ANOS

volume

39

312Quitosana: da Química Básica à Bioengenharia

L. O. Felipe, L. A. Rabello, E. N. O. Júnior e I. J. B. Santos

321Contribuições da sociologia de Bourdieu para
repensar a educação e o ensino de ciências
L. Massi

329Temática Chás: Uma Contribuição para o Ensino de
Nomenclatura dos Compostos Orgânicos
F. E. F. da Silva, V. G. P. Ribeiro, N. V. Gramosa e S. E.
Mazzetto

339Do Senso Comum à Elaboração do Conhecimento
Químico: Uso de Dispositivos Didáticos para
Mediação Pedagógica na Prática Educativa
F. J. Mininel, R. C. G. F Di Nardo, L. A. A. De Oliveira e M.
E. B. Arnoni

347O Ensino de Química para alunos surdos: o
conceito de misturas no Ensino de Ciênciasi

nº 4, Novembro
novembro 2017

N. C. S. Mendonça, A. P. de Oliveira e A. M. C. Benite

356O professor formador em foco: identidade e
concepções do fazer docente
S. P. Heidelmann, G. S. A. Pinho e M. C. P. Lima

368Considerações de professores em relação à
implantação da Proposta Curricular de Química
do Estado de São Paulo

S. M. X. Mininel, F. J. Mininel, R. C. G. F. Di Nardo e L. A.
A. de Oliveira

373Adaptação Metodológica de Processos
Oxidativos Avançados (POAs) na degradação
de corantes para aulas experimentais de Ensino
Médio

A. F. Pitanga, B. L. S. dos R. Santos, L. B. da Rocha, L. D.
dos Santos e W. M. Ferreira

ISSN 0104-8899

ISSN (on-line) 2175-2699

Indexada no Chemical Abstracts e EDUBASE

Novembro
2017
Vol. 39, Nº 4

EDITORES
Paulo Alves Porto (IQ-USP)
Salete Linhares Queiroz (IQSC-USP)

CONSELHO EDITORIAL
Alice Ribeiro Casimiro Lopes (FE-UERJ - Rio de Janeiro, RJ - Brasil)
António Francisco Carrelhas Cachapuz (UA - Aveiro, Portugal)
Attico Inacio Chassot (IPA - Porto Alegre, RS - Brasil)
Aureli Caamaño (UB - Barcelona, Espanha)
Edênia Maria Ribeiro do Amaral (UFRPE - Recife, PE - Brasil)
Eduardo Fleury Mortimer (UFMG - Belo Horizonte, MG - Brasil)
Eduardo Motta Alves Peixoto (IQ-USP - São Paulo, SP - Brasil)
Gisela Hernández (UNAM - Cidade do México, México)
Julio Cezar Foschini Lisbôa (GEPEQ-USP - São Paulo, SP - Brasil)
Lenir Basso Zanon (UNIJUÍ - Ijui, RS - Brasil)
Luiz Henrique Ferreira (UFSCar - São Carlos, SP - Brasil)
Marcelo Giordan (FE-USP - São Paulo, SP - Brasil)
Otávio Aloísio Maldaner (UNIJUÍ - Ijui, RS - Brasil)
Peter Fensham (QUT - Vitória, Austrália)
Roberto Ribeiro da Silva (UnB - Brasília, DF - Brasil)
Roseli Pacheco Schnetzler (UNIMEP - Piracicaba, SP - Brasil)

ASSISTENTE EDITORIAL
Giseli de Oliveira Cardoso

Química Nova na Escola é uma publicação trimestral da
Sociedade Brasileira de Química que tem como local de
publicação a sede da sociedade localizada no
Instituto de Química da USP Bloco 3 Superior, São Paulo - SP, Fone (11) 3032-2299,
Endereço-e: [email protected]
Indexada no Chemical Abstracts, DOAJ, Latindex e EDUBASE

Sumário/Contents
Química e Sociedade / Chemistry and Society
312 Quitosana: da Química Básica à Bioengenharia

Chitosan: from basic chemistry to bioengineering
L. O. Felipe, L. A. Rabello, E. N. O. Júnior e I. J. B. Santos

Espaço Aberto / Issues/Trends
321 Contribuições da sociologia de Bourdieu para repensar a educação e o
ensino de ciências

Contributions from Bourdieu's sociology to rethink Education and
Science education
L. Massi

Relatos de Sala de Aula / Chemistry in the Classroom
329Temática Chás: Uma Contribuição para o Ensino de Nomenclatura dos
Compostos Orgânicos

Thematic Teas: A contribution to teaching the Nomenclature of the
Organic Compounds
F. E. F. da Silva, V. G. P. Ribeiro, N. V. Gramosa e S. E. Mazzetto
339 Do Senso Comum à Elaboração do Conhecimento Químico: Uso de
Dispositivos Didáticos para Mediação Pedagógica na Prática Educativa

The Common Sense of Chemical Knowledge Development: Use of
Didactic devices Pedagogical Mediation in Educational Practice
F. J. Mininel, R. C. G. F Di Nardo, L. A. A. De Oliveira e M. E. B. Arnoni

Correspondência deve ser enviada para:
Química Nova na Escola
Caixa Postal 26037

347 O Ensino de Química para alunos surdos: o conceito de misturas no

05513-970 São Paulo - SP

Ensino de Ciênciasi

Fax (11) 3814-3602
Endereço-e: [email protected]

Teaching chemistry for deaf students: the concept of mixtures in science

Endereço: Av. Prof. Lineu Prestes, 748

classes

05508-900, São Paulo - SP, Brasil
Fone: (11) 3032-2299
Química Nova na Escola na internet:
http://qnesc.sbq.org.br

N. C. S. Mendonça, A. P. de Oliveira e A. M. C. Benite

Ensino de Química em Foco / Chemical Education in focus
356 O professor formador em foco: identidade e concepções do fazer

Copyright © 2017 Sociedade Brasileira de Química
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não tenham sido publicados anteriormente e não sejam submetidos ou pu
blicados simultaneamente em outro periódico. Ao submeter o manuscrito, os
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Editorial, os Editores e respectivos funcionários, diretores e agentes isentam-se,
totalmente, de qualquer responsabilidade pelas consequências de quaisquer
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docente

The teacher trainer in focus: identity and conceptions of the teaching
practice
S. P. Heidelmann, G. S. A. Pinho e M. C. P. Lima
368 Considerações de professores em relação à implantação da Proposta
Curricular de Química do Estado de São Paulo

Teachers' considerations on the chemistry curriculum of São Paulo State
S. M. X. Mininel, F. J. Mininel, R. C. G. F. Di Nardo e L. A. A. de Oliveira

Experimentação no Ensino de Química / Practical Chemistry
Experiments
373 Adaptação Metodológica de Processos Oxidativos Avançados (POAs)
na degradação de corantes para aulas experimentais de Ensino Médio

Methodological adaptation of Advanced Oxidation Process (AOPs) in
diagramação/capa

Hermano Serviços de Editoração

degradation of dyes for experiments in high school
A. F. Pitanga, B. L. S. dos R. Santos, L. B. da Rocha, L. D. dos Santos e W. M. Ferreira

ANOS

Editorial

http://dx.doi.org/10.21577/0104-8899.20160088

Profissão: Professor
O que é preciso para ser um professor? A julgar pela
imagem, amplamente divulgada pela mídia, do rosto ensanguentado da Profa. Marcia Friggi, agredida por um aluno em
sua escola em Santa Catarina, talvez seja necessário algum
treinamento em defesa pessoal. Mas, talvez as exigências não
sejam muitas. Um jornal distribuído na região de Campinas,
São Paulo, por um dos maiores grupos de comunicação do
país, exibiu em manchete, nestes tempos de desemprego
em alta: "Professores e garçons estão entre os bicos mais
buscados". Não se pode dizer que se trata de uma opinião
isolada. Uma das maiores empresas do ramo de universidades
do país contratou um animador de auditório, conhecido por
seu avantajado apêndice nasal e por promover a reforma de
carros usados, para proclamar em sua propaganda: "Tornese professor e aumente sua renda". O anúncio acrescentava:
"Curso 100% online. Não precisa de vestibular!" Em outro
episódio, um partido político estampou em seu site oficial
uma iniciativa realmente inovadora: "Sob o comando do
prefeito Duarte Nogueira (PSDB), o município de Ribeirão
Preto (SP) lançou um projeto que cria um sistema de trabalho
cuja ideia é pagar por aulas avulsas a docentes, sem ligação
com o município, sempre que faltarem profissionais na rede
municipal de ensino. Apelidado de `Uber da Educação' ou
`Professor Delivery', a proposta busca resolver o problema da
falta de docentes nas escolas. (...) De acordo com o projeto, o
professor não teria vínculo empregatício com a prefeitura e o
acionamento se daria por aplicativos, mensagens de celular ou
redes sociais. Após receber a chamada, o professor teria 30 minutos para responder se aceita a tarefa e uma hora para chegar
à escola. Caso contrário, outro seria acionado no seu lugar."1
Chama a atenção que a Secretária da Educação do município,
responsável pela proposta, é uma ex-reitora da Universidade
de São Paulo, Suely Vilela. O "Uber da Educação", porém,
foi rejeitado pelo Conselho de Educação de Ribeirão Preto.
A cada vez que nos deparamos com situações como essas, reveladoras da desvalorização do trabalho docente pela
sociedade, nos perguntamos: como incentivar os jovens a se
tornarem professores? Que atrativo ainda pode haver na profissão? Em termos objetivos, há pouco a dizer. Aparentemente,
só nos resta contar com o desejo de muitos jovens de mudar
o mundo ­ ou talvez fosse melhor dizer, de mudar o mundo
mudando as pessoas por meio da Educação. Entretanto, contar
apenas com o idealismo não basta. Nestes tempos de tantos
ataques a direitos e conquistas que deveriam caracterizar uma
sociedade civilizada, temos que nos unir e nos organizar. A
voz dos verdadeiros educadores precisa ser ouvida, para que
a sociedade não continue a ser enganada pelos falsos diagnósticos e falsas "soluções" apresentadas por pseudoespecialistas
em educação.
Para os verdadeiros educadores em Química, para aqueles

que perseveram na profissão docente, este número de Química
Nova na Escola traz contribuições da pesquisa e da vivência
em salas de aula vindas de várias partes do Brasil. São trabalhos que exemplificam a riqueza e a variedade de saberes
necessários à profissão docente, demonstrando como esta é
muito diferente de um "bico".
O artigo intitulado "Contribuições da sociologia de
Bourdieu para repensar a educação e o ensino de ciências"
promove importantes reflexões sobre o papel da escola na
sociedade, auxiliando o professor a compreender melhor
as dificuldades dos alunos e a aperfeiçoar suas estratégias
didáticas e avaliações.
A formação de professores de química é abordada, na
forma de um estudo de caso, no artigo "O professor formador
em foco: identidade e concepções do fazer docente". Nele são
discutidas diferentes dimensões da influência dos docentes do
ensino superior sobre a formação dos futuros professores da
educação básica. Outra perspectiva da formação de professores
­ a formação continuada em serviço ­ é oferecida pelo artigo
"Considerações de professores em relação à implantação da
Proposta Curricular de Química do Estado de São Paulo".
Diferentes dimensões do ensino de conceitos químicos
também estão presentes nesta edição. A abordagem proposta
pelos autores do artigo "Do senso comum à elaboração do
conhecimento químico" sugere que a utilização de diferentes dispositivos didáticos, favorecendo as interações entre
os alunos, e destes com o(a) professor(a), contribui para a
aprendizagem significativa de conceitos científicos. Algumas
das dificuldades relacionadas à educação inclusiva, especificamente referentes ao ensino de alunos com deficiência auditiva,
e sugestões para superá-las, são apresentadas em "O ensino de
química para alunos surdos: o conceito de misturas no ensino
de ciências". Uma proposta para a contextualização do ensino
de química orgânica é focalizada no artigo "Temática chás:
uma contribuição para o ensino de nomenclatura dos compostos orgânicos". A contextualização também está presente
no artigo "Adaptação metodológica de processos oxidativos
avançados (POA's) na degradação de corantes para aulas de
Ensino Médio", no qual os autores apresentam experimentos
com materiais acessíveis e de baixo custo. Finalmente, o artigo
"Quitosana: da química básica à bioengenharia" apresenta
uma interessante temática que relaciona reaproveitamento
de resíduos, engenharia de tecidos e diferentes aplicações de
biopolímeros com conceitos básicos de química.
Que a leitura deste número de Química Nova na Escola
seja proveitosa a todos!
Paulo Alves Porto
Salete Linhares Queiroz
Editores de QNEsc

http://tucano.org.br/bancada/prefeitura-tucana-em-ribeirao-preto-cria-uber-da-educacao

1

Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Vol. 39, N° 4, p. 311, NOVEMBRO 2017

311

ANOS

Química e Sociedade

http://dx.doi.org/10.21577/0104-8899.20160089

Quitosana: da Química Básica à Bioengenharia

Lorena O. Felipe, Lucas A. Rabello, Ênio N. O. Júnior e Igor José B. Santos
A quitosana é um copolímero de origem natural derivado do processo de desacetilação da quitina. As
características apresentadas pela quitosana permitem uma ampla versatilidade de aplicação em áreas distintas,
do tratamento de efluentes a utilizações mais sofisticadas, como na medicina regenerativa. Dessa forma,
este trabalho aborda o conceito de copolímero natural, as principais formas de obtenção da quitosana, as
características e propriedades da quitosana, as multifuncionalidades desse biomaterial e seu elevado potencial
tecnológico em diferentes áreas, principalmente na engenharia de tecidos. Por fim, a partir da contextualização desta temática, será possível ao aluno vislumbrar a multidisciplinaridade da área de biotecnologia, na
qual a engenharia de tecidos está inserida e desenvolver no mesmo a importância do reaproveitamento de
resíduos no contexto da sustentabilidade ambiental.

312

copolímero natural, quitina, biotecnologia, engenharia de tecidos, reaproveitamento de resíduos

Recebido em 03/06/2016, aceito em 10/03/2017

N

a década de 1980, surgiu o conceito de desenvolvimento sustentável. A partir disso, a conscientização
das atividades industriais associada à preservação
ambiental passou a ser fortemente considerada (Veiga,
2008). Desde então, várias legislações passaram a ser institucionalizadas por diferentes órgãos ambientais para a
mitigação e remediação dos impactos ambientais (Elliot,
2012; CONAMA, 1986).
Dessa forma, além do fator ambiental, o aspecto econômico também passou a ser fortemente levado em consideração
nas estratégias de aproveitamento de resíduos e, atualmente,
inúmeros processos são empregados com o intuito de agregar
valor a diferentes rejeitos industriais. Isso é possível, pois alguns desses rejeitos podem ser considerados matérias-primas
potenciais de ingredientes tanto na indústria de alimentos
quanto na de ração para animais (Mirabella et al., 2014;
Jayathilakan et al., 2012).
A atividade pesqueira, a qual engloba tanto a captura
quanto aquicultura, está entre as práticas industriais que
produzem um grande volume de resíduos de significativo
potencial poluidor, sendo amplamente praticadas no Brasil
e ao redor do mundo (Olsen et al., 2014; Arvanitoyannis e
A seção "Química e sociedade" apresenta artigos que focalizam diferentes inter-relações
entre Ciência e sociedade, procurando analisar o potencial e as limitações da Ciência
na tentativa de compreender e solucionar problemas sociais.
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Kassaveti, 2008; Sofia, 2014). Para se ter uma ideia, de acordo com estatísticas disponibilizadas pela FAOSTAT, referente ao ano de 2013, a produção da atividade de pesca, tanto
ao nível mundial quanto ao nível brasileiro foi cerca de 191
milhões de toneladas e 1,24 milhões de toneladas, respectivamente (FAO Fisheries and Aquaculture Departament).
Dentre os principais produtos de comercialização da
pesca, estão os crustáceos, com expressiva produção a
nível mundial e nacional (Tabela 2) (FAO Fisheries and
Aquaculture Departament). Esses últimos, quando industrializados (não comercializado in natura) podem gerar
um volume de resíduos correspondente a 70% do seu peso
fresco, como é o caso do camarão. Nesse caso, entre os
componentes residuais estão o cefalotórax (cabeça) e o
exoesqueleto (casca) (Holanda, 2004). Assim, se levado em
conta a produção de camarão como expresso na Tabela 1,
é possível estimar que o volume de resíduos produzidos a
partir do beneficiamento do mesmo no ano de 2013, tanto a
nível mundial quanto nacional, foi próximo de 5.511.797 e
71.584 toneladas, respectivamente.
Portanto, entre as estratégias empregadas para a agregação de valor e mitigação do impacto ambiental dos resíduos
provenientes do beneficiamento desse tipo de produto, está
a recuperação de seus elementos principais: proteínas, astaxantina (carotenoide de poder colorante) e quitina (Cahú
et al. 2012; Vázquez et al., 2013).

Quitosana: da Química Básica à Bioengenharia

Vol. 39, N° 4, p. 312-320, NOVEMBRO 2017

Tabela 1: Produção mundial e brasileira de crustáceos referente ao ano de 2013.
Produção1

Crustáceo
Espécie

Mundial (t)

Brasileira (t)

Camarão

7.873.996

102.263

Lagosta

290.267

6.726

Caranguejo

1.896.872

10.916

Outros

3.168.336

6.329

Total

13.229.472

126.234

FAO (Fisheries and Aquaculture Department). Dados referentes
ao ano de 2013.
1

Em se tratando especialmente da quitina, a recuperação
dos descartes de crustáceos mostra-se bastante favorável, já
que a concentração deste biopolímero é de aproximadamente
5-7% em camarões e de 15-20% em caranguejos (BessaJúnior e Gonçalves, 2013).
De acordo com a Associação Brasileira de Criadores
de Camarão, a produção brasileira de camarões da espécie
Litopenaeus vannamei cresceu entre os anos 1998 a 2005,
passando de 7 mil para 65 mil toneladas por ano. Esta elevada
produção de camarões tem gerado grandes quantidades de
resíduos sólidos, uma vez que a cabeça e a casca do crustáceo
correspondem a aproximadamente 40% do seu peso total e
não podem ser usados na fabricação de ração animal, devido
à elevada quantidade de fibras, gerando muitos problemas
ambientais quando descartados (ABCC, 2014). O impacto
ambiental é decorrente do excesso de macronutrientes (e.g.
nitrogênio e fósforo) que gera alteração na teia alimentar,
eutrofização, baixo nível de oxigênio, redução da biodiversidade etc (Bonini, 2006). Considerando a produção de
camarão do ano de 2005, que foi de 65 mil toneladas e que
40% do seu peso total seja convertido em resíduos, gerou-se
naquele ano um total de 26 mil toneladas de resíduos da
indústria de camarão, que atualmente não é aproveitado e
poderia ser utilizado para a produção de quitina e quitosana.
Portanto, além de se mostrar como uma tática de gerenciamento ambiental, tanto a obtenção de quitina quanto do
seu precursor quitosana, apresentam como vantagens a sua
ampla disponibilidade e a sua viabilidade econômica, sendo
uma fonte renovável e de baixo custo (Hudson e Smith, 2013).
Dessa maneira, este trabalho visa desenvolver uma visão contextualizada, cidadã e sustentável da obtenção e caracterização
da quitosana como um copolímero natural com potencial de
aplicação em diferentes áreas, principalmente no setor emergente de engenharia de tecidos, fornecendo ao professor uma
metodologia de aplicação deste tema em sala de aula.

Quitina e Quitosana: Copolímeros Naturais
Atualmente, os polímeros sintéticos são notadamente
identificados como um dos pilares contemporâneos do estilo de vida moderna, estando cotidianamente presentes em
inúmeros produtos de ampla comercialização (automóveis,
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

vestuários, embalagens etc.). Tal fato foi possibilitado pelos
estudos desenvolvidos por Hermann Staudinger ­ Prêmio
Nobel no ano de 1953 - acerca da química dessas moléculas
(Ringsdorf, 2013; Shampoo et al., 2013). Mas afinal, o que
são polímeros?
Os polímeros são definidos como macromoléculas (de
cadeia longa e/ou de alta massa molecular) (IUPAC Gold
Book). Estruturalmente são constituídos por unidades menores, os chamados monômeros. Assim, a macromolécula
é formada, sob condições determinadas, pela reação entre
os monômeros a partir de uma reação denominada de polimerização. Dependendo da extensão da reação, o número
de unidades repetidas agrupadas pode variar, definindo-se
assim, o grau de polimerização (GP) da molécula (Rodríguez
et al., 2014). Ainda, de acordo com a composição da cadeia,
os polímeros podem ser divididos em dois grandes grupos:
os homopolímeros (constituído por um único tipo de monômero) e os copolímeros (constituído por diferentes tipos
de monômeros) (IUPAC Gold Book).
Contudo, a despeito da contemporaneidade dos polímeros sintéticos, os polímeros naturais (biopolímeros) são
considerados a base da vida. Dentre as classes principais
dessas macromoléculas naturais, estão: (i) as proteínas
(constituídas a partir de monômeros de aminoácidos), (ii)
os ácidos nucléicos (formados a partir de monômeros de
nucleotídeos) e (iii) os polissacarídeos (estruturados a partir
de monômeros de açúcares) (Biological Macromolecules).
No que diz respeito aos polissacarídeos, os mesmos podem
assumir função energética (amido, glicogênio) e estrutural
(celulose, quitina) (Dumitriu, 2004).
É inquestionável a importância das moléculas estruturais
na manutenção das diferentes formas de vida, sendo abundantes e largamente distribuídas na natureza, com destaque
para a celulose (de maior ocorrência natural), seguida da
quitina (Dumitriu, 2004).
Dessa maneira, enquanto a celulose é definida como
um homopolímero (constituída unicamente por meros de
glicose), a quitina é reconhecidamente um copolímero
(constituída majoritariamente por meros de N-acetil-Dglicosamina e resíduos de D-glicosamina). No caso da quitina, a mesma é precursora de outro importante copolímero: a
quitosana. Essa última, constituída principalmente de meros
de D-glicosamina e resíduos de N-acetil-D-glicosamina
(Figura 1). Apesar da composição variável, uma característica comum é compartilhada pelos três biopolímeros
anteriormente citados: os meros constituintes da cadeia
polimérica são unidos por ligações glicosídicas (14)
(Figura 2) (Thomas et al., 2012).

Quitina e Quitosana: Método de Obtenção
A quitina como polissacarídeo apresenta função estrutural e protetora, podendo ser identificada em diferentes
organismos (Tabela 2). Dentre as fontes em que pode
ser encontrada, destaca-se o exoesqueleto de crustáceos
(Rinaudo, 2006).

Quitosana: da Química Básica à Bioengenharia

Vol. 39, N° 4, p. 312-320, NOVEMBRO 2017

313

Tabela 2: Fontes naturais do copolímero quitina. Adaptado de:
Rinaudo (2006).

Figura 1: Representação esquemática da estrutura da (A)
-D-glicosamina (GlcN) e (B) N-acetil-D-glicosamina (GlcNac):
ambos, monômeros estruturais da quitosana.

No que diz respeito às características, tanto a quitina
quanto a quitosana são insolúveis em água. Contudo, enquanto a quitina é insolúvel na maior parte dos solventes
(exceto para o sistema-solvente N,N-dimetilacemida/LiCl),
a quitosana apresenta solubilidade em soluções diluídas de
ácidos orgânicos (acético, fórmico, cítrico) e inorgânicos
(ácido clorídrico, por exemplo). A massa molecular média e
o grau médio de acetilação (GA) - dado pelo teor de N-acetilD-glicosamina ­ distingue ambos os biopolímeros (Tabela
3) (Pillai et al., 2009).

Seres marinhos

Insetos

Fontes diversas

Anelídeos

Escorpião

Algas verdes

Celenterados

Formigas

Leveduras (tipo )

Crustáceos

Besouro

Fungos (parede celular)

Moluscos

Aranha

Algas castanhas

Barata

Micélio de Penicillium

Observa-se, portanto, que a partir da desacetilação da
quitina purificada (Figura 3) é obtida a quitosana. A desacetilação pode ser feita por dois mecanismos diferentes: (i)
ação enzimática (quitinases) e pela (ii) hidrólise alcalina
(Figura 4), sendo este último extensamente utilizado. Para
tal, várias metodologias são propostas para a desacetilação
alcalina (Muzzarelli, 2013). Todavia, o método consiste basicamente na imersão de quitina pré-purificada em
NaOH/KOH concentrado, sob agitação e aquecimento
a alta temperatura, intercalados com ciclo de filtração,

314

Figura 2: Representação esquemática da estrutura de três biopolímeros: (A) celulose, (B) quitina e (C) quitosana, sendo . 1 CAS
(Chemical Abstracts Service): Número com registro único (CAS Registry Number) atribuído a cada composto químico descrito na
literatura. Tais registros são constantemente atualizados e armazenados no banco de dados do CAS Registry e administrado pelo
Chemical American Society (CAS REGISTRY: Chemical substances).
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Quitosana: da Química Básica à Bioengenharia

Vol. 39, N° 4, p. 312-320, NOVEMBRO 2017

Tabela 3: Quitina e quitosana - comparação entre a massa
molecular média e o grau médio de acetilação (GA). Adaptado
de: Pillai et al.(2009)
Copolímero

Massa molecular
média (Daltons)

GA

Quitina

> 1.000.000

90%1

Quitosana

10.000 - 1.000.000

< 40%2

Conteúdo de nitrogênio: 7%. 2Unidades desacetiladas: 60%

1

315
Figura 4: Processo de obtenção da quitosana a partir da quitina
purificada por desacetilação alcalina. Adaptado de: Chang et
al. (1997)
Figura 3: Método de obtenção da quitina purificada. Adaptado
de: Muzzarelli (2013) e Percot et al. (2003)

resfriamento e secagem/liofilização (Campana-Filho et al.;
2007).
Dessa forma, de acordo com o método empregado pode-se obter quitosanas com diferentes GA e, consequentemente,
diferentes propriedades físico-químicas (viscosidade, pKa,
massa molecular média, solubilidade, densidade e tamanhos
de partículas), ocasionando uma enorme versatilidade no uso
da quitosana (Younes e Rinaudo, 2015).

Quitosana: Propriedades e Ampla Versatilidade de Aplicação
A quitosana apresenta um conjunto de propriedades
específicas (Tabela 4) que a tornam uma molécula única.
Além disso, esse mesmo polímero também é classificado
como um polieletrólito. Por definição, polieletrólitos são macromoléculas que apresentam grupos ionizáveis na extensão
de toda a sua cadeia. Tais grupos ionizáveis, dependendo da
funcionalidade, podem ser classificados como aniônicos ou
catiônicos. Neste caso, os agrupamentos aminos, presentes
na cadeia polimérica da quitosana, apresentam reatividade
e, em pH menor que 6,5 (meios ácidos) são capazes de se
ligar a íons hidrogênios, apresentando uma carga global
positiva (Ng et al., 2016). Dessa forma, a quitosana é tida
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Tabela 4: Propriedades específicas da quitosana que a torna
uma molécula única. Adaptado de: Pokhrel et al. (2015)
Propriedade

Interpretação

Atóxica

Aquilo que não é venenoso, tóxico ou nocivo.

Bioativa

Capacidade de um material em fazer parte de
reações biológicas específicas.

Biocompatível

Material que apresenta compatibilidade biológica, i.e, sem efeitos indesejáveis no local em
que foi implantado.

como um polieletrólito catiônico, e, em decorrência desse
fato, além das propriedades mostradas (vide Tabela 4), a
quitosana também revela outras funcionalidades: capacidade
de adsorção e habilidade quelante.
Haja vista essas características, a quitosana revela uma
enorme versatilidade de aplicação (Tabela 5) em áreas
completamente distintas, que incluem desde o tratamento de
efluentes às utilizações mais sofisticadas, como na medicina
regenerativa focada na engenharia de tecidos (Khor, 2014).

Quitosana e sua Relevante Aplicabilidade na Engenharia de
Tecidos
A técnica conhecida como Engenharia de Tecidos é aquela que busca a recuperação de tecidos e órgãos lesionados,

Quitosana: da Química Básica à Bioengenharia

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Tabela 5: Inúmeras aplicabilidades da quitosana em diferentes áreas.

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Área

Aplicabilidade

Referência

Agricultura

Recobrimento de sementes (biocida)

Alcântara (2011)

Biorremediação

Adsorção de metais pesados e corantes

Aquino (2015)

Engenharia de Tecidos

Scaffolds (arcabouço, estrutura,
matriz tridimensional, suporte).

Fiamingo (2016)

Farmacêutica

Analgesia, aceleração da cicatrização, promotor de
regeneração óssea (osteogênese), tratamento da artrite,
sistema de liberação de fármacos.

de Souza (2016)

Indústria de alimentos

Aditivo orgânico, embalagens ativas.

de Souza (2015)

Odontologia

Antimicrobiano, anti-inflamatório, inibição de biofilmes.

Tavaria et al. (2013)

Tratamento de efluentes

Agente floculante

Nakano (2016)

que, por algum motivo, não podem se regenerar naturalmente
(Barbanti et al., 2005). Os produtos artificiais obtidos por
tal processo são denominados TEPs (Tissue-Engineered
Products) e são utilizados para recuperar totalmente (reconstrução) ou parcialmente (terapia) diferentes estruturas
anatômicas do corpo humano (Assis et al., 2007). Dessa
forma, podem tornar tangível o tratamento de queimaduras,
doenças cardíacas, lesões na medula espinhal, diabetes, câncer no fígado, cirrose, entre outras diferentes aplicabilidades
(Berthiaume et al., 2011).
A metodologia empregada para a produção dos TEPs
basicamente faz uso de células do próprio paciente - extraídas do tecido doador - cultivadas e tratadas em laboratório
(in vitro), com posterior reimplantação no local da lesão
(Figura 5) (Barbanti et al., 2005).

Contudo, na maioria dos casos, durante o cultivo das
células a nível laboratorial, as mesmas devem ser associadas a matrizes tridimensionais denominadas scaffolds. Tais
matrizes são estruturas físicas, de diferentes composições,
que possuem a função de mimetizar o ambiente extracelular
no qual as células se encontram no organismo (Ravi et al.,
2014). Ainda, com o intuito de possibilitar o cultivo dos mais
diferentes tipos celulares, diversos métodos e materiais são
propostos para a construção desses scaffolds.
Os materiais empregados nos scaffolds devem satisfazer
uma série de exigências. Além de serem atóxicos, biocompatíveis e biofuncionais, ainda devem possuir propriedades
mecânicas adequadas, facilidade no processo de esterilização
e garantir que, ao longo do tempo, não irão provocar qualquer distúrbio no organismo do paciente (Jozala et al.,2011).

Figura 5: Esquema exemplificando a técnica básica da Engenharia de Tecidos. Adaptado de: Barbanti et al., (2005). FONTE DAS
IMAGENS: Wikimedia Commons e Clip-art.
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Portanto, considerado estas exigências, o leque de materiais
adequados à regeneração tecidual se torna bastante limitado.
Dentre os materiais disponíveis, a quitosana toma posição
de destaque (Laranjera e Fávere, 2009). Isso porque, além
das propriedades já citadas, algumas outras particularidades
tornam esse polissacarídeo extremamente atraente para a
produção artificial de tecidos (Tabela 6) (Hélio et al., 2006).
No que diz respeito às particularidades relacionadas na
Tabela 6, grande parte delas está atrelada ao fato da quitosana
ser considerada um polieletrólito catiônico (NG et al., 2016).
Como exemplo, em pH 7 (valor de pH na maioria dos fluidos
teciduais) a quitosana adquire carga global positiva, o que
acarreta na aglomeração de alguns elementos figurados do
sangue que apresentam-se negativamente carregados através
da atração eletrostática entre eles. Tal fenômeno ocasiona o
acúmulo destes componentes ao longo da extensão de toda
a cadeia polimérica (Okamoto et al., 2003). A importância
desse fato está no maior estímulo dado ao processo de
coagulação sanguínea no local de aplicação do polímero,
aumentando, assim, a taxa de sucesso do implante no organismo do paciente.
Por outro lado, apesar da ampla versatilidade apresentada
pela quitosana à engenharia de tecidos, em alguns casos,
scaffolds estruturados unicamente com esse polímero não
se apresentam satisfatórios. Considerado esse motivo, inúmeros estudos na literatura científica relatam a associação
da quitosana com outros biopolímeros. Entre os relatos mais
comuns, são citados a combinação da quitosana com o ácido
hialurônico, celulose, colágeno, gelatina e os poli(-hidróxi
ácidos) (Kakkar et al., 2014; Han et al., 2014; Barbanti et
al., 2005). Nesse caso, a estruturação de scaffolds estáveis
é novamente reforçada pela reatividade dos grupamentos aminos na cadeia da quitosana, os quais permitem o

estabelecimento de ligações de hidrogênio com os demais
biomateriais (Ramasamy e Shanmugam, 2014).
A demanda por essas novas combinações está alinhada
com a constante necessidade de se obter novas propriedades
físicas (elasticidade, resistência, morfologia) e químicas
(composição, grupos funcionais, ligações químicas) ideais
para diferentes scaffolds. Por fim, levando-se em conta essas
novas possibilidades, é possível inferir a vasta e importante
abrangência de aplicação da quitosana na engenharia de
tecidos.

Aplicação do Tema no Ensino de Química
De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais
da Educação Básica (2013), o conhecimento escolar
deve apresentar significado através da contextualização.
Adicionalmente, a interdisciplinaridade também deve ser
levada em conta, evitando a compartimentalização do ensino.
Para tal, métodos de aprendizados ativos e interativos devem
ser adotados, principalmente no que diz respeito ao ensino
das Ciências da Natureza.
Portanto, considerado esses aspectos, uma sugestão é
que o professor de Química poderá utilizar do conteúdo
aqui abordado como temática geradora de conhecimento
contextualizado na área da Química Orgânica, focada nos
polímeros naturais. Ainda será possível ao docente explorar
outras propriedades da quitosana, como a capacidade de
formar filmes transparentes biodegradáveis, que podem ser
utilizados como adesivos dérmicos, pele artificial e como
revestimentos de frutos. Os filmes de quitosana podem ser
obtidos adicionando uma solução de quitosana 1%(m/v)
em solução de ácido acético 1%(v/v) em placas de Petri de
poliestireno. Essas placas ficariam abertas até secagem total

Tabela 6: Particularidades atribuídas a quitosana que a tornam atraente na produção artificial de tecidos.
Característica

Descrição
Promove o estímulo de células fundamentais para a regeneração de tecidos
Acelera o processo de cicatrização
lesionados, como macrófagos e fibroblastos.
Inibe a proliferação de determinados
Atividade antimicrobiana
micro-organismos.
Capacidade apresentada por um polímeBiodegradável
ro de sofrer dispersão in vivo em função
da degradação macromolecular.
Sua cadeia macromolecular é passível
Bioreabsorvível
de clivagem1 e os oligômeros produzidos
são reabsorvidos in vivo.
Estimula a agregação de plaquetas/
eritrócitos, os quais são tidos como
Efeito coagulante
componentes sanguíneos essenciais no
processo de coagulação.
Pode ser manipulada em diferentes formas: filmes, géis, membrana e microesVersatilidade no modo de veiculação
feras, permitindo assim ser aplicada em
diversas situações.
1
Pela ação das enzimas N-acetilglicosaminidase.
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Quitosana: da Química Básica à Bioengenharia

Referência
Hélio et al., 2006

de Oliveira Júnior (2016)
Barbanti et al., (2005)

Barbanti et al., (2005)

Okamoto et al., 2003

Laranjeira, Fávere, 2009

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da solução e formação do filme que pode ser removido facilmente da superfície da placa. O revestimento de quitosana
em frutos, também seria uma outra opção de experimento
para avaliar a capacidade da quitosana em aumentar o tempo
de prateleira de frutos comparados a frutos não tratados.
Além disso, esse artigo permite ao aluno entrar em
contato com uma das áreas em grande desenvolvimento, a
biotecnologia, na qual a engenharia de tecidos está inserida.
Tal área, considerada como multidisciplinar, é definida pela
IUPAC (International Union of Pure and Applied Chemistry)
como "A integração das ciências naturais e das ciências da
engenharia, a fim de conseguir a aplicação de organismos,
células, suas partes e análogos moleculares para produtos e
serviços" (IUPAC Gold Book). A Figura 6 mostra com maior
clareza a integração das ciências citadas na definição acima.
Finalmente, a temática aqui trabalhada também permite
desenvolver no aluno a importância do reaproveitamento de
resíduos no contexto da sustentabilidade ambiental.

Glossário

substâncias, natural ou artificial, que atua nos sistemas
biológicos (tecidos, órgãos) parcial ou totalmente, com o
objetivo de substituir, aumentar ou tratar. A quitosana pode
ser classificada como um biomaterial, tendo em vista que
existem na literatura inúmeras sugestões de aplicações de
quitosana como pele artificial, lentes de contato e adesivos
para liberação de drogas.
Copolímeros: são polímeros formados por mais de um
tipo de monômero. A quitina e quitosana são exemplos de
copolímeros, pois ambos são formados por dois tipos de
monômeros, que são -D-glicosamina (GlcN) e N-acetilD-glicosamina (GlcNAc).
Engenharia de tecidos: é um ramo da Engenharia
Biomédica que utiliza conhecimentos de biologia, química
e física para desenvolver tecidos artificiais. Pode ser aplicada
à produção de pele artificial, cartilagens e tecidos ósseos.
Existem inúmeros artigos na literatura que sugerem o uso
de quitosana para produção de pele artificial.
Medicina regenerativa: é o processo de substituir ou
regenerar células, tecidos ou órgãos humanos para restaurar
as funções normais.
Monômeros: sob condições adequadas, são capazes de
se ligarem como unidades repetitivas ou meros, originando
as cadeias poliméricas (moléculas maiores).
Polieletrólito: são polímeros com grupos ionizáveis ao
longo da cadeia, classificados em aniônicos e catiônicos de
acordo com seu grupo funcional. Os grupos amino na quitosana permitem que a mesma atue como um polieletrólito
catiônico em pH menor que 6,5.
Polimerização: reação química que provoca a combinação de um grande número de moléculas do(s) monômero(s)
para formar uma macromolécula.
Polímeros: são macromoléculas formadas a partir de
unidades estruturais menores (monômeros).
Polissacarídeos: ou glicanos, são carboidratos que, por
hidrólise, originam uma grande quantidade de monossacarídeos. A quitina e quitosana são exemplos de polissacarídeos
que apresentam o grupo amina ou acetil amina ligados a
unidades monoméricas de glicose.
Quitina: polissacarídeo encontrado no exoesqueleto
(casca) de insetos, crustáceos e na parede celular de fungos.
Quitosana: polissacarídeo derivado de quitina. O que
diferencia a quitina da quitosana é o grau médio de acetilação (GA). O polímero que apresentar grau de acetilação até
40% é considerado quitosana, que é totalmente solúvel em
solução de ácido acético 1% (v/v). O polímero com grau
de acetilação superior a 40% é considerado quitina, que é
insolúvel em solução de ácido acético 1% (v/v).
Scaffolds ou arcabouços: estruturas tridimensionais
biocompatíveis que estimulam a diferenciação celular, a
adesão, a proliferação e a formação tecidual.

Bioengenharia: aplicação do conhecimento da engenharia aos sistemas biológicos a fim de desenvolver novas
tecnologias que proporcionem melhorias a esses sistemas.
Biomaterial: é uma substância ou uma mistura de

Igor José Boggione Santos ([email protected]), professor adjunto no
Departamento de Química, Biotecnologia e Engenharia de Bioprocessos na Universidade Federal de São João del-Rei. Bacharel e licenciado em Química pela

318

Figura 6: Multidisciplinaridade da biotecnologia. Adaptado de:
Schmidell et al., (2001).

Considerações Finais
Considerada a temática abordada nesse artigo foi possível
demonstrar a importância de um dos biopolímeros estruturais
de abundante recorrência natural (quitina) como precursor
para a produção de outro biopolímero, a quitosana. Essa
última, uma macromolécula de propriedades únicas, as quais
por sua vez, permitem uma extensa versatilidade de aplicação em diferentes áreas de estudo. Dentre essas áreas, está
a engenharia de tecidos, de fundamental importância para a
medicina regenerativa, a qual engloba metodologias para a
reconstrução de novos tecidos e órgãos. Portanto, foi possível vislumbrar o potencial de exploração da quitosana e sua
importância no desenvolvimento da pesquisa científica e na
contextualização de um ensino interdisciplinar, capacitando
o aluno a compreender e aplicar o conhecimento científico
na presunção de melhoria da vida humana.

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Universidade Federal de Viçosa, Doutor na área de concentração físicoquímica no
Grupo Química Verde Coloidal e Macromolecular (QUIVECOM) pela Universidade Federal de Viçosa, e pós-doutorado júnior no Laboratório de Operações e
Processos (LOP) do DTA na Universidade Federal de Viçosa. Ouro Branco, MG
­ BR. Ênio Nazaré de Oliveira Júnior ([email protected]), é professor adjunto
do curso de Engenharia de Bioprocessos da Universidade Federal de São João
Del-Rei. Graduado em Engenharia Química com Habilitação em Engenharia de
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from Marine Sources. Structure, Properties and Applications.
Marine Drugs. v. 13, n° 3, p. 1133-1174, 2015.

Abstract: Chitosan: from basic chemistry to bioengineering. Chitosan is a polymer of natural origin derived from chitin deacetylation process. The characteristics presented by the chitosan allows a wide versatility of application in different areas. These areas range from effluent treatment to more sophisticated
uses, such as in regenerative medicine. Therefore, this paper discusses the concept of natural copolymer, showing the main ways of obtaining chitosan, the
characteristics and properties of chitosan, as well as highlight the multi-functionality of this biomaterial with high technological potential in different areas,
especially in tissue engineering. Finally, based on the contextualization of this theme, it will be possible for the student to envisage the multidisciplinary of the
biotechnology area, in which tissue engineering is inserted and to develop the importance of the reuse of waste in the context of environmental sustainability.
Keywords: natural copolymer, chitin, biotechnology, tissue engineering, reuse of waste.

Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Quitosana: da Química Básica à Bioengenharia

Vol. 39, N° 4, p. 312-320, NOVEMBRO 2017

ANOS

Espaço Aberto

http://dx.doi.org/10.21577/0104-8899.20160090

Contribuições da sociologia de Bourdieu para
repensar a educação e o ensino de ciências

Luciana Massi
Apresentamos, neste texto, a perspectiva sociológica de Pierre Bourdieu para uma releitura sobre o papel
da educação na sociedade e os processos de ensino-aprendizagem. Inicialmente, trazemos os princípios gerais
da teoria bourdiana; em seguida, explicamos como esses princípios nos ajudam a entender a realidade escolar,
com exemplos nacionais e da área de ensino de ciências, e, por fim, apontamos caminhos que podem nos
ajudar a pensar em possibilidades de melhoria para a escola e a ação docente. A perspectiva divulgada neste
texto pode contribuir para a atuação do professor de ciências ou de química, pois discutimos a importância
do diagnóstico da realidade social dos alunos e da consequente contextualização do ensino, analisamos as
dificuldades linguísticas e mentais da aprendizagem em ciências e repensamos o currículo e a avaliação a
partir da perspectiva sociológica bourdiana.

321

sociologia; Pierre Bourdieu; educação e sociedade

Recebido em 23/08/2016, aceito em 16/01/2017

A

falta de motivação e interesse dos estudantes, em geproblema da educação? Por que será que alguns alunos são
ral, é identificada como um dos principais problemas
mais motivados que outros? Será mesmo possível solucionar
a serem enfrentados pelos professores. Em paralelo
o problema da motivação exclusivamente através de ações
a isso, eventualmente são divulgados professores em sala de aula?
das notícias de pessoas advindas
Uma melhor compreensão desMas será mesmo que a falta de motivação
de realidades bastante adversas
se
quadro
exige que essas questões
dos alunos é o principal problema da
que conseguem se formar em
sejam
pensadas
em um contexto
educação? Por que será que alguns alunos
cursos prestigiados1. Diante desse
mais
amplo.
Apresentamos,
neste
são mais motivados que outros? Será
quadro, a principal preocupação
texto,
a
perspectiva
sociológica
de
mesmo possível solucionar o problema da
do professor já formado ou duranPierre
Bourdieu,
que
possibilita
motivação exclusivamente através de ações
te sua formação inicial costuma
uma releitura sobre o papel da
dos professores em sala de aula?
ser a descoberta ou desenvolvieducação na sociedade e sobre os
mento de técnicas e estratégias
processos de ensino-aprendizade ensino, acreditando que elas seriam capazes de fornecer
gem. Em sala de aula, ela ajuda o professor a repensar suas
um caminho já pronto e acabado, que possa resolver todos
estratégias de ensino e sua forma de avaliação, considerando
os problemas de motivação e aprendizagem dos estudantes.
as características dos alunos que atende. Em uma perspectiva
Essa preocupação com a motivação e as notícias refemais ampla, contribui para combater a "culpabilização" que
ridas partem do pressuposto (e o reforçam) de que, para a
o professor vem sofrendo diante dos fracassos escolares, ao
sociedade em geral e para os professores, caso houvesse
mostrar que, apesar de extremamente importante, ele não é
mais "empenho", qualquer aluno conseguiria alcançar o
o único capaz e responsável pelas melhorias educacionais
sucesso escolar, graças a seu próprio mérito e talento. Mas
almejadas pela sociedade. Para construir essa argumentação,
será mesmo que a falta de motivação dos alunos é o principal
este texto aborda, inicialmente, os princípios gerais da teoria
bourdiana, em seguida, aplica-os para entender a realidade
escolar, trazendo exemplos nacionais e da área de ensino
A seção "Espaço aberto" visa abordar questões sobre Educação, de um modo geral,
que sejam de interesse dos professores de Química.
de ciências e química, e, por fim, aponta caminhos que
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Contribuições da sociologia de Bourdieu

Vol. 39, N° 4, p. 321-328, NOVEMBRO 2017

podem ajudar a pensar em possibilidades de melhoria para
a escola e a ação docente em relação ao ensino em geral e
às disciplinas científicas.

322

de diplomas, certificados; e, na sua forma mais importante,
incorporado, quando o agente se apropriou da cultura manifestada no objeto ou no certificado, por exemplo, tem um
piano em casa (capital cultural objetivado) e sabe tocá-lo
A sociologia de Pierre Bourdieu e seus principais conceitos
(capital cultural incorporado) ou tem um certificado de curso
de inglês (capital cultural institucionalizado) e fala inglês
Podemos dizer, resumidamente, que a sociologia estuda
fluentemente (capital cultural incorporado).
os condicionantes sociais da ação individual, ou seja, como
Para Bourdieu (1998a), a aquisição do capital cultural é
práticas são fruto da inserção social2. Bourdieu propõe uma
como um bronzeado: para mantê-lo, exige-se um trabalho
leitura praxiológica do mundo, entendendo que as práticas
individual e constante. Além disso, em nossa sociedade
sociais refletem a incorporação do social no agente ou a
existe um capital cultural considerado legítimo, em geral,
"interiorização da exterioridade e exteriorização da interioo capital cultural das classes dominantes que é "eleito" de
ridade" (Bourdieu, 1983a, p. 47). Ele adota uma perspecmodo arbitrário. Essa imposição configura uma "violência
tiva macrossociológica para interpretar as práticas sociais,
simbólica" sentida por todos os agentes que não pertencem
procurando então a regularidade de práticas que permitam
a essa classe e, portanto, não possuem este capital cultural
compreender os condicionantes sociais da ação individual
considerado legítimo.
(Bourdieu, 1983a). Para construir sua teoria geral de interPor fim, o conceito de campo trata de lutas e disputas,
pretação sociológica da realidade, Bourdieu (2007a, p. 97)
logo, emprega vocábulos bélicos para representar o espaço
elabora alguns conceitos-chave (habitus, capitais e campo)
social como uma espécie de "batalha naval" em que cada
que permitem interpretar a prática social como um resultado
agente ocupa um lugar definido, nem sempre evidente
de seu agrupamento.
para seu adversário, mas passível de disputa por aquela
O habitus é um dos mais conhecidos e importantes
posição. Segundo Bourdieu (1983b, p. 90), campo é um
conceitos do autor, sendo definido como um "sistema de
microcosmo pertencente ao macrocosmo do espaço social,
disposições [mecanismos de ação]
podendo existir diversos campos,
duráveis e transponíveis que,
como o político, econômico,
Para Bourdieu (1998a), a aquisição do
integrando todas as experiências
acadêmico, esportivo, artístico
capital cultural é como um bronzeado: para
passadas, funciona como uma maetc. O campo é essencialmente
mantê-lo, exige-se um trabalho individual e
triz de percepções, de apreciações
um local de luta pela distribuiconstante. Além disso, em nossa sociedade
e de ações" (Bourdieu, 1983a,
ção de um capital específico de
existe um capital cultural considerado
p.65). Ele se forma na primeira
cada campo, sendo sua estrutura
legítimo, em geral, o capital cultural das
socialização do agente, geralmenresultante do "estado da relação
classes dominantes que é "eleito" de modo
te na família (considerada uma
de força entre os agentes ou instiarbitrário.
das esferas de socialização mais
tuições". Por exemplo, no campo
importantes), e está diretamente
acadêmico ou científico, o capital
vinculado ao pertencimento a uma classe social. É a classe
específico remete à "verdade científica", definida por um
social que confere coerência ao conjunto de disposições
determinado grupo de dominantes em um determinado
compondo um "estilo" (Bourdieu, 1983a). Muitas vezes,
momento histórico. Através de seu habitus e história, os
o indivíduo só reconhece marcas do seu habitus através do
agentes ocupam posições definidas e distintas, mas a luta
contato com o habitus de outros agentes, principalmente
no interior do campo visa alterá-la, empregando estratégias
aqueles oriundos de outras classes sociais.
de conservação e subversão.
O capital pode ser entendido de modo mais claro a partir
Reunindo esses conceitos, Bourdieu (2007a) entende
da definição de Nogueira e Nogueira (2009, p. 35) como
a prática social através da seguinte fórmula: [(habitus)
"uma espécie de moeda que propicia a quem o possui uma
(capital)] + campo = prática. Ou seja, a prática social de
série de recompensas". Essas trocas se dão em diferentes
um agente pode ser interpretada a partir do pertencimento
esferas e se apresentam na forma de capital cultural, social,
a um determinado campo, em função do seu habitus e dos
econômico e simbólico. O capital econômico é mais direseus capitais. Cada campo exige um habitus e capitais
tamente associado ao dinheiro e, portanto, fica mais claro
específicos, mas o mesmo habitus e capital se manifestam
pensar na sua conversão em bens e produtos. O capital social
de forma diferente em função do campo. Essa teoria foi
é a rede de relações mobilizadas pelo agente que pode ser
proposta e pensada na França, nos anos 60. Ao longo do
convertida em uma indicação de emprego, em uma bolsa
tempo, ela continuou sendo desenvolvida3, mas seus conceide estudos, em clientela para seu negócio, etc. O capital
tos principais têm se mostrado adequados para interpretar
simbólico remete ao prestígio e reconhecimento do agente.
outras sociedades e períodos históricos, pois Bourdieu
Por fim, o capital cultural ­ um conceito fundamental
desenvolveu uma "teoria geral" da sociologia. Procuramos
para entender a educação ­ se manifesta em três formas:
trazer, neste texto, exemplos nacionais, atuais e focados no
objetivado, materializado em objetos como quadros, instruensino de ciências e química para contextualizar melhor a
mentos musicais, computadores; institucionalizado através
contribuição desse autor.
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Contribuições da sociologia de Bourdieu

Vol. 39, N° 4, p. 321-328, NOVEMBRO 2017

A sociologia da educação bourdiana: estratégias de
escolarização de diferentes classes sociais

diploma escolar. Por exemplo, como motivar um aluno que
só vislumbra como possibilidade futura seguir a profissão dos
pais, que são trabalhadores braçais, ou buscar alternativas de
Com base em análises estatísticas sobre um grande
trabalho ilegal com maiores ganhos financeiros?
volume de dados do sistema escolar francês, Bourdieu e
Soma-se a essa explicação sobre o interesse o conceito
Passeron (2014) mostraram que a escola não era uma instibourdiano de "causalidade do provável", entendido como
tuição que promovia democraticamente a mudança social.
uma tendência do agente em antecipar seu futuro em conEles enunciaram o que ficaria conhecido como a "socioformidade com a experiência do presente, não desejando
logia da reprodução", afirmando que a escola serve como
aquilo que parece pouco provável para o seu grupo social
instrumento de reprodução da sociedade, mantendo uma
(Bourdieu, 1998b). Em estudo anterior, exploramos a teoria
estrutura de dominação ao se pautar no capital cultural das
bourdiana empiricamente para analisar um curso de licenclasses dominantes. Isso se dá porque ela exige e pressupõe
ciatura em química (MASSI; VILLANI, 2014). Com base
comportamentos e conhecimentos (um habitus e um capital
nos dados do vestibular do curso de Química da UNESP, que
cultural) característicos de uma determinada classe, sem
separa a licenciatura (LIC), oferecida em período noturno,
ensiná-los diretamente, exercendo uma "violência simbólica"
do bacharelado (BAC), oferecido em período integral, no
que favorece a exclusão dos que não os detêm.
momento da inscrição, percebemos que os alunos de classe
Dessa forma, Bourdieu e Passeron (2014) refutaram forpopular nem sequer se inscreviam para o BAC (MASSI;
temente o "mito do dom e do talento" que atribuía o interesse
VILLANI, 2014). Nesta instituição, o BAC atende princie o sucesso escolar ao mérito individual dos estudantes.
palmente alunos de classe alta e classe média alta, enquanto
Através de uma analogia, podemos imaginar que a escola e
a LIC atende classe média baixa e classe popular. Assim, já
seus sistemas avaliativos seriam uma piscina e que vários aluno vestibular, encontramos alunos da classe popular inscritos
nos, com diferentes origens sociais, seriam colocados diante
apenas na LIC, provavelmente devido à "causalidade do
dela com o objetivo de atravessá-la. No entanto, desconsideprovável", pois acreditavam que o BAC "não era para eles",
ramos que as condições de origem
a partir das colocações da maioria
dos alunos são diferentes: alguns
das pessoas de classes populares
Com base em análises estatísticas
não sabem nadar; outros compeque eles conhecem4. Isso mostra
sobre um grande volume de dados
tem na natação desde pequenos;
à comunidade de educadores em
do sistema escolar francês, Bourdieu e
outros possuem equipamentos
química que boa parte dos licenPasseron (2014) mostraram que a escola
que auxiliam a realização da taciandos nessa área são oriundos
não era uma instituição que promovia
refa. Independente disso, a escola
de famílias com baixo capital culdemocraticamente a mudança social. Eles
considera todos iguais e planeja o
tural e econômico, o que implica
enunciaram o que ficaria conhecido como
ensino com base nessa premissa,
a necessidade de se considerar
a "sociologia da reprodução", afirmando
contribuindo para a manutenção
esse ponto de partida ao formar
que a escola serve como instrumento de
das segregações de classe existenos professores nos cursos de licenreprodução da sociedade, mantendo uma
tes na sociedade. Simplificando
ciatura, buscando caminhos para
estrutura de dominação ao se pautar no
ainda mais, Bourdieu e Passeron
ampliar seu repertório cultural.
capital cultural das classes dominantes.
(2014) mostraram que quanto meDa mesma forma que em sua
nos recursos os alunos tivessem,
teoria geral, existe uma forte
em termos de capital cultural, econômico e social, menores
dependência da variável classe social para a explicação
seriam suas chances de ascensão dentro do sistema escolar.
bourdiana sobre a realidade escolar. Nesse contexto, é imDesse modo, podemos pensar a relação dos estudantes
portante explicar que essas classes e frações internas não são
com a escola em uma escala social e não como fruto de
pré-definidas para o autor e também não dependem apenas
uma característica pessoal inerente ao indivíduo. Segundo
de critérios econômicos, devendo ser reconstruídas em cada
Bourdieu (1998b, p. 121), "o `interesse' que um agente ou
contexto social estudado, considerando todas as formas de
uma classe de agentes dedica aos `estudos' depende de seu
capital (Bourdieu, 2007a).
êxito escolar", anterior, atual e pressentido, "e do grau em
Em geral, é possível encontrar três grandes classes, dique seu êxito escolar é, em seu caso particular, condição
vididas em alta (ou elite), média e baixa (ou popular), que
necessária e suficiente para seu êxito social". Soma-se a esse
empregam "estratégias de manutenção" ou "estratégias de
fator o retorno do título escolar e o lucro almejado no mercasubversão" dependendo de sua posição social (Bourdieu,
do de trabalho e simbólico. A partir dessa teoria, a percepção
1998b). A elite e a classe baixa tendem a buscar manter sua
corriqueira dos professores de que alguns alunos não têm
posição. Apesar de parecer contraditório, para Bourdieu
"interesse" na escola pode ser ressignificada para entender(2007a, p. 311), a classe popular é incapaz de "vislumbrar
mos que esse aluno "desinteressado" não consegue perceber
para os filhos um futuro diferente de seu próprio presente",
uma ascensão social, através da escola, como possível para
portanto, não percebe a ascensão como possível e busca,
sua classe social. Isso ocorre pois ele não almeja para seu
mesmo que de modo inconsciente, sua manutenção ou
futuro colocações sociais que dependam de conhecimento ou
sobrevivência. Apenas a classe média emprega "estratégias
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Contribuições da sociologia de Bourdieu

Vol. 39, N° 4, p. 321-328, NOVEMBRO 2017

323

324

de subversão", pois, de sua posição intermediária, enxerga
social dos filhos, através de relações que gerem futuras aliancomo possibilidade tanto a queda quanto a ascensão. Para
ças comerciais ou matrimoniais (Nogueira, 2002, p. 63). A
essa camada, a escola representa um dos principais caminhos
autora notou ainda que, devido a sua baixa escolaridade, os
para a mudança de classe.
pais não conseguem impor aos filhos o amor pelo estudo,
É claro que sempre existem exceções que contrariam
embora exortem o empenho escolar. Em outro estudo com
essas regularidades de classe, como as citadas no início
a elite brasileira, Prado (2000) realizou um levantamento
deste texto. No entanto, a sociologia bourdiana foi proposta a
preliminar de dados quantitativos, analisando uma estratégia
partir de análises estatísticas e macroscópicas, interpretando
educativa específica das elites: os intercâmbios culturais. Ele
as principais tendências sociais através de regularidades, ou
percebeu que a elite passou a buscar esse tipo de aprendizaseja, trajetórias sociais mais recorrentes. Isso não exclui a
gem distintiva de línguas estrangeiras diante da ampliação
possibilidade da exceção e ela não contradiz a teoria, pois o
de acesso a cursos de línguas.
autor não apresenta sua teoria social na forma de "regras",
mas sim de "regularidades". Os raros casos que alcançam
Classes Médias: malthusianismo e ascetismo
a ascensão social através da escola, apesar de sua condição
Segundo Bourdieu (2007a, p. 318), a camada média,
adversa, são citados para justificar o papel das características
ou pequena-burguesia, exprime fisicamente, através de sua
individuais e, indiretamente, colaboram para a manutenção
hexis corporal, sua relação objetiva com o mundo social:
da reprodução escolar de desigualdades sociais.
"um homem que deve se fazer pequeno para passar pela
Passamos a desenvolver as ideias de Bourdieu (2007b)
porta estreita que dá acesso à burguesia". Assim, empregam
sobre a relação diferenciada que cada classe social estabediferentes estratégias, em função da fração de classe a que
lece com o universo escolar em
pertencem, e tendem a investir
função, principalmente, do quanto
pesada e sistematicamente na
Os raros casos que alcançam a ascensão
ela depende da escola para sua
escolarização dos filhos. Nogueira
social através da escola, apesar de sua
manutenção ou ascensão social.
e Nogueira (2009) sintetizam alcondição adversa, são citados para
gumas características que marcam
justificar o papel das características
Elite: desenvoltura e confiança
esse grupo: ascetismo, isto é, uma
individuais e, indiretamente, colaboram
Por não depender da escola
maneira austera de viver, renúncia
para a manutenção da reprodução escolar
para assegurar sua posição social
a prazeres imeditados, disciplina,
de desigualdades sociais.
e, ao mesmo tempo, encontrar
autocontrole e dedicação aos esnesse espaço uma cultura muito
tudos; malthusianismo, através da
próxima da sua cultura de origem, em termos linguísticos
estratégia de fecundidade de controle do tamanho da prole,
e artísticos, por exemplo, as classes altas estabelecem uma
"na impossibilidade de aumentar a renda, precisa reduzir
relação de desenvoltura e confiança com a escola. Frações
a despesa, isto é, o número de consumidores" (Bourdieu,
dentro dessa mesma classe social criam uma clivagem inter1998b, p. 106); e a boa vontade cultural, ou seja, a docilidade,
na em função da presença de um maior capital cultural ou
o esforço e a tenacidade com que se entregam ao trabalho
econômico que gera princípios de diferenciação em relação à
de aquisição da cultura legítima.
escola: os que pertencem à elite e têm maior capital cultural
Maria Alice Nogueira (1995, 2010) realizou duas grandes
são marcados por hedonismo e ascetismo aristocrático que
sínteses sobre as estratégias de escolarização de famílias da
levam a carreiras escolares longas e prestigiosas; os que têm
camada média brasileira. Ela indicou que essas famílias ademais capital econômico do que cultural, como as famílias de
rem intensamente a valores escolares; realizam investimentos
grandes empresários, têm uma relação com a escola marcaescolares de energia e tempo; acompanham cuidadosamente
da por diletantismo e laxismo, fruto de um distanciamento
a escolaridade dos filhos dentro e fora da escola; acreditam na
desse universo levando-os à escola apenas pela certificação.
necessidade de um trabalho conjunto entre pais e professores;
Independente da fração de classe, a elite é marcada por
reivindicam o tipo de formação, estabelecimento de ensino
um princípio de distinção, uma preocupação em se diferene até a sala de aula, mesmo nas escolas públicas; detêm um
ciar das outras classes sociais e de seus próprios integrantes,
amplo leque de informações sobre o sistema escolar e a "cacultivando a "diferença em todas esferas da vida social"
pacidade estratégica" de investimentos no ensino, apoiada em
(Nogueira; Nogueira, 2009, p. 68). Esse princípio também
uma rede de contatos com outros pais de alunos; estimulam
se manifesta em relação à escola, de modo que essa classe
atividades extra-escolares; apelam à internacionalização da
sempre procura espaços escolares diferenciados que garanformação e da carreira escolar dos filhos, com variação de
tam exclusividade para a elite.
intensidade segundo a fração de classe e país de origem;
No Brasil, um estudo de Maria Alice Nogueira (2002),
pertencem a uma "parentocracia", em que a riqueza e os
com 25 famílias de empresários de pequeno e médio porte
desejos dos pais são mais importantes do que a capacidade
de Belo Horizonte (Minas Gerais), entrevistou alunos que
e o esforço do filho (aluno).
estavam cursando o nível superior e suas mães. Ela percebeu
que essa classe "não aposta todas as fichas na escola" e que
Camadas populares: rejeição e esperança
esse espaço cumpre mais o papel de desenvolver o capital
As classes baixas são marcadas pela escolha do
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Contribuições da sociologia de Bourdieu

Vol. 39, N° 4, p. 321-328, NOVEMBRO 2017

necessário, resultante da internalização de suas chances
contextualizá-los no ensino de ciências. Para tal, o conceito
objetivas de vida, ou seja, da "causalidade do provável".
de capital cultural é central, pois influencia diretamente o
Por seus membros não vislumbrarem um futuro diferente
desempenho escolar (já discutido), os esquemas mentais do
daquele dos seus pais, desenvolvem uma baixa expectativa
agente e sua relação com a língua culta.
em relação à escola, que costuma
A apropriação da língua culta
exigir investimentos prolongados
é fundamental para todos os proAs classes baixas são marcadas pela
com resultados a longo prazo. Por
cessos de ensino-aprendizagem
escolha do necessário, resultante da
exemplo, muitos alunos dessa
escolar, desde a língua portugueinternalização de suas chances objetivas de
classe social tendem a abandonar
sa padrão, presente em todas as
vida, ou seja, da "causalidade do provável".
a escola para procurar um trabadisciplinas, até as especificidades
Por seus membros não vislumbrarem um
lho cujo retorno financeiro seja
de linguagem de cada área de
futuro diferente daquele dos seus pais,
imediato. Esse quadro implica
ensino ­ cujo papel fundamental
desenvolvem uma baixa expectativa em
em uma relação resignada com o
a pesquisa em educação em cirelação à escola, que costuma exigir
sistema de ensino e um envolviências vem mostrando desde seu
investimentos prolongados com resultados
mento moderado com os estudos.
surgimento. Essa relação com a
a longo prazo. Por exemplo, muitos alunos
Além disso, por não terem o calíngua culta foi identificada por
dessa classe social tendem a abandonar
pital cultural distintivo da elite,
Bourdieu (1983c) como uma fora escola para procurar um trabalho cujo
os pais costumam apresentar um
ma de capital linguístico. Para o
retorno financeiro seja imediato.
liberalismo em relação à eduautor, este é um dos capitais mais
cação da prole (sem cobrança e
difíceis de serem adquiridos, visto
acompanhamento).
que exige um trabalho constante e prolongado, geralmente
Apesar dessa tendência, é possível encontrar caminhos
fruto da primeira socialização familiar.
para superar esse destino mais provável, mesmo que eles
Para pensar no ensino de ciências, recuperamos a disnão representem regularidades. Estudos brasileiros sobre
cussão de Mortimer (1998) que mostra como a linguagem
a camada popular investigaram estratégias escolares de
científica da química é diferente da cotidiana, através da
estudantes de ensino superior e encontraram elementos
comparação entre as seguintes frases: "Quando colocamos
que diferenciavam essas trajetórias. Viana (2000) estudou a
sal em água e aquecemos, conseguimos dissolver uma maior
trajetória de sete estudantes de ensino superior no estado de
quantidade do que em água fria" (cotidiana) e "O aumento
Minas Gerais e identificou que eles tiveram oportunidades de
de temperatura provoca um aumento da solubilidade do
acesso a boas escolas; recusavam a perspectiva profissional
sal" (científica). A diferença mais imediata são os termos
do pai, manifestando um desejo de emancipação de suas
científicos específicos que, segundo Mortimer (1998), são
origens rurais; estavam inseridos em grupos de amigos da
formados através de processos de nominalização e, portanto,
classe média; tinham suportes familiares, principalmente na
aumentam a densidade léxica do texto.
figura da mãe; apresentavam afinidade com a cultura legítiO autor acrescenta que a diferença entre essas duas
ma; tinham desempenho escolar bom e regular na educação
linguagens está presente também na estrutura gramatical.
básica pública, apesar de períodos acidentados; percebiam o
Enquanto na linguagem cotidiana o agente está presente, os
vestibular como grande obstáculo, contornado pela utilização
verbos designam ações dos agentes e os fatos são apresentafrequente de cursos preparatórios para o vestibular (chamados em ordem linear; na linguagem científica, o agente desados "cursinhos"); apresentavam dificuldade de conciliação
parece e o verbo indica uma relação entre grupos nominais.
entre trabalho e estudo.
Ademais, o texto científico tem uma estrutura própria, em
Portes (2000) estudou trajetórias de estudantes de clasque a primeira frase ou parte representa o que já se conhece
ses populares matriculados em cursos de ensino superior
através da nominalização e a segunda parte ou frase traz a
altamente seletivos e elitizados. Ele identificou como
nova informação também nominalizada (1998).
"circunstâncias atenuantes" dessas trajetórias uma ordem
Portanto, nos parece claro que, embora se mantenha
moral doméstica (atenção para com o trabalho escolar do
dependente de regras gerais da língua culta, a linguagem
filho, esforço para compreender e apoiar o filho); a eterna
científica da química é mais complexa que a linguagem
aproximação dos professores; a busca de ajuda material; e
cotidiana. Nesse sentido, podemos ampliar nossa percepção
a existência e importância de um duradouro grupo de apoio,
sobre a dimensão do desafio colocado para o ensino de quíconstruído no interior do estabelecimento escolar.
mica e ciências em geral, pois um estudante que não tenha
domínio da língua culta padrão, provavelmente, em função
Implicações da teoria para repensar a educação e os processos
de um baixo capital cultural e linguístico familiar, terá que
de ensino-aprendizagem em ciências
se apropriar da língua culta padrão e das especificidades da
linguagem científica para compreender a química ensinada
Apesar de não ser uma teoria pedagógica, é possível
na escola.
considerar a perspectiva bourdiana para repensar a esAlém do capital linguístico, como enunciamos, o conceito
cola e os processos de ensino-aprendizagem, bem como
de capital cultural inclui a constituição dos esquemas mentais
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Contribuições da sociologia de Bourdieu

Vol. 39, N° 4, p. 321-328, NOVEMBRO 2017

325

dos indivíduos. No texto "Sistemas de ensino e Sistemas
de Pensamento", Bourdieu (2007c, p. 205) explica que "a
cultura escolar propicia aos indivíduos um corpo comum de
categorias de pensamento que tornam possível a comunicação". Portanto, os indivíduos devem à escola "não apenas
um discurso e uma linguagem comuns, mas também terrenos
de encontro e de acordo, problemas comuns e maneiras de
abordar tais problemas comuns" (Bourdieu, 2007c, p. 207).
O autor explica, ainda, que essas categorias de pensamento
são dependentes do contexto social e histórico em que a
escola se insere e podem refletir a "personalidade intelectual
de uma nação" (Bourdieu, 2007c, p. 222). Pensando especificamente na aprendizagem de ciências, nos parece fundamental apresentar a seguinte reflexão de Bourdieu (2007b,
p. 209-210) sobre a constituição desses esquemas mentais:

326

induções imediatas sobre a movimentação da Terra e dos
planetas. Já no ensino superior de química, o modelo atômico
quântico é totalmente dependente de um raciocínio matemático e de uma capacidade de abstração muito mais complexa,
porém ainda dependente do exigido no nível médio.
Kleinke e Gebara (2007) realizaram um amplo estudo
quantitativo, comparando a influência do capital cultural
familiar e da frequência a cursos pré-vestibulares com o
desempenho dos candidatos oriundos de escolas públicas
e privadas em questões de física no vestibular. Os autores
perceberam que a frequência a cursinhos tem efeito similar
nos alunos de escola pública e particular. Para os alunos
da escola pública, que geralmente apresentam um capital
cultural menos favorecido, essa variável tinha maior influência no desempenho no vestibular do que o cursinho. Isso
se explica pois o desempenho em questões com linguagem
De fato, pode-se supor que cada sujeito deve ao
direta e matemática era influenciado pelo cursinho, enquanto
tipo de aprendizagem escolar que recebeu um conquestões que exigiam diferentes linguagens e/ou leitura de
junto de esquemas fundamentais, profundamente
textos mais elaborados eram influenciadas pelo capital culinteriorizados, que servem de princípio de seleção
tural. Esse dado mostra que os cursos pré-vestibulares são
no tocante às aquisições ulteriores de esquemas, de
eficazes no treinamento para a resolução de questões, no
modo que o sistema dos esquemas segundo os quais
entanto, aprendizagens mais complexas dependem mais da
organiza-se o pensamento desses sujeitos deriva sua
influência familiar e da trajetória de escolarização do sujeito,
especificidade não apenas da natureza dos esquemas
materializadas como capital cultural.
constitutivos e do nível de consciência com que estes
Além desses elementos, segundo Bourdieu (2007b, p.
são utilizados e do nível de consciência em que ope219), "a relação que um indivíduo mantém com sua cultura
ram. É claro, tais propriedades encontram-se ligadas
depende, fundamentalmente, das condições nas quais ele a
às condições de aquisição dos esquemas intelectuais
adquiriu", isso ocorre, pois, "o ato de transmissão cultural
mais fundamentais.
é, enquanto tal, a atualização exemplar de um certo tipo de
relação com a cultura". Portanto, quando estou ensinando
Portanto, cada novo esquema mental depende daqueles
não transmito apenas o conteúdo, mas minha relação com
constituídos anteriormente. No ensino de ciências em geral
ele. Uma mãe que estimula o filho a encapar e cuidar do livro
e, em especial, na química, buscamos desenvolver junto
escolar ensina, indiretamente, que um livro é importante, reaos alunos esquemas mentais específicos, mas que são funpresenta um saber que deve ser respeitado, portanto, estudar
damentalmente dependentes de
também é importante e tem valor.
esquemas anteriores. Entendemos
Um professor que consegue transSegundo Bourdieu (2007b), os esquemas
que um dos principais esquemas
mitir aos alunos sua paixão pelo
mentais são acumulativos, portanto, no
envolvidos na aprendizagem em
conhecimento leva-os a buscar
nível médio, um aluno só poderá imaginar
química seja a abstração. Em geral,
sempre novas aprendizagens; ino modelo atômico de Rutherford se tiver
a diferença entre uma concepção
felizmente, o contrário também se
capacidade de "visualizar" o sistema solar,
cotidiana e científica está diretaaplica para aprendizagens marcacontrariando suas induções imediatas
mente relacionada à abstração.
das por experiências traumáticas
sobre a movimentação da Terra e dos
Segundo Mortimer (1992), a maior
e negativas, como costumam ser
planetas. Já no ensino superior de química,
parte das nossas ideias de senso
as histórias de estudantes com as
o modelo atômico quântico é totalmente
comum são realistas e intuitivas.
ciências exatas.
dependente de um raciocínio matemático
Acreditamos, ainda, que outros
O conjunto dessas ideias pode
e de uma capacidade de abstração muito
esquemas mentais anteriores e
apontar inicialmente para uma
mais complexa, porém ainda dependente
fundamentais para a aprendizagem
leitura pessimista e estática da
do exigido no nível médio.
em ciências sejam o raciocínio
realidade escolar. Esse é um dos
matemático e o espacial.
aspectos mais criticados na socioÉ comum ouvirmos dos alunos que sua dificuldade ou
logia bourdiana. No entanto, entendemos que uma leitura
desinteresse em química sejam reflexo da sua relação com a
sociológica do mundo fornece uma melhor compreensão
matemática. Segundo Bourdieu (2007b), os esquemas mensobre a realidade que não está carregada necessariamente
tais são acumulativos, portanto, no nível médio, um aluno
de uma conotação positiva ou negativa. A própria sociologia
só poderá imaginar o modelo atômico de Rutherford se tiver
mostrou, por exemplo, que o capital cultural tem maior peso
capacidade de "visualizar" o sistema solar, contrariando suas
que outras formas de capital nas trajetórias escolares.
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Contribuições da sociologia de Bourdieu

Vol. 39, N° 4, p. 321-328, NOVEMBRO 2017

Em nosso estudo, adotando a perspectiva bourdiana para
analisar trajetórias de licenciandos em química, percebemos
um aumento na frequência a cursos pré-vestibulares e ensino
médio privado entre os aprovados no vestibular, que não é
proporcional a uma melhoria na condição econômica do
aluno (MASSI; VILLANI, 2014). Ou seja, para conseguir
a aprovação no vestibular, os estudantes buscaram outras
formas de escolarização, por meio de seu capital cultural,
mesmo sem vivenciar um aumento no capital econômico
familiar. Isso mostra que esses candidatos à licenciatura em
química reconheceram a importância do investimento em sua
formação para se preparar para o ingresso no ensino superior.
Diante dessas análises, acreditamos que cabe aos educadores pensar na sua prática pedagógica levando em consideração
os elementos identificados pelo autor e pelos pesquisadores
que o seguiram. Essa discussão sobre a influência (linguística,
mental e de trajetória social) que o capital cultural tem nos
processos de ensino-aprendizagem pode ajudar o professor a
perceber melhor sua esfera potencial de atuação, bem como
planejar seu ensino diante da realidade dos seus alunos.
Um dos primeiros pontos a ser considerado pelos educadores é que, apesar da teoria apontar para o papel fundamental da família na constituição do habitus e do capital
cultural, enquanto esperarmos que elas entreguem para a
escola um aluno com um conjunto mínimo de características
pré-estabelecidas, estaremos admitindo que a escola nunca
será democrática. Segundo Bourdieu (1998c, p. 53), "tratando todos os educandos, por mais desiguais que sejam eles
de fato, como iguais em direitos e deveres, o sistema escolar
é levado a dar sua sanção às desigualdades iniciais diante
da cultura". Portanto, ele propõe, de modo quase utópico
e em poucos de seus textos iniciais, alguns princípios de
uma "pedagogia racional e universal", que combateria essa
desigualdade (BOURDIEU, 1998c, p. 53):
[...] uma pedagogia racional e universal, que,
partindo do zero e não considerando como dado o
que apenas alguns herdaram, se obrigaria a tudo em
favor de todos e se organizaria metodicamente em
referência ao fim explícito de dar a todos os meios
de adquirir aquilo que não é dado, sob a aparência
do dom natural, senão às crianças das classes privilegiadas.
Transpondo-a para o ensino de ciências e química, pensamos que os professores poderiam se preocupar inicialmente
em conhecer o público que recebem na escola. Esse diagnóstico ajuda a estimar qual é o capital cultural, social, econômico
e o habitus desses indivíduos. Isso pode ser feito através de
questionários, entrevistas ou, ainda, solicitando ao aluno que
escreva sua história no formato de narrativas. Entendemos
que esse reconhecimento não deve ter como objetivo nivelar
a escola e a ação educativa em relação aos alunos que atende,
mas repensar o ponto de partida do processo de ensino-aprendizagem. Considerar o contexto e as aprendizagens anteriores
dos estudantes ajuda o professor a alcançar os pontos de
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

chegada almejados nos diferentes níveis de ensino. Assim,
práticas como retomar conteúdos anteriores (eventualmente
até de outras áreas, como a matemática para ensinar química),
estabelecer articulações entre conceitos e formas de ensino
diferentes e procurar, na medida do possível, promover um
maior conhecimento sobre o sistema de ensino e acesso a
diversas formas de cultura podem contribuir para a melhoria
da qualidade de ensino que oferecemos, principalmente, para
as classes menos favorecidas.
A transposição dessa discussão para o campo do currículo
reforça e ressignifica a importância da contextualização no
ensino dos conteúdos escolares, amplamente indicada pela
literatura educacional e pelas orientações curriculares oficiais.
Torres (1995, p. 100) explica que, através da teoria bourdiana,
podemos entender que "os recursos didácticos funcionam
como um filtro de selecção dos conhecimentos e verdades
que coincidem com os interesses das classes e grupos sociais
dominantes". Portanto, para ele, o currículo reflete uma ideologia mesmo que através de vazios e silêncios. No ensino de
ciências, essa discussão pode ser complementada a partir da
noção de campo científico. Apoiados na sociologia da ciência
bourdiana, Lima Júnior e colaboradores (2015) mostram como
a física e uma construção cultural arbitrária, pois não reconhece a contribuição de um físico brasileiro para a discussão
do conceito de forças inerciais. Assim, os currículos escolares
silenciam uma parte da produção científica que, assim como
os estudos em história e filosofia da ciência vêm defendendo
há bastante tempo, poderia ser explorada para aproximar o
conteúdo da realidade do estudante.
Por fim, a sociologia bourdiana também ajuda o professor
a repensar suas práticas de avaliação. Como já indicamos
no exemplo da piscina, a ideia de que uma avaliação justa
consiste em avaliar todos os alunos da mesma forma pode
ser questionada. Bourdieu (2007b) mostra que a escola costuma avaliar melhor as performances que não são fruto do
aprendizado escolar, mas de uma desenvoltura do estudante
que só pode ser adquirida na família. Dito de outra forma,
o aluno que adere completamente aos valores escolares,
exibindo comportamentos tipicamente atribuídos ao "CDF"
(termo vulgar que remete a uma dedicação intensiva ao estudo), não costuma ser melhor avaliado que os "naturalmente
brilhantes" (2007b).
Bourdieu (2012) propõe que uma avaliação realmente
justa deveria atribuir conceitos/notas iguais para desempenhos diferentes e conceitos distintos para os mesmos
desempenhos. Isso se daria pois o professor deveria avaliar
a evolução do estudante ao longo do processo de ensino e
não o produto final entregue para avaliação. Considerando
as diferenças sociais e escolares de origem, cada aluno seria
proporcionalmente avaliado pelo seu desempenho na resolução da tarefa proposta pelo professor. O próprio autor aponta
este como um caminho extremo ou absurdo, mas acreditamos
que ele possa ser um norte ­ complementado pelas propostas
já amplamente discutidas das avaliações formativas ­ para
alcançarmos não apenas processos de ensino-aprendizagem,
mas também formas de avaliação mais justas e democráticas.

Contribuições da sociologia de Bourdieu

Vol. 39, N° 4, p. 321-328, NOVEMBRO 2017

327

Notas
Recentemente, conhecemos o caso de um lixeiro que,
através dos livros encontrados no lixo, conseguiu estudar e
ingressar em um curso de medicina. Fonte: http://www.hypeness.com.br/2014/07/jovem-se-torna-medico-com-ajuda-de-livros-encontrados-no-lixo/. Acesso em: 19jul2016.
2
A ação humana também é interpretada por outras áreas
que, assim como a sociologia, reconhecem não serem capazes de fornecer sozinhas essa explicação.
3
Alguns limites e prolongamentos dessa sociologia foram
1

Referências

328

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sintetizados por Bernard Lahire, no artigo "Reprodução ou
prolongamentos críticos?", publicado em 2002 na revista
Educação e Sociedade.
4
Esse efeito no vestibular é encontrado em vários cursos
e instituições e foi denominado "auto-seleção".
Luciana Massi ([email protected]), doutora em Ensino de Química pela

USP, licenciada em Química pela UNESP e mestre em ciências pela USP. Atua
como docente da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara e do Programa
de PósGraduação em Educação para Ciência da Faculdade de Ciências de Bauru
UNESP. Bauru, SP ­ BR.

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Abstract: Contributions from Bourdieu's sociology to rethink Education and Science education. In this article, we present Pierre Bourdieu's sociological
perspective to rethink the role of education in society and the process of learning and teaching. Initially, we present the general tenets of Bourdieu's theory;
then we explain how these tenets help us to understand the educational reality, based on national examples from the science education area; finally, we indicate
ways to think about improvements for school and professor's actions. The perspective propagated in this text can contribute to science or chemistry teacher's
actions, because: 1) we discuss the importance of a student's social reality diagnosis and the following teaching contextualization; 2) we analyse the linguistics
and mental predicaments of learning science; 3) we rethink curriculum and evaluation based on Bourdieu's perspective.
Keywords: sociology; Pierre Bourdieu; education and society.

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Contribuições da sociologia de Bourdieu

Vol. 39, N° 4, p. 321-328, NOVEMBRO 2017

ANOS

Relatos de Sala de Aula

http://dx.doi.org/10.21577/0104-8899.20160091

Temática Chás: Uma Contribuição para o Ensino de
Nomenclatura dos Compostos Orgânicos

Francisco Erivaldo F. da Silva, Viviane G. P. Ribeiro, Nilce V. Gramosa e Selma E. Mazzetto
A nomenclatura dos compostos orgânicos abordada no ensino médio é um assunto no qual muitos alunos
encontram dificuldades em função das regras, das definições e das classificações. Pensando nisso, no presente
trabalho a temática Chás foi empregada como uma ferramenta de ensino devido às suas propriedades benéficas
no organismo e pelas substâncias orgânicas que os constituem. O estudo envolveu aulas expositivas, discussões e questionários, todos com a finalidade de analisar as concepções prévias e conhecimentos adquiridos
pelos alunos. Também foi desenvolvida uma atividade de identificação dos chás através da combinação
multissensorial. Os resultados mostraram que a utilização de um assunto presente no cotidiano dos alunos,
sobretudo na região Nordeste do país, combinado ao estímulo dos sentidos, favorecem e estimulam a busca
pelo conhecimento, contribuindo para a formação cidadã de forma consciente e saudável.
nomenclatura dos compostos orgânicos, chás, combinação multissensorial

Recebido em 17/08/2016, aceito em 15/02/2017

A

Química Orgânica está relacionada com o estudo dos
substâncias orgânicas utilizadas no dia a dia, ocasionando
compostos que contém carbono, os quais são classium desinteresse pelo assunto.
ficados em diversas funções, de acordo com as suas
Contextualizar, no ensino de Química, utilizando um
estruturas e as suas propriedades
tema que tenha vínculo com o
físicas e químicas. Estes composcotidiano é fundamental para
Contextualizar, no ensino de Química,
tos são bastante abundantes no
favorecer uma melhor participautilizando um tema que tenha vínculo
nosso planeta e essenciais para a
ção em sala de aula e melhorar
com o cotidiano é fundamental para
manutenção dos seres vivos, pois
o aprendizado. A contextualizafavorecer uma melhor participação em
estão presentes nas plantas, nos
ção das disciplinas surgiu como
sala de aula e melhorar o aprendizado.
alimentos, no DNA, dentre outros
um dos pilares da reforma do
A contextualização das disciplinas
(Solomons e Fryhle, 2012).
Ensino Médio, a partir da Lei de
surgiu como um dos pilares da reforma
A Nomenclatura dos
Diretrizes e Bases da Educação
do Ensino Médio, a partir da Lei de
Compostos Orgânicos é um dos
(LDB no 9.394/96), valorizando a
Diretrizes e Bases da Educação (LDB no
conteúdos fundamentais na discompreensão dos conhecimentos
9.394/96), valorizando a compreensão dos
ciplina de Química Orgânica no
para uso cotidiano. Outra diretriz
conhecimentos para uso cotidiano.
ensino médio. A maior parte dos
importante, também nesta vertenalunos encontra muitas dificuldate, são os Parâmetros Curriculares
des devido às exigências de memorização quanto às suas
Nacionais (PCNs), os quais orientam as escolas e os proregras, às suas denominações e classificações (Matos et al.,
fessores em um novo modelo ancorado sobre dois eixos: a
2009). Dessa forma, os alunos não conseguem perceber as
contextualização e a interdisciplinaridade.
relações entre o conteúdo ministrado pelos professores e as
Os conteúdos de Química não se limitam apenas à própria disciplina, mas inter-relacionam-se com as outras áreas,
explicando fenômenos biológicos, físicos e históricos. Deste
A seção "Relatos de sala de aula" socializa experiências e construções vivenciadas nas
aulas de Química ou a elas relacionadas.
modo, ensinar utilizando ferramentas importantes como a
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Temática Chás

Vol. 39, N° 4, p. 329-338, NOVEMBRO 2017

329

330

contextualização e a interdisciplinaridade não é apenas citar
de sachês (chás em saquinhos) e (3) Avançada, para atender
exemplos de fatos do cotidiano, mas sim, vincular esses
com medicamentos às unidades de saúde em maior escala
fatos ao conhecimento científico, de maneira a facilitar a
(Moreira, 2013).
aprendizagem e atrair o aluno a fazer reflexões sobre o asSendo assim, o conhecimento dos alunos sobre as prosunto em debate. Além disso, também pode criar um clima
priedades medicinais dos chás e a análise das estruturas de
de discussão em sala, dando significância ao papel do aluno,
seus principais constituintes justificam a abordagem dessa
daquilo que ele é capaz de pensar, de formular teorias e de
temática no conteúdo de Nomenclatura dos Compostos
se sentir bem na escola e fora dela, é incentivar o aluno a
Orgânicos aplicada a alunos do último ano do ensino médio.
se tornar importante, fazendo com que surja dentro dele o
interesse pelo conhecimento (Vidal e Melo, 2013).
Nomenclatura dos Compostos Orgânicos, Segundo as
Por outro lado, a LDB estabelece que os currículos devem
Recomendações da IUPAC
ter uma base nacional comum, que devem ser complemenA principal finalidade da nomenclatura química é identados, em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento
tificar os compostos por intermédio de palavras escritas ou
escolar por uma parte diversificada, exigida pelas característipronunciadas. Este objetivo exige um sistema de princícas regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia
pios e normas, cuja aplicação origina uma nomenclatura
e dos educandos (Brasil, 1996). Neste sentido, a temática
sistemática, contida nas recomendações de 1979 da União
Chás surge, então, como uma ferramenta muito importante na
Internacional da Química Pura e Aplicada (IUPAC), sigla
perspectiva de possibilitar a relação entre a contextualização e
que vem do inglês International Union of Pure and Applied
a interdisciplinaridade, contribuindo para uma aprendizagem
Chemistry.
que permita a formação do conhecimento químico pelos aluAs Recomendações da IUPAC de 1993 modificaram
nos (Sá et al., 2012). O hábito de beber chá devido à sua ampla
alguns princípios fundamentais utilizados na Nomenclatura
variedade de sabores e de aromas,
dos Compostos Orgânicos e
além da finalidade terapêutica,
introduziram novos conceitos,
O hábito de beber chá devido à sua ampla
abrange muito mais do que apenas
como por exemplo, na posição
variedade de sabores e de aromas, além
o consumo de uma bebida, é um
dos localizadores (número e/ou
da finalidade terapêutica, abrange muito
acontecimento cultural e tem um
letras usados para indicar posição
mais do que apenas o consumo de uma
importante papel social no Brasil.
dos átomos, grupos substituintes,
bebida, é um acontecimento cultural e
A utilização de chás de plantas
ligações duplas ou triplas), e os
tem um importante papel social no Brasil.
medicinais, por exemplo, costuma
nomes de alguns compostos soA utilização de chás de plantas medicinais,
ser um dos recursos para uma parfreram mudanças (Power, 1993;
por exemplo, costuma ser um dos
cela da população, especialmente
Tomé, 2010; Rodrigues, 2011).
recursos para uma parcela da população,
a de baixa renda, em função do
A nomenclatura tem como priespecialmente a de baixa renda, em função
custo elevado dos medicamentos
mórdio
essencial definir que cada
do custo elevado dos medicamentos
industrializados e do acesso, muisubstância
seja nomeada sem que
industrializados e do acesso, muitas
tas vezes limitado a um sistema de
ocorra qualquer ambiguidade.
vezes limitado a um sistema de saúde de
saúde de qualidade. Há também
Sendo assim, a IUPAC admite
qualidade.
de se mencionar que seu uso tem
vários tipos de nomenclatura para
aumentado ultimamente entre as
um mesmo composto. As mais
classes de maior poder aquisitivo, na procura por tratamentos
relevantes inseridas no ensino médio são: nomenclatura
alternativos mais saudáveis (Cavaglier e Cesseder, 2014).
sistemática ou substitutiva, nomenclatura de classe funcional
O chá tem destaque também nas regiões brasileiras, emboe nomenclatura trivial. Isso demonstra que uma substância
ra essas sejam muito diferentes entre si, é unânime, em todas
pode ter diversos nomes sistemáticos, mas cada um deve,
elas, o emprego do chá na culinária e na finalidade terapêutica,
sem ambiguidade, conduzir a uma única fórmula.
mesmo nas regiões mais quentes como no Norte e no Nordeste
A nomenclatura sistemática ou substitutiva baseia-se em
do país. Em Fortaleza, por exemplo, a sabedoria popular se
prefixos, infixos e sufixos (também se usa localizadores antes
uniu ao conhecimento científico e resultou em 1983 no projeto
dos grupos ligantes, quando necessário). O uso do prefixo
Farmácias Vivas, criado na Universidade Federal do Ceará
remete à quantidade de carbonos, o infixo informa o tipo de
pelo Prof. Dr. Francisco José de Abreu Matos (In memoriam);
ligação entre os carbonos e o sufixo refere-se à função orgâo projeto já analisou centenas de plantas e comprovou suas
nica presente. A nomenclatura de classe funcional aponta a
funções terapêuticas decorrentes da raiz, da casca, da folha,
função e o grupo orgânico no qual o composto está ligado.
da flor ou do fruto das árvores ou das ervas existentes na reAlém dessa nomenclatura sistemática, muitos compostos
gião, atribuídas previamente pelos sertanejos. Atualmente, as
apresentam também uma nomenclatura trivial, de uso freFarmácias Vivas trabalham em três dimensões: (1) Básica, na
quente na indústria e no comércio. O mentol, por exemplo,
qual as pessoas cultivam algumas plantas devidamente oriené o nome trivial do composto 2-isopropil-5-metilciclotadas, podem produzir chás e xaropes em suas comunidades;
-hexanol, sendo também uma substância responsável pelo
(2) Intermediária, as ervas são dessecadas para a formulação
aroma característico do chá hortelã (Morais et al., 2009). O
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Temática Chás

Vol. 39, N° 4, p. 329-338, NOVEMBRO 2017

nome trivial é comparado a um apelido, ou seja, não possui
significado sistemático.
À vista disto, podemos citar, por exemplo, a substância
de fórmula CH3­CO­CH3. De acordo com a IUPAC ela pode
possuir três nomenclaturas distintas: propanona (sistemática ou substitutiva), cetona dimetílica (classe funcional) e
acetona (trivial), mas também pode ser considerada como
nomenclatura semitrivial, pois cita a função existente no
composto.

hábito de muitas famílias passado de geração para geração
(Morais e Braz Filho, 2007; Morais et al., 2009).
Apesar do avanço tecnológico dos medicamentos, o uso
de práticas alternativas na saúde, por meio de chás de plantas
medicinais tem permanecido. Alguns aspectos têm contribuído para que isso aconteça, como: costumes populacionais,
melhoria nos hábitos de vida, facilidade de utilização, relação
custo-benefício, baixos efeitos colaterais, baixo custo, eficiência e/ou melhoras significativas no combate a inúmeras
enfermidades (Cavaglier e Messeder, 2014). Contudo, é
Chás: um hábito saudável
necessário que haja um consumo adequado da bebida, pois
A história sobre a origem do chá baseia-se em fábulas,
o excesso pode trazer problemas à saúde. A diferença entre
lendas e mitos. Uma lenda muito conhecida menciona que
o benefício e o malefício depende da dosagem administrada
esta bebida teve sua origem na China. O Imperador Shen
(França et al., 2008).
Nung, por volta de 2.700 a. C., tinha o costume de ferver a
A presença dos chás no cotidiano e as suas proprieágua que bebia por uma questão
dades benéficas ao organismo
de higiene. Certa ocasião, ele
do ser humano gera um tema
Os primeiros chás foram oriundos de
repousava sob a sombra de uma
muito importante para discusuma planta originária da China, Camellia
árvore quando algumas folhas casão, pois permite abordar alguns
sinensis que produz flores similares às das
íram em seu recipiente contendo
conceitos envolvendo a Química
camélias, recebendo este nome científico
água fervida. Ele ficou fascinado
Orgânica, em especial o conteúdo
que em latim significa Camélia da China.
pelo aroma e a mudança de cor da
de Nomenclatura dos Compostos
Dependendo do processo de preparação
bebida e resolveu experimentá-la,
Orgânicos, capaz de despertar o
das folhas, este arbusto pode originar
achando-a saborosa. A partir daí,
interesse dos alunos e tornar o
quatro tipos de chás: branco, verde,
difundiu-se o hábito de se consuestudo da disciplina mais atraoolong e o preto.
mir chá naquele país (Valenzuela,
tivo, contextualizado e de fácil
2004).
compreensão.
Segundo Valenzuela (2004), não se sabe ao certo sobre a
Dentro deste contexto, o presente trabalho buscou entenveracidade da citação, porém, uma das primeiras referências
der a extensão do conhecimento prévio dos alunos sobre o
escritas sobre o chá foi no ano de 200 a. C. no livro chinês
assunto Chás e fazer uma inter-relação com a Nomenclatura
sobre plantas medicinais, livro que descreve as ações desindos Compostos Orgânicos, combinada à identificação dos
toxicantes das folhas utilizadas no preparo dos chás, o que
chás através de análise multissensorial.
evidencia que, nessa época a população já fazia o uso das
propriedades medicinais dessa bebida.
Metodologia
Os primeiros chás foram oriundos de uma planta originária da China, Camellia sinensis que produz flores similares
Esta pesquisa foi realizada em duas turmas do último
às das camélias, recebendo este nome científico que em
ano do ensino médio de uma escola da rede pública da cilatim significa Camélia da China. Dependendo do processo
dade de Fortaleza-CE. As turmas foram compostas por 30
de preparação das folhas, este arbusto pode originar quatro
alunos cada, 60 no total, 29 do sexo feminino e 31 do sexo
tipos de chás: branco, verde, oolong e o preto. Apesar disso,
masculino.
outras plantas que apresentam propriedades bem diferentes
A metodologia envolvida no trabalho foi realizada através
da Camellia sinensis também podem ser utilizadas em inde cinco aulas expositivas e interativas. A primeira teve dufusões e o procedimento de obtenção é o mesmo, ou seja,
ração de 50 minutos e as demais, 100 minutos. Da primeira
fervura em água. Depois disso, qualquer tipo de infusão em
à quarta aula os alunos foram reunidos na sala de aula para
água quente passou a ser denominada popularmente de Chá
facilitar a aplicação da metodologia proposta. A primeira
(Rhomer, 2002; Duarte e Menarim, 2006).
aula foi desenvolvida por meio do seguinte protocolo:
São diversos os tipos de chás utilizados para fins teraapresentação prévia, finalidades do trabalho e, por último,
pêuticos, dentre os mais difundidos nas regiões brasileiras
foi solicitado aos alunos que respondessem um questionário
podemos citar: o boldo (para problemas digestivos), camoinicial (Material Suplementar), utilizado como ferramenta
mila (efeito calmante), capim-santo (indicado em problemas
de coleta de dados. As perguntas foram elaboradas com a
gastrointestinais), erva-doce (empregado para dor de cabeça),
finalidade de analisar o conhecimento prévio dos alunos
erva-cidreira (reduz as contrações musculares involuntárias),
sobre a Química Orgânica, Nomenclatura dos Compostos
hortelã (empregado nas afecções estomacais e intestinais),
Orgânicos e a temática Chás.
canela (incentiva o organismo a eliminar as substâncias
Na segunda aula, foram abordados conteúdos básicos
tóxicas e bactérias através do suor) e carqueja (exerce ação
fundamentais para compreender a temática a ser desenvolvida,
benéfica sobre o fígado e intestinos). Seu consumo é um
ou seja, o surgimento do chá, tipos, vantagens e o consumo do
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mesmo. Durante a aula o assunto em pauta foi contextualizado
com o dia a dia dos alunos, através de aula expositiva.
A terceira aula teve o intuito de apresentar os hidrocarbonetos e as principais funções orgânicas (álcool, fenol,
aldeído, cetona, ácido carboxílico, éster e éter), para em
seguida conduzir os alunos a realizarem uma análise da
estrutura química das substâncias orgânicas mencionadas,
identificando seus grupos funcionais e atribuindo seus nomes
sistemáticos, segundo as normas da IUPAC de 1993.
A quarta aula abrangeu o conteúdo de Nomenclatura
dos Compostos Orgânicos contextualizada com a temática
Chás. Por exemplo: iniciou-se com a nomenclatura de um
hidrocarboneto. Em seguida, o chá que continha aquela
substância foi classificado do seguinte modo: nome do chá,
propriedades terapêuticas e representação do composto em
fórmula estrutural plana com seu respectivo nome trivial.
Posteriormente, foi verificado se havia algum grupo funcional presente na estrutura química apresentada. Finalmente, o
nome sistemático de cada composto foi designado de acordo
com as normas da IUPAC.
Na Tabela 1 são apresentados os tipos de chás selecionados para a contextualização do conteúdo na quarta aula,
assim como a estrutura da principal substância orgânica
presente em cada um deles, identificada pelo nome trivial e
sistemático, de acordo com as recomendações da IUPAC.
Esses chás foram selecionados por serem de fácil acesso, de
baixo custo e, principalmente, por conterem em sua composição substâncias com fórmulas estruturais simples. Sendo
assim, cada composto representou uma função orgânica para
facilitar a abordagem do conteúdo.
Na quinta aula houve uma atividade de identificação
dos chás através dos sentidos (atividade multissensorial),
realizada em duas turmas separadamente para uma melhor
interação com os alunos. Os chás utilizados nessa atividade
foram selecionados pelos alunos com a finalidade de facilitar
o desempenho dos mesmos durante a realização do procedimento. Para o desenvolvimento dessa atividade foram
numerados sete sachês de chás: erva-doce (1), erva-cidreira
(2), boldo (3), hortelã (4), canela (5), carqueja (6) e camomila
(7). Em seguida, houve a formação de sete equipes, sendo
duas com cinco participantes e o restante com quatro, totalizando trinta alunos em cada turma. Posteriormente, os sachês
foram sorteados para os grupos e os mesmos receberam um
kit (xícara, pires, colher e sachê) juntamente com uma folha
que continha os nomes dos chás. Em seguida foi solicitado
aos integrantes de cada equipe que utilizassem os sentidos
para analisar os chás por meio do aroma, sabor, cor e aspectos
das plantas (tato). Após o término da aula houve a aplicação
de um segundo questionário (Material Suplementar), cujas
perguntas tinham por objetivo averiguar o conhecimento
adquirido pelos alunos com relação à metodologia aplicada.

Resultados e Discussão
Com o intuito de identificar o entendimento dos alunos
acerca da definição correta de uma Substância Orgânica, foi
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a eles perguntado qual seria a melhor definição para o termo
(Figura 1). Dentre as respostas citadas, 53% responderam de
forma equivocada e/ou incompleta enquanto que 47% não
conseguiram responder a pergunta. Esses resultados sugerem
que os alunos têm ainda um conhecimento fragmentado
sobre o assunto. De acordo com Gerhard (2012), um dos
efeitos da fragmentação do conhecimento é a ausência de
sentido que surge nos alunos como rejeição a determinadas
disciplinas, fazendo com que eles não percebam as semelhanças e as relações entre as áreas de conhecimento.

Figura 1: Entendimento dos alunos em relação à definição de
substâncias orgânicas.

Então, para verificar o conhecimento prévio sobre a
temática, foi perguntado se os alunos já tinham utilizado
algum tipo de chá de forma terapêutica e, de forma unânime,
observamos que os mesmos apresentaram bastante conhecimento no sentido de associá-los ao seu uso e benefícios
obtidos. Como demonstrado na Figura 2, os chás citados e
seus benefícios foram: boldo (dor de estômago); camomila
(calmante); erva-doce (dor de cabeça); erva-cidreira (dor de
estômago e insônia); capim-santo (ansiedade e nervosismo)
e canela (mau hálito).

Figura 2: Percentual dos chás citados pelos alunos.

Na perspectiva de entender um pouco mais sobre a
forma pela qual estes alunos se comportam em relação aos
problemas de saúde cotidianos, os questionamos sobre qual
procedimento eles adotam em caso de serem acometidos com
alguma enfermidade de pouca urgência e de fácil controle.
De acordo com a Figura 3, apenas 22% dos alunos preferem
procurar uma farmácia e 12% algum centro de saúde, justificando que já se habituaram a tomar remédios para alívio
dos sintomas como gripe, enxaqueca e dores de cabeça. Uma
maioria muito significativa (63%) utiliza-se dos chás para
combater os mais diversos males, afirmando ser um hábito
familiar adquirido; mostrando que na região o chá faz parte
do cotidiano da maioria dos alunos envolvidos no trabalho.
De acordo com Rohmer (2002), são muitos os tipos de
chás que agradam diversas pessoas no mundo, sendo assim,

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Tabela 1: Seleção dos chás: principal substância orgânica presente, nome trivial e nomenclatura sistemática (IUPAC)
Tipo de chá

Substância (Nome trivial)

Nomenclatura Sistemática

1-isopropil-4-metilbenzeno

Boldo (Pneumus boldus Molina)

p-cimeno

3,7-dimetilocta-1,6-dien-3-ol
Capim-santo (Cymbopogon citratus (DC)
Stapf)

Linalol

2-isopropil-5-metilfenol

Eucalipto (Eucalyptus globulus Labill)

Timol

333
(E)-1-metóxi-4-(prop-1-en-1-il)
benzeno

Erva-doce (Pimpinella anisium)

Anetol

(E)-3-fenilprop-2-enal
Canela (Cinnamomum zeylanicum Nees)

Aldeído cinâmico

2-isopropil-5-metilciclohexanona
Hortelã (Mentha piperita)

Mentona

Ácido hexadecanoico
Malva-santa (Plectranthus barbatus Andr.)

Ácido palmítico
Etanoato de 5-metilideno
6-(1-metiletenil)ciclo-hex-2-en1-ila

Carqueja (Baccharis trimera Less.)
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Acetato de carquejilo
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bebida, conforme demonstraram nos comentários sobre os
benefícios do mesmo, tais como: combate a dor de garganta,
alívio da tosse, combate a gripes e resfriados.

Figura 3: Preferência dos alunos no tratamento de enfermidades
cotidianas.

334

eles se tornam um recurso a mais no tratamento de enfermidades. O Ministério da Saúde reconhece sua segurança,
eficácia e efetividade, através do registro dos produtos tradicionais fitoterápicos do Brasil, organizado e atualizado pela
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo
o órgão, são considerados produtos tradicionais fitoterápicos
aqueles registrados com base em literatura que indique uso
seguro do produto em seres humanos por, no mínimo, 30
anos (Brasil, 2014).
Dando continuidade ao estudo do conhecimento prévio,
um último questionamento tentou analisar as relações de conhecimento dos alunos entre a Nomenclatura dos Compostos
Orgânicos e os Chás, neste caso, 80% dos alunos se mostraram indecisos, ao passo que, apenas 20% entendiam que
havia relação entre os temas, apontando uma visão estreita e
generalizada sobre o assunto, baseada apenas em concepções
limitadas, sem compreender sua aplicação em situações do
cotidiano. De acordo com Matos et al.(2009), os alunos do
ensino médio, muitas vezes, são levados a memorizar regras
e classificações na nomenclatura dos compostos orgânicos
que, por não serem utilizadas com frequência, acabam caindo
no esquecimento; e, pela forma como são abordadas, não
contribuem efetivamente para uma aprendizagem significativa, uma vez que esta só acontece quando o aluno consegue
internalizar um conceito de modo que ele passe a fazer parte
da sua visão de mundo.
Um segundo questionário foi aplicado ao final de toda
a atividade metodológica proposta neste trabalho (5 aulas),
o qual teve por finalidade averiguar o conhecimento adquirido pelos alunos acerca do assunto abordado de forma
contextualizada, além de saber a opinião dos alunos acerca
da metodologia empregada em sala de aula.
Os alunos foram conduzidos a analisar a estrutura molecular do mentol (substância responsável pelo aroma do chá
de hortelã) e responder questionamentos a respeito dos seus
grupos substituintes, função orgânica presente, nomenclatura e citar uma propriedade medicinal. De acordo com a
Figura 4, foi possível observar que os percentuais de acertos
nos itens solicitados foram bastante superiores em relação
aos percentuais de erros, que, em média não passaram de
16%. Um ponto que merece destaque é o fato de que 84%
dos alunos acertaram o nome sistemático da substância
(item d), demonstrando uma evolução na compreensão do
conteúdo. O acerto máximo no item referente à propriedade
medicinal (e) demonstra que os alunos puderam adquirir
um bom conhecimento sobre os efeitos terapêuticos dessa
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Figura 4: Percentuais de acertos e erros referente à estrutura
molecular do Mentol.

Na pergunta seguinte, foi fornecida a nomenclatura sistemática do princípio ativo da erva doce e solicitado que os
alunos desenhassem a fórmula estrutural. Foi observado que
a grande maioria (95%) desenhou corretamente a estrutura
do composto. Os outros 5% erraram a estrutura devido à
localização da ligação dupla presente no grupo substituinte.
Esse resultado mostrou que os alunos compreenderam o
conteúdo abordado, provavelmente consequência da metodologia aplicada, conduzindo-os a relacionar o conteúdo
ensinado em suas experiências cotidianas e, deste modo,
proporcionando uma melhora na aprendizagem.
Além disso, os alunos foram questionados sobre quais
as maiores dificuldades no aprendizado no decorrer das
aulas. A maioria dos alunos apontou a alternativa Estrutura
Química dos Compostos (65%) enquanto que, em segundo
lugar (35%), ficou Compostos Polifuncionais. A partir destes
percentuais atrelados a relatos e dúvidas dos próprios alunos
ocorridos durante as aulas, pode-se inferir que a percepção
espacial de uma molécula (espaço tridimensional) é o ponto
mais complicado de visualização pelos discentes, assim
como a identificação de grupos funcionais em compostos que
apresentam várias funções orgânicas. Tal como observado
por Rezende et al. (2016), a visualização da estrutura espacial
(bi/tridimensional) das moléculas foi o maior empecilho
encontrado pelos estudantes, mesmo após a aplicação de
estratégia didática no ensino de estereoquímica.
De maneira geral, os resultados apontam que as aulas
contextualizadas mostraram-se bastante elucidativas, conceitos de Nomenclatura sistemática e trivial dos compostos
utilizando substâncias ativas nos chás foram via de aprendizado eficaz e diferenciada para os alunos. Sem contar que
estes se sentiram estimulados e atentos às aulas, não havendo
faltas dos mesmos no período, considerando o caráter voluntário na participação. Neste sentido, pode-se inferir que
a motivação na abordagem destes conteúdos influenciou
positivamente no processo de aprendizagem, e que o estímulo
através dos sentidos tornou o processo ainda mais animador
e instigante. De acordo com Moraes e Varela (2007), os
professores devem trabalhar para atrair a atenção dos alunos
para o assunto estudado, e uma maneira interessante é a de
estimular todos os sentidos do aluno. Segundo Soler (1999),

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Figura 5: Etapas da atividade de identificação dos chás através dos sentidos.

o sujeito aprende melhor e as informações vão fazer mais
sentido para ele na medida em que é possível disponibilizar
situações que sejam multissensoriais: visão, tato, audição,
olfato e paladar, o máximo possível.
Deste modo, a análise de identificação dos chás através
dos sentidos foi realizada como elemento motivacional, a
fim de despertar o interesse dos alunos pela temática e fixar o conteúdo abordado em aulas anteriores. No início da
atividade foram distribuídos diferentes chás em sachês para
que os alunos pudessem sentir, através do aroma, tato e visão
para, em seguida, identificá-los. Em um segundo momento, a
visão e o paladar foram testados simultaneamente, os alunos
puderam observar as cores dos chás e experimentá-los, para
dessa forma, contar com mais subsídios na identificação
dos mesmos. Em um último momento, os alunos tocaram
as plantas sentindo suas texturas e aromas. Essa combinação multissensorial permitiu que os alunos fossem capazes
de identificar os sachês que lhes foram dados inicialmente
(Figura 5). Após a identificação dos 7 sachês, o professor
demonstrou para a turma a substância orgânica presente em
cada chá.
Os alunos obtiveram excelente desempenho na atividade,
em todas as turmas, surpreendendo a todos. Eles disseram
ter gostado muito, pois tiveram que usar seus conhecimentos prévios, adquiridos no cotidiano familiar e interagir
com os colegas; despertando a curiosidade e o interesse.
A combinação multissensorial e a parceria com os colegas
foram fundamentais na identificação dos chás, pois, apenas
os sachês ou a cor da bebida não foram conclusivos, pois
foi necessário um esforço conjunto e o emprego de todos os
sentidos para o sucesso da atividade.
Proporcionar oportunidades para que os alunos se sintam
motivados favorece o avanço da aprendizagem, fazendo
dos alunos os próprios protagonistas na construção do seu
conhecimento. Ao introduzir a atividade ficou claro o envolvimento pela observação e estímulo dos sentidos, e possibilitou uma discussão didática dos conceitos relacionados
à Nomenclatura dos Compostos Orgânicos, nem sempre
visto pelos alunos como simples ou de fácil compreensão.
Uma última pergunta foi elaborada no sentido de saber
se os alunos acharam o conteúdo de Nomenclatura dos
Compostos Orgânicos mais interessante e compreensível
através do emprego da temática Chás. Todos responderam
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que concordavam plenamente com a afirmação, mencionando ainda que a assimilação do conteúdo foi facilitada,
pois eles já conheciam muito sobre chás e suas aplicações e
também pelo interesse em aprender mais para informar aos
pais e parentes sobre o assunto.

Conclusão
Nem sempre é uma tarefa fácil despertar o interesse dos
alunos com temáticas apropriadas aos conteúdos estudados,
atrelados a um conhecimento prévio cotidiano. Por outro
lado, os resultados deste estudo apontaram que a utilização
da temática Chás como elemento motivacional na abordagem
do conteúdo de Nomenclatura dos Compostos Orgânicos no
ensino médio, contribuiu sobremaneira na aprendizagem do
conteúdo, que é um dos assuntos fundamentais dentro da
disciplina de Química Orgânica. O estudo mostrou que levar
em conta um assunto muito difundido na região e utilizado
no cotidiano dos alunos, favoreceu e estimulou a busca
pelo conhecimento, uma vez que os alunos conseguiram
perceber a importância do conteúdo didático em suas vidas,
contribuindo para a formação de cidadãos mais conscientes
e capazes de optar por um estilo de vida mais saudável. Sem
dúvida, a combinação multissensorial foi essencial para a
exploração do conteúdo, pois os sentidos são responsáveis
por nossa capacidade de interpretação daquilo que nos cerca.
Explorá-los adequadamente cria condições para que determinados processos cognitivos se desenvolvam, auxiliando
os alunos na construção do conhecimento. Portanto, a atividade valorizou as experiências e conhecimentos prévios
dos alunos, mostrando claramente que eles podem e são
capazes de trazer conhecimentos relevantes que os auxiliem
no desenvolvimento do assunto em sala de aula.
Francisco Erivaldo Freitas da Silva ([email protected]), licenciado em
Química pela UFC, é mestrando em Química na UFC. Fortaleza, CE - BR. Nilce
Viana Gramosa ([email protected]), graduada em Química Industrial pela UFC,
mestre em Química Orgânica pela UFC, doutora em Química Orgânica pela UFC,
é professora de Química Orgânica na UFC. Fortaleza, CE - BR. Viviane Gomes
Pereira Ribeiro ([email protected]), licenciada em Química pela UFC,
mestre em Química pela UFC, é doutoranda em Química na UFC. Fortaleza,
CE - BR. Selma Elaine Mazzetto ([email protected]), bacharel em Química pela
USP, licenciada em Química pela UFC, mestre em Ciências pela USP, doutora
em Química pela USP, é professora de Química na UFC. Fortaleza, CE - BR.

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Referências

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Abstract: Thematic Teas: A contribution to teaching the Nomenclature of the Organic Compounds. Nomenclature of the organic compounds is a subject in
which many students find learning difficulties because its rules, definitions and classifications. In this work the thematic Teas was applied as a teaching tool due
to their beneficial properties in the organism and their chemical compositions. This study involved classes, discussions and questionnaires with the purpose of
analyzing the previous conceptions and acquired knowledge by the students. Also an activity of identifying the teas through of the multisensory combination
was developed. The results showed that the thematic teas, present in daily life of the students, especially in the Brazilian Northeast, combined with the stimulus
of the senses, promotes the search for knowledge and contribute to the citizen formation in a conscious and healthy way.
Keywords: Nomenclature of the Organic Compounds; Teas; Multisensory Combination.

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Material Suplementar

QUESTIONÁRIO DIAGNÓSTICO REFERENTE AO CONHECIMENTO PRÉVIO DOS ALUNOS
1) A Química Orgânica está presente no nosso cotidiano.
a) Concordo totalmente
b) Concordo
c) Indeciso
d) Discordo
e) Discordo totalmente

4) O que você entende por substâncias orgânicas?
____________________________________________________

2) É importante conhecer a composição de um chá.
a) Concordo totalmente
b) Concordo
c) Indeciso
d) Discordo
e) Discordo totalmente

6) O que você costuma usar em casos de problemas de
saúde como gripe, dor de cabeça, dor de estômago que
são enfermidades de pouca urgência e de fácil controle?
( ) Farmácia ( ) Centro de Saúde
( ) Chás de plantas medicinais
( ) Outros
Motivo: _____________________________________________

3) A nomenclatura dos compostos orgânicos tem alguma
relação com chás.
a) Concordo totalmente
b) Concordo
c) Indeciso
d) Discordo
e) Discordo totalmente

5) Você já bebeu algum tipo de chá?
( ) Não ( ) Sim, Qual? _______________________________
Uso medicinal: _______________________________________

7) Qual o principal motivo que levou o chá a tornar-se uma
das bebidas mais consumidas no mundo e possuir um
importante papel social no Brasil?
( ) Aroma e sabor
( ) Propriedades Medicinais
( ) Outro. Qual? _______________________________________
____________________________________________________

QUESTIONÁRIO DIAGNÓSTICO REFERENTE AO CONHECIMENTO ADQUIRIDO PELOS ALUNOS
1) Assinale a alternativa que melhor define o termo: composto orgânico.
a) Os compostos orgânicos são produtos naturais benéficos
à saúde humana.
b) As substâncias orgânicas são aquelas produzidas por
organismos vivos.
c) São compostos biodegradáveis.
d) A mentona, é um exemplo de composto orgânico, já que
possui carbono em sua estrutura química.
e) São substâncias que não possuem carbono em sua
estrutura.
2) Qual dos tópicos abaixo você teve mais dificuldade de
entender?
a) Identificar uma função orgânica.
b) Grupo substituinte (anteriormente designado por radical).
c) Identificar funções orgânicas em compostos polifuncionais
(mais de uma função orgânica).
d) Nomenclatura sistemática e trivial.
e) Estrutura química de um composto orgânico.

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3) O chá de camomila é bastante popular e apresenta em
sua composição substâncias benéficas à saúde. A estrutura
de um de seus componentes é mostrada abaixo:

Nela estão presentes as funções orgânicas:
a) Éster, cetona e fenol.
b) Álcool, éter e cetona.
c) Éter, fenol e cetona.
d) Fenol, éter e aldeído.
e) Éter, fenol e ácido carboxílico.

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4) No chá de boldo encontramos o eugenol que auxilia no
tratamento de náuseas e indigestão, sua estrutura química é mostrada abaixo:

a) Os grupos substituintes
_________________________________________
b) A função orgânica presente
_________________________________________
c) O que determina a sua função orgânica
_________________________________________

O eugenol possui o grupo funcional OH (hidroxila). Ele pertence à classe funcional álcool ou fenol? Justifique.
____________________________________________________
____________________________________________________
5) A substância responsável pelo aroma característico do
chá hortelã apresenta a seguinte fórmula estrutural:

338

A respeito dessa substância, pede-se:

Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

d) O nome sistemático
_________________________________________
e) Uma propriedade medicinal
_________________________________________
6) A erva doce possui anetol, 1-metoxi-4-(prop-1-en-1-il)
benzeno, um estimulante das funções digestivas, que diminui gases e cólicas. Sobre esse composto, desenhe a
fórmula estrutural.
7) Inserir a temática chás em nomenclatura das substâncias
orgânicas torna o conteúdo mais interessante e facilita o
aprendizado.
a) Concordo totalmente
b) Concordo
c) Indeciso
d) Discordo
e) Discordo totalmente

Temática Chás

Vol. 39, N° 4, p. 329-338, NOVEMBRO 2017

ANOS

Relatos de Sala de Aula

http://dx.doi.org/10.21577/0104-8899.20160092

Do Senso Comum à Elaboração do Conhecimento
Químico: Uso de Dispositivos Didáticos para Mediação
Pedagógica na Prática Educativa

Francisco J. Mininel, Regina C. G. F. Di Nardo, Luiz A. A. De Oliveira e Maria E. B. Arnoni
Visando tornar nossas aulas momentos de reflexão e ação pela intervenção pedagógica (mediação), foram
utilizados diferentes dispositivos didáticos (vídeos, experimentação, textos de apoio, softwares etc.) e uma
proposição metodológica para organizar o conteúdo de ensino. A opção por essa organização metodológica
deu-se para que os alunos pudessem manifestar suas ideias prévias (senso comum), permitindo-nos tomar
conhecimento de suas concepções acerca do tema em estudo, para problematizá-las, a fim de potencializar
e sistematizar os conceitos em estudo e a expressão dos mesmos. Os resultados obtidos indicaram que a
mediação pedagógica (relação dialética entre professor e aluno) e a interação entre alunos enriqueceram
as atividades da aula, permitindo que os alunos trouxessem à tona os conceitos que possuíam e construíssem o conhecimento significativamente, elaborando e testando suas hipóteses, criando estratégias
para a solução dos problemas apresentados.
proposição metodológica, mediação pedagógica, dispositivos didáticos

Recebido em 12/09/2016, aceito em 23/02/2017

I

númeras pesquisas têm mostrado que o ensino de Química
interação dialógica entre professor/aluno, com o objetivo de
geralmente vem sendo estruturado em torno de atividase estabelecer a relação entre o que o aluno já sabe sobre um
des que levam à memorização de informações, fórmulas
determinado tema e o conceito pretendido pelo professor,
e conhecimentos que limitam o aprendizado dos alunos
ou seja, partir do senso comum (conhecimento prévio) até
e contribuem para a desmotivação em aprender e estudar
o estabelecimento do conceito reelaborado em sua estrutura
Química (Melo, 2012).
cognitiva (Ausubel,1980).
Esse fato requer do professor a
Nesse processo o professor
O processo de mediação significa a ação
ressignificação do conhecimento
deve atuar como mediador ou facique se interpõe entre o sujeito e o objeto
científico a partir das concepções
litador, valorizando a participação
do conhecimento. É pela mediação dos
prévias dos alunos, estimulanativa do estudante na resolução de
recursos sociais que o indivíduo conhece
do-os a participar ativamente na
situações problemáticas, possibilio mundo e constrói sua representação
construção de sua aprendizagem,
tando-o predizer respostas, testar
do real (Ribeiro, 2007). Desse modo, o
disponibilizando recursos e favohipóteses, argumentar, discutir
processo de intervenção de um elemento
recendo a participação, expressão
com os pares, podendo atingir
intermediário numa relação deixa então de
e a comunicação de todos os
a compreensão de um conteúdo
ser direta e passa a ser mediada por esse
alunos, fugindo de posturas auto(Marcondes e Suart, 2009).
elemento.
ritárias que o caracterizam como
O processo de mediação sigdetentor de um conhecimento
nifica a ação que se interpõe entre
único, absoluto e inquestionável. Assim, teremos como
o sujeito e o objeto do conhecimento. É pela mediação dos
consequência a superação dos obstáculos epistemológicos
recursos sociais que o indivíduo conhece o mundo e constrói
e a efetivação da construção do espírito científico, por meio
sua representação do real (Ribeiro, 2007). Desse modo, o
da formação de sujeitos autônomos e críticos (Medeiros et
processo de intervenção de um elemento intermediário numa
al.,2016).
relação deixa então de ser direta e passa a ser mediada por
Atividades elaboradas dentro deste contexto permitem a
esse elemento. Entende-se por relação direta, a relação do
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Do Senso Comum à Elaboração do Conhecimento Químico

Vol. 39, N° 4, p. 339-346, NOVEMBRO 2017

339

340

sujeito com o objeto real, concreto. Relação mediada é o
ocupam o topo e as menos gerais e as informações específicas
conhecimento desse objeto de significação através de seus
formam a base.
significantes simbólicos, os signos/palavras. Poderão ser
Desse modo, considera-se que o conhecimento do senso
mediadores na prática pedagógica, além da função simbócomum reflete o conhecimento prévio, podendo auxiliar
lica, os colegas, os professores e também os instrumentos
o professor na sua prática pedagógica (Carvalho et al.,
de mediação, os quais denominamos aqui de dispositivos
2007). De acordo com as Teorias Cognitivistas de Ensino e
didáticos (Medeiros et al.,2016).
Aprendizagem, como a de Ausubel, é necessário ter noção
De acordo com Vygotsky, os conceitos espontâneos são
do conhecimento prévio do público alvo para a realização
adquiridos naturalmente enquanto os conceitos científicos o
de uma aprendizagem significativa (Ausubel, 1976).
são de modo deliberado, intencional e sistematizado. É nas
Assim, uma das formas de favorecer a ocorrência de
interações com os outros que o sujeito vivencia processos de
aprendizagem significativa é partir de ideias relevantes
internalização dos conhecimentos (Vygotsky, 2001). Assim,
de caráter geral, amplo e inclusivo, existentes na estrutura
o conceito de mediação é uma contribuição fundamental da
cognitiva do aluno, e diferenciá-las progressivamente (diTeoria de Vygotsky.
ferenciação progressiva), modificá-las de maneira a chegar
Em vista do exposto, ena ideias mais específicas, através
tende-se que o professor deve
da interação entre a já existente e
Os conceitos químicos foram selecionados
assumir o papel de organizador,
as novas informações. Outra fordas diferentes áreas da Química. Como
escolhendo situações adequama, seria favorecer a integração
suporte metodológico, houve a utilização
das para abordar conceitos e o
de ideias específicas a uma ideia
de conceitos pedagógicos na elaboração
maior número de capacidades;
mais ampla, geral e inclusiva,
de uma proposição metodológica para o
sugerindo aos alunos informaatravés da reconciliação integraensino dos conceitos químicos, empregando
ções, selecionando e reformutiva (Gepeq, 1993).
diferentes dispositivos didáticos para
lando tarefas de acordo com a
Nesse contexto, os organiorganizar os conceitos e estabelecer a relação
realidade dos alunos, encorajanzadores
prévios também podem
de mediação dialética entre o professor e o
do-os, proporcionando contato
servir
como
ativadores de subaluno, em situação de aula.
com conceitos e promovendo a
sunçores que não estavam sendo
construção de novos conceitos.
usados pelo estudante, entretanto
Também, orientando pesquisas bibliográficas, adequando os
que estão presentes na sua estrutura cognitiva. Os organiproblemas com uma linguagem clara, avaliando o processo e
zadores prévios podem se apresentar sob a forma de textos,
organizando o trabalho em sala de aula de maneira adequada
filmes, esquemas, desenhos, fotos, perguntas, mapas concei(Lopes, 1994).
tuais, entre outros, que são apresentados ao estudante, em
primeiro lugar, em nível de maior abrangência, permitindo
Metodologia
a integração dos novos conceitos aprendidos, tornando mais
fácil o relacionamento da nova informação à informação
Este trabalho está ancorado em três suportes: (a)
pré-existente (Gepeq,1993).
Fundamentos teóricos, (b) Proposição metodológica para
Os conceitos químicos foram selecionados das difeo ensino e (c) Proposição avaliativa processual, a fim de
rentes áreas da Química. Como suporte metodológico,
possibilitar o acompanhamento, a observação e a constatahouve a utilização de conceitos pedagógicos na elaboração da mudança de concepção dos alunos no decorrer do
ção de uma proposição metodológica para o ensino dos
desenvolvimento dos temas, em especial, nas atividades
conceitos químicos, empregando diferentes dispositivos
finais. Como suporte teórico são utilizadas duas áreas do
didáticos para organizar os conceitos e estabelecer a relaconhecimento: conceitos pedagógicos e conceitos químicos.
ção de mediação dialética entre o professor e o aluno, em
Os conceitos pedagógicos foram selecionados da
situação de aula. Dispositivos didáticos, nesse trabalho,
Teoria da Aprendizagem Significativa de Ausubel
devem ser entendidos como todos os recursos usados com
e o Sociointeracionismo de Vygotsky. Da Teoria da
o propósito de levar o aluno do senso comum ao conceito
Aprendizagem Significativa de Ausubel foram selecionados
científico.
conceitos como, por exemplo, os subsunçores, estrutura
Como proposição avaliativa processual temos as questões
cognitiva hierarquizada e organizadores prévios (Ausubel,
prévias à aplicação das atividades (dispositivos) para resga1976). O subsunçor é uma estrutura específica na qual uma
tar os conhecimentos iniciais (conhecimentos prévios) dos
nova informação pode se agregar ao cérebro humano, que é
alunos. Ao final, foram feitos questionamentos posteriores
altamente organizado e detentor de uma hierarquia conceià aplicação das atividades para verificação do real aprenditual, que armazena experiências prévias do sujeito (Ausubel,
zado dos conceitos pretendidos, incluindo a montagem de
1973). De acordo com este autor, o termo estrutura cognitiva
mapas conceituais. Os dispositivos didáticos permitiram o
refere-se à organização de ideias na mente de um indivíduo
acompanhamento do processo de ensino e de aprendizagem,
de maneira hierarquizada, podendo ser representada por uma
conforme indicado no fluxograma da Figura 1.
pirâmide, na qual as ideias mais gerais, amplas e inclusivas,
Os alunos participantes deste trabalho são alunos do
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Do Senso Comum à Elaboração do Conhecimento Químico

Vol. 39, N° 4, p. 339-346, NOVEMBRO 2017

Figura 1: Esquema de organização metodológica (utilização
de múltiplos dispositivos didáticos para mediação na prática
pedagógica).

professor/pesquisador em uma Escola da Rede Estadual
onde o mesmo é professor efetivo da disciplina Química.
Inicialmente foram escolhidos "temas" para cada uma das séries (primeiros, segundos e terceiros anos do Ensino Médio) e
organizou-se a metodologia, conforme indicado no Quadro 1.
O trabalho transcorreu durante um ano letivo, iniciando-se as
atividades com os alunos do 1º Ano (fevereiro, março e abril),
2º Ano (maio, junho e agosto), 3º Ano (setembro, outubro e
novembro) em horário contrário ao período normal de aula
desses alunos. As três séries pertenciam ao período da manhã.
A escola escolhida localiza-se na cidade de FernandópolisSP. Por conta da falta de laboratório na escola, o trabalho
experimental e coleta de dados foi realizado no laboratório
didático de Química de uma Universidade particular da cidade, com a qual se estabeleceu uma parceria extremamente
importante para concretização dos objetivos desse trabalho.
As atividades foram realizadas com os alunos do período da
manhã, uma vez que os alunos do noturno não aderiram ao
projeto por motivos de trabalho.

Os alunos do 1º Ano do Ensino Médio inscritos no Projeto
(1º A, 1º B e 1º C), se organizaram em um total de 06 grupos,
o qual denominamos (G1, G2, G3, G4, G5 e G6), contendo
cada grupo formado, cerca de 06 a 07 alunos. Do mesmo
modo, dividiram-se os alunos do 2º Ano em 07 grupos com
04 ou 05 alunos em cada. O 3º Ano do Ensino Médio foi
dividido em 04 grupos, com 04 alunos cada.
O trabalho nas diferentes séries tinha início a partir
da análise de vídeos do Programa TV Escola MEC, os
quais foram denominados de Organizadores (contexto/
motivador inicial). Foram selecionados em diversas fontes
experimentos (dispositivos didáticos) relacionados com
os temas do vídeo assistido. Antes dos alunos assistirem ao
vídeo ou realizarem atividades ou experimentos, era feito o
levantamento das ideias prévias dos alunos em relação aos
temas abordados. Nesse processo o professor tinha o papel
de mediador, colocando questões acerca do observado,
possibilitando aos alunos a interação com os conceitos. As
questões para discussão foram elaboradas com o propósito
de levar a uma investigação para levantamento de hipóteses,
previsões, confirmação dessas hipóteses, ou não. Visando
alcançar os objetivos, uma série de outros dispositivos
didáticos foram propostos (textos de apoio, pinturas, representação de modelos elaborados através de desenhos,
exercícios, outros experimentos complementares etc.).
Esses eram organizados de modo a permitir a interação
entre os alunos (aprendizes) e o professor, alunos-alunos
e alunos-dispositivos didáticos.

Resultados e discussão
As atividades com os primeiros anos iniciaram-se a partir
da análise do vídeo: "Pigmentos ­ Linhas, formas e cores"
­ TV Escola ­ Ensino Médio (Brasil, 1994). Tratava-se de
um programa com tema interdisciplinar envolvendo as áreas
de Química, Arte e História. Dentro da temática solos realizou-se a "extração de pigmentos para produção de tintas".
Tal atividade foi sugerida pela equipe de professores do
vídeo­ TV ESCOLA ­ MEC (Brasil, 1994). Dentro desse

Quadro 1: Temática discutida em cada série e metodologia comum adotada.
Série (Ensino Médio)

Temática discutida
"SOLOS"

1º Ano

"ÁGUA"

2º Ano

3º Ano

"INTERAÇÃO
INSETO- PLANTA"

Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Metodologia comum adotada para cada uma das séries
- Levantamento das ideias prévias dos alunos em relação ao tema;
- (Organizador prévio): análise de vídeos do programa TV Escola ­ Ensino
Médio (Brasil, 1994);
- Seleção de dispositivos didáticos diversos (experimentos relacionados ao
tema);
- Mediação do professor (elaboração de questões a fim de levar a uma
investigação para mobilização de funções e levantamento de hipóteses,
previsões).
- Proposição de outros dispositivos didáticos (textos de apoio, pinturas,
representação de modelos elaborados através de desenhos, exercícios,
outros experimentos complementares etc.).
- Confirmação das hipóteses e previsões iniciais e verificação da ocorrência
de aprendizagem significativa.
- Construção de mapas conceituais para acompanhar a aprendizagem
(avaliação final).

Do Senso Comum à Elaboração do Conhecimento Químico

Vol. 39, N° 4, p. 339-346, NOVEMBRO 2017

341

experimento pôde-se trabalhar com conceitos introdutórios
importantes dentro da Química, tais conceitos relacionados
com substâncias puras e misturas, misturas homogêneas e
heterogêneas, separação de misturas (decantação, filtração
etc) e existência de substâncias responsáveis pelas diferentes
colorações dos diferentes tipos de solo. Tais conceitos afloravam espontaneamente a partir da execução da atividade e
eram sistematizados a partir da visita do professor em cada
um dos grupos. Ao final da atividade, os alunos expressaram
sua criatividade, pintando telas com a "tinta" produzida a
partir do solo, sendo algumas delas mostradas na Figura 2.

342

Figura 2: Telas produzidas com tinta feita a partir de diferentes
tipos de solo.

Em continuidade às atividades experimentais dentro do
tema solo, propôs-se a "verificação da condutividade elétrica dos solos" (Pitombo e Marcondes, 1998, p. 39-40). Em
relação a esse experimento, trouxemos pronto de antemão, o
equipamento para medir a condutibilidade elétrica (um para
cada grupo). Cada grupo tinha na sua bancada os diferentes
tipos de solo os quais trabalharam na aula anterior, água de
torneira e água destilada. Em seguida, foi proposto que analisassem se o solo possui a capacidade de condução da corrente
elétrica. Após entrega da folha de atividades, iniciou-se com
os seguintes questionamentos: 1) Será que a água destilada
pode conduzir a corrente elétrica? Por quê? 2) Na sua opinião
o solo totalmente seco poderia conduzir corrente elétrica? 3)
O que vocês poderiam fazer para que o solo seco passasse a
conduzir corrente elétrica? Os alunos foram orientados para
que discutissem em grupo e escrevessem os resultados das
discussões na folha de resposta.
Na Questão 1, todos os grupos indicaram que seria possível a água destilada conduzir a corrente elétrica, contudo
somente um dos grupos (G4) relacionou a condutibilidade
elétrica à presença de cargas elétricas, apesar de não indicarem a existência de cargas de sinais contrários. Constatou-se
que a maioria dos alunos traz do senso comum a ideia de
que a água seria condutora, porém não relacionaram o fato à
presença dos íons em solução. Verificou-se aí, a necessidade
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

de intervenção do professor na proposição de outras atividades e questionamentos para elaboração do conhecimento
pretendido. O professor é, portanto, o mediador desse processo, devendo estimular outras situações e busca de novos
instrumentos de mediação (dispositivos) que propiciem
a aprendizagem dos conceitos ainda não elaborados na
estrutura cognitiva do aluno. Por isso, foi solicitado que os
alunos realizassem o teste de introdução dos eletrodos no
béquer contendo água destilada. Os alunos perceberam que a
lâmpada acendia muito fracamente. Solicitou-se, então, que
misturassem o solo em água e antes da introdução dos eletrodos questionou-se: "O solo totalmente seco seria condutor
de corrente elétrica"? Para essa questão, todos os grupos
disseram que "não". Mais uma vez foram questionados:
Por quê? Os alunos discutiram nos grupos e responderam:
(G1) Não, porque os minerais dele não podem agir; (G2)
Não, pois nesse caso a condutibilidade elétrica é nula; (G4)
Não pode conduzir a corrente elétrica porque as cargas
elétricas do solo não estão dissolvidas.
A partir da resposta do (G1), pôde-se perceber que existe
a noção de que as substâncias do solo é que são responsáveis
pela condutibilidade elétrica desse, mas os obstáculos conceituais ainda são grandes para uma explicação com rigor
científico maior. O (G2) relaciona a não condutibilidade
elétrica a uma certa neutralidade do material solo quando
seco. O (G4), como demonstrado na resposta anterior, é o
que mais se aproxima da resposta desejada, ainda que, de
forma bastante simplória, mostrando a noção de que para
ocorrer a condução elétrica seria necessária uma certa separação das substâncias em cargas. Todavia, o grupo ainda
não tem clara a noção de existência de íons em movimento
na solução. Solicitou- se, então, que fizessem o teste. Pôdese verificar que, apesar da confirmação das suas previsões,
ainda não tinham claro a exata noção sobre o fato que tinham
observado. Em continuidade ao experimento, solicitou-se
que misturassem água no solo e introduzissem os eletrodos.
Questionou-se novamente: "O solo agora, conduz corrente
elétrica? O que se observa em relação à luminosidade da
lâmpada? Por quê?" Tomemos para análise as respostas
dadas pelo (G1), (G4) e (G6):
(G1) A lâmpada se acende com maior intensidade que a
água destilada porque os seus minerais estão dissolvidos na
água. Na água destilada tem poucos minerais; (G4) O solo
agora conduz a corrente elétrica porque existe os minerais
em maior quantidade e esses minerais estão dissolvidos na
água de acordo com suas cargas; (G6) A água destilada é
pura por isso conduz pouco a energia, no entanto o solo
tem várias matérias e essas ficam dissolvidas na água que
colocamos e a energia elétrica passa em maior quantidade.
Novamente, verificou-se que os alunos têm a noção de
que substâncias químicas são responsáveis pela menor ou
maior condutibilidade elétrica da solução, porém ainda
manifestam uma visão simplista e pouco rigorosa a respeito
do fenômeno observado, fato esse que nos motivou a intervir junto aos alunos para fazer com que construíssem de
maneira efetiva o conhecimento pretendido. Para um maior

Do Senso Comum à Elaboração do Conhecimento Químico

Vol. 39, N° 4, p. 339-346, NOVEMBRO 2017

entendimento acerca dessa questão, trabalhou-se na aula
seguinte com o software (Rutherford-Scattering®), acessível
em https://phet.colorado.edu/pt_BR/simulation/rutherford-scattering, em que os alunos tiveram a oportunidade de
observar e trabalhar com a Estrutura Atômica, sob mediação
do professor. A partir do uso do software, pôde-se chegar a
definições de átomos neutros e íons e ao entendimento do
porquê da condutibilidade elétrica da água destilada e da
solução de água e solo. No desenrolar da atividade, outras
questões foram propostas: "Ao se adicionar sal de cozinha na
água destilada e medir a sua condutibilidade elétrica com o
dispositivo, o que você esperaria observar"? Por quê? Após
discussões os grupos se expressaram:
(G1) Nós achamos que a água pura (destilada) vai conduzir um pouco e a água quando colocar o sal aumentará
o brilho da luz porque tem mais substâncias e íons se movimentando; (G2) A água destilada tem menor número de
íons e ao adicionar o sal, este deixará a água com maior
quantidade de íons e as lâmpadas vão se acender; (G3) Por
causa dos íons que são positivos e negativos e que estão
circulando na água.
Pôde-se perceber que agora os alunos conseguiam
entender melhor a ideia de que o brilho da lâmpada está
relacionado à solubilidade e à maior ou menor concentração
de certas partículas carregadas, explicando a alta condutibilidade elétrica da água com sal e ao acendimento somente
da lâmpada de neônio quando os eletrodos são introduzidos
na água destilada. Portanto, constatou-se que os conceitos
científicos pretendidos começavam a ser construídos de
maneira mais efetiva pelos alunos, demonstrando que as
ideias de caráter mais geral, amplo e inclusivo existentes na
estrutura cognitiva dos alunos começavam a se diferenciar
progressivamente, modificando-se em ideias mais específicas, através da interação entre o já existente e as novas
informações, estabelecendo-se a diferenciação progressiva
(Ausubel,1980).
Com os segundos anos do Ensino Médio, iniciou-se com
o estudo do tema "Água", assistindo ao filme da TV-Escola
­ Água (Brasil, 1994). Foram elaboradas as seguintes questões prévias: "(1) De onde vocês acham que vem a água que
chega à sua casa? Essa água é pura? (2) Como reconhecer que
uma substância é pura? (3) A água que você bebe é potável?
O que é água potável? (4) De onde vem o oxigênio que os
peixes respiram?
Para a primeira questão, constam as seguintes respostas:
(G1) A água de Fernandópolis é retirada dos poções
(água subterrânea), ela vai para a estação de tratamento e
depois é distribuída para toda a cidade. Ela não é pura, é
apenas potável; (G2) Vem de lençóis freáticos e depois passa
por uma estação de tratamento até chegar por encanamentos
na nossa casa. Essa água não é pura porque ela não contém
só moléculas de água, tem também sais minerais dissolvidos
em sua composição; (G3) Da SABESP, local onde efetua-se
o tratamento para torná-la própria para consumo. Porém,
não é um líquido puro, pois contém outros elementos como
o cloro, flúor, etc.; (G4) A água vem das represas ou dos
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

poços e ela precisa ser tratada para eliminar os resíduos
que sujam ela. A água tem muitos materiais e não é só água
pura. Nesse caso, achamos que ela não é pura. Ela vai ser
tratada, mas não é pura; (G7) Vem de lençóis freáticos e
depois passa por uma estação de tratamento até chegar
por encanamentos às casas. Não, pois ela não contém só
moléculas de água, mas também sais minerais dissolvidos
em sua composição.
A partir das respostas dadas, verifica-se que existe a
noção de que a água que consumimos não é pura (sentido
químico), mas sim uma mistura de outras substâncias. O
(G1) indica que ela não é pura, mas apenas potável. O (G2)
apresenta a clara noção de que a água pura só deve conter
molécula de H2O. O (G3) indica ser a água composta por
elementos. Tem a noção de que a água não pode ser considerada pura quimicamente, entretanto faz-se confusão
entre substância química e elemento químico (confusão
essa, muito comum entre alunos de nível médio). O (G7)
indica que a água tratada contém sais minerais dissolvidos,
demonstrando o conhecimento de que apesar de própria para
o consumo, a mesma não é pura no sentido químico. De
acordo com o exposto, verifica-se que todos os grupos dão
o mesmo padrão de respostas, o que nos permite concluir
que possuem conhecimento sobre as diferenças entre os
conceitos de substância pura e mistura.
Na segunda questão prévia, pretendia-se verificar o grau
de conhecimento dos alunos em relação ao reconhecimento
de uma dada substância quanto à pureza:
(G1) No caso da água, ela só é considerada pura desde
que apresente somente moléculas de água; (G2) Quando
ela possui características específicas. Exemplo: no caso da
água, a densidade é 1, ebulição é 100 º C e solidificação é
0ºC. Quando ela não se mistura a outro tipo de substância;
(G3) Através dos sentidos (tato, olfato, paladar, etc.) ou de
experiências bem efetuadas.
A partir das respostas dadas percebe-se que muitos
dos alunos apresentam a informação correta a respeito da
pureza da água do ponto de vista químico (G1) e (G2). O
(G2) consegue relacionar a pureza do material água com as
propriedades específicas da substância pura água. O (G3)
relaciona a pureza aos aspectos que se pode perceber através órgãos dos sentidos, não tendo uma visão clara do que
seria uma substância pura. Esse grupo relaciona a pureza
do material à ausência de cor ou cheiro. Entende-se daí que
os alunos do grupo (G3) não têm claro ainda o conceito de
pureza no sentido cientificamente correto. O fato dos alunos
apresentarem explicações para os fenômenos, muitas vezes
diferentes daquela aceitável cientificamente, caracteriza suas
concepções alternativas. As concepções alternativas podem
ser entendidas como as ideias dos alunos que interagem
com demonstrações do professor, com a linguagem científica, com as leis e teorias e com as experiências, tentando
reconciliar suas ideias empíricas com conceitos aceitos
cientificamente (Fernandez e Marcondes, 2006).
A terceira questão procura verificar se os alunos tem a
noção do que significa a potabilidade da água. Nas respostas

Do Senso Comum à Elaboração do Conhecimento Químico

Vol. 39, N° 4, p. 339-346, NOVEMBRO 2017

343

344

dadas fica claro que os alunos têm a noção de que uma água
para ser considerada potável deve estar tratada e livre de micro-organismos patogênicos. Como podemos perceber, o seu
conceito de qualidade está diretamente ligado ao atendimento
da sua qualidade de consumo. Provavelmente, consideram
água de qualidade a que apresenta- se incolor, insípida e inodora. Transcrevem-se algumas das respostas dadas:
(G4) Sim, a água própria para beber, ela é incolor, inodora
e insípida; (G5) A água que bebemos é bem potável e a água
que bebemos é uma água incolor, inodora e insípida; (G6)
Sim, a água que bebemos é potável porque não tem impurezas
e é inodora e insípida; (G7) Sim, porque ela é tratada e não
contém microorganismos nocivos para nossa saúde.
Na quarta questão prévia ao vídeo buscou-se verificar se
o aluno tinha uma noção clara sobre a presença do oxigênio
dissolvido na água (dissolução de gases). Perguntou-se de
onde viria o oxigênio que os peixes respiram. Essa pergunta
aparentemente muito simples, é muito importante. É comum
o aluno supor que o oxigênio utilizado na respiração dos
peixes seja o oxigênio presente na própria molécula de água.
Este raciocínio indica o quanto é difícil para os alunos, compreenderem o conceito de solubilidade. Seguem as respostas
dadas pelos diferentes grupos:
(G1) Das moléculas da água (H2O H = hidrogênio e O
= oxigênio); (G2) Do ar que se dissolve na água e da fotossíntese realizada pelas plantas aquáticas; (G3) O oxigênio
surge através de processo realizado pelos vegetais aquáticos.
Os peixes extraem o oxigênio da água.
Alguns dos grupos indicam que o oxigênio surge durante
o processo fotossintético. Os grupos (G2) e (G3) parecem ter
uma noção mais clara de que o oxigênio que os peixes respiram está dissolvido na água a partir da interação ar - água.
Com o objetivo de se reconhecer que a água potável contém sais minerais em solução e que a água servida contém
também partículas em suspensão, realizou-se o experimento
intitulado "Análise de água de diferentes procedências"
(Campos, 1978). Foram feitas duas questões prévias ao experimento com a intenção de detectar quais as concepções
dos alunos em relação ao que seria água pura e uma água
mineral: 1) Existem diferenças entre água mineral e água
pura (destilada)? Discuta em grupo e escreva a resposta no
espaço abaixo. 2) O que você acha que aconteceria se evaporássemos água destilada e água mineral? Para a primeira
questão, temos as seguintes respostas:
(G1) Sim. A água mineral apresenta em sua composição as moléculas de água e sais minerais e a água pura
apresenta apenas as moléculas de água; (G2) Sim. A água
mineral como o próprio nome diz, existem minerais em sua
composição e água pura é só as moléculas de água.
Para a segunda questão, temos praticamente o mesmo padrão de respostas em todos os grupos. Parece-nos que existe
a noção do conceito do que seria uma água quimicamente
pura e de mistura (água mineral). Tomemos como exemplo
as respostas dadas por dois dos grupos:
(G1) Com a evaporação da água mineral, irá ficar os
sais minerais e com a evaporação da água destilada (pura)
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

não irá sobrar nada, já que as moléculas de água apenas
evaporam; (G3) Sobrará resíduos da água mineral após a
sua evaporação. Na água destilada nada sobra.
Visando à ampliação dos conhecimentos, executou-se,
em seguida, a atividade experimental. Para esse experimento
cada grupo trouxe amostras de água de diferentes procedências (água mineral, água filtrada, água servida etc), as quais
foram evaporadas. Ao final do processo, os alunos puderam
comparar os resultados obtidos e confirmar suas hipóteses.
Observou-se bastante interesse por parte dos alunos nos
grupos e o estabelecimento de relações de diálogo entre os
pares e/ ou entre grupos.
As atividades com os alunos do 3º Ano do Ensino Médio
iniciaram-se a partir da análise do vídeo da Série: "O Mundo
Secreto dos Jardins ­ A vida reprodutiva das plantas" - TV
Escola (Brasil, 2007). Buscou-se a interação entre a Química
e a Biologia (interdisciplinaridade) ao se propor a análise da
morfologia de um inseto e de uma flor.
No intuito de um maior aprofundamento acerca da interação inseto-planta e pensando em um texto que servisse de
base para a construção de conhecimentos químicos relacionados à Química Orgânica, escolheu-se um texto publicado na
"Revista Ciência Hoje", intitulado "De aromas de insetos e
plantas" (Craveiro e Machado, 1986). No texto eram indicados vários conceitos da Química de Produtos Naturais, como
a diferenciação entre substâncias do metabolismo primário e
secundário, inclusão de diversas estruturas químicas dotadas
de atividades biológicas e o fenômeno da isomeria.
Após releitura de trechos do artigo, pediu-se que observassem atentamente as fórmulas estruturais dos compostos
orgânicos presentes no texto. Aproveitou-se desse momento
para que se estabelecessem conceitos relativos a tetravalência do átomo de carbono, formação de cadeias, elementos
organógenos etc. Solicitou-se aos alunos que escolhessem
qualquer um dos compostos do texto e que procedessem a
montagem da molécula (fórmula estrutural), utilizando bolinhas de plástico de diferentes cores e tamanhos. Indicou-se
as ligações simples, duplas ou triplas com palitos de madeira
(tipo churrasco). Após montagem da molécula escolhida
pelo grupo, solicitou-se que escrevessem no papel a fórmula
molecular do composto escolhido.
Notou-se que o modelo molecular constitui-se um importante dispositivo mediador de aprendizagens. O meio
pelo qual o modelo é expresso é conhecido como modo de
representação. No caso do modelo construído denominamos
modo concreto, caracterizado pela utilização de materiais
resistentes para a produção de uma representação tridimensional (Justi, 2006).
Aproveitou-se o momento para que os alunos fizessem o
reconhecimento de grupamentos funcionais. A intervenção
do professor foi solicitada por diversas vezes, notando-se
uma certa insegurança, que foi sendo paulatinamente abandonada a partir da interação com o professor e à medida
que se fazia mais exercícios. Ao analisarem um dos quadros
apresentados no texto, os alunos puderam entender que nesse
só apareciam compostos que possuíam carbono e hidrogênio

Do Senso Comum à Elaboração do Conhecimento Químico

Vol. 39, N° 4, p. 339-346, NOVEMBRO 2017

(mirceno, cis-ocimeno, (+) limoneno, etc.), portanto denominados hidrocarbonetos. Em aula seguinte, iniciou-se o estudo
do fenômeno da isomeria, uma vez que os próprios alunos
indagavam o que seria os cis ou o (+) e o (-) que aparecia
ora ou outra na frente dos nomes dos compostos químicos.
Aproveitando-se do interesse manifestado pelos alunos,
procedeu-se a explicação do que seria o efeito da isomeria.
Escolheu-se, a partir do texto, um composto para cada
grupo (fórmulas estruturais mais simples), sendo este isômero geométrico. Solicitou-se que os alunos construíssem
o composto utilizando-se novamente das bolinhas coloridas
e palitos. Depois de construídos, questionou-se: Os diferentes grupos ligados à dupla ligação poderão ser dispostos
em posições diferentes? Os alunos ficaram em dúvida no
primeiro momento, mas responderam que sim quando foram solicitados a manipular os grupos (bolinhas coloridas)
trocando-os de posição:
(G1) Achamos que sim, pois podemos colocar grupos
iguais de um mesmo lado ou colocar grupos iguais em lados contrários; (G2) Podemos, desde que se faça a troca de
lados;(G3) Bolinhas de cores iguais podem ficar do mesmo
lado ou em lados diferentes; (G4) Os grupos podem ser trocados de lado: grupos iguais de um mesmo lado da ligação
dupla ou grupos iguais em lados opostos.
Após a manipulação dos modelos classificou-se, sem
dificuldades, os isômeros em cis ou trans. Visando levar os
alunos a compreender a conversão de um isômero geométrico em outro, como por exemplo, ácido maleico em ácido
fumárico (Sardella, 1997), realizou-se mais uma atividade
experimental. Antes, porém, de iniciarem o experimento, fez-se o seguinte questionamento: "Seria possível a conversão
de um isômero geométrico em outro?" Após discussão nos
grupos, os alunos responderam que sim. Questionados mais
uma vez do porquê da resposta afirmativa, responderam:
(G1) Seria possível, pois em atividades anteriores nós
conseguimos trocar os grupos ligados na dupla e transformar um isômero no outro (cis) para (trans); (G2) É possível
a transformação, porque no modelo de bolinhas conseguimos
mudar as bolinhas diferentes e obter um outro isômero;
(G3) O isômero cis pode ser transformado em trans por um
processo de transformação química. Um pode ser mudado
no outro, mudando as posições dos grupos; (G4) Podemos
transformar um isômero em outro quando mexemos nas bolinhas do modelo, portanto seria possível fazer a conversão.
Após realização da atividade experimental para conversão de ácido maleico em ácido fumárico, foi solicitado
que colocassem 1 g do material produzido em 10 mL de
água e em seguida acrescentassem a mesma quantidade de
ácido maleico na mesma quantidade de água. Os alunos
observaram os resultados e à medida que iam anotando,
eram questionados: "Como foi possível reconhecer que
os cristais formados (ácido fumárico) eram diferentes dos
cristais usados inicialmente?"
(G1) O ácido fumárico produzido na experiência se
dissolve muito mais fácil em água, fato que não ocorre
ao ácido maléico. Daí podermos verificar que houve uma
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

transformação de um em outro; (G2) Um se dissolve e
o outro não. Nós achamos que isso prova a mudança de
um em outro; (G3) Como podemos perceber pelos dados
que pesquisamos, o ácido fumárico é menos solúvel que
o ácido maléico. Portanto, um isômero foi transformado
em outro após a reação; (G4) Observamos que os cristais
que produzimos eram pouco dissolvidos pela água. Não
conseguia ser dissolvido. O ácido maléico é mais solúvel
e houve uma boa dissolução. Os dados que achamos no
livro confirmam isso.
Percebe-se claramente a partir do encaminhamento das
atividades, que os alunos começaram a construir novas
ideias que lhes possibilitaram novas explicações aos fatos
observados durante as aulas experimentais. Desse modo,
podemos novamente verificar a diferenciação progressiva
das ideias iniciais (mais gerais, amplas e inclusivas) até se
chegar ao conhecimento científico pretendido.

Considerações finais
A partir desse trabalho, parece-nos claro que a aprendizagem realmente acontece quando o aprendiz associa uma
nova informação em sua estrutura cognitiva que continha
o senso comum. A explicitação dessa constatação encontra-se na proposição metodológica que pautou o trabalho
apresentado e que permitiu ao professor-pesquisador,
responsável pelo processo de ensino, intervir no processo
de aprendizagem do aluno, por intermédio da mediação
pedagógica, centrada na relação dialética entre professor e
aluno. Nessa proposição, os diferentes dispositivos didáticos utilizados se constituíram em diferentes linguagens que
propiciaram o estabelecimento da mediação pedagógica e,
simultaneamente, possibilitaram, ao aluno, a superação
das suas ideias iniciais, o senso comum, para elaboração do
conceito estudado, ou seja, pela compreensão do conteúdo
de ensino desenvolvido nas atividades propostas. A partir
dos múltiplos dispositivos didáticos utilizados para cada
uma das séries e a mediação pedagógica estabelecida (professor/aluno, aluno/aluno e aluno/dispositivos didáticos) no
processo de ensino-aprendizagem, ficou evidente, portanto,
a diferenciação progressiva dos conceitos partindo-se do
senso comum (ideias mais gerais, amplas e inclusivas e de
dados da vivência e escolaridade anterior) até chegar às ideias
mais específicas (reelaboração de conceitos).
Assim, a importância da aprendizagem efetiva e duradoura se dá por meio da compreensão do aprender como
superação dos conceitos previamente construídos, em que
conhecimentos oriundos do senso comum e conhecimentos
científicos são reorganizados, constituindo o conhecimento
escolar, por meio de estratégias adotadas pelo professor com
vistas à transposição didática (Medeiros, 2016).
Francisco José Mininel ([email protected]), doutor
em Química pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Instituto
de Química de Araraquara, é professor da Rede Estadual de Ensino e professor/
coordenador pedagógico na UNIVERSIDADE BRASIL. Fernandópolis, SP - BR.

Do Senso Comum à Elaboração do Conhecimento Químico

Vol. 39, N° 4, p. 339-346, NOVEMBRO 2017

345

Regina Célia Galvão Frem Di Nardo ([email protected]), Doutora em Química (Química Inorgânica) pela Universidade de São Paulo e professora do Departamento de Química Inorgânica Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita
Filho, Instituto de Química de Araraquara. Araraquara, SP - BR. Luiz Antonio
Andrade de Oliveira ([email protected]), Doutor em Química (Química
Inorgânica) pela Universidade de São Paulo é professor adjunto da Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e credenciado junto ao Programa de

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346

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Pós-Graduação de Ensino de ciências, da Faculdade de Ciências UNESP / Bauru.
Bauru, SP ­ BR. Maria Eliza Brefere Arnoni ([email protected]),
Doutora pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), é professora
Assistente Doutor da UNESP/Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita
Filho" IBILCE/Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas Campus de São
José do Rio Preto Departamento de Educação. São José do Rio Preto, SP - BR.

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Abstract: The Common Sense of Chemical Knowledge Development: Use of Didactic devices Pedagogical Mediation in Educational Practice. Aiming to
make our classes moments of reflection and action through pedagogical intervention (mediation), we used different teaching devices (videos, experiments,
support texts, softwares, etc) and a methodological proposal to organize the teaching content. The purpose of the choice of this methodological organization
was to allow the students to express their previous ideas about the subjects being studied (common sense ideas), allowing us to detect their previous concepts
and to problematize them, in order to propose actions to enhance and systematize the student concepts in the construction of significative knowledge.
The results indicated that pedagogical mediation (dialectic relationship between teacher and students) and student-student interactions enriched classroom
activities, allowing students to bring previous concepts they had about a subject to light and to build significative knowledge about the concepts involved,
by elaboration and testing of their hypothesis, and by providing strategies to solve the problems that appeared in the way.
Keywords: methodological proposition, pedagogical mediation, didactic devices

Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Do Senso Comum à Elaboração do Conhecimento Químico

Vol. 39, N° 4, p. 339-346, NOVEMBRO 2017

ANOS

Relatos de Sala de Aula

http://dx.doi.org/10.21577/0104-8899.20160093

O Ensino de Química para alunos surdos: o conceito de
misturas no Ensino de Ciênciasi

Nislaine Caetano S. Mendonça, Aline Prado de Oliveira e Anna M. Canavarro Benite
Esta investigação versa sobre o planejamento e desenvolvimento de uma intervenção Pedagógica (IP)
em uma escola da comunidade surda, o Centro Especial Elysio Campos, de Goiânia-GO, com intuito de
propor e analisar diferentes estratégias de acesso ao conhecimento da ciência para alunos surdos do 9º ano
do Ensino Fundamental. O conceito trabalhado foi o de "misturas", por meio da experimentação com materiais instrucionais adaptados, privilegiando o referencial funcional da visão. O que se observou foi que a
ação pedagógica bilíngue, com um professor de química e um professor de ciências (intérprete - LIBRAS),
é uma alternativa para trabalhar experimentação no ensino de química para surdos.
ensino de ciências, educação de surdos, conceitos químicos

347
Recebido em 21/11/2016, aceito em 26/03/2017

Sobre Inclusão Escolar e Surdez

do intérprete de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais).
Lacerda e Góes consideram que o "tradutor/intérprete atua
Roldão (2003) afirma que a educação inclusiva (EI)
na fronteira entre os sentidos da língua de origem e da língua
pressupõe escolas abertas a todos, onde todos aprendem
alvo, com os processos de interpretação relacionando-os
juntos, quaisquer que sejam as
com o contexto no qual o signo é
suas dificuldades. Assim, podeformado" (LACERDA e GÓES,
A Língua Portuguesa é utilizada pelo
mos observar um impasse quando
2000, p. 8).
surdo na modalidade escrita, mas, como
esse modelo não se encontra nas
A Língua Portuguesa é utilitoda segunda lín-gua, ela necessita de
escolas nomeadas inclusivas.
zada pelo surdo na modalidade
metodologias próprias para seu ensino,
Defendemos que a EI exige uma
escrita, mas, como toda segunda
o que nem sempre é disponibiliza-do na
nova configuração para as salas
língua, ela necessita de metodofase inicial de escolarização. Já a língua de
de aula, que deveriam contar
logias próprias para seu ensino, o
sinais, mesmo não tendo sido ofertada ao
com outros profissionais no deque nem sempre é disponibilizado
surdo em sua fase de aquisição de língua,
senvolvimento da ação mediada,
na fase inicial de escolarização.
apresenta características próprias que
além de somente os mediadores
Já a língua de sinais, mesmo não
trazem ao surdo ime-diata identificação.
- professores.
tendo sido ofertada ao surdo em
Desse modo, nas escolas
sua fase de aquisição de língua,
inclusivas e em processo de inclusão, há uma necessidade
apresenta características próprias que trazem ao surdo imede se reconfigurar o papel dos agentes envolvidos nos prodiata identificação. Dessa forma, a LIBRAS,
cessos de ensino-aprendizagem do conhecimento científico,
que devem, no caso da surdez (uma das especificidades da
[...] como toda língua de sinais, é uma língua de
EI), apresentar um profissional especializado para fazer a
modalidade gestual-visual porque utiliza, como cacomunicação entre professor e aluno. O contexto da sala
nal ou meio de comunicação, movimentos gestuais e
de aula inclusiva ainda prioriza majoritariamente a Língua
expressões faciais que são percebidos pela visão; porPortuguesa, e, para garantir ao sujeito surdo o direito de
tanto, diferencia-se da língua portuguesa, que é uma
acesso ao conhecimento, faz-se necessária a presença
língua de modalidade oral-auditiva por utilizar, como
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

O Ensino de Química para alunos surdos

Vol. 39, N° 4, p. 347-355, NOVEMBRO 2017

canal ou meio de comunicação, sons articulados que
são percebidos pelos ouvidos. Mas, as diferenças não
estão somente na utilização de canais distintos, estão
também nas estruturas gramaticais de cada língua
(REVISTA DA FENEIS, 1999, p. 16).

348

necessidade do indivíduo surdo ter de se comunicar através
de outra Língua, a LIBRAS.
Do mesmo modo, concordamos com o autor que:
O nosso problema, em consequência, não é a surdez, não são os surdos, não são as identidades surdas,
não é a língua de sinais, mas, sim, as representações
dominantes, hegemônicas e "ouvintistas" sobre as
identidades surdas, a língua de sinais, a surdez, e os
surdos. Deste modo, a nossa produção é uma tentativa de inverter a compreensão daquilo que pode ser
chamado de "normal ou cotidiano" (SKLIAR, 2003,
p. 30 apud QUADROS; PERLIN, 2007, p. 61).

Uma sala de aula no contexto de educação inclusiva
apresenta alunos ouvintes, aluno(s) surdo(s), intérprete da
Língua de Sinais e professor. Os alunos ouvintes dominam a
linguagem oral e escrita, os alunos surdos dominam a Língua
de Sinais, o intérprete domina a linguagem oral e escrita e
a Língua de Sinais, o professor domina a linguagem oral e
escrita e a linguagem científica escolar. Este é um exemplo
clássico, porém muitas outras especificidades podem estar
presentes no mesmo ambiente. Esta realidade configura a
Importa considerar a autonomia desse sujeito social na
heterogeneidade de linguagens, evidentes no processo de
busca do saber, na medida em que ele percorre um caminho
ensino-aprendizagem, que precisam dialogar entre si.
cheio de barreiras imposta pelo meio social e político, marA literatura específica relata uma dificuldade no ensino
cado pela grande opressão de uma razão social dominante
de ciências, o qual tem simbologia própria. Este impasse
estabelecida pela ideologia da homogenia da sociedade, que
se manifesta, inicialmente, pela falta de formação por parte
não respeita as diferenças existentes nas especificidades
do professor de ciências para ensinar alunos surdos, pois
(SKLIAR, 2003).
a "responsabilidade de ensinar é do professor". Ademais,
Apoiamo-nos em Silva (2010) para caracterizar a iden"a ausência de uma língua comum entre professor ouvinte
tidade surda que advém "de uma construção imperativa de
e o aluno surdo traz dificuldades para o aluno em relaidentidade cultural dos sujeitos com suas peculiaridades e esção ao seu desempenho e participação em sala de aula"
pecificidades que vão além dos aspectos clínicos-patológicos
(LACERDA; GÓES, 2000, p. 35). Soma-se a este cenário
(SILVA, 2010, p. 272).
a não formação do intérprete em áreas específicas do coAssumir o constructo da identidade surda significa aceitar
nhecimento, constituindo uma barreira na interpretação
sua materialidade na sociedade, garantindo seus direitos e
de conceitos científicos. Em vista disso, os professores
estabelecendo sua independência no processo educacional,
de ciência possuem grande difino intuito de oportunizar um
culdade ao trabalhar com alunos
ensino com acesso mais humaAssumir o constructo da identidade
surdos e lidar com a construção
nístico, que respeite a identidade
surda significa aceitar sua materialidade
dos conceitos para esse grupo
surda. Além do mais, "o sujeito se
na sociedade, garan-tindo seus direitos
particular, o que, por sua vez,
constrói quando estabelece cone estabelecendo sua independência
gera exclusão e distanciamento
tatos com o meio e vive situação
no processo educacional, no intuito de
dos alunos surdos nas aulas dessa
diferenciada de representação.
oportunizar um ensino com acesso mais
área (SOUSA; SILVEIRA, 2011).
Os discursos que constituem as
humanístico, que respeite a identidade
"O uso da linguagem social
representações definem poderes
surda.
e culturalmente contextualizada
desiguais que ocupam diferentes
deve respeitar sua constituição
espaços e controles dentro de
linguística funcional", sendo assim capaz de significar a
grupos" (PERLIN, 1998, p. 7).
ação (BENITE; BENITE; VILELA-RIBEIRO, 2015, p. 87).
Essa identidade se organizou e se organiza
A construção de conceitos por parte dos sujeitos é proporcionada pela linguagem, mas se apenas a linguagem oral for
[...] resistindo às pressões da concepção etnocênprivilegiada neste processo, os surdos estarão com a apropriatrica dos ouvintes, organizou-se em todo o mundo e
ção comprometida (OLIVEIRA; MELO; BENITE, 2012).
levantou bandeiras em defesa de uma língua e cultura
próprias, voltando a protagonizar sua história. A
O Constructo Social da Surdez
princípio, as mudanças iniciais vêm sendo percebidas no espaço educacional, através de alternativas
Concordamos com Skliar que "tudo é possível com a
metodológicas que transformam em realidade o
mudança na educação: a insistência em uma única espadireito do surdo de ser educado em sua língua nacialidade e em uma única temporalidade, mas com outros
tural (FERNANDES, 1998, p. 21 apud QUADROS;
nomes; a infinita trans-posição do outro em temporalidades
PERLIN, 2007, p. 34).
e espacialidades homogêneas" (SKLIAR, 2003, p. 39).
Desse modo, na perspectiva da inclusão escolar, consideAssumidos os referidos pressupostos, esta investigação
ramos a surdez como uma diferença, fato evidenciado pela
teve como objetivo propor e analisar diferentes estratégias de
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

O Ensino de Química para alunos surdos

Vol. 39, N° 4, p. 347-355, NOVEMBRO 2017

acesso ao conhecimento da ciência para alunos surdos do 9º
ano de uma escola da comunidade surda, contemplando-os
em sua diferença, mediados pela linguagem.

Os Caminhos da Investigação
Esta é uma pesquisa que possui elementos da pesquisa
participante. Segundo Demo (1984), esta nasce da inquietação, propondo soluções e melhorias possíveis para a
transformação.
Dessa forma, este trabalho se originou da inquietação na
prática de um professor de ciências bilíngue (PP1) e de um
professor da escola inclusiva (PP2), onde ambos trabalham
com alunos surdos. A investigação foi desenvolvida em uma
escola inclusiva e bilíngue, o Centro Especial Elysio Campos
(CEEC), instituição mantida pela Associação de Surdos
de Goiânia (ASG) e conveniada à Secretaria Estadual de
Educação de Goiás.
Nas escolas da comunidade surda, os alunos aprendem
a se afirmar enquanto sujeitos culturais, construindo suas
identidades "no interior desta representação cultural que se
fortalece no seio da comunidade surda" (LACERDA; GÓES,
2000, p. 24). Essa escola é ao mesmo tempo inclusiva e bilíngue, pois, apesar da maioria dos alunos serem surdos, ela
também recebe alunos ouvintes na segunda fase do Ensino
Fundamental. Nessa fase, as aulas são ministradas em Língua
Portuguesa com o intermédio de intérpretes de LIBRAS,
com exceção das aulas de LIBRAS e Cultura Surda, que são
ministradas por professores surdos. A característica bilíngue
se estabelece principalmente na primeira fase do Ensino
Fundamental, ou seja, do 1º ao 5º ano, os quais são mediados por professores fluentes em LIBRAS, sem a presença
de intérpretes. A escola também conta com uma equipe de
funcionários, desde a limpeza até a secretaria, que sabem
LIBRAS, proporcionando ao aluno surdo um ambiente em
que ele tenha independência e autonomia.

Foram planejadas Intervenções Pedagógicas (IP's) com
a intenção de se trabalhar os conceitos de matéria, material
e substâncias, voltados para alunos do 9º ano do Ensino
Fundamental (EF). Participaram das IP's nove alunos (A1
a A9), uma professora pesquisadora bilíngue (PP1) e a
professora pesquisadora (PP2). Essas IP's ocorreram nas
aulas da disciplina de ciências, durante o período letivo
dos alunos nos meses de setembro a novembro de 2014, e
tiveram duração de 9 horas e 10 minutos de gravações em
áudio e vídeo que foram transcritas para posterior análise.
A transcrição das falas contidas nos vídeos passou pelo
processo de tradução da LIBRAS para a Língua Portuguesa
escrita, e foi organizada em turnos, procedimento que
foi realizado pela professora bilíngue de ciências. Para
a análise dos dados, utilizamos a técnica de análise da
conversação, baseada em Marcuschi (2003). Escolhemos
essa técnica por considerar que a conversação faz parte de
uma organização que:
Também é reflexo e um processo subjacente, desenvolvido, percebido e utilizado pelos participantes da
atividade comunicativa, ou seja, as decisões interpretativas dos interlocutores decorrem de informações
contextuais e semânticas mutuamente construídas
ou inferidas de pressupostos cognitivos, étnicos e
culturais, entre outros (MARCUSCHI, 2003, p. 7).
Neste artigo, devido à limitação de espaço, optamos por
apresentar os resultados obtidos em uma das IP's, identificada como IP 4, e previamente planejada segundo o quadro1,
que a descreve a seguir.
A Intervenção Pedagógica 4 foi planejada para se trabalhar o conceito de "Misturas", por meio de atividade prática.
Dessa forma, foi proporcionada aos alunos uma atividade na
qual foram utilizados materiais alternativos de baixo custo,
com componentes de misturas e substâncias presentes no

Quadro 1: Planejamento da IP4.
Planejamento da IP4
Tempo

02 aulas de 50 minutos cada

Temática

Misturas

Metodologia

A atividade prática sobre o conceito de misturas homogêneas e heterogêneas utilizou materiais do dia
a dia. Foram dados aos alunos sete copos contendo água. Os alunos foram instruídos a adicionar,
misturar e observar, em cada copo, um ou dois tipos de substância. Após a observação, os alunos
fizeram desenhos em uma folha, representando o resultado final observado. Em seguida, foi questionado aos alunos: "Como classificariam o material observado, qual critério usariam e quais grupos
formariam?". Logo depois, foi apresentado aos alunos o conceito de misturas e diferentes exemplos.
- Trabalhar os conceitos de misturas homogêneas e heterogêneas;
- Demonstrar aos alunos que as misturas são constituídas por substâncias;

Objetivos

- Mostrar as diferentes fases nas misturas heterogêneas;
- Apresentar algumas misturas utilizadas no dia a dia dos alunos, levando-os a reconhecê-las no seu
cotidiano.

Recursos

- Copos descartáveis, água, areia (construção civil), sal de cozinha, óleo vegetal (de soja), açúcar,
papel A4, lápis de cor.

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10-PP1: Certo! Colocar esse, serragem. Agora vocês
observar o que acontecer cada um, exemplo, o que
ter esse?
11-A8: Água açúcar
12-PP1: Certo! Onde açúcar?
13-A8: Derreter
14-PP1: Derreter, mas continua dentro? Sumiu ou
não?
15-A8: Derreter, misturar
16-PP1: Certo, açúcar continuar dentro, mas derreter, misturar
17-A8: Isso! Entender
18-PP1: Outro, o que ter esse?
19-A3: Serragem
20-PP1: Mais? Misturar o que?
21-A3: Água
22-PP1: Isso! Água misturar
23-A8: Mas ter sujeira misturar, ficar separada, ficar
pedacinhos misturar
24-PP1: Verdade! Outro, esse?
25-A8: Separado
26-PP1: Água óleo derreter? Como perceber esse?
27-A8: Separado
28-PP1: Outro, esse?
29-A3: Água sal
30-PP1: Derreter também
31-A8, A5, A3: Sim
32-PP1: Outro, esse?
33-A6: Serragem
34-A8: Água serragem, separado, depois misturar
água junto separar
35-A6: Serragem misturar separar

cotidiano dos alunos, conforme apresenta a Figura 1. Para a
análise, os alunos utilizaram água para formar misturas com
as seguintes substâncias e materiais (Quadro 2).

Resultados e Discussão
A partir das gravações da IP4, foi realizada a tradução dos
diálogos, da LIBRAS para a Língua Portuguesa, a qual consiste em "transformar um texto a partir da língua fonte, por
meio de vocalização, escrita ou sinalização, em outra língua
meta" (PEREIRA, 2008, p. 136 apud PAZ; GUTIÉRREZ,
2013, p. 11), ou seja, ela não precisa obedecer a estrutura
morfológica nem sintática da outra língua.
A tradução dos diálogos foi realizada pela professora
intérprete de LIBRAS formada em ciências, que também
é autora deste trabalho. Passamos a apresentar agora os
extratos dos diálogos produzidos na IP4.

350

1° Parte da experimentação: Observação 1
(Momento para observar)
1-PP1: Poder começar primeiro. Cada um misturar,
observar, atenção.
2-A8: Sumiu! (Mostrando o copo com açúcar e água
misturados)
3-PP1: Isso! Observar o que acontecer!
4-A8: Sal água, branco.
5-A5: Rápido, misturar, rápido!
6-PP1: Pronto, certo? Agora deixar cada copo descansar. Observar o que acontecer cada um, diferente,
como? Esperar um pouco
7-A8: Partes (se referindo às fases)
8-A3: Aquele metade amarelo, ver?
9-A5: Ver, amarelo.

Figura 1: Copos contendo misturas obtidas pelos sujeitos da investigação, atividade de experimentação na IP4.
Quadro 2: Sequência das misturas realizadas na IP4.














Água
+
Óleo
+
Areia

Água
+
Areia
+
Serragem

Água
+
Sal

Água
+
Areia

Água
+
Óleo

Água
+
Serragem

Água
+
Açúcar

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Os resultados do extrato 1 mostraram que os alunos visualizaram as fases das misturas. Quando A8 (Turno 2) se
refere ao ato de adicionar o açúcar, afirmando que "sumiu",
ele faz alusão ao que foi solubilizado; quando perguntado
se o açúcar ainda está ali, ele afirma que sim "derreter,
misturar" (Turno 15). Da mesma forma, os estudantes do
Turno 31 se referem ao sal. Os estudantes também citam os
aspectos de apresentação do fenômeno quando observam o
óleo adicionado: A5 (Turnos 9 e 27) afirma "ver amarelo" ou
"separado" e A8 (Turno 23), sobre a serragem adicionada,
aponta "ter sujeira misturar, ficar separada, ficar pedacinhos
misturar".
Esses resultados revelam a percepção das diferentes
fases das misturas. Defendemos que é preciso estabelecer
as relações entre o pensamento concreto (empírico - os
experimentos) e o pensamento abstrato (conceitual - o
conceito de mistura). Segundo Vigotski, o significado é
constituído socialmente, ou seja, um signo é compartilhado por um grupo de pessoas e a noção de sentido depende
da experiência particular de cada indivíduo (VIGOTSKI,
2001). Isto posto, os conceitos de mistura e fase como
signos da ciência passam a ter significado para o estudante
surdo que participou da experiência concreta e, a partir
disso, estabeleceu relações.
No caso particular da surdez, defendemos, tal como
Skliar (2005), que "surdez é uma experiência visual", considerando que "todos os mecanismos de processamento da
informação, e todas as formas de compreender o universo
em seu entorno, se constroem como experiência visual"
(SKLIAR, 2005, p. 27-28). Diante disto, oferecer o acesso
ao conhecimento químico baseado em experiências - com
o referencial funcional da visão como requisito maior - foi
a alternativa planejada para a realização da IP.
Os resultados do extrato 2 (apresentado a seguir) mostram que houve estabelecimento do diálogo, pois os alunos
produziram a contra-palavra dando retorno às assertivas do
professor. De acordo com Marcuschi (2003), para se produzir
e sustentar uma conversação, duas pessoas devem partilhar
um mínimo de conhecimentos comuns, podendo assim haver
troca ou partilha de informações. Segue-se o estabelecimento
do diálogo a respeito do conhecimento científico ensinado,
tal como no extrato 2. As falas aqui foram traduzidas e parte
do experimento é mostrado na Figura 2.
2° Parte da experimentação: Análise 2 (É hora
de analisar)
36-PP1: Outros conseguir ver fases, esses não. Ter
nome, dois iguais, só conseguir ver igual, escrever
aqui (Escreve a palavra homogênea no quadro).
Qual significado palavra? Homo igual, entender?
Você conseguir ver só um, exemplo, aqui misturado
duas substâncias, água açúcar, mas só água ver uma,
porque misturar, igual, certo? Entender? Esses outros
conseguir ver diferente mais uma fase (faz datilologia
da palavra fase). Esse, água óleo, conseguir ver água
óleo também, por quê? Porque substâncias misturar
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não, entender? Nome desses diferente (Escreve a palavra heterogênea no quadro) exemplo se ver dois é?
37-A8: Água sal igual, igual, diferente, diferente
38-PP1: Isso! Vem observar copos. Esse, ter duas
partes, entender? Diferente
39-A6: Entender não (Queria entregar a atividade
sem entender)
40-PP1: Calma, tentar de novo. Por que esse você
colocar nome?
41-A6: Igual
42-PP1: Certo, igual. Esses?
43-A6: Diferente!
44-PP1: Diferente por quê? Porque conseguir ver
duas fases, partes, olha água óleo, conseguir ver
dois água óleo, colocar nome igual escrever quadro.
Entender?
45-A6: Sim!
46-A3: Qual igual?
47-A5: Ver
48-PP2: Esse? (água óleo)
49-A5: Diferente
50-A3: Esses, diferente? (água com sal e água com
açúcar)
51-PP1: Comparar? Água sal
52-A3: Derreter
53-PP1: Certo, olha, só conseguir ver água. Esse
(água com açúcar) também. Agora esse, água óleo
quantos você ver?
54-A3: Dois
55-PP1: Certo! Diferente. Esse? (serragem, água
e areia)
56-A3: Três
57-PP1: Aqui dentro tudo igual, você ver partes
diferentes?
58-A3: Não
59-PP1: Nome homogêneo. Se diferente exemplo esse,
conseguir ver fundo areia, depois água, em cima óleo,
conseguir ver três diferente, entender?
60-A3: Sim
61-PP1: Nome diferente heterogêneo, entender?
62-A3: Sim
Um grande impasse no ensino de surdos é a falta de aceitação da LIBRAS e sua utilização. Mesmo sendo a segunda
Língua do país, ela não é utilizada como se deve, por falta
de informação e de profissionais habilitados. Outro fator
que dificulta o ensino em LIBRAS é a falta de sinais para
termos ou palavras de áreas específicas, como é o caso da
química. Assim, fica a cargo do intérprete, que geralmente
não tem formação em áreas de conhecimentos específicos,
aproximar o contexto do conceito para auxiliar o entendimento do aluno surdo, já que
Somada a essa questão e agravando-a, os professores de ciências ­ e nesse particular, a química ­,
por não possuírem formação que lhes possibilitem

O Ensino de Química para alunos surdos

Vol. 39, N° 4, p. 347-355, NOVEMBRO 2017

351

Figura 2: Refere-se às duas operações (da esquerda para a direita): copo 1 ­ água, areia e óleo; copo 2- água, areia e serragem,
feitas na IP4.

352

trabalhar com deficientes auditivos, têm grandes
dificuldades em lidar com a construção de conceitos
científicos para esse grupo particular, o que, por
sua vez, gera exclusão e distanciamento dos alunos
surdos nas aulas desse conteúdo. Noutro viés, a
especificidade da linguagem e dos termos químicos
­ átomo, elétron, mol, íon, próton, dentre outros ­,
que não compõem o rol de terminologias dos dicionários da libras, pode ser um elemento dificultador
da construção de sentidos dos conceitos químicos e,
consequentemente, sua tradução do português para
libras (SOUSA; SILVEIRA, 2011, p. 38).
Em trabalhos anteriores do nosso grupo de pesquisa,
observou-se a relevância da participação do professor de
ciências/química bilíngue, dialogando diretamente na língua
de sinais, sem a intermediação do intérprete. Como afirmam
Queiroz et al. (2012, p. 915) "é preciso mudar o foco no
trabalho com os surdos, e esse trabalho deve ser centrado
no desenvolvimento da linguagem". Reiteram Oliveira e
Benite (2015, p. 604): "Se o professor é o membro da cultura científica e o intérprete muitas vezes desconhece esta
linguagem, percebemos que o ensino de ciências para surdos
pode estar comprometido". Considerando a especificidade
da linguagem científica, concordamos com Mortimer (1998)
a respeito da "densidade léxica da linguagem científica, na
qual quase todos os termos usados carregam significados
interligados numa estrutura conceitual" (p. 104).
A segunda parte da experimentação proposta para essa
IP se constituiu em caracterizar as representações imagéticas
em mistura homogênea e heterogênea. Diante da explicação
que o professor pesquisador procedeu para apresentar o conceito de misturas homogêneas e heterogêneas, percebe-se o
desafio encontrado para se utilizar da Língua de Sinais e se
aproximar do significado da palavra que leva ao conceito.
Quando PP1 (Turno 36) se refere ao conceito de homogêneo,
ele utiliza a palavra/léxico "igual" para explicar que misturas
homogêneas têm aspecto uniforme de ponto a ponto. Já para
se referir ao conceito de heterogêneo, utiliza a palavra/léxico
"diferente", para explicar que misturas heterogêneas têm
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aspecto multiforme de ponto a ponto. Remetemo-nos novamente à especificidade da linguagem científica, que "pode
representar dificuldades para os alunos se o professor não
introduzi-las com a preocupação de significá-las" (BENITE
et. al., 2015, p.88). Assim, nossos resultados demonstraram
que o professor atentou a esse ponto.
Quando A8 (Turno 37) diz "Água sal igual", inferimos
que o estudante identificou uma fase, percebendo uma mistura homogênea ­ assim como quando A5 é perguntado por
PP2 (Turno 48) sobre "Água óleo?" e responde (Turno 49)
"diferente", assim identificando uma mistura heterogênea.
Tal como A3, quando perguntado por PP1 (Turno 53) "Agora
esse, água óleo quantos você ver?", ao que A3 (Turnos 54 e
56) responde "Dois" e em relação à mistura entre serragem,
água e areia, responde "Três". Tais resultados mostram que,
apesar de não utilizar a linguagem científica, os estudantes
conseguem estabelecer relações conceituais entre estrutura e
propriedade. Eles identificaram a presença de diferentes fases
e classificação da mistura, propriedades visuais e classificação.
Assim, diante dos resultados apresentados na IP4, podemos entender que os estudantes surdos conseguiram produzir
a contra-palavra, identificando na linguagem científica os
sentidos por eles construídos durante a apresentação dos
conceitos trabalhados na IP4. E que ainda, mesmo sendo
de forma minimizada, foi necessária a utilização da Língua
Portuguesa escrita para a caracterização das misturas (Figura
3), pois esses são os códigos da ciência e eles não têm correspondentes em LIBRAS.
Ainda na IP4, utilizamos como forma de avaliação uma
atividade em que os alunos fizeram ilustrações demonstrando
o que foi observado na experimentação, como a ilustração
dos copos contendo as misturas (Figura 3).
Segundo Barthes, o significante é um elemento essencial para a constituição de um signo, formando esquemas
de expressão que são mediadores entre o significado e o
conteúdo formulado pelo significado (BARTHES, 1971).
Desse modo, ao trabalhar com as representações imagéticas, o estudante refere-se ao conhecimento sistematizado,
ou seja, a uma estrutura sistêmica que compõe a linguagem
científica. Concordamos com Benite et al. que "para que um

O Ensino de Química para alunos surdos

Vol. 39, N° 4, p. 347-355, NOVEMBRO 2017

Figura 3: Exemplo de atividades dos alunos mostrando a ilustração dos copos contendo misturas, atividade de experimentação na
IP4. As letras A, B e C representam as percepções dos alunos.

aprendiz se aproprie de um conceito científico, este deve ser
apresentado não como um conhecimento isolado, mas como
elemento estrutural da ciência". (BENITE et al., 2015, p. 90).
As representações imagéticas são importantes ferramentas que auxiliam na construção de significados. Nesse
sentido, o desenho
mantém relação de analogia qualitativa entre o
significante e o referente, pois retoma as qualidades
formais de seu referente (formas, cores, proporções)
que permitem reconhecê-lo. Se o desenho parece
com a coisa é porque não é a própria coisa, porém
sua função é evocar, expressar sentidos, ou seja, ser
uma representação, um signo (BENITE; BENITE,
2013, p. 37).
Segundo Pino (1991, p. 34), os signos são designados
como os "sinais que remetem ao objeto sinalizado em virtude, unicamente, da relação artificial e variável que o homem
estabelece entre eles", sendo o significante imprescindível
nesse processo. Desse modo, ao utilizar representações
imagéticas, o estudante busca essa relação fazendo alusão
ao conhecimento sistematizado que compõe a linguagem
científica. Assim, entendemos que o conhecimento não deve
ser apresentado de forma isolada, mas sim como elemento
estrutural da ciência, permitindo que o estudante se aproprie
do conceito científico (BENITE; BENITE, 2015).
Afirmamos anteriormente que as representações imagéticas atuam como importantes ferramentas que ajudam
na construção de significados; dessa forma, concordamos
com Carneiro (1997) em sua definição de imagem como
"representação visual, real ou analógica de um ser, fenômeno
ou objeto, que normalmente se apresenta em oposição ao
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texto escrito [...], onde a oposição se situa entre a imagem e
linguagem, ou seja, signo linguístico e signo não linguístico" (CARNEIRO, 1997, p. 367 apud GIBIN; FERREIRA,
2013, p. 19). Dessa maneira o aprendiz é capaz de relacionar
a imagem ao objeto aprendido, atribuindo-lhe significado.
Optamos por essa forma de avaliação, uma vez que muitos alunos surdos ainda não possuem o domínio da LIBRAS,
visto que comumente a língua oficial utilizada em sala de
aula é a Língua Portuguesa. Desse modo, concordamos com
Pereira et al., que defendem
que as implicações do não reconhecimento da cultura surda são pelo menos as seguintes: insuficiência
na aquisição da linguagem química; reconhecimento
da língua oral (português falado) como meio e fim
da interação social, cultural, política e científica; e
em contrapartida, o não reconhecimento da língua
como parte da constituição do sujeito, a significação
de si e o reconhecimento da própria imagem diante
das relações sociais (PEREIRA et al., 2011, p. 49).
Construímos assim, uma atividade de avaliação da IP
utilizando representações imagéticas. É possível verificar
nas imagens que os alunos surdos:
A. Se referiram aos termos científicos aprendidos, mesmo
que na modalidade não verbal da Língua Portuguesa, para
reproduzir imageticamente a experiência desenvolvida;
B. Ilustraram os desenhos com cores e traçados diferentes
para representar a homogeneidade e a heterogeneidade
de cada sistema.
C. Reproduziram parte do conceito, ou seja, a identificação
das fases diante das misturas heterogêneas, aproximando-o ao nível visual e macroscópico.

O Ensino de Química para alunos surdos

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353

Considerando a marcante visualidade do surdo, é possível inferir,
tal como Benite e Benite que "esta
auxilia a percepção do meio e a
memória visual contribuindo para
a representação gráfica" (2013,
p. 37).

Algumas Considerações

354

A Intervenção Pedagógica se
deu a partir de uma ação bilíngue e foi realizada simultaneamente em Língua Portuguesa e LIBRAS. Essa questão
mostrou ser fundamental para alcançar a superação no desafio de uma aula de ciências para surdos, visto que isso não é
tão simples devido à simbologia própria de conhecimentos
específicos.
Assim, os resultados obtidos mostraram que é possível
trabalhar parcerias entre o professor de química que domine
a Língua Portuguesa e o professor de ciências bilíngue, que
domine a LIBRAS. Essa parceria mostrou que pode ser uma
alternativa para o ensino de ciências para surdos e colocou o
professor em posição diferenciada na sala de aula de surdos,
podendo disponibilizar os conhecimentos diretamente para
o aluno, sem a necessidade de um intermediador.
Nesse sentido, também podemos afirmar que essa é uma
forma de trabalhar a introdução do conceito de misturas no
ensino de surdos, através da experimentação de materiais e
substâncias, no desenvolvimento de experiências com substâncias presentes no dia-a-dia dos alunos, gerando entre eles
discussões sobre o conceito de misturas e suas classificações.
Diante dos resultados, entendemos que conseguimos
atingir nossos objetivos por meio do planejamento e desenvolvimento de intervenções pedagógicas, considerando a

Referências
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1971.
BENITE, A. M. C.; BENITE, C. R. M. Ensino de química e
surdez: análise da produção imagética sobre transgênicos. Journal
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______; ______; VILELA-RIBEIRO, E. B. Educação inclusiva, ensino de Ciências e linguagem científica: possíveis relações.
Revista Educação Especial, v. 28, n. 51, p. 83-92, 2015.
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Janeiro: SENAC/DM, 1984.
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Educativos e Subjetividade. São Paulo: Editora Lovise, 2000.
MARCUSCHI, L. A. Análise da conversação. São Paulo:
Geográfica, 2003.
MORTIMER, E. F. Sobre chamas e cristais: a linguagem
cotidiana, a linguagem científica e o ensino de ciências. In:
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

perspectiva socioantropológica
da surdez e proporcionando um
pensar além dos conteúdos.
A estratégia de ensino utilizada mostrou ser uma opção que
resguarda a apresentação do conceito, de forma visualmente clara
(proporcionada pela experiência
realizada), bem como possibilitou que os alunos se tornassem
autores de seus experimentos,
desencadeando maior interesse e autonomia.

A Intervenção Pedagógica se deu a partir
de uma ação bilíngue e foi realizada
simultaneamente em Língua Portuguesa
e LIBRAS. Essa questão mostrou ser
fundamental para alcançar a superação
no desafio de uma aula de ciências
para surdos, visto que isso não é tão
simples devido à simbologia própria de
conhecimentos específicos.

Agradecimentos
À CAPES, à Associação dos Surdos de Goiânia ­ ASG,
aos professores e aos alunos surdos do Centro Especial
Elysio Campos ­ Goiânia-GO. À FAPEG e ao CNPq.

Nota
Este texto é uma versão revisitada e ampliada do trabalho apresentado no XVIII Encontro Nacional de Ensino
de Química (ENEQ), realizado em Florianópolis em julho
de 2016.
i

Nislaine C. S. Mendonça ([email protected]), licenciada em Química

pela IFG, mestre em Ciências Moleculares pela Universidade Estadual de Goiás,
Doutoranda em Química, Instituto de Química - Universidade Federal de Goiás.
Goiânia, GO ­ BR. Aline Prado de Oliveira ([email protected]) licenciada em
Biologia, mestre em Educação em Ciências e Matemática pela Universidade Federal
de Goiás. Goiânia, GO ­ BR. Anna M. Canavarro Benite ([email protected]) bacharel e
licenciada em Química, mestre e doutora em Ciências (Química) pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Docente do Instituto de Química - Universidade Federal
de Goiás. Goiânia, GO ­ BR.

CHASSOT, A. I.; OLIVEIRA, R. J. Ciência, ética e cultura na
educação. São Leopoldo: UNISINOS, 1998.
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ensino de ciências. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação
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PAZ, J. F.; GUTIÉRREZ, N. R. G. Tradução e Interpretação:
o interprete de sinais na prática educativa. São Paulo: AgBook,
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PEREIRA, L. L. S.; BENITE, C. R. M.; BENITE, A. M. C. Aula
de Química e Surdez: sobre Interações Pedagógicas Mediadas
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Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande
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QUADROS, R. M.; PERLIN, G. (org). Estudos Surdos II.
Petrópolis, RJ: Arara Azul, 2007.
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O Ensino de Química para alunos surdos

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São Paulo: Martins Fontes, p. 23-78, 2001.

Para saber mais
OLIVEIRA, W. D.; BENITE, A. M. C. Estudos sobre a relação
entre o intérprete de LIBRAS e o professor: implicações para o
ensino de ciências. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação
em Ciências, v. 15, n. 3, p. 597-626, 2015.

Abstract: Teaching chemistry for deaf students: the concept of mixtures in science classes. This paper presents discussions of a pedagogical intervention (IP)
made in the classroom in a school of the deaf community, the Special Center Elysio Campos of Goiânia -GO, in order to propose and analyze different strategies of access to knowledge of science to 9th grade deaf students . The concept focused was "mixtures", through experimentation with instructional materials
adapted privileging the functional framework of vision. What was observed was that the bilingual pedagogical action with a chemistry teacher and a science
teacher (interpreter - LBS) is an alternative to trial work in chemical education for the deaf.
Keywords: science education, deaf education, chemical concepts.

355

Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

O Ensino de Química para alunos surdos

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ANOS

Ensino de Química em Foco

http://dx.doi.org/10.21577/0104-8899.20160094

O professor formador em foco: identidade e
concepções do fazer docente

Stephany P. Heidelmann, Gabriela S. A. Pinho e Maria Celiana P. Lima
O presente trabalho analisa quem é o docente atuante nos cursos de Licenciatura em Química de três
instituições de ensino superior do Estado do Rio de Janeiro. Para isso, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 26 professores, investigando questões referentes às suas formações e experiências profissionais
em cursos de formação docente. A partir dos resultados foi observado que as ideias que orientam a prática
pedagógica dos professores entrevistados muitas vezes são permeadas por influências de suas trajetórias
acadêmicas, estando a construção de suas identidades profissionais marcadas pelo rompimento de laços
com sua formação escolar ou pela reprodução de suas vivências. Destaca-se, portanto, que o profissional,
quando bem formado, ciente e comprometido com seu papel na formação de futuros professores, torna-se
apto a buscar uma educação que dialogue saberes e represente uma significância na construção da identidade
profissional dos licenciandos em química.

356

professor formador, formação de professores, licenciatura em química

Recebido em 18/05/2016, aceito em 13/01/2017

A

função primordial do ensino deve ser a de possibilitar
é marcada por discursos de diferentes campos sociais nos
a aprendizagem do aluno, distanciando-o do dogmaquais o profissional esteve inserido durante sua vida, bem
tismo e passividade e proporcionando seu desenvolcomo por formas, memórias e experiências de sua cultura
vimento como cidadão numa sociedade democrática, a partir
e instituição de origem (Pimenta, 1996; Rosa et al., 2008).
da capacidade de relacionar o conhecimento construído no
Muitos licenciandos, ao iniciarem na educação superior,
processo educacional com sua
possuem visões simplistas do ato
vivência e realidade.
de ensinar, cabendo ao docente
Muitos licenciandos, ao iniciarem na
A partir da década de 1990,
formador, em suas aulas, distaneducação superior, possuem visões
iniciou-se o desenvolvimento
ciar-se da separação teórico-prásimplistas do ato de ensinar, cabendo
de pesquisas que consideravam,
tico e promover um ensino que
ao docente formador, em suas aulas,
além da formação acadêmica, o
combata visões estigmatizadas e
distanciar-se da separação teórico-prático
desenvolvimento pessoal, profismecanicistas do fazer docente.
e promover um ensino que combata visões
sional e organizacional do profesEntretanto, o cenário encontrado
estigmatizadas e mecanicistas do fazer
sor como princípios fundamentais
nos cursos de formação de prodocente.
ao se analisar a prática pedagógica
fessores muitas vezes se distancia
e os saberes docentes (Nunes,
do ideal, estando marcado pelo
2001). O presente trabalho é pautado pelo entendimento
tradicionalismo, no qual as formações específica e pedagóde que a identidade do docente formador é a (re)significagica caminham de forma paralela, sem produzir momentos
ção social da profissão a partir da relação com saberes, e
de questionamentos e desconstrução de posicionamentos
fechados e cristalizados.
Maldaner (2006) afirma que a ação docente do professor
A seção "Ensino de Química em Foco" inclui investigações sobre problemas no ensino
formador, ou seja, as práticas de formação às quais os futuros
de Química, com explicitação dos fundamentos teóricos, procedimentos metodológicos
e discussão dos resultados.
educadores são submetidos durante as licenciaturas, acabam
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por modelar as posturas profissionais futuras dos formados e
Diante disso, o presente artigo traz os resultados de uma
perpetuar-se nelas, mesmo que involuntariamente. Somado a
análise do perfil dos professores formadores atuantes em
isso, é possível identificar que nem sempre os profissionais
três instituições que oferecem o curso de Licenciatura em
da educação, embora se autointitulem educadores, carregam
Química no Estado do Rio de Janeiro, sendo uma particular e
consigo o compromisso e a competência de formar profesduas públicas, bem como as concepções e ações que tangem
sores (Gomes, 2006).
as práticas docentes.
Portanto, a relevância dos cursos de formação inicial de
professores é destacada por representar um ambiente proProcedimentos Metodológicos
fícuo para a (re)construção da identidade profissional dos
licenciandos, (re)construindo modelos, formas de pensar e de
A escolha dos sujeitos participantes do presente estudo
agir em seu oficio (André et al., 2010). Analisar a concepção
se deu de forma aleatória, sendo estabelecido como critério
desta formação é substituir a ideia de capacitação através da
somente que fossem entrevistados cerca de 10 docentes por
transmissão de conhecimentos e reprodução de modelos pela
instituição, estando entre esses os coordenadores dos cursos
análise da prática pedagógica desenvolvida e dos sujeitos
analisados e pelo menos dois docentes de disciplinas pedaresponsáveis por ela, considerando os saberes da experiência
gógicas de cada instituição de ensino superior.
e buscando problematizar sua formação inicial e continuada
Os participantes envolvidos lecionam nos cursos supe(Nunes, 2001). Segundo Rivas (2013, p.2), "(...) ser professor
riores, em disciplinas da área específica que compreende
ultrapassa o domínio de conteúdo, incorporando caracterísquímica, física, matemática e biologia, e da área pedagóticas que só podem ser alcançadas mediante uma reflexão e
gica, que contempla disciplinas como didática, sociologia,
atuação intencional da atividade pedagógica". Portanto, ao
psicologia, filosofia e ensino de química, nas quais os alunos
estudar a prática pedagógica do docente, é possível perceber
desenvolvem estratégias de ensino considerando o embasaum conjunto de ideias, concepções e teorias que dão base às
mento científico, teórico e prático do curso. Alguns docentes
suas ações (Gomes, 2006).
atuam em ambas as áreas, e outros em somente uma delas.
Desta forma, Mizukami (2005, p.8), a partir do referencial
Como instrumento de coleta de dados, foram utilizadas
de Cochran-Smith (2003), destaca alguns pontos essenciais
entrevistas semiestruturadas, compreendendo, ao todo, 18
que devem ser trabalhados tendo
questões não só relacionadas à
o formador em foco e buscando
formação profissional, titulação,
Estudar o contexto da formação de
a "aprendizagem da docência":
experiência na área e disciplina
professores é procurar entender também
"base de conhecimento, estratéque leciona, como também indaa dimensão dos conteúdos e práticas
gias formativas, comunidades de
gações que permitiram verificar as
pedagógicas que orientam as atividades
aprendizagem e atitude investigaconcepções e as práticas docentes
educacionais e analisar se a forma-ção
tiva". A partir disso, acredita-se
relativas ao tema da pesquisa. Os
realizada pelos profissionais atuantes num
ser possível traçar diretrizes e
dados foram coletados em forma
curso de licenciatura vem produzindo
estratégias, contemplando tamde áudio e, posteriormente, transoportuni-dades de questionamentos
bém a formação ética e social do
critos, com autorização prévia de
e desconstrução de posicionamentos
profissional para exercício de sua
cada entrevistado.
naturalizados.
profissão.
Tomando como base as conPortanto, ser professor no encepções de Chizzoti (2005, p.79),
sino superior exige capacitações que vão além de diplomas
utilizou-se uma abordagem qualitativa para a análise. Dessa
e títulos. Como qualquer outro profissional, o professor
forma, desenvolveu-se uma análise de conteúdo segundo
necessita de formação, pois saber o conteúdo está numa
Minayo (2010) e Moraes (1999), que consistiu na unitaperspectiva bem diferente de saber ensiná-lo. Competências
rização e isolamento das unidades de análise a partir das
específicas da profissão são exigidas para saber ensinar, e
transcrições realizadas (Quadro 1), seguida da categorizadevem ser trabalhadas ainda nos cursos de formação inicial
ção dos dados e expressão dos resultados obtidos em cada
(Arroio, 2009).
análise realizada.
A compreensão de quem é e como foi formado o professor atuante nas licenciaturas em química amplia a probleDos saberes às competências: uma análise das interfaces na
matização do fazer docente e das características necessárias
construção da identidade do docente formador
a um curso que se propõe a formar profissionais aptos a
suprir a necessidade da educação básica. Estudar o contexto
Ao todo, foram entrevistados 26 docentes. Somente na
da formação de professores é procurar entender também a
universidade pública o valor total pretendido não foi condimensão dos conteúdos e práticas pedagógicas que orientam
templado, já que apenas 6 professores se disponibilizaram
as atividades educacionais e analisar se a formação realizada
para a entrevista.
pelos profissionais atuantes num curso de licenciatura vem
O texto a seguir expõe parte dos resultados obtidos para
produzindo oportunidades de questionamentos e desconsas categorias estabelecidas, trazendo, em alguns momentos,
trução de posicionamentos naturalizados.
transcrições das falas dos professores. Como a instituição
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Quadro 1: Unidades de análise propostas
Título

Objetivo

Perfil do professor

Analisar a formação docente, incluindo dados como: suas instituições, curso, ano
de formação, etc.

Atuação profissional

Verificar fatores que contribuíram para a escolha do magistério

Trajetória formativa e prática docente

Identificar a influência da trajetória formativa na prática docente

Concepções da responsabilidade docente

Analisar o entendimento do professor acerca de seu papel social

Necessário para a formação de professores

Analisar a percepção docente acerca do que julgam ser fundamental para formar
um bom professor

Dialogo e interdisciplinaridade

Identificar a importância atribuída pelos docentes no diálogo entre disciplinas e
trocas entre pares

de origem dos entrevistados não foi fator determinante em
qualquer aspecto dos resultados obtidos, optou-se por identificar os docentes somente com nomes fictícios.

Atuação Profissional

358

Não foi minha primeira escolha, mas eu comecei
a dar aula trabalhando na indústria, aí deu vontade
de abandonar tudo, de estudar e de fazer mestrado e
de dar aula. Não quis mais ficar na indústria. (Julia)

O processo de escolha da carreira constitui um momenDo total de docentes entrevistados, apenas oito afirmato muito importante na construção da identidade docente.
ram ter escolhido o magistério como primeira opção de
Segundo Souza (2012), que se referencia em Tardif (2010),
carreira. No grupo de respostas
alguns fatores podem ser deterafirmativas, foi observado que,
minantes nessa escolha, como
O processo de escolha da carreira
para cinco docentes, a identifia realidade socioeconômica, as
constitui um momento muito importante
cação com a profissão ainda na
oportunidades oferecidas e a
na construção da identidade docente.
infância ou no ciclo básico de enafinidade com aspectos centrais
Segundo Souza (2012), que se referencia
sino foi fator determinante para a
da profissão. Portanto, mesmo
em Tardif (2010), alguns fatores podem
escolha profissional. Além disso,
que inicialmente não almejassem
ser determinantes nessa escolha,
a possibilidade de desenvolver
ser professores, esses passaram
como a realidade socioeconômica, as
pesquisas ao lecionar na educapor um processo de identificação
oportunidades oferecidas e a afinidade
ção superior esteve presente em
com o magistério ao longo de
com aspectos centrais da profissão.
discursos de quatro professores
suas formações ou outra atividade
desse universo como fator conprofissional, tornando-se fator
tribuinte para a escolha.
fundamental para a mudança de perspectiva profissional e
Dos dezoito professores que apontaram que o magistério
contribuindo para a construção do perfil desses docentes.
não havia sido a primeira escolha de profissão, nove, mesmo
tendo cursado a Licenciatura em Química, afirmaram ter
Trajetória formativa e suas influências no fazer docente
trabalhado na indústria antes de optarem exclusivamente
pela docência, sendo que sete destes salientaram maior
Inicialmente foi analisada a formação dos professores
identificação pelo magistério como aspecto crucial para a
quanto às possíveis contribuições trazidas pela experiência
mudança profissional.
em Ensino Básico na perspectiva da atuação num curso de
Concorda-se com Souza (2012) quando este salienta
Licenciatura em Química.
que nem sempre tal identificação ocorre anteriormente, ou
Do total de entrevistados, dezoito apontaram que já lecioaparece como motivação para a escolha da carreira, podendo
naram no ensino médio regular ou médio-técnico. Desses, soo processo formativo e o exercício profissional influenciar
mente oito citaram em suas respostas possibilidades educativas
no envolvimento com a profissão, como visto nas seguintes
e trocas a partir de suas vivências, tendo em vista que lecionam
falas:
num curso de formação de profissionais que, provavelmente,
estarão inseridos na educação básica. Em acordo com Nunes
Quando eu entrei na faculdade eu queria trabalhar
(2001), observa-se que o saber da prática, oriundo do cotidiano
na indústria, meu sonho era ir para indústria, mas aí
e das vivências, passa a fazer parte da identidade do professor,
a gente vai fazendo monitoria, vai fazendo iniciação
influenciando na prática e em decisões pedagógicas:
e acaba se identificando com a área da docência.
Aí quando eu acabei a faculdade, eu fiz o mestrado
Creio que sim, porque o contato com os alunos do
e acabei ficando nessa área mesmo. Não quis mais
ensino médio foi muito importante, até pra minha
sair não.(Maria Luiza)
formação também, como professor. (Ricardo)
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Entretanto, destaca-se a existência de uma dissociação
Eu tive alguns professores que foram importantes
entre a formação e a prática cotidiana, pois mais da metade
para eu manter essa postura que eu mantenho hoje.
dos entrevistados relatam não utilizar de suas experiências
(Nicolas)
profissionais como forma de oferecer uma formação mais
completa ao licenciando em química.
Ah, 98%. Eu sou uma mistura dos vários profesA respeito da forma na qual os docentes enxergam sua
sores que eu tive, do que eu não gostaria de ser e do
prática pedagógica, foi observado que seis professores autoque eu tenho certeza que é bom. (Leonardo)
definiram suas atividades em sala de aula como tradicionais,
treze afirmaram estar entre o tradicionalismo e a inovação,
Tudo, na verdade tudo. Eu sou exatamente a figura
seis se consideraram inovadores e um preferiu não se encaidos meus professores... Assim, eu sou formado por
xar em nenhuma categoria.
aqui, como eu te contei, e meus professores estão aqui.
Dentro das características ressaltadas pelos docentes
Então, eu sou exatamente o que eles eram. Então é
como inovadoras, foi possível identificar com maior freaté uma coisa que eles brincam que alunos percebem
quência: a utilização da experimentação em sala de aula,
quando eles falam assim: "Nossa, é igualzinho..."
metodologias ativas que envolvam os alunos em discussões,
Sim, porque eu sou formado por eles, sou a figura
exemplificação do conteúdo químico, analogias, contextuadeles! (Cintia)
lizações, uso de novas tecnologias e avaliação continuada.
Foi visto que os docentes que afirmaram estar entre o
Portanto, é possível perceber o papel do professor forinovador e o tradicional possuíam muitas semelhanças nas
mador em diferentes momentos da trajetória acadêmica
formas de atuação em sala de aula em relação aos que se
dos docentes, que contribuem para a construção do perfil
definiram inovadores. Diante da semelhança dos relatos e
do profissional. Freire (2011, pp.44-45), a esse respeito,
da impossibilidade de distinguir ou classificar a maioria dos
complementa ainda que
discursos, em sua totalidade, como inovadores ou tradicionais, destaca-se que o sentido de inovar no ensino encontra-se
se estivesse claro para nós que foi aprendendo que
atrelado à superação da visão do professor palestrante e do
percebemos ser possível ensinar, teríamos entendialuno receptor, introduzindo uma perspectiva construtivisdo com facilidade a importância das experiências
ta, pela qual a aula passa a ser um momento privilegiado
informais (...) em que variados gestos de alunos, de
de encontro e ações entre alunos e professores (Pimenta e
pessoal administrativo, de pessoal docente se cruzam
Anastasiou, 2012).
cheios de significação.
A diversidade de técnicas utilizadas visando à dinamização do processo educacional representa práticas do
Ainda na perspectiva de análise das influências de antigos
professor que busca inovar, estimulando a atividade e iniprofessores na prática pedagógica dos atuantes nos cursos
ciativa estudantil, favorecendo o diálogo e a construção do
de Licenciatura em Química, em alguns relatos sobre proconhecimento (Ghelli, 2004).
fessores que os marcaram foram observadas semelhanças
Em acordo com Pimenta e Anastasiou (2012), destaca-se
diretas com as características que contribuíram para que se
ainda a importância de conhecer e
identificassem como tradicionais
analisar a cultura tradicional insou inovadores:
A respeito da forma na qual os docentes
titucionalizada, para que se possa
enxergam sua prática pedagógica,
inovar, transformar e ultrapassar
Olha, na verdade eu tive
foi observado que seis professores
essa perspectiva. Tal conhecimenum
bom professor que era do
autodefiniram suas atividades em sala de
to do valor dessa cultura, portanto,
colégio
militar. Sempre que eu
aula como tradicionais, treze afirma-ram
não significa ser tradicionalista,
procuro
dar, principalmente
estar entre o tradicionalismo e a inovação,
mas sim, valorizar a tradição de
química geral, eu procuro me
seis se consideraram inovadores e um
forma não tradicional, sabendo
basear pelo modo dele de dar
preferiu não se encaixar em nenhuma
identificar possibilidades diante
aula. Era uma pessoa calma,
categoria.
de novos propósitos.
que gostava de explicar metoRessalta-se, então, que inovar
dicamente, passo a passo, eu
no ensino não necessariamente implica na utilização do
procuro fazer o mesmo. (Flavia - Docente que definiu
novo, mas sim na mudança de crenças, práticas e valores,
sua prática como tradicional)
que venham refletir no processo de ensino-aprendizagem de
forma construtiva.
De forma geral, foram observadas relações diretas entre
Dentro desse contexto de análise, ao serem questionados
recordações da trajetória educativa e o fazer pedagógico nos
se haviam sido influenciados por algum professor na forma
discursos de nove professores.
que lecionam, os entrevistados foram unânimes em citar
No discurso de oito entrevistados foram observapelo menos uma experiência que tenha contribuído para suas
dos relatos de experiências negativas que os marcaram,
práxis de forma positiva ou não, como em:
como:
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Dentro dessa análise, foram observados relatos de analogias, contextualizações, discussões, exemplificações, experimentações e uso de seminários como forma de relacionar
o processo de ensino-aprendizagem ao conteúdo abordado
no ensino médio. Por outro lado, é feita uma crítica a alguAh, eu tive muitos professores ruins, aí eu tive como
mas respostas que indicaram a utilização de tais recursos de
base não querer ser igual a eles. (Mateus)
forma igualitária, tanto na licenciatura em química, como
numa graduação em outra área ou até mesmo ao trabalhar
Diante dessa análise, é importante salientar que um dos
com o ensino médio.
grandes desafios nesse cenário é o de formar profissionais
Além disso, vale destacar que dois docentes do total
críticos e reflexivos o suficiente para romper com rituais
de entrevistados responderam afirmando a existência de
pedagógicos reforçados pela didática prescritiva, que vivenuma disciplina no curso em que lecionam justamente com
ciaram quando alunos (Ghelli, 2004).
tal propósito, e um terceiro entrevistado ressaltou que não
Pela observação dos aspectos salientados ao longo da
realizava a articulação dos conteúdos na licenciatura, mas
análise, ressalta-se como pode "um gesto aparentemente
sim em outros cursos. Um quarto professor, mesmo afirinsignificante valer como força formadora ou como conmando realizar a articulação, revela em seu discurso que,
tribuição à assunção do educando por si mesmo" (Freire,
devido ao conteúdo extenso de sua disciplina, bem como
p.43). Ou seja, ainda que não intencionalmente, o docente
preocupações com avaliações externas, somente realiza
formador, por diversas vezes, contribui para a construção
"breves comentários de informações que estão presentes,
do perfil do profissional formado, marcando sua trajetória e
assim, de uma forma mais simples dentro de um contexto
refletindo em sua prática pedagógica.
de ensino médio."
Com isso, é percebida a falta de compromisso com a
Ser professor e ser professor
formação mais ampla dos futuformador
ros docentes, uma vez que não
Dentro dessa análise, foram observados
somente os conteúdos químicos e
relatos de analogias, contextualizações,
Ao analisar se os professores
pedagógicos deveriam ser desendiscussões, exemplificações,
formadores articulavam o contevolvidos durante as disciplinas,
experimentações e uso de seminários
údo específico com os conteúdos
mas também a formação social,
como forma de relacionar o processo
trabalhados no ensino médio
política e ética, o que não exime
de ensino-aprendizagem ao conteúdo
durante suas aulas, foi observado
nenhuma disciplina de seu papel
abordado no ensino médio. Por outro lado,
que dezoito docentes afirmaram
na formação voltada para a atuaé feita uma crítica a algumas respostas que
realizar tal relação, quatro não, um
ção no Ensino Médio.
indicaram a utilização de tais recursos de
afirmou não saber se realiza, um
Segundo Freire (2011, p.47),
forma igualitária, tanto na li-cenciatura em
não respondeu e dois afirmaram
"como
professor num curso de
química, como numa graduação em outra
fazer "mais ou menos".
formação docente não posso esárea ou até mesmo ao trabalhar com o
Embora a relação de conteúgotar minha prática discursando
ensino médio.
dos tenha aparecido em dezoito
sobre a teoria da não extensão do
respostas, constatou-se que em
conhecimento". Ou seja, o ensino
somente sete delas foi estabelecido nos discursos um víndos componentes específicos de cada disciplina é importante
culo direto com a instrumentalização da prática do futuro
para a formação do profissional, entretanto a prática do fordocente, como em:
mador não deve se limitar a isso, mas possibilitar também
a integração do conhecimento acadêmico ao conhecimento
Sempre que eu tenho turma da licenciatura eu
sobre o processo de ensino.
tento relacionar o que a gente tá discutindo em sala
Ao questionar os docentes acerca das diferenças entre
de aula com aquele tema, né? Se ele está presente
lecionar na licenciatura em química e em outros cursos
ou não no ensino médio e tento discutir com eles
de graduação, constatou-se que em vinte e uma respostas
como esse tópico é tradicionalmente visto no ensino
apareceram fatores relacionados com a formação docente.
médio, como algumas perspectivas de trabalhar de
Do grupo que salientou em suas falas aspectos relativos à
uma forma diferente, mais contextualizada ou com
formação de professores, oito docentes demonstraram preexperimentos simples que possam ser levados para
ocupações com a forma que o futuro educador irá articular
o ensino médio... Eu tento trabalhar assim. (Viviane)
os conhecimentos para ensinar ou com seus entendimentos
do processo de ensino-aprendizagem, como em:
Normalmente, assim, quando eu vou dar química
geral, por exemplo, eu tento sempre ver o que é
É, eu acho que é isso: É tentar traçar um paralelo
abordado na escola porque eles vão retornar pra
entre o que a gente está ensinando com o que depois
escola. (Cintia)
como ele vai ensinar aquilo. E obviamente sempre
Olha, muitos influenciaram de forma assim: "Eu
não quero dar aula assim!" Muitas influências foram
dessa forma, eu achava ruim a forma e eu queria fazer
diferente. (Carolina)

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mostrar o nível de dificuldade que você pode trabalhar num grau diferente (...) (Julia)
Professor do curso de licenciatura, ele tem que ter a
preocupação com a formação do profissional que vai
estar em sala de aula. No outro curso de graduação,
você teria preocupação de formar um engenheiro, ou
formar um administrador e aí as aulas são focadas
pra isso. No caso da licenciatura, as aulas são focadas também tendo em vista que aquele profissional
vai ser um futuro colega. (Fernanda)
De acordo com o destacado pelos docentes, confirma-se o papel da instituição de ensino superior como lugar
de promover a formação docente em diversos aspectos. A
esse respeito, concorda-se ainda com Pimenta e Anastasiou
(2010, p.102-103), quando os autores definem como funções
do ensino superior:
a criação, o desenvolvimento, a transmissão e a
crítica da ciência, da técnica e da cultura; a preparação para o exercício de atividades profissionais
que exijam a aplicação de conhecimentos e métodos
científicos e para a criação artística; o apoio científico e técnico ao desenvolvimento cultural, social e
econômico das sociedades.
Ainda dentro do grupo que atribuiu alguma característica da formação docente em sua resposta, ressalta-se o
discurso de um professor que afirmou ser difícil comparar
a licenciatura com outros cursos e relatou que tenta ensinar
a teoria e utilizar a prática em laboratório para fugir do
"cuspe e giz". Entretanto, no final de sua fala, afirmou que
"(...) aqui nós queremos dar aulas de laboratório porque na
maioria dos casos, os futuros professores acabam fazendo
graduação em química com atribuição tecnológica". Diante
disso, retoma-se a análise anterior, quando outros três
docentes da mesma instituição, ao descreverem a relação
estabelecida entre o conteúdo do Ensino Médio e suas aulas, mencionaram basicamente a realização de atividades
experimentais.
Questiona-se, portanto, se a formação oferecida por esses
docentes compreende e discute a utilização de outras ferramentas para o ensino de química além da experimentação, e
se durante as práticas pedagógicas vem sendo possibilitado
o diálogo entre conhecimentos, visando à formação do profissional não só na perspectiva de conteúdo químico, mas
também na de formação cidadã.
Dessa forma, destaca-se o problema dos currículos
pensados dentro do princípio técnico de que saber química
é o mesmo do que saber ensinar química (Maldaner, 2006).
A esse respeito, a marginalização da formação docente, ou
até mesmo a valorização exacerbada na utilização de uma
ferramenta em detrimento de outra, pode acabar refletindo
na insegurança do profissional formado que, ao se deparar
nas escolas de atuação com situações distintas às vivenciadas
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em seu curso, tendem a produzir um processo educativo
mecanizado.
Dos cinco professores que não mencionaram em suas
respostas aspectos da formação docente, três destacaram que
não veem distinção na forma que lecionam em diferentes
cursos:
Não vejo diferença não, não vejo! Eu acho que você
tá ali pra ensinar um determinado conteúdo e se eu
tivesse a mesma disciplina para um curso de bacharelado, um curso de licenciatura eu daria da mesma
forma, porque o que eu quero é que os alunos dominem o assunto que eu tô tentando ensinar. (Isabele)
A esse respeito, Rivas (2013), utilizando o referencial
de Cunha (2009), afirma ainda que, em diversos momentos,
somente os conhecimentos específicos são trabalhados,
deixando de lado os aspectos necessários para mediar a
atividade educacional, uma vez que a docência e os domínios de saberes pedagógicos, equivocadamente, não são
tidos por muitos como partes fundamentais da atividade
profissional.
Por fim, foi observado que, ao serem questionados sobre
seus papéis e responsabilidades na formação de licenciandos,
todos, exceto um docente, mencionaram pontos que demonstram suas preocupações em formar um bom profissional para
atuar na educação, como em:
(...) Meu lugar é conseguir mediar, fazer essas
mediações. É preciso que eu medeie essa forma de
você se apropriar do conhecimento e transmiti-lo na
sala de aula a partir de grandes referências (...) Na
verdade, é colocar o aluno a par dessas possibilidades
de entender o mundo através das teorias que existem
vários campos, as quais eu me aproprio na didática
que é minha função. (Monique)
Ele não é só um alguém que vai lá, dá uma aula
de conteúdo de química e que se resume a isso a
docência na química, mas a gente tem que fundamentalmente formar um cidadão e a química tem
que entrar contribuindo com essa formação cidadã
do aluno. Então, eu acho que o meu papel fundamental é esse. É fazer o aluno da licenciatura entender
que quando ele for professor, oficialmente porque
ninguém vira professor, como Rubens Freire dizia:
"Ninguém vira professor numa terça-feira à tarde
com um horário específico", é um processo, mas
quando ele legalmente entra na sala de aula como
professor, o papel dele, do conteúdo... Na verdade,
talvez seja um papel, não vou dizer secundário, mas
o fundamental é a construção da cidadania do aluno.
Então, ele tenha a noção disso, ele é um profissional
da formação cidadã e que a química entra como parte
dessa formação, uma parte essencial, mas como parte
dessa formação. (Viviane)

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Outro aspecto, observado nos discursos de cinco docentes, foi a menção de que o comportamento e as práticas
dentro da sala de aula podem servir como exemplo para os
novos professores. Portanto, os docentes se disseram comprometidos a serem os melhores exemplos para seus alunos:
Você tá formando futuros profissionais que vão
atuar na educação e eles vão reproduzir o que você
tá fazendo, que nem uma criança com seus pais.
(Vinicius)
(...) Eu quero ser um bom professor, eu quero que
eles possam me usar como exemplo, porque eu sou
do curso de licenciatura. Então eu acho que pode ser
isso, não sei. (Ricardo)

362

Retoma-se aqui o discutido anteriormente, sobre todos
os docentes mencionarem terem tido algum professor que os
influenciaram na forma que lecionam. Pimenta e Anastasiou
(2010, p.77), a esse respeito, complementam que "nos
processos de construção da identidade docente, tem papel
fundamental o significado social que os professores atribuem
a si mesmos e à educação". Maldaner (2006) reforça ainda
que a formação ambiental dos futuros professores é muito
forte, o que dificulta a mudança de práticas e valores reforçados durante seu curso superior. Diante desses dados, os
professores entrevistados desenvolveram uma preocupação
com a forma que serão vistos por seus alunos e as influências
que podem ter na prática futura desses alunos.

participação ativa no processo de ensino-aprendizagem,
bem como desenvolver cidadãos capazes de analisar e atuar
criticamente perante a sociedade. Para que isso seja possível,
o docente tem papel fundamental como mediador nesse
processo que leva a ascensão do educando ao conhecimento.
A necessidade de haver interesse e gosto pela profissão
por parte dos licenciandos esteve presente em nove das
vinte e seis respostas. Em contraposição aos relatos elencados anteriormente, foi observado que cinco professores
atribuíram a vocação como fator crucial na formação de um
bom professor:
É que ele tenha, primeiro, paciência. Goste de dar
aula... isso aí é uma coisa que vem de dentro, né?
Alguns alunos às vezes se interessam em dar aula,
mas não tem aquela vocação. Acho que é vocação
mesmo! (Marcela)
Eu acho que tem que ter primeiro, antes de tudo,
vocação(...). Tem que ter a vocação e aí o professor,
que tá ali com aquele aluno, tem que incentivar essa
vocação nesse aluno, mostrando que ele é capaz sim
de mudar alguma cabeça do aluno, fazendo ele ser
mais pensativo, mais crítico (...) (Sarah)

Dentro dessa perspectiva vocacional, ressalta-se que dois
dos cinco docentes que a mencionaram como fator fundamental, relataram, numa questão anterior, que o magistério
não havia sido sua primeira escolha profissional. Desta forma, levando em consideração o conceito de vocação como
Quem/Como se forma professor?
algo intrínseco e inato do sujeito, questiona-se como foi
possível ocorrer a "mudança de
Ao questionar os entrevistavocação" desses professores, uma
Reforça-se aqui, portanto, que o ensino
dos acerca do que julgavam ser
vez que inicialmente acreditavam
não pode se limitar ao estudo de conceitos
fundamental na formação de um
que iriam trabalhar exclusivamene teoremas químicos, nem tampouco à
bom professor, foi observado em
te na indústria por toda vida.
discussão do contexto social. O ensino
dez respostas que, entre outras
Destaca-se que, se fosse endeve promover a integração desses dois
coisas, o domínio do conteúdo
carado
no seu sentido literário,
aspectos, distanciando-se da abordagem
que irá trabalhar foi um dos fatovocação
seria algo atrelado ao
unilateral de um deles e respeitando os
res considerados fundamentais.
destino
do
sujeito, entretanto não
saberes dos sujeitos envolvidos para a
Além disso, foi apontado que

possibilidade
de alguém nascer
definição das práticas a serem utilizadas em
é importante que o profissional
com
isso
estabelecido.
A escolha
sala (Santos e Schnetzler, 2010).
estabeleça uma relação com o
pelo magistério, na verdade, está
público que está trabalhando, de
atrelada à afinidade com a profisforma a compreender suas necessidades e trabalhar dentro do
são através da construção social, e que, ao longo da vida
contexto vivenciado por eles, sendo mencionado por alguns
do sujeito, colabora para seu reconhecimento como pessoa
a importância da troca de saberes entre professores e alunos.
(Souza, 2012). Lengert (2011, p.19) ressalta ainda que
Reforça-se aqui, portanto, que o ensino não pode se
limitar ao estudo de conceitos e teoremas químicos, nem
A "vocação", portanto, não é subjetiva, mas detampouco à discussão do contexto social. O ensino deve
pende da construção de um imaginário pessoal e
promover a integração desses dois aspectos, distanciando-se
principalmente social sobre a profissão docente. A
da abordagem unilateral de um deles e respeitando os saberes
escolha por ser professor é uma construção e não
dos sujeitos envolvidos para a definição das práticas a serem
pode ser encarada apenas como uma vocação indiutilizadas em sala (Santos e Schnetzler, 2010).
vidual numa progressão linear e sucessiva.
Salienta-se, portanto, que a escola, como lócus de
construção do conhecimento, deve possibilitar ao aluno a
Portanto, a escolha da profissão é marcada por condições
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individuais e circunstanciais, que se entrelaçam e determinam as afinidades por certas áreas em detrimento de outras.
Quando essa "vocação" idealizada prevalece sobre os fatores
que realmente são determinantes para a escolha profissional,
considerando a docência como um "dom inato", a formação
e o desenvolvimento profissional são desconsiderados diante
de uma perspectiva de que o professor "nasceu pronto" para
atuar em sua profissão.
A partir do entendimento de que o magistério é uma
profissão que, como qualquer outra, necessita de preparação,
supera-se a ideia de que o professor nasce com essa "vocação" e de que, se o sujeito sabe o conteúdo, ele sabe ensinar,
reafirmando a necessidade de desenvolver nas licenciaturas
competências específicas na docência para a formação do
bom professor.
De acordo com Fleury (2001, p.187), a definição de
competência
(...) aparece assim associada a verbos como: saber
agir, mobilizar recursos, integrar saberes múltiplos
e complexos, saber aprender, saber engajar-se, assumir responsabilidades, ter visão estratégica (...)
competência é um saber agir responsável e que é
reconhecido pelos outros. Implica saber como mobilizar, integrar e transferir os conhecimentos, recursos
e habilidades, num contexto profissional determinado.
Em relação ao mencionado acima, ao serem questionados
a respeito das competências que julgavam necessárias serem
desenvolvidas num curso de formação de professores, foi
observado que dezoito entrevistados mencionaram competências de fato, tendo os demais listados características ou
habilidades, mas não as relacionando com a apropriação
por parte dos alunos, bem como sua utilização no contexto
educacional.
Reitera-se aqui, portanto, que o ambiente educacional
é permeado por saberes diversos, sendo necessário respeitar sua heterogeneidade e multiculturalidade (Therrien e
Nóbrega, 2009). Portanto, cabe ao docente buscar, em seus
saberes, formas de envolver os estudantes no processo, bem
como identificar ferramentas para desenvolver a capacidade
de participação dos alunos. Nesse âmbito de aproximar o
ensino à realidade dos alunos, foram constatadas, nas falas de
quatro professores, a necessidade de desenvolver a percepção
de que a química está presente no cotidiano, bem como o
relato do uso de contextualizações para isso.
No entanto, foram encontrados ainda alguns discursos
que revelaram perspectivas bastante simplistas a respeito do
que seria fundamental para a formação docente, como em:
A ideia é integrar o ensino com o laboratório e
tentar explicar isso no ensino médio, para que os
alunos possam aplicar isso no ensino médio. (Flavia)
Diante disso, retoma-se a discussão de que estabelecer a
relação teoria-prática não é o suficiente para garantir a boa
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formação do profissional, devendo-se considerar, observar e
ressignificar os conhecimentos formais e informais, levando
em conta a complexidade das práticas pedagógicas. Portanto,
destaca-se a necessidade de repensar o currículo como uma
lista de conteúdos ou "diretrizes didático-conteudinais",
atribuindo ao entendimento curricular uma perspectiva baseada num diálogo crítico, transformador e que considere a
cultura, sociedade e tecnologia como aspectos essenciais da
formação do profissional (Süssekind, 2011).
Notaram-se também, durante a fala de um docente,
críticas a conteúdos pedagógicos vistos na licenciatura em
química:
(...) eu percebo que essa Psicologia da Educação
nada contribui no trabalho em sala de aula real
mesmo, que é uma coisa muito teórica, abstrata...
O cara fala lá do Piaget, do Freud e não sei que,
e na prática teria que ser uma coisa mais voltada
à realidade mesmo do aluno... O Piaget fala dessa
coisa do desenvolvimento da pessoa, da criança,
o adulto, adolescente, tudo, mas o Piaget, ele foca
muito na criança, principalmente a criança até 7
anos e no caso do profissional licenciado, ele vai
trabalhar algumas vezes, como no caso de química,
com crianças no último ano do ensino fundamental
e no ensino médio... Isso quer dizer, são crianças
maiores de 12, 13, pré-adolescente, adolescente, e
ele não entra muito detalhe nessa fase do desenvolvimento humano, que era essa parte que tinha que
entrar mais (...) (Roberto)
Entretanto, ao analisar seu discurso, foi observado que
fraquezas formativas do docente podem ter contribuído
para tal fala. O docente argumenta que, embora ocorra o
estudo de variados pensadores, tal conteúdo não é utilizado
no contexto da sala de aula. A provável falta de diálogo e
problematização do conhecimento específico e do ensino
desse conhecimento na escola durante sua formação pode
ter contribuído para que o educador não percebesse a
importância e aplicabilidade de tais teorias em sua prática pedagógica, bem como num curso de licenciatura.
Concorda-se então com Pimenta e Anastasiou (2010): a
área pedagógica não deve se restringir à didática da sala de
aula, compreendendo também uma apropriação crítica da
cultura pedagógica, refletindo na ampliação da visão e do
entendimento das situações concretas que os professores
vivenciam em seu trabalho.

O diálogo e a interdisciplinaridade
A construção do conhecimento docente deve compreender interpretações e reinterpretações de saberes escolares,
indo além do conhecimento específico da matéria e considerando o diálogo entre as disciplinas como peça fundamental
para a promoção da autonomia prática e pedagógica dos
futuros professores.

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363

Ao serem questionados sobre a importância das disciplinas específicas e pedagógicas num curso de formação
docente, foi observado que nove entrevistados mencionaram a necessidade de trabalhar com a interdisciplinaridade
dos componentes curriculares do curso de licenciatura em
química, como em:

Olha, na minha formação, eu tive justamente esta
dificuldade que eu acabei de mencionar. Em certas
ocasiões, eu tinha disciplina de Química Orgânica 3
teórica e outro dia ia fazer a Pedagogia, Estrutura de
ensino, mas a Estrutura de ensino na qual eu estudei
não tinha nenhuma ligação com a química. Então isso
aí era a maior dificuldade no meu momento de aluno,
para minha formação. Então a parte pedagógica, ela
é muito importante, uma vez que você tá formando
professor, mas acredito numa aproximação da parte
pedagógica com os conhecimentos específicos do
curso. (Gustavo)

um Química Industrial, um Bacharelado em Química e um
Licenciatura em Filosofia. Portanto, destaca-se que, embora
a maioria tenha cursado licenciatura e exista uma variedade
de instituições compreendidas nesse grupo, a articulação
entre os conhecimentos específicos e pedagógicos não fez
parte da rotina das instituições.
Foi observado que dois docentes, que criticaram sua
formação distanciada entre disciplinas específicas e pedagógicas, anteriormente afirmaram não ver diferença entre
lecionar na Licenciatura em Química e em outros cursos.
Outro professor desse grupo mencionou ainda que tal
diferença deveria ser de responsabilidade das disciplinas
pedagógicas, delegando a outras áreas as responsabilidades
que fazem parte de seu papel como educador.
Questiona-se, portanto, se há uma relação entre a falta
de interdisciplinaridade durante a construção de seus saberes pedagógicos em seus cursos de formação inicial e a
ausência de perspectiva pedagógica ao lecionar na licenciatura, que foi observada em outros momentos da entrevista.
Pimenta e Anastasiou (2010) a esse respeito mencionam
que o cenário muitas vezes encontrado em instituições de
ensino superior é o de docentes com vasto conhecimento
específico que apresentam despreparo e falta de conhecimento a respeito do processo de ensino-aprendizagem, o
que acaba refletindo em sua prática em sala de aula. Os
autores complementam, a respeito da formação da maioria dos formadores, que a especialização encontrada em
muitas disciplinas durante suas graduações compromete
o diálogo entre os componentes curriculares, cabendo aos
alunos articular os conteúdos da forma que lhe é possível
e aplicá-los nos momentos de estágio, contribuindo para
uma formação fragilizada do docente.
Outro ponto a ser destacado é a recorrente crítica presente
nas falas dos educadores ao fato de não terem aprendido a
ser professor ao cursar suas graduações. A esse respeito,
embora se acredite que seja importante uma formação crítica
e reflexiva, que dialogue os conceitos estudados nos cursos
com a realidade da sala de aula e que desenvolva no profissional a consciência de seu papel como futuro formador,
ressalta-se que seria um equívoco esperar desses cursos um
modelo, "fórmula mágica" ou "receitas" de como se tornar
um bom professor. De acordo com Pimenta e Anastasiou
(2012, p. 199), "não há modelos ou experiências modelares
a serem aplicadas. A experiência acumulada serve apenas
de referência, nunca de padrão de ações com segurança de
sucesso", cabendo ao docente a reflexão individual e coletiva
acerca das questões que envolvem o fazer pedagógico para
a construção de sua prática.
Observou-se também que seis professores criticaram, em
suas falas, a falta de diálogo entre disciplinas específicas e
pedagógicas nos cursos de Licenciatura em Química em
que lecionam:

Ao analisar a formação dos oito professores citados acima, foi observado que são oriundos de cinco instituições diferentes, sendo que cinco cursaram Licenciatura em Química,

(...) eu acho que é extremamente importante tentar
ver uma conciliação maior entre as duas áreas...
conciliar mais área pedagógica, área de ensino, no

A gente tem que pensar que todas as disciplinas,
elas contribuem para a formação do educador. O
educador, ele tem que sair daqui não formado pra sua
área específica, mas ele tem que sair daqui formado
quanto educador, que tem um conhecimento que
abrange várias áreas e não só uma área específica,
senão ele vai ficar muito limitado. (Nicolas)

364

Desta forma, destaca-se, na perspectiva ressaltada pelos
docentes citados anteriormente, a valorização de um ensino
que não se limite à mera discussão de teorias, fórmulas e
conceitos, mas que articule os conhecimentos vistos durante
a formação docente de forma que isso possa refletir na melhor formação do profissional que irá atuar na sala de aula.
Concorda-se ainda com Ghelli (2004), quando este salienta
que o distanciamento entre teoria e prática vem contribuindo
para a falta de sintonia entre o conhecimento da ciência e
o dia a dia das pessoas. Portanto, o ensino num curso de
Licenciatura em Química deve se basear em um processo
de reflexão-ação-reflexão, considerando não somente o
compromisso social do docente como também a integração
entre conhecimentos e saberes (Maldaner, 2006).
Foi observado também que oito docentes salientaram não
terem tido, em suas formações, momentos de diálogo entre
as disciplinas específicas e pedagógicas:
Olha, eu não sei se foi o curso que eu fiz, eu não sei
se eram os professores, mas eu achei a minha formação muito ruim. Eu acho a formação de licenciatura,
de maneira geral, eu diria que é muito ruim. Eu não
aprendi a ser professora no curso de licenciatura.
(Isabele)

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O professor formador em foco

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caso, com a química, vamos dizer assim, química
mais dura. (Vinicius)

Pouca, as discussões são mais administrativas do
que a questão da prática pedagógica. (Viviane)

Na graduação, principalmente na universidade, numa universidade grande, é difícil você ver
professor de disciplina específica ensinando a ser
professor. Nas grandes universidades o que a gente
encontra, na maioria dos casos, são pesquisadores
que dão aula e aí pra esses pesquisadores, que têm
uma formação tradicional, é bastante raro que esse
professor se enxergue como professor e aí talvez por
isso as disciplinas específicas contribuam menos do
que deveriam contribuir para a formação geral de
um professor. (Leonardo)

Tem também, a gente fala um pouco sobre isso.
(Ricardo)

(...) é curioso que tu estuda Físico-Química profundamente e em Físico-Química tu não vê como
transmitir esses conhecimentos. Quando vai pra uma
disciplina de educação, você aprende quem é Piaget,
Vygotsky, etc., mas não fala nada de química relacionado às teorizações deles (...) (Juliana)
Neste ponto, destacam-se, nas falas, disciplinas que
caminham de forma paralela, sem que haja o entrelaçamento de saberes. Forma-se, portanto, um professor que é
especialista em química ou especialista em teorias educacionais, entretanto o professor que utiliza o embasamento
pedagógico para desenvolver sua prática no ensino de química não é formado. Este fato muitas vezes se reflete num
ensino descontextualizado de sua função nas escolas: se o
docente em formação não articula seus saberes, encontra
dificuldades em dialogar o conteúdo numa perspectiva de
formação cidadã.
Ressalta-se, ainda, na fala de alguns professores, o esvaziamento de sentido de algumas disciplinas pedagógicas,
quando estas, ao se basearem exclusivamente no estudo de
teóricos e técnicas, não estabelecem um vínculo do conteúdo com a prática do futuro professor, sem representar uma
significância para seu aprendizado. A esse respeito Pimenta
e Anastasiou (2012) afirmam que a pedagogia deve permear as ações educativas em geral, necessitando o professor
apoderar-se dos conhecimentos pedagógicos, não sendo estes
limitados à didática de sala de aula, mas sim compreendendo,
ampliando, atribuindo sentido e orientações às situações concretas que vivenciam. A esse respeito, complementa-se ainda
que, dos vinte e seis entrevistados, somente doze afirmaram
a existência de discussões acerca da prática pedagógica nas
reuniões de colegiado de curso:
Às vezes isso aparece, mas na maioria das vezes
esse não é o objetivo principal, isso não tem sido o
objetivo principal. (Nicolas)
Vamos dizer assim, que infelizmente nós temos
muito poucas discussões em colegiado de curso.
(Vinicius)
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Diante dos dados expostos acima, destaca-se que, por
diversas vezes na mesma instituição, houve relatos da existência limitada de discussões e da ausência delas. Todos
os docentes que afirmaram não participar do colegiado de
curso, pois são representados por outros professores, não
souberam responder se há ou não discussões sobre a prática
pedagógica nesses momentos.
A respeito das ausências de discussões nas reuniões de
colegiado dos cursos, no que tange às práticas pedagógicas
realizadas nos cursos de licenciatura em química, destaca-se que
(...) as universidades, instituições formadoras, e as
escolas, instituições da atuação profissional dos professores, necessitam constituir práticas democráticas
participativas, valorizando o método da deliberação
colegiada, e articular a diversidade e a necessidade
de professores competentes que respondam à incerteza, fazendo uso das maiores cotas possíveis de racionalidade e senso comum. O saber fazer do professor
vai sendo alcançado após a sondagem inteligente e
com a comunicação compartilhada da experiência
(Pimenta e Anastasiou, 2012, p.187).
Em consonância com Pimenta e Anastasiou (2012,
p.218), acredita-se que "ensinar é um processo coletivo",
ou seja, embora haja a liberdade de cada docente atuar da
forma que bem entende dentro da sala de aula, suas práticas
integram a formação dos alunos como um todo. Portanto, de
acordo com os autores, as disciplinas devem ser pensadas
coletivamente, dentro de um contexto em que o fazer pedagógico esteja em consonância com os objetivos do curso, e
que os saberes específicos sejam confrontados coletivamente,
assumindo novas perspectivas e possibilitando a superação
da dicotomia curricular.

Considerações finais
Ao longo do presente estudo foi observada a necessidade
de entendimento, por parte dos formadores, de que suas
práticas contribuem para a construção da identidade do
profissional que está sendo formado, considerando a cultura
e a diversidade como aspectos fundamentais na construção
de metodologias de ensino.
A partir da análise dos discursos, foi possível explicitar
também que, quando bem formado, o educador crítico e
reflexivo se torna apto a romper laços com práticas que vivenciou durante sua trajetória formativa em prol da construção
de um processo de ensino-aprendizagem que tenha novos
paradigmas como base, e que contemple formas distintas de

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pensar o conhecimento e o ensino
atuação, considerando no proReforça-se aqui, portanto, que o ensino
de química.
cesso a importância e o impacto
não pode se limitar ao estudo de conceitos
Sobre a formação dos docentes
da alfabetização científica e,
e teoremas químicos, nem tampouco à
e suas concepções acerca do mamais especificamente, da aprendiscussão do contexto social. O ensino
gistério num curso de Licenciatura
dizagem da química na vida dos
deve promover a integração desses dois
em Química conclui-se que, emestudantes com quem os futuros
aspectos, distanciando-se da abordagem
bora grande parte dos professores
docentes irão trabalhar.
unilateral de um deles e respeitando os
entenda sua responsabilidade e
saberes dos sujeitos envolvidos para a
perceba o impacto do seu trabalho
definição das práticas a serem utilizadas em
Stephany Petronilho Heidelmann (stephanyna formação dos licenciandos,
sala (Santos e Schnetzler, 2010).
[email protected]) é licenciada em
ainda parece ser necessário um
Química pelo Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ)
maior envolvimento dos docentes
e
mestre
em
Ensino
de
Química
pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro
no curso como um todo, assim como a instituição formadora
(UFRJ). Rio de Janeiro, RJ ­ BR. Gabriela Salomão Alves Pinho ([email protected]
promover o diálogo interdisciplinar entre a área específica
ifrj.edu.br) é graduada em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro
e a pedagógica e a formação continuada destes docentes.
(UERJ), mestre em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Faz-se necessário ampliar o entendimento de seus papéis
e doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro (PUC-RJ). Professora efetiva do Instituto Federal de Educação, Ciência e
como formadores, que busquem dialogar com as demais
Tecnologia do Rio de Janeiro. Duque de Caxias, RJ ­ BR. Maria Celiana Pinheiro
disciplinas, que valorizem a inovação para além da inserção
Lima ([email protected]) é licenciada em Química pela Universidade
de meros experimentos no ensino, e que incluam em suas
Federal do Ceará (UFC), mestre em Química Inorgânica pela Universidade Federal
práticas discussões não só sobre aspectos sociais, culturais
do Ceará (UFC) e doutora em Ciência e Tecnologia de Polímeros pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora efetiva do Instituto Federal de
e tecnológicos, como também aqueles relativos à realidade
Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Duque de Caxias, RJ ­ BR.
que será encontrada pelos educandos em suas escolas de
366

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ZANON, D. A. V.; OLIVEIRA, J. R. S.; QUEIROZ, S. L. O
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superior: visões de alunos de pós-graduação em química. Revista
Ensaio, v. 11, n. 1, p. 1 ­ 20, 2009.

Abstract: The teacher trainer in focus: identity and conceptions of the teaching practice. The present paper analyzes who is the teacher in degree courses in
Chemistry of three higher education institutions in Rio de Janeiro. Semi-structured interviews were made with a total of 26 teachers, in which issues related
to their backgrounds and their teaching experiences in the course were placed. From the results it was observed that the ideas that guide the teaching practice
of the teachers interviewed are often permeated by influences of their academic trajectories. The construction of their professional identities was marked by
the modification of the patterns of their learning process or the reproduction of their experiences. It is noteworthy that when the professionals are well-trained,
aware and committed to their role in training future teachers, they become able to provide students with an education which creates a dialogue between their
knowledge and which is also significant to the construction of the professional identities of the future chemistry teachers.
Keywords: Teacher trainer. Teachers training. Chemistry Degree.

Resenha
Estudos de Caso para o Ensino de Química 1
Por: Fabiele Cristiane Dias Broeitti (Departamento de Química/Universidade
Estadual de Londrina)

No âmbito da Educação Científica,
a produção de materiais didáticos inovadores é de fundamental importância,
principalmente ao considerarmos a sala
de aula como um ambiente que requer
a participação efetiva dos estudantes.
Nesse sentido, ações foram desencadeadas no Grupo de Pesquisa em Ensino de
Química, do Instituto de Química de São Carlos (GPEQSC),
da Universidade de São Paulo. Essas ações têm conduzido
à produção de materiais com encaminhamentos de ensino
que potencializam a construção do conhecimento científico
e o desenvolvimento do pensamento crítico. Uma dessas
estratégias, no formato de estudos de caso, possibilita discussões de caráter científico e sociocientífico. Segundo os
organizadores, "[...] os casos são entendidos como narrativas
de situações vivenciadas por pessoas e que exigem o conhecimento científico para o alcance da sua solução".
Nessa perspectiva, os organizadores do livro Estudos
de Caso para o Ensino de Química 1, Salete Linhares de
Queiroz e Erasmo Moisés dos Santos Silva (integrantes do
GPEQSC), reúnem onze casos, que abordam temáticas e
conteúdos científicos diversos, com possibilidades de aplicação em distintos contextos escolares. O livro é apresentado
em doze capítulos. O primeiro deles discorre a respeito
de programas nacionais e de iniciativas institucionais que
possibilitaram a produção dos textos que compõem a obra,
em sua maioria produzida por estudantes do Programa de
Pós-Graduação em Química, do Instituto de Química de São
Carlos, da Universidade de São Paulo. Os demais capítulos
são compostos por estudos de caso relacionados a assuntos
abordados no Ensino de Química. Os estudos de caso são
intitulados: "Silêncio das abelhas"; "Pau-rosa pede socorro";
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

"O modelista"; "Sacolas plásticas ­ vítimas ou vilãs?"; "Peixe
morto ainda mata"; "A lâmpada queimou, e agora?"; "SOS
Mogi-Guaçu"; "Milhões indo para o buraco"; "De galão
em galão, a prainha vai para o ralo"; "Adeus, caracóis" e
"Olhando para o futuro".
Cada capítulo é iniciado com a apresentação do estudo
de caso, seguido pelos seguintes tópicos: apontamentos
didáticos; características do caso e contextualização do
tema; fontes de inspiração na produção do caso; soluções
para o caso e conteúdos de Química em pauta; e para saber
mais. Nos "apontamentos didáticos", os autores dos capítulos estabelecem relações entre as questões abordadas na
narrativa e as recomendações presentes em documentos
curriculares oficiais do ensino médio e superior. No tópico
intitulado "Características do caso e contextualização do
tema" são apresentados atributos dos casos na perspectiva
dos idealizadores da proposta e elementos que possibilitam
melhorar a compreensão da temática em foco. No item
"Fontes de inspiração" são descritos os distintos materiais
que serviram de motivação para a produção das narrativas.
Na seção "Soluções para o caso e conteúdos de Química em
pauta" são apresentadas possíveis soluções para o caso e suas
relações com conteúdos de Química. Por fim, são sugeridas
outras leituras a respeito dos temas em foco.
O livro, com as distintas propostas de estudos de caso,
possibilita aos professores e às professoras, dos diversos
níveis educacionais, orientações profícuas para o Ensino de
Química. Esse tipo de abordagem educativa enaltece o conhecimento dos estudantes e fomenta o debate e a elaboração
de argumentos, que são aspectos imprescindíveis para uma
Educação Científica.
Recomendo a leitura!

Salete Linhares Queiroz e Erasmo Moisés dos Santos Silva
(Orgs.). Estudos de Caso para o Ensino de Química 1. EDITORA CRV, 2017. 164 páginas. ISBN:978-85-444-1671-6. DOI:
10.24824/978854441671.6

O professor formador em foco

Vol. 39, N° 4, p. 356-367, NOVEMBRO 2017

367

ANOS

Ensino de Química em Foco

http://dx.doi.org/10.21577/0104-8899.20160095

Considerações de professores em relação
à implantação da Proposta Curricular de Química
do Estado de São Paulo

Silvana M. X. Mininel, Francisco J. Mininel, Regina C. G. F. Di Nardo e Luiz A. A. de Oliveira
A Proposta Curricular (2008) foi implantada na Rede Estadual de Ensino de São Paulo com o objetivo de
organizar o currículo nas Escolas da Rede. Este trabalho busca verificar o que pensam os professores sobre
a Proposta Curricular e observar mudanças no processo de reelaboração de sua prática por intermédio da
análise das respostas de questionários investigativos e do acompanhamento desses professores no projeto
de formação continuada denominado "A Rede Aprende com a Rede". Detectou-se que o número reduzido
de professores licenciados em Química, o tempo estimado para desenvolvimento das atividades, a falta de
laboratórios e de embasamento teórico-metodológico se constituíram em entraves para aplicação da proposta.
A contextualização do conhecimento é fator apontado como facilitador no processo ensino-aprendizagem.
O programa "A Rede Aprende com a Rede" mostrou-se insuficiente para que houvesse uma mudança de
postura frente aos novos paradigmas.

368

proposta curricular; contextualização do conhecimento; processo ensino-aprendizagem

Recebido em 14/09/2016, aceito em 26/03/2017

A

Proposta Curricular de Química (São Paulo,
sociedade do conhecimento, que demanda, portanto, uma
2008), implantada na Rede Estadual Paulista está
educação correspondente aos elementos que elenca como os
baseada nos Parâmetros
desafios contemporâneos. Quanto
Curriculares Nacionais - PCN
ao conhecimento, a Proposta se
A Proposta Curricular de Química (São
(Brasil, 2000), PCN+ (Brasil,
coloca a favor do currículo como
Paulo, 2008), implantada na Rede Estadual
2002) e resultados mais recentes
espaço de cultura e que apresenPaulista está baseada nos Parâmetros
de trabalhos de pesquisa no ensino
ta o potencial para garantir as
Curriculares Nacionais - PCN (Brasil,
de Ciências. Essa Proposta tem
competências necessárias para a
2000), PCN+ (Brasil, 2002) e resulta-dos
como princípios centrais: a escola
vida em sociedade e para a commais recentes de trabalhos de pesquisa
que aprende, o currículo como espreensão das diversas linguagens,
no ensino de Ciências. Essa Proposta
paço de cultura, as competências
como a das artes, da literatura e
tem como prin-cípios centrais: a escola
como eixos de aprendizagem,
da ciência (Lopes et al., 2009).
que aprende, o currículo como espaço
a prioridade da competência de
A Proposta Curricular
de cultura, as competências como
leitura e escrita, a articulação das
t
e
m
como eixo norteador
eixos de aprendizagem, a prioridade
competências para aprender e a
as
contribuições
de Piaget e
da competência de leitura e escrita,
contextualização no mundo do trao
C
o
n
s
t
r
u
t
iv
i
s
m
o (Piaget,
a articulação das com-petências para
balho. A Proposta teve como obje1976),
o
Sociointeracionismo
aprender e a contextualização no mundo
tivo "organizar melhor o sistema
(Vygotsky, 1993), princípios
do trabalho.
educacional de São Paulo" (São
da Aprendizagem Significativa
Paulo, 2008), de forma a consti(Ausubel, 1980), princípios da
tuir maior integração e um foco definido entre as escolas. A
Teoria de Jerome Bruner (Bruner, 1966), especialmente o
Proposta Curricular se fundamenta na contextualização do
"currículo em espiral", e é marcada também por uma concurrículo na sociedade contemporânea, considerada como
cepção pós-moderna de currículo proposta por William Doll
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Considerações de professores em relação à Proposta Curricular

Vol. 39, N° 4, p. 368-372, NOVEMBRO 2017

(Doll, 1997). Essas teorias visam subsidiar a aplicação da
que a esfera de governo possui na produção de sentidos nas
Proposta Pedagógica, de forma que os encaminhamentos
políticas, mas considerar que as práticas e propostas desenmetodológicos considerem a articulação teoria/prática,
volvidas nas escolas também são produtoras de sentidos para
contemplando os fundamentos da realidade ­ o contexto
as políticas curriculares (Lopes, 2004, p. 109-118).
sociocultural dos estudantes e as causas ou fatores que direDe acordo com Lombardi (2008), a Proposta Curricular
tamente relacionam-se à aprendizagem, sem desconsiderar
da Secretaria de Estado da Educação (SEE) deve ser
o respeito ao desenvolvimento cognitivo desses educandos,
analisada sob dois aspectos: quanto à forma e quanto
levando-os a acompanharem as mudanças ocorridas na soaos conteúdos. Na forma, trata-se de uma proposta que
ciedade (Alves, 1993).
não surgiu de uma ampla e democrática discussão com a
Porém, de imediato, após a implantação da Proposta,
comunidade educacional; optou-se por mecanismos e prosurgiram várias críticas em relação à imposição de um curcessos de pseudoconsultas, insuficientes para escamotear
rículo único que pode vir a ferir a autonomia do professor,
o caráter autoritário de sua elaboração e implementação,
assim como da comunidade que congrega diversidades e
encaminhada de cima para baixo. Quanto ao conteúdo, a
multiculturalismos, tornando-se a- histórico e descontexproposta é simplista, precariamente ancorada na literatura
tualizado (Lopes et al.,2009).
disponível, insuficiente para encobrir seus fundamentos
Kramer argumenta que uma "proposta pedagógica é um
espontaneístas e pragmáticos; coloca o gestor num papel
caminho, não um lugar. Uma proposta pedagógica é construímeramente fiscalizador, fazendo com que a reforma seja
da no caminho, no caminhar. Toda
adotada, sem maiores discussões;
proposta pedagógica tem uma
o docente, por sua vez, é transNo campo da educação e de suas
história que precisa ser contada.
formado em mero aplicador de
especificidades, emerge a relevância de
Toda proposta tem uma aposta"
uma forma e de um conteúdo
se compreender as singularidades de um
(Kramer, 1999, p.165-183).
prévia e detalhadamente previsto
currículo para as instituições de ensino,
No que se refere à Proposta
no instrumento didático; por trás,
bem como os saberes requeridos aos
Curricular de Química de 2008
há uma concepção educacional
profissionais envolvidos nessa educação.
(São Paulo, 2008), Tavares e
calcada numa perspectiva neoliNesse contexto, entendemos ser
Rogado a questionam no que
beral, privatista e mercadológica.
importante a investigação sobre saberes
diz respeito à possibilidade dela
Segundo o autor, não há autodocentes requeridos na construção de uma
contribuir de fato para o desennomia possível para gestores e
Proposta Curricular.
volvimento pessoal e profissional
educadores, pois o documento
dos professores. Esses autores
prevê inclusive a "coordenação
levantam importantes questões. Por exemplo, fatores como
de ações entre as disciplinas" e quanto à "vida cultural da
a identidade, a autonomia e a liberdade do professor foram
escola e do fortalecimento de suas relações com a comunidevidamente considerados como elementos primários no prodade". Trata-se de uma "camisa de força", expressa desde
cesso de inovação preconizado pelo documento? Os autores
a apresentação do documento, no qual conteúdo e forma
acreditam que a forma como a proposta foi fundamentada
(currículo, didática e o instrumento pedagógico) constituem
carece de respeito à autonomia do professor, ao minimizar
partes articuladas submetidas à forma que, por incrível
o seu papel de conhecedor e responsável pelos conteúdos
que pareça, subordina-se ao instrumento pedagógico
e conceitos que seleciona, reestrutura e adapta para serem
(Lombardi, 2008).
trabalhados em sala de aula, segundo os objetivos que deNo campo da educação e de suas especificidades, emerge
termina de antemão (Tavares e Rogado, 2008).
a relevância de se compreender as singularidades de um curCríticas também são feitas à padronização dos currírículo para as instituições de ensino, bem como os saberes
culos sem considerar as realidades regionais, incluindo
requeridos aos profissionais envolvidos nessa educação.
as diferentes questões que permeiam o trabalho cotidiano
Nesse contexto, entendemos ser importante a investigação
em cada escola. Segundo os autores, é necessário tomar as
sobre saberes docentes requeridos na construção de uma
rédeas dessa nova proposta e, para tanto, é preciso que os
Proposta Curricular.
professores atuem como protagonistas e não meramente
como implantadores que devem respeitar cronograma,
Metodologia e desenvolvimento
burocracia, conteúdos pré-estabelecidos, que muitas vezes
não consideram as especificidades do alunado (Sarno et
Caracterização das Escolas
al., 2008).
Segundo Lopes, as políticas curriculares não se resumem
As escolas, foco de nossa pesquisa (14 no total), e os 29
apenas aos documentos escritos, mas incluem os processos
professores que trabalham nessas escolas, são do sistema
de planejamento, vivenciados e reconstruídos em múltiplos
público estadual paulista, estão organizadas em três turnos,
espaços e por múltiplos sujeitos no corpo social da educação.
oferecendo o Ensino Fundamental (5º ao 9º anos) e o Ensino
São produções para além das instâncias governamentais. Isso
Médio, perfazendo um total de 1380 alunos, e são pertennão significa, contudo, desconsiderar o poder privilegiado
centes à Diretoria de Ensino da cidade de Fernandópolis-SP.
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Considerações de professores em relação à Proposta Curricular

Vol. 39, N° 4, p. 368-372, NOVEMBRO 2017

369

Instrumentos para obtenção e análise de dados

370

processo de ensino-aprendizagem. A pesquisa em questão
é de natureza qualitativa e atende a uma metodologia fundamentada no estudo da percepção das pessoas envolvidas
sobre os fundamentos teórico-metodológicos da Proposta
Curricular, a partir dos questionários respondidos e debates
realizados nos encontros.

Foram realizados oito encontros com os professores
(29 no total), na sala de reuniões da Diretoria de Ensino
(DE), que incluíram a exibição do programa de formação
continuada denominado "A Rede Aprende com a Rede",
promovido pela Secretaria de Estado da Educação de São
Paulo. Após exibição do programa, os professores eram
Resultados
solicitados a emitir suas opiniões em relação aos enfoques
teórico-metodológicos da Proposta Curricular veiculados
Os professores da rede pública estadual da Diretoria
no programa, e sobre as atividades desenvolvidas dentro do
de Ensino de Fernandópolis ­ SP enfrentaram diversos
contexto da proposta.
problemas no decorrer do ano letivo de 2008 para a impleO conteúdo e o cronograma do curso foram divididos em
mentação da Proposta Curricular. A partir da análise das
quatro módulos. Em cada módulo, o professor deveria: (1)
respostas dos questionários respondidos pelos professores,
Assistir a uma videoaula, com o tema específico do móduverificou-se que a falta de recursos materiais em algumas
lo. A videoaula era um vídeo gravado com os especialistas
escolas se constituiu em um sério problema para a implanque participaram da elaboração dos Cadernos do Professor,
tação da Proposta, já que no primeiro momento somente os
abordando a escolha e organizaprofessores receberam o material
ção dos conteúdos da Proposta
instrucional, isto é, o Caderno do
A pesquisa em questão é de natureza
Curricular e as metodologias utiProfessor (São Paulo, 2009). Por
qualitativa e atende a uma metodologia
lizadas no Caderno do Professor.
essa razão, os professores alegafundamentada no estudo da percepção
Cada videoaula ficava disponível
ram dificuldades para reprodução
das pessoas envolvidas sobre os
no site por cinco dias; (2) Postar
do material, uma vez que muitas
fundamentos teórico-metodológicos
no fórum, para o mediador de sua
vezes era necessário reproduzir as
da Proposta Curricular, a partir dos
turma, suas dúvidas, questões,
atividades sugeridas e o volume de
questionários respondidos e debates
comentários e análises a respeito
material era muito grande. Outro
realizados nos encontros.
da respectiva videoaula, a partir
fator apontado como entrave foi
dos temas propostos. O fórum era
o tempo, considerado insuficiente
um espaço para perguntas e respostas, e ficava disponível no
para aplicação da maioria das atividades no contexto das
site por cerca de 15 dias. Nesse momento, era importante
concepções de ensino preconizadas pela Proposta Curricular.
considerar e sistematizar a experiência do professor em sala
Além disso, os professores alegaram que os laboratórios de
de aula com a nova proposta curricular. A ideia era aproveitar
muitas escolas encontravam-se sucateados, sendo às vezes
a disponibilidade do mediador e dos colegas de turma para
utilizados até como almoxarifados. Os poucos reagentes
discutir as questões que lhes permitissem aprimorar a prática
encontravam-se vencidos e, portanto, impossibilitados de
docente e ampliar o aprendizado dos alunos.
serem usados. Havia falta de vidrarias específicas, e as que
Ao final da exibição dos programas, os professores
estavam disponíveis, na maioria das vezes, encontravam-se
responderam a questionários contendo perguntas objetivas
quebradas. Porém, deve-se salientar que o problema com
e subjetivas com o intuito de se avaliar: (1) a formação dos
a reprodução do material instrucional foi solucionado no
professores, (2) se realmente eram licenciados em Química,
início de 2009, quando cada aluno recebeu um conjunto de
(3) se na escola havia laboratórios de química e se eles eram
Cadernos, denominados Cadernos do Aluno (São Paulo,
de fato utilizados, (4) se os alunos estavam adquirindo os co2009).
nhecimentos pretendidos e (5) se os professores executavam
Uma das grandes preocupações com que nos deparamos
atividades experimentais utilizando materiais alternativos
no transcorrer deste trabalho foi encontrar, na Rede Pública
na sala de aula.
de Ensino, professores sem formação na área de Química,
Num segundo momento, buscou-se verificar se os prouma vez que biólogos, veterinários e até advogados (!)
fessores tiveram acesso aos materiais necessários (vidrarias,
estavam ministrando esta disciplina. Do universo de 29
reagentes), cópias reprográficas para os alunos, livros e
professores pesquisados, cerca de 80% eram licenciados em
revistas para pesquisa, aparelho multimídia, TV com DVD,
Química. O fato preocupa sensivelmente, pois a aplicação da
filmes, internet, etc.
nova Proposta Curricular exige dos educadores um profundo
Por último, procurou-se investigar se os professores senconhecimento teórico e embasamento pedagógico, segundo
tiram a necessidade de aprofundar ou atualizar seus conheas concepções preconizadas pelo documento (sócio-intecimentos químicos ou pedagógicos a partir da implantação
racionismo, mediação pedagógica e currículo em espiral).
da Proposta Curricular.
Infelizmente, verificou-se in loco que tais pressupostos não
A análise das respostas serviu como subsídio para que
fazem parte da prática desses professores, e não existe muito
se pudesse averiguar se a Proposta Curricular de Química
interesse dos mesmos em relação ao entendimento de tais
de 2008 estava ou não colaborando para a melhoria do
pressupostos. Encontrou-se, também, quantidade reduzida
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Considerações de professores em relação à Proposta Curricular

Vol. 39, N° 4, p. 368-372, NOVEMBRO 2017

de professores efetivos em Química (menos de um quarto
de um conceito elaborado de currículo/proposta curricular.
do universo de 29 professores pesquisados), fato este que
Para Vygotsky, isso se explica pelo fato de que ocorre muitas
preocupa, uma vez que ocorre alta rotatividade dos profesvezes uma discrepância entre a utilização de um conceito
sores a cada ano letivo.
numa situação concreta e sua definição verbal, mesmo no
Deve-se ressaltar que ficou evidenciada, por meio desta
pensamento do adulto em níveis muito avançados (Vygotsky,
pesquisa, a importância atribuída pelos professores às aulas
1993). Dessa forma, realizou-se uma primeira análise das
contextualizadas. No domínio da contextualização e ação, a
entrevistas, selecionando alguns trechos que davam pistas
maioria dos professores pesquisados entendem que o ensino
de suas concepções sobre currículo/proposta curricular. Por
de Química deve se dar de forma que o aluno possa commeio da realização de seminário de estudo reflexivo, esses
preender a ciência e a tecnologia como partes integrantes
trechos foram analisados a fim de sistematizar o conceito
da cultura humana contemporânea, reconhecer e avaliar seu
de currículo/proposta curricular junto ao grupo, tendo em
desenvolvimento e suas relações com as ciências, seu papel
vista possíveis construções e (re)construções conceituais
na vida humana, sua presença no mundo cotidiano e seus
individuais e coletivas. A partir da problematização de uma
impactos na vida social; reconhecer e avaliar o caráter ético
análise das entrevistas com o grupo, percebeu-se a atribuição
do conhecimento científico e tecnológico e utilizar esses
de demasiada importância aos conteúdos, visto que todas as
conhecimentos no exercício da cidadania. As estratégias de
falas das entrevistas faziam associação entre currículo e lista
ensino e de aprendizagem devem
de conteúdos. Apenas timidamenpermitir que os alunos participem
te foram considerados outros asNa busca de uma ressignificação e (re)
ativamente das aulas, por meio
pectos relacionados ao currículo,
construção do conceito de currículo,
de atividades que os desafiem
como a metodologia, as questões
foi feito estudo e discussão de textos
a pensar, a analisar situações
relacionadas ao desenvolvimento
científicos sobre a temática. Para tanto, nos
usando conhecimentos químicos,
e aprendizagem, a avaliação, entre
amparamos em argumentos que defendem
a propor explicações, soluções e
outros.
que o processo de elaboração de um
a criticar decisões construtivaNa busca de uma ressignificacurrículo precisa ser pensado e discutido
mente. Devem, enfim, favorecer
ção
e (re)construção do conceito
a partir de investigações sobre a prática
a formação de indivíduos que
de
currículo,
foi feito estudo e
curricular com os que nela atuam.
saibam interagir de forma mais
discussão de textos científicos
consciente e ética com o mundo
sobre a temática. Para tanto, nos
em que vivem, ou seja, com a natureza e a sociedade. Os
amparamos em argumentos que defendem que o processo de
conteúdos a serem desenvolvidos devem ser pensados, pelo
elaboração de um currículo precisa ser pensado e discutido
professor, como elementos estruturadores da ação pedagóa partir de investigações sobre a prática curricular com os
gica, ou seja, não basta que explicitemos tópicos específicos
que nela atuam.
de Química a serem ensinados; há que se apontar, também,
as expectativas de aprendizagem para cada um deles, suas
Considerações finais
inter-relações e suas aplicações para melhor compreensão
de diferentes contextos (Brasil, 2000). A grande maioria dos
No transcurso deste trabalho, detectou-se aspectos positiprofessores acredita que a contextualização de conteúdos
vos e também aspectos negativos em relação à nova Proposta
químicos facilita a aprendizagem. Porém, relatam que o
Curricular implantada em 2008. Com relação aos aspectos
desenvolvimento de competências e habilidades para compositivos, podemos indicar que a Proposta Curricular constipreender, utilizar, selecionar, relacionar e interpretar dados
tui-se em uma ideia avançada, abordando os assuntos químiainda é um entrave para muitos alunos.
cos de forma contextualizada com conhecimentos relevantes
Esse estudo evidenciou, também, que muitos professores
para o exercício da cidadania. Percebeu-se a preocupação
carecem de embasamento conceitual referente a conteúdos
de organização do conteúdo de maneira espiral, incluindo a
elencados na Proposta Curricular . Os professores relataram
experimentação com caráter investigativo e a aprendizagem
ter dificuldades em assuntos relacionados principalmente a
significativa com o propósito de formar conceitos. É visíestereoisomeria e eletrólise, fato este que nos faz refletir sovel a preocupação com o desenvolvimento de habilidades
bre a importância dos cursos de formação continuada, como,
cognitivas de grau alto e a postura mais crítica e ativa dos
por exemplo, o programa "A Rede Aprende com a Rede".
alunos. Em contrapartida, verificou-se que a implantação
Segundo nosso ponto de vista, o curso "A Rede Aprende
da Proposta Curricular e dos Cadernos do Professor e do
com a Rede" traz avanços significativos, uma vez que se
Aluno a ela vinculados padroniza o conteúdo aplicado,
configura como um suporte importante para o aprimoramento
restringindo a autonomia da escola em relação ao currículo
da base conceitual dos professores e para compreensão das
a ser adotado, não respeitando as diferenças regionais que
concepções teórico-metodológicas expressas pela Proposta
congregam diversidades e multiculturalismos. Destaca-se
Curricular e pelos Cadernos do Professor e do Aluno.
que a orientação para aplicação do material não foi adequada,
No percurso da investigação, percebeu-se a dificuldade,
e que o Programa "A Rede Aprende com a Rede", apesar de
manifestada pelos sujeitos da pesquisa, de sistematização
ser uma tentativa válida no sentido de prover os professores
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Considerações de professores em relação à Proposta Curricular

Vol. 39, N° 4, p. 368-372, NOVEMBRO 2017

371

de conhecimentos relativos aos fundamentos teóricos do
material, mostrou-se insuficiente para que houvesse uma mudança de postura frente aos novos paradigmas. Além disso,
o material instrucional concebe o professor como mediador,
tendo, portanto, um papel crucial no processo, porém não
levou em conta a formação deficitária dos professores em
termos dos pressupostos teórico-metodológicos inerentes à
Proposta Pedagógica. Desse modo, muitos deles optam em
permanecer no modelo anterior.
Silvana Márcia Ximenes Mininel ([email protected])

licenciada em Química pela UNIFEV, mestrado em Química pela Universidade
Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho" UNESP, professora da Rede Estadual de
Ensino do Estado de São Paulo, professora e coordenadora do curso de Engenharia

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372

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SÃO PAULO (Estado) Secretaria da Educação. Proposta curricular do Estado de São Paulo para o ensino de química para

Química da UNIVERSIDADE BRASIL. Fernandópolis, SP - BR. Francisco José
Mininel ([email protected]), licenciado em Química
pela UNIFEV, doutorado em Química pela Universidade Estadual Paulista "Julio
de Mesquita Filho" UNESP, professor da Rede Estadual de Ensino do Estado
de São Paulo, professor e coordenador do curso de Licenciatura em Química da
UNIVERSIDADE BRASIL. Fernandópolis, SP - BR. Regina Célia Galvão Frem Di
Nardo ([email protected]) graduada e bacharel em Química com Atribuições
Tecnológicas, licenciada em Ciências com habilitação em Química pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Doutora em Química pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, professora assistente do Instituto
de Química da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" UNESP.
Araraquara, SP - BR. Luiz Antonio Andrade de Oliveira ([email protected]).
graduado e bacharel em Química pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras
de Araraquara, doutor em Química (Química Inorgânica) pela Universidade de
São Paulo, professor adjunto da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita
Filho e credenciado junto ao Programa de Pós-Graduação de Ensino de ciências,
da Faculdade de Ciências UNESP. Bauru, SP - BR.

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SÃO PAULO (Estado) Secretaria da Educação. Caderno do
aluno: química, ensino médio ­ 2ª série, v.2. São Paulo, 2009.
SÃO PAULO (Estado) Secretaria da Educação. Caderno do
professor: química, ensino médio ­ 2ª série, v.2. São Paulo, 2009.
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Abstract: Teachers' considerations on the chemistry curriculum of São Paulo State. The Curricular Proposal (2008) was implemented in the State Education
Network of São Paulo with the objective of organizing the curriculum in public schools. This work aims at verifying what teachers think about the Curricular
Proposal and observing changes in the process of re-elaboration of their practice through the analysis of the answers to research questionnaires and the followup of these teachers in the project of continuous training called " A Rede Aprende com a Rede". It was found that the small number of teachers graduated in
Chemistry, the estimated time for the development of activities, the lack of laboratories, and the lack of theoretical and methodological basis were obstacles
to the application of the proposal. Contextualization of knowledge is a facilitating factor in the teaching-learning process. The "A Rede Aprende com a Rede "
program proved to be insufficient for a change of attitude towards the new paradigms.
Keywords: curricular proposal; contextualization of knowledge; teaching-learning process.

Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

Considerações de professores em relação à Proposta Curricular

Vol. 39, N° 4, p. 368-372, NOVEMBRO 2017

ANOS

Experimentação no Ensino de Química

http://dx.doi.org/10.21577/0104-8899.20160096

Adaptação Metodológica de Processos Oxidativos
Avançados (POAs) na degradação de corantes para
aulas experimentais de Ensino Médio

Ângelo F. Pitanga, Bárbara L. S. dos R. Santos, Letícia B. da Rocha, Lenalda D. dos Santos e
Wendel M. Ferreira
O presente trabalho tem por objetivo apresentar uma adaptação de metodologias com materiais de fácil
aquisição e baixo custo para degradação dos corantes azul de metileno e amarelo tartrazina, utilizando
Processos Oxidativos Avançados de Fenton e Foto-Fenton, respectivamente. Este trabalho foi desenvolvido
como uma das etapas da pesquisa de um trabalho de conclusão de curso, que tinha os corantes como tema
gerador e as atividades experimentais como referencial teórico. Os resultados obtidos com a adaptação aqui
proposta são consistentes com as taxas de degradação descritas na literatura de referência, e permitem que
os experimentos sejam reproduzidos em aula de Química para o Ensino Médio.
processos oxidativos avançados; corantes; atividades experimentais

Recebido em 28/10/2016, aceito em 10/03/2017

C

orantes são amplamente utilizados em alimentos e bebidas, devido à sua grande importância no aumento da
aceitação dos produtos. Alimentos coloridos e vistosos
aumentam nosso prazer em consumi-los (Prado; Godoy,
2003). São também empregados na produção de tintas e
vernizes para construção civil, e no tingimento dos tecidos.
No entanto, atividades como o tingimento, por exemplo,
produzem grande quantidade de efluentes provenientes da
fixação incompleta dos corantes, sendo responsáveis pela
contaminação de águas naturais (Cervantes; Zaia; Santana,
2009).
A remoção desses compostos dos rejeitos industriais é
um dos grandes problemas ambientais (Araujo; Yokoyama;
Teixeira, 2006). Quando são lançados em rios, sem tratamentos prévios eficientes, podem causar problemas, tais como:
dificultar a realização da fotossíntese de plantas aquáticas e,
consequentemente, diminuir a oferta de alimentos aos peixes;
poluir a água e o solo dos mananciais, com consequências
para as culturas agrícolas (Cervantes; Zaia; Santana, 2009).
A versatilidade dos corantes, e sobretudo os problemas
socioambientais que podem ser gerados por sua produção e
A seção "Experimentação no ensino de Química" descreve experimentos cuja
implementação e interpretação contribuem para a construção de conceitos científicos
por parte dos alunos. Os materiais e reagentes usados são facilmente encontráveis,
permitindo a realização dos experimentos em qualquer escola.
Quím. nova esc. ­ São Paulo-SP, BR.

usos, foi responsável por despertar o interesse em desenvolver um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com alunos
da 3ª série do ensino médio, que envolvesse os corantes como
tema gerador. Durante os debates para a construção da pesquisa do TCC e a confecção da intervenção didática, fez-se
a opção pela utilização das atividades experimentais como
um método de ensino adequado para aulas no ensino médio.
O crescente número de publicações sobre Processos
Oxidativos Avançados (POAs) evidencia a existência de
preocupação por parte da comunidade científica sobre o
seu desenvolvimento (Araújo et al., 2016). Os POAs são
tecnologias de saneamento ambiental empregadas em processos de produções mais limpas, mostrando-se eficientes
na degradação de contaminantes refratários, oriundos das
atividades industriais e domésticas, tais como: fármacos,
corantes, tintas, herbicidas, hormônios, etc. (Fioreze et al.,
2014; Hasan et al., 2014; Paulino et al., 2015).
Porém, é incipiente o número de publicações que envolvem a utilização dos POAs em aulas de Química em todos
os níveis de ensino. Uma busca em sites e bancos de teses
nos indicou a publicação de um artigo e dois resumos em
congressos referentes a aulas de graduação, cuja estrutura
é diferente da realidade das escolas brasileiras de ensino
médio.
De posse dessas informações, buscou-se projetar uma
atividade experimental sobre os POAs. As discussões sobre

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373

essa temática permitem abordar conteúdos como: reações
redox, funções e reações orgânicas de oxidação, cinética
química, catálise, cálculo de concentrações, radicais livres,
azo compostos, grupos cromóforos, solubilidade, etc. A
abordagem contextualizada desses conteúdos, porém, situa-se além do escopo do presente artigo. Assim, este artigo
tem como objetivo apresentar adaptações metodológicas
de POAs para a degradação dos corantes azul de metileno
(AM) e amarelo de tartrazina (AT), voltadas para aulas do
ensino médio.

Referencial Teórico

374

incluir procedimentos e atitudes. Outros autores corroboram
a fundamentação aqui proposta:
[...] atividades realizadas no ambiente escolar
(abordando especificamente o contexto sociocientífico) a literatura indica que os problemas para
fomentar o desenvolvimento da argumentação podem
explorar algum fato real ou semi-autêntico que seja
próximo da realidade dos indivíduos envolvidos no
processo de ensino-aprendizagem [...] Dentre várias outras características, devem ser úteis para os
conteúdos que estão sendo trabalhados em sala de
aula. Estes devem ser relevantes, atuais e conduzir os
alunos a tomada de decisão (Guimarães; Mendonça,
2015, p. 36).

As atividades experimentais representam poderosas
ferramentas didáticas para auxiliar os professores nas aulas
de Química. É sabido que este tipo de atividade facilita,
sobremaneira, os processos de ensino-aprendizagem, ainda
Quanto ao aspecto químico, os POAs são processos físimais se tratando da Química, uma ciência com forte tradico-químicos utilizados na degradação de contaminantes via
ção empírica. A palavra experimentação pode ser entendida
geração in situ de fortes oxidantes radicalares oxigenados,
como um ensaio, uma análise de
destacando-se o radical hidroxipropriedades características de
la, HO·, que possui potencial de
As
atividades
experimentais
representam
um determinado sistema.
oxidação de 2,80V, maior que
poderosas ferramentas didáticas para
A experimentação tem sido
os oxidantes comumente usados
auxiliar os professores nas aulas de
defendida como um recurso
(cloro, ozônio, hipoclorito). Uma
Química. É sabido que este tipo de
pedagógico importante para auvantagem significativa é a diveratividade facilita, sobremaneira, os
xiliar na construção de conceitos
sidade de métodos de produção
processos de ensino-aprendizagem, ainda
(Ferreira et al., 2010). Deve ser
desses radicais, como: químicos,
mais se tratando da Química, uma ciência
encarada como um processo de
eletroquímicos, fotoquímicos,
com forte tradição empírica. A palavra
questionamento, discussão e vasonoquímicos e outros (Araújo et
experimentação pode ser entendida como
lidação de argumentos, por meio
al., 2016; Marcelino et al., 2013).
um ensaio, uma análise de propriedades
do diálogo oral e escrito, com
Cabe destacar o processo de
características de um determinado sistema.
uma comunidade argumentativa
Fenton, o qual utiliza íons ferrosos
que começa e transcende a sala
(Fe2+) ou íons férricos (Fe3+) como
de aula. Aliada ao uso de temas geradores, motiva e ajuda
catalisadores, em meio ácido, para promover a decompoos alunos a compreender e a elaborar tanto os pensamentos
sição do peróxido de hidrogênio (H2O2) e, assim, produzir
quanto os conhecimentos científicos, principalmente, por
os radicais oxidantes HO· (equação 1). Quando um sistema
conta de seu caráter investigativo (Silva et al., 2009).
Fenton é assistido por radiação ultravioleta UV, passa a ser
Para a adaptação de metodologias, a partir do uso de
classificado como Foto-Fenton (equação 2), tendo como
materiais de fácil aquisição ou alternativos, partilhamos
principal resultado o aumento da produção dos radicais hida compreensão de Gonçalves e Marques (2006), os quais
droxila, quando comparado ao processo de Fenton (Araújo
afirmam que seu uso está além da superação das dificuldades
et al., 2016; Marcelino et al., 2013).
materiais, rompendo com o estereótipo da necessidade de
um espaço físico laboratorial para o desenvolvimento desse
Fe2+ + H2O2 Fe3+ + HO· + OH­
(Eq. 1).
tipo de atividade, se apresenta como um fator contributivo
Fe3+ + H2O2 + hv Fe2+ + HO· + OH­
(Eq. 2).
para a criatividade e deve levar em consideração os cuidados com a integridade física dos participantes e os resíduos
O aprofundamento nas pesquisas sobre aplicações e fundaquímicos gerados.
mentação conceitual dos POAs permitiu observar que eles posGonçalves e Marques (2006) ainda argumentam que a
suem características que possibilitam adaptações para serem
atividade experimental com materiais alternativos, como asdesenvolvidos em atividades de sala de aula, pois ocorrem sob
sim denominam, possibilita a aproximação com o cotidiano
pressão e temperatura ambiente, utilizam reagentes de baixo
dos alunos. Dialogando com Silva et al. (2009), apontamos
custo, de fácil aquisição e não tóxicos (Fioreze et al., 2014).
que esta iniciativa alicerça-se num entendimento de contextualização voltada ao desenvolvimento de atitudes e valores
Materiais e Métodos
para a formação do cidadão crítico, buscando melhorar sua
capacidade de atuação na sociedade, na qual os conteúdos enO processo de adaptação metodológica tomou como resinados não estão limitados à dimensão conceitual, devendo
ferência as publicações de Rojas, Giraldo e Trujillo (2009);
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Salvador, Marcolino Jr. e Peralta-Zamora (2012); Paulino,
Araújo e Salgado (2015). A escolha dos corantes azul de
metileno (AM) e amarelo de tartrazina (AT) deve-se à existência de uma consolidada literatura sobre os procedimentos
de POAs para tais corantes, a suas aplicações no cotidiano
e a sua disponibilidade no comércio geral.
Inicialmente, foram realizados ensaios com a utilização
de reagentes analíticos e determinações espectrofotométricas, para verificação das questões de reprodutibilidade e
repetitividade dos métodos de referência. Nessas condições,
foram utilizados os reagentes: corantes azul de metileno
(AM) Vetec (C.I. 52015) e amarelo de tartrazina (AT)
Dinâmica (C.I.19140); sulfato ferroso PA (FeSO4) Dinâmica;
sulfato férrico [Fe2(SO4)3] Vetec; peróxido de hidrogênio
(H2O2) Dinâmica, 40% m/V; e ácido clorídrico (HCl) Vetec.
Os experimentos foram realizados em temperatura ambiente (25ºC), em béqueres de 250 mL, sob ação de agitadores magnéticos (Fisatom) e monitoramento do pH com um
pHmetro digital (Ms Tecnopon). A radiação foi fornecida
por uma lâmpada ultravioleta (Fox Lux), com potência de
27 W, e as análises espectrofotométricas (Biospectro) foram
realizadas nos comprimentos de onda de 664 e 426 nm,
para azul de metileno (AM) e amarelo de tartrazina (AT),
respectivamente.

As adaptações dos métodos de degradação
a) Degradação do Azul de Metileno por Processos de Fenton
Nos estudos de degradação por Fenton, em condições
analíticas, foram utilizadas: soluções aquosas de corante
AM com volume reacional de 100 mL e concentração de
100 mg L-1 em pH 3, ajustado com adição de solução de HCl
a 0,1 mol L-1; acrescentados 100 mg de FeSO4 com posterior
adição de 1 gota de peróxido de hidrogênio analítico 40%
m/V. A cada minuto, foram realizadas medidas espectrofotométricas, obtendo eficiência de 96%, como também relatado
por Paulino, Araújo e Salgado (2015).
O segundo passo foi buscar adaptar o procedimento,
fazendo, quando possível, a substituição dos reagentes analíticos (ácido clorídrico, peróxido de hidrogênio e sal de Fe2+)
por produtos comerciais. Chegou-se à seguintes condições
reacionais otimizadas: 100 mL de solução de AM, 5 mL de
vinagre (ajusta o pH em 3), 1 comprimido triturado contendo 250 mg de sulfato ferroso (retirou-se o revestimento
antes da trituração), e 2 gotas de água oxigenada cremosa
30% m/V. Obteve-se, no final, a degradação do corante de
modo semelhante à obtida com a utilização dos reagentes
analíticos (Figura 1).
b) Degradação do amarelo de tartrazina por meio de reações de
Foto-Fenton
Nos estudos de degradação com reagentes analíticos, foram utilizados: 100 mL de solução aquosa de AT 100 mg L-1,
2 mL de HCl ajustando o pH em 3, 10 mg de Fe2(SO4)3 e 3 gotas de H2O2. O sistema foi, então, submetido à irradiação UV
por 12 minutos. No decorrer desse tempo, a mineralização
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Figura 1: Sistemas com azul de metileno antes e depois da degradação utilizando os reagentes comerciais.

do corante foi acompanhada através de determinações espectrofotométricas, atingindo taxa de degradação do analito
em torno de 99%, dados consistentes com Rojas, Giraldo e
Trujillo (2009).
Já na adaptação para degradação, foram utilizados: 100
mL de solução de AT 100 mg L-1, 5 mL de vinagre (ajusta o
pH em 3), adicionados 10 mg de Fe3+ (não foi substituído) e,
em seguida, acrescentadas 3 gotas de água oxigenada cremosa 30% m/V para, então, submeter o sistema à radiação UV
(caso não haja óculos de segurança disponíveis para todos
participantes, recomenda-se que o sistema fique dentro de
uma caixa de papelão, para evitar exposição à radiação UV).
Os resultados para este corante foram similares àqueles realizados com reagentes analíticos (Figura 2); contudo, foram
necessários 30 min de exposição à radiação UV.

Figura 2: Sistemas com amarelo de tartrazina antes e depois da
degradação utilizando os reagentes comerciais.

Resultados e Discussão
Em síntese, são descritos, no Quadro 1, os procedimentos
em condições analíticas e com as adaptações propostas.
Alguns reagentes foram substituídos, pois tínhamos por
objetivo projetar atividades experimentais que não fossem
demoradas e garantissem observações de evidências de transformações do sistema, através da variação na intensidade da
cor dos corantes. Considerou-se que a maioria das escolas
não dispõe de instrumental analítico, como espectrofotômetro, e as evidências físicas dos experimentos devem ser
tidas como ponto de partida para que haja discussões que

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375

Quadro 1: Comparação entre os métodos em condições analíticas e adaptadas.
Corante/
Condições

T (ºC)

pH

Acidulante

Sal de ferro

Peróxido de
Hidrogênio

Fonte de
Radiação UV

AM (analíticas)

25

3

HCl

Fe2+

Analítico

Sem incidência

AM (adaptadas)

25

3

Vinagre
comercial

Fe
Comprimidos
comerciais

Água oxigenada
cremosa
comercial

Sem incidência

AT (analíticas)

25

3

HCl

Fe3+

Analítico

Com incidência
(12 min)

3

Vinagre
comercial

Fe3+ (não se
conseguiu
substituto
comercial)

Água oxigenada
cremosa
comercial

Com incidência
(30 min)

AT (adaptadas)

25

2+

Fonte: Os autores.

376

conduzam à construção de conceitos e o desenvolvimento
do tema.
Quanto aos resultados obtidos, pôde-se concluir que o
AM foi rapidamente degradado. Depois da regulação do pH
do meio e adição do H2O2, observou-se sua súbita descoloração (Figura 1). Quanto ao AT, inicialmente, tentou-se,
sem sucesso, adaptar a sua degradação utilizando reações
de Fenton. Segundo Rojas, Giraldo e Trujillo (2009), o AT é
um corante que degrada moderadamente em meios químicos
oxidantes com a presença de H2O2, com taxas próximas aos
50%. Seguindo a literatura, optou-se pela utilização do Fe3+
como catalisador, por provocar aumento da taxa de produção dos radicais HO· e consequente degradação do corante
(Araújo et al., 2016). Assim, com os materiais adaptados,
foram obtidos resultados compatíveis com os descritos nas
referências, porém com aumento do tempo de exposição à
radiação UV de 12 para 30 min (Figura 2).
Na degradação de uma espécie orgânica (EO), o radical
hidroxila (HO·) oxida as espécies por abstração de hidrogênio, originando o radical orgânico EO·, que, seguido pela
adição de oxigênio, dá origem ao radical peróxido, iniciando
reações em cadeia, o que gera radicais secundários intermediários mais oxidados (Fioreze et al., 2014). Quanto aos
corantes azoicos, como o AM e AT, a presença do grupo azo
(-N=N-) conjugado a anéis aromáticos confere estabilidade
aos compostos, mas estes são susceptíveis a oxidação através
de POAs (Araujo et al., 2006).
Segundo Paulino, Araújo e Salgado (2015), a redução da
intensidade de cor do AM deve-se à ação dos grupos HO·
responsáveis pela N-desmetilação do corante, provocando
a clivagem do grupo cromóforo e sua degradação oxidativa.
Já em relação ao AT, a observada recalcitrância ao processo
de Fenton foi superada com a substituição do catalisador
Fe2+ pelo Fe3+, combinado com a irradiação UV e, assim,
conforme descrito na literatura, aumentou-se a geração de
radicais HO·, que, por sua vez, degradaram o corante.

Considerações Finais
Os experimentos são, comumente, realizados com a
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finalidade de encontrar respostas, demonstrar propriedades
de materiais ou auxiliar na construção ou reelaboração de
conceitos. No entanto, a realização de experimentos em
aulas de Química ainda é rara, principalmente considerando-se que a experimentação é um dos pilares de sustentação
do complexo sistema que compõe o processo de ensino de
Química (Lisboa, 2015). Por isso, o desenvolvimento e a
publicação de trabalhos como este são muito importantes,
pois aumentam o leque de experimentos que fazem uso de
materiais alternativos como forma de contornar algumas
limitações, como, por exemplo, a falta de infraestrutura
(reagentes e laboratórios).
Quatro aspectos foram de fundamental relevância na
construção deste artigo. O primeiro foi a possibilidade da
utilização dos corantes como tema gerador; o segundo está
associado à importância das atividades experimentais para as
aulas de Química; o terceiro envolve os esforços em articular
o tema, as atividades experimentais e os conteúdos relacionados aos POAs; e o quarto, e último, deve-se à preocupação
em projetar, conforme o objetivo deste trabalho, atividades
experimentais, substituindo, na medida do possível, materiais de laboratório (reagentes e vidrarias) por materiais de
fácil obtenção para que possam ser aplicadas em aulas de
ensino médio.

Ângelo Francklin Pitanga ([email protected]) licenciado, mestre em Química

e doutor em Educação pela Universidade Federal de Sergipe. Professor de Química
do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia. Paulo Afonso, BA
- BR. Bárbara Luisa Soares dos Reis Santos ([email protected]) licenciada
em Química e especialista em Educação Química pela Faculdade Pio Décimo.
Mestranda em Química pela Universidade Federal de Sergipe. São Cristóvão, SE
- BR. Lenalda Dias dos Santos ([email protected]) engenheira e licenciada
em Química pela Universidade Federal de Sergipe. Mestre em Educação pela Universidade Federal da Paraíba. Coordenadora Pedagógica do Curso de Licenciatura
em Química da Faculdade Pio Décimo. Aracaju, SE ­ BR. Letícia Bispo da Rocha
([email protected]) licenciada em Química, especialista em Educação
Química pela Faculdade Pio Décimo. Aracaju, SE - BR. Wendel Menezes Ferreira
([email protected]) licenciado e mestre em Química pela Universidade
Federal de Sergipe, especialista em Ciências da Natureza e suas Tecnologias pela
Universidade Potiguar e em Língua Brasileira de Sinais ­ LIBRAS pela Faculdade
de Educação de Bom Despacho. Professor de Química do Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia de Sergipe. Itabaiana, SE - BR.

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Abstract: Methodological adaptation of Advanced Oxidation Process (AOPs) in degradation of dyes for experiments in high school. This study aims to present
an adaptation of methodologies with common and low cost materials for degradation of methylene blue and yellow tartrazine dyes by using Advanced Oxidation Processes Fenton and photo-Fenton, respectively. This research was developed as a part of a course conclusion dissertation, which had dyes as a generator
theme and experimental activities as the theoretical framework. The results obtained with the adaptation are in agreement with the degradation rates described
in the literature, which allow their replication in high school chemistry classes.
Keywords: Advanced Oxidation Processes. Dyes. Experimental Activities.

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de Química. São Paulo: Gráfica Editora Hamburg, 1987. - (Ambrogi
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KOTZ, J.C. e TREICHEL Jr., P. Química e reações químicas. Trad.
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ROSINI, F.; NASCENTES, C.C. E NÓBREGA, J.A. Experimentos
didáticos envolvendo radiação microondas. Química Nova, v. 26, p.
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eletrônicos de todos os autores.

Manuscritos revisados
Manuscritos enviados aos autores para revisão devem retornar à Editoria dentro do prazo de 30 dias ou serão considerados como retirados.
A editoria de Química Nova na Escola reserva-se o direito de efetuar,
quando necessário, pequenas alterações nos manuscritos aceitos,
de modo a adequá-los às normas da revista e da IUPAC, bem como
tornar o estilo mais claro - respeitando, naturalmente, o conteúdo
do trabalho. Sempre que possível, provas são enviadas aos autores,
antes da publicação final do artigo.
Todos os textos submetidos são avaliados no processo de duplocego por ao menos dois assessores. Os Editores se reservam o
direito de julgar e decidir sobre argumentos divergentes durante o
processo editorial.

Seções / Linha Editorial

Condições para Submissão dos Artigos
Química Nova na Escola (Impresso)
1)Os manuscritos submetidos não devem estar sendo analisados
por outros periódicos.
2)Os autores são responsáveis pela veracidade das informações
prestadas e responsáveis sobre o conteúdo dos artigos.
3)Os autores devem seguir as recomendações das Normas de Ética
e Más Condutas constantes na página da revista http://qnesc.sbq.
org.br/pagina.php?idPagina=17.
4)Os autores declaram que no caso de resultados de pesquisas re-

Serão considerados, para publicação na revista Química Nova na
Escola (impresso), artigos originais (em Português) que focalizem
a área de ensino de Química nos níveis fundamental, médio ou
superior, bem como artigos de História da Química, de pesquisa
em ensino e de atualização científica que possam contribuir para o
aprimoramento do trabalho docente e para o aprofundamento das
discussões da área.

Química Nova na Escola (On-line)
Serão considerados, para publicação na revista Química Nova na
Escola (on-line), além dos artigos com o perfil da revista impressa,
artigos inéditos (empíricos, de revisão ou teóricos) em Português, Espanhol ou Inglês que apresentem profundidade teórico-metodológica,
gerem conhecimentos novos para a área e contribuições para o
avanço da pesquisa em Ensino de Química. Estes artigos deverão
atender aos critérios da seção "Cadernos de Pesquisa".

RELATOS DE SALA DE AULA
Responsável: Nyuara Araújo da Silva Mesquita (UFG)
Divulgação das experiências dos professores de Química, com o
propósito de socializá-las junto à comunidade que faz educação por
meio da Química, bem como refletir sobre elas. Deve-se explicitar
contribuições da experiência vivenciada e indicadores dos resultados obtidos.
Limite de páginas: 20


ENSINO DE QUÍMICA EM FOCO
Responsável: Ana Luiza de Quadros (UFMG)
Investigações sobre problemas no ensino da Química, explicitando
os fundamentos teóricos, o problema, as questões ou hipóteses de
investigação e procedimentos metodológicos adotados na pesquisa,
bem como analisando criticamente seus resultados.
Limite de páginas: 25


Os artigos são aceitos para publicação nas seguintes seções:
QUÍMICA E SOCIEDADE
Responsável: Roberto Ribeiro da Silva (UnB)
Aspectos importantes da interface química/sociedade, procurando
analisar as maneiras como o conhecimento químico pode ser usado
- bem como as limitações de seu uso - na solução de problemas
sociais, visando a uma educação para a cidadania. Deve-se abordar
os principais aspectos químicos relacionados à temática e evidenciar
as principais dificuldades e alternativas para o seu ensino.
Limite de páginas: 20


EDUCAÇÃO EM QUÍMICA E MULTIMÍDIA
Responsável: Marcelo Giordan (USP)
Visa a aproximar o leitor das aplicações das tecnologias da informação e comunicação no contexto do ensino-aprendizado de
Química, publicando resenhas de produtos e artigos/notas teóricos
e técnicos. Deve-se explicitar contribuições para o processo de
ensino-aprendizagem.
Limite de páginas: 15


ESPAÇO ABERTO
Responsável: Otavio Aloísio Maldaner (Unijuí)
Divulgação de temas que igualmente se situam dentro da área de
interesse dos educadores em Química, de forma a incorporar a diversidade temática existente hoje na pesquisa e na prática pedagógica
da área de ensino de Química, bem como desenvolver a interface com
a pesquisa educacional mais geral. Deve-se explicitar contribuições
para o processo de ensino-aprendizagem.
Limite de páginas: 20


CONCEITOS CIENTÍFICOS EM DESTAQUE
Responsável: José Luís de Paula Barros Silva (UFBA)
Discussão de conceitos básicos da Química, procurando evidenciar
sua relação com a estrutura conceitual da Ciência, seu desenvolvimento histórico e/ou as principais dificuldades e alternativas para
o ensino.
Limite de páginas: 20


HISTÓRIA DA QUÍMICA
Responsável: Paulo Porto
Esta seção contempla a História da Química como parte da História
da Ciência, buscando ressaltar como o conhecimento científico é
construído. Deve-se apresentar dados históricos, preferencialmente,
de fontes primárias e explicitar o contexto sociocultural do processo
de construção histórica.
Limite de páginas: 15


ATUALIDADES EM QUÍMICA
Responsável: Edvaldo Sabadini (Unicamp)
Procura apresentar assuntos que mostrem como a Química é uma
ciência viva, seja com relação a novas descobertas, seja no que diz
respeito à sempre necessária redefinição de conceitos. Deve-se
explicitar contribuições para o ensino da Química.
Limite de páginas: 15


O ALUNO EM FOCO
Responsável: Edênia Maria Ribeiro do Amaral (UFRPE)
Divulgação dos resultados das pesquisas sobre concepções de
alunos e alunas, sugerindo formas de lidar com elas no processo
ensino-aprendizagem, explicitando os fundamentos teóricos, o
problema, as questões ou hipóteses de investigação e procedimentos metodológicos adotados na pesquisa, bem como analisando
criticamente seus resultados.
Limite de páginas: 25


EXPERIMENTAÇÃO NO ENSINO DE QUÍMICA
Responsável: Moisés Alves de Oliveira (UEL)
Divulgação de experimentos que contribuam para o tratamento de
conceitos químicos no Ensino Médio e Fundamental e que utilizem
materiais de fácil aquisição, permitindo sua realização em qualquer
das diversas condições das escolas brasileiras. Deve-se explicitar
contribuições do experimento para a aprendizagem de conceitos
químicos e apresentar recomendações de segurança e de redução
na produção de resíduos, sempre que for recomendável.
Limite de páginas: 10


CADERNOS DE PESQUISA
Responsável: Editoria
Esta seção é um espaço dedicado exclusivamente para artigos inéditos (empíricos, de revisão ou teóricos) que apresentem profundidade
teórico-metodológica, gerem conhecimentos novos para a área e
contribuições para o avanço da pesquisa em Ensino de Química.
Os artigos empíricos deverão conter revisão consistente de literatura
nacional e internacional, explicitação clara e contextualização das
questões de pesquisa, detalhamento e discussão dos procedimentos
metodológicos, apresentação de resultados e com conclusões que
explicitem contribuições, implicações e limitações para área de pesquisa em Ensino de Química. Os artigos de revisão deverão introduzir
novidades em um campo de conhecimento específico de pesquisa
em Ensino de Química, em um período de tempo não inferior a dez
anos, abrangendo os principais periódicos nacionais e internacionais
e apresentando profundidade na análise crítica da literatura, bem
como rigor acadêmico nas argumentações desenvolvidas. Os artigos
teóricos deverão envolver referenciais ainda não amplamente difundidos na área e trazer conclusões e implicações para a pesquisa e
a prática educativa no campo do Ensino de Química, apresentando
profundidade teórica, bem como rigor acadêmico nas argumentações
desenvolvidas. Para esta seção, o resumo do artigo deverá conter de
1000 a 2000 caracteres (espaços inclusos), explicitando com clareza
o objetivo do trabalho e informações sobre os tópicos requeridos
para o tipo de artigo. Poderão ser indicadas até seis palavras-chaves.
Limite de páginas: 30 a 40.


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São 12 títulos temáticos em formato digital que
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