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Implantes curtos na mandíbula são seguros?
Are short implants in the mandible safe?
Ana Roseli de Queiroz GONÇALVES1
Andrea Leonardo da SILVA1
Flávia Rabello de MATTOS1
Marcelo Barbosa BARROS1
Sergio Henrique Gonçalves MOTTA1

RESUMO
Objetivo: Analisar a importância da bioengenharia e do aperfeiçoamento de técnicas cirúrgicas, demonstrando através dos índices alcançados a prevalência do sucesso na instalação de implantes dentais em região posterior da mandíbula, em qualidades ósseas D3, em pacientes
entre 52 e 60 anos, com próteses fixas sobre implantes de 8,5 mm.
Métodos: Este estudo retrospectivo teve os dados estatísticos coletados no Centro de Pós-Graduação do Centro Integrado de Odontologia,
Faculdades Sarandi da Academia de Odontologia do Rio de Janeiro, na clínica CLIVO, dentre um total de 2 294 implantes instalados na
mandíbula, no período de 1999 a 2007. Os implantes curtos totalizavam 1 056, com comprimento menor ou igual a 10 mm, dos quais
vinte implantes foram escolhidos de forma aleatória e analisados.
Resultados: Os dados sofreram tratamento estatístico e a comparação destes foi consubstanciada em análise construtiva de dados através
dos Métodos Estatísticos no reconhecimento de padrões de cada variável em estudo. O índice de sucesso obtido foi de 85% e verificou-se
a necessidade de tomar certos cuidados na indicação do seu uso.
Conclusão: A bioengenharia e o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas atuais otimizaram o uso dos implantes curtos com o objetivo de evitar cirurgias avançadas. Para compensar o menor tamanho devem-se observar alguns fatores, como: qualidade óssea, proporção coroa/
implante, número de implantes e diâmetro, geometria macroscópica e microscópica dos implantes, magnitude de forças e mesa oclusal.
Termos de indexação: biomecânica; engenharia biomédica; mandíbula.

ABSTRACT
Objective: To analyze the importance of bioengineering and the improvement in surgical techniques demonstrated by the rates attained of the
prevalence of successful placement of dental implants in the posterior region of the mandible, in D3 bone quality in patients between the ages
of 52 and 60 years, with dentures fixed on 8.5 mm implants.
Methods: The statistical data for this retrospective study were collected at the Post-Graduation Center of the Integrated Dentistry Center, Faculty
of Sarandi / Academy of Dentistry - Rio de Janeiro, at the CLIVO clinic, from among a total of 2 294 implants placed in the mandible, in
the period from 1999 to 2007. There was a total of 1 056 short implants, of a length shorter than or equal to 10 mm, among which 20
implants were randomly chosen and analyzed.
Results: The data were treated statistically and comparison of these data was consubstantiated in constructive data analysis by means of
Statistical Pattern Recognition Methods for each variable under study. A success rate of 85% was obtained, and the need to take certain care
when indicating the use of short implants was verified.
Conclusion: Bioengineering and the development of present day surgical techniques have optimized the use of short implants, with the aim of
avoiding advanced surgeries. To compensate the smaller size, there are some factors that must be observed, such as: Bone quality, crown/
implant ratio, number and diameter of implants, macroscopic and microscopic geometry of the implants, magnitude of mesial occlusal forces.
Indexing terms: biomechanic; bioengineering; mandible.

INTRODUÇÃO
O uso de implante dentário é considerado uma
proposta altamente confiável na Odontologia. Entretanto, a
frequente perda dentária precoce, fatores sistêmicos, dieta,
morfologia facial, hormônios, osteoporose, período de
edentulismo, associados ao uso de próteses mal adaptadas,
podem causar reabsorções ósseas de forma a superficializar
o canal mandibular, exigindo maior atenção no planejamento
do implantodontista para a região mandibular1.

1

A limitação anatômica que a presença do nervo
alveolar inferior impõe à qualidade óssea e a magnitude da
carga oclusal neste local são fatores a serem considerados no
momento do planejamento de implantes2.
Existem alternativas de tratamento para a
mandíbula atrófica, tais como enxertos autógenos, mas os
resultados são variados, custosos ao paciente, necessitam de
maior tempo de tratamento, apresentam maior morbidade
e, ainda, nem sempre proporcionam índices de sucesso
desejados3.

Academia de Odontologia do Rio de Janeiro, Faculdades Sarandi, Centro Integrado de Odontologia. Rua Barão de Flamengo, 22, sala 801, Botafogo,
22220-900, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Correspondência para / Correspondence to: ARQ GONÇALVES. E-mail: .

RGO, Porto Alegre, v. 57, n.3, p. 287-290, jul./set. 2009

ARQ GONÇALVES et al.

O desenvolvimento da bioengenharia associado
ao aprimoramento das técnicas cirúrgicas proporcionaram um elevado grau de sucesso relacionado aos implantes curtos, associados à observação de alguns tópicos,
com o intuito de contribuir no planejamento seguro de
tais implantes. A proposta deste trabalho é verificar, através de revisão bibliográfica e de estudo retrospectivo, o
grau de sucesso obtido com a instalação de implantes curtos na mandíbula.

Analogamente, a Figura 3 mostra que o tamanho de
implante 8,5 mm obteve sucesso mais frequente, com 55%
dos casos. Entretanto, os implantes de 7, 9 e 10 mm obtiveram
sucesso em 100% dos casos. Assim, as chances de sucesso de
aplicação do implante serão de 85% dos pacientes.
Da mesma forma, a Figura 4 demonstra que a
prótese fixa teve o índice de sucesso mais frequente (60%).
Entretanto, a prótese unitária obteve 100% de sucesso na
aplicação do implante.

MÉTODOS
Este estudo retrospectivo obteve dados estatísticos
coletados no Centro de Pós-Graduação Academia de
Odontologia do Rio de Janeiro, na clínica CLIVO, dentre um
total de 2 294 implantes instalados na mandíbula, no período
de 1999 a 2007. Destes, 1 056 implantes eram curtos, com
comprimento menor ou igual a 10 mm, dos quais vinte foram
escolhidos de forma aleatória e analisados. Foram avaliados
pacientes que receberam prótese fixa, unitária e que não
receberam prótese, havendo 14 próteses fixas, 5 unitárias e 2
implantes sem prótese alguma.
As variáveis consideradas foram: idade, densidade
óssea, tamanho do implante (de 7 a 10 mm) e o tipo de
prótese (unitária, fixa ou sem prótese). Todos os implantes
possuíam superfície tratada com duplo ataque ácido. Os
estudos aqui apresentados foram autorizados pelos pacientes.
Todos os pacientes foram informados sobre os objetivos e
procedimentos aos quais seriam submetidos, e assinaram
um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os dados
sofreram tratamento estatístico e a comparação destes foi
consubstanciada em análise construtiva de dados através dos
Métodos Estatísticos no reconhecimento de padrões de cada
variável em estudo.

Figura 1. Relação do grau de sucesso e densidade óssea.

Figura 2. Distribuição de frequência entre grau de sucesso e idade do

paciente.

RESULTADOS
A Figura 1 demonstra que a densidade óssea bem
sucedida foi a D3, com 50% do total dos implantes aplicados. Entretanto, a densidade D2 obteve índice de sucesso de
100%. O índice de "sem resposta" que foram bem sucedidos
é de 20%.
Na Figura 2, de forma análoga, pôde-se demonstrar
que, com exceção dos intervalos de 36 a 44 anos e de 69 a 76
anos, obtiveram 100% de sucesso todos os outros intervalos
de idade, sendo o sucesso mais frequente o intervalo 52 a 60
anos, com 30%.

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Figura 3. Relação do grau de sucesso e tamanho do implante.

RGO, Porto Alegre, v. 57, n.3, p. 287-290, jul./set. 2009

Implantes curtos na mandíbula

Figura 4. Relação do grau de sucesso e tipo de prótese.

DISCUSSÃO
O nervo alveolar inferior é uma estrutura nobre, presente na região mandibular. Com a ausência dos elementos dentários e o uso continuado de próteses removíveis sobre a área
edêntula, ocorre um processo de reabsorção óssea do rebordo
alveolar, diminuindo a altura óssea mandibular, de forma a tornar o nervo alveolar inferior mais próximo da crista do rebordo
ósseo3-4. Deste modo, a instalação de implantes dentários e até
mesmo o uso de próteses convencionais torna-se difícil5.
Como formas de tratamento para esta situação de
limitada altura mandibular posterior, existem as seguintes
alternativas: cirurgias avançadas, como lateralização do
nervo alveolar inferior5, distração osteogênica6, enxerto
interposicional7, uso de implantes inclinados8; implantes
curtos1,8-11.
O planejamento ideal para instalação de implantes
curtos deve ser realizado através de análise radiográfica,
tomográfica e de uma detalhada anamnese. Com estes
artifícios de diagnóstico e planejamento, é possível estabelecer
a altura e espessura óssea disponíveis, a zona de segurança
descrita4 e possíveis situações que possam contraindicar o uso
de implantes curtos na mandíbula4,9.
Um protocolo cirúrgico pode ser preconizado para
evitar a injúria ao nervo alveolar inferior10. Deve-se usar
anestesia local infiltrativa, evitando-se a anestesia troncular,
uso de cursores nas brocas e preparo do sítio ósseo até 1 a 2
mm de zona de segurança2,11.
Maló et al.1, Chiarelli et al.10, Melhado et al.11, Misch
12
et al. e Sendyk et al.13, relatam altos índices de sucesso dos
implantes curtos, porém devem ser considerados alguns
aspectos a fim de maximizar o sucesso destes implantes,
são eles: qualidade óssea, diâmetro, geometria, desenho,
tratamento de superfície dos implantes, número e posição
dos implantes, proporção coroa-implante, tipo de oclusão e
magnitude de forças1,10-13.

Os resultados obtidos demonstraram que os
implantes instalados na região posterior da mandíbula e que
receberam prótese fixa obtiveram maior grau de sucesso
(60%), muito embora os que receberam próteses unitárias
tenham tido 100% de sucesso na aplicação do implante. Isto
pode ser explicado pela maior distribuição de forças pelos
implantes esplintados entre si4,11-12.
A qualidade óssea também foi uma das variáveis
observadas neste estudo retrospectivo. Obteve-se índice
de sucesso de 100% no osso D2 e de 83% dos implantes
instalados em osso D3. Isto confirma a afirmativa de vários
autores que consideram a qualidade óssea um dos fatores
determinantes no sucesso dos implantes curtos9,10-14.
Osso do tipo D3 foi encontrado, neste estudo, na
maioria dos casos (60%), apresentando grau de sucesso de
50% do total dos implantes aplicados. Osso do tipo D1 e D2
representaram 10% cada um. Considerando a qualidade óssea
um fator de suma importância para o sucesso de implantes
curtos, ossos mais macios são 50 a 80% mais fracos que os
mais densos1,11-12,14.
Com relação à idade do paciente, tanto no intervalo
de 36 a 44 anos como no de 69 a 76 anos obteve-se insucessos, havendo 100% de grau de sucesso nas outras faixas,
não se podendo, porém, afirmar que a idade tenha sido fator
determinante para o grau de sucesso dos implantes. Estes
resultados estão coerentes com os obtidos no estudo de Motta5, onde o maior índice de perda dos implantes ocorreu entre
40 e 69 anos.
Entre os diferentes tamanhos dos implantes, que
variaram entre 7 e 10 mm, os de 8,5 mm obtiveram sucesso
mais frequente, embora os de 7,9 e 10 mm tenham tido
sucesso de 100% na amostragem.
A mesa oclusal em implantes curtos na mandíbula
posterior deve ser a mais estreita possível, com cúspides
baixas. A máxima intercuspidação deve ser em relação cêntrica
do paciente, proporcionando liberdade nos movimentos
excêntricos, guia canina desocluindo os elementos posteriores
na lateralidade e a guia anterior desocluindo os elementos
posteriores na protrusão4.
A bioengenharia e o desenvolvimento de técnicas
cirúrgicas atuais aperfeiçoaram o uso dos implantes curtos,
com o objetivo de evitar cirurgias avançadas. A vantagem
da utilização dos implantes curtos está no fato de serem
menos custosos ao paciente quando comparados aos custos
das cirurgias avançadas, necessitando de menos tempo para
finalização do tratamento, apresentando menor morbidade e
complicações pós-operatórias e melhor aceitação por parte
do paciente.
A proporção de sucesso da aplicação do implante
foi de 85% dos implantes instalados na mandíbula.
Entretanto, este valor não é significativo, pois a proporção
de sucessos é tendenciosa, visto que a técnica utilizada é
bem sucedida.

RGO, Porto Alegre, v. 57, n.3, p. 287-290, jul./set. 2009

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ARQ GONÇALVES et al.

CONCLUSÃO
Através dos métodos estatísticos aplicados
consubstanciados no reconhecimento de padrões de cada
variável em estudo, conclui-se que a prevalência de sucesso
da instalação de implantes na região posterior da mandíbula
foi nos pacientes com densidade óssea D3, com idade entre
52 e 60 anos, com tamanho do implante de 8,5mm e com
prótese fixa. O grau de sucesso dos implantes instalados na
região posterior da mandíbula foi de 85%. Este índice foi
obtido com os dados levantados de vinte implantes que foram
incluídos no estudo retrospectivo realizado. Conclui-se que

REFERÊNCIAS
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função. ImplantNews. 2007;4(6):673-6.

a bioengenharia e o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas
atuais aperfeiçoaram o uso dos implantes curtos com o
objetivo de evitar cirurgias avançadas.

Colaboradores
ARQ GONÇALVES e AL SILVA foram
responsáveis pela coleta de dados e desenvolvimento do
texto. FR MATTOS foi responsável pela revisão do artigo.
MB BARROS foi responsável pela coleta dos dados. SHG
MOTTA foi responsável pela orientação do artigo.

8. Peleg M, Mazor Z, Chaushu G, Garg AK. Lateralization of the
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em mandíbulas: acompanhamento de dois a 14 anos. Implant
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290

RGO, Porto Alegre, v. 57, n.3, p. 287-290, jul./set. 2009

Recebido em: 27/2/2009
Aprovado em: 11/4/2009