Artigo Original

http://dx.doi.org/10.4322/sobecc.2014.022

Centro de material de esterilização: parâmetros
espaciais e riscos físicos*
Supply and sterile center: spatial parameters and physical risks

Centro de material y esterilización: parámetros espaciales y riesgos físicos
Andréa Borges Araruna1, Maria Belén Salazar Posso2

RESUMO: Objetivo: O objetivo deste trabalho foi identificar os riscos físicos presentes no Centro de Material e Esterilização de dois
Estabelecimentos de Assistência à Saúde (EAS) públicos. Método: Trata-se de um estudo descritivo-exploratório, de campo, transversal,
com abordagem quantitativa. Por meio de um checklist baseado na RDC ANVISA nº 50/2002, coletaram-se os dados da dimensão físicoespacial dos Centros de Material e Esterilização e da presença de riscos físicos, em maio de 2013. Resultados: Na estrutura organizacional,
verificou-se que ambos os EAS possuem Centro de Material e Esterilização centralizado; porém, seu dimensionamento físico-espacial
e fluxo direcional entre as áreas são inadequados, assim como seus pisos, tetos, paredes, portas, ventilação, temperatura e iluminação
não atendem a essa resolução. Conclusão: Ambos os hospitais respeitam parcialmente as normas estabelecidas, comprometendo a
qualidade do trabalho desenvolvido no Centro de Material e Esterilização e, ainda, tais condições constituem-se em sério risco para a
saúde dos trabalhadores.
PALAVRAS-CHAVE:

Riscos ocupacionais; Enfermagem; Esterilização; Arquitetura Hospitalar.

ABSTRACT: Objective: The aim of the present study was to identify physical risks in the Supply and Sterile Center of two public hospitals.
Method: This is a field, cross-sectional, descriptive, exploratory study of quantitative approach. Through a checklist based on the resolution
RDC No. 50/2002 of the Brazilian Health Surveillance Agency - ANVISA, we collected data of the physical-spatial dimension of the
Central Sterile Supply and the presence of physical risks in May 2013. Results: Regarding the organizational structure, we found that
both Hospitals have a centralized Central Sterile Supply; however, their physical-spatial dimensioning and directional flow between
areas are inadequate, and their floors, ceilings, walls, doors, ventilation, temperature and lighting do not meet the resolution standards.
Conclusion: Both hospitals comply with the established standards partially, which compromises the quality of the work developed in
the Supply and Sterile Center and jeopardizes the workers' health.
KEYWORDS:

Occupational risks; Nursing; Sterilization; Hospital design and construction

Objetivo: el objetivo fue Identificar los riesgos físicos presentes en el Centro de Material y Esterilización de dos hospitales
públicos. Método: Se trata de un estudio descriptivo-exploratorio, de campo, transversal, con abordaje cuantitativo. Los datos fueron
recolectados mediante checklist de la RDC ANVISA nº 50/2002 en mayo de 2013. Resultados: en la estructura organizacional se
pudo verificar que ambos hospitales poseen Centro de Material y Esterilización centralizado; sin embargo, su dimensión y los flujos
direccionales entre sus áreas resultan inadecuados, así como sus pisos, techos, paredes, puertas, ventilación, temperatura e iluminación
tampoco cumplen la normativa. Conclusión: los dos hospitales respetan las normas establecidas, aunque parcialmente, comprometiendo la
calidad del trabajo desarrollado en el Centro de Material y Esterilización, y constituyendo un serio riesgo para la salud de los trabajadores.

RESUMEN:

PALABRAS CLAVE:

Riesgos laborales. Enfermería. Esterilización. Arquitectura de hospitales.

Enfermeira. Mestre em Bioengenharia (UNIVAP). Enfermeira do Hospital Geral de Caxias ­MA. Cel: (99) 8193-7933; (99) 8807-9730. E-mail: [email protected]
Enfermeira. Doutora (EEUSP). Professor pesquisador do Instituto de Desenvolvimento e Pesquisa da Universidade Vale do Paraíba. Rua Iperoig, 749 apto 111 Perdizes,
CEP 05016-000, São Paulo, SP, Brasil. Telefone (12) 3947-1106; (11) 99625-8831. E-mail: [email protected]
*Extraído da dissertação de Mestrado em Bioengenharia, intitulada: Centro de material e esterilização: dimensão físico-espacial e a presença de riscos físicos, apresentada à
UNIVAP. Defendida em 4/07/2013.

1
2

Recebido: 27 jan. 2014
Aprovado: 06 maio 2014

142

Rev. SOBECC, São Paulo. jul./set. 2014; 19(3):142-147

Centro de material de esterilização: parâmetros espaciais e riscos físicos

Introdução
O Estabelecimento de Assistência à Saúde (EAS)
caracteriza-se por oferecer assistência preventiva e curativa
de complexidade variável e de qualidade, em que vários
fatores contribuem para o alcance dessa missão1; porém, por
outro lado, a alta sofisticação de equipamentos eletromédicos
necessários para garantir tal missão pode apresentar uma
série de fontes potenciais de riscos2. O EAS é composto
por várias unidades de assistência, entre as quais o Centro
de Material e Esterilização (CME), uma unidade de apoio
técnico responsável por processar todo o material a ser
utilizado em todos os setores de um EAS3.
Nesse contexto, o CME destaca-se por ser uma área do
hospital ­ considerada crítica ­ que está envolvida diretamente
no controle de infecções e que exerce importante papel de
proteção anti-infecciosa dentro dos serviços de saúde 3.
Segundo o Ministério da Saúde4, o CME é definido como:
"... conjunto de elementos destinados à recepção, expurgo,
preparo e esterilização e guarda e distribuição do material
para unidades de estabelecimentos de saúde". A partir
dessa definição, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA), pela Resolução de Diretoria Colegiada ­ RDC
nº 50/20025, regulamentou o planejamento, a programação,
a elaboração e a avaliação de projetos físicos de EAS.
No Brasil, a Resolução de Diretoria Colegiada ­ RDC
nº 50/20025 ­ regulamenta o planejamento, a programação,
a elaboração e a avaliação de projetos físicos de EAS,
ressaltando que todos os projetos desses estabelecimentos
deverão ser elaborados de acordo, entre outros, com a referida
resolução, a fim de garantir a qualidade dos serviços prestados
e oferecer estrutura adequada para desenvolvimento das
atividades laborais dos profissionais.
O interesse em avaliar as estruturas dos CME dos EAS de
um município do Estado do Maranhão deveu-se à amplitude
do trabalho que ali é realizado. Assim, questionou-se: `As
estruturas físicas dos CME obedecem à legislação vigente
para esse fim?'; `Essa estrutura apresenta agentes físicos
capazes de interferir na saúde ocupacional dos profissionais
que ali desempenham suas atividades?'; `Por conseguinte,
quais seriam os riscos físicos a que estão expostos esses
trabalhadores?'.
Os EAS são um ambiente em que se desenvolvem
atividades múltiplas e complexas, possuindo um universo
tecnológico sofisticado para melhor assistir a seus clientes; tal
universo, por outro lado, apresenta fontes potenciais de riscos,
cujos agentes biológicos, físicos, químicos, psicológicos e
ergonômicos podem ser determinantes de acidentes e/ou
doenças ocupacionais6-8. Assim, a Portaria MET 3.214/78
do Ministério do Trabalho e Emprego (MET)9 classifica os
riscos em:
Riscos Físicos: calor, frio, ruído, vibrações, pressões
anormais, radiações ionizantes e não ionizantes, umidade,
sendo todos bem descritos nas Normas Regulamentadoras
9 e 15 (NR-09 e NR-159-12;

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Riscos Químicos: substâncias, compostos ou produtos que
possam invadir o organismo, seja pela via respiratória ­ nas
formas de poeiras, fumos, névoas, neblinas, gases ou
vapores ­ ou que, devido à natureza da exposição, possam
ter contato com a pele ou serem absorvidos por ingestão;
esses agentes são caracterizados e avaliados qualiquantitativamente9-13 (NR-09 e NR-15)9-13;
Riscos Biológicos: são bactérias, fungos, bacilos,
parasitas, protozoários, vírus, entre outros9-13;
Riscos Ergonômicos: fatores físicos e organizacionais
que afetam o conforto da atividade profissional e,
consequentemente, as características psicofisiológicas do
trabalhador9-11,13.
Esses riscos podem, ainda, ser classificados como
primários, secundários e terciários14, cuja potencialidade
de agravo ao trabalhador dependerá do cumprimento da
Legislação pertinente e do conhecimento e da atenção do
profissional no desenvolver de suas atividades, incluindo
os limites de tolerância. Acrescente-se a tais riscos o tipo
de manutenção, seja este advindo da instalação elétrica, dos
equipamentos gerais e eletromédicos, de incêndio/explosão,
do arranjo físico inadequado, do tipo de armazenamento
de material, da inadequação do equipamento de apoio, do
espaço restrito para a movimentação de equipamentos e
pessoal, entre outros15.
Dentro desse ambiente assistencial, o CME, pelas
características do trabalho ali desenvolvido, é considerado
propício à insalubridade dos profissionais que ali
desempenham suas atividades6; porém, ao mesmo tempo, é
uma unidade de vital importância para as demais unidades
hospitalares e tem relevante papel na qualidade da assistência
prestada aos clientes e na segurança dos profissionais que a
desempenham. Portanto, é fundamental que suas instalações
sejam corretamente planejadas.

Objetivo
Caracterizar os parâmetros físicos e as possíveis fontes de
risco dos CME de dois EAS de um município do Estado do
Maranhão, em conformidade com a RDC 50/20025.

Método
A pesquisa enquadra-se como pesquisa descritivoexploratória, transversal, de campo, com abordagem
quantitativa, realizada no CME de EAS públicos de um
município do Estado do Maranhão, mediante observação
direta, utilizando-se um checklist adaptado de Guadagnin
2006 e elaborado conforme os requisitos da RDC ANVISA
Nº 50/20025.
Foram dois (100%) os EAS públicos, sendo que um deles
presta assistência materno-infantil denominado "EAS A" e o
outro, atendimento geral e especializado, denominado "EAS
B", que possuíam CME. O EAS A é de médio porte, porém
é referência para 15 municípios no perímetro regional e
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Araruna AB, Posso MBS

47 municípios no perímetro macrorregional de um município
do Estado do Maranhão. O EAS A atende uma média de
450 procedimentos obstétricos por mês, possui 50 leitos
obstétricos em ALCON (alojamento conjunto), dez leitos de
pré-parto, duas salas de parto normal, duas salas cirúrgicas,
dois leitos de Recuperação Pós-anestésica; também há
11 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal,
cinco leitos de berçário, um CME, um banco de leite humano
e uma sala de transfusão.
O EAS B é de médio porte, com 125 leitos, que presta
atendimento de média e alta complexidade aos municípios
integrados na macrorregião de um município maranhense,
oferecendo atendimento a diversas especialidades. Possui
setor de emergência, composta de Recepção, Consultório,
Sala de parada cardiorrespiratória, Sala de raios-X, CME,
Farmácia, Centro Cirúrgico (CC), UTI, unidades de
internação divididas em quatro alas, além de lavanderia,
Nutrição, Laboratório, setores administrativos, Serviço
Social e Comissão de Controle de Infecção Hospitalar
(CCIH).
Os dados foram coletados após anuência assinada pela
Direção dos EAS A e B, autorizando o acesso ao espaço
físico para a realização da pesquisa, pelo fato de o estudo
não envolver seres humanos, no período 15 a 30 de maio de
2013. Dessa forma, o próprio pesquisador, após a autorização
dos gestores de cada instituição, adentrou a unidade de CME
das instituições.
A coleta de dados se deu por meio de um check list
adaptado de Guadagnin 200616 e elaborado conforme o
preconizado pela RDC ANVISA nº 50/20025, composto de
três partes: Parte A- Identificação dos EAS, composta de
quatro itens: Nome do EAS, Finalidade, Porte e Número de
Salas Cirúrgicas; Parte B- Identificação do CME, abrangendo
três itens: Tipo de estrutura organizacional do CME
(centralizado, semicentralizado ou descentralizado); Área
do CME; Setores presentes na CME: Recepção, Lavagem,
Preparo e Acondicionamento, Esterilização, Armazenamento
e Distribuição dos Artigos, Obediência ao fluxo correto dos
artigos; Parte C: Padrões arquitetônicos específicos de cada
setor: Expurgo, Preparo e Acondicionamento; Esterilização
física e química, e Armazenamento e Distribuição de
Material, abrangendo tipos e conservação de bancadas, piso,
paredes, tetos, cor, janelas, portas, ventilação e climatização,

e presença de exaustores, iluminação; instalação elétrica;
temperatura; nível de pressão sonora; presença de objetos
móveis (foco auxiliar com base instável e altura regulável
ou fixa); objetos suspensos nos tetos e fixos e salientes nas
paredes (altura do piso); ralos com abertura sobressalente no
piso; tipo de recipiente para esterilização química; presença
de escada de dois degraus (material e conservação).
Para a mensuração da área total e de cada setor, foi
utilizado o metro, e para registro icônico dos detalhes
de construção, utilizou-se uma câmera iSight® de cinco
megapixels da Apple®. Os resultados obtidos foram
armazenados em planilha do programa do MICROSOFT
OFFICE EXCEL 2007®, sendo suas frequências absolutas
e percentuais analisadas descritiva e quantitativamente, e
apresentadas sob forma de Tabelas e Quadro.

Resultados
Os resultados da pesquisa são expostos e discutidos em
forma de Tabelas e Quadro, conforme os parâmetros da RDC
nº 50/20025 e Guadagnin 200616, além de Posso; Sant'Anna8,
Bokor12, para citar alguns que diretamente se reportaram
aos riscos potenciais presentes na estrutura física dos CME
estudados.
A Tabela 1 apresenta a caracterização dos dois EAS
pesquisados, quanto a porte (número de leitos), nível
de complexidade, tipo de atendimento e referência de
atendimento em que ambos os EAS são de médio porte,
porém diferentes no tipo de atendimento.
Pela Tabela 2, detecta-se que ambos os EAS (100%)
apresentam a tinta acrílica como revestimento da parede, e as
portas de madeira, revestidas com tinta de esmalte sintético.
Quanto ao piso, há realidades diferentes: em todo o CME
do EAS A, o piso é de granilite (50%), e em todo o EAS
B, o piso é de granito (50%); por fim, ocorre a presença de
revestimento do teto, do tipo forro contínuo, em ambos os
EAS (100%); porém, encontrou-se forro removível somente
no EAS B (50%).
O Quadro 1 mostra a presença das fontes de risco físico nos
CME de ambos os EAS estudados, salientando a integridade
do piso e o teto contínuo no EAS 1.

Tabela 1. Caracterização dos Estabelecimentos de Assistência à Saúde (EAS) quanto a número de leitos, nível de complexidade, tipo de atendimento.
Maranhão, 2013.

Características
Número de leitos
Nível de complexidade
Tipo de atendimento
Referência de atendimento

EAS A

EAS B

78

125

Alta

Alta

Urgência/Ambulatorial/
Internação/SADT*

Urgência/Ambulatorial/
Internação/SADT*/ Vigilância em Saúde

Maternidade

Hospital Geral e Especializado

Fonte: Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, 2013. *Serviço de Apoio à Diagnose e Terapia.

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Centro de material de esterilização: parâmetros espaciais e riscos físicos

Tabela 2. Tipos de revestimento em piso, paredes, portas e teto dos CME dos EAS. Maranhão, 2013.

EAS A

Tipos

EAS B

N

%

N

TOTAL
%

N

%

Granilite (piso)

1

50

0

0

1

50

Granito (piso)

0

0

1

50

1

50

Tinta acrílica na parede

1

50

1

50

2

100

Tinta esmalte sintético em portas/madeira

1

50

1

50

2

100

Forro contínuo no teto (gesso)

1

50

1

50

2

100

Forro removível no teto (PVC)

0

0

1

50

1

50

Fonte: Pesquisa direta, 2013.

Quadro 1. Presença das fontes de risco nos CME dos EAS. Maranhão, 2013.

Fontes de risco físico

EAS A

EAS B

Presença de porta de madeira com ranhuras

Sim

Sim

Ausência de exaustor (expurgo+ área de esterilização física)

Sim

Sim

Ausência de janelas (expurgo)

Sim

Sim

Esterilização física compartilhada com a área de preparo

Sim

Sim

Dimensionamento incorreto

Sim

Sim

Pisos danificados

Não

Sim

Tetos falsos e removíveis

Não

Sim

Ausência de ar condicionado

Sim

Sim

Discussão
No que se refere ao número de leitos ofertados (Tabela 1),
sabe-se que estes determinarão vários critérios no planejamento
de um CME, como o dimensionamento das áreas específicas e
a sua área total. Na estrutura organizacional, verificou-se que
ambos os EAS possuem CME centralizado. Considerase esta
característica importante para a qualidade do processamento
dos artigos, tendo em vista que a centralização permite
o emprego de pessoal especialmente habilitado, com
supervisão do trabalho, bem como a padronização de técnicas
de limpeza e distribuição segura dos artigos estéreis3.
Pesquisa realizada em 44 hospitais de municípios do
Estado de Goiás encontrou uma realidade preocupante, na
qual apenas dez hospitais apresentavam CME centralizado,
o que dificulta a operacionalização dos serviços, interferindo
na qualidade do processamento dos artigos16. A qualidade do
serviço prestado é infinitamente maior quando as instituições
adotam o modelo de CME centralizado, especialmente
devido à redução dos riscos de infecção cruzada. Esta
recomendação justifica-se mediante três pontos-chave: a
eficiência, a economia e a maior segurança para a equipe e
para os clientes3.
Quanto à área total construída dos CME investigados,
em que se avaliou a obediência ao padrão proposto pela
RDC nº 50/20025, proporcionalmente à quantidade de seus
leitos, verificou-se que ambos os EAS estão de acordo com
o preconizado por essa Resolução. De posse das áreas em
metros quadrados de cada setor, faz-se a somatória e, então,

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se obtém a área total do CME; portanto, a área mínima do
EAS A seria de aproximadamente 45,1 m2 e a do EAS B, de
70,54 m2. Observou-se que ambos os hospitais obedecem à
RDC nº 50/20025 quanto à área total construída da CME,
pois encontrou-se que a área do EAS A foi de 69 m² e do
EAS B de 76 m².
O atendimento a esse critério visa à praticidade do
trabalho executado; é necessário um espaço amplo para
que os profissionais tenham mobilidade para executar suas
atividades com segurança técnica e científica ­ tendo em vista
que estas requerem atenção e cuidados ­, bem como para o
preparo adequado para evitar riscos físicos aos profissionais3.
Em relação à existência de setores preconizados pela RDC
nº 50/20025 incluídos no CME, ambos os EAS possuem
Recepção, Lavagem, Preparo, Armazenamento e Distribuição
para o fluxo correto do processamento dos artigos (recepção,
lavagem, preparo, armazenamento e distribuição) e, com isso,
evita-se risco para os profissionais. A literatura afirma que
área física da CME deve ser projetada de modo que se evite
cruzamento de artigos e do fluxo de funcionários3.
Nesta variável, avaliaram-se, além do revestimento das
paredes e dos pisos, o estado de conservação e a facilidade
para traumas mecânicos, caracterizados como riscos físicos
aos profissionais; para o alcance desses requisitos, faz-se
necessário que as paredes sejam sem trincas, sem saliências
e sem rachaduras, com pinturas intactas sem descamações3,5.
Nos CME observados, verificou-se que, no EAS A, as paredes
e os pisos estavam bem conservados, ressaltando que este
145

Araruna AB, Posso MBS

foi construído recentemente. Entretanto, outra realidade foi
constatada no EAS B, em que, apesar de as paredes estarem
bem conservadas, os pisos apresentavam-se trincados e com
desníveis em alguns setores.
A RDC nº 50/20025 recomenda que as áreas críticas devam
ser sempre priorizadas e, mesmo nas áreas semicríticas, os
materiais de acabamento devem ser monolíticos, ou seja,
lisos, com o menor número possível de ranhuras ou frestas,
mesmo que após o uso e a limpeza frequentes, isso os possa
tornar escorregadios8.
Rochas ígneas, como o granito, têm pouca porosidade e
permeabilidade, com uma variabilidade de absorção de água
de 0% a 0,5% se íntegros; este índice sofre alteração se for
danificado pelo intemperismo17, desfavorecendo, então, os
achados correspondentes para o EAS B. Quanto às portas,
cuja abertura se dá para dentro, estas possuem revestimento
de esmalte sintético lavável (Tabela 2); no entanto, observouse a presença de saliências e rachaduras, apresentando, assim,
riscos físicos aos profissionais.
Quanto ao revestimento do teto (Tabela 2), o EAS A
apresenta-o contínuo em toda a sua extensão, sendo que é este
o indicado, uma vez que se realiza a vedação do meio externo
com o meio interno; também não deve conter saliências e
nem frestas que possam dificultar a limpeza do ambiente5.
O teto do EAS B, por sua vez, possui revestimento contínuo
em toda CME, exceto na área de distribuição, em que é
removível, do tipo PVC. Convém salientar que nessa área
ficam armazenados os artigos já esterilizados, necessitando
um ambiente com bom arejamento e limpo; portanto, essa
condição é preocupante. De acordo com a literatura, esse
tipo de revestimento pode interferir na assepsia não só dos
ambientes como do acondicionamento dos materiais, pois
existe a possibilidade da passagem de partículas (poeira)
por entre as frestas, prejudicando assim as atividades
desenvolvidas no setor8.
Em relação à área da esterilização física, em ambos os
EAS, esta é compartilhada com as áreas de preparo. Há
existência de autoclave de barreira apenas no EAS B. Ainda,
verificou-se a inexistência de exaustor em ambos os EAS,
comprovando, assim, altas temperaturas no ambiente de
trabalho, visto que o processo de esterilização física gera
calor.
Acrescente-se que o EAS B possui três autoclaves de
barreira; destas, duas encontram-se dentro do CME em área
específica, porém a distância entre essas autoclaves é inferior
a 100 cm, e a outra se encontra na área de preparo; portanto,
não se atende a todos os requisitos preconizados para as
instalações da área de esterilização física5. Lôbo18 afirma que,
na existência de autoclave de barreira, deverá ser reservada
uma área imediata à retirada do material, com uma pequena
distância para o setor de armazenagem, de modo que haja
uma climatização intermediária entre a saída do instrumental
e sua guarda, com exaustão no ambiente, para que a transição
térmica evite a condensação, prejudicial à garantia de um
material esterilizado. Conforme constatação in loco, o EAS
146

B possui a referida área, porém não atende corretamente aos
critérios exigidos de ventilação e exaustão.
No caso do EAS A, que não possui autoclaves de barreira,
faz-se necessária a existência de uma área de manutenção,
cuja finalidade é evitar que técnicos em manutenção
adentrem no recinto do ambiente limpo ou estéril18. Referente
à existência de exaustores, o EAS A não os possui e os
do EAS B estão com defeito, ocorrendo, desta forma, o
comprometimento da esterilidade dos materiais e a criação
de um ambiente desfavorável ao trabalho executado pelos
profissionais.
No tocante à ventilação, ocorre o comprometimento do
CME como um todo e de alguns setores específicos, como
o expurgo, a esterilização física e química, e a área de
armazenamento, que necessitam de aeração e climatização;
porém, isso não ocorrendo em ambos os EAS, percebe-se
que suas inexistências afetam tanto o risco laboral quanto
a qualidade do processamento dos artigos. Atribuem-se,
como causas da Síndrome do Edifício Doente (SED), entre
outras, o controle deficiente da temperatura e as modificações
inadequadas após construções e/ou manutenção deficientes
do sistema de climatização, resultando em sintomas de
doenças e mal-estar dos trabalhadores19.
Assim, frequentemente, os profissionais de saúde
queixam-se de doenças, principalmente as que atingem o
trato respiratório sem uma causa definida, podendo estas ser
atribuídas ao sistema de ventilação, quando sua manutenção
é inadequada19. É de se notar como as temperaturas elevadas
afetam os profissionais, gerando desconforto, alterações
fisiológicas, comprometendo a saúde do trabalhador e
seu desempenho profissional devido aos sinais e sintomas
que pode apresentar, como: fadiga, erros de percepção e
raciocínio, cefaleia, estresses, desencadeando esgotamentos
e prostrações3,20. Vale salientar que ocorre a predominância
de um clima quente no Estado do Maranhão e um ambiente
de trabalho com temperaturas elevadas, aliadas ao reduzido
espaço de trabalho, certamente transforma o setor em um
ambiente insalubre e estressante, comprometendo, também,
a produtividade.
Pelo exposto, verifica-se pelo Quadro 1, a presença de
inúmeras fontes de risco nos CME dos EAS estudados,
que devem ser corrigidos ou minimizados, seguindo o que
é determinado pela Legislação vigente e pela literatura
especializada nessa Unidade tão essencial à dinâmica
hospitalar.

Conclusão
Conclui-se que ambos os hospitais atendem parcialmente
às normas estabelecidas, ocorrendo o descumprimento de
requisitos, o que prejudica a qualidade do processamento
de artigos hospitalares e constitui fator de risco para a saúde
dos trabalhadores.
Assim, as irregularidades encontradas trazem à luz a
necessidade da correta disposição da estrutura física da CME,

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Centro de material de esterilização: parâmetros espaciais e riscos físicos

face aos riscos existentes pela não obediência aos padrões e
normas que a Legislação preconiza para os Estabelecimentos
de Assistência à Saúde.
Assim, espera-se que o presente estudo sensibilize os
gestores locais para que atentem para a importância de
haver a adequação da estrutura física à Legislação vigente
e, dessa forma, propiciem ao setor condições favoráveis para
o desenvolvimento de suas atividades em sua inteireza, ou
seja, oferecer um ambiente de trabalho saudável e seguro
aos trabalhadores.

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