A importância das normas
técnicas na engenharia
Por Miracyr Assis Marcato*

O

Instituto de Engenharia,
dentro da sua política
de apoio e divulgação do uso das normas
técnicas na engenharia, fortalecendo o elo
entre a ciência e a experiência, realizou
em sua sede, no dia 25 de agosto passado, através de seu Departamento de Engenharia de Energia e Telecomunicações, uma
palestra sobre o tema, proferida pelo engº
José Sebastião Viel, superintendente do Comitê Brasileiro de Eletricidade, Eletrônica,
Iluminação e Telecomunicações (Cobei). O
Instituto, que já mantém convênios de colaboração com distintas entidades do gênero,
entre as quais a American Society of Civil
Engineers (Asce), promoveu a palestra com
o apoio institucional do Institute of Electrical and Electronic Engineers - Instituto dos
Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos ­ IEEE
ou I3E (como é habitualmente conhecido) ­,
que é uma entidade com mais de 390 000
sócios em 160 países ­ agrupados em dez
regiões (o Brasil pertence à 9ª região) ­, dedicada a promover o avanço da inovação e
da excelência tecnológicas nos campos da
eletricidade, eletrônica, computação e ciências afins como: micro e nanotecnologia,
ultrassonografia, bioengenharia, robótica
etc. sendo hoje a maior associação técnicoprofissional de todo o mundo.
O IEEE publica um terço de toda a literatura técnica universal nos campos da
engenharia elétrica, ciência da computação
e eletrônica e ocupa a liderança no desenvolvimento das normas que dão suporte
técnico à maioria dos modernos produtos
e serviços de telecomunicações, tecnologia
da informação e geração de energia. Além
disso, o IEEE tem procurado incentivar o ensino das normas técnicas nas Escolas, como
escreve Katty Kowalenko, editora do IEEE
- The Institute Newspaper, que, por oportuno, transcrevemos a seguir. Sob o título
O IEEE defende a introdução das Nor-

mas Técnicas nos currículos das escolas
de engenharia, diz Katty: "Existe uma porção de coisas que não se ensina nas escolas de engenharia, inclusive, como negociar
um contrato ou como administrar pessoas.
Acrescente-se a essa lista, a falta de conhecimento sobre as normas técnicas industriais. Embora as normas técnicas tendam
a desempenhar um papel preponderante
no desenvolvimento de novos produtos, os
engenheiros recém-formados muitas vezes
são surpreendidos com o alcance e formato
que as mesmas apresentam. Para familiarizar os estudantes com o assunto e ajudar
os engenheiros a fazer bom uso das normas
existentes o IEEE está buscando meios de
incorporar o conhecimento das normas técnicas aos currículos das escolas de engenharia, tecnologia e computação".
Esse objetivo foi detalhado numa proposição aprovada em junho (2009) pela
diretoria do IEEE. O documento enfatiza a
importância da inclusão nos programas acadêmicos das Normas Técnicas relativas às
áreas de interesse do IEEE. "Para motivar as
universidades e escolas até o ponto de dedicarem atenção às normas técnicas é necessário incentivá-las através de um processo
de credenciamento ­ que é um dos objetivos
fundamentais da elaboração do documento",
diz Steve Mills, membro senior do IEEE e presidente do Comitê de Ensino de Normas do
IEEE. A proposta é o resultado de dois anos
de trabalho de seu grupo, um comitê conjunto entre a Associação de Normas do IEEE
e a Diretoria de Atividades Educacionais do
IEEE. "Este documento será compartilhado
com entidades de credenciamento como a
Abet nos Estados Unidos, JABEE no Japão, e
ABEEK da Coreia. Com a ajuda de voluntários
do IEEE, como o representante do IEEE na
diretoria da Abet, iremos utilizar a proposta
para encorajar a discussão e o exame dos requisitos para o credenciamento em relação às

normas", continua Mills.
Várias associações de engenharia e de normas técnicas serão consultadas para revisar e
opinar sobre a proposta do IEEE, incluindo a
VDE, a Associação Alemã de Tecnologia Elétrica, Eletrônica e de Informação; e o Instituto
Britânico de Engenharia e Tecnologia (IET).
O problema
Em algum momento de suas carreiras, os
engenheiros serão requisitados para projetar
algum equipamento, escrever um programa
ou melhorar um sistema, utilizando uma norma técnica industrial. "Infelizmente muitos engenheiros e estudantes de computação nunca
viram uma norma técnica na escola", informa
o sócio Fellow do IEEE, Moshe Kam, vice-presidente do Comitê de Ensino de Normas.
"Hoje em dia os estudantes de engenharia têm possibilidades de se formar em diferentes especialidades, em várias partes do
mundo, sem nunca terem visto uma norma
técnica e, em muitos casos, sequer terem
ouvido falar delas", diz Kam. "Mesmo os que
estão cursando o último ano da faculdade,
é pouco provável que saibam fazer uso adequado das normas técnicas em seus trabalhos de final de curso."
"O IEEE pensa que esta situação deve
mudar", ele continua. "Os estudantes devem
ser familiarizados com as normas técnicas,
não só com as normas do IEEE, mas com as
normas técnicas em geral e com o processo
de normatização. Nosso projeto apresenta
recomendações sobre os modos pelos quais
os professores podem introduzir as normas
técnicas ­ especialmente no trabalho de fim
de curso, que é uma exigência quase que
universal nas escolas de engenharia".
As recomendações incluem:
1) Indicação de que determinado processo
ou dispositivo discutido em classe está coberto por uma norma técnica, com citação
da norma correspondente. Este objetivo
W W W. B R A S I L E N G E N H A R I A . C O M . B R

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DIVISÕÉS

T CNICAS

DIVISÕÉS

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pode também ser alcançado
com a utilização de livrostexto que resenhem e incluam
a referência às normas técnicas em suas explanações.
2) Introdução indireta de uma
norma técnica pela inclusão
de um resumo dos aspectos
principais de suas especificações nas notas de classe, trabalhos de casa, laboratórios ou projetos.
3) Uso extensivo de uma norma publicada
ou de parte importante da mesma nas aulas,
trabalhos de casa, laboratórios ou projetos
do estudante, durante o último ou penúltimo
anos do curso.

4) Uso e referência regular às normas técnicas em grandes projetos ou empreendimentos maiores. Especificamente, a relevância
e aplicabilidade das normas deverão fazer
parte dos relatórios de andamento e finais
dos principais projetos de fim de curso. Uma
pesquisa de normas no campo de aplicabilidade do projeto é tão importante como a
pesquisa da literatura naquele domínio.
"Não estamos pretendendo que as normas
técnicas sejam ensinadas indiscriminadamente, porque tal esforço seria difícil e provavelmente absorveria demasiado tempo" reconhece Kam. "Ainda assim, deveremos familiarizar
os nossos estudantes com uma noção sobre
as normas técnicas e fornecer-lhes algum trei-

namento, ainda que somente de caráter geral.
Não deveríamos deixar os estudantes com a
errônea impressão de que eles poderão projetar novos produtos e programas num ambiente livre de restrições, requisitos de compatibilidade e regras", diz ele, acrescentando
que, fornecendo conhecimento das normas
técnicas se poderá melhorar a preparação dos
estudantes para um competente desempenho
no mercado de trabalho.
* Miracyr Assis Marcato é engenheiro eletricista, consultor, membro do Conselho Deliberativo e diretor do
Departamento de Engenharia de Energia e Telecomunicações do Instituto de Engenharia ­ Membro da CIGRÉ e
Senior Life Member do IEEE
E-mail: [email protected]

Material antirradar e blindagem eletromagnética

A

estratégia de defesa marítima ou aérea
de qualquer país é fortemente baseada no uso de dispositivos que possibilitam a
detecção de um alvo. Contudo, o que aconteceria se houvesse uma forma de "enganar" os dispositivos? Buscando dificultar ou
minimizar a detecção ou visualização ótica,
acústica ou por meio de radar, foram criadas
técnicas apropriadas de camuflagem, que incluem o emprego de materiais absorventes,
mais conhecidos como materiais antirradar.
O avião invisível foi inventado pelos Estados
Unidos em 1958 e, desde então, recebe contínuos aperfeiçoamentos dos americanos e de
outros países desenvolvidos que têm interesse
em ampliar sua capacidade bélica de defesa e
ataque. O Brasil trabalha nesta área há muitos
anos nos âmbitos da Aeronáutica (CTA/ITA, em
São José dos Campos/SP) e da Marinha (IPqM,
Ilha do Governador, Rio de Janeiro/RJ, existindo
intercâmbio em engenharia de materiais com a
Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Em linguagem simplificada, as radiações
eletromagnéticas (EM) do radar emitidas por
uma fonte só enxergam o alvo (um avião, um
navio etc.) quando este está "de frente" para a
direção de onde vêm as ondas. Ao atingirem
o alvo, as ondas são refletidas de volta para a
fonte e o objeto é detectado. Se o alvo for muito delgado, como uma chapa fina, e estiver de
perfil, o radar verá apenas uma pequena tira

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Por Tsuneharu Ogasawara*
correspondente à espessura da chapa; a maior
parte da radiação passará direto e se perderá no
infinito, na "escuridão eletromagnética". Agora,
se a referida tira do perfil da chapa estiver recoberta por uma película absorvedora de radar,
a radiação incidente nesta superfície poderá
ser completamente aniquilada e a fonte das
ondas não receberá nenhum sinal em retorno.
Os dois princípios básicos de camuflagem
antirradar são: um recobrimento absorvedor
de radar (RAM = Radar Absorbing Material,
uma tarefa dos engenheiros de materiais)
e o projeto e construção de aviões e navios
com um mínimo de "superfície de frente para
o radar" ou Seção Reta Radar (RCS = Radar
Cross-Section). Corpos delgados e superfícies
suficientemente inclinadas em relação à direção das ondas do radar incidente ajudam a
alcançar tal configuração. A tecnologia global
neste contexto é conhecida como Stealth Technology ou Tecnologia de Camuflagem contra radiações eletromagnéticas (micro-ondas
incluindo as ondas de radar, infravermelho
e outros comprimentos de onda) e contra as
ondas sonoras usadas num sonar submarino.
Para que seja invisível a radares, toda a superfície do navio que permanece exposta acima
da água deve ser revestida com o material. A
radiação incidente do radar ao alcançar a superfície de um alvo pode ser absorvido/aniquilado de três maneiras distintas: 1) por interação

magnética com o material absorvedor pelo
qual a energia da radiação é dissipada nesse
material absorvedor sob forma de calor e não
retorna à fonte emissora; 2) pela interação dielétrica semelhante àquela que acontece quando um alimento é aquecido pela energia de
micro-ondas, num forno micro-ondas doméstico, onde a energia de micro-ondas é liberada
em forma de calor e não retorna mais à fonte
emissora; 3) pela condução de corrente elétrica
no material absorvedor em direção à estrutura
do navio, por exemplo, em que a energia da
onda eletromagnética do radar é consumida
na geração da referida corrente elétrica no material e não mais volta à fonte emissora.
O fenômeno real é bem mais complexo do que esta explicação simplificada e os
materiais absorvedores costumam ser híbridos ou mistos, conjugando as três formas
de dissipação da energia do radar neles. Eles
devem ainda ser o mais leve possível, bem
aderente à estrutura militar a ser protegida,
possuir resistência mecânica para resistir ao
esmagamento e ter estabilidade química/eletroquímica no ambiente onde trabalha.
* Tsuneharu Ogasawara é engenheiro industrial metalúrgico, pós-doutorado pelo Rutgers ­ The State University of New Jersey (USA), coordenador do Curso de
Engenharia de Materiais da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
E-mail: [email protected]