nos projetos sociais que visam

2

a reconstrução e reinserção dos indivíduos na sociedade.

baseada na auto-expressão e tingida pelo romantismo são: liberdade,
sensibilidade, originalidade, criatividade, naturalidade, espontaneidade,
imaginação e genialidade (2005, p.219). Cada uma dessas chaves abre

um universo de possibilidades educativas que são de certa forma difíceis de mesurar. Estes conceitos passaram a fazer parte do jargão das
propostas, currículos e planos de aula por puro idealismo, pois na maior
parte das vezes não estavam associados a práticas que realmente os re-

alizassem. A utopia do desenvolvimento livre e criativo do sujeito, que

busca transcender o conhecimento da arte em benefício do crescimento
pessoal, moral e social, caiu num vazio.

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

Segundo Imanol Aguirre, os conceitos chave desta opção educativa,

É evidente que aconteceram experiências significativas no contexto dessa concepção que am-

pliou o espaço da arte na educação, como vimos detalhadamente no percurso histórico. Além

de espaço, ganhamos visibilidade no contexto educacional, pois as crianças foram estimuladas

a desenhar, a cantar, a dançar, a representar, expressando suas emoções e sentimentos. O lúdico
passou a ser visto como meio de aprendizagem. O aprender pela ação no mundo, suplantou a
aprendizagem contemplativa. Sobretudo, a expressão dos sujeitos passou a ser respeitada.

Entretanto, o excessivo foco no processo, o currículo não sequênciado nem articulado, com-

posto de um apanhado de atividades de experimentação de materiais e técnicas, a negação dos
instrumentos de avaliação, a desorientação de grande parte dos professores por falta de formação e fundamentação levou ao que passou-se a chamar de laissez-faire, o deixar fazer.

Outro aspecto que contribuiu para o enfraquecimento desta concepção foi a crença quase

mística no potencial expressivo e criativo inato das crianças. Se a pedagogia tradicional acreditava que a criança era uma tábula rasa, a concepção romântica impregnou as pedagogias pro-

gressista da ideia de que as crianças necessitavam apenas de motivação para se expressar e não

44

sumário

bibliografia

de instrução. Esta ideia foi responsável pela proliferação dos repertórios apreendidos nos meios

TEMAS

ficha

tema2

1

de comunicação de massa, de reproduções de modelos e da falta de confiança em sua própria

2

expressão, tão reconhecida por aqueles que estudam a expressão gráfica das crianças, sobreacreditava que esta falta de criatividade era devida a má influência dos adultos ou a uma educação inadequada. Ainda não se tinha conhecimento,
por exemplo, das pesquisas que vieram demonstrar

que as crianças aprendem a desenhar com desenhos,
se apropriando das imagens e das informações visuais que permeiam seu meio ambiente, como bem

demonstrou Brent e Marjorie Wilson já na década
12

12. Brent e Marjorie Wilson - Um dos textos do
casal de pesquisadores foi traduzido no Brasil com o título de Uma visão iconoclasta das
fontes de imagem nos desenhos de crianças,
publicado no livro organizado por Ana Mae
Barbosa, Arte-Educação: leitura no subsolo,
São Paulo: Cortez, 1997, p.57-75.

de 1970.

Por outro lado, com a introdução da Educação Artística no currículo escolar na década

de 1970, a pulverização da concepção da livre-expressão chegou a seu ápice. No contexto

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

tudo das crianças em fase escolar, dos oito ou nove anos de idade em diante. Erroneamente se

de uma reforma de cunho tecnicista e de concepção tradicional, o espaço das aulas de artes
passou a ser o único espaço humanizador da escola. A estrutura escolar não foi afetada pelas
ideias da educação através da arte. As disciplinas duras do currículo continuaram trabalhando

a racionalidade. As aulas de arte se tornaram o espaço onde se trabalhava a sensorialidade do
aluno, também os sentimentos, a emoção, a expressão, o imaginário e o lúdico. As aulas de arte

tornaram-se o espaço de vazão de um sistema opressor e reprodutor. A concepção se esvaziou
e o sistema continuou reproduzindo a dicotomia razão-emoção, cabeça-corpo, etc.

Usando um ditado popular a implantação não programada da Educação Artística como ativi-

dade obrigatória da grade curricular foi `uma faca de dois gumes'. Importante conquista de es-

paço no sistema oficial de ensino, o reconhecimento da necessidade da arte nos processos de
formação dos sujeitos, porém, a partir de uma descaracterização dos pressupostos teóricos. Nem

arte como saber, nem arte como expressão, "mas uma área bastante generosa e sem contornos

fixos, flutuando ao sabor das tendências e interesses", como é tratada no Parecer nº 540 de 1977.

45

sumário

bibliografia

TEMAS

ficha

tema2

2.3 - Arte como linguagem

1
2

No século XX a conhecida virada linguística também repercutiu no campo do ensino da

arte. O conceito de arte como linguagem deu lugar a propostas formativas e programas cenCom base na psicologia da percepção, os teóricos da comunicação visual buscaram estabel-

ecer os elementos constitutivos desta linguagem, tais como: o ponto, a linha, a superfície, a cor,
a luz e a textura. Uma das mais conhecidas defensoras desta linha teórica é Donis A. Dondis13

que acredita que estes elementos coordenados entre si, dão lugar a uma espécie de gramática
das formas, que determinam códigos visuais aptos para

a intercomunicação entre os vários setores da sociedade.
O foco do ensino da arte (visual) nesta perspectiva seria, portanto, a linguagem visual.

13. Donis A. Dondis - Ver o livro da autora
Sintaxe da linguagem visual, São Paulo:
Martins Fontes, 2000.

É importante ressaltar que esta concepção se configura em paralelo ao desenvolvimento das

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

trados mais na ideia de comunicação do que no objeto artístico ou no sujeito criador.

tecnologias visuais no século XX. O espetacular incremento da cultura visual nas sociedades

tecnificadas, os avanços na reprodução técnica de imagens junto a despreparação dos sujeitos
para compreender o poder dessas imagens dão sentido a este modelo educativo.

É a partir desta concepção que se dissemina a ideia da alfabetização visual, tendo como

paralelo os processos de aprendizagem da linguagem verbal. Nesta perspectiva, como propósi-

to formativo, importa desenvolver competências para a leitura e emissão de textos visuais.
Segundo Imanol Aguirre (2005, p. 256), as competências e objetivos formativos se resumem a:
Habilidades de ver-observar;
Habilidades de leitura para decodificar as imagens ou mensagens visuais;
Habilidades de escritura-produção de imagens ou mensagens visuais;
Habilidades para emitir mensagens com e sobre as imagens.

Com enfoque formalista, a partir de análises dos signos visuais e sua organização semântica

particular, este modelo passa a incluir como objeto de estudo um novo elenco de produções

gráficas e plásticas como a fotografia, o cinema, o vídeo, etc. O enfoque formalista, no entanto,
restringe as análises à qualidade sígnica das imagens, desprezando os aspectos históricos e
culturais.

46

sumário

bibliografia

Longe da liberdade do modelo expressionista ou da submissão ao ideal estético do modelo

TEMAS

ficha

tema2

1

tradicional, o modelo filolinguístico, como nomeia Imanol Aguirre, promove a experimen-

2

tação e combinação consciente dos elementos constitutivos das visualidades. Não renuncia à
dificuldades e complexidade na combinatória das propostas expressivas.

Este modelo foi implementado com êxito na Bauhaus e desde então seus princípios forma-

tivos se tornaram uma alternativa ao tradicional modelo academicista de muitos cursos superiores de formação em artes. No contexto brasileiro, no âmbito escolar há ecos desta tendência, sobretudo, nas escolas técnicas, em nível médio. No entanto, não é difícil encontrar em

programas curriculares do ensino fundamental, sistematizações didáticas que tem sua origem

no ordenamento desta concepção da linguagem visual. São aquelas proposições que começam
trabalhando com o ponto, a linha e terminam estudando a composição.

A limitação formalista que não aprofunda as relações históricas e culturais na análise dos

objetos e imagens vem sendo atualmente contornada por abordagens do tipo semiótica e pós-

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

orientação de especialistas nem a sistematização curricular, que estabelece diferentes graus de

estruturalistas. São tentativas de atualização da ideia de alfabetização visual, como as que tem
se efetivado com as propostas educativas provenientes dos estudos da cultura visual que veremos a seguir.

2.4 - Arte como cultura e a pós-modernidade
Os modelos anteriores se apóiam na idéia de arte como um sistema autônomo, derivado da

relação entre o sujeito criador e o objeto criado. Agora entramos na pós-modernidade onde

uma nova perspectiva vem sendo formulada que concebe a arte, não como um saber normatizado, nem como expressão interior, nem como linguagem, mas como um fato cultural.

Para melhor compreender e se situar nas perspectivas que se abrem na contemporaneidade

é necessário de antemão refletir sobre a ideia de cultura que norteia estas abordagens. Neste

curso teremos uma disciplina inteiramente voltada para os diferentes conceitos de cultura e
suas problematizações, o que ajudará muito nesta empreitada. Aqui cabe situar que quando
falamos de cultura na perspectiva da pós-modernidade, ao invés de assumir um conceito de

cultura como elemento aglutinador de identidades, como algo fixo e homogenizador, importa
pensar a cultura como redes de significados, como comunidades de sentidos, de pertinência

47

sumário

bibliografia

e de pertencimento, que revela heterogeneidade e contradições. Portanto, é uma idéia mais

TEMAS

ficha

tema2

1

dinâmica de cultura que comporta transfusões e mestiçagens nos trânsitos entre culturas.

2

Fruto das rupturas e mudanças de paradigmas que se forjaram no pensamento ocidental

troduzido nos estudos sobre a arte, o ensino da arte também formulou propostas que buscam

refletir sobre essas revisões epistemológicas, concretizadas pelos estudos culturais e da pedagogia crítica. Podemos identificar três fatores de mudança no contexto da cultura contemporânea
que sustentam essas novas abordagens.

O primeiro é a ampliação da ideia de arte. A arte contemporânea, de certa maneira
continuadora das propostas das vanguarda modernistas, se caracteriza por enfatizar
questões que se referem a narração de histórias, por abordar temas controvertidos ou
que chamam atenção para aspectos sociais e políticos da vida cotidiana em sociedade.
A ordem formal sede lugar às linguagens híbridas que se configuram em narrativas.
O segundo fator são as transformações no campo das pesquisas das teorias e história
da arte. Diante da diversificação do campo das práticas artísticas, os estudos sobre
a arte se viram diante de paradoxos que os levaram a questionar, por exemplo, as
analogias e diferenças entre as artes canônicas e a cultura visual, entre o teatro e as
produções dramatúrgicas dos meios de comunicação de massa, ou a legitimidade e
hegemonia das formas de arte culta frente as formas populares. Houve um deslocamento de interesse da obra ou do artista para os processos de circulação, de recepção
e de apropriação da arte. Passou-se a observar como a arte interatua com o social, o
político ou o estético e como incita o olhar do espectador, não mais entendido como
um sujeito passivo, mas como um interator.
O terceiro fator é a evidência da crescente influência educativa da cultura visual nas
sociedades tecnológicas. Na atualidade, tanto o conhecimento quanto o entretenimento se apresentam em formas visuais. No caso dos estudantes, a presença do visual em
suas vidas está gerando uma distância abismal entre suas capacidades e a dos próprios
educadores, formados na cultura das letras e pouco habituados a manejar o mundo das
imagens. No contexto da juventude de hoje, a pedagogia escolar está sendo suplantada pela pedagogia cultural, ou seja, aquela que advém dos meios de comunicação
de massa (cinema, televisão, videogames, música popular, internet, publicidade, etc.)
com as quais os jovens interatuam em seu tempo de ócio. Esta cultura massificada
transmite valores e aporta conhecimentos aos processos identitários. Esta é uma questão premente para qualquer projeto educativo da atualidade.

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

desde meados do século XX, em sintonia com a revolução que a pós-modernidade havia in-

48

sumário

bibliografia

Estes três fatores que aqui apontamos estão implícitos com maior ou menor ênfase nas pro-

TEMAS

ficha

tema2

1

postas de ensino de artes pós-modernas que examinaremos de forma sucinta a seguir.

2

2.4.1 - A educação para a cultura visual
metade do século XX, a educação para a cultura visual vem se configurando hoje no Brasil

como uma estratégia pedagógica diante da complexidade das sociedades contemporâneas. É
um campo de investigação transdisciplinar e transmetodológico, ou seja, é necessário o concurso e colaboração de diferentes disciplinas e estratégias metodológicas que reforçam a ideia
de interdisciplinaridade.

Pressupõe uma mudança na finalidade da educação escolar, pois pondera seu papel de único

agente transmissor de conhecimentos nas sociedades contemporâneas, desde que considera a
inserção dos sujeitos no meio cultural e os trânsitos e trocas nos vários contextos. Em conse-

qüência a escola passa a ser vista não como um sistema reprodutor de saberes, mas como um

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

Formulada a partir dos estudos culturais na Inglaterra e América do Norte na segunda

espaço de preparação dos indivíduos para fazer um uso crítico e democrático das informações

que hoje todos os cidadãos têm a disposição. A escola precisa se sintonizar com a sociedade
para a qual ela prepara seus estudantes.

Nesta proposição os fundamentos teóricos e didáticos do ensino das artes visuais são ne-

cessariamente revisados. É necessário pensar o visual em termos de significação cultural, de
práticas sociais e de relações de poder. É necessário refletir sobre as maneiras de olhar e de
produzir olhares. Pressupõe uma mudança radical, do estudo da arte para o estudo da cultura
visual, mudança de objeto de estudo e de conteúdos.

Tem como propósito formativo proporcionar aos estudantes ferramentas para uma com-

preensão crítica do papel que cumprem em cada sociedade e a posição que ocupam no jogo
das relações de poder. Tem como objetivo proporcionar aos estudantes os fundamentos para

compreender criticamente os mundos sociais e culturais em que vivem e produzem suas relações de significados.

Como podemos avaliar esta proposição se configura muito mais como uma abordagem do

que como uma metodologia, visto que sugere enfoques que articulam de forma aberta e eclé-

tica propostas baseada nos estudos culturas, nos estudos da cultura material e na arte contem-

49

sumário

bibliografia

porânea. É aberta a temas que atravessam o campo educacional como as questões de gênero,

TEMAS

ficha

tema2

1

o racismo e as desigualdades sociais de toda ordem. As críticas a esta abordagem enfatizam o

2

distanciamento do fato artístico e da experiência estética.

Como vimos do final do percurso histórico, a Proposta Triangular é uma opção formativa

de tendência pós-moderna, pois concebe a arte como expressão e como cultura e propõe uma

aprendizagem de tipo dialógico, construtivista e multicultural. Foi sistematizada por Ana Mae
Barbosa entre os anos de 1987 e 1993 no contexto do Museu de Arte Contemporânea da Uni-

versidade de São Paulo e experimentada nas escolas da Rede Municipal de ensino da Cidade
de São Paulo quando Paulo Freire era Secretário de Educação do Município.

Entretanto, vale a pena ressaltar que sua gênesis vem de uma longa história de apropriações,

experimentações e revisões, em sintonia com as mudanças no contexto cultural da pós-modernidade e com o Movimento de Arte Educação que se fortalecia no Brasil desde a década

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

2.4.2 - Proposta Triangular

de 1980. Foi inicialmente nomeada de "Metodologia Triangular", mas logo esta denominação

foi revista pela própria professora, pois, se configura muito mais como uma abordagem que
propõe uma profunda revisão dos problemas do ensino e da aprendizagem das artes, do que
propriamente como uma metodologia de aula.

A triangulação que se anuncia em sua denominação se refere às três dimensões inerentes

ao fato artístico. Elliot Eisner, um dos importantes filósofos do ensino de artes dos Estados

Unidos, dizia, já na década de 1970, que não podemos querer ensinar arte sem levar em conta
que em nossa cultura produzimos arte porque apreciamos arte e gostamos de conversar sobre
arte. Naquele momento, esta simples declaração de Eisner era uma reflexão contra as práti-

cas escolares que se apegavam apenas a atividades artísticas sem tecer relações com o campo
de conhecimento. A natureza epistemológica do ensino da arte passou a ser uma exigência

premente tanto do contexto cultural quanto educacional. A Proposta Triangular vem nesta
direção designar os componentes desse ensino por três ações mentalmente e sensorialmente
básicas: a produção (fazer artístico), a leitura da obra ou imagem e a contextualização.

Esta triangulação tem como fundamentação educacional as concepções de três importantes

pensadores: John Dewey, Paulo Freire e o já citado Elliot Eisner. Na introdução do livro Arte/

50

sumário

bibliografia

Educação contemporânea, Ana Mae Barbosa (2005, p. 12) compara os conceitos de educação

TEMAS

ficha

tema2

1

de Eisner e Freire, evidenciando como este conceito se encontra com a idéia de experiência de
Dewey.

2
Para ambos [Eisner e Freire], a educação é mediatizada pelo mundo em
por crenças, clarificada pela necessidade, afetada por valores e moderada

pela individualidade. Trata-se de uma experiência com o mundo empírico,
com a cultura e a sociedade personalizada pelo processo de gerar significados, pelas leituras pessoais auto-sonorizadas do mundo fenomênico e das

"paisagens interiores". É na valorização da experiência que os três filósofos
e/ou epistemólogos se encontram. Se, para Dewey, experiência é conhecimento, para Freire é a consciência da experiência que podemos chamar

conhecimento. Já Eisner destaca da experiência do mundo empírico sua

dependência de nosso sistema sensorial biológico, que é a extensão de nos-

so sistema nervoso, ao qual Susanne Langer chama de "orgão da mente"
(BARBOSA, 2005, p. 12).

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

que se vive, formatada pela cultura, influenciada por linguagens, impactada

O conceito de experiência de Dewey faz parte dos conteúdos da disciplina Repertório dos

professores em formação, pois é essencial para compreensão dos processos de aprendizagem.

A Proposta Triangular com esta base conceitual ganha uma amplitude sistêmica, ou seja,

passa a ser entendida como um sistema que busca dar conta da epistemologia da arte para o

ensino de arte na contemporaneidade. Vamos, então, procurar entender este caráter sistêmico.
A proposta indica três ações: ler, fazer e contextualizar. Porém não indica uma ordem, o que
pode nos levar a uma aparente desordem! Inicialmente, quando da divulgação das experiências

com esta nova abordagem, a questão da leitura era uma novidade, pois o ensino até então es-

tava centrado em atividades práticas. Neste contexto, o eixo da proposta passou a ser a leitura

contextualizada da obra ou imagem. Porém, precisamos entender esta leitura não apenas como
leitura crítica da materialidade da obra e de seus princípios decodificadores, mas também

como leitura de mundo, como indica Paulo Freire. "Leitura de palavras, gestos, ações, imagens,

necessidades, desejos, expectativas, enfim, leitura de nós mesmos e do mundo em que vivemos"
(BARBOSA, 1998, p. 35). Neste sentido, este princípio de leitura está mais próximo da idéia

de interpretação cultural e a ação contextualizadora está intrinsecamente relacionada ao ato de
ler, ouvir ... perceber e significar o mundo.

51

sumário

bibliografia

A contextualização que pode ser histórica, social, psicológica, antropológica, geográfica,

TEMAS

ficha

tema2

1

ecológica, biológica, etc. vai tecer a trama desse sistema interpretativo. "Contextualizar é es-

2

tabelecer relações. Neste sentido, a contextualização no processo ensino-aprendizagem é a
modernista. É através da contextualização que se pode praticar uma educação em direção à

multiculturalidade e à ecologia, valores curriculares que definem a pedagogia pós-moderna ..."
(BARBOSA, 1998, p. 38).

Por este entendimento da Proposta Triangular, a dimensão da produção pode ser ilumi-

nada pelas concepções de Dewey, que nos apresenta uma possibilidade de compreensão mais
orgânica da experiência pelo fato de não separar as dimensões artísticas das dimensões estéticas. Sendo assim, ao configurar e operar no âmbito das práticas artísticas o sujeito necessaria-

mente precisa estar conectado com os aspectos estéticos. Toda produção tem seu contexto de
origem, seja material ou conceitual. A história das técnicas, o desenvolvimento das tecnologias

no campo das artes são questões intrinsecamente relacionadas com as práticas de produção e

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

porta aberta para a interdisciplinaridade. A redução da contextualização à história é um viés

de recepção. Fecha-se assim o elo entre as dimensões da Proposta Triangular. O contexto de

produção é tão importante quanto o contexto de recepção. Esta é a idéia de sistema que perpassa esta abordagem.

Vale salientar que por questões de formação, as considerações aqui expostas tendem a cen-

trar-se nas artes visuais. Porém, este entendimento se estende às outras linguagens, como a

música, o teatro e a dança, já que ancoramos esta perspectiva em uma visão de arte como
sistema cultural.

Ao apresentar os aspectos fundamentais dessas duas últimas abordagens pós-modernas pro-

curamos preparar o campo para o entendimento de outras propostas contemporâneas, como a
atual proposta curricular de Arte da Secretaria de Estado de Educação.

52

sumário

bibliografia

Finalizando

TEMAS

ficha

tema2

1
2

Nas descrições das perspectivas apresentadas nesta unidade apareceram numerosas questões

colaterais e algumas delas remetem a posicionamentos éticos e políticos sobre a maneira de

concepções de arte - como saber, como expressão, como linguagem e como cultura - buscamos
paralelamente incitar vocês, professores, a pensar sobre suas concepções de arte e de cultura.

As duas disciplinas que compõem este primeiro módulo do curso foram pensadas de forma

dialogal. As referências e informações sobre a história do ensino de artes e suas concepções

metodológicas sistematizadas nesta disciplina, ajudam a situar os seus repertórios de formação.
Por outro lado, ajudam também a preparar o terreno para uma compreensão mais aprofundada

sobre a atual proposta curricular que temos em mãos. A idéia central que rege todo este curso
é da autoria consciente e crítica do professor em relação a sua prática docente.

Ampliando

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

conduzir o ensino de artes. Ao buscar identificar os modelos formativos com as diferentes

Para complementar e aprofundar a discussão sobre os modelos formativos e o ensino de

artes que apresentamos nesta unidade, sugerimos a leitura dos seguintes textos:

Qual o lugar da arte na educação? de Rejane Coutinho, publicado no livro Arte-educação:

experiências, questões e possibilidades. São Paulo: Expressão e Arte Editora, 2006, organizado
por Luiza H. da Silva Christov e Simone Ap. R. Mattos.

Através dessa questão mestra, procura-se configurar diferentes respostas tendo em vista as

diferentes concepções que permeiam nossa história do ensino de artes. É um texto de leitura
leve onde a autora se posiciona diante de suas referências.

Contenidos y enfoques metodologicos de la educación artística. Este texto foi uma palestra

do professor Imanol Aguirre, que é docente dna Universidade Pública de Navarra, Espanha,
proferida em noum Congresso de Formação Artística e Cultural, realizado em Medellín,na

53

sumário

bibliografia

Colômbia em 2008 .7 Colocamos este texto a disposição em formato PDF, pois apresenta as

TEMAS

ficha

tema2

1

questões tratadas na segunda unidade desta disciplina, junto a uma reflexão sobre o seu rep-

2

ertório de formação. O texto é escrito em espanhol, porém a sua leitura é significativa para a

Referências bibliográficas
· AGUIRRE, Imanol. Teorías y prácticas en educación artística. Barcelona: Octaedro, 2005.
· AGUIRRE, Imanol. Contenidos y enfoques metodologicos de la educación artística. In: Anais
do Congreso de Formación Artística y Cultural para la Región de América Latina y Caribe. Organização do Governo de Antioquía, em convênio com ACOFARTES, InSEA e Faculdade de Artes,
2007, CD-Rom.
· BARBOSA, Ana Mae. Arte-educação: leitura no subsolo. São Paulo: Cortez, 1997. In: CHRISTOV, Luiza H. da Silva; MATTOS, Simone A. R. (Org.). Arte-educação: experiências, questões e

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

ampliação do entendimento das diferentes concepções formativas.

possibilidades. São Paulo: Expressão e Arte, 2006.
· BARBOSA, Ana Mae (Org.). Arte/educação contemporânea: consonâncias internacionais. São
Paulo: Cortez, 2005.
· BARBOSA, Ana Mae. John Dewey e o ensino da arte no Brasil. São Paulo: Cortez, 2001.
· BARBOSA, Ana Mae. Tópicos utópicos. Belo Horizonte: C/Arte, 1998.
· BARBOSA, Rui. Reforma do ensino primário. Rio de Janeiro: Ministério de Educação e Saúde,
1947. (Obras completas, v. 10, t. 4)
· BARBOSA, Rui. Reforma do ensino secundário e superior. Rio de Janeiro: Ministério de Educação e Saúde, 1941. (Obras completas, v. 9, t. 2)
· BORGES, Abílio Cesar Pereira. Geometria popular. 41. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves,
1959.
· BOSI, Alfredo. Entrevista. Revista É (SESC), São Paulo, v. 16, n. 7, jan. 2010, p. 14.
· DEWEY, John. Affective thought in logic and painting. In: ARCHAMBAULT, Reginald D.

54

sumário

bibliografia

(Ed.). John Dewey on education. Chicago: University of Chicago, 1974. p. 141-48

TEMAS

ficha

tema2

1

· DEWEY, John. Democracia e educação. Tradução de Godofredo Rangel e Anísio Teixeira. São

2

Paulo: Cia. Editora Nacional, 1936.

on education. Chicago: University of Chicago, 1974. p. 259-310.
· DONDIS, Donis A. Sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
· FUSARI, Maria F. de Rezende; FERRAZ, Maria Heloisa C. de T. Arte na educação escolar. São
Paulo: Cortez, 1991.
· Raul Pompéia. O ateneu. São Paulo: Melhoramentos,1997.
· SAMPAIO, Nereo. Desenho espontâneo das crianças: considerações sobre sua metodologia, Rio
de Janeiro: S. C. P., 1929.

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

· DEWEY, John. The school and society. In: ARCHAMBAULT, Reginald D. (Ed.). John Dewey

· SCARAMELLI, José. Escola nova brasileira: esboço de um sistema. São Paulo: Livraria Zenith,
1931.
· SMITH, Walter. Art education: scholastic and industrial. Boston: Osgood, 1872.
· SMITH, Walter. Teachers's manual of freehand drawing. Boston: Prang, 1874.

55

sumário

bibliografia

Tema 1 - Referencias bibliográficas

TEMAS

ficha

referencias

1

[textos, artigos, livros e sites utilizados na elaboração da unidade]

2

· BARBOSA, A. M. Ensino da arte: memória e história. São Paulo: Perspectiva, 2009.

PILLAR, A. D. A educação do olhar no ensino de artes. Porto Alegre: Mediação, 1999. p. 101-117.
· BARBOSA, R. Reforma do ensino secundário e superior: 1882. Rio de Janeiro: Ministério da
Educação e Saúde, 1941. (Obras Completas, v.9, t.1).
· ______. Reforma do ensino primário: 1883. Rio de Janeiro. Ministério da Educação e Saúde,
1947. (Obras Completas, v.10, 4 tomos).
· BORGES, A. C. P. Geometria popular. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1959.
· DEWEY, J. Democracia e educação. Tradução de Godofredo Rangel e Anísio Teixeira. São Paulo:

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

· BARBOSA, A. M. As Escuelas de Pintura al Aire Libre do México: liberdade, forma e cultura, In:

Cia. Editora Nacional, 1936.
· ______. Affective thought in logic and painting, In: ARCHAMBAULT, R. D. (Ed.). John Dewey
on education. Chicago: University of Chicago, 1974. p. 141-148.
· ______. The school and society. In: ARCHAMBAULT, R. D. (Ed.). John Dewey on education.
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56

sumário

bibliografia

Bibliografia consultada

TEMAS

ficha

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1
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Tema 2 - Referências bibliográficas
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do Congreso de Formación Artística y Cultural para la Región de América Latina y Caribe. Organização do Governo de Antioquía, em convênio com ACOFARTES, InSEA e Faculdade de Artes,
2007, CD-Rom.

57

sumário

bibliografia

· BARBOSA, Ana Mae. Arte-educação: leitura no subsolo. São Paulo: Cortez, 1997. In: CHRIS-

TEMAS

ficha

referencias

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possibilidades. São Paulo: Expressão e Arte, 2006.

2

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· BARBOSA, Rui. Reforma do ensino primário. Rio de Janeiro: Ministério de Educação e Saúde,
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· BARBOSA, Rui. Reforma do ensino secundário e superior. Rio de Janeiro: Ministério de Educação e Saúde, 1941. (Obras completas, v. 9, t. 2)
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· DEWEY, John. The school and society. In: ARCHAMBAULT, Reginald D. (Ed.). John Dewey
on education. Chicago: University of Chicago, 1974. p. 259-310.
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· FUSARI, Maria F. de Rezende; FERRAZ, Maria Heloisa C. de T. Arte na educação escolar. São
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· Raul Pompéia. O ateneu. São Paulo: Melhoramentos,1997.
· SAMPAIO, Nereo. Desenho espontâneo das crianças: considerações sobre sua metodologia, Rio
de Janeiro: S. C. P., 1929.

58

sumário

bibliografia

· SCARAMELLI, José. Escola nova brasileira: esboço de um sistema. São Paulo: Livraria Zenith,

TEMAS

ficha

referencias

1

1931.

2

· SMITH, Walter. Art education: scholastic and industrial. Boston: Osgood, 1872.
Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

· SMITH, Walter. Teachers's manual of freehand drawing. Boston: Prang, 1874.

59

sumário

bibliografia

Ficha da Disciplina:

TEMAS

ficha

ficha

1

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

Ensino da arte no Brasil:
Aspectos históricos e metodológicos

2

Autoria:
Ana Mae Barbosa
Rejane Galvão Coutinho

60

sumário

bibliografia

TEMAS

ficha

ficha

1

Ana Mae Barbosa

2

Comecei a estudar história do ensino da arte quando fazia o mestrado
sertação se resumiu ao primeiro capítulo do projeto, publicado como
Arte-Educação no Brasil: das origens ao Modernismo. Para o dou-

torado eu que já tinha experiência fiz um recorte menos ambicioso.

Estudei Walter Smith e John Dewey e o ensino da arte no Brasil,
publicado pela Cortez. Desde então história do ensino das artes e cul-

turas visuais se tornou minha paixão, embora eu divida a paixão com

outros assuntos como os estudos de museus de arte, metodologias do ensino da Arte, etc. Hoje
continuo pesquisando sobre história com o apoio do CNPq para um próximo livro.

Ensinei na USP muitos anos, aposentei-me como Professora Titular e lá ainda oriento para

doutorado. Para mestrado oriento no programa de Design, Arte e Tecnologia da Universidade

Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

nos Estados Unidos . Planejei estudar o século XX, mas a minha dis-

Anhembi Morumbi.

Rejane Galvão Coutinho
Sou formada em Educação Artística com habilitação em Artes

Plásticas na Universidade Federal de Pernambuco, estado onde

nasci e vivi a maior parte de minha vida. Vim para São Paulo para
estudar, fiz mestrado e doutorado na Escola de Comunicações e
Artes da Universidade de São Paulo e acabei ficando por aqui.

Hoje sou professora do Instituto de Artes da UNESP onde trabalho com formação de professores de Artes Visuais e atualmente

coordeno a Pós-Graduação em Artes. Desenvolvo e oriento pesquisas sobre a história do ensino da arte e sobre as questões contemporâneas da arte/educação como mediação cultural,

uma coisa tem forte relação com a outra, pois a história me abre possibilidades de entender
melhor o presente e vislumbrar o futuro.

61

sumário

bibliografia

Ementa

1
2
Unesp/Redefor · Módulo I · Disciplina 02

História do ensino da arte no Brasil, principais concepções e tendências
formativas: do século XIX à contemporaneidade. Contextos de formação e
profissionalização da área de conhecimento.

TEMAS

ficha

ficha

62

UNESP ­ Universidade Estadual Paulista
Pró-Reitoria de Pós-Graduação
Rua Quirino de Andrade, 215
CEP 01049-010 ­ São Paulo ­ SP
Tel.: (11) 5627-0561
www.unesp.br

Governo do Estado de São Paulo
Secretaria de Estado da Educação
Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas
Gabinete da Coordenadora
Praça da República, 53
CEP 01045-903 ­ Centro ­ São Paulo ­ SP

Pró-Reitora de Pós-graduação
Marilza Vieira Cunha Rudge
Equipe Coordenadora
Elisa Tomoe Moriya Schlünzen
Coordenadora Pedagógica

Ana Maria Martins da Costa Santos
Cláudio José de França e Silva
Rogério Luiz Buccelli
Coordenadores dos Cursos
Arte: Rejane Galvão Coutinho (IA/Unesp)
Filosofia: Lúcio Lourenço Prado (FFC/Marília)
Geografia: Raul Borges Guimarães (FCT/Presidente Prudente)
Antônio Cezar Leal (FCT/Presidente Prudente) - sub-coordenador
Inglês: Mariangela Braga Norte (FFC/Marília)
Química: Olga Maria Mascarenhas de Faria Oliveira (IQ Araraquara)
Equipe Técnica - Sistema de Controle Acadêmico
Ari Araldo Xavier de Camargo
Valentim Aparecido Paris
Rosemar Rosa de Carvalho Brena
Secretaria/Administração
Márcio Antônio Teixeira de Carvalho

NEaD ­ Núcleo de Educação a Distância
(equipe Redefor)

Klaus Schlünzen Junior
Coordenador Geral

Tecnologia e Infraestrutura
Pierre Archag Iskenderian
Coordenador de Grupo

André Luís Rodrigues Ferreira
Guilherme de Andrade Lemeszenski
Marcos Roberto Greiner
Pedro Cássio Bissetti
Rodolfo Mac Kay Martinez Parente
Produção, veiculação e Gestão de material
Elisandra André Maranhe
João Castro Barbosa de Souza
Lia Tiemi Hiratomi
Lili Lungarezi de Oliveira
Marcos Leonel de Souza
Pamela Gouveia
Rafael Canoletti
Valter Rodrigues da Silva