A PRÁTICA AGROFLORESTAL DE ESTACAS VIVAS COM AROEIRA
VERMELHA (Schinus terebinthifolius RADDI): RESULTADOS PRELIMINARES
SOBRE OS EFEITOS DOS TRATAMENTOS DIÂMETRO E INCISÃO NA CASCA.
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Joel Henrique Cardoso ; Alberto Blank Schwonke ; Jair Costa Nachtigal
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Pesquisador Embrapa Clima Temperado, [email protected]; Estudante de Agronomia UFPel
­ Universidade Federal de Pelotas e Estagiário na Embrapa Clima Temperado, Endereço : Estação
Experimental Cascata, BR 392, Km 78, CP: 403, CEP 96.001-970 ­ Pelotas, RS

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RESUMO
O estudo foi realizado no Território Sul do Rio Grande do Sul, município de Pelotas, na Embrapa
Clima Temperado, Estação Experimental Cascata (EEC). Este pretende aprimorar a prática
agroflorestal de estacas vivas com aroeira vermelha (Schinus terebinthifolius Raddi.), utilizada por
um agricultor ecológico da região. Para tanto, implantou-se um experimento em que testou-se os
efeitos do diâmetro e incisão na casca das estacas. O desenho experimental utilizado foi o
completamente casualizado, com 10 estacas de 2,00 m. de altura para cada uma das 4 classes de
diâmetro (3-6 cm; 6-9 cm; 9-12 cm; 12-15 cm). Dentro de cada classe de diâmetro foram feitas
incisões na casca em cinco das 10 estacas, a altura de 5 cm, 10 cm e 15 cm a partir da base.
Preliminarmente, pode-se dizer que a aroeira vermelha é uma espécie que apresenta taxas elevadas
de brotação em estacas gigantes. As estacas de menor diâmetro tiveram brotações maiores, mais
abundantes e melhor distribuídas. O tratamento incisão na casca não teve efeitos significativos sobre
as variáveis estudadas. O estudo terá continuidade, bucando-se compreender o processo de
brotação, enraizamento e fenologia das estacas, assim como as interações desta espécie com outras
culturas, ampliando o conhecimento já sistematizado pelo agricultor, a fim de aumentar a
sobrevivência das estacas que integrarão cercas vivas e estruturas vivas de sustentação em
pomares.
Palavras-chaves: Conhecimento local; SAF; palanque vivo; agroecologia; pesquisa participativa.
ABSTRACT
The study was accomplished in Embrapa Temperate Climate, Experimental Station Cascata (EEC),
Pelotas, RS. This study intends to perfect the practice agroflorestal of alive stakes with red aroeira
(Schinus terebinthifolius Raddi.), that it is used by an ecologist farmer of the region. For so much, an
experiment was implanted at experimental station that it intends to identify the effects of the diameter
and incision in the peel of the stakes. The used experimental design was it randomized blocks, with 10
stakes for each one of the 4 diameter classes tested (3-6 cm; 6-9 cm; 9-12 cm; 12-15 cm). Inside of
each diameter class they were made incisions in the bark of five stakes, the height of 5 cm, 10 cm and
15 cm starting from the base. Can be said that the red pepper is a species that presents high taxes of
buds in gigantic stakes. The stakes of smaller diameter had buds larger, more abundant and best
distributed. The treatment incision in the bark didn't have significant effects on the studied variables.
This study will continue being evaluated, as for the shoot process, rooting and phenology of the
stakes, as well as the interactions of this species with other cultures, enlarging the knowledge already
systematized by the farmer, in order to enlarge the survival of the stakes that they will integrate lives
fences and lives structures of support of orchards.
Key words: Local knowledge; AFS; Live stake; Agroecology, Participatory research.
1 - INTRODUÇÃO
O presente estudo foi realizado no Território Sul do Rio Grande do Sul, município de Pelotas, na
Embrapa Clima Temperado, Estação Experimental Cascata (EEC). A EEC está situada na face leste
da Serra do Sudeste, a 160 m de altitude e, aproximadamente, a 30 km da Lagoa dos Patos. De
acordo com o IBGE (1986), a vegetação natural é classificada como Floresta Estacional Semidecídua (FESD).
Este estudo procura aprimorar uma prática agroflorestal que vem sendo adotada por um agricultor
ecológico da região de Pelotas, que apesar de ser bastante conhecida, não tem sido replicada em
outros agroecossistemas ou sistemas de produção. A prática em questão consiste no uso de estacas
vivas gigantes de aroeira vermelha (Schinus terebinthifolius Raddi.) para a sustentação de pomares.
Os sistemas de produção dominantes da região são a pecuária de corte e orizicultura nas áreas de
Terras Baixas e horticultura, fruteiras de clima temperado e bovinocultura de leite nas áreas de

agricultura familiar.
Apesar de haver uma grande demanda por estacas para o cercamento de áreas de pecuária e para a
fruticultura, especialmente para a viticultura, não se tem registros do uso extensivo de estacas vivas
na região de estudo.
A prática do uso de estacas vivas gigantes é bastante conhecida em todo o mundo (WOJTKOWSKY,
1998) e representa uma oportunidade identificada pelos manejadores dos agroecossistemas para
ampliar o intervalo de substituição de estacas, podendo-se agregar outras vantagens como o
aproveitamento dos ramos que crescem das estacas vivas para a produção de lenha ou mesmo
como biomassa para adubação do solo. Além disso, as estacas vivas podem proteger os cultivos ou
pastagens da ação abrasiva dos ventos dominantes e da ação direta do sol e de chuvas torrenciais,
ambos prejudiciais as plantas e ao solo que as nutre e sustenta.
Wojtkowsky (1998) discute algumas práticas agroflorestais que servem para dividir áreas (cercas
vivas) ou para sustentar espécies de hábito prostrado e perenes (maracujá, kiwi, pimenta do reino e
videira) que utilizam estacas vivas. A maioria das inovações em termos de práticas e sistemas
agroflorestais tem sua origem em conhecimentos tradicionais (NAIR, 1993) que são desenvolvidos
pelos próprios agricultores.
Esta afirmação é evidenciada pelo uso de estacas vivas, que é adotada em muitos lugares e
envolvem diversas espécies vegetais de porte arbóreo ou arbustivo, que possuem a capacidade de
rebrotar e enraizar a partir de estacas gigantes. Exemplos que podem ser citados é o uso de espécies
do gênero Quercus, Populus e Ulmus em pomares de videira no noroeste de Portugal (ALTIERE;
NICHOLLS, 2002), uso do Plátano em pomares de videira na Serra Gaúcha e uso de espécies de
leguminosas como estacas vivas de múltiplo propósito, que além de servirem como estrutura de
sustentação de arames para cerca, fornece sombra e forragem para os animais.
Considera-se que o estudo com estacas vivas gigantes de aroeira vermelha teve resultados
promissores, o que poderá aprimorar ainda mais a técnica utilizada pelo agricultor-pesquisador que
motivou este experimento. Os dados apresentados aqui possuem caráter preliminar e deverão ser
complementados por outras avaliações e experimentos, de forma que esta tecnologia se aperfeiçoe
no sentido de gerar autonomia para os agricultores, valorização da biodiversidade local e espírito de
conservação dos recursos naturais.
2 - METODOLOGIA
O experimento foi implantado em novembro de 2008 e consistiu na avaliação do processo de
brotação de 40 estacas de 2,0 m de comprimento, enterradas verticalmente a 0,5 m de profundidade.
As estacas foram selecionadas em 4 classes de diâmetro. Cada classe de diâmetro foi submetida a
dois tratamentos, que consistiu em cinco estacas com incisão na casca, a altura de 5 cm, 10 e 15 cm
da base e outras cinco que não sofreram incisão. As estacas foram extraídas de remanescentes
florestais, em estágio inicial de regeneração, existentes na área da EEC. Para a extração das estacas
foi utilizado motosserra e as incisões na base das estacas foram feitas com auxílio de facão. As
classes de diâmetro utilizadas foram 3-6, 6-9, 9-12 e 12-15 centímetros. Procurou-se retirar o máximo
de estacas de um mesmo indivíduo, observando que a parte aérea da planta não fosse
completamente eliminada. As estacas foram enterradas em linha, com espaçamento de 1 m entre
estacas e 1 m entre linhas. O intervalo de tempo entre a extração e plantio das estacas não
ultrapassou 24 horas, cuidado tomado para reduzir o ressecamento dos palanques.
O delineamento experimental utilizado foi o completamente casualizado e as variáveis avaliadas aos
três meses da implantação foram a presença de brotação, número de gemas brotadas, tamanho das
brotações e perfil de distribuição das gemas ao longo da estaca, de forma que a contagem e medida
das gemas brotadas foi realizada sempre que se observou pelo menos uma gema em
desenvolvimento. A medição das brotações foi efetuada com auxílio de régua milimetrada.
Considerou-se como brotação o conjunto de tecido meristemático secundário que emerge de um
mesmo ponto da estaca.
A análise do experimento foi realizada com o apoio do programa estatístico SANEST (ZONTA;
MACHADO, 1995). Os tratamentos classe de diâmetro (3-6; 6-9; 9-12; 12-15) e incisão na casca
foram submetidos a análise da variância a 95% de significância estatística, conferida pelo Teste F
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