TAXAS DE PERDA DE SOLO POR EROSÃO E EVOLUÇÃO PROGRESSIVA DE
MARGEM DO ARROIO PELOTAS
SILVA, Renan Souza1; SUZUKI, Luis Eduardo Akiyoshi Sanches2; DUBOW,
Michele3; LIMA, Luciana da Silva Corrêa4; BESKOW, Samuel5; COLLARES,
Gilberto Loguercio5; VIEGAS, Lucas Souza6
1

Graduando em Agronomia, UFPel, bolsista CNPq/PIBIC/UFPel, [email protected];
2
3
Orientador, Eng. Agrônomo, CDTec/UFPel; Graduanda em Química (Licenciatura), UFPel;
4
5
6
Graduanda em Eng. Agrícola, UFPel, bolsista PROBEC; Eng. Agrícola, CDTec/UFPel; Graduando
em Eng. Hídrica, UFPel

1 INTRODUÇÃO
A erosão hídrica do solo é um processo físico de desagregação, transporte e
deposição de partículas do solo, provocada pela ação da água das chuvas e
intensificada pela ação antrópica (Cassol e Lima, 2003). Compreender os fatores
que integram o processo de erosão e quantificar as perdas de solo é de grande
importância, pois serve como base na elaboração de medidas que visem maximizar
o uso dos recursos hídricos disponíveis e evitar os efeitos negativos decorrentes da
produção, transporte e deposição de sedimentos (Paiva et al., 2001).
A ausência de vegetação nas margens de rios, associada ao uso agrícola do
solo próximo a essas margens, pode intensificar o processo natural de erosão,
contribuindo de forma significativa para o sedimento depositado no arroio.
O presente trabalho teve como objetivo quantificar as taxas de perda de solo
por erosão em margens desprotegidas de vegetação e a evolução progressiva
dessas margens.
2 MATERIAL E MÉTODOS
A Bacia Hidrográfica do Arroio Pelotas é a maior bacia hidrográfica existente no
município de Pelotas, sendo um manancial de água doce componente da história do
município, pois o início da sua ocupação se deu às margens do Arroio Pelotas. Ela
possui uma área de drenagem de aproximadamente 91.000 hectares e situa-se na
região sudeste do Estado do Rio Grande do Sul, abrangendo os municípios de
Canguçu, Morro Redondo, Arroio do Padre e Pelotas. A Estação de Tratamento de
Água Sinnott tem uma adutora que capta uma parcela do volume de água do Arroio
Pelotas, a qual abastece alguns bairros (Pestano, Sanga Funda, Areal, Jardim
Europa, COHAB Tablada, COHAB Lindóia, Santa Rita de Cássia, Getúlio Vargas e
Balneário Santo Antônio) da cidade de Pelotas.
Para realização deste trabalho, inicialmente foi feita uma caminhada de
aproximadamente 630 metros dentro do Arroio Pelotas, fazendo um registro
fotográfico das suas margens, observando a presença ou não de vegetação e a
deposição de sedimentos dentro do arroio, com a formação de bancos de areia.
Em seguida, em um mesmo local, selecionaram-se três margens desprotegidas
de vegetação para avaliação da taxa de perda de solo (Fig. 1). O local selecionado
possui pastagem com presença de bovinos, que pastoreiam até a margem próxima
ao arroio.
A taxa de perda de solo nas margens do arroio foi quantificada por meio da
inserção de pinos de aço na face do barranco, no sentido horizontal e vertical (Fig.

1). O número de pinos em ambos os sentidos variou entre as margens, pois
dependeu da altura e do acesso à margem. O espaçamento horizontal entre os
pinos foi de 50 cm e o espaçamento vertical foi de 20 cm.
(A)

(B)

(C)

Figura 1 ­ Face do barranco mostrando a distribuição dos pinos no sentido horizontal e vertical
(profundidade) da margem 1 (A), 2 (B) e 3 (C). Os pinos estão representados pelo símbolo · e a base
do barranco pelo símbolo x.

O recuo dos pinos foi medido pelo grau de exposição que eles apresentavam
(Wolman, 1959; Fernandez, 1990). A medição do recuo dos pinos foi realizada ao
longo do período compreendido entre abril/2011 a junho/2012.
A taxa de perda de solo foi calculada pela expressão: P = h x A x DS
onde: P = perda de solo (g); h = média de alteração de nível da superfície do solo
(cm); A= área avaliada (cm2); DS = densidade do solo (g cm-3). Devido o
espaçamento entre os pinos ser de 50 x 20 cm, considerou-se como área avaliada
por cada pino 100 cm2.
Amostras de solo com estrutura preservada foram coletadas em abril de 2011,
utilizando-se cilindros de aço/inox de 4,7 cm de diâmetro e 3,0 cm de altura, nas
camadas de 0 a 5; 10 a 15; 20 a 25; 30 a 35; 40 a 45 e 60 a 65 cm. Após a coleta as
amostras foram preparadas e encaminhadas à estufa a uma temperatura média de
105 oC para determinação da densidade do solo (Blake & Hartge, 1986).
Na superfície do solo foram colocadas estacas para mensurar a perda de solo
na camada superficial, sendo uma primeira linha de estacas distante
aproximadamente 1 m em relação à calha do rio e a segunda linha de estacas
distante aproximadamente 2 m da calha do rio (Hughes, 1977).
As perfilagens (medições de altura e geometria) da margem, ilustrando a
evolução progressiva da face do barranco, foram realizadas com auxílio de régua
graduada, trena flexível e nível (Hudson, 1981).
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir das perfilagens das margens do Arroio Pelotas, foi possível avaliar a
evolução progressiva das margens 1, 2 e 3 (Fig. 2).
Pela perfilagem da margem 2 (Fig. 2B), houve uma maior alteração da margem
desde abril/2011 até junho/2012, o que indica uma maior perda de solo nessa
margem. Essa perda pode estar associada ao maior escoamento de água neste
ponto, ocasionado por um fluxo concentrado. Observando o relevo local, parece que
grande parte da água em período de chuva é direcionada para este ponto, sendo
uma situação específica e pontual de perda de solo em margem.
As margens 1 e 3 apresentaram menor diferença de recuo, quando
comparadas com a margem 2, durante o mesmo período de avaliação, mesmo com
características similares como classe de solo, vegetação e presença de pastoreio na
área.

5

Recuo, cm
10 15 20 25 30 35

-30

-25

Recuo, cm
-20
-15
-10

-5

0
abril/11
junho/12

(A)

20
40
abril/11
junho/12

60
80

(B)

0

-5
Profundidade, cm

0
20
40
60
80
100
120
140
160
180

0

Profundidade, cm

Profundidade, cm

-10 -5

0

Recuo, cm
5

10

15

0
abril/11
junho/12

20
40
60
80

(C)

100

100

Figura 2 ­ Perfilagem média das margens do Arroio Pelotas, evidenciando a evolução progressiva da
face dos barrancos analisados. Respectivamente são apresentadas as perfilagens das margens 1
(A), 2 (B) e 3 (C). Avaliação realizada no período de abril/2011 a junho/2012.

Além das observações feitas através das curvas de recuo de solo, através das
medições de recuo de cada pino, da densidade do solo e da área avaliada por cada
pino, foi possível calcular a taxa de perda de solo (kg) nas três margens avaliadas,
de acordo com a profundidade do solo e o eixo horizontal (Tab. 1).
Reforçando a observação das perfilagens (Fig. 2), as maiores perdas de solo
ocorreram na margem 2, nas profundidades de 20, 40 e 60 cm (Tab. 1). Na
profundidade de 120 cm na margem 1 houve um ganho de solo oriundo das
camadas superiores do solo.
Tabela 1 ­ Taxa de perda de solo nas margens do Arroio Pelotas. Avaliação realizada no período de
abril/2011 a junho/2012.

Profundidade (cm)

*

0
20
40
60
80
100
120
140
160

*

Margem 1
0,0
-5,6
-1,3
0,0
-3,5
-2,0
+9,5
0,0
-1,2

Perda de solo (kg)
Margem 2
0,0
-121,9
-128,7
-97,2
-61,0
-

Margem 3
0,0
-10,9
-1,7
-1,9
-2,7
-

O sinal positivo indica que houve ganho de solo na profundidade avaliada; o sinal negativo indica
perda de solo na profundidade avaliada.

Na superfície do solo (profundidade 0), das três margens, não se observaram
perdas de solo, fato que pode estar associado ao aporte de matéria orgânica e ação
do sistema radicular da gramínea presente na área, formando agregados de solo
mais estáveis e resistentes à erosão. Por outro lado, abaixo desta camada mais
superficial ocorrem as maiores perdas de solo, fato associado à textura mais
arenosa do horizonte superficial, e abaixo há um prolongamento do perfil, devido à
camada mais argilosa originada pelo processo de eluviação/iluviação. Nesse
sentido, percebe-se que as maiores perdas de solo ocorrem por material mais
arenoso, e a deposição desse material no arroio é visível ao caminhar dentro do
dele, onde se observa bancos de areia em vários locais do percurso.
Paiva et al. (2001) verificaram em apenas um mês, no Arroio Vacacaí Mirim,
uma diferença de 60 cm no nível de fundo de seção transversal do rio, e alterações
na largura e sinuosidade do leito do rio.

Técnicas de contenção da erosão em margens de rios devem ser
implementadas para reduzir as perdas de solo, com consequente impacto nos
recursos hídricos. Nesse sentido, Holanda et al. (2009) propuseram a bioengenharia
de solos como uma das técnicas mais eficientes na contenção de erosão.
4 CONCLUSÕES
As perdas de solo apresentam uma tendência a ocorrer principalmente abaixo
da camada superficial, fato associado à textura mais arenosa e ao menor aporte de
matéria orgânica e menor atuação do sistema radicular da gramínea que atua na
estruturação do solo.
Elevadas perdas de solo ocorrem na margem 2, superiores a 300 kg de solo
em um período de 14 meses.
5 AGRADECIMENTOS
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
(CNPq)/PIBIC/UFPel pela concessão de bolsa de iniciação científica.

Tecnológico

6 REFERÊNCIAS
BLAKE, G.R.; HARTGE, K.H. Bulk density. In: KLUTE, A. Methods of soil analysis:
Physical and mineralogical methods. 2nd. Madison: American Society of
Agronomy, Soil Science Society of America, 1986. p.363-375.
CASSOL, E.A.; LIMA, V.S. Erosão em entressulcos sob diferentes tipos de preparo e
manejo do solo. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 38, p.117-124, 2003.
FERNANDEZ, O.V.Q. Mudanças no canal fluvial do rio Paraná e processos de
erosão nas margens: Região de Porto Rico, PR. 1990. 86f. Dissertação
(Mestrado) - Universidade Estadual de São Paulo, 1990.
HOLANDA, F.S.R.; BANDEIRA, A.A.; ROCHA, I.P.; ARAÚJO FILHO, R.N.;
RIBEIRO, L.F.; ENNES, M.A. Controle da erosão em margens de cursos d'água: das
soluções empíricas à técnica da bioengenharia de solo. Revista Ra'e Ga ­ Espaço
Geográfico em Análise, n.17, p.93-101, 2009.
HUDSON, N. A field technique to directly measure river bank erosion. Canadian
Journal of Earth Science, v.19, p.381-383, 1981.
HUGHES, D.J. Rates of erosion on meander arcs. In: GREGORY, K.J. (ed.). River
channel changes. John Wiley & Sons, 1977. p.193-205.
PAIVA, E.M.C.D.; PAIVA, J.B.D.; MOREIRA, A.P.; MAFFINI, G.F.; MELLER, A.;
DILL, P.R.J. Evolução de processo erosivo em acelerado em trecho do Vacacai
Mirim. Revista Brasileira de Recursos Hídricos, v.6, p.129-135, 2001.
WOLMAN, M.G. Factors influencing erosion of a cohesive river bank. American
Journal Science, n.257, p.204-216, 1959.