ENCCEJA

HISTÓRIA
E GEOGRAFIA

ENSINO FUNDAMENTAL
LIVRO DO ESTUDANTE

EXAME NACIONAL PARA CERTIFICAÇÃO
DE COMPETÊNCIA DE JOVENS E ADULTOS

HISTÓRIA E GEOGRAFIA

EXAME NACIONAL PARA CERTIFICAÇÃO
DE COMPETÊNCIA DE JOVENS E ADULTOS

ENSINO FUNDAMENTAL
LIVRO DO ESTUDANTE

República Federativa do Brasil
Ministério da Educação
Secretaria Executiva
Instituto Nacional de Estudos
e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
Diretoria de Avaliação para Certificação de Competências

História e Geografia
Livro do Estudante
Ensino Fundamental

História e Geografia
Livro do Estudante
Ensino Fundamental

Brasília
MEC/INEP
2006

© O MEC/INEP cede os direitos de reprodução deste material às Secretarias de Educação, que poderão reproduzi-lo respeitando a integridade da obra.

Coordenação Geral do Projeto

Maria Inês Fini
Coordenação de Articulação de Textos do Ensino Fundamental

Maria Cecília Guedes Condeixa
Coordenação de Texto de Área
Ensino Fundamental
História e Geografia

Antonia Terra de Calazans Fernandes
Leitores Críticos
Área de Psicologia do Desenvolvimento

Márcia Zampieri Torres
Maria da Graça Bompastor Borges Dias
Leny Rodrigues Martins Teixeira
Lino de Macedo
Área de História e Geografia
Área de Ciências Humanas e suas Tecnologias

Paulo Celso Miceli
Raul Borges Guimarães
Nídia Nacib Pontuschka
Modesto Florenzano

Ciro Haydn de Barros
Clediston Rodrigo Freire
Daniel Verçosa Amorim
David de Lima Simões
Dorivan Ferreira Gomes
Érika Márcia Baptista Caramori
Fátima Deyse Sacramento Porcidonio
Gilberto Edinaldo Moura
Gislene Silva Lima
Helvécio Dourado Pacheco
Hugo Leonardo de Siqueira Cardoso
Jane Hudson Abranches
Kelly Cristina Naves Paixão
Lúcia Helena P. Medeiros
Maria Cândida Muniz Trigo
Maria Vilma Valente de Aguiar
Pedro Henrique de Moura Araújo
Sheyla Carvalho Lira
Suely Alves Wanderley
Taíse Pereira Liocádio
Teresa Maria Abath Pereira
Weldson dos Santos Batista
Capa

Marcos Hartwich
Diretoria de Avaliação para Certificação de Competências (DACC)
Equipe Técnica

Ataíde Alves ­ Diretor
Alessandra Regina Ferreira Abadio
Célia Maria Rey de Carvalho

Ilustrações

Raphael Caron Freitas
Coordenação Editorial

Zuleika de Felice Murrie

H673

História e Geografia : livro do estudante : ensino fundamental / Coordenação : Zuleika
de Felice Murrie. -- 2. ed. -- Brasília : MEC : INEP, 2006.
178p. ; 28cm.

1. História (Ensino fundamental). 2. Geografia (Ensino fundamental). I. Murrie,
Zuleika de Felice.
CDD 372.89

Sumário

Introdução .....................................................................................................................................
Capítulo I

Confrontos sociais e território nacional .........................................................
Dora Shellard Corrêa
Capítulo II

Mudanças no espaço geográfico do Brasil ......................................................
Gilberto Pamplona da Costa
Capítulo III

O valor da memória .........................................................................................
Denise Gonçalves de Freitas
Capítulo IV

Cidadania e democracia ...................................................................................
Antônio Aparecido Primo - Nico
Capítulo V

Movimentos políticos pelos direitos dos índios .............................................
Adriane Costa da Silva
Capítulo VI

A cidade e o campo no Brasil contemporâneo ...............................................
Roberto Giansanti
Capítulo VII

As sociedades e os ambientes ..........................................................................
Hugo Luiz de Menezes Montenegro
Capítulo VIII

A organização econômica das sociedades na atualidade ..............................
Sônia Maria Vanzella Castellar
Capítulo IX

Estado e democracia no Brasil ........................................................................
Jaime Tadeu Oliva

8
11
27
43
63
83
105
125
143
161

Introdução

Este material foi desenvolvido pelo Ministério da Educação com a finalidade de ajudá-lo a
preparar-se para a avaliação necessária à obtenção do certificado de conclusão do Ensino
Fundamental denominada ENCCEJA ­ Exame Nacional de Certificação de Competências de
Jovens e Adultos.
A avaliação proposta pelo Ministério da Educação para certificação do Ensino Fundamental é
composta de 4 provas:
1.
Língua Portuguesa, Língua Estrangeira, Educação Artística e Educação Física
2.
Matemática
3.
História e Geografia
4.
Ciências
Este exemplar contém as orientações necessárias para apoiar sua preparação para a prova de
História e Geografia.
A prova é composta de 45 questões objetivas de múltipla escolha, valendo 100 pontos.
Este exame é diferente dos exames tradicionais, pois buscará verificar se você é capaz de usar
os conhecimentos em situações reais da sua vida em sociedade.
As competências e habilidades fundamentais desta área de conhecimento estão contidas em:
I.
Compreender processos sociais utilizando conhecimentos históricos e
geográficos.
II.
Compreender o papel das sociedades no processo de produção do espaço, do
território, da paisagem e do lugar.
III.
Compreender a importância do patrimônio cultural e respeitar a diversidade
étnica.
IV.
Compreender e valorizar os fundamentos da cidadania e da democracia, de
forma a favorecer uma atuação consciente do indivíduo na sociedade.
V.
Compreender o processo histórico de ocupação do território e a formação da
sociedade brasileira.
VI.
Interpretar a formação e organização do espaço geográfico brasileiro,
considerando diferentes escalas.
VII.
Perceber-se integrante, dependente e agente transformador do ambiente.
VIII.
Compreender a organização política e econômica das sociedades
contemporâneas.
IX.
Compreender os processos de formação das instituições sociais e políticas a
partir de diferentes formas de regulamentação das sociedades e do espaço
geográfico.

8

Os textos que se seguem pretendem ajudá-lo a compreender melhor cada uma dessas nove
competências. Cada capítulo é composto por um texto básico que discute os conhecimentos
referentes à competência tema do capítulo. Esse texto básico está organizado em duas
colunas. Durante a leitura do texto básico, você encontrará dois tipos de boxes: um boxe
denominado de desenvolvendo competências e outro, de texto explicativo.
O boxe desenvolvendo competências apresenta atividades para que você possa ampliar seu
conhecimento. As respostas podem ser encontradas no fim do capítulo. O boxe de texto
explicativo indica possibilidades de leitura e reflexão sobre o tema do capítulo.
O texto básico está construído de forma que você possa refletir sobre várias situações-problema
de seu cotidiano, aplicando o conhecimento técnico-científico construído historicamente,
organizado e transmitido pelos livros e pela escola.
Você poderá, ainda, complementar seus estudos com outros materiais didáticos, freqüentando
cursos ou estudando sozinho. Para obter êxito na prova de História e Geografia do ENCCEJA,
esse material será fundamental em seus estudos.

9

Capítulo I
CONFRONTOS SOCIAIS E TERRITÓRIO NACIONAL

COMPREENDER

PROCESSOS SOCIAIS UTILIZANDO

CONHECIMENTOS HISTÓRICOS E GEOGRÁFICOS.

Dora Shellard Corrêa

História e Geografia

Ensino Fundamental

Capítulo I

Confrontos sociais e
território nacional
ÍNDIOS DIVULGAM DOCUMENTO
ELES DECLARAM QUE O BRASIL TEM "UMA HISTÓRIA INFAME" E EXIGEM
A DEMARCAÇÃO DAS TERRAS

Chefes indígenas reunidos em Santa Cruz de Cabrália, na Bahia, declararam que os 500
anos festejados no sábado são, na verdade, "uma história infame" e anunciaram a união
de seu movimento ao dos negros e dos sem-terra, em uma "luta de resistência". Mais de
três mil chefes indígenas, representando 140 tribos, se reuniram numa chamada
"anticelebração" da descoberta do Brasil. Eles redigiram uma declaração de 20 pontos, na
qual sintetizam suas exigências "ao Estado brasileiro". (...) A declaração é extensa e reúne
muitas exigências antigas já apresentadas pelos indígenas. A primeira delas diz respeito
às terras, que eles querem que sejam demarcadas até o final deste ano. Essas terras foram
asseguradas aos índios na Constituição de 1988 e representam, no total, um oitavo da
extensão territorial do Brasil.
Associated Press. Índios divulgam documento. 22 de abril de 2000.
Diponível em: . Acesso em: 22 de jul. 2002.

APRESENTAÇÃO
Durante o ano de 2000, inúmeras foram as
comemorações dos 500 anos do "descobrimento"
do Brasil e muitas as críticas ao que essa data
significou. Os índios sempre questionaram esses
cinco séculos. A sociedade brasileira, constituída
sobre a destruição dos povos indígenas, não tinha
o que comemorar.
A notícia da Associated Press foi uma das muitas
publicadas. Ela diz que a data 1500 se resume à
descoberta de terras que Cabral encontrou
ocupadas milenarmente por vários povos de
culturas diversas. Assim, 1500 marca o início de
uma invasão. Essa é a história. O Brasil foi
construído sobre sociedades e terras indígenas.
Tal realidade, bem como a existência há milhares
de anos das populações indígenas da América,
deveriam ser discutidas nas escolas. Outra

12

reivindicação central da declaração dos
3.000 chefes foi a demarcação de todas as terras
dos índios e a retirada dos invasores das áreas já
demarcadas.
Apesar de hoje serem reconhecidos os direitos dos
índios à terra, bem como a importância da
preservação de suas diversas culturas para o
próprio desenvolvimento do Brasil, ainda são
noticiados casos de extermínios de populações e
de contínuas invasões das terras. Isso é porque,
como a notícia demonstra, os povos indígenas
continuam resistindo e mostrando que discutir o
território brasileiro é falar em terra de índio. Este
é o tema deste capítulo: Confrontos sociais e
território nacional.

demarcadas
áreas com seus limites já fixados à espera do
decreto presidencial de homologação, ou seja, de
reconhecimento.

Capítulo I ­ Confrontos sociais e território nacional
AS POPULAÇÕES INDÍGENAS HOJE
Em 1999, havia no Brasil 378.000
índios concentrados, em grande parte,
na região amazônica, falando cerca de
180 línguas diferentes. Acredita-se
que, em 1500, existiam por volta de
6.000.000 a 10.000.000 índios em
área hoje brasileira, divididos em mais
de 200 tribos.

DIREITOS DOS ÍNDIOS
Desde que você nasceu, o Brasil mantém as
mesmas fronteiras políticas. Aliás, uma das
últimas grandes alterações de nosso mapa foi em
1903. Naquele ano, o Acre, que estava
incorporado à Bolívia, foi anexado ao Brasil.
Na América Latina, ao longo do século XX
(vinte), podemos observar poucas
transformações de fronteiras, se compararmos
com outros continentes. As tensões sociais que
a América enfrenta hoje têm suas raízes no
processo de colonização empreendido por
espanhóis e portugueses. Os povos ocupantes
originais da América, a partir de 1492,
denominados de índios pelos primeiros
europeus, submetidos, escravizados, mortos,
impedidos de professarem suas religiões, de
manterem seus costumes e obrigados a se
portarem e se vestirem como os europeus,
começaram a perder suas terras. Mesmo assim,
apesar de mais de 500 anos de domínio, da
diminuição drástica da população e da
dizimação de muitos deles, esses povos
continuam lutando pela preservação de suas
culturas, de seus direitos e suas terras.
No caso do Brasil, somente a partir da
Constituição promulgada em 1988, foi
reconhecido, oficialmente, o direito dos índios a

preservar sua organização social, costumes,
línguas, tradições e crenças, cabendo ao governo
apoiar, incentivar e respeitar suas manifestações
culturais e impedir a sua destruição. Até a
década de 1970, o Estado brasileiro desenvolvia
uma política que objetivava assimilar o índio, ou
seja, integrá-lo, fazê-lo adotar os costumes e a
cultura da sociedade nacional, o seu modo de
vida. Essa postura desprezava as culturas
indígenas e a sua importância para o próprio
desenvolvimento do país.
A Constituição de 1988 confirma também o
direito dos índios às terras tradicionalmente por
eles ocupadas, por serem essenciais para sua
sobrevivência física, por meio da produção
agrícola e animal, da caça, da pesca e da coleta,
bem como necessárias para a sua subsistência
cultural. Para os índios, tudo na vida está
interligado, da obtenção de alimentos ao
conhecimento da flora e fauna, do
aprimoramento de técnicas às teorias sobre a
origem do mundo. Tudo se relaciona às terras
em que vivem. Tal concepção é completamente
diferente daquela das sociedades capitalistas,
que encaram a terra como uma mercadoria,
podendo ser vendida ou arrendada a
qualquer momento.

13

História e Geografia

Ensino Fundamental

Desenvolvendo competências

1

Leia o mito dos Kaingang sobre a sua origem, coletado e relatado, em 1912, por Kurt
Niemandajú, um estudioso das culturas indígenas.
A origem dos Kaingang
A tradição dos Kaingang afirma que os primeiros da sua nação saíram do solo; por isso têm cor de
terra. Numa serra, não sei bem onde, no sudeste do estado do Paraná, dizem eles que ainda hoje
podem ser vistos os buracos pelos quais subiram. Uma parte deles permaneceu subterrânea; essa
parte se conserva até hoje lá e a ela se vão reunir as almas dos que morrem, aqui em cima. Eles
saíram em dois grupos chefiados por dois irmãos, Kanyerú e Kamé, sendo que aquele saiu primeiro.
Cada um já trouxe consigo um grupo de gente. Dizem que Kanyerú e toda a sua gente eram de corpo
delgado, pés pequenos, ligeiros, tanto nos seus movimentos como nas suas resoluções, cheios de
iniciativa, mas de pouca persistência. Kamé e seus companheiros, pelo contrário, eram de corpo
grosso, pés grandes e vagarosos nos seus movimentos e resoluções.
Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n. 21, p. 86, 1986.

Como os Kaingang concebem a sua origem e a importância que suas terras tradicionais têm
em termos culturais?
Observe que a saída dos homens por buracos do solo aconteceu num tempo indeterminado
ainda não encerrado. Parte dos Kaingang ainda se conserva subterrânea, e a ela se unem as
almas dos que morrem aqui, sobre a terra. Ou seja, essas terras são fundamentais para eles,
de onde vieram, de onde ainda podem vir outros grupos de Kaingang, e para onde retornam
as suas almas. Note que, embora a localização dos buracos pelos quais os grupos chefiados
por Kanyerú e por Kamé subiram à superfície não seja precisa, está claro que o local
existe concretamente, no sudeste do estado do Paraná. Portanto, essas terras têm que
ser preservadas.
A Constituição de 1988 estipulou cinco anos para que todas as terras indígenas fossem
demarcadas. Entretanto, até 2000, de um total de 592 áreas, a maior parte na região Norte nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins e no CentroOeste ­ no estado do Mato Grosso ­ apenas 310 áreas (52%) estavam regularizadas, ou seja,
reconhecidas por ato oficial do presidente da República e registradas em cartório público.
Essa demora na demarcação e regularização fundiária tem favorecido a contínua invasão das
terras indígenas, o que resulta em conflitos com muitas vítimas entre os índios. Por isso, são
recorrentes os protestos dos grupos indígenas, reivindicando a demarcação imediata de
suas terras.

14

mito
relato simbólico, passado de geração a geração
dentro de um grupo. Explica a origem de algum
fenômeno.

Capítulo I ­ Confrontos sociais e território nacional

Desenvolvendo competências

2

Protesto
Em Aquidauana (190km de Campo Grande), na aldeia Ipegue, cerca de 5 mil índios, entre
guaranis, caiuás, kadiweus, terenas, guatós e ofaié-xavantes, fizeram um protesto reivindicando
a demarcação de terras. Em Dourados (220km de Campo Grande), aproximadamente 300 índios
das etnias guarani, caiuá e terena bloquearam das 7h às 13h a MS-156, rodovia que dá acesso
ao município de Itaporã.
AGÊNCIA ESTADO. Protesto. Disponível em . Acesso em: 22 jul. 2002.

Responda em seu caderno:
Qual a reivindicação que os índios estão fazendo na notícia de jornal acima?
A notícia acima nos informa sobre um protesto feito por cinco mil índios de diferentes tribos
(Guarani, Caiuá, Kadiweu, Terena, Guató e Ofaié-Xavante), reivindicando a demarcação de
terras. Lembre-se de que a notícia na abertura deste capítulo transcreve parte de uma
declaração redigida por três mil chefes, representantes de 140 tribos indígenas. Esses atos
mostram a organização e luta dos povos indígenas pelo reconhecimento da importância de
suas culturas e pelo direito de preservar suas terras. Um fato essencial dessa luta é que, ao
contrário do que se projetava nas décadas de 1960 e 1970, quando se supunha que a
destruição total das populações indígenas era apenas uma questão de tempo, o número de
índios cresceu vigorosamente nos últimos dez anos, conforme levantamento do Conselho
Indigenista Missionário ­ CIMI. Enfim, falar sobre o processo de formação do território
brasileiro implica refletir sobre a questão indígena e reconhecer que esse processo ainda está
sendo definido.

OS ÍNDIOS NA POPULAÇÃO
BRASILEIRA
O Brasil tem 8.511.996 quilômetros quadrados e
concentra uma população de variadas
descendências: americana, africana, européia e
asiática. Tem como língua oficial o português.
Porém, para alguns brasileiros, o português não é
a primeira língua, ou seja, eles falam diariamente
outros idiomas em suas casas, porque são
imigrantes que se naturalizaram ou descendentes
de imigrantes. Alguns conversam em espanhol,
italiano, japonês ou armênio com seus filhos,
pais, avós, marido ou esposa. Preservam
costumes, comidas tradicionais e roupas de sua
terra natal. Outros falam línguas indígenas, como
tukano, yanomámi, tikuna, guarani. Mantêm seus
costumes tradicionais, suas danças, seu modo de
vida e de educação das crianças.
Quando os portugueses chegaram à América, em
1500, aprenderam com os índios a localizar os

caminhos para o interior, a se orientar e se
alimentar nas matas, a encontrar colméias e
colher o mel, a distinguir as plantas comestíveis.
Ocuparam as clareiras já abertas pelos índios para
construírem suas vilas, aprenderam a utilizar
venenos para pesca, assim como arcos e flechas
na falta de pólvora. Os Munduruku, Tupari,
Bororo, Zo'e, Waninawa e mais uma centena de
povos, de culturas variadas eram os únicos
senhores dessas terras até 1500.
O contraditório em nossa história é que, hoje, os
índios, primeiros habitantes dessas terras,
parecem estrangeiros em seu próprio país. Poucos
brasileiros sabem falar as línguas indígenas e
muitos exigem que os índios entendam
português. Ademais, embora se afirme que o
brasileiro é, basicamente, o resultado da
miscigenação cultural e racial de ameríndios,

Conselho Indigenista Missionário ­ CIMI
é uma das várias entidades brasileiras, não
ligadas ao governo federal, que apóiam os povos
indígenas.

15

História e Geografia
africanos e europeus, nossas escolas pouco ou
nada discutem com seus alunos sobre os
costumes, as crenças e o modo de vida das várias
etnias que habitam e habitavam o território
nacional.
Mas como eram essas terras quando o
portugueses chegaram?

A CHEGADA DOS PORTUGUESES
Sabemos muito pouco sobre como eram as terras
indígenas antes de 1500. Analisemos um dos
primeiros documentos escritos descrevendo essas
terras. Voltemos a 1500. Nesse ano, Pedro Álvares
Cabral, com sua esquadra, chegou à costa das
terras que viriam a constituir o Brasil. Entre
outros, acompanhava-o o escrivão Pero Vaz de
Caminha. Ele descreveu numa carta, encaminhada
ao rei de Portugal, D. Manoel, o primeiro
encontro dos portugueses com as terras
americanas:
Neste dia, ao final do dia, tivemos a visão de
terra, seja, primeiramente de um grande monte,
mui alto e redondo, e de outras serras mais baixas
ao sul dele; e de terra plana, com grandes
arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o
nome ­ o Monte Pascoal, e à terra ­ a Terra da
Vera Cruz.
CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a El Rey Dom Manoel. Transcrita e comentada
por Maria Angela Villela. 2. ed. São Paulo: Ediouro, 2000. p.15.

TERRA DA VERA CRUZ
A princípio essas terras foram
chamadas pelos portugueses Terra da
Vera Cruz, depois Terra de Santa Cruz.
Por volta de 1503, começaram a
denominá-las Brasil.

Qual foi a primeira coisa que se distinguia na
paisagem e que chamou a atenção de Pero Vaz de
Caminha? Repare que foi um monte, ao qual viria
a ser dado o nome de Monte Pascoal, e seus
arredores. E que mais ele avistou? Vejamos.
Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que
mais contra sul vimos até outra ponta que
contra o norte, de que nós deste porto tivemos
visão, será tamanha que haverá nela bem vinte

16

Ensino Fundamental
ou vinte cinco léguas por costa. Traz, ao longo
do mar, nalgumas partes, grandes barreiras,
algumas vermelhas, outras brancas; e a terra
por cima toda plana e muito cheia de grandes
arvoredos. (idem, p. 93)
Ele observou uma parte do litoral sul do estado
da Bahia de hoje. Divisou também o que sua
visão alcançava no interior, ou seja, o sertão,
como eles chamavam.
Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito
grande, porque, a estender os olhos, não podíamos
ver senão terra com arvoredos, que nos parecia
mui longa terra. (idem, p. 93)

A princípio, Pero Vaz de Caminha parecia estar
muito impressionado com a extensão das matas.
Elas iam até onde sua vista podia alcançar. Não é
de estranhar esse fato, pois ele vinha de Portugal,
que, no século XV, já havia abatido, em grande
parte, suas áreas de matas. A madeira era um
recurso natural fundamental para a
sobrevivência, como ainda é. As caravelas eram
construídas de madeira, a comida era preparada
em fogão a lenha, o fogo aquecia as moradias.
Embora essa imagem que Caminha constrói sobre
as matas nos leve a imaginar uma terra
desabitada, ele logo desfaz essa sensação ao
afirmar ter avistado homens na praia:
E quando fizemos vela, estariam já na praia
assentados, junto ao rio, cerca de sessenta ou
setenta homens que se juntaram ali aos poucos .
(idem, p. 21)

Ele descreve os homens que os portugueses
encontraram:
A feição deles é serem pardos, quase
avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem
feitos. Andavam nus, sem nenhuma cobertura.
Nem estimam nenhuma coisa cobrir nem mostrar
suas vergonhas; e estão em relação a isto com
tanta inocência como têm em mostrar o rosto .
(idem, p. 25)

Pero Vaz de Caminha observa justamente aqueles
aspectos que os índios tinham de diferente dos
portugueses: a cor, a nudez e sua aparência
saudável. Cabe apontar que os marinheiros da
esquadra de Cabral, como era comum naquelas
longas viagens marítimas, quando chegaram à
costa, estavam fisicamente debilitados, por

Capítulo I ­ Confrontos sociais e território nacional
ficarem muito tempo em alto mar alimentando-se
inadequadamente e tomando água insalubre.
Muitos contraíram escorbuto, uma doença que
decorre da falta de vitaminas e que pode
levar à morte.
Em sua carta, Pero Vaz de Caminha anota que os
degredados enviados à terra pelo Capitão para
observarem o que havia mais ao interior, ao se
juntarem novamente aos membros da esquadra,
descreveram a povoação indígena que haviam
visitado:
(...) foram bem uma légua e meia a uma
povoação, em que haveria nove ou dez casas, as
quais diziam que eram tão compridas (...) Eram
de madeira (...) e cobertas de palha, de razoável
altura . (idem, 65)

Como será que as populações que viviam aqui
denominavam essas terras antes de os
portugueses chegarem? Isso não ficamos sabendo
pela carta de Pero Vaz de Caminha, porque ele
não nos diz. Ele não conhecia a língua falada
pela população que encontrou, mas também não
estava interessado em obter essa informação.
Afinal, Pedro Álvares Cabral e sua frota estavam
a serviço do rei de Portugal. Descobriram as
terras para que D. Manoel tomasse posse delas.
Tanto que uma das primeiras iniciativas deles ao
desembarcarem foi dar o nome Terra da Vera Cruz
às terras que começavam a conquistar. Em
realidade, a princípio, acreditavam que haviam
descoberto uma ilha. Note como Pero Vaz de
Caminha encerra a sua carta:
Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz,
hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.
(idem, p. 95)

Repare que Pero Vaz escreve "vossa ilha da Vera
Cruz", afirmando que as terras pertenciam ao rei
de Portugal, D. Manoel.
Os relatos de Caminha e de poucos outros
viajantes, que aqui estiveram junto com Cabral
ou logo nos primeiros anos seguintes, são os
poucos documentos escritos que existem
descrevendo as terras indígenas, antes de
efetivamente ter sido iniciada a conquista
territorial e de sua conseqüente transformação
paisagística, populacional, cultural e social.
Note-se que, nos relatos feitos ao rei de Portugal,
foi dada especial atenção aos detalhes mais

insalubre
não saudável.

importantes para a conquista, os habitantes e os
recursos naturais, em detrimento de outros
aspectos. Afora isso, como as culturas indígenas
são muito diferentes das européias, os primeiros
narradores não entendiam o significado de
muitos costumes indígenas, não compreendiam as
suas formas de organização social, econômica e
política; conseqüentemente, interpretavam-nos de
modo totalmente errado. Por exemplo,
tradicionalmente, os índios não estabeleciam
limites precisos para suas terras, pelo menos
como fazemos hoje em dia, conforme se
depreende da descrição seguinte, retratando a
relação de muitos grupos indígenas com a terra:

Abriam suas roças, seus caminhos de
caça e as trilhas para visitar outras
aldeias. Quando o solo ou a caça se
esgotavam, abriam caminho em outras
direções mas conservavam de alguma
forma os lugares das antigas moradas e
os cemitérios em que enterravam seus
mortos, percursos historicamente
rememorados e que assinalavam a área
de ocupação de cada grupo. (...)
fronteiras naturais, como serras, rios
etc., demarcavam os territórios, que
também iam sendo conquistados com
povos vizinhos.
VALADÃO, Virgínia. Terra e território. In: _____. Índios do Brasil.
Brasília: MEC: Secretaria de Educação a Distância, 1999. p. 83.
(Cadernos da TV Escola, 2).

Os primeiros europeus não reconheciam os
caminhos indígenas, que podiam ser demarcados
de forma muito sutil, ou seja, por um galho
quebrado. Eram veredas a serem trilhadas em fila.
Muito diferente de um caminho aberto para
trânsito de cavalos, carroças e mercadorias, como
acontecia na Europa. Esses lugares de antigas
moradas conservadas por índios, a que o texto
acima se refere, eram interpretados pelos
europeus como aldeias abandonadas porque,
quando as encontravam, elas estavam vazias.

o degredado
era uma pessoa exilada de seu país, afastada, como
punição por um ato considerado crime. O governo
português desembarcava os degradados à força, na
costa, para aprenderem a língua e servirem depois
como intérpretes e, principalmente, observarem as
terras ao redor, seus habitantes e sua localização,
para fornecerem informações àqueles que os seguiam.

17

História e Geografia

Ensino Fundamental

Quanto aos cemitérios, os índios tinham crenças
variadas e diferentes formas de encararem a
morte, de tratarem e reverenciarem seus mortos,
até porque não eram cristãos como os
portugueses, que dificilmente distinguiam um
cemitério indígena na paisagem.

Com a dizimação de dezenas de tribos entre os
séculos XVI e XX, perdeu-se a memória de
muitos desses povos, importante para a pesquisa
sobre como eram estas terras e os povos que aqui
viviam antes da chegada dos portugueses.

Por tudo isso, pelo fato de não entenderem e
aceitarem a diversidade cultural entre os povos,
os europeus acreditavam que os índios eram
selvagens e ainda estavam num estágio inicial de
desenvolvimento social e cultural. Essa concepção
interferia no modo de olhar e descrever as
sociedades indígenas.

A FIXAÇÃO DAS FRONTEIRAS
BRASILEIRAS

Os documentos escritos sobre as terras que
formariam o Brasil e seus habitantes de antes da
colonização ainda existentes são poucos, parciais
e apresentam um quadro incompleto que pode
levar a conclusões incorretas.

Por volta de 1503, as terras recém-conquistadas
pelos portugueses na América passaram a ser
denominadas Brasil. Essas terras foram
incorporadas aos domínios de Portugal como sua
Colônia, ficando, portanto, sob sua posse e sua
administração. A natureza foi explorada e
transformada, e as terras repovoadas, conforme
os interesses portugueses.

Desenvolvendo competências

3

Observe, ao lado, o mapa da Colônia
portuguesa desenhado no início da
colonização.
O mapa da primeira metade do século XVI
retrata a Colônia portuguesa (o Brasil).
Descreva, em seu caderno, as informações
que o mapa transmite sobre o Brasil.
Como a carta de Pero Vaz de Caminha, este
mapa é um documento histórico. Isso
significa que, por meio dele, é possível
obtermos algumas informações sobre
aquela época. Vamos fazer este exercício
juntos. Repare que, no litoral, estão
assinalados rios e outros acidentes
geográficos. No interior do território,
contudo, o mapa nos oferece
representações de outra natureza: podemos
observar desenhos retratando índios,
macacos, felinos, répteis, aves, árvores.
Diversamente da carta de Caminha, não
vemos sinal de povoações. Os índios
parecem habitar essas terras como os
animais, sem transformar a natureza, sem

18

HOMEM, Lopo. Terra Brasilis: 1515-1519. In: Mapa do Atlas Miller. Localizado
na Biblioteca Nacional de Paris.

Colônia
território ocupado e administrado por um Estado
localizado fora de suas fronteiras geográficas.

Capítulo I ­ Confrontos sociais e território nacional
construírem moradias ou caminhos. Alguns
índios estão totalmente pelados, próximos
à costa, carregam pedaços de madeira,
possivelmente pau-brasil, ou trabalham
com um machado. A cena nos lembra que,
num primeiro momento, os europeus
comercializaram madeiras com as tribos
indígenas do litoral. Outros índios vestem
cocares, capas e tangas de penas, e
seguram arcos e flechas, suas armas.

Desde o primeiro século da colonização, o mapa
oficial do Brasil colônia (de 1500 a 1822) variou
a partir de tratados estabelecidos entre Portugal e
Espanha, como se aquelas terras não fossem
ocupadas por povos indígenas. Boa parte da
América do Sul ficou como domínio espanhol por
conta do Tratado de Tordesilhas, que estabeleceu
a primeira fronteira do Brasil.

Parecem estar preparando-se para a luta.
Era assim que os portugueses viam o
Brasil no início da colonização. Conheciam
a costa e dominavam parte dela, e
imaginavam à sua maneira o que havia no
interior. Os índios eram divididos em duas
categorias: os mansos, que colaboravam e
trabalhavam para os portugueses, e os
bravos, que enfrentavam os invasores.

TRATADO DE TORDESILHAS E O
POVOAMENTO DO BRASIL

As terras pertencentes a Portugal, situadas na
região do Brasil, foram divididas em quinze
porções, demarcadas por linhas paralelas ao
Equador, que se estendiam da costa até uma linha
imaginária que passava pela foz do Amazonas e
terminava no litoral do atual estado de Santa
Catarina. Cada porção foi denominada capitania,
e entregue a um capitão donatário. Este ficou
incumbido de povoá-la com colonos vindos de
Portugal. Tudo que estava além daquela faixa, a
oeste, pertencia à Espanha. Observe o mapa
apresentado ao lado:
Povoamento sob
domínio português no
século XVI
Adaptado de AZEVEDO, Aroldo de. Terra brasileira. 38. ed. São Paulo: Ed.
Nacional, 1964.

Tratado de Tordesilhas
por esse tratado, firmado em 1494, o mundo foi dividido em dois hemisférios, cabendo uma parte a Portugal e outra à
Espanha. No Brasil, essa linha imaginária passava pela foz do Amazonas até o litoral de Santa Catarina, em Laguna. A leste
da linha, as terras eram de possessão de Portugal e a oeste, da Espanha.

19

História e Geografia
Apesar do Tratado de Tordesilhas, esse mapa não
expressava a realidade. Embora houvesse uma
linha no mapa, separando as possessões
portuguesas das espanholas, ela não assinalava o
que efetivamente cada uma das potências
européias dominava e o que já povoava.
Significava somente o que os Estados Ibéricos ­
Portugal e Espanha - consideravam como
colônias suas, independentemente de quem as
ocupava. Observe novamente o mapa e você verá
que, ao longo da costa brasileira, há uma mancha
mais escura, que mostra a área de efetivo
povoamento. Para além dessa mancha, o território
era dominado por grupos indígenas, ou nações,
como diziam os portugueses.

Ensino Fundamental

AS FRONTEIRAS, O POVOAMENTO E
OS CONFRONTOS COM OS ÍNDIOS
Nos trezentos anos iniciais da colonização,
embora Espanha e Portugal houvessem
estabelecido fronteiras políticas e as demarcado
nos mapas, não conseguiram conquistar
efetivamente todas as terras dos índios, nem
povoar boa parte do continente sul-americano. A
expansão da área ocupada por fazendas de
criação, lavouras e cidades caminhou
vagarosamente e ficou bem aquém das fronteiras
políticas dos domínios espanhóis e portugueses.
Os grupos indígenas resistiram à invasão de suas
terras, impedindo a efetivação do domínio
português e espanhol.

Desenvolvendo competências

4

Compare o mapa ao lado com um mapa
do Brasil atual e anote em seu caderno
os estados que estavam ocupados por
colonos portugueses e os que estavam
povoados por índios no século XVIII.

POVOAMENTO DO BRASIL NO SÉCULO XVIII

Povoamento sob domínio
português no século XVIII

Terra povoada por índios

Fronteiras atuais
Adaptado de AZEVEDO, Aroldo de. Terra brasileira. 38. ed. São Paulo: Ed.
Nacional, 1964.

20

possessão
território sob dominação colonial de um Estado.

Capítulo I ­ Confrontos sociais e território nacional
Em 1822, na época da Independência, o Brasil já
tinha quase a mesma conformação do território
brasileiro atual, conseguida através de acordos
diplomáticos entre Portugal e Espanha.
Entretanto, tais acordos desconsideravam os
grupos indígenas que habitavam e dominavam as
terras brasileiras. Portugal e Espanha
consideravam como suas possessões terras que,
em realidade, seus colonos não haviam povoado
integralmente. O processo de avanço da área
colonizada foi árduo.
A resistência indígena à invasão e à escravização
se estendeu penosamente do início da colonização
portuguesa ao século XX. Podemos enumerar

centenas de confrontos. Como exemplo,
apontamos a luta dos Kaingang, de Guarapuava,
no Paraná, nos séculos XVIII e XIX; dos
Tupinikim, em Ilhéus, no litoral sul da Bahia e no
Espírito Santo, e dos Potiguara, na Paraíba, no
século XVI; dos Tamoio, no Rio de Janeiro, e dos
Guaiacuru, no Pantanal, no século XVIII; dos
Xavante, em Goiás, e dos Kadiwéu, no Mato
Grosso do Sul, no século XIX; e dos Maxakali, em
Minas Gerais, no século XX. Muitas tribos levaram
os colonos a sérios reveses, dificultando o seu
avanço por mais de uma década. Foram várias
guerras. O resultado foi desastroso: ao redor de
1.477 povos indígenas vítimas de extinção.

Desenvolvendo competências

5

Vamos analisar um outro documento histórico. Veja, a seguir, o relato de soldados que
buscavam tomar terras dos Kaingang, na bacia do Tibagi, no Paraná, no final do século XVIII.
É parte de um diário, escrito entre 1768 e 1774, sobre uma expedição enviada por
representantes das autoridades portuguesas, para conhecimento daquelas terras e dos índios
que as habitavam.
As contínuas saídas do gentio, que ocupa os grandes Sertões do Tibagi há 9 anos a esta parte, tendo
morto bastantes pessoas, e achando-se já muito próximo da estrada, que vem da cidade de S. Paulo
para estes Campos Gerais, e Rio Grande; as muitas fazendas, que se tem despovoado (...) no meio
destes sertões povoados de várias nações do gentio, movem ao ilustríssimo e excelentíssimo senhor
general a mandar invadir o dito sertão.
Notícia da conquista e descobrimento dos sertões do Tibagi, na capitania de S. Paulo, no Governo do General D. Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão, conforme ordens
de sua Majestade. 1768 ­ 1774. ANAIS DA BIBLIOTECA NACIONAL, Rio de Janeiro, v. 76, p. 77, 1956.

No mesmo documento, o próprio comandante afirma que os índios que habitavam a bacia do
rio Tibagi, chamado de sertão do Tibagi, os Kaingang, ocupavam aquelas terras. Apesar disso,
e diferentemente da concepção dos indígenas, os portugueses consideravam aquelas terras
como parte do domínio do rei de Portugal. Uma vez que esses índios que as habitavam
atacavam as fazendas em que tentavam se estabelecer, ali o general ordenou a invasão, o que
significava destruição dos índios e de suas aldeias.
Leia, na próxima página, a passagem seguinte do diário, em que fica claro o reconhecimento
de que os índios dominavam aquelas terras (eram os "senhores da casa"), assim como as
conheciam muito bem, tanto que sabiam suas "entradas e saídas", ou seja, conseguiam se
localizar e se orientar em seus caminhos.

gentio
índio.

21

História e Geografia

Ensino Fundamental

Tanto que o dito capitão nos informou do caso que determinou Sua Senhoria ir sobre eles (índios)
com uma partida de cavalo (...) porém foi uma esquadra marchado com a presteza possível ao
alcance deles, não chegaram a ver senão rasto (...) pois eles como senhores da casa sabem das
entradas e saídas.
Notícia da conquista e descobrimento dos sertões do Tibagi, na capitania de S. Paulo, no Governo do General D. Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão, conforme
ordens de sua Majestade. 1768 - 1774. ANAIS DA BIBLIOTECA NACIONAL, Rio de Janeiro, v. 76, p. 232, 1956.

AS TERRAS INDÍGENAS
Ainda que, desde a Independência (1822), o mapa
político do Brasil tenha sofrido poucas alterações,
os índios não abandonaram as terras e eram os
únicos habitantes de extensa porção do território
nacional. As lutas pelas terras indígenas não
acabaram no século XIX e nem no XX. Lembre-se
de que, durante as comemorações dos 500 anos
do descobrimento, os povos indígenas
reivindicavam a demarcação de suas terras.
Examine o depoimento feito em 1994 por Jorge
Lemes Ferreira Ibã Kaxinawá, sobre os ataques
a índios no Acre, visando à apropriação de
suas terras.
(...) quando meu pai começou a trabalhar, ele me
contava a história de que ele vivia muito
preocupado devido às correrias. Tanto caucheiro
peruano como patrão cariú maltratavam muito os
índios: matavam, invadiam, tratavam índio que
nem bicho da mata. Peruano atacava, matava
gente e tocava fogo no kupixawa. Jogavam
meninos pequenos para o alto e aparavam em
ponta de faca. Finada minha avó contava isso
para mim. Matavam os homens todos e
amarravam as mulheres para levar. Arrasavam os
kupixawas dos moradores, tocavam fogo. Meu avô
me contava. Os índios entravam dentro de buraco

22

do tatu canastra para poder escapar, salvar a
vida. Quando paravam de vir aqueles caucheiros,
via quantidade de índios tudo morto, de bala,
furado de faca.
IBÃ KAXINAWÁ, Jorge Lemes Ferreira. Professores índios do Acre e do sul do
Amazonas: história indígena. Rio Branco: Comissão Pró-Índio, 1996. p. 35 e 37.
Entrevista em março de 1994.

Você deve ter observado que a história do Acre e
das invasões das terras indígenas nessa região
estavam relacionadas à extração da borracha.
Note como os índios Kaxinawá, habitantes das
florestas acreanas, foram tratados pelos
seringalistas, seringueiros e caucheiros.
As fronteiras brasileiras atuais envolvem terras de
povos indígenas, sendo que boa parte ainda não
está demarcada, como já afirmamos no início
deste capítulo. Existem, porém, grupos que estão
fora dessas áreas e evitam o contato com a
sociedade brasileira. O CIMI ­ Conselho
Indigenista Missionário ­ informa que existem,
neste início do novo milênio, mais de 40 povos
indígenas livres ou isolados (sem contato com a
sociedade brasileira) vivendo nos estados do
Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Mato Grosso,
Maranhão e Goiás.

correrias

cariú

época em que os índios da Amazônia
andavam de um lado para o outro
fugindo dos seringalistas e dos
caucheiros.

povo brasileiro.

caucheiro

kupixawa

que extrai o caucho (um látex do qual
se faz borracha).

grande maloca Kaxinawá.

Capítulo I ­ Confrontos sociais e território nacional

Desenvolvendo competências

6

Leia parte do relato sobre o contato, na década de 1970, com um povo livre, os Panará,
conhecidos então como Krenakarore, ou índios gigantes.
Ao serem descobertos pelos brancos, há pouco menos de 30 anos, os Panará recusaram o contato e
embrenharam-se na floresta. Durante muito tempo, permaneceram arredios, resistindo às tentativas
de aproximação. Em 1973, ao recolherem presentes com que os indigenistas queriam provar suas
intenções pacíficas, foram contagiados e dizimados por epidemias. Os sobreviventes aceitaram,
então, o contato. O que aconteceu depois parece ter confirmado a afirmação dos anciãos de que os
brancos, sim, é que são "selvagens". Quase reduzidos à mendicância, foram transferidos para o
parque do Xingu, onde nunca se adaptaram. Mesmo assim, a população jovem aumentou e a
lembrança da terra tradicional manteve-se viva. Por isso, há pouco mais de cinco anos, tomaram
uma decisão histórica: começaram a identificar os lugares de suas antigas aldeias e a voltar.
SCHWARTZMAN, Stephan. Panará: a saga dos índios gigantes. Ciência Hoje, São Paulo, v. 20, n. 119, p.27, abr. 1996.

Responda em seu caderno:
O que os Panará sabiam sobre os "brancos", antes de entrarem em contato com os
indigenistas? Quem havia transmitido a eles essas informações?

Esses índios Panará, segundo pesquisas, são
descendentes dos Kayapó do Sul, que, do século
XVII ao XIX, se distribuíam em terras do oeste
paulista, Triângulo Mineiro, Mato Grosso do Sul e
sul do Mato Grosso. Com a expansão das
fazendas em direção ao seu território, entre o
final do século XIX e início do XX, eles evitaram
o contato, migrando para a região das bacias dos
rios Peixoto e Iriri, entre Mato Grosso e Pará.
Consideravam os brancos maus e perigosos.
A sua história revela que esses grupos, que
ainda hoje fogem ao contato com a sociedade
brasileira, resistem à invasão de suas terras e,
quando não conseguem, se refugiam em áreas
de difícil acesso.

TERRAS DOS ÍNDIOS E TERRITÓRIO
NACIONAL
Apesar da destruição trazida pelo colonizador
português e da diminuição drástica de sua
população, os índios têm subsistido ao longo
desses 500 anos, têm imposto,
constitucionalmente, o respeito às suas culturas e
têm reivindicado suas terras. Esse é um processo
que é parte da história da formação do território

brasileiro, e que ainda está em andamento.
Ao longo do tempo, os confrontos entre povos e
culturas constituíram-se em processos sociais e
políticos que modelaram as fronteiras nacionais,
como nós as conhecemos hoje. A história do
Brasil exemplifica como as fronteiras foram
delimitadas por processos de ocupação e confisco
de terras, guerras e acordos diplomáticos. E,
apesar de estarem definidas com a consolidação
do Estado Nacional brasileiro, os conflitos
envolvendo o território continuam até hoje,
diante do direito das populações indígenas de
resguardarem para si suas terras tradicionais, e,
assim, garantirem sua própria continuidade física
e cultural.
Quando os índios brasileiros clamam hoje pela
demarcação de suas terras, indicam o caráter
conflituoso do processo de formação do território
nacional e a permanência de tensões, revelando a
instabilidade das situações presentes.

indigenista
estuda os índios.

23

História e Geografia

Ensino Fundamental

Desenvolvendo competências

7

Leia os textos abaixo e, em seguida, assinale a alternativa correta.
1- Depoimento de um índio da Aldeia de Limão Verde:
Nós vivemos entre o morro e aquela cerca. Não sabemos por que a cerca muda constantemente de
lugar, ela se aproxima cada vez mais do morro. Um dia a gente planta um mandiocal e ele está do
nosso lado. O mandiocal cresce, e, quando a gente sai e vai colher a mandioca, verifica que a cerca
mudou e o nosso mandiocal passou para o outro lado. Nós perdemos a mandioca ou somos
considerados ladrões se passarmos a cerca para apanhá-la. A cerca anda e um dia ela vai
encontrar o morro. Neste dia nós teremos desaparecido.
ZENUN, Katsue Hamada; ADISSI, Valeria Maria Alves. Ser índio hoje. São Paulo: Loyola, 1998. p. 28. (História Temática Retrospectiva).

Qual dos artigos da Constituição de 1988, abaixo relacionados, possibilita que os índios da Aldeia
de Limão Verde entrem na justiça contra seus vizinhos para impedir o movimento da cerca?
a) Art. 176: "As jazidas, em lavras ou não, e demais recursos minerais e os potenciais de
energia hidráulica constituem propriedade distinta do solo, para efeito de exploração ou
aproveitamento, e pertencem à União, garantida ao concessionário a propriedade do
produto da lavra".
b) Art. 210, parágrafo 2º: "O ensino fundamental regular será ministrado em língua
portuguesa, assegurada às comunidades indígenas também a utilização de suas línguas
maternas e processos próprios de aprendizagem".
c) Art. 215: "O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às
fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das
manifestações culturais".
Parágrafo 1º: "O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e
afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional".
d) Art. 231, parágrafo 2º: "As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a
sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e
dos lagos nelas existentes".
Parágrafo 4º: "As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os
direitos sobre elas, imprescritíveis".
2- Artigo 231: "São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas,
crenças e tradições, e os direitos originários sobre terras que tradicionalmente ocupam,
competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens".
parágrafo 1º: "São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em
caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à
preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua
reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições."
A partir do artigo 231 e de seu parágrafo 1º, podemos afirmar que a Constituição de 1988:
a) despreza a importância que a terra tem para a preservação das populações indígenas.
b) reconhece a importância da preservação dos índios e de suas terras.
c) nega os direitos originários dos índios sobre suas terras.
d) cria mecanismos para a integração dos índios ao mundo do trabalho.

24

Capítulo I ­ Confrontos sociais e território nacional

Conferindo seu conhecimento

7

1 (d)
2(b)

25

História e Geografia

ORIENTAÇÃO

Ensino Fundamental

FINAL

Para saber se você compreendeu bem o que está apresentado neste capítulo, verifique se está apto a
demonstrar que é capaz de:
· Identificar diferentes formas de representação de fatos e fenômenos histórico-geográficos expressos
em diferentes linguagens.
· Reconhecer transformações temporais e espaciais na realidade.
· Interpretar realidades históricas e geográficas estabelecendo relações entre diferentes fatos e processos
sociais.
· Comparar diferentes explicações para fatos e processos históricos e/ou geográficos.
· Considerar o respeito aos valores humanos e à diversidade sociocultural, nas análises de fatos e
processos históricos e geográficos.

26

Capítulo II
MUDANÇAS NO ESPAÇO GEOGRÁFICO DO BRASIL

COMPREENDER

O PAPEL DAS SOCIEDADES NO PROCESSO

DE PRODUÇÃO DO ESPAÇO, DO TERRITÓRIO,
DA PAISAGEM E DO LUGAR.

Gilberto Pamplona da Costa

História e Geografia

Ensino Fundamental

Capítulo II

Mudanças no espaço
geográfico do Brasil
Observe a tabela abaixo:

Agora leia a reportagem.

TRANSPORTE DE CARGAS NOS ANOS 1990
rodoviário ferroviário hidroviário
Brasil

70%

18%

12%

EUA

25%

50%

25%

Alemanha

18%

53%

29%

Japão

20%

38%

42%

França

28%

55%

17%

ex-URSS

4%

83%

13%

Paraguai

47%

4%

49%

CESP 1995 apud OLIVA, Jaime; Roberto Giansanti. Espaço e modernidade:
temas da geografia mundial. São Paulo: Atual,1999.

Sobre o que a tabela nos informa? O que diz o
título da tabela? Os dados referem-se a quais
países? E a qual época?
Você já deve ter percebido que a tabela trata
dos tipos de transporte utilizados para levar e
trazer mercadorias no Brasil e em outros
locais do mundo, na década de 1990. E deve ter
reparado que setenta por cento (70%), ou seja, a
maior parte do transporte de carga no nosso país
é realizado por rodovias, com caminhões que
cruzam as estradas de norte a sul e de leste
a oeste. Isso significa que o Espaço Geográfico
brasileiro tem sido marcado e integrado
por rodovias.

CAMINHONEIROS
ANUNCIAM NOVA GREVE
Os caminhoneiros marcaram greve para
segunda-feira em todo país. A partir de
hoje, os motoristas que deveriam receber
carga para viagens mais longas têm
orientação para recusar o trabalho. E de
acordo com estimativas do Movimento
União Brasil Caminhoneiro (MUBC),
cerca de um milhão deles cruzarão os
braços. A determinação da entidade é de
que os caminhões fiquem parados no
acostamento das estradas ou em
postos de gasolina, evitando o
bloqueio de rodovias.
Jornal da Tarde, São Paulo, 26 abr. 2000.

De que trata a reportagem?
O que pode acontecer com o transporte de carga
no Brasil com a greve dos caminhoneiros? Como
as mercadorias vão circular no país? Isso pode
afetar a sua vida?
Como vimos na tabela, o principal meio de
transporte de carga no Brasil é a rodovia.
Uma grande greve de motoristas de caminhão,
portanto, pode interromper a circulação dos
produtos, o abastecimento dos supermercados
e dos postos de gasolina, o transporte de
mercadorias do campo para a cidade
e para os portos marítimos e aeroportos,
afetando assim a todos.
Na sua história recente, a sociedade brasileira
integrou suas diferentes localidades por meio das

28

Capítulo II ­ Mudanças no espaço geográfico do Brasil
estradas de rodagem. É possível dizer que o
sistema de rodovias é, na sociedade brasileira, um
dos vários meios de organizar o Espaço
Geográfico.
Vamos, assim, neste capítulo, refletir sobre a
organização do Espaço Geográfico do Brasil.
Para isso, vamos estudar:
· A organização do território brasileiro,
a partir de ações realizadas pela
sociedade ao longo de sua história,
especialmente marcada, nos últimos
60 anos, pela expansão do transporte
rodoviário ­ um fator de integração de
diferentes localidades.
· Os deslocamentos da população
entre diferentes regiões ­ movimentos
migratórios ­, que aumentaram após
a construção do sistema de
transportes no Brasil.
· Os efeitos e danos sobre o meio ambiente,
por conta do crescimento das atividades
econômicas, como a abertura de estradas,
instalação de indústrias, expansão da
agricultura e criação de gado em regiões de
florestas etc.

O TRANSPORTE NO BRASIL
Você já deve ter se perguntado: por que uma
greve de caminhoneiros afeta nossa vida?
Você sabe que todo produto tem um custo. Por
exemplo: o arroz e o feijão, alimentos básicos,
têm um custo de plantio, colheita, armazenagem
e transporte. O custo do transporte, isto é, o que é
cobrado pelo caminhoneiro ou pela empresa
transportadora, se chama frete; ele varia
conforme a distância, o peso e a quantidade
das mercadorias.
É importante destacar que existem outros meios
de transporte usados para que os produtos

cheguem a você; dentre eles, escolhemos alguns,
para entendermos o Espaço brasileiro:
· As ferrovias, que foram muito utilizadas no
passado, séculos XIX e começo do XX, com o
transporte de cargas e passageiros.
· As hidrovias, que utilizam rios para navegação.
· As rodovias, assunto principal deste capítulo.
Voltando à nossa estatística inicial, vimos que
70% do transporte de carga no Brasil é feito
por caminhões. Por que adotamos o
transporte rodoviário?
O Brasil é considerado um país de dimensões
continentais, isto é, tem uma extensão territorial
que o coloca entre os maiores do mundo. Com esse
tamanho todo, seria adequado utilizar caminhões
para transportar praticamente 2/3 de toda a carga?
Voltemos à tabela das modalidades de transporte
de carga nos anos 1990, para compararmos os
dados brasileiros aos dos outros países. Algum
deles transporta carga da mesma maneira que o
Brasil? O que mais se aproxima é o Paraguai, com
47% de transporte rodoviário. Veja que os outros
países destacados na tabela, exceto a ex-URSS,
destinam ao sistema rodoviário aproximadamente
30% das cargas. Ou seja, a cada 100 mercadorias
transportadas no Brasil, 70 viajam de caminhão; já
nos Estados Unidos, por exemplo, apenas 25 são
transportadas por rodovias.
Voltemos à greve dos caminhoneiros. Leia com
atenção o depoimento do presidente do MUBC
(Movimento União Brasil Caminhoneiro), Nélio
Botelho: Se há pouca carga e os caminhões
trafegam com excesso de peso, isso significa que
um caminhão está trabalhando por dois,
agravando ainda mais a crise. Botelho diz que a
frota de caminhões envelhecida e sem
manutenção, o excesso de peso e de trabalho são
os principais responsáveis pelos acidentes nas
estradas; além disso, reclama que o caminhoneiro
não tem condições de pagar os pedágios.

29

História e Geografia

Ensino Fundamental

Desenvolvendo competências

1

a) Pense sobre a questão do transporte de cargas. O que seria mais adequado para transportar
mercadorias?
1. Usar meios diversos, como ferrovias e hidrovias.
2. Não apoiar o transporte de carga em apenas um meio.
3. Integrar os diversos meios para facilitar o escoamento dos produtos pelo território.
b) Agora, compare os dados da tabela para responder:
Dos meios de transporte de carga relacionados abaixo, qual você considera mais adequado a
um país com dimensões continentais, como a ex-URSS?
1. Ferroviário
2. Rodoviário
3. Hidroviário

Desenvolvendo competências

2

Você consegue perceber quantos problemas os caminhoneiros enfrentam? Quais das situações
abaixo teriam levado à greve dos caminhoneiros?
a) As estradas mal conservadas.
b) O excesso de peso da carga dos caminhões.
c) As altas tarifas do pedágio.

É importante lembrar quem construiu as
principais rodovias brasileiras: os governos
federal e estaduais, que investiram na
construção das rodovias muitos recursos
originados dos impostos e de empréstimos feitos
a bancos nacionais e internacionais.

aconteceu com a rodovia? Ela continua ainda
sob o domínio público?

Veja um exemplo: a rodovia Dutra, que liga as
duas maiores cidades do Brasil, São Paulo e Rio
de Janeiro, foi uma grande obra, na década de
1940, do Governo Federal, que planejava
aumentar o transporte rodoviário no país.

Um dos motivos da greve dos caminhoneiros foi
justamente o alto valor que é cobrado em todos
os pedágios do Brasil. O Governo argumentou
que não tem mais dinheiro para investir na
recuperação e construção das rodovias e, por
isso, concedeu o controle a empresas
particulares. O aumento dos pedágios se refletiu
no preço do frete e resultou em diversos
problemas no transporte rodoviário de cargas.

Com isto, atendeu a interesses de grandes
empresas estrangeiras, principalmente as
automobilísticas. Observe que a construção de
uma rodovia, naquela época, era um sinal
importante para o Brasil crescer. E hoje? O que

30

A rodovia Dutra foi privatizada, isto é, seu
controle passou das mãos do Governo Federal
para uma empresa particular, que tem o direito
de cobrar pedágios para fazer as manutenções.

Capítulo II ­ Mudanças no espaço geográfico do Brasil
Observe os seguintes dados:

TRANSPORTES NO BRASIL - 1990
aéreo
0,3%
rodoviário
58%

aquaviário
17%
dutoviário
3,7%

ferroviário
21%
Ministério dos Transportes, 1999.

O que notamos nas porcentagens do gráfico
acima? Mais da metade dos transportes realizados
no território brasileiro, 58%, é feita por meio
rodoviário.

Visando a incentivar a vinda de novas indústrias,
em especial, as do setor automobilístico, o
Governo Federal, principalmente, preparou o
território com rodovias, comunicação e energia.

Vamos retomar algumas das questões levantadas
até agora: Por que adotar esse modelo? Que
implicações isso pode trazer para um país como o
Brasil, que tem uma área muito grande? Será que
o transporte rodoviário é o mais adequado para
longas distâncias? E nas cidades, onde as
distâncias são menores, é viável também?

O setor de transporte rodoviário de cargas é
responsável por aproximadamente 2/3 das cargas
que circulam no país. Fatura quase R$ 40 bilhões
por ano e gera 3,5 milhões de empregos diretos e
indiretos. Atualmente, existem 900 mil
caminhoneiros autônomos, isto é, que trabalham
por conta própria, e 35 mil empresas. A frota
chega a dois milhões de veículos.

O transporte rodoviário a longa distância, num
país de dimensões continentais, como o Brasil,
acarreta mais prejuízos do que benefícios. Os
gastos com combustível são enormes; a frota de
caminhões para transportar os produtos da
indústria, da agricultura e do comércio deve ser
suficientemente grande para atender às
necessidades do mercado brasileiro; o preço do
frete (o custo do transporte) é alto, levando ao
encarecimento das mercadorias.

O Brasil tem mais de 250 mil quilômetros de
rodovias, dos quais mais da metade são
pavimentados. Nos últimos anos, os governos
Federal e Estaduais vêm passando o controle das
rodovias para empresas privadas ou particulares,
o que resultou no aumento dos pedágios
das rodovias.

O transporte rodoviário foi praticamente imposto
nos anos 1940 e 50, com a industrialização.

dutoviário
uso de dutos, enormes tubulações, para o
transporte de gás natural, petróleo etc.

31

História e Geografia
Observe abaixo o mapa da organização territorial
das rodovias no Brasil.
O que percebemos em relação à concentração das
estradas no território? Como a associamos ao
processo de industrialização que ocorreu no Brasil?
Leia a legenda para entender o significado das
linhas e pontos desenhados no mapa. Perceba que
há tipos diferentes de estradas de rodagem.
Notamos que a concentração dessas estradas no
sudeste atende a razões econômicas, sobretudo
aos interesses das indústrias. Isto provocou uma
intensa movimentação de cargas e pessoas entre
os principais centros econômicos do Brasil.

Ensino Fundamental
Outro fato que chama a atenção é o número
reduzido de rodovias que integram a região Norte
­ lá, predomina o transporte hidroviário.
Retomando nossa questão inicial, o Brasil tem um
vasto território, integrado parcialmente por
rodovias. A dependência em relação a um só
modelo, que foi imposto, causa vários problemas.
Então, podemos perceber que a organização e a
integração do Espaço Geográfico brasileiro vêm
mudando ao longo da sua história. A rede de
transporte é um bom exemplo para notarmos
como as pessoas circulam e como os produtos
chegam até nós. A greve dos caminhoneiros foi
um bom exemplo para compreendermos os
problemas do transporte rodoviário.

ORGANIZAÇÃO TERRITORIAL DAS RODOVIAS

Adaptado de FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. Comunicação Cartográfica de Marcelo Martinelli. São Paulo: Moderna, 1998.

32

Capítulo II ­ Mudanças no espaço geográfico do Brasil

Desenvolvendo competências

3

1. O Brasil tem, como principal meio de transporte, a rodovia. Isso gerou inúmeros problemas
de deslocamento das pessoas e mercadorias. O que levou milhares de motoristas a pararem as
principais estradas brasileiras? Que conseqüências uma greve de caminhoneiros causou ao
sistema de transporte do território brasileiro?
Assinale a alternativa correta.
a) A greve não teve conseqüência alguma, pois existem no Brasil outros meios de transporte
mais eficientes que as rodovias, como as hidrovias.
b) A greve prejudicou o abastecimento de alimentos, pois a maior parte do transporte de
mercadorias no Brasil é feita pelas rodovias.
c) A greve não alterou o abastecimento de produtos, porque a paralisação não atingiu as
principais rodovias do país; os caminhoneiros reivindicavam transportar apenas produtos
de primeira necessidade.
d) O Brasil vem investindo rapidamente em outros meios de transporte, tais como as
ferrovias, com o objetivo de transportar toda a carga sem utilizar o sistema rodoviário.

O PAÍS EM MOVIMENTO: FLUXOS MIGRATÓRIOS NO BRASIL
Vimos, na parte anterior deste capítulo, a
importância dos meios de transporte na
organização do espaço geográfico. Agora,
analisaremos os movimentos migratórios da
população, que só foram possíveis em número
elevado devido à expansão do sistema de
transporte. Isso resultou em inúmeras mudanças
no Espaço Geográfico.

Observe os três mapas abaixo sobre os fluxos
migratórios no Brasil:
O que os mapas mostram? A que regiões eles se
referem? Há diferenças e semelhanças entre os
três mapas? Pense a respeito dessas questões.

FLUXOS MIGRATÓRIOS NO BRASIL
Décadas de
1950 e de 1960

Décadas de
1960 e de 1970

Décadas de
1970 e de 1980

Adaptado de SANTOS, Regina Bega. Migrações no Brasil. São Paulo: Scipione, 1994. (Ponto de apoio).

33

História e Geografia

Ensino Fundamental

Desenvolvendo competências

4

Agora, responda: o que representam as setas nos mapas?
a) O processo de industrialização do Brasil.
b) As principais rodovias que ligam os estados brasileiros.
c) As hidrovias e ferrovias do Brasil.
d) O deslocamento da população pelo território brasileiro.

Sabemos que o uso de setas nos mapas indica
movimento, deslocamento, fluxos. Os três mapas
tratam das diferentes ocorrências de um mesmo
fenômeno em momentos históricos distintos.
Não seria também a industrialização, pois as setas
não fornecem elementos suficientes para a
compreensão dos diferentes tipos de indústrias
que existem no Brasil.
As hidrovias, como você já sabe, consistem no
conjunto de mudanças que ocorrem ao longo dos
rios para transportar mercadorias e pessoas ­ no
mapa, não há indicação de nenhum rio. Para
representarmos as estradas, usamos traços e
linhas. Só nos resta a alternativa (d): os mapas
representam o deslocamento da população pelo
território, fenômeno conhecido como migração.
Agora, surgem novas perguntas. O que as setas
indicam em cada mapa? Por que tantas pessoas se
deslocaram nas décadas de 1950 e 1960? É
possível identificar qual região teve a maior saída
de habitantes ao longo desses anos?
O que motivou esses habitantes a saírem dos
seus locais de origem? Por que a Amazônia
praticamente não teve movimento populacional
até a década de 1960?

AS DÉCADAS DE 1950 E 1960
No mapa das décadas de 1950 e 1960, a seta
maior (que se divide em 4 ramos) indica um
grande movimento da região Nordeste para a
Sudeste. Você saberia levantar as razões desse
deslocamento populacional?
A intensa migração ocorrida está associada ao
êxodo rural (saída de pessoas das áreas rurais
para as cidades) verificado no Brasil a partir dos
anos de 1930.

34

Parte da população rural foi praticamente
expulsa do campo, sobretudo em conseqüência da
instalação de médias e grandes propriedades, da
introdução de máquinas agrícolas (tratores,
colhedeiras, sementeiras...) ­ modernização da
agricultura ­, da falta de incentivo ao pequeno
produtor rural e da concentração de terras nas
mãos de poucos proprietários. Tudo isso, e mais as
secas em determinadas regiões do país, provocou o
desemprego de milhares de trabalhadores. Sem
possibilidade de sobreviver dignamente, muitas
famílias rumaram para a cidade.
Famílias inteiras, na maioria das vezes, fugiam da
seca, do desemprego, da falta de investimento dos
governos nos lugares onde moravam.
Atualmente, conforme dados do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística), a população
urbana (aquela que vive nas cidades) do Brasil
está em torno de 82%.
O Brasil dos anos 1950 e 1960 se industrializava
rapidamente. A fim de atrair as indústrias
estrangeiras, em especial as do setor
automobilístico, o Governo Federal,
principalmente, garantia os investimentos
necessários ao território: construíram-se
estradas, siderúrgicas, redes de energia e de
comunicação. A região Sudeste foi a que recebeu
mais investimentos.
Em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e
Belo Horizonte, a crescente industrialização atraiu
muitos migrantes. Aumentou expressivamente a
população das metrópoles da região Sudeste e o
resultado foi que a mão-de-obra superou a
procura de trabalhadores pela indústria.

Capítulo II ­ Mudanças no espaço geográfico do Brasil

AS DÉCADAS DE 1960 E 1970

Repare que o fluxo de migrantes do Nordeste para
o Sudeste continua, porém em menor ritmo. O
que se destaca, nessas décadas, é a migração
rumo à região Norte, em busca dos empregos
proporcionados por novas áreas de pecuária e
agricultura.
E nos anos 1990? O brasileiro continua
migrando? Observe o mapa e o gráfico a seguir:

ESTADOS QUE MAIS CRESCERAM
ENTRE 1996 E 2000

Adaptado de: OLIVEIRA, A.U. Geografia do Brasil. [S.l.: s.n.],1995.

5,74
4,57
3,43
2,77

Acre

% 7
6
5
4
3
2
1
0

Amazonas

PRINCIPAIS FLUXOS MIGRATÓRIOS
NO BRASIL (1990)

E o mapa das décadas de 1970 e 1980? Que
mudanças ele registra? A migração para o
Sudeste diminuiu ou aumentou? Para que parte
do território direcionam-se os fluxos?

Roraima

O primeiro deles está representado pela seta que
se origina na região Sul e vai até a região CentroOeste: diferentemente das migrações ocorridas
nas décadas de 1950 e 1960, esse fluxo
migratório não se relacionava com o
desenvolvimento industrial, mas com a ampliação
da fronteira agrícola, isto é, com a formação de
uma nova área para a agricultura. As terras do
Sul ficaram mais caras, e a concorrência com
grandes empreendedores (grandes proprietários)
levou os pequenos agricultores a buscarem novas
propriedades no Centro-Oeste. Nesta época, o
governo brasileiro incentivou a migração de
famílias de trabalhadores agrícolas, que saíram da
região Sul e Sudeste e foram abrir fazendas no
Mato Grosso e Goiás.

O segundo movimento tem como destino a
Amazônia: muitos vão trabalhar no garimpo e
em projetos agropecuários para atender aos
interesses das grandes empresas; além disso, a
construção da rodovia conhecida por
Transamazônica estimulou a chegada de novos
migrantes, sobretudo nordestinos, como
mostram as setas do mapa.

Amapá

O mapa das décadas de 1960 e 1970, além de
indicar um significativo movimento em direção
ao Sudeste, registra dois novos movimentos
importantes para a compreensão da migração.

estados

IBGE. Censo demográfico. Rio de Janeiro, 2000.

35

História e Geografia
O que representa o gráfico? É possível relacionálo com o mapa? Qual a semelhança entre a
direção dos fluxos e a linha do gráfico?
Podemos entender que:
· um grande índice de migrantes se desloca
para as áreas de garimpo e para as fronteiras
agrícolas;
· o desinteresse dos migrantes pelas metrópoles
da região Sudeste pode ser explicado pela

Ensino Fundamental
crise econômica, que diminuiu o número de
empregos na indústria;
· a migração rumo à região Norte foi
responsável pelas altas taxas de crescimento
anual dos estados que a integram, crescimento
este bastante expressivo se comparado ao dos
estados que apresentaram as menores médias,
como a Paraíba, com 0,80%, e à média
brasileira, que ficou em 1,6%.

Desenvolvendo competências

5

Leia os versos da canção abaixo: você percebe alguma ligação entre a migração que ocorre no
Brasil e a história de sua vida e de sua família?
O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro.
BUARQUE, Chico. Paratodos. [S.l.]: BMG Ariola,1993. 1 CD.

O que retratam esses versos do compositor e músico Francisco Buarque de Holanda,
conhecido como Chico Buarque? Você se identifica de alguma maneira com essa canção?
Esses versos podem ser lidos como um testemunho do artista a respeito das migrações da
população brasileira? Justifique.

Em 1940, havia 3,4 milhões de brasileiros fora
de sua cidade natal; o número chegou a
12,5 milhões em 1960, 43,3 milhões em 1980 e
53,3 milhões em 1991, de acordo com o IBGE.
Os números contribuem para a análise
da música?
O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro.
BUARQUE, Chico. Paratodos. [S.l.]: BMG Ariola,1993. 1 CD.

O brasileiro, de modo geral, é migrante.
O trabalho do migrante proporcionou o

36

desenvolvimento dos lugares e das regiões.
Os fluxos migratórios acompanham as atividades
econômicas, tais como a indústria, a
agropecuária, o comércio e os serviços, que se
organizaram de maneira desigual pelo território.
É necessário entender como, por que e onde
ocorreram os movimentos migratórios para
analisar o território e compreender as
transformações nele ocorridas nas
últimas décadas.
O grande crescimento das metrópoles é explicado
pelo aumento das migrações internas, observadas
nas tabelas e nos mapas. A maioria dos
migrantes, pertencente a camadas da população
mais pobre, foi obrigada a deixar sua terra natal

Capítulo II ­ Mudanças no espaço geográfico do Brasil
em busca de melhores condições de vida.
Muitos dos que seguiram para as grandes e
médias cidades brasileiras trabalham no setor de
serviços e no setor informal, pois foram essas as
oportunidades que encontraram. Habitam
geralmente moradias precárias nas periferias dos
centros urbanos ­ não participaram,
infelizmente, da distribuição da riqueza que
ajudaram e ajudam a construir.
O ato de migrar para a cidade significa uma
mudança brusca no modo de vida. Às vezes, parte
da família fica na terra natal. A adaptação na
metrópole é difícil, o preconceito social e

econômico dificulta a possibilidade de se buscar
uma cidadania plena no novo lugar. Aos poucos,
há uma perda da identidade e das raízes.
Nos anos de 1950 e 1960, o migrante
praticamente se isolava de seu local de origem
por causa da pouca integração dos transportes e
da comunicação no Brasil. A partir dos anos
1970, com o desenvolvimento dos correios e de
outros setores de comunicação e da construção de
mais estradas, muitas famílias puderam manter
mais contato, desempenhando uma maior
interação social e cultural.

CRESCIMENTO ECONÔMICO E DANOS AO MEIO AMBIENTE

Observe o gráfico de barras ao lado sobre a
evolução do desmatamento na Amazônia.

1995

1994

1993

1992

1991

35000
30000
25000
20000
15000
10000
5000
0

1990

Observe novamente o mapa dos fluxos migratórios
do Brasil nos anos de 1990. O que você nota? Por
que milhares de migrantes se dirigiram para a
Amazônia? Em que eles foram trabalhar?
Ocorreram problemas sociais e ambientais nesses
deslocamentos nos últimos anos? Que atividades
foram realizadas lá? Os vários governos que
administraram o Brasil nos últimos anos
contribuíram para alguma mudança no quadro
social e ambiental da Amazônia? É possível mudar
o quadro da ocupação da Amazônia?

área em km2

1989

Note que a transformação do território não foi
por igual. Muitas regiões tiveram sua ocupação
acentuada após os anos de 1970. Isso também
ocorreu na Amazônia. Por quê?

EVOLUÇÃO DO DESMATAMENTO
NA AMAZÔNIA

1988

Como vimos na discussão sobre migração e
transportes, o espaço geográfico se altera devido à
ampliação das atividades econômicas no território,
tais como a indústria, comércio, serviços,
agropecuária e mineração. Percebemos que, para
atender aos interesses do desenvolvimento
capitalista no Brasil, principalmente após os anos
de 1950, o Estado atuou na produção e
organização do território, construindo uma infraestrutura de transportes, energia e comunicação.

ano
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), 1996.

O que você percebe no gráfico de barras? O que
significa cada barra? Como relacionar a área
desmatada ao longo dos anos? O desmatamento
teve alterações? Em que ano ocorreu o maior
desmatamento na Amazônia? Por que ocorre o
desmatamento? Quais as suas conseqüências
sociais e ambientais?

37

História e Geografia
Discutimos, na parte anterior a idéia de fronteira
agrícola, ou seja, expansão da agricultura e
pecuária para novas áreas. Percebemos que, nos
anos de 1960 e 1970, a fronteira avançava para
os estados da região Centro-Oeste com a pecuária
e a agricultura da soja. Como os governos
participaram incentivando as atividades para as
regiões Norte e Centro-Oeste?
A ocupação das regiões foi estimulada pelos
governos, principalmente o Federal, com a
finalidade de atrair novas empresas do setor
agropecuário e mineral para produzir em
grande quantidade. Para isto, o governo

Ensino Fundamental
implantou uma política chamada
"desenvolvimentista", baseada nos incentivos
fiscais (vantagens concedidas aos empresários
que queriam produzir na Amazônia),
principalmente a partir da década de 1970.
A tentativa de ocupar o Cerrado e a Floresta
Amazônica desencadeou uma migração em busca
de novos empregos e novas terras. Associados aos
incentivos fiscais, o Governo Federal construiu
várias rodovias, tais como a Belém­Brasília,
a Transamazônica, a Cuiabá­Santarém,
a Cuiabá­Porto Velho.

Desenvolvendo competências

6

Localize no mapa "Organização territorial das rodovias" (página 32) as estradas que ligam
essas cidades. Observe se elas são pavimentadas ou não.
A atitude do Governo em promover a ocupação da Amazônia privilegiando a atividade
agropecuária em grandes propriedades tinha uma intenção evidente.
Qual das opções abaixo melhor exprime essa intenção?
a) Ocupar a região apenas com pequenos proprietários de terras que vieram do Sul do Brasil.
b) Ocupar a região através de grandes projetos agropecuários e minerais que visavam o
mercado externo.
c) Preservar as terras indígenas e garantir uma vida adequada aos migrantes que
lá chegavam.
d) Construir outros caminhos, não rodoviários, que integrassem a região.

Por que os camponeses do Sul foram para o
Centro-Oeste e para Amazônia, conforme os
mapas de migração das páginas 31 e 33 mostram?
O uso das máquinas pelas empresas agrícolas na
produção da soja, principalmente, e a valorização
das terras expulsaram o pequeno produtor. A
pressão por terras e emprego fez, então, com que

38

o governo incentivasse a migração para o Norte.
Vejamos outra questão para entender os danos
ambientais causados pelo desmatamento: na
Amazônia, as madeireiras retiram muitas árvores
nativas e deixam brechas enormes na vegetação;
áreas de pastagens substituem a mata.

Capítulo II ­ Mudanças no espaço geográfico do Brasil

Desenvolvendo competências

7

A agricultura voltada para o mercado se espalha sobre antigas áreas de floresta. A vegetação
original é destruída e a erosão prejudica os solos. Assinale a alternativa que explica as
transformações ambientais na Amazônia.
a) A floresta e as atividades agropecuárias convivem sem gerar danos ao ambiente.
b) O ecossistema amazônico, muito resistente, tem impedido a ocupação da região e tornado a
Amazônia pouco atraente às empresas.
c) A rápida ocupação pelas empresas capitalistas tem provocado danos por desmatarem-se,
com máquinas ou queimadas, enormes trechos de floresta.
d) O aumento do número de pequenas propriedades para a realização da agricultura de
subsistência tem representado um grande desastre ecológico.

O que você acha da imposição desse modelo de
desenvolvimento na Amazônia? Existe uma outra
maneira de ocupar e até mesmo explorar as
riquezas naturais da Amazônia que não
prejudique o meio e atenda aos interesses das
comunidades? A expansão da fronteira agrícola
atendeu às necessidades dos milhares de
migrantes que foram para a Amazônia?
Seringueiros e castanheiros, que há séculos
tentam viver sem depender das empresas
agropecuárias e dos grandes proprietários de
terras, conseguem, com muita luta, a criação de
reservas extrativistas que representam uma
proposta diferente de ocupação e organização do
espaço amazônico.

Em relação à Amazônia, é necessário propor
novas práticas sociais que não excluam aqueles
que são marginalizados na sociedade.
Em relação às práticas ambientais, é preciso
repensar o modelo de ocupação do espaço.
Grandes pastagens e cultivos nas áreas de
florestas não podem mais ocorrer, pois é
necessário estabelecer um rígido controle da
expansão das fronteiras agrícolas. Criar
reservas naturais estimularia a pesquisa
científica para o conhecimento da
fauna e flora.
É fundamental garantir a preservação,
a qualidade de vida e diminuir as desigualdades
sociais.

Desenvolvendo competências

8

Escolha, dentre as alternativas abaixo, a solução mais adequada para um uso mais racional
da natureza e para a vida dos homens.
a) As experiências voltadas para a exploração em grandes áreas, com o cultivo de um só
produto, não prejudicam a região e geram empregos para milhares de trabalhadores.
b) A transformação da Amazônia em uma área de grandes pastagens evita o desmatamento e
os danos ambientais.
c) A produção dos seringueiros deve ser controlada pelos grandes grupos econômicos para
atingir o mercado internacional, garantindo lucros para o país.
d) O estímulo à criação de reservas extrativistas garante o sustento dos povos da floresta,
preserva-a e gera empregos e renda.

39

História e Geografia

Ensino Fundamental

MUDANÇA DO ESPAÇO GEOGRÁFICO BRASILERO
Como vimos, o Espaço Geográfico mudou
rapidamente após os anos de 1950, com a
construção de um sistema de transporte
basicamente rodoviário. A maior parte das cargas
são transportadas sobre rodas e notamos os
problemas que isso trouxe para todos.
Além do transporte de carga, notamos também
que as pessoas saíram mais dos estados em busca
de uma vida melhor. Para isso, muitos migraram
usando o transporte rodoviário.

40

Na intenção de integrar o país, o Governo
preparou o território com os transportes,
comunicação e energia e possibilitou o aumento
de outras atividades. Essas transformações
causaram inúmeros danos ambientais. A questão
que colocamos então para o presente e o futuro é:
como construir o desenvolvimento, favorecendo a
melhoria de vida para a população, sem, contudo,
criar tantos impactos no ambiente?

Capítulo II ­ Mudanças no espaço geográfico do Brasil

Conferindo seu conhecimento

1

2

a) As três alternativas contribuem para a eficiência e o barateamento do transporte de cargas. Contudo,
concentrar praticamente toda a carga no transporte rodoviário pode trazer sérias conseqüências à população.
Você saberia responder quais?
· O aumento do frete do transporte.
· O alto custo de construção e manutenção das estradas.
· O enorme gasto com combustível.
Essas são algumas das conseqüências que ocorreram no Brasil após a escolha do transporte de cargas através
das rodovias.
b) Se você escolheu a ferrovia, acertou. A ex-URSS transporta 83% dos seus produtos através da ferrovia,
enquanto o Brasil só usa 18%.
Optar pelos pedágios é um bom começo. Afinal, o que o pedágio tem a ver com a situação? Você paga pedágios
quando viaja? Todas as estradas têm pedágios? Por que existe o pedágio nas estradas brasileiras? O que você
souber sobre o assunto, anote em seu caderno.

3

Resposta (b).

4

Resposta (d).

6
7

8

A alternativa (b) é a que melhor identifica o projeto de colonização da Amazônia nos anos 1970 e 1980. O
projeto consistiu numa série de ações: parte das terras indígenas foi invadida por garimpeiros e empresas de
mineração; a construção de estradas e a ocupação ao longo das suas margens com a agricultura e pecuária
aumentaram o desmatamento.
A alternativa (c) é correta, pois a ocupação da Amazônia por grandes empresas agropecuárias e de mineração é
responsável por desequilíbrios sociais e ambientais. As áreas desmatadas perdem sua riqueza natural. Os solos
ficam expostos às chuvas fortes e às queimadas, causando erosão e perda da fertilidade. A prática da mineração
poluiu alguns rios por conta da utilização de produtos químicos, como o mercúrio, muito usado no processo de
separação do ouro e de outros minerais.
A alternativa (d) é uma solução possível para a Amazônia. Tente lembrar de outras situações que acontecem no
lugar onde você mora. Seria possível, na sua comunidade, aliar uma atividade econômica com a preservação da
natureza, gerando uma renda adequada para os seus cooperados? É possível encontrar soluções alternativas ao
modelo de desenvolvimento capitalista que elevem a qualidade de vida dos habitantes?

41

História e Geografia

ORIENTAÇÃO

Ensino Fundamental

FINAL

Para saber se você compreendeu bem o que está apresentado neste capítulo, verifique se está apto a
demonstrar que é capaz de:
· Identificar fenômenos e fatos histórico-geográficos e suas dimensões espaciais e temporais, utilizando
mapas e gráficos.
· Analisar geograficamente características e dinâmicas dos fluxos populacionais, relacionando-os com
a constituição do espaço.
· Interpretar situações histórico-geográficas da sociedade brasileira referentes à constituição do espaço,
do território, da paisagem e/ou do lugar.
· Comparar os processos de formação socioeconômicos e geográficos da sociedade brasileira.
· Comparar propostas de soluções para problemas de natureza socioambiental, respeitando valores
humanos e a diversidade sociocultural.

42

Capítulo III
O VALOR DA MEMÓRIA

COMPREENDER

A IMPORTÂNCIA DO PATRIMÔNIO

CULTURAL E RESPEITAR A DIVERSIDADE ÉTNICA.

Denise Gonçalves de Freitas

História e Geografia

Ensino Fundamental

Capítulo III

O valor da memória

Hoje é um dia que vou marcar no meu caderno; você me deu oportunidade de falar de
minha fé, de minha mãe, de minha gente e de minha raça. Nunca ninguém me perguntou
nada. E eu nunca pude contar nada para ninguém. A minha própria vida ficou mais
clara. Venha sempre que puder. Venha comer feijão com couve.
BERNARDO, Teresinha. Memória em branco e negro: olhares sobre São Paulo. São Paulo: EDUC/FAPESP, 1998.

APRESENTAÇÃO
Esse depoimento que você acabou de ler é de
dona Sebastiana, mulher negra, moradora da
cidade de São Paulo, para o livro Memória em
Branco e Negro, Olhares sobre São Paulo, escrito
por Teresinha Bernardo.
Relembrar, reviver o passado, segundo Dona
Sebastiana, deixa a vida mais clara.
O que significa uma vida mais clara?
Para dona Sebastiana, deixar a vida mais clara
é contar sobre sua fé (sua religião), sua mãe
(que é a família dela), sua gente (que são seus
conhecidos e amigos) e sua raça. Contar
significa retomar fatos, acontecimentos.
Lembrar, relembrar.
Muitas vezes, o exercício de contar
permite que relembremos detalhes, costumes,
comportamentos, permite deixar a vida
mais clara, permite que saibamos quem somos
e como somos.

44

Para dona Sebastiana, ter falado sobre ela e sobre
a história parece tê-la deixado mais feliz.
Neste capítulo, vamos tratar um pouco dessa
vontade, dessa necessidade, dessa alegria de
retomarmos nossa memória, de compartilharmos
com outros as nossas lembranças, as imagens de
outros tempos, de como eram a nossa terra,
nossos costumes, tudo isso envolvendo também
histórias de nosso país.
Vamos estudar juntos a necessidade que um
grupo tem de retomar a sua memória, a sua
história, para atingir um objetivo particular:
provar o direito à propriedade de um determinado
trecho de terra.

Capítulo III ­ O valor da memória

TERRAS DE QUILOMBOLAS
No Vale do Ribeira, em São Paulo, existe um
grupo de descendentes de ex-escravos que vivem
numa área remanescente de quilombos, ou seja,
numa área onde antes existia um quilombo.
Observe abaixo, no mapa, o detalhe assinalado
em azul, que corresponde ao Vale do Ribeira. Ao
lado, o mapa do Brasil, para você poder localizar
os estados de São Paulo (SP) e Paraná (PR), que
ficam na região Sul­Sudeste do país.

surgiu quando grupos de diferentes povos,
brigando pelo poder, eram expulsos de suas
comunidades, unindo-se a outros grupos de
outras comunidades que também haviam sido
expulsos. Essa união entre esses grupos diferentes
era chamada de quimbundo, que no Brasil se
aportuguesou para quilombo.

A primeira coisa que você deve estar se
perguntando é: o que é, afinal de contas,
um quilombo?

No Brasil, os índios e negros foram vítimas da
escravidão. A escravidão durou mais de 300 anos.
Os negros eram trazidos da África para
trabalharem aqui no Brasil, em fazendas, nas
minas de ouro e nas cidades.

Pois bem, a palavra brasileira "quilombo" é
originária da língua banto, falada por povos
africanos que vieram para o Brasil, trazidos pelos
portugueses para serem escravos. O povo banto
vivia na África, em territórios que se dividem,
atualmente, entre Angola e Zaire. A palavra

VALE DO RIBEIRA

Bem, e no Brasil? Para que foi usada a
palavra quilombo?

A escravidão terminou, oficialmente, no ano de
1888, com a Lei Áurea. Mas, durante todo o
período em que existiu a escravidão, os negros
lutaram de várias formas contra ela.

MAPA POLÍTICO DO BRASIL

aportuguesou
palavra estrangeira que ganhou uma forma
parecida no português.

45

História e Geografia

Ensino Fundamental

Desenvolvendo competências

1

Se você fosse um escravo naquela época, qual teria sido sua forma de resistência?
1. Fugir e voltar para a sua terra natal.
2. Exigir seus direitos perante a lei.
3. Lutar para a lei acabar com a escravidão.
4. Fugir para a mata.
Anote em seu caderno a alternativa que você escolheu.

Observe o mapa apresentado abaixo, leia os
textos de época e veja as imagens de objetos, nas
páginas a seguir, refletindo sobre a melhor
alternativa para a questão acima.

· Onde está a África e onde está o Brasil?
O que separa esses dois lugares?
· Qual a única forma, naquela época, de irmos de
um lugar a outro?

46

Capítulo III ­ O valor da memória
Embarcam-se, anualmente, cerca de 120.000 negros da costa da África, unicamente para
o Brasil, e é raro chegarem a seu destino mais de 80 a 90 mil. Perde-se, portanto, cerca
de 1/3 durante uma travessia de dois meses e meio a 3 meses. Reflita-se sobre a
impressão cruel do negro diante da separação violenta de tudo que lhe é caro, sobre os
efeitos do mais profundo abatimento ou da mais terrível exaltação de espírito em
associação com as privações do corpo e aos sofrimentos da viagem... Os escravos são aí
amontoados de encontro às paredes do navio e em torno do mastro; onde quer que haja
lugar para uma criatura humana... Todos, principalmente, nos primeiros tempos de
travessia, têm algemas nos pés e nas mãos e são presos uns aos outros por uma
comprida corrente...
A falta d'água é a causa mais freqüente das revoltas dos negros, mas ao menor sinal de
sedição, não se distingue ninguém; fazem-se impiedosas descargas de fuzil nesse antro
atravancado de homens, mulheres e crianças.
Texto 1 ­ RUGENDAS, Johann-Moritz. Viagem pitoresca através do Brasil. Tradução de Sergio Milliet. Belo Horizonte:
Itatiaia; São Paulo: USP, 1989. (Coleção Reconquista do Brasil. 3. Série; v. 8). A primeira publicação desta obra foi em 1835.

Que lembranças os homens, mulheres e crianças
possuíam da viagem realizada por eles ou por
seus parentes?

O próximo texto conta a chegada de um desses
navios que traziam escravos, chamados de "navio
negreiro", com 562 escravos, dos quais 55
morreram e foram lançados ao mar.

Depois que todos eles desfrutaram por algum tempo das delícias do ar puro, foi-lhes
trazida água para que bebessem. Foi nesse momento que toda a extensão do seu
sofrimento se tornou pavorosamente patente. Eles todos se atiraram como loucos sobre a
água. (...) Eles se debatiam e brigavam uns com os outros para conseguir um gole do
precioso líquido, como se tivessem endoidecido ao vê-lo. Não há nada que faça sofrer
tanto os escravos, durante a travessia, do que a falta de água (....) Certa vez sucedeu que
um navio vindo da Bahia zarpou sem que, por esquecimento, a água fosse trocada; já em
alto mar descobriu-se, para horror de todos, que os barris estavam cheios de água
salgada. E todos os escravos a bordo morreram...
Texto 2 ­ WALSH, Robert. Notícias do Brasil (1828-1829). Tradução de Regina Regis Junqueira. Belo Horizonte: Itatiaia; São
Paulo: Ed. Universidade de São Paulo, 1985. (Coleção Reconquista do Brasil. Nova série; v. 74-75). Título original: News of
Brasil in 1828 and 1829.

· Como os escravos eram tratados?

mastro
peça de madeira circular que fica no meio do navio. É
usada para segurar as velas, que são os panos que servem
para empurrar o navio quando bate o vento.

cerca de 1/3
no texto, isso significa que 40.000 negros
morreram nas viagens entre a África e
Brasil, por ano.

exaltação

sedição
agitação, revolta.

antro atravancado

no texto, agitação, desespero.

no caso do texto, significa um lugar escuro, na parte de
baixo do navio, lotado de homens e mulheres.

privações

patente

carência de alimentos, sofrimentos.

claro, evidente.

travessia
viagem.

47

História e Geografia

Ensino Fundamental

O texto a seguir é um anúncio de jornal. Esse tipo
de anúncio podia ser encontrado em vários
jornais da época da escravidão no Brasil.

Excelente escravo. Vende-se um crioulo de 22 anos, sem vício e muito fiel: bom e asseado
cozinheiro, copeiro. Faz todo o serviço de arranjo da casa com presteza, e é melhor
trabalhador de roça que se pode desejar; humilde, obediente e bonita figura. Para tratar na
ladeira de S. Francisco n. 4.
Texto 3 ­ Província de São Paulo, São Paulo, 19 fev. 1878. apud NEVES, Maria de Fátima Rodrigues das. Documentos sobre
a escravidão no Brasil. São Paulo: Contexto, c1996. (Textos e documentos; v.6).

· Como essas pessoas eram consideradas
na época?
· Pelo anúncio, a que você poderia comparar
o escravo?
· Quais eram, então, os direitos do escravo?
Observe, agora, as imagens abaixo:

DEBRET, Jean Baptiste. O colar de ferro, castigo dos negros fugitivos.
Detalhe da prancha 42.

Máscara utilizada para castigo.
Museu do Escravo. Belo Vale, MG.

· Você consegue imaginar a utilização
desses objetos?
· Vamos perguntar de novo: que direitos
possuíam esses homens, mulheres e crianças?
· Existiam leis que os protegessem?

48

asseado

presteza

limpo, lavado.

rapidez, prontidão.

Capítulo III ­ O valor da memória
Voltando à questão "Se você fosse um escravo
naquela época, qual teria sido sua forma de
resistência?", que alternativa você anotou em
seu caderno?
Os africanos que chegaram ao Brasil na situação
de escravos estavam muito distantes de sua
terra, separados dela por um grande oceano.
A travessia era lembrada com muita dor e
sofrimento. O Texto 1 mostra que embarcavam,
anualmente, da África, cerca de 120 mil negros.
No entanto, era raro chegar ao seu destino, no
Brasil, mais de 80 ou 90 mil. Isso significa que
morriam na travessia, todo ano, cerca de 30 a 40
mil negros. Com certeza, essa não é uma boa
lembrança da viagem, não é mesmo?
Eram vendidos, alugados, trabalhavam sem
descanso e sem salário, e recebiam castigos
corporais, quando seus donos acreditavam que
merecessem, isto é, bastava os donos quererem
que os escravos eram castigados. Que direitos,
então, possuíam esses homens e mulheres? Pois
bem, você já percebeu: não existiam nem leis e
nem direitos que protegessem os escravos.
Pois é, restava para os escravos fugir para a mata.
Fugiam, formando comunidades que receberam o
nome de quilombos, que podem ser considerados
uma forma de resistência que durou toda a época
da escravidão.
Segundo pesquisas atuais, os quilombos foram
criados mesmo após o fim da escravidão, já que,
depois dela, os negros foram abandonados à
própria sorte: não tinham onde morar, onde
trabalhar, eram considerados inferiores e
enxergavam nessas comunidades uma maneira
de sobreviver.
Para sobreviver na mata desconhecida, esses
homens e mulheres enfrentaram vários desafios:
tinham que construir suas moradias, aprender a
plantar para poderem se alimentar, além de
terem que combater as várias expedições
mandadas pelo governo para destruir as aldeias e
capturar os escravos fugitivos.

Como você pode perceber, a palavra quilombo foi
usada no Brasil com o mesmo sentido com que
foi usada na África, ou seja, uma nova
comunidade formada por diferentes grupos.

OS QUILOMBOS NOS DIAS DE HOJE
Você percebeu como são importantes os
documentos, por exemplo, os textos de época e
objetos preservados em museus e arquivos
brasileiros, para podermos retomar a história
brasileira. Foi analisando alguns desses
documentos que conseguimos retomar um pedaço
da história dos escravos negros no Brasil.
Vamos voltar à questão inicial, sobre aquele
grupo da região do Vale do Ribeira que, sendo
netos ou bisnetos desses homens e mulheres que
resistiram à escravidão e organizaram quilombos,
pedem hoje o reconhecimento da terra como
propriedade deles. São essas áreas de antigos
quilombos que chamamos de áreas remanescentes
de quilombos.
No ano de 1988, foi promulgada no Brasil uma
nova Constituição, isto é, um conjunto de leis que
deve ser seguido pela população de nosso país.
Nesta nova Constituição, o artigo 68 dispõe: aos
remanescentes das comunidades dos quilombos
que estejam ocupando suas terras, é reconhecida
a propriedade definitiva, devendo o Estado emitirlhes os títulos respectivos.
Assim, se for provado que uma área é
remanescente de quilombos ­ local onde vivem
pessoas descendentes dos negros que fugiram da
escravidão e formaram uma comunidade ­ esses
descendentes têm por lei o direito de posse
dessas terras.
Mas como esses grupos atuais de quilombolas,
nome dado aos que viviam e aos que vivem nos
quilombos, podem provar que nessas áreas
moravam os seus antepassados (avós, avôs,
bisavós, bisavôs), transformando esses locais em
seus por direito, garantido pela Constituição?

Nesses quilombos, não foram morar apenas os
negros que resistiam à escravidão, mas, também,
alguns índios e homens brancos pobres que
procuravam alternativas de vida na sociedade
brasileira.

49

História e Geografia

Ensino Fundamental

Veja o exemplo a seguir: no interior de
Goiás, na Chapada dos Veadeiros,
existe um quilombo chamado Kalunga.
No mapa do Brasil, na página 43, você
pode localizar o estado de Goiás ­ GO,
e no mapa abaixo, a Chapada dos
Veadeiros, no Nordeste desse estado.
Leia abaixo o que conta a pesquisadora
Mari de Nasaré Baiochi, que estudou a
história dessa comunidade, sobre a
dificuldade da pesquisa sobre a origem
do quilombo.
A História oficial do Brasil é silenciosa
em relação aos movimentos de
resistência escrava, suas lutas, fugas e
a formação de quilombos. Dessa
forma, tornou-se necessário um
projeto especial para a realização de
pesquisas em fontes primárias (que
são os documentos guardados em
arquivos), pois o que se apresenta
sobre o tema não leva a conclusões
esclarecedoras de onde fica a região
do quilombo, no Estado de Goiás.
Porém, a própria existência das
comunidades denominadas Kalunga
prova que o africano, mesmo na
condição de escravo, luta muito para a
sobrevivência, construindo uma forma
de vida em que possa realizar o
exercício da liberdade e solidariedade...
Texto adaptado de BAIOCCHI, Mari de Nasaré. Kalunga: povo da terra.
Brasília: Ministério da Justiça: Secretaria dos Direitos Humanos, 1999. p. 33.

O que foi necessário para provar a descendência histórica dos Kalunga?
O que significa fazer pesquisa em "arquivos"? Seria procurar documentos antigos? Que
tipo de documento?
A própria existência da comunidade negra, com antigas tradições africanas e sua luta
pela sobrevivência, já é em si um documento que comprova que são descendentes de
escravos fugitivos?

50

solidariedade
sentimento de ser solidário com alguém,
atitude de ajudar alguém.

Capítulo III ­ O valor da memória
É necessário, então, que os quilombolas provem
sua descendência.
· Qual o caminho que os integrantes desse grupo
devem seguir para conseguirem ser
reconhecidos como os verdadeiros donos dessa
terra?

INVESTIGANDO A HISTÓRIA DO
QUILOMBO DO VALE DO RIBEIRA
Vamos iniciar nossa investigação, lendo o
depoimento de dona Antonia Vitorina de Oliveira,
moradora dessa área remanescente de quilombo,
com mais de 90 anos:

· Quais as dificuldades que vão encontrar?
· Você acha que basta que eles digam que são
descendentes de ex-escravos para ganharem o
direito à propriedade?
Para começar, esse grupo deve buscar a origem
dos primeiros habitantes do local. Quem eram
eles? De onde vieram? Eram seus avós, avôs,
bisavós, bisavôs?
Como conseguir informações sobre esses
antepassados? Não temos fotos, não temos
documentos escritos por eles, pois esses grupos
viveram e vivem distantes dos centros urbanos, e
não produziram nenhum arquivo próprio.
Talvez existam alguns documentos oficiais nas
cidades próximas à região. Mas não há nenhuma
escritura, e nós sabemos que, hoje, para
provarmos que uma propriedade é nossa, temos
que ter um papel, uma escritura, registrada num
cartório de uma cidade. O que nos resta?
Vamos fazer um levantamento das possibilidades
de pesquisa. Em quais fontes você acha que eles
podem pesquisar?
Será que quem mora num quilombo pode
fornecer informações sobre desde quando eles
estão ali? Será que podemos entrevistar pessoas
mais velhas?
Será que os rituais, histórias e lendas antigas
podem contar alguma coisa? Será que há, no
povoado, objetos e construções preservados e
cuidados que são antigos? Será que é possível
fazer escavações arqueológicas, ou seja,
escavações em busca de materiais que possam
nos interessar?
Além das fontes de pesquisa, precisamos também
pensar sobre o que devemos perguntar, o que
queremos saber? Quais informações podem nos
ajudar a reconstituir a história desse quilombo? É
importante saber sobre seu modo de vida no
passado? Como chegaram aqui?

Meu avô, minha avó, minha bisavó,
quando pegaram ela na mata, a laço,
quando ela chegou na casa do amo, foi
amansada e aí minha avó nasceu, e
depois fugiu.
Trecho retirado do vídeo: POVO dos quilombos. Produzido por Myrian
Produções. [S.l.: s.n., 19--]. Encontrado na Videoteca da Secretaria do
Meio Ambiente.

A partir desse depoimento, a quais conclusões
podemos chegar?
· A avó de dona Antonia fugiu para essa região
mais ou menos, quantos anos atrás?
· Qual o motivo que teria gerado a fuga da avó
de dona Antonia?
Repare na idade de dona Antonia. O fato de ela
possuir mais de 90 anos nos permite perceber que
sua avó viveu na época em que o Brasil ainda
possuía o trabalho escravo. Ela está contando a
história de sua avó, fugindo da escravidão.
Analisando o depoimento, percebemos a
importância da história oral para retomarmos a
memória de um grupo, de uma comunidade, pois
fica claro que pessoas que fugiram da escravidão
se dirigiram para os quilombos. No caso da avó
da dona Antonia, para o Vale do Ribeira.
Você se lembra do depoimento de dona
Sebastiana, no início de nosso capítulo, sobre
tornar a vida mais clara? Pois então, dona
Antonia, ao contar sua vida, tem mais clara sua
história, e ajuda a esclarecer a história de todas as
pessoas que vivem à sua volta.
Vamos continuar nossa pesquisa, nossa busca por
vestígios do passado que permitam retomar a
memória dessa comunidade.

rituais
cerimônias.

51

História e Geografia
Na comunidade do Vale do Ribeira, vamos
encontrar uma pequena capela, que é dedicada à
Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
Observe a foto da capela que lá existe.

Ensino Fundamental
Vamos fazer algumas perguntas que possam nos
interessar para continuarmos nossa busca por
vestígios que comprovem que nesse local vivem
os remanescentes de um quilombo.
· Como se encontra essa capela hoje?
· É uma construção nova ou antiga? Quantos
anos será que ela tem?
· Por que ela foi construída?
· Ela ainda tem a mesma função?
· De que material é feita essa construção?
· Ela se assemelha a outras construções que você
conhece, de outros lugares?
· Quem construiu? Quem mandou construir?
· Por que essa capela foi devotada à Nossa
Senhora do Rosário dos Homens Pretos?
Respondendo a essas perguntas, estaremos
colhendo informações e analisando de forma
detalhada essa construção. Conseguiremos, então,
chegar a mais algumas conclusões sobre esse
local que estamos estudando juntos.
Observando a foto da capela, percebemos que seu
estado de conservação não é bom. As paredes
estão rachadas, parte do telhado parece estar
caindo, sua pintura está em alguns lugares
descascada e, na parte de baixo, mofada.

Disponível em: http://www.socioambiental.org/website/noticias/brasil/
19981610b.htm

Ela parece ser uma construção antiga, erguida
para ser um espaço destinado aos rituais da Igreja
Católica, servindo, ainda, para a mesma função.
A capela foi construída utilizando a técnica da
taipa de pilão. É uma técnica de construção muito
antiga, trazida pelos portugueses na época da
colonização, em que se joga uma mistura de terra
umedecida ou molhada em fôrmas de madeira.
Essas fôrmas são duas grandes pranchas
compostas de tábuas emendadas, que se
mantêm em pé.

52

devotada
dedicada.

Capítulo III ­ O valor da memória
Para respondermos às três últimas questões,
vamos observar outras fotos de capelas e igrejas,
de outras épocas e de outros lugares,
que ainda existem.

1. Capela de Sant'Ana ­ anterior a 1720. Ouro Preto ­ MG

2. Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos ­ 1822.
Santos-SP ­ substituiu uma capela de 1651

3. Matriz de Nossa Senhora do Rosário ­ 1727. Pirenópolis-GO

4. Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos ­ construção
iniciada em 1767. Sabará-MG

· Qual dessas igrejas mais se assemelha à capela
que estamos estudando?

53

História e Geografia

Ensino Fundamental

Analisando essas fotos, concluímos que é a capela
da foto 1 a mais parecida com a capela da área
que estamos estudando. A Capela de Sant'Ana
é a mais simples, não possui torres altas nem
várias janelas; as outras igrejas parecem mais
imponentes do que ela, que é anterior ao
ano de 1720.
Todas essas igrejas usaram a técnica de taipa de
pilão. Encontramos no Brasil, hoje em dia,
construções com mais de 250 anos que se
utilizaram desse método. A taipa de pilão ainda é
usada em muitas regiões do interior do país.
A capela que estamos investigando, a da
comunidade do Vale do Ribeira, também é muito
antiga, a julgar por seus traços arquitetônicos e
pela técnica utilizada. Segundo alguns
pesquisadores, ela é de 1761.
O que a maioria dessas igrejas tem em comum
com a capela em estudo?
Além de serem construídas em taipa de pilão, a
maioria delas é devotada à Nossa Senhora do
Rosário.
A devoção à Nossa Senhora do Rosário é muito
antiga. Ela se inicia na Europa, no século XV, por
volta de 1470, e estava ligada à crença nos
poderes do rosário (terço). Essa devoção foi
trazida pelos portugueses para o Brasil, existindo,
portanto, desde a época da colonização.
Os escravos negros, vindos da África, não podiam
realizar livremente os rituais ligados à religião de
seu local de origem e foram obrigados a seguir a
religião de seus "donos", ou seja, a religião
católica. Essa obrigação acabou resultando na
maioria das vezes em uma fusão dos rituais
católicos com os rituais africanos.
A mistura entre a religião católica e a religião dos
grupos africanos que para cá vieram se manifesta,
ainda hoje, em festas e procissões no Brasil inteiro.

Exemplo dessa mistura é a festa da lavagem das
escadarias da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim,
em Salvador, na Bahia. A festa começa com a
saída do cortejo de mulheres vestidas com roupas
típicas baianas da Igreja de Nossa Senhora da
Conceição da Praia, até a Igreja do Bonfim. Lá
chegando, inicia-se a lavagem das escadarias e do
pátio da igreja com água de cheiro.
Poderíamos citar várias outras manifestações
mostrando essa mistura religiosa, esse
sincretismo religioso, como a utilização de
santos católicos para representarem os deuses do
candomblé, religião africana que era proibida de
ser praticada no Brasil Colônia, ou a Festa do
Divino, que ocorre em várias regiões do Brasil.
Essa festa é realizada, em geral, cinqüenta dias
depois da Páscoa, e mistura, em suas procissões,
cantos católicos com o batuque de instrumentos
e a Congada.
É curioso entendermos a Congada. Ela é uma
espécie de dança em que os congadeiros dirigemse à igreja, mas encontram as portas fechadas. O
capitão, representado por um dos homens, canta
um lamento negro; as portas se abrem e todos
entram cantando e dançando, batendo seus
tambores. Essa festa simboliza uma época em que
os negros não podiam entrar nas igrejas. A
congada é muito utilizada também nas festas de
Nossa Senhora do Rosário e na comemoração do
dia 13 de maio, dia da assinatura da Lei Áurea,
que libertou legalmente os escravos.
Bem, voltando ao culto a Nossa Senhora do
Rosário, sabemos que ele já fazia parte da vida de
alguns povos no continente africano, levado para
lá por colonizadores europeus, principalmente
portugueses. Por isso os escravos vindos para o
Brasil escolhiam essa devoção, pois muitas vezes
já tinham tido contato com ela na África. Na
maior parte do território brasileiro, os escravos
construíam suas igrejas nos horários de folga ou
de descanso, em homenagem à Nossa Senhora
do Rosário.

sincretismo
reunião de várias idéias.

devoção

54

adoração por algo, normalmente em sentido religioso.

cortejo
acompanhamento, procissão.

Brasil Colônia
período da História do Brasil que vai de 1500, data da
chegada dos portugueses no Brasil, até 1822, ano de nossa
independência. Durante esse período, o Brasil era
considerado território português.

Capítulo III ­ O valor da memória
Veja a história de duas das igrejas que você
observou nas fotos:
A igreja que está localizada em Santos, em São
Paulo (figura 2), antes de ter sido construída
como vemos na foto, era uma simples capela,
erguida em 1651. Dizem que, nela, escondiam-se
os negros que fugiam de seus senhores,
aguardando a melhor hora para, pelo Beco do
Rosário, escaparem para o Quilombo do
Jabaquara, que ficava escondido na mata.
A Igreja de Sabará, Minas Gerais (figura 4), parece
ser uma ruína, mas, na verdade, essa igreja começou
a ser construída em 1767 e nunca foi terminada por
falta de recursos, sendo que sua obra foi paralisada,
definitivamente, no ano de 1878. Não podemos
considerá-la, portanto, uma ruína.
A sua construção estava sendo feita próxima a
uma capela mais antiga ainda ­ que também era
dedicada à Nossa Senhora do Rosário ­ e deveria
substituí-la. No seu interior, encontra-se um
altar muito simples em homenagem a dois
outros santos muito lembrados nas igrejas
dedicadas à Nossa Senhora do Rosário: São
Benedito e Santa Efigênia.
É muito comum encontrarmos uma simplicidade
nos altares das igrejas coloniais dedicadas à
Nossa Senhora do Rosário, destoando dos altares
de igrejas desse mesmo período dedicadas a
outras devoções, que mostram por vezes
interiores muito ricos.
Ufa! Quanta informação a capela do Vale do
Ribeira nos trouxe. Todas essas manifestações
culturais nos contam um pouco da história de
nosso povo:

2. A taipa de pilão, uma técnica trazida pelos
portugueses, foi muito utilizada nas
construções brasileiras, sendo usada até hoje,
em algumas regiões.
3. A predileção pela devoção à Nossa Senhora do
Rosário já existia no continente africano, e,
aqui no Brasil, foi essa, também, a devoção
preferida dos negros escravos.
4. As manifestações religiosas que misturaram
costumes africanos com costumes portugueses
resultaram em belas festas populares.
Pois bem, a capela da comunidade quilombola
que estamos estudando foi erguida em devoção à
Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos,
sendo mais um ponto para acreditarmos ser essa
comunidade, realmente, descendente de antigos
escravos.
Agora, vamos relembrar como chegamos a todas
essas informações em nossa investigação pela
retomada da memória da comunidade quilombola
do Vale do Ribeira:
1. Um depoimento oral de uma moradora do
local, descendente de escravos;
2. Uma construção (igreja), que podemos chamar
de monumento histórico, levando-nos a
algumas conclusões:
· Se a igreja foi construída na época da
escravidão (segundo estudos, ela seria de 1791),
existiam pessoas que já moravam nesse local.
· O fato de ela ter sido erguida em devoção à
Nossa Senhora do Rosário nos leva a refletir
sobre a grande possibilidade de ter sido erguida
por homens e mulheres negras.

1. Percebemos que, apesar da obrigatoriedade de
seguir a religião católica, várias foram as
manifestações da cultura negra africana que se
perpetuaram no Brasil.

igrejas coloniais
igrejas do período em que o Brasil era colônia de Portugal.

55

História e Geografia

Ensino Fundamental

NO MODO DE VIDA, UMA FORMA DE
INVESTIGAÇÃO
Vamos continuar investigando nosso problema,
buscando outros elementos que possam
comprovar a reminiscência quilombola da
comunidade do Vale do Ribeira.

Desenvolvendo competências

2

Pensemos no seguinte exercício: a posse de uma propriedade é confirmada, em nossa
sociedade, através de um título, uma escritura, que deve ser registrada em cartório, ou em
outro órgão competente.
Das alternativas abaixo, as formas de posse de terra que você conhece são:
1. posse de uma única pessoa que a adquiriu através de compra.
2. posse de pessoas de uma mesma família que a receberam por herança.
3. posse de uma comunidade, em que todos juntos reivindicaram o direto sobre ela.
4. posse por usucapião, provando moradia no local há muito tempo.

Vamos analisar alguns trechos do documento das comunidades quilombolas de Aracuan, Bacabal,
Serrinha, Terra Preta e Jarauacá, no Pará, que tiveram reconhecido o direito de propriedade da terra, em
1997.

Capítulo I ­ Da denominação, sede, duração e objetivos.
(...)
Artigo 2º
A Associação é proprietária das terras ocupadas pelas Comunidades Remanescentes de
Quilombo (...)
Parágrafo 1º - As terras de propriedade da Associação não podem ser vendidas,
arrendadas ou loteadas.
(...)
Capítulo II ­ Dos Sócios
Artigo 4º
São considerados associados os indivíduos que integram e/ou vierem a integrar as
Comunidades Remanescentes de Quilombo (...)

Esse documento mostra a criação de uma associação. Para receber o título da terra, é necessário que as
comunidades criem um estatuto, ou seja, um conjunto de leis, de regras, que vão mostrar como usar a
terra.

56

reminiscência
lembranças, recordações.

Capítulo III ­ O valor da memória
Lendo o documento, a quem é atribuída a posse
da terra?
Como vimos, ela é atribuída a toda a comunidade,
a todos os indivíduos que integram a comunidade.
Muito diferente daquilo que conhecemos, ou seja,
a posse individual ou familiar.
Pessoas que estudam a formação e a vida dentro
dos quilombos concluíram que, geralmente, a
posse da terra não é individual. Nessas
comunidades, verificamos a existência de grandes
áreas de uso comum, que são conservadas pelo
grupo visando à própria sobrevivência.
Essas áreas representam a sobrevivência, uma vez
que possuem, muitas vezes, rios, porque a água é
de grande utilidade para famílias. Possuem
espécies florestais cujos frutos são utilizados na
alimentação, na construção de casas, no uso
medicinal (remédios). No Pará, no quilombo do
documento analisado, as castanhas são um
exemplo do que estamos falando, já que são,
inclusive, comercializadas pelos quilombolas. É
comum, também, a existência de pomares e pastos
que são usados de forma coletiva pela população.
Esse tipo de utilização da terra já havia sido
verificado no quilombo mais famoso da história
do Brasil, o Quilombo de Palmares, cuja data
provável de formação é 1630. Você já deve ter
ouvido falar dele e de seu líder Zumbi, que hoje é
considerado símbolo da consciência negra.
A terra, em Palmares, era propriedade coletiva da
comunidade. As famílias constituídas no
quilombo plantavam, retirando para si o
necessário para o seu sustento. O restante da
colheita era entregue para o uso coletivo,
destinando-se à alimentação dos chefes, dos
militares, dos funcionários que cuidavam da
organização do quilombo, dos velhos, doentes
etc. Parte ainda era armazenada para o caso de
epidemias, secas ou guerras.

Existiam oficinas de artesanato, que produziam
objetos de ferro, cerâmica ou fibra, que eram de
uso coletivo, assim como os instrumentos de
trabalho, quer dizer, as ferramentas.
A economia estava voltada basicamente para o
consumo comunitário, porém é sabido que os
quilombolas chegaram a praticar o comércio com
as vilas próximas, quando conseguiam obter
armas para se defenderem das tentativas do
governo de destruí-los.
O que sabemos do Quilombo dos Palmares devese ao fato de as autoridades registrarem vários
documentos sobre a importância de se combater
esse quilombo.
Assim, dá para imaginar o quanto essa forma de
resistência negra incomodava as autoridades, sem
contar que Palmares, com o passar dos anos,
tornou-se a sede de uma confederação de
quilombos ­ a República de Palmares. O ano de
1695 é considerado o ano da destruição de
Palmares.
No Vale do Ribeira, na área remanescente de
quilombos, predomina o uso da terra de forma
coletiva: plantam para a sobrevivência e também
para comercialização. Utilizam, para plantar, um
sistema de rodízio: plantam e colhem numa
determinada área e, depois, deixam aquela área
em descanso, garantindo que ela se conserve e
que não haja um desmatamento. As terras não
têm divisas; as cercas existentes são usadas
apenas para criar algumas vacas. Plantam para
consumo a mandioca, o arroz, o feijão e verduras;
para vender, a banana.
A organização social e econômica da comunidade
do Vale do Ribeira é, portanto, muito semelhante
àquela comum aos quilombos.
Com essa nossa investigação, podemos concluir
que existem diferenças entre as formas dos
grupos sociais se organizarem; enquanto para nós

confederação
reunião de diferentes povos que, mesmo mantendo uma
certa autonomia, reconhecem um mesmo governo, um
mesmo comando.

57

História e Geografia
existe a predominância da propriedade particular,
algumas organizações sociais usam e possuem a
terra de maneira coletiva. Essa posse coletiva da
terra é comum, também, entre nossas
comunidades indígenas.
É incrível! Analisando documentos e estudando a
forma de saber e de saber fazer de uma sociedade,
podemos reconstruir sua memória, sua identidade
cultural.
Para comprovar ainda mais a autenticidade dessa
região como remanescente de um quilombo, foi
encontrado, através de escavações realizadas por
arqueólogos, um antigo cemitério, ao lado da
capela da Nossa Senhora do Rosário. Os estudos
das ossadas encontradas nessas escavações
vieram comprovar a existência de um cemitério
de escravos.

IDENTIDADE CULTURAL: RESGATE
ATRAVÉS DA MEMÓRIA
Como você pôde perceber pelo estudo que
fizemos, a memória de um povo não se encontra
fechada em um museu. Se, no museu,
encontramos elementos que nos explicam a vida
de diferentes grupos, é também à nossa volta
que encontramos vestígios que explicam toda
uma organização, todo um jeito de viver de um
povo, seus costumes. Ao conjunto de objetos,

58

Ensino Fundamental
construções, costumes, formas de produzir,
de construir, é que chamamos de Patrimônio
Cultural.
Os integrantes do grupo de quilombolas do Vale
do Ribeira, ao acompanharem o estudo realizado
sobre o local em que vivem, seus costumes, sua
forma de sobrevivência, passaram a reconhecer e
a valorizar muito mais tudo aquilo que estava à
sua volta. Passaram a reconhecer e a valorizar o
seu patrimônio cultural. Ser quilombola é agora
motivo de orgulho; afinal, a história deles é uma
história de resistência e luta que só pode fazer
com que sintam orgulho dos seus antepassados.
É dessa maneira, com orgulho, que contam para
seus filhos, e seus filhos contarão para os seus
filhos, a história do quilombo do Vale do Ribeira.
Cada homem e mulher desse grupo se reconhecem
nessa história e conquistam o que chamamos de
identidade cultural. É essa identidade com a
história e a cultura de seu povo que faz com que
falem com orgulho que são quilombolas.
É importante percebermos que não existe o certo
ou o errado nas diferentes formas de organização
da vida social, mas apenas que existem formas
diferentes, que devem ser respeitadas.
O Brasil é um país muito grande e muito rico em
manifestações populares. Todas elas contam um
pouco da história de nosso país e das pessoas que
aqui vivem.

Capítulo III ­ O valor da memória

Desenvolvendo competências

3

Pensando no patrimônio cultural brasileiro, qual alternativa abaixo você consideraria correta:
a) o Brasil possui de norte a sul as mesmas formas de manifestações populares.
b) no Brasil há separação de culturas, ou seja, não se misturaram as formas de pensar e agir
de diferentes grupos sociais.
c) as festas ou manifestações populares acontecem sem nenhuma relação com o passado.
d) no Brasil podemos encontrar manifestações populares diferentes; existe, pois, uma
diversidade cultural.
Qual a resposta que você assinalou como correta?

NOSSO PATRIMÔNIO CULTURAL
Neste capítulo, você acompanhou a luta de um
grupo social para reconhecimento de sua terra, a
busca de suas raízes, a importância do resgate de
sua memória e da preservação de seus costumes e
construções, tudo isso como parte do chamado
patrimônio cultural de um povo, sendo que
patrimônio cultural é tudo aquilo que está ligado
ao saber e ao saber fazer de um grupo.
Analisamos juntos que essa sociedade possui
características específicas, diferentes muitas vezes
das características de outros grupos sociais. Isso
não faz nenhum grupo ser melhor ou pior que
outro, mas apenas diferente.

Essa diferença ocorre no Brasil em diferentes
regiões e se manifesta de diferentes maneiras. Isso
é o que chamamos de diversidade cultural.
Olhe ao seu redor... Para a praça de sua cidade,
para as festas que lá ocorrem, para a igreja
principal e para a capelinha escondida, para o
museu local, para o prédio antigo. Preste atenção
na conversa das pessoas mais idosas e esteja
atento para a história que pode ser contada e
como essa história contada, essa memória
relembrada, reforça nossa valorização do mundo
do qual fazemos parte.

59

História e Geografia

Ensino Fundamental

Desenvolvendo competências

4

1. O sertanejo veste-se de couro dos pés à cabeça e sua indumentária é muito enfeitada.
As casas são geralmente de pau-a-pique, cobertas de sapé ou de folhas de carnaúba. O povo se
alimenta de carne-seca, farinha de mandioca e "jerimum" (abóbora).
MEGALE, Nilza B. Folclore brasileiro. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

Lendo o texto acima, é correto afirmar que :
a) o sertanejo só gosta de carne-seca, farinha de mandioca e jerimum.
b) o patrimônio cultural do sertanejo é igual ao de outros grupos brasileiros.
c) do patrimônio cultural do sertanejo faz parte um tipo específico de roupa, de casa e de comida.
d) não existe um patrimônio cultural específico do sertanejo.
2. Não sei se todo mundo sabe, mas existem 300 palavras italianas incorporadas ao dicionário
brasileiro. Se você pegar nomes de ruas, vai ver a grande influência italiana, a culinária hoje é a
italiana.
PUGLISI, Armando. Memórias de Armandinho do Bixiga: depoimento a Julio Moreno. São Paulo: SENAC, 1996.

A cozinha do Nordeste do país pode ser dividida em três regiões. Uma delas, a da Bahia, mais
exatamente a do Recôncavo baiano e de Salvador, é de origem nitidamente africana, com alguma
influência portuguesa.
Adaptado de: CARVALHO, Ana Judith. Cozinha típica brasileira, sertaneja e regional. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998.

Através da leitura dos dois trechos acima, podemos concluir que:
a) no Brasil existe uma diversidade cultural.
b) no Brasil não houve influência de outros povos.
c) em todas as regiões brasileiras as comidas são iguais.
d) os africanos não contribuíram para a cozinha nordestina.
3. Na cidade de Fortaleza, no Ceará, um grupo de professores reparou que o crescimento rápido da
cidade estava representando um risco para a conservação da memória daquela região. Resolveram,
por isso, desenvolver com seus alunos um estudo sobre as origens de sua cidade.
ORIÁ, Ricardo. Memória e ensino de História. In: BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes (Org.). Saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1998. (Repensando o
ensino).

Para esse estudo, os professores podem levar seus alunos:
a) somente a arquivos, em busca de documentos antigos.
b) somente a museus que possuam objetos e documentos que contem a história de Fortaleza.
c) a museus, arquivos e passeios pela cidade para reconhecerem construções que contem um
pouco da história da cidade.
d) não existe nenhuma forma de se relembrar a história da cidade.

60

Capítulo III ­ O valor da memória

Conferindo seu conhecimento

3
4

A correta é a letra (d), que fala sobre a diversidade cultural de nosso país.
1. Resposta (c). O sertanejo é uma figura típica do interior do Nordeste brasileiro, do sertão. A principal
atividade desse grupo está ligada à pecuária e, em especial, a do boi. Essa atividade explica a importância das
festas do "Bumba-meu-Boi", do tipo de vestimenta, em que predomina o couro, e a importância da carne-seca na
culinária da região. A questão nos mostra que encontramos, no Brasil, formas particulares de se viver e produzir.
2. Resposta (a). Os dois trechos citados na questão mostram elementos de origens diferentes ­ italianos, em São
Paulo e africanos, na Bahia ­ na composição de nossa sociedade. Os africanos vieram para o Brasil no início de
nossa colonização; já os italianos aportaram aqui, em sua maioria, quando se iniciou o processo de libertação da
escravidão. Esses dois grupos, como vários outros (índios, portugueses, espanhóis, árabes etc), acabaram
contribuindo para a formação cultural do Brasil, criando a chamada diversidade cultural.
3. Resposta (c). Essa questão reforça aquilo que estudamos em todo nosso capítulo, ou seja, a idéia de que, para
entendermos nossa história, podemos recorrer à memória. A reconstituição de nossa memória é possível através
de vários elementos: textos de época, depoimentos orais, lendas, rituais, formas de saber e saber fazer, pesquisas
em arquivos, visitas a museus, fotos, objetos, construções etc. Todos esses elementos fazem parte do nosso
patrimônio cultural.

61

História e Geografia

ORIENTAÇÃO

Ensino Fundamental

FINAL

Para saber se você compreendeu bem o que está apresentado neste capítulo, verifique se está apto a
demonstrar que é capaz de:
· Identificar características de diferentes patrimônios étnico-culturais e artísticos.
· Reconhecer a diversidade dos patrimônios étnico-culturais e artísticos em diferentes sociedades.
· Interpretar os significados de diferentes manifestações populares como representação do patrimônio
regional e cultural.
· Comparar as diferentes representações étnico-culturais e artísticas.
· Identificar propostas que reconheçam a importância do patrimônio étnico-cultural e artístico para a
preservação das memórias e das identidades nacionais.

62

Capítulo IV
CIDADANIA E DEMOCRACIA

COMPREENDER

E VALORIZAR OS FUNDAMENTOS DA

CIDADANIA E DA DEMOCRACIA, DE FORMA A
FAVORECER UMA ATUAÇÃO CONSCIENTE DO
INDIVÍDUO NA SOCIEDADE.

Antônio Aparecido Primo - Nico

História e Geografia

Ensino Fundamental

Capítulo IV

Cidadania e democracia
ANALISANDO O PROBLEMA
Leia com atenção as informações abaixo:

Pense sobre as informações do jornal e responda
às seguintes questões em seu caderno.

LEIS TRABALHISTAS NÃO EXISTEM
PARA A MAIORIA

· Qual o título da notícia? Sobre o que ela nos
informa?

Pesquisa realizada pelo Datafolha em
126 municípios de todos os estados
brasileiros aponta que a maioria dos
trabalhadores do país vive à margem
da lei trabalhista.

· Você sabe o que são leis trabalhistas? Desde
quando elas existem?

A maior parte deles não recebe 13º
salário (53%) nem férias remuneradas
(54%).

Saiba que as leis trabalhistas mostram os direitos
e deveres de trabalhadores e patrões.

Quarenta e seis por cento deles nunca
trabalharam com registro em carteira
profissional.
Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 mar. 2002, p. A1 e E1.

· Sabe o que é 13º salário, férias remuneradas e
carteira profissional?

As leis trabalhistas podem mudar? Como? Em
benefício de quem?
Agora continue respondendo.
1. Você trabalha?
Se sim, tem carteira assinada? Recebe 13º salário?
Tem direito a férias?
Se não trabalha, por quê?
2. Na sua opinião, os trabalhadores brasileiros
sem direito a registro, 13º salário e férias
remuneradas deveriam tentar consegui-los?
Se sim, como? Se não, por quê?
Mais adiante estas perguntas serão comentadas.

64

Capítulo IV ­ Cidadania e democracia

VOLTANDO NO TEMPO
Voltemos agora para o período entre 1889-1940,
final do século XIX e começo do século XX. A
industrialização brasileira cresceu nessa época. As
principais indústrias concentravam-se em São
Paulo e no Rio de Janeiro, a capital do país.
Nelas, trabalhavam muitos operários e operárias.
Observe a figura ao lado. Nessa fábrica,
trabalhavam mulheres. Repare que existe um
homem sentado ao fundo, controlando
as operárias.
Leia alguns relatos sobre as condições de vida e
trabalho nesse período.
Operárias da Indústria de Seda Nacional, Campinas, SP,
1923. In: COLEÇÃO NOSSO SÉCULO. São Paulo, Abril
Cultural. v. 2, p. 133.

PRIMEIRO

RELATO:

"Os trabalhadores do Brasil não têm pagamento pontual dos seus salários. Para
recebê-los, muitas vezes, são obrigados a declarar-se em greve. Trabalham dez, doze ou até
quatorze horas por dia. O que recebem é tão mesquinho que toda a família, até os filhos
de doze e quatorze anos, está obrigada a ir à fábrica (...)"
Adaptado de CARVALHO, Benedito de. Brasil: La situación económica del proletariado. El Trabajador Latino Americano, v. 1, n. 6-7, p.17-8, 1928. In: HALL, M.;
PINHEIRO, P. S. A classe operária no Brasil. São Paulo: AlfaÔmega, 1979. v. 2, p. 135.

SEGUNDO

RELATO:

"Uma aluna de 11 anos trabalhava no turno da noite. (...) Às 4 horas da tarde, ela
saía da escola e ia para casa jantar. Entrava na fábrica às 6 horas e trabalhava até
meia-noite."
Adaptado do relato da professora Dona Brites. In: BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: T.A.Queiroz, 1983. (Biblioteca de Letras e
Ciências Humanas: estudos brasileiros; 1)

TERCEIRO

RELATO:

"As habitações que a fábrica construiu são um presente de grego para os operários. Não
são forradas, nem assoalhadas. O seu aluguel é de 40$000 (quarenta mil réis). A água é
irregular etc..."
A Plebe, Itu, 10 fev. 1934. Sobre as moradias da fábrica São Pedro. Adaptado de DECCA, M. Auxiliadora Guzzo. Cotidiano de trabalhadores na República: São Paulo,
1889/1940. São Paulo: Brasiliense, 1990. p. 39. (Coleção Tudo é História).

Desenvolvendo competências

1

Agora responda às questões abaixo, usando as informações dos relatos.
1. Os operários tinham direitos trabalhistas nessa época? Justifique sua resposta.
2. Será que lutaram para tê-los? Como?

65

História e Geografia
Você deve ter percebido que, entre 1889 e 1940,
não existiam direitos trabalhistas, como jornada
de 8 horas por dia, proibição do trabalho infantil,
salário mínimo suficiente para se ter boas
condições de moradia etc. Foi preciso muita
luta coletiva e individual para que os operários
conquistassem direitos trabalhistas e outros
direitos do cidadão para ter uma vida
com qualidade.
Durante o restante do texto, serão apresentadas
outras informações a respeito desse assunto. Faça
uma leitura atenta, utilizando dicionário, se for
necessário. Faça anotações em seu caderno.
Tomara que você aprenda bastante com os
estudos propostos nesse CAPÍTULO de
Ciências Humanas!

AS LEIS TRABALHISTAS,
CIDADANIA E DEMOCRACIA
Pense e responda.
1. Na sua opinião, o que é ser cidadão nos dias
atuais?
As informações na introdução deste capítulo
mostram que, atualmente, apesar de existirem leis
regulando os direitos e deveres do trabalhador,
elas não são totalmente cumpridas no Brasil.
Além disso, segundo a mesma pesquisa, mais da
metade dos trabalhadores brasileiros ganha pouco
e trabalha muito tempo: 56% recebem, no
máximo, dois salários mínimos e 55% trabalham
mais de 40 horas por semana.
Isso traz sérios problemas. Muitos desses
indivíduos têm pouco tempo para descansar das
extensas jornadas de trabalho, que ocupam até
seis dias da semana. Outros não podem
consumir vários produtos básicos para uma
alimentação saudável. A situação desses
trabalhadores fica ainda mais dramática,
se pensarmos na insegurança provocada pelos
altos índices de desemprego.
Sabemos que a maior parte de nossa sociedade
não possui boas condições de vida. Basta lembrar
das dificuldades para se fazer tratamentos
médicos e dos adultos brasileiros que não

66

Ensino Fundamental
conseguiram freqüentar escola quando eram
jovens e/ou crianças.
Tudo isso mostra que muitos direitos sociais dos
cidadãos estão apenas no papel de leis, como a
Constituição Federal e a Consolidação das Leis
Trabalhistas (CLT).

Você sabia que a CLT foi assinada em
1943 pelo presidente Getúlio Vargas?
Algumas dessas leis, como a jornada de
8 horas por dia, já haviam sido
conquistadas por alguns grupos de
trabalhadores urbanos. Outras leis
foram acrescentadas à CLT depois de
1943, como o direito a receber o 13º
salário, criado em 1963, no governo do
presidente João Goulart.
Por outro lado, conhecemos as dificuldades que
muitos brasileiros têm para fazer cumprir
alguns de seus direitos individuais.
Teoricamente, todos têm liberdade para
comprar um local de moradia. Porém, muitos
não conseguem ser proprietários de suas casas
nem morar em ambientes saudáveis.
Teoricamente, todos têm direito à justiça. Mas
alguns não têm dinheiro para contratar um
bom advogado.
Isso mostra que muitos direitos civis dos
cidadãos, também, estão apenas no papel.
Felizmente, nem tudo é problema! No período
de 1889-1930, também conhecido como
"Primeira República", mulheres e analfabetos
não podiam votar nem ser votados. Hoje todos
nós temos os mesmos direitos políticos.
Pense e responda.
2. Segundo o texto, quais os tipos de direitos dos
cidadãos? Dê pelo menos um exemplo para cada
tipo.

Capítulo IV ­ Cidadania e democracia

Desenvolvendo competências

2

Leia o trecho da reportagem.
Jornada de 12 horas por R$20,00
Danielle Maximiliano Alves, 18 anos, quer ser psicóloga. `Deve ser bom poder dar conforto
as outras pessoas', justifica a jovem, que mora na favela do Vidigal, Zona Sul do Rio.
Seus planos, entretanto, foram interrompidos no ano passado, quando largou os estudos
na 8ª série para distribuir propaganda em sinal de trânsito. O trabalho, no qual gasta
12 horas por dia, não é fixo e rende apenas R$ 20,00.
O dinheiro reforça o orçamento da casa de um cômodo, que divide com a mãe, Sandra,
37 anos, e os irmãos Júlia, 5, e Danilo, 13. Os quatro vivem com uma renda de pouco
mais de R$300,00 por mês (...)
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, p. 21, 21 abr. 2002.

Agora responda.
Danielle pode ser considerada uma cidadã? Justifique sua opinião.

Na perspectiva atual, para ser considerada cidadã
uma pessoa precisa ter garantidos todos os
direitos sociais, civis e políticos e participar
integralmente dos benefícios de uma sociedade.
Isso nos leva a perceber que Danielle Alves, como
muitas outras jovens, não está tendo seus direitos
respeitados. Não pode freqüentar escola porque
precisa trabalhar. Vive em uma casa apertada
para as quatro pessoas de sua família...
Mas, além dos direitos, um cidadão também
possui deveres sociais, civis e políticos.
Precisa assumir e cumprir esses deveres em seu
cotidiano. Para ser considerado um cidadão,
precisa, por exemplo, colaborar para manter os
locais de moradia limpos; ouvir e debater idéias
diferentes das suas; respeitar outras opções
religiosas; pensar e discutir sobre os programas
dos candidatos antes de votar numa eleição;
participar de associações para reivindicar

melhorias no trabalho e nos lugares
onde mora etc.
Danielle, a jovem da reportagem acima, quer se
tornar psicóloga para ajudar as pessoas. Esse
desejo mostra que ela pretende cuidar de outras
pessoas. Ela é um exemplo de cidadã que pensa
em seus deveres e não apenas em seus direitos.
Para existir cidadania, é preciso que todas as pessoas
de uma sociedade tenham direitos e deveres iguais.
Em outras palavras, para se viver em sociedade de
maneira digna é preciso que as necessidades
materiais e espirituais de homens, mulheres,
crianças, jovens, idosos, negros, indígenas e
brancos sejam respeitadas.
Pense nas informações e idéias desse item.
Você acha que todos os brasileiros podem ser
considerados cidadãos? Justifique no caderno.

67

História e Geografia

Ensino Fundamental

Desenvolvendo competências

3

Agora tente resolver o teste a seguir. Lembre-se de que este tipo de atividade é comum em
exames e concursos.
Senhor Raimundo e sua mulher vivem, há mais de 50 anos, às margens do Rio Preguiças, na
região conhecida como "Lençóis Maranhenses". Eles e seus 12 filhos nunca conseguiram
estudar porque lá não existiam escolas que pudessem freqüentar. Senhor Raimundo deseja
que seja criado um curso de educação de jovens e adultos perto das terras que sua família
ocupa. Se isso acontecer, ele e sua mulher tentarão realizar um de seus maiores sonhos:
aprender a ler e escrever.
Que direito dos cidadãos brasileiros foi negado ao Senhor Raimundo, sua mulher e seus filhos?
a) O direito de viver numa terra para manter sua família.
b) O direito político de aprender a escrever e a ler.
c) O direito civil de estudar numa escola.
d) O direito social de ter educação escolar.
Este teste pretende avaliar se você é capaz de ler e compreender um texto, identificar os
fundamentos da cidadania e relacioná-los à vida cotidiana.

Para responder às perguntas anteriores, você
deverá ter compreendido o conceito de cidadania,
explicado desde o início desse item.
Ele é usado, até hoje, por muitos estudiosos de
História, Geografia, Sociologia, Política, Filosofia
etc. É importante você saber também que ele está
relacionado ao conceito de democracia.
É COMUM OUVIR-SE QUE VIVEMOS NUMA
DEMOCRACIA.
NA SUA OPINIÃO, EXISTE DEMOCRACIA NO
BRASIL? POR QUÊ?
Para entender mais sobre democracia, veja a foto
e os relatos a seguir.

68

Repressão policial contra operários que participavam das comemorações do Dia
do Trabalho, em 1927, no Rio de Janeiro. In: PETTA, Nicolina Luiza de.
A fábrica e a cidade até 1930. São Paulo: Atual, 1995. p.25. (Coleção A vida
no tempo).

Capítulo IV ­ Cidadania e democracia

PRIMEIRO

RELATO:

A maior parte dos Primeiros de Maio na praça eram pauladas(...). Uma vez, no Largo do Pari
(em São Paulo) tinha de 5 a 6 mil pessoas. O comício estava marcado para as dez horas.
Quando chegou a hora do comício, apareceu a cavalaria com 150 soldados que desmancharam
o comício com cassetetes, cavalo por cima da turma e o comício não foi realizado.
Adaptado do relato do operário Amadeu sobre os Primeiros de Maio entre os anos 1910-1930. In: BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo:
T.A.Queiroz, 1983. p. 93.

SEGUNDO

RELATO:

1,6 milhão festejam Primeiro de Maio nas ruas
A Força Sindical e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) realizaram festas distintas no
Dia do Trabalho.
A Força Sindical gastou R$ 2,5 milhões em sorteios de casas e carros e shows de famosos
na zona norte de São Paulo. Atraiu 1,5 milhão de pessoas ­ o mesmo público do ano
passado. (...)
A CUT fez festas espalhadas pela capital e ABC paulista com menos show e menos
público: 156 mil pessoas.(...)
Adaptado do jornal Agora, São Paulo, 2 maio 2002, p. A1.

Desenvolvendo competências

4

A que época se referem a foto e o primeiro relato? E o segundo?
Na sua opinião, quando havia mais liberdade e democracia? Por quê?

No mundo atual, existem duas formas básicas de
regimes políticos: democráticos e autoritários.
Nos regimes democráticos, os direitos do homem
e do cidadão são respeitados e nos regimes
autoritários não.
Tanto a foto quanto o primeiro relato mostram
que o direito de livre manifestação não foi
respeitado. Como no segundo relato os
trabalhadores puderam comemorar livremente seu
dia, pode-se afirmar que em 2002 havia um
regime mais democrático no Brasil.
Entre os anos 1910-1930, muitas manifestações
de trabalhadores não eram permitidas pelos
governos e por seus patrões. Tanto que,
normalmente, a polícia tentava impedir as
comemorações de Primeiro de Maio. Portanto,

nessa época, os governos estaduais e federal eram
autoritários em relação aos trabalhadores.
Num regime autoritário, muitos direitos do
cidadão não são respeitados. Por exemplo: se os
trabalhadores quiserem organizar um sindicato
livre do controle do governo, e seus dirigentes
forem presos e o sindicato fechado, esse regime
político é autoritário.
Por outro lado, num regime democrático ou
democracia os sindicatos têm o direito de realizar
manifestações, todas as classes sociais podem
organizar sindicatos e os direitos humanos são
respeitados.
Os regimes autoritários não respeitam os direitos
humanos (ou direitos do homem). Por exemplo:
prendem e matam adversários políticos e não

69

História e Geografia
costumam sofrer punições. Nas democracias,
se isso acontecer, os responsáveis pelas mortes
devem ser julgados e condenados.
Lembre-se de que o direito à vida é um dos
direitos humanos fundamentais. É o que afirma
um conhecido jurista brasileiro:
A vida é necessária para que uma pessoa
exista. Todos os bens de uma pessoa, o dinheiro
e as coisas que ela acumulou, seu prestígio
político, seu poder militar, o cargo que ela
ocupa, sua importância na sociedade, até seus
direitos, tudo isso deixa de ser importante
quando acaba a vida. Tudo o que uma pessoa
tem perde o valor, deixa de ter sentido, quando
ela perde a vida. Por isso, pode-se dizer que a
vida é o bem principal de qualquer pessoa, é o

Ensino Fundamental
primeiro valor moral de todos os seres
humanos.
DALLARI, Dalmo de Abreu. Viver em sociedade. São Paulo: Moderna, 1985.

Alguns estudiosos afirmam que a democracia é um
regime político em que devem existir liberdade e
igualdade. Liberdade relacionada aos direitos
políticos dos cidadãos; por exemplo: de participar
no exercício do poder político. Liberdade ligada
aos direitos civis dos cidadãos; por exemplo: de
expressar suas opiniões sem censuras, de ir e vir
sem ser parado pela polícia. Igualdade relacionada
aos direitos sociais dos cidadãos; por exemplo:
condições para ter uma vida com qualidade, ou
seja, direito a atendimento médico-hospitalar,
escola, salário digno etc.

Desenvolvendo competências

5

Para você, o que é democracia?
Como as pessoas devem agir numa democracia?
Existe democracia no Brasil? Por quê?
Sua opinião mudou após as últimas leituras? Por quê?
Escreva suas conclusões no caderno.

Muitas pessoas afirmam que é preciso haver
melhor distribuição da riqueza para existir
democracia no Brasil. Portanto, a democracia
ainda precisa avançar, tanto em nosso país como
no mundo.
Além disso, para existir uma democracia real,
é necessário que haja maior participação da
população nas decisões sobre vários aspectos da
vida cotidiana.
Assim, para haver democracia, não basta que a
população escolha seus representantes
conscientemente. É preciso participar nos
sindicatos, associações de moradores,
organizações em defesa dos direitos do
consumidor, clubes de lazer, eleições de
conselhos tutelares em defesa dos direitos da
criança e dos adolescentes etc.

70

Para existir democracia, também é necessário que
o povo participe na política de outras formas,
como o plebiscito e iniciativa popular previstos
na Constituição brasileira de 1988.
Segundo a socióloga brasileira Maria Victória
Benevides, se os indivíduos agirem dessa maneira,
podem ser considerados cidadãos ativos.
Lembre-se das primeiras perguntas desse capítulo:
Na sua opinião, a parte dos trabalhadores
brasileiros sem direito a registro, 13º salário e
férias remuneradas deveria tentar consegui-los?
Se sim, como? Se não, por quê?
Veja, a seguir, uma forma de responder a
essas questões.
Muitos estudiosos do tema "democracia e
cidadania no Brasil atual" pensam que todos os

plebiscito
voto do povo, por sim ou por não, sobre uma proposta,
lei ou resolução que lhe seja submetida.

Capítulo IV ­ Cidadania e democracia
assalariados deveriam ter esses direitos
trabalhistas. Afirmam que os trabalhadores
também deveriam estar organizados e ativos para
exigir que seus direitos sejam cumpridos. Caso
eles não estejam sendo cumpridos, as leis
permitem que esses direitos sociais do cidadão
sejam reivindicados através da Justiça do
Trabalho (esfera pública), de negociações entre
patrões e empregados nos locais de trabalho
(esfera privada ou particular), de manifestações
públicas, de greves dirigidas por sindicatos
(esfera pública) etc.

CIDADANIA E DEMOCRACIA
ATRAVÉS DE JORNAIS: LUTAS
RECENTES SOBRE O PROJETO
DE FLEXIBILIZAÇÃO DA CLT
Nos últimos anos, os jornais da imprensa escrita,
do rádio e da televisão têm tratado bastante do
Projeto de flexibilização das leis trabalhistas.
Trata-se do Projeto de Lei Complementar número
134 de 2001, que está sendo discutido no
Congresso Nacional. Ele também é chamado
Projeto Dornelles, pois foi apresentado pelo exMinistro do Trabalho do governo Fernando
Henrique Cardoso.
Esse projeto prevê mudanças nos direitos
trabalhistas, desde que os sindicatos de patrões e
trabalhadores assinem um acordo. Assim, por
exemplo, há possibilidade de mudança nas
porcentagens do adicional noturno. Hoje a CLT
prevê acréscimo de 20% no trabalho, após
22 horas; esse projeto prevê que o acréscimo pode
ser negociado, ou seja, que os sindicatos podem
decidir pelo aumento ou diminuição desta
porcentagem.
O Projeto de flexibilização das leis trabalhistas foi
apresentado aos deputados federais e senadores
no final de 2001. Veja, no quadro ao lado, algumas
das modificações propostas sobre os direitos de
férias, 13º salário e licença maternidade.
O que você acha dessas mudanças?
As duas maiores centrais sindicais brasileiras têm
opiniões diferentes sobre esse projeto de
flexibilização. A Central Única dos Trabalhadores

Você sabia que: em 1993, houve
um plebiscito popular para escolhermos
entre monarquia e república? Os
cidadãos podem apresentar projetos
de iniciativa popular propondo leis
para o Congresso debater? E que
os projetos de iniciativa popular
necessitam de, pelo menos, um milhão
de assinaturas para serem apresentados
ao Congresso?

Para os trabalhadores assalariados com
registro em carteira, a Constituição
Federal e a CLT garantem:
· Férias de 30 dias por ano. Hoje, as
férias só podem ser repartidas em dois
períodos de 20 e de 10 dias.
O Projeto de flexibilização quer que as
férias possam ser aumentadas,
reduzidas ou divididas em várias
partes; assim, por exemplo, os 30 dias
de férias poderiam ser divididos em
seis períodos de cinco dias ao longo de
um ano, aumentados para 40 dias etc.
· O pagamento do 13º salário feito em
duas parcelas: novembro e dezembro.
O Projeto de flexibilização quer que os
sindicatos possam fazer acordos para
que o 13º salário seja pago de outras
formas; assim, por exemplo, ele poderia
ser pago de uma única vez ou dividido
até em 12 parcelas.
· Licença maternidade de 120 dias.
O Projeto de flexibilização quer que
essa licença possa ser aumentada ou
reduzida, conforme as negociações
entre patrões e empregados; assim, por
exemplo, ela poderia ser de 90 ou de
150 dias.

esfera pública
tudo o que é relativo, destinado ou pertencente ao
coletivo, a todos os membros de uma sociedade.

esfera privada ou particular
tudo o que é relativo, destinado ou pertencente a um
indivíduo, a uma pessoa.

flexibilização
qualidade de flexível, maleável, o que pode ser
seguido com facilidade.

71

História e Geografia

Ensino Fundamental

(CUT) defende que ele trará prejuízos aos
empregados, a Força Sindical pensa que ele
trará benefícios.
Lembre-se de que as centrais sindicais são
compostas por vários sindicatos de todo o país.
Conforme dizem seus estatutos, uma de suas
funções principais é defender os interesses dos

PAULINHO:

A FLEXIBILIZAÇÃO DA

CLT

trabalhadores, associados ou não. É importante
informar-se sobre suas idéias e formas de atuação
para perceber se estão realmente atingindo
esta função.
Leia agora algumas opiniões dos presidentes da
Força Sindical e da CUT a respeito deste projeto.

AJUDA A CRIAR EMPREGOS

Paulinho diz que a mudança na CLT cria "um clima favorável para as indústrias e para o
Brasil. A médio prazo, poderia atrair capital internacional. O que cria emprego é
crescimento econômico, mas a flexibilização ajuda". (...)
Pergunta: Uma das propostas da Força Sindical é diluir as férias em períodos de até cinco
dias, no mínimo. Qual a vantagem para o trabalhador?
Resposta: O trabalhador terá uma vida mais facilitada. Hoje existem apenas duas
possibilidades de férias: 30 dias corridos ou 20 dias de férias e o restante em dinheiro.
Podemos fazer mais duas alternativas: 15 dias de férias e 15 dias em dinheiro ou tirar
férias de apenas uma semana por até quatro vezes ao ano. Existem milhares de pessoas
que gostariam de tirar as férias assim. Tem muita gente, principalmente em cargos de
chefia, que não consegue sair um mês inteiro de férias. Por que não dividir também o
décimo terceiro salário? A alternativa seria receber 40% em dezembro e o restante
durante todo o ano. Isso facilitaria a vida de muita gente que está apertada com alguma
prestação para pagar (...) Várias mulheres têm falado que querem vender dias da licençamaternidade. É um assunto polêmico, mas tem gente que está sem dinheiro na hora em
que o filho nasce e, por isso, prefere vender os direitos.(...)
Adaptação de trechos da entrevista à Globonews em 3 abr. 2002. Paulo Pereira da Silva, 45 anos, é presidente da Força Sindical. Foi presidente do Sindicato dos
Metalúrgicos de São Paulo.

A CLT

E A MODERNIDADE

João Antônio Felício

A mudança do artigo 618 da CLT (...) é uma armadilha ao trabalhador. Ela não trará
modernidade nas relações entre patrões e empregados. (...)
Num país de analfabetos, epidemias, concentração excessiva da renda e da terra, de
milhões de desempregados e outros tantos vivendo como miseráveis, moderno seria o
trabalhador fazer três refeições ao dia, ter emprego e salários decentes, ter filhos numa
boa escola e com saúde.(...)
Por outro lado, o que seria arcaico (não moderno)? Não seria o raciocínio do presidente da
Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, que não vê problemas de a mulher tirar dois meses
de licença maternidade e vender dois para o patrão? Ou que 8 milhões de pessoas recebam
meio salário mínimo por mês (R$ 90)? (...)
A modernidade que a CUT deseja é a geração de empregos, a redução do número de
empregados sem registro em carteira e o crescimento sustentado. (...)
O trabalhador não sairá ganhando ao negociar suas férias, o seu 13º salário, a sua
licença-maternidade, o seu descanso semanal remunerado ou a sua sagrada hora de
almoço em função do momento vivido pelo país.
Adaptação de trechos do artigo de opinião publicado no site da CUT em 3 abr. 2002. João Antônio Felício, 51 anos, professor, é presidente da CUT. Foi presidente da
Associação dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo.

72

Capítulo IV ­ Cidadania e democracia

Desenvolvendo competências

6

Após a leitura dos 2 textos, responda às questões abaixo em seu caderno.
Que idéias sobre o projeto de flexibilização Paulinho defende na entrevista? Que idéias João
Felício defende no artigo de opinião?
Quais as diferenças entre estas idéias? Justifique sua resposta.
O que a Força Sindical e a CUT têm feito para defender suas posições?
Você deve ter percebido que Paulo Pereira da Silva é favorável ao projeto e que João Antônio
Felício é contrário a ele. É preciso aprender que as diferenças de idéias são normais numa
democracia e que se deve refletir sobre elas. Para se posicionar sobre alguma polêmica, podese pesquisar e ouvir outras opiniões. Também é interessante pesquisar quem são e como agem
os autores das opiniões em debate, assim como as formas de atuação dessas duas centrais
sindicais. Saiba que a CUT realizou manifestações públicas contrárias ao projeto, em 21 de
março de 2002, e que a Força Sindical fez uma assembléia, no Sindicato dos Metalúrgicos de
São Paulo, para apoiar o projeto de flexibilização da CLT.

O que você acha das mudanças propostas pelo
projeto nº 134/01? Sua opinião mudou após ler a
entrevista e o artigo de opinião? Por quê?
Lembre-se de que os direitos sociais do cidadão
referem-se a um mínimo de bem-estar econômico
para levar uma vida de acordo com os padrões que
prevalecem na sociedade. Assim, o projeto de
flexibilização em discussão entre os políticos do

Congresso refere-se aos direitos sociais do cidadão.
Discutir mudanças nas leis, através dos
representantes eleitos ao Congresso, é uma das
formas de funcionamento da democracia no
Brasil e no mundo atual. Mas existem outras
formas de consultar as opiniões da população
sobre um tema tão polêmico quanto esse Projeto
de flexibilização das leis trabalhistas.

Desenvolvendo competências

7

Assinale a alternativa que não mostra uma maneira de o povo opinar e participar como
cidadãos ativos numa democracia.
a) Escrever para deputados e senadores sobre como deveriam votar num projeto, a fim de
tornar suas posições mais representativas.
b) Participar de reuniões, assembléias e manifestações em que sindicatos e associações
estejam discutindo um assunto polêmico.
c) Eleger candidatos aos cargos de deputados, senadores, presidente, governador e prefeito
que defendam idéias diferentes das suas.
d) Organizar abaixo-assinados defendendo o que se julgar mais correto e entregá-los às
autoridades competentes.

73

História e Geografia

Ensino Fundamental

SOBRE OS TIPOS DE MATÉRIAS
JORNALÍSTICAS
Nos itens anteriores, foram mostrados os
seguintes tipos de matérias jornalísticas: uma
reportagem ("Jornada de 12 horas por R$ 20,00"),
uma notícia de primeira página ("1,6 milhão
festejam Primeiro de Maio nas ruas"), uma
entrevista ("Paulinho: a flexibilização da CLT
ajuda a criar empregos") e um artigo de opinião
("A CLT e a modernidade").

O editorial é um artigo que expressa a opinião
dos donos e responsáveis por um jornal. A charge
é um desenho que expressa a opinião do autor
sobre um fato. A foto jornalística expressa as
sensações e idéias de um fotógrafo, assim como a
escolha dos editores de um jornal.

Numa notícia, geralmente, apresentam-se os
seguintes elementos: um fato ou acontecimento,
pessoas envolvidas, onde, quando, como e por
que ele aconteceu. A reportagem é uma espécie
de notícia mais aprofundada, mais rica em
informações; pode ser composta de trechos de
entrevistas, de opiniões, relatos de pessoas etc.
Num artigo de opinião, apresentam-se os
argumentos de um autor para defender suas
idéias sobre um fato ou assunto.
Existem outros tipos de matérias jornalísticas
além da notícia, reportagem e artigo de opinião: o
editorial, a foto, a charge, etc.

Desenvolvendo competências

8

Agora responda às questões abaixo.
1. O que os dois homens que aparecem na
frente da foto estão fazendo?
2. Na sua opinião eles podem ser
considerados cidadãos? Por quê?

Foto de Luiz Morier, 2002.
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 abr. 2002. p. 21.

74

Capítulo IV ­ Cidadania e democracia

Desenvolvendo competências

9

Novo presidente mostra o TST mais longe do governo
Vitor Nuzzi
Francisco Fausto, o novo presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), criticou várias
vezes o projeto do Executivo que muda o artigo 618 da CLT. Na sua opinião, qualquer
alteração deve ser precedida de um debate com todas as correntes de interpretação
sobre esse tema.
Fausto classificou a CLT de bela carta trabalhista. (...) Favorável a mudanças, ele observou
que o projeto vai contra todo o complexo sistema construído em torno do Direito do
Trabalho(...)
Algumas das afirmações de Francisco Fausto revelam diferenças em relação a posições
defendidas por Almir Pazzianotto, ex-presidente do TST. Defensor do projeto, Almir considera
a CLT um fator inibidor do emprego, por tratar de forma igual realidades sociais e regionais
diferentes.
Adaptado do Diário de São Paulo, São Paulo, 14 abr. 2002, p. B5.

Agora responda em seu caderno.
1) Qual o título da matéria, o jornal e a data em que foi publicada?
2) De que assunto trata essa matéria? Quem a escreveu?
3) Qual a opinião do novo presidente do TST sobre esse assunto?
4) Que diferença de opinião aparece nessa matéria?
5) Essa matéria é uma notícia, uma reportagem, uma charge, um artigo de opinião ou um
editorial? Justifique.
6) É possível perceber se o jornalista se posiciona em relação ao assunto do texto que ele
escreveu? Justifique.

Você deve ter percebido que essa matéria trata
do projeto de flexibilização das leis trabalhistas.
Nela, o novo presidente do Tribunal Superior
do Trabalho fez mais críticas do que elogios
ao projeto. Ainda segundo o jornalista, o
ex-presidente desse Tribunal apóia esse projeto.

trechos de entrevistas. Ela é mais profunda que
uma simples notícia; porém, é menos profunda do
que o artigo de opinião de João Antônio Felício
citado no item 3. Seu título é "Novo presidente
mostra o TST mais longe do governo".

Essa matéria é uma reportagem. Pode-se perceber
isso porque nela aparecem informações, idéias e

75

História e Geografia

Ensino Fundamental

Uma análise inicial dessa reportagem pode sugerir
que o jornalista Vitor Nuzzi tentou ser imparcial
em relação à polêmica sobre o projeto. Tanto que
fez questão de escrever opiniões diferentes.
Porém, uma análise mais cuidadosa revela que
este trecho da reportagem concedeu mais espaço
para as idéias de Francisco Fausto que de Almir
Pazzianotto. Portanto, pode-se concluir que o
jornalista escreveu uma reportagem que critica
mais do que apóia o projeto de flexibilização das
leis trabalhistas.
Essa conclusão tem efeitos importantes. Ao
contrário do que se afirma comumente,

as reportagens e notícias não são imparciais, não
revelam a realidade tal qual ela é. As matérias
jornalísticas revelam as idéias que seu autor tem
sobre o assunto ou fato. Essas idéias ou versões
podem ter sido escritas conscientemente ou não.
Assim, os jornais da imprensa escrita, do rádio ou
da televisão trazem idéias claras ou ocultas sobre
os assuntos de que tratam. Até mesmo as
informações apresentadas revelam opiniões sobre
um fato. E essas idéias e informações influenciam
muito na formação das opiniões das pessoas de
todos os níveis sociais no Brasil e no mundo.

Desenvolvendo competências

10

Responda no caderno.
Você concorda que os jornais da imprensa escrita, do rádio e da televisão influenciam na
formação da opinião das pessoas? Por quê?

CONFLITOS SOCIAIS,
CIDADANIA E DEMOCRACIA
Recorde o que você já leu nesse capítulo sobre a
situação dos trabalhadores brasileiros no período
de 1889 a 1930 e na atualidade. Lembre-se de que
já vimos os limites da cidadania e da democracia
no Brasil nessas épocas. A seguir, serão estudadas
outras idéias e informações para você ampliar seus
conhecimentos e, assim, poder fazer mais
comparações entre o presente e o passado.
Em 15 de novembro de 1889, um golpe militar
derrubou a monarquia e iniciou uma nova forma
de governo no Brasil: a república. A Proclamação
da República deve ser entendida como parte de
um processo de mudanças que estava
acontecendo no país desde 1850. Como afirma a
historiadora Emília Viotti da Costa, as principais

mudanças eram: a decadência dos grandes
proprietários de terra tradicionais, o fim da
escravidão, a chegada de muitos imigrantes
(italianos, portugueses, espanhóis, alemães etc),
o processo de industrialização e urbanização
(crescimento das cidades e das fábricas), as
disputas entre zonas produtoras (como as regiões
de açúcar e café) e a campanha pela federação
(mais poder para os políticos em suas regiões).
Lembre-se de que, na monarquia brasileira do
século XIX, o poder do rei era hereditário e
vitalício; segundo a Constituição monárquica,
isso significava que, após a morte do rei D. Pedro
II, sua filha Isabel tornar-se-ia nossa rainha ou
imperatriz. Depois do golpe que criou a república,

imparcial
que não toma partido numa polêmica; que julga
sem paixão e com justeza.

76

monarquia

república

forma de governo em que o poder supremo é exercido por
um monarca ou rei; geralmente este poder é hereditário e
vitalício (na Inglaterra atual, por exemplo, o cargo deverá
ser ocupado pela rainha Elisabeth II até sua morte,
passando então para seu filho, Príncipe Charles).

forma de governo em que um ou vários indivíduos eleitos
pelo povo exercem o poder supremo por tempo determinado
(no Brasil atual, por exemplo, o presidente, deputados
federais e senadores são eleitos pelo povo de quatro em
quatro anos).

Capítulo IV ­ Cidadania e democracia
o poder executivo passou a ser eletivo e
temporário; pelas novas leis, os presidentes
deveriam ser eleitos de quatro em quatro anos.
As principais formas de governo no mundo de
hoje continuam a ser a monarquia e a república.
Apesar dessas permanências, houve mudanças
no funcionamento desses tipos de governo. A
Espanha, por exemplo, tem uma monarquia
parlamentarista; lá, o primeiro ministro é eleito
pelo povo e tem mais poderes que o rei. O Brasil
continua republicano, mas os analfabetos só
puderam votar a partir de 1988 (lembre-se de
que eles não tinham esse direito civil no começo
da república).
Na primeira Constituição republicana do Brasil
(de 1891), todos os brasileiros maiores de 21 anos
eram considerados eleitores, com exceção dos
analfabetos, mendigos e praças militares. Apesar
de as leis não proibirem o voto feminino, na
prática, as mulheres eram impedidas de votar. Em
1894, cerca de 2% da população votou nas
eleições. Como dá para perceber, a quantidade de
eleitores era pequena. Aliás, era só um pouco
maior do que o 1% dos brasileiros que
normalmente participaram das eleições para
deputados no governo monárquico após 1881.
Assim sendo, podemos perceber que, no Brasil da
"Primeira República (1889-1930)", os direitos de
cidadania eram bastante limitados. Você lembra que
estudamos sobre a repressão a muitas manifestações
de Primeiro de Maio desse período? Por essas e
outras razões, muitos estudiosos afirmam que
existiam muitos limites à democracia no país.
Mas é importante lembrar que os diversos grupos
sociais lutavam para ampliar seus direitos de
cidadãos e tornar o governo mais democrático.
É o caso das mulheres que, após muitas
manifestações, conquistaram o direito de ser
eleitoras em fevereiro de 1932. Aliás, essa nova
Lei Eleitoral transformou o voto aberto em voto
secreto, dificultando as fraudes. Tudo isso, como
você deve perceber, tornou maior a participação
no processo eleitoral.

Leia e pense sobre a tabela a seguir.

Setor de trabalho
no Brasil

Porcentagem do
trabalho em 1920

Agricultura, pecuária
e extrativismo

69,7%

Serviços

16,5%

Indústria

13,8%

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 4. ed. São Paulo: EDUSP: FDE, 1996. (Didática;
1). Tabela baseada no censo de 1920.

Onde a maioria dos brasileiros trabalhava?
Analisando a tabela, percebe-se que uma parte
dos trabalhadores estava nas cidades, labutando
em indústrias (13,8%) ou em serviços (16,5%).
Como diz o historiador Boris Fausto, em 1920,
os "serviços" englobavam atividades como os
serviços domésticos e "bicos" de vários tipos.
Você também deve ter notado que 69,7% dos
trabalhadores concentravam-se nas atividades
primárias: agricultura, extrativismo e pecuária.
Como 100% representa a totalidade, a maioria
deles trabalhava na zona rural. Na faixa litorânea
de Pernambuco, por exemplo, plantavam e
colhiam cana de açúcar; na Amazônia, extraíam
borracha; no interior de São Paulo, muitos
imigrantes lidavam nas lavouras de café.
Este capítulo trata mais da situação dos
trabalhadores que moravam nas áreas urbanas,
especialmente no Rio de Janeiro e São Paulo,
cidades onde estava a maior quantidade de
indústrias dessa época.
São Paulo mudou muito na passagem do século
XIX para o XX: entre 1890 e 1900, por exemplo,
sua população aumentou de 65 mil para 240 mil
habitantes. A vinda de imigrantes italianos, de
ex-escravos dispensados dos serviços na lavoura
e de caipiras do interior do estado contribuíram
muito para o crescimento dessa cidade.

77

História e Geografia
Tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, os
principais problemas dos trabalhadores eram
moradia, trabalho e condições de vida.
Suas famílias geralmente moravam nas regiões
menos saudáveis e mais desvalorizadas dessas
cidades: em áreas próximas aos rios, às fábricas e
às estradas de ferro; nas encostas de morros; nos
bairros mais distantes do centro (periferias).
Muitas dessas famílias viviam em cortiços ou em
barracos de favelas. Outras moravam nas vilas
operárias, onde, às vezes, faltava água e os
aluguéis eram caros (veja o documento sobre a
Fábrica São Pedro no item Voltando no Tempo).
Apesar das más condições de vida e trabalho,
esses operários se divertiam. Ao contrário de hoje,
muitas de suas atividades de lazer aconteciam em
lugares públicos: jogos em campos de futebol,
festas juninas e carnaval nas ruas etc. Nessas

Ensino Fundamental
atividades, muitas vezes, revelava-se sua revolta
contra os problemas que enfrentavam.
Problema era o que não faltava nas fábricas. Já
estudamos que, na Primeira República, não
existiam leis trabalhistas, os salários eram baixos
e as jornadas, longas. Se alguém não pudesse
trabalhar porque ficara doente ou tivera um
acidente de trabalho, não recebia o pagamento
desses dias.
Você se lembra de que, na primeira foto, havia
um homem vigiando as operárias? Esse é um dos
exemplos da rigidez no controle da disciplina nas
indústrias. Se um trabalhador fosse
responsabilizado pelo desperdício de matériaprima, faltasse ou se atrasasse, podia receber
multas ou até sofrer castigos corporais.

Desenvolvendo competências

11

78

Compare a situação dos trabalhadores na Primeira República com a situação de hoje. Depois,
assinale a alternativa que mostra uma diferença entre elas.
a) A quantidade de trabalhadores que votaram nas eleições para presidente diminuiu muito
desde 1889 até hoje.
b) Na Primeira República, a maioria deles vivia na zona rural; hoje, a maioria dos
trabalhadores vive nas cidades.
c) No passado, suas famílias viviam em saudáveis moradias dos centros urbanos; hoje,
muitas moram em cortiços e favelas.
d) A licença maternidade de 120 dias era obrigatória na Primeira República; hoje, ela dura
apenas 30 dias.

Capítulo IV ­ Cidadania e democracia
Todos esses problemas provocavam e ainda
provocam as mais diversas reações dos
trabalhadores. Atualmente, a CUT, a Força
Sindical e outras entidades tentam organizar suas
lutas. Há também o Movimento dos Sem-Terra
(MST), lutando pela reforma agrária, as Pastorais
dos católicos etc.
Entre 1889-1930, os operários também
procuravam se organizar e reivindicar melhorias
em sua situação. Os protestos públicos durante as
comemorações de Primeiro de Maio eram uma de
suas formas de luta. Realizar greves era outra
maneira para defender seus interesses nos
conflitos com os patrões e o governo.

Na greve geral de 1917, em São Paulo, por
exemplo, os operários e trabalhadores do
comércio e dos serviços exigiam: 35% de
aumento para os salários inferiores; proibição
para o trabalho de menores de 14 anos; fim do
trabalho noturno de mulheres e menores de 14
anos; jornada de 8 horas de trabalho por dia;
respeito ao direito de associação; congelamento
dos preços dos alimentos; redução de 50% nos
aluguéis. Depois de uma semana de greve que
paralisou toda a cidade, os operários conseguiram
um acordo que previa aumento de 20% nos
salários e a promessa de que os patrões não
demitiriam nenhum grevista.

Desenvolvendo competências

12

Compare as reivindicações dos trabalhadores na greve de 1917 com as greves recentes. Mostre
diferenças e semelhanças.

Além de greve, existiam e existem outras formas
de os trabalhadores enfrentarem seus problemas.
Na Primeira República, uma parte deles tentou
resolver suas dificuldades individualmente, ao
contrário do que aconteceu na greve de 1917.
O historiador José Murilo de Carvalho afirma que,
no Rio de Janeiro, por exemplo, muitos operários
e militares tentaram participar da riqueza social
arrumando um emprego como funcionário
público.
A greve é uma forma coletiva de luta. Tentar
um emprego melhor é uma forma individual
de resolver problemas. Alguma delas é mais
eficiente? Por quê?
Existem várias opiniões para responder à
questão anterior. O estudo da História revela
que as formas de luta dos trabalhadores para
melhorar suas condições de vida são
múltiplas: coletivamente, individualmente,
em grupos menores etc. O importante é
perceber que os trabalhadores e demais

brasileiros devem ser ativos para garantir e
ampliar a democracia e a cidadania no país
e no mundo.
Ativos para impedir que injustiças sociais
continuem a acontecer. Injustiça como a que
muitos negros enfrentam ao procurar trabalho e
perceber que, muitas vezes, não são escolhidos
por preconceito étnico, apesar de terem boa
qualificação profissional. Aliás, ser
descendente de africanos faz uma grande
diferença no mercado de trabalho brasileiro.
Você sabia que, em março de 2002, os
empregados negros com carteira assinada
ganhavam 42% menos do que a média
paga ao trabalhador em geral?
Para mais detalhes, ver pesquisa do Datafolha publicada na Folha de S. Paulo,
São Paulo, 24 mar. 2002. p. E5.

Observe a linha do tempo a seguir. Isso deverá
ajudá-lo a situar cronologicamente alguns
acontecimentos importantes do capítulo.

79

História e Geografia

Revolução de 1930

1963

1988

2001
Projeto de Flexibilização
da CLT

Greve Geral de 1917

1943

Nova Constituição do Brasil

1930

Criação do 13° Salário

1917

Consolidação das Leis
Trabalhistas (CLT)

1889
Proclamação da República

Ensino Fundamental

COMENTÁRIOS FINAIS
O mundo atual atravessa um processo de grande
desumanização. Pode-se percebê-lo na foto que
mostra uma criança ao colo de um dos homens,
nos problemas apontados nas matérias
jornalísticas aqui apresentadas, no consumismo
que faz muitos indivíduos trabalharem
loucamente para comprarem além de suas
necessidades básicas etc.
É necessário agir para tornar as relações pessoais
e sociais mais humanas, para garantir cidadania e
democracia na vida de todos. Felizmente, há
pessoas pensando na sociedade como um todo,
como os trabalhadores que participam nas
associações de bairro, em sindicatos e em partidos
políticos. Felizmente, há pessoas como Danielle
Maximiliano Alves, a jovem da reportagem no
início do capítulo, que pretende ser psicóloga
para melhorar suas condições de vida e ajudar
outros indivíduos.
Tomara que a leitura desse capítulo tenha
questionado, reforçado ou ampliado seus
conhecimentos sobre: leis trabalhistas, os tipos de
matérias jornalísticas e suas versões da realidade,
conflitos sociais, possibilidades de comparar
presente e passado, cidadania, democracia e
História do Brasil.
Procure valorizar seus conhecimentos e estar
aberto para questioná-los, usando as idéias e

80

informações deste e de outros capítulos de
Ciências Humanas. Afinal, como afirmava o
grande educador brasileiro Paulo Freire, ninguém
nunca ignora tudo, ninguém nunca sabe tudo.
Tomara que esses estudos tenham lhe apontado
ou reforçado a idéia de que é preciso enfrentar os
conflitos da vida cotidiana sem disfarce e sem
medo! Como dizia o historiador Sérgio Buarque
de Hollanda, é preciso enfrentar esses conflitos
sem confundir os interesses da vida privada com
os interesses públicos.

Capítulo IV ­ Cidadania e democracia

Conferindo seu conhecimento

3

7

Você não deve ter assinalado a alternativa (a) porque o Senhor Raimundo e sua família estão ocupando as terras.
A alternativa (b) está errada porque aprender a ler e escrever não é um dos direitos políticos dos cidadãos, mas
um dos direitos sociais. A alternativa (c) está incorreta porque estudar numa escola não é um direito civil, mas
um dos direitos sociais garantidos na Constituição brasileira. Portanto, a alternativa (d) é a certa.

Você deve ter percebido que as alternativas (a), (b) e (d) mostram exemplos de formas de os cidadãos
participarem, ativamente, numa democracia. A alternativa (c) deve ser assinalada porque ela não aponta uma
maneira coerente de participação: num regime democrático, os eleitores devem votar em candidatos que defendam
os melhores projetos para a sociedade.
Procure se informar sobre como ficou a votação do projeto de flexibilização da CLT, no Congresso.

8
11

Você deve ter percebido que os dois homens estão sem emprego. O direito ao trabalho é um dos direitos sociais
dos cidadãos. Portanto, no momento da foto, eles não podem ser considerados cidadãos no gozo de todos seus
direitos.

Perceber o que mudou e o que ficou semelhante é um procedimento importante nos estudos de História e de
outras disciplinas. No teste 11, a alternativa (a) está errada porque hoje há muito mais eleitores do que em
1889; a alternativa (b) está correta; a alternativa (c) está incorreta, pois as casas dos trabalhadores nos centros
das cidades não eram higiênicas; e a alternativa (d) está errada porque as leis brasileiras garantem uma licença
maternidade de 120 dias e, na Primeira República, as mulheres não tinham este direito.

81

História e Geografia

ORIENTAÇÃO

Ensino Fundamental

FINAL

Para saber se você compreendeu bem o que está apresentado neste capítulo, verifique se está
apto a demonstrar que é capaz de:
· Identificar em diferentes documentos históricos os fundamentos da cidadania e da democracia
presentes na vida social.
· Caracterizar as lutas sociais, em prol da cidadania e da democracia, em diversos momentos históricos.
· Relacionar os fundamentos da cidadania e da democracia, do presente e do passado, aos valores éticos
e morais na vida cotidiana.
· Discutir situações da vida cotidiana relacionadas a preconceitos étnicos, culturais, religiosos e de
qualquer outra natureza.
· Selecionar criticamente propostas de inclusão social, demonstrando respeito aos direitos humanos e à
diversidade sociocultural.

82

Capítulo V
MOVIMENTOS POLÍTICOS PELOS
DIREITOS DOS ÍNDIOS

COMPREENDER

O PROCESSO HISTÓRICO DE

OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO E A FORMAÇÃO DA
SOCIEDADE BRASILEIRA.

Adriane Costa da Silva

História e Geografia

Ensino Fundamental

Capítulo V

Movimentos políticos
pelos direitos dos índios
Quando os portugueses chegaram às terras
brasileiras, encontraram vários povos com
línguas, tradições e modos de vida diferentes dos
moradores da Europa. Europeus e índios
envolveram-se em muitos conflitos pela ocupação
e uso das terras, desde 1500 até a atualidade. Nas
páginas seguintes, você encontrará algumas
informações e questionamentos sobre a situação
das populações indígenas hoje. Também poderá
ler e refletir sobre a história de contato entre
índios e não-índios.
O que você sabe sobre os índios brasileiros? Onde
vivem? Como vivem? Quais as relações que
mantêm com os não-índios? Quais os problemas
que enfrentam hoje em dia? Faça algumas
anotações em seu caderno, antes de prosseguir na
leitura do texto. Use seu caderno sempre que for
solicitada uma resposta. Assim, você poderá
estudar com bastante proveito e comparar suas
respostas às idéias oferecidas neste texto.
Figura 1 - Aílton Krenak pinta o rosto durante a defesa
de uma das emendas populares sobre os direitos
indígenas na Assembléia Nacional Constituinte, 1988.
Foto: Reynaldo Stavale /ADIRP. In: GRUPIONI, Luís
Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. 2. ed. Brasília:
MEC, 1994. p. 159.

84

Capítulo V ­ Movimentos políticos pelos direitos dos índios

Desenvolvendo competências

1

1. O que está fazendo a personagem retratada na foto?
2. A frase escrita embaixo da fotografia é chamada de legenda. Lendo a legenda, você
conseguiu descobrir quem é o personagem?
O nome do personagem é:
a) Aílton Krenak, do povo Krenak.
b) Galdino Pataxó, do povo Pataxó.
c) Davi Yanomami, do povo Yanomami.
d) Marçal de Souza Guarani, do povo Guarani.

O personagem pintando o rosto é Aílton Krenak,
um representante dos povos indígenas junto ao
governo e à sociedade brasileira. Os índios
costumam trazer o nome do povo (Krenak,
Terena, Pataxó, Yanomami, Guarani) junto com o
primeiro nome (Aílton, Marcos, Galdino, Davi,
Marçal). Se você leu com atenção a legenda,
descobriu que a alternativa correta é a letra (a).
Cada povo indígena tem um nome diferente:
Krenak, Guarani, Kaiapó, Terena, Kaigang,
Pataxó, Krahô... São mais ou menos 280 povos
espalhados pelo Brasil, que falam mais de 180
línguas. Se existem vários povos com nomes e
línguas diferentes, por que eles são chamados de
índios? Você tem alguma idéia? Leia a explicação
dada por Aílton Krenak:

Antes de ter encontrado os brancos, eu nunca
tinha ouvido falar da palavra índio. Os brancos é
que nos chamam assim. (...) desde a hora que os
portugueses chegaram aqui, eles começaram a
chamar a minha tribo, o meu povo, com esse
apelido de índio. E não conseguiram até hoje
entender que nós somos (...) povos diferentes,
cada um com uma identidade própria, habitando
diferentes lugares do Brasil.
KRENAK, Aílton apud. SIMÕES, J. A.; MACIEL, L. A. (Coord.). Pátria amada
esquartejada. São Paulo: DPH-SMC, 1992. p. 133.

Os portugueses pensaram que as terras
descobertas por Pedro Álvares Cabral, em 1500,
eram as Índias. Confundiram esses povos com os
moradores da Índia (localizada na Ásia) e
passaram a chamá-los de índios.

Desenvolvendo competências

2

De acordo com o texto apresentado, "índio" é um apelido dado pelos portugueses para:
a) os povos africanos, que são muito semelhantes entre si.
b) os povos africanos, que são muito diferentes entre si.
c) os povos que já habitavam o Brasil, muito diferentes entre si.
d) os primeiros povos que habitaram o Brasil, muito semelhantes entre si.

85

História e Geografia
O texto que você leu não falava dos povos
africanos, o que exclui as alternativas A, B. Ele
diz que os povos indígenas são diferentes uns dos
outros nas suas línguas, seus modos de viver e
suas histórias do contato com os não-índios.
Assim, a alternativa correta é a letra C. A
alternativa D está incorreta, de acordo com a
opinião de Aílton Krenak, que destaca, no texto,
as diferenças. Além disso, o verbo habitar está

Ensino Fundamental
conjugado no passado (habitaram) o que dá a
idéia de que hoje não há mais habitantes
indígenas no território brasileiro.
Os povos indígenas são muito diferentes entre si.
Mas pintar o rosto para participar de festas ou em
momentos importantes (quando termina o luto de
um parente, por exemplo) é um costume comum a
todos eles. Por que será que Ailton Krenak estava
pintando o rosto?

Desenvolvendo competências

3

1. Observe a Figura 2 e leia a legenda para
saber o que estava acontecendo na época
em que o retrato de Aílton Krenak
foi tirado.
2. O que mostra a Figura 2? O que um dos
personagem está lendo? Quais as
informações apresentadas na legenda?
3. Qual o lugar e a época em que a
fotografia foi tirada? Qual o nome
do fotógrafo?
Figura 2 - Índios Kayapó. Brasília, 1988.
Foto: Guilherme Rangel / ADIRP. In: GRUPIONI, Luís
Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. 2. ed. Brasília:
MEC, 1994. p. 161.

86

Capítulo V ­ Movimentos políticos pelos direitos dos índios

OS MOVIMENTOS INDÍGENAS
E A QUESTÃO DAS TERRAS
Os Kayapó, junto com os Xavante, os Guarani,
os Pataxó e muitos outros povos indígenas
organizaram movimentos para preservação das
suas culturas e das terras onde moram hoje.
Muitas das suas reivindicações políticas
transformaram-se em lei federal. Os direitos
assegurados na Constituição de 1988 representam
uma das vitórias que as populações indígenas e
seus aliados da sociedade brasileira tiveram nas
lutas pelo respeito à diversidade. Diz o artigo 231:
São reconhecidos aos índios sua organização
social, costumes, línguas, crenças e tradições,
e os direitos originários sobre as terras que
tradicionalmente ocupam, competindo à
União demarcá-las, proteger e fazer respeitar
todos os seus bens.

As leis sobre as terras indígenas reconhecem que
os índios eram os senhores dessas terras, quando
os portugueses atravessaram o Oceano Atlântico
e desembarcaram em Porto Seguro (Bahia), em
1500. Por essa razão, as populações indígenas
têm direitos originários sobre as terras que
ocupam, como está escrito no artigo acima.

O texto da Constituição considera os índios
cidadãos como os outros brasileiros e garante às
sociedades indígenas os direitos às terras e à
diferença cultural. Davi Kopenawa, do povo
Yanomami, explica por que os índios lutaram
para conquistar esses direitos:
Nós descobrimos estas terras! Possuímos os
livros e, por isso, somos importantes!, dizem
os brancos. Mas são apenas palavras de
mentira. Eles não fizeram mais que tomar as
terras das gentes da floresta para se pôr a
devastá-las. Todas as terras foram criadas
em uma única vez, as dos brancos e as
nossas, ao mesmo tempo que o céu. Tudo isso
existe desde os primeiros tempos, quando
Omana nos fez existir. É por isso que não
creio nessas palavras de descobrir a terra do
Brasil. Ela não estava vazia!
KOPENAWA YANOMAMI, Davi. Descobrindo os brancos. In: NOVAES, Adauto
(Org.). A outra margem do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
p. 19. (Brasil 500 anos: experiência e destino).

Desenvolvendo competências

4

De acordo com a explicação de Davi sobre a descoberta do Brasil:
a) os portugueses descobriram essas terras antes dos índios.
b) os índios descobriram essas terras depois dos portugueses.
c) os portugueses descobriram as terras brasileiras antes dos africanos.
d) os índios foram os primeiros habitantes das terras brasileiras.
As alternativas (a) e (b) querem dizer a mesma coisa: que os brancos descobriram essas
terras, que estavam vazias quando eles chegaram. Os índios chegaram depois, os brancos é
que descobriram essas terras, é o que essas alternativas afirmam. Essas alternativas são
incorretas, de acordo com a opinião de Davi Yanomami. Ele não falou sobre os africanos, mas
os portugueses os trouxeram da África para trabalharem como escravos nas fazendas, minas
etc. Assim, podemos excluir também a alternativa (c). A alternativa (d) está correta.

87

História e Geografia

Ensino Fundamental

Conforme o depoimento de Davi, os índios
descobriram essas terras antes dos brancos.
Quando os brancos chegaram, as terras brasileiras
não estavam vazias: eram ocupadas por vários
povos muito diferentes uns dos outros. A
quantidade de pessoas que viviam nessas terras é
um assunto polêmico. O quadro abaixo apresenta
os números estimados por vários pesquisadores
(coluna da esquerda) para as terras baixas da
América do Sul (coluna da direita). Nessa região,
está localizado o Brasil.
Leia o quadro abaixo. Qual a menor estimativa
para a população? Qual a maior estimativa para a
população? Copie os dados apresentados no
quadro em seu caderno.
Nome dos
Pesquisadores

Estimativa população
indígena
(em milhões)

Sapper
Kroeber
Rosenblat
Steward
Dobyns
Denevan

3a5
1
2,03
2,90 (1,1 no Brasil)
9 a 11,25
8,5 (5,1 na Amazônia)

Adaptação de quadro apresentado em CUNHA, Manuela Carneiro da (Org.). História
dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 14.

De acordo com os dados que vemos no quadro, as
estimativas variam de 1 a 8,5 milhões de pessoas.
Essa população contada em milhões foi reduzida,
na atualidade, a 350 mil pessoas devido às
guerras e doenças. Mas a população indígena está
aumentando nos últimos anos.

Desenvolvendo competências

5

88

A sociedade brasileira, por sua Constituição, reconhece os direitos indígenas. O que você
pensa sobre o direito dos povos indígenas às terras? Converse com seus amigos e amigas e
amadureça suas idéias sobre o assunto. Depois, faça algumas anotações.

Capítulo V ­ Movimentos políticos pelos direitos dos índios
Lembra-se do Aílton Krenak, o
personagem retratado na FIG. 1? Leia o
depoimento dele sobre a importância da
preservação das terras para o
seu povo:
O território tradicional do meu povo vai
do litoral do Espírito Santo até entrar
nas serras mineiras, entre o vale do rio
Doce e o São Mateus. Mesmo que hoje
só tenhamos uma reserva pequena no
médio rio Doce, quando penso no
território do meu povo, não penso
naquela reserva de 4 mil hectares, mas
num território onde a nossa história, os
contos e as narrativas do meu povo vão
acendendo luzes nas montanhas, nos
vales, nomeando os lugares e
identificando na nossa herança
ancestral o fundamento da nossa
tradição.
KRENAK, Ailton. O eterno retorno do encontro. In: NOVAES, Adauto
(Org.). A outra margem do Ocidente. São Paulo: Companhia das
Letras, 1999. p. 25-26. (Brasil 500 anos: experiência e destino).

Todos os índios precisam da terra para plantar,
pescar, caçar, coletar, produzir objetos usados no
trabalho e nos rituais, construir casas, curar
doenças e fazer festas. Por isso, a demarcação das
terras é muito importante para a sobrevivência
dos povos indígenas.
No depoimento acima, Aílton Krenak também
explica como a preservação da terra e da tradição
estão ligadas. Ele diz que as montanhas, os vales, os
lugares do território onde vive o seu povo guardam
suas histórias e a herança dos antepassados. Isso
não acontece apenas com os Krenak. Os outros
índios também conhecem profundamente as
plantas, os bichos, as aves, os peixes, as águas,
o solo, o subsolo e os seres sobrenaturais dos
territórios onde vivem. Ao longo de milhares de
anos, essas sociedades foram acumulando
conhecimentos sobre flora, fauna, solo, subsolo,
águas, estações da natureza, técnicas de trabalho,
convívio social, origem do mundo, religião,
linguagens etc. Esses conhecimentos estão
vinculados às terras onde vive cada grupo indígena.
O tamanho das terras tradicionais dos Krenak
aumentou ou diminuiu com a demarcação da

reserva? Antes da chegada dos portugueses, não
existiam limites precisos entre os territórios dos
povos que habitavam a América. As fronteiras
tinham como referências as serras, os rios, os sítios
das antigas ocupações etc. As áreas demarcadas
são reduções desses territórios tradicionais. Mas a
demarcação e os limites são fundamentais para
proteger as terras indígenas contra as invasões.
Muitos grupos indígenas tiveram a iniciativa de
demarcar suas terras, buscando apoio de aliados
das organizações não governamentais. Eles
também decidiram acompanhar a colocação dos
marcos e limites, além de cuidarem da vigilância e
defesa das áreas demarcadas.
O reconhecimento oficial de uma área indígena é
feito em etapas: identificação e delimitação,
demarcação, homologação e regularização.
Durante esse processo, são feitos vários estudos
técnicos e administrativos:
identificação e delimitação ­ Nessa etapa, são
realizados o levantamento e o estudo dos sítios
que o grupo considera importantes para a sua
cultura e história. Também são estabelecidos os
limites geográficos do território. Os técnicos
contratados pela FUNAI encaminham relatórios
(laudos) para o Ministério da Justiça.
demarcação ­ O Ministério da Justiça emite
Portaria demarcando os limites da área. Os limites
definidos são materializados através da abertura
de picadas e da colocação de marcos e placas de
sinalização.
homologação ­ O presidente da República publica
o decreto de homologação da terra indígena no
Diário Oficial, aprovando os trabalhos de
demarcação.
regularização fundiária ­ Finalmente, a área é
inscrita e registrada no Departamento de
Patrimônio da União e no cartório imobiliário da
Comarca onde está localizada.
Os processos de demarcação das terras indígenas
são muito demorados. Em muitas áreas, levaram
mais de dez anos para serem concluídos. Em
outras, esses processos ainda não chegaram ao fim.
Essa lentidão tem como resultado invasões das
terras indígenas para exploração dos recursos
naturais pelos não-índios, implantação de projetos
e obras (estradas, quartéis, hidrovias, hidrelétricas,
etc.) que causam destruição ambiental e a redução
dos limites demarcados nos laudos.

89

História e Geografia

Ensino Fundamental

POLÊMICAS SOBRE A QUESTÃO
DAS TERRAS INDÍGENAS
Não são todos os brasileiros que respeitam os
direitos dos índios. Existem pessoas que
consideram as leis sobre as terras indígenas
obstáculos à exploração das riquezas existentes
no solo e no subsolo brasileiros. São políticos,
militares, empresários, madeireiros,
garimpeiros, que questionam esses direitos
e apóiam a exploração dos recursos naturais
das terras demarcadas ou em processo
de demarcação.
Os conflitos de interesses se multiplicam na
região da floresta Amazônica, chamada de

Amazônia Legal. Eles acontecem entre os povos
do Parque do Xingu e os fazendeiros (Mato
Grosso), entre os Yanomami e os garimpeiros
(Roraima), entre os piabeiros e as comunidades
indígenas do Rio Negro (Amazonas)... Esses são
apenas alguns dos casos de desrespeito aos
direitos indígenas. Os interesses que motivam os
invasores são diversos: exploração turística e
jornalística, construção de hidrelétricas,
hidrovias e estradas, extração da madeira,
prospecção de minérios, monitoramento de
pontos estratégicos nas fronteiras.

TERRAS INDÍGENAS BRASILEIRAS

Figura 3
ARANTES, Vera Maria. (Coord. Geral). Índios no Brasil. Brasília:
MEC, c1999. p.26. (Cadernos da TV escola).

Desenvolvendo competências

6

90

Observe o mapa acima.
1. Quais as regiões onde se localiza a maioria das terras indígenas? Pinte essas regiões com
lápis colorido.
2. Qual será a explicação para a concentração de terras indígenas em algumas regiões? Anote
suas hipóteses no caderno.

Capítulo V ­ Movimentos políticos pelos direitos dos índios
UNIDADES DE CONSERVAÇÃO AMBIENTAL BRASILEIRAS

Figura 4 ­ BRASIL: meio ambiente unidades de conservação.
In: SIMIELLI, Maria Elena Ramos. Geoatlas. 31. ed. ampl. atual. São Paulo:
Ática, 2002. p.89.

Desenvolvendo competências

7

1. Compare os mapas das Figuras 3 e 4. O que é igual e o que é diferente nos dois mapas?
2. Pinte no mapa as regiões onde há sobreposições de áreas indígenas e unidades
de conservação.
3. Crie uma legenda para o mapa. Com o lápis da mesma cor, desenhe e preencha um
quadrado pequeno na linha abaixo da Figura 4. Ao lado do quadrado, escreva uma frase
curta explicando o que essa cor representa no mapa.

unidades de conservação
as unidades de conservação são áreas protegidas da exploração econômica para preservar a
natureza. Muitas unidades de conservação também são terras indígenas, isto é, as unidades de
conservação e as terras indígenas estão sobrepostas.

91

História e Geografia

Ensino Fundamental

OS ÍNDIOS E A PRESERVAÇÃO
DA NATUREZA
A sobreposição entre áreas indígenas e unidades
de conservação é um assunto polêmico. Os
ambientalistas, de um lado, não reconhecem os
direitos dos povos indígenas sobre áreas
decretadas como unidades de conservação no
passado. Representantes indígenas e seus aliados
políticos, de outro lado, não aceitam as restrições
ao uso das terras tradicionalmente ocupadas pelos
índios, colocadas pelos decretos de criação dessas
áreas. A Lei nº 9.985, que instituiu o Sistema
Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) em
julho de 2000, tem um artigo que trata desse
impasse. O artigo 57 diz que:

...os órgãos federais responsáveis pela execução
das políticas ambiental e indigenista deverão
instituir grupos de trabalho para (...) propor as
diretrizes a serem adotadas com vistas à
regularização das eventuais superposições entre
áreas indígenas e unidades de conservação.

Para resolver esse impasse, os Ministros da
Justiça, José Gregori, e o do Meio Ambiente,
Sarney Filho, editaram uma Portaria (8/11/2000)
criando um grupo de trabalho integrado
por representantes de órgãos do governo,
entidades ambientalistas, indigenistas e
organizações indígenas.

Desenvolvendo competências

8

Você foi convidado para compor o grupo de trabalho que deverá apresentar propostas para a
solução dos impasses ligados à sobreposição das unidades de conservação e das terras
indígenas. Qual seria a sua proposta? Anote no seu caderno suas idéias e sugestões sobre essa
questão.

Desenvolvendo competências

9

1. Quais os Estados brasileiros localizados na Amazônia Legal?

AMAZÔNIA LEGAL

Figura 5 - Diponível em: http://www.socioambiental.org

92

Capítulo V ­ Movimentos políticos pelos direitos dos índios

Desenvolvendo competências

10

1. Observe a Figura 6. Lendo a legenda é possível identificar qual o tema representado no mapa ?
Outros elementos do mapa ajudaram você a identificar o tema? Anote suas respostas no caderno.
2. Crie um título para o Mapa.
3. Compare os mapas das Figuras 5 e 6. Em que estados existem mais manchas
representando as áreas com requerimento de prospecção mineral?

MAPA COM ÁREAS DE REQUERIMENTO DE
PROSPECÇÃO MINERAL

Minerais Metálicos (Alumínio, Chumbo, Cobre,
Estanho, Ferro, Manganês, Nióbio, Níquel, Ouro,
Titânio, Tungstênio, Zinco)
Minerais Não Metálicos (Amianto, Calcário,
Diamante, Fosfato, Quartzo, Sal Gema, Sal Marinho)
Minerais Energético (Carvão, Petróleo, Tório, Urânio,
Xisto Betuminoso)

Figura 6
BRASIL: recursos minerais. In: SIMIELLI, Maria Elena Ramos.
Geoatlas. 31. ed. ampl. atual. São Paulo: Ática, 2002. p.83.

93

História e Geografia

Ensino Fundamental

DIFERENTES CONCEPÇÕES
DA NATUREZA
Os conflitos entre os povos indígenas e a
sociedade brasileira surgem das diferenças entre
suas concepções de natureza. Conforme você leu
no texto, existem alguns grupos brasileiros que
consideram as terras indígenas e as unidades de
conservação ambiental como obstáculos ao
desenvolvimento econômico do Brasil. Quem são
as pessoas que fazem parte desses grupos? Outros
grupos da sociedade brasileira defendem a idéia
de que a natureza deve ser preservada e, para
isso, é necessário manter os homens afastados
dela. É esse o argumento dos ambientalistas e
simpatizantes da preservação da natureza, que
consideram os índios como uma ameaça ao meio
ambiente. Existe também o pensamento de que os
índios, assim como a flora e a fauna, devem ser
protegidos da destruição causada pelo contato
com os não-índios. Para aqueles que partilham
essa idéia, eles são o símbolo da inocência e da
preservação da natureza. Essa imagem dos índios
como defensores da natureza é muito difundida
entre os brasileiros, assim como em outras
sociedades do mundo todo.
Nem todos os índios têm as mesmas idéias sobre
a natureza. Também existem diferentes idéias de
natureza entre os grupos indígenas. Mas todos
eles compartilham da idéia de que a natureza e os
seres humanos estão ligados.

INTERESSES MINERÁRIOS
As terras dos Yanomami, localizadas na fronteira
entre o Brasil e a Venezuela (estados do
Amazonas e Roraima), foram invadidas várias
vezes pelos garimpeiros. As primeiras invasões
aconteceram quando a existência das jazidas
minerais foi divulgada, em 1975. Quase vinte
anos depois (1993), uma comunidade foi
chacinada na região de Haximu. Mais de mil
garimpeiros continuam em ação nas regiões
Surucucu, Parafuri e Xiriana, na terra Yanomami.
Junto com os garimpeiros, apareceram a
prostituição e as DST (doenças sexualmente
transmissíveis). As degradações ambientais
causadas pelo garimpo aumentam o número dos
casos de malária.

94

Os garimpeiros fornecem armas e munição para
comunidades rivais, estimulando a violência entre
os Yanomami. As comunidades que reagem ao
garimpo são massacradas e os corpos das vítimas
escondidos na floresta. Os sobreviventes ficam
desconsolados por não poderem realizar seus
rituais funerários e muito amedrontados pelas
doenças que os invasores estão trazendo. Então,
eles organizam expedições de guerra com as
comunidades aliadas, que guerreiam para vingar
os parentes mortos.
O xaporë Davi Kopenawa, um dos pajés
Yanomami, explica por que os nabebe, os nãoíndios, causam tantas doenças nas pessoas e na
floresta:
...Agora sabemos da origem da xawara. No
começo, nós pensávamos que ela se
propagava sozinha, sem causa. Agora ela
está crescendo muito e se alastrando em toda
parte. O que chamamos de xawara (...)
Omanê [o criador da humanidade Yanomami]
a mantinha escondida e não queria que os
Yanomami mexessem com isto. (...) Ele dizia
também: `Se isso fica na superfície da terra
todos Yanomami vão começar a morrer à
toa!' (...) Mas hoje os nabebe, os brancos,
depois de terem descoberto nossa floresta,
foram tomados por um desejo frenético de
tirar essa xawara do fundo da terra...
(...) Xawara é tambem o nome do que
chamamos booshikê, a substância do metal,
que vocês chamam minério. Disso temos
medo. A xawara do minério é inimiga dos
Yanomami, de vocês também. Ela quer nos
matar. Assim, se você começa a ficar doente,
depois ela mata você.
Por causa disso, nós, Yanomami, estamos
muito inquietos.
NOVAES, Adauto. Tempo e História. São Paulo: Companhia das Letras:
Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 191-193.

Capítulo V ­ Movimentos políticos pelos direitos dos índios

Desenvolvendo competências

11

Conforme o depoimento de Davi, por que os nabebe, os não-índios, estão deixando os
Yanomami e a floresta doentes?

Davi está preocupado com o que poderá
acontecer aos povos no futuro, se não pararem de
destruir a Urihi:
... Quando os brancos tiram o ouro da terra, eles
o queimam, mexem com ele em cima do fogo
como se fosse farinha.
(...) Quando os brancos secam o ouro dentro de
latas com tampas bem fechadas e deixam essas
latas expostas à quentura do sol, começa a sair
uma fumaça (...) que não se vê e que se
alastra.
(...) Quando essa fumaça chega ao peito do céu,
ele começa a ficar muito doente, ele começa
também a ser atingido pela xawara. A terra
também fica doente. E mesmo os bekurabë, os
espíritos auxiliares do pajés, ficam muito
doentes. Mesmo Omanê está atingido. Deosimê
(Deus) também. (...)

Tem também a fumaça das fábricas. (...) Por
isso, agora a xawara cresceu muito. Ela está
muito alta no céu, alastrou se muito longe... O
trovão vai ficar doente também e vai gritar de
raiva, sem parar, sob o efeito do calor...
Assim, o céu vai acabar rachando. Os pajés
Yanomami que morreram já são muitos e vão
querer se vingar... Quando os pajés morrem, os
seus bekurabê, seus espíritos auxiliares, ficam
muito zangados. Eles vêem que os brancos fazem
morrer os pajés, seus `pais'. Os bekurabë vão
querer se vingar, vão querer cortar o céu em
pedaços para que ele desabe em cima da terra:
também vão fazer cair o sol, o céu vai ficar
escuro. Nós queremos contar isso para os
brancos, mas ele não escutam. Eles são outra
gente e não entendem.
NOVAES, Adauto. Tempo e História. São Paulo: Companhia das Letras:
Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 191-193.

95

História e Geografia

Ensino Fundamental

Desenvolvendo competências

12

Histórias de hoje, histórias de ontem...
As disputas pelas terras indígenas
aconteceram desde a chegada dos
portugueses, em 1500. Muitos índios
morreram depois do contato com os nãoíndios, vítimas das epidemias (malária,
sarampo, gripe etc) ou nas guerras de
conquista. Nessa época, eram mais de
1.000 povos, somando entre 1 e 8,5
milhões de pessoas. Hoje, são 218 povos,
que falam180 línguas, totalizando 350 mil
pessoas. Você pode imaginar o que
acontecia com os sobreviventes das guerras
entre europeus e indígenas?
1. Qual o tema retratado pelo pintor
na Figura 7?
2. Compare a sua resposta com o título do
quadro. Eles expressam idéias
semelhantes ou diferentes ?
3. Quando Rugendas fez esse desenho?
Essa informação não pode ser
encontrada na legenda. Nela está escrito
s/d, que quer dizer sem data. Qual a sua
hipótese para a data da pintura?
Justifique a sua resposta.
4. Qual a situação representada na Figura 8?
5. Compare as Figuras 7 e 8. Existe
ligação entre os temas representados nas
duas pinturas? Escreva no caderno as
suas conclusões.

Figura 7 - desenho de Johann­Moritz Rugendas, [s/d].
Escravização de índios pelos portugueses. POMBO, R.
História do Brasil: curso fundamental. São Paulo:
Melhoramentos, 1941.

Figura 8 - Índios atravessando um riacho (caçador de
escravos) de Jean Baptiste Debret, século XIX.
GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no
Brasil. 2. ed. Brasília: MEC, 1994. p. 109.

ESCRAVIDÃO INDÍGENA
Os dois quadros foram pintados por Debret e por
Rugendas em momentos muito próximos, entre os
anos 1820 e 1840. Nessa época, diversos países
da Europa organizaram muitas expedições
científicas, com o objetivo de estudar a natureza
em vários continentes do mundo, que foram
ocupados e colonizados pelos europeus. Pintores
e desenhistas também participavam dessas
viagens, registrando imagens de plantas, animais,

96

minérios, águas e das sociedades da América,
África, Ásia, Austrália...
Debret e Rugendas também eram pintores-viajantes.
Johann Moritz Rugendas viajou pelo Brasil, México,
Chile, Peru, Bolívia, Uruguai e Argentina (18211847). Jean Baptiste Debret veio ao Brasil junto com
outros pintores, escultores e arquitetos para montar
uma escola de artes, a Escola de Ciências, Artes e
Ofícios (1816-1839). Nesse tempo, as relações entre

Capítulo V ­ Movimentos políticos pelos direitos dos índios
Europa e América passaram por muitas
transformações políticas: as colônias americanas da
Inglaterra, de Portugal e da Espanha
transformaram-se em países independentes.
As pinturas e os desenhos feitos por Debret
registram situações e pessoas das cidades,
principalmente do Rio de Janeiro. A existência da
escravidão de africanos e indígenas foi um dos
aspectos mais destacados em suas obras, assim
como nos desenhos de Rugendas sobre a viagem
ao Brasil. Os dois pintores-viajantes não
estiveram em aldeias indígenas: seus registros
estão baseados nos desenhos feitos pelos artistas
que acompanhavam as expedições científicas e
contatos com grupos indígenas que passavam
pela cidade do Rio de Janeiro.
A escravidão indígena não aconteceu apenas no
século XIX, época em que foram produzidas as
Figuras 7 e 8. Ela começou a acontecer com a
chegada dos europeus no século XVI e durou até
o século XX.

Figura 9 - Painéis de carvalho da `Ilha do Brasil'.
Rouen, França (c. 1500-14). In: CUNHA, M. C. da
(Org.). História dos índios no Brasil. São Paulo:
FAPESP: Companhia das Letras, 1992. p. 15.

Desenvolvendo competências

13

Observe os painéis da Figura 9.
1. Descreva os painéis no seu caderno, contando o que você observou.
Esses painéis decoravam uma casa na cidade de Rouen, na França, e foram entalhados
entre 1500 e 1514. As imagens gravadas no carvalho representam o escambo de paubrasil praticado entre os índios e os comerciantes franceses. O pau-brasil era uma madeira
de onde se extraía um pigmento muito usado para tingir tecidos de vermelho, com maior
eficiência que outros corantes da época.
2. Complete a legenda para a Figura 9, acrescentando informações que você achar
importantes para explicar o tema representado nos painéis.

97

História e Geografia

Ensino Fundamental

DO ESCAMBO À ESCRAVIDÃO
Inicialmente, os índios eram parceiros comerciais
dos europeus: trocavam madeiras e animais
exóticos por foices, machados, facas, miçangas,
espelhos etc. Os objetos conseguidos no escambo
com os portugueses, franceses, holandeses,
espanhóis percorriam longas rotas de comércio
entre os grupos do litoral e as populações
indígenas que moravam no interior da América.
Assim, muitos índios que moravam longe do
litoral conheceram os invasores através dos
objetos que traziam para trocar.
A relação entre as populações indígenas que
moravam no litoral e os europeus transformou-se,
passadas algumas décadas. Um velho índio
Tupinambá falou sobre essas mudanças em um
discurso para os franceses, que queriam
estabelecer uma colônia no Maranhão, em 1610:

De início, os peró [portugueses] não faziam
senão traficar sem pretenderem fixar residência.
(...) Mais tarde, disseram que nos devíamos
acostumar a eles e que precisavam construir
fortalezas, para se defenderem, e cidades, para
morarem conosco (...) Mais tarde, afirmaram que
nem eles nem os paí [padres] podiam viver sem
escravos para os servirem e por eles
trabalharem. (...) Assim aconteceu com os
franceses. Da primeira vez que viestes aqui, vós
o fizestes somente para traficar. (...) Agora já
nos falais de vos estabelecerdes aqui, de
construirdes fortalezas para defender-nos contra
os nossos inimigos. Como (os peró), vós não
queríeis escravos, a princípio; agora os pedis e
os quereis como eles no fim.
Claude d'Abbeville apud CUNHA, Manuela Carneiro da (Org.). História dos
índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras: FAPESP: Secretaria
Municipal de Cultura, c1992. p. 15.

Desenvolvendo competências

14

1. Lendo o discurso do velho Tupinambá, é possível identificar as mudanças na relação entre
os índios e os europeus, durante cem anos de contato (1500-1610)? Quais foram essas
mudanças? Escreva no caderno as suas conclusões.

A conquista do território e a organização do
trabalho são aspectos importantes na formação
da sociedade brasileira. A escravização dos
índios, junto com as doenças, provocou o
despovoamento de muitas regiões mais
acessíveis no litoral e nos sertões. Nesses locais,
surgiram as fazendas e as vilas. Os índios que
sobreviviam às doenças e às guerras eram levados
para aldeamentos dirigidos pelos missionários
cristãos, longe das suas aldeias e próximos
das vilas. A produção de alimentos, a coleta de
frutos e folhas, a caça e a pesca, o transporte
de mercadorias entre vilas e portos eram
trabalhos feitos pelos escravos indígenas.
Os grupos indígenas que viviam na América,
antes da chegada dos portugueses, estavam
ligados por alianças comerciais ou de

98

parentesco. Mas as relações entre os povos
também eram de inimizade, guerra, dominação e
exploração. Os cativos conseguidos nas guerras
eram sacrificados nos rituais para comemorar a
vitória ou eram trocados com grupos aliados.
Alguns grupos indígenas tornaram-se aliados
dos portugueses e forneciam-lhes escravos
capturados dos seus inimigos. Outros grupos
aliavam-se aos franceses, considerados rivais
dos portugueses.
Para os europeus, essas guerras possibilitavam
obter escravos, através do resgate dos cativos. Os
índios imaginavam manter sua autonomia
política, através dessas alianças. Lembra-se do
velho Tupinambá, que discursava para os
franceses? Ele também conta como os europeus
tratavam os seus aliados:

Capítulo V ­ Movimentos políticos pelos direitos dos índios
... não satisfeitos com os escravos capturados na
guerra, quiseram também os filhos dos nossos e
acabaram escravizando toda a nação.
Claude d'Abbeville apud CUNHA, Manuela Carneiro da (Org.). História dos
índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras: FAFESP: Secretaria
Municipal de Cultura, 1992. p.15.

Fugindo da escravidão, muitos grupos deixaram o
litoral e embrenharam-se no sertão. Aqueles que
trabalhavam para os donos das fazendas ou nos
aldeamentos dos jesuítas revoltaram-se e fugiram.
Esses movimentos eram dirigidos pelos Caraíbas,
que mobilizavam seguidores para a migração,
através de suas profecias:

Vamo-nos, vamo-nos antes que venham esses
portugueses... Não fugimos da Igreja nem de tua
companhia porque, se tu quiseres ir conosco,
viveremos contigo no meio desse mato ou sertão.
Mas estes portugueses não nos deixam estar
quietos, e se tu vês que tão poucos que aqui
andam entre nós tomam nossos irmãos, que
podemos esperar, quando os mais vierem senão
que a nós, e as mulheres e filhos farão escravos?
GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. 2. ed. Brasília: MEC,
1994. p. 108.

Desenvolvendo competências

15

1. O que o velho Tupinambá e o Caraíba pensavam sobre os acontecimentos ocorridos com a
chegada dos colonos e os jesuítas?
2. "...poderão ser cativos os índios infiéis no tempo em que durar o conflito das guerras, e
fora deles se não poderão fazer as ditas guerras, nem se poderão admitir os ditos
cativeiros" (Alvará de 28/4/1688)
CUNHA, Manuela Carneiro da (Org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras: FAFESP: Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 127.

De acordo com o alvará acima, a escravidão indígena era considerada legítima:
a) no caso dos indígenas infiéis, isto é, que não se convertiam ao cristianismo, capturados
nas guerras justas.
b) no caso dos indígenas que se convertiam ao cristianismo e trabalhavam nos aldeamentos
dos padres jesuítas, nas fazendas e vilas coloniais.
c) em todos os casos, fossem os índios fiéis ou infiéis, o cativeiro era considerado legítimo.
d) todas as alternativas anteriores estão incorretas, porque a escravidão indígena não era
legítima em nenhum caso.
Qual das alternativas (a, b, c, d) você considera correta para explicar em que situações a
escravidão indígena era considerada legítima? A alternativa (d) não é válida. Por quê? Ela diz
que "todas as alternativas anteriores estão incorretas, porque a escravidão indígena não era
legítima em nenhum caso". Já lemos nas páginas anteriores que os portugueses conseguiam
escravos, resgatando os inimigos capturados pelos grupos aliados. A escravização, através do
resgate, era reconhecida pelas leis. Será que em todos os casos a escravidão indígena era
legitimada, como diz a alternativa (c)? No campo das leis, não! A resistência era interpretada
como hostilidade pelos portugueses e os índios declarados como inimigos e capturados nas
"guerras justas". A lei considerava legítima a escravidão daqueles grupos que resistiam à
conversão religiosa e ao trabalho nos aldeamentos, fazendas e vilas.
Também lemos os relatos dos próprios índios, registrados nas cartas dos padres da
Companhia de Jesus, que falam da escravização dos seus inimigos e dos filhos da sua nação.
Sobraram duas alternativas: (a) ou (b)? De acordo com o alvará a alternativa (a) é correta,

99

História e Geografia

Ensino Fundamental

pois o texto diz que podem ser cativos os índios que forem infiéis, isto é, não se converterem
à fé cristã. O que está errado na alternativa (b)? Anote no seu caderno.

GUERRAS JUSTAS
Os índios deveriam ser escravizados ou deveriam
ser livres? Quem deveria controlar o trabalho
dos índios e dirigir os aldeamentos? A questão
da liberdade dos povos indígenas causou muitas
polêmicas entre os próprios índios, os
missionários, os colonos e os administradores do
rei de Portugal. Colonos e missionários
disputavam o controle do trabalho indígena: a
direção das aldeias e a autoridade para repartir
os índios para o trabalho fora dos aldeamentos
eram postos considerados chave para esse
controle. Muitas leis foram feitas nos trezentos
anos em que o Brasil permaneceu como colônia
de Portugal (1500-1800): em alguns momentos
(1609, 1680 e 1755), as leis aboliram totalmente
o cativeiro, para, em seguida, restaurar a
escravidão indígena.
As diferenças entre as idéias que os portugueses e
os indígenas tinham sobre o cativeiro explicam as
dificuldades em transformar os cativos de guerra
em escravos. Considerando a importância dos
cativos para fins rituais, os índios resistiam à
venda. Os portugueses dependiam dos índios para
produzir e coletar alimentos, para transportar
cargas e para defender as fronteiras entre o
território português e o dos espanhóis,
combatendo os inimigos indígenas, os franceses e
os holandeses.

100

O resgate dos cativos das guerras, que seriam
sacrificados pelos seus inimigos, foi a principal
forma de recrutamento de mão-de-obra indígena
até a metade do século XVII. As tropas,
financiadas por ricos comerciantes, eram
compostas por índios aliados e sertanistas e
tinham autorização real. Os comerciantes e os
fazendeiros usavam o resgate como pretexto
para a escravização e destruição de muitos
grupos indígenas.
Os jesuítas, junto com índios aldeados, tentavam
convencer as populações indígenas que
habitavam os sertões a viverem nos aldeamentos
próximos às fazendas e povoações. A legislação
diferenciava os índios aliados dos portugueses e
os índios inimigos. Os falantes da língua Tupi
costumavam fazer alianças com os europeus:
portugueses, holandeses e franceses. Os Tupis
viviam nos aldeamentos da Companhia de Jesus,
podendo trabalhar para os moradores, mediante o
pagamento de salário. Esses índios eram
considerados donos das terras onde viviam,
aldeamentos dirigidos pelos jesuítas, até 1755.
Eles, muitas vezes, voltavam para suas aldeias ou
de parentes, contrariando as expectativas de
colonos e administradores. Você imagina
por que isso acontecia?

Capítulo V ­ Movimentos políticos pelos direitos dos índios

Desenvolvendo competências

16

1. Reescreva a legenda da Figura 10,
explicando qual a situação representada
no desenho.
2. Depois de ler o título do desenho na
legenda, você saberia dizer como os
europeus chamavam os índios que
viviam nos sertões?
Figura 10 - Aldeia de Tapuias, Desenho de Johann­Moritz
Rugendas. GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no
Brasil. 2. ed. Brasília: MEC, 1994. p. 108.

ÍNDIOS MANSOS, ÍNDIOS BRAVOS
A fuga coletiva, a reconstituição das
comunidades e o restabelecimento da autonomia
política em regiões longínquas, distantes das
povoações coloniais, foi uma estratégia de
resistência à escravidão muito utilizada pelos
grupos indígenas. As leis declaravam a liberdade
dos índios, mas os costumes dos colonos
distanciavam-se delas em muitas situações. O que
disse mesmo o velho Tupinambá em seu discurso
para os franceses que queriam fundar uma
colônia no Maranhão? Os portugueses ... não
satisfeitos com os escravos capturados na guerra,
quiseram também os filhos dos nossos e acabaram
escravizando toda a nação.
Nem todos os índios eram livres: aqueles que
resistiam à colonização eram considerados
inimigos. Geralmente, os povos que falavam
outras línguas, chamados de Tapuia, eram
capturados nas guerras justas e transformados em
escravos, segundo a legislação. A guerra justa foi
utilizada pelos colonos e administradores como
mecanismo legal para organizarem expedições
militares com o duplo objetivo de derrotar os
focos de resistência indígena no litoral e
constituir uma força de trabalho. Essas
expedições abasteciam de escravos as fazendas
nas regiões de São Paulo e Maranhão. Nesses
lugares, as atividades de agricultura, criação

de animais, coleta, caça e transporte eram
desenvolvidas pelos índios capturados
pelos sertanistas.
Quem eram os aliados dos portugueses? Quem
eram seus inimigos? Lembra-se das leis sobre a
escravidão indígena? De acordo com essas leis, os
índios que resistiam à colonização eram
considerados inimigos. Aqueles que viviam nos
aldeamentos e trabalhavam para os colonos nas
fazendas e vilas eram considerados aliados.
Tupi e Tapuia foram nomes usados pelos europeus
para diferenciar os povos indígenas que
habitavam o Brasil em 1500. Os Tupi eram
considerados "domésticos ou mansos", porque
conviviam amistosamente com os estrangeiros.
Os Tapuia eram chamados de "bravos" porque
ocupavam os sertões, isto é, as terras que os
europeus pretendiam explorar e colonizar.
No século XIX, muitas mudanças políticas
aconteceram na relação entre a colônia brasileira
e sua metrópole, Portugal. Na época da
independência política do Brasil (1822), os Tupi
foram transformados em símbolo da
nacionalidade brasileira. O contraponto dos
heróicos Tupi eram os ferozes Botocudo. Muito
semelhantes aos Tapuia, os Botocudo também
eram considerados obstáculos à colonização dos
sertões e inimigos dos brasileiros e dos Tupi.

101

História e Geografia
Será que as representações das populações
indígenas se modificaram hoje? Como os índios
são apresentados nos jornais, novelas e seriados
da televisão, nos filmes?
Volte ao início deste texto. Repare no dado de
que, atualmente, existem mais ou menos 280
povos espalhados pelo Brasil, que falam mais de
180 línguas. O que mudou, então, do tempo dos
primeiros portugueses para hoje? O número de
povos indígenas cresceu? Ou mudou a maneira de

Conferindo seu conhecimento

1

Resposta (a).

2

Resposta (c).

4

Resposta (d).

102

Ensino Fundamental
entendermos as suas diferenças culturais? Mudou
também a maneira pela qual a população e o
governo brasileiros respeitam os índios e seus
direitos? Repare que, ao longo de sua história de
sobrevivência, luta e contato com os não-índios,
as populações indígenas também mudaram. Volte,
por exemplo à foto de Aílton Krenak, no início do
capítulo, e escreva algumas reflexões no seu
caderno sobre as mudanças entre os índios de
hoje e de 500 anos atrás.

Capítulo V ­ Movimentos políticos pelos direitos dos índios

ORIENTAÇÃO

FINAL

Para saber se você compreendeu bem o que está apresentado neste capítulo, verifique se está apto a
demonstrar que é capaz de:
· Identificar em diferentes documentos históricos e geográficos vários movimentos sociais brasileiros e
seu papel na transformação da realidade.
· Investigar criticamente o significado da construção e divulgação dos marcos históricos relacionados à
história da formação da sociedade brasileira.
· Interpretar o processo de ocupação e formação da sociedade brasileira, a partir da análise de fatos e
processos históricos.
· Analisar relações entre as sociedades e a natureza na construção do espaço histórico e geográfico.
· Avaliar propostas para superação dos desafios sociais, políticos e econômicos enfrentados pela
sociedade brasileira na construção de sua identidade nacional.

103

Capítulo VI
A CIDADE E O CAMPO NO BRASIL
CONTEMPORÂNEO

INTERPRETAR

A FORMAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DO

ESPAÇO GEOGRÁFICO BRASILEIRO, CONSIDERANDO
DIFERENTES ESCALAS.

Roberto Giansanti

História e Geografia

Ensino Fundamental

Capítulo VI

A cidade e o campo
no Brasil contemporâneo
APRESENTAÇÃO
Para tomar decisões sobre investimentos, um
governo precisa de informações sobre o país. Para
isso, temos o IBGE ­ Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística ­ um órgão encarregado
de fazer pesquisas sobre características do Brasil,
oferecendo um "retrato" de nosso país. Um
exemplo é o Censo Demográfico, que pesquisa, a
cada dez anos, dados sobre população, renda,
trabalho e outros.

brasileiros que vivem na cidade e quantos os que
vivem no campo. Cada vez mais essas populações
parecem se confundir. Por exemplo: muitos
"bóias-frias" moram em cidades e trabalham no
campo, no plantio ou na colheita. Por sua vez, há
muitos trabalhadores exercendo ofícios durante
meses, em São Paulo ou no Rio de Janeiro,
retornando depois para seus sítios no Nordeste ou
Minas Gerais.

Nos últimos anos, no entanto, tem surgido um
problema, tanto para o IBGE como para
pesquisadores: como identificar quantos são os

Leia o que diz a reportagem de jornal sobre
o problema:

Muito do movimento medido pelo IBGE é, na verdade, de produtores rurais que vão morar
na sede do município, onde usufruem mais conforto e continuam trabalhando na sua terra.
É o caso de metade dos agricultores paulistas e goianos.
Convictos de que essa gente virou urbana, os governos federal e estaduais repassam
verbas, que entram no caixa das prefeituras e são empregadas em pavimentação ou
iluminação pública, quando o que as pessoas podem estar precisando é de crédito e
assistência agrícola.
Assim como há gente morando na cidade e trabalhando no campo, há gente morando no
campo e trabalhando na cidade. Em Guararema (Estado de São Paulo), algo como dois
terços dos moradores trabalham na capital paulista.
(...) Em Valente, no Estado da Bahia, inicialmente os produtores apenas cultivavam sisal.
Construíram uma batedeira, que torna a fibra mais mole e permite vendê-la mais caro.
Depois, montaram uma fábrica de tapete e carpete de sisal. A associação dos pequenos
agricultores abriu uma escola rural, um supermercado e uma fábrica de sapatos de couro de
bode e parte da receita foi investida em eletrificação rural por energia solar. Formou-se uma
rede de atividades não-agrícolas, num cenário que é, para todos os efeitos práticos, rural.
SANT'ANNA, Lourival. Conceitos de rural e urbano imploram por revisão. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 9 dez. 2001.

bóia-fria
trabalhador assalariado do campo que recebe remuneração por tarefas realizadas em determinados períodos do calendário
agrícola, como plantio ou colheita. Tem esse nome porque muitas vezes, durante a jornada em meio à plantação, come sua
refeição sem ter como aquecê-la. Também é chamado de "volante".

106

sisal
planta originária do México, com folhas estreitas e compridas. Produz fibra resistente, usada para fazer barbantes, cordas,
tapetes e outros. Adapta-se bem a regiões semi-áridas, com solos rasos e poucas chuvas. No Brasil, que é o maior produtor
mundial, é cultivado e processado em regiões como Valente (Bahia) e Picuí (Paraíba). Parte da produção é exportada para
Europa e Estados Unidos, mas as regiões produtoras sofrem com a concorrência das fibras sintéticas e a falta de financiamento
aos pequenos produtores. Há denúncias de trabalho infantil nas áreas sisaleiras.

Capítulo VI ­ A cidade e o campo no Brasil contemporâneo
· Do que trata a reportagem?
· Como distinguir a vida nas cidades e a vida no
campo?
· Você conhece casos em que esses modos de
vida se misturam?
· Escreva no seu caderno suas conclusões.
Como mostra a reportagem, saber quantas
pessoas moram na cidade e quantas moram no
campo, como vivem e quais problemas enfrentam,
são dados importantes. Servem para auxiliar a
tomada de decisões sobre o planejamento dos
investimentos, como a distribuição de verbas para
construção de escolas, saneamento básico, postos
de saúde e outros.
Assim, como o IBGE e os pesquisadores devem
enfrentar o problema? Como diferenciar a
população do campo e a da cidade? Quais são os
efeitos da urbanização ocorrida no Brasil? Quais
são as perspectivas para quem vive e trabalha no
campo atualmente? É o que veremos a seguir.

MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DA
POPULAÇÃO URBANA E RURAL NO
BRASIL
Observe a tabela abaixo:

POPULAÇÃO BRASIL (EM %)
Situação
Anos

Urbana

Rural

2000

81,2%

18,8%

1991

75,5%

24,5%

1980

67,7%

32,3%

1970

56,0%

44,0%

1960

45,1%

54,9%

1950

36,2%

63,8%

rural? Pela leitura que você fez, você acha que, ao
longo dos anos, há mais ou menos pessoas
vivendo em cidades?
Uma tabela é uma forma de organizar dados e
apresentá-los em linhas e colunas. Observe com
atenção novamente o título. Ele se refere ao
assunto. Observe as colunas. Nelas, há
informações que nos ajudam a situar as
informações no tempo (anos) e no espaço
(no caso, o Brasil). Note que são apresentados
os dados da população de 1950 a 2000. Repare
se houve ou não crescimento da população
brasileira nesse período. Examine, a seguir, os
dados das outras duas colunas. Eles mostram a
distribuição da população em porcentagens,
segundo o domicílio urbano ou rural. Compare os
dados apresentados nas linhas, de acordo com os
anos e, nas colunas, de acordo com os locais de
residência. Por fim, note que está assinalada a
fonte, que é de onde se originaram os dados.
O que os dados da tabela nos mostram? O que
podemos concluir?
Ela traz dados que são um primeiro passo para
diferenciar quantos vivem no campo ou na
cidade. Podemos afirmar que o Brasil passou por
uma urbanização intensa nas últimas décadas.
Observe que a população urbana cresceu sem
parar, a partir de 1950. Em 2000, mais de 80% da
população brasileira vivia em cidades. É como se,
de cada dez pessoas, oito vivessem em núcleos
urbanos. Além de intensa, a urbanização
brasileira vem-se dando de forma acelerada. Em
apenas 20 anos, já na década de 1970, a
população urbana atingia mais da metade da
população total. O Brasil passou de país rural e
agrícola a urbano-industrial nesse período.

Tabela 1
IBGE. Dados históricos dos Censos 1940-1996; Sinopse
preliminar do Censo 2000.

O que a tabela nos informa? O que podemos
afirmar a partir dela?
Leia novamente o título da tabela. Podemos dizer
que a tabela procura caracterizar a população
brasileira, distinguindo a população urbana da

107

História e Geografia

Ensino Fundamental

CAMPO E CIDADE, RURAL E URBANO
Quando faz o Censo Demográfico, o IBGE
considera "urbanas" todas as sedes de
municípios do Brasil, independente do seu
tamanho. Alguns pesquisadores questionam esse
critério e os números do IBGE. Assinalam que a
maior parte dos 5.507 municípios do país tinha
menos de 20 mil habitantes no ano 2000.
Pequenos e de base agropecuária, tais
municípios deveriam ser considerados rurais. Só
com isso a população urbana do país cairia para
cerca de 70%. Além do total de habitantes, esse
argumento também leva em conta a idéia de
densidade demográfica, ou seja, quantos
habitantes por km2 existem em cada município.
Nessa visão, municípios com população mais
"espalhada", como alguns da Amazônia, seriam
essencialmente rurais; de outro lado, o frenético
movimento e concentração de pessoas em
Copacabana, bairro do Rio de Janeiro, não
deixaria dúvidas quanto ao seu caráter urbano.
Mas, para considerar um município como "rural"
ou "urbano", antes é preciso responder a
perguntas importantes. O que é, afinal, uma
cidade? E o urbano? O que significam, por outro
lado, campo e rural? De início, podemos afirmar
que campo e cidade são espaços com
características próprias, enquanto urbano e rural
referem-se a modos de vida. Lembre-se também
de que, em um município, a população se
distribui entre o campo e a cidade.
A partir do momento em que os seres humanos
passaram a fixar-se mais e produzir excedentes
agrícolas, praticamente todas as sociedades
humanas criaram cidades. Há várias explicações
para isso: trocas comerciais, conquistas militares,
grupos exercendo a política e outras. No Brasil, a
colonização contou muito, pois os primeiros
núcleos no litoral foram fundados para proteger o
território colonial e enviar produtos à Europa.
Mas, ao criarem cidades, os seres humanos
permitiram maior proximidade entre si, pela
aglomeração de pessoas. Com as cidades,
eliminaram-se distâncias e promoveram-se
contatos e interações mais intensos e freqüentes.
Pense com quantas pessoas você entra em contato
todos os dias na cidade, mesmo que não as
conheça. Ainda assim, não ficam excluídas

108

situações de isolamento, "quebras" das relações
pessoais ou de vizinhança.
Desta forma, a cidade é um espaço onde se
concentram pessoas e edificações, marcado por
grande diversidade social e diferentes atividades
econômicas. Essa concentração, muitas vezes, é
sinal de vitalidade da cidade. Não é à toa que a
cidade tornou-se o meio geográfico mais rico,
complexo e dinâmico criado pelo ser humano ­
lugar por excelência do modo de vida urbano. Ela
é o berço da política, das leis e da escrita, assim
como de inúmeras manifestações artísticas. Por
outro lado, é inegável que as cidades, como as
grandes cidades brasileiras, têm muitos
problemas hoje.
Outros pesquisadores afirmam que o modo de
vida gerado nas cidades chega a outros lugares
hoje, pela força dos meios de comunicação e
informação ­ rádio, TV, internet etc. ­ e dos
transportes. Habitantes de pequenos municípios
estariam sendo influenciados a falar, comprar ou
vestir-se como quem mora em grandes cidades.
Nesse modo de ver, esses municípios seriam
urbanos, mesmo sendo pequenos. Esse processo
também é uma face da urbanização. Portanto, a
urbanização seria algo mais que o crescimento do
tamanho ou do número de cidades (urbanização
do território) ou da população (urbanização da
população). Seria também a expansão do modo
de vida urbano.
O campo, por sua vez, caracterizou-se
tradicionalmente por ser um espaço com
predomínio de atividades agropecuárias,
dispersão da população e certa dependência da
natureza. Sua função principal era o
abastecimento de alimentos e matérias-primas.
Nele predominava o modo de vida rural,
marcado por menor diversidade e freqüência nas
interações sociais e relativa homogeneidade
social, mas com vida do tipo comunitária, em que
as pessoas e famílias se conheciam bem
(incluindo aí laços de parentesco). Mas, como
veremos adiante, tudo isso está mudando
bastante no Brasil, pois o campo está cada vez
mais urbanizado.
Mesmo com polêmicas sobre a urbanização no
Brasil, parece não haver dúvida de que ela é

agropecuária

extrativismo

atividades econômicas que envolvem a agricultura e a
criação de animais para fins diversos (abastecimento
alimentar, matérias-primas industriais etc.),
tradicionalmente desenvolvidas no meio rural.

atividades econômicas ligadas à extração ou retirada de
recursos vegetais, animais ou minerais. Entre elas estão a
pesca, a coleta de látex e castanha-do-pará e o corte de
árvores.

Capítulo VI ­ A cidade e o campo no Brasil contemporâneo

bastante elevada, comparável à de países
desenvolvidos.
Mas o que isso significa? Quer dizer que, daqui a
algum tempo, todos os brasileiros estarão vivendo
em cidades? Quem então vai produzir alimentos no
campo? As cidades irão "explodir" com tanta gente?
Aqui se coloca uma outra importante questão, que
pode estar indicando um situação nova.
Perguntados se pretendiam arrumar emprego na
cidade e deixar a vida no campo, dois jovens de
um assentamento conquistado pelo Movimento
dos Sem-Terra declararam que pretendiam
permanecer ali. Entre outras razões, porque
teriam como garantir alimentação, fugir do
desemprego na cidade e, como filhos de
agricultores, recuperar as raízes rurais da família.
Admitem, no entanto, trabalhar na cidade para
ajudar no orçamento familiar.
Outras pessoas estão indo pelo mesmo caminho.
Em recente pesquisa, descobriu-se que está

havendo um crescimento ­ ainda que pequeno ­
da população acima de 10 anos de idade no
campo, em quase todo o Brasil. Além disso, vem
crescendo, no campo, o número de trabalhadores
ocupados em atividades não-agropecuárias. Ao
mesmo tempo, diminui o número de
trabalhadores ocupados em atividades típicas do
campo, como lavoura e criação de animais.
Coloca-se, aqui, uma importante questão. Um
desafio para aqueles que procuram compreender
o que acontece hoje no Brasil: como explicar que
ocorram, ao mesmo tempo, uma forte
urbanização e o aumento de pessoas e
atividades no campo? Mas o Brasil não é o país
da urbanização intensa? Então, há gente voltando
para o campo? Por que vem diminuindo a
população ocupada em atividades agropecuárias?
Pense um pouco sobre essas questões. Leve em
conta, inclusive, sua própria história de vida.
Talvez, ali, já apareçam algumas respostas.

Desenvolvendo competências

1

Examine as afirmações abaixo. Qual delas contribui melhor para explicar a combinação entre
urbanização elevada e aumento da população rural?
· A população rural vem aumentando porque se mantém ali a tradição de formar famílias
com grande número de filhos.
· Muitos migrantes estão retornando às origens rurais porque os salários pagos na cidade são
muito mais baixos que os do campo.
· Enquanto as máquinas modernas dispensam trabalhadores, atividades não-agropecuárias,
como o turismo, vêm se expandindo para áreas rurais.
Qual delas você escolheu? Sabemos que as faixas salariais na cidade são, em geral, mais
altas. Também vem caindo o número de filhos por família no país. Então, parece que algumas
respostas estão nas mudanças econômicas e sociais, tanto no campo quanto na cidade.

assentamento
área rural escolhida para instalar ou assentar famílias de agricultores. Resulta de políticas de distribuição de terras, muitas
vezes fruto de negociação entre o governo e movimentos de trabalhadores rurais. Estes utilizam com freqüência a ocupação de
terras como meio de pressão para agilizar a reforma agrária.

109

História e Geografia

O CRESCIMENTO DAS CIDADES
Vamos recorrer aqui a aspectos importantíssimos
do desenvolvimento econômico-social do Brasil,
nas últimas décadas, para buscar explicações.
Após os anos 50, ocorreu, no Brasil, um processo
que ficou conhecido como modernização, uma
nova etapa do desenvolvimento capitalista no
país. Mas o que significa tudo isso? Para você, o
que é "moderno"? Essa palavra é entendida
muitas vezes como sinônimo de "avançado" ou
"recente". Mas estamos usando, aqui, a palavra
modernização para designar as grandes
modificações sociais e econômicas ocorridas no
Brasil naquele período: na produção industrial e
agrícola, nos transportes, no crescimento de
cidades etc. E tudo isso está ligado ao
desenvolvimento do capitalismo no país. Por quê?
Porque, com essas mudanças, muitas empresas
puderam se expandir e ampliar seus lucros. O
Estado brasileiro estimulou investimentos na
indústria e atraiu empresas multinacionais, que se
localizaram sobretudo no eixo Rio­São Paulo.
Criaram-se empresas estatais, como as de
siderurgia, petroquímica e extração mineral e
construíram-se infra-estruturas de transportes,
comunicações e energia ­ tendo as rodovias como
"carro-chefe". O território nacional foi sendo
integrado, embora com muitas diferenças sociais e
regionais. Organiza-se o mercado consumidor
interno, com gente comprando mercadorias em
mais lugares do país.
As cidades passaram a concentrar cada vez mais
indústrias, comércio e serviços, atraindo
trabalhadores de todo o país. Nos anos 70, a
maior leva de migrantes dirigiu-se do Nordeste
para as grandes cidades do Sudeste (sobretudo
São Paulo e Rio de Janeiro), buscando emprego e
melhores salários. No Planalto Central, ergue-se
Brasília como sede do poder político e "ponte"
para ocupar o Brasil central. A partir da
ampliação dos transportes e das comunicações,
mais mercadorias, pessoas e informações passam
a circular no país, tendo por base as cidades e

Ensino Fundamental
sob o comando das metrópoles do Sudeste. Nos
anos 80, os deslocamentos de pessoas tomam
várias direções, como do sul para a Amazônia,
expandindo fronteiras agrícolas e gerando novas
cidades.

SINOP
Sinop é um município localizado no
norte de Mato Grosso, a 505 km de
Cuiabá, capital do Estado. Com a vinda
de agricultores do Estado do Paraná
para a região, em 1970, criou-se o
município que hoje é um bom exemplo
de rápido crescimento dos núcleos
urbanos no Brasil. Na época, uma
empresa com sede em Maringá (PR)
comprou uma imensa área em Mato
Grosso. Ali viria a ser fundada, em
1974, uma pequena vila, que recebeu o
nome da sigla da empresa, SINOP ­
Sociedade Imobiliária Noroeste do
Paraná. Em 1976, o pequeno povoado
passa a pertencer ao município de
Chapada dos Guimarães. Três anos
depois, já era independente, com
prefeitura e vereadores. O município
cresceu aceleradamente. Segundo o
IBGE, em 2000 ­ portanto, em menos
de 30 anos ­ atinge cerca de 75 mil
habitantes, a maior parte vivendo na
cidade. Hoje, um dos grandes desafios
em Sinop é evitar a redução de
florestas e da fauna da região,
retiradas para agricultura, criação de
animais e exploração de madeira.
Disponível em: http://www.sinop.mt.gov.br

desenvolvimento capitalista

refere-se ao desenvolvimento social e econômico do capitalismo, forma de organização social marcada pela propriedade privada,
divisão em classes sociais e apropriação de riquezas pelos setores dominantes. De forma geral, esse desenvolvimento supõe a
ênfase em aspectos como o crescimento da produção de bens e riquezas, ampliação de mercados consumidores e, em alguma
medida, a melhoria de índices sociais. Neste último caso, não é o que vem ocorrendo em países que vivem sob este sistema, como
o Brasil e boa parte da América do Sul, África e Ásia, onde há profundas desigualdades sociais.

estado

110

há diferentes explicações sobre o que é Estado. É importante não confundir o Estado de que estamos falando com as unidades
político-administrativas do Brasil (Estado do Ceará, Estado do Paraná etc) ou com o governo. O governo é representado por
pessoas, em nosso caso eleitas, que vão ocupar o poder no Estado por algum tempo. E isso ocorre nos níveis federal, estadual ou
municipal. O Estado refere-se assim ao poder político organizado nacionalmente, com os poderes executivo, legislativo e
judiciário e seus órgãos administrativos. Ali se formulam políticas (sociais, econômicas) que irão afetar o conjunto da sociedade.

Capítulo VI ­ A cidade e o campo no Brasil contemporâneo
Os pequenos municípios (até 20 mil habitantes)
multiplicaram-se entre 1950 e 1980. Municípios
de porte médio (entre 100 mil e 500 mil
habitantes) eram apenas 12 em 1940; em 1996,
eram 175. Existiam apenas duas aglomerações
com mais de 1 milhão de habitantes em 1960
(São Paulo e Rio de Janeiro); hoje são pelo menos
15. Há municípios médios fora das áreas
metropolitanas que tiveram crescimento,
enquanto os pequenos vêm perdendo população.
Nas metrópoles, crescem especialmente os núcleos
em torno do município central. Mas a
urbanização brasileira não se deu sem conflitos e
problemas. Com o crescimento rápido e
concentrado, logo apareceram os dramas da falta
de habitação, saneamento básico e hospitais,
afetando principalmente os mais pobres.

luta pela terra, acirraram-se os conflitos no
campo, causando a morte de trabalhadores,
sindicalistas ou indígenas. Nos anos 80, surgem
novos movimentos sociais no campo que lutam
por distribuição de terras mais justa. As técnicas
modernas vêm causando problemas ambientais,
como desmatamento, esgotamento de solos e
contaminação de rios. Por fim, hoje, o campo tem
oferecido novas oportunidades de emprego em
atividades não-agropecuárias, especialmente em
turismo e lazer para a população urbana,
(ecoturismo, hotéis-fazenda, chácaras de lazer),
serviços públicos ou domésticos, em
agroindústrias e outras.

A SITUAÇÃO DO CAMPO
O campo e as atividades agropecuárias foram
modernizados. O que isso quer dizer?
Privilegiando-se apenas um lado da
modernização, a sua face econômica aumentou o
uso de máquinas agrícolas, fertilizantes,
agrotóxicos, irrigação e outros, elevando a
produtividade. As tecnologias estão cada vez mais
sofisticadas. Um exemplo atual é o da agricultura
de precisão. Mas tudo isso beneficiou sobretudo
as culturas de exportação (soja, laranja, cana,
café, aves), produtores e empresas com
capacidade de investir. Com a mecanização,
muitos assalariados perderam empregos. A
concentração de terras nas mãos de poucos
proprietários, que já era grande, aumentou ainda
mais. Pequenos agricultores e suas famílias foram
expulsos das terras e dirigiram-se às cidades. Na

irrigação
técnica agropecuária que consiste em distribuir água
artificialmente para regar culturas agrícolas e abastecer
a criação de animais por meio de canais, tubos para
gotejamento e outras técnicas.

produtividade
relação que indica geralmente quantas unidades de
produção (de bens agrícolas, industriais etc) são obtidas
a mais a partir da introdução de inovações nas técnicas
produtivas.

agricultura de precisão
prática agrícola que adota sistema de coleta e
tratamento de informações obtidas por satélites. Elas
são passadas para um computador instalado na
máquina agrícola, ajudando a definir a aplicação de
fertilizantes ou a dosagem de grãos no plantio de cada
pedaço de terra da propriedade rural.

multinacionais
empresas que atuam fora de seus países de origem, fazendo investimentos e instalando unidades produtivas. Um aspecto
essencial é o comando de suas atividades pela sede central, para onde vão os lucros obtidos. Hoje, com a chamada globalização,
as empresas adquirem um caráter transnacional, ou seja, produzem e vendem em todas as partes do mundo. Alguns produtos,
como automóveis, motocicletas e computadores, são montados com peças fabricadas em várias partes do mundo. Em algumas
dessas empresas, já é muito difícil identificar hoje seus vínculos com o país de origem.

metrópoles
grandes aglomerações urbanas formadas por um município principal e seus vizinhos, em situação de forte integração econômica,
social e cultural. Concentram recursos financeiros, humanos, econômicos e técnicos, mas também grande número de pobres, no
caso do Brasil. Entre elas estão São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife.

111

História e Geografia

Ensino Fundamental

Desenvolvendo competências

2

Revise as novas informações vistas até aqui. Selecione as mais importantes para responder no
seu caderno às seguintes questões:
· a partir do que os pesquisadores e o IBGE podem se guiar para identificar os brasileiros
que vivem na cidade e no campo?
· o que aconteceu com as cidades e o campo e seus modos de vida?
· como a vida na cidade tem influenciado a vida no campo?
· o que significa a urbanização?
· podemos dizer que tem aumentado ou diminuído a população rural?

Podemos, então, a partir do que foi visto,
relacionar as informações ao problema
colocado para o IBGE e pesquisadores e
oferecer algumas respostas.
Acompanhe as conclusões a seguir:
1. Grande parte de nossa população passou a
viver em cidades. As cidades grandes e médias
continuam a receber pessoas (em ritmo mais
lento), enquanto muitas cidades pequenas perdem
gente. Embora muitas cidades (especialmente as
grandes) tenham problemas, é pouco provável
que venham a "explodir", pois a população está
se distribuindo entre vários tipos e tamanhos de
núcleos urbanos. Isso deve ser considerado na
hora de aplicar o dinheiro público.
2. Mesmo pequeno, está havendo crescimento da
população rural. Esse crescimento é explicado, em
parte, pelo aumento da luta pela terra e pela
expansão de atividades típicas da cidade para o
campo. Tudo isso contribui para que mais pessoas
permaneçam vivendo no meio rural. Alguns
pesquisadores afirmam que a urbanização é uma
das grandes responsáveis pelo aumento do
número de pessoas no campo.
3. Para identificar quantos brasileiros vivem na
cidade ou no campo, é preciso considerar que,
hoje, muitos vivem na cidade e trabalham no
campo. O inverso também acontece: membros de
famílias de agricultores trabalham parte do ano
fora da propriedade, seja na agropecuária ou não.
Portanto, há parcelas da população que transitam
entre o campo e a cidade. Esses fatos também

112

devem ser levados em conta na hora de planejar
políticas públicas específicas.
4. O uso de máquinas na agricultura moderna
contribui para diminuir o pessoal ocupado na
agropecuária, já que dispensa mão-de-obra. Mas
há também outros fatores muito importantes:
crises econômicas e desemprego no país,
momentos de queda nos preços dos produtos
agrícolas ou dificuldades dos pequenos
agricultores para conseguir créditos e assistência
técnica. É bom lembrar que, no campo, estão mais
agudos os conflitos relativos à luta pela terra, o
que exige políticas governamentais mais
eficientes de distribuição das terras.

Capítulo VI ­ A cidade e o campo no Brasil contemporâneo

CIDADE E CAMPO NO
BRASIL MODERNO:
A DISTRIBUIÇÃO REGIONAL
Vimos, até aqui, mudanças na distribuição das
populações urbana e rural no Brasil. Examinamos
também mudanças espaciais, como o crescimento
de cidades e a modernização do campo. Elas
alteraram profundamente a face do Brasil. Mas a
pergunta é: quem vem se beneficiando de tudo isso?
Sobre essa questão, observe os mapas a seguir:

BRASIL: NÚCLEOS URBANOS

Mapa 1 - IBGE. Diretoria de Geociências. Atlas nacional do Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro, 2000. p.153.

113

História e Geografia

Ensino Fundamental

BRASIL: MODERNIZAÇÃO NO CAMPO

Mapa 2
IBGE. Diretoria de Geociências. Atlas Nacional do Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro, 2000. p. 145.
Para se obter o índice de modernização, levou-se em conta uma série de fatores que caracterizassem os espaços com práticas
agropecuárias mais modernas. Entre eles, estão: tratores, adubos, defensivos, conservação do solo, assistência técnica, máquinas
para plantio e para colheita. Os fatores em conjunto receberam uma nota, indicadas pelos números que aparecem na legenda.
Quanto mais alto o valor, mais modernizada é a área.
Texto baseado em Atlas nacional do Brasil, op. cit. p. 127-128.

O que os mapas nos informam? O que podemos
extrair deles? Releia novamente o título de cada
mapa. Observe tudo o que aparece em cada um
deles. O que são os círculos no Mapa 1? A que se
referem as tonalidades que vão do azul claro ao
azul escuro no Mapa 2? Leia com atenção o texto
do Mapa 2. Como se distribuem os fatos nele

114

apresentados? Você notou semelhanças e
diferenças entre os dois mapas?
Lembre-se de que um mapa é uma representação
plana, simplificada e visual do todo ou de parte
da superfície da Terra. Usando símbolos ou cores,
os mapas comunicam informações. Mas, atenção!
O mapa nunca será uma representação tão fiel da

Capítulo VI ­ A cidade e o campo no Brasil contemporâneo
realidade quanto pode ser, por exemplo, uma
fotografia. Por isso, ele é uma representação
simplificada. Em geral, selecionam-se
informações para serem representadas no mapa.
Agora, observe novamente os mapas 1 e 2.
Repare que o título identifica o assunto e o lugar.
Portanto, o que eles mostram? O Mapa 1 mostra a
distribuição da população urbana. No Mapa 2,
temos a modernização do campo. Os mapas
sempre vêm acompanhados da legenda, um
quadro colocado ao "pé" do mapa que mostra
quais fatos estão representados. Como é a legenda
do Mapa 1? Ela traz círculos de diferentes
tamanhos. E o que eles mostram? Eles
representam o tamanho da população ­ e não a
área das cidades. Quanto maior o círculo, maior é
a população da cidade (ou grupo de cidades).
Muitos círculos juntos significam grande
concentração urbana. Como é a legenda do Mapa
2? Ela traz quadrinhos com diferentes tons de
azul. Mas o que significa cada uma das cores?
Elas se referem a diferentes situações de
modernização agropecuária. Observe que há
"manchas" de cores diferentes, que mostram
justamente a distribuição das áreas segundo seu
grau de modernização agropecuária.
Como se distribuem as cidades e o campo
modernizado no território nacional? Compare a
distribuição desses fatos segundo as regiões
brasileiras. Verifique, também, se há concentração
ou dispersão (se estão mais espalhadas).
Os mapas trazem, ainda, coordenadas
geográficas (paralelos e meridianos), linhas que
se cruzam e indicam a posição dos lugares na
Terra. Por fim, aparece a escala, para mostrar a
proporção entre a realidade e sua representação
no papel ou na tela do computador. Essa
representação pode ser numérica (por exemplo1:
150) ou gráfica. Nos Mapas 1 e 2, aparece esta
última. Uma linha horizontal está dividida em
"pedaços" de 1 centímetro. Assim, cada
centímetro no mapa equivale a 75 quilômetros
na realidade.

Para tirar conclusões sobre a distribuição de
cidades e do campo modernizado, lembre-se da
posição das regiões brasileiras. Oriente-se pela
seta que indica a direção Norte. Do mesmo modo,
a região Norte ocupa uma longa faixa na parte
superior do mapa, enquanto a região Sul está na
posição oposta.
Assim, estudando o mapa, procure responder:
· Como se distribuem as aglomerações urbanas
no Brasil?
· Onde a modernização do campo é mais
elevada?
· Há semelhanças na distribuição de cidades e do
campo modernizado?
· Escreva no caderno suas conclusões.
Repare que, em ambos, há concentração. No Mapa
1, as maiores cidades estão concentradas no
Sudeste e Sul do país, estendendo-se, também, em
pontos ao longo da faixa litorânea. As maiores
concentrações urbanas estão em São Paulo e Rio
de Janeiro, seguidas das capitais dos Estados do
Sul e do Nordeste. Do mesmo modo, no Mapa 2, o
campo modernizado distribui-se pelos Estados das
mesmas regiões, com algumas manchas no
Centro-Oeste e litoral do Nordeste. Observe,
também, que a área mais modernizada é
relativamente menor que as demais. Do mesmo
modo, grande parte do Brasil central e da
Amazônia tem apenas alguns pontos com
concentrações urbanas.
A que conclusão geral podemos chegar? Podemos
afirmar que há uma distribuição regional
desigual, tanto da concentração urbana quanto
das áreas mais modernizadas do campo no Brasil.
Aqui coloca-se, então, uma questão-chave para a
interpretação desses dois fatos. Por quais razões
essa distribuição é tão desigual? Em que medida
essa desigualdade afeta a vida das pessoas? Quais
medidas os governos, pesquisadores e a sociedade
em geral podem propor a partir desta realidade?

115

História e Geografia
Para responder, precisamos recorrer a
novas informações.

Acompanhe:
As desigualdades regionais são um problema
antigo no Brasil. E a modernização brasileira não
contribuiu para superá-lo. A concentração
regional de cidades e do campo modernizado é
reflexo da concentração regional das riquezas. O
Sudeste, e particularmente o eixo Rio­São Paulo,
é o meio geográfico mais apto a receber
inovações e novas atividades econômicas,
aumentando sua posição de comando no país.
Contribuíram para esse quadro as riquezas
geradas pela economia cafeeira, desde a segunda
metade do século XIX, e a nascente

Ensino Fundamental
industrialização nos primeiros anos do século XX.
Auxiliaram na formação da rede de cidades do
país períodos como a mineração nos séculos XVII
e XVIII (do qual as cidades históricas de Minas
Gerais são um testemunho) e a efetiva ocupação
do interior do país após 1950. São Paulo e Rio
não só são grandes cidades como também
concentram poder político, indústrias, serviços e
agricultura modernos, informações, sedes de
empresas e bancos (estatais e privados), redes de
TV, centros de pesquisa, alta densidade em
transportes e comunicações etc. As demais
regiões e cidades (como as metrópoles regionais
Salvador, Porto Alegre ou Belém) têm um papel
destacado, mas ele é complementar e de
importância regional.

A FÁBRICA, O CAMPO E A CIDADE
Uma empresa estrangeira instalou-se no Brasil há muitos anos. Ela faz produtos que
poucos dispensam: derivados de leite, chocolate e café, biscoitos, sorvetes e outros. Para
que os produtos cheguem até nós, a empresa comanda atividades em uma grande rede de
100 municípios brasileiros. Todos participam de pelo menos um dos momentos da
produção ou distribuição dos seus produtos.
Sua sede fica em São Paulo. Ali, tomam-se decisões que irão afetar muitos pontos do
país, tanto no campo como nas cidades. Tudo começa com a produção do leite. Ele é
produzido em fazendas no Vale do Paraíba e regiões de Campinas e Ribeirão Preto (Estado
de São Paulo), no Triângulo Mineiro (em Minas Gerais), em Mato Grosso do Sul e Goiás.
Das fazendas, o leite vai para pequenas e médias cidades onde é pasteurizado. Entre elas
estão várias cidades de São Paulo, como Votuporanga, Tanabi, Morro Agudo e Birigui. A
produção final das mercadorias, quando alimentos são combinados ao leite, acontece em
fábricas como as de Três Corações (MG), Barra Mansa (RJ) ou Araraquara (SP).
O caminho se completa com pontos de distribuição nas metrópoles regionais de todo o
país, como Manaus (AM), Belém (PA), Fortaleza (CE), Salvador (BA), Brasília (DF), Belo
Horizonte (MG), Curitiba (PR), Porto Alegre (RS) e outras. Muitos produtos chegam até
essas cidades de avião; outros, por rodovias. A partir delas, são distribuídos para cidades
menores ­ normalmente, também se utilizando de rodovias.
Faltou alguma coisa? Claro! Os ganhos com toda essa operação retornam ­ através de
agências bancárias das cidades médias e grandes ­ para o ponto onde tudo começou: a
sede da empresa em São Paulo. O exemplo mostra como a empresa organiza e integra o
seu próprio "território". Como ela é estrangeira, mostra também como os interesses
internacionais podem influenciar a vida das pessoas nos lugares e nas regiões, seja no
trabalho ou no consumo.
Baseado em: CORRÊA, Roberto Lobato. Os centros de gestão do território: uma nota. Território, Rio de Janeiro, n. 1, p. 23-30, 1996.

116

Capítulo VI ­ A cidade e o campo no Brasil contemporâneo

DESIGUALDADES
As desigualdades regionais vêm acompanhadas
de desigualdades sociais. Embora o Brasil esteja
entre as dez maiores economias do mundo,
convivemos aqui com uma gigantesca
concentração de renda: os 10% mais ricos ficam
com 42,5% da renda, enquanto que os 40% mais
pobres atingem apenas 12%. Os mais pobres do
país formam uma massa de cerca de 54 milhões
de pessoas. As cidades e o campo refletem essas
desigualdades. Mais de 5,5 milhões de famílias
do país viviam em habitações precárias em
1999. Neste mesmo ano, só em São Paulo,
2,5 milhões de pessoas viviam em favelas. No
campo, 1% dos proprietários controla 45% das
terras; de outro lado, em 2000, pequenos
agricultores recebiam menos de 10% do total dos

financiamentos agrícolas, destinados, em grande
parte, a culturas exportáveis e mais lucrativas.
Considere-se que propriedades com até
100 hectares (o que inclui as pequenas)
respondem por 80% dos empregos agropecuários
e pela maior parte dos gêneros alimentícios
produzidos, como 79% do feijão ou 75% da
banana. Comunidades rurais, em especial no
Norte-Nordeste, estão em relativo isolamento e
não dispõem sequer de escolas, eletricidade ou
abastecimento de água, nem estradas para escoar
a produção. Por fim, só em 2001, registraram-se
quase 1.200 casos de trabalho escravo no Pará,
também um palco de inúmeros conflitos na luta
pela terra.

Desenvolvendo competências

3

Revise o que foi visto até aqui. Selecione as informações mais relevantes e responda às
seguintes questões:
· a quais conclusões você chegou sobre as desigualdades regionais e sociais e suas relações
com o campo e a cidade?
· quem de fato se beneficia com isso?
· o que pode ser feito para reduzir essas desigualdades? Quem deve participar desse esforço?

hectare
unidade de medida de área utilizada no campo que equivale
a 10 mil metros quadrados.

117

História e Geografia
Vimos que as desigualdades têm raízes históricas.
O processo de modernização, embora tenha
trazido avanços, contribuiu para aprofundar as
desigualdades. Seguramente, saíram ganhando,
com a modernização, muitas empresas de grande
porte e grandes proprietários rurais. Os espaços
da cidade e do campo têm correspondências com
essas desigualdades.
Existem perspectivas para eliminar ou reduzir os
problemas? A quem cabe essa responsabilidade?
Não são respostas simples e "mágicas". Mas
muitas propostas estão sendo debatidas hoje, no
Brasil. Acompanhe algumas delas:
1. Dar prioridade a políticas públicas (federal,
estaduais e municipais) de investimentos sociais
em educação, saneamento básico, meio-ambiente,
saúde, empregos, apoio ao pequeno agricultor
familiar, segurança alimentar e outras, visando a

Ensino Fundamental
reduzir os efeitos da pobreza. A reforma agrária
tem papel importante nesse conjunto de medidas.
2. Garantir a participação da sociedade em
geral nas decisões e fiscalizar a aplicação do
dinheiro público.
3. Valorizar e apoiar o potencial econômico de
municípios e regiões, integrando os diversos
setores de atividade econômica no campo e na
cidade.
4. Conhecer, valorizar e apoiar experiências de
geração de emprego e renda, feitas com parcerias
entre entidades, poder público e comunidades,
podendo-se citar, como exemplos, as cooperativas
de pequenos proprietários rurais em vários pontos
do país, a retirada de crianças de lixões, que vem
sendo feita em Teresina (PI) e a coleta e
reciclagem de lixo, experimentada em Belo
Horizonte (MG).

FELIZ EM PRIMEIRO LUGAR
O desconhecido município de Feliz, a 87 quilômetros de Porto Alegre, atingiu o mais alto
índice de desenvolvimento humano (IDH) no Brasil. Essa foi a revelação surpreendente de
relatório publicado em 1998. A surpresa aumentou muito quando analistas perceberam
que mais sete municípios bem parecidos estavam entre os dez primeiros colocados:
Indaial, Gaspar e Videira (em SC) e Paraí, Nova Prata e Salvador do Sul (no RS). O
mesmo tipo de município ­ desconhecido, rural e nesses dois Estados ­ ocupava metade
das 50 melhores colocações. Seria possível acreditar que lugarejos tão acanhados, sem
shopping centers, teatros, cinemas ou faculdades pudessem rivalizar com Curitiba, que
pegou o 18º lugar, ou o Rio de Janeiro, que ficou em 45º?
A resposta é simples: quem tem saúde, educação e renda tem oportunidade e capacidade
de ser bem-sucedido e conseguir todos os outros itens daquilo que se chama qualidade de
vida ­ sem precisar migrar. Estudos mostram também que as melhores dinâmicas de
desenvolvimento ocorrem em regiões como a de Feliz, com forte agricultura familiar
combinada a processo de urbanização e industrialização próprio e mais descentralizado.
Gera-se emprego em muitas atividades, empregando grande parte da mão-de-obra rural
local. A produção agrícola e industrial é variada, criando grande volume de produtos
exportáveis e para o mercado local (pessoas e empresas) e usando de forma razoável os
recursos. Existe um vasto rol de atividades não-agrícolas e características urbanas no
meio rural dessas regiões.
Adaptado de VEIGA, José Eli. Cidade com mais alto índice de desenvolvimento humano mostra a vantagem da agricultura familiar. O Estado de S. Paulo, São Paulo,
26 set. 1998 ______. Crescimento mais dinâmico ocorre em região com agricultura familiar, urbanização e industrialização. O Estado de S. Paulo, São Paulo,
21 nov. 1998.

IDH

118

índice elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para medir condições de desenvolvimento nos países. Leva em
conta a esperança de vida da população (quantos anos vivem, em média, os seus membros), a escolaridade (que combina
alfabetização de adultos e taxas de matrícula em todos os níveis de ensino) e a renda ou PIB per capita (que é o total da renda
ou da produção do país dividido pelo número de habitantes). O Brasil ficou em 68º lugar em 1998, com IDH de 0,809, índice
considerado de médio desenvolvimento humano.

Capítulo VI ­ A cidade e o campo no Brasil contemporâneo

O USO E A APROPRIAÇÃO DOS
RECURSOS NATURAIS NO CAMPO
E NA CIDADE
Vimos a importância de valorizar investimentos
sociais e experiências bem-sucedidas que
melhorem as condições de vida, especialmente
dos mais pobres. No entanto, ainda há muito por
fazer. Vamos examinar, agora, alguns problemas

Foto 1 - Córrego poluído na Zona
Leste de São Paulo (SP).
Disponível em:
http://www.socioambiental.org/.../
edição55/img/mananciais3.jpg

decorrentes do uso e apropriação do espaço nas
cidades e no campo.
Sobre isso, observe com atenção as fotos a seguir:

Foto 2 - Voçorocas em área de pastagem em Morro do Ferro (MG).
Disponível em: http://www.dcs.ufla.br/morrodoferro ­ Universidade Federal de
Lavras-MG.

· O que mostram as fotos?
· Quais sensações elas provocam?
· Como podemos melhor observá-las
e extrair informações?
· Registre suas conclusões no caderno.

paisagens, formando assim, um conjunto. Para
melhor observá-la, é fundamental identificar os
elementos que a compõem e suas características.
Igualmente, os que estão em primeiro plano
(à frente) e ao fundo.

É importante lembrar que uma fotografia registra
em um dado momento objetos, cenas, pessoas,

119

História e Geografia
Agora, observe as fotos com atenção. O que você
vê em cada uma? Compare pessoas e objetos.
Onde eles estão? Anote essas observações. Em
seguida, crie um título para cada foto.

· Certas opções de uso do espaço inviabilizam
outros usos e decorrem de medidas tomadas
pelas elites dirigentes, afetando, em especial,
os pobres.

Pense nas seguintes questões:

Qual delas você escolheu? Qual lhe pareceu mais
acertada? Procure justificar sua resposta.

· Esses problemas são comuns em cidades?
· E no campo?
· Por que você acha que eles ocorrem?
· Quais as conseqüências?
Note que as fotos mostram uma paisagem de
cidade (Foto 1) e uma paisagem do campo (Foto
2). Em cada uma, aparecem sinais da presença
humana e um certo tipo de uso e apropriação
dos espaços. O que mais chama a atenção na
Foto 1? Observe que as águas do rio estão
comprometidas pela poluição (esgotos e dejetos),
tendo habitações pobres ao lado. E a Foto 2? Ela
mostra desmoronamento em encosta situada
numa pastagem. Essas grandes valas são
conhecidas como voçorocas. Com a presença de
uma pessoa, podemos ter uma idéia de sua
profundidade. Ao fundo, estão árvores,
vegetação rasteira e culturas agrícolas.
Estas fotos mostram formas bastante
problemáticas de uso do espaço geográfico pelos
seres humanos. Mas por que isso ocorre? Ao
utilizar recursos naturais, os seres humanos,
inevitavelmente, comprometem os espaços?
Existem usos mais adequados? Com o que você
viu nas fotos, quais soluções você proporia para
resolver esses problemas?
Reflita sobre as afirmações a seguir e escolha
aquela que melhor explica por que esses
problemas vêm ocorrendo:
· Os seres humanos comprometem os espaços
movidos pela ganância, falta de consciência e
possibilidade de lucro fácil e imediato.
· Os espaços degradam-se porque países como o
Brasil não dispõem de recursos financeiros para
evitar o seu comprometimento.
· Ao incorporar a natureza para construir novos
espaços, os seres humanos, inevitavelmente, vão
comprometer os recursos naturais disponíveis.

120

Ensino Fundamental

Para respondermos, é preciso clarear um pouco
mais as idéias. Em primeiro lugar, lembre-se de
que há diferenças entre os homens. Nem todos os
seres humanos agem da mesma forma ou pelos
mesmos motivos. Vivemos em sociedades e as
sociedades atuais possuem grandes diferenças
internas, como é o caso da brasileira. Assim,
existem os que detêm o poder político-econômico
e maior possibilidade de tomar decisões. Mas isso
também não é imutável. Vem aumentando muito
no Brasil a participação da sociedade nas decisões
políticas, seja votando, seja reivindicando, seja
fiscalizando o poder público.
A disponibilidade de recursos depende muito das
políticas que direcionam os investimentos. Por
exemplo, estima-se que governos estaduais e
municipais gastaram cerca de 20 bilhões de reais
no final dos anos 90, para atrair empresas. Entre
elas, as automobilísticas, que hoje geram poucos
empregos. Mas esses recursos poderiam ter sido
aplicados em habitação ou saneamento básico,
que geram muitos empregos e melhoram as
condições de vida da população pobre. Então,
parece que o problema não é exatamente a falta
de recursos.
Costuma-se dizer hoje que, ao construir seus
espaços de vida, os seres humanos destroem a
natureza. Evidentemente, o caminho possível para
satisfazer necessidades humanas é o uso dos
recursos naturais. E são poucos os lugares em que
a natureza original foi mantida. Entretanto,
alguns usos são muito mais nocivos que outros. E
usos inadequados ocorrem por decisões das elites
dirigentes, que sempre "apostaram" na baixa
participação da sociedade.

Capítulo VI ­ A cidade e o campo no Brasil contemporâneo

SANEAMENTO E DESMATAMENTO
Vamos voltar às fotos para exemplificar. A Foto 1 é
um exemplo de como rios, córregos e lagoas vêm
sendo usados nas cidades. Os rios e seus afluentes
recebem a maior parte dos esgotos domésticos e
industriais, além de lixo composto por plásticos,
madeira, metais, borracha etc, que demoram para se
decompor. Como os rios de uma bacia hidrográfica
estão ligados a outras bacias ou ao mar, outros rios
e córregos sofrerão as conseqüências. E as
populações também, especialmente aquelas que não
têm opção a não ser viver ao lado desses canais de
água. Um dos efeitos do problema é o assoreamento,
ou seja, o preenchimento do leito dos rios com
detritos. Quando vêm as chuvas fortes, o rio
transborda mais facilmente e provoca enchentes em
áreas densamente ocupadas, causando transtornos à
população. Esse fato sempre ocupa os noticiários no
período de verão, no Brasil.
Por que isso ocorre? O motivo principal é a falta
de saneamento básico. Essa realidade toma conta
da maioria dos municípios brasileiros. Segundo
o IBGE, no ano 2000, apenas 52% deles tinham
redes de esgoto. Na região Norte, apenas 7% das
localidades tinham redes desse tipo. Dos 2.875
municípios que têm o sistema, apenas 575
tratam os esgotos antes de despejá-los nos rios
ou no mar. A partir daí, vêm as doenças
contagiosas, morte de peixes e outros males.
Usar o rio como rede de esgotos impede outros
usos, como abastecimento de água e alimentos,
navegação, turismo e lazer, funções já cumpridas
em passado recente.
Como resolver problema tão grave? O mais
urgente é dotar os municípios de redes de esgoto,
acompanhadas de estações de tratamento. Esse
sistema deve acompanhar as futuras ações de
planejamento da ocupação da cidade, decididas
democraticamente pelo conjunto da sociedade.
Por fim, cabe a todos (governos, empresas,
comunidades) responsabilizar-se e propor
soluções para a destinação do lixo e dejetos
produzidos às toneladas, todos os dias,
nas cidades.
A Foto 2 nos permite examinar outro problema.
Ela mostra um desmoronamento em terreno

aberto para pastagem e com certa declividade
(inclinação), resultando em perda de solos
aproveitáveis. A grande vala que se formou é
resultado da erosão. Mas o que é a erosão? Tratase de um processo natural, caracterizado pelo
desgaste de topos de morros, encostas, pela força
das chuvas, dos rios, do vento e outros agentes.
As partículas retiradas do solo ou das rochas vão
se depositar em pontos mais baixos, como os
leitos dos rios.
Ocorre que certas atividades humanas podem
acelerar a erosão. A voçoroca pode ter sido
causada pela retirada da vegetação original. As
plantas cumprem o papel de proteger os solos. E
como elas fazem isso? Por exemplo, quando há
chuvas, as plantas impedem que as águas
atinjam o solo diretamente e se formem as
enxurradas. Estando os solos desprotegidos, a
força das águas remove as partes superficiais
(que têm nutrientes) e desfaz as estruturas dos
solos, causando desmoronamentos. Com o
desmatamento, já não há raízes profundas das
plantas para manter os solos.
Estão mais sujeitas à erosão as encostas mais
inclinadas, mas também margens de rios que
foram desmatadas. No Rio São Francisco, por
exemplo, esse segundo tipo de problema é cada
vez mais comum. Como os detritos são
carregados para o leito, o "Velho Chico" está
ficando cada vez mais raso em alguns pontos.
Lembre-se ainda de que esse rio abastece
reservatórios de usinas hidrelétricas (caso do
lago de Sobradinho) e projetos de irrigação. Por
todas essas razões, e também porque provoca a
morte de animais e o desaparecimento de
plantas, o desmatamento indiscriminado nunca
é recomendável.
Então, como resolver ou amenizar esses
problemas? Aqui também não existe nenhuma
fórmula mágica. Mas há muitas recomendações
feitas por técnicos e agricultores, como manter a
vegetação nos topos ou encostas muito
inclinadas de morros. As pastagens são
indicadas para áreas de inclinação mais suave,
com número adequado de cabeças de gado para

bacias hidrográficas
conjunto de terras drenadas ou banhadas por um rio principal e seus afluentes.

121

História e Geografia
evitar que o solo seja compactado e impeça o
aprofundamento das raízes. Outra medida é
combinar plantios principais e secundários, para
não deixar o solo exposto.
Assim, a questão é optar por usos mais
adequados e compatíveis para a sociedade como
um todo, aproveitando o potencial que os
sistemas naturais oferecem ­ tanto no campo
quanto na cidade.
A partir do que estudamos, você consegue fazer
uma reflexão sobre o uso e a apropriação dos
recursos no lugar onde vive? Observe se os usos
predominantes dos recursos naturais são os mais

Ensino Fundamental
adequados. O que é possível fazer para resolver os
problemas da comunidade? Como garantir maior
participação das pessoas nas decisões? Para
finalizar nosso trabalho, elabore uma redação
sobre os principais assuntos vistos neste capítulo.
É importante não esquecer que decisões coletivas
e mais adequadas para os problemas apontados
são possíveis. E isso já vem acontecendo em
muitos pontos do país (leia os quadros). Elas
podem ajudar a garantir desenvolvimento mais
equilibrado, compatível e sustentável, mantendo
os recursos para as gerações futuras, tanto nas
cidades como no campo.

PROJETO AGROFLORESTAL DO RIO CAPIM
No Pará, a 320 quilômetros de Belém, fica o município de Paragominas. Às margens da
rodovia Belém-Brasília, ele é "porta de entrada" da Amazônia. Nos últimos anos, a
exploração de madeira provoca desmatamento e diminuição da fertilidade dos solos. Mas
em comunidades como Nazaré, Quiandeua e São Sebastião, novos projetos vêm mudando
essa realidade. É um sistema que aproveita os recursos da floresta sem precisar derrubála, os cultivos agroflorestais. Trata-se do plantio de espécies nativas da região, como
cupuaçu e caju, no meio da lavoura ou das matas baixas. Após a colheita da mandioca,
milho e arroz, a área continua gerando renda para o agricultor, evitando a derrubada da
mata para novas lavouras. As comunidades também têm granjas, criam abelhas e
processam e vendem mel e castanhas de caju. Esses projetos vêm contribuindo para evitar
o desmatamento e melhorar a renda das famílias.
Adaptado de http://www.wwf.org.br

ORÇAMENTO PARTICIPATIVO EM PORTO ALEGRE
Desde 1989, a capital gaúcha implementa o orçamento participativo, sistema pelo qual a
população decide diretamente a aplicação de recursos municipais em obras e serviços. Em
2001, cerca de 45 mil pessoas participaram de reuniões com essa finalidade. Ali
definiram prioridades para o saneamento, pavimentação, esporte, cultura e lazer,
transporte e outras necessidades, segundo as carências dos bairros. Experiência com
muitos prêmios internacionais, é reconhecida pela Organização das Nações Unidas como
uma das 40 melhores práticas de gestão pública urbana no mundo. Cidades de outros
países vêm adotando a experiência de participação popular criada em Porto Alegre, como
Saint-Denis (França), Barcelona (Espanha), Bruxelas (Bélgica) e Rosário (Argentina), além
de Belo Horizonte, São Paulo e inúmeras cidades no Brasil.
Adaptado de http://www.portoalegre.rs.gov.br

122

Capítulo VI ­ A cidade e o campo no Brasil contemporâneo

ORIENTAÇÃO

FINAL

Para saber se você compreendeu bem o que está apresentado neste capítulo, verifique se está apto a
demonstrar que é capaz de:
· Identificar representações do espaço geográfico em textos científicos, imagens, fotos, gráficos etc.
· Caracterizar formas espaciais criadas pelas sociedades, no processo de formação e organização do
espaço geográfico, que contemplem a dinâmica entre a cidade e o campo.
· Analisar interações entre sociedade e natureza na organização do espaço histórico e geográfico,
envolvendo a cidade e o campo.
· Discutir diferentes formas de uso e apropriação dos espaços, envolvendo a cidade e o campo, e suas
transformações no tempo.
· A partir de interpretações cartográficas do espaço geográfico brasileiro, estabelecer propostas de
intervenção solidária para consolidação dos valores humanos e de equilíbrio ambiental.

123

Capítulo VII
AS SOCIEDADES E OS AMBIENTES

PERCEBER-SE

INTEGRANTE,

DEPENDENTE E AGENTE
TRANSFORMADOR DO AMBIENTE.

Hugo Luiz de Menezes Montenegro

História e Geografia

Ensino Fundamental

Capítulo VII

As sociedades e os ambientes
APRESENTAÇÃO
O Brasil possui um grande litoral. São quase oito
mil quilômetros entre os estados do Amapá e do
Rio Grande do Sul, abrigando diversos ambientes,
como praias arenosas, costões rochosos,
mangues e dunas. Alguns lugares ainda estão
preservados, outros estão mais modificados pela
ação humana.
O litoral brasileiro já era ocupado por diferentes
povos indígenas antes da descoberta de nosso
país em 1500. No período colonial, certos trechos
de nosso litoral foram mais intensamente
ocupados e utilizados. Desde então, a distribuição
da população ocorreu de forma desigual.
Hoje, muitas áreas litorâneas vêm sendo ocupadas
pela expansão das cidades, das atividades
industriais e do turismo. Cinco das nove

126

principais regiões metropolitanas do Brasil
localizam-se à beira-mar e mais da metade da
população brasileira vive em suas proximidades.
Algumas áreas são superpovoadas, como
Salvador, na Bahia; Baía de Vitória, no Espírito
Santo; a Baía de Guanabara, no estado do Rio de
Janeiro; e a Baixada Santista, no estado de São
Paulo. Nessas áreas, concentram-se também os
grandes portos; além disso, são também pólos
industriais, químicos e petroleiros de nosso país.
De que modo as atividades humanas transformam
os ambientes litorâneos? Para investigar essa
questão, é preciso conhecer os ambientes naturais
e seus processos de transformação. Quais
transformações são parte dos processos naturais?
Quais são promovidas pelas atividades
humanas?

Capítulo VII ­ As sociedades e os ambientes

Desenvolvendo competências

1

Inicie a investigação sobre essas questões, realizando a atividade seguinte.
1 - Observe as imagens abaixo e leia as legendas que apresentam informações sobre alguns
ambientes do litoral.
1- As praias arenosas
As praias arenosas predominam na maior
parte de nosso litoral. Esse tipo de praia é
determinado por alguns fatores, como a
proximidade de costões rochosos, proximidade
de rios e estuários e freqüência de ressacas,
quando a maré fica muito alta e o mar avança
nas praias.
2- Os costões rochosos
É um ambiente litorâneo formado por rochas,
situado no limite entre o oceano e o continente,
1
sob influência das marés, dos embates das
Ilha de São Francisco do Sul (SC) - Praia arenosa
Embratur. Pontos turísticos do Brasil. São Paulo: EPPE, 2000. p. 141.
ondas e dos raios solares, abrigando diferentes
formas de vida animal e vegetal. É um
ambiente muito bom para a pesca.
3- Os manguezais
Grande parte de nosso litoral é ocupado por
um tipo de ambiente chamado manguezal ou
mangue. É formado por certos vegetais que
crescem próximos aos rios, que deságuam no
mar. O solo está freqüentemente inundado
pelas águas doces dos rios e pelas águas
2···`
salgadas que avançam com as marés. Ele é
Vitória (ES) - Costão rochoso
Embratur. Pontos turísticos do Brasil. São Paulo: EPPE, 2000. p. 94.
escuro, mole, com grande concentração de sais
e poucas espécies de vegetais estão adaptadas a
essa característica. Muitos animais marinhos
buscam no mangue alimento e abrigo, e ali se
reproduzem. Por esse motivo, os mangues são
conhecidos como os "berçários do mar".
Na sua opinião, por que os ambientes
apresentados nas imagens são tão diferentes
entre si? Quais são os motivos dessas
diferenças?

3
Barreirinhas (MA) - Manguezais do Rio Preguiça

127

História e Geografia

Ensino Fundamental

DIFERENTES FORMAS
DE OCUPAÇÃO DOS AMBIENTES
Os grupos sociais dão sentido e finalidade aos
lugares, valorizam o ambiente e os recursos
naturais de diferentes maneiras, podendo realizar
pequenas ou grandes modificações nele e
na paisagem.
Você viu que existe uma variedade de ambientes
em nosso litoral. Todos têm componentes como
água, solo, animais e plantas, em diferentes
quantidades e com diversas características. Essa
diversidade de ambientes, e seus elementos
característicos têm origem na própria história do
planeta. Os ambientes vão se formando, ao longo
de milhares de anos, conforme vão sendo

modificados o solo e as rochas que os sustentam.
Essas modificações dependem das variações de
temperaturas durante o ano, das chuvas, dos
ventos e da ação dos seres vivos ali presentes.
Os seres humanos desempenham um papel
significativo nesse conjunto de relações. Atuam
sobre o ambiente, mas a forma como utilizam ou
preservam os recursos da natureza não é igual em
todos os lugares. Além disso, as relações entre a
sociedade e o ambiente são também relações
que se estabelecem entre os diversos grupos
humanos, envolvendo situações de cooperação
ou de conflitos.

Desenvolvendo competências

2

Investigue algumas relações entre os ambientes e os seres humanos pela análise de um
exemplo, apresentado em texto de Fernando Gabeira.
1. Você vai trabalhar com um artigo intitulado "O mar não está mais para a família Peixe".
O título de um artigo de jornal deve ter poucas palavras e anunciar a informação principal
do texto. Neste caso, em sua opinião, qual é o assunto que vai ser tratado nesse artigo
de jornal?
2. Agora leia o artigo.
Aracaju, para quem não conhece, ainda é uma tranquila capital do Nordeste. Novos e imponentes
edifícios foram erguidos nos últimos anos, shoppings centers brotaram aqui e ali, como de resto,
aconteceu em todas as principais cidades do país.
Só que grande parte da Aracaju moderna foi conquistada aterrando os manguezais. As multidões que
atravancam as galerias climatizadas das butiques, na verdade, são os vencedores pisoteando o túmulo
de uma paisagem dilacerada para sempre.
A família Peixe, Zé e Rita, irmãos que nasceram nas primeiras décadas do século 20 [...] contemplam
assustados o rumo que o progresso tomou, soterrando as imagens da infância à beira-mar.
Zé Peixe ainda mora na orla. Mergulha todas as manhãs, mas reconhece que a água está poluída pelo
esgoto. Rita, que aos quinze anos salvou, ao lado do irmão, uma tripulação de um barco do Rio
Grande do Norte, hoje só nada na piscina de sua casa.
A história da família Peixe é ligada aos manguezais de Aracaju. Zé conhece todos e previu o
desequilíbrio que os aterros iriam provocar. Mas não conseguiu impedi-los. Num casarão velho, em
Aracaju, Zé Peixe costuma olhar os grandes edifícios e se lembrar dos manguezais da infância.
Agora, não só os manguezais da infância foram embora. Os próprios navios foram desaparecendo, a
partir do grande impulso rodoviário da década de 50. [...] Zé Peixe ainda ensina ao seu neto os
mistérios da barra do rio Sergipe, mas sabe que, há algumas décadas, o mar não está mais para
peixe em Aracaju.
GABEIRA, Fernando. O mar não está mais para a Família Peixe. Folha de S. Paulo, São Paulo, 30 out. 2000. Folha de Turismo, p. G-14. Fornecido pela Agência Folha.

128

Capítulo VII ­ As sociedades e os ambientes
3 - Para analisar o artigo, siga o roteiro abaixo. Depois compare sua resposta com nossos
comentários.
a) O que aconteceu nesse lugar?
b) Quando aconteceu?
c) Onde aconteceu?
d) Por que aconteceu?
e) Quem está envolvido no assunto apresentado?

A expressão "nos últimos anos" presente no artigo
não define uma data fixa, mas mostra que é um
fato recente que continua acontecendo nos dias de
hoje. O fato não é um acontecimento isolado, mas
um conjunto de acontecimentos interligados: o
crescimento urbano e as modificações de uma
cidade, as modificações que esse tipo de crescimento
provocaram no ambiente e os impactos dessas
modificações sobre o modo de vida das pessoas e
dos diferentes grupos sociais desse lugar.
Apesar de o artigo definir os acontecimentos e
modificações em um lugar específico, ou seja, a
cidade de Aracaju, no estado de Sergipe, ele
também nos dá a idéia de ser um processo mais
amplo que vem acontecendo, com características
próprias, na maioria das principais cidades do
país. O lugar dos acontecimentos é a "orla",
palavra usada no lugar da expressão orla
marítima, que nada mais é do que uma área de
contato e união entre o mar e a faixa de terra. A
palavra "orla" também significa beira ou borda,
portanto, orla marítima refere-se, também, à
conhecida expressão"beira-mar."
As causas para as transformações apontadas no
artigo são várias. Isso porque as transformações
da cidade de Aracaju são devidas a um conjunto
de fatores interligados, tais como: o crescimento
populacional, o modo de vida urbano que vem
se expandindo e as novas funções da cidade,
com o crescimento do turismo e a infraestrutura a ele associada.
Assim, o artigo descreve mudança radical no
estilo de vida dos moradores das cidades, a partir

da história de uma família tradicional de antigos
moradores do lugar, que vivia bastante integrada
ao ambiente natural original. A partir da história
da família Peixe, em Aracaju, podemos perceber
que as pessoas criam identidade e vínculos com
os lugares e com o ambiente. No caso da família
Peixe, os manguezais tinham um significado
próprio em suas vidas: nas lembranças da
infância, nas formas de garantir seu sustento, em
sua sobrevivência. O processo de crescimento da
cidade, às custas do aterro e destruição dos
manguezais, interferiram nas relações e vínculos
estabelecidos entre os moradores e o lugar.
O que são aterros? Por que os aterros provocam
o desequilíbrio nos manguezais?
Aterro significa cobrir com terra, nivelar e
aplainar um terreno com terra retirada de
outro lugar.

Vimos que os manguezais são ambientes com
solo de baixa consistência (solos frágeis, moles),
freqüentemente inundados. Entre as
conseqüências e impactos ambientais do aterro
sobre os manguezais, destaca-se a modificação
no escoamento das águas das chuvas e dos rios,
ficando a água empoçada em valetas ou nas áreas

129

História e Geografia
não aterradas. Além disso, o impacto das marés
vai continuar ocorrendo, afetando agora a área de
aterro e as construções existentes sobre ela.
Já em relação ao solo, verifica-se que, sendo
pouco consistente, ou seja, mole demais para
suportar as construções, o solo vai cedendo e
abaixando. Prejudica as construções, que ficam
trincadas e inseguras.
Em relação à vegetação e aos animais, ocorre a
destruição dos "berçários naturais",
comprometendo a procriação e a renovação de
inúmeras espécies de plantas, aves e animais
marinhos, além do desmatamento ou
soterramento das plantas desse ambiente natural.
Em outras atividades humanas, os aterros também
trazem conseqüências para os ambientes,
contribuindo para sua deterioração. A mineração
feita a céu aberto, por exemplo, modifica a
paisagem: desmonta montanhas, remove extensas
coberturas de vegetação e de solos, formando
grandes buracos. E a retirada de areia e argila, ao
longo dos rios, provoca a destruição das margens
e modifica a qualidade da água com o aumento
da concentração de terra e areias (sedimentos),
prejudicando os animais e comprometendo o
abastecimento de água da população.
Outras alterações provocadas pela ação humana
podem causar efeitos negativos sobre o ambiente
e sobre o conjunto de relações existentes entre os
animais, as plantas, o solo, o ar e as águas,
prejudicando também a qualidade de vida das
pessoas e interferindo no modo de vida e nas
relações e vínculos das pessoas com o ambiente e
com o lugar. Esse efeito negativo sobre o
ambiente e sobre a qualidade de vida, resultado
das alterações humanas, é também conhecido
como impacto ambiental.

Ensino Fundamental

DIFERENTES TRANSFORMAÇÕES
DOS AMBIENTES
O crescimento urbano de Aracaju e as modificações
nos ambientes não aconteceram de forma isolada de
outros acontecimentos e processos ocorridos em
nosso país. Podemos verificar esse fato no seguinte
trecho do artigo de Fernando Gabeira:
Agora, não só os manguezais da infância foram
embora. Os próprios navios foram desaparecendo
a partir do grande impulso rodoviário da década
de 50. A escolha do automóvel como símbolo da
liberdade individual e dos shoppings centers
como espaço de comércio e convivência mudou o
horizonte.
GABEIRA, Fernando. O mar não está mais para a família peixe. Folha de S.
Paulo, São Paulo, 30 out. 2000. Folha de Turismo, p. G-14.

O automóvel possui relação com o processo de
crescimento industrial ocorrido no país, a partir de
1955. A partir dessa época, o sistema de transporte
rodoviário foi substituindo outros meios de
transporte, favorecendo os deslocamentos para São
Paulo e para o Rio de Janeiro. Essa mudança fez
com que o sistema de transporte marítimo e as
antigas cidades costeiras e portuárias fossem
reduzindo sua influência sobre antigas áreas de
atuação. Apesar de as cidades de São Paulo e do
Rio de Janeiro liderarem o crescimento econômico
do país com o crescimento e expansão de
indústrias, elas acabaram também interferindo no
crescimento de diversas cidades e regiões
brasileiras. Por meio de intenso intercâmbio e
relações comerciais, integraram diferentes lugares,
unificando o mercado interno do país, o campo, as
cidades e as metrópoles.
No caso da cidade de Aracaju, seu crescimento é
mais recente e esteve integrado ao crescimento
econômico das cidades de Recife e Salvador e aos
novos papéis e funções relacionados a uma ou
mais atividades econômicas, entre elas o
comércio, o turismo, os serviços públicos, a
modernização do serviço portuário.
Porém, não foram apenas o ambiente onde
cresceu a cidade de Aracaju (SE) e sua população
que sofreram os efeitos das transformações
recentes ocorridas na região Nordeste e no
restante de nosso país. Investigue outros
exemplos na próxima atividade.

130

Capítulo VII ­ As sociedades e os ambientes

Desenvolvendo competências

3

Observe e compare as fotografias da cidade de Fortaleza, no estado do Ceará, com a cidade de
Natal, no estado do Rio Grande do Norte. Siga as orientações para observação e depois leia
nossos comentários.

1

2···`

Imagem 1 ­ Orla marítima da cidade de Fortaleza (CE).

Imagem 2 ­ Fotografia panorâmica em perspectiva oblíqua
da cidade de Natal (RN).
Embratur. Pontos turísticos do Brasil. São Paulo: EPPE, 2000. p. 71.

1. Observe a paisagem de cada cidade separadamente. Atenção aos detalhes localizados à
frente e ao fundo de cada uma, para verificar como estão distribuídos:
· os componentes naturais (água, solo, vegetação etc.);
· os elementos sociais que aparecem: tipos de construções, onde estão localizadas (próximas
ou afastadas do mar), a altura das construções, a distribuição dos imóveis na paisagem.
Anote, no quadro abaixo, o que você observou e percebeu em cada cidade.
Cidades

Características Ambientais

Características da Ocupação Humana

Fortaleza
Natal

2. Agora, compare as duas cidades.
· Onde as construções aparecem mais concentradas e onde estão menos concentradas?
· Onde predominam casas e construções baixas?
· Onde predominam prédios e construções mais altas?
Anote, em seu caderno, o que você percebeu de semelhante ou de diferente nas formas de
ocupação humana entre as duas cidades.
Que diferenças são percebidas entre a orla marítima da cidade de Fortaleza (CE) e a de Natal (RN)?

131

História e Geografia
No caso da cidade de Fortaleza, notamos uma
grande presença de prédios uns muito próximos
aos outros, em frente à orla marítima, enquanto a
cidade de Natal apresenta uma menor
concentração de prédios. Esses estão mais
afastados da orla marítima. Por que isso acontece?
Para compreender as diferenças de ocupação
entre essas duas cidades, podemos levar em
consideração um conjunto variado de fatores
econômicos, políticos, sociais e ambientais.
Um dos estados que mais receberam
investimentos industriais, na década de 1990, foi
o Ceará, tornando-se o mais novo pólo industrial
do Nordeste. As novas indústrias, instaladas no
Ceará, concentraram-se em sua maioria nas
proximidades da cidade de Fortaleza. Houve
também grandes investimentos em obras de
infra­estrutura nas proximidades da cidade, tais
como, a construção do porto e do terminal
marítimo de Pecém, modernização do aeroporto
local e inúmeras obras viárias. A concentração
industrial e os novos investimentos financeiros
fizeram com que a cidade de Fortaleza (CE)
crescesse em ritmo mais acelerado e intenso e
exercesse maior número de funções em relação à
cidade de Natal (RN).
Em relação aos fatores ambientais, vimos que a
diversidade de ambientes depende de alguns
fatores, tais como a distribuição das chuvas ao
longo do ano, a disponibilidade de água na
superfície do solo ou no subsolo, as diferenças de
solo e de altitudes dos terrenos, as temperaturas e
a localização geográfica.

132

Ensino Fundamental
Apesar de Fortaleza (CE) e Natal (RN) estarem
localizadas junto ao litoral do Nordeste, elas
apresentam diferenças na constituição do solo. Na
cidade de Natal (RN), temos a presença de dunas
em meio às casas e construções da cidade.
As dunas são um tipo de relevo formado pelo
acúmulo de extensas camadas de areia. Essas
areias são transportadas e carregadas pela ação
constante dos ventos. As dunas podem ser fixas
(estacionárias ou estáticas) e permanecerem
muitos anos no mesmo lugar, ou podem ser
migratórias, deslocando-se continuamente de um
lugar para outro. Elas aparecem na paisagem do
litoral em diferentes estados do Brasil: no
Maranhão, no Piauí, no Ceará, no Rio Grande do
Norte, no Rio de Janeiro, em Santa Catarina e no
Rio Grande do Sul.
A cidade de Natal (RN) foi construída e se
desenvolveu num ambiente onde existem os dois
tipos de dunas. A migração de dunas, na cidade,
causa alguns problemas, entre eles, o de
assoreamento do porto, isto é, as areias
depositam-se no fundo do mar e no canal, junto
à barra do Rio Potengi. Isso exige serviços de
retirada constante das areias do fundo do mar
(dragagem), para evitar riscos ao tráfego de
navios. A consistência das dunas é também
obstáculo natural para a realização de
construções muito altas, de grandes edifícios,
que demandam mais gastos com estrutura e
fundações das obras.

Capítulo VII ­ As sociedades e os ambientes

Desenvolvendo competências

4

Observe a paisagem de uma duna em detalhe.

Foto ­ Ambiente de dunas.
Embratur. Pontos turísticos do Brasil. São Paulo: EPPE, 2000. p. 73.

Agora responda.
· Que elementos estão presentes?
· Como eles estão distribuídos?
· Que tipos de relações e interações existem entre esses elementos?
As dunas costeiras formaram-se durante os últimos 11 mil anos pela interação entre o mar, o
vento, a areia e a vegetação. No caso específico da dunas da cidade de Natal (RN) e de suas
proximidades, a vegetação favorece a retenção e a manutenção da umidade local, barrando os
ventos, dificultando o processo de transporte e de deslocamento da areia, colaborando para que
as dunas sejam fixas e permaneçam estacionárias. As dunas servem de barreira natural à
invasão da água do mar e da areia em áreas interiores e balneários. Também protegem o lençol
de água doce, evitando a entrada de água do mar. Nas dunas, como em qualquer ambiente, cada
componente, cada elemento participa da dinâmica e das transformações, que nunca param.

133

História e Geografia

Ensino Fundamental

O CLIMA E OS RECURSOS NATURAIS
Vimos que em um ambiente interagem vários
fatores. As relações e as combinações entre o tipo
e a constituição do solo, a vegetação e o clima
exercem grande influência na formação desse
ambiente e nas suas características originais.
Mas o que é clima? Como o conhecimento sobre
o clima pode nos ajudar a compreender melhor o
ambiente natural e as interferências sobre a
vida humana?

Para pensar melhor sobre o que é o clima, leia o
poema Seca D'água feito pelo poeta cearense
Patativa do Assaré, que foi musicado e cantado
por diferentes artistas populares de nosso país.
Ao ler o poema, procure perceber os ritmos e os
processos naturais que ocorrem no sertão do
Nordeste e como eles atingem diferentemente os
lugares e as pessoas.

Seca D'água
É triste para o Nordeste
o que a Natureza fez
mandou 5 anos de seca
uma chuva em cada mês
e agora, em 85
mandou tudo de uma vez.

O Jaguaribe inundou
a cidade de Iguatu
e Sobral foi alagado
pelo rio Acaraú
o mesmo estrago fizeram
Salgado e Banabuiú.

A sorte do nordestino
é mesmo de fazer dó
seca sem chuva é ruim
mas seca d'água é pior.

Ceará martirizado
eu tenho pena de ti
Limoeiro, Itaiçaba
Quixeré, Aracati
faz pena ouvir o lamento
dos flagelados dali.

Quando chove brandamente
depressa nasce o capim
dá milho, arroz e feijão
mandioca e amendoim
mas como em 85
até o sapo achou ruim.
Maranhão e Piauí
estão sofrendo por lá
mas o maior sofrimento
é nessas bandas de cá
Pernambuco, Rio Grande
Paraíba e Ceará.

134

Meus senhores governantes
da nossa grande Nação
o flagelo das enchentes
é de cortar o coração
muitas famílias vivendo
sem lar, sem roupa e sem pão.
PATATIVA DO ASSARÉ. Digo e não peço segredo.
São Paulo: Escrituras, 2001. p.117-118 (Pesquisa e texto Tadeu Feitosa).

Capítulo VII ­ As sociedades e os ambientes
No começo do poema, o autor descreve o ritmo
de alternância de estações, indicando a ocorrência
de um período prolongado de seca e outro
período mais curto, com intensa concentração de
chuvas. Está descrevendo uma característica
importante do clima: a alternância de períodos
com diferentes características.
A seguir, o poema permite perceber que o clima
interfere na paisagem natural e na vida humana,
criando condições para o desenvolvimento de
diversas atividades associadas à produção
econômica (depressa nasce o capim, dá milho,
arroz e feijão, mandioca e amendoim).
Nos versos seguintes, percebemos que o clima e
as condições do tempo atmosférico possuem uma
extensão, ou seja, atuam sobre uma extensa
região, interferindo em um conjunto de cidades e
estados. Nos últimos versos, notamos que o clima
atua na vida das pessoas, porém, a condição de
vida e existência dos habitantes e os transtornos
ou privações vivenciadas estão relacionados a
outros fatores que não são apenas de ordem
natural, como os de responsabilidade e
compromisso político, que não se justificam pela
condição do meio-ambiente ou pela dinâmica
climática.
A alternância de períodos de seca e umidade,
mais calor ou mais frio, forma o clima
característico dos diferentes lugares do planeta.
Em cada lugar, o clima é definido por um
conjunto de fatores, tais como:
· A posição geográfica desse lugar (próximo ou
afastado do litoral).
· As diferenças de aquecimento do planeta ­
quanto mais longe do Equador é uma região,
mais fria ela é e vice-versa; esfriando, conforme
se afasta da linha do equador em direção aos
pólos; esquentando, na direção contrária.

das plantas, dos animais e da água doce sobre o
nosso planeta. As atividades humanas
relacionadas com a agricultura também
dependem das condições do tempo atmosférico
(chuvas, seca). A produção de energia
hidrelétrica, tão importante no Brasil para a vida
doméstica e para a economia industrial moderna,
depende da quantidade de chuvas, para que se
mantenha o nível de água das represas. Desse
modo, o clima está diretamente relacionado aos
recursos naturais necessários às sociedades.
O conjunto de todas as coisas de que as pessoas
precisam, de tudo que existe na natureza e que
serve como um recurso ou como um bem para
elas é o que chamamos de recursos naturais. Os
recursos naturais como as águas, os solos, as
matas, os minérios, os animais e as plantas
formam o Patrimônio Ambiental da humanidade,
para hoje e para o futuro.

PROBLEMAS AMBIENTAIS NAS
CIDADES E NO CAMPO
Vimos que existe um conjunto de fatores, tanto
humanos quanto naturais, que atuam na
diferenciação e na caracterização dos lugares e
das paisagens. Na paisagem natural, predominam
as combinações e relações entre o solo, a
constituição geológica, o clima e a vegetação. Na
paisagem humana, predominam as relações e
combinações entre os elementos sociais,
econômicos e políticos. Porém, apesar do
predomínio desses elementos em uma ou outra
paisagem, vimos que as relações entre os aspectos
humanos e os naturais não podem ser
considerados de forma separada uns dos outros.

· As formas de relevo, pois as elevações criam
obstáculo ao deslocamento das massas de ar e
da umidade atmosférica e nos lugares planos
aumenta a velocidade desse deslocamento,
canalizando e direcionando a passagem dos
ventos.

Em atividade anterior, você pôde observar a
construção de prédios altos na orla de Fortaleza.
O conjunto de construções em uma cidade
também modifica a dinâmica dos ventos,
podendo dificultar ou barrar a circulação de
ventos nas partes mais internas na cidade e
interferir na temperatura e no clima urbano.
No caso da cidade de Fortaleza, a intensa
verticalização junto à orla marítima é um
exemplo dessa interferência.

Na formação dos ambientes, o clima é um dos
principais fatores que determinam a distribuição

Nos grandes aglomerados urbanos, em geral, a
dinâmica climática é alterada, produzindo o

· A circulação dos ventos e das massas de ar.

135

História e Geografia

Ensino Fundamental

fenômeno das "Ilhas de Calor". Este fenômeno
provoca modificações na temperatura do ar das
cidades transformando-as em lugares quentes.
Investigue esse fenômeno na atividade seguinte.

Desenvolvendo competências

5

1. Localize no mapa
a seguir as cidades de
Fortaleza (CE) e de Porto
Alegre (RS) e depois
responda às questões abaixo:

Boa Vista

Macapá
LINHA DO EQUADOR

São Luís
Belém

Fortaleza

Manaus

Rio Branco

Natal
Teresina

Porto
Velho

Palmas

Cuiabá

· Qual das duas cidades fica mais distante
e qual fica mais próxima do Equador?
· As distâncias em relação ao Equador
provocam diferenças no clima? Como?
· Onde o clima seria mais quente e as
temperaturas mais elevadas? Onde o
clima seria mais ameno?
2. Observe as fotografias e compare as
diferenças de ocupação entre a área central
e um bairro da cidade de Porto Alegre (RS).

Brasília
Goiânia

João Pessoa
Recife
Maceió
Aracajú
Salvador

Belo
Horizonte

Campo Grande
Vitória

São Paulo
Curitiba

Rio de Janeiro
Florianópolis

Porto Alegre

0

360km

BRASIL: político. In: SIMIELLI, Maria Elena Ramos. Geoatlas. 31. ed.
ampl. atual. São Paulo: Ática, 2002. p.79.

Foto ­ Bairro Assunção, Porto Alegre (RS).
MENEGAT, Rualdo et al. (Coord.). Atlas ambiental de
Porto Alegre. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2001. p. 149.

Foto ­ Área Central de Porto Alegre (RS).
MENEGAT, Rualdo et al. (Coord.). Atlas ambiental de Porto
Alegre. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2001. p. 149.

136

Capítulo VII ­ As sociedades e os ambientes
É possível observar que, no centro da cidade de Porto Alegre, aparece uma grande
concentração de construções altas e ausência de vegetação, enquanto no bairro Assunção, nos
arredores da cidade, aparece maior quantidade de casas e de árvores nas ruas, sendo esse
bairro mais arborizado.
Como essas diferenças de ocupação interferem no aquecimento do ar e no clima urbano de
uma cidade? Escreva sua hipótese, o que você imagina que acontece no aquecimento das
áreas centrais e no bairro de Porto Alegre.
3. Observe, no mapa do clima urbano de parte da cidade de Porto Alegre, as diferenças de
temperatura existentes na cidade.
Para interpretar o mapa, siga as seguintes orientações:
· observe primeiro todos os elementos que fazem parte do mapa.
Depois, localize e analise, separadamente:
· o título do mapa e o seu significado;
· os elementos que aparecem representados na legenda e as diferenças que você percebe entre eles;
· observe novamente o mapa, procurando reconhecer os elementos da legenda e como eles
aparecem distribuídos;
· localize onde ficam os bairros observados nas fotografias;
· verifique as diferenças de aquecimento e de acréscimo de calor que eles apresentam;
· identifique a ilha de calor, local de maior temperatura, sua localização e sua extensão na cidade.
MAPA DO CLIMA URBANO ­ CIDADE DE PORTO ALEGRE

MENEGAT, Rualdo et al. (Coord.). Atlas ambiental
de Porto Alegre. Porto Alegre: Ed. da UFRGS,
2001. p.149-150.

137

História e Geografia
A forma de ocupação e utilização do espaço, os
tipos de construções, a sua localização e
distribuição na cidade, a altura dos edifícios e os
materiais utilizados em suas construções podem
provocar forte acréscimo de calor e aumento de
temperatura ao longo de todo ano. O calor é a
forma de energia que o vidro, o concreto, o
asfalto e outros diferentes materiais absorvem
(armazenam) e depois irradiam pelas áreas
centrais de uma cidade. Esse calor, somado com o

calor provocado pela emissão de gases, de
escapamentos de veículos ou através de
indústrias, causam um maior aquecimento da
camada de ar local. Esse processo de aquecimento
do ar origina as chamadas ilhas de calor.
A formação de ilhas de calor é um dos
problemas ambientais das cidades, que se soma
a outros bastante conhecidos, como a poluição
do ar, o acúmulo de lixo e inundações. Leia
mais a respeito nos boxes.

ALGUNS PROBLEMAS AMBIENTAIS
NAS ÁREAS URBANAS

PROBLEMAS AMBIENTAIS
NO MEIO RURAL

· São muito importantes os problemas
do lixo e da poluição das águas em
áreas urbanas. O rápido crescimento
urbano não foi acompanhado da
oferta de serviços de saneamento
básico ­ coleta de lixo, abastecimento
de água tratada e coleta de esgotos.

A crescente modernização da
agricultura vem provocando diversos
problemas ambientais, entre eles:

· O solo coberto por asfalto se torna
impermeável: a água das chuvas
não entra no chão asfaltado, fica
empoçada na sua superfície.
A impermeabilização dos solos em
uma cidade aumenta as chances de
ocorrerem enxurradas e inundações
nos períodos de chuvas mais
prolongados.
· O problema da moradia relacionado
com a questão da valorização dos
terrenos (especulação imobiliária) ou
falta de políticas públicas interfere,
também, nas condições ambientais
das cidades. Muitas vezes, ocorre
uma ocupação irregular do solo, em
áreas de mangue, vale de rios e
encostas íngremes. Isso aumenta os
riscos de deslizamentos de terra,
inundações, poluição ou destruição
das águas utilizadas para o
abastecimento da população.

138

Ensino Fundamental

· Aumento do desmatamento, pela
mecanização e o aproveitamento de
grandes extensões de terra para a
produção agrícola.
· A perda de variedade de plantas e
animais, pelo aumento dos
desmatamentos e como efeito de
poluição.
· Perda de solo bom para a agricultura,
pois as matas e os solos ficam
desprotegidos e frágeis diante da ação
dos ventos e das chuvas.
· Os rios ficam mais rasos, pois o leito
se torna mais raso, devido ao
transporte e a deposição das
partículas de solo arrancados pelas
chuvas e ventos: diz-se, então, que
houve assoreamento dos rios.
· A poluição do solo e das águas,
causada por agrotóxicos, compromete
o abastecimento de água para uso
humano e provoca também a morte de
várias espécies de aves e animais.
· A utilização de técnicas predatórias,
tais como: queimadas, abertura
irregular de estradas, destruição de
nascentes e das margens dos rios.

Capítulo VII ­ As sociedades e os ambientes
O crescimento populacional, relacionado com
a concentração das atividades industrial e
comercial, provocaram várias transformações em
muitas cidades brasileiras, como pudemos estudar
até aqui.
A expansão do comércio nas cidades está ligada a
um processo de produção, de circulação e
distribuição de mercadorias e alimentos voltados
para o consumo da população, cada vez maior.
As áreas rurais assumem, nesse processo, o papel
de produzir matérias-primas e alimentos, para
garantir o abastecimento das indústrias, da
população das cidades e para manter o comércio
internacional. As atividades agropecuárias
modernas são cada vez mais avançadas do ponto
de vista tecnológico, empregando menos mão-deobra, utilizando cada vez mais máquinas, adubos
químicos e agrotóxicos, produtos também
chamados defensivos agrícolas. São substâncias
tóxicas que eliminam as pragas agrícolas (insetos,
fungo etc.), mas são perigosas para a saúde dos
seres humanos e demais animais.
Percebemos que o uso e a ocupação inadequada
dos espaços urbanos e rurais podem provocar
vários desiquilíbrios e modificações do
ambiente, prejudicando a qualidade de vida
de suas populações.

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
E CONSERVAÇÃO DOS RECURSOS
NATURAIS
A conservação da natureza depende de uma forma
planejada de utilização dos recursos naturais, em
que devem ser considerados não apenas os
diferentes benefícios que esses recursos podem
fornecer, como também a manutenção dos mesmos.
Os impactos sobre o ambiente, relacionados com
o uso e a ocupação do território, devem ser
considerados de forma ampla. Vimos que o
crescimento das cidades, ao longo do litoral, está
relacionado a diferentes processos, como o
crescimento industrial e comercial, o turismo, os
transportes e as comunicações.
O turismo é uma atividade econômica que cresce
a cada dia. A necessidade de estar ao ar livre e de

conhecer novos lugares, à medida que se torna
uma necessidade da população em geral, atrai
também o interesse de diferentes empresas e
empreendimentos, com a construção de novos
condomínios, hotéis, parques aquáticos e a
abertura de estradas. Esses novos
empreendimentos requerem infra-estrutura, como
abastecimento de água, distribuição de energia
elétrica, serviços de coleta e tratamento dos
esgotos, além do aumento da circulação e da
distribuição de mercadorias e alimentos, o que
amplia e pressiona a capacidade do ambiente em
fornecê-los.
Vimos que os problemas ambientais estão
interligados com diversos processos e
acontecimentos. Esses problemas estão
amplamente distribuídos pelo Brasil e afetam a
todas as pessoas. Atualmente, são comuns a
contaminação dos cursos de água, a poluição
atmosférica, a devastação das florestas, a caça
indiscriminada e a redução ou mesmo destruição
dos diversos ambientes naturais. Isso tudo
culmina numa forte pressão exercida sobre os
recursos naturais.
A preocupação com a conservação dos recursos e
da natureza, porém, está presente na legislação e
no conjunto de leis existentes em nosso país.
Como podemos contribuir para criar espaços
mais adequados de vida?
Conhecendo algumas leis ambientais e sabendo a
quem encaminhar as denúncias em caso de
agressão ou interferências de má fé na utilização
dos recursos da natureza que acontecem no lugar
em que você vive. Pense sobre algumas das
principais leis ambientais de nosso país:
Constituição da República Federativa do Brasil Artigo 225:
Todos têm direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, bem de uso comum
do povo e essencial à sadia qualidade de vida,
impondo-se ao Poder Público e à coletividade o
dever de defendê-lo e preservá-lo para as
presentes e futuras gerações.

139

História e Geografia
A Constituição da República determina que todos
têm direito ao meio ambiente. Para assegurar esse
direito, determina ainda que é tarefa do poder
público, entre outras, definir, em todos os estados
da federação, espaços territoriais e seus
componentes a serem especialmente protegidos.
Outras leis estabelecidas a partir da Constituição de
1988 também contribuem para a conservação ou
recuperação do ambiente, destacando-se, entre elas:
Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257, de 10 de
Julho de 2001).
O Estatuto da Cidade é uma lei federal em vigor
desde 2001, obrigatória para todos os núcleos
populacionais com mais de 20 mil habitantes. Ele
dita que deverá ser objeto de planejamento não
apenas o perímetro urbano (área ocupada pela
cidade), mas toda a área do município,
englobando a cidade, o campo, as reservas
naturais, a água, a potencialidade dos solos, o
relevo e a paisagem, fazendo com que o espaço
construído, a área rural, os espaços naturais e as
atividades humanas sejam pensados e planejados
em conjunto, garantindo também a proteção, a
preservação e a recuperação do meio ambiente
natural e construído, do patrimônio cultural,
histórico, artístico, paisagístico e arqueológico.
Com isso, procura-se evitar e corrigir as
distorções do crescimento urbano e seus efeitos
negativos, de forma a evitar o uso excessivo ou
inadequado em relação à infra-estrutura urbana,
à poluição e à degradação ambiental.
Zoneamento Costeiro e Lei de Proteção
aos Manguezais
Além do Zoneamento Ambiental Urbano, temos
também o Zoneamento Costeiro, que protege a
costa brasileira. Essa proteção especial é
justificada pela grande extensão territorial de
nosso litoral, bem como pela enorme diversidade
de ecossistemas nele encontrados. Assim,

140

Ensino Fundamental
diferentes espaços e ambientes litorâneos são
protegidos pela legislação constitucional.
Os mangues, por exemplo, são protegidos por
legislação federal desde a Constituição de 1988,
devido à importância que representam para o
ambiente marinho. Como vimos, são
fundamentais para a procriação e o crescimento
de vários animais e alimentação de várias
espécies de peixes. Portanto, os mangues estão
relacionados à manutenção de boa parte das
atividades pesqueiras nas costas brasileiras.
Contudo, mesmo protegidos por lei, estes
ambientes continuam sendo degradados pela ação
e pela ocupação humana.
Criação de áreas de preservação e
de parques ecológicos
Todas as áreas naturais protegidas oficialmente são
chamadas de Unidades de Conservação. Unidades
de Conservação são porções do território nacional,
incluindo as águas territoriais, com características
naturais de relevante valor, de domínio público ou
propriedade privada, legalmente instituídas pelo
Poder Público, sob regimes especiais de
administração e às quais se aplicam garantias
de proteção. Existem chances de aproveitamento
dos recursos ambientais e paisagísticos para a
formação de parques e reservas públicas de
recreação e de conservação.
Iniciativas de proteção ambiental:
alguns exemplos
A proteção ambiental pode ser feita pelos órgãos
de governo em conjunto com a sociedade.
A conservação de áreas protegidas pode incluir
ações e atividades diversificadas, como
administração, proteção, recreação, educação,
pesquisa e manejo dos recursos. A criação de
parques tem sido uma forma de defender ou de
recuperar o ambiente natural.

Capítulo VII ­ As sociedades e os ambientes
Nas áreas de Dunas de Natal (RN), oficialmente foi
criado um parque ecológico, conhecido como
Parque das Dunas. O Bosque dos Namorados é o
portão de entrada do Parque. Nele, se encontram as
áreas de lazer e educativas abertas ao público e aos
turistas, existindo trilhas apropriadas para
caminhadas, mirantes panorâmicos, oficinas de arte,
biblioteca, auditório, play-grounds e lanchonetes. O
restante do Parque (80%) é destinado à preservação
das Dunas, ao ensino e à pesquisa.
Em uma área de mangues, em Fortaleza (CE), foi
criado o Parque Ecológico do Cocó. Construído às
margens de um dos rios da cidade, sua
implantação buscou preservar esse ambiente e
integrá-lo à cidade, oferecendo equipamentos
para atividades culturais, esportivas, de recreação
infantil e de contemplação.
Vimos que, para superar alguns problemas ou
desafios em relação à conservação da natureza e
com relação à questão ambiental, diversas ações

são necessárias, entre elas uma nova consciência
em relação à utilização dos recursos naturais e à
capacidade do ambiente em fornecê-los. Não se
trata de reduzir a questão ambiental apenas à
análise da relação homem­ambiente ou
considerar apenas as agressões ou desequilíbrios
provocados pela ação humana.
Os aspectos econômicos, políticos, tecnológicos,
culturais devem ser analisados e compreendidos,
à medida que se relacionam com os diferentes
problemas vivenciados pela nossa sociedade
atual. A participação e a pressão da população
podem ajudar a criar espaços mais adequados de
vida para os habitantes, nas cidades e nas áreas
rurais (campo), ajudando a rever e a repensar um
conjunto de práticas e atividades hoje
desenvolvidas, evitando prejudicar ou colocar em
risco a qualidade de vida humana, os recursos da
natureza e os diferentes ambientes.

141

História e Geografia

ORIENTAÇÃO

Ensino Fundamental

FINAL

Para saber se você compreendeu bem o que está apresentado neste capítulo, verifique se está apto a
demonstrar que é capaz de:
· Associar as características do ambiente (local ou regional) à vida pessoal e social.
· Identificar a presença dos recursos naturais na organização do espaço geográfico, relacionando
transformações naturais e intervenção humana.
· Relacionar a diversidade morfoclimática do território brasileiro com a distribuição dos recursos
naturais.
· Analisar criticamente as implicações sociais e ambientais do uso das tecnologias em diferentes
contextos histórico-geográficos.
· Selecionar procedimentos e uso de diferentes tecnologias em contextos histórico-geográficos
específicos, tendo em vista a conservação do ambiente.

142

Capítulo VIII
A ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA DAS SOCIEDADES
NA ATUALIDADE

COMPREENDER

A ORGANIZAÇÃO POLÍTICA E ECONÔMICA
DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS.

Sonia Maria Vanzella Castellar

História e Geografia

Ensino Fundamental

Capítulo VIII

A organização econômica
das sociedades na atualidade
APRESENTAÇÃO
Neste capítulo, você vai estudar as mudanças nas
técnicas de produção de alimentos e transportes
ao longo do século XX e também como essas
mudanças se relacionam com a organização
das cidades.

O QUE MUDOU E O QUE
PERMANECEU NA ORGANIZAÇÃO
DAS CIDADES AO LONGO DO
SÉCULO XX
Você já deve ter notado que as cidades possuem
lugares que sofrem mudanças e outros que
permanecem como eram antigamente, como, por
exemplo, uma praça, o centro histórico da cidade,
a estação de trem ou curso de um rio.
Para analisar como acontecem essas
transformações, você vai observar as fotos e
reparar nas mudanças das construções das casas,
nos transportes, nas ruas e nas roupas.

144

Foto 1 ­ Na metade do século XIX, Paredão do Piques,
Militão.

Na foto 1, a rua é de terra, não tem via de
passagem de carro, não tem postes de
eletricidade, há poucas pessoas na rua. As casas
foram construídas com a técnica de taipa, ou seja,
barro amassado. Há, ainda, construções baixas e
grandes descampados.

Capítulo VIII ­ A organização econômica das sociedades na atualidade
As transformações da cidade estão relacionadas
com as diversas modificações históricas e
geográficas. A partir das fotos, é possível
observar que ocorreram mudanças na produção
dos objetos,
na organização das cidades, no modo de vida
das pessoas e no uso que as pessoas fazem
dos lugares.
Você deve reparar que, na foto do Paredão do
Piques (1865), existe um local onde as mulas
paravam para beber água. Era um local de
repouso das tropas de mulas, que eram
conduzidas por tropeiros carregando mercadorias
para vilas, aldeias e cidades do interior de São
Paulo e outras regiões.

Foto 2 ­ No início do século XX, Ladeira e Largo do Piques,
Itaú, SP.

Na Foto 2, você percebe que as construções são de
tijolo e cimento. Já existem postes de eletricidade
feitos de madeira, as ruas estão calçadas, há via de
pedestre e via de automóveis.

Foto 3 ­ Em 2000/Antonia hoje, Largo da Memória

Na Foto 3, você pode observar que o mastro está
cercado por concreto e azulejo pichado, há
algumas pessoas no largo, postes de iluminação e
construções no entorno.

Desenvolvendo competências

1

Observe as fotos. Qual retrata a época atual e quais são mais antigas? Quais os elementos que
você observou nelas que diferenciam os tempos? Faça algumas anotações no seu caderno
sobre as impressões dessas diferenças no tempo. Veja se há mudanças em relação à
construção, aos transportes, ao tipo de calçamento, ao vestuário, à arborização e a outros
fatores.
Essas fotos foram tiradas de um mesmo lugar, da cidade de São Paulo:
1) na metade do século XIX, Paredão do Piques;
2) no início do século XX, Ladeira e Largo do Piques; e
3) em 2000, Largo da Memória.

145

História e Geografia

Ensino Fundamental

Leia o texto abaixo sobre aquele local em 1865.
Feito quase todo de alvenaria, o chafariz do
Piques, ou da Memória, tinha aspecto próprio
da casinha acachapada da primeira metade do
século XIX (...)
Pode-se dizer que o chafariz do Piques
representou papel importante na história do
trânsito em São Paulo.
E eis por quê:
Até o ano de 1865, os ranchos de tropeiros eram
o que são hoje as estações rodoviárias ou
ferroviárias. É claro que não tinham café
expresso nem reclames salpicando-lhes as
paredes. Enchia-os, porém, uma dolência
romântica. E, a fazer as vezes dos ônibus,
locomotivas e vagões, lépidas bestas, sonolentos
bois, carros de rodas tôscas e chiantes, (...)
GASPAR, Byron. Fontes e chafarizes de São Paulo. São Paulo: Conselho
Estadual de Cultura, 1970. p.39-41.

O que diz o texto? O que ele conta sobre como
era o local? Como ele descreve as construções? O
que comenta sobre os transportes?
Você reparou que o autor compara aquela época
com um outro tempo? Ele faz referência, por
exemplo, aos reclames. Você sabe o que é isso?
Era a maneira de as pessoas, até 1970, se
referirem às propagandas como as de hoje. Na
época dessas fotos (1865 e 1910), você observa a
presença de cartazes e propagandas? O autor está
aí diferenciando dois períodos: um, em que não
era costume ter propagandas pelas ruas; e outro,
semelhante ao tempo em que vivemos, quando
"a propaganda é a alma do negócio". Tais
características revelam mudanças no modo de
vida e na paisagem. Sabemos, também, que o uso

da propaganda está relacionado ao crescimento
do comércio e ao tipo de mercadoria.
Por volta de 1865, o transporte utilizado em São
Paulo e em outras cidades eram a mula e os
carros de boi. De lá para cá, muita coisa mudou.
Podemos comparar, por exemplo, os ranchos dos
tropeiros daquela época às estações rodoviárias e
ferroviárias de hoje. Atualmente, essas estações
servem como paradas onde as pessoas descansam
e se alimentam; servem para levar as pessoas a
outros lugares e também para as trocas de
mercadorias. Nos ranchos, os tropeiros faziam as
mesmas coisas que fazemos nas estações.
De maneira geral, a organização de muitas
cidades está relacionada com as trilhas, os
trajetos, os caminhos, as estradas, as ruas e os
meios de transporte utilizados pelas pessoas.
Podemos dizer, então, que todas as cidades são
dependentes dos seus meios de transportes, seja
de passageiros, de cargas (mercadorias e outros
bens materiais), ou mesmo, atualmente, do
transporte de informação (como a Internet, os
fluxos bancários etc.).

tropeiros
integrantes de tropas de mulas de carga, que
compram e vendem gado ou trabalham na lavoura.

dolência
sentimento de dor, de aflição, moleza, uma
certa preguiça.

lépidas
rápidas.

tôscas
que não foram lapidadas, rústicas.

chiantes
que chiam ou fazem ruído.

alvenaria
qualquer obra de tijolo, pedra, cal (uma parede, por
exemplo).

146

ranchos
grupos de pessoas reunidas para determinado fim
em marcha ou jornada.

fluxo Bancário
transferência de dinheiro de um credor para um
tomador de empréstimo.
O credor é aquele que empresta o dinheiro. Por
essa transformação, são cobrados juros, que
seriam a remuneração pelo empréstimo. O banco
cobra por esse serviço.

Capítulo VIII ­ A organização econômica das sociedades na atualidade

A CIRCULAÇÃO E OS MEIOS DE TRANSPORTE: A FERROVIA E A HIDROVIA

Desenvolvendo competências

2

Observe o mapa. Repare que a linha azul contínua representa a rodovia, a linha recortada por
pequenos traços representa a ferrovia e as hidrovias são representadas por traços bem finos.

BRASIL: circulação. In: SIMIELLI, Maria Elena Ramos. Geoatlas.
31. ed. ampl. atual. São Paulo: Ática, 2002. p.94.

Observe as legendas. Analise as suas informações, registrando no caderno o que se segue:
a) escreva o nome das regiões onde há mais concentração dos transportes ferroviário,
rodoviário, marítimo e hidroviário.
b) é possível notar, no mapa de circulação do Brasil, que as regiões Sul e Sudeste possuem
maior concentração não só de ferrovias, mas também de rodovias, hidrovias e portos para
escoamento de mercadorias. Por que isto acontece?
Procure dar uma resposta pessoal antes de continuar a leitura.

147

História e Geografia
A concentração das vias de circulação ocorreu em
função da história dessas regiões. O Sudeste e o
Sul do país tiveram, durante muito tempo, a
função de abastecer de alimentos o interior,
inicialmente, na época da exploração do ouro, de
Minas Gerais e Goiás, e, depois, com o cultivo do
café, do Estado de São Paulo.

são poucas, mesclando rodovias, hidrovias e
ferrovias até a divisa do Brasil com a Bolívia.
Assim, ao ler um mapa, podemos identificar quais
meios de transportes estão vinculados aos sistemas
de circulação de mercadorias e de pessoas.

O transporte por tropas de mulas, que saíam do
Rio Grande do Sul em direção a São Paulo, além
de estar mais sujeito aos roubos e aos desvios,
também sofria muito com as chuvas. O açúcar,
por exemplo, por várias vezes se estragava
quando era transportado para as cidades
portuárias. Nesse sentido, a construção das
ferrovias acabou por melhorar o deslocamento
das mercadorias, por ser um meio de transporte
mais rápido e seguro.

No Brasil, a introdução da ferrovia começou no
século XIX. Em São Paulo, as primeiras ferrovias
foram construídas para transportar o café do
interior até o litoral e, a partir daí, ser exportado
para a Europa. Em Pernambuco, a ferrovia se
espalhou pelo litoral atendendo às necessidades
da produção canavieira no Estado. Em Minas
Gerais, já no século XX, os trens passaram a levar
até o litoral do Espírito Santo o minério de ferro.

O crescimento econômico da região Sudeste
impulsionou o desenvolvimento do comércio e
dos investimentos em indústria de alimentos e
têxteis, principalmente em São Paulo e no Rio de
Janeiro. Desde o final do século XIX, São Paulo e
Rio de Janeiro se tornaram importantes centros
econômicos. Nessas cidades, atualmente, estão os
centros financeiros e comerciais do país, além dos
diversos setores industriais, como as montadoras
de automóveis e siderúrgicas (Volta Redonda­RJ e
Cubatão­SP). Dos estados que pertencem às
regiões Sudeste e Sul, saem inúmeras mercadorias
para outros lugares, dentro do país e fora dele.
Na região Norte, a ferrovia é, em relação a outras
regiões brasileiras, inexpressiva e a hidrovia se
destaca em função da facilidade de transporte
fluvial, como o rio Amazonas (AM).
Na região Nordeste, há predomínio das rodovias.
As ferrovias localizam-se no litoral,
principalmente em função da produção agrícola e
da fruticultura voltadas para a exportação, além
de alguns produtos minerais como petróleo e sal.
Mas não se pode esquecer a importância da
navegação fluvial do Rio São Francisco (de Minas
Gerais a Pernambuco).
Já na região Centro-Oeste, as vias de circulação

148

Ensino Fundamental

AS FERROVIAS E AS HIDROVIAS

A construção de trilhos e estações pelo Brasil
representou uma mudança no meio físico, na
circulação de mercadorias, no modo de as pessoas
se locomoverem entre as cidades e,
conseqüentemente, na alteração da paisagem.
Representou também o domínio pelas
Companhias Ferroviárias das novas técnicas de
construção. Foram as companhias inglesas que
construíram as primeiras ferrovias no Brasil.
Sabiam produzir locomotivas, bitolas e trilhos,
dominando técnicas de engenharia para
construção de pontes, estações, túneis, e analisar
a topografia de um terreno, para o
reconhecimento dos terrenos apropriados para
implantar os traçados das ferrovias. Muitas
cidades foram organizadas em função da
produção agrícola do café, das estações
ferroviárias e do comércio gerado a partir da
implantação deste sistema.
As ferrovias passaram a ser o principal meio de
transporte de pessoas e de mercadorias com um
custo menor e com uma rapidez inimaginável até
então. Além disso, davam todas as garantias de
que a carga transportada chegaria em segurança e
sem nenhum dano.

Capítulo VIII ­ A organização econômica das sociedades na atualidade
Observe a foto. Que lugar é esse? Qual a mudança
na paisagem para a construção da ferrovia?
Esta é uma foto da ferrovia Madeira e Mamoré,
construída dentro da floresta Amazônica, em
1910, na anexação do Acre ao Brasil, no acordo
feito entre o Brasil e a Bolívia. Você deve ter
percebido que houve um desmatamento, que
possivelmente alterou o meio físico.

Ferrovia Madeira e Mamoré. In: TRILHAS e sonhos.
São Paulo: USP: Museu Paulista, 2000.

Observe esta outra foto da mesma construção.
Repare que o trilho está caído, houve uma erosão
do terreno. Como é uma região de muita chuva,
com o desmatamento, o solo ficou mais sujeito à
ação das chuvas, do vento e das alterações de
temperatura, contribuindo para o desgaste (erosão).

Ferrovia Madeira e Mamoré. In: TRILHAS e sonhos.
São Paulo: USP: Museu Paulista, 2000.

meio físico
aqui no texto este termo é utilizado para as modificações que ocorreram na natureza quando houve a implantação de um
empreendimento. Para o caso da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, por exemplo, essa mudança pode ser percebida na
destinação de uma área voltada para o cultivo de eucaliptos. Esses eucaliptos eram usados para a própria
construção de dormentes.

dormente
qualquer madeira estendida no chão para servir de
base a um edifício ou trilhos do trem.

149

História e Geografia

Ensino Fundamental

Compare os mapas a seguir: Brasil e África. Quais
são as semelhanças entre os trajetos das ferrovias
do Brasil e da Nigéria? Existe relação entre estes
trajetos e a economia de exportação? É
interessante perceber que, em ambos, as ferrovias
partem do interior para o litoral.

BRASIL: circulação. In: SIMIELLI, Maria Elena Ramos. Geoatlas. 31.
ed. ampl. atual. São Paulo: Ática, 2002. p.94.

Observe que, assim como no Brasil, o sistema
ferroviário africano atendeu aos interesses
voltados para a exportação de mercadorias
(agrícola e mineral), acarretando economias
dependentes do comércio internacional. No início
do século XX, por exemplo, o Brasil exportava,
para a Europa, o café; a Nigéria, cacau e a
Namíbia, diamante e prata.
Leia novamente o mapa de circulação. Preste
atenção nos trajetos dos rios e compare com os
percursos das rodovias e ferrovias. Observe que,
em vários estados brasileiros, a rede hidrográfica
é mais intensa, favorecendo o transporte fluvial,
como ocorre na região amazônica. É possível

150

MÉRENNE, F. Géographie des transports. [S.l.]: Nathan, 1995.

notar também que as ferrovias muitas vezes têm
seus traçados próximos aos rios e às rodovias.
Quanto ao transporte hidroviário, ele apresenta
uma característica interessante: as principais
hidrovias do globo não coincidem
necessariamente com os rios mais propícios à
navegação. Muitas delas foram implantadas nos
locais onde a intensidade do fluxo, o volume e a
escala da produção exigiram que os rios se
tornassem vias, mesmo que não fossem
originalmente navegáveis.
Retome os traçados dos rios. No caderno,
descreva o trajeto dos Rios São Francisco,
Araguaia, Paraná e Tietê. Repare onde esses rios

Capítulo VIII ­ A organização econômica das sociedades na atualidade
deságuam e onde nascem. Você notou que eles
passam por várias cidades? Além de serem vias
de transportes, os rios também sofrem alterações
nos seus cursos com as construções de barragens
para as usinas hidrelétricas, com a finalidade de
gerar energia.
Para pensarmos mais um pouco sobre as vias de
circulação no Brasil, vamos analisar dois casos. O
primeiro é o porto de Santos, um dos maiores do
Brasil, que contribuiu em muito para o
escoamento do café produzido no interior de São
Paulo. Ao mesmo tempo em que ele foi
construído, houve a necessidade de se fazer
estradas de apoio à ferrovia que vinha do interior
de São Paulo. A estrada, a ferrovia e o porto
fazem parte de um sistema de transporte para
circular as mercadorias.
Isso fica mais claro ao analisarmos o segundo
caso: o porto de Paranaguá (PR), que recebe as
mercadorias a partir da hidrovia Tietê/Paraná.
Esses rios integram todos os sistemas de
transportes, criando o que se chama de corredor
de exportação especializado em grãos. Observe
que há portos relacionados com os principais
rios que são navegáveis e outros que foram
estruturados independentemente do transporte
fluvial. Como você viu antes, os tropeiros
utilizaram-se desses trajetos.

Ao observarmos esses sistemas de transportes,
notamos a relação entre o meio físico e a
organização das cidades, pois em diferentes
tempos as sociedades foram criando técnicas
para se comunicar e transportar suas
mercadorias. Por exemplo, as hidrovias são
utilizadas como via de transportes dependendo
das condições dos próprios rios e das técnicas
para as construções das embarcações. Isso
significa, portanto, que todas as atividades
humanas interferem na paisagem.
Você se lembra de que, desde o início do
capítulo, mostramos que, na organização das
cidades, ocorreram várias alterações na
paisagem original, como as construções das
casas e das estradas de ferro.
Essas mudanças na produção dos objetos
interferiram no modo de vida das pessoas. Assim
como nas construções que aparecem nas fotos no
início do capítulo, em cada período ou época as
pessoas vão conhecendo novos objetos e técnicas.
Essas mudanças também ocorreram durante as
construções das vias de transportes e dos portos.
Você já estudou a importância dos transportes e
constatou que eles são os meios pelos quais as
mercadorias chegam em todos os lugares para
serem consumidas. De que modo as mercadorias
chegam em sua cidade?

151

História e Geografia

Ensino Fundamental

Desenvolvendo competências

3

Teste seus conhecimentos
Retome o mapa da pág. 150, do Brasil, e observe os meios de transportes representados nele.
De acordo com o mapa os estados com maior concentração de ferrovia e rodovia são,
respectivamente:
a) São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
b) Mato Grosso do Sul, São Paulo e Bahia.
c) São Paulo, Goiás e Rio de Janeiro.
d) Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul.

AS MUDANÇAS
DAS TÉCNICAS NO CAMPO
Em todos os lugares e tempos, a alimentação
humana é importante. A produção agrícola de
alimentos e a sua comercialização contribuíram
para a organização do espaço e a formação
das cidades.

Verifique se são estes também seus alimentos
cotidianos. Há outros alimentos que você
consome diariamente que não estão nesta lista?
Anote em seu caderno os que são consumidos por
você e sua família.

Leia uma lista de alimentos básicos para uma
família brasileira atualmente (2002) que contém
os seguintes itens:

Agora, leia a lista de alimentos que poderia ser
consumida pela maioria da população na década
de 30 do século XX.

- 5kg de arroz

- Arroz

- 2kg de feijão

- Farinha de milho

- 2 pacotes de macarrão

- Banha

- 3kg de açúcar

- Sal

- 1kg de café

- Feijão

- 1 lata de óleo de soja
- 1kg de trigo
- 1kg de farinha de mandioca
- 1kg de sal
- 1 lata de molho de tomate

152

Capítulo VIII ­ A organização econômica das sociedades na atualidade
Comparando as listas, você deve ter notado que
ocorreram muitas mudanças. Mas será que só os
alimentos mudaram com o tempo? Será que a
forma de produzi-los também não sofreu
transformações? Será que a forma como temos
acesso a eles, como são embalados, processados e
vendidos também não mudou?
Ao anotar as diferenças e semelhanças dos
alimentos consumidos antigamente e os de hoje,
você pode notar que alguns produtos não
existiam naquela época e outros, sim. Podemos
dar o exemplo do óleo ou gordura, que
antigamente era a banha de porco e hoje é o óleo
de soja, muito comum nas atuais cestas básicas.
Os estados do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e
Paraná apresentam extensas áreas ocupadas pelo
cultivo de soja, destinado ao preparo de vários
tipos de alimentos, como biscoitos, macarrão,
queijos e óleo, além da ração animal.
A produção da soja, destinada principalmente
para a exportação, é realizada em grandes
propriedades e com intensa mecanização (uso de
tratores, colhedeiras, sistema de irrigação
mecanizado, uso de fertilizantes e adubos).
De modo semelhante a essas áreas, vários
lugares do mundo tornaram-se especializados
num único produto, como é o caso dos grandes
cinturões dos Estados Unidos (EUA) que se
especializaram na produção de algodão e de
cereais, entre outros produtos.

Preparo da terra em curvas de nível. Cascavel, PR.
(Delfim Martins. Agência Pulsar).

Ao ler a foto, você nota as mudanças que
ocorreram na produção do campo. É possível
observar que há um número muito pequeno de
pessoas trabalhando. A partir desse exemplo,
pode-se entender que, à medida que as técnicas
utilizadas no campo tornaram-se mais intensivas
e mecanizadas, houve um aumento na produção
de alimentos e, conseqüentemente, uma mudança
nos hábitos alimentares e uma nova forma de
organização do espaço. Ou seja, menos pessoas
vivendo no campo, mais trabalhadores sem terra
e assalariados.
O interior do Brasil é um grande produtor de
alimentos. Em diferentes regiões, as técnicas de
plantio variam de acordo com a cultura local, o
poder aquisitivo dos proprietários, o acesso à
terra, o tamanho das propriedades, os projetos de
investimentos dos governos municipais, estaduais
e federal, entre outros fatores socioeconômicos.
Portanto, essas regiões têm escoamento pelas
estradas e transportes, como vimos anteriormente.

153

História e Geografia

Ensino Fundamental

Desenvolvendo competências

4

Retome a leitura da foto (p.153). Escreva em seu caderno as atividades que estão presentes.
Qual o objeto técnico que aparece? A cidade onde você vive tem atividade agrícola? Se tiver,
qual a produção que predomina?

PRODUÇÃO E CONSUMO
Pense na cidade onde você mora e em todas as
mercadorias que você consome. Pense nos
alimentos e nas roupas que você utiliza. De que
maneira esses produtos chegam até você? Qual a
influência que eles têm na sua vida? Você deve
ter notado que todos esses produtos são
fabricados em lugares diferentes, por vários
trabalhadores envolvidos na produção, desde a
pessoa que extrai a matéria-prima até o
motorista que os transporta e o comerciário que
os vende. Observe o esquema:

ESQUEMA DE
PRODUÇÃO DE LEITE

VALDETARO, Dalva Barbosa; ANDRADE, Daniela Dantas. Leite:
nosso primeiro alimento. São Paulo: Ática, 1994. p.24. (Coleção
um passo à frente).

matéria-prima

154

esta palavra nasceu com o surgimento das fábricas, justamente para diferenciar entre o produto bruto e o
industrializado. Como exemplo, podemos nos lembrar do algodão. Se ele ainda não foi trabalhado na fábrica
para ficar branco e limpo, ele está em sua forma ao natural, como saiu da planta. Ou seja, ele é a matériaprima para a produção dos fios e tecidos nas fábricas.

Capítulo VIII ­ A organização econômica das sociedades na atualidade
O esquema da página anterior mostra as etapas
e as diferentes atividades realizadas pelos
trabalhadores. Podemos acompanhar a
transformação da matéria-prima em produto
industrializado, como resultado do emprego de
técnicas e do desenvolvimento tecnológico
existente na produção dessa mercadoria.

A NOÇÃO DE OBJETO TÉCNICO
Há objetos que compõem o espaço
geográfico criados pelo próprio homem,
isto é, são objetos artificiais. Podemos
chamar esses objetos artificiais de
objetos técnicos.
Devemos destacar esse conceito, pois é
a partir da invenção de novos objetos
que o homem altera suas possibilidades
de desenvolvimento. A um meio
geográfico natural, composto de objetos
naturais, a humanidade vai
acrescentando novas ferramentas,
novas construções, novos equipamentos
produtivos, todos artificiais, que vão
tornando o meio geográfico cada vez
menos um meio natural e cada vez
mais um meio técnico, artificial.

Desenvolvendo competências

5

Registre no caderno as mudanças que você observou na elaboração dos produtos. Quais
atividades estão presentes nesse esquema?
Todas as etapas mostram que ocorreram transformações na produção da mercadoria. Em cada
uma dessas etapas, os trabalhadores participam, de forma especializada, no processo de
fabricação de um único produto.
Essa mudança no modo de produzir os bens de consumo acelerou a busca de conhecimentos
tecnológicos cada vez mais específicos.

155

História e Geografia
Voltando para o estudo da lista de alimentos,
observe que, se fôssemos voltar para o início do
século XX, a maneira como as pessoas
consumiam era bem diferenciada da que
conhecemos hoje. Naquele período, a população,
na sua maioria, vivia no campo, não havia
geladeira, a carne era conservada em tigelas com
banha e grande parte dos alimentos era plantada
no local e consumida ao natural. Atualmente,
esses produtos saem do campo e passam por
algum processo de transformação industrial.
Antigamente, por exemplo, o feijão e o arroz
eram comprados por quilo, passavam pelo
beneficiamento, mas não eram ensacados e nem
tinham marcas; o macarrão e o biscoito eram
caseiros; não havia óleo enlatado; as pessoas
usavam banha para cozinhar. Isso significa que os
alimentos consumidos eram naturais, sem
nenhum processo de conservação e
industrialização. Hoje, na lista de alimentos
básicos, todos os produtos são industrializados:
massa de tomate, sardinha em lata, pacote de
macarrão, café moído e embalado, lata de óleo e
todos que passaram por algum tipo de

Ensino Fundamental
transformação nas indústrias.
Note que a quantidade de embalagens que sobra
no final do consumo de alimentos é um dos
fatores do aumento da quantidade de lixo. Esse é
um problema que aflige a população urbana das
sociedades contemporâneas, e que era muito
menor antigamente.
Você pode notar, também, que todas
transformações na vida da sociedade brasileira
estão expressas nas modificações dos alimentos
que consumimos.
Os produtos da década de 30, como o feijão e o
arroz de nosso exemplo, eram consumidos pelas
pessoas que não viviam no campo. Esses
alimentos, se, por um lado, eram naturais, por
outro, não duravam quase nada. À medida que
crescia o número de pessoas na cidade, o ritmo
de vida ficava mais intenso. Com isso, o
comércio se intensificou e as pessoas passaram a
não ter mais tempo para produzir tudo em casa.
Daí surgiram os alimentos processados,
enlatados e embalados pelas fábricas, o que fez
ampliar a circulação de dinheiro.

Desenvolvendo competências

6

Obtenha o rótulo de pelo menos cinco produtos que são consumidos por você ou sua
família e registre:
· o nome do produto;
· o local de origem do produto (onde é produzido);
· a data de validade e de fabricação;
· o tipo de produto (vegetal, laticínio, cereal etc.);
· os tipos de trabalho envolvidos nas etapas de produção dessa mercadoria.

Observe, em sua casa, como os alimentos estão
embalados. Por exemplo, o plástico dos saquinhos
de arroz e feijão, a caixa do leite e o óleo que vem
enlatado ou em garrafas plásticas mostram como
as técnicas e os instrumentos foram desenvolvidos.
A partir dessas questões, uma relação maior entre
os produtores e o comércio foi estabelecida. Além
disso, o uso de matéria-prima aumentou, as
fábricas dinamizaram a produção e foi necessário

156

melhorar a forma de transportá-la para agilizar o
fluxo ou circulação de mercadorias.
Até esse momento você estudou:
· as mudanças que ocorreram na produção;
· as mudanças no consumo dos alimentos e os
hábitos alimentares;
· as etapas das transformações da matéria-prima
em produto industrializado.

Capítulo VIII ­ A organização econômica das sociedades na atualidade

O CONSUMO MUNDIAL E OS MEIOS
DE COMUNICAÇÃO
Nas grandes cidades brasileiras, como São Paulo,
Rio de Janeiro, Porto Alegre, Fortaleza, por
exemplo, podemos observar os cartazes e as
propagandas de diversos produtos consumidos
pela maioria da população mundial. Isso
transmite a idéia de um mundo globalizado, onde
um produto de uma mesma marca pode ser
vendido ao mesmo tempo em diferentes países.
Por exemplo, um produto vendido no Brasil pode
ser encontrado em supermercados ou lojas nos
Estados Unidos, na Argentina e em outros países.
Observe, nas ruas da cidade onde mora e nos
meios de comunicação, as propagandas dos
produtos industrializados. Note que eles podem
ser consumidos em vários lugares. Quais são os
motivos que você daria para explicar esse fato?
Durante séculos, o comércio se manteve
estruturado em necessidades básicas, como
alimentação e vestuário. Hoje, ele está
fundamentado no desejo e no estilo de vida
adotado pelas pessoas. As mudanças no modo de
vida, nos hábitos de consumo, bem como os
produtos que são consumidos em quase todos os
países são características que revelam uma
necessidade das empresas mundiais, que querem
ter seus produtos circulando pelo mundo. Esse
processo recebe o nome de globalização.
A era do consumo é a explosão da procura ou da
solicitação mundial por produtos, que chegam
rapidamente a todas as nações, das mais ricas às
mais pobres. Independentemente dos níveis de
desenvolvimento, o que mais se deseja é
mergulhar no mundo das compras.
As indústrias articulam-se com as agências de
publicidade para influenciar cada faixa do
mercado consumidor: crianças, adolescentes,
adultos e idosos. A influência da publicidade
veiculada pela televisão é grande e já existem
diversos estudos que mostram, por exemplo, a
grande participação de adolescentes na compra de
alimentos e carros. Cada faixa do mercado
consumidor é estimulada a consumir
determinados produtos, mesmo sem necessidade,
alimentando a economia capitalista e criando um
hábito, cujo objetivo principal é o lucro.
Leia a seguinte seqüência que relata o processo de
produção e de consumo de um produto eletrônico:

Um rádio pode ser produzido na China, ser
vendido na Coréia e no Brasil, ser comprado em
Manaus por um paraense que pode levá-lo para a
sua família em Carajás, a qual poderá inteirar-se
do que acontece no mundo todo.

Esse relato pode ocorrer com qualquer produto que
consumimos. Esse processo caracteriza como os
lugares vão sendo organizados a partir da produção
e da circulação de mercadorias. As formas de
trabalho nos diferentes períodos históricos
caracterizam a cultura e a técnica das sociedades.
Durante a leitura do capítulo você pode notar que
o desenvolvimento tecnológico influencia o modo
de vida das pessoas. Os seres humanos
aprimoraram cada vez mais as técnicas de cultivo,
de transporte, de manufatura, que requeriam maior
especialização. Por exemplo, em uma fábrica, cada
setor era especializado em uma parte do produto.
Atualmente, em função do desenvolvimento
tecnológico, encontram-se robôs na linha de
produção, e os trabalhadores passam a ter um
maior conhecimento do processo de fabricação do
produto. Essas mudanças estimularam o
deslocamento das pessoas para os lugares onde
havia trabalho nas indústrias e no comércio,
concentrando as populações nas partes do globo
em que estas técnicas estavam mais desenvolvidas.
O século XX caracterizou-se pelo
desenvolvimento industrial e tecnológico,
principalmente, a partir de 1950. No século XXI,
esperam-se mudanças cada vez mais rápidas em
conseqüência das novas descobertas e dos
avanços nas pesquisas científicas.
Os países em desenvolvimento, por exemplo,
estão intensificando o processo de
industrialização, implementando novidades nas
linhas de produção. Já os de economia
desenvolvida, como os Estados Unidos, Canadá,
Japão e os países da Europa Ocidental, vêm
substituindo a tecnologia industrial pela que é
estruturada no conhecimento tecnológico mais
avançado, na biotecnologia e na inteligência
artificial. Esse países, de acordo com a função que
exercem na economia mundial, denominada de
divisão internacional do trabalho, controlam as
pesquisas em relação à tecnologia industrial. No
entanto, atualmente, esses mesmos países
investem em tecnologia de ponta nos chamados
tecnopólos, áreas industriais onde se localizam as
maiores empresas mundiais de tecnologia na área
de informática, engenharia e pesquisas científicas.

157

História e Geografia

Ensino Fundamental

MAPA DAS ÁREAS INDUSTRIALIZADAS DO MUNDO

PLANISFÉRIOS: dinamismo econômico: espaços
industriais. In: SIMIELLI, Maria Elena Ramos.
Geoatlas. 31. ed. ampl. atual. São Paulo: Ática,
2002. p.23.

Desenvolvendo competências

7

Observe o mapa. As áreas com um círculo indicam países que possuem inovação científica e
tecnológica. Leia a legenda e registre em seu caderno o nome dos países que possuem maior
concentração industrial e áreas dos tecnopólos.

Não foram apenas os equipamentos que se
modernizaram, mas também aconteceram
mudanças no modo de vida das pessoas e
alterações na ordem econômica mundial. Além
disso, o comércio necessitou organizar- se para
atender à competição do mercado mundial e as
empresas se articularam para dinamizar o mercado
consumidor, aumentando a disputa entre elas.

e blocos econômicos que modificaram o modo de
vida e as formas de trabalho configuraram uma
nova ordem da divisão do trabalho. Isso pode ser
observado na organização das indústrias e do
sistema financeiro, na produção agrícola, nos
meios de comunicação e no desenvolvimento
tecnológico, sempre sob influência dos países
ricos e industrializados.

A reorganização do espaço e a mundialização da
economia com a interferência de muitas empresas

Pensar a globalização é repensar a importância de
ser cidadão, à medida em que se fala numa

bloco econômico
conjunto de países que estão organizados em função de interesses econômicos comuns. Os países que fazem parte de um
bloco disputam a hegemonia por meio da concorrência comercial. Por exemplo, Área de livre comércio (ALCA E NAFTA);
União Aduaneira (MERCOSUL); Mercado Comum (União Européia).

158

A Organização Mundial de Comércio ­ OMC define que uma área de livre comércio só se constitui quando 85% do comércio é
livre. Cada país estabelece o imposto de importação para os produtos de países não signatários do acordo, ou seja, os países
que não assinaram o acordo comercial, e também as regras para a circulação de dinheiro, serviços e pessoas. Dinamizar o
mercado consumidor e estabelecer uma nova reorganização espacial das empresas são fatores que permitem uma dimensão
maior para a economia mundial na atualidade, conhecida como uma das etapas da globalização.

Capítulo VIII ­ A organização econômica das sociedades na atualidade
globalização da mercadoria, do mercado financeiro
e não do homem como cidadão do mundo.
Nessa última parte do capítulo, você estudou como
as mudanças tecnológicas influenciaram o modo
de vida das pessoas, como o comércio se organiza

mundialmente e as mercadorias são consumidas,
como se localizam os pólos industriais em todo o
mundo. No conjunto desse capítulo, você pôde
estudar como as sociedades contemporâneas foram
organizando o espaço geográfico.

Desenvolvendo competências

8

Teste seus conhecimentos:
1. Retome o mapa dos Espaços Industrializados da página 158. As áreas mais desenvolvidas
encontram-se:
a) no continente Americano e Europeu, que constituem hoje as áreas mais desenvolvidas e
que passaram por um processo de industrialização recente.
b) em todos os países que investem na rápida substituição das máquinas industriais por robôs.
c) nos locais que investem na sofisticação da produção industrial.
d) no Japão e nas Filipinas, porque ambas são regiões densamente industrializadas.
2. Leia o trecho da música Pela Internet, do cantor e compositor Gilberto Gil.
Eu quero entrar na rede para contactar
Os lares do Nepal, os bares do Gabão
E o chefe da polícia carioca avisa pelo celular
Que lá na praça Onze tem um videopôquer para se jogar.
GIL, Gilberto. Quanta gente veio ver. [S.l.]: WEA,[19--]. 1 CD.

O acesso à informação no Nepal, no Gabão e no Brasil foi possível:
a) com a substituição das matérias-primas utilizadas pela indústria tradicional e,
conseqüentemente, com a ampla utilização do sistema de transporte desses países.
b) quando os países investiram na modificação da forma de produção, fator este que
contribuiu para a mudança do modo de vida das pessoas.
c) com a manutenção das atividades industriais desenvolvidas, desde o início do período industrial.
d) quando os países especificados passaram a se organizar em blocos econômicos e a ter um
desenvolvimento semelhante ao dos países europeus.

Conferindo seu conhecimento

3

Resposta correta: (a).

4

1. As atividades presentes estão relacionadas às práticas agrícolas: preparar a terra para o plantio e organização
do terreno em curva de nível. 2. O objeto técnico que aparece é o trator.

8

Resposta: 1(c); 2(b).

159

História e Geografia

ORIENTAÇÃO

Ensino Fundamental

FINAL

Para saber se você compreendeu bem o que está apresentado neste capítulo, verifique se está apto a
demonstrar que é capaz de:
· Identificar aspectos da realidade econômico-social de um país ou região, a partir de indicadores
socioeconômicos graficamente representados.
· Caracterizar formas de circulação de informação, capitais, mercadorias e serviços no tempo e no
espaço.
· Comparar os diferentes modos de vida das populações, utilizando dados sobre produção, circulação e
consumo.
· Discutir formas de propagação de hábitos de consumo que induzam a sistemas produtivos predatórios
do ambiente e da sociedade.
· Comparar organizações políticas, econômicas e sociais no mundo contemporâneo, na identificação de
propostas que propiciem eqüidade na qualidade de vida de sua população.

160

Capítulo IX
ESTADO E DEMOCRACIA NO BRASIL

COMPREENDER

OS PROCESSOS DE FORMAÇÃO DAS

INSTITUIÇÕES SOCIAIS E POLÍTICAS A PARTIR
DE DIFERENTES FORMAS DE REGULAMENTAÇÃO DAS
SOCIEDADES E DO ESPAÇO GEOGRÁFICO.

Jaime Tadeu Oliva

História e Geografia

Ensino Fundamental

Capítulo IX

Estado e democracia no Brasil
ONDE COMEÇA A ORGANIZAÇÃO
DA SOCIEDADE
Em nossa sociedade, os governantes são escolhidos
pela população. Essa possibilidade faz parte de
nosso regime político e se denomina democracia.
Desde quando a democracia está instituída entre

nós? Quais são suas bases, vantagens e
dificuldades? Qual o papel de cada cidadão num
regime político e social orientado pela democracia?
Observe o cartaz abaixo.

Figura 1 - Charge política sobre o voto de cabresto. RETRATO do Brasil. Partido Democrático: 1928. [S.l.]: Política Ed., 1984. p.
249. Cartaz.

162

Capítulo IX ­ Estado e democracia no Brasil
Esse desenho não parece um tanto estranho?
Aparecem dois homens, mas um deles está
caricaturado como se fosse um cavalo. Suas
orelhas são grandes e, sobre seu rosto, há um
cabresto. Você sabe para que se usa cabresto nos
cavalos? Olhando o que está escrito dá para se
notar sua finalidade? Afinal, por que representar
um homem como um cavalo sendo guiado por
outro? Você vê graça nessa propaganda? Você
notou a data do desenho?

Você já ouviu a expressão "voto de cabresto"? E
"curral eleitoral"? Mesmo que não tenha ouvido,
dá para pensar nelas a partir das seguintes
observações:
1) o cabresto é usado no cavalo para dirigi-lo;
2) no desenho, alguém está depositando seu voto,
guiado por um cavaleiro;
3) no curral aprisionam-se cavalos, para que seus
donos os controlem. Dá para saber agora o que é
um "voto de cabresto"? Esse desenho é uma
charge política. As charges políticas são formas
cômicas e irônicas de criticar os costumes e as
práticas políticas.

O VOTO DE CABRESTO
A primeira Constituição republicana (1891) estabeleceu o voto direto para eleitores
alfabetizados. E a exigência da alfabetização excluía a maioria da população do direito de
votar. Além disso, o voto continuou aberto e o poderio dos coronéis latifundiários, que
comandavam seu "curral eleitoral" por meio da troca de favores e da violência, permaneceu.
Afinal, os camponeses eram dependentes de terra para viver e por isso se submetiam à sua
vontade sendo fiéis eleitoralmente. Como o voto não era secreto, podia ser facilmente
controlado. Esse voto ficou conhecido como voto de cabresto. Eis um relato a respeito do
voto de cabresto: No dia das eleições, a Mesa Receptora dos Votos interferia em todos os sentidos
sobre o eleitorado. Quando se apresentava um analfabeto para votar, os próprios componentes da
Mesa preenchiam as cédulas e assinavam as listas de presença. Aos indesejáveis, sob qualquer
alegação, mandavam prender. (...) A interferência policial era notória e os amedrontados eleitores
faziam muitas vezes questão de mostrar claramente a quem se destinava seu voto, para evitar futuras
complicações. Dessa forma, nada havia de livre ou de secreto na maneira de votar; sempre existiu a
coerção, inclusive com a presença maciça de capangas do Coronel.
JANOTTI, Maria de Lourdes Monaco. O coronelismo: uma política de compromissos. São Paulo: Brasiliense, 1981. p.51. (Tudo é história; 13).

Foi o Código Eleitoral de 1932, no governo Vargas, que trouxe importantes alterações. O
voto tornou-se obrigatório e secreto, em pleitos regulados pela justiça eleitoral.
Agora vamos pensar numa cena atual. Quem
ainda não viu, nas épocas das eleições políticas,
cenas como os candidatos pedindo votos em
lugares pobres, abraçando as pessoas, beijando
crianças e comendo em bares bem modestos?
Quem nunca viu isso ao menos já deve ter ouvido
muita gente comentar que, na política atual, os
políticos aparecem na época das eleições para
pedir nosso voto e nesse momento eles nos tratam
muito bem. Beijam crianças, distribuem cestas

básicas e outros brindes, conseguem os votos a
troco de presentes, de favores e de promessas, e
depois das eleições somem.
Para pensar nessas situações apresentadas (na
charge política e no comentário popular),
estudaremos alguns aspectos de nossa sociedade.
Você sabe o que é a Constituição brasileira? Você
sabe que nela estão as leis principais que servem
para organizar a vida no Brasil? Como foram feitas
essas leis, como funcionam e o que significam são

163

História e Geografia
os assuntos que vamos estudar. Vamos ver o que
aparece na Constituição logo no seu início:

"Todo poder emana do povo, que o
exerce por meio de representantes
eleitos ou indiretamente, nos termos
desta Constituição".
Título 1 ­ Dos Princípios Fundamentais - Parágrafo único do Artigo 1º.
In: BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do
Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988: atualizada até a Emenda
Constitucional nº20 de 15-12-1998. 21. ed. São Paulo: Saraiva, 1999.

A CONSTITUIÇÃO
Ser parte do primeiro Artigo da Constituição
mostra a importância desse parágrafo. A
Constituição brasileira possui 250 Artigos, que são
divididos em nove partes, ou melhor, nove títulos.
O Artigo 1º encontra-se no Título 1, que é "Dos
princípios fundamentais". Como você sabe,
princípio quer dizer início, o que vem primeiro, o
que começa. Fundamental vem do verbo fundar.
Você já ouviu falar das fundações de um edifício,
de uma casa? Ou então dos alicerces, que quer
dizer a mesma coisa que fundações? É possível
construir um prédio de vários andares sem
alicerces? Caso se faça uma casa sem alicerces, o
que pode acontecer com ela?
Assim, os princípios fundamentais, que compõem
o Título 1 da Constituição, têm o mesmo papel
dos alicerces em uma construção. Eles são os
alicerces da sociedade brasileira. O Artigo 1º,
portanto, é a primeira pedra com a qual se inicia
o processo de construção de nossa sociedade.
O que quer dizer esse parágrafo do Artigo 1º?
Qual a palavra mais importante? Quais as
palavras que você não entende? É sempre bom,
quando não entendemos alguma palavra de uma
leitura, consultar um dicionário. Por exemplo: o
que quer dizer a palavra emana? Dizer que algo
emana do povo, quer dizer que vem ou sai do
povo. Esse Artigo 1º está dizendo que o que vem
do povo é o poder. Essa é a palavra mais
importante, o poder: o poder de decidir o destino
e a vida em geral da sociedade brasileira.
Todo poder emana do povo! Quer dizer: todos nós
juntos temos esse poder. Mas, será que cada um
de nós diretamente decide sobre o que tem de ser

164

Ensino Fundamental
feito em cada comunidade, em cada cidade, no
país de um modo geral? Ou são outras pessoas
que fazem isso em nosso lugar? Mas como essas
pessoas, que têm o poder de decidir o nosso
destino, conseguiram esse poder? Quem deu? Se
você reler o parágrafo do Artigo 1º da
Constituição, lá encontrará a resposta.
Depois de entender bem esse Artigo 1º da
Constituição, vale pensar em algumas questões:
Será que, de alguma forma, ainda existe voto de
cabresto hoje em dia? Se o voto de cabresto ainda
permanece no Brasil, será que o que a charge
política sobre o voto de cabresto mostra está de
acordo com o Artigo 1º da Constituição brasileira
atual? E entregar votos a candidatos que
"compram" nossos votos com brindes, cestas
básicas e com outros agrados faz justiça à idéia
de que todo poder emana do povo?
Quando formos votar, como podemos saber se
nosso voto é um tipo atual do voto de cabresto
ou é um "voto vendido"? Como avaliar as
conseqüências dessas formas de corrupção do
voto? Como evitar essa situação?

O VOTO DE CABRESTO HOJE
Observe o trecho do artigo abaixo:
Quando se trata de grotão, no Brasil o
voto é mesmo de cabresto, como o
trabalho do grupo de Cesar Romero ­ o
Novo Atlas Eleitoral do Brasil ­ deixa
claro. Há municípios e regiões que
votam exclusivamente em quem o chefe
político local mandar. E o chefe é
sempre dependente dos poderes
estaduais e centrais.
O voto obediente do interior, JB online. Acesso em 20 maio 2002.

Deu para notar, lendo o Artigo 1º, que o poder
que emana do povo será entregue a pessoas que
nos representarão nas instituições que usam esse
poder? Os candidatos que estão "comprando" os
votos estão sendo nossos representantes. Mas, se
formos obrigados a votar em alguém, ou então
vendermos nosso voto, os políticos que forem
eleitos dessa forma serão nossos legítimos
representantes?
Sabemos que são muitos os candidatos que
querem nos representar. Os candidatos nos pedem

Capítulo IX ­ Estado e democracia no Brasil
os votos de várias formas. Algumas são legítimas
e outras não garantem uma relação legítima
entre nós e nossos representantes. Observe
algumas formas abaixo. Aproveite e classifique-as
em legítimas e inconvenientes:

· Atendimento no gabinete para lhes fazer
favores pessoais (um emprego, promoção em
cargo público; ajuda para se aposentar; uma
vaga para internação no hospital etc.).

· Propaganda nas rádios e nas televisões.

TODO PODER EMANA DO POVO?

· Distribuição de objetos de propaganda
(camisetas, fotografias, canetas, por exemplo).
· Oferta de pequenos brindes à comunidade
(bolas e jogos de camisas de futebol, cestas
básicas etc).
· Distribuição de papéis escritos, cartazes,
dizendo o que defendem, a que partidos
pertencem e o que vão fazer como
nossos representantes.
· Promessa de benefícios para a comunidade
(aumento de empregos, instalação de rede de
água e esgoto, construção de escolas etc.).

Não basta a Constituição brasileira dizer que todo
poder emana do povo. É preciso verificar se é o
povo realmente que está exercendo o poder de
conduzir o destino da sociedade. Se não sabemos
o que fará o nosso representante, como então ele
pode ser nosso representante?
Um exemplo pode ser encontrado no quadro
O Voto de Cabresto Hoje. É comum as pessoas
obedecerem à ordem dos chefes políticos locais e
votar em quem eles mandam. Como um candidato
escolhido por um voto de cabresto pode ser nosso
representante?

Desenvolvendo competências

1

Vamos discutir melhor essas questões e, para tal, vamos propor algumas atividades. Procure
responder às questões propostas e solucionar os problemas que vamos colocar:
1. Considerando a Figura 1, por que o texto do cartaz diz: "Vamos acabar com essa
vergonha"? Escreva a seu modo o que é o voto de cabresto. Você acha que em nossos dias
ainda existe quem vote sob ameaça ou coação, apesar de o voto ser secreto?
2. Examine essa situação: Época de eleição num bairro pobre. Chega um caminhão de cestas
básicas da prefeitura. Aí o aviso: elas serão distribuídas pelo candidato a prefeito apoiado
pelo prefeito atual. Escolha abaixo a afirmação que está errada:
a) Quem vota em troca de uma cesta básica está vendendo seu voto, como numa relação
vendedor e cliente.
b) Quem vota num candidato que oferece algum brinde, acaba não sabendo o que o seu
candidato vai defender se for eleito.
c) Quem vota num político por que ele prometeu arrumar emprego e facilitar a aposentadoria
do eleitor, está vendendo seu voto.
d) Se tivéssemos que escolher um nome para a situação de quem vota em troca de uma cesta
básica, clientelismo político seria um bom nome.
e) Antes de votar num candidato devemos pedir benefícios pessoais. Se não for assim, o
político some depois de conseguir nosso voto.
Se você respondeu que a errada é a (e), você acertou, pois não é função do voto conseguir
benefícios pessoais. Isso é uma forma de corrupção do voto.

165

História e Geografia

PARA PENSAR...
1. Se você trabalha numa empresa privada, ou
num órgão público, e na época da eleição o seu
chefe diz que você tem que votar em alguém, e
que, caso você não vote, as coisas podem não
ficar bem para você, o que você faz? Como é
chamado esse tipo de voto?
2. Quando um político promete uma série de
benefícios para nossos bairros, (por exemplo,
que vai trazer o asfalto, posto de saúde etc)
como saber se podemos confiar nele ou não?
3. Você concorda que os políticos, depois que
conseguem nossos votos, esquecem-se do que
prometeram? Que é impossível confiar neles,
pois, na verdade, usam seus cargos políticos
para seu benefício pessoal?
Pense nas conclusões a que chegou. Veja a
afirmação seguinte: especialistas em política
dizem que aqueles que votam em troca de um
favor, ou são obrigados a votar, conforme a
vontade de um chefe político, estão numa relação
denominada clientelismo político.
Agora que você sabe o que é o clientelismo
político, procure responder:
· O que você acha do comportamento de pessoas
que dizem que político bom é aquele capaz de
lhe arrumar emprego?
· Você acha normal ignorar o que o político
eleito por nós anda fazendo com o cargo que
lhe demos?
· Numa situação de clientelismo político, há
desperdício de quem vota? Como participar da
vida política do país sem ser na forma de
clientelismo político?
· O que precisamos saber e como devemos nos
comportar para não sermos tratados apenas
como clientes e sim como cidadãos?
· Você acha que sua vida e a sociedade brasileira
de um modo geral seriam melhores se
eliminássemos o clientelismo político?

166

Ensino Fundamental

QUAL A EXTENSÃO DO
CLIENTELISMO POLÍTICO NO BRASIL?
Quando alguém deixa que seu patrão decida em
quem ele vai votar, porque se sente ameaçado,
está numa situação que atualiza o tradicional
voto de cabresto. Esse é um caso clássico de
clientelismo político.
Você percebeu que a Figura 1, sobre o voto de
cabresto, é de 1928? É algo de 74 anos atrás.
Na época que a Figura 1 retrata, a maioria da
população brasileira vivia no campo, ligada a
sítios e fazendas, trabalhando em agricultura. É
comum dizer-se que quem vivia no campo tinha
menos informação, se interessava menos por
política e por isso podia ser uma vítima mais fácil
do clientelismo político. Mas, atualmente, uma
boa parte da população vive nas cidades. Nelas,
as pessoas teriam mais informações e a política
seria algo mais presente em suas vidas.
Você acha que, com a transferência da maioria da
população para as cidades, não existe mais
clientelismo político? Caso exista, onde acontece
mais? Lugares pobres, lugares ricos? Cidades
pequenas, cidades grandes?
Evitar o clientelismo político é algo muito difícil.
Todavia, para ser cidadão consciente e dono de
sua vontade, é necessário fazer valer o Artigo 1º,
que diz que todo poder emana do povo. Para isso,
é indispensável que saibamos mais sobre as
relações políticas e suas funções na sociedade.
Afinal, boa parte do que acontece no país e em
nossas vidas depende disso.
Vamos dar um exemplo dessa necessidade:
quando um candidato a deputado ou a vereador,
na época da eleição, promete para a nossa
comunidade que vai trazer asfalto, água
encanada, pontes, postos de saúde, escolas,
polícia e outras coisas mais, se votarmos nele,
será que ele está nos prometendo algo que ele
pode fazer? Mandar asfaltar e construir escolas

Capítulo IX ­ Estado e democracia no Brasil
não é algo que quem tem o poder de fazer é o
prefeito, ou o governador?
Quais são as verdadeiras funções de um deputado
ou de um vereador? O que ele pode fazer para nos
representar? Quando votamos num candidato,
temos que saber o que ele deve fazer, para não
termos falsas expectativas. Ao saber que um
deputado não pode construir pontes, por
exemplo, estamos menos sujeitos a ser
enganados. Estamos mais preparados para
combater o clientelismo político.

A POLÍTICA: ELEMENTO
ORGANIZADOR DA SOCIEDADE
Você consegue imaginar uma sociedade
funcionando sem regras? Cada pessoa fazendo o
que quer? Como seria a convivência entre as
pessoas? Viver em sociedade é estabelecer
algumas regras de convivência sem as quais não
pode haver sociedade.
Somente pensando no que significa uma
sociedade podemos definir qual é o papel da
política. Afinal, o que é a política e para que ela
serve? Quando num grupo humano é preciso
tomar decisões sobre qualquer coisa, está se
exercendo o poder de decidir. Por isso, o
primeiro passo para transformar um grupo
humano numa sociedade é organizar a maneira
de exercer o poder. Definir como o poder vai ser
organizado é a função da política.
Pense na sociedade na qual você vive: quem vai
dirigir sua cidade? Quem vai decidir se vai
asfaltar uma rua ou não? Quem tem o poder de
arrecadar dinheiro para construir um hospital?
Para decidir se um país entra numa guerra contra
outro país? As sociedades, ao longo de sua
história, foram definindo essas questões do poder
de várias maneiras. E definir isso é um dos passos
fundamentais na formação da sociedade.
Algo tão importante quanto saber quem vai
exercer o poder numa sociedade é saber como
fazer para que essas pessoas sejam respeitadas.

Como fazer para que as pessoas que exercem o
poder sejam aceitas como aqueles que têm o poder.
A política é exatamente a atividade que deve
resolver as questões da legitimidade do poder. Se
o poder não for respeitado, ele não será legítimo.
O modo como nossa sociedade faz política tem
origem na Grécia Antiga. Entre os séculos VIII a VI
a.C., fundavam-se, na civilização grega, as primeiras
cidades. Em grego, a palavra cidade é polis.
Justamente dessa palavra surge a palavra política.
Entre outras razões, porque tomar decisões sobre os
rumos da sociedade ­ quer dizer, exercer o poder ­
era algo feito na cidade. Na polis.
Exercer o poder, como diz o Artigo 1º da
Constituição, por meio de representantes
escolhidos é uma forma de organizar a política
da sociedade.
Vamos refletir sobre um aspecto fundamental, que
é um alicerce dessa forma de organizar a política.
Como se tomam decisões na sociedade, desde as
questões cotidianas de nossas vidas, passando
pelo trabalho, pela escola, chegando até o nível
do poder político geral?
Vejamos um exemplo: imagine uma família em que
o casal tenha filhos trabalhando e estudando e que
a mulher também trabalhe. O marido recebe uma
boa oferta de emprego, só que numa cidade bem
distante daquela em que eles moram. Sem conversar
com ninguém, ele decide aceitar o emprego e quer
que toda a sua família vá com ele. Ele decidiu
considerando somente suas necessidades. Não
considerou nem os interesses de sua mulher, nem os
de seus filhos. Essa é uma decisão autoritária. Essa
palavra é de origem grega: autós que quer dizer por
si próprio, de si mesmo.
Agora, imagine, numa escola, os diretores
tomando decisões autoritárias. E nos ambientes de
trabalho, proprietários e chefes fazendo o mesmo e
igualmente no campo do poder político. Podemos
falar, nesse caso, que uma sociedade que funciona
assim é uma sociedade autoritária. Até que ponto
uma sociedade pode funcionar bem desse modo?

167

História e Geografia
Imagine um país inteiro funcionando como a
família daquele pai autoritário?
Mas, se a Constituição brasileira diz, no seu
Artigo 1º, que todo poder emana no povo, as
decisões têm de alguma maneira de sair do povo.
Na língua grega, existe uma palavra, demos, que
quer dizer povo. E existe outra krátia, que quer
dizer poder. Se juntarmos demos + krátia,
teremos a palavra democracia. Podemos concluir
então que poder que emana do povo é a mesma
coisa que democracia? Você está de acordo que
democracia quer dizer que, ao tomar decisões, ao
fazer suas escolhas na vida social, você deve
levar em consideração mais do que o autós
(interesse próprio)?
Mais uma vez, o parágrafo único do Artigo 1º da
Constituição brasileira deve ser lido. Notem que
ele diz que a democracia será exercida por meio
de representantes eleitos. Por isso o regime
político, que é um dos alicerces de nossa

Ensino Fundamental
sociedade, é chamado de democracia
representativa. Mas será que o princípio da
democracia colocado no Artigo 1º de nossa
Constituição já garante que nossa sociedade seja
democrática? Ou será que se trata de um
princípio, mas ainda há muito que fazer para
nossa sociedade ser de fato democrática?
Pelo que você conhece do mundo, há outros
países que organizam as questões de poder na
sociedade por meio da democracia representativa?
Como dá para saber se há democracia
representativa nos outros países? O fato de
existirem eleições num país já é um indicativo de
que pelo menos em alguma medida há
democracia na sociedade? Você acha que a
maioria das sociedades do mundo atual baseia-se
na democracia representativa? Se uma sociedade
não se baseia na democracia representativa,
baseia-se no quê?

Desenvolvendo competências

2

Para aprofundar essa discussão, vamos fazer agora mais uma atividade:
Observe o quadro que vem a seguir. Observe diretamente seu conteúdo visual para ver se você
sabe o que ele está retratando. Tente responder às questões que vamos colocar a seguir:
Obviamente, seu olhar vai se dirigir antes de
tudo para a pessoa que está num primeiro
plano. Você sabe quem é ela? Mesmo que
você não saiba, dá para perceber que é um
rei, um imperador, alguém desse tipo? Por
quê?
Quais são os elementos presentes no quadro
que permitem afirmar-se que se trata de um
rei, de um imperador? Tente descrevê-los.
E como você sabe que os elementos descritos
(por exemplo, a roupa e a coroa) são típicos
de um rei?
O que será que esse quadro está retratando?
Parece ser uma situação especial? Por quê?
As pessoas que ali estão parecem ser
pessoas comuns do povo ou não?

Figura 2

168

Capítulo IX ­ Estado e democracia no Brasil
Feita a descrição e depois de tirar suas conclusões, leia as informações da legenda do quadro.
QUADRO de MELO E FIGUEIREDO, Pedro Américo de. D. Pedro II na Abertura da Assembléia Geral.
Esse quadro representa o imperador na Assembléia Geral que se reunia duas vezes ao ano. A cerimônia retratada teve lugar em 3
de maio de 1872. No quadro, aparecem também figuras importantes do cenário político do império: Visconde de Abaeté, o
Marquês (depois Duque) de Caxias, Visconde do Rio Branco, a Imperatriz D. Teresa Cristina, a Princesa Isabel, o Conde d'Eu e o
Marquês de Tamandaré.

Esse quadro diz respeito à história do Brasil, num momento em que o Brasil já era
independente de Portugal. Nesse período, o poder político no Brasil estava nas mãos de uma
monarquia. Numa monarquia, o poder fundamental é do rei, ou do imperador como no caso
do Brasil. Esse é um quadro que retrata D. Pedro II, Imperador do Brasil. Mas por que o
poder era de D. Pedro II? Quando um imperador é substituído? Ele é substituído por quem?
Pelo seu filho ou por alguém escolhido pelo povo? Se ele for substituído pelo seu filho,
podemos dizer nesse caso que todo poder emana do povo?
Você certamente conhece muitas histórias de povos e sociedades comandadas por reis e
rainhas, com príncipes, princesas, duques e condes. Vários países europeus, por exemplo,
tiveram seus destinos comandados por monarquias. Notem que, no quadro de D. Pedro II,
estão presentes marqueses, viscondes, condes, imperatriz, princesa etc. Quer dizer, o Brasil
também já foi assim. Será que as monarquias vêm sendo substituídas por regimes de
democracia representativa em muitos lugares do mundo? Desde quando?
Agora, uma questão muito importante: se o poder pertencia a uma família real e aos seus
descendentes, conseqüentemente ele não vinha do povo. Mas, como o povo aceitava que as
decisões sobre suas vidas fossem tomadas por um homem que ele não escolheu? Como
aceitava que alguém tivesse o poder só porque era filho do rei anterior?
Se a população aceitava, era porque ela respeitava as regras de funcionamento da monarquia,
algo que pertencia às tradições da sociedade. A família do rei, em geral, era aceita como a
dona do poder porque sua história se confundia com a história do próprio país. A família real
era tratada como algo sagrado. Reparem nas roupas de D. Pedro II. Ele não está vestido como
alguém muito diferente dos outros seres humanos? Não parece alguém sagrado?
Por outro lado, organizar a vida política a partir do poder que emana do povo, com base na
democracia, é ao mesmo tempo, construir uma característica de um outro tipo de sociedade:
as sociedades modernas.

169

História e Geografia

Ensino Fundamental

Desenvolvendo competências

3

Considerando a formação da sociedade a partir da organização do poder político, vamos
sugerir uma atividade que reflita e procure solucionar os problemas que vêm a seguir:
Considerando o Artigo 1o da Constituição brasileira e o quadro de D. Pedro II, qual das duas
situações ocorre numa sociedade moderna? E qual ocorre numa sociedade tradicional?
Qual é a fonte do poder do rei? E numa sociedade moderna, qual é a fonte do poder dos
dirigentes políticos?
Comente as situações abaixo, considerando o que você entendeu por democracia
representativa.
· Votar num candidato em troca de uma bola de futebol significa dizer que quem faz isso
está abrindo mão de sua função política.
· Se procurarmos saber o que o político eleito fará no seu cargo, se não aceitarmos dar nosso
voto em troca de favores, e somente após decidirmos se vamos votar nele ou não, estamos,
nesse caso, exercendo melhor nossa função política. Como conseguir informar-se melhor?
Leia o texto a seguir:
O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), D. Jayme Henrique Chemello, 69,
fez um apelo ontem por um voto consciente...`Eu peço um voto consciente, que o eleitor não brinque
porque depois vai pagar quatro anos, vai amargar'... `A única coisa que já fizemos foi entrar em
contato com o Tribunal Superior Eleitoral no sentido de não permitir a corrupção eleitoral, para que
não se vendam votos'... `Há quem pense: Não vou ganhar nada, um saquinho de leite já é alguma
coisa. Quando a gente está na fome mesmo, não dá para pensar muito. Orientamos as pessoas para
que conheçam os candidatos e os partidos...'
FARAH, Paulo Daniel. Povo será enganado de novo, diz CNBB. Folha de S. Paulo, São Paulo, p.A11. 20 abr. 2002.

Escolha a alternativa que está errada:
a) O Bispo da CNBB está alertando os eleitores para que eles não caiam numa situação de
clientelismo político.
b) D. Jayme H. Chemello está dizendo que não vender o voto é dar um voto consciente.
c) O Bispo está dizendo que dar o voto em troca de um saquinho de leite é a melhor coisa que
um eleitor pode fazer, quando está com fome.
d) O líder religioso está dizendo que não dar um voto consciente, e vender o voto, é algo que
depois vai trazer prejuízos ao eleitor e à sociedade.
e) Pode-se deduzir que a opinião do Bispo é a de que combater o clientelismo político é algo
que o eleitor tem que fazer.
É lógico que o Bispo não está defendendo o que está na resposta (c). Ao contrário, o texto do
Bispo Chemello é um alerta contra os males do clientelismo político. É um apelo para que o
eleitor, quando votar, não tenha como referência apenas sua necessidade imediata e que pense
no futuro, que pense na política como algo que está construindo o país e que deve ser feito
em benefício da população como um todo. Por isso, ele não está de acordo que se venda um
voto por um saquinho de leite. Por isso, ele pede que as autoridades tomem providências para
que as pessoas em condições de fragilidade (em situação de miséria, por exemplo) não sejam
assediadas por políticos que praticam a corrupção política na forma de clientelismo político.

170

Capítulo IX ­ Estado e democracia no Brasil

O ESTADO: CONSOLIDAÇÃO DAS
FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DAS
SOCIEDADES
Na maioria das sociedades atuais, está mais ou
menos estabelecido que, diante de problemas
como as dificuldades econômicas da população, o
desemprego, a criminalidade, a falta de água, a
falta de escola etc., devemos cobrar providências
do Estado ou, dito de uma maneira mais popular,
do governo.
O que é o governo? Como ele se constitui e quais
são suas obrigações? Por que podemos e devemos
cobrar de um governo que solucione problemas
como os que foram mencionados?
Agora já sabemos que, no mundo atual, a maioria
das sociedades procura se organizar com base na
democracia representativa. Isso quer dizer que elas
procuram se constituir como sociedades modernas.
Porém, ter democracia representativa é apenas uma
das características de uma sociedade moderna. Para
entender quais são os elementos que organizam
sociedades desse tipo, é preciso conhecer alguns
aspectos da história dessas sociedades.
Como já vimos, as sociedades européias se
organizavam com base na monarquia. Você sabe
por que elas foram abandonando essa forma de
poder e foram assumindo a democracia
representativa? E por que, no Brasil, isso
aconteceu também? É necessário saber que
mudanças na vida política das sociedades
costumam se dar no interior de um conjunto de
mudanças de outros elementos que compõem as
sociedades. Nas sociedades européias, as
transformações que ocorreram não dizem respeito
apenas à mudança de monarquia para democracia
representativa. Na verdade, o que ocorreu foi um
conjunto de transformações ligadas entre si. Essas
transformações vêm ocorrendo na Europa desde o

século XV. A própria colonização do Brasil é um
produto dessas transformações.
Anteriormente às transformações, as sociedades
européias eram sociedades de poucas variedades
de atividades econômicas (praticamente só
agricultura) e com a maioria de suas populações
morando no campo. A ampliação nas relações
comerciais, o desenvolvimento da indústria, a
migração das pessoas para as cidades e o
surgimento de classes sociais que antes não
existiam, como os donos de empresas industriais e
os trabalhadores assalariados, provocaram
importantes mudanças. Os novos interesses
econômicos e os das novas classes acabaram assim
por se chocar com os interesses ligados à
monarquia, por exemplo. Foi neste contexto ­ ao
longo dos séculos XVII e XVIII ­ que ocorreram
mudanças políticas na Europa. As monarquias
foram perdendo poder, e esse poder foi sendo
lentamente transferido a grupos e classes sociais
que estavam lutando para fazer valer seus
interesses. Este foi o caso, por exemplo, da França,
onde, por meio de uma revolução popular, foi
implantada uma democracia representativa.
É preciso notar que essas transformações
políticas (da monarquia para a democracia
representativa) foram desiguais, em vários
aspectos, nos diversos países europeus. Os ritmos
das mudanças foram distintos, os choques de
interesses entre novas classes e a monarquia
tradicional provocaram conflitos de graus
diferentes, o tempo dessas mudanças variou.
Houve mesmo situações nas quais a monarquia
sobreviveu e passou a conviver com formas de
democracia representativa ­ caso da Inglaterra,

governo
a idéia de Estado é mais abrangente que a de governo.

171

História e Geografia

Ensino Fundamental

por exemplo. E houve outras, nas quais a própria
monarquia foi a principal impulsionadora das
mudanças socioeconômicas.
Mas, tendo em conta uma escala de tempo mais
larga, o que se constata é que, de um modo geral,
o poder tradicional das monarquias desapareceu.
Isso porque as sociedades sofreram tantas
transformações que o poder político não pode mais
continuar baseado na preservação de tradições.
Foi no interior desse processo que começou a se
estruturar o Estado moderno, com uma máquina
administrativa e política, organizada em vários
níveis de atuação, que se equipará com um
conjunto cada vez maior de instituições
especializadas. Desse modo, sua presença na vida
das sociedades se ampliará enormemente.

Desenvolvendo competências

4

172

Vamos propor uma atividade na qual vocês devem procurar responder os problemas que
serão colocados.
Vamos caracterizar o que eram as sociedades européias do século XV e o que são as
sociedades modernas atuais. Você deve ler atentamente as afirmações e separá-las em dois
grupos: grupo 1 ­ sociedades do século XV; grupo 2 ­ sociedades modernas atuais.
( ) Poder fixo e nas mãos de uma família real (monarquia).
( ) Estado de grande envergadura, funções especializadas e atuação intensa na vida social e
econômica.
( ) Atividades econômicas com base na indústria, que emprega um número elevado de
empregados em regime de assalariamento.
( ) Sucessão política do líder do poder político somente após a sua morte, pelo seu filho
mais velho.
( ) Regime de democracia representativa com mudança de poder político constante, a cada
período eleitoral.
( ) Estado reduzido, sem grandes responsabilidades de atuação, sem a obrigação de construir
obras, desenvolver serviços etc.
( ) Atividades econômicas pouco diversificadas, quase que inteiramente baseadas em
atividades agrárias.
( ) Maioria da população vivendo no campo; cidades pouco habitadas e pouca importância
econômica.

Capítulo IX ­ Estado e democracia no Brasil

COMO SE ORGANIZA
O ESTADO BRASILEIRO
Imagine agora que você está diante do
seguinte problema:
· Período de eleição. O assunto principal dos
candidatos em suas propagandas é a questão do
aumento da criminalidade no Brasil.
· O candidato A disputa uma vaga de deputado
estadual e defende que, para diminuir a
criminalidade no Brasil, é preciso mudar a lei e
instalar a pena de morte no país. Defende
também policiais que são acusados de violentos
e de não respeitarem os direitos humanos,
dizendo que bandido deve realmente morrer,
que a população não deve sustentar bandido
irrecuperável na cadeia.
· O candidato B a deputado federal diz que, para
diminuir a criminalidade, deve-se, antes,
combater suas causas, que elas são causas
sociais ligadas à questão da pobreza e à falta de
educação. Diz ser contra a pena de morte, que
já votou contra por ocasião da promulgação da
Constituição de 1988.
Você está diante de duas posições contrárias a
respeito do mesmo problema. Vale a pena
examinar as duas opiniões, porque elas vão nos
ajudar a entender a estrutura do Estado brasileiro.
Vão nos ajudar, também, a entender melhor qual
nosso papel diante de um assunto tão grave.
Antes de definirmos se concordamos com o
candidato A ou com o candidato B, é
recomendável fazer algumas análises preliminares
das duas posições. Nesse caso, o que significa
analisar? É examinar parte por parte de cada
argumento. Depois de feita a análise, é que se
volta a pensar no todo.
Vamos separar primeiro o que deve ser analisado:
1) o que é o cargo político de deputado; 2) o que
significa se candidatar a deputado federal ou a
deputado estadual; 3) por que motivos os
policiais que são extremamente violentos em suas
ações estão violando os direitos humanos.
A análise desses três pontos nos dará uma visão
do funcionamento do Estado brasileiro. Vamos ao
primeiro. Os representantes eleitos, a quem damos
nosso poder, vão exercer esse poder em que

lugar? Nas instituições que formam o Estado
brasileiro. Agora você deve estar se perguntando:
o que são instituições e como se organizam essas
instituições?
Certamente, na cidade em que você mora, há um
prefeito ou uma prefeita. Esse prefeito foi eleito.
Ele tem um poder que emanou do povo. Durante
o mandato, a cidade sofre com uma epidemia de
dengue. O que a prefeitura pode fazer? Será que
todas as prefeituras possuem Secretaria de Saúde?
Admitamos que sua cidade não tenha. Diante da
epidemia, funda-se, então, uma Secretaria de
Saúde. Isso significa que:
1) a prefeitura tem agora uma nova instituição ­
a Secretaria da Saúde; 2) agora pode praticar
ações regulares que formam uma política
de saúde.
São instituições do Estado: secretarias diversas,
como de transportes, de educação, de segurança;
delegacias, escolas e universidades públicas;
outros órgãos, como Assembléia Legislativa,
Câmara de Vereadores, o Congresso Nacional,
fóruns, tribunais de justiça etc. Para saber quais
são todas as instituições do Estado, como se
organizam, como funcionam, que serviços devem
prestar à sociedade e quem terá o poder de
comandá-las, é preciso conhecer a lógica de
organização do Estado.
Qual a diferença entre um deputado e um
prefeito? Entre um governador e um vereador?
Entre o presidente da República e um Senador?
Você sabe que existem muitos deputados num
Estado, mas só há um governador? Como
diferenciar esses cargos políticos? Dois aspectos
são fundamentais para se saber a lógica de um
Estado moderno:
· O poder será dividido no Estado em três esferas:
executivo, legislativo e judiciário. Vejam como
é o Artigo da Constituição brasileira que
estabelece esse princípio: "São Poderes da
União, independentes e harmônicos entre si, o
Legislativo, o Executivo e o Judiciário". (Título
1 ­ Dos Princípios Fundamentais - Art. 2º da
Constituição Federal de 1988);

direitos humanos
É comum a acusação de desrespeito aos direitos humanos
feita contra policiais, visto a enorme quantidade
documentada de mortos em diligências policiais.

173

História e Geografia
· O poder do Estado será exercido junto a toda
população brasileira que está distribuída num
vasto território em três níveis geográficos:
Federal (nacional), Estados (regional) e
Municípios (local). Observem o Artigo da
Constituição brasileira que estabelece esse
princípio: "A República Federativa do Brasil,
formada pela união indissolúvel dos Estados e
Municípios e do Distrito Federal, constitui-se
em Estado democrático de direito..." (Título 1
­ Dos Princípios Fundamentais - Art. 1º da
Constituição Federal de 1988);

Estado deve ser muito bem organizado e presente
em todas as situações e regiões?

Esses dois aspectos-chave estão no Título I da
Constituição brasileira "Dos Princípios
Fundamentais". São, na verdade, desdobramentos
do princípio da democracia. São partes dos
alicerces do país. Sendo assim, podemos tirar
duas conclusões:

Se pegássemos, do parágrafo anterior, os números
referentes ao exercício do poder, que palavras você
atribuiria a cada um deles, dentre essas três que se
seguem? executivo (aquele que executa políticas e
ações); legislativo (o que legisla, quer dizer cria
leis); judiciário (o que julga, garante a justiça).

· Nada do que está escrito nos outros títulos e
Artigos da Constituição brasileira pode
contrariar esses Princípios Fundamentais.

Quando, em sua cidade, após uma tempestade,
constata-se que houve uma enchente que destruiu
4 casas e derrubou uma ponte, não é normal
esperar que o governo faça alguma coisa? Mas
que governo? O presidente da República? O
governador do Estado ou o prefeito? E se o país
sofrer uma invasão por parte de um exército
estrangeiro numa parte da Amazônia? Devemos
igualmente esperar que o governo faça alguma
coisa? Mas que governo? O prefeito de nossa
cidade ou o presidente da República?

· E nada do que ocorre em nossas vidas pode
entrar em desacordo com esses Princípios
Fundamentais.
Por que o Estado moderno brasileiro possui tantas
subdivisões? O que isso tem a ver com o princípio
da democracia representativa? Você já pensou
nisso? Você já ouviu alguém dizer que essas
subdivisões só servem para aumentar o número de
políticos que vão enriquecer no exercício do
poder? Mas será mesmo? Você não acha que numa
sociedade tão populosa, distribuída num território
imenso, com tanta diversidade de interesses e com
tantas necessidades e carências como a nossa, o

174

Ensino Fundamental

Para se exercer o poder numa sociedade qualquer,
é preciso: 1) que existam regras e leis; 2) que se
promovam políticas e ações para organizar e
estimular a economia, promover a saúde, difundir
a educação e a cultura, equipar as cidades e o
espaço de um modo geral de infra-estrutura
(estradas, portos, rede de água e energia,
telecomunicações etc.); 3) que todos os conflitos e
as quebras de lei sejam julgados para que as
regras sociais sejam mantidas.

Ao responder às questões acima, você verá que
realmente é preciso que o Estado moderno se
organize em níveis geográficos de atuação. Dito
de outra maneira: as escalas de atuação são de
vários níveis. A escala maior de poder é a
Nacional, a escala intermediária é a Regional e a
escala menor é a Local. Você está de acordo que o
prefeito é poder local e o presidente é poder
nacional?

Capítulo IX ­ Estado e democracia no Brasil

Desenvolvendo competências

5

Que tal você experimentar um exame detalhado do Estado moderno brasileiro? Mas, antes,
você deve tomar dois cuidados para evitar confusões:
· No Brasil, a escala de poder intermediário, que é a regional, é chamada oficialmente de
estado. Por exemplo: estado do Amazonas e estado de Santa Catarina. Atenção: esse uso não
deve ser confundido com o uso da palavra "Estado", que é aquilo que designa o conjunto de
instituições que a sociedade constrói para organizar suas vidas numa sociedade moderna.
Nesse último sentido, o estado como nome da escala de poder regional é apenas uma das
instituições do Estado nacional;
· Aquilo que chamamos de governo não é o Estado brasileiro inteiro. Trata-se apenas do
poder executivo (o presidente, o governo do estado e o prefeito). Às vezes confundimos o
Estado inteiro com o governo, porque é o poder executivo o responsável por ações diretas
que afetam imediatamente nossas vidas. Mas o estado tem outros poderes que não são
governo, mas são igualmente importantes para as sociedades.
Considerando esses cuidados, procure agora resolver os problemas que serão apresentados:
· Abaixo, você vê um mapa de Divisão Política do Brasil. A escala de poder nacional é
representada pelo mapa inteiro e pela capital federal, que está assinalada com a sigla DF.
A escala de poder local está representada apenas por um ponto em cada estado. Examine o
mapa com atenção e liste todos os estados (escala de poder regional) tentando dar seus
nomes (no mapa encontram-se apenas as siglas). Faça, por fim, uma contabilidade de
quantos estados temos no Estado nacional.

Adaptado de BRASIL: político. In:
SIMIELLI, Maria Elena Ramos.
Geoatlas. 31. ed. ampl. atual. São
Paulo: Ática, 2002. p.79.

175

História e Geografia

Ensino Fundamental

Considerando os três poderes (legislativo, executivo e judiciário) e os níveis de organização do
Estado (nacional, regional e local), examine os cargos listados abaixo e diga a que poder
pertence cada um deles e em que nível geográfico de organização do poder ele atua.
- Senador
- Prefeito
- Juiz do Supremo Tribunal
- Desembargador da Vara Criminal do Paraná
- Deputado Federal
- Vereador
- Governador
- Deputado Estadual
· A seguir, procure explicar quais são as funções de cada um dos cargos mencionados. Por
fim, de todos os cargos apresentados, quais os que são ocupados por pessoas eleitas (nossos
representantes) e quais não são? Você sabe dizer por que alguns dos cargos da lista não são
preenchidos por eleição?

VOLTANDO À QUESTÃO
DA PENA DE MORTE
Você se lembra do candidato A e do candidato B
e de suas posições sobre o combate à
criminalidade? Lembra que o candidato A
defende a pena de morte? Leia, a seguir, o Artigo
5º da Constituição brasileira do título "Dos
princípios fundamentais":
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros
e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e
à propriedade...

A pena de morte não contraria a "inviolabilidade
do direito à vida"? Mesmo uma pessoa que foi
condenada por ser criminosa tem direito à vida,
isso porque esse Artigo da Constituição diz que
"todos são iguais perante a lei". O que isso quer
dizer? Não está claro que, para instituir a pena de
morte no Brasil, é preciso mudar esse Artigo da
Constituição? E quem pode mudar?
Vamos ler o Artigo 25 da Constituição:
Os Estados organizam-se e regem-se pelas
Constituições e leis que adotarem, observados os
princípios desta Constituição.

176

Esse Artigo refere-se à escala de poder regional, o
estado. E o que está dito nesse Artigo? Que cada
estado deve ter constituição própria, mas essa não
pode ferir os princípios da Constituição federal
(da escala de poder nacional). A inviolabilidade
do direito à vida é um dos princípios
fundamentais da Constituição federal. Logo, a
pena de morte não pode ser instituída num
estado. Para isso, seria preciso, antes, mudar a
Constituição federal. Essa conclusão lhe parece
correta?
Agora que você sabe o que é um Deputado
estadual, você acha que o Candidato A, que
defende a pena de morte, está se candidatando
para o cargo correto? Ele não teria que se
candidatar a Deputado Federal, já que é nessa
escala de poder legislativo que se decide sobre
mudanças na Constituição? O que, então, esse
candidato está querendo? Não é estranha sua
posição? Não é estranho ele defender a pena de
morte num nível de poder em que nada disso
pode ser feito e, ao mesmo tempo, defender a
ação violenta da polícia?

Capítulo IX ­ Estado e democracia no Brasil
O que você acha da afirmação favorável à
eliminação de "bandidos" pela polícia como, por
exemplo, ocorreu no caso da Casa de Detenção do
Carandiru, em São Paulo, onde 111 presidiários
foram assassinados. Muitos deputados estaduais de
São Paulo defenderam essa ação como defendem
outras semelhantes da polícia daquele Estado.
Fiquemos com o caso de mortes de pessoas nas
ruas em confrontos com a polícia. O que importa
aqui não é se a morte foi necessária: por legítima
defesa do policial, ou por legítima defesa de uma
vítima, de um refém. E sim que, seja em que
circunstância for, a morte na ação policial é
sempre defendida por certos personagens da vida
política e da imprensa.
Para pensar sobre isso, veja mais um trecho da
Constituição brasileira, ainda do seu Artigo 5º,
Parágrafo XXXVIII, é reconhecida a instituição do
júri... assegurados: a) a plenitude de defesa...
Há, ainda, um outro parágrafo (XXXIX), do
o
Artigo 5 que vale a pena ser discutido: não há
crime sem lei anterior que o defina, nem pena
sem prévia comunicação legal.
Uma pessoa acusada de ter cometido um crime
será encaminhada para o poder judiciário e lá
deverá ter pleno direito de defesa. Uma pessoa só

será considerada criminosa se houver lei que diga
que aquilo que ela fez é crime e depois de julgada
oficialmente.
Concluindo essa trajetória da qual você participou,
buscando compreender como se formam e como
funcionam as instituições políticas de uma
sociedade moderna, que tal uma questão final?
quando um policial ­ com apoio de pessoas
poderosas, muitas vezes eleitas ­ resolve executar
um suposto criminoso nas ruas, o que acabou de
acontecer? Não aconteceu um desmoronamento
total dos princípios (dos alicerces) sobre os quais
nossa sociedade deve se construir? Vejamos: ele
julgou a pessoa e decidiu que ela era criminosa ­
quer dizer, cumpriu o papel do poder judiciário; ele
decidiu aplicar a pena de morte ­ uma lei que não
existe, que ele acabou de fazer, quer dizer, ele virou
também o poder legislativo. E como membro do
poder executivo que ele é, agiu contra todas as leis
existentes. Então para que democracia
representativa, se um policial pode concentrar tanto
poder? Esse poder que ele está usando emanou do
povo? Contra quem esse poder ilegal será usado?
Contra que segmentos da sociedade? Para quem
serão reservados os procedimentos legais e contra
quem serão usados esses poderes não democráticos
e ilegais?

177

História e Geografia

ORIENTAÇÃO

Ensino Fundamental

FINAL

Para saber se você compreendeu bem o que está apresentado neste capítulo, verifique se está apto a
demonstrar que é capaz de:
· Identificar os processos de formação das instituições sociais e políticas que regulamentam a sociedade
e o espaço geográfico brasileiro.
· Estabelecer relações entre os processos de formação das instituições sociais e políticas.
· Compreender o significado histórico das instituições sociais considerando as relações de poder, a
partir de situação dada.
· Discutir situações em que os direitos dos cidadãos foram conquistados, mas não usufruídos por todos
os segmentos sociais.
· Comparar propostas e ações das instituições sociais e políticas, no enfrentamento de problemas de
ordem econômico-social.

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