XIII Congresso da Associação Brasileira de Estudos do Quaternário ABEQUA
III Encontro do Quaternário Sulamericano
XIII ABEQUA Congress - The South American Quaternary: Challenges and Perspectives

45 mm

ESTABILIZAÇÃO DE RAVINA EM AREAL NO MUNICÍPIO DE SÃO FRANCISCO
DE ASSIS-RS/BRASIL, TENDO COMO BASE TÉCNICA A BIOENGENHARIA DE
SOLOS
Carmem Lucas Vieira; Roberto Verdum;
[email protected]; [email protected]
Departamento de Geografia/IG/UFRGS
Avenida Bento Gonçalves, 9.500 ­ Porto Alegre/RS ­ CEP 91.509-900
Palavras-chave: Arenização, Erosão hídrica, Ravinas, Estabilização, Bioengenharia de
Solos
1.

INTRODUÇÃO

Na porção sudoeste do estado do Rio Grande do Sul a ocorrência de um processo denominado
como arenização (SUERTEGARAY, 1987; VERDUM, 1997) tem sido importante objeto de
estudo e análise nas últimas décadas. O processo ocorre em material oriundo do intemperismo
de formações areníticas que, submetidas a um período recente de maior umidade, sofrem
acelerado processo de degradação, figura 1. A ação de agentes erosivos hídricos e eólicos
sobre os sedimentos de textura predominantemente arenosa tem ocasionado, em alguns
setores, a formação de ravinas e voçorocas de grande magnitude. Segundo Verdum (1997) a
ocorrência de chuvas localizadas e torrenciais (acima de 100 mm/dia) constitui um fator
fundamental no que diz respeito à ocorrência dos processos erosivos avançados nessa região.
Nela a característica histórica tem sido a exploração econômica da pecuária bovina extensiva
e mais recentemente as lavouras mecanizadas de monoculturas temporárias, lotadas sobre os
campos com fisionomia composta, principalmente, por espécies vegetais herbáceas de
pequeno porte, como gramíneas, ciperáceas e pequenos arbustos. Segundo Suertegaray (1987)
e Verdum (1997) o processo de arenização é um processo natural, mas que em parte tem sido
intensificado pelas atividades agropecuárias, praticadas de forma inadequada na região.
Tentativas de controle de ravinas e voçorocas com anteparos físicos foram implantadas em
caráter experimental pela equipe do Grupo de Estudos em Arenização do Departamento de
Geografia/IG/UFRGS. Os resultados preliminares obtidos foram satisfatórios quanto à
redução na atividade da ravina. Houve progressiva deposição de material e preenchimento da
feição erosiva por sedimentos transportados através do escoamento concentrado da água da
chuva, bem como por aqueles oriundos de deslizamentos de taludes (SUERTEGARAY et al.,
2001).

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Figura 1 - Ravina em estudo, situada na base de uma Formação Arenítica denominada Cerro da Esquina,
localizada na Fazenda de Gino Bem, em São Francisco de Assis ­ RS/Brasil. Foto de Carmem Lucas Vieira.
15/01/2011.

Têm-se conduzido estudos nessa linha de pesquisa a partir de dados sobre a gênese e a
dinâmica dos areais e as formas associadas (VERDUM & SOARES, 2010), somados às
informações sobre a vegetação nativa dos areais de São Francisco de Assis/RS com potencial
para utilização na recuperação de áreas degradadas (FREITAS, 2006; 2010; TRINDADE,
2003), figura 2. Esses estudos permitem uma melhor compreensão da formação e da dinâmica
de ravinas e voçorocas, assim como, a sua área de contribuição, de modo a desenvolver
técnicas capazes de estabilizar processos erosivos avançados.

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Figura 2 - Melinis repens, espécie identificada no interior da ravina e uma das poucas a colonizar os taludes.
Foto de Carmem Lucas Vieira 09/11/2011.

OBJETIVOS
Propõe-se como objetivo geral desenvolver as técnicas de controle de processos que terão
como base aquelas já utilizadas pela Bioengenharia de Solos, tanto para a estabilização de
taludes fluviais, como taludes secos e rodoviários. Assim, o projeto visa desenvolver
tecnologia de baixo custo e fácil difusão local para emprego na estabilização de ravinas
desenvolvidas em propriedades rurais, onde se verifica o processo de arenização. Como
objetivo específico pretende-se reconhecer a dinâmica interna da ravina e a área superficial de
contribuição, com identificação dos pontos prioritários para as intervenções técnicas. Além
disso, pretende-se identificar, caracterizar e definir as espécies botânicas nativas capazes de
colonizar áreas instáveis na propriedade rural em estudo. Por meio desse projeto se busca, da
mesma forma, adaptar as técnicas da Bioengenharia de Solos utilizadas para a estabilização de
taludes instáveis, de modo a conduzir o processo erosivo a uma progressiva inativação com

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colonização por espécies vegetais e o resgate de funções ecológicas em áreas anteriormente
caracterizadas por solo exposto.
METODOLOGIA
Inicialmente, o desenvolvimento do projeto preconizou a caracterização e diagnóstico da área
de estudo, com coleta de material vegetal para identificação e propagação vegetativa a campo
e em ambiente protegido, coleta de sedimentos em diferentes setores da ravina para análise
textural e de fertilidade além da demarcação e monitoramento da ravina para verificação de
deslizamento de materiais e atividade dos taludes. Este processo inicial foi realizado ao longo
cinco trabalhos de campo, ocorridos entre os meses de julho de 2010 e junho de 2011. O
perímetro mobilizado pela ravina foi demarcado com o uso de estacas de bambu dispostas
paralelamente ao longo das margens opostas, distanciadas 5,5 metros uma da outra e
abrangendo 33 metros de cada lado da ravina. A localização de cada estaca foi registrada por
meio de GPS de navegação. A dinâmica da ravina foi monitorada por meio de aferições
realizadas com trena e tomada de pontos em sentido transversal ao processo erosivo bem
como ao longo do canal. Dados climáticos associados aos resultados de campo permitirão
definir quais as técnicas com base na Bioengenharia de Solos que poderão ser adotadas nos
diferentes setores da ravina de acordo com a sua dinâmica e a necessidade de estabilização,
assim como a época adequada a sua instalação, em função do material vegetal a ser utilizado
na composição das técnicas preconizadas.

RESULTADOS
O terceiro trabalho a campo já evidenciou a grande atividade na margem direita da ravina, o
que se confirmou nos campos posteriores com grande deslizamento de material dos taludes,
soterrando degraus internos localizados junto à base do talude e o canal. Nesta área as
medidas de controle dos deslizamentos e as técnicas de estabilização devem ser mais intensas
em relação à margem esquerda, que se apresenta mais estável. A necessidade de isolar a área
em estudo do trânsito de gado bovino, também se confirmou através da observação de
pegadas associadas à queda recente de material, onde antes não havia sido verificada sua
deposição. As coletas de material vegetal nos taludes e a área de contribuição adjacente à
ravina permitiram verificar a ocorrência de 44 espécies vegetais, principalmente, com
predominância de plantas das famílias Poaceae e Asteraceae, o que balizou a seleção de
espécies a serem testadas, quanto ao seu potencial de propagação vegetativo e colonização de
áreas instáveis.

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REFERÊNCIAS
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FREITAS, E.M. Arenização e Fitossociologia da Vegetação de Campo no Município de São
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Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
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FREITAS, E.M. Campos de Solos Arenosos do Sudoeste do Rio Grande do Sul: Aspectos
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SUERTEGARAY, D. M. A.; GUASSELI, L. A.; VERDUM, R. Atlas da Arenização sudoeste do Rio Grande do Sul. 01. ed. Porto Alegre: Centro Estadual de Pesquisas em
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do Rio Grande do Sul. Faculdade de Agronomia. PPG em Zootecnia, Porto Alegre, Brasil-RS,
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Anais do VIII Sinageo. Recife, 2010. p. 01-12.
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Université de Toulouse Le Mirail, UFR de Géographie et Aménagement, Toulouse, 1997.