resenha

SANDEL, MICHAEL J. CONTRA A PERFEIÇÃO: ÉTICA NA ERA DA
ENGENHARIA GENÉTICA. TRADUÇÃO DE ANA CAROLINA MESQUITA.
RIO DE JANEIRO: CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, 2013.


Cecília de Sousa Neves1


O ponto de partida da reflexão sobre as controvérsias em torno de temas
como a pesquisa com células-tronco, clonagem e engenharia genética, remete-nos ao
convite recebido por Michael J. Sandel para integrar o Conselho de Bioética criado pelo
presidente George W. Bush no fim de 2001. Esse fato interessa, pois é no contexto de
investigações bioéticas de amplo alcance, que poucos órgãos governamentais levam
adiante, que surge a pesquisa que deu origem ao livro Contra a perfeição: ética na era
da engenharia genética, publicado originalmente em 2007, e traduzido para o português
e publicado no Brasil pela Editora Civilização Brasileira em 2013.
Pode-se dizer que o fio condutor que atravessa o livro é o esforço em
articular o mal-estar moral persistente que a maioria de nós sentimos diante das várias
modalidades de manipulação genética. Temos ou não razão para nos sentir perturbados,
por exemplo, com a possibilidade de encomendar uma criança com traços genéticos
específicos ou a possibilidade de clonar um filho que seja gêmeo idêntico do pai ou
irmão que morreu tragicamente? Uma nova classe de problemas e um mal-estar
inquietante parecem surgir face à promessa e ao dilema apresentados a um só tempo
pelo desenvolvimento da genética. Trata-se de uma promessa, a saber, de que em breve
seremos capazes de tratar e prevenir uma série de doenças debilitantes, mas também de
um dilema, que instaura uma hesitação diante do fato de que tal recém-descoberto
conhecimento pode franquear o acesso à manipulação de nossa própria natureza, a fim
de nos tornarmos "melhores que a encomenda". Quando a ciência avança mais depressa
que a compreensão moral, observa Sandel, os termos familiares dos discursos moral e
político tornam-se incapazes de nos auxiliar a articular nossa inquietação diante do que
há de errado na reengenhagem de nossa natureza. Por isso a revolução genômica

1
Mestre
em
filosofia
pela
[email protected]


Universidade

Federal

de

Uberlândia.

Contato:

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induziu a uma espécie de "vertigem moral". De forma que para compreender a ética do
melhoramento, precisamos retomar questões apenas aparentemente superadas, tais como
o estatuto moral da natureza e questões acerca da atitude adequada dos seres humanos
em relação ao mundo "dado". É com esse horizonte em mente que Michael Sandel se
propõe a analisar os argumentos frequentemente reivindicados a favor e contra a
intervenção genética, a fim de depurá-los de suas imprecisões. Isso nos conduz à
questão nuclear do livro: O que há de realmente errado na manipulação genética de
nossa natureza?
No primeiro capítulo, este procedimento do autor fica claro na análise de
alguns casos específicos. O caso da clonagem da ovelha Dolly é citado por trazer
consigo uma torrente de preocupações sobre a perspectiva da clonagem humana. Sandel
mostra como os argumentos comumente mobilizados para criticá-la não alcançam seu
núcleo problemático, tampouco são persuasivos. O primeiro argumento contra a
clonagem baseia-se na concordância geral de que é um procedimento arriscado,
havendo altas chances de se produzir crias com anormalidades e defeitos congênitos (a
própria Dolly morreu prematuramente). Porém, se a ciência avançar de forma a
equiparar o risco ao de uma gravidez normal, a clonagem ainda seria censurável? A
pergunta, portanto, permanece sem resposta. O segundo argumento, de cunho liberal,
condena a clonagem humana porque esse procedimento violaria o direito da criança à
autonomia na escolha de um projeto de vida. Esse argumento não é persuasivo porque,
em primeiro lugar, implica erroneamente que, na ausência de um progenitor projetista,
as crianças sejam livres para escolher suas características físicas. Porém, o fato é que
ninguém escolhe a própria herança genética. Em segundo lugar, a inquietação com a
autonomia não explica nossa inquietação moral em relação às pessoas que usam terapias
genéticas, isto é, modificam a própria estrutura intrínseca de si mesmas, não para fins
medicinais, mas para erguerem-se acima da norma geral. Em seguida, Sandel mobiliza
quatro aplicações inevitáveis da bioengenharia: melhoramento muscular e cognitivo,
incremento da altura e seleção do sexo. O fato de todos eles começarem como uma
tentativa de tratar uma doença ou prevenir um distúrbio genético e se converterem em
um instrumento não medicinal de melhoramento e escolha de consumo, contribui para
delinear um aspecto de importante relevância ética, pois abre uma chave de
interpretação que pode nos auxiliar a desvendar a razão de nosso estranhamento moral
face ao melhoramento genético, clonagem e engenharia genética. Se estas são
consideradas práticas que ameaçam a dignidade humana, o problema relaciona-se não

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apenas com os meios, mas com os fins almejados, isto é, com as atitudes e disposições
que incitam o impulso pelo melhoramento.
A reflexão acerca da problemática em torno do melhoramento prossegue, no
segundo capítulo, em que é relacionada ao uso de drogas e artimanhas genéticas no
esporte. O problema dos "Atletas biônicos" possibilita a Sandel formular com mais
precisão em que exatamente o melhoramento genético ameaçaria nossa humanidade. O
apelo a drogas ou artimanhas genéticas parece atentar contra a ética do empenho,
segundo a qual o valor de uma ação (ou de um atleta) é proporcional ao esforço
(dedicação) mobilizado para sua realização. Porém, o verdadeiro problema dos atletas
geneticamente modificados é que eles corrompem a competição esportiva no que ela
possui de crucial, isto é, enquanto atividade humana que honra o cultivo e a exibição de
talentos naturais. A reflexão sobre a legitimidade do melhoramento quando feita no
registro dos esportes deve, portanto, partir da seguinte pergunta: o melhoramento
genético aperfeiçoa ou distorce os talentos e habilidades dignas de admiração que um
esporte, por exemplo, o golfe, foi criado para pôr à prova? Assim, o apelo às drogas e
intervenção genética é perturbador porque distorce e sobrepuja os talentos naturais. Mas
pode-se levantar a mesma objeção às inovações em equipamentos (como os aparelhos
apóxicos), dietas megacalóricas, treinamentos específicos, já que todos produzem o
mesmo efeito no desempenho e ameaçam a excelência e a integridade, ou seja, o telos
de um esporte em questão. Portanto, o problema das tecnologias de melhoramento de
desempenho é refletir uma aspiração prometeica de remodelar a natureza, de forma que
ao submeter as potências e capacidades humanas ao nosso propósito desconsidera o
aspecto de dádiva que existe nas potências e conquistas humanas como aspectos que nos
ultrapassam e estão além de nosso controle. Assim, essas tecnologias violentam aquela
instância do desempenho atlético e artístico que enaltece os talentos e dons naturais e
que constitui a excelência nos esportes, assim como nas artes.
Também em relação aos filhos, a bioengenharia e melhoramento genético
ameaçam expulsar a ética do talento. Aos filhos como dádiva, à experiência do amor
incondicional, que independe de talentos e atributos, contrapõe-se os filhos como
resultantes de um projeto guiado por nossa vontade e ambição. A análise da questão da
projeção dos filhos, escopo do terceiro capítulo, reafirma a ideia de que a objeção moral
ao melhoramento não reside tanto na perfeição que ele busca, mas sim na disposição
humana que ele expressa e promove, a saber, a de um assalto prometeico àquilo que nos
é dado. Sem dúvida, é tarefa dos pais promover a saúde dos filhos e dirigir seu

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desenvolvimento, porém isso não significa convertê-los em produtos de sua vontade ou
instrumentos de sua ambição. Embora para teóricos como Julian Savulescu, os pais não
têm apenas o dever de promover a saúde dos filhos, mas também a "obrigação moral de
modificá-los geneticamente" a fim de dar-lhes a "melhor oportunidade de ter uma vida
melhor". Assim, a obrigação de melhorar nossos filhos complica o argumento contra o
melhoramento. Porém, qual a diferença entre oferecer essa ajuda por meio da educação
e disciplina e oferecê-la por meio do melhoramento genético? Para os defensores dessas
tecnologias, em princípio, não existe diferença entre as duas práticas, porém, segundo
Sandel, isso não justifica o melhoramento genético, apenas destaca o problema por trás
da exigência de maximizar o desempenho para conquistar vantagem competitiva. Do
ponto de vista moral não há muita diferença entre as tecnologias genéticas e práticas de
educação dos filhos de baixa tecnologia e alta pressão, pois ambas respondem à mesma
e problemática disposição dos pais projetistas que, absorvidos pela hybris, isto é, pelo
impulso de controlar o mistério do nascimento e o desenvolvimento dos filhos, dispõese a moldá-los às exigências da sociedade competitiva. Ambas abandonam o sentido de
dádiva da vida, aproximando-se de modo perturbador da eugenia.
A questão da eugenia é o objeto do quarto capítulo. Segundo o autor, a
sombra da eugenia paira sobre todos os debates da atualidade acerca da engenharia e do
melhoramento genético. Os críticos da engenharia genética argumentam que a clonagem
humana, o melhoramento genético e a encomendação de crianças não passam de
eugenia "privatizada" ou de "livre mercado". Já os defensores de uma nova "eugenia
liberal", como Nicholas Agar, retrucam que as escolhas genéticas feitas livremente, isto
é, de forma não coercitiva, não violam a autonomia da criança e por isso são
moralmente aceitáveis. Difere, nesse sentido, da velha eugenia considerada repugnante
porque comprometida com a produção de cidadãos a partir de um único molde de
projeto centralizado. Para Sandel, no entanto, não há diferença moral entre projetar
crianças segundo um propósito eugênico explícito ou segundo ditames do mercado,
ambas as práticas são eugenistas, no sentido de que as duas transformam crianças em
produtos de um projeto deliberadamente selecionado. Ainda que não prejudique a
criança ou reduza sua autonomia, a eugenia é censurável porque expressa uma atitude
de domínio diante daquilo que nos é dado, ao banir a contingência e dominar o
nascimento corrompe a experiência da paternalidade, pois desvaloriza o caráter de
dádiva da vida humana.

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No quinto capítulo, intitulado "Domínio e talento", Sandel justifica por que
é problemática a disposição nuclear expressada pela engenharia genética, a saber, o
triunfo unilateral da intenção deliberada sobre o dado inato, em outras palavras, a vitória
do domínio sobre a reverência. O núcleo de seu argumento se baseia na relação entre
solidariedade e dádiva: um senso vívido da contingência de nossos dons (a consciência
de que nenhum de nós é completamente responsável pelo próprio sucesso) impede que a
sociedade descarrilhe para a arrogância meritocrática. Em outras palavras, a engenharia
genética ao sobrepujar os resultados da loteria genética, substituindo o acaso pela
escolha, ao suprimir a ideia de que nossa carga genética é uma dádiva, i.é., resultado da
loteria genética, não uma conquista creditada a nós, dificultaria o cultivo dos
sentimentos morais que a solidariedade social requer. Diante da objeção de que seu
argumento contra o melhoramento é religioso demais, Sandel retruca que, ao contrário,
a valorização do caráter de dádiva ou de santidade da natureza como algo além de
meros instrumentos, pode surgir tanto de fontes religiosas, quanto seculares, de forma
que o peso moral advindo dessa valorização não implica necessariamente que ela se
apoie em um único quadro religioso ou metafísico. Em relação à crítica de que seu
argumento não é convincente em termos consequencialistas, Sandel afirma que não é
seu objetivo apoiar seu argumento contra o melhoramento em considerações
consequencialistas, pelo menos não no sentido comum do termo. Seu objetivo é, antes,
evidenciar que neste debate os riscos morais não estão totalmente apreendidos nas
categorias familiares de autonomia e direitos, por um lado, nem no cálculo dos custos e
benefícios por outro. O foco problemático não é o melhoramento como vício individual,
mas como hábito mental e modo de vida, cujos riscos envolvem o destino dos bens
humanos encarnados em importantes práticas sociais, bem como diz respeito à nossa
orientação em relação ao mundo que habitamos e ao tipo de liberdade ao qual
aspiramos. A tendência de modificar nossa natureza para nos encaixar numa sociedade
competitiva, longe de constituir um exercício de liberdade é, na verdade, a forma mais
profunda de enfraquecimento da autonomia. De forma que, é preciso antes criar arranjos
políticos e sociais mais tolerantes com as dádivas e limitações dos seres humanos
imperfeitos.
A grande contribuição do livro de Michael Sandel consiste, portanto, em nos
fornecer uma lúcida reflexão acerca do que há de realmente problemático na autoimagem prometeica e irrefletida de nossa era face às promessas apresentadas pelo
melhoramento genético, clonagem e engenharia genética. Desvestindo os argumentos de

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superfície que não alcançam esse núcleo problemático, o autor promove um maior
entendimento e a articulação dos termos de nosso mal-estar moral que encontra sua
expressão máxima diante das tecnologias genéticas. Sandel lança luz, assim, aos
significados e implicações envolvidos na disposição prometeica subjacente às práticas
de manipulação de nossa natureza, obscurecidos pelo fascínio provocado pelas
promessas dessas tecnologias, assim como pela inabilidade de nosso vocabulário moral
que não nos equipou para abordar os novos temas e questões colocadas pela era da
engenharia genética. Mais conscientes e bem informados acerca do que está em jogo,
isto é, a ameaça da valorização da vida como dádiva, a pergunta crucial que o livro
deixa ressoar é: Queremos viver em uma cultura orientada pela decisão de subjugar o
mundo e nos tornarmos mestres de nossa própria natureza?


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