Vestibular com cotas para negros na UnB:
candidatos e aprovados nos exames
(PRELIMINAR)

Jacques Velloso
Núcleo de Estudos para o Ensino Superior - NESUB
& Faculdade de Educação
Universidade de Brasília

Estudo apoiado pela Fundação Ford
Brasília, dezembro de 2005

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

2

Introdução
Políticas de ações afirmativas com reserva de vagas, seja para negros, seja para
estudantes oriundos da escola pública, ou para ambos, nos últimos anos vêm sendo
implantadas em diversas universidades brasileiras. Na esteira da Conferência da ONU
em Durban, de propostas e reivindicações do Movimento Negro (Gonçalves e Silva,
2003), e buscando aumentar o contingente negro na educação superior (Munanga,
2003), as políticas de cotas nas universidades vêm sendo objeto de intenso debate. Na
crítica a essas políticas, as cotas representariam uma ruptura com a ideologia que define
o Brasil como país da mistura, conduzindo a uma bi-polarização racial e a uma
ampliação da tensão inter-racial (Fry e Maggie, 2005, p.306-7). A implantação de cotas
implicaria um país de duas raças, rejeitando a mestiçagem e a democracia racial como
valores positivos, podendo até aumentar o racismo na sociedade (Fry e Maggie, 2004).1
A UnB, entendendo a política de reserva de vagas como uma forma de reduzir
desigualdades sociais e raciais, em 2004 realizou seu primeiro vestibular com cotas para
negros. No segundo semestre daquele ano foram oferecidas quase 2 mil novas vagas
para 61 cursos de graduação, com 20% delas, em cada curso, destinadas a pessoas
negras. Os outros candidatos prestaram vestibular pelo sistema tradicional, denominado
sistema universal. Quase todas as vagas das cotas foram ocupadas, excetuando-se
algumas como às quais se candidataram vestibulandos que não foram aprovados em
exames de habilidades especiais, a exemplo de Música.2
No presente texto analisa-se o desempenho dos cotistas nesse vestibular de 2004,
comparando-o ao dos demais candidatos, e discutem-se características de vestibulandos.
Nas duas seções seguintes descreve-se o funcionamento do vestibular com reserva de
vagas e apresentam-se os objetivos do estudo. Na quarta seção abordam-se questões de
ordem metodológica e logo adiante discutem-se os resultados do estudo; trata-se
inicialmente de características socioeconômicas dos cotistas e, depois, de comparações
do rendimento nos exames. Uma nota final conclui o texto.
O Vestibular com cotas da UnB: como funciona
No vestibular da UnB para ingresso no 2º semestre de 2004, objeto do presente
estudo, cada candidato a um curso se inscreveu num dos dois sistemas de acesso, o de
cotas e o universal. Os vestibulandos do sistema de cotas se declararam negros e a
aceitação de sua inscrição de decisão de comissão especificamente instituída para tal
fim, que analisou dados dos candidatos e fotografia feita pela universidade no ato da
inscrição, em processo que tem sido objeto de críticas como as de Ventura e Santos
(2004).



Agradeço a Eglaísa Cunha e a Tatiane Porto a assistência no processamento dos dados utilizados.
Veja-se também a crítica de Grin (2004).
2
A proposta do estabelecimento de cotas na seleção foi originalmente apresentada por dois professores da
universidade (Carvalho; Segato, 2002) e mais tarde integrada a um plano de metas para a integração
social, étnica e racial da UnB. Um relato sobre a implementação inicial desse plano é encontrado em
Moura (2004).
1

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

3

Permaneceram até a fase semi-final do concurso os candidatos que obtiveram
determinada nota mínima em cada prova objetiva e, no conjunto destas, pelo menos 66
pontos (escore bruto), aplicável aos vestibulandos de ambos os sistemas de ingresso. Os
cursos foram agrupados em três grandes áreas, Humanidades, Ciências e Saúde. Nas
operações efetuadas para a classificação dos candidatos, as notas foram ponderadas de
forma diferenciada, conforme a grande área a que pertencia o curso escolhido. As notas
também foram padronizadas em relação à média global, chegando-se assim ao chamado
argumento final (AF), que assume valores positivos e negativos, pois estes
correspondem a desvios para mais ou para menos em relação à média. 3
De modo simplificado, o AF é composto pelo escore padronizado nas provas de
(a) Língua Estrangeira, (b) de Linguagens e Códigos e Ciências Sociais e (c) de
Ciências da Natureza e Matemática. Na grande área de Humanidades o primeiro escore
recebe peso 2, o segundo peso 6 e o terceiro peso 5. As duas outras, Ciências e Saúde,
adotam um único critério de ponderação, cujos pesos para os escores nessas provas são,
respectivamente, 1, 4 e 8. O argumento final é a nota que permite comparar o
desempenho de todos os vestibulandos, pois a prova de Redação em Língua Portuguesa
só é avaliada para os candidatos que tenham chance de ingresso em cada curso/turno e
tipo de seleção (universal ou cotas para negros).
Na definição final dos vestibulandos que ingressarão na UnB, os candidatos são
ordenados pelo argumento final, dentro de cada sistema de ingresso e de curso/turno,.
São aprovados, em cada curso, os "n" primeiros colocados em cada sistema, conforme o
respectivo número de vagas. Como ilustração, tomemos o curso de Ciências Sociais,
para o qual foram oferecidas 60 vagas, das quais 12 para os vestibulandos do sistema de
cotas e 48 para os do sistema universal. Ingressaram na UnB os 12 melhor classificados
no sistema de cotas e os 48 mais bem classificados do sistema universal.

Objetivos
O presente estudo teve por finalidade comparar características e desempenho de
candidatos e de aprovados no 2º vestibular da UnB, em 2004: os que prestaram exame
pelo sistema de cotas e os que concorreram exame pelo sistema universal. 4
As análises foram feitas considerando-se grupos de cursos em cada uma das três
grandes áreas do conhecimento adotadas pela UnB no vestibular, Humanidades,
Ciências e Saúde, tendo em vista diferenças quanto às exigências para ingresso e a
competitividade relativa dos distintos cursos. Os grupos de cursos foram constituídos
conforme o desempenho nos exames, e esse agrupamento foi utilizado como proxy para
o nível socioeconômico dos candidatos, conforme se discute adiante.
3

É conveniente apreciar o grau de exigência correspondente ao escore bruto mínimo requerido. Este, no
valor de pelo menos 66 pontos, correspondeu aproximadamente a um argumento final de ­160 (negativo).
O argumento final médio dos cotistas aprovados foi de 139 e, o dos aprovados no sistema universal, de
158 (ambos os valores positivos).
4
A segunda etapa do estudo incluirá comparações com o desempenho dos aprovados no 1º semestre
letivo de 2005.

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

4

Interessava responder a perguntas como:
Há diferenças entre os perfis da demanda por vagas entre candidatos
cotistas e não-cotistas? Desejava-se saber, por exemplo, se a demanda
de cotistas é relativamente maior em cursos que vêm se caracterizando
como menos competitivos em vestibulares anteriores.
Qual é o perfil do desempenho no vestibular dos candidatos negros e
não-negros? Há diferenças regulares e, em caso positivo, quais são
elas? Como se comparam os candidatos e os aprovados, os que
ingressaram na universidade: o perfil se repete ou é diferente?

Questões metodológicas
Nesta seção apresentam-se as fontes dos dados utilizados e discutem-se aspectos
metodológicos dos controles dos resultados.
Fontes de dados
Os dados utilizados presente texto são oriundos do Centro de Seleção e
Promoção de Eventos ­ CESPE da UnB, órgão responsável pela realização dos exames
de seleção para ingresso na universidade. A principal fonte consistiu nos microdados
referentes aos candidatos ao exame vestibular, gentilmente cedidos pelo CESPE. O
processamento desses dados permitiu caracterizar cotistas do ponto de vistas
socioeconômico e comparar o desempenho de candidatos e de aprovados, no sistema
universal e no de cotas. Uma outra fonte, complementar, foram as informações sobre a
procura por vagas por curso em diferentes vestibulares, também obtidas junto ao
CESPE, e que permitiram comparar a demanda em 2004 com perfis de procura por
vagas vigentes antes da implantação do sistema de reserva de vagas.
Inscreveram-se na seleção ora analisada cerca de 25,3 mil candidatos, dos quais
15,2 mil lograram obter argumentos finais (AFs). Estes 15,2 mil vestibulandos
constituíram população de candidatos analisada. Ingressaram na universidade 1979
vestibulandos, sendo 378 do sistema de cotas e 1601 do sistema universal. Esta foi a
população de aprovados do presente estudo.
Status socioeconômico e o questionário sociocultural
É amplamente conhecida a influência do status socioeconômico familiar no
acesso dos jovens à universidade, assim como são as marcantes diferenças nessa
variável entre negros e não-negros na população brasileira.5 Nesse contexto, o projeto
de pesquisa foi inicialmente concebido considerando a utilização de variáveis
socioeconômicas, a serem obtidas a partir do chamado questionário sociocultural,
5

O número médio de anos de estudos de jovens de 25 anos é de 5 anos para negros e de mais de 8 anos
para brancos; entre negros desse grupo etário, 17% haviam concluído o ensino médio, ao passo que a
proporção correspondente para brancos é de 27% (Carvalho; Segato, cit.)

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

5

respondido por vestibulandos da UnB. Esse instrumento contém itens referentes à
escolaridade do pai e da mãe do candidato, ao tipo de escola onde estudou no ensino
médio, à cor da pele, ao exercício de atividade remunerada, entre outros. No entanto,
quando foi feita uma inspeção preliminar dos dados do questionário socioeconômico, o
desenho original do projeto se viu frustrado. Nessa oportunidade, ficou evidente que
grande parte dos vestibulandos do sistema universal não havia respondido ao
instrumento, cujo preenchimento não era obrigatório para a inscrição nem estava
disponível na Internet, meio pelo qual se inscreveu um grande número de candidatos
não-negros.
O quesito quanto à escolaridade da mãe, por exemplo, variável importante para a
caracterização socioeconômica dos vestibulandos, foi respondido por apenas 52% dos
candidatos do sistema universal. Já entre os candidatos do sistema de cotas, a proporção
de respostas ao quesito alcançou expressivos 93%. Essa diferença certamente se deveu
ao fato de que exigia-se dos candidatos da seleção por cotas que tirassem uma foto nos
postos de inscrição, assim permitindo acesso ao questionário.
O desenho original da pesquisa pretendia efetuar comparações entre candidatos e
aprovados no sistema universal e na seleção por cotas, controlando-se os dados por
variáveis socioeconômicas. Diante do quadro acima descrito tal tipo de controle teve de
ser descartado, pois seria inaplicável aos vestibulandos da seleção universal.
Nessas circunstâncias, buscaram-se outras variáveis que pudessem substituir as
de natureza socioeconômica, ainda que com poder de controle estatístico provavelmente
muito menor. Duas foram as variáveis inicialmente consideradas: a relação candidato/
vaga e o desempenho no vestibular. Como se sabe, os cursos mais competitivos, isto é,
aqueles de demanda mais elevada em relação ao número de vagas, freqüentemente
refletem um maior prestígio social da carreira e requerem do candidato um melhor
desempenho no vestibular, o que depende de escolaridade prévia de melhor qualidade.
O próprio prestígio social da carreira deriva, em parte, da composição social do alunado,
que por sua vez alimenta o círculo que exige um melhor desempenho no vestibular, e
assim por diante. A questão é bem mais complexa que o esboço dessas linhas pode
indicar, porém ela serve para sugerir que diferenças na relação candidato/vaga seriam
indicativas de distâncias sociais, ainda que tênues.
Ocorre, entretanto, que na dinâmica esboçada operam-se transformações ao
longo dos anos, por exemplo em virtude de novas oportunidades no mercado de
trabalho, de mudanças em exigências legais para o exercício de uma profissão, ou
mesmo de modismos, entre outros fenômenos. Essas transformações freqüentemente
associam-se a novas exigências no desempenho no vestibular, como parece ter ocorrido
no Rio de Janeiro ao longo do tempo. Tratando dessa questão, Silva e Kochi (1995)
inicialmente construíram uma hierarquia das carreiras a partir de dados dos alunos
classificados no vestibular da UFRJ em 1993. Valendo-se da Análise de Componentes
Principais para as médias das notas em cada prova, em cada curso, verificaram que o
primeiro fator extraído, o desempenho alunado no exame, dava conta de 76% da
variação comum, indicando uma nítida hierarquia das carreiras. As cinco carreiras

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

6

situadas do topo da hierarquia eram Medicina, Odontologia, Engenharia Civil,
Economia e Engenharia Química, nesta ordem; as cinco no extremo inferior, da última
para as anteriores, eram Serviço Social, Educação Artística, Pedagogia, Educação Física
e Artes Cênicas.
Em seguida os autores compararam seus resultados com os obtidos em estudo
anterior por Costa Ribeiro (1983, apud Silva e Kochi, cit.) para instituições públicas,
com base nos dados do vestibular do Cesgranrio em 1979. Neste ano, no estudo de
Costa Ribeiro as cinco primeiras carreiras da hierarquia haviam sido Engenharia Civil,
Arquitetura, Medicina, Engenharia Química e Ciências Biológicas, um grupo bastante
diverso do encontrado por Silva e Kochi. Assim, num prazo de quase quinze anos
ocorreram notáveis mudanças na hierarquia das carreiras. Entre estas, uma das mais
salientes foi a registrada para o curso de Direito, que subiu da 17ª posição no final dos
anos setenta para a 9ª posição em 1993. A Economia também ascendeu na hierarquia,
passando da 11ª posição para uma destacada 4ª colocação no vestibular mais recente.
Em contrapartida outras caíram, como Arquitetura e C. Biológicas, que deslocaram-se
do grupo das cinco primeiras para a 10ª e 14ª posições, respectivamente. No extremo
inferior também foram observadas alterações, como a ocorrida com o Serviço Social,
que desceu de vários postos, do 27º para o último (32º).
Essas hierarquias parecem refletir, em boa medida, o prestígio social das
carreiras. Mas, ao que tudo indica, as mencionadas transformações também podem
operar sobre a própria demanda por vagas, aumentando-a em cursos que não desfrutam
de prestígio na sociedade, e em cujo alunado não predominam contingentes de elites
sociais (em termos dos padrões da universidade), sem que tais mudanças cheguem a
afetar de forma expressiva as exigências de desempenho no vestibular entre estes e
outros cursos, tradicionalmente mais competitivos e de maior prestígio. Na UnB esse
seria o caso, por exemplo, dos cursos de Pedagogia e de Serviço Social.
A procura por esses dois cursos da UnB em 2004 girou em torno de 14
candidatos por vaga, nível quase igual à média de toda a grande área das Humanidades,
que foi de 15 candidatos por vaga, e até superior à de cursos cujo prestígio social
costuma ser bem mais elevado, como Arquitetura e Urbanismo, com 12 candidatos por
vaga. É ilustrativo comparar a relação candidato/vaga (doravante, simplesmente
demanda) nesses três cursos com o desempenho dos candidatos na seleção, dado pelo
chamado argumento final de classificação (AF).
Em Pedagogia e em Serviço Social, as médias dos argumentos finais guardam
uma enorme distância da média em Arquitetura. Conforme mostra a tabela 1, naqueles
cursos as médias foram de ­5,5 (AF negativo) e de 22,1, respectivamente, ao passo que
em Arquitetura e Urbanismo a média foi muito mais elevada, de 152,2. As médias dos
AFs naqueles cursos também foram ainda muito menores que a da grande área das
Humanidades, de 87,5. Já os dados quanto à demanda, como se viu, mostraram um
panorama bem distinto: em todos esses três cursos a demanda oscilou em torno da
média da grande área. Por que tal discrepância?

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

7

Examinando dados disponíveis para o 2º vestibular de 1998, ou seja, de seis anos
antes do vestibular que é objeto do presente texto, constatou-se que naquela época a
demanda para Serviço Social e para Pedagogia era bem menor que em 2004, sendo em
torno de 8 candidatos por vaga, e também inferior à média de toda a grande área das
Humanidades, que era de 11 candidatos por vaga. Com efeito, a demanda para esses
dois cursos vem crescendo ­ tendo praticamente dobrado no caso do Serviço Social ­,
seja porque no período ampliaram-se as oportunidades de emprego para seus graduados,
seja porque essas duas carreiras tornaram-se moda, seja por ambos os motivos ou outros
mais. No entanto, apesar do vertiginoso aumento na demanda, as respectivas exigências
para ingresso não sofreram grandes alterações, pois tanto no Serviço Social como na
Pedagogia o desempenho no vestibular continuou baixo em relação ao conjunto das
Humanidades.
Um substituto do status socioeconômico
A busca por substitutos do status social familiar como variável de controle do
estudo, antes referida, foi feita dentro de cada grande área do conhecimento (doravante
com denominação simplificada de "área"), mantendo-se a separação entre estas, adotada
nos vestibulares da UnB de 2004.6 Nessa busca, inicialmente contemplou-se a hipótese
de utilizar a demanda por vagas, isoladamente ou em combinação com o desempenho
dos aprovados no vestibular, ambos tidos como indicadores de diferentes facetas do
prestígio social das carreiras. Entretanto os resultados obtidos com tal abordagem não
tiveram êxito, embora a demanda tenha forte associação com o desempenho no
vestibular: na Saúde a correlação entre essas duas variáveis é da ordem de 0,80, sendo
apenas um pouco menor nas Humanidades, de aproximadamente 0,70, caindo para cerca
de 0,60 nas Ciências, um valor ainda bastante expressivo. Ensaiou-se em seguida o
emprego exclusivo do desempenho no vestibular, na linha de estudos anteriores como
os de Silva e Kochi (cit.) e o de Costa Ribeiro (cit.), embora mediante procedimentos
simplificados, e esta foi a abordagem que veio a ser utilizada na presente pesquisa.
Os cursos foram então ordenados dentro de cada área segundo o AF médio de
cada qual, procurando-se em seguida agregá-los em grupos, tomando-se como
referência o desvio padrão dos AFs. Depois de algumas tentativas empíricas,7 adotou-se
o seguinte critério de agrupamento no interior de cada área: no grupo de desempenho
alto foram incluídos os cursos cujos AFs médios são superiores a meio desvio padrão
acima da média da área; no grupo de desempenho médio, os cursos com AFs entre meio
desvio padrão acima e meio desvio padrão abaixo da média; no grupo de desempenho
6

Até 2003, a grande área de Ciências abrangia os cursos que atualmente integram a grande área da Saúde.
Na primeira alternativa de agrupamento também utilizaram-se os AFs médios de cada curso,
constituindo-se apenas dois grupos: um superior, com valores iguais ou acima da média da grande área;
outro, inferior, com valores menores. No entanto, como a amplitude de variação das médias era muito
grande, a agregação resultou em valores extremamente heterogêneos dentro de cada grupo. Na segunda
alternativa de agregação as médias foram combinadas com os respectivos desvios padrão, constituindo-se
três grupos. No primeiro cada área situaram-se os cursos cujas médias dos AFs situavam-se um desvio
padrão acima da média da área; no segundo, entre um desvio padrão acima e um abaixo da média; no
terceiro, AFs menores que um desvio abaixo da média. Mas Em virtude da magnitude relativamente
elevada dos desvios padrão, os resultados ainda pareceram insatisfatórios, desta vez com uma grande
concentração de cursos no segundo grupo.
7

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

baixo, os cursos com AFs menores que meio desvio padrão abaixo da média.
agrupamento está apresentado na tabela 1.

8
O

Na área das Humanidades, no grupo de alto desempenho situaram-se cursos
como Direito que, mesmo sendo oferecido apenas no período noturno do 2º vestibular
de 2004, e não no turno diurno, continuava altamente competitivo, com um desempenho
médio dos candidatos equivalente ao dobro do registrado para Arquitetura e Urbanismo,
outro integrante do mesmo grupo. O segmento com desempenho imediatamente inferior
foi liderado por Desenho Industrial, incluindo também, entre outros, os bacharelados em
Ciências Sociais e em Letras/Tradução, cujos desempenhos médios situaram-se na
mediana do grupo. A maior parte das licenciaturas em Humanidades localizou-se no
grupo de desempenho baixo.
Na área de Ciências, a liderança coube a um curso relativamente novo, o de
Engenharia Mecatrônica, mas a Engenharia Civil, que em décadas passadas desfrutou
de prestígio elevado, encaixou-se no grupo de desempenho médio. Algumas
licenciaturas nos diversos campos das Ciências Naturais integraram este grupo, porém a
maioria concentrou-se no segmento de desempenho baixo, tal como ocorreu nas
Humanidades. Na Saúde, a Medicina foi a única carreira cujo AF médio foi maior que
meio desvio padrão acima da média da área, em decorrência da conhecida alta
competitividade para ingresso nesse curso. O segmento médio abrangeu cursos como
Odontologia, cujo desempenho médio ficou algo distante do registrado para Medicina.
O grupo de desempenho baixo da área foi composto por apenas dois cursos,
Enfermagem e Obstetrícia, seguido por Educação Física. 8
A agregação de cursos em cada área guarda semelhança com a hierarquia de
cursos em estudos anteriores e, de certo modo, reflete diferenças no prestígio social das
carreiras. Esse agrupamento, como substituto de variáveis de natureza socioeconômica,
foi utilizado ao longo do texto nas comparações efetuadas entre candidatos do sistema
universal e do sistema de cotas.
Características socioeconômicas dos cotistas: traços de um perfil
Nesta seção trata-se de algumas características socioeconômicas
dos
vestibulandos cotistas. Traços como os aqui discutidos permitem aferir a adequação do
agrupamento de cursos que se fez e, ademais, são relevantes à vista da conhecida
influência do nível social no desempenho.

8

A distribuição dos vestibulandos em cada grupo, obtida a posteriori, mostrou-se bastante satisfatória.
Em Ciências, o grupo de desempenho médio respondeu por 37% da área, ficando os demais com frações
próximas a 1/3. Em Humanidades os grupos de desempenho médio e baixo responderam, cada qual, por
38% da área. Apenas na Saúde ocorreu elevada disparidade proporcional entre os grupos, principalmente
em virtude do isolamento da Medicina numa única categoria, que respondeu por 15% da área, cabendo
58% ao segmento de desempenho médio. Trata-se entretanto de uma área na qual efetivamente há
grandes diferenças de prestígio entre os três grupos de cursos. Agradeço a Antonio Sergio Guimarães por
ter indagado sobre a distribuição proporcional dos grupos, um dos elementos relevantes para aferir a
adequação da agregação efetuada.

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

9

Escolaridade materna
Entre candidatos cotistas, as proporções dos que têm mãe tem nível superior
varia bastante entre as áreas e grupos de cursos, mas o padrão geral é bastante nítido
(gráfico 1). Em cada área, a freqüência de mães com nível superior diminui à medida
que decresce o nível médio de desempenho no vestibular, assim conferindo certa
confiabilidade ao agrupamento de cursos que se adotou como um indicador aproximado
do nível socioeconômico dos vestibulandos. Embora não se disponha de dados
fidedignos para os candidatos não-cotistas, os do chamado sistema universal, pois
somente pouco mais da metade deles respondeu ao questionário socioeconômico, vale
notar que entre estes repete-se o mesmo padrão registrado para os cotistas.9
Outra faceta relevante dos dados ilustrados pelo gráfico 1 constitui-se no reflexo
da seleção socioeconômica que é efetuada pelo filtro do vestibular. Sobejamente
documentada na literatura para os vestibulandos em geral, aqui também é sustentada
para negros, de modo semelhante ao que se verifica na USP, por exemplo, onde as
chances de aprovação caem conforme diminui a classe socioeconômica dos candidatos
negros (Guimarães, 2003). Na UnB, como se pode observar em cada área, a proporção
de mães com nível superior entre cotistas aprovados é substancialmente maior que entre
candidatos às vagas reservadas. Além disso, o nível da escolaridade materna tende a
aumentar com a competitividade dos cursos, pois as diferenças entre aprovados e
candidatos são mais largas nos grupos que requerem argumentos finais mais altos para o
ingresso na universidade. Assim, por exemplo nas Humanidades, no grupo de maior
desempenho a diferença na proporção de mães com nível superior entre aprovados e
candidatos é de 28 pontos percentuais enquanto a distância correspondente é de apenas
2 pontos no segmento de baixo desempenho; nas Ciências o padrão é parecido, com
distâncias entre grupos análogos de 11 e 3 pontos percentuais, respectivamente. Esses
dados sugeririam ainda, preliminarmente, que os efeitos da escolaridade da mãe sobre
as chances de ingresso seriam mais intensos nos grupos de cursos com alto desempenho.
No conjunto dos cotistas aprovados, mais de um terço têm mãe com nível
superior, o que é um índice bastante elevado para a sociedade brasileira, mesmo se
considerados apenas os jovens que recentemente concluíram o ensino médio. Os
aprovados no sistema de cotas para negros cotistas parecem assim constituir uma elite
social em termos da sociedade brasileira, apesar da conhecida e histórica discriminação
racial no país,10 inclusive quanto às oportunidades educacionais paternas. A título de
ilustração ­ e como mera ilustração, pelos motivos apontados ­, pouco mais da metade
dos aprovados no sistema universal têm mãe com nível superior.11 Se este último dado
for tomado como referência, os cotistas aprovados se situariam em patamar de nível

9

Na metade dos candidatos do sistema universal que respondeu ao questionário, as proporções de mães
com nível superior em cada grupo de desempenho, alto, médio e baixo são, respectivamente: nas
Humanidades, 61%, 43% e 23%; nas Ciências, 57%, 42% e 34%; na Saúde, 59%, 54% e 38&.
10
Veja-se por exemplo Guimarães (2004).
11
Essa proporção parece ser bem estável ao longo do tempo. No 2º vestibular de 2003, antes da
introdução do sistema de cotas, e no qual cerca de 60% dos aprovados responderam ao questionário
socioeconômico, a proporção de mães com nível superior era de 49%.

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

10

socioeconômico algo inferior ao dos outros vestibulandos, com um perfil que seria o de
uma segunda elite universitária, mas de toda sorte uma elite social. 12
Ensino médio na escola particular
Uma outra características socioeconômica de interesse é a freqüência à escola
particular. Interessava conhecer o perfil dos cotistas candidatos e aprovados segundo o
tipo de escola freqüentada no ensino médio, variável que também tem sido bastante
estudada na literatura sobre o acesso à universidade.
O questionário socioeconômico indagou em que tipo de escola o candidato havia
feito a maior parte do ensino médio, se pública ou particular. O gráfico 2 ilustra as
respostas a esse quesito. Os níveis de freqüência à escola particular são em geral
bastante elevados, notadamente entre os vestibulandos que se inscreveram nos cursos
que costumam comandar maior prestígio social. No conjunto dos candidatos negros,
41% fizeram escola particular no ensino médio,13 um índice muito elevado quando se
considera que no país a matrícula nesse tipo de escola correspondia a apenas 12% do
total em 2004, segundo o Censo Escolar do INEP/MEC.
Em cada área constata-se um padrão semelhante ao da escolaridade materna, no
qual a freqüência à escola particular diminui à medida em que cai a competitividade dos
cursos, seja entre candidatos, seja entre aprovados, conferindo ainda uma vez
credibilidade ao agrupamento adotado. Além disso, os índices de freqüência à escola
privada, contrastados com os de freqüência à escola pública, em geral são bem maiores
entre os cotistas aprovados. Os resultados são aparentemente sugestivos de que a
freqüência à escola privada teria expressivo efeito sobre as chances de aprovação no
vestibular em todos os segmentos, exceto um. Neste grupo, que demanda investigações
ulteriores, o resultado inesperado corre por conta dos candidatos de desempenho médio
nas Humanidades. Os resultados para cotistas negros, portanto, têm tendência
consistente com a encontrada em estudos anteriores para os vestibulandos em geral, e
indica um traço a mais do seu perfil enquanto elite social. Os cotistas que ingressam na
UnB geralmente têm um background familiar privilegiado em relação aos demais
candidatos negros e também em relação aos concluintes do ensino médio. Mesmo com o
sistema de cotas, o vestibular permanece como um filtro social extremamente poderoso.
Evolução da demanda e o vestibular com cotas
Conhecidos alguns traços do perfil socioeconômico dos cotistas, e considerando
a influência que variáveis desse tipo costumeiramente têm no desempenho acadêmico,
cabem algumas indagações sobre o perfil da demanda por vagas. Esse perfil alterou-se
12

A julgar pelos dados de Borges e Carnielli (2005), as diferenças sociais entre cotistas e não-cotistas
aparentemente se aplicariam sobretudo aos grupos de cursos de desempenho baixo. Os autores
entrevistaram estudantes que ingressaram na UnB em 2001 nos cursos de Direito, Engenharia Civil e
Medicina, constatando que 76% deles haviam feito ensino médio em escola particular. Entre os cotistas
de nosso estudo, aprovados nesses mesmos cursos, a proporção correspondente é de 79%.
13
Para os candidatos ao sistema universal que responderam ao questionário, a proporção correspondente é
de 68%.

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

11

com a introdução do sistema de cotas para negros? A demanda dos cotistas se concentra
em certos tipos de cursos, comparada com a procura por parte dos candidatos ao sistema
universal?
A UnB realiza dois vestibulares por ano, para ingresso no primeiro e segundo
semestres letivos, respectivamente. As comparações serão feitas num período num
período de cinco anos, entre 2000 e 2004, considerando-se os exames do segundo
semestre, pois o sistema de cotas iniciou-se com o segundo vestibular de 2004 e, nos
vestibulares do primeiro semestre, metade das vagas são destinadas ao Programa de
Avaliação Seriada - PAS, que envolve avaliações ao longo de todo o ensino médio. No
qüinqüênio estudado, o leque de cursos oferecidos nos vestibulares do segundo semestre
foi praticamente o mesmo e a oferta de vagas sofreu diminutas variações.14 Essas duas
características dos exames estudados ­ uma do lado da oferta de cursos e outra do lado
da demanda por vagas ­ permite uma boa comparabilidade dos dados, dispensando
maiores qualificações na análise.
No conjunto da UnB, as vagas ofertadas oscilaram em torno de 16 por candidato,
conforme mostra a tabela 2. Entre o primeiro e o último dos vestibulares da UnB aqui
discutidos houve um pequeno crescimento de apenas 2%.15 Em alguns dos grupos de
cursos o crescimento foi um pouco mais intenso, como no segmento de desempenho
alto das Humanidades, onde alcançou 6%, uma taxa ainda pequena; noutros houve
estabilidade (Ciências, desempenho médio) ou ainda queda na oferta (Saúde,
desempenho médio).
Na comparação da demanda dos cotistas com os não-cotistas tomou-se como
referência dois conjuntos de vestibulares (para ingresso no segundo semestre de cada
ano): o primeiro deles foi constituído pela média da procura nos exames realizados entre
2000 e 2003; os segundo foi integrado pelos dados do vestibular de 2004, separados em
duas categorias de candidatos, cotistas e não-cotistas. O gráfico 3 ilustra a demanda
nesses dois conjuntos, permitindo comparar a demanda de cotistas e não-cotistas em
2004 com a média de anos anteriores. As médias para o período 2000-2003 também
constam da tabela 2, a fim de facilitar a leitura do gráfico 3.
Em cada um dos grupos das três áreas, a demanda dos candidatos do sistema
universal situou-se em patamares semelhantes ou maiores que a de anos anteriores. Já a
demanda dos cotistas tem comportamento quase invertido: em geral localizou-se em
níveis mais baixos que a de anos anteriores, sendo portanto quase sempre menor ­ em
geral muito menor ­ que a dos candidatos do sistema universal. É como se muitos
cotistas, cujas oportunidades educacionais anteriores certamente foram qualitativamente
inferiores que as dos demais candidatos, julgaram que possuíam menores chances de
ingresso que os outros e, assim, fossem mais comedidos na busca da aventura
universitária.
14

Em torno de 1980 vagas foram oferecidas a cada ano.
Essa ínfima taxa de crescimento é conseqüência sobretudo das severas restrições orçamentárias a que
vem sendo submetida a instituição, por parte do Poder Público, assim como das limitadíssimas reposições
dos docentes aposentados e falecidos (a esse respeito veja-se, por exemplo, Velloso e Marques, 2005).
15

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

12

Um outro traço relevante da procura por vagas diz respeito à distância entre a
demanda dos cotistas e a dos candidatos do sistema universal. Essa distância tende a ser
maior nos grupos de cursos mais exigentes em matéria de desempenho para ingresso na
universidade. No segmento de desempenho alto das Humanidades, por exemplo, a
demanda dos cotistas equivale a cerca de 60% do nível da procura dos candidatos do
universal, 16 mas ambos os níveis se equiparam no grupo de baixo desempenho; na área
da Saúde o cenário é semelhante, pois em Medicina (Saúde ­ alto), aquela demanda
corresponde aproximadamente 40% da registrada para os vestibulandos do universal, ao
passo que no grupo de baixo desempenho os níveis já se aproximam um do outro.17 A
tendência geral observada nas três áreas sugeriria portanto, em virtude de motivos como
os já apontados no parágrafo anterior, que estaria ocorrendo uma auto-seleção por parte
dos candidatos negros, em geral tanto maior quanto mais competitivos fossem os cursos.
Como assinala Queiroz (2004), apoiada em Brito e Carvalho (1978), ao analisar a
escolha da carreira e a cor de vestibulandos da Universidade Federal da Bahia, a opção
do candidato pelo ensino superior a influência de variáveis socioeconômicas e também
marcada por uma auto-seleção que associa as aspirações dos indivíduos a uma
apreciação das probabilidades de ingresso no ensino superior.
O desempenho dos cotistas e não-cotistas: candidatos, aprovados e simulações
Os estudantes que ingressaram na UnB em 2004 pelo sistema de cotas tiveram
um desempenho bastante variado no vestibular mas alguns se houveram bem melhor
que os aprovados no sistema universal. Este foi o caso de meia dúzia jovens aprovados
em cursos como Comunicação Social e Engenharia Mecatrônica ­ ambos de alto nível
de exigência para ingresso e de elevada relação candidato/vaga ­, Ciências Contábeis ­
de medianos requisitos para aprovação na área ­, e Artes Plásticas, Geologia e
Matemática ­ estes requerendo menor desempenho para aprovação em suas respectivas
áreas. Nesses seis cursos, os primeiros colocados foram vestibulandos do sistema de
cotas para negros. Além disso, em outros seis cursos, a nota mínima dos aprovados no
sistema universal foi abaixo da nota mínima obtida pelos cotistas que ingressaram na
UnB, significando que esses vestibulandos negros entrariam na universidade
independente do sistema de cotas (Mulholand, 2004).
Nesse quadro, a pergunta que imediatamente surge é: como se compara o
desempenho de cotistas e não-cotistas? Nessa comparação, qual é a diferença entre
candidatos e aprovados? Quais seriam as chances de ingresso na UnB para os cotistas,
caso o sistema de cotas não tivesse sido implantado? Perguntas como essas norteiam a
discussão nesta seção.

16

Demanda de 15,6 candidatos/vaga entre os cotistas e de 27,6 entre os do sistema universal.
Demanda de 32,9candidatos/vaga entre os cotistas e de 82,3 entre os do sistema universal, na Medicina;
em Saúde - baixo os valores são respectivamente, 30,9 e 25,7.
17

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

13

Desempenho dos candidatos nos dois sistemas
Respostas parciais a algumas dessas perguntas já haviam sido insinuadas em
seções anteriores, a partir de dados socioeconômicos dos candidatos. De fato, os cotistas
aprovados em primeiro lugar nos seis cursos acima referidos são uma exceção ao
panorama geral, conforme indica a tabela 3. Em todos os grupos de cursos estudados, o
desempenho médio dos candidatos do sistema de cotas foi inferior ou muito inferior ao
do demais candidatos, com diferenças em geral muito expressivas. Na maior parte dos
casos estas variaram de quase 20% a aproximadamente 140%, tendo excepcionalmente
alcançado 1700% no caso específico do segmento das Humanidades com desempenho
alto.
A tendência das diferenças constatadas é semelhante à observada para as
variáveis socioeconômicas analisadas, escolaridade da mãe e freqüência à escola
privadas no ensino médio; elas em geral diminuem à medida que decrescem os
requisitos acadêmicos para ingresso ­ a única exceção é o caso da Medicina, que requer
estudos posteriores. Lidos em seu conjunto, os dados anteriores e os dados sobre o
desempenho dos candidatos parecem sugerir que, ao longo do perfil de competitividade
dos cursos em cada área, da maior para a menor, do ponto de vista socioeconômico os
cotistas se assemelhariam cada vez aos demais candidatos. Assim, ao longo desse perfil
as diferenças de desempenho entre cotistas e não-cotistas também tende a diminuir. Tal
interpretação é provisória, pois os dados socioeconômicos dos candidatos do sistema
universal são bastante deficientes, conforme já mencionado, mas pode ser
preliminarmente enunciada caso os tomemos como referência aproximada do perfil
social dos vestibulandos não-cotistas.18
De todo modo, como em cada grupo as diferenças na média do argumento final
dos dois tipos de candidato são sempre expressivas, mesmo nos cursos de menor
desempenho, e como as vagas nestes correspondem a parcela relativamente pequena do
total, os dados sugerem que sem o sistema de cotas a maioria dos cotistas não
ingressaria na universidade.
A tabela 3 ainda apresenta, na última coluna, uma outra faceta dos resultados
ilustrados no gráfico 3, que tratava da demanda por vagas. Os dados dessa coluna, que
contêm as proporções de cotistas por grupos de curso, reiteram a interpretação
preliminar anterior, no sentido de que os candidatos negros tendem a refugiar-se nos
cursos de menores exigências para ingresso. Em cada grupo de cursos de cada área, a
proporção aumenta à medida que cai o rendimento médio no vestibular.

18

Comparem-se os perfis dos candidatos cotistas nos gráficos 1 e 2 com seguintes dados para os
vestibulandos do sistema universal que responderam ao questionário socioeconômico. Quanto às mães
com nível superior, entre os grupos de desempenho baixo e alto de cada área, a proporção vai de 23% a
61% nas Humanidades; de 34% a 57% nas Ciências; e de 38% a 59% na Saúde. Quanto aos que fizeram
escola particular no ensino médio, a fração vai de 31% a 78% nas Humanidades; de 51% a também 78%
nas Ciências; e de 59% a 86% na Saúde.

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

14

Desempenho dos aprovados e uma simulação
Nos resultados para os vestibulandos aprovados, como era previsível repete-se o
mesmo padrão encontrado para os candidatos: em cada grupo de cursos a média das
notas dos candidatos do universal é sempre maior que a dos cotistas, embora as
diferenças agora sejam algo menores (tabela 4). Antes, entre candidatos dos dois
sistemas, as diferenças entre as médias dos grupos de cursos exibia enorme variação, e
agora, entre aprovados, elas apresentam uma variabilidade algo menor, ainda que muito
elevada, da ordem de 40% a 500% ­ sem considerar o caso da Medicina. Esses
contornos do desempenho dariam guarida a críticos do sistema de reserva de vagas para
negros, segundo os quais deficiências na formação escolar dos cotistas representariam
uma ameaça à qualidade do ensino universitário, cujo enfrentamento requer programas
específicos de apoio acadêmico.19
A semelhança entre a tabela 3 e a tabela 4 termina com a média de desempenho
sistematicamente menor dos cotistas, pois a aprovação no vestibular subverte as
regularidades anteriormente encontradas, desenhando uma nova configuração dos
resultados. O delineamento anterior, no qual as distâncias costumavam ser maiores
quanto mais fossem competitivos os cursos, não mais é observado. Agora as maiores
distâncias em cada área ocorrem nos cursos de desempenho médio, um contorno que
desafia interpretações substantivas e não meramente estatísticas, exigindo análise mais
detida noutra oportunidade.
Apesar desse desafio, no conjunto dos resultados prevalece a previsão antes
mencionada quanto às chances de aprovação dos cotistas. Na ausência de um sistema de
cotas para negros, é provável que poucos obtivessem sua matrícula na UnB. Resta saber,
na hipótese de inexistência do sistema de cotas, quais são as efetivas chances de
aprovação dos vestibulandos que optaram pelas vagas reservadas para negros.
No intuito de aferir se tal previsão se sustenta, e de conhecer aproximadamente
quais são essas chances, foram feitas simulações quanto à aprovação de vestibulandos
cotistas em alguns cursos. Os resultados obtidos são parciais e, por isso mesmo,
meramente ilustrativos, porém tendem a apoiar o prognóstico.
Nas simulações adotaram-se os procedimentos descritos a seguir. Em cada
curso/turno, os vestibulandos foram ordenados conforme suas notas, da maior para a
menor, sem distinção entre os dois sistemas de ingresso.20 Em seguida incluiu-se entre
os aprovados os "n" primeiros colocados, conforme o respectivo número de vagas.
Assim, por exemplo, no curso de Ciências Sociais, que ofereceu 60 vagas, foram
considerados aprovados os 60 primeiros colocados, independente do tipo de sistema de
ingresso em que se inscreveram os vestibulandos.

19

A Universidade Federal da Bahia, por exemplo, tem em vista um programa de reforço escolar e apoio
acadêmico para os que dele necessitem (Almeida Filho et al., 2005).
20
Consideraram-se apenas os candidatos que foram selecionados para correção da prova de redação e os
que foram aprovados neste exame.

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

15

Os resultados das simulações estão apresentados na tabela 5. Admitindo a
hipótese de inexistência do sistema de cotas, em alguns cursos do grupo de desempenho
alto das Humanidades, como Arquitetura e Economia, nenhum dos cotistas seria
aprovado; já para os cotistas de Comunicação Social e de Direito 5% e 10% destes,
respectivamente, ingressariam na UnB. O cenário é distinto em cursos de baixo
desempenho dessa área, como Serviço Social e Pedagogia, nos quais todos ou quase
todos os cotistas dispensariam a reserva de vagas para ingressar na UnB. Nas Ciências,
na hipótese considerada, a variação das chances de ingresso vão de nulas a menos de
10% e, na Saúde, oscilam em torno de 10%.
As simulações não revelam uma nítida regularidade nas chances de aprovação
entre os grupos de desempenho em cada área, nem se esperava que isso ocorresse, pois
foram considerados apenas alguns cursos, de caráter ilustrativo. Ainda assim, os dados
parecem preliminarmente sugerir aquilo que a lógica dos vestibulares indicaria: em cada
área, as chances de ingresso seriam maiores nos cursos menos competitivos.
Em síntese, as chances de aprovação dos cotistas vão de nulas a 20%, proporção
que corresponde à reserva de vagas para negros em cada curso. Se fosse possível fazer
alguma afirmativa mais genérica a partir dos dados parciais apresentados, como a moda
das chances de aprovação está em torno de 10%, dir-se-ia que sem o duplo sistema de
ingresso metade dos cotistas seria reprovado. Por outras palavras, as cotas dobrariam as
chances de aprovação dos candidatos negros.
Com efeito, informações sobre o conjunto dos aprovados dão conta de que 60%
dos candidatos ao sistema de cotas foram beneficiados pela existência da cota. Os 40%
restantes teriam sido selecionados sem este sistema (Mulholand, 2004: 67). Esses
números indicam que o sistema mais que dobrou as chances de acesso à UnB para
negros vestibulandos, consistindo em expressiva ampliação de suas probabilidades de
entrada na universidade.

Nota final
Nesta nota final resumem-se os principais resultados obtidos no estudo, com
ênfase na comparação entre vestibulandos dos dois sistemas de ingresso, sempre que os
dados disponíveis permitiram, e discutem-se algumas de suas implicações.
A caracterização socioeconômica dos vestibulandos restringiu-se essencialmente
à dos cotistas, devido à natureza dos dados utilizados, e baseou-se em duas variáveis, a
escolaridade materna e a freqüência à escola particular no ensino médio. De modo
análogo ao que vem sendo registrado na literatura sobre acesso à universidade, as
chances de ingresso na UnB mediante cotas também dependem fortemente do nível
socioeconômico dos candidatos. Entre os aprovados, mais de um terço têm mãe com
nível superior, proporção mais elevada que a encontrada entre todos candidatos cotistas;
entre os aprovados, mais de 40% fizeram o ensino médio em escola privada, fração bem
maior que a registrada entre os candidatos, e equivalente a mais do triplo da

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

16

porcentagem de alunos matriculados na rede particular do país. Os cotistas que
passaram no vestibular configuram-se assim como integrantes de uma elite do ponto de
vista social. O funil da seleção socioeconômica no ingresso na universidade também
opera dentro do sistema de cotas. Não há dados estritamente comparáveis para os
vestibulandos não-cotistas, os do chamado sistema universal, pois poucos destes
responderam ao questionário socioeconômico, mas a evidência parcial disponível sugere
que os cotistas aprovados corresponderiam a uma segunda elite universitária, porém de
todo modo uma elite social.
Mas há notáveis diferenças no perfil dos cotistas e nas suas chances de acesso,
conforme o curso a que se candidataram. Assim, em cada uma das três áreas
consideradas, Humanidades, Ciências, Saúde, os níveis de escolaridade da mãe e de
freqüência ao ensino privado geralmente são bem mais altos nos grupos de cursos de
maior competitividade ­ os que exigem melhor desempenho para ingresso ­ e, nessas
variáveis, a distância entre candidatos e aprovados geralmente cresce, sugerindo que sua
influência no ingresso aumenta com os requerimentos de desempenho.
Um aspecto relevante na comparação entre cotistas e não-cotistas se refere à
demanda por vagas nos vestibulares da UnB. Essa demanda manteve-se bastante estável
ao longo dos últimos cinco anos. No conjunto da universidade, a procura no 2º exame
de 2004 seleção foi da mesma ordem de grandeza que a média dos quatro anos
anteriores, de aproximadamente 16 candidatos por vaga, mas a adoção do sistema de
cotas resultou em contornos diferenciados na demanda dos candidatos cotistas e do
sistema universal. Nos grupos de cursos mais competitivos, a demanda dos candidatos
do sistema universal em geral foi maior que a média dos anos anteriores e muito maior
que a dos candidatos cotistas. À primeira vista, isso poderia indicar que os candidatos
não-negros afluíram em maior número para esses cursos, inaugurando uma tendência de
crescimento na demanda. No entanto, como no conjunto da universidade a demanda foi
semelhante às de anos anteriores, é provável que os dados para 2004 sinalizem apenas
para uma diferenciação da procura entre negros e não-negros que já existia
anteriormente, antes da introdução do sistema de cotas.
Outra característica relevante da demanda dos cotistas é de que ela foi menor
que a dos outros candidatos em quase todos os grupos de cursos, e não apenas naqueles
de maior competitividade. Esses níveis mais baixos poderiam indicar que a qualidade
das oportunidades educacionais anteriores dos cotistas, que via de regra teria sido
relativamente mais pobre que a dos outros candidatos, teria resultado em menor
estímulo na busca pelos estudos de nível superior, conseqüência de um processo de
auto-seleção.
Mas o processo de auto-seleção não se traduz necessariamente em diferenças na
demanda por vagas dos cotistas em relação à dos não-cotistas. Admita-se que tal
processo opera, manifestando-se através das expectativas de chegar à universidade por
parte de jovens negros e não-negros que concluíram o ensino médio. Nessa hipótese,
suponha-se ainda que, entre esses dois grupos de jovens, as diferenças nos níveis das
expectativas de prestar exame vestibular não correspondam à razão entre as vagas que

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

17

foram reservadas para negros e as vagas destinadas aos demais candidatos. A
porcentagem de 20% das vagas da cota para negros equivale à razão de um para quatro
entre as vagas deste sistema e as do sistema universal. Ora, é possível que, entre esses
dois grupos jovens, a diferença nas expectativas de chegar à universidade não
corresponda à uma única razão de um para quatro, ou que esta se aplique apenas a
alguns cursos. Essas diferenças têm implicações para as relações candidato/vaga no
vestibular com cotas. Considerem-se por exemplo os dois grupos de cursos mais
competitivos nas Humanidades e nas Ciências. No primeiro, a demanda dos cotistas
equivaleu a quase metade da procura dos candidatos do sistema universal; no segundo,
correspondeu a quase um terço. Imagine-se agora que nos dois grupos de cursos as
proporções das cotas tivessem sido distintas dos 20% que foram estabelecidos. Se, para
aquele grupo de cursos, a reserva de vagas tivesse sido de apenas 12%, a demanda em
ambos os sistemas de seleção teria sido semelhante, em torno de 25 candidatos por
vaga. Se, neste último grupo, a reserva tivesse sido de somente 9%, a procura num e
noutro sistema teria sido em torno de 15 candidatos por vaga.21 Com isso não se quer
dizer ou mesmo insinuar que o percentual da reserva de vagas deveria ter sido menor
que o estabelecido; pois sendo um dos propósitos das cotas aumentar as chances de
ingresso de negros na universidade, inclusive corrigindo injustiças passadas, as
diferenças na demanda efetiva entre cotistas e demais candidatos seriam um indicador
do êxito de tais propósitos.
Os dados mostraram que a demanda dos cotistas geralmente se concentrou nos
grupos de cursos menos competitivos de cada área. Caso o raciocínio anterior não fosse
considerado, isso sugeriria que experiência educacional anterior dos candidatos negros
os teria induzido a uma auto-seleção, que seria maior quanto mais competitivos fossem
os cursos. Embora essa interpretação seja plausível, face aos processos de seletividade
social e discriminação racial que têm prevalecido, nesse aspecto a relação
candidato/vaga pode ser enganosa, como mostrou a simulação há pouco efetuada. Mas
dados adicionais do estudo quanto aos candidatos inscritos, sem considerar as vagas
ofertadas, indicaram que em cada área, sistematicamente, a proporção de candidatos
cotistas decresce à medida que diminui a competitividade dos cursos, assim
emprestando apoio à hipótese da auto-seleção.
Num outro plano de análise, tratou-se do rendimento dos candidatos no exame,
comparando-se os vestibulandos nos dois sistemas de ingresso, tanto entre candidatos
quanto entre aprovados.
Entre candidatos inscritos, os dados mostraram que em cada grupo de cursos as
médias no sistema de cotas são inferiores às dos demais, como esperado, diante das
respectivas características socioeconômicas. A ordem de grandeza das diferenças é
muito expressiva, sendo que a maioria delas vai de quase 20% a mais de 1000%.
Ademais, em geral as distâncias aumentam à medida que sobe a competitividade dos
cursos, apesar da exceção registrada em Medicina, que requer investigações ulteriores.
Esses dados sugeriram que boa parte dos cotistas não viria a ser aprovada caso
21

Nessa simulação, mantém-se inalterado o número de inscritos em cada sistema de ingresso e a demanda
do conjunto dos dois sistemas.

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

18

inexistisse o sistema de reserva de vagas, e que suas chances de ingresso seriam
menores em cursos mais competitivos.
Entre vestibulandos aprovados, isto é, os ingressaram na UnB, os resultados
naturalmente apresentaram heterogeneidade menor que os dados para candidatos, com
diferenças menores entre cotistas e não-cotistas, porém com diferenças ainda muito
expressivas, alcançando mais de 500% nas notas médias obtidas. Esses dados trouxeram
uma surpresa, que por ora ainda desafia interpretações plausíveis, pois as maiores
diferenças em cada área deslocaram-se dos grupos de cursos mais competitivos para os
de exigências de desempenho relativamente moderadas. Apesar disso, as distâncias nas
notas tenderam a confirmar o prognóstico anterior, no sentido de que provavelmente
seriam poucos os candidatos negros que ingressariam na UnB sem o sistema de cotas.
As simulações feitas no intuito de apreciar melhor essas chances de ingresso dos
cotistas revelaram, para cursos ilustrativos, uma grande variação entre estes. Em cursos
como Arquitetura e Urbanismo, ou Engenharia Civil, nenhum cotista teria sido
aprovado caso inexistisse a reserva de vagas para negros. Já no Serviço Social todos os
cotistas ingressariam na UnB sem as cotas, ao passo que em Medicina e Odontologia
cerca de metade deles teriam tal êxito. A tendência dos resultados ilustrativos que foram
obtidos sugeriu que o duplo sistema de ingresso teria dobrado as chances de aprovação
de candidatos negros. Informações mais agregadas, sem distinção por curso, porém mais
abrangentes, dão conta de que o duplo sistema de ingresso mais que dobrou as chances
de aprovação desses candidatos, constituindo-se para eles em mecanismo de ampliação
do acesso à universidade.
Sistemas de cotas para negros têm efeitos apenas marginais no acesso, pois
exercidos sobre os concluintes do ensino médio, e é na educação básica e que se
concentra o funil do forte estreitamento das chances de ingresso na educação superior.
Com efeito, do ponto de vista social os cotistas aprovados na UnB têm o perfil de uma
elite universitária, ainda que em geral não pertençam ao estrato superior dessa elite, que
seria integrada sobretudo por candidatos do sistema universal. Uma efetiva
democratização do acesso de negros à universidade depende de substantivas melhorias
na qualidade da educação básica pública e de um alargamento da oferta de vagas na
educação superior pública, indispensáveis mas que requerem prazo mais longo de
maturação. Sistemas de cotas, embora de limitados efeitos, têm o mérito da eficácia no
curto prazo, como mostraram os dados do estudo. De outra parte, a implantação desses
sistemas possivelmente traz consigo riscos de aumento do racismo na sociedade.
Os dados obtidos no estudo também mostraram que os aprovados no sistema de
cotas em geral tiveram rendimento menor no exame que seus colegas do sistema
universal. Se o rendimento no vestibular está associado ao desempenho no curso, então
é provável que a adoção desse sistema influa negativamente no nível acadêmico dos
estudos na universidade, o que é de todo indesejável, por todos os títulos, inclusive na
ótica da democratização do acesso de negros à educação superior. Se isso é verdade,
então se faz necessário o fortalecimento de programas de apoio aos estudantes que já
existem, ampliando-os para assegurar amparo também acadêmico a todos os cotistas

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

19

que dele necessitem. A política de cotas da universidade reveste-se de êxito nos termos
de um de seus próprios objetivos, ao ampliar o acesso de negros à educação superior,
mas boa parte do sucesso da integração social, étnica e racial pretendida está na razão
direta das taxas de permanência e de bom aproveitamento dos estudantes que até então
se beneficiaram dessa política.

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

20

Referências bibliográficas
ALMEIDA FILHO, N. et alii. Ações Afirmativas na universidade pública: o caso da
UFBA. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA, 2005.
BORGES, J.; CARNIELLI, B. Educação e estratificação social no acesso à
universidade pública. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 35, n. 124, Jan.-Abr. 2005.
p. 113-139.
BRITO, L.; CARVALHO, I. M. Condicionantes socioeconômicos dos estudantes da
Universidade Federal da Bahia, Centro de Recursos Humanos, Universidade Federal da
Bahia, Salvador, 1978.
CARVALHO, J. J.; SEGATO, R. L.. Uma proposta para estudantes negros na
Universidade de Brasília. Série Antropologia n. 314, Departamento de Antropologia,
Universidade de Brasília, Brasília, 2002. p. 52
COSTA RIBEIRO, S. Quem vai para a universidade? Ciência Hoje, v. 1, n. 4, jan./fev.
1983.
GUIMARÃES, A. S.. Acesso de negros às universidades públicas. Cadernos de
Pesquisa, São Paulo, n. 118, Março 2003. p. 247-268.
________. Preconceito e Discriminação. Queixas de Ofensas e Tratamento Desigual de
Negros no Brasil. 2ª ed. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo e
Editora 34, 2004.
FRY, P.; MAGGIE, Y. Cotas raciais ­ construindo um país dividido? Econômica, Rio
de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 153-161, jun. 2004.
________. O debate que não houve: a reserva de vagas para negros nas universidades
brasileiras. In: FRY, P. A Persistência da Raça. Ensaios Antropológicos sobre o Brasil e
a África Austral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 301-320.
GONÇALVES E SILVA, P. B. Negros na universidade e produção do conhecimento.
In: GONÇALVES e SILVA, P.; SILVÉRIO, V. (Orgs.), Educação e Ações Afirmativas
­ Entre a Injustiça Simbólica e a Injustiça Econômica. Brasília: INEP, 2003. p. 43-54.
GRIN, M. Experimentos em ação afirmativa: versão crítica em dois tempos.
Econômica, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 145-152, jun. 2004.
MOURA, D. Plano de metas para a integração social, étnica e racial na UnB ­ relato da
comissão de implementação. In: BERNARDINO, J.; GALDINO, D. (Orgs.), Levando a
Raça a Sério. Ação Afirmativa e Universidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2004. p. 217228.

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

21

MULHOLAND, T. Cotas para negros: rompendo barreiras. UnB Revista, Brasília, v. V,
n. 10, Set.-Nov. 2004. p. 65-67.
MUNANGA, K. Políticas de ação afirmativa em benefício da população negra o Brasil:
um ponto de vista em defesa de cotas. In: GONÇALVES e SILVA, P.; SILVÉRIO, V.
(Orgs.), Educação e Ações Afirmativas ­ Entre a Injustiça Simbólica e a Injustiça
Econômica. Brasília: INEP, 2003. p. 115-128.
QUEIROZ, D. Universidade e Desigualdade ­ Brancos e Negros no Ensino Superior.
Brasília: Líber Livro, 2004.
SANTOS, R.; MAIO, M.. Política de cotas raciais, os "olhos da sociedade" e os usos da
Antropologia: o caso do vestibular da Universidade de Brasília (UnB). Horizontes
Antropológicos, v. 11, n. 23, Jun. 2005. p. 181-214.
SILVA, N. V.; KOSCHI; R. Algumas observações sobre a graduação em Ciências
Sociais e o Laboratório de Pesquisa Social. In: PESSANHA, E.; VILLAS BÔAS, G.
(Orgs.), Ciências Sociais ­ Ensino e Pesquisa na Graduação. Rio de Janeiro: 1995. p.
83-115.
VELLOSO, J.; MARQUES, P. M. Recursos próprios da UnB, o financiamento das
IFES e a reforma da educação superior. Educação e Sociedade, Campinas, v. 26, n. 91,
Mai-Ago. 2005. p. 655-680­ Ed. & Sociedade, 2005

Vestibular com cotas para negros na UnB: candidatos e aprovados nos exames (Preliminar) -­Jacques Velloso

22

Tabela 1 - Vestibular UnB 2º/2004: agrupamento dos cursos pelas médias e desvios padrão
dos argumentos finais dos aprovados (cursos ilustrativos*)
Argumentos finais
Áreas Grupos

Humanidades

Desemp.
alto

Desemp.
médio

Desemp.
baixo
Área

Ciências

Desemp.
alto

Desemp.
médio

Saúde

Área
Desemp.
alto
Desemp.
médio
Desemp.
baixo
Área
Total

Cursos
Médias

Desvios
padrão

Intervalos

-

> 138,3

-

= 36,7

-

< 36,7

101,7

-

Direito - Not.
Comunicação Social
Ciências Econômicas
Arquitetura e Urbanismo
Desenho Industrial(Bach.)
Administração
Letras - Tradução
Ciências Sociais
Letras - Francês(Bach./Lic.)
Serviço Social
Biblioteconomia
Pedagogia
Educ.Artística - Artes Cênicas (Lic.)
Média e desvio padrão da área
Engenharia Mecatrônica
Ciência da Computação(Bach.)
Engenharia Mecânica
Ciências Biológicas(Bach./Lic.)
Física(Bach./Lic./Fís.Computacional)
Engenharia Civil
Ciências Biológicas(Lic.) - Not.
Agronomia
Engenharia Florestal
Matemática(Bach./Lic.)
Química(Lic.) - Not.
Geologia
Média e desvio padrão da área

296,4
194,9
185,0
152,2
138,3
132,8
97,1
91,5
51,2
22,1
6,6
-5,5
-67,8
87,5
286,7
233,0
203,8
193,5
165,6
148,5
123,2
96,4
84,1
73,6
72,3
63,1
140,3

Medicina
Odontologia
Nutrição
Psicologia
Medicina Veterinária
Enfermagem e Obstetrícia
Educação Física
Média e desvio padrão da área

386,8
196,7
167,0
166,1
140,5
119,2
65,5
179,2

109,7

-

Média e desvio padrão da UnB

115,4

105,1

-

> 185,8

=94,7

< 94,7
91,1

>234,1